Gomes AMT, Oliveira DC
FORMAÇÃO PROFISSIONAL E MERCADO
DE TRABALHO: UM OLHAR A PAR
TIR
ARTIR
DAS REPRESENT
AÇÕES SOCIAIS DE
REPRESENTAÇÕES
ENFERMEIROS
THE PROFESSIONAL TRAINING AND THE LABOUR
MARKET: A GLANCE AT NURSES´ SOCIAL
REPRESENT
ATIONS
REPRESENTA
Antonio Marcos Tosoli Gomes*
Denize Cristina de Oliveira**
RESUMO: Este artigo tem como objetivo analisar o momento e o processo de transição da universidade
para o mercado de trabalho, a partir das representações sociais construídas por enfermeiros inseridos no
campo assistencial da saúde pública. Adotou-se como referencial teórico-metodológico a Teoria das
Representações Sociais e como sujeitos 30 enfermeiros da atenção básica de um município do Estado do
Rio de Janeiro, com os quais realizou-se entrevista em profundidade, em 2002. A análise lexical dos
dados foi desenvolvida através do software ALCESTE. Os resultados indicaram o hospital como um local
presente no imaginário dos profissionais; a transição universidade/mercado-de-trabalho como uma
vivência difícil e estressante; a universidade como um lugar distanciado da realidade profissional; e a
residência de enfermagem como um fator atenuante dessa fase difícil de transição. Conclui-se que as
representações e a memória social dos sujeitos destacam a imagem do hospital, da residência, do
mercado de trabalho e da universidade como participantes dessa transição.
Palavras-chave: ALCESTE; enfermagem; formação profissional; hospital; mercado de trabalho.
ABSTRACT
ABSTRACT:: The purpose of this paper is to analyze the process of transition between the university and
the labor market from the social representations elaborated by nurses inserted in the public health
assistance field. The theoretical-methodological reference adopted was the Social Representations Theory.
In-depth interviews were conducted with thirty nurses working in basic health services of a city in the State
of Rio de Janeiro, Brazil. Data lexical analysis was accomplished by the use of the ALCESTE software. The
results showed the hospital as a place present in the professionals´ imaginary; the university / labor market
transition as a difficult and stressful experience; the university as a place distant from the professional
reality; and the nursing residence program as a mitigating factor during this period of transition. It has
been concluded that the subjects´ representations and social memory point out the images of the hospital, the residence course, the labor market and the university as participants of that transition.
Keywords: ALCESTE; nursing; professional training; hospital; labor market.
INTRODUÇÃO
E ste
estudo apresenta-se como um
aprofundamento do tema abordado em nossa dissertação de mestrado e em trabalhos anteriores1,2
que abarca a autonomia profissional do enfermeiro desdobrada em temáticas como o seu papel próprio, a sua formação, a sua prática profissional, o
arcabouço teórico da profissão e a atuação do enfermeiro no âmbito da saúde coletiva, entre outras coisas.
Ao olhar essa realidade, bem como suas
especificidades, utilizamos a Teoria das Representações Sociais como ferramenta para a realização de uma cartografia mental desse grupo, de
forma a compreender as imagens, os conceitos, a
atitude e as práticas presentes no campo da enfermagem em saúde coletiva.
Entre as diversas questões que emergiram
das falas dos sujeitos, a vivência e a memória da
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• p.265
Formação profissional e mercado de trabalho em enfermagem
transição da universidade para o mercado de trabalho, tocando a instituição hospitalar e a universidade, aglutinam representações e memórias que retratam um momento fundamental da constituição da
identidade profissional do enfermeiro.
Desse modo, define-se como objetivo deste estudo analisar o momento e o processo de transição
da universidade para o mercado de trabalho, a partir
das representações construídas por enfermeiros inseridos no campo assistencial da saúde pública.
METODOLOGIA
Neste estudo, utilizou-se a Teoria das Repre-
sentações Sociais, sistematizada por Moscovici3 no
contexto da psicologia social. Esse autor3:50 afirma
que “representações sociais são consideradas ciências coletivas sui generis, destinadas à interpretação
e elaboração do real”. Jodelet4:22, por sua vez, relata
que representação social “é uma forma de conhecimento socialmente elaborada e partilhada, tendo
uma orientação prática e concorrendo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social”.
Para a coleta de dados, foram realizadas 30 entrevistas em profundidade com enfermeiros em
uma cidade do Estado do Rio de Janeiro, em 2002.
Os sujeitos foram profissionais que trabalhavam na
rede básica de assistência e desenvolviam atividades de atenção direta à criança no Programa de
Assistência Integral à Saúde da Criança (PAISC),
ressaltando, entre eles, a consulta de enfermagem.
A análise de dados foi realizada com o software
Alceste 4.55, que busca organizar e sumariar as informações consideradas relevantes em um texto, a
partir da co-ocorrência das palavras presentes no
enunciado constituindo categorias, e possui como
referência na sua base metodológica a abordagem
conceitual lógica e dos mundos lexicais1,6. Os resultados fornecidos pelo Alceste podem ser caracterizados por categorias temáticas, constituídas por
um conjunto de palavras (formas reduzidas) que
possuem maior poder de associação estatística à
temática, associação esta expressa em x2 (qui-quadrado). Um segundo conjunto de resultados fornecidos pelo Alceste são as unidades de contexto
elementar (UCE), trechos das entrevistas analisadas de 3 ou mais linhas, que constituem a base
discursiva da temática ou categoria isolada.
Foram respeitadas, nesta pesquisa, as orientações constantes da Resolução 196/96, do Ministério da Saúde, tanto no que concerne aos asp.266 •
R Enferm UERJ 2004; 12:265-71.
pectos éticos com a instituição que autorizou a realização da pesquisa, quanto aos sujeitos que cederam
as entrevistas após leitura e assinatura do Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido.
RESUL
TADOS/D ISCUSSÃO
ESULT
A temática discutida neste estudo resultou
do desmembramento do conjunto de textos produzidos a partir das 30 entrevistas na análise Alceste.
O perfil socioprofissional associado a essa
temática é caracterizado por sujeitos que possuem relevante experiência profissional (entre 9 e
15 anos), embora se dividam no que tange à experiência de trabalho dentro do PAISC: um grupo com pouco tempo de trabalho no Programa
(menos de 1 ano) e outro com tempo maior de
experiência (acima de 10 anos); a variável sexo
feminino também é característica do grupo que
produziu essa temática.
Pode ser observado na Figura 1 o perfil do
tema discutido neste trabalho, através das palavras que possuem maior valor de x2, ou seja, aquelas que constituem e caracterizam o pensamento
dos sujeitos sobre a relação entre a formação profissional e o mercado de trabalho.
Como se pode observar, as palavras com maior
poder de associação estatística à classe (x 2) são hospital+, faculdade+, pratic+, definic+, enferm+, mercado, profess+, teor+ e residência+. Nota-se, portanto, a relação entre a formação profissional recebida
FIGURA 1: Palavras reduzidas com maior grau de associação
ao tema formação profissional e o mercado de trabalho. Rio de
Janeiro, 2002.
Gomes AMT, Oliveira DC
na faculdade e o mercado de trabalho no campo teórico e prático da enfermagem.
As formas reduzidas, conforme discutido anteriormente, expressam um conjunto de palavras, que
podem ser melhor visualizadas no contexto semântico dessas mesmas formas.
quada ao enfermeiro, tanto em seu aspecto econômico
quanto de status socioprofissional. Acrescente-se a isso
o fato das inúmeras e diversificadas tarefas e funções
que são desempenhadas pelos profissionais, sem serem elas diretamente relacionadas ao cliente ou à
assistência de enfermagem, o que sugere um possí-
FIGURA 2: Contexto semântico das formas reduzidas características do tema formação profissional e o mercado de trabalho. Rio de Janeiro, 2002.
Na Figura 2, destaca-se o contexto semântico
das formas reduzidas que caracterizam o tema e que
serviram de base para a sua interpretação. As formas
relevantes que não aparecem nesta figura resumem o
seu contexto semântico nas próprias palavras, como
arte e pós-graduação, por exemplo.
Faz-se necessário destacar a forma reduzida
enferm+ que apresenta em seu contexto semântico não somente enfermagem, mas também enfermeiros, como categoria profissional destacada
para o tema. Outras formas que merecem destaque são pratic+ que encerra dois modos verbais e
dois substantivos em seu significado; teor+ que
abarca tanto teoria quanto teórica; e profess+ que
abrange todas as desinências de gênero e plural.
Apesar de os dados terem sido colhidos entre profissionais que desenvolvem suas atividades
na rede básica de saúde e atendem diretamente
à clientela através da consulta de enfermagem,
hospital foi a palavra mais freqüente nas entrevistas. A primeira imagem que emerge associada a essa
forma reduzida é a de grande empregador dos enfermeiros, quer seja sob a forma de residência de enfermagem ou de vínculo empregatício formalizado.
Percebe-se uma insatisfação dos profissionais com
as experiências vividas na rede hospitalar privada que,
segundo os sujeitos, não oferece uma valorização ade-
vel desconhecimento da especificidade do papel do
enfermeiro por parte da instituição.
O enfermeiro é muito cobrado, porque ninguém chega
para cobrar do médico se a unidade está para cima
ou está para baixo. (Ent. 14)
O enfermeiro tem que cuidar do material e preencher
documentos, ele tem que cuidar de tudo. (Ent. 23)
Oenfermeiroéoeternosecretário,burocrata,quesenta,
preenche o papel, gráficos e percentuais. (Ent. 30)
A prática da enfermagem no ambiente hospitalar constitui-se em uma preocupação para os
sujeitos estudados, destacando a tensão
estabelecida entre a humanização e a
desumanização do atendimento à clientela. A fala a
seguir, extraída do conjunto de UCE fornecidas pelo
Alceste, explicita esse conteúdo:
O perigo da enfermagem em termos da humanização
é a automação, porque dou aula também, vejo e questiono muito meus alunos quando eu pergunto como é
no hospital, como é no estágio? (Ent. 6)
Outra questão complicada é o atendimento ao paciente, a humanização, especialmente em áreas de trabalho fora da rede básica. (Ent. 23)
Uma questão importante referida ao estabelecimento hospitalar presente nas entrevistas é a saída da universidade e o enfrentamento das demandas do mercado de trabalho, retratando o sentimenR Enferm UERJ 2004; 12:265-71.
• p.267
Formação profissional e mercado de trabalho em enfermagem
to de impotência e medo experimentados pelos jovens profissionais. Esses sentimentos parecem exacerbados quando a inserção profissional se dá no
ramo privado. Esse conteúdo pode ser observado nas
seguintes UCE:
Sair da faculdade e entrar no mercado de trabalho de
imediato foi difícil. Tem que agüentar muita coisa no
serviço privado. (Ent. 29)
Sair da faculdade e entrar no mercado de trabalho, em
princípio, foi complicado porque eu fui trabalhar num
serviço privado. (Ent. 2)
Choreimuito,choreidoisdiasseguidos,porqueeuachava que ia ser um desastre trabalhar numa emergência
sem saber nada. (Ent. 9)
O ritual de passagem do desligamento da
universidade e entrada no mercado de trabalho,
além dos fatores já destacados, foi referido como
especialmente difícil em função das características do processo formador que, segundo os sujeitos, se baseia na teoria e não capacita adequadamente os profissionais para o desempenho técnico da profissão. Ou seja, a universidade não subsidia o profissional com habilidades e conhecimentos técnicos suficientes para a execução segura
da prática profissional. As falas a seguir demonstram essa apreensão do aparelho formador:
Eu saí da faculdade muito crua, não tinha prática nem
depunçãovenosa,cateterismo.Eusaídafaculdademuito
teórica, não tinha muita prática. (Ent. 9)
O enfermeiro tem muita teoria, no meu caso, eu saí com
muita teoria e pouquíssima prática. Não tinha segurança para trabalhar.(Ent. 4)
Nenhum outro sujeito destacou com tanta
clareza a representação da formação como um
processo insuficiente (talvez inadequado) para a
instrumentalização do indivíduo frente às demandas do campo profissional, como o que se segue:
Sair da faculdade e entrar no mercado de trabalho significa sair, olhar para trás, e agora? Eu acho que não sei
nada, que não fui preparado para a prática de enfermagem. (Ent. 25)
Contudo, entre a universidade e o mercado
de trabalho, os sujeitos destacam a residência em
enfermagem como um fator facilitador dessa passagem e que favorece uma integração maior entre o meio acadêmico e o mercado profissional.
Ou seja, a residência de enfermagem é destacada como uma forma mais amena de transição entre a realidade da universidade e a da prática
profissional, especialmente se esta se corporifica
na relação mercadológica que norteia o serviço
privado de assistência à saúde.
p.268 •
R Enferm UERJ 2004; 12:265-71.
Pode-se observar as UCE em que os sujeitos
destacam essa idéia:
Sair da faculdade e entrar no mercado de trabalho
foi bem tranqüilo porque (...) eu saí da universidade e
entrei na residência e da residência fui para o mercado de trabalho. (Ent. 13)
Foi uma transição fácil porque me formei num meio
de ano, fiz habilitação até dezembro e em fevereiro
estava entrando na residência. (Ent. 18)
Os sujeitos representam a universidade como
distante da realidade objetiva do trabalho da enfermagem e da vida profissional. Dessa maneira,
destaca-se a ruptura docência/assistência que
repercute em um ensino descontextualizado da
prática profissional, como pode ser observado no
seguinte depoimento:
Senti diferença da faculdade para o mercado de trabalho, com certeza. Na universidade é aquela coisa utópica e já na residência vi muita coisa, não é nada assim.
(Ent. 13)
A universidade é representada, portanto,
como um lugar não só de valorização da profissão,
mas da sua construção teórica. Essa representação justifica a caracterização da transição para a
prática profissional como uma ruptura que traz
diversas dificuldades. Ao mesmo tempo, a prática realizada dentro do contexto acadêmico é percebida como diferente da realidade profissional
extra-acadêmica, tanto no que se refere à sua
execução técnica, quanto aos fundamentos teóricos da mesma.
Nenhum dos sujeitos estudados conseguiu
lembrar de uma definição formal de enfermagem,
aprendida na faculdade ou na literatura especializada, quase sempre ressaltando que não gostam
de definições, que estas são inadequadas à realidade em que vivem ou que não se sentem à vontade com o passado histórico ou com as figuras da
profissão, como Florence Nightingale e Anna Nery.
Evidencia-se, portanto, uma dissociação teóricoprática no cotidiano profissional.
Não me lembro de uma definição teórica de enfermagem, isso aí com o tempo já se perdeu, continuo na prática. (Ent. 15)
Contudo, a prática também é representada pelos sujeitos como portadora de contradições. Observa-se, por um lado, a valorização do desenvolvimento
adequado de procedimentos manuais, sendo essa
habilidade considerada como característica do bom
profissional. Por outro lado, ressaltam que a diferença do enfermeiro para os profissionais de enfermagem de nível médio está no deter o conhecimento
Gomes AMT, Oliveira DC
do por que, como e para que se realiza um procedimento manual. Ou seja, afirmam que é essa relação
saber/fazer que diferencia o enfermeiro e o torna responsável pela equipe de enfermagem.
A relação entre teoria e prática emerge a partir do amadurecimento do profissional e da necessidade colocada pela prática. A prática do cuidado
requer o saber para a sua execução, o que resulta na
valorização do conhecimento no cotidiano profissional.
Só com o tempo e a prática que se começa a valorizar
aquela teoria. Quanto mais tempo, mais se valoriza.
(Ent. 29)
Diversos autores têm alertado para a ocorrência de dificuldades e obstáculos no processo
de formação do profissional do enfermeiro. Loyola7
destaca a existência de um laboratório de
docilidade, ao qual os estudantes de enfermagem
são submetidos, e Germano8 comenta que foram
criados valores associados à profissão no sentido
de que o enfermeiro não aprofunde seu conteúdo
crítico para uma análise social acurada.
Outros autores tecem as suas análises
enfocando o exercício do poder da instituição,
dos docentes e dos preceptores nessa formação,
explicitado no rigor do uniforme, na postura profissional e na rigidez hierárquica, de forma que
esse processo ganha contornos de autoritarismo e
dominação9,10.
Por sua vez, Lunardi11 se refere à forte presença da normalização que se baliza no próprio
modo de ser enfermeiro, de comportar-se e de
relacionar-se com o poder. Inclui, também, o modo
de vestir-se, de apresentar-se, de realizar a técnica padronizada com perfeição, verificando todos
os detalhes com superaproveitamento do tempo.
Também são constantemente controladas tanto a
assiduidade quanto a pontualidade, a lentidão na
execução da tarefa, a relação com a equipe de enfermagem e de saúde. Esses critérios de avaliação nem
sempre são objetivos, e também não geram justiça,
proporcionando mais sujeição que modos criativos
de resolução de conflitos.
Como pode ser observado, os autores citados
convergem nas suas construções teóricas acerca da
formação do enfermeiro, apesar da existência de 15
anos de diferença entre a primeira publicação8 e as
últimas9,10. Constata-se que, apesar da evolução do
processo de formação do enfermeiro, algumas características são constantes ao longo do tempo. Esse fato
parece imprimir uma característica à profissão, influenciando o modo como o enfermeiro se insere no
mercado de trabalho e como constitui o seu espaço
próprio de trabalho.
Em trabalho anterior12, procuramos pontuar a
aproximação da enfermagem com modelos educacionais modernos e dialógicos, como o de Paulo Freire,
em seu relacionamento com a clientela. Contudo,
apesar do desenvolvimento de currículos integrados
calcados em modelos educacionais democráticos e
problematizadores, em um número cada vez maior
de Faculdades de Enfermagem, no Brasil, esse fato
não foi ainda suficiente para superar as dificuldades
e impasses históricos no processo de constituição de
um novo perfil e identidade profissionais.
A contribuição desses autores, quando comparada aos dados empíricos deste estudo, confere à
situação uma feição ainda mais grave, qual seja, a
de que não somente a constituição crítica e política dos profissionais enfrenta dificuldades, mas também o preparo técnico para o desempenho prático
da profissão parece se caracterizar como inadequado para as demandas do mercado. Ou seja, além das
questões relacionais com os componentes da equipe de saúde e do exercício do poder com todas as
instâncias com as quais convivem, os sujeitos referiram dificuldades no fazer específico da profissão
ao saírem da universidade.
Loureiro e Vaz10 e Guitton, Porto e Almeida13
referem-se também ao fenômeno da formação profissional insuficiente às demandas mercadológicas colocadas para o novo profissional. Muito mais do que
uma deficiência do aparelho formador, acredita-se na
existência de um descompasso entre os objetivos e o
perfil profissional a partir dos quais a formação se desenvolve e aqueles que o mercado exige para o desempenho dos novos profissionais. Ou seja, a universidade pretende formar profissionais com senso crítico desenvolvido - profissionais do pensar - e como
conseqüência também de um fazer específico e
contextualizado. O mercado, por sua vez, espera um
profissional com habilidade técnica perfeita e
diversificada, que seja rápido, que atenda ao maior
número possível de demandas colocadas pelo cotidiano hospitalar, ou seja, um profissional técnico
generalista. Esse perfil profissional demandado pelo
mercado de trabalho hospitalar não valoriza o conhecimento teórico como parte da formação do enfermeiro, estabelecendo uma dicotomia entre o saber e o fazer, o que pode ser caracterizado como uma tendência
a absorver um tecnólogo, em lugar de um profissional
de graduação plena1.
Ao lado do processo de formação, outros aspectos, como a valorização social da profissão, a repreR Enferm UERJ 2004; 12:265-71.
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Formação profissional e mercado de trabalho em enfermagem
sentação da profissão para a clientela e a relação
mercadológica estabelecida com as instituições empregadoras, definem tensões que conformam, ou pelo menos influenciam, uma determinada prática social. Como
exemplo, pode-se destacar a inserção dos enfermeiros
no ambiente hospitalar, no qual também assumem,
muitas vezes, o papel de administradores do espaço de
trabalho (e não somente da assistência de enfermagem),
distanciando-se da prestação direta dos cuidados de
enfermagem e também da sua gerência específica.
Na medida que a instituição hospitalar ainda
se apresenta como o maior empregador de enfermeiros no Brasil, essa característica de inespecificidade
passa a ser tomada como parte intrínseca da profissão, interferindo na constituição da própria identidade profissional, ao atribuir um caráter de normalidade ao que pode ser considerado como um
distanciamento da essencialidade da profissão e dos
objetivos de sua formação14.
Nessa perspectiva, tudo o que se relaciona à
instituição passa a ser da competência do enfermeiro, o que faz com que ele absorva tudo como
sendo seu, sem uma especificidade de ação ou
uma delimitação de um papel próprio, tornandoo invisível à instituição, à equipe de saúde, à clientela e à própria sociedade. Dessa maneira, os
enfermeiros não recebem a valorização que consideram merecida e o trabalho no ambiente hospitalar passa a ser penoso.
A residência de enfermagem, nesse cenário, ganha a representação de um espaço universitário, ligado à academia e à construção teórica da profissão, mas
que também consegue abarcar as exigências pragmáticas do mercado de trabalho e da preparação do enfermeiro para uma inserção menos traumática nesse
meio. Reforçando o exposto, Miranda15 destaca as funções e a importância da residência em enfermagem
no tocante à inserção dos novos enfermeiros no mercado, especialmente por sua capacidade amenizante
na transição entre o ambiente da universidade e o
mercado de trabalho.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
C
omo foi ressaltado ao longo deste texto, quatro conteúdos emergiram das falas do grupo de sujeitos participantes desta pesquisa, quais sejam: as representações do hospital, da universidade, da residência
em enfermagem e da transição entre a universidade e
o mercado de trabalho.
Pode-se ressair, como resultados deste trabalho,
algumas dimensões das representações sociais obserp.270 •
R Enferm UERJ 2004; 12:265-71.
vadas, tais como as imagens, os conhecimentos e as
práticas.
No que se refere ao hospital, salienta-se sua
imagem de grande empregador dos enfermeiros,
mesmo daqueles que se direcionaram para o campo da saúde coletiva. Ainda com relação a tal
cenário, os sujeitos destacaram o conhecimento
de uma não-valorização das instituições quanto
à sua prática e um não-reconhecimento das
especificidades da profissão, destinando, à mesma, diversas atividades que não se relacionam à
enfermagem ou aos clientes sob sua responsabilidade. Outra imagem associada ao hospital é de
locus no qual a prática profissional não é
humanizada, o que se apresenta como uma preocupação para esses enfermeiros.
Quanto à universidade, a imagem caracterizada é a de utópica e de lugar distante da realidade vivenciada pelos profissionais. Esse aspecto
imagético de espaço utópico revela, por um lado,
uma diferença de objetivos entre a formação acadêmica e o mercado de trabalho; e por outro lado,
indica um distanciamento entre o que é considerado ideal para a profissão pelos saberes que subsidiam a sua constituição histórico-social e as
exigências colocadas pela situação social, política e econômica do setor saúde.
No que tange à transição da universidade para o
mercado de trabalho e à residência de enfermagem,
pode-se fazer uma aproximação do campo das representações sociais com o da memória social, como é
desenvolvido por Sá16 e Sá e Oliveira17. A transição é
representada e rememorada como difícil e como um
choque, e a residência adquire uma imagem de fator
amenizador dessa transição, memória essa impressa na
construção mental e histórica desse grupo.
Conclui-se que a memória e a representação
dos sujeitos com relação à transição do papel de aluno para profissional destacam a imagem do hospital,
da residência e da própria universidade, no caso desta última normalmente comparada às exigências do
mercado de trabalho. Ressalta-se, ainda, a importância da Teoria das Representações Sociais como ferramenta para a explicitação de conteúdos mentais
estruturados, o que abarca as dimensões cognitiva,
avaliativa, afetiva e simbólica, consubstanciadas em
atitudes, conhecimentos e práticas4,18.
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DE
T RABAJO :
UN MIRAR A PAR
TIR DE L A S
ARTIR
REPRESENT
ACIONES SOCIALES DE ENFERMEROS
REPRESENTA
RESUMEN: Este artículo tiene como objetivo analizar el momento y el proceso de transición de la
universidad para el mercado de trabajo, a partir de las representaciones sociales construidas por enfermeros
insertados en el campo asistencial de la salud pública. Se adoptó como referencial teórico y metodológico
la Teoría de las Representaciones Sociales y como sujetos 30 enfermeros de la atención básica de una
municipalidad del Estado de Rio de Janeiro-Brasil, con los cuales se realizó entrevista en profundidad, en
2002. El análisis léxico de los datos fue desarrollado a través del software ALCESTE. Los resultados
indicaron el hospital como un local presente en el imaginario de los profesionales; la transición universidad
/mercado-de-trabajo como una vivencia difícil y estresante; la universidad como un lugar distanciado de
la realidad profesional; y la residencia en enfermería como un factor de amenidad de esa fase de transición.
Se concluye que las representaciones y la memoria social de los sujetos destacan la imagen del hospital,
de la residencia, del mercado de trabajo y de la universidad como participantes de esa transición.
Palabras clave: ALCESTE; enfermería; formación profesional; hospital; mercado de trabajo.
Recebido em: 13.06.2004
Aprovado em: 20.10.2004
Notas
*
Mestre em Enfermagem. Professor contratado da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. e-mail:
[email protected]
**
Professora Titular de Pesquisa do DEFEN e do Programa de Pós-Graduação/ Mestrado da Faculdade de Enfermagem (FENF) da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
R Enferm UERJ 2004; 12:265-71.
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