Gomes AMT, Oliveira DC FORMAÇÃO PROFISSIONAL E MERCADO DE TRABALHO: UM OLHAR A PAR TIR ARTIR DAS REPRESENT AÇÕES SOCIAIS DE REPRESENTAÇÕES ENFERMEIROS THE PROFESSIONAL TRAINING AND THE LABOUR MARKET: A GLANCE AT NURSES´ SOCIAL REPRESENT ATIONS REPRESENTA Antonio Marcos Tosoli Gomes* Denize Cristina de Oliveira** RESUMO: Este artigo tem como objetivo analisar o momento e o processo de transição da universidade para o mercado de trabalho, a partir das representações sociais construídas por enfermeiros inseridos no campo assistencial da saúde pública. Adotou-se como referencial teórico-metodológico a Teoria das Representações Sociais e como sujeitos 30 enfermeiros da atenção básica de um município do Estado do Rio de Janeiro, com os quais realizou-se entrevista em profundidade, em 2002. A análise lexical dos dados foi desenvolvida através do software ALCESTE. Os resultados indicaram o hospital como um local presente no imaginário dos profissionais; a transição universidade/mercado-de-trabalho como uma vivência difícil e estressante; a universidade como um lugar distanciado da realidade profissional; e a residência de enfermagem como um fator atenuante dessa fase difícil de transição. Conclui-se que as representações e a memória social dos sujeitos destacam a imagem do hospital, da residência, do mercado de trabalho e da universidade como participantes dessa transição. Palavras-chave: ALCESTE; enfermagem; formação profissional; hospital; mercado de trabalho. ABSTRACT ABSTRACT:: The purpose of this paper is to analyze the process of transition between the university and the labor market from the social representations elaborated by nurses inserted in the public health assistance field. The theoretical-methodological reference adopted was the Social Representations Theory. In-depth interviews were conducted with thirty nurses working in basic health services of a city in the State of Rio de Janeiro, Brazil. Data lexical analysis was accomplished by the use of the ALCESTE software. The results showed the hospital as a place present in the professionals´ imaginary; the university / labor market transition as a difficult and stressful experience; the university as a place distant from the professional reality; and the nursing residence program as a mitigating factor during this period of transition. It has been concluded that the subjects´ representations and social memory point out the images of the hospital, the residence course, the labor market and the university as participants of that transition. Keywords: ALCESTE; nursing; professional training; hospital; labor market. INTRODUÇÃO E ste estudo apresenta-se como um aprofundamento do tema abordado em nossa dissertação de mestrado e em trabalhos anteriores1,2 que abarca a autonomia profissional do enfermeiro desdobrada em temáticas como o seu papel próprio, a sua formação, a sua prática profissional, o arcabouço teórico da profissão e a atuação do enfermeiro no âmbito da saúde coletiva, entre outras coisas. Ao olhar essa realidade, bem como suas especificidades, utilizamos a Teoria das Representações Sociais como ferramenta para a realização de uma cartografia mental desse grupo, de forma a compreender as imagens, os conceitos, a atitude e as práticas presentes no campo da enfermagem em saúde coletiva. Entre as diversas questões que emergiram das falas dos sujeitos, a vivência e a memória da R Enferm UERJ 2004; 12:265-71. • p.265 Formação profissional e mercado de trabalho em enfermagem transição da universidade para o mercado de trabalho, tocando a instituição hospitalar e a universidade, aglutinam representações e memórias que retratam um momento fundamental da constituição da identidade profissional do enfermeiro. Desse modo, define-se como objetivo deste estudo analisar o momento e o processo de transição da universidade para o mercado de trabalho, a partir das representações construídas por enfermeiros inseridos no campo assistencial da saúde pública. METODOLOGIA Neste estudo, utilizou-se a Teoria das Repre- sentações Sociais, sistematizada por Moscovici3 no contexto da psicologia social. Esse autor3:50 afirma que “representações sociais são consideradas ciências coletivas sui generis, destinadas à interpretação e elaboração do real”. Jodelet4:22, por sua vez, relata que representação social “é uma forma de conhecimento socialmente elaborada e partilhada, tendo uma orientação prática e concorrendo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social”. Para a coleta de dados, foram realizadas 30 entrevistas em profundidade com enfermeiros em uma cidade do Estado do Rio de Janeiro, em 2002. Os sujeitos foram profissionais que trabalhavam na rede básica de assistência e desenvolviam atividades de atenção direta à criança no Programa de Assistência Integral à Saúde da Criança (PAISC), ressaltando, entre eles, a consulta de enfermagem. A análise de dados foi realizada com o software Alceste 4.55, que busca organizar e sumariar as informações consideradas relevantes em um texto, a partir da co-ocorrência das palavras presentes no enunciado constituindo categorias, e possui como referência na sua base metodológica a abordagem conceitual lógica e dos mundos lexicais1,6. Os resultados fornecidos pelo Alceste podem ser caracterizados por categorias temáticas, constituídas por um conjunto de palavras (formas reduzidas) que possuem maior poder de associação estatística à temática, associação esta expressa em x2 (qui-quadrado). Um segundo conjunto de resultados fornecidos pelo Alceste são as unidades de contexto elementar (UCE), trechos das entrevistas analisadas de 3 ou mais linhas, que constituem a base discursiva da temática ou categoria isolada. Foram respeitadas, nesta pesquisa, as orientações constantes da Resolução 196/96, do Ministério da Saúde, tanto no que concerne aos asp.266 • R Enferm UERJ 2004; 12:265-71. pectos éticos com a instituição que autorizou a realização da pesquisa, quanto aos sujeitos que cederam as entrevistas após leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. RESUL TADOS/D ISCUSSÃO ESULT A temática discutida neste estudo resultou do desmembramento do conjunto de textos produzidos a partir das 30 entrevistas na análise Alceste. O perfil socioprofissional associado a essa temática é caracterizado por sujeitos que possuem relevante experiência profissional (entre 9 e 15 anos), embora se dividam no que tange à experiência de trabalho dentro do PAISC: um grupo com pouco tempo de trabalho no Programa (menos de 1 ano) e outro com tempo maior de experiência (acima de 10 anos); a variável sexo feminino também é característica do grupo que produziu essa temática. Pode ser observado na Figura 1 o perfil do tema discutido neste trabalho, através das palavras que possuem maior valor de x2, ou seja, aquelas que constituem e caracterizam o pensamento dos sujeitos sobre a relação entre a formação profissional e o mercado de trabalho. Como se pode observar, as palavras com maior poder de associação estatística à classe (x 2) são hospital+, faculdade+, pratic+, definic+, enferm+, mercado, profess+, teor+ e residência+. Nota-se, portanto, a relação entre a formação profissional recebida FIGURA 1: Palavras reduzidas com maior grau de associação ao tema formação profissional e o mercado de trabalho. Rio de Janeiro, 2002. Gomes AMT, Oliveira DC na faculdade e o mercado de trabalho no campo teórico e prático da enfermagem. As formas reduzidas, conforme discutido anteriormente, expressam um conjunto de palavras, que podem ser melhor visualizadas no contexto semântico dessas mesmas formas. quada ao enfermeiro, tanto em seu aspecto econômico quanto de status socioprofissional. Acrescente-se a isso o fato das inúmeras e diversificadas tarefas e funções que são desempenhadas pelos profissionais, sem serem elas diretamente relacionadas ao cliente ou à assistência de enfermagem, o que sugere um possí- FIGURA 2: Contexto semântico das formas reduzidas características do tema formação profissional e o mercado de trabalho. Rio de Janeiro, 2002. Na Figura 2, destaca-se o contexto semântico das formas reduzidas que caracterizam o tema e que serviram de base para a sua interpretação. As formas relevantes que não aparecem nesta figura resumem o seu contexto semântico nas próprias palavras, como arte e pós-graduação, por exemplo. Faz-se necessário destacar a forma reduzida enferm+ que apresenta em seu contexto semântico não somente enfermagem, mas também enfermeiros, como categoria profissional destacada para o tema. Outras formas que merecem destaque são pratic+ que encerra dois modos verbais e dois substantivos em seu significado; teor+ que abarca tanto teoria quanto teórica; e profess+ que abrange todas as desinências de gênero e plural. Apesar de os dados terem sido colhidos entre profissionais que desenvolvem suas atividades na rede básica de saúde e atendem diretamente à clientela através da consulta de enfermagem, hospital foi a palavra mais freqüente nas entrevistas. A primeira imagem que emerge associada a essa forma reduzida é a de grande empregador dos enfermeiros, quer seja sob a forma de residência de enfermagem ou de vínculo empregatício formalizado. Percebe-se uma insatisfação dos profissionais com as experiências vividas na rede hospitalar privada que, segundo os sujeitos, não oferece uma valorização ade- vel desconhecimento da especificidade do papel do enfermeiro por parte da instituição. O enfermeiro é muito cobrado, porque ninguém chega para cobrar do médico se a unidade está para cima ou está para baixo. (Ent. 14) O enfermeiro tem que cuidar do material e preencher documentos, ele tem que cuidar de tudo. (Ent. 23) Oenfermeiroéoeternosecretário,burocrata,quesenta, preenche o papel, gráficos e percentuais. (Ent. 30) A prática da enfermagem no ambiente hospitalar constitui-se em uma preocupação para os sujeitos estudados, destacando a tensão estabelecida entre a humanização e a desumanização do atendimento à clientela. A fala a seguir, extraída do conjunto de UCE fornecidas pelo Alceste, explicita esse conteúdo: O perigo da enfermagem em termos da humanização é a automação, porque dou aula também, vejo e questiono muito meus alunos quando eu pergunto como é no hospital, como é no estágio? (Ent. 6) Outra questão complicada é o atendimento ao paciente, a humanização, especialmente em áreas de trabalho fora da rede básica. (Ent. 23) Uma questão importante referida ao estabelecimento hospitalar presente nas entrevistas é a saída da universidade e o enfrentamento das demandas do mercado de trabalho, retratando o sentimenR Enferm UERJ 2004; 12:265-71. • p.267 Formação profissional e mercado de trabalho em enfermagem to de impotência e medo experimentados pelos jovens profissionais. Esses sentimentos parecem exacerbados quando a inserção profissional se dá no ramo privado. Esse conteúdo pode ser observado nas seguintes UCE: Sair da faculdade e entrar no mercado de trabalho de imediato foi difícil. Tem que agüentar muita coisa no serviço privado. (Ent. 29) Sair da faculdade e entrar no mercado de trabalho, em princípio, foi complicado porque eu fui trabalhar num serviço privado. (Ent. 2) Choreimuito,choreidoisdiasseguidos,porqueeuachava que ia ser um desastre trabalhar numa emergência sem saber nada. (Ent. 9) O ritual de passagem do desligamento da universidade e entrada no mercado de trabalho, além dos fatores já destacados, foi referido como especialmente difícil em função das características do processo formador que, segundo os sujeitos, se baseia na teoria e não capacita adequadamente os profissionais para o desempenho técnico da profissão. Ou seja, a universidade não subsidia o profissional com habilidades e conhecimentos técnicos suficientes para a execução segura da prática profissional. As falas a seguir demonstram essa apreensão do aparelho formador: Eu saí da faculdade muito crua, não tinha prática nem depunçãovenosa,cateterismo.Eusaídafaculdademuito teórica, não tinha muita prática. (Ent. 9) O enfermeiro tem muita teoria, no meu caso, eu saí com muita teoria e pouquíssima prática. Não tinha segurança para trabalhar.(Ent. 4) Nenhum outro sujeito destacou com tanta clareza a representação da formação como um processo insuficiente (talvez inadequado) para a instrumentalização do indivíduo frente às demandas do campo profissional, como o que se segue: Sair da faculdade e entrar no mercado de trabalho significa sair, olhar para trás, e agora? Eu acho que não sei nada, que não fui preparado para a prática de enfermagem. (Ent. 25) Contudo, entre a universidade e o mercado de trabalho, os sujeitos destacam a residência em enfermagem como um fator facilitador dessa passagem e que favorece uma integração maior entre o meio acadêmico e o mercado profissional. Ou seja, a residência de enfermagem é destacada como uma forma mais amena de transição entre a realidade da universidade e a da prática profissional, especialmente se esta se corporifica na relação mercadológica que norteia o serviço privado de assistência à saúde. p.268 • R Enferm UERJ 2004; 12:265-71. Pode-se observar as UCE em que os sujeitos destacam essa idéia: Sair da faculdade e entrar no mercado de trabalho foi bem tranqüilo porque (...) eu saí da universidade e entrei na residência e da residência fui para o mercado de trabalho. (Ent. 13) Foi uma transição fácil porque me formei num meio de ano, fiz habilitação até dezembro e em fevereiro estava entrando na residência. (Ent. 18) Os sujeitos representam a universidade como distante da realidade objetiva do trabalho da enfermagem e da vida profissional. Dessa maneira, destaca-se a ruptura docência/assistência que repercute em um ensino descontextualizado da prática profissional, como pode ser observado no seguinte depoimento: Senti diferença da faculdade para o mercado de trabalho, com certeza. Na universidade é aquela coisa utópica e já na residência vi muita coisa, não é nada assim. (Ent. 13) A universidade é representada, portanto, como um lugar não só de valorização da profissão, mas da sua construção teórica. Essa representação justifica a caracterização da transição para a prática profissional como uma ruptura que traz diversas dificuldades. Ao mesmo tempo, a prática realizada dentro do contexto acadêmico é percebida como diferente da realidade profissional extra-acadêmica, tanto no que se refere à sua execução técnica, quanto aos fundamentos teóricos da mesma. Nenhum dos sujeitos estudados conseguiu lembrar de uma definição formal de enfermagem, aprendida na faculdade ou na literatura especializada, quase sempre ressaltando que não gostam de definições, que estas são inadequadas à realidade em que vivem ou que não se sentem à vontade com o passado histórico ou com as figuras da profissão, como Florence Nightingale e Anna Nery. Evidencia-se, portanto, uma dissociação teóricoprática no cotidiano profissional. Não me lembro de uma definição teórica de enfermagem, isso aí com o tempo já se perdeu, continuo na prática. (Ent. 15) Contudo, a prática também é representada pelos sujeitos como portadora de contradições. Observa-se, por um lado, a valorização do desenvolvimento adequado de procedimentos manuais, sendo essa habilidade considerada como característica do bom profissional. Por outro lado, ressaltam que a diferença do enfermeiro para os profissionais de enfermagem de nível médio está no deter o conhecimento Gomes AMT, Oliveira DC do por que, como e para que se realiza um procedimento manual. Ou seja, afirmam que é essa relação saber/fazer que diferencia o enfermeiro e o torna responsável pela equipe de enfermagem. A relação entre teoria e prática emerge a partir do amadurecimento do profissional e da necessidade colocada pela prática. A prática do cuidado requer o saber para a sua execução, o que resulta na valorização do conhecimento no cotidiano profissional. Só com o tempo e a prática que se começa a valorizar aquela teoria. Quanto mais tempo, mais se valoriza. (Ent. 29) Diversos autores têm alertado para a ocorrência de dificuldades e obstáculos no processo de formação do profissional do enfermeiro. Loyola7 destaca a existência de um laboratório de docilidade, ao qual os estudantes de enfermagem são submetidos, e Germano8 comenta que foram criados valores associados à profissão no sentido de que o enfermeiro não aprofunde seu conteúdo crítico para uma análise social acurada. Outros autores tecem as suas análises enfocando o exercício do poder da instituição, dos docentes e dos preceptores nessa formação, explicitado no rigor do uniforme, na postura profissional e na rigidez hierárquica, de forma que esse processo ganha contornos de autoritarismo e dominação9,10. Por sua vez, Lunardi11 se refere à forte presença da normalização que se baliza no próprio modo de ser enfermeiro, de comportar-se e de relacionar-se com o poder. Inclui, também, o modo de vestir-se, de apresentar-se, de realizar a técnica padronizada com perfeição, verificando todos os detalhes com superaproveitamento do tempo. Também são constantemente controladas tanto a assiduidade quanto a pontualidade, a lentidão na execução da tarefa, a relação com a equipe de enfermagem e de saúde. Esses critérios de avaliação nem sempre são objetivos, e também não geram justiça, proporcionando mais sujeição que modos criativos de resolução de conflitos. Como pode ser observado, os autores citados convergem nas suas construções teóricas acerca da formação do enfermeiro, apesar da existência de 15 anos de diferença entre a primeira publicação8 e as últimas9,10. Constata-se que, apesar da evolução do processo de formação do enfermeiro, algumas características são constantes ao longo do tempo. Esse fato parece imprimir uma característica à profissão, influenciando o modo como o enfermeiro se insere no mercado de trabalho e como constitui o seu espaço próprio de trabalho. Em trabalho anterior12, procuramos pontuar a aproximação da enfermagem com modelos educacionais modernos e dialógicos, como o de Paulo Freire, em seu relacionamento com a clientela. Contudo, apesar do desenvolvimento de currículos integrados calcados em modelos educacionais democráticos e problematizadores, em um número cada vez maior de Faculdades de Enfermagem, no Brasil, esse fato não foi ainda suficiente para superar as dificuldades e impasses históricos no processo de constituição de um novo perfil e identidade profissionais. A contribuição desses autores, quando comparada aos dados empíricos deste estudo, confere à situação uma feição ainda mais grave, qual seja, a de que não somente a constituição crítica e política dos profissionais enfrenta dificuldades, mas também o preparo técnico para o desempenho prático da profissão parece se caracterizar como inadequado para as demandas do mercado. Ou seja, além das questões relacionais com os componentes da equipe de saúde e do exercício do poder com todas as instâncias com as quais convivem, os sujeitos referiram dificuldades no fazer específico da profissão ao saírem da universidade. Loureiro e Vaz10 e Guitton, Porto e Almeida13 referem-se também ao fenômeno da formação profissional insuficiente às demandas mercadológicas colocadas para o novo profissional. Muito mais do que uma deficiência do aparelho formador, acredita-se na existência de um descompasso entre os objetivos e o perfil profissional a partir dos quais a formação se desenvolve e aqueles que o mercado exige para o desempenho dos novos profissionais. Ou seja, a universidade pretende formar profissionais com senso crítico desenvolvido - profissionais do pensar - e como conseqüência também de um fazer específico e contextualizado. O mercado, por sua vez, espera um profissional com habilidade técnica perfeita e diversificada, que seja rápido, que atenda ao maior número possível de demandas colocadas pelo cotidiano hospitalar, ou seja, um profissional técnico generalista. Esse perfil profissional demandado pelo mercado de trabalho hospitalar não valoriza o conhecimento teórico como parte da formação do enfermeiro, estabelecendo uma dicotomia entre o saber e o fazer, o que pode ser caracterizado como uma tendência a absorver um tecnólogo, em lugar de um profissional de graduação plena1. Ao lado do processo de formação, outros aspectos, como a valorização social da profissão, a repreR Enferm UERJ 2004; 12:265-71. • p.269 Formação profissional e mercado de trabalho em enfermagem sentação da profissão para a clientela e a relação mercadológica estabelecida com as instituições empregadoras, definem tensões que conformam, ou pelo menos influenciam, uma determinada prática social. Como exemplo, pode-se destacar a inserção dos enfermeiros no ambiente hospitalar, no qual também assumem, muitas vezes, o papel de administradores do espaço de trabalho (e não somente da assistência de enfermagem), distanciando-se da prestação direta dos cuidados de enfermagem e também da sua gerência específica. Na medida que a instituição hospitalar ainda se apresenta como o maior empregador de enfermeiros no Brasil, essa característica de inespecificidade passa a ser tomada como parte intrínseca da profissão, interferindo na constituição da própria identidade profissional, ao atribuir um caráter de normalidade ao que pode ser considerado como um distanciamento da essencialidade da profissão e dos objetivos de sua formação14. Nessa perspectiva, tudo o que se relaciona à instituição passa a ser da competência do enfermeiro, o que faz com que ele absorva tudo como sendo seu, sem uma especificidade de ação ou uma delimitação de um papel próprio, tornandoo invisível à instituição, à equipe de saúde, à clientela e à própria sociedade. Dessa maneira, os enfermeiros não recebem a valorização que consideram merecida e o trabalho no ambiente hospitalar passa a ser penoso. A residência de enfermagem, nesse cenário, ganha a representação de um espaço universitário, ligado à academia e à construção teórica da profissão, mas que também consegue abarcar as exigências pragmáticas do mercado de trabalho e da preparação do enfermeiro para uma inserção menos traumática nesse meio. Reforçando o exposto, Miranda15 destaca as funções e a importância da residência em enfermagem no tocante à inserção dos novos enfermeiros no mercado, especialmente por sua capacidade amenizante na transição entre o ambiente da universidade e o mercado de trabalho. CONSIDERAÇÕES FINAIS C omo foi ressaltado ao longo deste texto, quatro conteúdos emergiram das falas do grupo de sujeitos participantes desta pesquisa, quais sejam: as representações do hospital, da universidade, da residência em enfermagem e da transição entre a universidade e o mercado de trabalho. Pode-se ressair, como resultados deste trabalho, algumas dimensões das representações sociais obserp.270 • R Enferm UERJ 2004; 12:265-71. vadas, tais como as imagens, os conhecimentos e as práticas. No que se refere ao hospital, salienta-se sua imagem de grande empregador dos enfermeiros, mesmo daqueles que se direcionaram para o campo da saúde coletiva. Ainda com relação a tal cenário, os sujeitos destacaram o conhecimento de uma não-valorização das instituições quanto à sua prática e um não-reconhecimento das especificidades da profissão, destinando, à mesma, diversas atividades que não se relacionam à enfermagem ou aos clientes sob sua responsabilidade. Outra imagem associada ao hospital é de locus no qual a prática profissional não é humanizada, o que se apresenta como uma preocupação para esses enfermeiros. Quanto à universidade, a imagem caracterizada é a de utópica e de lugar distante da realidade vivenciada pelos profissionais. Esse aspecto imagético de espaço utópico revela, por um lado, uma diferença de objetivos entre a formação acadêmica e o mercado de trabalho; e por outro lado, indica um distanciamento entre o que é considerado ideal para a profissão pelos saberes que subsidiam a sua constituição histórico-social e as exigências colocadas pela situação social, política e econômica do setor saúde. No que tange à transição da universidade para o mercado de trabalho e à residência de enfermagem, pode-se fazer uma aproximação do campo das representações sociais com o da memória social, como é desenvolvido por Sá16 e Sá e Oliveira17. A transição é representada e rememorada como difícil e como um choque, e a residência adquire uma imagem de fator amenizador dessa transição, memória essa impressa na construção mental e histórica desse grupo. Conclui-se que a memória e a representação dos sujeitos com relação à transição do papel de aluno para profissional destacam a imagem do hospital, da residência e da própria universidade, no caso desta última normalmente comparada às exigências do mercado de trabalho. Ressalta-se, ainda, a importância da Teoria das Representações Sociais como ferramenta para a explicitação de conteúdos mentais estruturados, o que abarca as dimensões cognitiva, avaliativa, afetiva e simbólica, consubstanciadas em atitudes, conhecimentos e práticas4,18. 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Se adoptó como referencial teórico y metodológico la Teoría de las Representaciones Sociales y como sujetos 30 enfermeros de la atención básica de una municipalidad del Estado de Rio de Janeiro-Brasil, con los cuales se realizó entrevista en profundidad, en 2002. El análisis léxico de los datos fue desarrollado a través del software ALCESTE. Los resultados indicaron el hospital como un local presente en el imaginario de los profesionales; la transición universidad /mercado-de-trabajo como una vivencia difícil y estresante; la universidad como un lugar distanciado de la realidad profesional; y la residencia en enfermería como un factor de amenidad de esa fase de transición. Se concluye que las representaciones y la memoria social de los sujetos destacan la imagen del hospital, de la residencia, del mercado de trabajo y de la universidad como participantes de esa transición. Palabras clave: ALCESTE; enfermería; formación profesional; hospital; mercado de trabajo. Recebido em: 13.06.2004 Aprovado em: 20.10.2004 Notas * Mestre em Enfermagem. Professor contratado da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. e-mail: [email protected] ** Professora Titular de Pesquisa do DEFEN e do Programa de Pós-Graduação/ Mestrado da Faculdade de Enfermagem (FENF) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). R Enferm UERJ 2004; 12:265-71. • p.271