Guia docente: “A entrevista dos meus sonhos”
Introdução
Mesmo sem nos darmos conta, recorremos a algum tipo de entrevista quase
diariamente. Todos nós, em algum momento, já fizemos perguntas sobre um
tema ou sobre uma pessoa sobre a qual necesitamos saber mais. Já
“entrevistamos” um encanador para saber o que acontece com o cano de água
do banheiro, um médico para saber mais sobre uma doença, um colega de
escola que utiliza um novo método didático ou uma amiga para saber mais
sobre uma pessoa que ela acaba de conhecer. A entrevista é “um diálogo entre
dois ou mais indivíduos em relação a um determinado tema, pessoa ou
acontecimento”.
De todas as entrevistas da vida cotidiana, a entrevista jornalística é a que nos
interessa agora: aquela que busca explorar o pensamento, as ideias, os
sentimentos, as opiniões e a vida de um personagem público e famoso que, a
partir do seu esforço e trabalho, conseguiu chegar ao lugar onde está.
A entrevista é a arte de aprender a partir dos outros. A entrevista jornalística
busca conhecer a pessoa. Antes de julgá-la ou avaliá-la, trata-se de
descobri-la.
Para isso, existem certas etapas às quais nos referimos a seguir.
Antes da entrevista
1. Decidir quem será o entrevistado
Em primeiro lugar é necessário dizer quem será o/a entrevistado/a. A decisão
dependerá de algumas variáveis – que podem ser debatidas em grupos – e de
alguma investigação inicial:
a. Área de interesse: É importante que os alunos reflitam sobre a área que
lhes interessa para sua entrevista: esportes, música, arte, televisão,
política, direitos humanos, jornalismo, etc. Com frequência, a escolha do
personagem começa com o campo social que os estudantes têm
interesse em explorar.
b. Alcance geográfico do personagem: É conveniente pensar sobre o
alcance que
esperam que o(a) entrevistado(a) tenha. Será
internacional? nacional? estadual? municipal? Essa dimensão pode
ajudar a eleger quem será o personagem a ser entrevistado.
c. Impacto: É conveniente que os alunos reflitam também sobre o impacto
que podem gerar diferentes entrevistados/as. Há personagens que
atraem mais a opinião pública que outros, e essa pode ser uma variável
para a eleição.
d. Uma historia especial: Para decidir quem o grupo entrevistará é
fundamental conhecer algo da vida desse personagem. Deve tratar-se
de uma história de vida de esforço, trabalho, empenho, superação e
dedicação, que tenha permitido ao entrevistado chegar ao lugar onde
chegou.
Para poder definir esses aspectos, é importante investigar. Trabalhem em
grupos para distribuir as diferentes tarefas entre vocês!
Investigar o(a) entrevistado(a)
É fundamental explorar a vida das pessoas que estão sendo cotadas para a
entrevista. As fontes incluem livros, revistas, jornais, internet e a conversa com
outras pessoas que possam oferecer informações acerca do possível
entrevistado. Cada uma das pessoas do grupo pode explorar uma fonte de
informação diferente. Busquem conhecer bem o personagem, assim, poderão
decidir – entre todos – quem será o entrevistado.
Investigar o tema
Conhecer o(a) entrevistado(a) é essencial, mas também é importante saber
qual é o tema sobre o qual essa pessoa é referência. Investigar em jornais,
livros, internet e revistas (incluindo tudo o que tenha sido escrito sobre o tema)
ajuda a preparar uma melhor entrevista e checar as informações em diferentes
fontes. Mais uma vez, distribuam as fontes de consulta entre os integrantes do
grupo.
É importante investigar a maior quantidade de fontes possível. Dessa maneira,
o grupo poderá checar e comparar as informações reunidas. Algumas fontes
são mais confiáveis que outras. Utilizem somente aquelas em que se possa
confiar; seja porque são fontes especializadas no assunto ou personagem, seja
porque são pesquisadores acadêmicos ou porque são reconhecidas por sua
seriedade e responsabilidade ao informar.
Definido o(a) entrevistado(a), os alunos terão concluído o primeiro passo.
2.
Preparar as perguntas
O segundo momento é a formulação do questionário.
A entrevista é uma forma de diálogo, não de interrogatório. Não se trata de
julgar o personagem. O objetivo das perguntas é conhecer a pessoa.
Em primeiro lugar, reflitam e debatam em grupos o que mais lhes interessou na
investigação que acabaram de realizar sobre a pessoa escolhida.
Algumas entrevistas giram em torno de um aspecto do trabalho do
personagem; outras entrevistas buscam explorar o personagem em sua vida
diária (como no seu cotidiano).
Para formular as perguntas, será necessário definir que aspectos vocês
desejam aprofundar.
As perguntas em uma entrevista são tão importantes (ou mais) que as
respostas. Por isso, é preciso pensar bem nelas.
E como preparar a entrevista? Vejamos cada passo separadamente.
Aqui vão algumas recomendações para elaborar as perguntas:
Pensem em perguntas abertas para colher a maior quantidade de
informação do entrevistado. As perguntas abertas são aquelas que
começam com: Como, O quê, Quando, Onde e Por quê.
Façam perguntas que gerem respostas pessoais, convidando o entrevistado
a dar sua opinião ou visão sobre o que desejam saber.
Formulem perguntas claras, que não induzam as respostas.
Façam perguntas que levem o leitor a compreender por que se trata de
uma história de vida interessante, de esforço ou trabalho.
Evitem perguntar algo ao entrevistado que já tenha sido abordado
centenas de vezes em outras entrevistas. Verifiquem as informações
importantes sobre o entrevistado que tenham sido publicadas ou
veiculadas em algum lugar. Utilizem esse histórico para criar perguntas
originais.
Durante o encontro
Ao começar
a. Comecem a entrevista com perguntas simples até ganhar a
confiança do entrevistado. Construir uma boa relação com o
interlocutor pode levar alguns minutos no início.
b. Se o(a) entrevistado(a) fala muito rápido e vocês têm dificuldade de
tomar nota, podem perdir gentilmente a ele(a) que fale um pouco
mais devagar. É melhor que façam isso logo no início da entrevista,
para que não afetem o desenvolvimento do diálogo.
c. Gravar a entrevista evita a perda de informações. É conveniente
pedir a permissão do entrevistado antes de ligar o gravador.
d. Ainda que gravem ou filmem a entrevista, é importante tomar nota de
tudo que lhes pareça importante. Às vezes a tecnologia pode falhar
e, quando se percebe, já é tarde demais. Por isso, tenham sempre à
mão lápis e papel.
e. Escutem as respostas com atenção. Vocês devem estar sempre
prontos para fazer uma nova pergunta aproveitando as novas
informações que o entrevistado vai oferecendo ao longo da conversa.
As perguntas feitas de “improviso” são fundamentais porque
transformam a entrevista em um verdadeiro diálogo.
f. Enquanto vão tomando nota e antes de terminar a entrevista,
sublinhem as frases do entrevistado que lhes pareçam mais
importantes. Isso vai facilitar o trabalho de escrever o seu texto após
a conversa.
Antes de despedir-se
a. Quando terminarem as perguntas que vocês prepararam, é oportuno
perguntar ao(à) entrevistado(a) se há algo mais que ele(a) queira
acrescentar e que vocês não tenham perguntado.
b. Vocês podem perguntar ao(à) entrevistado(a) se há algum aspecto
da conversa que ele(a) queira aprofundar um pouco mais.
c. Agradeçam ao(à) entrevistado(a) pelo tempo disponível para atendêlos.
d. Peçam ao(à) entrevistado(a) seu e-mail e telefone. Talvez vocês
venham a precisar entrar em contato com ele(a) novamente para
fazer alguma pergunta complementar ou esclarecer alguma questão
que não tenha ficado suficientemente clara. Vocês também podem
enviar para o(a) entrevistado(a) o resultado final da entrevista após a
publicação.
Depois da entrevista
1. Eleger a informação
Agora que terminou a entrevista, é necessário pensar como ela será colocada
no papel. O primeiro passo, então, será selecionar que informação, entre todo
o material que vocês obtiveram, será útil. Possivelmente, nem tudo o que foi
conversado seja interesante; assim, será necessário priorizar as informações
que se deseja incluir no texto final. Essa seleção de temas nunca é fácil.
Aqui vão algumas recomendações que podem ajudá-los nesse proceso:
Quando escreverem a matéria, há duas posibilidades a serem
escolhidas: a primeira é redigir uma breve introdução sobre a pessoa
que foi entrevistada e sobre os temas que foram abordados, e passar
diretamente para as perguntas e as respostas. A segunda opção é
intercalar entre as perguntas e as respostas, dados sobre os gestos e as
expressões do personagem ao longo da entrevista. Também podem
contar sobre o local onde foi feita a entrevista e tudo que ajude o leitor a
situar-se nessa cena. É interessante que o texto não seja uma mera
transcrição do diálogo. Busquem criar no leitor a sensação de que ele
estava presente durante a conversa.
Logo que a entrevista terminar escrevam, em grupo, um primeiro
rascunho com base nas informações de que vocês se recordam. Isso é
interessante de ser feito imediatamente após o fim da entrevista porque
vocês, seguramente, recordarão melhor os detalhes e porque aquilo que
vocês lembrarem dela será o que, ao final, será publicado.
Leiam, escutem (se tiverem gravado) ou assistam (se filmaram) a todo o
material antes de tomar alguma decisão.
Analisem que aspectos da entrevista são mais importantes e
interessantes. Utilizem aquilo que lhes pareça mais significativo sobre
o(a) entrevistado(a) e que ajude a compreender por que ele(a) foi
escolhido(a) como exemplo de uma boa história de vida.
Pensem e sempre tratem de se colocar no lugar dos leitores que talvez
não conheçam o entrevistado ou entrevistada. Desse modo, o que for
atrativo, de novo, para vocês, também será interessante para os
demais.
2. Escrever a versão final
Se vocês já selecionaram as informações que serão usadas na entrevista,
podem começar a escrever a notícia/matéria a partir da estrutura que desejam.
A seguir, apresentamos algumas sugestões:
Reflitam com seus companheiros: O que faz esta entrevista atraente
para os outros leitores? Conseguimos transmitir a história de vida do
personagem? O que agregariam? O que eliminariam?
Leiam o texto que escreveram em voz alta para checar se não há
orações grandes demais ou confusas. A leitura em voz alta ajuda muito
nisso.
É importante pensar muito bem em como escrever o início e a conclusão
da entrevista. O começo é o que prende o leitor e o estimula a seguir
lendo. O fim é a última imagem que o leitor vai conservar da entrevista e
o que possivelmente ele vai lembrar por mais tempo.
3. Editar o texto
Editar o texto
Se vocês já tiverem escrito a entrevista, estarão prontos para editá-la. O
trabalho de edição consiste em assegurar-se de que a versão final do texto
seja clara e compreensível. Chegou o momento de revisar a redação e os erros
ortográficos. Debatam sobre a edição com seus colegas. Pensem sempre no
leitor que vai ler a entrevista.
A versão final deve ser clara e atrativa para todos. Quando tiverem terminado
de editar o texto e antes de enviá-lo, é interessante mostrar o trabalho para
uma pessoa que não seja da equipe, para que ela faça uma avaliação isenta
da entrevista e lhes diga o que pensa dela.
Tudo pronto!!!!
Escolham o personagem, investiguem, façam a entrevista, preparem o texto e
editem-no. Esses são os mesmos passos usados por um jornalista profissional
quando prepara sua entrevista para uma revista ou um jornal.
Chegou o momento de enviá-la. Agora a entrevista pertence aos seus leitores.
Estejam prontos para a próxima entrevista!
Lembrem que os jornalistas, assim como vocês, não descansam nunca!
A Entrevista dos Meus Sonhos
Organização
WAN – IFRA
Associação Mundial de Jornais e Editores de Notícias
WAN-IFRA se estabeleceu como FIEL (Federação
Internacional dos Editores de Jornais) em 1948, pelos
sobreviventes da imprensa clandestina na Segunda Guerra
Mundial, como uma associação global que promovesse a
liberdade de imprensa e a sobrevivência de uma imprensa
independente. Entre suas missões mais importantes está a
ajuda aos jornais para que trabalhem com os docentes e os
pais, para assegurar uma geração de leitores alfabetizada e
com consciência cívica. Com sede na França e na Alemanha,
a WAN- IFRA representa 18.000 jornais, 5.000 publicações
online e associações nacionais em mais de 70 países.
Apoio
Fundação Acindar
A Fundação Acindar foi criada em 1962 pela companhia de
aço argentina, hoje ArcelorMittal, como fundação
independente. A ideia era promover projetos educativos como
base para a transformação social, especialmente nas
comunidades nas quais a companhia trabalhava.
Autora
Roxana Morduchowicz
LayOut do Guia Original (Inglês)
Alejandro Cancela
Editores
Michael Soltys – Jornalista/ Buenos Aires Herald
Aralynn McMane - Diretora Executiva/ Desenvolvimento de Jovens Leitores da WANIFRA
Tradução
Cristiane Parente – Coordenadora Executiva/ Programa Jornal e Educação/
Associação Nacional de Jornais (Brasil)
Revisão
Maria Aparecida Borelli
Fevereiro 2012
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