695 CONTROLE DE ALÍVIO DE CARGA AERODINÂMICA DE UM VEÍCULO ESPACIAL Guilherme da Silveira1, Waldemar de Castro Leite Filho2 1 2 Instituto de Aeronáutica e Espaço, São José dos Campos, Brasil, [email protected] Instituto de Aeronáutica e Espaço, São José dos Campos, Brasil, [email protected] Resumo: Este trabalho apresenta uma metodologia de implementação de uma malha de controle de alívio das cargas aerodinâmicas que atuam em um veículo espacial durante o voo atmosférico. É utilizado o controle proporcional-derivativo, cujos ganhos são calculados analiticamente. A trajetória do veículo é plana e o controle se dá por deflexão do vetor empuxo. Palavras-Chave: Dinâmica, controle, cargas aerodinâmicas. 1. INTRODUÇÃO Durante o lançamento de um veículo espacial, as forças aerodinâmicas que atuam sobre este veículo podem assumir valores inadmissíveis. O momento fletor aerodinâmico ocasionado por essas forças pode, além de desestabilizar o veículo, causar a falha catastrófica de sua estrutura. O aparecimento desse momento está diretamente relacionado com o ângulo de ataque do veículo, ou seja, o ângulo entre o eixo longitudinal do veículo e a direção da velocidade do veículo em relação ao ar atmosférico. O surgimento do ângulo de ataque, por sua vez, está ligado a mudanças na velocidade do veículo em relação ao ar atmosférico, que podem ser ocasionadas por manobras realizadas e por perturbações externas. O vento, sendo uma perturbação externa sempre presente durante a fase atmosférica do lançamento de um veículo espacial, pode se tornar um fator principal de abertura do ângulo de ataque e, conseqüentemente, do aparecimento de cargas aerodinâmicas indesejadas e até inadmissíveis sobre o veículo. Para se evitar a sobrecarga aerodinâmica, seria necessário que a velocidade lateral do veículo tivesse a mesma orientação e intensidade da velocidade do vento, pois desse modo o ângulo de ataque seria zero. O veículo deveria possuir, portanto, um sistema de controle capaz de fazer com que sua velocidade lateral fosse sempre igual à velocidade do vento. No entanto, devido ao fato de o vento ser uma perturbação externa que não pode ser inteiramente prevista, é impossível projetar tal sistema de controle. Além disso, o fato de se rastrear a velocidade do vento para a diminuição da carga aerodinâmica implica em erros na trajetória do veículo em relação à trajetória nominal, visto que a trajetória nominal é determinada sem se considerar a presença de vento. 2. PROPÓSITO Este trabalho apresenta uma metodologia de projeto de uma malha de controle de alívio de cargas aerodinâmicas para veículos com empuxo vetorado. O alívio das cargas é realizado por meio da diminuição do ângulo de ataque do veículo durante o voo atmosférico. Para a minimização do erro em relação à trajetória nominal, é utilizada a estratégia de zona morta na malha de controle, ou seja, um intervalo de ângulos de ataque para os quais a malha de alívio de carga não atua. 3. MÉTODOS Para a implementação da malha de alívio de carga, foi considerado apenas o movimento do veículo no plano de arfagem, como mostrado na Fig. 1. Essa consideração simplifica as equações dinâmicas do movimento e só é possível quando os movimentos nos planos de arfagem e guinada do veículo podem ser desacoplados. Para tanto, fazse a hipótese de que o veículo não apresenta movimento de rolamento e o ângulo de guinada é pequeno. Além disso, o movimento do veículo se dá em torno de uma trajetória de referência e as perturbações no ângulo de arfagem, em torno dessa trajetória, também são pequenas. As Equações (1) à (3) descrevem a dinâmica do veículo no plano de arfagem, levando em consideração as simplificações mencionadas. Zα ⋅ w + u ⋅ q − g ⋅ cos θ 0 ⋅ δθ u Z + Z β z ⋅ β zAC + α ⋅ vvz − g ⋅ senθ 0 u M M qɺ = α ⋅ w − M q ⋅ q − M β z ⋅ β zAC − α ⋅ vvz u u δθɺ = q wɺ = − Fig. 1. Movimento do veículo no plano de arfagem (1) (2) (3) 696 Controle de Alívio de Carga Aerodinâmica de um Veículo Espacial Guilherme da Silveira, Waldemar de Castro Leite Filho Nestas equações, w é a velocidade ao longo do eixo z do veículo (velocidade lateral), q é a velocidade angular de arfagem, θ 0 é o ângulo de arfagem nominal e δθ é a perturbação no ângulo de arfagem. Além disso, β zAC é o sinal de controle da malha de alívio de carga e vvz é a velocidade do vento ao longo do eixo z do veículo. Essa formulação considera que a velocidade u , ao longo do eixo x do veículo, é unicamente determinada pela trajetória nominal e, portanto, não é considerada variável de estado e sim um parâmetro independente. Os coeficientes presentes nesta formulação, Zα , M α , M β z , Z β z e M q , englobam as características aerodinâmicas, geométricas, de massa e inércia e da trajetória nominal do veículo, e sua variação, para o veículo considerado neste trabalho, é mostrada na Fig. 2. De acordo com as equações dinâmicas do movimento, e considerando os coeficientes apresentados, o veículo é instável. Logo, qualquer perturbação na velocidade w não é amortecida e cresce com o tempo, o que faz com que o ângulo de ataque do veículo também cresça com o tempo. Para que esse ângulo não assuma valores inadmissíveis, implementou-se uma malha de controle de alívio de carga que limita o valor do ângulo de ataque do veículo. Esta malha utiliza controle PD, com realimentação da velocidade lateral do veículo. Deve-se ressaltar que, sendo o veículo instável, ele deve possuir, além da malha de alívio de carga, uma malha de controle de estabilidade e pilotagem. Neste trabalho, as duas malhas de controle foram projetadas separadamente e o sinal de controle é a soma do sinal de controle de cada uma das malhas. Esse fato faz com que o funcionamento da malha de alívio de carga implique em menor eficiência da malha de estabilidade e pilotagem, ocasionando erros em relação à trajetória nominal, e vice-versa. O diagrama de blocos do sistema é apresentado na Fig. 3. O equacionamento a seguir apresenta apenas o projeto da malha de alívio de carga, que é o propósito deste trabalho. Determinou-se inicialmente a resposta do sistema em malha aberta, dada pela Eq. (4). Analisando-se os valores dos coeficientes do veículo ao longo do tempo, esta função de transferência foi simplificada, resultando na Eq. (5). A comparação das respostas das duas funções de transferência, para um tempo de voo de 40s, é mostrada na Fig. 4. Fig. 3. Diagrama de blocos do sistema de controle de estabilidade e de alívio de cargas Nota-se que o sistema completo é mais amortecido do que o sistema simplificado. Logo, ao projetar-se a malha de controle para o sistema simplificado, espera-se que a resposta em malha fechada do sistema completo seja mais amortecida em relação ao sistema simplificado, característica que permite que se faça o projeto da malha de alívio de carga para o sistema simplificado. w(s) = βz ( s) Z β z s 2 + ( Z β z M q − M β z u ) s + gM β z cos θ 0 Z s3 + M q + α u gM α cos θ 0 2 M q Zα s + u − Mα s + u w(s) βz ( s) ≈ −M β zu s2 − M α (5) Fechando-se a malha de alívio de carga do sistema simplificado, obteve-se a função de transferência dada pela Eq. (6). Esta função de transferência apresenta apenas dois pólos, ou seja, dois parâmetros a serem determinados. Como o controlador possui dois ganhos que podem ser escolhidos, têm-se dois graus de liberdade, o que permite que se escolha diretamente a localização dos dois pólos da função de transferência, de acordo com as características da resposta dinâmica do sistema esperadas pelo projetista. − K p M β zu w(s) = 2 wref ( s ) s − K d M β z us − ( M α + K p M β z u ) (6) De maneira genérica, a Eq. (6) pode ser escrita como em (7). Igualando-se (6) e (7), as equações analíticas que fornecem os ganhos do controlador, em função de ξ e ω , podem ser obtidas e são dadas pelas Equações (8) e (9). Fig. 4. Comparação entre sistema simplificado e completo Fig. 2. Variação temporal dos coeficientes do veículo (4) 697 Controle de Alívio de Carga Aerodinâmica de um Veículo Espacial Guilherme da Silveira, Waldemar de Castro Leite Filho w( s) K = wref ( s ) s 2 + 2ξω s + ω 2 Kp = − ω2 + Mα Kd = − M β zu 2ξω M β zu (7) (8) (9) Dessa maneira, escolhendo-se os valores de ξ e ω que fornecem a resposta dinâmica mais adequada para o sistema, os valores dos ganhos do controlador podem ser determinados para cada instante de voo. A escolha destes parâmetros está diretamente relacionada com características da resposta do sistema como tempo de subida, tempo de assentamento e erro à rampa, por exemplo. valores de ângulo de ataque α compreendidos em ]−α A , +α A [ , onde α A é a amplitude da zona morta, o sinal de controle da malha de alívio de carga não é considerado. Logo, para valores de ângulo de ataque que não representem riscos à estrutura do veículo, o controle é realizado apenas pela malha de estabilidade e pilotagem, de modo que o veículo não se afaste da trajetória nominal. Os resultados para a variação do ângulo de ataque durante o voo são apresentados na Fig. 8. Fig. 6. Diagrma de blocos da zona morta da malha de alívio de carga 4. RESULTADOS Para o cálculo dos ganhos do controlador, foram escolhidos os seguintes valores: ω = 10 , ξ = 0.9 . Levando-se em consideração que os coeficientes do veículo variam ao longo do voo, os ganhos do controlador também devem variar, obedecendo às Equações (8) e (9). A variação dos ganhos é apresentada na Fig. 5. Para a validação da malha de alívio de carga, foi simulado o comportamento do veículo sujeito à ação do vento, cujo perfil é mostrado na Fig. 7. Nesta simulação, considera-se que o veículo possui, além da malha de alívio de carga, uma malha de controle de estabilidade e pilotagem, que permite que o veículo siga uma trajetória nominal em ângulo de arfagem. Este perfil é apresentado também na Fig. 7. Para as simulações, foram consideradas duas situações: a) veículo sem malha de alívio de carga; e b) veículo com malha de alívio de carga. Como estratégia para diminuição da dispersão em relação à trajetória nominal, foi considerada uma faixa de valores de ângulo de ataque, chamada zona morta, para os quais a malha de alívio de carga não atua. O diagrama de blocos desta zona é mostrado na Fig. 6. Para k (a) (b) Fig. 7. (a) Perfil de vento considerado e (b) Ângulo de arfagem nominal Fig. 8. Ângulo de ataque do veículo para diferentes malhas de alívio de carga Fig. 5. Variação temporal dos ganhos do controlador 698 Controle de Alívio de Carga Aerodinâmica de um Veículo Espacial Guilherme da Silveira, Waldemar de Castro Leite Filho Os resultados para a variação do ângulo de arfagem durante o voo são apresentados na Fig. 9. Fig. 9. Ângulo de arfagem do veículo para diferentes malhas de alívio de carga 5. DISCUSSÕES Nos casos em que a malha de alívio de carga atuou, houve uma diminuição no valor do ângulo de ataque, o que reduz o carregamento aerodinâmico sobre o veículo. Nota-se a influência da amplitude da zona morta sobre os resultados, Fig. 8. Quanto maior essa amplitude, menor a eficiência da malha de alívio de carga, pois ela passa a atuar apenas para ângulos de ataque cada vez maiores. Para a malha de alívio de carga com amplitude de zona morta de 0.3º, nota-se, ainda, uma oscilação na resposta do sistema. Essa oscilação se dá justamente em torno de α = −0.3º , que é o limite inferior da zona morta. Essa oscilação ocorre devido às sucessivas atuações e não atuações da malha de alívio de carga. Eliminando-se a zona morta, ou seja, para uma amplitude de 0º, a diminuição do ângulo de ataque é considerável e o sistema não mais apresenta comportamento oscilatório. Notam-se ainda alguns picos no valor do ângulo de ataque. Esses picos estão relacionados com o tempo de resposta da malha de controle de alívio de carga, que não consegue acompanhar instantaneamente as variações bruscas que ocorrem no perfil de vento. Com relação ao desvio em relação à trajetória nominal, apesar de o erro ter sido relativamente pequeno, nota-se que esse erro aumenta com o aumento da eficiência da malha de alívio de carga, como pode ser visto na Fig. 9, onde a dispersão em relação à trajetória nominal é maior para a malha de alívio de carga sem zona morta. 6. CONCLUSÕES Os resultados apresentados mostram que a estratégia para o cálculo dos ganhos do controlador de alívio de carga é válida. Esta é uma estratégia simples que permite o cálculo analítico dos ganhos. Dessa forma, são dispensados quaisquer processos iterativos ou de otimização para este cálculo. Além disso, as equações analíticas para K p e K d são bastante simples. A malha de controle PD utiliza realimentação da velocidade w , que pode ser obtida diretamente do sistema de navegação do veículo, ou seja, esta é uma malha de controle realizável. Outra característica deste método é a necessidade de escolha de apenas dois parâmetros para o cálculo dos ganhos, ω e ξ . Se, por um lado, isto simplifica o projeto da malha de alívio de carga, por outro lado isto diminui o número de graus de liberdade à disposição do projetista. Estes parâmetros estão diretamente relacionados com a resposta dinâmica do sistema e podem ser determinados a partir de requisitos de projeto como tempo de subida, tempo de assentamento, erro à rampa, etc. Como mostra a Fig. 9, uma boa malha de alívio de carga implica em erros na trajetória nominal do veículo. Deve-se, portanto, encontrar um compromisso entre as malhas de estabilidade e alívio de carga. A estratégia de utilização de zona morta se mostrou razoável para a diminuição da dispersão em relação à trajetória nominal, sendo que a escolha de sua amplitude deve levar em consideração parâmetros como os limites estruturais do veículo e restrições de dispersão da trajetória, por exemplo. Finalmente, deve-se ressaltar o fato da dependência dos resultados obtidos com relação aos valores de ω e ξ . Esses valores estão relacionados com as características da resposta dinâmica do veículo e, portanto, um estudo deve ser realizado para se escolher os valores mais apropriados para esses parâmetros. Neste trabalho, não foi realizado um estudo dessa natureza e os valores foram escolhidos apenas para validar a metodologia de cálculo dos ganhos do controlador. REFERÊNCIAS [1] J. W. Cornelisse, H. F. R. Shoyer, K. F. Wakker, “Rocket Propulsion and Spaceflight Dynamics”, Pitman Publishing Ltd, London, 1979. [2]LI A.L.Greensite, “Analysis and Design of Space Vehicle Flight Control Systems”, Spartan Books, New York, 1970. [3]LI K. Ogata, “Engenharia de controle moderno”, 4ª Ed., Prentice-Hall do Brasil, São Paulo, 2003. [4] W. C. Leite Filho, “Curso de Guiamento e Controle – Introdução”, Curso de pós-graduação em Engenharia e Tecnologia Espaciais, área de Mecânica Espacial e Controle, INPE, 2010. Not published. [5] W. C. Leite Filho, “Curso de Guiamento e Controle – Dinâmica de Vôo”, Curso de pós-graduação em Engenharia e Tecnologia Espaciais, área de Mecânica Espacial e Controle, INPE, 2010. Not published. [6] W. C. Leite Filho, “Curso de Guiamento e Controle – Pilotagem”, Curso de pós-graduação em Engenharia e Tecnologia Espaciais, área de Mecânica Espacial e Controle, INPE, 2010. Not published.