Elisabete Brito [email protected] O Pulular da Leitura no Feminino A promoção da leitura em cursos de Educação e Formação de Adultos Faculdade de Letras da Universidade do Porto Porto, Julho de 2011 1 Resumo: A educação deve contribuir para a autonomia do indivíduo enquanto cidadão e membro de uma determinada sociedade. Contudo, quando falamos desta temática temos de pensar também nos adultos. É, portanto, no âmbito do trabalho desenvolvido com cursos de Educação e Formação de Adultos que se desdobrou este trabalho. Após a constatação de um afastamento sociocultural face à leitura, o nosso grande desafio recaiu sobre o desenvolvimento de diferentes métodos e estratégias que poderiam ajudar a contribuir para a promoção da mesma. Palavras-chave: Leitura; promoção; Educação; Formação; Adultos. 2 Introdução O presente artigo apresenta-se como uma síntese resultante de uma parte da dissertação de mestrado em Educação e Bibliotecas, sobre a temática da Promoção da leitura em adultos – percurso pelos trilhos da leitura em cursos de Educação e Formação de Adultos1, em 2008. Gostaríamos de partilhar com os leitores da Revista de Animação e Educação um pouco daquilo que desenvolvemos em torno da leitura, ao longo de um ano, com um dos cursos de Educação e Formação de Adultos, vulgo EFA. Na perspectiva de Delors, patente no Relatório da Unesco, à educação compete fornecer os mapas de um mundo complexo e constantemente agitado (1996). Efectivamente, ela deve contribuir para a autonomia do indivíduo, enquanto cidadão participante na sociedade em que se insere. Aliás, a prática pedagógica deve desenvolver-se sobre três pilares do conhecimento, em cada indivíduo: aprender a conhecer porque este é o passaporte para uma educação permanente, dado que fornece o gosto e as bases para uma aprendizagem ao longo da vida; aprender a fazer para que cada um esteja apto a enfrentar quaisquer situações de emprego e, por último, aprender a ser, que exige uma capacidade de autonomia e discernimento, com o reforço da responsabilidade pessoal. Nos dias de hoje, falar de educação é também falar de adultos. Tal como é mencionado na Declaração de Hamburgo, a Educação de Adultos abrange todo um processo de aprendizagem, quer formal quer informal. Na verdade, as pessoas “consideradas “adultas” pela sociedade desenvolvem as suas habilidades, enriquecem o seu conhecimento e aperfeiçoam as suas qualificações técnicas e profissionais, direccionando-as para a satisfação das suas necessidades e as da sua sociedade” (1997, p. 19). Neste âmbito, desenvolvemos um trabalho de investigação com um grupo de 13 indivíduos, do sexo feminino, entre 2007/2008, com idades compreendidas entre os 24 e os 50 anos. Este grupo possuía, aquando do início do curso, baixas habilitações escolares e estava desprovido de qualificações formais. Ressalve-se que frequentaram 1 Dissertação orientada pelo Prof. Doutor João Teixeira Lopes. 3 um curso EFA B3 Acção Educativa, que lhes dava equivalência ao 9º ano de escolaridade e formação profissional na área da Acção Educativa. Nesta sequência, Requejo Osório assevera que o domínio dos códigos básicos nomeadamente a leitura, a escrita e o cálculo – são uma necessidade fundamental para a interpretação da realidade e, simultaneamente, para o desenvolvimento pessoal e social de cada cidadão (2003). Como tal, poder-se-á considerar esta formação de adultos como um projecto de mudança social, com o intento de alargar o campo de possíveis destas mesmas pessoas, até porque o sentido da educação de adultos se alimenta de práticas sociais (Silva, 1990). Por isso, consideramos pertinente, no âmbito da temática desta revista, abordar brevemente algumas questões associadas à aprendizagem na idade adulta e à animação e formação de públicos leitores, mais concretamente a animação da leitura. Abordaremos ainda, a posteriori, algumas das actividades desenvolvidas com o grupo. 1. A aprendizagem na idade adulta Falar de aprendizagem é associá-la à educação e às políticas educativas. Por isso, Delors alude a elas como um processo permanente de enriquecimento dos conhecimentos, do saber-fazer, mas também, e quiçá em primeiro lugar, como uma vida privilegiada de construção da pessoa, nas relações com os indivíduos, grupos e nações (1996). Daí que a educação deva ser encarada como uma construção permanente da própria pessoa humana, dos seus saberes e das suas aptidões. A educação deve acrescentar a liberdade mental e física dos homens: aumentar o controlo sobre si, sobre as suas vidas e sobre o ambiente em que vivem. As destrezas adquiridas mediante a educação dever ser igualmente destrezas libertadoras (AnderEgg, Gelpi, Nyerere e Fluitman, 1996). Nesta sequência, Freire saliente que a “educação deve estimular a opção e afirmar o homem como homem”, daí que ela deva ser “desinibidora e não restritiva” (1998, p. 32). 4 Neste sentido, a educação de adultos deve contribuir para alargar as destrezas do homem a todos os níveis, deve ajudá-lo a decidir por si mesmo, em cooperação, o que é o desenvolvimento. Além disso, deve ajudá-lo igualmente a pensar com clareza e capacitá-lo para examinar as possíveis opções, tendo em conta os seus próprios objectivos e ainda atribuir-lhes a capacidade necessária para que as suas decisões se transformem em realidade. Delors frisa que a educação de adultos procura suprir as disparidades em relação ao nível de instrução na sociedade, concedendo aos seus participantes a satisfação do desejo pessoal de alargar os seus horizontes (1996). Prepara-os, assim, não só para a vida activa, mas também para poderem exercer as suas responsabilidades cívicas. Na verdade, a educação de adultos não é apenas um privilégio para alguns, mas uma necessidade de todos, como contributo para o desenvolvimento de toda a sociedade. Ressalve-se que a educação dos adultos deve contribuir para o fortalecimento da autoestima, da comunicação, da tolerância, do respeito pela diferença e da mudança social a partir da incrementação do pensamento crítico. Contribuindo para o desenvolvimento e aperfeiçoamento de conhecimentos, capacidades e atitudes – saberes –, fazemos com que haja uma aquisição de determinadas ferramentas que possibilitarão ao adulto agir e reagir perante situações, mais ou menos complexas, de vida. 2. A animação e a formação de públicos leitores Nos adultos em que existem dificuldades de compreensão da leitura, é fundamental um trabalho contínuo, uma vez que o facto de se fomentar o interesse e o hábito de leitura nos adultos acaba por despertar um efeito positivo, por exemplo, no que diz respeito à aquisição de vocabulário. Se considerarmos muitas das carências leitoras que existem em alguns adultos, o formador poderá ser entendido como um modelo e como um mediador de leitura. A nossa inquietação não se centra na simples decifração, mas na fluência da leitura. Embora muitos destes adultos tenham uma história de vida já considerável, constata-se que a leitura para eles não é mais do que um meio para atingir um determinado fim e 5 encaram-na como mera decifração. Não obstante, os cursos EFA, pelo seu carácter dinâmico e activo, podem contribuir para uma melhoria nesse campo. 2.1. Animação da leitura Mas, afinal, qual é o sentido da animação da leitura? Animar ou incitar alguém a ler acaba por ser, de certa forma, um adiantar-se numa aventura em que cada um se converte no protagonista, a partir da identificação com as personagens da ficção. Assim, a animação da leitura é uma actividade em que é proposta uma aproximação e um aprofundamento nos livros, de forma criativa, lúdica e aprazível Efectivamente, a aprendizagem da leitura é considerada uma competência técnica e o hábito constitui um comportamento. Na perspectiva de Ameijeiras Sáiz, animar a leitura é “aproximar o livro de forma fruitiva, para apreendê-lo, para fazê-lo próprio, para que esta interacção leitor-livro permita a formação e o crescimento pessoal” (2007, p. 166). Cerrillo, Larrañaga e Yubero consideram, neste âmbito, que a animação da leitura não significa simplesmente que se diga a alguém para realizar determinada tarefa, mas mostrar a leitura (2002). Por outras palavras, consideram que a animação implica a abertura de portas e de possibilidades que, por sua vez, podem abrir muitas mais e que permitirão a entrada num labirinto intrigante e apaixonante. Ressalvam ainda que a animação da leitura é “el conjunto de actividades, técnicas y estrategias que persiguen la práctica de la lectura, aunque teniendo en el horizonte la meta de formar leitores activos, capazes de comprender mensajes diferentes y de relacionar una historia en su contexto” (Idem, p. 83). Na realidade, a animação da leitura implica a criação de leitores activos e participativos que, através da leitura, possam satisfazer a sua curiosidade, obter conclusões e contrastar as suas experiências pessoais com as leituras que realizaram. Isto implica, tal como frisam Domech, Martín Rogero e Delgado Almansa, motivar o indivíduo para a participação na vida social, de modo a que deixe de ser um mero consumidor (1996). 6 Abandonando a pele desse simples consumidor de bens culturais poderá converter-se, efectivamente, num sujeito activo e crítico e que estabeleça interacções com os livros. Agudo considera que a promoção da leitura implica a criação de hábitos, uma educação ou reeducação de percepções e uma criação ou mudança de hábitos (1984, cit. por Domech, Martín Rogero e Delgado Almansa, 1996). Assim, o adulto desenvolve o seu espírito crítico, o que faz com que amplie a sua capacidade de selecção em relação aos bens e usos culturais. 2.2. O papel do mediador da leitura O formador de adultos é, simultaneamente, um mediador e um animador. Não se pode deixar de ter em conta que o formador de Linguagem e Comunicação, sempre em harmonia com os restantes, deverá ser um mediador da leitura, uma vez que a ele lhe cabe também o papel de demonstrar que a leitura não tem de ser a obrigação a que muitos se habituaram. É fundamental levá-los a ver a leitura como prazer e como uma fruição estética. Acima de tudo, este formador deve gostar de ler e, por isso, querer também partilhar esse gosto, com o intuito de alterar a possível ausência de hábitos leitores nos formandos. De acordo com Taquelim, “o prazer da palavra descobre-se (…) no espaço de afectos que conseguimos construir em torno do objecto livro, e em torno do jogo, do riso” (2005, p 93). O trabalho deste formador, enquanto mediador, reside na aproximação dos livros às pessoas, facilitar-lhes a oportunidade da leitura. Na verdade, não tem a ver com o facto de mandar fazer algo ou impor leituras, mas de propor e acompanhar essas mesmas pessoas na descoberta da leitura. Pretende-se estabelecer uma aproximação entre os livros e o grupo, proporcionando-lhes as mais distintas oportunidades de contacto com a leitura. Afinal, “os livros são portas e janelas que se abrem para universos infinitos de possibilidades, onde cada leitor decide o caminho a tomar” (Idem, p. 91). De acordo com Cerrillo, Larrañaga e Yubero a um mediador de leitura estão atribuídas determinadas funções (2002, p. 30). Tendo em conta a nossa posição enquanto 7 mediadores de leitura neste grupo, consideramos que essas funções passam pela criação e fomento de hábitos de leitura estáveis; pela orientação de leituras extra formação; pela coordenação e encaminhamento para leituras de acordo com os interesses de cada adulto e, por último, a preparação, o desenvolvimento e a avaliação de animações de leitura. 2.3. O despertar para hábitos de leitura em adultos De acordo com Cerrillo, Larrañaga e Yubero, “na formação dos hábitos de leitura não se é leitor até que se adquira o hábito” (2002, p. 9). Na verdade, esses hábitos de leitura só se adquirem e consolidam aquando da existência de um verdadeiro contacto social entre o leitor e os textos. Assim, através deste contacto, o adulto enquanto leitor poderá reflectir sobre aquilo que leu e criar uma relação com o texto. Deste modo, é fulcral fazer com que esses mesmos adultos sintam necessidade de ler, sintam que a criação desse hábito os pode auxiliar nas mais diversas áreas do seu quotidiano. Não obstante, esta não é uma tarefa fácil, mormente porque falamos de adultos. Tal como Cerrillo, Larrañaga e Yubero, consideramos que a acumulação de experiências de leitura melhora não só o conhecimento da própria linguagem, mas também a bagagem cognitiva. Estas são as condições essenciais para melhorar a compreensão, bem como a capacidade de leitura e que, deste modo, poderão despertar para o prazer pela leitura. Posto isto, pretende-se fazer com que a motivação para a leitura seja a própria actividade de ler, fazendo com que a leitura conduza, assim, a outra leitura. Cerrillo, Larrañaga e Yubero mencionam que não existe melhor medicina do que os bons livros para criar leitores (Idem). Não obstante, esses livros devem ser seleccionados não só pela capacidade que tem de transmitir mensagens com correcção e qualidade, mas também pela capacidade que encerram para nos emocionar, para nos fazer sentir, sonhar ou mesmo partilhar. Esta foi a nossa base de trabalho ao longo desta caminhada, procurando também desenvolver um processo de aprendizagem. 8 Muitas das dificuldades de compreensão na leitura baseiam-se na ausência de uma prática corroborada de leitura. Por isso, cremos que promover a leitura e o despertar para esse hábito passam por uma aproximação, de forma contínua e regular, do leitor ou potencial leitor do livro e da leitura. Enquanto formadores, mediadores e animadores, temos de evocar um factor extremamente importante neste processo: as estratégias que podem induzir o prazer lúdico na leitura e, ao mesmo tempo aprofundá-la. Não podemos olvidar que a leitura pressupõe um diálogo íntimo entre cada um dos leitores e cada um dos textos. 3. À descoberta da leitura Perante as dificuldades com que nos deparámos no contacto inicial com este grupo, à medida que fomos trabalhando foram surgindo distintas actividades, que a seguir explanamos, ainda que de forma sucinta. 3.1. O Momento da história Quando encetámos a formação com este grupo, procuramos desde logo auscultar a presença ou não de uma relação com a leitura e as eventuais dificuldades que pudessem existir. Apercebemo-nos que havia neste grupo um distanciamento praticamente geral face à mesma. Considerando que este grupo estava no curso de Acção Educativa e que iriam trabalhar posteriormente com crianças, a leitura seria um tema tratado com maior profundidade no módulo de Linguagem e Comunicação. Assim, procurámos ouvi-las para compreendermos as suas verdadeiras dificuldades. Levámos em diferentes sessões histórias de António Torrado, extraídas do site www.historiadodia.pt e pedimos-lhes que nos contassem uma história. Paulatinamente fomo-nos apercebendo das reacções das várias formandas. A formanda que lia limitavase a debitar as palavras da história, com uma posição demasiado rígida e tensa. O olhar não se desviava do papel e as outras nem sequer se apercebiam quando terminava, só mesmo quando ela o referia. As histórias que contavam perdiam todo o seu brilho e magia pela forma como elas pegavam nelas. 9 Por isso, considerámos que aquela actividade devia ter continuidade mas que paulatinamente devíamos ir fazendo algumas alterações e introduções. O nosso grande objectivo era sensibilizá-las para a leitura, oferecendo-lhes diferentes contactos com o texto escrito. Assim, surgiu o Momento da história, actividade desenvolvida no início de cada uma das sessões do módulo de Linguagem e Comunicação. O desenvolvimento desta actividade implicava que se alterasse a forma como liam, ou seja, em vez de debitarem palavras sem compreenderem o seu significado, deviam ler com expressividade, ritmo, boa dicção, recorrendo a jogos de fisionomia e criando atmosferas díspares com a voz – voz doce, terna, alegre, misteriosa, maliciosa, grave, suplicante. Com esta actividade pretendia-se, assim, colmatar a falta de fluência na leitura, o conhecimento deficiente de vocabulário e fazer com que houvesse coerência entre o corpo e a voz em relação ao texto. Assim, considerámos que era necessário desenvolver e despertar nelas a capacidade de escutar. Pretendia-se, deste modo, estimular a capacidade auditiva e a consequente compreensão das histórias/textos pelo grupo. 3.2. Chocoleitura Superadas muitas das dificuldades iniciais e na sequência do Momento da história, sobreveio a ideia de criar uma actividade em que as crianças pudessem ouvir uma história contada pelas formandas. Assim, surgiu a Chocoleitura. Com a Chocoleitura aspirávamos aliar o sabor das letras e o som da leitura ao degustar do bolo e do leite, ambos de chocolate. Tinha-se como propósito criar uma simbiose entre alimentação física e cultural. Além de seleccionarmos histórias que nos falassem de chocolate, considerámos pertinente a inserção de histórias que falassem de sentimentos. Nesta actividade depreendiam-se as metáforas sugestivas a que a linguagem se presta – devorar um livro, ter gosto pela leitura. 10 3.3. Sonhar com os livros ouvindo as palavras Considerando que nos meses finais do curso as formandas já se sentiam mais à-vontade, principalmente algumas, a contar as histórias, considerámos que seria o momento certo para, mais uma vez, saírem da sala e interagirem com as crianças. Na verdade, esta actividade acabou por ir ao encontro de um desejo delas. Inicialmente, a actividade tinha sido programada para que existisse uma maior participação das crianças. Contudo, tendo em conta as suas idades, foi necessário fazer algumas alterações. Como tal, as duas formandas seleccionadas contaram-lhes a história escolhida e preparada totalmente por elas. 3.4. A Centileia A construção de uma centopeia da leitura, com cartolinas de várias cores foi também outra actividade desenvolvida no decorrer do módulo de Linguagem e Comunicação. Esta centopeia tinha, inicialmente, tão-só o rosto porque o seu corpo só ganharia forma se elas efectivamente lessem. Esta actividade foi desenvolvida com a finalidade de criar hábitos de leitura, de incentivar o desejo de ler e despertar para o prazer da leitura. Por cada livro que elas lessem realmente, fora do contexto de sala de formação, a centopeia iria crescendo com mais uma roda. A selecção dos livros era pessoal, embora, lhes déssemos algumas sugestões, de acordo com os seus interesses. Cabia-lhes, depois, viverem a experiência e descobrirem a história através dos segredos escondidos que cada livro guardava. No dia da construção da centopeia, ela foi baptizada pelo grupo com o nome Centileia, aliando a centopeia com a leitura (figura 1). Figura 1 – Imagem final da Centileia. 11 3.5. Visita a bibliotecas públicas A visita a distintas bibliotecas acabou por ser uma novidade, uma vez que as bibliotecas públicas lhes eram praticamente desconhecidas. Na verdade, algumas das formandas tinham aquela ideia tradicional da biblioteca como um simples local de “conservação de artefactos de uma memória simbólica e de distribuição/ difusão desses materiais” (Azevedo, 2007, p. 153). Além disso, havia casos também em que as formandas jamais tinham entrado numa biblioteca. Face a esta situação, pretendemos proporcionar-lhes um contacto mais directo com o funcionamento destas instituições, com as formas de organização do seu fundo documental; ajudá-las a compreender a necessidade de organizar e classificar os materiais (livros, CD’s, DVD’S, jornais) para favorecer o acesso aos mesmos e cativar potenciais utilizadores das bibliotecas. Não podemos deixar de fazer menção a um outro aspecto bastante relevante. No concelho em que a maioria do grupo habita não existe um espaço que reúna as condições físicas ou estruturais exigidas para uma biblioteca. Assim, para dar continuidade ao trabalho que iniciámos em torno do livro e da leitura, fizemos tudo para que houvesse a possibilidade de se inscreverem na Biblioteca do concelho vizinho, integrada na rede de bibliotecas públicas. Deste modo, consideramos que lhes abrimos mais uma porta para o encontro com o livro e com a leitura. 3.6. O Livro em Branco e o Erro Criativo Outro contributo para esta aproximação entre os livros, a leitura e o grupo foi a construção de um livro de histórias, de modo a estimular a imaginação e a criatividade, a fomentar a relação leitura/escrita e a desenvolver a competência icónica e a relação desta com o texto verbal. A proposta para o desenvolvimento desta actividade surgiu após a leitura de O livro-em-branco e as letras atrevidas. Porque não escrever esse livro em branco com histórias para crianças? 12 Fomos, assim, buscar as primeiras histórias que elas escreveram numa das unidades capitalizáveis com um dos outros formadores que integrou esta equipa pedagógica. Para dar continuidade a este livro de histórias, associámos-lhe a posteriori no módulo de Linguagem e Comunicação, o Erro Criativo, baseando-nos um pouco em Rodari (2004). A partir dos erros de ortografia que as formandas cometiam, teriam de construir uma história e, de uma forma mais atractiva, corrigiam o erro. Porém, foram colocadas várias questões a esse erro como guia orientador para a construção de cada história. Após a construção da história, foi-lhes solicitado que realizassem uma ilustração para a mesma. Como tal, surge aqui a relação entre o texto verbal e o texto icónico. Não podemos apenas ficar com a ideia de que a ilustração é uma mera reprodução daquilo que as palavras contam. 3.7. Dramatização No decorrer deste trabalho em torno da leitura, foi-lhes solicitado que escrevessem duas histórias temas da actualidade – educação ambiental e escolar – e de personagens de histórias infantis, para que pudessem ser dinamizadas (figuras 2 e 3). Contudo, estes momentos não foram estanques. Figuras 2 e 3 – Cenários das histórias Os amigos do ambiente acerca da Educação ambiental e Brincar em segurança alusiva à Educação escolar. Sendo a época natalícia uma época especial para as crianças, o grupo voltou a desenvolver novas dramatizações através da actividade As palavras na magia do Natal. Esta actividade envolveu duas vertentes distintas. De acordo com a época em questão, seleccionámos uma história de Ana Saldanha – Ninguém dá prendas ao Pai Natal – que 13 adaptámos, de modo a aumentar o número de personagens para que todas as formandas pudessem participar. Depois de lhes termos feito uma leitura das palavras, coube-lhes a elas fazer a leitura através das ilustrações dos cenários, dos adereços e da preparação do guarda-roupa e da caracterização de cada uma das personagens, tal como podemos verificar através das figuras 4 e 5. Figura 4 e 5 – Personagens e cenário da história Ninguém dá prendas ao Pai Natal. Tal como mencionámos anteriormente, As palavras na magia do Natal tiveram uma outra vertente. Considerando que havia ainda um subtema relacionado com a Educação – educação ambiental –, que ainda não tinha sido tratado, a equipa pedagógica entendeu que se poderia incluir nesta actividade. Foi ainda decidido que ele seria desenvolvido através de um cinema de animação. De acordo com este subtema considerámos que se iria abordar a questão da preservação das espécies, mais concretamente dos animais em vias de extinção em Portugal. No que diz respeito ao cinema de animação da história Preservação das espécies, as formandas construíram uma caixa, que se assemelhava a um cinema, que continha as imagens das várias personagens e cenários onde estas se encontravam (figuras 6 e 7). 14 Figuras 6 e 7 – Caixa com a história e cenário do cinema de animação: Preservação de espécies. Sendo esta uma actividade bastante estática e, por isso, menos cativante, optámos por criar um pouco mais de acção em volta do cenário e, por sua vez, da história. Considerámos que, uma vez que as crianças não as viam e unicamente lhes ouviam as vozes, cada vez que um dos animais falasse surgia por cima do cenário o seu rosto e ia percorrendo o cenário de uma ponta à outra ou saltitando no lugar onde se encontrava. Desta forma, pretendia-se despertar nas crianças a curiosidade e suspense, uma vez que o rosto do animal ia surgindo em lugares distintos do cenário. Com estas actividades de dramatização pretendíamos ajudar a estimular nelas a imaginação e a criatividade; promover competências de interacção com públicos distintos; despertá-las para a leitura, uma vez que foram necessárias distintas leituras de texto e de imagem para vestirem o papel de cada uma das personagens. Além disso, não podemos olvidar a leitura que o grupo fez através do texto icónico, estabelecendo, em todos estes momentos uma peculiar e indissociável relação com a palavra. 15 Algumas conclusões Após uma breve apresentação em torno do trabalho que desenvolvemos com um destes cursos, com que temos trabalhado ao longo dos últimos anos, expomos agora alguns pontos que consideramos pertinentes relativamente à influência deste trabalho neste grupo em concreto. Salienta-se, desde já, nestas actividades, a posição do grupo enquanto receptor e sujeito activo e participativo. Este grupo não se limitou a ser um simples receptor ou destinatário passivo. Aliás, esta posição não é de todo a única postura a adoptar. Estes momentos são necessários para enriquecer os seus conhecimentos e aprender novas técnicas para trabalhar com a leitura e com o livro. Não obstante, cremos que só enquanto sujeitos activos e participativos conseguirão entender, através da experiência, aquilo que assimilaram dos outros estando na posição de receptores. Enquanto sujeitos sociais activos acabam, neste caso, por dinamizar também distintas actividades em volta da leitura para outros públicos. Tendo em conta esta posição e o facto de que acabam por exercer uma certa acção sobre esses públicos, podemos considerá-los, então, agentes de socialização. As visitas que realizaram a bibliotecas públicas permitiram-lhes a abertura de novos horizontes quanto a estes espaços de leitura. Se anteriormente estes espaços eram meramente armazéns de depósito de livros, para algumas, deixaram de o ser. O mesmo aconteceu com aquelas que jamais tinham entrado numa biblioteca. Criou-se, desde logo, uma relação de propinquidade e afinidade entre este espaço e as formandas. Estas visitas permitiram-lhes tirar algumas inferências e fazer algumas analogias entre estas bibliotecas. Constatámos que se não existiam hábitos de leitura o mesmo acontecia com a escrita. Não havendo uma prática constante e contínua destes dois domínios acabam por surgir dificuldades. Podemos considerar todas estas actividades como a construção de um projecto de formação de públicos leitores. Este foi, na verdade, um projecto transdisciplinar, uma 16 vez que englobou os diversos módulos e formadores. Não podemos olvidar-nos também que é a partir dos reportórios culturais de cada uma que se vão projectando e moldando as etapas de cada actividade, realizando as alterações necessárias desde a planificação inicial à execução. Efectivamente, constatámos a existência de uma alteração na relação com a leitura. O ónus da questão não estará propriamente na postura, mas na envolvência e receptividade que passaram a existir, patentes em todas as actividades e pela interacção e dinamismo. 17 Bibliografia Ameijeiras Sáiz, Mª Cristina (2007). A promoção da leitura nas bibliotecas municipais de A Corunha. In Azevedo, Fernando (coord.). Formar Leitores – teorias e práticas. (pp. 165-171). Lisboa: Lidel. ISBN 978-972-757-460-5. Ander-Egg, Ezequiel; Gelpi, Ehore; Nyerere, Julius Kambarage & Fluitman, Fred. (1996). La educación de adultos como organización para el desarrollo social – precisiones conceptuales y historicas: dos propuestas entre otras. Viamonte: Magisterio de Río de la Plata. ISBN 950-550-068-8. Azevedo, Fernando (2007). Construir e consolidar comunidades leitoras em contextos não escolares. In Azevedo, Fernando (coord.) Formar Leitores: das teorias às práticas. (pp. 149-164). Lisboa: Lidel. ISBN 978-972-757-460-5. Cerrillo, Pedro C.; Larrañaga, Elisa & Yubero, Santiago (2002). 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