REGULAMENTAÇÃO E COMPETITIVIDADE: A INSERÇÃO DO TRANSPORTE ALTERNATIVO NO MUNICÍPIO DE BELFORD ROXO GERANDO UMA MAIOR INCLUSÃO SOCIAL PAULO RENATO PORTO AMORIM * RESUMO Este artigo tem por finalidade analisar a inserção do transporte alternativo no município de Belford Roxo, localizado na Baixada Fluminense, mais precisamente no estado do Rio de Janeiro. O foco principal foi à linha Belford Roxo x Central do Brasil. A cooperativa Bel Rio é responsável por todo o processo administrativo, desde o planejamento até o controle. Cabe ainda ressaltar a crescente preocupação com alguns aspectos relacionados ao aumento da participação no mercado de trabalho, nos principais centros comerciais do Município do Rio de Janeiro. Paralelamente, o mesmo tende a minimizar o abismo social, ainda reinante, mas em menor escala, que permeia as grandes cidades brasileiras. Palavras-chave: Competitividade, Inclusão e Sociedade. 1 – INTRODUÇÃO A partir da década 90 observou-se no transporte público de passageiros o aparecimento dos Veículos de Pequeno Porte (Vpps), que via de regra, supriu uma demanda de mercado que fora deixada de lado pelos ônibus. Tais vpps em um primeiro momento eram em sua totalidade não regulamentados, pois tal modalidade ainda estava em situação bastante embrionária no Brasil. As lacunas deixadas pelos operadores tradicionais de transporte sobre pneus, leia-se ônibus, foram tamanhas que criaram oportunidades de mercado para os transportes ditos como alternativos e/ou complementares. Algumas dessas lacunas * Prof. Escola Superior de Gestão e Tecnologia da UCB. Administrador e Mestrando em Engenharia de Transporte/ COPPE-UFRJ. 1 podem ser entendidas pelo abandono de práticas simples de operação como a falta de horários matutinos regulares de linhas alimentadoras de algumas vias principais, principalmente, no que tange ao Município de Belford Roxo. Na primeira parte deste artigo serão abordadas algumas nuances de regulamentação dos transportes alternativos, bem como visões extras da importância de se ter uma fiscalização eficaz e eficiente. A regulamentação desta nova modalidade de transportes fora de suma importância para todas as partes interessadas, ou seja, o Estado arrecada mais impostos, a população agora tem opção de escolha, dentro de uma visão microeconômica, os operadores tradicionais tiveram que rever seus processos administrativos, principalmente o start deste processo que é o planejamento, bem como os alternativos tiveram que organizar-se em cooperativas para dar um padrão a sua operação. Na segunda parte serão abordadas algumas variáveis competitivas pertinentes ao setor de transportes. Com foco principal será em consideração um tripé: a – Tempo médio de viagens; b – Os intervalos entre viagens (Headway); c – Tarifa cobrada. Na terceira parte foi realizado um levantamento bibliográfico, comparando o que se entende por inclusão social, bem como o antônimo de tal palavra, ou seja, exclusão social. Seus aspectos, enquanto visão macro, inseridos na sociedade. A conclusão paira a luz daquilo que fora observado na prática, assim como possíveis recomendações para se alterar e/ou otimizar a competitividade, visando a uma maior inclusão social, para os moradores do município de Belford Roxo. 2 – REGULAMENTAÇÃO X FISCALIZAÇÃO Segundo Sacconi (1996), regulamentar é algo relativo a regulamento; ação ou efeito de regular, fixar e determinar. Ainda de acordo Sacconi (1996), fiscalizar é o ato de inspecionar e controlar determinada situação. Como será explicitado no item 3, o transporte por ônibus deixou falhas perceptíveis aos usuários do sistema como um todo. Por conseguinte, acabou por dar chances ao surgimento dos transportes alternativos como forma de suprir e atender a essa demanda existente. 2 2.1 – Regulamentação dos Alternativos Ao longo do ano de 1990 ocorreu um vertiginoso crescimento dos vpps, influenciando os passageiros a utilizarem o chamado transporte, até então, ilegal. A ilegalidade dos vpps ocorreu principalmente por ser uma nova modalidade de transporte. A sociedade inserida em Belford Roxo aceitou prontamente, mesmo que irregular o serviço, pois a empresa prestadora deste mesmo serviço deixava a desejar, fundamentalmente, no que cerne aos intervalos (Headway) entre os ônibus, ou seja, a operadora tradicional (Empresa Caravele Ltda.) tinha um headway mínimo de 45 minutos. Com o surgimento dos alternativos, esse headway mínimo baixou para 20 minutos. O operador alternativo (Cooperativa Bel Rio) tem um headway mínimo de 10 minutos. Esse tópico referente à headway será abordado, exclusivamente, posteriormente. Segundo Orrico e Maia (2006), o transporte alternativo possui um caráter marcado pela heterogeneidade, especialmente se comparado ao transporte tradicional. As diferenças mais evidentes são: o grau de escolaridade dos operadores diretos, isto é, dos motoristas (que é mais alto no alternativo), o tipo de serviço prestado (“porta a porta”, cordialidade com os passageiros), a sua mobilidade, devido ser um veículo de baixa capacidade tem maior facilidade de deslocamento físico em tráfego e tem menor necessidade de paradas (mobilidade externa); tais fatores promovem um cenário complexo e provocam discursos controversos entre os órgãos do Estado, as empresas de ônibus e as cooperativas. Já para Nash e Walters (2005), a regulamentação dos transportes alternativos deveria acontecer respeitando uma lógica própria, ou seja, só deveria existir alternativos como fonte de alimentação para os já tradicionais ônibus. Verifica-se que tal visão não se aplica ao Brasil, pois o que se enxerga na prática é uma regulamentação sem os parâmetros mencionados por Nash e Walters. A regulamentação dos transportes alternativos foi questão de tempo, apesar do “eterno” protesto das empresas de ônibus tradicionais. Os passageiros que utilizam o serviço dos vpps sinalizam que com a regulamentação ficou bem mais cômodo a acessibilidade aos serviços públicos, bem como a mobilidade fora racionalizada de forma ótima. 3 2.2 – Fiscalização dos Alternativos Os alternativos que operam a linha Belford Roxo x Central do Brasil são, quase na sua totalidade, cooperativados. A cooperativa Bel Rio tem cadastrados 77 veículos e com uma quantidade de 123 motoristas, também cadastrados. Segundo Orrico e Maia (2006), ainda que as licenças sejam concedidas de forma individualizada, na prática, as cooperativas têm forte autonomia para racionalizar e gerenciar o transporte alternativo através de ações próprias de controle. Observou-se que a racionalização e o gerenciamento são satisfatórios, mas algumas regras determinadas pela cooperativa em questão ainda são “burladas” por alguns condutores. Exemplifica-se tal situação através da definição/determinação dos itinerários, ou seja, os condutores não devem mudá-lo em momento algum. O que se visualiza na prática é totalmente o oposto, a uma impedância qualquer, congestionamento, tais profissionais “fogem” por caminhos diferenciados daqueles roteirizados pela Bel Rio. O órgão governamental responsável pela fiscalização dos alternativos, no Estado do Rio de Janeiro, é o Departamento de Transportes Rodoviários (Detro). Através de estudo de campo, com fiscais de tal órgão, fora constatado uma fragilidade na fiscalização dos veículos tradicionais, bem como dos veículos alternativos. Existe uma tendência de melhoria na fiscalização, principalmente com o aumento dos quadros de funcionários do órgão. 3 – VARIÁVEIS COMPETITIVAS DO TRANSPORTE SOBRE PNEUS Segundo Oliveira (2005), vantagem competitiva é aquele algo a mais que identifica os produtos e serviços, bem como os mercados para os quais a empresa está, efetivamente, capacitada a atuar de forma diferenciada. É o que faz o mercado comprar os produtos ou serviços de uma empresa, em detrimento de seus concorrentes. Na visão de Nash e Walters (2005), independentes da modalidade de transporte, a competitividade, permeada de fiscalização, acaba por gerar algo bastante salutar para uma sociedade, que precisa e muito da prestação dos serviços de transportes. Neste item será abordado um estudo comparativo entre o transporte tradicional por ônibus e pelo transporte alternativo por vpps. 4 3.1 – Tempo Médio de Viagens O tempo médio de viagem foi analisado respeitando fundamentalmente dois aspectos primordiais, ou seja, os horários de pico e horários de vale. Como fora dito anteriormente, o campo de análise foi à linha que liga o município de Belford Roxo, na baixada fluminense, até a Central do Brasil, região metropolitana (onde se concentram os principais centros comercias) da cidade do Rio de Janeiro. Linha Belford Roxo x Central do Brasil Horários Ônibus Vpps Entre 5 e 6 1 hora 45 minutos Entre 6 e 8 2 horas 1,5 hora Entre 8 e 10 1 hora e 45 minutos 1 hora Entre 15 e 17 45 minutos 30 minutos Entre 17 e 20 45 minutos 35 minutos Entre 20 e 22 40 minutos 30 minutos ▪ Dados fornecidos pelos operadores, entendidos como os mais relevantes e evidenciados in loco. Tal quadro comparativo deve ser contextualizado, como dito anteriormente, respeitando os horários de pico (entre 5 e 10 horas) e horários de vale (entre 15 e 22 horas). Nos três horários de pico existe uma variação no tempo médio de viagens. Nos ônibus, apesar do corredor exclusivo na Avenida Brasil, uma extensa avenida que liga vários bairros do Rio de Janeiro, é gasto um tempo maior em comparação ao tempo médio gasto pelos vpps, ou seja, enquanto os primeiros gastam 4 horas e 45 minutos, os segundos gastam 3 horas e 15 minutos, o que representa 29,21% a menos que o tempo médio gasto pelos ônibus. Já nos três horários de vale a variação de tempo é menor, ou seja, os ônibus gastam 2 horas e 10 minutos enquanto os vpps gastam 1 hora e 35 minutos, o que representa 35,72% a menos que o tempo gasto pelos ônibus. Algumas nuances são percebidas quando da utilização de ambas as modalidades de transportes. Os ônibus têm por obrigatoriedade que respeitar normas, processos e procedimentos determinados pela empresa em questão. Além de ocuparem maiores espaços físicos na via, não podem mudar o itinerário roteirizado. Para os vpps a “flexibilidade” é maior, ou seja, apesar de não possuírem, já que os condutores de tais 5 veículos acabam “burlando”, corredores exclusivos, quando se deparam com alguma contingência na via, tomam medidas corretivas para tentar solucionar tais problemas, optando por caminhos diferentes do usual. 3.2 – Intervalos entre Viagens (Headway) Linha Belford Roxo x Central do Brasil Horários Ônibus Vpps Entre 5 e 6 20 minutos 10 minutos Entre 6 e 8 20 minutos 10 minutos Entre 8 e 10 30 minutos 15 minutos Entre 15 e 17 30 minutos 20 minutos Entre 17 e 20 30 minutos 20 minutos Entre 20 e 22. 45 minutos 30 minutos ▪ Dados fornecidos pelos operadores, entendidos como os mais relevantes e evidenciados in loco. Pode-se interpretar tal quadro comparativo à luz do que identificou-se como menor perda de tempo dos passageiros nos pontos de paradas específicos, bem como uma melhor otimização, pelas parte dos concorrentes, dos horários de passagem por estes mesmos pontos de parada. 3.2.1 – Transporte Tradicional Nos três horários de pico, os ônibus têm um headway duas vezes maior que os vpps. Nos horários de vale, especificamente nos dois primeiros, a diferença diminui para 10 minutos, ou seja, o headway dos ônibus corresponde a 30 minutos e dos vpps sobe para 20 minutos. Já no último horário de vale, entre 20h e 22h, a diferença aumenta para 15 minutos. Vale ressaltar a quantidade de passageiros transportados por tal modalidade, nos dois principais horários supracitados. Os ônibus, em horários de pico, transportam 70 passageiros/veículo em média, o que representa 910 passageiros transportados ao final de tal horário. Nos dois primeiros horários de vale, os ônibus transportam 30 passageiros/veículo em média, o que 6 representa 300 passageiros transportados ao final do período em questão. Já no último horário de vale são transportados 20 passageiros/veículo em média, o que representa 53,33 passageiros transportados ao final de tal horário. O somatório final, horário de pico e vale, corresponde a aproximadamente 1.264 passageiros transportados pela modalidade ônibus. 3.2.2 – Transporte Alternativo Nos três horários de pico, os vpps têm headway duas vezes menor que os ônibus. Conseguem transportar 14 passageiros/veículo em média, o que acarreta dizer que são transportados 364 passageiros ao final de tal período. Nos três horários de vale, os alternativos têm seu headway aumentado em 100%. Nestes mesmos horários a média de passageiros transportados/veículos diminui em tão somente 3 passageiros, ou seja, temse uma média de 11 passageiros/veículos transportados, o que acaba por resultar em 209 passageiros transportados ao final de tal período. O somatório final, horário de pico e vale, corresponde a 573 passageiros transportados pela modalidade de veículos de pequeno porte ou veículos de baixa capacidade. 3.3 – Tarifa Cobrada Ambas as modalidades têm como receita principal a tarifa cobrada aos usuários como um todo. Nos ônibus, todo numerário arrecadado é representado em termos de passageiros transportados por veículo (Ptpv), por conseguinte é levado em consideração passageiros pagantes. Nos ônibus, a legislação no Estado do Rio de Janeiro permite gratuidade a pessoas maiores de 65 anos de idade, deficientes físicos e estudantes das redes municipal e estadual. Nos vpps não existe gratuidade. Quando do surgimento da cooperativa Bel Rio, seus dirigentes pré-fixaram que a tarifa a ser cobrada pelos vpps seria sempre superior em R$0,10, a tarifa cobrada pela empresa Caravele. Portanto, via de regra, quem acaba por determinar as duas tarifas, na linha Belford Roxo x Central do Brasil, é a Caravele. Atualmente, maio de 2007, a tarifa do ônibus é R$3,90. Por conseguinte, a tarifa a ser cobrada pelos vpps é R$4,00. 7 3.4 – Tradicional x Alternativo Ao longo dos últimos dez anos, o que se visualiza é uma tentativa quase que diuturna de aumentar fatias de mercado consumidor, ou seja, nunca ocorreu como nos últimos anos uma máxima preocupação em provocar uma satisfação, com a venda de produtos e/ou serviços, nos clientes, tanto atuais como potenciais. Tem-se como objetivo principal a tal difundida fidelização destes mesmos clientes. Nos transportes não é diferente, tanto operadores tradicionais como alternativos lançam mão de estratégias diversas para tentar a todo o momento aumentar suas fatias de mercado. No campo de estudo, leia-se Caravele x Bel Rio, existe uma competitividade salutar. A Caravele vem trocando, gradativamente, sua frota de ônibus, com o intuito claro e objetivo de conseguir, com a estratégia mercadólogia em preço, baixar ao máximo a tarifa, ou seja, vem retirando os refrigeradores de ar-condicionado de seus ônibus, para que os mesmos baixem o consumo energético. O mesmo também ocorre com a Bel Rio, alguns de seus vpps possuem sistemas de ar-condicionado, mas dificilmente são acionados. Ainda, a cooperativa procura prestar um serviço o mais “pessoal” possível. Os condutores vêm recebendo treinamentos para melhor atender aos passageiros/clientes. Tal estratégia é adotada também pela Caravele. Ambas ofertam serviço de transporte, terá um resultado eficaz e eficiente a que melhor às necessidades, em um primeiro momento, e os desejos, em um segundo momento, dos passageiros e/ou clientes. Isto nada mais é que o conceito básico e fundamental do Marketing. Segundo os operadores, principalmente dos alternativos, com o treinamento dos condutores os índices de acidentes de trânsito vêm diminuindo, nos quatro primeiros meses de 2007, em cerca de 30% em relação ao mesmo período do ano de 2006. Deve-se entender que existem públicos para ambas as modalidades, mas os transportes alternativos saem na frente, pois encurtam e muito os tempos de viagem, de esperas em pontos de parada, com uma tarifa, apesar de mais cara, racionalizada no que entende-se por uma relação custo x benefício bastante razoável à luz dos passageiros/clientes. 8 4 – INCLUSÃO SOCIAL Segundo Holanda (1977), inclusão é o ato ou efeito de incluir(-se). E o significado de incluir é compreender, abranger. Conter em si. Inserir, introduzir. Estar incluído ou compreendido, fazer parte. Já para Sacconi (1996), exclusão é o ato de excluir(-se). Defini-se a palavra excluir como sendo algo incompatível, abandonado e/ou eliminado. Na visão de Holanda (1977), sociedade é o agrupamento de seres que vivem em estado gregário, vivem por vontade própria sob normas comuns. O que determina se um grupo de pessoas está inserido ou não em uma sociedade? Alguns entendem que estar incluído é ter acesso a informações, já para outros é tão somente fazer parte de um grupo de pessoas. Essa discussão é notória e altamente complicada, pois paira em torno da “pseudo” cognição inteiramente individualizada. Nas duas fontes secundárias subsequentes, buscou-se analisar, em um primeiro momento, como antes da inserção da competitividade nos transportes sobre pneus, a população de Belford Roxo era excluída. E ainda explicou-se a importância da competitividade salutar, destes mesmos transportes, na inclusão dos munícipes de Belford Roxo, nos principais centros comerciais da cidade do Rio de Janeiro. 4.1 – Exclusão Social Quando Holanda definiu que sociedade é viver em estado gregário (em bando), não significa dizer que todos que vivem em sociedade estão inseridos nela. Existem muitas pessoas atualmente que vivem e/ou sobrevivem totalmente apartadas, à margem de uma sociedade, seja pela por uma condição econômica, ou por um distanciamento físico ou ainda pelo abismo educacional reinante nos dias de hoje, século XXI. Sobre estas três visões supramencionadas, pode-se verificar que existem muitas pessoas que vivem excluídas em consequência de tais visões. Em uma relação de causa x efeito, pode-se verificar que a exclusão (causa) que uma sociedade gera a esta mesma sociedade acaba por criar indicadores terríveis (efeitos), como principalmente o da pobreza. Milton Santos (2000:69) define três tipos de pobreza: a pobreza incluída (“uma pobreza acidental, às vezes residual ou sazonal, produzida em certos momentos do ano”); a pobreza chamada de marginalidade (“pobreza produzida pelo processo 9 econômico da divisão do trabalho, internacional ou interna”) e a pobreza estrutural (“pobreza globalizada, presente em toda parte do mundo; do ponto de vista moral e político equivale a uma dívida social”). No campo específico dos transportes sobre pneus, a exclusão social era tamanha, e alguns fatores, já descritos no capítulo 3, eram de fundamental relevância para colaborar com tal situação. A tarifa cobrada era um dos principais, anteriormente pairava em torno de 1,6% do salário mínimo, ou seja, é como se a tarifa cobrada hoje fosse equivalente a R$5,60. Como os subsídios governamentais ainda eram raros, por exemplo, o vale transporte, que pudessem minimizar o impacto desta tarifa na “conta” dos profissionais, era quase que inviável estar inserido em um mercado de trabalho na cidade do Rio de Janeiro. Os tempos de viagens, bem como os intervalos entre as mesmas (headway), também eram indicadores importantes para a não inserção social de tal população. Para Silva, Morais e Santos (2004), dada a inexistência de políticas sociais realmente inclusivas, a questão que se coloca no campo de atuação setorial em transporte público é em que medida a política de transporte pode enfrentar os desafios da redução de gargalos excludentes. Ainda que esse tipo de preocupação seja elogiável, e que revista de interesse científico-acadêmico análises como a de Gomide (2003), há de se ressaltar que medidas de política de transporte, tomadas como esse alicerce, têm o viés de endereçar esforços para uma maior provisão de serviços, com mais modicidade tarifária, talvez com maior eficiência projetual e produtiva – sempre e quando não se confunda subsídio injustificado com reais ganhos de produtividade –, mas com um alcance certamente limitado a dotar de maior mobilidade os mesmos excluídos de antes. 4.2 – Caso Belford Roxo Para alguns teóricos a inclusão de alguém em uma sociedade é algo de fundamental relevância para o desenvolvimento desta mesma sociedade. Tudo o que fora dito anteriormente sobre a não inclusão das pessoas na sociedade pode ser dito agora só que com os conceitos e visões antagônicas, diferenciadas, ou seja, uma pessoa inclusa em um contexto macro de sociedade pode ser vista como cidadão, aquele que tem direitos e deveres perante a uma sociedade, pois não vive à margem de nada, e sim, participa inteiramente das decisões, por exemplo, de uma sociedade como todo. 10 No que tange aos transportes sobre pneus, observou-se com o advento dos alternativos, por conseguinte gerando competitividade, que algumas nuances impeditivas à inserção da população de Belford Roxo aos grandes centro comerciais foram bastante minimizadas. Conforme dito anteriormente, a competitividade nos transportes sobre pneus fora de fundamental importância para o aumento da participação da população, do município de Belford Roxo ao centro comercial do Rio de Janeiro. Isto posto, verificou-se que com a competitividade todos ganharam, ou seja, a empresa Caravele teve que se readequar, rever seus processos internos, como pena de perder e muito parte do mercado para os alternativos que, por conseguinte, têm a todo momento que provar para este mesmo mercado que presta um serviço de qualidade e principalmente com uma segurança beirando a uma situação ótima. É condição sine qua non para se continuar operando neste mercado competitivo e cada vez mais exigente que ambas as partes se reciclem e busquem ao máximo uma maior racionalização e otimização de suas agremiações. Fatores elencados anteriormente como: racionalização da tarifa cobrada (a dos ônibus atualmente corresponde a aproximadamente 1,12% do salário mínimo, com a dos alternativos sendo cobrado sempre R$0,10 a mais que esse valor, conforme dito anteriormente), a participação, apesar de ainda ineficiente, dos governos e da preocupação das duas operadoras em profissionalizar-se, foram de fundamental relevância para se conseguir aperfeiçoar e gerar uma competitividade de mercado salutar, onde todos os stakehoders foram beneficiados. Segundo a cooperativa Bel Rio, em uma pesquisa encomendada para linha Belford Roxo x Central do Brasil, o aumento da participação dos vpps no mercado é gradativa, mas considerável, pois no último trimestre de 2006 cerca de 10,5% das pessoas entrevistadas nas ruas de Belford Roxo não viajavam de maneira alguma em tal modalidade de transporte. Já 28,5% das pessoas tinham algum tipo de receio em viajar em tal modalidade. E para finalizar, cerca 61% dos entrevistados viajavam sem problemas. Esses números melhoraram qualitativamente em cerca de 30% com referência à pesquisa anterior, datada do mesmo período do ano de 2005. Respaldado pelos números, pode-se perceber um aumento, apesar de gradativo, da participação dos vpps, o que acaba por otimizar, entre outros fatores já elecados, o distanciamento social das pessoas inseridas em tal município. 11 5 – CONCLUSÃO Conclui-se este artigo científico entendendo que a inserção da competitividade no mercado de transportes públicos sobre pneus fora de suma importância para a população de Belford Roxo, pois, além de gerar maiores e melhores condições de acessibilidade global, melhorou também a mobilidade. Verificou-se também um aumento significativo da participação no mercado de trabalho das pessoas inseridas no município em questão. No bojo desta contextualização, a inserção social e a quebra de alguns paradigmas, até então não positivos, aparecem como algo facilitador. O papel dos transportes públicos neste encurtamento de distâncias, físicas e sociais, é primordial para se obter êxito em um maior desenvolvimento do município como um todo. Neste aspecto deveria entrar o Estado com políticas públicas, sérias e coerentes, que visassem uma maior e um melhor entendimento entre todas as partes inseridas no processo. Deve-se entender que as estratégias do Estado em se criar subsídios embora seja, nos transportes especificamente, louvável, é algo feito com o dinheiro de uma coletividade. O que deve ser dado atenção irrestrita é para a criação de políticas públicas que incluam a população, principalmente a marginalizada, num contexto de sociedade real e não sociedade aquela pertencente ao mundo do faz de conta. 12 REFERÊNCIAS BARBOZA, K. F.; ORRICO FILHO, R. D.; SANTOS, E. M. Diretrizes para o aperfeiçoamento dos regulamentos do transporte público urbano de passageiros: o confronto de três estudos. Revista Transportes, Rio de Janeiro, v. XI, n. 2, p. 5-13. (2003). BOUZADA, Célio; COUTO, Daniel; Borges, Heloisa & DRUMOND, Reinaldo. “Novo modelo de gestão e remuneração do serviço público do transporte coletivo por ônibus do município de Belo Horizonte”. In: Anais Eletrônicos do 15º Congresso Brasileiro de Transporte e Trânsito. Goiânia: ANTP, 2005. GOMIDE, Alexandre de Ávila. Regulação econômica e organização dos serviços de transporte público urbano em cidades brasileiras: estudos de caso. Relatório Final. BRASIL: IPEA & MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2005. GUERRA, José de Oliveira. Uma Proposta para a Utilização de Veículo de Baixa Capacidade no Transporte Urbano de Passageiros. M. Sc, Engenharia de Transportes 2002 XII, 175 P.29,7 cm. Rio de Janeiro: COPPE/UFRJ, 2002. HITT, Michael A.; IRELAND, R. Duane; HOSKISSON, Robert E. Administração Estratégica. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2005. HOLANDA, Aurélio Buarque de. Minidicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Positivo, 1977. MACÁRIO, Rosário. Institutional Framework. Competition & Ownership in Land Passenger Transport São Paulo: Elsevier, 2005. ______. Institutional Frameworks, Regulatory Agencies and the Land Passenger Transport Industry: Reflections on Recent Evolutions. São Paulo: Elsevier, 2005. MAIA, Rafael de Amaral & ORRICO FILHO, R. D. Transporte Alternativo: Acessibilidade, Mobilidade e Qualidade do Transporte em Bangu – Rio de Janeiro. Brasília: ANPET, 2006. 13 NASH, Chris & WALTERS, Jackie. Competition and Regulation. Competition & Ownership in Land Passenger Transport (2005). NETO, Francisco Paulo de Melo & FROES, César. Gestão da Responsabilidade Social Corporativa: o caso brasileiro. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2001. OLIVEIRA, Djalma de Pinho Rebouças. Sistemas de Informações Gerenciais: estratégicas, táticas e operacionais. São Paulo: Atlas, 2005. ______. Estratégia Empresarial & Vantagem Competitiva: como estabelecer, implementar e avaliar. São Paulo: Atlas, 2005. ______. Planejamento Estratégico: conceitos, metodologias e práticas. São Paulo (2005). ORRICO FILHO, R. D. & SANTOS, Enilson. Urban Bus Transport in Brazil: Regulations and Competition. New Delhi: The Asian Journal, 2002. ORRICO FILHO, R. D.; ARAGÃO, J. J. G; BRASILEIRO, Anísio; SANTOS, SANTOS, E. M. Ônibus Urbano: regulamentação e mercados. Brasília: Linha Gráfica Editora, 1996. ORRICO FILHO, R. D. ; ARAGÃO, J. J. G; BRASILEIRO, Anísio; SANTOS, SANTOS, E. M; LIMA NETO, O. C Construindo Modelos de Relações Institucionais e Reguladoras no Transporte Público Urbano: algumas considerações metodológicas. Rio de Janeiro: FINEP, 2001. PAIVA JUNIOR, Humberto. Regulamentação do transporte clandestino em Belo Horizonte: o caos apontando alternativas. Florianópolis: ANPET, 2004. SACCONI, Luiz Antonio. Minidicionário Sacconi da Língua Portuguesa. São Paulo: Escala Educacional, 1996. 14 SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000. SILVA, Ana Paula Queiroz; MORAIS, Thatiana Monique Oliveira Quiroga; SANTOS, Enilson. Exclusão Social, Transporte e Políticas Públicas. Transporte em Transformação IX (Trabalho Vencedor do Prêmio CNT de Produção Acadêmica 2004). TORRES Altair. “Tendências da regulação no mundo e no novo contexto político brasileiro”. In: ANAIS Eletrônicos do III ABAR Congresso Brasileiro de Regulação de Serviços Públicos Concedidos (2003). YAMASHITA, Y. & ORRICO FILHO, R. D. Reestruturação do Sistema de Transporte Público por Ônibus da cidade de Manaus. Modelo Funcional. Brasília: Ceftru/UnB, 2006. 15