JADER LUIZ FERREIRA GOMES O HOMEM CONTEPORÂNEO E SUA MODA: ANÁLISE DOS BLOGS SEM PALETÓ E NEONICO Viçosa – MG Curso de Comunicação Social/Jornalismo da UFV 2011 JADER LUIZ FERREIRA GOMES O HOMEM CONTEPORÂNEO E SUA MODA: ANÁLISE DOS BLOGS SEM PALETÓ E NEONICO Monografia apresentada ao curso de Comunicação Social/ Jornalismo da Universidade Federal de Viçosa, como requisito parcial para obtenção do título de bacharel em Jornalismo. Orientadora: Soraya Maria Ferreira Vieira Viçosa – MG Curso de Comunicação Social/Jornalismo da UFV 2011 AGRADECIMENTOS Tão trabalhoso quanto executar um projeto como este, é demonstrar o tamanho da gratidão por todos aqueles que ajudaram a completar esta etapa da minha vida. Por isso, por mais que palavras possam ser ditas, elas nunca serão suficientes. Primeiro, e acima de tudo, agradeço ao meu pai, por ter acreditado em mim até o último momento de sua vida. E a minha mãe, por continuar do meu lado. Aos amigos de Viçosa, pelos momentos que jamais serão esquecidos, foi bom saber que existem pessoas que nos amam sem que existam laços de sangue. Especialmente a Olívia, que foi a definição da expressão “juntos na riqueza e na pobreza”; a Luiza, por ter sido amiga desde o início até o fim; Marcela, que é a prova viva que a distância não diz nada; Ana Raquel, pelas conversas e por dividir suas histórias comigo; e a Sofia, por ter tido a honra de ser minha “roomate” mesmo que por poucas semanas. À cidade que, por mais que eu tenha sempre reclamado, foi minha casa durante quatro anos. Obrigado Viçosa, por ter me ajudado a crescer e a saber que o mundo é bem mais do que eu imaginava. E também por me fazer acreditar em sonhos e que sim, é possível realizá-los. Resumo: Influenciados por correntes de libertação de gênero, como o movimento feminista, e de libertação sexual, como o movimento gay, o homem fruto da contemporaneidade encara a moda masculina de uma nova forma. Menos tradicionalista e mais experimental, ele utiliza uma das principais possibilidades do mundo fashion, seu caráter de renovação, para compor sua nova imagem. Sendo assim, o homem do século XXI mudou, sem precedentes, as características que prevaleciam até meados do século passado. Para compreender como sua figura se transformou nas últimas décadas e o papel da moda nesta mudança, foi analisado o conteúdo dos blogs Sem Paletó e Neonico. Além disso, foram feitos estudos teóricos, o que também ajudou a desvendar a cara deste novo ser. Concluí-se que o novo homem é múltiplo e foge do tradicional, principalmente por mesclar características anteriormente típicas de cada construção sexual. Palavras-chave: homem contemporâneo; identidade; blogs; Neonico; Sem Paletó Abstract: Influenced by events of gender liberty, as the feminist movement, and sexual liberation, as the gay movement, the man, fruit of contemporary age, sees men’s fashion in a different way. Less traditional and more experimental, he uses one of the main possibilities of the fashion world, the constant renewal, to compose his new image. Thus, the twenty-first century man changed unprecedented the characteristics that prevailed until the middle of the last century. To understand how the male figure has become in recent decades and the role of the fashion in this shift, we analyzed the content of blogs Sem Paletó e Neonico. In addition, there have been made theorical studies, wich also helped to uncover of this new being. The conclusion is that the new man is multiple and runs away from traditional, mainly by features typical characteristics of each sexual condition. Key words: contemporary man; identity; blogs; Neonico; Sem Paletó SUMÁRIO INTRODUÇÃO............................................................................................................ 08 CAPÍTULO 1 - UM NOVO CONCEITO DE HOMEM.............................................. 10 1.1 - Moda e Identidade.................................................................................................. 13 CAPÍTULO 2 - HISTÓRIA DA MODA 2.1 - Do simples ato de vestir até o surgimento da moda............................................... 18 2.2 - O Conceito de moda e sua atual configuração....................................................... 21 CAPÍTULO 3 - MODA, MÍDIA E DIFUSÃO DE IDEAIS........................................ 28 3.1 - Sem Paletó.............................................................................................................. 31 3.1.1 – Conteúdo do Sem Paletó......................................................................... 32 3.2 - Neonico.................................................................................................................. 38 3.2.1 – Conteúdo do Neonico............................................................................. 39 CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................................................... 46 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................... 49 ANEXOS........................................................................................................................ 51 INTRODUÇÃO A moda é fenômeno que não se restringe a única função vestir o ser humano. Por isso, não podemos reduzi-la a um emaranhado de tecidos transformados em peças, que são criadas periodicamente por um determinado grupo de pessoas. Pensar moda está em elevá-la ao patamar de influenciadora de estilos de vida e de portadora de mensagens. Portanto, a moda está ligada com a forma de comportamento das pessoas e a interação entre elas. Está sim, presente nas criações e coleções dos estilistas famosos, mas também no movimento que acontece nas ruas, dentro das diferentes tribos urbanas. Reconhecer como funciona o mundo fashion é essencial para compreender que sua influência vai além do pequeno grupo que consome as grandes marcas. Já que também vai atingir as vitrines das lojas de departamento, onde os produtos, em menor ou maior escala, fazem parte de toda essa dinâmica e onde serão consumidos por maior parcela da população. Dentre as várias funções da moda, procuramos, por meio deste trabalho, entender sua relação com o homem da atualidade, sendo sua vertente masculina um ramo ainda marginal se comparado à feminina. Fato facilmente perceptível, por exemplo, pela quantidade de oferta de publicações de moda voltadas a cada um destes públicos1. O homem e a moda ainda são vistos, por alguns olhos defasados, com certo distanciamento, o que não deveria ocorrer. Pois, assim como a mulher, ele está sujeito, hoje mais do que nunca, às influências dos ditames do que é fashion em sua vida. Consequentemente, adentrar o mundo masculino contemporâneo, sua afinidade com a moda e conhecer como está se dando esta relação é uma realidade que se faz cada vez mais presente. Sendo assim, a busca por informações a respeito e o contato com esse tipo de material tornou-se rotina para muitas pessoas e a procura sobre o tema vem aumentando. Por isso, transformar o interesse pessoal em um conhecimento mais aprofundado, contribuindo por meio deste estudo com as pessoas que também se interessam e dialogar com elas, impulsionou a realização deste trabalho. 1 De acordo com o portal IG, existem cinco publicações nacionais voltadas aos homens. Já o Guia de Mídia lista 51 publicações femininas. Disponíveis em: http://colunistas.ig.com.br/modamasculina/2011/08/17/o-que-jornaleiros-acham-das- revistas-de-moda-masculina-brasileira/ e http://www.guiademidia.com.br/revistas/femininas-moda.htm 8 Desta forma, ler a respeito do assunto e suas implicações foi uma constante. Saber além do trivial e entender a complexidade que cerca o mundo da moda e sua relação com o homem tornou-se essencial. Para tanto, foi necessário que o ponto de partida estivesse na origem deste ser masculino contemporâneo, para,depois, descobrir outras questões, como quem ele é, por que é, de onde veio e para aonde vai. O ponto de partida, então, foi buscar pelo suporte teórico que contasse um pouco da história do metrossexual. Entender como se dá a relação com seu corpo, imagem e moda, e também qual é a mensagem que ele passa ou quer passar, ao considerar tais variáveis. O primeiro capítulo fala sobre esta parte, sem a qual não poderíamos entender o porquê da necessidade da moda como meio de expressão desta nova condição. Logo, fazer uma pequena imersão na história da moda foi o que guiou a confecção do capítulo seguinte, o segundo, que remonta às origens do vestuário desde a pré-história, passando pelo surgimento da moda, na Idade Média, até chegar ao momento atual. Neste movimento de intensa prospecção que é a moda masculina e, principalmente, considerando a importância que os meios de comunicação têm na vida da sociedade atual, tornou-se comum surgirem veículos especializados no assunto. Mas levando em conta que as revistas brasileiras voltadas ao homem que falam mais abertamente sobre moda são poucas, como já citado, e creditando a internet como um meio que apresenta possibilidades interessantes a respeito do tema, os blogs Sem Paletó e Neonico, que têm grande destaque quando o assunto é moda masculina, foram analisados. Este é o conteúdo apresentado no terceiro capítulo. Na última parte, as considerações finais, é feita uma análise comparativa, com maior aprofundamento, entre o que foi percebido no material analisado por meio dos blogs. 9 CAPÍTULO 1 - UM NOVO CONCEITO DE HOMEM O jornalista inglês Mark Simpson foi o primeiro a nomear o produto do movimento que deu novas características ao ser masculino quando, em 1994, classificou o homem contemporâneo como metrossexual, por meio de um artigo publicado no periódico The Independent, também da Inglaterra. Porém, em vez de se ater a nomenclaturas, é preciso saber que a imagem masculina se transformou ao longo das últimas décadas e que é fruto de algumas influências, como o movimento feminista e o movimento gay. Não sendo, assim, algo que passou a existir somente quando nomeado. É interessante destacar também que, apesar de o termo ter surgido na década de 90, foi apenas em 2002, quando Simpson voltou a falar sobre a metrossexualidade, que o assunto ganhou notoriedade. Mas, antes de qualquer coisa, é necessário falar sobre alguns conceitos que se relacionam intimamente e sem os quais não há como discorrer sobre o homem contemporâneo e sobre a moda masculina. Primeiramente, devemos estabelecer a relação entre: sujeito, corpo e linguagem. A ideia prevalecente por muitos séculos foi herdada do iluminismo francês, mais especificamente do pensamento cartesiano. O postulado “penso, logo existo” mostra a subjugação da ideia do corpo à ideia de um subjetivo superior. (SANTAELLA, 2006) Segundo Santaella (2006), “Descartes definiu o homem como (...) sendo de um lado, o corpo, um objeto da natureza como outro qualquer, de outro lado, a substância imaterial da mente pensante, cujas origens misteriosas, só poderiam ser divinas” (p. 14). Para Descartes, o corpo não teria a mesma importância da mente, ele creditava ao imaterial o protagonismo da capacidade de expressão do homem. Porém, assim como Santaella (2006), também questiono: “(...) se não há corpo, onde estaria o suporte de sustentação do sujeito?” (p. 15) Faz-se necessário entender se tal capacidade de expressão estaria relacionada somente ao abstrato, existindo independentemente da matéria, ou se as abstrações e o material eram estritamente necessários um ao outro para, neste caso, fazerem sentido. Torna-se, portanto, inevitável não se pensar que o meio com que as ideias possam ser conhecidas/difundidas e ganhar “corpo” seja, literalmente, por meio do corpo. É ele quem tem a capacidade de externar aquilo que primeiramente veio do “mundo obscuro” existente dentro de cada pessoa, funcionando como o espelho dos pensamentos. Desta 10 forma, sujeito e corpo têm uma forte ligação, em que um não pode existir sem o outro, quando é a expressividade humana que está em voga. “Enfim, mesmo quando se questionam os existencialismos e os binarismos, é difícil abdicar do corpo como material sobre o qual a cultura, a história e a técnica escrevem.” (p.16) Droguett (2001) também é fatídico ao afirmar que “o corpo é signo de uma mediação entre o mundo objetivo e o subjetivo.” (p. 33) Já o corpo, por sua vez, precisa de mecanismos que o identifiquem, que signifiquem algo, o que pode ser descrito como linguagem. É através da linguagem que os humanos constituem a si próprios como sujeitos, porque é apenas a linguagem que pode estabelecer a capacidade de a pessoa se colocar como sujeito, como a unidade psíquica que transcende a totalidade das experiências reais que ela reúne, produzindo a permanência da consciência. (SANTAELLA, 2006, p. 18) No entanto, de acordo com o que indica Santaella (2006) através do pensamento de Rose, a linguagem verbal não é capaz de, sozinha, atender toda a potencialidade expressiva do homem. “(...) um sistema gramatical, como uma relação entre pronomes colocada em jogo em instâncias de discurso, é insuficiente.” (p. 19) A autora completa a relação entre linguagem e subjetivação com a seguinte fala a respeito da obra de Deleuze e Guattari: “a subjetivação nunca é um processo puramente gramatical; ela surge de um “regime de signos e não de uma condição interna a linguagem” e esse regime de signos está preso a um agenciamento ou a uma organização de poder.” (p. 19) O que seria a moda, então, se não uma forma de linguagem repleta de signos que são reconhecidos segundo uma lógica agenciada? E, além disso, com o poder de transformar o corpo, não só através da indumentária, mas também de práticas que modificam os músculos, os ossos e, consequentemente, seus contornos. Ao considerar a moda como uma linguagem não verbal com artifícios capazes de comunicar algo ao mundo, tiram-se os estigmas de inutilidade e futilidade que, às vezes, são-lhes erroneamente empregados. “A analogia entre linguagem verbal e moda (...) é simples. Nessa ideia, palavras são como peças de roupa. E se o conjunto de palavras forma uma frase (capaz de comunicar), o conjunto de peças forma um look (capaz de transmitir uma mensagem com a mesma maestria).” (HARO, s/a, s/p.) Muitas são as formas com que uma roupa pode comunicar, dizer sobre quem a veste ou mesmo sobre uma determinada época. Certamente, há quem escreva melhor, assim se fazendo entender com maior clareza. O mesmo esquema funciona no campo da moda, e é o que 11 nos leva a concordar com Maria Fernanda Haro2 quando diz que “na moda, (...) ter o domínio desta linguagem significa criar looks mais interessantes, mais certeiros na transmissão daquilo que de fato queremos comunicar.” (s/a, s/p). Porém, não é só através daquilo o corpo carrega que recebemos informações sobre o indivíduo. O próprio corpo e as formas que este assume, têm muito a acrescentar sobre quem é ou o que pensa o sujeito que se está por trás dele. É assim que também pensa Droguett (2001), quando afirma ser o corpo o “signo visível de um interior invisível”. (p. 33) Todo o impacto que a moda e o corpo são capazes de produzir pode ser explicado pela força da imagem que, por diversas vezes, consegue dizer mais do que muitas palavras. Basta pensar em uma simples situação que exemplifica bem esta relação: quando duas pessoas são apresentadas, antes mesmo que haja qualquer tipo de verbalização, a primeira informação que estes indivíduos recebem sobre cada um deles é o que vestem, é o corpo que tem, enfim, suas respectivas imagens. Entra-se, então, naquilo que chamamos de identidade, quando podemos pensar nas diferentes formas que o corpo e a moda podem assumir para nos classificar perante os olhos de uma sociedade divida em grupos. Basicamente, enquanto a função da roupa se restringe à proteção, a moda tem um papel maior, que é a manifestação das identidades que, simultaneamente, segregará e/ou integrará o indivíduo nestes tais grupos. (QUEIROZ, 2009). E no que diz respeito ao corpo, não como mecanismo de funcionalidade biológica, mas como representante imagético, sua modificação, conforme moldes, também é ditada pela moda. “A moda (...) constituindo-se em tecnologia específica de construção, sempre instável e fugaz, de eus ansiosos por meio da transfiguração das aparências do corpo, um corpo volátil, que se transmuta à velocidade de um raio.” (SANTAELLA, 2006, p. 118) Porém, é preciso dizer que, apesar das transfigurações existirem, elas seguem determinados padrões e estes estão inscritos, atualmente, dentro da supervalorização dos corpos magros e frequentadores das academias de ginástica. Outra constatação é a enorme fluidez com que os indivíduos podem e transitam dentro de diversas identidades. Estas são, na verdade, camaleônicas. “A moda não uniformiza, ela aponta 2 Estilista, editora de moda e colaboradora da revista Aqui Vip no artigo “E se as roupas falassem?”. Disponível em: http://www.aquivip.com.br/noticias_exibe.php?rel=MzMy&id=MzMy 12 diversas possibilidades, e mesmo um dos milhões de homens do planeta pode ser vários homens em um dia só e a moda o ajudará nesse plano.” (QUEIROZ, 2009, p. 140) O vestuário, sendo uma das formas mais visíveis de consumo, desempenha um papel da maior importância na construção social da identidade. A escolha do vestuário propicia um excelente campo para estudar como as pessoas interpretam determinada forma de cultura para seu próprio uso, forma essa que inclui normas rigorosas sobre a aparência que se considera apropriada num determinado período (o que é conhecido como moda), bem como uma variedade de alternativas extraordinariamente ricas. Sendo uma das mais evidentes marcas de status social e de gênero – útil, portanto, para manter ou subverter fronteiras simbólicas -, o vestuário constitui uma indicação de como as pessoas, em diferentes épocas, vêem sua posição nas estruturas sociais e negociam as fronteiras de status. (CRANE, 2009, p. 21) Pode-se dizer que, paradoxalmente, a moda vive hoje um dos momentos mais democráticos de sua história e um dos maiores, se não o maior, ditador de ideais. Tal fato causa um grande desencontro entre o que a sociedade, no geral, quer ver e o que na verdade ela pode e tem para ver. Claro, não se pode negar que as possibilidades de expressão e do uso do vestuário são múltiplas, e que os recursos para as modificações corporais também. Porém, estes não deixam de estar inscritos dentro de determinados limites, como o supracitado culto à magreza. Percebe-se, então, que satisfação privada não é a única motivação que leva as pessoas a buscarem pela moda, seja nas roupas, seja no corpo, é o reconhecimento social que impulsiona e tem maior impacto nas escolhas. Já que quem não se enquadra ao que é considerado bonito e desejável, normalmente é excluído e olhado com desaprovação. Neste sentido, o vestuário tem variadas funções, algumas se modificaram e outras se mantiveram ao longo dos séculos, principalmente relacionadas à identidade. Mas de acordo com Crane (2009) “os cientistas sociais ainda não articularam uma interpretação definitiva de como o indivíduo constrói sua identidade social na sociedade contemporânea.” (p. 23). Com toda certeza, a dificuldade em se interpretar tal fato está nessa fluidez de estilos com a qual alguém tem a capacidade de ser vários eus em um só, o que não era comum nas sociedades precedentes. 1.1 Moda e Identidade Em seu livro “A moda e seu papel social – Classe, gênero e identidade das roupas”, Diana Crane (2009) analisa como se davam as relações entre moda e identidade pré-revolução industrial, durante e como acontecem hoje, em tempos pósindustriais. Nas sociedades pré-industrializadas, a rigidez quanto à forma de se vestir indicava claramente a posição de seu portador na escala social. Era tão preciso que, “em 13 alguns países, cada lugarejo e região do interior tinha suas próprias variações do traje da época.” (p. 23) Além disso, a valorização da roupa estava em outro patamar “até a Revolução Industrial e o surgimento do vestuário confeccionado por máquinas, as roupas geralmente se incluíam entre os mais valiosos pertences de uma pessoa.” (p. 24). Ainda no século XIX, vestir para uma família de classe operária era algo exorbitantemente caro. A mobilidade social ainda se desenhava e, dessa forma, adquirir peças de vestuário representava um investimento que deveria perdurar por muito tempo. “Na França, o terno comprado por um operário na ocasião de seu casamento deveria durar a vida toda e servir a uma variedade de usos, como missas dominicais, casamentos e funerais.” (p. 26) Mas foi durante o mesmo século, mais precisamente no final, que Crane (2006) aponta como o momento em que a roupa já estava se tornando passível de pertencer não só ao imaginário, como também à realidade das classes mais baixas. Tal característica era perceptível em um país como os Estados Unidos, que eram “geralmente considerados uma sociedade sem classes, caracterizada por um alto nível de mobilidade ascendente.” (p. 27) No século XX, o vestuário havia perdido gradativamente sua importância econômica, mas não simbólica, com a enorme propagação de roupas prontas de todas as faixas de preço. A oferta de roupas baratas significa que aqueles cujos recursos são limitados podem encontrar ou criar estilos pessoais que expressem a percepção que têm de suas identidades, uma vez que imitar estilos originalmente vendidos aos mais ricos. Se há registros, no passado, de um estilo de rua informal entre os trabalhadores, a proliferação de estilos de rua representando diversas subculturas dentro da classe operária só ocorreu nos últimos cinqüenta anos. Teoricamente, a moda é acessível às pessoas de todos os níveis sociais, tanto para criação de estilos que expressem sua identidade, quanto para adoção de estilos criados por empresas do ramo de vestuário. (CRANE, 2009, p. 29) O que temos hoje, e que fora iniciado ainda no apagar das luzes do século XX, é uma forma completamente diferente de se encarar o vestuário e a moda. As contradições entre a ideia de classes sociais diferenciadas pelo vestuário nem de perto são rígidas como antes. Mesmo a ideia de feminino e masculino, na moda, não é tão fixa quanto já foi há algumas décadas. Estas constatações têm a dizer que as classes sociais deram espaço às tribos urbanas, onde seus membros se identificam não só pela posição que ocupam na escala econômica, mas principalmente na maneira em que usam de sua imagem e da moda que vestem para deixarem claro aquilo que pensam. Da mesma forma, as criações com destino aos consumidores do sexo masculino deixaram para trás os cortes e padronagens tradicionais como as únicas possibilidades de um homem se vestir. A ambiguidade emergiu dos anos de 1990 e as identidades masculinas foram se 14 tornando múltiplas, saíram do banal. Salienta-se, no entanto, que a proximidade entre feminino e masculino não tem a função de igualar as aparências, mas sim de oferecer uma infinidade de novas representações para o homem contemporâneo. A mulher, por exemplo, já está inserida no guarda-roupa masculino desde que saiu do âmbito privado para se relacionar com o ambiente público, mas o inverso é um processo muito recente e ainda encontra dificuldades de adesão e até mesmo pode ser visto, pelos mais tradicionalistas, como transgressor. Porém, independente da desaprovação ou do espanto quanto às novidades da relação entre moda e homem, entendido aqui como o contemporâneo, é inegável a cumplicidade que eles têm, principalmente por assumirem um caráter de releitura. Ou seja, o homem vem descobrindo novas formas de ser e a moda tem como uma de suas características fundamentais, a reinvenção. FIGURA 1: Foto do movimento hippie na década de 70 (à esquerda) e foto de campanha publicitária de verão 2011 de uma marca de roupas (à direita) Outro ponto que precisa ser levado em consideração é que, além de já ser, por si só, caracterizada pela novidade, a moda pode ser a forma de expressão que outra novidade, nesse caso, o homem contemporâneo utiliza para se afirmar. Ou seja, ela é um meio eficiente de expressão, que serve não apenas para a exposição de uma nova coleção de roupas, mas também de algo que não se relaciona especificamente a ela. E sendo a moda portadora do poder de comunicação, alguém que tem a possibilidade de escolha entre determinadas peças, ao fazer a isso, expressa uma atitude, que o coloca como integrante de alguma “tribo”. Neste sentido, o metrossexual aproveitou-se da moda para se impor como tal, bem como a moda aproveitou-se do novo tipo de homem para se renovar, já que é isso que a mantém. 15 Descritos como metrossexuais por práticas que os diferenciam da figura masculina tradicional, a identidade desses homens contemporâneos é fluida por natureza. Eles não se utilizam dos mesmos recursos visuais e estéticos como meio de expressão. Mas é fato também que, enquanto um grupo, foram categorizados por diversos autores desde a década de 2000 e cada um deles foi enumerando características em comum o que possibilitou traçar um parâmetro, mas que, nem de perto, é fixo. Normalmente, as práticas desses homens metrossexuais que os aproximaram, os aproximam também das práticas tidas até então como tipicamente femininas ou dos gays, como uso de cremes e perfumes e a depilação. Não obstante, o homem contemporâneo recebeu grande influencia dos movimentos feminista e gay. O movimento feminista muda a ótica e a prática, questionando símbolos e significados arraigados e internalizados sobre a mulher (...). E o movimento homossexual reivindica sua especificidade como posicionamento e práticas sexuais como não-patológico. Ambos os movimentos questionaram suas posições na sociedade e reivindicaram visibilidade para suas causas. Este questionamento fez com que o modelo de masculinidade tradicional e das relações patriarcais fossem colocadas consequentemente em discussão. A partir destes movimentos o modelo tradicional de homem, e seu estatuto de universal e genérico, são cada vez mais questionados. (SANT’ANNA, 2005, p. 90-91) Extremamente necessário se faz saber que nem todo homem gay tem características físicas e temperamentais que se assemelham à condição feminina e que, na verdade, eles podem estar mais próximos à caracterização do homem tradicional do que do metrossexual. E, dessa forma, não se pode considerar o metrossexual como apenas o heterossexual que apresenta características tidas como não convencionais a ele, mas que a nomenclatura se estenda a qualquer tipo de homem contemporâneo, independente de sua orientação sexual. Mas o que Godói (2006) mostra é que as visões de algumas publicações brasileiras restringem o homem contemporâneo ao heterossexual que carrega características femininas. Como se todo homem homossexual fosse, por unanimidade, possuidor de tais características e, assim, que fossem todos metrossexuais de nascimento. Um trecho da revista Veja, apresentado no estudo de Godói (2006), revela esta visão propagada em suas páginas: 16 O que se define agora como metrossexualismo é apenas a ponta de lança de uma mudança maior. “Ele é resultado da exploração corajosa que alguns homens fazem de seu lado feminino sem serem gays e sem medo de serem confundidos com gays”, diz o psicólogo americano Alon Gratch. (...) “Estamos falando aqui de uma libertação masculina de costumes tão radical quanto foi a das mulheres. Os homens demoraram a aceitar que chorar, se emocionar, ser viciado em compras e proteger a pele com cremes não é defeito. Isso não os faz piores, mas modernos”. (VEJA, edição 1822, p. 65 apud Godói, p. 85-86, 2006) Não só Veja engrossa o time das revistas que aderem à ideia de uma metrossexualidade que se restringe ao homem heterossexual. Outro exemplo que pode ser citado é o da Galileu: Eles usam cremes para o rosto e corpo, praticam ginástica, cuidam do cabelo, fazem as unhas, depilam a sobrancelha, estão sempre vestindo as roupas da moda (e de grife) e – acredite – não são gays. Metrossexual foi o termo criado pelo jornalista inglês Mark Simpson para classificar o homem heterossexual que tem dinheiro, vive na ou próximo da metrópole e que se preocupa com a aparência. (GALILEU, número 155, p. 34 apud Godói, p. 93, 2006) Porém, se levados em conta apenas os aspectos visuais e de sensibilidade em detrimentos das práticas sexuais, pode-se dizer, categoricamente, que há simplificação e generalização da questão, já que o homossexual pode se aproximar da figura feminina heterossexual apenas pelo fato de ambos se relacionarem com pessoas do sexo masculino e não por sua aparência. Assim como não se pode generalizar que todo gay seja metrossexual, não se pode dizer que todo metrossexual seja igual. Além disso, é necessário dizer que a emergência de um novo tipo de homem não marcou a extinção daquilo que se tinha anteriormente. Homem contemporâneo e homem tradicional coexistem, bem como vestuário que se adeqúe a cada um desses perfis. O fato é que todo esse movimento mudou, sem premissas de um retorno ao ponto de partida, a imagem do homem que surgiu pós-influência das militâncias feministas e gay, especificamente na década de noventa e que vem se construindo até hoje, tornando-se essencial perceber a importância da moda como aprofundadora dessa experiência. 17 CAPÍTULO 2 – HISTÓRIA DA MODA 2.1 Do simples ato de vestir até o surgimento da moda O vestuário surgiu como meio de proteção do corpo humano aliado à necessidade de se resguardar o pudor. Logo depois, foi ganhando outras funcionalidades, como a de diferenciar pessoas dentro dos grupos. A característica de cobrir o corpo sempre foi uma necessidade, porém, sob o de vista do adorno, foi uma maneira que o ser humano encontrou de se impor aos demais, podendo-se, a partir daí, distinguir uma pessoa de maior poder aquisitivo, ou na época, a pessoa com mais bravura, apenas pelas suas vestes. Com isso, podemos afirmar que, independente de qualquer época ou lugar, a roupa sempre foi um diferenciador social, uma espécie de retrato de uma comunidade ou classe. Vestir-se de maneira diferente significava, então, demonstrar a hierarquia existente entre aqueles que conviviam e se relacionavam de forma organizada. Ou seja, o vestuário foi se tornando um fator social muito importante. Dessa maneira, torna-se necessário um pequeno retrospecto acerca do desenvolvimento do vestuário através do estudo da história da evolução das roupas de acordo com o tempo, desde antes do surgimento da moda até os dias de hoje. Analisando a forma com que as pessoas se vestiam desde as sociedades orientais antes de Cristo até a Antiguidade Clássica ocidental, percebe-se que pouco mudou com relação à estética de suas indumentárias durante vários séculos. Os povos mesopotâmicos, tidos como os pioneiros em civilizações humanas, vestiam-se com um traje conhecido como kaunakés, que era, basicamente, para os homens “um pouco curtos, chegando à panturrilha, e algumas vezes com o torso nu, ao passo que as mulheres vestiam seus trajes longos e cobriam o colo.” (BRAGA, 2005, p. 20) FIGURA 2: Vestuário kaunakés 18 A forma de se vestir era, por assim dizer, fixa. As mudanças eram muito sutis, o caráter de renovação ainda não tinha papel central ou mesmo era buscado. A roupa tinha funções que ainda não estavam de acordo o conceito de moda, que apareceu tempos depois. “Os povos primitivos, por exemplo, desconhecem o conceito (...). Tampouco a moda é algo que existe há muito tempo: no Egito antigo, por exemplo, nada no vestuário mudou num período de 3 mil anos.” (PALOMINO, 2002, p. 16) FIGURA 3: A estética da roupa egípcia ainda se assemelhava muito a das roupas mesopotâmicas Foi somente no fim da Idade Média, após a ascensão da burguesia, que a moda surgiu. A nova classe, enriquecida, via no vestuário uma grande possibilidade de aproximação com a nobreza, que se vestia de forma pomposa. Estes, quando perceberam a imitação, sentiram necessidade de buscar novas formas de vestir e, a partir daí, nasceu o sentimento de renovação das roupas e, consequentemente, as engrenagens da moda, já que toda vez que os burgueses adaptavam seu guarda roupas de acordo com a vestimenta dos nobres, estes precisavam, novamente, modificar algo no seu vestuário. Na época do Renascimento, não existia o conceito de costureiro ou estilistas, mas surgiam as primeiras pessoas responsáveis pela “produção” das peças para a nobreza, de acordo com que era pedido. Antes, no início do período que demarcou a passagem da Idade Antiga para a Medieval, os homens da Europa se vestiam com túnicas que “podiam ser mais curtas, de couro ou de tecido; eles usavam calções curtos denominados de braies, ou mesmo as calças longas atadas às pernas por bandas e tecido abaixo dos joelhos.” (BRAGA, 2005, p. 32) Quando a capital do Império romano precisou ser transferida de Roma para 19 Bizâncio, devido às invasões bárbaras que decretaram a derrocada do império no Ocidente, a seda foi o tecido eleito, sendo inclusive produzido em território próprio. FIGURA 4: Exemplo de braie Ainda como resultado dessas invasões, as relações comerciais e o poder centralizado não conseguiram sobreviver, o medo assolava o continente europeu e este, literalmente, se fechou. Foram formados os feudos, que eram comunidades baseadas no trabalho com a terra, onde a figura do senhor feudal era a de maior poder. Dividida basicamente entre senhores e seus vassalos, que eram os trabalhadores agrícolas, a sociedade desse período encontrava grandes dificuldades. Por isso, apesar da evidente diferenciação na maneira com que os estamentos se vestiam, os nobres não mais ostentavam como na época bizantina, devido à falta de recursos econômicos. Capas com capuzes, herdadas dos romanos, também fizeram parte da indumentária desse período como forma de proteção contra as intempéries, uma vez que a vida rural deixava as pessoas mais vulneráveis às inclemências. Para as campanhas, era comum o uso do couro ou tecidos mais resistentes, inclusive túnicas, podendo ser cobertas com placas metálicas, também como fator de proteção. (BRAGA, 2005, p. 37) Após a passagem do tempo e a diminuição do perigo representado pelos bárbaros, timidamente foram sendo restabelecidas as relações comerciais que praticamente se extinguiram na primeira fase Medieval, conhecida como Alta Idade Média. A retomada de antigos hábitos foi modificando, paulatinamente, a estrutura social e a figura do rei voltou a ter força, bem como a Igreja Católica, que se fortaleceu ainda mais. Foi durante essa nova fase, agora Baixa Idade Média, que a Igreja, através do então Papa, organizou os movimentos de Cruzadas, que tinham como objetivo evangelizar povos pagãos que estavam no controle de territórios de interesse católico. 20 “Além de certa unidade visual adquirida pela união dos povos em função das Cruzadas, a ida do europeu ao Oriente também influenciou a indumentária desse período (...)”. (BRAGA, 2005, p. 39) Outra coisa que se modificou foi a diferenciação entre vestuário masculino e feminino, que notadamente era inexpressivo até então. Na Baixa Idade Média, o homem se vestia da seguinte forma: (...) usavam meias, fossem de lã ou de linho, muitas vezes coloridas, que eram cortadas no formato da própria perna, além dos calções longos chamados de braies, presos à cintura por um cadarço. As túnicas foram se encurtando, transformando-se assim no gibão, e os calções forma diminuindo a ponta de cada vez mais as pernas, cobertas pelas meias justas, ficarem à mostra. Muito comum para a moda entre os meados dos séculos XIV e XV, especialmente para os homens, foram os sapatos de bico pontudo, significando seu grau de nobreza. Quanto maior o título do indivíduo, maior era a permissão de usá-lo como bicos extremamente pontiagudos. (BRAGA, 2005, p. 40) Como dito anteriormente, foi nesse período de transição entre a Idade Medieval e o Renascimento que a moda surgiu possibilitada pelo enriquecimento comercial dos burgueses mercantilistas. “Percebemos, de um modo geral, que a indumentária deste período foi marcada pelo uso excessivo de tecidos, (...) o corpo era praticamente o suporte de muitos volumes têxteis”. (BRAGA, 2005, p. 41) No entanto, apesar do surgimento das características que deram vida à moda, ainda na Idade Média, a popularização das peças, de fato, só se tornou possível com a reprodução em larga escala, a partir do desenvolvimento tecnológico proporcionado pela Revolução Industrial. E não só a reprodução, mas as mudanças em si puderam acontecer de forma mais ágil e frequente. 2.2 O Conceito de moda e sua atual configuração De boa e simples compreensão é a definição para o termo moda feita por Érika Palomino (2002). Em seu livro “A Moda”, a escritora e jornalista discute sobre alguns conceitos básicos que se relacionam com essa esfera social. Ela define a moda como: (...) um sistema que acompanha o vestuário e o tempo, que integra o simples uso das roupas no dia-a-dia a um contexto maior, político, social, sociológico. Você pode enxergar a moda naquilo que escolhe de manhã para vestir, no look de um punk, de um skatista e de um pop star, nas passarelas do Brasil e do mundo, nas revistas e até mesmo no terno que veste um político ou no vestido da sua avó. Moda não é só “estar na moda”. Moda é muito mais do que a roupa. Você enxergará melhor a moda se conseguir visualizar uma evolução. Pense no jeito que as pessoas se vestiam nos anos 70 e depois nos 80 e tente, ainda, achar um denominador para o que as pessoas usavam na década de 90. Essas mudanças é que são a moda. Ao acompanhar/retratar/simbolizar essas transformações, a moda serve como reflexo das sociedades à volta. É possível entender um grupo, um país, o 21 mundo naquele período pela moda então praticada. (PALOMINO, 2002, p. 15) No século XVII, encontramos o período da história em que a moda masculina ganhou grande destaque, sobressaindo-se inclusive à feminina. O responsável por isso, sem dúvida, foi o rei francês Luís XIV, que conseguiu impor aos demais Estados-nações da Europa o estilo de Versailles. O vestuário dos homens se tornou tão ornamentado quanto o das mulheres. Os detalhes eram muitos, abusavam dos bordados e das rendas, tanto que o calção que usavam, chamando de coullote, estava mais próximo de uma saia do que de um calção, de fato. “Na última década do século XVII, surgiu para o homem uma espécie de gravata de renda, ou mesmo de tecido adornada de rendas.” (BRAGA, 2005, p. 49) FIGURA 5: Luís XIV No século XIX, a roupa ainda estava muito relacionada com a atividade que a pessoa desempenhava, ou seja, era o trabalho que definia o estilo pessoal de cada um. O homem se vestia de acordo com o cargo que ocupava. Operário ou chefe, sua roupa dizia claramente quem ele era. E, dessa maneira, permaneceu pelo menos até a metade do século posterior. Vale ressaltar que o estilo de roupa não o acompanhava somente nas horas de trabalho; ela fazia parte também de suas horas de lazer. Não havia uma separação clara, que veio a surgir posteriormente. Até recentemente, coibidos pelas normas de vestuário estabelecidas pelas organizações que empregavam, os homens, em sua maioria, não podiam desviar-se muito de um padrão de aparência masculina durante o dia. A maior parte do orçamento destinado ao vestuário seria muito provavelmente reservada para a aquisição de roupas de trabalho. Enquanto os indivíduos que ocupavam posições de maior prestigio usavam ternos de trabalho, os trabalhadores das classes operarias e média baixa usavam roupas profissionais, muitas vezes consistindo em uniformes que indicavam de forma clara e instantânea o status de quem os vestia (...) ( CRANE, 2009, p. 343) 22 Porém, paradoxalmente, foi ainda neste século, o XIX, que também surgiu o que pode ser considerado o pai do homem contemporâneo: é a figura do dândi, uma espécie primitiva do metrossexual. Esta figura ganhou grande destaque em países europeus. Segundo Mario Queiroz (2009), “na Inglaterra, Brummel se autointitulava dândi, trazendo o valor da distinção através do esmero em cada detalhe ao se vestir. A inspiração dandista ensinava o aristocrata a diferenciar-se do proletariado ou do burguês (...)” (p.71) Mas não só os ingleses foram influenciados pelo vestuário dândi. Na França, outro exemplo deste estilo ganhou notoriedade. “Fino e elegante, Baudelaire era uma figura exótica, diferente, sempre distinta e perfumada, com cabelos bem curtos e barbeado.” (QUEIROZ, 2009, p. 73) FIGURA 6: O visual dândi É Importante ressaltar que se tratava de estilos diferentes do dandismo. Enquanto na Inglaterra Brummel era conhecido pela sobriedade e maneira discreta, porém impecável e detalhista de suas roupas, o dândi francês, Baudelaire, era excêntrico e fugia a todos os padrões. Mas quem de fato rompeu barreiras foi o escritor Oscar Wilde que além da relação diferenciada com a roupa assumia sua homossexualidade. (QUEIROZ, 2009) O que mais nos interessa nesse período, representado pelas figuras de Brummel, Baudelaire e Wilde, é a importância dada à vaidade ao vestir-se. Estes se tornaram os formadores de opinião, a partir de suas imagens os homens projetavam seus estilos, para mais ou menos ousado. (QUEIROZ, 2009, p. 74) O século XX foi, sem dúvidas, marcado pela imensurável evolução da moda. Desde o seu início, com a consagração da francesa Chanel no cenário, que é considerada o maior nome da moda dos últimos tempos, ao aparecimento das tribos e do homem contemporâneo. 23 Como legado do campo de batalha, o vestuário masculino era uniformizado e traduzia-se simplesmente em calça e paletó. Na década de 20, a mulher experimentou a androginia, ao largar a silhueta que marcava o corpo e assumir as roupas de corte tubular. Androginia essa que o homem revisitou décadas depois, já nos 90. Mas, ainda na segunda década, ele ganhou uma nova versão do terno, o smoking. Na posterior, o cinema hollywoodiano foi o grande influenciador da moda, mesmo com a crise que afetava o mundo e, principalmente, os EUA pós 1929 com o “crash” da bolsa de valores de Nova Iorque. Foi nesse período que também ganharam destaque as roupas que se utilizavam para a prática esportiva. O banho de mar e o bronzeamento tornaram-se muito comuns, essa popularização levou a diminuição das roupas que se usavam para tal. No que diz respeito especificamente ao vestuário masculino, pouco se modificou, nada além da largura nos ternos extremamente formais. A Segunda Grande Guerra instaurou um período de recessão e carregou consigo a moda, que se restabeleceu após seu fim, principalmente em solos norte-americanos, visto que as batalhas se deram, de forma geral, na Europa. A moda masculina ainda estava estagnada, mas os 40 também representaram uma evolução, pois foi o momento em que nasceu o conceito, hoje tão difundido, de tribos urbanas. É assim que a moda se alia aos jovens pela primeira vez, e trabalhando no sentido de identificá-los de acordo com seus grupos. Os anos 50 foram fortemente influenciados pelo “New Look” de Dior, de 1947, que significou uma reformulação na roupa feminina, com cintura muito marcada e saia volumosa. Os homens revisitaram o estilo de terno do início do século: paletós compridos e calças mais justas, porém abandonaram o colete. Foi também nesta mesma década que os jovens norte-americanos começaram a buscar uma identidade própria para a sua moda, associando-a a determinados comportamentos. (...). Para os rapazes mais ousados, ou melhor, para os rebeldes, a calça jeans com a barra virada e a camiseta de malha compunham o visual. Essa rebeldia veio por influência do cinema por meio de ídolos como James Dean e Marlon Brando; e também da música, ou melhor, do rock and roll de Elvis Presley. Cabelos com brilhantina, topetes e costeletas faziam parte do visual dos rapazes jovens. (BRAGA, 2005, p. 8586) Até a década de 1960, mesmo estudantes vestiam ternos para frequentar as aulas. O panorama mudou quando o jeans deixou de ser visto como peça de vestuário típica de trabalhadores de serviços pesados, característico principalmente do desbravador do 24 oeste estadunidense, e tornou-se queridinho da classe média ao elegê-lo como item ideal para seus momentos de lazer. FIGURA 7: James Dean, ícone hollywoodiando: Jeans, couro e cabelo. Foi, definitivamente, a partir daí que a moda masculina ganhou significativas mudanças, os tradicionalismos foram perdendo espaço para experimentações que refletem até hoje no vestuário do homem. A moda ganhou característica unissex e peças como jaquetas com zíper, golas, sintéticas, calças justas, cores e estamparias estavam no guarda-roupa deles. Na década de 1970, era uma peça amplamente aceita por ambos os sexos e havia se tornado um item da moda, cujas características mudavam um pouco a cada ano para as vendas. Os estilistas alteravam sua forma para destacar suas conotações eróticas e o transformaram em uma peça de luxo ao aumentar seu preço. (CRANE, 2000, p. 347) O período foi de grandes variedades, foi a época em que a cultura hippie influenciou boa parte da juventude, que queria contestar os valores vigentes na sociedade e, como consequência, sua forma de se vestir. Foi também o de exaltação ao romantismo com a onda new romantic e a explosão de estampas florais delicadas e cores mate. Ao mesmo tempo, os tecidos sintéticos ultracoloridos faziam parte do visual disco. A confluência de movimentos durantes os 70 assistiu ao nascimento do glam, que eram os jovens que se inspiravam nas principais figuras da música; do black, ou movimento negro, privilegiando a cultura africana e caribenha, com seus característicos cabelos armados e volumosos e também do punk que ganhou contornos e se fortaleceu ainda mais na década de 1980. “O look adotado por eles foi o da roupa rasgada, jaquetas de couro preto, botas surradas e muito detalhe de material metálico (...)” (BRAGA, 2005, p. 93) O advento desta década marcada por Madonna e Michael Jackson se 25 tornando ícones da música pop é também o dos antagonismos, possibilidades e experimentações, convivendo sem brigas, dentro das mais diversas tribos urbanas. A democracia é a palavra que descreve a moda oitentista no que diz respeito à vestimenta, mas o corpo precisava, mais do que nunca, estar dentro das academias. Sem chances de desaparecerem, ou melhor, muito pelo contrário, as tribos urbanas só se multiplicavam. Nos anos 90, o grunge, os clubbers, as drag queens, demonstravam como a moda era dinâmica e comunicativa. A liberdade era o que comandava, dessa forma as incorporações de um estilo ao outro não só foram possíveis como aconteceram. “A falta de identidade passou a ser a própria identidade (...). É a metáfora da globalização na moda; (...) a reunificação das Alemanhas em 1990 e, obviamente, a união a aceitação de pessoas conceitos, valores e culturas.” (BRAGA, 2005, p. 101) FIGURA 8: A moda clubber O final do século XX foi o ponto de partida para a virada nas relações da roupa de trabalho com a identidade do indivíduo, as quais podemos ver atualmente. “(...) os estilos do vestuário masculino de classe média usados hoje em dia no ambiente de trabalho coexistem com uma gama de estilos completamente distintos.”. (CRANE, 2009, p. 345) A elevação do lazer a uma necessidade humana contribuiu, definitivamente, para isso, já que a roupa do horário informal ganhou novo valor simbólico e tornou-se usável, claro que dentro de determinados limites, dentro das relações de negócio. Isso foi, segundo Crane (2009), uma “(...) tendência, verificada entre homens de negócios da Europa e dos Estados Unidos na década de 1990, de se vestir de maneira menos formal, principalmente às sextas-feiras.” (p. 344) 26 Tornou-se possível, assim, encontrar diferentes formas de se vestir dentro de uma mesma classe de trabalhadores e não só entre classes diferentes. A busca pelo terno diminuiu consideravelmente desde a década supracitada, como reflexo evidente de que “o terno de trabalho começa a ser visto como um uniforme que esconde a identidade do indivíduo do que um traje que a revela.” (CRANE, 2009, p. 343) Nesse contexto, surge a figura do metrossexual, que modificou a forma com que o homem da atualidade encara a moda e se relaciona com ela. Para perceber as mudanças relativas ao corpo e as práticas do novo homem, é essencial que entendamos como o vestuário, através da moda, tornou-se seu aliado nessa empreitada. As possibilidades geradas por esse campo fazem diminuir as fronteiras entre o masculino e o feminino. Expostos esses aspectos, Sant’anna (2005) afirma que o homem ambíguo, como ela chama o homem não tradicional, passou a existir após a década de noventa. Como ambíguo, entende-se o aquele que incorporou elementos não pertencentes ao gênero masculino e assumiu uma nova forma de ser, menos dualista, ou seja, para a autora, até a década anterior, a diferenciação entre o masculino e o feminino era clara e com anos 1990 emergiu a difusão do andrógino. FIGURA 9: A androginia de Andrej Pejic, o bósnio é hoje a sensação no mundo da moda A moda masculina e o homem contemporâneo que atravessam o ano 2000 e este início de década serão discutidas no próximo capítulo. Para definir e ilustrar como estes elementos sociais estão se configurando, os blogs Neonico e Sem Paletó serão analisados. 27 CAPÍTULO 3 – MODA, MÍDIA E DIFUSÃO DE IDEAIS O atual momento do século XXI pode ser considerado o da “Idade Mídia 3”, pois não se pode negar que por todo lado os meios de comunicação se fazem presentes. Os aparelhos eletrônicos se desenvolvem cada vez mais rápido e com tecnologias capazes de abarcar as demandas crescentes. A velocidade com que tais evoluções tecnológicas surgem está de acordo com a vontade de se estar comunicando a todo o momento e em qualquer lugar. Além, é claro, pela percepção da indústria de telecomunicações em fertilizar um campo próspero, com grandes expoentes de desenvolvimento a curto, médio e longo prazo, já que, indubitavelmente, ninguém está preparado para conviver/sobreviver sem a influência direta ou indireta, consentida ou não, da comunicação, seus meios e ideologias. Com toda essa capacidade de, cada vez mais, fazerem parte da vida do ser humano, as informações e ideias difundidas pela mídia entram em contato facilmente com as pessoas que vivem nas sociedades urbanas ocidentais. As imagens, as opiniões, a ficção, tudo tem algo a dizer, reforçando padrões, instaurando outros, mas nunca falando sem algum propósito. São através das novelas, das capas das revistas, dos editoriais com opiniões claras e contundentes que vemos estampados modelos a serem seguidos, ideais a serem atingidos e que, principalmente, indicam qual é o caminho para satisfação pessoal e para a se alcançar a tão buscada felicidade. Neste contexto, a imagem do que seria o homem perfeito, suas características e dicas para tê-las também estão presentes no discurso midiático. Dentre as possibilidades para se enquadrar dentro do conceito de homem contemporâneo, a mídia ensina quais são as principais características da lista que enumera as qualidades que o ser masculino, aquele que respira os ares deste século, deve possuir. Ao mesmo tempo, rechaça, sem a menor consideração, os que destoam disso e que, consequentemente, estariam fadados ao limbo pessoal e profissional. Ou seja, trabalham no sentido de reforçar, recriar e assumir uma imagem, que através de seu “manual” publicado ou televisionado, precisa ser a do homem que, para ser reconhecido, terá um corpo belo e usará roupas da moda. 3 Conceito introduzido por Antonio Rubim que se refere à compreensão da contemporaneidade como uma sociedade estruturada e ambientada pela comunicação. 28 O que é perceptível, então, devido à grande influência já citada dos meios de comunicação, não só o homem, como também a mulher se vêem na corrida por esse ideal de vida, de aparência, de felicidade garantida. “Não parece haver outro caminho para a grande maioria (...) se não se reconhecer, se relacionar consigo mesmos e com suas vidas de acordo com os discursos, as imagens das mídias e os pressupostos que sustentam.” (SANTAELLA, 2006, p. 125) O que Santaella (2006) ressalta é que também a imprensa escrita se mostra legítima no processo de formatação do ser preocupado com os padrões de beleza e comportamento condizentes com o que a sociedade e a moda esperam dele. “Para isso, a imprensa recorre a especialistas (...) para dar dicas acerca dos cuidados com o corpo no campo da sexualidade, moda, dieta, beleza e exercícios físicos.” (SANTAELLA, 2006, p. 127) Assim, autores estudam como algumas publicações de moda retratam o homem contemporâneo ou sobre o que já falaram em determinado momento. Em seu artigo “Revista de moda: masculinidade e ambiguidade nos anos noventa, Patrícia Sant’anna (2005) constatou que, neste período, “a aparência de um adolescente se tornou desejável justamente porque ele representa a personificação da indefinição sexual.” (SANT’ANNA, 2005, p. 91). Ou seja, a androginia estava em alta nas páginas das revistas e a moda era a melhor maneira de expressar esta nova condição, já que cria inúmeras possibilidades de tornar o homem ambíguo. As revistas analisadas foram a Vogue, Elle e a Marie Claire, no período que vai de 1990 a 2000. De acordo com a mesma autora: A ilusão do unissex é construída com base nesta idéia de sexualidade dúbia do ocidental moderno. Baseado em uma individualização exacerbada, inclusive da noção de ser feminino e/ou masculino, onde o que o indivíduo pensa e faz com e sobre o seu corpo e imagem é uma decisão exclusivamente sua, a moda e suas propostas são novidades que proporcionam ao 'eu' uma pequena aventura. (SANT’ANNA, 2005, p. 98) Dessa forma, o ambíguo, desde então, não ficou restrito somente as passarelas e aos editoriais das revistas especializadas. Atingiu o homem que está na rua e ao mesmo tempo é reflexo deles. “Os homens, a partir da virada da década passada (anos 80), começam a manipular muito mais elementos para sua constituição visual, passam ao mesmo tempo por uma revisão/renovação (...)” (SANT’ANNA, 2005, p. 94) 29 Marko Monteiro (2000), ao comparar o discurso das revistas brasileiras voltadas ao público masculino, gay e heterossexual, chegou à seguinte conclusão: (...) se na revista gay o tema do corpo masculino, da beleza e do cuidado de si sempre esteve presente, até como prerrogativa deste grupo específico frente a uma masculinidade uniformemente machista, cada vez mais as revistas voltadas a homens heterossexuais incorporam este tipo de mudança nas suas páginas. (MONTEIRO, 2000, s/p.) O estudo de Monteiro (2000) detectou algo que poderia ser previsível. Não foram só as roupas ou o corpo masculino que sofreram modificações. As práticas desses homens metrossexuais também se aproximaram das práticas tidas até então como tipicamente femininas, como uso de cremes e perfumes e a depilação. O que, de forma alguma, significou tornar-se mulher. O autor, inclusive, indica a existência de diferentes tipos de homens contemporâneos. Para ele, a noção de masculinidade unificada não faz sentido, à medida que existam, dentro da categoria “metrossexual”, derivações que variam de acordo com a sexualidade (homossexual e heterossexual). “(...) heterossexuais continuam a marcar uma diferença fundamental entre eles e os gays, por mais que os produtos, as roupas e as imagens que apareçam nas revistas sejam cada vez mais parecidos.” (MONTEIRO, 2000, s/p.) Enquanto isso, Mário Queiroz (2009) fez uma análise da revista inglesa Arena Homme Plus, considerada a bíblia do homem contemporâneo, já que é uma das poucas revistas do gênero que trata apenas da moda masculina. A revista surgiu em 1994 e tornou-se referência em estilo, através de seu conteúdo totalmente voltado aos editoriais de moda, em que modelos, com corpos que estavam de acordo com o ideal de beleza, usavam roupas dos mais renomados estilistas e eram fotografados por nomes conclamados como Mario Testino, Terry Richardson e Steven Klein. Ele elenca, através da análise das principais capas e fotos, as possíveis categorizações que a publicação fez a respeito da figura deste homem. E tenta, como o próprio nome de seu livro indica, desmascarar a figura do homem na moda. A grande questão para a pesquisa de Queiroz (2009) era definir o que é o homem, o que foi impossível, já que a reposta obtida não era única; pelo contrário, várias. Sabe-se somente que os velhos conceitos que definiam a masculinidade na moda e no comportamento não eram mais os mesmos que ficaram tradicionalmente delimitados. Dessa forma, a Arena Homme Plus difundia várias faces para o homem contemporâneo, dentre as quais ele buscou achar pontos em comum e características 30 que se repetiam com maior frequência em cada um dos cerca de oitenta editoriais analisadas que juntos somam mais de quatrocentas fotos. Mas, voltando ao ponto em que este capítulo foi iniciado, a moda, também no atual cenário, faz parte do ambiente digital, sendo contemplada desde as plataformas mais tradicionais até os ambientes multimídia. Ou seja, temos, ao mesmo tempo, as já citadas revistas bem como suas versões para aplicativos móveis de tablets, como o iPad. Neste sentido, a internet se mostra como um dos principais mecanismos de busca de informação e conteúdo deste início de século, principalmente quando falamos de algo tão recente como a figura do homem contemporâneo. Nesse “novo” ambiente, podemos encontrar alguns exemplos, entre eles os sites Sem Paletó e Neonico, que serão os meios analisados para se chegar às características que ajudam a conhecer nosso objeto de estudo. 3.1 Sem Paletó O blog é feito pelo jornalista Caio Henrique Capriolli, de 23 anos, que também trabalha no Núcleo Jovem da Editora Abril. O Sem Paletó surgiu em 2009 e, segundo o próprio Caio, através de um convite da editora de moda do portal onde trabalhava na época. Seu interesse por moda surgiu depois de frequentar algumas edições do maior evento de moda da América Latina, o São Paulo Fashion Week. Desde então, busca sempre entender mais, para poder escrever melhor e opinar sobre o assunto. FIGURA 10: Printscreen da Home do Sem Paletó em 7 de outubro de 2011 31 O blog tem uma linguagem muito acessível, as postagens são curtas, contendo textos enxutos. Desta forma, a mensagem é direta e as imagens têm papel de destaque. O visual é limpo e predominam variações do preto, além do amarelo e do branco. Seu slogan é “Homem não precisa se vestir sempre igual”, que demonstra a intencionalidade em apontar formas diversas e alternativas, mas claro, dentro daquilo que a moda apresenta e que atenda ao homem ligado ao mundo fashion. O próprio blogueiro reconhece a existência de vários tipos de homem, coexistindo com o contemporâneo. De acordo com Caio, seu público é composto, em sua grande maioria (em torno de 95%), por pessoas do sexo masculino entre 15 e 40 anos, que, ao terem dúvidas sobre moda, procuram saná-las através de sites de busca e acabam sendo redirecionados ao Sem Paletó. 3.1.1 Conteúdo do Sem Paletó Entre as postagens do ano de 2011, tanto do Sem Paletó quanto do Neonico, foram selecionadas pelo menos 12 em cada um deles, que demonstrassem visão que têm sobre o assunto pesquisado. Dando preferência aquelas onde pudessem ser feitas analogias e houvesse diálogo direto com o conteúdo teórico já apresentado. Primeiramente, há duas postagens que demonstram o viés de releitura da moda, ao mesmo tempo em que os modelos das campanhas deixam claro, através de seus biótipos semelhantes, o tipo corporal ideal. FIGURA 11: Printscreen do blog Sem Paletó no dia 4 de outubro de 2011 (à esquerda) e outro no dia 20 de junho de 2011(à direita) 32 Em ambas, são apresentadas imagens das campanhas de duas marcas internacionais de renome, a Pierre Balmain e a McQ, da grife Alexander McQueen. O post do dia quatro de outubro fala sobre a proposta rock’n roll das roupas e sobre o desejo de possuir todas as peças (que não se encontram totalmente representadas na figura acima); o de vinte de junho fala abertamente sobre a utilização do jeans que, apesar de não citado, também é facilmente observado nas imagens do primeiro post. De qualquer forma, as duas seguem a mesma referência rock’n roll, inspirada nos anos 60. Ou seja, durante um mesmo ano, em campanhas de marcas diferentes, também em épocas diferentes, encontramos propostas que revisitam o mesmo estilo e com modelos que se mostram magros e joviais. Nessa mesma linha revisão do passado, existe um post que fala sobre a utilização de penteados clássicos, que servem pra inspirar a cabeça dos mais moderninhos. Ainda sobre cabelos, há no blog um indicativo de como deve ser o corte de cabelo masculino nas temporadas de primavera/verão. Chamado de “brit-rock” ele, invariavelmente, considera os cabelos mais lisos como ideais. FIGURA12: Printscreen do blog Sem Paletó no dia 27 de maio de 2011 (à esquerda) e outro no dia 17 de agosto de 2011 (à direita) Focando no corpo, há um post bastante expressivo, que deixa claro qual é o padrão ideal para moda e dessa maneira aquele que é difundido ao homem que deseja estar de acordo com ela: 33 FIGURA 13: Printscreen do blog Sem Paletó no dia 23 de setembro de 2011 A relevância está no fato de se tratar do modelo brasileiro Franciso Lachowski, que já esteve em campanhas e desfiles de marcas como Armani, Versace, Dolce & Gabbana, entre outras, além de ocupar a 16ª posição4 no ranking dos principais modelos masculinos do mercado internacional. Consequentemente, se Lachowski se encontra com esta definição corporal e ao mesmo tempo tem tal destaque no mundo da moda, infere-se que esteja de acordo com o desejado. O que vai além, na relação da aparência, é a aproximação entre masculino e feminino. A relação entre gênero e sexo se mostram muito mais difusas, e é o que pode ser visto nas fotos da campanha publicitária de primavera/verão 2011 da marca brasileira Osklen. Os modelos têm cabelos da mesma cor, a maquiagem também é igual, o que mostra a preocupação em não demarcar diferenças contundentes entre gênero e sexo. 4 De acordo com o models.com (site que cataloga o trabalho de modelos de todo mundo e, através de suas carreiras, promove um ranking com os cinquenta mais bem sucedidos, tanto homens quanto mulheres.) 34 FIGURA 14: Printscreen do blog Sem Paletó no dia 21 de setembro de 2011 Um dos exemplos mais atuais e limítrofes, de como a relação entre o masculino e o feminino na moda está se modificando, é o sucesso da modelo transexual Lea T. A brasileira nasceu homem, e apesar de não ser operada, tem um visual completamente feminino. Tanto que trabalha como mulher em campanhas e desfiles, tendo iniciado sua carreira em 2010, na grife francesa Givenchy. FIGURA 15: Printscreen do blog Sem Paletó no dia12 de setembro de 2011 e foto da modelo Lea T 35 Mais à frente, poderemos ver também esse tipo de “confusão” entre masculino e feminino na análise do Neonico, através da imagem do modelo Andrej Pejic. Percebe-se também que o Sem Paletó5 dá especial atenção aos cuidados cosméticos para com o corpo. Há dicas e pequenos manuais de como ter pele e cabelo bonitos e saudáveis. FIGURA 16: Printscreen do blog Sem Paletó no dia 5 de agosto de 2011 (à esquerda) e no dia 29 de março de 2011 (à direita) O post reproduzido parcialmente acima (à esquerda), traz um link que redireciona o leitor à página onde há o passo a passo para o processo de limpeza e hidratação facial. Com relação aos cabelos, a postagem sobre o uso das pomadas, que surgiu a partir da dúvida de um leitor: “Caio, vi que você gosta de pomadas para cabelos. Gostariam que você indicasse algumas. Pode ser?”, mostra uma breve análise de sete tipos delas que estão disponíveis no mercado. Nela, exaltam-se os efeitos, as melhores ocasiões onde usar uma ou outra e, consequentemente, suas diferenças. Especificamente sobre roupas, há tanto posts que apresentam novas criações que o mundo da moda está apostando, como o que fala sobre a calça ex-girlfriend, baseada em uma estética feminina: 5 http://sempaleto.virgula.uol.com.br/ 36 FIGURA 17: Printscreen do blog Sem Paletó no dia 15 de março de 2011 Como também dicas de como um homem pode se vestir. O material ilustrado abaixo é advindo do programa “How To”, da grife brasileira 284, que é disponibilizado no site oficial da empresa. Nele, a apresentadora mostra como os homens podem se vestir de acordo com várias ocasiões, estando dentro da moda. FIGURA 18: Printscreen do blog Sem Paletó no dia 27 de junho de 2011 Os acessórios também ganham destaque, e o uso de anéis foi incentivado através do “The Lord of The Rings”. O texto começa falando sobre o preconceito que o blogueiro tinha com relação ao uso do objeto, principalmente pelo fato de que a maioria dos homens que ele via usando não sabia fazer da maneira correta ou o material era de estética duvidosa. Mas, depois de desfeita essa má impressão, ele considera o anel um acessório que pode e deve ser explorado. 37 FIGURA 19: Printscreen do blog Sem Paletó no dia 8 de abril de 2011 É visível a preocupação do Sem Paletó em abranger seu conteúdo com material que não se restrinja a peças de roupa, ele funciona como um verdadeiro guia de estilo de vida. 3.2 Neonico O Neonico6 surgiu inicialmente como Tumblr7, no primeiro dia de 2010. Pouco mais de quatro meses, devido ao grande sucesso e aceitação, cresceu e se tornou um blog. Nele, foram criadas algumas seções, ultrapassando o intuito inicial de só dar atenção a imagens, que é uma das principais funcionalidades do Tumblr. O idealizador do projeto, Felipe Cireno Teobaldo, de 24 anos, formado em Arte e Publicidade, afirma ter sido a necessidade pessoal de conhecer melhor o estilo masculino que o impulsionou a lançar o Neonico. 6 7 http://www.neonico.com/ Tumblr é um microblog que permite o compartilhamento de qualquer coisa: mensagens de texto, citações, links, músicas e vídeos, a partir de seu navegador, desketop, telefone, email ou onde quer que esteja. Além de ser possível a personalização, desde cor a HMTL do tema. Tradução livre do original disponível em: http://www.tumblr.com/about 38 FIGURA 20: Printscreen da Home do Neonico em 21 de outubro Segundo Felipe, o trabalho com moda veio do interesse pela união entre dois campos, comunicação e estética, que se relacionam diretamente à sua formação profisional. O homem comtemporâneo, como figura central do trabalho desenvolvido pelo Neonico, é considerado pelo blogueiro como aquele que convive e interage com as diferentes possibilidades oferecidas. Visto que num mundo onde a mídia se faz tão presente, as referências com as quais ele tem contato são inúmeras e difusas. Para Felipe, a moda atua na construção da identidade deste homem, em suas próprias palavras: “Numa sociedade tão fragmentada, autocentrada e cosmopolita, ter uma imagem forte e assertiva que seja reflexo do seu diferencial na sociedade é parte da competência nova desse indivíduo, onde não é preciso falar para ser visto”. O público do Neonico é jovem; subentende-se que homens, em sua grande maioria, que moram nos grandes centros urbanos nacionais, com idade entre 18 e 28 anos. 3.2.1 Conteúdo do Neonico Um dos grandes destaques do blog, durante este ano, foi a cobertura das edições mais recentes eventos de moda que aconteceram no Brasil, como a Casa de Criadores e a São Paulo Fashion Week. 39 FIGURA 21: Printscreen do blog Neonico no dia 21 de junho de 2011 (à esquerda) e outro de12 de julho de 2011 (à direita). As postagens se resumem basicamente em uma galeria de imagens e um pequeno vídeo, em que há imagens dos desfiles e entrevistas com pessoas ligadas às marcas, em que se fala sobre as intencionalidades, propostas e peças da coleção. Como em todo blog de moda, a atenção em divulgar os últimos lançamentos do mercado é algo basico. Neste sentido, a seção “Wishlist” mostra tudo aquilo que deve ser objeto de desejo do homem contemporâneo. FIGURA 22: Printscreen do blog Neonico do dia 17 de maio de 2011 (à esquerda) e outro do dia 15 de março de 2011 (à direita) Ao lado do sapato da grife Christian Louboutin, famosa mundialmente por seus calaçados, novamente vemos a calça “ex-girlfriend” que também foi pauta do Sem Paletó. Acessórios também são ponto alto no visual daquele que busca pelo blog: 40 FIGURA 23: Printscreen do blog Neonico no dia 19 de julho de 2011 Para reforçar a credibilidade da marca e do alcance de seus protudos, há no post imagens de alguns famoso que usam, como os atores Bruno Gagliasso e Paulo Vilhena, o modelo Mateus Verdelho, entres outros. FIGURA 24: Printscreend do blog Neonico no dia 19 de julho de 2011. Acima, Mateus Verdelho, na parte inferior, Paulo Vilhena O Neonico se preocupa não só com a questão do vestuário, mas com o estilo de vida do homem comtemporâneo de maneira geral, com o que o sente, o que ele ouve e os lugares que frequenta. Para os dois primeiros pontos citados, há seções específicas: a “Haus” e a “Bside”. 41 Na “Haus", os relacionamentos são o mote, passando por questões polêmicas presentes desde a amizade, a solidão, o amor e o sexo. FIGURA 25: Printscreen do blog Neonico no dia5 de maio de 2011 (à esquerda) e outro do dia 13 de abril de 2011 (à direita) O texto de “Meu querido ex-amigo” fala sobre quando as pessoas se afastam dos amigos por estarem namorando. Em “Depressão pós-coito e a vontade de sumir” há a intenção de se mostrar que tal acontecimento é comum, mesmo quando quem está envolvido na relação são pessoas apaixonadas e que existem diversas formas de lidar com isso. FIGURA 26: Printscreen do blog Neonico no dia 12 de julho de 2011 (à esquerda) e outro do dia 2 de março de 2011(à direita) “Romanticamente perdidos” aborda o tipo de pessoa que nunca se dá bem nas relações amorosas e, na verdade, não sabe muito bem o que quer delas. Já “Padronização universal das regras sobre encontros” é um manual divertido sobre o que se deve ou não fazer com relação aos encontros e seus “convidados”. 42 Já a “Bside” tem como carro chefe a música. As “mixtapes”, arranjo de várias canções e ritmos diferentes formanado um novo som, compõem a seção. FIGURA 27: Printscreen do blog Neonico no dia 19 de julho de 2011 O blog também promove festas na capital paulista, chamadas de “Wolf Wolf”, que acontecem em lugares normalmente já conhecidos pelos leitores. Há sempre uma temática definida para cada uma delas e, consequentemente, um “dresscode” específico. Para que o visual seja bem explorado, há várias dicas de como aproveitar ao máximo as possibilidades que o tema oferece. FIGURA 28: Printscreen do blog Neonico no dia 1 de março de 2011 43 Um post que merece destaque, tanto pelas controvérsias que envolvem a questão, quanto por sua efervescência atual, “O futudo da moda, de Lea, de Andrej, de Bieber”, fala sobre a aparência e os limites, ou falta deles, entre os gêneros feminino e masculino. FIGURA 29: Printscreen do blog Neonico no dia 17 de janeiro de 2011 Como o próprio título indica, os modelos Andrej Pejic e Lea T e o cantor teen Justin Bieber, são os exempos mais explícitos e visíveis da androginia que teve destaque já nos anos 90, mas que ganhou, através do sucesso destas personalidades, novo fôlego. Andrej e Lea estiveram presente em desfilies e campanhas dentre os mais diversos lugares do mundo, desde 2010. Justin Bieber conquistou fãs em toda parte, vendendo milhões de álbuns e se torando ídodo na música pop. A moda se rendeu a eles, e eles são o que a moda quer representar. Novos conceitos, em que não há regras que definem tudo, e em que o limite é examente a falta dele. Para finalizar a apresentação do Neonico, a seção que o originou, “Trendhunter”, que é o Tumblr, onde são postadas imagens que “falam por si só” e exprimem ideias de cabelo, vestuário, corpo e atitude para os homens contemporâneos. Normalmente, esta é a seção que funciona com maior frequencia no blog. 44 F FIGURA 30: Printscreen do blog Neonico no dia 21 de outubro de 2011 FIGURA 31: Printscreen do blog Neonico no dia 10 de novembro de 2011 45 CONSIDERAÇÕES FINAIS Depois de buscar indícios que ajudassem a compor a imagem do homem contemporâneo por meio das possibilidades oferecidas pela moda, com subsequente análise do material dos blogs Sem Paletó e Neonico, a maior das certezas é de que não existe uma única definição que compreenda toda a sua complexidade. Menos ainda que possa enquadrar todos eles dentro de uma simples categorização. Mas, em meio a seus diversos aspectos, podemos destacar aqueles que podem identificar a contemporaneidade em sua forma de pensar e agir. Em primeiro lugar, a preocupação em se livrar dos preconceitos, no sentido de que não importa como a sociedade o interpretará, ele não quer viver de acordo com aquilo que não o faz se sentir bem, o que implica em colocar isto em prática, seja na maneira de se vestir, de se portar ou de se relacionar. Fatores esses que vão refletir em sua moda, nos cuidados com seu corpo e na despreocupação em demonstrar sentimentos, o que acarreta na vivência plena de sua orientação sexual, seja ela qual for. Como vimos, por exemplo, na seção “Haus” do Neonico. A ascensão desta figura masculina, resultado da libertação das repressões sociais de gênero, já começou, como vimos, a criar novas formas para que o homem, independente de sua sexualidade, apresente-se para a sociedade. Seria ingênuo, porém, acreditar que esta barreira esteja totalmente ultrapassada. Por mais que uma parcela dos homens tenha se tornado diferente, ao ser influenciado por movimentos como o movimento feminista e o movimento gay, grande parte deles ainda se mostra arredia e, até mesmo, combativa com aquilo que consideram transgressor. A irracionalidade em não questionar os tradicionalismos por pura questão de falta de informação correta leva, muitas vezes, à intolerância ao novo. Mas, assim como a moda, que demorou milênios para surgir e mudar as funções originais do vestuário e, depois, de diversos ensaios para romper com o tradicional, como na corte real de Luís XIV e também no dândismo europeu, resguardadas as devidas proporções, é fato que daqui em diante, considerando desde final do século passado até hoje, o homem chegou num momento em que nunca mais será visto como uma figura uniforme. Se a mulher já é conhecida por sua capacidade camaleônica, chegou a vez do sexo oposto abandonar o lado “monocromático” que lhe fora imposto por tanto tempo. 46 Percebemos que, apesar de algumas diferenças básicas de proposta entre os blogs analisados, ambos mostram a confluência de tendências que leva a algo ainda não muito explorado, ou que ainda precisa de mais tempo para ser, de fato, conhecido. O Neonico trata de assuntos que vão além da forma de se vestir ou dos cuidados com o corpo, para uma reflexão maior a respeito do comportamento do homem e os rumos da moda masculina, o que não acontece no Sem Paletó. O atual momento é de uma explosão de novidades neste campo, mesclando características masculinas e femininas, sem se preocupar necessariamente com o que é tipicamente designado a cada uma das construções sexuais. Quando se fala nessa confusão, ou melhor, compartilhamento de referências, fica claro que a roupa masculina está buscando inspiração nas padronagens femininas, como foi explicitado por meio da calça “ex-girlfriend” (Figuras 17 e 22). Vale considerar que o contrário já aconteceu, ou seja, a mulher tem sua imersão no guarda-roupa do homem há décadas. Só que, agora, cores, silhuetas e cortes que só diziam respeito ao universo feminino não são mais encarados assim. Porém, a questão da roupa, em si, ainda não é o ponto mais intrigante da questão, e sim a androginia corporal, que vem ganhando cada vez mais força e espaço. Tal qual foi discutido na postagem representada pela figura 29. Dessa forma, o corpo também se tornou um objeto de experimentação e a valorização destes tipos de características andróginas por parte da moda tem feito com que o assunto seja mais debatido e, consequentemente, entrado em contato com o “mundo exterior”. Sem dúvidas, este é um dos lados que a figura masculina contemporânea pode assumir que gera as maiores polêmicas; tanto é que, devido à sua natureza inovadora, ainda há poucas informações concretas e relevantes sobre o assunto, que pode mesclar, além da simples aparência, questões de orientação sexual, como o caso da transexualidade da modelo Lea T. Porém, quando levamos em consideração a relação entre sexualidade e vaidade, como cuidados com cabelo e corpo, homens hetero e homossexuais não são tão facilmente identificáveis, como pode acontecer na questão da androginia, pois ambos estão utilizando produtos de beleza com maior freqüência (Figura 16) e a indústria cosmética tem se mostrado atenta a este fato. O público masculino ganhou, ao longo dos últimos anos, grande espaço neste mercado, tanto é que o anuário de 2010 da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos, destacou a queda na busca de produtos tradicionais, como creme de barbear, em 47 detrimento de novidades. Conforme dados, o nicho masculino de cosméticos movimentou no Brasil, em 2009, 2,29 bilhões de dólares. Comparativamente, o país só fica atrás dos Estados Unidos, com faturamento acima de quatro bilhões de dólares8. O que é paradoxal, no entanto, é a que num momento onde o homem está se livrando de certas amarras, outras apareçam e se tornem bem firmes, como a questão do copo magro. Ser magro passou a garantir status social, tornando a pessoa exemplo a ser seguido. A magreza, no século XXI, se tornou preceito de felicidade, não só para homens, como também para mulheres. As dietas, os suplementos alimentares e a academia de ginásticas são conhecidos íntimos da maioria deles. Por isso, temas relacionados a implicações disto, que pode se tornar uma doença, como os distúrbios alimentares e a vigorexia9, que atinge majoritariamente pessoas do sexo masculino, vêm sendo cada vez mais discutidos. Porém, a função que a mídia exerce, de forma geral, não é o de conscientização a respeito dos limites do saudável, muito pelo contrário, ela tende a reforçar os padrões impostos pela moda, com o mesmo discurso de beleza e estética que não varia entre os meios. Os protagonistas das novelas, os modelos das campanhas publicitárias, os que recebem títulos de “o/a mais sexy do ano”, são pessoas que se enquadram dentro das características consideradas perfeitas. O homem contemporâneo e a moda masculina estão em pleno processo de modificação, buscando sua identidade, ao mesmo tempo em que bebem de influências que já fazem parte de outras realidades. A mídia, seja em forma de blog, como representada neste trabalho, cumpre um papel de lançar tendências, ao mesmo tempo em que joga para escanteio tudo aquilo que não está de acordo com o discurso da moda. 8 Disponível em: http://www.abihpec.org.br/anuario-abihpec-20092010/ 9 De acordo com o site Brasil Escola: “A vigorexia, também chamada de Síndrome de Adônis, é um transtorno que torna indivíduos obsessivos por atividades físicas como forma de obter o corpo magro e musculoso.” Disponível em: http://www.brasilescola.com/psicologia/vigorexia.htm 48 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANUÁRIO da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos. ABIHPEC. Disponível em: <http://www.abihpec.org.br/anuario-abihpec20092010/> Acessado em 5 de nov. 2011. BARROS, Fernando de. O homem casual: a roupa do novo século. São Paulo: Mandarim, 1998 BRAGA, João. História da moda: uma narrativa. 4ª ed. São Paulo: Anhembi Morumbi, 2005. CABRAL, Gabriel. Vigorexia. Brasil Escola. Disponível em: < http://www.brasilescola.com/psicologia/vigorexia.htm>. Acessado em 5 de nov. 2011. CRANE, Diana. A moda e seu papel social: classe gênero e identidade das roupas. 2ª ed. Tradução Cristina Coimbra. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2009, p 21- 63 337-394 DROGUETT, Juan Guillermo. Corpo e representação. In: GARCIA, Wilton; LYRA, Bernadette (org.). Corpo e Cultura. São Paulo: Xamã, 2001, p 33-37. GODÓI, Marcos Roberto. Mídia magazine e narcisismo produtivo: investidas cultural e econômica sobre a masculinidade na contemporaneidade capitalista. 2006. Dissertação. (Mestrado em Estudos da Linguagem) – Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Mato Grosso (MeEL, UFMT), Cuiabá, 2006. HARO, Maria Fernanda. E se as roupas falassem? Aqui Vip. Disponível em: <http://www.aquivip.com.br/noticias_exibe.php?rel=MzMy&id=MzMy>. Acessado em 29 de set. 2011. MONTEIRO, Marko Synésio. Estilos de masculinidade: gênero e consumo em revistas masculinas contemporâneas. 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Você tem ideia de qual é o tipo de público que acessa seu trabalho? 10 Enviadas por email para os responsáveis por cada um dos blogs analisados 51 ANEXO 2 – ENTREVISTA CAIO CAPRIOLLI11 Caio Henrique Capriolli, 23 anos Sem Paletó Respostas: 1. Começou do nada, na verdade. Eu comecei um blog quando trabalhava em um portal de internet, daí fui a algumas SPFWs e acabei gostando, me encantando. Então comecei a escrever sobre o assunto, as pessoas gostaram e eu comecei a ler mais, entender e tentar opinar. 2. Acho que hoje existem vários tipos de homens. Tem, ainda, aqueles que vivem pelo trabalho, que respiram dinheiro e só querem saber da carreira. Tem os mais largados, que vão deixando a vida traçar o caminho. Tem o que gosta de moda, que não liga muito para o que os outros dizem. Enfim, acho que não dá pra definir, não. Acho que existem vários tipos – cada um com uma característica 3. A moda sempre foi importante, mesmo quando os homens diziam não se importar com ela. Ela dita tendências, então aquela camisa de colarinho abotoado foi inventada um dia por alguém, certo? A moda influencia em tudo, desde opinião, aparência e humor. 4. Começou em janeiro de 2009. Foi um convite da editora de moda do portal em que eu trabalhava. Ela queria alguém pra escrever do assunto, conversou comigo e lançamos. Depois, foi rolando. 5. 95% homens, de idade entre 15-40 anos, que se interessam por moda, possuem dúvidas e não sabem onde procurar. Então dão um Google no termo e acabam caindo lá. 11 Realizada via email no dia 6 de outubro de 2011 52 ANEXO 3 – ENTREVISTA FELIPE TEOBALDO12 Felipe Cireno Teobaldo, 24 anos Neonico Respostas: 1. Tenho interesse por comunicação e estética. Moda é uma das modalidades do diálogo entre as duas coisas, sou formado em Arte e Publicidade. 2. O homem contemporâneo tem um amplo contato com informação, consome diversas e diferentes mídias e por consequência tem mais referenciais de possibilidades e caminhos. Acredito que a maior característica do homem atual é o acesso a novas idéias. 3. A moda entrega ao homem maior controle do seu discurso pessoal. A maneira de vestir-s, aliada ao comportamento do indivíduo, são parte da construção da identidade social dessa "atualidade" que ele transparece. Numa sociedade tão fragmentada, auto-centrada e cosmopolita, ter uma imagem forte e assertiva que seja reflexo do seu diferencial na sociedade é parte da competência nova desse indivíduo, onde não é preciso falar para ser visto. 4. O blog surgiu da minha necessidade de ter mais informações sobre estilo masculino. Acabei dividindo minha pesquisa com outras pessoas. Me surpreendi pela receptividade do olhar que eu tinha com esse material e resolvi crescer com o projeto. Neonico foi ao ar como Tumblr em 1/1/10. O blog veio em 14/5/10. 5. Jovens de grandes capitais nacionais (SP, RJ, BH, PE) entre 18-28 anos. 12 Realizada via email no dia 17 de outubro de 2011 53