1 POLÍTICAS PÚBLICAS E POBREZA - APONTAMENTOS SOBRE OS PROGRAMAS REDISTRIBUTIVOS E O PROCESSO DE INCLUSÃO/EXCLUSÃO Tania de Assis Souza Granja (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Profa. Dra. Carmen Lúcia Guimarães de Mattos - Orientadora (PROPED/UERJ ) Apoio Financeiro: CAPES Na atualidade, as políticas públicas e, em especial, os programas de distribuição de renda têm sido apontados como importante intervenção no combate à pobreza no Brasil. São recursos para a transferência de renda monetária às famílias pobres e em extrema pobreza destinados à população em situação de vulnerabilidade Castel (2000). Os estudos recentes como os de Néri (2007 e 2008), Medeiros et al. (2007), Mesquita (2007) e Barros et al. (2007), Barros (2009) apontam para redução da pobreza no cenário nacional. Este artigo é resultado do levantamento da literatura especializada, dissertações de mestrado e teses de doutorado e, no momento, apresenta dados preliminares da pesquisa em curso. As políticas públicas colocam-se no centro de um grande debate pela magnitude de sua abrangência social e pela sua potencialidade de resgate da antiga “dívida social”, tornando-se um instrumento de cidadania e fazendo a inclusão dessa população historicamente excluída. PALAVRAS CHAVE: Políticas Públicas, Pobreza, Exclusão 2 POLÍTICAS PÚBLICAS E POBREZA - APONTAMENTOS SOBRE OS PROGRAMAS REDISTRIBUTIVOS E O PROCESSO DE INCLUSÃO/EXCLUSÃO Há questões que são bem antigas na nossa sociedade e nos espantam, ainda hoje, pela sua atualidade, quando são postas em discussão. Podemos enumerar algumas, dentre elas estão a desigualdade social, a exclusão social e o combate à pobreza. Nossa sociedade desigualdades sociais, apresenta graus consideráveis de e, neste sentido, alguns grupos tornam-se, socialmente mais vulneráveis que outros. Assim sendo, a intervenção do Estado, através de políticas públicas, torna-se de inestimável valor, por um lado, para minimizar as distorções e, por outro, para “compensar” tal situação, na medida em que, na prática, acaba por contemplar um número crescente de indivíduos provindos das classes mais empobrecidas da população. Neste sentido, as classes populares situadas nas categorias denominadas de “pobreza” e “extrema pobreza” reúnem indivíduos que necessitam de uma rede de proteção, sem a qual muitos sequer têm condições de sobrevivência, tamanha a carência em que se encontram. Neste sentido, as políticas sociais, em especial os programas de transferência de renda, são estratégias governamentais adotadas há pouco mais de uma década para reduzir as distorções promovidas pelo funcionamento do mercado e da própria estrutura social. Este artigo propõe refletir, num primeiro momento, sobre a pobreza, situando, a partir da década de 80, a centralidade do conceito até os dias atuais. Procuramos, em seguida, relacionar a pobreza e as políticas públicas, em particular, as políticas sociais adotadas neste período, dando um panorama dos programas de transferência de renda implementados no país. E, por fim, apontamos alguns impactos sociais do Programa Bolsa Família, indicados pela literatura especializada condicionalidades. e lançamos uma breve reflexão sobre suas 3 METODOLOGIA Este texto traduz um momento de reflexão e constitui mais uma etapa do estudo em curso, denominado “inclusão/exclusão dialética das políticas assistenciais e programas compensatórios – impactos no desempenho escolar: um estudo de caso etnográfico”, cujo objetivo é pesquisar o fracasso escolar sob o foco dos programas compensatórios e assistenciais, no sentido de entender o(s) impacto(s) dos mesmos no desempenho e na vida escolar dos alunos. Constituindo a primeira etapa deste estudo, estão a pesquisa bibliográfica e documental, aportes importantes, na medida em que permitem o mapeamento do que já foi produzido sobre o objeto de estudo, possibilitando, assim, sua (re)construção. Neste trabalho, foram utilizadas algumas fontes, dentre elas está a literatura especializada que trata o tema em questão, dissertações de mestrado e teses de doutorado. Desse modo, apresentamos, no momento, os dados preliminares relativos ao início do nosso estudo. POLÍTICAS SOCIAIS E COMBATE À POBREZA: A “CULTURA” DO FAVOR A literatura é rica em elementos apontando a década de 80 como sendo marcada por forte estagnação da economia, com uma longa recessão e um aumento crescente da pobreza que se desloca das zonas rurais para as regiões urbanas e metropolitanas (NASCIMENTO, 1994; MONTALI e TAVARES, 2008), fenômeno que foi denominado por Montali e Tavares (2008, p.212) de “metropolização da pobreza”. Esta década, do ponto de vista econômico, segundo alguns cientistas sociais, economistas e sociólogos foi denominada de “Década Perdida”1 materializando, assim, algo que já vinha em curso – a desigualdade social crescente. 1 Nos anos 90, com o ideário neoliberal se Esta denominação, “Década Perdida “, surge em função do caos econômico-político-social que caracteriza a década de 80 que, no entanto, atinge não só o Brasil, como todos os países da America Latina. SINGER, Paul (1996) faz uma análise profunda sobre o tema. Ver, também, LAMOUNIER, Bolivar (1990). 4 consolidando entre nós e o Estado de Bem Estar Social (Welfare State)2 entrando em crise e “saindo” de cena, a “nova” exclusão vem com novo ímpeto e dando “novas vestes” para a desigualdade social e para a pobreza. Tivemos, nesse período, um aumento da exclusão, denominada de exclusão estrutural com contingentes cada vez maiores da população nutrindo os indicadores de pobreza3 e indigência, criando grupos sociais sem acesso aos bens materiais e aos direitos mínimos de saúde, educação e renda. Assim sendo, a pobreza e a indigência no Brasil tornaram-se , crescentemente, fenômenos urbanos e metropolitanos, como afirma Rocha (2006) citada por Montali e Tavares (2008). Nesse sentido, tivemos um aumento dos bolsões de pobreza e, como conseqüência, um desenho social constituído de uma enorme população em extrema pobreza. Segundo Nascimento (1994, p.35), o que há de novo nesse processo... (...)é que um contingente cada vez maior de pessoas transforma-se de exército de reserva em lixo industrial. Não apenas não tem trabalho ou capacidade de gerar renda suficiente, como não tem as qualidades requeridas para nele ingressar. . Dentro dessa ótica, o excluído moderno não tem lugar no mundo do trabalho, não consegue uma renda mínima, é expulso do mundo cultural e pertence a um grupo social que se torna desnecessário economicamente, incômodo politicamente e ameaçador socialmente, criando-se, assim, um estado de apartação social (NASCIMENTO, 1993 e 1994). 2 Com o crescente avanço do ideário neoliberal no mundo, no Brasil este começa a se consolidar na década de 90, apesar de sua difusão ter chegado aqui na década de 70. Com isso, um dos pressupostos denominado “Estado Mínimo” impõe a redução da intervenção estatal tanto no âmbito da economia, quanto sua retirada, especialmente, no âmbito social, fazendo, desse modo, entrar em crise o Welfare State no Brasil (UGÁ, 2004). 3 O indicador de pobreza no Brasil, segundo vários cientistas sociais e economistas, é medido pela insuficiência de renda. Tomando como referência o estudo de Montali e Tavares (2008, p.221), que investigou em nível do território nacional as famílias com acesso a programas de transferência de renda, que aponta o rendimento familiar per capita com base nos micro-dados da PNAD 2006-IBGE e traça o seguinte panorama em valores de 2006 expressos em decis. Para 2004, os decis equivalem (em valores de 2006) a: 1ºdecil – R$83,16; 2ºdecil – R$ 129,61; 3ºdecil – R$177,13; 4ºdecil – R$228,97; 5º.decil – R$291,62;. .. (...)1º.decil – R$106,00; 2º.decil –R$160,00; 3º. decil –R$212,00; 4º.decil – R$271,00; 5º.decil – R$350,00. O salário mínimo em 2006 correspondia a R$ 350,00. Os autores destacam no estudo que as famílias beneficiárias dos programas de transferência de renda concentram-se no 1º. e 2º.decil, ou seja, a focalização dos programas está nos mais pobres. A título de esclarecimento o Decil representa 1/10 da amostra/população, ou seja, o 1º.decil é o ponto de corte para os 10% dos dados mais baixos. 5 No Brasil, segundo Souza (2004, p. 24), “... estima-se que cerca de 10% dos domicílios vivem em condições de indigência e cerca de 30% deles são pobres”. Contudo, estes indicadores variam muito e revelam sua face mais perversa quando nos referimos a áreas urbanas ou rurais, ou ainda, quando consideramos algumas regiões que apresentam diferenças nas incidências de indigência e pobreza, revelando indicadores com diferenças ainda mais acentuadas indicadores no Norte e Nordeste, especialmente, nas áreas rurais. Tais são afetados, também, segundo o autor, pelas diferentes características demográficas e educacionais. Encontramos em Salmón (2007, p.154) uma definição para pobreza como sendo, segundo a autora, uma “situação que impede o indivíduo ou sua família de satisfazer uma ou mais necessidades básicas e participar plenamente da vida social”. Caracteriza-se como um fenômeno fundamentalmente econômico, todavia, o conceito reconhece sempre a existência de dimensões sociais, políticas e culturais (PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Por outro lado, outro conceito - o de extrema pobreza, expressa uma categoria numa situação mais grave e de tamanha precariedade, na medida em que não consegue satisfazer as necessidades básicas de sobrevivência que, segundo a mesma autora pode ser definida como a “Negação dos direitos fundamentais da pessoa humana [que] impede a realização efetiva dos direitos humanos (Grupo de especialistas ad hoc das Nações Unidas) ou, ainda, como mostra Arjun Sengupta citado por Salmón (idem, p.154), de que a extrema pobreza se caracteriza como “uma combinação de vários fatores – escassez de renda, falta de desenvolvimento humano e exclusão social – que incluem as noções de precariedade e privação de capacidades”. Portanto, a condição de extrema pobreza traduz a conseqüência última da exclusão social que coloca o indivíduo na condição de não cidadão. No Brasil, a desigualdade social, a pobreza e a exclusão têm uma longa história e constituíram-se como esteios na formação da nossa sociedade. Nossa “cultura política” alicerçada na dádiva, no favor, na caridade, na concessão são a expressão mais evidente dessa desigualdade que marcou a sociedade brasileira desde os primeiros séculos de sua formação (SALLES, 1994). Compreender a cultura política da “dádiva” (TELLES, 1994), como mostra a autora, nos ajuda a 6 identificar a marca mais profunda e característica das políticas sociais implementadas e a constatar sua face compensatória nos programas governamentais dirigidos, ao longo de décadas, à população empobrecida do nosso pais, bem como a entender, também, as raízes das desigualdades sociais ainda tão presentes nos dias atuais. Neste sentido, os programas sociais tiveram foco em produtos in natura disseminados na década de 80 (SENNA et al. 2007) e a distribuição de cestas básicas, de cunho assistencialista, clientelista e sem impactos efetivos sobre a pobreza (LAVINAS e BARBOSA, 2000; PINTO, 2006; DINIZ, 2007). As políticas adotadas, ao longo do tempo, no combate à pobreza e à desigualdade mostraram pouca eficiência, porque não resgatavam, efetivamente, essa população da marginalização social, tampouco promovia uma mudança do patamar em que se encontravam dando-lhes as condições mínimas de dignidade e cidadania (CAMARGO, 2004). Mantinha-se o status quo, na medida em que “tratava-se” apenas da fome deixando aquele contingente sem acesso aos direitos mínimos de saúde, educação e renda. Portanto, sem a possibilidade de romper com o ciclo de reprodução da pobreza instalado. Como afirma Telles (1990, p.37), “a dívida social que haverá de ser resgatada para que o país se mostre à altura de uma modernidade pretendida como projeto, a questão da pobreza está aí (...) e ninguém pode se furtar”. Desse modo, promover uma legião de excluídos e deserdados do progresso (NASCIMENTO, 1994) é um grande desafio a ser enfrentado. Todavia, a partir da metade da década de 90 foram implementados vários programas municipais, estaduais e federais com concepção de renda mínima a partir da transferência monetária para a população pobre visando o combate à pobreza e não mais a distribuição de produtos. DISTRIBUIÇÃO DE RENDA - DO BOLSA ESCOLA AO BOLSA FAMÍLIA: UM PANORAMA DAS POLÍTICAS REDISTRIBUTIVAS A década de 90, foi marcada pelos programas, de iniciativa governamental, em especial, dos municípios e dos estados, que se disseminaram e cuja concepção trazia no seu bojo a idéia de renda mínima, ou seja, a transferência de 7 renda direta às famílias ou aos indivíduos mais pobres. As discussões sobre a Renda Mínima têm suas origens nas idéias liberais, projetadas no cenário internacional na década de 60 que ganham fôlego na década de 80, em razão das transformações econômicas e sociais em nível mundial, pelo aumento do desemprego e pela precarização crescente das condições de vida e de trabalho. A disseminação da idéia de renda mínima no âmbito internacional vem a se consolidar, no Brasil, no início dos anos 90 (PINTO, 2006). Os programas com concepção de renda mínima vinculados à educação e com exigência de contrapartida é inaugurado pelo Programa Bolsa Escola, mudando, radicalmente, o design das políticas sociais focando a renda mínima, como direito para todos os brasileiros. Assim sendo, o Bolsa Escola introduz uma nova concepção: a renda mínima como fator de justiça social aliada à educação. Traz, também, uma agenda de contrapartidas, dentre elas, a obrigatoriedade de frequência à escola, promovendo, assim, a garantia da escolaridade básica às crianças e adolescentes em idade escolar, efetivando, desse modo, o direito à educação. A aliança entre educação e renda instalada na política social brasileira ganha uma feição diferenciada das anteriores. A dimensão educativa do Bolsa Escola é o divisor de águas das políticas tradicionais. Esta inovação do Bolsa Escola nos remete à seguinte leitura: “a renda mínima seria o meio para alcançar a elevação da escolaridade, que, consequentemente, combateria a perpetuação da miséria” (PINTO, 2006, p.34). Em 2001, o então presidente Fermando Henrique Cardoso, lançou o Programa Nacional de Bolsa Escola4, em todo o território nacional sob a regência do MEC. Contudo, vale destacar que a criação do Bolsa Escola não se deve a FHC e sim a Cristovam Buarque que foi seu idealizador, entre 1986 - 1989, a partir de discussões na Universidade de Brasília (UnB) e, de tais discussões emergiu a idéia que recebeu o nome de Renda Mínima aplicada à Educação, conforme sinalizam Waiselfisz (1998), Silva (2004)5 e Pinto (2006). 4 A lei 10.219, de 11 de abril de 2001, cria o Programa Nacional de Bolsa Escola. Tal programa é herdeiro do Programa Garantia de Renda Mínima (PGRM) “Toda criança na escola”, de 10 de dezembro de 1997. 5 Ver especialmente as pág.73-75. 8 A idéia tomou corpo no início dos anos 90 com a primeira experiência no Distrito Federal em 1995, quando Cristovam Buarque era, então, governador. Depois, teve ampla difusão e fora implementada em vários outros municípios, como Ribeirão Preto, Campinas, Belo Horizonte e Recife e, em estados como São Paulo, Mato Grosso do Sul e Alagoas, dentre outros. Em todas as adesões ao Programa se manteve “a aliança entre Renda Mínima e Educação, mas em termos de metodologia e operacionalização a diversidade de experiências sempre foi grande” (PINTO, 2006, p.34). Hoje, temos o Programa Bolsa Família (PBF), como herdeiro do Bolsa Escola. O PBF é, também, um programa de transferência mensal, instituído pela Medida Provisória nº 132, de 20 de outubro de 2003, posteriormente convertida na Lei 10.836, de 9 de janeiro de 2004 e regulamentada pelo Decreto no. 5.209, de 17 de setembro de 2004. O Programa Bolsa Família surgiu a partir da unificação de uma série de programas preexistentes. A unificação ocorreu, segundo o autor, de modo a que , “... o Governo Federal instituiu, em outubro de 2003, o Programa Bolsa Família, reunindo quatro programas de transferência de rendas anteriores – Bolsa Escola, Auxílio-Gás, Bolsa-Alimentação e CartãoAlimentação – sob gestão unificada” (SENNA et al., 2007, p.7). Tal unificação foi importante, na medida em que eliminou os altos custos operacionais da sobreposição de tantos programas, que operavam de forma dispersa por diferentes ministérios. O PBF traz no seu bojo uma proposta de intersetorialidade, cuja gestão ocorre de modo compartilhado entre o Governo Federal, Estado e Município, racionalizando, assim, o uso dos recursos públicos e inaugurando, também, uma nova modalidade de ação: uma orquestração entre tais instâncias. Desafio colocado, dado ao percurso histórico de descontinuidades e sobreposição de ações que tanto conhecemos. O Programa Bolsa Família traz consigo algumas metas de superação da situação de pobreza e, assim sendo, as famílias beneficiárias cumprem uma agenda, ficando submetidas ao cumprimento de algumas exigências e/ou compromissos denominadas condicionalidades6, São elas: 6 As famílias beneficiárias do PBF assumem alguns compromissos com a educação e a saúde de todos os seus integrantes, principalmente de crianças, adolescentes e gestantes. 9 Acompanhar a saúde e o estado nutricional de todos os integrantes da família; Manter todas as crianças em idade escolar matriculadas e frequentando o Ensino Fundamental; Participar de programas de educação alimentar, quando ações dessa natureza forem oferecidas pelo Governo Federal, Estadual e/ou 7 Municipal . O PBF visa, fundamentalmente, à redução das desigualdades e à proteção das famílias em situação de vulnerabilidade (CASTEL, 2000). Melhorar a escolarização, combater a evasão escolar, melhorar as condições de saúde dessas famílias, promover a segurança alimentar, assegurar direitos sociais básicos é, sobretudo, uma estratégia de enfrentamento da pobreza e da exclusão social. De acordo com os dados do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome – MDS, em junho de 2006, havia cerca de 11,1 milhões de famílias beneficiadas pelo PBF, o que corresponde, percentualmente, à totalidade da estimativa de famílias pobres e extremamente pobres de acordo com a PNAD 2004 e de Senna et al. (2007). Em 2008 a SENARC8 informava 11,9 milhões de famílias obtendo o beneficio e para 2010 o Ministério do Desenvolvimento Social traz a seguinte previsão: “O governo federal prevê o ingresso de 500 mil famílias em agosto e outras 500 mil em outubro. A nova estimativa é atender 12,9 milhões de famílias até o início de 20109”. Podemos ver que a abrangência e, sobretudo, a focalização nas famílias mais pobres representam dados significativos, na medida em que estudos como o de Soares et, al. (2007), Montali e Tavares (2008) e Rocha (2008) indicam que, maciçamente, os beneficiários estão nas categorias localizadas “abaixo da linha 7 As Informações estão disponíveis no site da Caixa Econômica Federal. Vide: http://www.portalfederativo.gov.br/pub/Inicio/CaixaParceira/Caixa_Parceira_Janice _Mendonca2.pdf 8 Dado retirado da Secretaria Nacional de Renda e Cidadania - SENARC http://www.mds.gov.br/adesao/mib/matrizviewbr.asp? 9 Essa estimativa de 12,9milhões do governo é de atender a este quantitativo de famílias até o início de 2010. Ver mais informações no site: http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI3902173-EI7896,00.html e no site http://www.mds.gov.br/bolsafamilia/ 10 da pobreza e abaixo da linha de indigência”. Portanto, tem contemplado a população mais vulnerável do país. Segue abaixo uma tabela dos programas em curso no país. Tabela: Programas redistributivos nacionais Fonte: Covre, Marques & Mattos (2008) In: MATTOS (2009) Encontramos em Covre, Marques & Mattos (2008) citados por Mattos (2009, p.82) esta tabela que nos dá uma idéia do conjunto de programas redistributivos nacionais, alguns em nível estadual e municipal em que, com uma 11 breve descrição nos oferecem um panorama atual e nos possibilitam entender um pouco, sobre cada um deles, enquanto políticas de combate à pobreza. Montali e Tavares (2008) revelam o impacto que os programas de transferência têm, no que tange a situação social das famílias pobres. Destacam, ainda, que os efeitos de tais programas incidem, sobremaneira, na redução da proporção dos domicílios com renda zero, especialmente, nas regiões metropolitanas brasileiras, onde estão concentrados os maiores indicadores da “metropolização da pobreza” evidenciando, portanto, a redução da indigência, ainda que tenhamos um pequeno impacto na diminuição da pobreza. Segundo os autores, “há indícios de que os programas sociais vêm afetando positivamente as famílias nos estratos mais baixos de rendimento familiar per capita, reduzindo a condição de indigência” (ibidem, p.228). Este dado nos leva a inferir que, quando se pensa em justiça social, a ausência deste programa de transferência de renda, na vida dessas famílias, seguramente, tanto a pobreza como a indigência, seriam muito maiores. De modo geral, a literatura (NERI, 2008; BARROS,2009; SOARES et al. 2006; SOARES, RIBAS e OSÓRIO, 2007) tem mostrado os efeitos positivos dessas políticas redistributivas e, ao mesmo tempo, revelado os impactos efetivos junto à essa população, historicamente, abandonada pelas políticas públicas. DA EXCLUSÃO “PERMANENTE” À INCLUSÃO “TRANSITÓRIA”: APONTAMENTOS PARA PENSAR O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA O debate atual tem dado ênfase aos programas de transferência de renda e há evidências na literatura da concordância ou, mesmo, de quase um consenso, quando se referem ao Programa Bolsa Família como um fator significativo na redução da pobreza do país, evidenciando o peso deste na diminuição das desigualdades e seus impactos positivos sobre as famílias atendidas, permitindo a elas a garantia da sua sobrevivência (SOARES et al. 2006; SOARES, RIBAS e OSÓRIO, 2007). Na atualidade, o Programa Bolsa Família (PBF) tem sido apontado como o maior programa de transferência de renda condicionada do mundo e como uma intervenção importante no combate à pobreza no Brasil. 12 Considerando os impactos sociais, alguns estudos revelam dados bastante significativos, especialmente para os beneficiários do Programa Bolsa Família localizados na linha de extrema pobreza. Segundo o estudo de Mesquita (2007), o recebimento do benefício provoca um impacto no orçamento doméstico na medida em que há uma elevação da renda e, dependendo da região da federação, este é surpreendente. A maior vulnerabilidade à pobreza está nas Regiões Norte e Nordeste, que apresentam os maiores indicadores de pobreza, destacando-se como os valores de rendimento familiar per capita mais baixos, considerando o rendimento médio per capita dos domicílios, reproduzindo a desigualdade de renda (MONTALI e TAVARES, 2008). Em recente reportagem, o Jornal O Globo10 traz um breve panorama do alcance do Programa Bolsa Família nas regiões mais pobres do país como, por exemplo, neste trecho quando diz que, “em algumas cidades do Nordeste, mais de 90% dos moradores são beneficiados... (...) No Maranhão, no Piauí e em Alagoas, de 58% a 59% da população dependem do Bolsa Família” (p.1), mostrando, ainda, vários municípios, com base em dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), cujos habitantes vivem em situação de extrema pobreza e sobrevivem em razão do recebimento do benefício e, em muitos casos, é a única renda familiar. No seu estudo, Mesquita (2007) revela que a média em percentual de aumento da renda familiar é da ordem de 8,85% para os pobres e da ordem de 61,20% para aqueles que estão em extrema pobreza, chegando a alavancar a saída destas famílias desse grupo. Mostra, também, com destaque os beneficiários do Programa Bolsa Família situados na região norte e nordeste, cujos percentuais de elevação de renda são os maiores do país: 69,37% para os pobres e 70,74% para aqueles em extrema pobreza. Estes resultados apresentados pela autora são confirmados por estudos do IPEA (2007), Soares; Ribas; Osório (2007), Neri (2007) dentre outros, os quais apontam os programas 10 Sob o título “Em 6 estados, Bolsa Família já atende metade da população”, o jornal O Globo de 3 de maio de 2009 traz uma série de reportagens: no caderno O Pais diz “Bolsa Família atingirá 1 em cada 3 brasileiros em 2010” mostrando a proporção da população atendida pelo programa em vários municípios do país; “Na histórica Canudos, na Bahia, 70% dos moradores recebem Bolsa Família” revelando a dependência das famílias que sofrem com a seca, desemprego e moradias precárias como problemas graves e, por fim, “No Maranhão, 59% da população vivem do programa”. 13 de transferência de renda como valiosas estratégias para a diminuição dos níveis e intensidade da pobreza. Os beneficiários do Programa Bolsa Família, em alguns casos, têm no recebimento monetário do programa um instrumento para sua subsistência, em outros, é, também, um complemento para suas necessidades básicas sendo constatado em alguns estudos que a maior parte do recurso financeiro é gasto com alimentação (MESQUITA, 2007; IBASE, 2008). Segundo o Relatório IBASE (2008, p.7) , ... as famílias priorizam a compra e o consumo de alimentos considerados básicos e de baixos preços, capazes de propiciar a saciedade e a provisão de energia, pelo consumo de alimentos “fortes” (...) Famílias que já tinham a alimentação básica “suprida” – o programa possibilitou aumento na aquisição de alimentos considerados “complementares”, como frutas, verduras, legumes, alimentos industrializados e outros considerados “supérfluos”, e também da carne, alimento valorizado e de difícil acesso. Famílias que não tinham alimentação básica suprida – o programa possibilitou que passassem a comprar mais alimentos considerados básicos, como feijão e arroz. A regularidade no aporte de recursos propiciada pelo programa – possibilita planejar gastos e, conseqüentemente, modificar o padrão de consumo. Assim, o Relatório IBASE (idem, p.8) aponta que o recebimento do benefício tem impactos importantes sobre a situação de insuficiência alimentar e nutricional (IA) apresentada por este grupo beneficiário do programa cuja situação mostrada abaixo está ligada a um quadro de pobreza mais amplo. As repercussões sobre a população atendida pelo programa também é confirmada por Magalhães et al. (2007), no que tange à melhoria das condições nutricionais das famílias beneficiárias. Contudo, o Bolsa Família, tem no descumprimento das condicionalidades a penalidade da perda temporária ou permanente do benefício para a família. Em reportagem recente, a folha online11 publica, no dia 19/03/2010, sob o título, “Governo cancela mais de 86 mil benefícios do Bolsa Família” a seguinte notícia: O MDS (Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome) anunciou nesta sexta-feira que cancelou 86.963 benefícios do Bolsa Família porque as famílias não informaram a escola de seus filhos no Cadastro Único... 11 Ver na íntegra a reportagem no endereço: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u709384.shtml 14 A falta de dados sobre as unidades de ensino impedia que o governo federal monitorasse a frequência escolar de beneficiários com idades entre seis e 17 anos, uma exigência do programa", apontou o ministério em nota... Sobre os cancelamentos feitos neste mês, o MDS informou que em meados do ano passado havia 510.830 famílias que não tinham informado a escola de seus filhos no Cadastro Único, que foram reduzidos para 401.321 famílias após as primeiras ações para solucionar a questão. Estes tiveram o benefício cancelado em setembro, mas o ministério lançou uma série de medidas --como disponibilizar a lista de famílias aos gestores municipais do Bolsa Família e mandar mensagens de alerta no extrato de pagamentos-- para regularizar a situação. Para refletirmos sobre o processo de inclusão/exclusão, vale destacar, neste caso, em que a ocorrência de descumprimento ou não da condicionalidade vai determinar a permanência ou a transitoriedade do benefício, revelando uma certa perversão como nos mostra Telles (1990, p.37), cria-se a figura do necessitado, numa lógica perversa em que os direitos se transformam em ajuda, a participação em tutela estatal, a justiça em caridade e a condição de pobreza em estigma que diferencia o pobre de todos os outros, os trabalhadores, que estão supostamente capacitados para garantir sua sobrevivência com os frutos de seu trabalho. Neste sentido, o Programa Bolsa Família tem como objetivo, ofertar, também, dentre outros, a profissionalização aos beneficiários, o que é chamado de “porta de saída” do programa, o que tem ocorrido em escala pequena se comparado a velocidade que tem atingido a ampliação dos beneficiários em sua adesão ao programa. Neste momento, em que já atinge aproximadamente a 12 bilhões de famílias parece ser oportuno ampliar a possibilidade, também, dos beneficiários deixarem a condição de tutelados ou credenciados pela própria pobreza a passarem para a condição de cidadãos, trabalhadores e sujeitos de reivindicações legítimas. CONSIDERAÇÕES FINAIS As políticas adotadas, ao longo de décadas, no combate à pobreza e à desigualdade mostraram sua inefíciência, porque não legitimavam o direito, ao contrário mantinham essa população na marginalização social e sem a garantia de condições mínimas de dignidade e cidadania. Sobretudo, porque tais políticas 15 embaladas pelo imediatismo, “tratavam” somente da fome, dirigindo a esse grupo social mergulhado na pobreza ou extrema pobreza produtos in natura como estratégia para remediar a questão da desigualdade social e da exclusão em que se encontravam. A adoção das políticas de distribuição de renda com a focalização num segmento social que se encontra numa situação de vulnerabilidade econômica e social, ainda que não resolva, definitivamente, a problemática da pobreza acaba, sem dúvida, ganha visibilidade por minimizar seus efeitos. Entretanto, ainda é fundamental, a criação de estratégias que garantam o direito e não legitimem o favor, que promovam uma verdadeira e permanente inclusão. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARROS, R.P.; CARVALHO, M.; FRANCO, S.; MENDONÇA, R. Determinantes Imediatos da Queda da Desigualdade Brasileira. Texto para discussão n° 1253, Rio de Janeiro: IPEA, 2007. BARROS, R. P. (2009) . Entrevista sob o título “Especialista analiza o resultado do PNAD” feita pela jornalista Miriam Leitão no Espaço Aberto, dia 24/09/09. Site: http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1130315-7823ESPECIALISTA+ANALIZA+O+RESULTADO+DO+PNAD,00.html BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Programa Bolsa Família. Brasília: MDS, 2008. Disponível em: <http://www.mds.gov.br/bolsafamilia>. Acesso em: 07 fev. 2008. CAMARGO, José M. Política social no Brasil: prioridades erradas, incentivos perversos. São Paulo em Perspectiva. São Paulo, v.18, n.2. abr/jun. 2004. CASTEL, Robert. Cadrer L’exclusion. In. Saül Karsz (org). L’exclusiion définir pour en finir. Paris:Dunod, p.35-47. 2000. DINIZ, Simone. Critérios de justiça e programas de renda mínima. Revista Katálysis, Florianópolis.V.10, N.1. jan/jun. 2007. IBASE. Repercussões do Programa Bolsa Família na Segurança Alimentar e Nutricional das Famílias Beneficiárias. Relatório Síntese. 2008. 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