ANÁLISE DA POBREZA NA BAHIA SOB OS ENFOQUES UNIDIMENSIONAL E MULTIDIMENSIONAL Kamile Ferreira Araújo 1 Karen de Oliveira Campos 2 RESUMO O artigo proposto analisa a pobreza na Bahia com base em abordagens teóricas que não levem em consideração apenas a insuficiência de renda, preconizada pelo enfoque unidimensional, mas o aspecto multidimensional, identificando e mostrando a necessidade de introdução de outras variáveis, além da renda, para a mitigação desse fenômeno. A Bahia, dentro do contexto do estudo da pobreza, é o estado brasileiro apontado com a maior concentração de pessoas em extrema pobreza. Sendo conceituada de forma comum como o não atendimento das necessidades básicas de um indivíduo, procura-se neste trabalho demonstrar que a pobreza é considerada um fenômeno complexo, podendo sua incidência ser motivada por diferentes causas. Para tanto, foi feita uma investigação em bibliografias referentes à temática, relacionando-a com os dados obtidos por meio da análise de indicadores e índices construídos com base nas informações da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (PNAD), publicada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), culminando em uma síntese sobre a realidade da pobreza baiana. A análise dos dados, por fim, demonstra que um grande contingente populacional baiano ainda sofria de severas privações nos anos de 2007 e 2008, sendo parte significativa considerada, pela ótica multidimensional, como pobre. PALAVRAS-CHAVE: Pobreza. Unidimensional. Multidimensional. Bahia 1. INTRODUÇÃO O estudo da pobreza sempre esteve associado à insuficiência de renda como critério de reconhecimento da incidência dessa condição entre a população. Este fenômeno é identificado como complexo por estar associada a diversas causas, como baixa escolaridade, desigualdade dos rendimentos, desemprego. Porém, ao longo dos anos, a pobreza passou a ser caracterizada como uma síndrome de carências diversas, cujo entendimento não pode ser baseado apenas na insuficiência de renda. 1 Discente do curso de Ciências Econômicas da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e bolsista do Programa de Educação Tutorial em Economia. Email: [email protected] 2 Discente do curso de Ciências Econômicas da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e bolsita do Programa de Educação Tutorial em Economia. Email: [email protected] A abordagem unidimensional, que utiliza apenas a renda como forma de mensurar a proporção dos indivíduos que se situam sob a condição de pobreza, sempre predominou entre os trabalhos que abordam tal temática. A renda dentro dessa perspectiva era considerada como prozy de bem-estar do indivíduo, estando relacionada apenas a satisfação das necessidades alimentares. A partir da década de 1960, essa abordagem passou a ser questionada dando surgimento à abordagem multidimensional, que engloba além da renda, outros aspectos como as necessidades básicas e as capacitações do indivíduo necessárias para a operacionalização adequada do mesmo em sociedade. Com o surgimento da abordagem multidimensional passou a ser enfatizado o desenvolvimento econômico, refutando que apenas o crescimento econômico poderia combater a pobreza e proporcionar melhoria de vida ao indivíduo. A Bahia é um estado que se caracteriza por um grande contingente de indivíduos vivendo em condições de pobreza e indigência. O perfil da pobreza nessa área sempre esteve relacionado com a insuficiência de renda, utilizando as linhas de pobreza e de indigência para delimitar a população que vive com renda inferior a renda estabelecida pelas linhas e para o estabelecimento de políticas públicas adequadas para a sua erradicação. A utilização do método unidimensional superestima a incidência do problema e negligencia as reais privações sofridas por um grande contingente populacional desse estado. O emprego do método multidimensional para o estudo da pobreza nesse estado é recente, não contendo muitos trabalhos desenvolvidos sob esta ótica. Dessa forma, o presente trabalho tem como objetivo fazer uma análise das carências multivariadas sofridas pela população baiana durante os períodos de 2007 e 2008. Para tanto, o texto está organizado como segue: A seção 2 descreve as bases conceituais que sustentam a investigação sobre a pobreza. É apresentada a abordagem unidimensional da pobreza (subseção 2.1), a transição da abordagem unidimensional para a abordagem multidimensional da pobreza (subseção 2.2) e a descrição do enfoque multidimensional da pobreza (subseção 2.3), apresentando as abordagens das necessidades básicas e das capacitações (subseções 2.3.1 e 2.3.2 respectivamente), abordagens que se destacam sob essa perspectiva. A seção 3 traz o contexto da pobreza na Bahia e sua evolução ao longo dos anos (subseção 3.1). Na seção 4 é apresentada a análise da pobreza na Bahia sob o enfoque multidimensional. Por fim, a seção 5 apresenta as considerações finais. 2. BASES CONCEITUAIS DA POBREZA A Pobreza é considerada um fenômeno complexo podendo ser conceituado de forma comum como sendo o não atendimento das necessidades de forma adequada. Trata-se de um evento facilmente identificado em qualquer período da história. Entretanto, foi na década de 1970, em consequência dos debates constantes sobre o crescimento e desenvolvimento econômico, que o estudo da pobreza obteve mais e mais destaque, tornando-se uma área de pesquisa mais específica. Diante disso, com relação à análise da pobreza, tornou-se necessário especificar quais são as necessidades do indivíduo e quais medidas podem ser as mais adequadas para que estas sejam atendidas, o que vai depender do padrão de vida e da forma como as diferentes necessidades são atendidas em determinado contexto socioeconômico. Diferentes características entre os países exigem que o conceito se pobreza leve em consideração suas peculiaridades e realidade social (ROCHA, 2003). A constatação de que existem diferenças com relação à caracterização da pobreza na contextualização de diferentes países evidencia a importância para a formulação e aplicação de políticas antipobreza em cada contexto socioeconômico. Com a percepção de que existem divergências socioeconômicas entre os países, surge, então, a conceituação da pobreza relativa e pobreza absoluta. A discussão a respeito da pobreza teve início nos países desenvolvidos e foi um alerta social no contexto do pós-guerra. A pobreza em países ricos levantou a questão da pobreza relativa, a partir da qual se considera a sociedade que o indivíduo faz parte frente ao estabelecimento das necessidades a serem atendidas. Implica delimitar um conjunto de indivíduos “relativamente pobres” em sociedades onde o mínimo vital já é garantido a todos. Travada essa discussão, os diferentes níveis de pobreza entre os países tornou-se uma discussão central, em se referindo à pobreza relativa, bem como à absoluta que, por sua vez, leva em conta os requerimentos considerados essenciais para a sobrevivência do indivíduo, partindo da análise em que o indivíduo não possui o mínimo vital para a sua sobrevivência (ROCHA, 2003). Provavelmente, as noções de pobreza relativa e pobreza absoluta podem ter sido postas de lado pelo fato da análise da pobreza ter sido caracterizada a partir da dinâmica de países ricos, levando em consideração a pobreza apenas por insuficiência de renda. 2.1 O Aspecto Unidimensional da Pobreza Uma das abordagens mais utilizadas na análise da pobreza se baseia na perspectiva monetária. Rocha (2003) considera que esta abordagem estabelece um valor monetário associado ao custo para o atendimento das necessidades médias de uma pessoa de um determinado contexto socioeconômico. Quando esse valor mínimo está associado ao conjunto mais vasto de necessidades básicas, tem-se de linha de pobreza; em se tratando de necessidades nutricionais, de caráter alimentar, identifica-se a linha de indigência. Esses parâmetros subdividem a população de acordo com a sua renda. Nas economias modernas e monetizadas, onde a parcela ponderável das necessidades das pessoas é atendida através de trocas mercantis, é natural que a noção de atendimento às necessidades seja operacionalizada de forma indireta, via renda. Trata-se de estabelecer um valor monetário associado ao custo do atendimento das necessidades médias de uma pessoa de uma determinada população (ROCHA, 2003, p. 12). Portanto, nessa abordagem, a pobreza é compreendida como insuficiência de renda, o que limita o consumo, impossibilitando o indivíduo de ter as suas necessidades, ligadas à sua sobrevivência física, atendidas, ou seja, ela impede que o indivíduo alcance um nível mínimo de bem-estar. Através da utilização da renda como medida de pobreza auferiu-se dessa constatação de que são considerados pobres Aqueles com renda se situando abaixo do valor estabelecido como linhas de pobreza, incapazes, portanto, de atender ao conjunto de necessidades consideradas mínimas naquela sociedade. Indigentes, um subconjunto dos pobres são aqueles cuja renda é inferior à necessária para atender apenas às necessidades nutricionais (ROCHA, 2003, p.13). Como a ótica unidimensional se limita à consideração da renda, a partir dela, as políticas de combate a pobreza se voltam apenas para o aspecto econômico, deixando em segundo plano as questões de cunho social que também são consideradas essenciais para a sobrevivência digna do ser humano. O crescimento econômico reflete o principal objetivo das políticas públicas. Porém, não deve ser confundido com desenvolvimento, o qual é capaz de prover melhorias econômicas e sociais. Assim, não se deve tentar solucionar apenas o crescimento econômico como ponto principal para a erradicação da pobreza. O enfoque exclusivista monetário da pobreza limita as ações voltadas à redução da pobreza às políticas de transferência de renda e elevação do PIB per capita. Não se trata de dizer que essas são políticas não devam ser realizadas, mas de compreender que, embora necessárias, elas não são suficientes (LACERDA, 2009, p.44). A necessidade de mensuração da pobreza fez com que levasse em conta apenas o caráter monetário, sendo preteridos os aspectos sociais que esse fenômeno pode assumir. As mudanças socioeconômicas ocorridas ao longo do século XX e suas consequências sobre a população são um dos motivos para questionar as bases da abordagem monetária. A heterogeneidade entre os indivíduos também deve ser analisada, pois vários podem ser os motivos para que determinado nível de renda provoque ou gere determinada satisfação em uma pessoa. Por ignorar os outros fatores relevantes, é levantado então o questionamento da aplicabilidade da abordagem monetária como proxy de bem-estar. Com essas considerações foi possível refutar a ideia de que apenas a renda seria a medida aplicável ao combate da pobreza, surgindo à necessidade de colocar em foco outros fatores, que não apenas a renda, para a caracterização do fenômeno, culminando no surgimento da abordagem multidimensional, o que mostra que utilizar o critério da renda como uma forma de mensurar a pobreza pode ser uma superestimação da amplitude do problema. 2.2 Da Abordagem Unidimensional a Abordagem Multidimensional Durante o período do século XX, a abordagem monetária exerceu grande influência para a mensuração da pobreza em decorrência da necessidade de quantificar esse fenômeno, transformando as necessidades em valores monetários e a classificação dos pobres e não pobres por meio do critério da renda. Essa simplificação da análise [da pobreza] permitiu o desenvolvimento de medidas quantitativas da pobreza, numa tentativa de mensurá-la e estabelecer estratégias que permitissem a formulação de políticas. No entanto, ainda que se reconheça que a simplificação do objeto de estudo se constitua em característica da fase inicial do desenvolvimento científico de qualquer tema, tal fato, na análise da pobreza, impregnou-se de questões ideológicas que tentaram – e tentam – evitar a expansão do conceito de pobreza em direção à perspectiva multidimensional (LACERDA, 2009, p.37). A partir da década de 1970, a abordagem unidimensional passou a ser questionada, fazendo com que muitos autores procurassem outras formas de mensurar tal fenômeno. Assim, a abordagem multidimensional passou a ganhar espaço, tendo destaque duas abordagens: a abordagem das necessidades básicas e a abordagem das capacitações. O surgimento da abordagem multidimensional trata de refutar que apenas o crescimento econômico é necessário para que a pobreza seja combatida e para a garantia de bem-estar da sociedade. O objetivo deve ser o desenvolvimento de uma sociedade, agregando aspectos não só econômicos. O uso de mais de uma dimensão na análise da pobreza pode ser justificado, porque mesmo o melhor indicador fundamentado na renda, na prática, pode ser considerado incompleto e conduzir a uma imprecisão na estimativa da pobreza (DIAZ, 2003 apud LACERDA, 2011, p.514). A transição da abordagem unidimensional para a abordagem multidimensional marca a evolução do estudo da pobreza, pois tal abordagem não leva em consideração apenas a insuficiência de renda como causa de tal condição. Seu foco vai mais além, direcionando para um campo de análise mais amplo, englobando fatores como os aspectos sociais e as capacidades individuais. Nesse sentido, essa ótica pode ser considerada um avanço para o pensamento científico da pobreza, uma vez que permite essa ampliação acerca do tema, sendo positivo quanto à realização de planejamento, execução de políticas mais abrangentes e que tenham sucesso. 2.3 Abordagem Multidimensional da Pobreza A abordagem multidimensional da pobreza passou a ser adotada a partir da década de 1970 como contra-argumento à abordagem unidimensional da pobreza. A análise da pobreza sob a ótica multidimensional considera que esse fenômeno se manifesta em dimensões políticas, sociais e econômicas. A constatação de que a pobreza em países subdesenvolvidos não poderia ser analisada somente pelo critério da renda, em face às modificações socioeconômicas ocorridas, demonstrou a necessidade de uma abordagem mais ampla, incluindo para tanto, em um primeiro momento, os aspectos nutricionais. Ao decorrer do tempo, a análise multifacetada ganhou novos aspectos, como a abordagem das capacitações, cuja análise traz que a renda não é o fato primordial, mas sim um meio para se alcançar o desenvolvimento. Dessa forma, a abordagem multidimensional da pobreza [...] Trata-se de refutar o argumento de que o crescimento econômico é a condição suficiente para reduzir e/ou evitar a pobreza, garantindo a maximização do nível de bem-estar da sociedade. As experiências vividas pelos países classificados como subdesenvolvidos ou em desenvolvimento durante o século XX ressaltaram as limitações conceituais impostas pela visão de desenvolvimento como crescimento econômico e progresso técnico (LACERDA, 2009, p.37). Em se tratando do enfoque multidimensional, duas abordagens se destacam para o estudo da pobreza: a abordagem das necessidades básicas (basic needs) e a abordagem das capacitações. Esses enfoques permitem uma visão mais humana do indivíduo, não considerando apenas o aspecto econômico dominante nos estudos da pobreza, que permite que apenas o crescimento econômico seja considerado causa primeira para evitar ou reduzir a pobreza. Com o surgimento do enfoque multidimensional se constata a evolução do modo de estudar a pobreza, introduzindo o desenvolvimento socioeconômico como uma forma de minimizar os seus efeitos, não se confinando apenas às questões monetárias. 2.3.1 Abordagem das basic needs (necessidades básicas) A abordagem das necessidades básicas foi um dos primeiros argumentos em contraposição ao enfoque da renda como critério para a caracterização da pobreza. O principal objetivo dessa análise é a satisfação das necessidades básicas. As necessidades básicas são aquelas ligadas à sobrevivência física do indivíduo. De acordo com Rocha (2003) adotar a abordagem das necessidades básicas significa ir além do enfoque que analisa a pobreza como insuficiência de renda, relacionadas à alimentação, para incorporar uma gama mais ampla de necessidades humanas, tais como educação, saneamento, habitação etc. Essas necessidades são estabelecidas de acordo com as peculiaridades de cada sociedade. Existem três fatores para que à abordagem das necessidades básicas se contraponha à análise adotada pela a abordagem unidimensional: o fator da primeira abandonar o critério renda como um indicador capaz de mensurar adequadamente a pobreza; por estabelecer resultados para toda a sociedade e não apenas a uma subpopulação pobre; e o fato dessa abordagem dar ênfase ao caráter multidimensional da pobreza e ao reconhecimento da relação deste fenômeno com outras diversas carências (ROCHA, 2003). Essa abordagem, portanto, pode ser classificada como a não satisfação das necessidades básicas, calcada para a qualificação do que a quantificação da pobreza. A limitação da abordagem monetária demonstra quão importante representa a introdução da ótica das necessidades básicas como método de estudo da pobreza por considerar aspectos sociais como educação, saúde, nutrição, saneamento, moradia, acesso à água tratada, etc., dando um caráter multidimensional ao estudo desse fenômeno. 2.3.2 Abordagem das capacitações Nessa abordagem, também de caráter multidimensional, além da renda e das variáveis que compõe a abordagem das necessidades básicas, é necessário acrescentar a questão da liberdade que o indivíduo possui e usufrui. Focaliza a liberdade dos indivíduos como forma de avaliar as condições de que dispõe. Amartya Sen, pioneiro na introdução dessa abordagem como umas das formas de análise da pobreza, define liberdade como sendo as oportunidades e os direitos de um indivíduo (SEN, 2008). Segundo o autor, a renda seria um mecanismo de ampliação da liberdade. Dentre as liberdades que podem ser destacadas estão à liberdade política, as facilidades econômicas, as oportunidades sociais, as garantias de segurança protetora. A desigualdade entre os indivíduos é vista em termos de liberdade. Esta ótica é analisada em termos de funcionamentos (functionings) e capacitações. Quanto às definições desses termos, Sen (2008, p.79) sublinha: Os funcionamentos compreendem estados e ações [...]. Podem variar desde coisas elementares como estar nutrido adequadamente, estar em boa saúde, livre de doenças [...] até realizações mais complexas, tais como ser feliz, ter respeito próprio, tomar parte na vida da comunidade e assim por diante. Os funcionamentos representam os vários modos de vida que um indivíduo pode ter. Estão relacionados à saúde, alimentação, moradia, liberdade. “O bem-estar de uma pessoa deve estar inteiramente dependente da natureza do seu estado, quer dizer dos funcionamentos realizados” (SEN, 2008, p.80). A capacitação, por sua vez, “representa as várias combinações de funcionamento (estados e ações) que uma pessoa pode realizar” (Ibidem). A capacitação seria uma maneira de realização do bem-estar a partir da liberdade (oportunidades) que a mesma dispõe. “A capacitação é principalmente um reflexo da liberdade para realizar funcionamentos valiosos [...], representa a liberdade de uma pessoa para realizar bem-estar” (Ibidem, p.89). O autor elenca algumas formas de capacitações como a capacidade de estar bem nutrido, livre de doenças evitáveis e morte prematura, ter boa saúde, moradia, consideradas capacitações importantes para o arrefecimento da pobreza. Dentro abordagem das capacitações, Sen (2008) aponta que a renda monetária tem papel importante na medida em que fornece meios para a realização de determinados tipos de liberdade, aonde o aumento das capacitações pode contribuir para o aumento da renda. Sob a perspectiva multidimensional, a pobreza é vista como a privação das capacitações. Uma pessoa é tida como pobre se não lhe é proporcionada a oportunidade de obter certos níveis de funcionamentos básicos. Para que o indivíduo, então, saia da condição de pobreza é necessário o desenvolvimento de capacitações para a promoção da melhoria na condição de vida e bem-estar. A base de entendimento da pobreza nesse enfoque está “na inadequação dos meios econômicos referentes à propensão das pessoas em convertê-las em capacidades de funcionar, e isto num ambiente social, econômico e cultural particular” (SALAMA e DESTREMAU, 2001, p. 79 apud CODES, 2008, p. 21). Algumas questões relevantes que estão vinculadas a adoção dessa abordagem está em saber quais as capacitações que devem integrar a análise e como mensurá-las, implicando em dificuldade para a sua operacionalização. 3. POBREZA NA BAHIA Antes de adentrar na análise do perfil histórico e evolucionista da pobreza do estado baiano, inferi-se como necessário a elaboração de um resumo do cenário brasileiro ao longo dos anos para a compreensão do contexto em que se desenvolveu a pobreza, que teve sua expansão por todo o país e, principalmente para a região nordeste, afetando de maneira substancial o Estado da Bahia. No Brasil, de acordo com Lacerda (2009), a estrutura agrária e a formação do mercado de trabalho aparecem como importantes elementos para a compreensão histórica da pobreza e das desigualdades sociais do país. Com relação à estrutura agrária, tem-se uma forte concentração dos latifúndios, agravando o problema da desigualdade. A formação do mercado de trabalho, por seu turno, está arraigada no trabalhado imigrante, em substituição a mão-deobra escrava, caracterizada pela privação em decorrência da precarização das condições de trabalho a que eram submetidos os indivíduos nas primeiras décadas do século XX. A partir da década de 1950, enquanto o cenário internacional era caracterizado pelo pós-Segunda Guerra Mundial, nos países da América Latina, como o Brasil, surge à ideia de desenvolvimento via industrialização para a modernização do país, com investimento em infraestrutura, elevação do PIB do país, aumento da renda per capita e fortalecimento da indústria. Isso, então, seria uma forma de “superar o atraso econômico que caracterizava esses países e que, consequentemente, levaria a superação da pobreza” (Ibidem, p. 66). A ideia de que o desenvolvimento via industrialização minimizaria a pobreza se propagou pelo país. Ao adotar as concepções desenvolvimentistas, o Brasil tinha como objetivo superar o atraso econômico em relação aos países desenvolvidos, com base no crescimento econômico do país. Nessa fase de desenvolvimento o Brasil apresentou significativas elevações dos índices de crescimento do produto e da renda do país. De acordo com Lacerda (2009), o país apresentou um crescimento do PIB, entre os anos de 1960 e 1970 de 6,5% para 8,7%, com um grande crescimento do investimento, do setor industrial e da renda per capita. Segundo Rocha (2003), entre os anos de 1970 e 1980, o Brasil apresentou uma substancial queda na incidência da pobreza devido ao crescimento da renda nacional, apresentando pequenas oscilações até 1993 devido às instabilidades macroeconômicas de curto prazo. A implantação do Plano Real em 1994, permitiu uma leve redução na incidência da pobreza, se estabilizando até 1999 em cerca de 36%. A autora destaca que ao longo desses 30 anos houve uma melhoria na qualidade de vida da população com relação à queda na taxa de mortalidade infantil, aumento da expectativa de vida e maior acesso a bens de consumo durável e a serviços públicos básicos. Embora tenha ocorrido certa elevação no nível de vida da população brasileira devido ao aumento da renda, certas características referentes à estrutura do país ainda permanecem, como a elevada concentração regional da pobreza, como se verifica na região Nordeste que reúne o maior contingente da população pobre do país. Dessa forma, esse contexto de grande crescimento econômico não serviu para reduzir a pobreza do país, mas sim contribui para um aumento do contingente populacional em situação de pobreza marcada pela desigualdade social, pois além da promoção do crescimento econômico é necessária à implantação de políticas de cunho social que promovam melhorias nas condições de vida da população. À medida que o país se modernizava e urbanizava via industrialização, a pobreza tornava-se urbana, concentrada principalmente em áreas metropolitanas. Esse modelo desenvolvimentista brasileiro se apresentou com certo grau de fragilidade para a sustentação desse processo de crescimento a partir das últimas décadas do século XX, sendo um dos motivos a não modificação da estrutura social do país como condição de erradicação da desigualdade. A análise da pobreza no Brasil sempre esteve relacionada ao crescimento econômico. Como aponta Rocha (2003, p.77) “onde a economia é essencialmente monetária, como no Brasil, a pobreza pode ser entendida, pelo menos do ponto de partida, como insuficiência de renda”. A ênfase era dada aos estudos unidimensionais para a compreensão da dimensão da pobreza, utilizando, para tanto, o indicador da renda, critério utilizado pelas políticas públicas para a redução da pobreza. É sempre visado o crescimento ao invés do desenvolvimento econômico, não englobado as variáveis sociais como implicação para a proliferação da desigualdade e pobreza. Uma das principais razões para que haja uma elevada proporção de indivíduos pobres no país é a grande desigualdade na distribuição de renda que, de acordo com Rocha (2003) poderia ser minimizada se o país passasse por mudanças estruturais relacionados à educação, oferecendo de modo acessível escola e educação de boa qualidade aos mais pobres. A Bahia, dentro do contexto da pobreza do país, se afigura como um estado brasileiro apontado como um dos estados com maior concentração de pessoas em extrema pobreza no Brasil. Pedrão (2003 apud LACERDA, 2009) aponta dois fatores históricos que se relacionam com a pobreza baiana, a escravidão e a renitência do semi-árido nordestino, destacando a pobreza como parte da evolução histórica da Bahia. Da mesma forma como ocorreu no país, o estado baiano foi submetido ao processo desenvolvimentista, adotado pelos governantes do país, tanto de nível estadual, como nacional, nas últimas décadas, porém, de forma regionalmente concentrada, principalmente na região metropolitana de Salvador. Constituído por uma representativa população rural, o estado da Bahia manteve, até o inicio da década de 1950, um perfil agrícola, apoiado nas culturas de açúcar, fumo, cacau e fibras. Essas atividades se desenvolveram predominantemente em latifúndios com reduzidos índices de mecanização e produtividade, o que mostra a fragilidade da formação industrial do estado. Isso impediu a composição de um mercado interno dinâmico nessa área, uma vez que era uma produção voltada para a exportação. O modelo desenvolvimentista, então, a partir da década de 50, tentou contornar esse contexto, ampliando a participação do estado no provimento de investimento público, principalmente na implantação de infraestrutura. Esse contexto afetou a matriz produtiva baiana significativamente e, com o crescente planejamento econômico da época, foi delegada à Bahia a produção de petróleo, o que despontou o desenvolvimento industrial baiano. Desse ponto, até chegar aos anos 1980, à Bahia constituiu-se em uma estrutura industrial que complementava a produção dos estados do sul e sudeste do país. Nessa mesma década, esse modelo começou a se esgotar e a Bahia sofreu intensamente os efeitos dessa crise, enquanto a população crescia significativamente, a renda per capita do país apresentava-se em declínio. A luta contra a inflação acabou reduzindo o investimento governamental em favor do desenvolvimento e o planejamento. O resultado foi um estado caracterizado por uma intensa desigualdade e concentração de renda, com crescimento tardio altamente concentrado, revelando que expressiva camada da população não participou do processo de geração da riqueza, configurando em sérias privações para muitos indivíduos baianos. 3.1 Evolução da pobreza na Bahia Conhecer a pobreza na Bahia, segundo Osório e Souza (2012), é considerado de importância significativa para a sua redução no Brasil, pois mesmo não sendo o Estado com maior contingente de indivíduos na extrema pobreza, o tamanho de sua população faz com que uma parte considerável da população do país que esteja nessa condição se localize nesse Estado. Para a análise na pobreza na Bahia geralmente são utilizados apenas indicadores baseados em renda para a análise da evolução dessa condição, deixando de lado as privações de caráter multidimensional que podem influir no estudo da pobreza e da desigualdade. A análise da pobreza sob o enfoque multidimensional na Bahia é um método recente, sendo, portanto, grande parte dos estudos sobre a pobreza no estado da Bahia ponderado com base no critério da renda. Trabalhos sobre os estudos da pobreza que utilizaram o critério renda como forma de análise entre os anos de 1981 e 1990 constataram que outros estados da região nordeste conseguiram um desempenho melhor na redução da pobreza do que a Bahia, que até 1981 era considerado o segundo estado com menor nível de pobreza da região (OSÓRIO; SOUZA, 2012). Castro Neto e Alves (2011) utilizam três critérios para o estudo da evolução da pobreza no estado com base na renda do indivíduo, identificando linhas de pobreza, indigência e de pobreza extrema. Segundo os autores, são pobres aqueles indivíduos que vivem com menos que meio salário mínimo mensal de renda domiciliar per capita; são indigentes os que sobrevivem com menos de um quarto de salário mínimo mensal de renda domiciliar per capita; são extremamente pobres aqueles que vivem com US$ 1,25 por dia, segundo o critério utilizado pelo Banco Mundial para a definição da Paridade de Poder de Compra. Analisando a pobreza entre os anos de 1992 e 2009, os autores observaram que houve uma redução nas condições de pobreza e indigência na Bahia, passando de 62,3%, 34,1% e 38,9% em 1992, respectivamente para pobreza, indigência e extrema pobreza, para 30,0%, 11,2% e 9,8% no ano de 2009. Em números absolutos, passaram de 6,8 milhões de pobres em 1992 para 4,3 milhões 2009. Os efeitos da implantação do Plano Real no país também recaíram sobre a condição de pobreza. Um de seus subprodutos foi ocasionar a redução do número de indivíduos que vivam em situação de indigência, oscilando, de acordo com Castro Neto e Alves (2011), no patamar de 22% e 27% até 2004. Para Osório e Souza (2012), entre os anos de 1995 e 2009, a região metropolitana de Salvador obteve a metade dos níveis de pobreza extrema observados para o estado, em torno de 10% e 5% para os anos de 1995 e 2009 respectivamente, enquanto que a proporção de pobres nas zonas rurais do estado é notavelmente maior, cerca de 38% em 1995 e 18% em 2009 . Entre 1999 e 2003 houve um aumento da pobreza extrema na região metropolitana de Salvador e em toda a área considerada urbana, embora em âmbito estadual a pobreza tenha se mantido em níveis relativamente estáveis. De 2003 a 2006, constata-se uma redução da pobreza extrema em todo o estado, se estabilizado de 2006 em diante em torno de 10%. De acordo com os autores são dois os mecanismos que podem ser usados para a redução da pobreza, a elevação da renda média e a redução na desigualdade de renda. Porém, as quedas dos níveis de pobreza extrema no estado ao longo dos anos podem estar relacionadas com os aumentos de renda média, influenciados por mecanismos de transferências de renda, e não pela redução da desigualdade. Entre os anos de 1995 a 2009, a Bahia saiu de um patamar absoluto de mais de 3 milhões de indivíduos vivendo em condições de extrema pobreza para cerca de 1, 5 milhão de pessoas. 4. ANÁLISE MULTIMENSIONAL DA POBREZA NA BAHIA Por compreender que analisar a pobreza baseado apenas na renda do indivíduo superestima o tamanho do problema, propõe-se um estudo de caráter multidimensional dessa condição, ampliando para além da renda as privações sofridas que afetam o bem-estar dos indivíduos. Dentro dessa abordagem, o emprego da renda é tido como complementar a análise. Os dados utilizados para a descrição da pobreza na Bahia dentro da perspectiva multidimensional foram extraídos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referente aos anos de 2007 e 2008 para o estado da Bahia. Como forma de ponderar as privações de forma multidimensional foram escolhidos cinco dimensões, a saber: moradia, saneamento, trabalho, educação e renda. Cabe ressaltar que, embora a variável saúde fosse um fator importante para a análise da pobreza multivariada, por ser uma necessidade básica importante para qualquer indivíduo, utiliza-se como prozy o saneamento básico pelo fato da dimensão saúde não ser utilizada pela PNAD em sua coleta de informações. Foi realizada uma análise das categorias socioeconômicas, conforme os dados do PNAD referentes ao estado da Bahia, na busca de estabelecer uma avaliação dos níveis da pobreza baiana nos anos de 2007 e 2008. A dimensão moradia é composta de cinco variáveis: material predominante nas paredes do domicílio, material predominante no telhado do domicílio, condição de ocupação e posse do domicílio, iluminação do domicílio e número de pessoas por dormitório. A tabela 1 representa essa dimensão e seus componentes. Tabela 1 - Categorias relacionadas às condições de moradia no estado da Bahia, conforme a porcentagem de entrevistados nos anos 2007 e 2008 Condições de Moradia Bahia 2007 Quanto à posse do domicílio I- Alugado ou cedido 18,31% 18,27% 3,59% 3,26% 78,10% 78,46% 2,87% 2,72% 97,13% 97,38% 0,85% 1,25% II- Telha ou laje de concreto 99,15% 98,75% I- Outra 4,08% 3,36% II- Energia Elétrica 95,92% 96,64% II-Próprio, não quitado. III-Próprio, quitado Material das Paredes I-Outros II- Alvenaria Material do Telhado Iluminação no domicílio 2008 I-Outros Fonte: Elaboração própria, com base nos dados Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), realizadapelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Diante dos dados mencionados, a questão da propriedade de moradia merece destaque, uma vez que entre esses dois anos, constatou-se a redução no número de imóveis alugados e ainda não quitados, contrabalaçado pelo aumento do número de baianos com propriedade de suas casas. Um fator positivo para a situação socioeconômica do estado, já que, segundo pesquisas realizadas pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), os gastos com aluguel comprometem entre 15% a 20% da renda das famílias mais pobres, levando em conta a população brasileira, de um modo geral. Outro ponto em destaque é a iluminação do domicílio. Constata-se que a energia elétrica, de acordo com os dados, vem alcançando uma parte cada vez maior da população baiana. Positivo para as condições de vida, bem como para os índices de desenvolvimento do estado. Uma segunda dimensão para o estudo da pobreza de forma multivariada é a dimensão saneamento. Essa dimensão é composta pelas seguintes variáveis: esgotamento sanitário, destino do lixo domiciliar, abastecimento de água no domicílio e condição sanitária no domicílio. Entende-se que a privação de alguma dessas variáveis pode se configurar em danos a saúde do indivíduo. Percebe-se, com base na análise das variáveis que compõem essa dimensão, um aumento das condições dos indivíduos baianos, com relação ao saneamento básico, dentre os anos de 2007 e 2008. Apesar de pequeno, nota-se um aumento do número de residências que possuem coleta direta de lixo e água canalizada aumento este de cerca 1% para ambas as variáveis nesse período. A tabela 2 representa essas informações. Embora tenha ocorrido melhora na qualidade de vida da população baiana, observamse privações relativamente altas com relação à rede geral de esgoto, onde pouco mais de 60% da população possuem acesso ao esgotamento sanitário adequado, ou seja, quase 40% dos indivíduos baianos não possuem rede geral de esgoto, valor que pouco se altera entre os dois anos. Isso demonstra a necessidade de intervenção pública para a reversão desse quadro, pois saneamento básico de qualidade e de acesso a todos é uma condição básica para se ter saúde e boa condição de vida. Tabela 2 - Categorias relacionadas às condições de saneamento no estado da Bahia, conforme a porcentagem de entrevistados nos anos 2007 e 2008 Condições de Saneamento Esgotamento Sanitário Destino do lixo domiciliar Abastecimento de água no domicílio 2008 I-Rede geral de esgoto ou pluvial, fossa séptica 62,65% 63,30% II-Outros 37,35% 36,70% I-Coletado direta ou indiretamente 78,04% 79,22% II-Outros 21,96% 20,78% I-Água canalizada de rede geral, área urbana ou rural 83,46% 84,57% 1,31% 1,89% III-Não possui água canalizada 15,23% 13,54% I- Possuem banheiro ou sanitário no/só do domicílio 89,56% 90,31% II-Possuem banheiro ou sanitário de uso comum a mais de um domicílio 0,81% 0,97% III- Não possuem banheiro no domicílio 9,63% 8,72% II-Água canalizada de outra proveniência, área urbana ou rural Condição Sanitária no domicílio Bahia 2007 Fonte: Elaboração própria, com base nos dados Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Uma terceira dimensão que compõe a análise multidimensional é o trabalho. Esta dimensão propõe apreender a precariedade do trabalho existente no Estado da Bahia, determinando a proporção da população que trabalham sob condições não asseguradas pela previdência social, não sendo protegidos por nenhum tipo de risco social. A tabela 3 evidencia os valores encontrados. Tabela 3 - Categorias relacionadas às condições de trabalho no estado da Bahia, conforme a porcentagem de entrevistados nos anos 2007 e 2008 Condições de Trabalho Bahia Trabalho precário 2007 53,74% 2008 53,94% Trabalho não-precário 46,26% 46,06% Fonte: Elaboração própria, com base nos dados Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Contatou-se na análise dessa variável que cerca de 54% da população tem suas atividades remuneradas sob condições não precárias, enquanto que 46% exercem suas atividades em condições precárias. Uma das explicações para essa alta proporção de pessoas que trabalham sob condições precárias pode estar relacionado ao alto grau de informalidade do trabalho e baixa remuneração, sem nenhum tipo de seguridade social, não proporcionando auxílio social em ocasiões de impossibilidade de exercer a atividade remunerada. A falta de proteção contra riscos de trabalho acarreta aumento na propensão de incidência da pobreza, tendo efeitos negativos no bem-estar dos indivíduos. A tabela 4 compõe as variáveis componentes da dimensão educação: proporção de alfabetizados, proporção de crianças na escola e anos de estudo médios. Nota-se a redução do numero de crianças fora da escola paralelo ao aumento do número de alfabetizados no domicílio. É possível considerar como causas para o contingente de crianças fora da escola a desigualdade social, o nível de pobreza que acaba levando essas crianças cada vez mais cedo ao mercado de trabalho, acreditados em uma maior remuneração e as condições de ensino. O fator renda também é importante nesse quesito, uma vez constatado que quanto maior a renda da família, menor o índice de crianças fora da escola. É perceptível a melhora no nível de instrução da população baiana proporcionado pelo aumento dos anos de escolaridade entre os anos de 2007 e 2008. São eventos positivos para o estado, entretanto, os números ainda não são tão significativos. Políticas voltadas para mudanças na estrutura educacional do estado poderiam contribuir para elevar ainda mais o nível de escolaridade da população, resultando em efeitos positivos para a redução da pobreza e da desigualdade. Tabela 4 - Categorias relacionadas às condições educacionais no estado da Bahia, conforme a porcentagem de entrevistados nos anos 2007 e 2008 Condições de Educação Alfabetizados no domicílio Bahia 2007 84,89% 2008 85.57% Crianças na escola 96.86% 97.99% Sem instrução ou menos de 1 ano 17,47% 16.79% 1 a 5 anos 27,63% 26,17% 6 a 10 anos 22,22% 22,42% 11 a 15 anos 32,68% 34,63% Anos de estudo médio por domicilio Fonte: Elaboração própria, com base nos dados Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Normalmente, a renda familiar per capita se configura como variável chave para a mensuração da intensidade da pobreza entre os indivíduos, predominante entre os trabalhos que abordam o tema pobreza. Porém, a variável renda, neste aspecto de estudo, é utilizada como um componente complementar a análise multidimensional da pobreza. Tabela 5 - Categorias relacionadas ao nível de renda no estado da Bahia, conforme a porcentagem de entrevistados nos anos 2007 e 2008 Nível de Renda Pobre por renda Indigente por renda Bahia 2007 2008 I- Pobre 37,23% 34,16% II- Não pobre 62,77% 65,84% I- Indigente 8,63% 8,63% II- Não Indigente 91,37% 91,37% Fonte: Elaboração própria, com base nos dados Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A tabela 5 apresenta os dados obtidos para a proporção de pobres e não pobres, indigentes e não indigentes com relação a essa dimensão, com base nas linhas de pobreza e de indigência elaboradas por Sônia Rocha. Percebe-se que, mesmo em curto período de tempo, de um ano para o outro houve uma expressiva redução da proporção de pobres no estado, um percentual de mais de 3%. Em contrapartida à redução do número de pobres ocorreu um aumento proporcional na categoria dos indivíduos tidos como não pobres. Um dos motivos para essa redução que pode ser apontado é o aumento da renda média em decorrência da implantação de programas de transferências de renda promovida pelo governo. Porém, o mesmo não se observa com a proporção de indivíduos indigentes. O que se verifica no período de estudo é a estabilidade tanto nos níveis de indigência, quanto nos de não indigência. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS A inclusão de variáveis que enfoquem outros aspectos, além da variável renda, nos estudos de pobreza, além de ser possível, é condição necessária para a construção de análises mais completas sobre a real situação de pobreza na Bahia. O combate a esse problema sempre esteve ligado a políticas de transferência de renda, por considerar pobre aquele indivíduo de renda insuficiente para operar adequadamente no meio social em que vive. Porém, a evolução da análise desse fenômeno, considerando o seu aspecto multidimensional, a partir da inclusão de variáveis de caráter social, poderá contribuir para a formulação de políticas de combate a pobreza, de modo que o impacto recaia sobre as várias dimensões que esta compõe. A consideração de outros aspectos além da renda fará com que as políticas econômicas e sociais atuem juntas para a erradicação, ou mesmo a minimização da pobreza, já que essas abordagens estão mais preocupadas com o aspecto qualitativo do que o quantitativo. Assim, por ser um fenômeno complexo, o estudo da pobreza necessita de uma análise que englobe, não só a renda dos indivíduos, mas também outros aspectos que estão ligados à sua incidência e que são necessários para o desenvolvimento digno de qualquer ser humano como condições de saúde, educação, moradia entre outros. A partir da análise descritiva das dimensões e suas respectivas variáveis que compõem o estudo multidimensional da pobreza, constata-se uma ligeira melhora na qualidade de vida da população baiana no período caracterizado, mas ainda não o suficiente para considerar que os indivíduos desse estado possuam condições adequadas de vida, pois ainda sofrem severas privações. De acordo com os dados interpretados, observa-se a redução da pobreza no estado da Bahia entre os anos de 2007 e 2008. No entanto, existem determinados aspectos cujos índices não significaram uma melhoria tão expressiva, o que evidencia que existem necessidades que precisam ser atendidas o quanto antes, uma vez que podem comprometer substancialmente a vida de boa parte da população baiana. REFERÊNCIAS CASTRO NETO, Armando Affonso de; ALVES, Luis André de Aguiar. Considerações sobre a pobreza na Bahia: tendências e estimativas de efeitos de políticas de transferência direta. SEI. Texto para discussão n.3. Salvador, ago. de 2011. Disponível em: http://www.sei.ba.gov.br/images/publicacoes/download/textos_discussao/texto_discussao_03. pdf. Acesso em: 19 set. 2012. CODES, Ana Luiza Machado de. A trajetória do pensamento científico sobre a pobreza: em direção a uma visão complexa. IPEA. Texto para discussão n. 1332. Brasília, abr. de 2008. Disponível em: http://www.renda.nepp.unicamp.br/sistema/files/Brasil/Artigo_td_1332_Visoes%20da%20po breza_IPEA_2008.pdf. Acesso em: 18 jan. 2012. G1 (Economia e Negócios). Disponível em: http://g1.globo.com/economia-enegocios/noticia/2010/12/gastos-com-aluguel-consomem-mais-de-10-da-renda-familiar-dizipea.html. Acesso em: 17 out. 2012. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/. Acesso em 23 mar. de 2012. _______. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD 2007). Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/trabalhoerendimento/pnad2007/default.sht m. 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