EDUCAÇÃO FÍSICA NA EDUCAÇÃO INTEGRAL: PONTOS DE VISTA Fábio Luís Martins RESUMO Paulatinamente a ampliação do tempo escolar vem ocorrendo no Brasil. Diversas concepções sobre educação integral estão presentes no meio acadêmico e nos sistemas de ensino. A Educação Física, desde sua origem, revela estreita relação com a formação integral do ser humano e hoje se mostra com grande participação nas iniciativas nesta área. Por meio de pesquisa exploratória, através de questionário, objetivamos verificar quais as relações e concepções que os professores e graduandos de Educação Física fazem entre a Educação Física presente no ensino regular e as oficinas pedagógicas que compõem a ampliação da jornada escolar com (possível) relação com a Educação Física. Destacamos em nossa interpretação questões relacionadas a construção ou não de conhecimentos; ao reforço; ao aprofundamento; ao currículo flexível e; a obrigatoriedade ou não das aulas. Palavras-chave: Educação Integral; Educação Física INTRODUÇÃO A compreensão da Educação Física enquanto disciplina escolar e seus objetivos dentro desta instituição é tema de debates dentro da academia, das escolas e sociedade em geral. São diversas as funções atribuídas a esta área do saber que há quase cem anos está presente dentro das escolas brasileiras. Desde antes de sua regulamentação/institucionalização como parte do currículo escolar, sua presença era defendida quando a visão de formação integral do aluno era almejada. Já na Polis grega, educar-se-ia o corpo e o espírito. Este pensamento dualista, de contraposição, por muito tempo perdurou e justificou a presença da Educação Física na formação de nossas crianças e adolescentes. Hoje passamos por um período onde a educação integral volta à tona nas discussões devido à progressiva ampliação da jornada escolar na qual é prevista em lei uma carga horária escolar de no mínimo sete horas 1. Dentro deste novo cenário educacional que se estrutura, questionamos como a Educação Física estaria presente nesta ampliação de jornada? Qual seria a especificidade desta presença? 1 LDB – Lei n. 9.394/1996, art 34; PNE 2001-2010 – Lei n. 10.179/2001; Fundeb- Lei n. 11.494/2007, art 4. Decreto n. 6.253/2007. Artigos, documentos e diretrizes educacionais trazem certos esclarecimentos sobre as perguntas supracitadas, pautados, principalmente, em pesquisas bibliográficas. Neste artigo buscamos identificar como estaria sendo entendida está relação entre Educação Física e educação integral em jornada ampliada. Por meio de pesquisa exploratória 2, através de questionário composto por duas perguntas 3, objetivamos verificar quais as relações que os professores e graduandos de Educação Física fazem entre a Educação Física presente no ensino regular e as oficinas pedagógicas que compõem a ampliação da jornada escolar. Participaram desta pesquisa três (03) professores de Educação Física da rede municipal de ensino de Londrina-PR e quatro (04) discentes do último ano da graduação em licenciatura em Educação Física da Universidade Estadual de Londrina. No texto optamos por designar estes dois tipos de participantes da pesquisa por Professor, independentemente também de gênero. Buscamos, assim, formular incipientes hipóteses numa tentativa de reformular esta relação que se vem estabelecendo entre a Educação Física e a educação integral numa perspectiva crítica de educação, colaborando para que diretrizes, currículos e docentes desenvolvam ações cada vez mais alicerçadas na formação integral dos alunos. EDUCAÇÃO FÍSICA E INTEGRAL A educação integral é um modo de evidenciar as múltiplas dimensões e liberdades constitutivas que possibilitam o desenvolvimento humano (SEM; NUSSBAUM apud LECLERC; MOLL, 2012). Há alguns anos as escolas municipais de Londrina vêm implantando gradativamente a ampliação da jornada escolar na busca de realmente oferecer uma educação integral a seus alunos. Os professores que trabalham com oficinas 4 relacionadas à Educação Física têm como referencial para 2 [...] são investigações de pesquisa empírica cujo objetivo é a formulação de questões ou de um problema, com tripla finalidade: desenvolver hipóteses, aumentar a familiaridade do pesquisador com um ambiente, fato ou fenômeno, para a realização de uma pesquisa futura mais precisa ou modificar e clarificar conceitos (LAKATOS; MARCONI, 2003, p. 188). 3 (a) Como os saberes relacionados à Educação Física podem estar presentes nas “oficinas pedagógicas da ampliação de jornada escolar” (ensino integral) e, (b) o que diferenciaria estas oficinas das aulas de Educação Física inseridas no ensino regular? 4 Termo utilizado na rede municipal de educação para se referir as aulas desenvolvidas na ampliação da jornada escolar que vem ocorrendo em período diferente aos das disciplinas já ofertadas historicamente pelos currículos escolares. organização de seu trabalho as Diretrizes Pedagógicas de Ampliação de Jornada. Documento municipal que visa orientar/organizar as ações dos envolvidos neste processo. Remetendo-nos as diretrizes, estas estipulam três eixos 5 de conteúdos nas quais as oficinas pedagógicas de cada instituição de ensino devem desenvolver suas oficinas. As oficinas relacionadas aos saberes ou conteúdos pertencentes à área da Educação Física correspondem ao eixo Linguagem artística, lúdica e esportiva. Neste eixo alguns apontamentos teóricos têm como objetivo direcionar as ações das oficinas que a compusessem. Identificamos neste eixo que a ludicidade esta mais relacionada aos jogos e brincadeiras – também um dos conteúdos de ensino da Educação Física – e que estes são vistos como instrumentos para o desenvolvimento de certas habilidades e capacidades - “[...] habilidades que envolvem identificação, análise, síntese, comparação [...]” (LONDRINA, 2012, p. 31) e “[...] atenção, a imitação, a memória, a imaginação [...]” (LONDRINA, 2012, p. 31). A ludicidade – aqui como jogos e brincadeiras – não são considerados conteúdos de ensino-aprendizagem em todas as suas dimensões, e este pensamento também é visto em ações de alguns professores quando estes estipulam como conteúdos algumas habilidades e capacidades e utilizam jogos e brincadeiras como instrumento para se desenvolver tais conteúdos, sejam estes de ordem cognitiva ou motora, não somente na área da Educação Física. Quando a diretriz se refere à especificidade do Esporte no eixo, ela remete-se a Educação Física: Outra linguagem que promove a socialização, a ludicidade, a criatividade e o desenvolvimento pleno da criança é o esporte, por exemplo, as aulas de Educação Física, diferem das outras disciplinas na questão do material (bola, corda, apito, arcos, etc.) – do ambiente – (ao ar livre, ruas ou quadras) – e das possibilidades que oferece – (jogos, brincadeiras, competições, campeonatos e apresentações). Por este motivo essa área do conhecimento torna as aulas “diferentes”, quebram a rotina e agradam aos alunos.(LONDRINA, 2012, p. 32) Identificamos certa incoerência textual e não delimitação de conceitos referentes à Educação Física, ao Esporte, as Brincadeiras e Jogos e a Ludicidade, que facilitaria a compreensão do documento e funções atribuídas 5 Linguagem Oral, Escrita e Matemática; Linguagem Artística, Lúdica e Esportiva; Formação Pessoal, Formação Socioambiental e Ciência e Tecnologia às oficinas que compusessem este eixo. Não nos apreenderemos a análise deste documento por não se tratar de nosso objetivo nesta pesquisa, mas podemos influir que a não clareza deste referencial dificulta a compreensão e ação por parte dos professores envolvidos nas oficinas relacionadas à Educação Física – Esporte visando objetivos claros e condizentes com uma educação integral do aluno. Com relação aos professores participantes da pesquisa, dois se remeteram a dizer que nas oficinas relacionadas à Educação Física, estas poderiam ser espaço para construção de conhecimento, como nas aulas regulares. E um professor disse que nas oficinas também se deve construir conhecimento Claro que se ela está incluída deve ensinar algo, mas se não estiver, não é obrigatória, pois não são todas as escolas que tem essas oficinas (PROFESSOR A, 2014) Nestas perspectivas, de não sistematização de construção de conhecimentos, as oficinas poderiam ser entendidas como tempo apenas para a realização de atividades motoras de naturezas diversas sem um intuito de contribuir na formação do aluno. Assim, na Educação Física do ensino regular isto estaria ocorrendo e nas oficinas não. Vejo que nas oficinas de ensino integral presentes hoje, os alunos apenas praticam as atividades, não é um ambiente de aula. As aulas de Educação Física possuem conteúdos que precisam ser ensinados aos alunos de uma maneira que os possibilite construir conhecimento. As oficinas são apenas atividades e a aula de Educação Física possui conteúdos (PROFESSOR P, 2014) [...] tem ocorrido nas oficinas é que os alunos que as frequentam estão apenas passando o tempo, brincando ou ainda, sendo inseridas em atividades recreativas. Diferentemente, a aula de Educação Física tem objetivos claros na sua intervenção [...] (PROFESSOR W, 2014) Verifica-se que a compreensão do que seja educação integral em sua correlação com a ampliação do tempo escolar nas quais as oficinas a compõem precisam ser mais bem desenvolvida em tais professores. Estas visões esvaziam os objetivos desta ampliação de jornada a ponto de pensarmos que não seriam necessárias tais oficinas relacionadas à Educação Física. A Educação Integral incorpora, mas não se confunde, apenas com horário integral. Isso porque ela procura associar o processo educacional a uma concepção de conhecimento e de formação humana que garanta o acesso e a permanência da criança na escola com qualidade sociocultural e socioambiental (PADILHA). (grifo nosso) Outra questão interessante que se constatou em quatro respostas é que não se foi esclarecido quais seriam os conhecimentos ou conteúdos pertinentes à Educação Física no ensino regular e nas oficinas. Fica-se com a impressão que as oficinas seriam mais aulas de Educação Física iguais as do ensino regular. Nesta tentativa de delimitar “o que” é de responsabilidade da Educação Física no ensino regular e oficina, foi colocado por um professor que a expressão corporal seria este elo, não somente da Educação Física com as oficinas relacionadas à área mais estaria permeando diversas oficinas. Acredito que os saberes relacionados à Educação Física estarão sempre presentes nas oficinas pedagógicas, pois a expressão corporal está presente no cotidiano dos alunos e do ser humano. Exemplo: oficina de musicalização, oficina de artes cênicas, recreação, meio ambiente, todas se entre relacionam, e a expressão corporal está muito presente, a socialização também. Jogos cooperativos e até a dança podem e devem ser saberes aplicados às oficinas pedagógicas (PROFESSOR S, 2014). Caracterizando o movimento humano enquanto linguagem, forma de ser, agir e se comunicar com o mundo, através de “gestos” construídos histórica e socialmente, a expressão corporal é termo bastante genérico para especificar a área de atuação da Educação Física. Como na fala do próprio professor, “presente no cotidiano dos alunos e do ser humano”, estes constituem como inerentes aos seres humanos e que vem se desenvolvendo e sendo recriados e ressignificados em todas as esferas da vida. Sim, a expressão corporal estará presente nas aulas de Educação Física e em todas as disciplinas escolares, umas com mais intensidade que outras. Este mesmo professor citou a dança e jogos cooperativos como conteúdos a serem desenvolvidos nas oficinas sem explicar quais os motivos para tal seleção dentre uma gama maior de manifestações culturais as quais a Educação Física desenvolve trabalho pedagógico. Pudemos verificar que a questão da obrigatoriedade ou não das oficinas foi caracterizada por um professor como sendo a diferença que se estabelece entre a Educação Física do ensino regular e as oficinas relacionadas à área. Para ele, ambos os momentos têm que ensinar algo, como já visto em citação acima do Professor A (2014), e sua fala se complementa. Apesar das oficinas estarem incluídas no ensino regular, elas não são obrigatórias, como a disciplina Educação Física. Penso que a principal diferença seja essa. A questão que ele levanta é da obrigatoriedade de determinada oficina em todas as escolas que desenvolvem ampliação de jornada escolar, pois os alunos que estão matriculados nesta ampliação têm obrigatoriamente que realizar as oficinas propostas pela escola na qual está matriculado. Três professores em suas respostas foram mais detalhistas e trouxeram um mesmo pensamento sobre as oficinas. As oficinas são possibilidades de aprofundamento de determinados assuntos tratados pela Educação Física no ensino regular. Analisando que na escola de ensino integral o tempo seria ampliado com relação ao momento ensino-aprendizagem, para além da explanação superficial dos eixos que estruturam a disciplina, os professores programariam suas aulas propondo problematizações, discussões, reflexões, enfim, dando espaço ao aluno para que se manifeste. Pois no ensino regular, como o tempo é reduzido, se torna improcedente uma atuação mais contundente dos alunos. Assim, não ficaria na mera ministração de aula abordando superficialmente os assuntos sem a possibilidade de mobilizar o conhecimento por parte de aluno (PROFESSOR D, 2014). Podemos verificar que, para este professor, nas oficinas os saberes da área de Educação Física poderiam ser mais bem elaborados por parte dos alunos. As oficinas possibilitariam uma maior participação ativa dos alunos, diferentemente das aulas regulares, que parecem abordar mais superficialmente os temas propostos e com mais dirigismo por parte do professor. Os conteúdos de tais aulas e oficinas não foram citados, mas podese afirmar que ambos os momentos se caracterizam pelo planejamento e busca de objetivos educacionais visando o desenvolvimento do aluno. A cultura corporal de movimento foi citada por dois destes professores que partilham da mesma opinião, de aprofundamento dos assuntos da Educação Física. Para o Professor L (2014) Os saberes da educação física podem estar presentes nas “oficinas pedagógicas da ampliação de jornada escolar” (ensino integral) quando implementamos e valorizamos nesta oficinas os conteúdos estruturantes da educação física tais como os jogos e brincadeiras, ginástica, dança, lutas e esportes. Estas oficinas oferecidas na ampliação de jornada têm que ter como objetivo ensinar estes conhecimentos de forma sistematizada e contextualizada. A diferença de oficinas e aulas de educação física esta na complexidade do conhecimento ensinado e aperfeiçoamento do mesmo na prática. Nas aulas de educação física o objetivo é levar o estudante a conhecer a cultura corporal e entende-la como fenômeno cultural e social. Já nas oficinas pedagógicas o objetivo é ampliar o conhecimento da cultura corporal visando uma modalidade especifica, oportunizando o estudante a conhecer, vivenciar e aperfeiçoar a modalidade ensinada. Nesta fala, se pode verificar uma delimitação dos conteúdos e em que aspectos estes deveriam ser trabalhados pedagogicamente. Para o professor, a cultura corporal de movimento seria o objeto de estudo e de intervenção tanto no ensino regular como nas oficinas relacionadas à área, e este objeto é o que faz esta relação. Mesmo utilizando o termo conteúdos estruturantes num primeiro momento, fica subentendido no complemento do texto esta relação pedagógica da Educação Física com algumas manifestações da cultura corporal de movimento – jogos e brincadeiras, ginásticas, danças, lutas e esportes. A questão que diferenciaria e/ou caracterizaria os dois momentos seria a complexificação dos olhares que os alunos lançariam a estas manifestações culturais. Tais manifestações estariam presentes em ambos os momentos, mas a forma do trato pedagógico é o que os diferenciaria. Uma gama maior de manifestações culturais seria estudada no ensino regular abrangendo todos os conteúdos estruturantes e nas oficinas de ampliação de jornada alguma manifestação (modalidade) relacionada a estes conteúdos seria abordada de forma mais aprofundada. Destaca-se na fala o aperfeiçoamento motor que tais oficinas proporcionariam, pois com maior incidência de trabalho voltado a uma modalidade específica, o desenvolvimento motor dos alunos relacionado à modalidade seria potencializado também. Algumas linhas pedagógicas na Educação Física entendem que a cultura corporal de movimento 6 seria seu objeto de estudo. Para Betti (2006) A Educação Física (entendida não como uma disciplina científica, mas como área de conhecimento e intervenção) contando com o auxílio das diversas ciências e da filosofia, busca examinar a cultura corporal de movimento com o olhar interessado de projetos que expressam valores (ligados a saúde, lazer e educação). [...] Um projeto é um conjunto de ideologias, teorias, informações/conhecimentos, expectativas, valores, etc. que refletem 6 Existem algumas discussões na área sobre a utilização da expressão cultura corporal de movimento, por algumas redundâncias apresentadas, assim podemos encontrar também os termos cultura corporal ou cultura de movimento. Alguns autores brasileiros se destacam atualmente nas reflexões sobre a cultura corporal de movimento, sendo eles Valter Bracht, Jocimar Daolio, Marcos Garcia Neira e Mauro Betti. o interesse de grupos sobre uma dada prática social; circula socialmente na forma de discursos, e tende a concretizar-se em ações (p.85). Segundo este autor a Educação Física fará, segundo seus valores, os recortes necessários a sua intervenção na cultura corporal de movimento, assim, outras áreas (biologia, sociologia, psicologia, etc.) podem examinar, e examinam a cultura corporal de movimento também, mas com projetos (e valores) de intervenção diferentes. E das inúmeras manifestações que constituem esta parcela da cultura denominada de cultura corporal de movimento a Educação Física elegeu, historicamente, algumas manifestações como objeto de estudo. Betti (2006) entende a cultura corporal de movimento que esta relacionada à Educação Física como a [...] parcela da cultura geral que abrange as formas culturais que se vêm historicamente construindo, nos planos material e simbólico, mediante a exercitação (em geral, intencionada e sistemática) da motricidade humana: jogo, esporte, ginásticas, práticas de aptidão física, atividades rítmicas/expressivas, dança e lutas/artes marciais (p.77). Os jogos, as ginásticas, os esportes, as danças, as lutas constituemse como as temáticas culturais mais trabalhadas e historicamente relacionadas à Educação Física tanto dentro quanto fora das escolas, como destacou o professor L (2014). Outro determinados professor assuntos também ou ressaltou o modalidades aprofundamento como sendo sobre a diferenciação/participação da Educação Física nas oficinas pedagógicas. Este também relatou a maior liberdade de escolha e estruturação do “o que” ensinar nas oficinas, compartilhando da mesma ideia do professor S (2014). Nas oficinas há maior liberdade para escolha dos temas e conteúdos, pois não há uma proposta pedagógica metodológica definid. (PROFESSOR M, 2014). O que diferencia as oficinas das aulas de Educação Física é a criatividade e iniciativa do professor. Nas oficinas a flexibilidade e iniciativa do trabalho é muito maior em relação às aulas, pois nas aulas de Educação Física há todo um conteúdo a ser cumprido ao longo do ano letivo. Já nas oficinas pedagógicas acredito que não (PROFESSOR S, 2014). Esta falta de um direcionamento claro nas ações das oficinas relacionadas à Educação Física contribui para esta situação. Podemos levantar três pontos a partir disto. O primeiro é que, o próprio termo que se vem utilizando – ampliação de jornada escolar – é resultado da não estruturação da proposta pedagógica da escola (currículo). O termo escola de educação integral ou ensino integral somente pode ser utilizado quando o currículo escolar estiver contemplando as modificações necessárias para tal. Como delimitação das oficinas, seus objetivos, formas de avaliação etc., e este deve ser colocado em prática efetivamente na escola durante toda a vigência da proposta pedagógica, sem mudanças de um ano para outro das oficinas por exemplo. Na área da Educação Física constatamos que, ainda falta identificar com mais clareza o objeto de estudo no ensino regular e a partir dele a sua correlação nas oficinas. A segunda questão resulta desta não estruturação e correlação. Esta não caracterização da área da Educação Física nas oficinas abre margem para que qualquer pessoa não graduada em licenciatura em Educação Física possa desenvolver estas oficinas que estariam trabalhando com a cultura corporal de movimento. Questão está que já é observada em algumas escolas, pois temos graduandos/estagiários dos cursos de bacharelado e licenciatura, ex-atletas e atletas, licenciados em outras áreas que não Educação Física desenvolvendo seus trabalhos nas oficinas, com os mais diversos enfoques nas modalidades trabalhadas. Mas uma vez estamos vendo a banalização da disciplina de Educação Física dentro das escolas. E a questão mais importante, a meu ver, que norteará todas as ações, não somente na área da Educação Física, é qual o entendimento do que seja a função da escola e o que vem a ser uma educação integral. Mas o que se vê hoje nas escolas é um emaranhado de concepções sobre educação. Confundem-se teorias psicológicas, filosóficas, políticas, metodológicas, etc., a ponto de várias vezes as ações desenvolvidas pelos professores não condizerem com a proposta pedagógica, que alias, também sofre deste mal. Teorias tradicionais e críticas se encontram na escola e influenciam as ações nesta ampliação de jornada. Só faz sentido pensar na ampliação da jornada escolar, ou seja, na implantação de escolas de tempo integral, se considerarmos uma concepção de educação integral com a perspectiva de que o horário expandido represente uma ampliação de oportunidades e situações que promovam aprendizagens significativas e emancipadoras (GONÇALVES, 2006, p.04). Ao pensar uma escola com ampliação de jornada escolar, devemos repensar toda a função da escola e como ela está sendo estruturada, buscando ampliar e qualificar este tempo escolar, e não oferecer simplesmente “mais do mesmo”. Não se trata apenas de um simples aumento do que já é ofertado, e sim de um aumento quantitativo e qualitativo. Quantitativo porque considera um número maior de horas, em que os espaços e as atividades propiciadas têm intencionalmente caráter educativo. E qualitativo porque essas horas, não apenas as suplementares, mas todo o período escolar, são uma oportunidade em que os conteúdos propostos, possam ser ressignificados, revestidos de caráter exploratório, vivencial e protagonizados por todos os envolvidos na relação de ensino-aprendizagem (GONÇALVES, 2006, p.05). Na concepção de educação integral, algumas teorias se associam a este objetivo qualitativo e para que realmente desenvolvamos ações coerentes e significativas na educação escolar, pressupõe pensar dialogicamente a função da escola, a estruturação curricular e a concepção de ser humano. “Visto que o ser humano se caracteriza por uma multideterminação de fatores: sociais, econômicos, políticos, psíquicos etc., o que o localiza na ordem do complexo [...]” (MARTINS, 2004, p. 89). A Educação Física e as oficinas da ampliação de jornada escolar devem se atentar para esta prerrogativa a fim de não desenvolverem ações desconectadas das funções da escola na perspectiva de uma educação integral Por isso, é preciso propor outras lógicas de agrupamento dos conhecimentos para além das disciplinas, outras formas de articulação entre diferentes saberes, outros usos do tempo e outros espaços, outra relação entre cultura acadêmica e cultura da experiência, outras demandas de formação profissional, novas materialidades que coloquem as experiências corporais, ambientais, artísticas e culturais entre os conteúdos preciosos do currículo (LECLERC; MOLL, 2012, p. 27). ALGO NOVO ? Este processo de ampliação da jornada escolar traz à tona a questão da formação integral do aluno, pensamento este que deveria compor o cotidiano de toda escola. Das escolas que funcionam 04 horas até as de 08 horas, a formação integral, contemplando as diversas linguagens e dimensões da vida das pessoas, deveria ser objetivada. Não necessariamente se precisa dobrar o tempo de permanência na escola para que o aluno possa ter uma educação integral e de qualidade. E para que esta ampliação do tempo seja realmente valorativa na vida dos alunos é fundamental que nós, professores, compreendamos a função da escola e o que seja uma educação integral para além de práticas mecanicistas, funcionalistas e restritas a algumas áreas tidas como importantes para a vida. Professores e alunos, escolas e comunidades, acumulam aprendizagens significativas e participam de diferentes projetos sociais, culturais, educacionais, esportivos, de lazer, políticos, entre outros. No entanto, principalmente no âmbito da educação formal, mesmo considerando os significativos e recentes esforços em todos os níveis e modalidades educacionais no Brasil, ainda se observa grande dificuldade de se incorporar ao currículo da escola tais aprendizagens e de se construir pontes entre elas. Esta dificuldade é ainda mais verdadeira quando se trata de aprender com a cultura popular e com as iniciativas das próprias comunidades e municipalidades às quais pertencem. Daí, a necessidade da elaboração coletiva de um planejamento dialógico, que resulte num projeto (eco) político-pedagógico, associado ao PDE da escola, que traduza estes saberes, sonhos, esperanças, certezas e incertezas (PADILHA). Nesta educação integral a Educação Física tem muito a contribuir. Devemos repensar a função da escola nos tempos de hoje e qual seria a participação da Educação Física neste processo no qual, no ensino regular, já fazemos parte a muitos anos e agora temos a possibilidade de participar ainda através das oficinas. Precisamos, assim, nos atentar para algumas questões aqui destacadas. Por que as oficinas relacionadas à área da Educação Física são vistas como passatempo ou área de atividade, igualmente como era vista a Educação Física no ensino regular há algum tempo atrás? Qual seria a correlação da Educação Física do ensino regular com algumas oficinas? E mais, o que garantiria a especificidade da Educação Física nas oficinas? A lei que obriga a Educação Física no ensino regular com professor específico poderá valer nas oficinas? Pudemos verificar que alguns caminhos já estão sendo trilhados, tanto nas diretrizes quanto nas ações práticas e teóricas de alguns professores, que trazem uma perspectiva desta participação da Educação Física nas oficinas de ampliação de jornada escolar. E para que este processo de (re)significação do ambiente escolar, dos tempos e dos saberes atrelados a educação integral precisamos valorizar vivências sociais, culturais e ambientais direcionadas a ● trabalhar pelo atendimento e pelo desenvolvimento integral do educando nos aspectos biológicos, psicológicos, cognitivos, comportamentais, afetivos, relacionais, valorativos, sexuais, éticos, estéticos, criativos, artísticos, ambientais, políticos, tecnológicos e profissionais: em síntese, conhecer-pensar-criar-fazer-ser; a organização da comunidade numa perspectiva colaborativa e não apenas competitiva, respeitosa e valorizadora da diversidade étnica, racial, de gênero, geracional e cultural, que procura desconstruir as categorias excludentes étnicas; o incentivo e a difusão de experiências e vivências que valorizem os “ciclos de vida” da infância, da pré-adolescência, da adolescência, de todas as idades, para o exercício dos direitos de cidadania e do usufruto dos direitos constitucionalmente previstos; ● os processos educacionais, culturais e ambientais que visem à formação humana com base nas diferentes e multidimensionais manifestações do conhecimento, dos saberes e das aprendizagens das pessoas (PADILHA). Aprofundar o conhecimento sobre determinado conteúdo específico já estabelecido pela Educação Física no ensino regular ou repensar a forma do trabalho pedagógico e também dos conteúdos nos quais poderíamos desenvolver ações dentro desta ampliação de jornada compreendendo a educação integral como citado por Padilha acima. Aprofundar-especializar ou pensar algo novo? REFERÊNCIAS GONÇALVES, A. S.. Reflexões sobre educação integral e escola de tempo integral. Cadernos Cenpec, v. 2, p.1-10, 2006. PADILHA, P. R. Educação integral e currículo intertranscultural. In: siteantigo.paulofreire.org LECLERC, G. de F. E.; MOLL, J. Educação integral em jornada diária ampliada: universalidade e obrigatoriedade? In: Em Aberto; Brasília, v.25, n.88, p.17-49, jul./dez. 2012. LONDRINA. Diretrizes Pedagógicas: Ampliação de Jornada. Londrina: Secretaria Municipal de Educação de Londrina, 2012. MARTINS, J. B. Contribuições Epistemológicas da Abordagem Multirreferencial para a Compreensão dos Fenômenos Educacionais. In: Revista Brasileira de Educação; n.26, p.85-94, maio/jun./jul./ago. 2004. LAKATOS, E. M; MARCONI, M. de A. Fundamentos de metodologia científica. São Paulo: Atlas, 5. ed. 2003. BETTI, M. Motricidade Humana e Cultura Corporal de Movimento na Constituição dos Projetos de Educação Física. I Congresso Internacional de Epistemologia da Educação Física. São Paulo, 21 e 22 de setembro de 2006. Conselho Federal de Educação Física/Conselho Regional de Educação Física da 4ª Região-São Paulo/Fitness Brasil Fábio Luís Martins Mestre em Educação –UEL; Especialista em Lazer - UFMG Professor Supervisor PIBID- Educação Física/UEL SME -Prefeitura Municipal de Londrina; SEED – Estado do Paraná. Rua Ângelo Ricardo Galdino, 85. João Paz. Londrina-PR. [email protected] Linha 2