1 FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES E POLÍTICAS PÚBLICAS: CAMINHOS PARA A INCLUSÃO ESCOLAR Lucianna Ribeiro de Lima ESEBA/UFU – [email protected] Liliane dos Guimarães Alvim Nunes ESEBA/UFU – [email protected] Denise Bortoletto ESEBA/UFU – [email protected] Denise Silva Rocha ESEBA/UFU – [email protected] 1. Introdução e contextualização histór ica A inclusão do aluno com necessidades educacionais especiais no ensino regular tem sido um tema freqüentemente debatido por vários especialistas das áreas de saúde e de educação, bem como por órgãos governamentais, aspectos estes que têm contribuído para a efetivação de políticas públicas a favor do mesmo. Apesar dos avanços alcançados, muitas são as lacunas existentes, tanto no que se refere ao processo de inserção e permanência de alunos com necessidades educacionais especiais no ensino regular, quanto à própria formação dos educadores. Ao considerar os aspectos históricos da inclusão, o discurso sobre esta temática promoveu inovações, em especial para a educação escolar, uma vez que trouxe modificações até então distantes da realidade das crianças e adolescentes com necessidades educacionais especiais. Cabe resgatar o momento que legitima o atendimento educacional especializado no Brasil, ocorrido em 5 de outubro de 1988, com a promulgação da Nova Carta Constitucional Brasileira que prevê: Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: III – Atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino. (BRASIL, 1988, art.208, inciso III.) Em 1994 foi criado pelo MEC um documento que visava às ações e políticas voltadas à Educação Especial, ou seja, surgiu a Política Nacional de Educação Especial (BRASIL, 1994a, 1994b). Mas foi, sobretudo no ano de 1996, com a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei 9394, que se reafirmou nos artigos 58, 59 e 60 a preferência do atendimento dos alunos com necessidades educacionais especiais na rede regular de ensino (BRASIL, 1996). O que tem impedido que esta lei seja realmente cumprida na íntegra são alguns obstáculos como, por exemplo, a marginalização que os alunos com necessidades educacionais especiais sofrem, sendo muitas vezes julgados como incapazes. De acordo 2 com a literatura o paradigma da inclusão parte do princípio da igualdade de oportunidades; no entanto, verificase que a tão almejada igualdade está presente nos discursos políticos, nas legislações e distante da realidade vivenciada pelos alunos com necessidades educacionais especiais. Nesse sentido Mantoan (2003) reforça a importância de não se ter a igualdade como referência e complementa: se a diferença é tomada como parâmetro, não fixamos mais a igualdade como norma e fazemos cair toda uma hierarquia das igualdades e diferenças que sustentam a “normalização”(...). Contrariar a perspectiva de uma escola que se pauta pela igualdade de oportunidades é fazer a diferença, reconhecêla e valorizála (p. 32 e 33). De acordo com a resolução nº 2 de 11 de setembro de 2001 a Educação Especial é entendida como uma modalidade da educação escolar, entendese um processo educacional definido por uma proposta pedagógica que assegure recursos e serviços educacionais especiais, organizados institucionalmente para apoiar, complementar, suplementar e, em alguns casos, substituir os serviços educacionais comuns, de modo a garantir a educação escolar e promover o desenvolvimento das potencialidades dos educandos que apresentam necessidades educacionais especiais, em todas as etapas e modalidades da educação básica (BRASIL, 2001, p. 1). Diante do exposto, podese considerar que houve progressos significativos no que diz respeito à política de atendimento aos alunos com necessidades educacionais especiais, principalmente ao se considerar a ampliação dos serviços que compõem a Educação Especial, não mais restrita às instituições especializadas conforme ocorreu em seu surgimento. Neste sentido, a Educação Especial deixou de ser considerada uma educação paralela ou segregatória, passando a ser entendida como um conjunto de ações que a escola põe a serviço de uma resposta adaptada à diversidade de seus alunos. Vale mencionar algumas limitações advindas da própria organização da educação especial no Brasil. A primeira delas é o fato de ter se dedicado, primordialmente, ao atendimento da população que apresenta algum tipo de deficiência. A segunda referese à prática dos professores da educação ter se dado quase que exclusivamente em serviços especializados. Portanto, poucos têm formação adequada ao apoio desses mesmos alunos quando inseridos em escolas regulares, o que aponta para a urgência de ações destinadas à formação dos profissionais da educação (PRIETO, 2005). No contexto da educação inclusiva, Mantoan (2003) afirma que: 3 Se, de um lado, é preciso continuar investindo maciçamente na direção da formação de profissionais qualificados, de outro, não se pode descuidar da realização dessa formação e devese estar atento ao modo pelo qual os professores aprendem, para se profissionalizar e para aperfeiçoar seus conhecimentos pedagógicos, e também a como reagem às novidades, aos novos possíveis educacionais (p. 81). Assim, reafirmase a idéia de que criar leis não assegura a transformação de uma ideologia, que supõe que o próprio sistema social produza estratégias de enfrentamento das resistências e das contradições sociais. Então, o professor que não se reconhece “pertencente” a este processo terá muita dificuldade em incluir seu aluno. Stroili (2004, p. 47) afirma que “inclusão não é um projeto, é uma postura, é uma atitude que, senão estiver presente na relação professoraluno, impede a ambos de ‘pertencerem’, portanto falar de inclusão é falar de valores e direitos humanos”. Está claro que em termos legais é garantido ao aluno com necessidades educacionais especiais o ingresso, preferencialmente, na escola regular, sendo que a mesma não poderá negar matrícula a nenhum cidadão sob a justificativa de que não dispõe de meios para oferecerlhe uma educação de qualidade. Nesse sentido, a inclusão pressupõe a transformação dos espaços sociais, dentre os quais a escola tem papel preponderante, de modo a adaptarse às particularidades de seus alunos com vistas a uma educação realmente eficaz e viável a todos. A educação inclusiva parte do princípio de que todos podem aprender e que as diferenças devem ser respeitadas e trabalhadas. Por isso, a escola comum tornase um lugar fecundo para a construção de novos referenciais para os educandos; na convivência com seus pares, é que eles poderão crescer. Os alunos com necessidades educacionais especiais requerem um trabalho escolar específico, com ferramentas e posturas diferenciadas dos demais alunos, para que possam aprender e se desenvolver. Nessa perspectiva, a dificuldade apresentada pelo aluno não é o parâmetro fundamental, mas as potencialidades, as possibilidades de descobrir outras formas de conhecer. Incluir requer, portanto, uma postura crítica dos educadores e dos educandos em relação aos saberes escolares e à forma como os mesmos podem ser trabalhados. Incluir implica considerar que a escola não é uma estrutura pronta, acabada, inflexível, mas uma estrutura que deve acompanhar o ritmo dos alunos, em um processo que requer diálogo nos grupos de trabalho, na relação com 4 a comunidade escolar e com os outros campos do conhecimento, tais como a saúde, o desenvolvimento social, as universidades e outros. Um dos documentos mais importantes que visam à inclusão social e discute os princípios, as políticas e as práticas desenvolvidas na área das necessidades educacionais especiais é a Declaração de Salamanca. Esta defende que: Inclusão e participação são essenciais à dignidade humana e ao desfrutamento e exercício dos direitos humanos. Dentro do campo da educação, isto se reflete no desenvolvimento de estratégias que procuram promover a genuína equalização de oportunidades (...) Ao mesmo tempo em que escolas inclusivas provêem um ambiente favorável à aquisição de igualdade de oportunidades e participação total, o sucesso delas requer um esforço claro, não somente por parte dos professores e dos profissionais na escola, mas também por parte dos colegas, pais, famílias e voluntários. A reforma das instituições sociais não constitui somente uma tarefa técnica, ela depende, acima de tudo, de convicções, compromisso e disposição dos indivíduos que compõem a sociedade (UNESCO, 1994, p.5). Assim, toda escola deve fazer adaptações em sua estrutura para receber alunos com necessidades educacionais especiais (BRASIL, 1999). Quando a escola não tem condições de oferecer o básico, as parcerias são fundamentais, pois os alunos não podem esperar a escola se preparar. É necessário adotar uma postura ética, justa e solidária com todos os alunos. Para tanto, a escola deve procurar exercitar a interdisciplinaridade, desenvolvendo uma proposta de ensino baseada em um currículo integrado, com participação dos envolvidos no processo. Além disso, fazse necessário considerar a avaliação dos alunos de acordo com o seu desenvolvimento, reconhecendo suas habilidades e valorizandoo de acordo com seus saberes. É inegável que as relações sociais se estabelecem na heterogeneidade, sendo intrínseco em situações de ensino lidar com alunos que representam a diversidade da condição humana. Para Mantoan (2003): A escola não pode continuar ignorando o que acontece ao seu redor nem anulando e marginalizando as diferenças nos processos pelos quais forma e instrui os alunos. E muito menos desconhecer que aprender implica ser capaz de expressar, dos mais variados modos, o que sabemos, implica representar o mundo a partir de nossas origens, de nossos valores e sentimentos (p.17). Do mesmo modo é importante que a atuação da escola não se limite exclusivamente à valorização dos avanços cognitivos, pelo contrário, o tempo escolar precisa ser entendido como uma oportunidade essencial para a constituição da pessoa, sendo que este período repercute diretamente em toda a vida do aluno. 5 Dessa forma, é fundamental destacar o papel do professor, diante de alunos com necessidades educacionais especiais, em: · Colaborar com o desenvolvimento integral do aluno, respeitando as diferenças e valorizando as potencialidades de cada um; · Oferecer um espaço em que o aluno possa aprender e se perceber como sujeito ativo na construção do conhecimento, por meio de atividades individualizadas e, também, em grupo, para que haja uma cooperação entre os alunos e para que esse processo se desenvolva de forma conjunta, pois é na relação com o outro que o sujeito se constitui e se transforma; · Trabalhar em parceria com a equipe especializada que acompanha o aluno, dentro e/ou fora da escola, bem como com as respectivas famílias, com o intuito de ampliar as possibilidades de inclusão. Em contrapartida devese considerar que a proposta de inclusão escolar desencadeia nos docentes sentimentos diversos, sendo fundamental a esses profissionais receberem apoio de equipe multidisciplinar, bem como estarem em constante processo de formação. Além disso, adotar e assumir uma prática inclusiva dependerá, sobretudo, de uma disponibilidade interna do educador e de um apoio efetivo ao seu trabalho. O ofício do professor não pode mais ser visto como vocação, e sim como profissão que requer muito estudo, reflexão e uma prática realmente transformadora. A capacitação docente é um dos meios de começar a mudança na qualidade do ensino para criar contextos educacionais inclusivos, capazes de propiciar a aprendizagem de todos os alunos, respeitando ritmos, tempos, superando barreiras físicas, psicológicas, espaciais, temporais, culturais, dentre outras. A formação de professores para a inclusão escolar de alunos com necessidades educacionais especiais não deve se restringir a tornálos conscientes das potencialidades dos alunos, mas também de suas próprias condições para desenvolver o processo de ensino inclusivo. Com isso, entendese que, somente por meio de um trabalho integrado com toda equipe docente, os objetivos propostos na perspectiva da Inclusão Escolar serão atingidos. Vale destacar as contribuições da Psicologia Escolar (AZZI; SADALLA, 2000; BOCK, 2000; MEIRA & ANTUNES, 2003a; MEIRA, M. E. M. e ANTUNES, 2003b; SADALLA, 1998; TANAMACHI; PROENÇA; ROCHA, 2000; TRENTO; KOHL; REGO, 2003) e da Psicopedagogia (FAGALI, 2001; SCOZ, 2004) no sentido de propiciar espaços de formação continuada dos professores, auxiliandoos em sua prática docente, favorecendo o seu desenvolvimento pessoal e profissional. 6 2. Projeto Incluir: uma exper iência de pesquisa–ação na Escola de Educação Básica Tomando como ponto de partida a necessidade de implementar ações favoráveis à inclusão escolar, as psicólogas e psicopedagogas do Setor de Apoio Psicopedagógico e Social da Escola de Educação Básica da Universidade Federal de Uberlândia (SEAPPS/ESEBA/UFU) desenvolvem, desde 2006, uma pesquisaação intitulada Projeto Incluir realizada com alunos que apresentam necessidades educacionais especiais 1 , suas famílias e professores. Como abordado anteriormente, a discussão acerca da inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais no ensino regular vem acontecendo, cada vez mais, no cenário políticoeducacional brasileiro. Em consonância com as tendências educacionais, foram realizados na ESEBA, nos anos de 2003 a 2005, alguns encontros pedagógicos promovidos pela gestão 2003/2007 com o intuito de se refletir sobre o processo de inclusão, uma vez que, já há algum tempo, a escola tem se deparado com essa demanda em seu cotidiano. Tratase de crianças com necessidades educacionais especiais que, em virtude de apresentarem dificuldades importantes no processo de escolarização, acabam repetindo o ano, ou quando são promovidas, não conseguem acompanhar colegas da mesma faixa etária, uma vez que, as estratégias e conteúdos trabalhados com eles não atendem às suas especificidades. Nesse sentido, o Projeto Incluir tem buscado por meio de uma pesquisaação efetivar práticas inclusivas de caráter políticoadministrativo e pedagógico, contribuindo, inclusive, com a formação continuada em serviço dos professores para lidarem com seus alunos com necessidades educacionais especiais. Especificamente com esses docentes, esse projeto tem como objetivos: · Viabilizar planejamentos de ensino e estratégias de atuação junto ao aluno com necessidades educacionais especiais da Escola de Educação Básica da Universidade de Uberlândia (ESEBA/UFU) para que seja explorado seu potencial criativo, cognitivo, afetivo, social, entre outros. 1 Nesse trabalho, consideramse “alunos com necessidades educacionais especiais” aqueles com graves prejuízos no desenvolvimento e/ou aprendizagem que os impossibilitam acompanhar o trabalho escolar indicado para a maioria dos colegas de mesma faixa etária. Tratase de alunos que requerem um trabalho pedagógico diferenciado, com adaptações curriculares. 7 · Fortalecer as discussões sobre inclusão na ESEBA, promovendo reflexões permanentes sobre o tema, a fim de sensibilizar o corpo docente desta instituição sobre a urgência de se trabalhar nessa perspectiva. · Participar dos encontros e discussões para a definição na ESEBA sobre quem serão considerados “alunos de inclusão” e, portanto, com necessidades educacionais especiais. · Colaborar com a prática do professor em sala de aula, viabilizando aos alunos com necessidades educacionais especiais a participação efetiva das atividades escolares com seu grupo de referência e outros grupos, através de adaptações curriculares. 2.1. Metodologia de execução do Projeto Incluir O Projeto Incluir ocorre nas dependências da ESEBA e sua metodologia de execução envolve atividades diversas, de caráter formativo, envolvendo docentes, coordenação pedagógica, direção, equipe de apoio psicoeducacional, familiares e outros atores. No que tange às frentes de trabalho com professores, destacamse as seguintes ações: construção coletiva com os docentes de um plano de desenvolvimento individual, com metas a serem cumpridas a curto, médio e longo prazo; elaboração de avaliações que considerem a zona de desenvolvimento próximo e explicitem o que a criança pode vir a saber, favorecendo a interação e a mediação de outros no aprendizado e, portanto, no desenvolvimento das crianças; planejamento conjunto de atividades pedagógicas para cada aluno com necessidades educacionais especiais e acompanhamento deste trabalho; participação na elaboração das avaliações curriculares para os discentes; realização de eventos visando ao debate sobre o tema da inclusão. 2.2. A teor ia histór icocultural no contexto de uma educação inclusiva O projeto Incluir está fundamentado na teoria históricocultural, desenvolvida pelo psicólogo russo Lev Semenovitch Vigotski (18961934), que concebe o homem como sujeito ativo, inserido em um meio social e histórico concreto. Esta teoria foi elaborada tendo por base o materialismo histórico dialético proposto por Karl Marx e constituise, assim, como uma “psicologia marxista”, dando a essa ciência a função de “explicar como a partir do mundo objetivo (que é histórica e socialmente determinado) se constrói o mundo subjetivo do indivíduo” (Tanamachi & Meira, 2003, p. 23). 8 Uma das maiores contribuições de Vigotski referese à relação entre desenvolvimento e aprendizagem e traz repercussões favoráveis à escolarização. Segundo Vygotsky (2001), a aprendizagem ocorre em dois níveis: o nível real e o nível potencial; o primeiro referese àquilo que a criança consegue fazer sozinha e o nível potencial àquilo que ela é capaz de fazer com a ajuda de outra pessoa. Tal conceito é essencial para a compreensão do papel da escola na vida do aluno, já que, a partir do potencial de aprendizagem da criança é possível acessar sua zona de desenvolvimento próximo (ZDP), que equivale à diferença entre aquilo que a criança consegue fazer sozinha e o que ela faz auxiliada por outra pessoa. Deste modo, a escola deve se antecipar ao desenvolvimento da criança, oferecendolhe desafios e apoio para sua aprendizagem, movimentando e impulsionando seu processo de desenvolvimento. Na perspectiva históricocultural o homem é entendido como um “conjunto de relações sociais” (Vigotski, 2000, p. 33) e, dessa forma, se constitui de fora para dentro, do plano das relações sociais, interpessoais, para o plano intrapessoal. Com esse entendimento de que as pessoas constroemse socialmente, nas e pelas relações estabelecidas, a relação professoraluno tornase foco de análise, já que é no encontro com o outro que o eu partilha sentidos e significados diversos, constrói seu conhecimento e, portanto, se desenvolve. Destacase que a teoria históricocultural permite uma compreensão ampla e integradora do desenvolvimento humano, não o limitando a fases e processos lineares de constituição. Assim, conceitos de anormalidades e deficiências passam a ser analisados como parte de um contexto sóciohistórico concreto, o que implica reconhecer a historicidade das concepções científicas e das ações decorrentes delas. No que se refere à inclusão, é preciso entender que os parâmetros de normalidade e deficiência são culturalmente construídos e que, por isso, não podem ser concebidos de forma natural. Além disso, é essencial que o contato professoraluno com necessidades educacionais especiais seja permeado por contribuições teóricas que possibilitem o reconhecimento daquilo que a criança é capaz de fazer apoiada por alguém para que, futuramente, ela consiga alcançar o conhecimento de forma independente. 2.3. Reper cussões do Projeto Incluir Alguns desdobramentos e resultados já são notáveis desde a implantação do referido projeto de pesquisaação na ESEBA. Constatase que, gradativamente, tem 9 havido a sensibilização por parte do grupo de professores da ESEBA quanto à necessidade de se trabalhar de forma mais integrada entre as áreas de conhecimento, discutindo coletivamente planejamentos e executando propostas pedagógicas conjuntas para alunos com necessidades educacionais especiais. Além disso, muitos professores participantes do projeto relataram sentiremse amparados e respeitados nos encontros para discussão de casos de alunos com necessidades educacionais especiais, promovidos pelas psicólogas e psicopedagogas do SEAPPS/ESEBA/UFU. Tais encontros acontecem nas reuniões de diálogo 2 ou em momentos específicos de troca de experiências com profissionais da comunidade, uma vez que muitos professores sentemse despreparados para o exercício de sua função quando se deparam com alunos com necessidades educacionais especiais. Desta forma, criamse oportunidades de discussões voltadas para assuntos e demandas concretas, com base em situações reais, vivenciadas no cotidiano escolar. Outro aspecto a destacar diz respeito ao reconhecimento por parte de alguns professores da escola, quanto à importância de um trabalho em conjunto entre psicólogas escolares, psicopedagogas e professores no fazer docente. Nesse sentido, as profissionais do SEAPPS/ESEBA/UFU têm sido solicitadas a colaborar com o planejamento e execução de estratégias de aprendizagem para alunos com necessidades educacionais especiais. Tal participação não foi viabilizada com a freqüência necessária devido à incompatibilidade de horários e à sobrecarga de trabalho dessas profissionais na instituição. Por outro lado, apesar do envolvimento da maior parte dos professores, ainda verificase que alguns deles sentemse invadidos pela presença de profissionais de outra área em sua sala de aula, aspecto este perfeitamente compreensível ao se considerar a própria formação docente, que muitas vezes privilegia práticas tradicionais de ensino e aprendizagem. Além disso, persiste uma demanda por orientações exatas e precisas sobre o que fazer com determinados alunos para que acompanhem seus colegas, com expectativas de que todos os alunos aprendam no mesmo ritmo. 2 Reuniões de diálogo são espaços de discussão coletiva entre professores, realizadas em caráter quinzenal ou mensal, de acordo com a demanda específica de cada turma, coordenadas pelas psicólogas escolares e psicopedagogas do SEAPPS/ESEBA/UFU. Sobre esta frente de trabalho consultar: Nunes, L. G. A; Rocha, D. S; Lima, L. R; e Bortoletto, D. O diálogo com professores em grupos reflexivos – relato de uma experiência em psicologia escolar e psicopedagogia. In: ENCONTRO DE PSICOLOGIA ESCOLAR E EDUCACIONAL, 2, 2008. Anais do II EMPEE. Uberlândia: Instituto de Psicologia, 2008. 10 No que se refere ao envolvimento da direção da escola no Projeto Incluir , percebese que a mesma tem respaldado as ações e orientações advindas do processo, procurando adequar questões relacionadas ao fazer docente, como redefinição de horários, melhor utilização de espaços que auxiliem os alunos com necessidades educacionais especiais como plantão e recuperação, além de promoverem espaços de discussão de temáticas relacionadas à Inclusão Escolar, sustentados por indicação de bibliografia que fundamentem sua prática. Outro apontamento importante decorrente das discussões supracitadas referese à expectativa por parte da coordenação pedagógica e direção escolar em torno da diminuição do índice de repetência e de dependência em conteúdos específicos, bem como a reorganização dos espaços da escola destinados ao trabalho com alunos com dificuldades, tais como, plantão, oficinas de aprendizagem, recuperação paralela e aulas de dependência. 3. Considerações finais sobre a formação continuada de professor es em uma perspectiva inclusiva Diante do panorama que foi aqui apresentado, reafirmase a importância do papel a ser desempenhado pelo professor que trabalha com alunos com necessidades educacionais especiais, especialmente no processo de inclusão, sobretudo no que se refere à formação continuada. Esta deve contemplar conhecimentos específicos das necessidades educacionais especiais de seus alunos e o respeito à diversidade. Além disso, as exigências e responsabilidades para com a qualidade do processo educacional não devem ficar a cargo exclusivamente dos professores, mas de todos os atores envolvidos, incluindo as próprias instituições formadoras. Entendese que projetos que possibilitam a formação continuada de professores e viabilizam discussões coletivas envolvendo profissionais de áreas diversas tornamse imprescindíveis para que a inclusão escolar ocorra de fato. Ressaltase também a importância de o professor ser considerado como construtor de uma práxis que possibilite a reflexão e a ação no contexto em que atua, tendo condição de efetivar as adaptações pedagógicas necessárias. Para Mantoan (2003) no caso da formação inicial e continuada em relação à inclusão escolar, os profissionais devem ressignificar o seu papel de professor e de suas 11 práticas pedagógicas e de uma formação em serviço que também muda. Essa proposta de formação parte do saber fazer, pois possuem experiências, problemas reais e situações do diaadia, os quais funcionam como matéria prima das mudanças pretendidas pela formação. Glat e Nogueira (2002) apontam que a prática dos professores geralmente torna se alienada e desconectada da realidade dos alunos, e ressaltam que tal fato se deve, na maioria das vezes, às lacunas presentes nos cursos de formação e capacitação desses profissionais. Nesse sentido, vale destacar que para que os programas de capacitação docente sejam efetivos, precisam ter significado, isto é, devem considerar o professor como sujeito que pensa, reflete e constrói conhecimento, no contexto em que atua. Segundo Stroili (2004) as instituições precisam ampliar a escuta e o acolhimento ao professor e às suas angústias, refletir sobre elas e contribuir para a construção de novas práxis, mais coerentes com os princípios vigentes e com os valores humanos que devem orientar o processo educativo. Por fim, ela apresenta como estratégia auxiliar ao processo de inclusão, a tutoria como uma ação de apoio complementar ou de orientação ao aluno, que pode ser desenvolvida pelo professor, com a colaboração de alunos, de forma a ampliar a sua ação docente. Por meio das ações do Projeto Incluir percebese que a inclusão é um processo desafiador, que exige aperfeiçoamento constante. Concluise que a pesquisa, a troca de experiências, e o investimento na construção de vínculos, seja com os alunos, seja com seus pares, são recursos que o professor poderá buscar em sua trajetória profissional, promovendo mudanças pessoais e no ambiente de trabalho. Tais constatações encontram respaldo na proposta de Mantoan (2003, p.82), que afirma: “A cooperação, as autonomias, intelectual e social e a aprendizagem ativa são condições que propiciam o desenvolvimento global de todos os professores, no processo de aprimoramento”. Ainda há muito por fazer no sentido de oferecer condições aos docentes para alcançar a tão almejada inclusão, pois as experiências vividas no cenário brasileiro atual apontam a inexperiência, a insegurança e a formação insuficiente, fragmentada e desvinculada da verdadeira realidade das necessidades dos alunos. Ao se considerar que a inclusão está politicamente instituída, fazse necessário estimular uma formação adequada do profissional da educação, que valorize, ao mesmo tempo, a prática pedagógica e a formação acadêmica. Devese percorrer a idéia de educação continuada, visando à construção de um espaço para a pesquisa e a produção 12 do conhecimento como eixo norteador de um trabalho interdisciplinar, reafirmando a educação especial como parte integrante e indissociável do curso de formação do profissional da educação. 4. Refer ências Bibliográficas: AZZI, R. G; SADALLA, A. M. F. A. (org.) Psicologia e formação docente: desafios e conversas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002. BOCK, A. M. B. As influências do Barão de Münchhausen na Psicologia da Educação. In: TANAMACHI, E.; PROENÇA, M. e ROCHA, M. Psicologia e educação: desafios teóricopráticos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000, p. 1131. BRASIL. Constituição da República Feder ativa do Brasil, promulgada em 05/10/1988. 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