nossa
américa
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Revista do Memorial da América Latina 01 2013
1º de maio, marco zero
do trabalhismo
Para quem
centrais sindicais?
Pagu
nas trincheiras
O que é
Peleguismo?
Confira em América Latina em São Paulo: dicas do que se tem do México na cidade
1
VISITE
O NOVO
MEMORIAL DA AMÉRICA LATINA
Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664
São Paulo, SP, ao lado da estação Barra Funda do metrô
2
Editorial
João Batista de Andrade
Chicago
Ana Maria Cicaccio
Pagu
Redação NAH
Greve de 1917
Di Cavalcanti
Eles não usam Black Tie
Tânia Rabelo
La hora de los hornos
Tânia Rabelo
Golpe de Estado
Almino Affonso
Vargas e Perón
José Luis Beired
CUT e Sindicalismo
Eduardo Rascov
Contribuição negocial
Daniel Pereira
Líderes Operárias
Ana Maria Cicaccio
Continente do trabalho
Reynaldo Damazio
O operariado hoje
Leonor Amarante
Chefe, operariado e
futebol
1º de maio na cultura
Tânia Rabelo
México em São Paulo
Simone Lozano
Programação do
Memorial
Imagem da edição
Pedro Martinelli
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GERALDO ALCKMIN
SECRETÁRIO DA CULTURA
MARCELO ARAÚJO
FUNDAÇÃO MEMORIAL
DA AMÉRICA LATINA
CONSELHO CURADOR
américa
nossa
GOVERNADOR
DIRETOR
PRESIDENTE
JOÃO BATISTA DE ANDRADE
SECRETÁRIO DA CULTURA
EDITORA EXECUTIVA/DIREÇÃO DE ARTE
SECRETÁRIO DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO,
CIÊNCIA E TECNOLOGIA (em exercício)
ASSISTENTE DE REDAÇÃO
ALMINO MONTEIRO ÁLVARES AFFONSO
MARCELO ARAÚJO
LUIZ CARLOS QUADRELLI
REITOR DA USP
JOãO GRANDINO RODAS
REITOR DA UNICAMP
FERNANDO FERREIRA COSTA
REITOR DA UNESP
JULIO CEZAR DURIGAN
PRESIDENTE DA FAPESP
CELSO LAFER
REITOR DA FACULDADE ZUMBI DOS PALMARES
JOSÉ VICENTE
PRESIDENTE DO CIEE
RUY ALTENFELDER SILVA
DIRETORIA EXECUTIVA
DIRETOR PRESIDENTE
JOÃO BATISTA DE ANDRADE
DIRETOR DO CENTRO BRASILEIRO DE
ESTUDOS DA AMÉRICA LATINA
ADOLPHO JOSÉ MELFI
DIRETOR DE ATIVIDADES CULTURAIS
LUIZ FELIPE BACELAR DE MACEDO
hoy
LEONOR AMARANTE
MÁRCIA FERRAZ
DIAGRAMAÇÃO
EVERTON SANTANA
DAYANE DA SILVEIRA XISTO (ESTAGIÁRIA)
REVISÃO
ELIAS CASTRO (ESTAGIÁRIO)
COLABORARAM NESTE NÚMERO
Almino Affonso, Ana Candida Vespucci, Ana Maria Cicaccio,
Daniel Pereira, Eduardo Rascov, José Luis Beired, Luís Avelima,
Pedro Martinelli, Reynaldo Damazio, Ricardo Antunes, Ruy
Braga, Simone Lozano, Tânia Rabello.
NOSSA AMÉRICA HOY é uma publicação bimestral da
Fundação Memorial da América Latina.
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DIRETOR DE GESTÃO DE NEGÓCIOS
JOSÉ ALEXANDRE PEREIRA DE ARAÚJO
4
Capa:Take do filme Trabalhadores: Presente!,
de João Batista de Andrade, 1979.
foto de Wagner Carvalho, cedida pela Raiz Distribuidora
Editorial
No leque das comemorações do seu 24º aniversário,
em 18 de março, o Memorial
da América Latina inaugurou
dois projetos que vão agregar
valor ao perfil de atividades
que desempenha como polo
de integração e irradiador da
produção artística e cultural
dos povos do continente.
Um deles é o que já vem
sendo chamado de Novo Memorial, que tem como objetivo transformar suas praças
em ponto de encontro de lazer
cultural da família paulistana.
Além das atrações de todos os
gostos e idades, construímos
na Praça Cívica um parque
infantil, pista de caminhada e
circuito de ginástica.
A outra novidade começa com estas linhas: a revista
Nossa América Hoy, novo produto editorial, impressa em
preto e branco, dedicada ao
debate atualizado das questões plurais e comuns aos
povos latino-americanos. Por
isso, será uma publicação bi-
mestral, enquanto Nossa América, criada com a inauguração
do Memorial em 1989, ligada
à sua programação, passará a
circular uma vez ao ano.
A cada edição Nossa
América Hoy vai abordar um
tema relevante e temporal. Neste número de estreia, a pauta é
inteiramente dedicada ao 1º de
Maio e suas influências na vida
dos trabalhadores. O episódio
que deu origem à data – quando, em Chicago, um grupo de
operários reivindicou a redução
da jornada de trabalho - é lembrado no texto da jornalista Ana
Maria Ciccacio. A comemoração do Dia do Trabalho no Brasil de Vargas e na Argentina de
Perón, é o tema do historiador
José Luis Beired.
A editora Leonor Amarante entrevistou o cientista
político Ruy Guerra e com ele
colheu alentado e atualizado
panorama do sindicalismo
brasileiro e sua cumplicidade
com os partidos políticos.
Contribuição negocial, o
que é isso? O jornalista Daniel
Pereira recupera e atualiza a
história do projeto que surgiu
para substituir o imposto sindical, mas ainda não saiu do
papel. A mulher trabalhadora
e suas reivindicações específicas e um texto histórico de
Patrícia Galvão, nossa agitadora cultural Pagu, são outros
destaques desta edição. Todas
as xilogravuras contidas neste
número são de autoria de Rubem Grilo.
Na agenda cultural, oferecemos dicas de literatura, artes plásticas, cinema, teatro e
música alusivas ao 1º de Maio.
E inauguramos com o México o
roteiro América Latina em São
Paulo, que em cada número vai
homenagear um país latino-americano. Encerra este número, Foto da Edição, espaço dedicado aos fotógrafos e, quem
abre a série é Pedro Martinelli,
profissional de São Paulo.
João Batista de Andrade
é Presidente da Fundação Memorial
da América Latina.
5
Chicago
estopim
das reivindicações
da classe operária
oprimida durante décadas
e que se alastram
pelo mundo.
Ana Maria Cicaccio
1° de maio
6
observou o historiador britânico Eric Hobsbawn (1917-2012),
quando esteve no Brasil, há muita
injustiça que precisa ser remediada. “Mesmo que jamais consigamos eliminá-la por completo, se
não tentarmos, não seremos seres humanos, não nos daremos
conta do nosso potencial”.
A Revolução Industrial viria
a ser o grande divisor de águas.
No final do século XVIII, ao mesmo tempo em que a Revolução
Francesa propagava-se em ondas
por toda a Europa pregando liberdade e igualdade, outro tipo de
revolução transformava completamente a vida dos britânicos. Relatos do historiador norte-americano Marvin Perry registram que
após 1760 a Inglaterra vivenciou
mudanças muito profundas nos
modos de produção. Novas formas de energia, particularmente
a do vapor, substituíram a força
animal e os músculos humanos.
Maneiras melhores de obtenção
e utilização de matérias-primas
também foram descobertas. Surgiu a fábrica, forma inédita de organizar a produção e os trabalhadores, mas também de sugá-los.
De 1850 a 1900, a Revolução Industrial difundiu-se pela Europa,
Estados Unidos e Ásia. Escritores
como Balzac (1799-1850), na
França, e Dickens (1812-1870),
na Inglaterra, documentaram realisticamente essa época selvagem
da industrialização.
A jornada de trabalho
em meados do século XIX
chegava a 12, 14, 16 horas
diárias, com no máximo uma
Fotos: divulgação
O Dia do Trabalho continua sendo, 123 anos depois da
Revolução Industrial, a data mais
importante da Humanidade na
constante busca por uma sociedade mais justa. Nem mesmo as
incertezas da globalização e da
precarização do trabalho parecem
abalar o sentido político das comemorações no 1º de Maio. Neste dia, as motivações para
lembrar a data tanto podem ter o caráter de luto
(por rememorar a origem
do evento), o de festa (para
comemorar as conquistas obtidas) e também o de
luta, quando os trabalhadores têm a oportunidade
de expor aos holofotes da
mídia suas atuais pautas de
reivindicação. Afinal, como
7
hora para refeições. Mulheres e crianças eram preferidas
aos homens adultos por causa
dos baixos salários, como denunciou Friedrich Engels em
A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra. Não havia
descanso semanal nem feriados
e férias. Salário mínimo, previdência social, aposentadoria, licença maternidade e 13º salário
– direitos conquistados muito
mais tarde – eram sequer cogitados. A filosofia liberal não admitia que se fizessem leis para
os trabalhadores. Com salários insuficientes, estes
moravam em habitações
superlotadas e sujas, ou,
sendo solteiros ou tendo deixado a família no campo, em
barracões coletivos com outros
do mesmo sexo, sem nenhuma
privacidade. Quando perdiam
o emprego, também perdiam
Adolph Fischer
o abrigo. Em alguns casos,
pagavam multas por erros
cometidos e acidentes provocados em fábricas onde
eram aviltantes as condições de trabalho.
Primeiro passo - Nesse
insólito contexto, a primeira reivindicação dos trabalhadores foi
a redução da jornada. “Exigia-se
não morrer de tanto trabalhar. A
origem do 1º de Maio acha-se diretamente ligada à luta pela redução da jornada de trabalho”, escreve Vito Giannotti, metalúrgico,
autor de mais de 20 livros (entre
eles História das Lutas dos Trabalhadores no Brasil). Foi um industrial, porém, e não um operário,
que propôs a fixação da jornada
de trabalho em 8 horas diárias,
em 1817. Seu nome, Roberto
Owen, um socialista utópico, inglês de nascimento, que sonhava
com uma comunidade igualitária.
Michael Schwab
A luta pela jornada de 8
horas prosperou com o surgimento de organizações nacionais e internacionais de operários. A Associação Internacional
dos Trabalhadores (AIT), fundada em Londres em 1864 por
operários franceses e ingleses,
manteve essa reivindicação
sempre em pauta. Em seu 2º
Congresso, em 1866, na cidade
de Genebra, a Primeira Internacional discutiu em plenário a
questão das 8 horas, considerada tão importante que era vista
como “primeiro passo para a
emancipação do trabalhador”.
Em 1884, a Federação
Americana do Trabalho (American Federation of Labor/AFL
em inglês), fundada em 1881,
promoveu um Congresso de
Trabalhadores em Chicago, centro que congregava milhares de
operários. Na ocasião, o secre-
Samuel Fieldem
Louiss Lingg
“Se com o nosso enforcamento vocês pensam em destruir o movimento operário - este movimento de milhões de seres humilhados, que
sofrem na pobreza e na miséria, e esperam a redenção –, se esta é
sua opinião, enforquem-nos. Aqui terão apagado uma faísca, mas lá
8
tário da entidade, Frank K. Foster,
propôs uma greve geral nacional pela jornada de 8 horas. O
operário Gabriel Edmonston
endossou a proposta e foi além,
sugerindo que a partir de 1º de
maio de 1886 os trabalhadores
considerassem o dia de trabalho
de 8 horas como jornada legal,
paralisando suas atividades nas
indústrias que não acolhessem
a decisão daquele congresso.
A assembleia votou favoravelmente e por unanimidade.
No dia 1º de maio desse
ano, milhares de trabalhadores saíram em manifestação pelas ruas das cidades
industrializadas dos EUA,
entre elas Chicago, atendendo à convocação da AFL de greve geral no país pela redução
da jornada de 13 para 8 horas
diárias. A convocação condizia
com a diretriz da I Conferência
A.R. Parsons
George Engel
A filosofia
liberal não admitia
que se fizessem
leis para os
trabalhadores.
Oscar Neebe
August Spies
e acolá, atrás e na frente de vocês, em todas as partes, as chamas
crescerão. É um fogo subterrâneo e vocês não poderão apagá-lo!”
(trecho da fala de August Spies, um dos líderes do movimento operário de maio de 1886, em Chicago, antes de sua condenação).
9
Internacional dos Trabalhadores,
realizada em Londres 20 anos
antes, recomendando à classe
operária adotar essa reivindicação como foco de sua luta.
Chicago estava em greve.
Na tarde do dia 3 de maio,
em um confronto entre
grevistas e policiais, dois
trabalhadores morreram
e vários ativistas foram presos.
Revoltados, os trabalhadores
marcaram um comício (meeting) para a noite do dia seguinte, na praça Haymarket. Cerca de
três mil pessoas compareceram,
inclusive mulheres e crianças.
Quando a chuva e o frio amainaram e os assistentes já eram
menos de 200, surgiu um destacamento policial com um contingente de 140 homens, e logo
explodiu entre eles uma bomba
de origem indeterminada. Imedia-
tamente, os policiais abriram fogo
contra a multidão. Saldo do conflito: 6 mortos, 50 feridos e mais
de cem trabalhadores presos.
Os acontecimentos de
Haymarket desencadearam uma
onda de repressão nunca vista em Chicago. Oito dirigentes
sindicais – Albert Parsons, August Spies, Sam Fieldem, Oscar
Neeb, Adolph Fischer, Michel
Shwab, Louis Lingg e Georg
Engel – foram levados a julgamento, no que ficou conhecido
como o processo dos “oito mártires de Chicago”, acusados do
assassinato dos policiais. Cinco
deles – Parsons, Spies, Fischer,
Lingg e Engel – foram condenados à morte por enforcamento; Fieldem e Schwab, à prisão
perpétua; e Neeb, a 15 anos de
prisão. Em 11 de novembro,
Spies, Engel, Fischer e Parsons
foram enforcados. Lingg se
suicidou na véspera, deixando
um bilhete no qual reafirmava
suas ideias e dizia que se matava para não permitir que um
carrasco a serviço da burguesia
encostasse suas mãos imundas
no seu corpo. A repercussão é
intensa na imprensa, no imaginário da população norte-americana e entre os trabalhadores
pelo mundo. Outras memórias,
além da histórica proposta de
Edmonston e de seu trágico
desfecho em Chicago, estão
presentes na escolha do dia e
do mês para o Dia do Trabalho,
ou como querem algumas correntes político-sociológicas, o
Dia do Trabalhador.
Ana Maria Ciccacio é jornalista na área
de cultura e colabora com as revistas
Inovação e Brasileiros.
Os
trabalhadores
organizados
não
perdiam
o foco
na luta
pelos seus
direitos.
10
Fotos: divulgação
P
A
G
U
a eterna militante
“Podem aprisionar meu corpo,
jamais terão minha alma”
11
Charmosa, inteligente,
comunista, jornalista e escritora, quase nada escapou na vida agitada de Patrícia Galvão, que nasceu em
1910 e, muito antes de virar
Pagu, já se impôs por atitudes revolucionárias para a
época, na defesa de igualdade social. Foi a primeira presa
política no Brasil. Em 1930 casou-se com o escritor modernista Oswald de Andrade. No
ano seguinte, ingressou no então Partido Comunista do Brasil
(PCB), e, com Oswald e Queirós
Lima, passou a editar o jornal
panfletário O Homem do Povo
que, só teve oito números.
Figura constante nas manifestações políticas, foi presa
durante uma greve de estivadores em Santos. Em 1933,
ao sair da prisão lança o livro
Parque industrial - romance
proletário, com pseudônimo de
Mara Lobo, do qual publicamos
um trecho na página seguinte.
No final daquele mesmo
ano, iniciou longa viagem de
volta ao mundo, e passou a
colaborar para os jornais cariocas Correio da Manhã e para
o Diário de Nóticias, e o Diário
da Noite, de São Paulo. Pagu
era uma mulher do mundo. Na
China, entrevistou Sigmund
Freud, que estava por lá como
turista. Foi para a União Soviética, numa viagem de oito dias
pela Transiberiana, onde fez
vários contatos. Como todo
intelectual da época, também
sonhava com Paris, onde chegou em 1934, seguiu alguns
cursos na Universidade Popular e ingressou no Partido
Comunista Francês. Foi presa
como militante comunista estrangeira e repatriada para o
Brasil em 1935.
Separou-se de Oswald de
Andrade, e naquele mesmo ano,
foi novamente detida, e conde-
nada a dois anos de prisão, sob
acusação de envolvimento no
levante armado promovido no
Rio de Janeiro por setores da
Aliança Nacional Libertadora
(ANL), que agrupava comunistas, socialistas e outras correntes na luta contra o integralismo
e o imperialismo. Três anos
depois, outra vez vai para
prisão ao ser detida e
torturada pela polícia de
Vargas, tendo permanecido, no total, quase cinco
anos na detenção. Deixa
o Partido Comunista do
Brasil e segue a corrente
Trotskista. Em companhia
do novo marido, Geraldo Ferraz,
integra a redação de A Vanguarda Socialista junto também com
o crítico de arte Mário Pedrosa,
Hilcar Leite e Edmundo Moniz.
Seus últimos anos foram vividos em Santos de onde
atuou na imprensa paulista, sobretudo como crítica literária.
Pagu e Oswald de Andrade,
marido e companheiro
nas lutas políticas, com o
filho Rudá, em 1931.
12
Pagu é detida em 23 de agosto de 1931, durante um
comício comunista na cidade de Santos, quando o
estivador Herculano de Souza morre em seus braços e ela passa a ser a
primeira presa política do Brasil. Em 1938, novamente presa, é espancada
e torturada, sendo libertada somente dois anos depois.
Trecho do livro Parque Industrial, de 1933
“O grito possante da chaminé envolve o bairro. Os retardatários voam, beirando a parede
da fábrica, granulada, longa, coroada de bicos.
Resfolegam como cães cansados para não
perder o dia (...). O apito acaba num sopro. As
máquinas se movimentam com desespero. A
rua está triste e deserta (...). Na grande penitenciária social os teares se elevam e marcham
esguelando (...). Saem para o almoço das onze
e meia (...). Pão com carne e banana (...). Na
grade ajardinada um grupo de homens e mulheres procura uma sombra. Discutem (...).
Um rapazinho se espanta. Ninguém nunca lhe
dissera que era um explorado. “Rosinha, você
pode me dizer o que a gente deve fazer?” Rosinha Lituana explica o mecanismo de exploração
capitalista. “O dono da fábrica rouba de cada
operação o maior pedaço do dia de trabalho. É
assim que enriquece à nossa custa!” “Quem
foi que te disse isso?” “Você não enxerga? Não
vê os automóveis dos que não trabalham e a
nossa miséria?” “Você quer que eu arrebente
o automóvel dele?” “Se você fizer isso sozinho, irá para a cadeia e o patrão continuará
passeando n’outro automóvel. Mas felizmente
existe um partido, o partido dos trabalhadores,
que é quem dirige a luta para fazer a revolução
social.” “Os tenentes?” “Não. Os tenentes são
fascistas.” “Então o que?” “O Partido Comunista”. Novamente as ruas se tingem de cores
proletárias. É a saída da Fábrica (...). A limousine do gerente chispa espalhando o pessoal.
Uma menina suja alisa o pára-lama com a mão
chupada.” (Parque Industrial, 1933).
13
e a greve de 1917
em São Paulo
14
Sem título (grupo de trabalhadores), 1933, nanquim e grafite s/ papel.
Di Cavalcanti
“E a célebre greve de
1917? Os bairros de Brás e
Mooca sitiados!
Lembro-me da estupidez
de meus colegas da Academia
contra grevistas. Lembro-me
de Oswald de Andrade
com aquele reacionarismo católico que o dominava, querendo fazer
incursões armadas pela
madrugada para desalojar os grevistas. Lembro-
1° de maio, 1932, nanquim e grafite s/ papel
Trecho retirado
do livro
Desenho de
Di Cavalcanti
na Coleção
do MAC
(Museu de Arte
Contemporânea
de São Paulo).
me de uma passeata operária
até o centro da cidade que foi
dissolvida a pata de cavalo pela
polícia. Lembro-me do velho Júlio Mesquita telefonando para o
palácio dos Campos Elísios, ao
Dr. Altino Arantes, protestando
contra o que se passava diante
da redação do “Estado”. Telefonou para o Dr. Altino e saiu
para a rua com Alfredo Pujol e
Ricardo Figueiredo enfrentando os policiais. Rapidamente
surgiu um automóvel com o
Dr. Oscar Rodrigues Alves. As
coisas serenaram na Praça Antonio Prado. Das janelas do
“O Estado de São Paulo”
eu observava as janelas
da redação do “Correio
Paulistano”,
baluarte
do PRP, com curiosidade.
Interditavam-me aquele
sítio os meus amigos da
esquerda”.
Di Cavalcanti
15
pr
o
de gra
m ma
aio ç
ão
TÂNIA RABELLO
Gianfrancesco Guarnieri e Mirian Mehler
na versão original da peça de 1958.
Eles não usam black tie é
a primeira peça teatral de Gianfrancesco Guarnieri, escrita e
apresentada em 1958 no Teatro de Arena, sob direção de
José Renato. A peça, com forte
temática social, marcou época
porque se contrapôs ao teatro
tradicional na época, o Teatro
16
Brasileiro de Comédia (TBC),
voltado a superproduções e a
textos estrangeiros.
Eles não usam black tie –
que originalmente se chamava
“O cruzeiro lá no alto” e teve
o nome modificado por sugestão de José Renato, como provocação às encenações luxuo-
sas do TBC e ao público deste
gênero de teatro.
À beira da falência, o Teatro de Arena – que surgiu em
1953 como contraposição ao
TBC – reergueu-se com o texto
de Guarnieri, que foi um sucesso
de bilheteria e ficou mais de um
ano em cartaz, fato inédito até
Fotos: divulgação
Na
Eles
não
usam
black
tie
Eles não usam Black Tie, peça que será apresentada em montagem especial no auditório Simón Bolívar do Memorial.
então para um texto brasileiro.
Em um cenário despojado, que
retratava o morro e seus moradores, os operários, Gianfrancesco Guarnieri trata de temas
importantes, como o movimento
grevista e operário da década de
1950 no Brasil e as difíceis condições de vida dos trabalhadores
brasileiros, fazendo um retrato fiel das favelas dos grandes
centros urbanos e apontando o
abismo social entre classe dominante e classe dominada. É, por
isso, considerada um marco no
teatro de temática social. A partir daí, outros textos surgiriam
na mesma linha, retratando as
classes menos favorecidas, com
ênfase para a representação dos
trabalhadores.
A peça surgiu também
num momento de larga efervescência cultural no País, concomitantemente ao movimento do
Cinema Novo, que também convocava a arte ao neorrealismo.
A peça é a história do choque entre pai e filho com posições
ideológicas e morais opostas. O
pai, Otávio, é operário, idealista,
socialista e revolucionário. Foi
preso várias vezes e é líder do
movimento grevista no qual se situa a peça. Já seu filho, Tião, criado longe do morro, na cidade, por
causa das constantes prisões do
pai, não convive com este mundo de luta da classe operária e,
de volta quando adulto, entra em
constantes conflitos ideológicos
com o pai e também com a pró-
pria namorada, que engravida.
Na greve, com medo de perder o
emprego, não adere ao movimento, gerando vários conflitos entre
ele, seu pai e sua namorada, que
por fim o abandona.
O texto de Guarnieri também rendeu, em 1981, um filme do cineasta Leon Hirszman,
protagonizado pelo próprio
Guarnieri. Naquele mesmo ano,
Hirszman recebeu o Grande Prêmio Especial do Júri no Festival
de Veneza, na Itália; o prêmio
Grand Coral, no Festival de Havana, Cuba, além do Troféu APCA
1982, da Associação Paulista de
Críticos de Arte, do Brasil.
Tânia Rabello é jornalista e colabora
com a revista Brasileiros.
17
pr
o
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m ma
aio ç
ão
Na
La hora
de los
hornos
Filme do diretor argentino
Fernando Solanas
TÂNIA RABELLO
18
La hora de los hornos,
filme argentino dirigido por Fernando “Pino” Solanas e Octavio
Getino, integrantes do Grupo
de Cine Liberación, estreou em
1968, nos primeiros anos da ditadura militar na Argentina. Autoproclamado subversivo, o documentário foi concebido como
um instrumento para estimular a
revolução. Por isso, foi filmado e
produzido de maneira furtiva.
Pino Solanas, lembra, por
exemplo, que 200 latas de filme
tiveram de ser enviadas a Roma
para que fossem editadas longe
de terras argentinas. O filme foi
lançado em 1968, na Itália, surpreendendo o regime do general
argentino Juan Carlos Onganía
(1966-1970). Logo de cara ganhou prêmios no circuito europeu
de cinema, entre eles o Grande
Prêmio da Crítica na Mostra Internacional de Cinema Novo, na
Itália. No Reino Unido, foi classificado, em 1974, pelo British Film
Institute, entre os dez melhores
filmes dos anos 1970.
Na Argentina, La hora de
los hornos só pôde ser exibido
oficialmente em 1973. Em 1989
teve uma reestreia e em 2008 reeditou-se uma versão estendida.
O filme, com extremo espírito político e didático, tem quatro horas de duração e é dividido
em três partes: Neocolonialismo
e violência; Ato para a liberação
(que se divide em Crônica do Peronismo e Crônica da resistência), e Violência e liberação.
Solanas, que era cineasta
publicitário, servindo até então ao
neocolonialismo, com este filme
se “converte”, questionando o
sistema e a cruel ditadura argentina. Solanas e Getino qualificam,
ainda, La hora de los hornos
como um ato de resistência contra a ditadura e uma ferramenta
imagem real de uma criança faminta e logo em seguida a de um
arranha-céu deslumbrante em
Buenos Aires. Além disso, cenas irônicas, como o hino nacional argentino cantado por uma
cantora de ópera da tradição
O filme
revolucionário foi
lançado em 1968 na
Itália, mas devido à
censura, só pôde ser
exibido oficialmente na
Argentina em 1973.
para discussão, debate e mobilização política contra a oligarquia
portenha, que sempre usou da
violência para impor seu projeto.
No filme, imagens de diferentes contextos argentinos são
conectadas a fim de revelar as
contradições sociais não aparentes, quando percebidas de
forma isolada. Por exemplo, a
clássica europeia, sobreposto a
imagens de cenas de uma briga
de faca entre homens famintos
e jovens, além de um velho aleijado à espera de uma prostituta, expõem a contradição entre
uma ordem política idealizada e
as reais necessidades da maioria dos argentinos. Um filme revolucionário, enfim.
19
Emergência
popular e
golpe de Estado
No governo de João Goulart as greves
seriam reconhecidas como recursos legais,
desde que não descambassem para a anarquia.
Fotos: divulgação
Almino Affonso
João Goulart manteve contato direto com o povo durante seu breve governo.
20
tara para 54,8%; e em fevereiro de 1963, precipitara-se para
60%! Justo quando, fazia um
mês, João Goulart assumira a
Presidência da República, uma
vez restaurado o “presidencialismo”, conforme a decisão da
Consulta Plebiscitária de 6 de
janeiro de 1963. O Plano Trienal,
dentre vários objetivos, propunha-se a duas metas principais
interligadas: a manutenção da
taxa de crescimento no período de 1957 a 1961, da ordem
de 7% ao ano; e a contenção
progressiva da inflação. Por um
conjunto de fatores (sobretudo
políticos), a espiral inflacionária
prosseguira. E, em decorrência,
o recurso às greves tornou-se
inevitável. Como Ministro do
Trabalho, assisti de perto ao impasse: não havendo espaço para
as negociações entre patrões e
operários, as greves multiplicaram-se numa avalanche.
A Constituição de 1946,
em seu artigo 158, assegurava o direito de greve:
“cujo exercício a lei regulará”. O Congresso Nacional,
por omissão imperdoável, não
cumprira a tarefa que lhe cabia.
Por outro lado (por conta dessa
inércia), os empresários acobertaram-se no Decreto 1.070/46,
editado pelo Presidente Eurico
Gaspar Dutra que, a rigor, obstaculizava a prática de greve. O
referido Decreto era inconstitucional; mas servia de escudo
aos empresários, respaldados
O vidente (2011), xilogravura de Rubem Grilo.
A emergência popular, que
teve grande significado político
nos anos 60, projetou-se sobretudo no movimento sindical urbano. O País estava convulsionado desde a renúncia
do presidente Jânio Quadros e que se desdobrara
no veto militar à posse do
Presidente João Goulart
e na instituição do Parlamentarismo, verdadeiro
Golpe Branco.
Nesse contexto, o processo inflacionário ganhara dimensões de uma crise social e
política, num crescendo incontornável. Os dados falam por
si mesmos: a inflação chegara
a 26,3% em 1960; subira para
33,3% em 1962; logo mais sal-
21
22
catórios, tivera como resultante
histórica a fundação do “Comando Geral dos Trabalhadores – o CGT”! Pode-se ponderar
que o CGT formara-se em 1962,
durante o IV Encontro Sindical
Nacional, realizado em São Paulo, com a participação de 3.500
delegados, representando 586
sindicatos, associações e federações. É o que leio no excelente livro de Antonio Neto. Mas,
pela ação – em confronto aberto
com a Federação das Indústrias
de São Paulo – considero que a
greve dos 700 mil, envolvendo
nada menos que 79 sindicatos
foi que lhe dera corpo e alma.
Com efeito, o CGT foi o embrião
das Centrais Operárias que,
no – foi a greve dos aeronautas,
deflagrada em protesto contra a
demissão do comandante Paulo
Mello Bastos, por ato ilegal do
Presidente da Varig – Sr. Ruben
Berta. Naquele então, com esse
gesto autoritário, fora atingido
o presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas e, como
se não bastasse, presidente da
Federação Nacional dos Transportes Aéreos, Fluviais e Terrestres. Cabe assinalar: Mello
Bastos, por força da lei, tinha
a “estabilidade sindical”. Portanto, não poderia ser demitido.
Salvo se houvesse incorrido em
“justa causa”, prevista na CLT e
devidamente reconhecida pela
justiça do trabalho. Era o que
àquela época distante, ainda
não estavam organizadas em
nosso país, num contraste chocante com o movimento sindical
avançado no Uruguai, na Argentina e no Chile.
Outro fato – da maior significação do sindicalismo urba-
estava expresso (e continua
vigente) na Consolidação das
Leis do Trabalho, em seu artigo
541 e parágrafos.
Essa prerrogativa, como
é óbvio, é fundamental para o
dirigente sindical. Sem ela, a
qualquer pretexto, os empresá-
Tesoura de rosca (2003), xilogravura de Rubem Grilo.
pelos Tribunais do Trabalho. Para
o Presidente João Goulart, diante
desse quadro, a opção fora imediata: em seu governo as greves seriam reconhecidas como
recursos legais, desde que não
descambassem para a anarquia.
O confronto estava assim incontrolável; e o conflito social ganhou
dimensões políticas.
O importante é que,
nesse beco sem saída, os
trabalhadores foram articulando os “Pactos Intersindicais”. Vale dizer: a
ação conjugada de vários sindicatos (de categorias diferentes), dando assim redobrado
impulso às reivindicações economicistas, numa pressão social incomparável. Cito alguns
exemplos relevantes: “Pacto de
Unidade e Ação – PUA”; “Fórum
Sindical de Debates de Santos –
PSD”, “Pacto de Unidade Intersindical – PUI”, que remontava
a 1953, respaldando a greve dos
300 mil em São Paulo; e sobretudo o “Pacto de Ação Conjunta – PAC”, uma ação conjugada
sem precedentes, articulando a
greve dos 700 mil trabalhadores em São Paulo, integrando
14 categorias profissionais!
Desta forma, o sindicalismo urbano passara a ter uma
estrutura “dual”: a prevista na
CLT (por categoria profissional)
e a que se criara com os Pactos
Intersindicais. É um momento,
a meu ver, da maior importância na história do sindicalismo
urbano. Sobretudo porque essa
greve – dos 700 mil – além de
ser vitoriosa em termos reivindi-
rios poderiam demitir o sindicalista, tão só porque ousasse
liderar a luta reivindicatória e,
sobretudo, se recorresse ao
exercício do direito de greve.
Em face dessa hipótese, os
trabalhadores ficariam ao desamparo. Como Ministro do
Trabalho, em declaração
à imprensa, exigi que o Presidente da Varig anulasse
a decisão arbitrária. Porém o Sr. Ruben Berta fez-se de
surdo e de mudo. Ato contínuo,
em legítimo protesto, os aeronautas declararam-se em greve. Vi-me na contingência de
reconhecê-la legal, sem meiostermos: pois os trabalhadores
a ela estavam recorrendo para
que a lei fosse cumprida.
A rigor, tendo em vista que
os aeronautas defendiam a “estabilidade sindical”, a greve ia além
de seus próprios interesses; e se
tornara uma ação com causa própria: dos portuários, dos operários navais, dos ferroviários, dos
petroleiros de Manguinhos, de
Duque de Caxias, de Cubatão. No
âmbito da aviação a greve alastrara-se: 100% dos voos da Vasp
paralisados; 70% da Panair; 60%
da Varig. Os céus ficaram livres
para os pardais. Na verdade, tornara-se uma greve gigantesca!
Registro essa greve – talvez única no gênero – pela sua
importância histórica. Não tinha
como objetivos: revisão salarial
e norma regulamentar. Apenas,
tão só, unicamente: a preservação da “estabilidade sindical”. Na verdade, aquela greve
demonstrara a maturidade do
sindicalismo: pela tomada de
consciência de suas prerrogativas, pela ação unitária, pela
visão social que transcendia o
economicismo. Fora instantânea a articulação da greve, de
âmbito nacional. E as lideranças
– tendo à frente o comandante
Paulo Mello Bastos – souberam
encontrar a vitória sem vanglórias. Por sua vez, o Presidente
João Goulart, ao dar ordem expressa ao Sr. Ruben Berta para
que reintegrasse Mello Bastos
nos quadros da Varig, iluminou o episódio nos seus devidos termos: em três dias o País
soubera viver uma grande lição
de prática democrática. Mas, a
emergência popular, que os fatos evocados explicitavam, serviu de pretexto para a conspiração que desaguou no Golpe de
Estado de 1964.
Almino Affonso foi ministro do trabalho
e da previdência social no governo do
presidente João Goulart.
23
Vargas e
Perón
As presidências dos dois líderes representam
uma inflexão no tratamento das questões
trabalhistas ao alterar profundamente a concepção
e realização da comemoração do 1º de Maio.
José Luis beired
24
Fotos: divulgaçãorilo.
Getúlio Vargas
e Benedito
Valadares,
governador
de Minas Gerais,
em Poços
de Caldas
em 1942.
Em 1890, o clube socialista alemão Vorwärts
– Avante – localizado em
Buenos Aires, conclamou
os trabalhadores da Argentina a se reunirem em
praça pública para a celebração do 1º de Maio como
“festa universal dos trabalhadores”. No Brasil, os
operários imigrantes da cidade
de Santos também fizeram o
mesmo pouco depois e juntamente com os trabalhadores do
Rio da Prata deram início a uma
duradoura tradição social. Nos
anos seguintes a data foi comemorada massivamente pelo
movimento operário para reforçar a união dos trabalhadores,
recordar suas lutas e apresen-
tar reivindicações. A despeito
dos pequenos avanços na área
trabalhista, as empresas resistiam a reconhecer a legitimidade da organização sindical e os
governos oligárquicos a tratar
as relações entre capital e trabalho como um problema crucial da política contemporânea.
As presidências de Getúlio Vargas e Juan Domingo Perón representam uma inflexão
no tratamento das questões
trabalhistas ao alterar profundamente a concepção e realização da comemoração do 1º de
Maio. Os dois líderes chegaram
ao poder questionando as estruturas liberal-oligárquicas e
buscaram reconstruir os fundamentos do poder por meio de
alianças com setores mais amplos da sociedade. Tanto na
Argentina quanto no Brasil, o Estado assumiu um
novo papel de árbitro das
diversas classes e segmentos sociais em nome
da soberania nacional, do
desenvolvimento econômico e da justiça social.
Os trabalhadores urbanos foram reconhecidos como interlocutores privilegiados, pois
eram um segmento essencial
para o futuro, cujas reivindicações não podiam ser ignoradas
por nenhum regime disposto a
modernizar a economia e ampliar os fundamentos da sua legitimidade política. Entretanto,
a conquista de apoio dos traba25
Partidários de Getúlio Vargas o seguiam em todas as manifestações políticas.
lhadores não dependeu apenas
da extensão da cidadania social
por meio da melhoria das condições materiais de vida, mas
também da criação de um novo
imaginário político centrado na
glorificação dos seus lideres.
O governo Vargas foi pautado pela crescente intervenção
do Estado no campo da legislação trabalhista e da organização
sindical. Com o golpe de 1937,
a ditadura do Estado Novo criou
instrumentos legais para aprofundar o controle burocrático e político dos sindicatos segundo uma
concepção corporativista. A celebração do 1º de Maio, rebatizado
como Dia do Trabalho, passou a
26
merecer atenção especial do regime, que o transformou em um
ritual cuidadosamente organizado
para promover a adesão das massas ao regime por meio do seu
contato direto com Vargas.
A data foi comemorada inicialmente de forma
restrita no Palácio da Guanabara em 1938. Para o presidente, a celebração não
deveria ficar limitada aos
discursos: anunciou a regulamentação do salário
mínimo e comprometeu-se
a cada ano presentear os
trabalhadores com uma
nova realização social. Em
1939, um evento de maior por-
te foi organizado junto ao Palácio do Trabalho, reunindo uma
multidão na Esplanada do Castelo, quando foram anunciadas
a criação da justiça do trabalho,
de escolas profissionalizantes e
de refeitórios populares. Nos
anos seguintes a comemoração foi realizada no Estádio do
Vasco da Gama e no Estádio do
Pacaembu (1944), ficando integrada a outros festejos oficiais
tais como o aniversário do presidente e do Estado Novo. As
atividades eram coordenadas
pelo Departamento de Imprensa e Propaganda e pelo Ministério do Trabalho, cujo chefe,
Alexandre Marcondes Filho,
A conquista de apoio
dos trabalhadores não dependeu
apenas da extensão
da cidadania social por meio da
melhoria das condições materiais
de vida, mas também
da criação de um novo
imaginário político centrado
na glorificação dos seus líderes.
27
conduziu um programa radiofônico intitulado “Trabalhadores do Brasil”, expressão forjada por Vargas para colocar-se
como líder da massa operária.
O foco do Dia do Trabalho não eram os sindicatos
e nem a massa de trabalhadores, mas o próprio Vargas,
como parte de uma estratégia
de propaganda oficial que visava reforçar o seu papel de
líder carismático, paternalista
e demiúrgico. Os esforços históricos do movimento operário
foram silenciados, enquanto o
presidente era apresentado
como o líder clarividente que
havia outorgado a legislação
trabalhista. A “ideologia da outorga” – pela qual benefícios e
direitos são distribuídos como
doações – foi um dos pilares
da relação construída pelo
Estado varguista com a sociedade, cujas implicações ainda
não foram ainda de todo superadas. O seu objetivo principal, a conquista da lealdade
dos trabalhadores em apoio
à ditadura, supunha a adesão
incondicional dos outorgados,
uma vez que não retribuir a dádiva equiparava-se ao crime.
De forma deliberada o 1° de
Maio havia sido esvaziado dos
significados construídos pelos
trabalhadores e se transformado em um ritual de reforço da
legitimidade de um regime político e do seu líder.
Na Argentina, o 1º de
Maio também foi um evento colocado a serviço de um regime
político durante a presidência
28
Getúlio
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Fotos: divulgação
Comemoração do Dia do Trabalho no campo do Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, em 1942.
29
de Perón. Depois de participar
de um governo constituído por
um golpe militar, esse oficial
do exército alcançou a presidência por meio de eleições,
sustentado por uma heterogênea coalizão e com apoio de
amplos setores da classe operária e do sindicalismo. Com
um longo histórico de organização, autonomia e politização,
o movimento operário argentino se destacava por ser o mais
numeroso e mobilizado da
América Latina. A tarefa da
elite dirigente peronista
foi complexa, pois implicou substituir uma tradição arraigada por outra inventada pelo novo
regime. Ao longo dos anos,
a celebração foi monopolizada
pelo Estado, juntamente com
outras cerimônias, transforma-
das em rituais de recriação das
fontes de legitimidade política do
regime peronista. Uma vez presidente, em 1946 ficou evidenciado que Perón era o principal
protagonista dos festejos.
No ano seguinte, os afiliados da Confederação Geral dos
Trabalhadores partiram de vários
bairros de Buenos Aires para formar uma só coluna encabeçada
por Perón, Evita e demais autoridades em direção à Praça de
Maio, espaço consagrado como
lugar de fundação do peronismo e de ritualização do contato
direto do líder com as massas.
Novos protagonistas e atividades foram incluídos – escolares,
militares, religiosos, funções teatrais, eleição da rainha do trabalho, além da participação de Evita
na qualidade de intermediária entre Perón e o povo.
O esforço de monopolização do evento pelo regime
foi crescente por intermédio
de medidas autoritárias que
foram desde a suspensão da
circulação de jornais no 1º de
Maio de 1947, até a proibição
de celebrações alternativas em
1949 e sua transferência para o
dia anterior à festividade patrocinada pelo Estado. De forma
paradoxal, um movimento político que deveu seu nascimento
ao apoio dos trabalhadores e
que foi sustentado pelos seus
líderes sindicais, uma vez no
poder tratou de suprimir toda e
qualquer manifestação autônoma dessa camada social.
A data tradicional do movimento operário argentino perdeu
totalmente seu sentido comemorativo – de relembrar lutas e conquistas – para se converter num
Evita com
mineradores, na
década de 1940.
30
ram as mudanças optaram por
vias autoritárias, estatizantes e
personalistas. Os sindicalistas
opositores foram perseguidos
e afastados, enquanto os setores aliados ficaram relegados a
um papel subordinado dentro
do pacto populista. No Brasil,
os trabalhadores rurais – maioria na época – nada tiveram que
comemorar no 1º de Maio, uma
vez que não foram contemplados
com quaisquer direitos. Mesmo
no âmbito urbano os benefícios
chegaram a um número reduzido de trabalhadores formais e
sindicalizados. As tradições de
mobilização e protesto do movimento operário argentino foram
domesticadas em nome do ideal da “comunidade organizada”,
metáfora da nação reformulada
nos moldes peronistas, ilustrada
por um dos lemas com os quais
Perón cobrava a disciplina dos
trabalhadores: “de casa para trabalho, do trabalho para casa”.
Nos dois países os trabalhadores tiveram perdas e
ganhos. Houve inquestionáveis
avanços em termos de legislação trabalhista, criação de direitos e de valorização do trabalhador. Outro lado da moeda
foi o peleguismo (explicação
na página seguinte), a burocratização, a dependência do
Estado e a construção do mito
do poder demiúrgico do líder
carismático. Esgotados os dois
regimes, o 1º de Maio foi retomado pela classe trabalhadora
e ganhou novos e inesperados
significados.
José Luis Bendicho Beired
é historiador da Unesp.
O casal Perón em
comício na capital
portenha.
Fotos: divulgação
ritual apropriado pelo Estado e
controlado nos mínimos detalhes para produzir a devoção ao
líder e assegurar a continuidade
do regime peronista.
Em síntese, a celebração do 1º de Maio durante
o varguismo e o peronismo
constituiu uma ruptura em
relação à história construída pelas correntes do
movimento operário. As práticas e mesmo a memória da comemoração foram substituídas
por outras funcionais aos projetos políticos dos dois regimes.
Muitas das medidas governamentais tomadas representaram
a atualização das relações entre
capital e trabalho em face do
crescimento urbano e industrial.
Em contraposição aos padrões
liberal-oligárquicos, as elites políticas e militares que patrocina-
31
O que é pelego?
Em seu sentido original, a
palavra pelego (oriunda do espanhol
pellejo) significa a pele do carneiro
com a lã, que é normalmente usada
como montaria: posta entre a sela
e o corpo do cavalo, a fim de tornar
mais suave o contato
entre o cavaleiro e o animal.
A visão de que o sindicalismo anterior a 1964
era pelego ou então populista, era desejável num
momento de forte disputa pela hegemonia do
movimento operário. As palavras de um militante
sindical do pré-64 são bastante esclarecedoras
sobre a questão. No dizer de Affonso Delellis,
presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São
Paulo entre 1963 e 1964, em um debate entre velhos
e novos militantes. As palavras de Delellis não
devem ser desprezadas, pois ele é hegemônico nas
análises atuais sobre o período que o movimento
sindical era, de fato, forte, sendo justamente esse
o motivo utilizado pelos setores de extrema direita
para o golpe civil-militar de 1964. No entanto, após
o golpe, a maioria dos dirigentes combativos foi
retirada dos sindicatos, ficando esses nas mãos, em
sua maioria, de “pelegos”.
(Trecho do artigo Entre a vanguarda e o espontaneísmo:
embates pela hegemonia do novo sindicalismo no Brasil de
Stanley Plácido da Rosa Silva).
32
Figura apoiada pelo punho (1983), xilogravura de Rubem Grilo.
E pelego politicamente?
CUT dá aula
para o sindicalismo dos
Estados Unidos
Ao completar 30 anos em agosto de 2013,
maior central sindical do país amplia sua
atuação no continente americano
eduardo rascov
Quem diria, a classe operária brasileira está exportando sua
tecnologia social aos Estados
Unidos! O Secretário Adjunto de
Relações Internacionais para as
Américas da Central Única dos
Trabalhadores, Artur Henrique
da Silva Santos, acaba de voltar
do Tio Sam. É ele quem conta: “Estamos indo aos EUA
organizar os bancários.
Nunca teve sindicato de
bancários por lá, é muito
difícil criá-lo. Mas, a partir
dos funcionários do Banco do
Brasil nesse país, estamos criando condições de chamar os funcionários de outros bancos para
fundar um sindicato”. O próprio
companheiro Artur se admira:
“Há dez anos quem diria que isso
ia acontecer”.
Mas Artur Santos voltou
indignado com o que viu e ouviu nos dois gigantes do norte:
“Nos EUA e Canadá atualmente
têm uma campanha contra os
sindicatos chamada de ‘direito
ao trabalho’. É uma inversão
total de valores: Se você quiser
trabalhar 14 horas por dia, se
quiser trabalhar nas férias, se
quiser trabalhar imediatamente
após dar a luz, você têm o direito ao trabalho e o sindicato não
deve se intrometer...”. Durante
dez dias de março ele visitou
cinco países - EUA, Canadá,
El Salvador, Nicarágua e Honduras. Artur cumpriu agenda
cheia. No último congresso da
CUT, em julho de 2012, decidiuse que a central sindical abriria
um Instituto de Cooperação Internacional e lá se foi o sociólogo formado pela PUC de Campinas levar a experiência brasileira
continente afora. Artur Santos
presidiu a CUT de 2006 a 2012.
Segundo ele, as dificuldades para os trabalhadores na América Central são
imensas, pois os governos
e os sindicatos são fracos
e a dependência dos EUA é
muito grande. El Salvador,
por exemplo, tem a carga tribu33
com a central sindical nativa visando defender o atual governo
de esquerda de Mauricio Funes,
da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN).
Como se vê, a CUT achase atualmente tão consolidada e
poderosa que se dá ao luxo de
ir brigar fora do país. “A classe
trabalhadora está muito bem no
Brasil, mas tem muito ainda a
melhorar. O Brasil e a classe trabalhadora têm que se organizar
de forma internacional, porque
principalmente nas Américas e
na África as empresas estão se
locomovendo e alterando suas
bases segundo seus interes-
Fotos: divulgação
tária de apenas 12% do PIB (no
Brasil, 35%, taxa semelhante ao
dos países ricos). “Ora, um país
não consegue fazer política pública e social sem imposto. Mas
lá não se consegue cobrar imposto do empresário e do fazendeiro”, conta. Nesse país a CUT
fez um acordo de cooperação
34
ses. Os trabalhadores também
têm que se articular”, diz Artur
Santos. Nascido há 52 anos na
Pompeia, em São Paulo, Artur é
um líder de perfil discreto, como
aliás seus antecessores Jair Meneguelli, Vicente Paulo da Silva
(Vicentinho), João Felicio e Luiz
Marinho, e seu sucessor Vagner
Freitas de Moraes, atual presidente da CUT. Todos ainda parecem descansar sob a sombra
do líder fundador, Luiz Inácio
Lula da Silva.
Fora do Brasil há uma
curiosidade muito grande
sobre o relacionamento
do movimento sindical com
o presidente sindicalista
e sua sucessora. Artur costuma apresentar os números da
economia brasileira, “40 milhões
de pessoas saíram da miséria
absoluta; 97% dos trabalhadores tiveram acréscimo real de
renda; 16 milhões de empregos
foram criados; ascensão da classe C; nível mínimo histórico de
desemprego; fortalecimento do
mercado interno; enfrentamento
da crise de 2008...” Então costuma dizer que apesar disso tudo
a CUT manteve uma posição de
apoio crítico ao governo.
“Nos primeiros seis meses do governo Lula ficamos
confusos. Havia quem defendesse que a luta de classes tinha
acabado com a conquista do poder por um presidente operário”,
relembra Artur, “mas logo entendemos que aquele era um governo de aliança e, portanto, de
disputa, afinal o vice-presidente
era um grande empresário”. Era
e é um governo de disputa, com
grupos de interesses contraditórios. “Cabe ao movimento sindical pressionar o governo para
que ele cada vez mais atenda as
revindicações da classe trabalhadora. Nós temos independência e autonomia em relação aos
governos e partidos, não adianta querer cooptar ou influenciar
as decisões da CUT. Essa independência não quer dizer que
sejamos omissos em relação
às instâncias políticas. Quando
tem eleição para governador ou
presidente, por exemplo, a CUT
discute quem são os candidatos
e orienta suas filiadas a apoiar ou
não determinada candidatura.”
Artur divide a história da
maior central sindical brasileira
em três fases bem distintas. Os
anos 80 foi o período de afirmação em que, apesar do enfrentamento da ditadura, houve
crescimento. Foram se formando chapas de oposições nos
sindicatos, conquistando-os e
promovendo reformas democratizantes e ampliação da base.
Os anos 90 foram um “período
de resistência aos ataques aos
direitos dos trabalhadores pelas
políticas neoliberais e pela lógica de privatizações e terceirizações”. A terceira onda é a atual,
quando, “apesar de não se atender todas as reinvindicações
dos trabalhadores, há um espaço de negociação por meio do
qual foram incorporadas políticas sociais sugeridas por nós.”
Mas nem tudo são
flores. Maior central
sindical brasileira, a CUT,
que está completando 30
anos, detém hoje 38 % de
todos os trabalhadores
filiados a sindicatos ligados a alguma central
sindical. A Força Sindical tem
13%, a UGT, 7%. Depois vêm
outras centrais sindicais menores. Essa pulverização de sindicatos e centrais só aumenta. A
razão principal desse fenômeno
de cissiparidade é a dinheirama
do imposto sindical obrigatório,
além das diferenças ideológicas.
A CUT é contra o imposto sindical desde a sua fundação, em
1983. Mas o fato inegável é que
após 12 anos muito próximos
do Poder, ela não conseguiu
articular apoio para aprovar a
reforma sindical no Congresso.
“Continuamos defendendo
o fim do imposto sindical obrigatório”, diz Artur. “Houve um
processo de reconhecimento das
centrais sindicais e uma parte do
dinheiro veio para elas. Nesse
acordo um dos pontos era que
iríamos acabar com o imposto
sindical obrigatório e criar um
imposto sobre a negociação coletiva, seria um imposto aprovado
nas assembleias pelo próprio trabalhador.” Mas, segundo Artur,
as outras centrais sindicais não
fizeram nada para mudar isso.
Por se tratar de matéria constitucional, são necessários os votos
de dois terços dos deputados,
mas parece que ninguém quer se
comprometer. Pelo jeito, nem a
CUT nem o Governo Dilma.
Eduardo Rascov é jornalista e editor do
site do Memorial da América Latina.
35
Contribuição negocial,
que bicho é esse?
Projeto de lei do Ministério
do Trabalho que
substituiria demais
contribuições sindicais
está parado
há cinco anos
na Casa Civil.
Fotos: divulgação
Daniel Pereira
36
Parece um jogo de palavras, mas, por enquanto, contribuição negocial continua sendo
apenas um verbete sem (aparentemente) muita importância
na atual pauta de reivindicações
das centrais sindicais. O impasse criado tão logo o anteprojeto
de lei foi apresentado pelo Ministério do Trabalho atende pelo
nome de insegurança jurídica. É
o que diz, e ainda prevalece, cinco anos depois, o parecer jurídico do advogado Hélio Ghirardi,
do Diap. Ele é taxativo:
Se fosse tributo também
seria compulsória e, portanto,
não poderia ser recusada. Se a
contribuição negocial não está
na Constituição, não é tributo
nem compulsória. Assim tem
que ser determinada pelas categorias sindicais. E se cada
categoria pode decidir em assembleia o percentual que quiser, até zero por cento, ela vai
trazer exatamente essa questão,
a insegurança jurídica.
O anteprojeto do Ministério do Trabalho surgiu no
mesmo ano em que as centrais
foram reconhecidas como representantes legais das classes
trabalhadoras do país. De lá para
cá, o sindicalismo tupiniquim
ganhou musculatura suficiente
para promover manifestações de
peso como a recente Marcha a
Brasília. Um “sucesso retumbante” na opinião do consultor sindical João Guilherme Vargas Neto.
O comparecimento à
Marcha, com 60 mil trabalhadores, foi uma demonstração de força, unidade
e organização. Os dirigentes foram recebidos pelas
maiores autoridades do
Governo de maneira respeitosa e compreensiva.
Quando menos é mais – O
principal ponto de interrogação
do projeto continua sendo a indefinição do teto para a cobrança do
novo imposto, inicialmente estipulado em
1% do salário bruto
anual de sindicalizados ou não. A nova
fórmula parecia ser
muito mais interessante, mas não resiste
a uma prosaica operação aritmética. Tome-se como exemplo
o caso do trabalhador
que ganhe 2.000 reais/mês. Em março de
cada ano, o holerite dele chega
com desconto equivalente a um
dia de trabalho, que, nesse caso,
corresponde a 67 reais, ou 3,33%
do seu salário.
A nova mordida substituiria o pagamento das atuais
contribuições – sindical, assistencial e confederativa -, e representaria 1% do salário bruto
anual do trabalhador. Assim, se
o salário anual do mesmo trabalhador é de 24 mil reais ele contribuirá com 240 reais.
Segundo Ghirardi, se a
contribuição negocial for aprovada em assembleia vai criar
controvérsias e “propiciar uma
infinidade de ações no Ministério
Público do Trabalho que, infelizmente, ajuíza ações civis públicas
objetivando reduzir os valores
arrecadados pelos sindicatos, dificultando o trabalho sindical e a
própria representatividade efetiva
da respectiva categoria”.
Cenários e pegadinhas
– “O Brasil é, hoje, a vanguarda
do movimento sindical mundial.
Não temos mais o que aprender
com a General Motors”. O majestoso cenário verde-amarelo
assim descrito por Vargas Neto,
é resultante da conjunção de alguns fatores que mudaram a cara
das relações capital-trabalho no
país. Ele destaca os dois principais. “A valorização do salário
mínimo, graças à criação de uma
política permanente aprovada no
Congresso, foi a grande vitória
do sindicalismo brasileiro nesse
período. Hoje, o ganho real do
salário mínimo é de duas ve-
zes e meia maior em relação ao
crescimento do PIB. Outro: o
desemprego sempre foi o maior
adversário do sindicalismo. Hoje,
temos superávit de empregos.
E mais: fortalecido, o sindicalismo ajudou a manter aquecida a
economia interna do país na crise
mundial e esteve na linha de frente no combate aos juros altos”.
Nesse cenário, o ruído
produzido por uma informação
“antijornalística”, na opinião do
consultor sindical Vargas Neto,
quase tirou da gaveta o projeto
da contribuição negocial. Ao sancionar, no dia 15
de março, a lei que
regulamenta a profissão de comerciário, a presidente
Dilma
Roussef
vetou o artigo (ou
seria uma pegadinha?) que previa
a criação da nova
contribuição, agora mais turbinada:
se aprovada, tiraria
do empregado 1%
ao mês do seu salário “e não somente uma vez por ano”, como
reza o projeto original.
Quem (o Estadão) deu a
notícia fez mau jornalismo ao
generalizar um tema que dizia
respeito apenas àquela categoria.
Até porque, a questão (da contribuição negocial) ainda não está
claramente colocada para as centrais – diz Vargas Neto.
Daniel Pereira é jornalista e assessor de
imprensa do Memorial da América Latina.
37
Com a palavra,
as líderes operárias
As presidentes das
centrais sindicais
CUTe Força Sindical
comentam a atual
situação
das mulheres
brasileiras
operárias.
Sapato alto (1990), xilogravura de Rubem Grilo
Ana MARIA Cicaccio
38
“A luta das mulheres
por igualdade de direitos
no mundo do trabalho
vem de longa data, de bem
antes de termos esse tamanho todo no mercado”,
afirma Rosane Silva, Secretária Nacional da Mulher Trabalhadora da CUT. O problema é
que o projeto já discutido pelas
centrais sindicais, em Brasília,
que criaria mecanismos de promoção da igualdade no local de
trabalho, está difícil de entrar na
pauta do Congresso Nacional. “O
fato de prever algumas punições
a empresas parece ser o grande
empecilho, mas temos de vencer isso”, diz Maria Auxiliadora
dos Santos, Secretária Nacional
da Mulher da Força Sindical. As
mulheres são as primeiras a perder o emprego em momentos de
crise e o trabalho que realizam
continua sendo socialmente desvalorizado.
No 1º de Maio, as mulheres brasileiras costumam ampliar seu leque de reivindicações
para além do mundo do trabalho.
“Se olharmos para trás vemos o
quanto caminhamos: aumentou
o espaço das trabalhadoras no
mercado do trabalho, as mulheres estudam mais. Foram
criadas a Secretaria de Políticas
para Mulheres, a Delegacia da
Mulher, a PEC das Domésticas e
a Lei Maria da Penha”, enumera
Maria Auxiliadora. “No entanto,
ao examinarmos o presente verificamos que temos muito a realizar para desfrutarmos de um
futuro melhor.” Acompanhemos
o raciocínio da sindicalista:
“O rendimento médio real
por hora no mercado de trabalho
da Região Metropolitana de São
Paulo subiu mais para as mulheres do que para os homens
na passagem de 2011 para
2012, conforme levantamento
Máquina de escrever (1990), xilogravura de Rubem Grilo
No 1º de Maio, as bandeiras defendidas pelos trabalhadores (homens e mulheres)
em manifestações públicas pelo
Brasil têm caráter geral, sem
distinção de gênero. No entanto,
as centrais sindicais do país –
CUT e Força Sindical, entre elas
– decidiram levar, no caso da
mulher, a questão da igualdade no mundo do trabalho como
uma de suas principais bandeiras, junto com a luta pelo fim da
violência contra a mulher.
Hoje, apesar de maioria na
população brasileira (51,3%) e de
responder por 43,9% do mercado de trabalho no país, a mulher
ainda recebe 27,7% a menos do
que o homem, mesmo estudando
mais (61,2% delas têm ao menos
o ensino médio completo, contra
53,2% dos homens) e trabalhando mais horas semanais (57,1%
contra 34,8% dos trabalhadores),
segundo dados do IBGE.
39
tra a mulher no país”, acrescenta
Rosane. Mais de 92 mil mulheres foram assassinadas no país
entre 1980 e 2010, segundo o
Mapa da Violência publicado em
2012 pelo Centro de Estudos Latino-Americanos (Cebela) e pela
Faculdade Latino-Americana de
Ciências Sociais (Flacso), estando quase metade dessas mortes
concentradas na última década.
Em 2011, o Sistema de Informação de Agravos de Notificação
(Sinan), do Ministério da Saúde,
registrou 70.270 atendimentos a
mulheres vítimas de violência. A
maioria delas tinha entre 15 e 29
anos e foi agredida por maridos
ou namorados. No ano passado,
dez mulheres foram vítimas de
maus tratos a cada hora, segundo
dados da Central de Atendimento
à Mulher (Ligue 180).
As mulheres trabalhadoras estão cansadas
de serem depreciadas e
querem muito mais. Lutam
pela intensificação dos direitos
sexuais e reprodutivos para as
mulheres, pela legalização e
descriminalização do aborto,
implantação de creches públicas de qualidade e em período
integral por todas as cidades
brasileiras, igualdade de responsabilidades familiares para
homens e mulheres e ampliação
da participação das mulheres na
política brasileira.
Embora
tenhamos
uma presidenta no comando da República, a mulher
não tem ainda uma presença equitativa nos cargos de chefia no país, seja
na iniciativa privada seja
na administração pública, assim como na política de uma maneira geral.
“Houve um avanço, mas ainda
precisamos de muito mais”,
confirma Maria Auxiliadora. “Na
política foram estipulados 30%
de participação feminina. Ok, os
partidos estão abrindo para preencher esse percentual. No entanto, a mulher não tem, durante
a campanha, o mesmo tempo de
propaganda que é concedido ao
homem na TV e no rádio. Falta
Óculos com perfuradores (2000), xilogravura de Rubem Grilo
realizado pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) e pelo Departamento Intersindical de Estatística e
Estudos Socioeconômicos (Dieese). Para as mulheres, o valor
por hora ficou em R$ 8,24 em
2012, alta de 5,8% ao verificado em 2011. Já para os homens
passou a equivaler a R$ 10,70,
avanço de 5,2% na mesma base
de comparação. No entanto, a
pesquisa mostra que essa pequena diferenciação no ritmo de
crescimento dos rendimentos
do trabalho pouco impactou na
aproximação entre os rendimentos feminino e masculino:
em 2011, o rendimento médio
por hora das mulheres correspondia a 76,6% do recebido
pelos homens, proporção que
passou para 77% em 2012”, recorda Maria Auxiliadora.
“Na pauta do que a gente
considera uma agenda feminista brasileira, além de igualdade
salarial e de oportunidades no
mundo do trabalho, temos outros
temas, como o da violência con-
40
Foto: Roberto Rosa
equidade nas próprias centrais
sindicais. Existe a quota de 30%
nas diretorias para as mulheres,
que eu, como dirigente, sou contra, mas que é necessário manter até que aumente de fato o
número de mulheres nesses cargos. Em muitos sindicatos, além
disso, a mulher ocupa cargos na
diretoria, mas não os de decisão.
Isso também precisa mudar.”
Paralelamente às questões
trabalhistas, tanto Rosane como
Maria Auxiliadora respondem às
costumeiras críticas de homens
e de algumas mulheres ao feminismo com a maior tranquilidade. “O modelo socialista
feminista é um modelo de
igualdade entre homens
e mulheres. As pessoas têm
uma opinião errada sobre ele
por estarem sob a influência do
modelo capitalista patriarcal, que
oprime as mulheres”, explica Rosane. “Somos mulheres feministas, não sexistas”, sintetiza Maria
Auxiliadora. “Quando começou a
luta das mulheres foi a forma de
alguns segmentos levarem para o
lado sexista, de mulheres contra
homens. Mas a gente sabe que a
luta das mulheres só vai avançar
com a participação dos homens.
A luta é pela igualdade de gênero, buscando o homem para que
participe e engrosse essa luta,
porque ela é de todos.”.
Mulheres
pedreiras, em
canteiros de
obra, compõem
uma cena
recente na
construção civil
nas cidades
brasileiras.
41
Continente
do trabalho
O sociólogo Ricardo Antunes, autor
do livro O Continente do Labor,
fala da retomada do movimento
sindical da democratização
da América Latina.
REYNALDO DAMazIO
O sociológico Ricardo Antunes é um dos mais respeitados
especialistas sobre questões do
trabalho no Brasil e no exterior.
Tem obras traduzidas na Itália,
Espanha, Argentina, Colômbia e
Venezuela. Estudou o movimento operário e sindical no ABC
paulista nas greves históricas
de 1978/80 e hoje pesquisa as
transformações dos modos de
produção no mundo globalizado
e neoliberal, a partir da crítica
marxista. Nesta entrevista para
Nossa América Hoy, Antunes
traça um panorama do papel dos
42
movimentos operários na América Latina, analisa as novas relações de trabalho e defende uma
retomada do “sentido de pertencimento de classe”, temas de
seu livro O Continente do Labor
(editora Boitempo)
Nossa América Hoy – Em linhas
gerais, qual a contribuição histórica dos trabalhadores e do
movimento sindical para a democratização da América Latina?
Ricardo Antunes – Sua contribuição foi decisiva. Nosso Continente não teve, como nos países
clássicos, uma burguesia autônoma, nacional e progressista.
Ela nasceu como apêndice do
processo de acumulação capitalista no centro e foi sempre caudatária, dependente e, no melhor
dos casos, associada na condição de parceira menor. Assim,
todos os avanços sociais,
de talhe reformista ou
revolucionário,
encontram impulsão e suporte
nas forças sócias do trabalho que tipifica o que
denominei de “O continente do labor”. São exemplos: a
NAH – O que mudou nos modos
de produção e no papel social e
político da classe trabalhadora
de meados do século XX aos
dias de hoje?
RA – Ensaiamos um período
de reformismo “pelo alto” com
Vargas, Perón e Cardenas, por
exemplo, nos anos 1930, pautados por um desenvolvimentismo
nacionalista. Nestes exemplos,
as classes populares alternaram
suas ações entre a manipulação
e a resistência; entre sujeição e
revolta; dominação e rebelião.
Depois da Revolução Cubana –
e em reação a seu significado
explosivo – vieram os golpes e
o ciclo longo da “modernização
capitalista” pela via das ditaduras
militares: Brasil, Chile, Argentina,
Uruguai, a lista é infindável. A
classe trabalhadora, em sentido
amplo, por meio dos sindicatos,
partidos comunistas e socialistas, dos movimentos estudantis
etc., abraçou a luta pela democratização. Mas, nem bem esses movimentos ganhavam
densidade e veio a era da
desertificação neoliberal.
Chile, Argentina, México, Brasil;
o que denominei como era da
“desertificação neoliberal” desindustrializou nossos países,
desorganizou as forças sociais e
políticas do trabalho, privatizou
acentuadamente as atividades
públicas como educação, sanea-
mento, previdência e o tamanho
do atoleiro latino-americano hoje
é de grande monta.
NAH – Em suas pesquisas, você
sempre trabalha muito bem
com a dimensão da consciência de classe diante da situação
concreta dos modos de produção e dos embates políticos.
Nesse sentido, como avalia a
visão que os trabalhadores têm
hoje das transformações mate-
Relações de trabalho (1980), xilogravura de Rubem Grilo
Revolução Antiescravista no Haiti,
a Revolução Mexicana de 1910, a
Revolução Cubana de 1959, dentre as experiências de ruptura, e
os momentos reformistas como
os governos João Goulart, que
só ocorreram pela forte pressão
popular, no caso brasileiro, pelas
reformas de base presentes em
vários países da nossa América
Latina. Por conta disso, como
tanto nos ensinou Florestan Fernandes, nossas classes dominantes, escravistas, senhoriais,
foram sempre prevalentemente
contrarrevolucionárias, das quais
a sucessão quase infindável de
golpes militares é exemplar.
43
riais e simbólicas do trabalho
no contexto da globalização e
do neoliberalismo?
RA – Claro que o sistema de
classes ficou mais complexo, há
por vezes mais opacidade, mas
as classes sociais estão presentes tanto nos países capitalistas
avançados como no Brasil e tantos outros do Sul. E a Europa é
parte desse mundo polarizado
(e complexo) das forças sociais
do capital e do trabalho, hoje em
estado avançado de convulsão
(veja-se a Grécia, Espanha, Portugal, dentre outros, em que vão
e vêm as rebeliões, rebeldias e
descontentamentos). Tudo isso
recoloca um complexo problema para os nossos dias, que é
resgatar o “sentido de pertencimento de classe”, marcado
pela opacidade e pela nublagem.
Os partidos, por exemplo, estão bastante desgastados, para
dizer o mínimo, embora não se
tenha criado alternativas duradouras em outras direções. Os
movimentos políticos e sociais
extra-parlamentares e extrainstitucionais ganham força (indignados na Espanha, precari@s inflexíveis em Portugal, ocupe Wall
Stret, nos EUA, dentre tantos outros), que encontram ancoragem
na vida cotidiana, nas suas conexões com o mundo do trabalho
e da vida, mas têm dificuldades
em serem longevos e duradouros. Se a classe trabalhadora
hoje é mais complexa e heterogênea do que aquela que vigorou
durante o período de expansão
do fordismo, o resgate do “sentido de pertencimento de clas44
se”, contra as inúmeras fraturas,
objetivas e subjetivas, impostas
pelo capital, é um dos seus desafios mais prementes, é hoje
seu desafio mais decisivo. Com
a expansão do capital em escala
global e a nova forma assumida
pela divisão internacional do trabalho, as respostas do movimento dos trabalhadores latino-americanos assumem cada vez mais
um sentido universalizante. A
transnacionalização do capital e
do seu sistema produtivo obriga
ada tornam o quadro ainda mais
difícil e complexo. Mas, quem
achava que as lutas haviam desaparecido, está espantado com
a intensidade e amplitude das lutas sociais hoje, que acentuam as
transversalidades existentes entre
Aumento da produção (1981), xilogravura de Rubem Grilo
ainda mais a classe trabalhadora a
pensar nas formas internacionais
da sua ação, solidariedade e de
confrontação. E o neoliberalismo,
com sua individualização exacerbada, sua manipulação desmesurada e sua repressão acentu-
classe, gênero, geração, etnia etc.
Praticamente todos os países
latino-americanos industrializados implementam processos de
downsizing; flexibilização produtiva; desregulamentação da legislação social do trabalho, mesclando
aos novos processos produtivos
baseados na acumulação flexível,
ou no toyotismo, que se desenvolveu no capitalismo ocidental a
partir dos anos 1970 e, na América Latina, especialmente a partir
dos anos 1980. E o processo de
reestruturação articula a “superexploração da força de trabalho”,
com ramos produtivos dotados
de um significativo padrão tecnológico, intensificando as desregulamentações, flexibilizações,
terceirizações, em suma, aumentando a precarização da força de
trabalho. Essa combinação foi
fortemente ampliada nas últimas
três décadas, de que as maquiladoras no México e na América
Central são exemplares.
NAH – Qual a importância do
Brasil ter elegido um operário e
militante sindicalista para a presidência, na história recente da
América Latina, e quais os desdobramentos políticos e sociais
desta gestão?
RA – No plano simbólico, é grande. Como digo no livro O Continente do Labor, a vitória eleitoral
e política de Lula e do PT teve um
significado real e simbólico muito expressivo, pois que se tratou,
pela primeira vez na história do
Brasil, de uma candidatura de
origem operária. Mas sua política
acabou tendo sentido avesso ao
45
NAH – Outros movimentos sociais vêm surgindo no Brasil e
na América Latina, como o MST
e a onda de ocupações públicas
que trouxeram a debate questões estudantis e de gestão local. Como avalia a contribuição
desses movimentos para a crítica do sistema capitalista no
Continente?
RA – As lutas das populações
indígenas na América Latina contra a “mercadorização” de bens
como a água e os recursos energéticos são exemplos importantes das lutas sociais e políticas
do Continente hoje. Isso para não
falarmos das lutas urbanas, dos
novos proletários da indústria e
serviços, dos trabalhadores imigrantes que migram não só no
fluxo Sul-Norte, mas também no
fluxo Sul-Sul e mais recentemente Norte-Sul, vivenciando as agruras como padecem bolivianos
na indústria têxtil de São Paulo,
haitianos na agroindústria, entre
outros. No Brasil, a ação do MST
contra o agronegócio, os transgênicos e agrotóxicos, contra a propriedade fundiária, fez renascer
os embates dos trabalhadores do
campo, ampliando o seu significado. Por isso o MST tornou-se,
nos anos 1990, o principal impulsionador das lutas sociais recentes no Brasil. Como disse no
livro acima referido, ainda que o
MST encontre sua gênese no movimento de trabalhadores rurais,
o movimento incorporou trabalhadores urbanos que pretendiam
retornar para o campo, motivados
pelo desemprego industrial.
Canivete kit-refeição (2000), xilogravura de Rubem Grilo
que dele se poderia esperar: sua
política econômica foi generosa
para o capital financeiro; a concentração da terra se manteve
inalterada e de fato fortaleceu o
agronegócio; o sentido público e
social do Estado está sendo, passo a passo, desmantelado pelas
parcerias público/privadas, forma
“branda” das privatizações. Esta
nova realidade arrefeceu
o “novo sindicalismo” e
trouxe inúmeras dificuldades para as esquerdas.
Basta ver o que se passou com o
PT: do mais generoso partido de
esquerda do Ocidente desde os
anos 1980, converteu-se no que
Marx denominou como “Partido
da Ordem”. Gramsci, na mesma
direção, caracterizou processos
similares como “transformismo”.
46
Trabalhadores de todos os segmentos procuram atualizar-se com as publicações sindicais.
NAH – Em seu livro O Continente do Labor (Editora Boitempo,
2011), há um breve panorama
do sindicalismo na América Latina. O que há de inovador nesse
quadro e o que ainda traz elementos das velhas estruturas
sindicais que se consolidaram ao
longo do século passado?
RA – O primeiro é o esforço em
superar alguns desafios cruciais,
como romper a enorme barreira
social que separa os trabalhadores “estáveis” dos terceirizados,
precarizados, subproletarizados,
em significativa expansão. Os
sindicatos devem empenhar-se
fortemente na organização sindical destes trabalhadores, como
procurou fazer recentemente na
Argentina, a Central dos Traba-
lhadores Argentinos (CTA). Procurar compreender essa nova
morfologia do trabalho, o que implica em articular as dimensões
de classe, gênero, geracional e
étnica, como disse anteriormente. Como há um significativo
processo de feminização
da classe trabalhadora,
isso obriga os sindicatos
a ajudarem na auto-organização das mulheres trabalhadoras, frequentemente
excluídas dos sindicatos pelos
homens trabalhadores que prevaleciam na fábrica fordista. Os
sindicatos devem procurar desvencilhar-se de todas as formas
de corporativismo e neocorporativismo que privilegiam suas respectivas categorias profissionais,
diminuindo ou abandonando os
seus conteúdos mais acentuadamente classistas, não só dos
corporativismos de tipo estatal,
tão forte no Brasil, no México,
na Argentina, mas também de
um neocorporativismo societal
crescentemente assimilado pelo
sindicalismo
contemporâneo.
Algumas experiências do sindicalismo de base são também
exemplos importantes dessa imperiosa necessidade de retomar
a base social dos sindicatos e
romper com o burocratismo e o
institucionalismo exacerbados.
Reynaldo Damazio é sociólogo e
jornalista, autor de Horas perplexas,
entre outros livros.
47
E COMO ESTÁ
O OPERARIADO
HOJE?
Ruy Braga, autor do livro A política do precariado:
do populismo à hegemonia lulista,
comenta a estrutura sindical no Brasil.
Leonor Amarante
Nossa América Hoy – O sindicalismo brasileiro tem sido
mais um fator de mudança ou
de imobilismo? Onde está a rebeldia e a agressividade sindical
dos anos 70 e 80?
Ruy Braga – Para interpretarmos a dinâmica sindical em um
país com as características do
Brasil, é necessário levar em
consideração, ao menos, três
fatores:
• O modo de “reprodução do capitalismo tardo-periférico” que
se desenvolveu de maneira as48
sociada e dependente de investimentos forâneos oriundos do
mercado mundial e que por isso
mesmo tende a bloquear concessões materiais aos trabalhadores, perpetuando as condições
de produção do trabalho barato.
• A “estrutura sindical corporativa” que, em termos
práticos,
transformou
a maioria dos dirigentes
sindicais em funcionários
públicos de segunda categoria responsáveis por administrar e promover polí-
ticas assistencialistas.
• A marcante presença de um
amplo contingente de “trabalhadores informais, jovens,
desqualificados - ou semi-qualificados -, sub-remunerados,
inseridos em ocupações degradantes e submetidos a altas taxas de rotatividade do trabalho”.
Na medida em que a reprodução desse capitalismo
tardo-periférico promoveu a
“inquietação social” ao invés
do consentimento operário à
exploração econômica, os tra-
Pé e sapato (2009), xilogravura de Rubem Grilo
balhadores
mobilizaram-se
politicamente a fim de alcançar e efetivar a promessa dos
direitos da cidadania, a “utopia
brasileira”, para usarmos uma
expressão de Adalberto Cardoso, ocupando terras urbanas e
rurais, participando de greves
consideradas “ilegais” pelo Estado, enfrentando a polícia e,
naturalmente, pressionando o
movimento sindical oficial a incorporar suas demandas.
Essa dinâmica que reproduz a tutela do Estado sobre os
sindicatos em condições capitalistas tardias transformou o
sindicalismo brasileiro em, para
empregarmos uma conhecida
expressão de José Albertino
Rodrigues, um fator de mudança e de imobilismo. Em suma,
um movimento sindical pressionado por bases submetidas a
baixíssimos salários, péssimas
condições de trabalho e pouca proteção social, é obrigado
a negociar com as empresas
e com o governo pequenas
concessões materiais a fim de
responder à pressão social que
vem “de baixo”. Ao mesmo tempo, ele é incapaz de ultrapassar
os limites da estrutura sindical,
pois, basicamente, depende
dela para sobreviver e, assim,
age permanentemente como
um agente de moderação das
demandas dos trabalhadores.
O ciclo grevista de
1978-1980 no ABC paulista
pareceu romper com esse
padrão. Afinal, as lideranças políticas do “novo sindica-
lismo”, tendo Lula da Silva à
frente, foram presas pela ditadura militar e o Sindicato dos
Metalúrgicos de São Bernardo
passou por uma intervenção
do regime. Em termos globais,
podemos dizer que houve uma
descontinuidade da relação da
estrutura sindical com o movimento dos trabalhadores. No
entanto, é preciso levar em consideração que essa descontinuidade foi efêmera e logo a burocracia sindical de São Bernardo
reconciliou-se com a estrutura,
isto é, com o aparelho de Estado
brasileiro do qual é o produto.
Olhando retrospectivamente, a rebeldia do final dos anos
1970, era menos da burocracia
sindical – que, digamos claramente, nunca desejou promover
49
e liderar greves –, mas das bases
metalúrgicas, sobretudo, aquele grupo formado pelos setores
mais dominados e explorados
das fábricas, isto é, os “peões”.
Procuramos analisar a formação,
a transformação e a precipitação
da insatisfação operária com os
salários e as condições de trabalho no ABC no livro A política
do precariado: do populismo à
hegemonia lulista. E a conclusão
é uma só: os peões do ABC explicam a liderança de Lula, mas Lula
não explica a rebeldia e o ativismo
dos peões do ABC.
Guardadas as diferenças,
e estas são realmente grandes,
hoje em dia um movimento
grevista mais agressivo, cujas
características globais assemelham-se àquelas encontradas
no ABC no final dos anos 1970,
começa a se insinuar no recente
ciclo grevista das grandes obras
do PAC: Jirau, Santo Antônio,
Belo Monte, Suape, Comperj etc.
NAH – Como a classe operária
brasileira consegue fazer um de
seus representantes presidente
da nação?
RB – Durante muito tempo, Lula
da Silva encarnou a pulsão plebeia reformista alimentada por
um movimento social florescente
que buscou institucionalizar direitos da cidadania e cuja origem
social pode ser bem localizada
naquilo que Antonio Gramsci
chamou de “bom senso” popular. Ele alinhou-se a esse instinto de classe, orientando-se por
essa pulsão plebeia que deita
raízes profundas na forma como
50
as relações de produção capitalistas reproduzem-se no Brasil.
É isso que eu chamo de “política
do precariado”. Daí sua popularidade, como liderança sindical e
como político profissional.
Após a transformação do PT em uma máquina
eleitoral, a vitória eleitoral de 2002 cristalizou
essa imagem em um presidente que teve a fortuna
de pilotar o Estado brasileiro durante um ciclo
econômico expansivo muito favorável. O crescimento
econômico e o fortalecimento
de políticas públicas distributivistas somaram-se, finalmente,
à fusão da alta burocracia sindical com o aparelho de Estado,
consolidando aquilo que chamo
de “hegemonia lulista”, isto é,
uma relação social entre o consentimento passivo dos setores
populares com o consentimento
ativo das direções sindicais.
Parece-me que o sucesso
internacional dos governos de
Lula da Silva deve-se, sobretudo, à combinação do momento
econômico favorável com a consolidação de, para utilizarmos
a expressão popularizada pelo
cientista político André Singer,
um “reformismo fraco”. Ou seja,
a combinação de crescimento
econômico com desconcentração
de renda entre aqueles que vivem
do trabalho tornou-se muito sedutora. Em especial, levando-se
em consideração o atual contexto
econômico internacional no qual
predomina uma forte tendência
de aumento das desigualdades.
NAH – Com a descentralização
das indústrias e a migração
constante de trabalhadores houve um esmorecimento do movimento sindical?
RB – Evidentemente, os anos
1990 foram muito difíceis para
o movimento sindical brasileiro,
em especial, se pensarmos na
Foto: Folhapress/Reuters
Basta comparar a definição de salário mínimo
presente na Constituição de 1988 com o valor
do salário mínimo nacional para termos
uma rápida noção da distância
existente entre a intenção e a realidade.
51
Fotos: divulgação
conjuntura econômica marcada
pelo desemprego de massas. As
empresas promoveram um acelerado ciclo de reestruturação
produtiva que terceirizou, flexibilizou e precarizou o trabalho.
Dois efeitos sobre o movimento
sindical são mais salientes: recuo nas taxas de sindicalização
e desmanche do militantismo
de base em favor de um pragmatismo de cúpulas sindicais.
Progressivamente, o movimento sindical foi abandonando a
organização de suas bases nos
locais de trabalho em favor de
um projeto político orientado
pela eleição de seus dirigentes a
cargos políticos.
A eleição de Lula da Silva
em 2002 coroou esse movimento que amadureceu nos anos
1990. A tese muito comentada,
mas nunca totalmente explicitada pelos sindicalistas, foi a de
que somente com a conquista do
governo federal o movimento iria
readquirir sua força para enfrentar as empresas em benefício dos
trabalhadores. No entanto, esses
dirigentes foram absorvidos pelo
aparelho de Estado e pelos fundos de pensão, transformandose em verdadeiros administradores do investimento capitalista no
país. Ou seja, eles não representam mais os interesses históricos
dos trabalhadores, mas, sim, os
interesses particulares de uma
burocracia sindical que rapidamente transforma-se em uma
burguesia de Estado.
Leonor Amarante é curadora e editora da
revista Nossa América Hoy.
52
Chefe, operariado
Fotos: divulgação
e futebol
Villa x Atlético, 1912
“Quem negará ao futebol esse condão da catarse
circense com que os velhos sabidos de Roma
lambuzavam o pão triste das massas? Não
podendo xingar o patrão que o rouba, o operário
xinga os juízes da partida e procura espancá-los,
como se o bandeirinha mais próximo fosse o
procurador da prepotência do árbitro”.
Oswald de Andrade
53
O football foi introduzido no Brasil pelos
ingleses, no final do século 19 e foi adotado
pelas escolas americanas e inglesas no
País, como o Mackenzie College, e no Clube
Paulistano, ambos em São Paulo, e no Rio
Cricket como disciplina de educação física. Até
os anos 20 era praticado por uma elite que não
permitia a entrada de jogadores negros e pobres.
E o operariado estava longe dos estádios.
54
Fotos: divulgação
Ao lado,
times do Botafogo
de Futebol e Regatas
em 1910, e do Sport
Club Corinthians
em 1914.
1°
de Maio refletiu na
na cultura mundial
Cinema, teatro, literatura, artes
plásticas e música produziram obras
memoráveis ao longo dos tempos.
Pinçamos algumas delas.
TÂNIA RABELLO
CINEMA
A classe operária
vai ao paraíso
O filme retrata a luta entre capital e trabalho por meio da
vida de Lulu Massa, um operário vivido pelo ator Gian Maria
Volonté. Lulu Massa trabalha
duro para conseguir um bônus,
garantido pelo sistema de cotas institucionalizado pela fábrica, que intensifica a produção e a exploração da mão de obra. A atitude de Lulu Massa, que se
transforma num “operário-padrão”, desperta, porém, a antipatia dos colegas. No entanto, após perder
um dedo num acidente de trabalho, Lulu Massa revê seus conceitos, adotando uma atitude crítica
ao modelo de exploração e contestando o modelo de cotas, que inclui aí uma greve dos operários.
55
Fotos: divulgação
Diretor: Elio Petri
País de origem: Itália
Ano: 1971
A luta do povo
Fotos: divulgação
Diretor:
Renato Tapajós
País de origem: Brasil
Ano: 1981
Partindo do enterro do operário Santo Dias, assassinado pela polícia num piquete de greve, um casal de
moradores da periferia de São Paulo participa de diversos movimentos: luta contra a carestia, movimento
de favelas, movimento da saúde. Documentário sobre as diversas lutas dos movimentos populares em
São Paulo, no período 1978 - 1980, produzido pela Associação Popular de Saúde. Prêmio Glauber Rocha
de Melhor Filme na Jornada Brasileira de Curta Metragem, Salvador, Bahia.
Norma Rae
Fotos: divulgação
Diretor: Martin Ritt
País de origem:
Estados Unidos
Ano: 1979
Em 1978, em uma cidade
do Alabama, no Sul dos Estados Unidos, a maioria da população é ocupada em uma indústria têxtil,
com péssimas condições de trabalho e sem sindicato formado para defender seus interesses. A história dos operários começa a mudar quando o sindicalista Reuben Warshowsky (Ron Leibman) chega à
cidade, torna-se amigo de Norma Rae (Sally Field) e começa a influenciá-la para que se engaje na luta
sindical, apesar de todos os riscos envolvidos.
56
Tempos modernos
O “Vagabundo”, famoso personagem de Charles Chaplin, tenta sobreviver em meio ao mundo moderno e
industrializado. Trata-se uma forte crítica ao capitalismo e ao conservadorismo norte-americano. No filme,
Chaplin tenta passar o momento histórico da máquina
tomando o lugar do homem e a ascensão do consumismo.Tempos modernos retrata um trabalhador de
fábrica que tem um colapso nervoso por trabalhar de forma repetitiva e quase escrava. O filme foi
censurado na Alemanha e na Itália por suas críticas à social-democracia.
Fotos: divulgação
Diretor:
Charles Chaplin
País de origem: EUA
Ano: 1936
ABC da Greve
Iniciado em 1979/1980 por Leon Hirszman e concluído em 1990 pela Cinemateca Brasileira, o diretor filmou no ABC paulista durante os anos de 1979 e 1980
as greves do Sindicato dos Metalúrgicos, comandado pelo então metalúrgico e
agora ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva. ABC da Greve documenta a classe operária em confronto com os empresários e o regime militar que
vigorava no Brasil na época.
Santo e Jesus, metalúrgicos
Diretores:
Claudio Kahns e Antonio Paulo Ferraz
País de origem: Brasil
Ano: 1978-1983
Fotos: divulgação
Fotos: divulgação
Diretor:
Leon Hirszman
País de origem: Brasil
Ano: 1990
“O assassinato de um operário, Nelson Pereira de Jesus, ocorrido em São Paulo em 1978, provoca
uma investigação sobre os motivos e as condições de trabalho numa fábrica do bairro do Brás. Santo
Dias, líder operário que tabalha no mesmo local narra os fatos que envolvem a morte de Nelson e dá
sua visão política sobre a situação dos trabalhadores do Sindicato dos Metalúrgicos e outras questões.
Em 1979 Santo Dias também é morto em um piquete por um soldado da Polícia Militar.”
57
Braços cruzados, máquinas paradas
Fotos: divulgação
Diretor: Roberto Gerwitz e Sergio Toledo
País de origem: Brasil
Ano: 1978
Três chapas disputam a direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, o maior da América
Latina, com 300.000 associados, e presidido por um “pelego”, desde o golpe militar de 1964.
Em meio às eleições, eclodem as primeiras greves operárias que iriam mudar o país. “Braços
Cruzados, Máquinas Paradas” revela, em narrativa envolvente, como funciona a estrutura sindical
brasileira, de inspiração fascista. É também o primeiro documentário de longa-metragem sobre
as chamadas “greves espontâneas”, ocorridas em São Paulo, 10 anos após a decretação do AI-5.
Tais greves, que culminaram em um amplo movimento social que traria de volta a democracia ao
país, estão na base dos acontecimentos que levaram à eleição do primeiro presidente operário da
América Latina.
Greve!
Fotos: divulgação
Diretor: João Batista de
Andrade
País de origem: Brasil
Ano: 1979
Documento histórico e crítico
de João Batista de Andrade,
narra os principais acontecimentos da greve dos metalúrgicos do ABC paulista, em
março de 1979, contextualizando os acontecimentos com o momento político brasileiro. Naqueles dias o sindicato esteve
sob intervenção, e Luiz Inácio Lula da Silva (que mais tarde viria a se tornar presidente do Brasil)
e outros dirigentes haviam sido afastados. Entrevistas com o interventor do sindicato, com operários, cenas de seu cotidiano e das assembleias.
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ARTES PLÁSTICAS
Operários e Segunda Classe
Tarsila do Amaral
Ano: 1933
Tarsila do Amaral, de volta de uma viagem à União Soviética, após ser presa em consequência de seu
interesse pelo socialismo, inicia uma fase de teor social, representado nesta obra de 1933. Além de
ter estado na União Soviética, no Brasil, a pintora brasileira participava de reuniões do Partido Comunista Brasileiro. Assim, tanto a política quanto a temática do trabalho fizeram parte de ambas as
obras. No início dos anos 1930, o Brasil passava por intensa industrialização, migração de trabalhadores e consolidação do capitalismo industrial, além de uma classe de trabalhadores marginalizada
e explorada. É isso o que retrata o quadro – operários sérios, extenuados, sem um sorriso sequer.
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O livro dos abraços
LITERATURA
Autor: Eduardo Galeano
Editora: L&PM
Neste livro, que é resultado das andanças pelo mundo do autor uruguaio – célebre pelo livro As
veias abertas da América Latina –e seu olhar sobre a vida e a construção das cidades, há um
capítulo em que o autor está em Chicago, EUA. E questiona, no artigo intitulado “O 1º de Maio nos
Estados Unidos”, a total indiferença dos norte-americanos em relação à data, justamente no país
que motivou a comemoração. Escreve Galeano, após constatar que seus amigos norte-americanos
não sabem mostrar o local onde foram enforcados, em 1886, os operários que o mundo inteiro
saúda a cada Primeiro de Maio. “Não foi erguida nenhuma estátua em memória dos mártires de
Chicago nem na cidade de Chicago. Nem estátua, nem monolito, nem placa de bronze, nem nada”,
indigna-se Galeano, que continua: “O primeiro de maio é o único dia verdadeiramente universal da
humanidade inteira, o único dia no qual coincidem todas as histórias e todas as geografias, todas
as línguas e as religiões e as culturas do mundo; mas nos Estados Unidos o Primeiro de Maio é
um dia como qualquer outro. Nesse dia, as pessoas trabalham normalmente, e ninguém, ou quase
ninguém, recorda que os direitos da classe operária não brotaram do vento, ou da mão de Deus
ou do amo.”
Primeiro de maio
Organizadora: Marisa Lajolo
Editora: Imprensa Oficial do Estado
Este livro reúne textos e poesias de vários autores sobre o Primeiro de Maio, incluindo aí um texto do
modernista Mário de Andrade. Além dele, Lourenço Diaféria, Carlos Vogt, Monteiro Lobato – no qual a
organizadora é especialista –, Nilza Amaral, Olavo Bilac e Oliveira Silveira. No site da Imprensa Oficial
do Estado, a resenha do livro comenta: “Nada mais justo, portanto, do que celebrar o Dia do Trabalho,
compartilhando o trabalho de alguns trabalhadores com outros trabalhadores: os que escreveram os
textos deste livro, os que fizeram e cortaram o papel que compõe suas folhas, os que operaram as
máquinas que o multiplicaram e muitos outros mais”.
Contos novos
Autor: Mário de Andrade
Neste livro, um conto, “Primeiro de Maio”, conta a história de “35”, um operário se preparando para
a data. Eis um trecho do conto: ” Uma indecisão indiscreta o tornou consciente de novo que era o Primeiro de Maio, ele estava celebrando e não tinha o que fazer. Bom, primeiro decidiu ir na cidade pra
assuntar alguma coisa. Mas podia seguir por aquela direção mesmo, era uma volta, mas assim passava
na Estação da Luz dar um bom-dia festivo aos companheiros trabalhadores. Chegou lá, gesticulou o
bom-dia festivo, mas não gostou porque os outros riram dele, bestas.
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Fotos: divulgação
MÚSICA
Gonzaguinha, João e Elis Regina no show em 1º de maio de 1979,
em São Bernardo do Campo
Músicas inspiradas no 1º de maio
Construção – Chico Buarque (1971)
Pedro Pedreiro – Chico Buarque (2000)
Fábrica – Renato Russo (1986)
Operário Vida Viola – Chico Rey e Paraná
(1983)
Cidadão – Lucio Barbosa (1992)
Admirável Gado Novo – Zé Ramalho (1979)
Primeiro de maio – Milton Nascimento e
Chico Buarque (1977)
Linha De Montagem – Chico Buarque (1980)
A Vida De Operário – Teixeirinha (1991)
Classe Operária – Tom Zé (2003)
Subúrbio Operário – Mau (1997)
Vida De Operário – Bezerra Da Silva (1988)
Vida De Operário – Falcão e Ex (1990)
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América Latina
em São Paulo
A cada edição a revista Nossa América
Hoy foca um país da região.
Abrimos a série com o México.
simone Lozano
Coma México
Beba México
Monte seu roteiro para experimentar ou saborear a rica comida que vem do México, com
dois dos mais conceituados
restaurantes especializados
da capital paulistana.
Existem diversas opções de
bares para se saborear tequila
e outras bebidas mexicanas,
além de petiscos saborosos de
sua culinária
Habañero
62
Obá
Embora seja um restaurante
de comida caseira dos quatro
cantos do mundo, como seus
donos se definem, a cozinha
mexicana é o seu forte. O
cardápio foi inspirado nas experiências dos sócios e do Chef
Henrique Benedetti em diversos
países. Surpreende ao harmonizar o tempero original de pratos
clássicos do México, do Brasil,
da Itália e da Tailândia.
Serviço: Endereço: Rua Melo
Alves nº 205
Jardins – Zona Sul
Teléfone: 3086-4774
Fotos: divulgação
O nome do restaurante vem da pimenta Habañero, de origem cubana. Foi fundado em fevereiro de
2007, em Santana. Seu foco é a
baixa gastronomia das Américas,
com ênfase na culinária mexicana.
Por ser temático se diferencia dos
demais – atendimento descontraído, comida típica etc. Seu
chef, Reginaldo Bernardino Lima,
trabalhou por 22 Anos no Hotel
Ca’d’Oro e tem conhecimentos
em cozinhas internacionais. Entre
os pratos principais, ele sugere
fajitas e quesadillas. Serviço: Rua
Alfredo Pujol, 1765 ( Esquina com
Rua Maria Curupaiti)
Fone: 2950-8219 / 3586-0973
Bar SíSeñor– Higienópolis
Visite México
Vá ao Museu Nacional
de Antropologia
Peppers Bar
Tem vários ambientes, inclusive área ao ar livre. As paredes
são coloridas e decoradas com
objetos trazidos de viagens
ao México. Para petiscar, os
tradicionais tacos acompanhados de molhos especiais. Além
de cervejas mexicanas, também
oferece drinks diferentes, como
uma releitura de Margarita com
licor de diversos sabores.
Serviço:
Rua Domingos de Moraes,
2330
Vila Mariana
Tel: (11) 5573-4733
Um dos lugares mais fascinantes da capital mexicana, espaço
emociona seus visitantes pelo
modo como trata o passado das
civilizações pré-colombianas
Quem vai ao México precisa
conhecer o Museu Nacional de
Antropologia, um monumental
espaço construído para resgatar objetos e a história das
populações que ali viveram
antes da chegada de Cristóvão
Colombo. O museu é considerado o maior da América
Latina e um dos mais visitados
do planeta. São quatro edifícios instalados no Bosque de
Chapultepec. Recomenda-se
seguir o roteiro de acordo com
a disposição dos prédios e das
salas. Assim, aprende-se, nas
primeiras salas, uma intensa e
interessante viagem ao tempo. É tão detalhado que se vê,
a princípio, os mamutes que
conviviam com os ancestrais
latino-americanos. Seguem-se
objetos de antigas civilizações
e informações sobre a ocupação populacional da região, as
primeiras cidades etc.
Serviço:
Avenida Paseo de la Reforma
com rua Gandhi, s/nº, do Bosque de Chapultepec, De terça a
domingo, das 9h às 19h.
www.mna.inah.gob.mx.
Confira também o
Museu Frida Kahlo
O Museu Frida Kahlo, também
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Fotos: divulgação
Destaques para os tacos, “quesadillas”, “burritos” e outros
clássicos da culinária mexicana,
além de lanches e porções com
um toque “tex-mex”. A casa tem
decoração rústica e clima de bar
no jantar. As “fajitas” aparecem
em quatro versões, como a de
filé-mignon.
Serviço: Endereço: Rua Armando Penteado, 18 - Higienópolis
-São Paulo - SP
Telefone: (11) 3476 2538
Site: http://www.sisenor.com.br/
conhecido como a Casa Azul,
localiza-se na rua Londres, 247,
bairro de Coyocán, Cidade do
México. Trata-se da antiga residência da famosa pintora mexicana, sendo a casa onde ela
nasceu, em 1907, viveu grande
parte de sua vida e morreu, em
1954. A Casa Azul foi construída em 1904, três anos antes
do nascimento da pintora e foi
convertida em museu em 1958,
quatro anos após a morte da
artista e, naturalmente, em sua
homenagem. O museu possui
fotografias, antigos pertences,
móveis etc. de Frida e de seu
marido, Diego de Rivera (também pintor), com quem teve
um conturbado casamento.
Ademais, o Museu Frida Kahlo
é decorado com arte popular
mexicana e reúne algumas
obras do casal de pintores,
sobretudo quadros de Frida.
México na tela
Três grandes filmes contam a
história mexicana ou de seus
ricos personagens e servem
como forma divertida de aprender mais sobre aquele país.
Frida (2002)
Frida Kahlo (Salma Hayek) foi
um dos principais nomes da
história artística do México.
Conceituada e aclamada como
pintora, teve também um casamento aberto com Diego Rivera
(Alfred Molina), seu compa64
nheiro também nas artes, e ainda um controverso caso com o
político Leon Trostky (Geoffrey
Rush) e com várias outras
mulheres. Dirigido por Julie
Taymor. Elenco: Salma Hayek,
Alfred Molina, Diego Luna.
Gênero: Drama. Nacionalidade:
Canadá/México/ EUA
Pancho Vila (2003)
Janeiro, 1914, Forte Lee, Nova
Jersey, capital mundial do
cinema. O diretor D.W. Griffith
(Colm Feore) fica sabendo que o
revolucionário mexicano Pancho
Villa (Antonio Banderas) está
oferecendo os direitos exclusivos
ao estúdio de cinema que tiver
interesse em filmar seu exército
revolucionário em ação contra
as forças federais do despótico
presidente do México, Victoriano
Huerta (José Concepción Macías). Dirigido por Bruce Beresford. Com Antonio Banderas,
Eion Bailey, Alan Arkin. Gênero:
Aventura. Nacionalidade: EUA.
Leia México
O búfalo da noite
De Guilhermo Arriaga
Editora Griphus
Conta a história de um triângulo
amoroso, à beira da loucura, da
morte, da destruição. Gregório,
um adolescente extremamente
sensível, para quem a realidade é algo insuportável, decide
acabar com sua vida, e desencadeia o desespero e a angústia
nas vidas de Tânia, sua ex-noiva
e de Manuel, seu melhor amigo
- marcados pelos sentimentos
de culpa e traição. A Cidade do
México é o cenário onde estes personagens buscam uns
aos outros para sobreviver ao
desespero que os invade. O fantasma de Gregório os empurra
para o abismo, a desafiar todas
as convenções sem temer pagar
o preço por fazê-lo.
Amores brutos (2000)
Marco do cinema mexicano, o
filme entrelaça, em um acidente de carro, várias histórias
pessoais: Octavio, o dono de
um cão de rinha, que sonha em
fugir com a cunhada Susana;
Daniel que abandona a esposa
para viver com a modelo Valeria Maya e um mendigo, Chivo,
que busca voltar à família.
Direção de Alejandro González
Inárritu. Com Gael García Bernal, Dagoberto Gama. Gênero:
drama. País de origem: México.
Informações consulares
Consulado Geral do México
em São Paulo, SP
Rua Holanda, 274, Jardim Europa.
Cep: 01446-030
Telefone: (0xx11) 3576-5400
Fax: (0xx11) 3576-5408
[email protected]
http://portal.sre.gob.mx/saopaulo/
Simone Lozano é publicitária e chefe da
Divisão de Estratégias de Marketing do
Memorial da América Latina.
Dia do Trabalho
tema da programação
do Memorial
Cena do
filme A Nós a
Liberdade,
de René Clair,
1931.
Fotos: divulgação
Para comemorar o dia 1º
de Maio e prestar sua homenagem à classe trabalhadora,
o Memorial da América Latina
elaborou uma programação especial para este mês. Cinema,
teatro, artes plásticas, cada uma
dessas linguagens artísticas
abordarão o tema, que, no passado, despertou movimentos
acalorados no mundo, particularmente na América Latina. Até
26 de maio, por exemplo, a Galeria Marta Traba apresentará uma exposição iconográfica da luta dos trabalhadores no
Brasil, contando por meio de
textos, poesias e fotos os fatos
mais marcantes da história do
dia 1º de Maio e das mobilizações operárias. Organizada em
parceria com a Imãfotogaleria,
paralelamente, a mostra expõe
obras de fotógrafos como o
carioca José Roberto Ripper,
cujo olhar se notabilizou por
captar cenas de desrespeito aos
direitos humanos. Do cinema,
entram em cartaz alguns expoentes da produção nacional e
internacional, como o emblemático e premiado La Hora de
los Hornos, dos argentinos Fernando Solanas e
Octavio Getino, de 1968, que
estreou oficialmente em 1973
por conta do cenário político e
documenta o neocolonialismo
e a violência no país durante a
ditadura militar do general Juan
Carlos Onganía Carballo. Caso
também de A Classe Operária Vai ao Paraíso, produção de 1971, de Elio Petri,
Itália, em que um operário
“padrão”, depois de um acidente na fábrica, passa a confrontar o rígido sistema de metas
adotado pela corporação. E de
outro importante título da cinematografia, o francês A Nós a
Liberdade, de René Clair,
1931, sobre a história de dois
amigos, presidiários, que conseguem fugir, um se torna dono
de uma linha de montagem, o
outro operário, e ambos decidem-se pela liberdade absoluta num desfecho inusitado. Da
área teatral, chega ao palco do
Auditório Simón Bolívar, entre
outras peças, um dos ícones
da dramaturgia dos anos 1950
no Brasil, Eles Não Usam
Black Tie, que Gianfrancesco Guarnieri escreveu
em 1958 para o Teatro de
Arena, uma reflexão sobre as
difíceis condições da vida operária, e que traça um panorama
acurado do abismo social que
marcou a sociedade brasileira.
(Para conferir a programação
completa, dias e horários das
sessões, consulte o folder e o
site do Memorial ).
65
I m a g em d a e d i ç ã o
Foto de Pedro Martinelli
registrada em 1º de maio de
1971, no jogo entre
Palmeiras e Guarani,
no campo do Palmeiras
66
Nossa América hoy
On
Line
a nova revista do novo Memorial
leia
www.memorial.org.br
67
Download

1º de maio, marco zero do trabalhismo