A HISTORICIDADE DO CONCEITO DE FORMAÇÃO CONTINUADA: UMA ANÁLISE DA VISÃO DE PAULO FREIRE SOBRE A FORMAÇÃO PERMANENTE Andréia Nunes MILITÃO Agência de fomento: FAPESP Yoshie Ussami Ferrari LEITE RESUMO: O presente trabalho é parte integrante da pesquisa de doutorado que investiga a ação do gestor enquanto articulador do desenvolvimento profissional dos professores. Neste trabalho pretende-se abordar a formação continuada no contexto atual da educação brasileira e a partir das ideias de Paulo Freire. A metodologia que percorre a construção do presente trabalho centra-se em pesquisa bibliográfica e análise de conteúdo, buscando apreender a concepção de formação permanente de Freire ao se referir aos processos de formação continuada efetivados no interior da escola. Partimos da constatação de que nas últimas décadas a formação de professores assumiu novo significado, em especial, com regulação dada a partir da LDB (lei nº 9394/96) e pelo FUNDEF/FUNDEB. No entanto, ainda prevalece tanto na esfera federal, na estadual como na municipal, políticas públicas centradas em ações formativas de caráter individualizado e com reduzido impacto sobre a qualidade da educação, desconsiderando o que os estudos acadêmicos vêem sinalizando como políticas mais eficazes, ou seja, a formação centrada na escola e abrangendo toda a equipe escolar. Temos, portanto, um movimento em que se opõe e convivem diferentes concepções sobre a formação docente, ora na perspectiva de reflexão sobre a prática, ora na perspectiva de treinamento e, ainda, na visão tradicional de suprir possíveis falhas e lacunas da formação inicial. Neste trabalho problematiza-se esta realidade a partir do pensamento de Paulo Freire, destacando o lugar da formação continuada nas políticas públicas atuais. Freire teoriza e experiencia a formação de professores, denominada pelo autor de ‘formação permanente’. Partindo da análise da obra Educação na Cidade, entendemos que Freire se antecipa ao debate intelectual, ao implementar durante o período que exerceu a função de secretário municipal (1989-1991), a ‘formação permanente’ no interior das escolas, considerando os saberes dos professores numa relação reflexiva junto com intelectuais de diferentes universidades paulistas. Na perspectiva freiriana, é preciso romper com os modelos tradicionais de cursos de férias e com práticas de formação que obliteram as situações de formação do cotidiano da escola, tornando-se necessário que os sistemas de ensino criem condições para a formação permanente dos professores e dos demais funcionários. Assim, a função daqueles que ocupam cargos administrativos, seja na secretaria de educação, seja no interior da escola, deve ser assumida como uma tarefa pedagógica e ao mesmo tempo política, rompendo-se assim com a imputação ao professor de toda a responsabilidade pela sua própria formação. A partir dessa análise, defendemos que Freire antecipa-se ao debate acadêmico ao tratar da formação, pois no final dos anos 1980 e início da década de 1990 já defendia a formação centrada na escola e com ênfase no processo de reflexão sobre a prática, posicionamento que só ganhou maior aceitação na última década. Palavras-chave: Política Educacional; Formação Permanente; Formação Continuada; Paulo Freire. 2 1. INTRODUÇÃO A percepção em torno da questão de que há muita formação e poucas mudanças na educação tem sido colocada por autores como Estrela (2006) e Imbernón (2009, 2010). Estrela (2006, p. 43), ressalta que “constituindo um dos sinais de mundialização das políticas educativas impulsionadas por organismos internacionais, como a OCDE e a UNESCO, a preocupação pela formação contínua de professores tem marcado o discurso e a agenda das políticas educativas dos últimos decênios, pelo menos nos países ditos desenvolvidos”. Na tentativa de compreender o porquê desse paradoxo, Imbernón destaca que “Talvez seja porque ainda predominem políticas e formadores que praticam com afinco e entusiasmo uma formação transmissora e uniforme, com um predomínio de uma teoria descontextualizada, válida para todos, estejam onde estiverem, distante dos problemas práticos reais, com base num professor médio que não existe”. (2009. p. 34-35) A busca de possíveis soluções para a crise educacional tem se limitado às políticas de formação continuada, expressas nas mais diversas formatações, na maior parte das vezes responsabilizando-se os docentes pelos problemas educacionais. Fato que evidencia a desconsideração do contexto de trabalho na elaboração de políticas para a área. Imbernón (2009, p. 10) lembra que “O contexto condicionará as práticas formativas e sua repercussão no professorado e, é claro, a inovação e a mudança”. Portanto, “A formação por si só consegue muito pouco se não estiver aliada a mudanças do contexto, da organização, de gestão e de relações de poder entre os professores”. (IMBERNÓN, 2009, p. 42) No Brasil, após a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, nº 9394/1996, foi se constituindo um cenário propício para atender as necessidades de formação que, em parte, decorrem das mudanças econômicas, políticas e sociais no contexto de uma economia neoliberal e, de outro, da baixa qualidade dos cursos de formação inicial que proliferaram no país, sobretudo, nas quatro últimas décadas para atender a massificação do ensino. Viabilizado pelo FUNDEF (1997), seguido do FUNDEB (2009) passou a ser um estruturado sistema de formação, porém de forma fragmentada e diversificada. Embora conste na LDB/1996 a importância da formação inicial e continuada, estas não foram efetivadas como um direito dos profissionais e como obrigação do Estado, ao contrário continuou na prática responsabilizando o indivíduo pela mesma. Assim, no Brasil a questão da formação não foi equacionada, ou seja, não é tratada como uma tarefa de Estado. No entanto, tornou-se uma exigência por parte dos 3 diversos sistemas de ensino e mesmo como uma necessidade dos professores para se obter melhores salários. Por esse motivo o debate em torno da formação docente tem permeado tanto os movimentos educacionais quanto as pesquisas acadêmicas, tratando tanto da formação inicial e formação continuada, da identidade e da profissionalização docente. Para André (2002, p. 13), há um silenciamento com relação à pesquisa sobre formação continuada na perspectiva dos professores, pois “as diversas fontes analisadas mostram um excesso de discurso sobre o tema da formação docente e uma escassez de dados empíricos para referenciar práticas e políticas educacionais”. A essas preocupações somam-se outras tais como: qual é o espaço de formação adequado, sugerindo-se que esse espaço seja a própria escola; a elaboração dos programas de formação continuada por políticos que por desconhecerem a realidade das escolas, acabam por elaborar programas que não correspondem às necessidades de formação do professor. Alguns estudos sobre formação continuada de professores (DI GIORGI, 2010; GATTI, BARRETO, ANDRÉ, 2011) sinalizam para “a importância de os professores serem propositores dos programas de formação contínua, a partir das necessidades que apontam”. Para Di Giorgi (2010, p. 15), a formação contínua pode ser definida como “um processo constante do aprender a profissão de professor, não como mero resultado de uma aquisição acumulativa de informação, mas como um trabalho de seleção, organização e interpretação da informação”. De modo geral, os programas de formação continuada têm sido implantados a partir do olhar dos gestores municipais e/ou estaduais desconsiderando, dessa forma, as reais necessidades formativas dos professores. Neste sentido, torna-se necessário que haja uma ressignificação da formação continuada, considerando os saberes e necessidades docentes, bem como o papel dos gestores escolares em propiciar espaços de formação no interior da escola. Observa-se que muitos dos programas de formação continuada acabaram por adquirir caráter mais compensatório do que propriamente de atualização. Partimos do pressuposto de que a formação inicial não se esgota em si mesma, ou seja, a formação contínua cumpre a função articuladora entre a formação inicial e as mudanças tanto no interior da escola, como do próprio sistema escolar. Portanto, os processos de formação continuada precisam estar em consonância com as reais necessidades dos professores com vistas a ‘fazer bem’ para os alunos. 4 2. FORMAÇÃO CONTINUADA: AINDA A QUESTÃO DAS TERMINOLOGIAS Em meados da década de noventa, Ana Maria Saul (1995, p.5) já defendia que “O paradigma que entende a formação de professores como sinônimo de ministrar altas doses de teoria que, por simples atos de transferência, serão aplicados à prática, está totalmente esgotado”. No entanto, estado da arte sobre as políticas docentes no Brasil, realizado por Gatti, Barreto e André (2011) identificou que, No que tange os tipos de ações de formação continuada, os dados revelaram que, tanto em estados quanto em municípios, as ações consistem geralmente em realização de oficinas, palestras, seminários e cursos de curta duração, presenciais e a distância, ofertados pelas próprias secretarias de Educação ou decorrentes de contratos firmados com instituições universitárias, institutos de pesquisa ou instituições privadas. (2011, p. 198 – grifo das autoras). Denota-se, dessa maneira, que após quase duas décadas, a constatação em torno do esgotamento dos processos formativos de caráter instrumental ainda permanecem. Para Gatti, Barreto e André (2011, p. 198) deve-se considerar que “Ao abordar as modalidades de formação continuada, é mais importante discutir como são conduzidas as ações formativas do que como são nomeadas, porque o “como” evidencia mais claramente a concepção de formação subjacente”. De outro lado, Marin (1995, p. 13) defendem que “[...] é com base nos conceitos subjacentes aos termos que as decisões são tomadas e as ações são propostas, justificadas e realizadas”. Antecipando-se ao debate dos especialistas, Freire defendia que “[...] formar é muito mais do que puramente treinar o educando no desempenho de destrezas”. (FREIRE, 1996, p. 15). Para Freire, a própria “natureza formadora da docência, que não poderia reduzir-se a puro processo técnico e mecânico de transferir conhecimentos [...]”. (2001a, p.39). Neste sentido, mantém a coerência ao ocupar o cargo de governo: Era preciso reorientar a política de formação dos docentes, superando os tradicionais cursos de férias em que se insiste no discurso sobre a teoria, pensando-se em que, depois, as educadoras põem em prática a teoria de que se falou no curso pela prática de discutir a prática. Esta é eficaz se vivermos a unidade entre a prática e a teoria. (FREIRE, 2001a, p.75). A formação continuada de professores recebeu e continua a receber diferentes denominações como reciclagem, capacitação, treinamento, formação contínua, formação centrada na escola, formação em serviço, dentre outras. Consideramos que a 5 discussão destes termos, mais do que simples debate semântico, envolve concepções sobre a formação de professores, após ingressar na carreira do magistério. Para Gatti (2008) não existe clareza sobre o que é considerado como formação continuada. Assim, encontra-se sob esta mesma denominação desde cursos realizados após a graduação até atividades genéricas encaradas como possibilidade de contribuir para o desenvolvimento profissional como reuniões pedagógicas, participação na gestão escolar, horas de trabalho coletivo na escola, congressos, seminários e cursos de diferentes formatos oferecidos pelas secretarias da educação ou outras instituições presenciais ou à distância. Marin (1995, 13) ao recuperar o sentido da expressão ‘reciclagem’, aponta que o termo “[...] sempre esteve muito presente, sobretudo na década de 1980, seja nos discursos cotidianos e órgãos de imprensa seja como qualificador de ações de órgãos públicos e privados, envolvendo profissionais de várias áreas, incluindo a educação”. Cabe ressaltar que “A base cientifica dessa forma de tratar a formação permanente do professorado foi historicamente o positivismo, uma racionalidade técnica que buscava com afinco na pesquisa educativa ações generalizadoras para levá-las aos diversos contextos educativos”. (IMBERNÓN, 2009, p.51) A incorporação dessa terminologia na área educacional tem estreita relação com “[...] a proposição e a implementação de cursos rápidos e descontextualizados, somados a palestras e encontros esporádicos que tomam parcelas muito reduzidas do amplo universo que envolve o ensino, abordando-o de forma superficial” (MARIN, 1995, p. 14). Ao problematizar a ideia de ‘aperfeiçoamento’, Marin ressalta que “A adoção dessa concepção desencadeou, entre nós, inúmeras ações de ‘capacitação’ visando à ‘venda’ de pacotes educacionais ou propostas fechadas aceitas acriticamente em nome da inovação e da suposta melhoria”. (2011, p. 17) Freire (2001a, p.72) já alertava na década de 1990 para os perigos desses modelos de formação que “Em lugar de apostar na formação dos educadores o autoritarismo aposta nas suas ‘propostas’ e na avaliação posterior para ver se o ‘pacote’ foi realmente assumido e seguido”. Trata-se, portanto, de uma política de formação calcada no controle do trabalho docente. Para Marin (1995, p. 19), o uso do conceito/expressão ‘educação continuada’ é mais abrangente, podendo “[...] ser utilizada para uma abordagem mais ampla, rica e potencial, na medida em que pode incorporar as noções anteriores – treinamento, 6 capacitação, aperfeiçoamento – dependendo da perspectiva, do objetivo específico ou dos aspectos a serem focalizados no processo educativo [...]”. Diniz-Pereira observa que com relação ao Brasil a concepção de que “a formação de professores não termina com a conclusão de um curso preparatório, seja de nível superior ou médio”, só se consolida nos anos oitenta. A partir desse momento a formação começa a ser tratada pelos estudiosos e mesmo na elaboração de políticas públicas como inicial sendo tratada também como pré-serviço e continuada ou em serviço. Segundo Placco “As expressões formação continuada ou formação contínua são frequentemente intercambiadas com o conceito de formação em serviço, assim como as expressões formação em contexto e formação centrada na escola”. A adoção dessas expressões tanto implica concepções como explicita a natureza da política de formação. Comumente usada nos discursos e políticas, a ‘formação em serviço’ é definida por Placco (2012) como um “Processo complexo que envolve a apropriação de conhecimentos e saberes sobre a docência, necessários ao exercício profissional, em que se toma a escola como lócus privilegiado para a formação”. Nessa perspectiva, o professor é visto “como sujeito capaz de criar e recriar sua própria formação, assumindo-se como protagonista desse processo”. Para Placco (2012), O processo de formação em serviço, em qualquer escola, precisaria atender a um conjunto de circunstâncias: a) estar, em primeiro lugar, atrelado ao projeto político pedagógico, organizado e implementado pelos próprios profissionais da escola; b) ser planejado coletivamente pelos educadores da escola, liderados pelos seus gestores (direção, coordenação pedagógica); c) prever espaços e tempos para que os processos formativos a serem desencadeados possibilitem a participação de todos, a reflexão sobre os fundamentos necessários à docência e a relação desses fundamentos com a experiência docente de cada profissional; d) garantir que o compromisso, seja dos gestores, seja dos educadores da escola, esteja voltado para o alcance dos objetivos pedagógicos e do desenvolvimento profissional, além do aprimoramento da prática pedagógica dos professores; e) possibilitar processos avaliativos contínuos para que as necessidades emergentes da escola e do próprio processo formativo possam ser incluídas. (PLACCO, 2012) Embora a terminologia ‘formação continuada’ ou ‘formação contínua’ tenha sido incorporada em maior medida nos estudos acadêmicos e em menor medida em documentos oficiais, concordamos com Gatti, Barreto e André ao afirmarem que “Podese dizer que, de modo geral, ainda prevalece uma concepção de formação transmissiva, 7 que se desenvolve sob a forma de palestras, seminários, oficinas, cursos rápidos ou longos”. (2011, p. 198) Imbernón (2009, p. 9) também destaca que “[...] apesar de tudo e todos, permanece, predominantemente, dentro de um processo de lições ou conferênciasmodelo, de noções ministradas em cursos, de uma ortodoxia de ver o modo de formar, de cursos padronizados implementados por experts, nos quais os professores são considerados ignorantes (“estupidização”, como diria Macedo [1994] e eu acrescentaria “estupidização formativa”) que participam de sessões formativas com experts que os “culturizam e iluminam” profissionalmente [...]”. Segundo Diniz-Pereira (2010), “[...] a noção de “formação” foi, por muito tempo, restrita ao atendimento a cursos de preparação de professores nas universidades, nas instituições de ensino superior ou de ensino médio (curso Normal)”. Essa perspectiva de formação desconsiderava que os espaços próprios da profissão onde se desenvolve o exercício da docência também eram lócus de formação. Com relação à realidade brasileira, Diniz-Pereira chama a atenção para o fato de que É importante frisar, no entanto, que em função das especificidades da educação brasileira, os termos “formação pré-serviço” e “formação em serviço” – traduzidos e adotados acriticamente a partir das expressões em inglês “preservice teacher education” e “in-service teacher education” – são bastante inapropriados por não se adequarem à realidade de várias regiões do Brasil, pois, como se sabe, existe ainda, no país, um grande contingente de pessoas que, ao ingressar em um curso ou programa de formação docente, em uma instituição de ensino superior, já atua no magistério há vários anos. A chamada “formação continuada” tornou-se, então, uma expressão bastante conhecida no Brasil, a partir dessa época. Imbernón (2009, p. 47) defende também que os modelos formativos que desconsideram e/ou que se distanciam da realidade vivida pelos docentes devem ser abandonados, pois “[...] primam os aspectos quantitativos sobre os qualitativos e possuem um marcado caráter individualista de origem de modelos transmissivos de caráter tecnocrático, mercantilista e meritocrático [...]”. Todavia, infelizmente, a “formação continuada” ou “contínua” que conhecemos configura-se, na maioria das vezes, em ações isoladas, pontuais e de caráter eventual. Portanto, trata-se de uma formação muito mais “descontínua” do que propriamente “contínua”. Ainda predomina a visão da oferta de cursos de curta duração – atualização, aperfeiçoamento ou, até mesmo, “reciclagem” (sic) – ou de pósgraduação lato sensu em que os temas e os conteúdos ali tratados não necessariamente refletem as necessidades formativas dos docentes. 8 Estamos vivenciando um processo de reconceitualização da educação continuada, onde “as propostas inspiradas no conceito de capacitação cedem lugar a um novo paradigma, mais centrado no potencial de autocrescimento do professor, no reconhecimento de uma base de conhecimentos já existente no seu cabedal de recursos profissionais, como suporte sobre o qual trabalhar novos conceitos e opções”. (GATTI; BARRETO, 2009, p. 202). As autoras destacam que, O protagonismo do professor passa a ser valorizado e a ocupar o centro das atenções e intenções nos projetos de formação continuada. Novos modelos procuram superar a lógica de processos formativos que ignoram a trajetória percorrida pelo professor em seu exercício profissional. (2009, p. 203). Outro componente presente nos processos de formação continuada que está marcadamente em destaque é o que Estrela (2006) denomina de ‘indústria da formação’. Assim, em consonância com a lógica do mercado cada vez mais presente na sociedade contemporânea, a formação passa a ser vista pela sociedade como mercadoria. Os professores passam a colecionar certificados – mesmo que para isso se preocupem mais em assinar as listas de presença do que em participar efetivamente desses instantes de formação – que podem significar um pequeno aumento percentual em seus já baixíssimos salários, mas que, geralmente, não trazem muitos ganhos para a melhoria de sua prática de ensino na sala de aula. (DINIZ-PEREIRA, 2012) Com relação aos temas priorizados nas ações de formação continuada, estes “[...] são orientados para o desenvolvimento do currículo. Essa constatação mostra que houve avanço na concepção de formação continuada, que parece estar passando de um conjunto de ações dispersas para ter foco direcionado à proposta curricular, ou seja, para o cumprimento das expectativas de aprendizagem.” (GATTI, BARRETO, ANDRÉ, 2011, p. 199) A investigação realizada por Gatti, Barreto e André (2011) constatou que nos estados e municípios pesquisados entre os principais obstáculos para implementar ações de formação continuada está “[...] não poder retirar o(a) professor(a) da sala de aula para participar das formações. Isso faz que as ações formativas sejam realizadas no período noturno ou aos sábados, o que provoca muita resistência”. As autoras identificaram também outras dificuldades tais como: déficit de formação inicial, rotatividade dos professores, resistência dos professores a falarem sobre suas práticas. 9 3. A FORMAÇÃO PERMANENTE NA PERSPECTIVA DE PAULO FREIRE Pretende-se discutir a partir do pensamento de Paulo Freire o lugar da formação de professores denominada pelo autor de ‘formação permanente’ nas políticas públicas. Consideramos que Freire teoriza e implementa a formação permanente de professores durante sua gestão (1989-1991) enquanto secretário de educação da cidade de São Paulo. Analisando um pouco mais detidamente algumas das considerações sobre a formação docente, que de forma às vezes explícita, às vezes implícita, embasam as políticas públicas na área, à luz da concepção de Freire. Entendemos que Freire se antecipa ao debate intelectual mais presente na atualidade, ao implementar durante o período que exerceu a função de cargo público a ‘formação permanente’ no interior das escolas, considerando os saberes dos professores numa relação reflexiva junto com intelectuais de diferentes universidades paulistas. Apoiado na premissa de ‘incompletude nos seres humanos’ Freire gesta, formula e implementa a concepção de formação permanente durante o período que desempenhou a função de gestor da educação na cidade de São Paulo. (FREIRE, 2001b, p. 65). Paulo Freire discorda da prática disseminada em vários estados e municípios em torno da formação de professores que tem valorizado mais a compra de ‘pacotes’ com doses de conteúdos considerados adequados para melhorar a qualidade da educação: Percebe-se como uma tal prática transpira autoritarismo. De um lado, no nenhum respeito à capacidade critica dos professores, a seu conhecimento, à sua prática; de outro, na arrogância com que meia dúzia de especialistas que se julgam iluminados elabora ou produz o ‘pacote’ a ser docilmente seguido pelos professores que, para fazê-lo, devem recorrer aos guias. (FREIRE, 2001a, p.71). Na contramão dessa tendência, Freire (1996, p. 43-4), destaca que “[...] na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão critica sobre a prática. É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática”. A melhora da qualidade da educação implica a formação permanente dos educadores. E a formação permanente se funda na prática de analisar a prática. É pensando sua prática, naturalmente com a presença de pessoal altamente qualificado, que é possível perceber embutida na prática uma teoria não percebida ainda, pouco percebida ou já percebida, mas pouco assumida. (FREIRE, 2001a, p.72). 10 Na mesma direção, Freire (1996, p. 24), destaca que a “reflexão critica sobre a prática se torna uma exigência da relação teoria/prática sem a qual a teoria pode ir virando blábláblá e a prática, ativismo”. Entendemos que a descontinuidade das políticas públicas destinadas à formação de professores precisa ser revista, pois conforme estudos da área, a interrupção de programas e processos de formação que começam a tomar sentido, além de levar ao descrédito, fazem com os mesmos não sejam incorporados no cotidiano escolar. (GATTI e BARRETO, 2009; GATTI, BARRETO e ANDRÉ, 2011). Para Lessard (2006 apud Gatti; Barreto, 2009, p. 235) somente por meio da implementação de uma política de formação que não se paute por tendências prescritivas e padronizadas e, ao mesmo tempo, que propicie eficácia e reflexividade que teremos de fato sucesso nos processos formativos e, conseqüentemente, melhoria na escola pública. Ao ser questionado sobre quais práticas constroem a competência do educador, Freire destaca “[...] a prática de ensinar que envolve necessariamente a de aprender a de ensinar. A de pensar a própria prática, isto é, a de, tomando distância dela, dela se ‘aproximar’ para compreendê-la melhor. Em última análise, a prática teórica de refletir sobre as relações contraditórias entre prática e teoria. A prática de sua formação teórica permanente”. (FREIRE, 2001b, p. 205) Não podemos cair num ponto de rejeitar o conhecimento universitário, o que seria um erro tão grave como na perspectiva oposta de desprezar o conhecimento gerado na escola. É preciso que, pelo contrário, desde os começos do processo, vá ficando cada vez mais claro que, embora diferentes entre si, quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado. É neste sentido que ensinar não é transferir conhecimentos, conteúdos nem formar é ação pela qual um sujeito criador dá forma, estilo ou alma a um corpo indeciso e acomodado. Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto, um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. (FREIRE, 1996, p. 25). Sobre o modelo de formação, cabe diferenciar o modelo ideal e o que comumente vem sendo aplicado, problematizando a ideia de que a lógica de racionalização da educação acaba por imprimir um caráter de treinamento à prática de formação que se mostra totalmente contrário à tarefa da educação nos moldes pensados por Freire. 11 Como educador, eu sei o que significa a formação. É por isso que brigo tanto com os americanos, pois resisto a aceitar que training equivale a formação. Formação é muito mais que training. Então, a formação dos educadores e a análise sobre ela tem muita importância. (FREIRE, 2001b, p. 227). Partimos da premissa de que a formação inicial não se esgota em si mesma, ou seja, a formação contínua cumpre também a função articuladora entre a formação inicial e as mudanças tanto no interior da escola, como do próprio sistema escolar. Portanto, os processos de formação continuada precisam estar em consonância com as reais necessidades dos professores com vistas a ‘fazer bem’ para os alunos, num processo que se pode chamar de prática reflexiva, embora consideremos que toda prática demanda certo grau de reflexão, no caso a ideia principal é de reflexão sobre a prática. A formação do professor não é um processo que se restringe a formação inicial, sendo mais do que uma necessidade do professor, trata-se de uma necessidade ética da qualidade de ensino e crítica da própria atividade. A responsabilidade ética, política e profissional do ensinante lhe coloca o dever de se preparar, de se capacitar, de se formar antes mesmo de iniciar sua atividade docente. Esta atividade exige que sua preparação, sua capacitação, sua formação se tornem processos permanentes. Sua experiência docente, se bem percebida e bem vivida, vai deixando claro que ela requer formação permanente do ensinante. (FREIRE, 2003, p. 28) Freire em sua experiência como gestor municipal também defendeu que Será privilegiada a formação que se faz no âmbito da própria escola, com pequenos grupos de educadores ou com grupos ampliados, resultantes do agrupamento das escolas próximas. Este trabalho consiste no acompanhamento da ação-reflexão-ação dos educadores que atuam nas escolas; envolve a explicação e análise da prática pedagógica, levantamento de temas de análise da pratica pedagógica que requerem considerando a reflexão sobre a prática e a reflexão teórica (FREIRE, 2006, p. 81). Para Freire, “[...] a tarefa da administração deveria ser assumida como uma tarefa pedagógica, altamente pedagógica e política. E creio que um Secretário, um Ministro, deve ter em sua administração o propósito de elevar a pedagogia, de testemunhar o seu trabalho pedagógico, formador”. (FREIRE, 2004, p. 211) Sobre as condições de trabalho aponta a necessidade de valorização profissional dos educadores para que se desenvolva uma educação de qualidade, que deve vir associada à formação permanente. Primeiro, é preciso um salário minimamente decente. Segundo, um verdadeiro respeito à tarefa do magistério. A educação e os 12 educadores têm que ser respeitados: respeito pessoal, trato cortês, decente, sério. Em terceiro lugar, a organização política do magistério deve ter como uma de suas tarefas a formação permanente dos professores. O poder público deve, por um lado, estimular e, por outro, ajudar as organizações do professorado para que cumpram o dever da formação permanente. E onde os próprios organismos sindicais não puderem fazer, que o faça o Estado. (FREIRE, 2001b, p. 219). Partindo-se do pressuposto de que a ‘educação é um ao político’, não podemos desconsiderar que a dimensão da formação também o é. Neste sentido, articular a questão da formação continuada, com a valorização da escola pública, como um espaço de afirmação da democracia e das oportunidades para as classes populares. É urgente que engrossemos as fileiras da luta pela escola pública neste país. Escola pública e popular, eficaz, democrática e alegre com suas professoras e professores bem pagos, bem formados e permanentemente formando-se. Com salários em distância nunca mais astronáutica, como hoje, frente aos de presidentes e diretores estatais. (FREIRE, 2003, p. 49). Este não é um processo que depende unicamente do professor, pois é necessário que os sistemas de ensino criem as condições próprias para que isso se torne possível, rompe assim com a imputação ao professor de toda a responsabilidade pela sua própria formação que deve, portanto, ser uma preocupação coletiva articulada com a política do Estado. O Estado pode ajudar, como tentamos na prefeitura de São Paulo, pagando horas para que os professores estudem. Se a educação é realmente uma prioridade, então é preciso conseguir o dinheiro para que os professores, em sua casa ou na escola, tenham horas para estudar dentro da jornada de trabalho. Os cursos de formação permanente devem ser pagos. A compreensão que o poder público tem do trabalho do magistério deve incluir as horas nas quais o professorado está se preparando para ser melhor professor. (FREIRE, 2001b, p. 219-20). É nítido o distanciamento desta proposta da lógica de responsabilizar o professor por sua própria formação, na lógica neoliberal, mercadológica e fragmentada que recebe criticas dos especialistas na atualidade. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Observa-se, que apesar de ter sido construído um consenso entre os estudiosos em torno da formação continuada, na prática, os processos formativos formulados e implementados pelos estados e municípios vêem indicando a permanência dos modelos 13 disseminados na década de 1980, sobretudo, aqueles pautados em práticas padronizadas e prescritivas. Neste sentido, torna-se prioridade vincular a formação continuada com a realidade das escolas, ou seja, superar o distanciamento das propostas de formação com a realidade escolar quer sejam aquelas oferecidas pelo poder público quer sejam aquelas ligadas às instituições privadas. Procuramos demonstrar no texto que os modelos e concepções de formação continuada sob uma lógica desarticulada e fragmentada hoje recebem críticas dos pesquisadores da área que defendem a relação entre o contexto da escola e a formação, parafraseando Freire a aproximação entre teoria e prática. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRÉ, Marli; SIMÕES, Regina H. S.; CARVALHO, Janete M.; BRZEZINSKI, Iria. Estado da Arte da Formação de Professores no Brasil. Educação & Sociedade, ano XX, nº 68, dez., 1999. BARBIERI, M. R.; CARVALHO, C. P.; UHLE, A. B. Formação continuada dos profissionais de ensino: algumas considerações. Cadernos CEDES. Educação Continuada. Campinas, Papirus, nº 36, 1995. BRZEZINSKI, Iria; GARRIDO, Elsa. Análise dos trabalhos do GT Formação de Professores: o que revelam as pesquisas do período 1992-1998. Set/Out/Nov/Dez., 2001 nº 18. DINIZ-PEREIRA, Júlio Emílio. Verbete ‘formação continuada de professores’. 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