XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012
CENTRO DE FORMAÇÃO E REFLEXÃO DO MEPES: A EXPERIÊNCIA
FORMATIVA DOS PROFESSORES-MONITORES
Janinha Gerke de Jesus/SEMED – Anchieta – ES
[email protected]
Resumo
Discutir a formação inicial em serviço dos professores-monitores que atuam com a
Pedagogia da Alternância nas Escolas Famílias Agrícolas do MEPES, a partir dos
saberes e fazeres do Centro de Formação e Reflexão (CFR), é o principal objetivo deste
artigo. Trata-se de parte de uma pesquisa sobre a formação docente na Pedagogia da
Alternância. Realiza inicialmente uma breve abordagem histórica acerca da constituição
do Centro de Formação e Reflexão do Movimento de Educação Promocional do
Espírito Santo (MEPES) por ser imprescindível na compreensão de sua dinâmica
formativa, para então enredar-se nas proposições da formação inicial dos professores
que trabalham nas respectivas escolas do movimento. Neste sentido, tece uma análise
acerca da organização dos módulos de formação, colocando em cena seus objetivos e
sua metodologia que privilegia dois espaçostempos (ALVES, 2003) de formação: o
Centro de Formação e Reflexão e a Escola Família Agrícola (EFA), locus de trabalho do
professor-monitor. Como possibilidade de diálogo teórico-prático, busca aproximações
com as categorias de Maurice Tardif (2000, 2002) do que ele denomina de
epistemologia da prática profissional, que nos desafia a pensar a formação docente
numa pluralidade de saberes e fazeres, possibilitando assim a produção de um diálogo
profícuo entre esta perspectiva teórica e a prática formativa em questão. Como
metodologia, a pesquisa pauta-se nos pressupostos do estudo de caso, por sua
especificidade e por conceber o conhecimento como uma construção que se faz e refaz
constantemente. Desta forma, o presente trabalho contribui para desconstruir as idéias
de lugar fixo de aprendizagem e hierarquia de saberes, ambas questões instigantes que
constituem-se em desafios à formação docente.
Palavras-chave: Formação de professores; saberes; educação do campo; pedagogia
da alternância.
Centro de Formação e Reflexão do MEPES: Espaçotempo de saberes e
fazeres docentes
Centro de Formação e Reflexão (CFR) do Movimento de Educação Promocional do
Espírito Santo (MEPES - entidade filantrópica que criou as primeiras Escolas Famílias
Agrícolas do Brasil) foi criado em 1971, com o objetivo de cultivar os princípios
filosóficos e pedagógicos do movimento e, com o objetivo de prormover a formação dos
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diferentes profissionais para atuarem nas diversas atividades do MEPES e de
instituições parceiras. Nos últimos anos sua principal função é a formação dos
professores que trabalham com a Pedagogia da Alternância, metodologia que surgiu na
França em 1930 e que chegou ao Brasil na década de 60 com a primeira experiência em
Anchieta-ES. Trata-se de uma pedagogia implantada em escolas do campo, que alterna
espaçostempos (ALVES, 2003) de aprendizagem, oportunizando ao jovem estudar sem
sair de seu meio, não perdendo assim seu vínculo com a família, a terra e sua cultura.
Neste sentido, Descrever a trajetória do CFR significa conhecer como se deu a formação
dos primeiros docentes (monitores) da Pedagogia da Alternância no Brasil.
A formação dos primeiros docentes (monitores) contou com o apoio didáticopedagógico de três voluntários italianos que, com sua experiência, vieram para o Brasil
contribuir com o trabalho das primeiras Escolas Famílias Agrícolas (EFAs) e com a
formação dos professores que assumiriam a função docente nessas escolas. Desta forma,
o MEPES criou o Centro de Formação e Reflexão, que...
[...] começou a fazer uma seleção dos monitores que pudessem iniciar
o curso em 1971. Foram selecionados, através de prova oral,
entrevista e prova escrita 20 técnicos para serem os futuros monitores
do norte. De 20 só ficaram 06 porque não se adaptaram. O curso tinha
uma formação geral. Era um mês no Centro e outro numa família onde
a EFA ia ser criada. Como houve muita desistência, foi preciso criar
ainda em 1971 um curso emergencial. Na seleção nós tínhamos alguns
critérios. O primeiro é que o monitor deveria ter uma formação técnica
a nível médio. Deveria também gostar do meio rural, dar condições
para viver no meio rural, participar de movimentos, pastorais, na
comunidade, ter disponibilidade para trabalhar no interior, que tivesse
espírito de liderança, sensibilidade, respeito à cultura camponesa e que
soubesse dirigir e tivesse carteira de habilitação. Na seleção os padres
aplicavam até testes psicológicos (MONITOR 01 DO CFR).
Este depoimento nos revela pistas importantes no processo seletivo dos primeiros
monitores e, principalmente, nos revela os saberes e as técnicas requeridas desse
profissional naquela época. Ao analisarmos o primeiro documento elaborado em 1971
para ser discutido com os monitores, sob o título Pedagogia e Metodologia das EscolasFamilias-Rurais, podemos verificar quatro pontos básicos trabalhados na formação: o
Histórico; o Didático-pedagógico; o Sócio-econômico e o Técnico. A questão histórica
tratava de como surgiu o MEPES, em que contexto, a partir de quais necessidades, dava
conta de situar o futuro monitor em meio à problemática social e econômica da época e
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da criação do Movimento MEPES. O didático-pedagógico trazia uma abordagem sobre
a metodologia da Pedagogia da Alternância e também dos seus princípios.
Integração Escola e vida: para que a escola se torne um verdadeiro
lugar de educação, é necessária uma integração do aluno no seu meio.
A vida ensina e educa e é fonte geradora de experiências e
conhecimentos. É dentro da vida que a comunidade inteira educa as
pessoas. A escola, é antes de tudo, um ordenador de informações. Para
o entrosamento com o meio, a comunidade e os líderes devem
permanentemente estar em contato com a escola. Quando a escola
pretende unicamente ensinar, apresenta ao jovem uma realidade
artificial e empobrecida. A escola é serviço e não dona do saber e
somente assim poderá ser escola para a vida (DOC.
MIMIOGRAFADO. FONTE CFR – 1971, p.04).
Os discursos da Pedagogia da Alternância defendiam uma escola integrada ao meio
social e cultural do educando. Movidos por influência do pragmatismo, dos ideais de
uma escola que estivesse a serviço da vida. Ainda quanto aos outros dois aspectos do
Plano de Formação da primeira turma de monitores, a dimensão sócio-econômica
imprimia uma abordagem da situação vivida no meio rural, das dificuldades encontradas
pelos agricultores e dos desafios que a EFA tinha diante dessa situação. Ou seja, a EFA
desde o início era colocada como uma possibilidade que estivesse a serviço da
promoção sócio-econômica do homem do campo, por isso, o monitor, em seu processo
de formação deveria entender que seu trabalho transcendia a escolarização e que
objetivava proporcionar uma formação que estivesse atendendo às necessidades
colocadas. Nesta mesma perspectiva, o aspecto técnico primava pelos conteúdos a
serem trabalhados nas disciplinas de Agricultura, Botânica, Zootecnia, Zoologia,
Administração Rural, Economia Rural, Engenharia Rural, Matemática, Português,
História e Geografia. O monitor recebia uma organização dos principais objetivos e
conteúdos a serem aplicados.
[...]-saber usar e explicar o funcionamento das máquinas simples; saber calcular razão; -saber calcular declive; - saber fazer uma
instalação elétrica; - saber justificar choques e outros fenômenos
práticos ligados à eletricidade; - saber jogar com os fatores de
produção; - calcular área; - conhecer as principais doenças dos
animais da região; - pastagem; - topografia [...] (DOC.
MIMIOGRAFADO. FONTE CFR – 1971, p.14).
Os conteúdos eram cuidadosamente selecionados para que atendessem a uma
necessidade imediata, ligada ao vivido pelo jovem do campo. O elenco de saberes, a
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forma como eram organizados e repassados aos monitores nos possibilitou perceber a
caminhada percorrida pelo CFR e, dos passos que foram dados em todos esses anos,
objetivando, uma formação mais participativa e protagonizada pelos próprios monitores.
Nesses 41 anos de existência, o Centro de Formação e Reflexão passou por três sedes. A
primeira foi em Anchieta/ES, onde formou duas turmas de monitores para atuarem nas
Escolas Famílias Agrícolas aqui criadas; a segunda foi em Vitória/ES, onde permaneceu
de 1973 a 1978, com uma maior facilidade de intercambiar com a Universidade Federal
do Espírito Santo e com o Governo do Estado. E, a terceira em Piúma/ES, onde
funciona atualmente. Nessa trajetória, ofereceu a formação inicial em duas modalidades:
Curso longo (2 anos) e a formação em serviço. O curso longo, hoje extinto,
proporcionava ao monitor no primeiro ano um período só de estudo no Centro de
Formação e no segundo ano, um período de estágio na família, em propriedades
campesinas e também nas EFAs. Ele contemplava uma carga horária maior para dar
conta dos saberes pedagógicos que muitos monitores necessitavam porque não
possuíam graduação e tinham apenas o curso técnico em nível médio. Desta forma, o
monitor ia se apropriando das mediações didático-pedagógicas da PA, dos saberes sobre
a docência e, simultaneamente, experimentando, por meio dos estágios, o significado de
uma Educação no Campo, as dificuldades enfrentadas pelas famílias e os desafios que
ele teria pela frente.
A partir de 1974, a formação proporcionada pelo MEPES passou a romper as barreiras
do Espírito Santo e se abriu a outros estados que estavam interessados em implantar a
experiência das Escolas Famílias Agrícolas. Desde então, o CFR passou a receber
monitores de outros estados brasileiros para realizarem a Formação Inicial na Pedagogia
da Alternância. Esse período se constituiu no verdadeiro fortalecimento do CFR e na
importância deste espaçotempo (ALVES, 2003) na formação dos docentes do campo e
na discussão da proposta de uma educação no campo. A equipe pedagógica viajava pelo
interior do país discutindo educação do campo junto às comunidades, pastorais,
movimentos sociais e divulgando o trabalho das EFAs. Tempos depois, retornavam
colaborando na abertura das mesmas.
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Com o passar dos anos, a equipe pedagógica do CFR foi redefinindo os Planos de
Formação dos monitores de acordo com os cursos oferecidos e de acordo com a
necessidade das EFAs. Um problema apontado pelo movimento, desde o início, era a
alta rotatividade de monitores. Diante disso, a partir de 1994, o MEPES criou a
Formação Inicial em Serviço para os monitores da rede, partindo também do princípio
de que a graduação era necessária a todos os docentes, ou seja, o monitor já deveria
buscar os saberes da docência num curso universitário. Esta, no entanto, foi sendo aos
poucos uma conquista de praticamente todos os monitores. E, o curso longo
permaneceu apenas para os monitores de outros estados. Nestas circunstâncias, o
monitor do MEPES poderia trabalhar já a partir do primeiro ano de formação, pois os
encontros foram organizados em módulos que possibilitavam essa dinâmica.
Podemos dizer que a implantação da Formação Inicial em Serviço também se constituiu
num marco na história do CFR, pois veio contemplar duas importantes questões: a
primeira, no entanto, também paradoxa, possibilitou formar monitores num curto
espaçotempo para atender a demanda das escolas existentes, porém, a qualidade do
curso ficou comprometida, pois foi necessário realizar muitos recortes no Plano de
Formação. As questões gerais de didática, sociologia, filosofia, psicologia foram
recortadas, entendendo dessa forma que na graduação o monitor já teria acesso a esses
saberes. A segunda, por outro lado, a Formação Inicial em Serviço, devidamente
fundamentada, o que foi sendo construído no processo, está em consonância com os
princípios filosóficos da Pedagogia da Alternância: Em Alternância, Por Alternância e
Para Alternância.
Portanto, atualmente o CFR vem realizando a Formação dos Monitores em três
modalidades: A Formação Inicial em Serviço, Formação Continuada e Formação por
Área. Além disso, desenvolve um trabalho junto aos agricultores, ex-alunos, mulheres e
ao setor agropecuário das EFAs. Todo esse trabalho busca imprimir os princípios do
CFR, que são:
-Propiciar à família do campo uma vida digna capaz de sua realização
sócio-profissional, resgatando os seus valores culturais, aberta ao
transcendente, em harmonia com a natureza e solidariedade humana
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para o exercício da cidadania;
-Proporcionar elementos de reflexão que possibilitem compreender a
realidade em que vivemos, tendo em vista a promoção humana e o
desenvolvimento do meio rural, atendendo as diversas necessidades,
por meio da Pedagogia da Alternância;
-Ser um espaço aberto e atuante para a formação continuada individual
e grupal, em sua sede e outros locais;
-Difundir a filosofia e a mística do MEPES em todas as suas ações a
fim de garantir aos envolvidos nesse projeto de formação unidade e
compromisso;
-Promover parcerias a fim de buscar ações concretas e integradas para
o
desenvolvimento
rural
sustentável
(DOC.
PROJETO
PEDAGÓGICO DA FORMAÇAO INICIAL EM SERVIÇO DE
MONITORES – FONTE CFR, 2005).
Os princípios colocados aparecem nos documentos e nos depoimentos como
norteadores da prática do CFR e também das EFAs. Percebemos sempre uma
preocupação com a reflexão, com a filosofia do MEPES de promoção humana e com a
mística própria do homem do campo.
A Formação Inicial em Serviço... diálogos teórico-práticos
De acordo com nossa pesquisa (JESUS, 2011) e experiência de trabalho podemos
afirmar que A Formação Inicial Em Serviço é uma condição para todos os/as
Monitores/as que iniciam o trabalho nas EFAs do MEPES. Seu principal objetivo é
proporcionar ao monitor iniciante um espaçotempo de produção dos saberes da
Pedagogia da Alternância e do contexto da Educação do Campo, seus pressupostos
políticos, filosóficos e metodológicos.
O Plano de Formação da Formação Inicial Em Serviço do MEPES tem sua base na
organização proposta pela equipe pedagógica da União Nacional das Escolas Famílias
Agrícolas do Brasil (UNEFAB), porém com uma ampla redefinição à sua realidade. Ou
seja, o CFR vem organizando suas formações de modo a garantir os princípios
filosóficos, metodológicos, políticos que são imprescindíveis na Pedagogia da
Alternância, no entanto dentro do contexto do Espírito Santo, das especificidades
regionais, sul, serrana e norte, bem como dos princípios defendidos pelo movimento
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MEPES.
A Formação Inicial em Serviço das EFAs do MEPES está em consonância com os
princípios da Pedagogia da Alternância. Por se tratar, de uma formação em serviço, um
dos primeiros critérios colocados ao monitor que deseja realizá-la é que este esteja
trabalhando numa EFA. Nesse sentido, por meio da sua atuação profissional e por meio
das discussões no processo formativo do CFR ele construirá seus saberes necessários à
prática com e na Pedagogia da Alternância.
Esse primeiro critério tem como pressuposto a Formação Em Alternância que
possibilita compreender o espaçotempo da EFA não apenas como um espaçotempo de
trabalho, mas também de formação. Assim como acontece no processo formativo dos
educandos, que refletem a prática de sua família, de seu meio sócio-profissional e levam
para a escola problematizando, aprofundando e depois retornando ao seu meio para
melhorá-lo e transformá-lo, o monitor em formação inicial tem por meio de sua
Alternância, CFR e EFA, a condição de produzir seus saberes a partir das necessidades
que emergem de sua prática. Essa prática é refletida nas formações, num coletivo de
monitores que socializam suas necessidades e que buscam saberes que deem conta da
realidade existente.
O segundo princípio norteador da Formação do Monitor é Por Alternância. É nesta
perspectiva que o monitor vivencia todas as mediações da Pedagogia da Alternância,
construindo por meio deles o elo necessário entre os dois espaçostempos de formação: a
EFA e o CFR.
A metodologia específica da Pedagogia da Alternância baseia-se no
tripé dialético: prática-teoria-prática. Ao itinerário da formação que
acontece em tempos e espaços diferentes soma-se um processo de
formação que parte da prática para a teoria e retorna à prática. Por
isso, a exigência de que os candidatos estejam atuando como
monitores numa EFA. Cada módulo no Centro de Formação é
precedido de uma preparação no meio sócio-profissional. Há um Plano
de Estudo a ser desenvolvido na EFA pelo/a monitor/a em formação. A
organização de atividades na EFA permite a verdadeira alternância
teoria-prática e trabalho-estudo. Sendo assim, podemos afirmar que
ocorre aprendizagem contínua na descontinuidade de atividades e de
espaços e tempos diferenciados. Ao partir da prática para aprofundar
teorias ocorre um processo de construção coletiva onde os
participantes são co-autores do conhecimento (PROJETO
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PEDAGÓGICO DA FORMAÇÃO INICIAL EM SERVIÇO-CFR2006, p.14).
Desta forma, Por Alternância os saberes dos monitores são construídos no uso das mediações
didático-pedagógicas que são próprias da Pedagogia da Alternância, proporcionando-lhe um
duplo lugar: ora como monitor aprendiz num processo formativo, ora como monitor num
processo de ensino junto aos seus alunos e, paralelamente de professor numa sala de aula, junto
aos seus alunos.
O monitor ao mesmo tempo que constrói saberes, os ensina; que se forma também trabalha, que
usa a metodologia da PA, suas mediações, também se apropria deles. Não há nessa dinâmica um
lugar fixo de aprendizagem do monitor. Seus saberes são construídos em diferentes
espaçostempos e de diferentes maneiras.
Como terceiro princípio a Formação Inicial em Serviço está para a Para Alternância. Isto
quer dizer, que seu principal objetivo é formar o monitor para trabalhar a Pedagogia da
Alternância nas Escolas que fazem uso dessa metodologia. Podemos entender que ela
existe para garantir a formação em saberes específicos dessa metodologia. Saberes que
não são construídos no processo formativo acadêmico, mas que dependem de uma
formação própria.
Portanto, a Formação Inicial em Serviço dos monitores do MEPES, é realizada em dois
espaçostempos, o Centro de Formação e Reflexão e a Escola Família Agrícola; por isso
entendemos que a EFA não é apenas o lugar onde o monitor trabalha, mas é também seu
espaço de aprendizagem, de formação. A Formação Inicial em Serviço traz como
princípios norteadores Em Alternância, Por Alternância e Para Alternância, numa
dinâmica contínua de construção de saberes próprios da metodologia da PA. Porém,
esses saberes estão constantemente em interface com os saberes que o monitor traz de
sua atuação profissional, de sua formação escolar e acadêmica e de sua relação com seus
pares.
Nesse sentido, a proposta Pedagógica da Formação Inicial em Serviço do Centro de
Formação e Reflexão do MEPES está organizada em 05 módulos com atividades na
Sessão no CFR e, com atividades na Sessão na Escola Família Agrícola. Cada módulo
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possui um objetivo, tema, conteúdo, atividades propostas, atividades na sessão EFA e
carga horária. Os módulos foram organizados a partir de objetivos e temas que
proporcionem um conjunto de conteúdos mínimos que o Centro de Formação e
Reflexão considera importante no processo de Formação Inicial em Serviço, tendo em
vista também que a Formação do Monitor é contínua. Desta forma, outros temas, outras
abordagens serão contempladas no processo de Formação Continuada e também nas
formações por área, onde o monitor atua.
De acordo com o CFR, os módulos propostos no Projeto da Formação Inicial em
Serviço devem contribuir para que o monitor (a) desenvolva saberes da docência,
saberes específicos da Metodologia da PA, saberes interpessoais e saberes do contexto
sócio-cultural e econômico do campo.
Para melhor compreendermos que saberes são engendrados no processo formativo
inicial dos monitores, nos propomos a realizar um diálogo com as categorias de Tardif
(2002) sobre a pluralidade de saberes, tais como ele as descreve: Os saberes da
formação profissional (das ciências da educação e da ideologia pedagógica) são
saberes advindos das ciências da educação e dos saberes pedagógicos; Os saberes
disciplinares - aqueles saberes que correspondem aos diversos campos do
conhecimento, saberes de que dispõem a nossa sociedade, organizados em disciplina e
integrados à Universidade; Os saberes curriculares _ saberes que correspondem aos
discursos, objetivos, métodos e conteúdos a partir dos quais a instituição escolar
categoriza e apresenta os saberes sociais por ela definidos e selecionados como modelos
da cultura erudita. Apresentam-se concretamente sob a forma de programas escolares
que os professores devem aprender a aplicar; Os saberes experienciais – tratam-se de
saberes específicos, desenvolvidos no exercício da função dos professores, baseados em
suas vivências, prática e conhecimento do seu meio. Tais categorias nos permitem
pensar que os saberes são diversos, fluidos e entrelaçados. Sua distinção nos abre a
possibilidade de romper com pressupostos de hierarquia de saberes e lugares fixos de
sua aprendizagem. Não obstante, ao analisarmos o Plano de Formação Inicial do CFR à
luz dessas categorias, conseguimos vislumbrar um emaranhado de saberes que se
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produzem por meio dos princípios da Pedagogia da Alternância, da metodologia
formativa e dos pressupostos culturais da Educação do Campo (FOERSTE, SCHÜTZFOERSTE 2010).
Neste sentido, 42,8% dos monitores da equipe do CFR quando perguntados acerca dos
saberes produzidos respondeu que a Formação Inicial em serviço contempla saberes do
currículo, da experiência, profissionais e disciplinares, buscando empreendê-los por
meio dos objetivos, temas e conteúdos trabalhados nas Formações; 28,5% afirmou que
os saberes mais valorizados são os saberes da experiência, pois, como a Formação
Inicial em Serviço parte da realidade vivida pelos monitores, sua vivência, seu trabalho
e suas experiências profissionais se constituem como ponto de partida de todo o
processo; 14,2% respondeu que saberes disciplinares e os saberes da profissão são os
mais valorizados e 14,2% não respondeu essa questão. No entanto, dentre estes, 28,5%
acrescentou que os saberes que deem conta das relações em grupo, da convivência são
também imprescindíveis e principalmente exercitados na formação dos monitores.
Desta forma, nos parece que não há uma supervalorização de saberes de uma categoria
em detrimento de outra. O que existe, segundo Tardif (2002) é uma amalgamado de
saberes que se entrecruzam nos processos de formação e trabalho do professor e ou
monitor.
Segundo o CFR, cada módulo segue a seguinte metodologia: 1º momento é de
colocação em comum das experiências vividas no campo de trabalho; 2º momento é de
aprofundamento teórico a partir do que foi apresentado pela realidade e 3º é de
preparação para retorno ao meio sócio-profissional do monitor. Isto quer dizer, que a
metodologia usada na formação do monitor é a mesma usada na práxis (FREIRE, 1988)
da EFA, especialmente no trabalho com o Plano de Estudos.
O primeiro módulo tem como objetivo discutir o que é o MEPES, além de ser uma
instituição filantrópica, quais são seus princípios, sua mística e o que vem
desenvolvendo no âmbito da educação, saúde e ação comunitária no Estado do Espírito
Santo. Os demais buscam contemplar temas voltados para a Educação, numa
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perspectiva Filosófica, Psicológica, Social e Ambiental. Os módulos ainda preveem uma
discussão e uma vivência de todos as mediações didático-pedagógicos que são
utilizadas pelas EFAs. Dessa forma, o monitor aprende fazendo uso dessas mediações
(plano de estudo, caderno da realidade, visita às famílias, caderno de acompanhamento,
colocação em comum...) em sua própria formação. Todo módulo prevê três momentos:
no primeiro dia os monitores fazem a colocação em comum das atividades realizadas na
sessão EFA, nos dias seguintes se realiza um aprofundamento teórico a partir das
questões levantadas, podendo as que estão previstas serem flexíveis, exceto alguma
palestra ou mesa redonda já marcada e depois o terceiro momento é a preparação das
atividades que serão realizadas na alternância – sessão EFA.
A avaliação também aparece em todos os módulos. É um processo realizado no coletivo
dos monitores que parte do que foi realizado e busca registrar o que foi positivo, o que
necessita ser melhorado e os encaminhamentos para as próximas formações.
No segundo ano de Formação Inicial o monitor realiza um Projeto de Pesquisa e
Experimentação Pedagógica, que de acordo com os nossos documentos e com os
depoimentos coletados nas entrevistas, têm como objetivo inserir o professor como
pesquisador de sua realidade. Essa é também uma oportunidade para o monitor
desenvolver a pesquisa, aprender como resolver situações do seu cotidiano e, além
disso, reunir condições teórico-metodológicas para trabalhar junto aos educandos, que
por sua vez também realizam um projeto profissional, como elemento de pesquisa.
Desta forma, podemos dizer que a Formação Inicial em Serviço do Monitor, realizada
no espaçotempo do CFR se constitui num momento de colocação em comum de suas
primeiras experiências de trabalho na EFA, suas angústias e seus sucessos; num
momento de aprofundamento e discussão sobre o referencial teórico da Pedagogia da
Alternância e num momento de fluir de novas interrogações que serão problematizadas
entre o monitor e seus pares e na sua própria atuação, num constante e incessante
movimento de busca por aquilo que não está pronto, mas que necessita ser sempre
repensado, reconstruído. Já no espaçotempo da EFA, sua formação se dá por meio do
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desenrolar das atividades de trabalho e pesquisa de questões da realidade, que
necessitam de problematizações. Ou seja, a Formação Inicial em Serviço, proporcionada
pelo CFR do MEPES se coloca como uma possibilidade de romper as barreiras físicas
da formação, do lugar fixo da aprendizagem, do rigor hierárquico de determinadas
disciplinas. Mas, nos remete ao resgate da experiência como um saber que entrelaçado a
outros potencializa a aprendizagem.
Portanto, compreender essa pluralidade de saberes, desconstruir a ideia de lugares fixos
de aprendizagem e valorizar o saber da experiência são desafios colocados à formação
docente e que se descortinam com êxito em experiências como a investigada neste
trabalho.
REFERÊNCIAS
ALVES, N. “No cotidiano se escreve uma história diferente da que conhecemos até
agora.” In: COSTA, M. V. A escola tem futuro? Rio de Janeiro: DP&A, 2003.
JESUS. Janinha Gerke de. Formação de Professores na Pedagogia da Alternância.
Saberes e Fazeres do Campo. Vitória-ES: GM, 2011.
FOERSTE, Erineu. SCHÜTZ-FOERSTE, Guerda. (Orgs). Educação do campo:
diálogos interculturais. Brasília: SECAD, 2010.
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. 18. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
_______, P. Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à prática educativa. São
Paulo: Paz e Terra, 2003.
TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. 3.ed. Petrópolis-RJ: vozes,
2002.
TARDIF, M. RAYMOND, D. Saberes, tempo e aprendizagem do trabalho no
magistério. Educação e Sociedade. N.º 73 – Dezembro, 2000.
________, M. Saberes Profissionais dos professores e conhecimentos
universitários: elementos de uma epistemologia da prática profissional dos
professores e suas conseqüências em relação a formação para o magistério.
Revista Brasileira de Educação. N.º 13 – Jan./Fev./Mar./Abr., 2000.
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