MODELAGEM E DINÂMICA DE PROCESSOS Profa. Ofélia de Queiroz Fernandes Araújo Escola de Química da UFRJ [email protected] VARIÁVEIS DE ESTADO Definições Estado: O estado de um sistema dinâmico é o conjunto mínimo de variáveis (chamadas variáveis de estado) tal que o conhecimento destas variáveis em t = t0, conjuntamente com as entradas em t ≥ t0, determinam totalmente o comportamento do sistema para qualquer tempo t ≥ t0 . Portanto, o estado de um sistema dinâmico em um instante t qualquer fica determinado univocamente pelo estado no tempo t0 e as entradas para t ≥ t0, e é independente do estado e das entradas antes de t0. Variáveis de estado: As variáveis de estado de um sistema dinâmico é o conjunto mínimo de variáveis que determinam o seu estado. Cabe ressaltar que as variáveis de estado não necessariamente devem ser grandezas físicas. Vetor de estado: Se forem necessárias n variáveis de estado x1(t), x2(t),..., xn(t), para descrever um sistema, estas de variáveis de estado podem ser consideradas como componentes de um vetor x(t), chamado vetor de estado. Espaço de estado: O espaço n-dimensional, cujos eixos de coordenadas correspondem ao eixo x1, eixo x2,..., eixo xn, é denominado espaço de estado. Um estado qualquer pode ser representado através de um ponto no espaço de estado, e a evolução do comportamento dinâmico de um sistema é representada por uma trajetória no espaço de estado. Um sistema dinâmico representado por uma equação diferencial ordinária de ordem n pode ser descrito através de n equações ordinárias de 1a ordem, isto é, utilizando notação vetorial - matricial é possível expressar uma equação diferencial ordinária de ordem n através uma equação vetorial - matricial de primeira ordem. Esta equação é chamada equação de estado. Representação em espaço de estado de sistemas de enésima ordem Função de perturbação não envolve termos derivativos. Considere um sistema de ordem n cuja função de perturbação u (função excitadora), não envolve termos derivativos. O sistema de enésima ordem é descrito pela seguinte equação: y ( n) + a1 y ( n −1) +L+ a n−1 y& + a n y = u (1) MODELAGEM E DINÂMICA DE PROCESSOS Profa. Ofélia de Queiroz Fernandes Araújo Escola de Química da UFRJ [email protected] onde y n K y& , são as derivadas de y. Para este sistema o conhecimento das condições iniciais y ( 0 ), y& ( 0 ), L , y ( n − 1) ( 0 ) , conjuntamente com a entrada u(t ) para t ≥ 0, são suficientes para determinar o comportamento futuro do sistema. Portanto, um conjunto possível de variáveis de estado é y (t ), y&(t ),L , y ( n−1) (t ) . x1 = y x2 = y& (2) M xn = y ( n− 1) Portanto a equação (1) pode ser escrita como : x& 1 = x x& 2 = x 3 M x& n −1 = x n (3) x& n = −a n x 1 −L− a1 x n + u ou, na forma matricial, como: x& = Ax + Bu (4) com x1 0 x 0 2 x = M , A = M M 0 x n − a n 1 0 0 M 1 M 0 −a n−1 0 − an − 2 E a resposta do sistema (equação de saída) é: L 0 0 0 L 0 M , B = M L 1 0 1 L − a1 (5) MODELAGEM E DINÂMICA DE PROCESSOS Profa. Ofélia de Queiroz Fernandes Araújo Escola de Química da UFRJ [email protected] x1 x 2 y = [1 0 0 L 0] x3 M x n (6) ou em forma vetorial y = Cx (7) C = [1 0 0 L 0] (8) onde Exemplo: Dado o sistema &&& y + 6 y&& + 11y& + 6 y = 6u (9) obter uma representação do sistema no espaço de estado. Escolhendo as variáveis de estado como x1 x2 = = x3 = y y& (10) y&& pode-se escrever x&1 x& 2 x& 3 = = x2 x3 = −6 x1 (11) −11x 2 −6 x 3 Utilizando a notação vetorial - matricial +6u MODELAGEM E DINÂMICA DE PROCESSOS Profa. Ofélia de Queiroz Fernandes Araújo Escola de Química da UFRJ [email protected] x&1 0 1 0 x1 0 x& 2 = 0 0 1 x 2 + 0u x&3 − 6 − 11 − 6 x 3 6 { 1442443 A (12) B e a equação de saída é x1 y = [1 0 0] x 2 1424 3 C x 3 (13) Caráter não único das variáveis de estado O conjunto de variáveis de estado de um sistema não é único. Dado um conjunto de variáveis de estado x1 , x 2 , K , x n é possível definir um novo conjunto de variáveis de estado z1 , z2 ,K , zn através de um conjunto de funções X 1 , X 2 ,K, X n z1 z2 M zn = = = X 1( x1 , x2 ,K , xn ) X 2 ( x1 , x2 ,K, xn ) M X n ( x1 , x2 ,K, xn ) (14) sempre que, para cada conjunto x1 , x 2 , K , x n corresponda um único conjunto z1 , z2 ,K , zn . Ou seja, define-se uma transformação linear entre os dois vetores de estado. z = Px (15) Para cumprir com as condições supracitadas, a matriz P não pode ser uma matriz singular. Exemplo: Para o sistema apresentado no exemplo anterior, define-se um novo vetor de estados z através da transformação: x1 1 1 1 z1 x = −1 −2 −3 z 2 2 x 3 1 4 9 z3 ou (16) MODELAGEM E DINÂMICA DE PROCESSOS Profa. Ofélia de Queiroz Fernandes Araújo Escola de Química da UFRJ [email protected] x = Pz (17) 1 1 1 P = −1 −2 −3 1 4 9 (18) com substituindo (17) em (4) tem-se Pz& = APz + Bu (19) Pré-multiplicando ambos os membros por P-1, e sabendo que P-1 P = I, obtém-se: z& = P −1 APz + P −1 Bu (20) z&1 z& = 2 z&3 (21) ou 1 0 1 1 1 z&1 3 2.5 0.5 0 −3 −4 −1 0 0 1 −1 −2 −3 z&2 + 1 15 . 0.5 −6 −11 −6 1 4 9 z&3 3 2.5 0.5 0 + −3 −4 −1 0u 1 15 . 0.5 6 simplificando z&1 −1 0 0 z&1 3 z& = 0 −2 0 z& + −6u 2 2 z&3 0 0 −3 z&3 3 (22) A equação de saída é modificada e fica: y = Cx = CPz ou (23) MODELAGEM E DINÂMICA DE PROCESSOS Profa. Ofélia de Queiroz Fernandes Araújo Escola de Química da UFRJ [email protected] 1 1 1 z1 y = [1 0 0]−1 −2 −3 z2 1 4 9 z3 (24) z1 y = [1 1 1]z2 z3 (25) Autovalores da matriz A Os autovalores de uma matriz A são os escalares λ que resolvem a equação Ax = λx (26) para x ≠ 0 . Portanto, os autovalores de A devem satisfazer λI − A = 0 (27) ou seja, são as raízes da equação característica (27). Por exemplo, para a matriz 1 0 0 0 1 A=0 −6 −11 −6 (28) a equação característica é λ −1 0 λI − A = 0 λ −1 6 11 λ + 6 (27) = λ3 + 6λ2 + 11λ + 6 = ( λ + 1)( λ + 2)( λ + 3) = 0 Os autovalores de A são as raízes da equação característica, que neste caso são -1, 2 e -3. Como pode ser observado na equação (22), uma transformação linear P não altera os autovalores do sistema, indicando que os autovalores, também chamados valores característicos, estão associados ao sistema e não à sua representação. Formalmente, MODELAGEM E DINÂMICA DE PROCESSOS Profa. Ofélia de Queiroz Fernandes Araújo Escola de Química da UFRJ [email protected] pode-se provar que os polinômios característicos de ambas as representações são idênticos: λI − A = λI − P −1AP = λIP−1P − P −1AP = P −1 (λI − A )P = P −1 (λI − A ) P = P −1 P (λI − A ) = (λI − A ) (28) Representação em espaço de estado de sistemas de equações diferenciais lineares na qual a função de perturbação envolve termos derivativos. Seja a equação diferencial do sistema representada por: y ( n) + a1 y ( n −1) +L+ an − 1 y& + an y = b0u (n ) + b1u (n −1) +L+ bn− 1u& + bnu (29) y K, y ( n−1) não serve como conjunto de variáveis de o conjunto de variáveis y , y& , &&, estado pois o conjunto de equações diferenciais de primeira ordem obtidas a partir delas pode não ter solução única. As variáveis de estado devem ser tais que eliminem as derivadas de u na equação de estado. Assim, uma forma de definir as variáveis de estado para este caso é : x1 = x2 x3 y − β 0u = y& − β 0u& − β 1u = x&1 − β 1u = &&y − β 0u&& − β 1u& − β 2 u = x&2 − β 2 u xn = (30) y (n − 1) − β 0u( n −1) −L− β n− 2u& − β n −1u = x&n− 1 − β n −1u onde β 0 = b0 β 2 = b1 − a1β 0 β 2 = b2 − a1β 1 − a2β 0 β 3 = b3 − a1β 2 − a2β 1 − a3β 0 β n = bn − a1β n− 1 −L− an −1β 1 − an β 0 (31) MODELAGEM E DINÂMICA DE PROCESSOS Profa. Ofélia de Queiroz Fernandes Araújo Escola de Química da UFRJ [email protected] que garante a unicidade da solução da equação de estado. Com esta seleção de variáveis de estado, as equações de estado para o sistema representado pela equação (29) é dado por: x&1 x& 2 M = x&n − 1 x&n 0 0 M 0 −an 1 0 0 M 1 M 0 0 − an− 1 − an − 2 L 0 x1 β 1 L 0 x2 β 2 M M + M u L 1 xn −1 β n − 1 L − a1 xn β n (32) E a equação de saída é: x1 x 2 y = [1 0 0 L 0] x3 + β 0u M x n (33) x& = Ax + Bu y = Cx + Du (34) (35) ou onde x1 0 x 0 2 x = M , A = M M 0 xn − an 1 0 0 1 M M 0 0 −an −1 − an − 2 L L 0 β1 β 0 2 M , B = M β L 1 n −1 L − a1 βn (36) C = [1 0 0 L 0], D = β 0 = b0 Utilizando transformada de Laplace, a representação em forma de função de transferencia do sistema dado pela equação (29) é: Y ( s) U ( s) = b0s n + b1sn −1 +L+bn− 1s + bn sn + a1sn − 1 +L+ an− 1s + an (37) MODELAGEM E DINÂMICA DE PROCESSOS Profa. Ofélia de Queiroz Fernandes Araújo Escola de Química da UFRJ [email protected] Resolução da equação de estado invariante no tempo A solução de uma equação diferencial escalar de primeira ordem x& = ax (38) pode ser dada através de : x (t ) = b0 + b1t + b2 t 2 +L+bk t k +L (39) Substituindo (39) em (38) tem-se: ( ) b1 + 2b2 t + 3b3t 2L+ kbk t k − 1 +L = a b0 + b1t + b2t 2 +L+bk t k +L (40) Igualando coeficientes: b1 = ab0 b2 = 12 ab1 = 12 a 2b0 b3 = 13 ab2 = bk = 1 k! 1 3x 2 a 3b0 (41) a k b0 Substituindo t=0 na equação (39) determina-se o valor de b0 : x ( 0) = b0 Portanto, a solução pode ser escrita como: ( ) x (t ) = 1 + at + 21! a 2t 2 +L+ k1! a k t k +L x (0) = e at x (0) (42) Para a equação diferencial vetorial - matricial x& = Ax (43) por analogia com o caso monovariável a solução proposta é: x (t ) = b0 + b1t + b2 t 2 +L+b k t k +L Substituindo (44) em (43) (44) MODELAGEM E DINÂMICA DE PROCESSOS Profa. Ofélia de Queiroz Fernandes Araújo Escola de Química da UFRJ [email protected] ( ) b1 + 2b2 t + 3b 3t 2L+ kbk t k − 1 +L = A b0 + b1t + b2 t 2 +L+ bk t k +L (45) Igualando coeficientes tem-se: b1 = Ab0 b 2 = 12 Ab1 = 12 A 2b 0 b 3 = 13 Ab2 = 1 3x 2 A 3b 0 (46) b k = k1! A k b0 Substituindo t=0 na equação (44) obtém-se: x ( 0 ) = b0 Portanto, a solução pode ser escrita como: ( ) x(t ) = I + At + 21! A 2t 2 +L+ k1! A k t k +L x(0) (47) a expressão entre parêntesis é uma matriz nxn e, devido a sua semelhança com uma série infinita de potências denomina-se matriz exponencial. Exemplo: Seja o sistema representado por: −10 1 1 A = .2 −23 .4 .1 2 −15 com 1 x(0) = 1 1 t=linspace(0,1,100); A=[-10,1,1;.2,-23,.4;.1,2,-15]; x0=[1;1;1]; x=[]; for i=1:length(t) x=[x expm(A*t(i))*x0]; MODELAGEM E DINÂMICA DE PROCESSOS Profa. Ofélia de Queiroz Fernandes Araújo Escola de Química da UFRJ [email protected] end plot(t,x) xlabel('tempo')