XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 CENTRO DE FORMAÇÃO E REFLEXÃO DO MEPES: A EXPERIÊNCIA FORMATIVA DOS PROFESSORES-MONITORES Janinha Gerke de Jesus/SEMED – Anchieta – ES [email protected] Resumo Discutir a formação inicial em serviço dos professores-monitores que atuam com a Pedagogia da Alternância nas Escolas Famílias Agrícolas do MEPES, a partir dos saberes e fazeres do Centro de Formação e Reflexão (CFR), é o principal objetivo deste artigo. Trata-se de parte de uma pesquisa sobre a formação docente na Pedagogia da Alternância. Realiza inicialmente uma breve abordagem histórica acerca da constituição do Centro de Formação e Reflexão do Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo (MEPES) por ser imprescindível na compreensão de sua dinâmica formativa, para então enredar-se nas proposições da formação inicial dos professores que trabalham nas respectivas escolas do movimento. Neste sentido, tece uma análise acerca da organização dos módulos de formação, colocando em cena seus objetivos e sua metodologia que privilegia dois espaçostempos (ALVES, 2003) de formação: o Centro de Formação e Reflexão e a Escola Família Agrícola (EFA), locus de trabalho do professor-monitor. Como possibilidade de diálogo teórico-prático, busca aproximações com as categorias de Maurice Tardif (2000, 2002) do que ele denomina de epistemologia da prática profissional, que nos desafia a pensar a formação docente numa pluralidade de saberes e fazeres, possibilitando assim a produção de um diálogo profícuo entre esta perspectiva teórica e a prática formativa em questão. Como metodologia, a pesquisa pauta-se nos pressupostos do estudo de caso, por sua especificidade e por conceber o conhecimento como uma construção que se faz e refaz constantemente. Desta forma, o presente trabalho contribui para desconstruir as idéias de lugar fixo de aprendizagem e hierarquia de saberes, ambas questões instigantes que constituem-se em desafios à formação docente. Palavras-chave: Formação de professores; saberes; educação do campo; pedagogia da alternância. Centro de Formação e Reflexão do MEPES: Espaçotempo de saberes e fazeres docentes Centro de Formação e Reflexão (CFR) do Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo (MEPES - entidade filantrópica que criou as primeiras Escolas Famílias Agrícolas do Brasil) foi criado em 1971, com o objetivo de cultivar os princípios filosóficos e pedagógicos do movimento e, com o objetivo de prormover a formação dos Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003891 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 diferentes profissionais para atuarem nas diversas atividades do MEPES e de instituições parceiras. Nos últimos anos sua principal função é a formação dos professores que trabalham com a Pedagogia da Alternância, metodologia que surgiu na França em 1930 e que chegou ao Brasil na década de 60 com a primeira experiência em Anchieta-ES. Trata-se de uma pedagogia implantada em escolas do campo, que alterna espaçostempos (ALVES, 2003) de aprendizagem, oportunizando ao jovem estudar sem sair de seu meio, não perdendo assim seu vínculo com a família, a terra e sua cultura. Neste sentido, Descrever a trajetória do CFR significa conhecer como se deu a formação dos primeiros docentes (monitores) da Pedagogia da Alternância no Brasil. A formação dos primeiros docentes (monitores) contou com o apoio didáticopedagógico de três voluntários italianos que, com sua experiência, vieram para o Brasil contribuir com o trabalho das primeiras Escolas Famílias Agrícolas (EFAs) e com a formação dos professores que assumiriam a função docente nessas escolas. Desta forma, o MEPES criou o Centro de Formação e Reflexão, que... [...] começou a fazer uma seleção dos monitores que pudessem iniciar o curso em 1971. Foram selecionados, através de prova oral, entrevista e prova escrita 20 técnicos para serem os futuros monitores do norte. De 20 só ficaram 06 porque não se adaptaram. O curso tinha uma formação geral. Era um mês no Centro e outro numa família onde a EFA ia ser criada. Como houve muita desistência, foi preciso criar ainda em 1971 um curso emergencial. Na seleção nós tínhamos alguns critérios. O primeiro é que o monitor deveria ter uma formação técnica a nível médio. Deveria também gostar do meio rural, dar condições para viver no meio rural, participar de movimentos, pastorais, na comunidade, ter disponibilidade para trabalhar no interior, que tivesse espírito de liderança, sensibilidade, respeito à cultura camponesa e que soubesse dirigir e tivesse carteira de habilitação. Na seleção os padres aplicavam até testes psicológicos (MONITOR 01 DO CFR). Este depoimento nos revela pistas importantes no processo seletivo dos primeiros monitores e, principalmente, nos revela os saberes e as técnicas requeridas desse profissional naquela época. Ao analisarmos o primeiro documento elaborado em 1971 para ser discutido com os monitores, sob o título Pedagogia e Metodologia das EscolasFamilias-Rurais, podemos verificar quatro pontos básicos trabalhados na formação: o Histórico; o Didático-pedagógico; o Sócio-econômico e o Técnico. A questão histórica tratava de como surgiu o MEPES, em que contexto, a partir de quais necessidades, dava conta de situar o futuro monitor em meio à problemática social e econômica da época e Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003892 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 da criação do Movimento MEPES. O didático-pedagógico trazia uma abordagem sobre a metodologia da Pedagogia da Alternância e também dos seus princípios. Integração Escola e vida: para que a escola se torne um verdadeiro lugar de educação, é necessária uma integração do aluno no seu meio. A vida ensina e educa e é fonte geradora de experiências e conhecimentos. É dentro da vida que a comunidade inteira educa as pessoas. A escola, é antes de tudo, um ordenador de informações. Para o entrosamento com o meio, a comunidade e os líderes devem permanentemente estar em contato com a escola. Quando a escola pretende unicamente ensinar, apresenta ao jovem uma realidade artificial e empobrecida. A escola é serviço e não dona do saber e somente assim poderá ser escola para a vida (DOC. MIMIOGRAFADO. FONTE CFR – 1971, p.04). Os discursos da Pedagogia da Alternância defendiam uma escola integrada ao meio social e cultural do educando. Movidos por influência do pragmatismo, dos ideais de uma escola que estivesse a serviço da vida. Ainda quanto aos outros dois aspectos do Plano de Formação da primeira turma de monitores, a dimensão sócio-econômica imprimia uma abordagem da situação vivida no meio rural, das dificuldades encontradas pelos agricultores e dos desafios que a EFA tinha diante dessa situação. Ou seja, a EFA desde o início era colocada como uma possibilidade que estivesse a serviço da promoção sócio-econômica do homem do campo, por isso, o monitor, em seu processo de formação deveria entender que seu trabalho transcendia a escolarização e que objetivava proporcionar uma formação que estivesse atendendo às necessidades colocadas. Nesta mesma perspectiva, o aspecto técnico primava pelos conteúdos a serem trabalhados nas disciplinas de Agricultura, Botânica, Zootecnia, Zoologia, Administração Rural, Economia Rural, Engenharia Rural, Matemática, Português, História e Geografia. O monitor recebia uma organização dos principais objetivos e conteúdos a serem aplicados. [...]-saber usar e explicar o funcionamento das máquinas simples; saber calcular razão; -saber calcular declive; - saber fazer uma instalação elétrica; - saber justificar choques e outros fenômenos práticos ligados à eletricidade; - saber jogar com os fatores de produção; - calcular área; - conhecer as principais doenças dos animais da região; - pastagem; - topografia [...] (DOC. MIMIOGRAFADO. FONTE CFR – 1971, p.14). Os conteúdos eram cuidadosamente selecionados para que atendessem a uma necessidade imediata, ligada ao vivido pelo jovem do campo. O elenco de saberes, a Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003893 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 forma como eram organizados e repassados aos monitores nos possibilitou perceber a caminhada percorrida pelo CFR e, dos passos que foram dados em todos esses anos, objetivando, uma formação mais participativa e protagonizada pelos próprios monitores. Nesses 41 anos de existência, o Centro de Formação e Reflexão passou por três sedes. A primeira foi em Anchieta/ES, onde formou duas turmas de monitores para atuarem nas Escolas Famílias Agrícolas aqui criadas; a segunda foi em Vitória/ES, onde permaneceu de 1973 a 1978, com uma maior facilidade de intercambiar com a Universidade Federal do Espírito Santo e com o Governo do Estado. E, a terceira em Piúma/ES, onde funciona atualmente. Nessa trajetória, ofereceu a formação inicial em duas modalidades: Curso longo (2 anos) e a formação em serviço. O curso longo, hoje extinto, proporcionava ao monitor no primeiro ano um período só de estudo no Centro de Formação e no segundo ano, um período de estágio na família, em propriedades campesinas e também nas EFAs. Ele contemplava uma carga horária maior para dar conta dos saberes pedagógicos que muitos monitores necessitavam porque não possuíam graduação e tinham apenas o curso técnico em nível médio. Desta forma, o monitor ia se apropriando das mediações didático-pedagógicas da PA, dos saberes sobre a docência e, simultaneamente, experimentando, por meio dos estágios, o significado de uma Educação no Campo, as dificuldades enfrentadas pelas famílias e os desafios que ele teria pela frente. A partir de 1974, a formação proporcionada pelo MEPES passou a romper as barreiras do Espírito Santo e se abriu a outros estados que estavam interessados em implantar a experiência das Escolas Famílias Agrícolas. Desde então, o CFR passou a receber monitores de outros estados brasileiros para realizarem a Formação Inicial na Pedagogia da Alternância. Esse período se constituiu no verdadeiro fortalecimento do CFR e na importância deste espaçotempo (ALVES, 2003) na formação dos docentes do campo e na discussão da proposta de uma educação no campo. A equipe pedagógica viajava pelo interior do país discutindo educação do campo junto às comunidades, pastorais, movimentos sociais e divulgando o trabalho das EFAs. Tempos depois, retornavam colaborando na abertura das mesmas. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003894 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 Com o passar dos anos, a equipe pedagógica do CFR foi redefinindo os Planos de Formação dos monitores de acordo com os cursos oferecidos e de acordo com a necessidade das EFAs. Um problema apontado pelo movimento, desde o início, era a alta rotatividade de monitores. Diante disso, a partir de 1994, o MEPES criou a Formação Inicial em Serviço para os monitores da rede, partindo também do princípio de que a graduação era necessária a todos os docentes, ou seja, o monitor já deveria buscar os saberes da docência num curso universitário. Esta, no entanto, foi sendo aos poucos uma conquista de praticamente todos os monitores. E, o curso longo permaneceu apenas para os monitores de outros estados. Nestas circunstâncias, o monitor do MEPES poderia trabalhar já a partir do primeiro ano de formação, pois os encontros foram organizados em módulos que possibilitavam essa dinâmica. Podemos dizer que a implantação da Formação Inicial em Serviço também se constituiu num marco na história do CFR, pois veio contemplar duas importantes questões: a primeira, no entanto, também paradoxa, possibilitou formar monitores num curto espaçotempo para atender a demanda das escolas existentes, porém, a qualidade do curso ficou comprometida, pois foi necessário realizar muitos recortes no Plano de Formação. As questões gerais de didática, sociologia, filosofia, psicologia foram recortadas, entendendo dessa forma que na graduação o monitor já teria acesso a esses saberes. A segunda, por outro lado, a Formação Inicial em Serviço, devidamente fundamentada, o que foi sendo construído no processo, está em consonância com os princípios filosóficos da Pedagogia da Alternância: Em Alternância, Por Alternância e Para Alternância. Portanto, atualmente o CFR vem realizando a Formação dos Monitores em três modalidades: A Formação Inicial em Serviço, Formação Continuada e Formação por Área. Além disso, desenvolve um trabalho junto aos agricultores, ex-alunos, mulheres e ao setor agropecuário das EFAs. Todo esse trabalho busca imprimir os princípios do CFR, que são: -Propiciar à família do campo uma vida digna capaz de sua realização sócio-profissional, resgatando os seus valores culturais, aberta ao transcendente, em harmonia com a natureza e solidariedade humana Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003895 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 para o exercício da cidadania; -Proporcionar elementos de reflexão que possibilitem compreender a realidade em que vivemos, tendo em vista a promoção humana e o desenvolvimento do meio rural, atendendo as diversas necessidades, por meio da Pedagogia da Alternância; -Ser um espaço aberto e atuante para a formação continuada individual e grupal, em sua sede e outros locais; -Difundir a filosofia e a mística do MEPES em todas as suas ações a fim de garantir aos envolvidos nesse projeto de formação unidade e compromisso; -Promover parcerias a fim de buscar ações concretas e integradas para o desenvolvimento rural sustentável (DOC. PROJETO PEDAGÓGICO DA FORMAÇAO INICIAL EM SERVIÇO DE MONITORES – FONTE CFR, 2005). Os princípios colocados aparecem nos documentos e nos depoimentos como norteadores da prática do CFR e também das EFAs. Percebemos sempre uma preocupação com a reflexão, com a filosofia do MEPES de promoção humana e com a mística própria do homem do campo. A Formação Inicial em Serviço... diálogos teórico-práticos De acordo com nossa pesquisa (JESUS, 2011) e experiência de trabalho podemos afirmar que A Formação Inicial Em Serviço é uma condição para todos os/as Monitores/as que iniciam o trabalho nas EFAs do MEPES. Seu principal objetivo é proporcionar ao monitor iniciante um espaçotempo de produção dos saberes da Pedagogia da Alternância e do contexto da Educação do Campo, seus pressupostos políticos, filosóficos e metodológicos. O Plano de Formação da Formação Inicial Em Serviço do MEPES tem sua base na organização proposta pela equipe pedagógica da União Nacional das Escolas Famílias Agrícolas do Brasil (UNEFAB), porém com uma ampla redefinição à sua realidade. Ou seja, o CFR vem organizando suas formações de modo a garantir os princípios filosóficos, metodológicos, políticos que são imprescindíveis na Pedagogia da Alternância, no entanto dentro do contexto do Espírito Santo, das especificidades regionais, sul, serrana e norte, bem como dos princípios defendidos pelo movimento Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003896 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 MEPES. A Formação Inicial em Serviço das EFAs do MEPES está em consonância com os princípios da Pedagogia da Alternância. Por se tratar, de uma formação em serviço, um dos primeiros critérios colocados ao monitor que deseja realizá-la é que este esteja trabalhando numa EFA. Nesse sentido, por meio da sua atuação profissional e por meio das discussões no processo formativo do CFR ele construirá seus saberes necessários à prática com e na Pedagogia da Alternância. Esse primeiro critério tem como pressuposto a Formação Em Alternância que possibilita compreender o espaçotempo da EFA não apenas como um espaçotempo de trabalho, mas também de formação. Assim como acontece no processo formativo dos educandos, que refletem a prática de sua família, de seu meio sócio-profissional e levam para a escola problematizando, aprofundando e depois retornando ao seu meio para melhorá-lo e transformá-lo, o monitor em formação inicial tem por meio de sua Alternância, CFR e EFA, a condição de produzir seus saberes a partir das necessidades que emergem de sua prática. Essa prática é refletida nas formações, num coletivo de monitores que socializam suas necessidades e que buscam saberes que deem conta da realidade existente. O segundo princípio norteador da Formação do Monitor é Por Alternância. É nesta perspectiva que o monitor vivencia todas as mediações da Pedagogia da Alternância, construindo por meio deles o elo necessário entre os dois espaçostempos de formação: a EFA e o CFR. A metodologia específica da Pedagogia da Alternância baseia-se no tripé dialético: prática-teoria-prática. Ao itinerário da formação que acontece em tempos e espaços diferentes soma-se um processo de formação que parte da prática para a teoria e retorna à prática. Por isso, a exigência de que os candidatos estejam atuando como monitores numa EFA. Cada módulo no Centro de Formação é precedido de uma preparação no meio sócio-profissional. Há um Plano de Estudo a ser desenvolvido na EFA pelo/a monitor/a em formação. A organização de atividades na EFA permite a verdadeira alternância teoria-prática e trabalho-estudo. Sendo assim, podemos afirmar que ocorre aprendizagem contínua na descontinuidade de atividades e de espaços e tempos diferenciados. Ao partir da prática para aprofundar teorias ocorre um processo de construção coletiva onde os participantes são co-autores do conhecimento (PROJETO Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003897 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 PEDAGÓGICO DA FORMAÇÃO INICIAL EM SERVIÇO-CFR2006, p.14). Desta forma, Por Alternância os saberes dos monitores são construídos no uso das mediações didático-pedagógicas que são próprias da Pedagogia da Alternância, proporcionando-lhe um duplo lugar: ora como monitor aprendiz num processo formativo, ora como monitor num processo de ensino junto aos seus alunos e, paralelamente de professor numa sala de aula, junto aos seus alunos. O monitor ao mesmo tempo que constrói saberes, os ensina; que se forma também trabalha, que usa a metodologia da PA, suas mediações, também se apropria deles. Não há nessa dinâmica um lugar fixo de aprendizagem do monitor. Seus saberes são construídos em diferentes espaçostempos e de diferentes maneiras. Como terceiro princípio a Formação Inicial em Serviço está para a Para Alternância. Isto quer dizer, que seu principal objetivo é formar o monitor para trabalhar a Pedagogia da Alternância nas Escolas que fazem uso dessa metodologia. Podemos entender que ela existe para garantir a formação em saberes específicos dessa metodologia. Saberes que não são construídos no processo formativo acadêmico, mas que dependem de uma formação própria. Portanto, a Formação Inicial em Serviço dos monitores do MEPES, é realizada em dois espaçostempos, o Centro de Formação e Reflexão e a Escola Família Agrícola; por isso entendemos que a EFA não é apenas o lugar onde o monitor trabalha, mas é também seu espaço de aprendizagem, de formação. A Formação Inicial em Serviço traz como princípios norteadores Em Alternância, Por Alternância e Para Alternância, numa dinâmica contínua de construção de saberes próprios da metodologia da PA. Porém, esses saberes estão constantemente em interface com os saberes que o monitor traz de sua atuação profissional, de sua formação escolar e acadêmica e de sua relação com seus pares. Nesse sentido, a proposta Pedagógica da Formação Inicial em Serviço do Centro de Formação e Reflexão do MEPES está organizada em 05 módulos com atividades na Sessão no CFR e, com atividades na Sessão na Escola Família Agrícola. Cada módulo Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003898 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 possui um objetivo, tema, conteúdo, atividades propostas, atividades na sessão EFA e carga horária. Os módulos foram organizados a partir de objetivos e temas que proporcionem um conjunto de conteúdos mínimos que o Centro de Formação e Reflexão considera importante no processo de Formação Inicial em Serviço, tendo em vista também que a Formação do Monitor é contínua. Desta forma, outros temas, outras abordagens serão contempladas no processo de Formação Continuada e também nas formações por área, onde o monitor atua. De acordo com o CFR, os módulos propostos no Projeto da Formação Inicial em Serviço devem contribuir para que o monitor (a) desenvolva saberes da docência, saberes específicos da Metodologia da PA, saberes interpessoais e saberes do contexto sócio-cultural e econômico do campo. Para melhor compreendermos que saberes são engendrados no processo formativo inicial dos monitores, nos propomos a realizar um diálogo com as categorias de Tardif (2002) sobre a pluralidade de saberes, tais como ele as descreve: Os saberes da formação profissional (das ciências da educação e da ideologia pedagógica) são saberes advindos das ciências da educação e dos saberes pedagógicos; Os saberes disciplinares - aqueles saberes que correspondem aos diversos campos do conhecimento, saberes de que dispõem a nossa sociedade, organizados em disciplina e integrados à Universidade; Os saberes curriculares _ saberes que correspondem aos discursos, objetivos, métodos e conteúdos a partir dos quais a instituição escolar categoriza e apresenta os saberes sociais por ela definidos e selecionados como modelos da cultura erudita. Apresentam-se concretamente sob a forma de programas escolares que os professores devem aprender a aplicar; Os saberes experienciais – tratam-se de saberes específicos, desenvolvidos no exercício da função dos professores, baseados em suas vivências, prática e conhecimento do seu meio. Tais categorias nos permitem pensar que os saberes são diversos, fluidos e entrelaçados. Sua distinção nos abre a possibilidade de romper com pressupostos de hierarquia de saberes e lugares fixos de sua aprendizagem. Não obstante, ao analisarmos o Plano de Formação Inicial do CFR à luz dessas categorias, conseguimos vislumbrar um emaranhado de saberes que se Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003899 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 produzem por meio dos princípios da Pedagogia da Alternância, da metodologia formativa e dos pressupostos culturais da Educação do Campo (FOERSTE, SCHÜTZFOERSTE 2010). Neste sentido, 42,8% dos monitores da equipe do CFR quando perguntados acerca dos saberes produzidos respondeu que a Formação Inicial em serviço contempla saberes do currículo, da experiência, profissionais e disciplinares, buscando empreendê-los por meio dos objetivos, temas e conteúdos trabalhados nas Formações; 28,5% afirmou que os saberes mais valorizados são os saberes da experiência, pois, como a Formação Inicial em Serviço parte da realidade vivida pelos monitores, sua vivência, seu trabalho e suas experiências profissionais se constituem como ponto de partida de todo o processo; 14,2% respondeu que saberes disciplinares e os saberes da profissão são os mais valorizados e 14,2% não respondeu essa questão. No entanto, dentre estes, 28,5% acrescentou que os saberes que deem conta das relações em grupo, da convivência são também imprescindíveis e principalmente exercitados na formação dos monitores. Desta forma, nos parece que não há uma supervalorização de saberes de uma categoria em detrimento de outra. O que existe, segundo Tardif (2002) é uma amalgamado de saberes que se entrecruzam nos processos de formação e trabalho do professor e ou monitor. Segundo o CFR, cada módulo segue a seguinte metodologia: 1º momento é de colocação em comum das experiências vividas no campo de trabalho; 2º momento é de aprofundamento teórico a partir do que foi apresentado pela realidade e 3º é de preparação para retorno ao meio sócio-profissional do monitor. Isto quer dizer, que a metodologia usada na formação do monitor é a mesma usada na práxis (FREIRE, 1988) da EFA, especialmente no trabalho com o Plano de Estudos. O primeiro módulo tem como objetivo discutir o que é o MEPES, além de ser uma instituição filantrópica, quais são seus princípios, sua mística e o que vem desenvolvendo no âmbito da educação, saúde e ação comunitária no Estado do Espírito Santo. Os demais buscam contemplar temas voltados para a Educação, numa Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003900 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 perspectiva Filosófica, Psicológica, Social e Ambiental. Os módulos ainda preveem uma discussão e uma vivência de todos as mediações didático-pedagógicos que são utilizadas pelas EFAs. Dessa forma, o monitor aprende fazendo uso dessas mediações (plano de estudo, caderno da realidade, visita às famílias, caderno de acompanhamento, colocação em comum...) em sua própria formação. Todo módulo prevê três momentos: no primeiro dia os monitores fazem a colocação em comum das atividades realizadas na sessão EFA, nos dias seguintes se realiza um aprofundamento teórico a partir das questões levantadas, podendo as que estão previstas serem flexíveis, exceto alguma palestra ou mesa redonda já marcada e depois o terceiro momento é a preparação das atividades que serão realizadas na alternância – sessão EFA. A avaliação também aparece em todos os módulos. É um processo realizado no coletivo dos monitores que parte do que foi realizado e busca registrar o que foi positivo, o que necessita ser melhorado e os encaminhamentos para as próximas formações. No segundo ano de Formação Inicial o monitor realiza um Projeto de Pesquisa e Experimentação Pedagógica, que de acordo com os nossos documentos e com os depoimentos coletados nas entrevistas, têm como objetivo inserir o professor como pesquisador de sua realidade. Essa é também uma oportunidade para o monitor desenvolver a pesquisa, aprender como resolver situações do seu cotidiano e, além disso, reunir condições teórico-metodológicas para trabalhar junto aos educandos, que por sua vez também realizam um projeto profissional, como elemento de pesquisa. Desta forma, podemos dizer que a Formação Inicial em Serviço do Monitor, realizada no espaçotempo do CFR se constitui num momento de colocação em comum de suas primeiras experiências de trabalho na EFA, suas angústias e seus sucessos; num momento de aprofundamento e discussão sobre o referencial teórico da Pedagogia da Alternância e num momento de fluir de novas interrogações que serão problematizadas entre o monitor e seus pares e na sua própria atuação, num constante e incessante movimento de busca por aquilo que não está pronto, mas que necessita ser sempre repensado, reconstruído. Já no espaçotempo da EFA, sua formação se dá por meio do Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003901 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 desenrolar das atividades de trabalho e pesquisa de questões da realidade, que necessitam de problematizações. Ou seja, a Formação Inicial em Serviço, proporcionada pelo CFR do MEPES se coloca como uma possibilidade de romper as barreiras físicas da formação, do lugar fixo da aprendizagem, do rigor hierárquico de determinadas disciplinas. Mas, nos remete ao resgate da experiência como um saber que entrelaçado a outros potencializa a aprendizagem. Portanto, compreender essa pluralidade de saberes, desconstruir a ideia de lugares fixos de aprendizagem e valorizar o saber da experiência são desafios colocados à formação docente e que se descortinam com êxito em experiências como a investigada neste trabalho. REFERÊNCIAS ALVES, N. “No cotidiano se escreve uma história diferente da que conhecemos até agora.” In: COSTA, M. V. A escola tem futuro? Rio de Janeiro: DP&A, 2003. JESUS. Janinha Gerke de. Formação de Professores na Pedagogia da Alternância. Saberes e Fazeres do Campo. Vitória-ES: GM, 2011. FOERSTE, Erineu. SCHÜTZ-FOERSTE, Guerda. (Orgs). Educação do campo: diálogos interculturais. Brasília: SECAD, 2010. FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. 18. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. _______, P. Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2003. TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. 3.ed. Petrópolis-RJ: vozes, 2002. TARDIF, M. RAYMOND, D. Saberes, tempo e aprendizagem do trabalho no magistério. Educação e Sociedade. N.º 73 – Dezembro, 2000. ________, M. 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