FORMAÇÃO INICIAL, HISTÓRIA E CULTURA AFRICANA E AFROBRASILEIRA: DESAFIOS E PERSPECTIVAS NA IMPLEMENTAÇÃO DA LEI FEDERAL 10.639/2003 Guimes Rodrigues Filho Cristiane Coppe de Oliveira João Gabriel do Nascimento Organizadores UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA REITOR ALFREDO JÚLIO FERNDANDES NETO VICE REITOR DARIZON ALVES DE ANDRADE PRÓ REITOR DE GRADUAÇÃO WALDENOR BARROS MORAES FILHO COORDENADOR DO NÚCLEO DE ESTUDOS AFRO BRASILEIROS GUIMES RODRIGUES FILHO INSTITUTO DE QUÍMICA MANUEL GONZALO HERNANDEZ TERRONES (IN MEMORIAN) Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Formação inicial, história e cultura africana e afrobrasileira: desafios e perspectivas na implementação da Lei federal 10.639/2003 / Guimes Rodrigues Filho, Cristiane Coppe de Oliveira, João Gabriel do Nascimento, organizadores. -- 1. ed. -Uberlândia, MG: Editora Gráfica Lops, 2012. Vários autores. Bibliografia. ISBN 978-85-62212-09-3 1. África - Civilização 2. África – História 3. Africanos - Brasil 4. Cultura - África 5. Cultura afrobrasileira 6. Lei 10.639/03 7. Universidade Federal de Uberlândia (MG) I. Rodrigues Filho, Guimes. II. Oliveira, Cristiane Coppe de. III. Nascimento, João Gabriel do. 12-10066 CDD-306.0899608107 Índices para catálogo sistemático: 1. Cultura afro-brasileira: Sociologia: Estudo e ensino 306.0899608107 Os autores são responsáveis pelas informações (gráficos, imagens, etc.) contidas nos artigos. SUMÁRIO APRESENTAÇÃO................................................................................................................... 01 PARTE I – LUIZA MAHIN Lorena Silva Oliveira e Maria Socorro Ramos Militão – A Lei 10.639/2003 e a Formação Política em Sentido Gramsciano ............................................................................ 03 Pollyanna Fabrini e Marcelo Lapuente Mahl – A Herança das Teorias Racialistas e o Desempenho da Educação em Promoção da Igualdade Étnico-Racial................................... 20 Nádia Carrasco Pagnossi e Regina Ilka Vasconcelos – Novas Abordagens no Ensino da Revolução Francesa: Inserção das temáticas de racismo e gênero por meio da obra de Olympe de Gouges.................................................................................................................... 32 João Gabriel do Nascimento e João Marcos Alem – O Pensamento Branco de João Batista Lacerda e suas Consequências: Brasil 1911-2011 ...................................................... 43 PARTE II – AUTA DE SOUZA Sálua Francinele Ribeiro e Daniela Magalhães da Silveira – História e Crônica em Machado de Assis ..................................................................................................................... 55 Felipe Silva Pasqua e Maria Lúcia Vannuchi – Mulheres Escravizadas na Obra CasaGrande e Senzala: Ressignificações culturais como estratégias de resistência ...................... 66 Andressa Oliveira Costa e Florisvaldo Paulo Ribeiro Júnior – O Rap como Instrumento contra a Exclusão Social: Os Racionais MC’s............................... ......................................... 78 Everton Rafael Ferreira e Maria Elizabeth Ribeiro Carneiro – Machado de Assis e o tema da escravidão no Brasil............. ...................................................................................... 86 PARTE III – BENJAMIM DE OLIVEIRA Mônica Martins Naves e Florisvaldo Paulo Ribeiro Júnior – Representações do Racismo na Escola: Uma análise o seriado “Todo Mundo Odeia o Chris”........................................ 100 Leonardo Silva Oliveira e Cairo Mohamad Ibrahim Katrib – A Imagem do Negro na Mídia Brasileira: Descortinando olhares .............................................................................. 112 Gabrielle Carolina Silva e Adriana Cristina Omena dos Santos – A Representação Midiática dos “Piratas” da Somália pela Revista Veja......................................................... 123 Ludma Lillyan Vieira Ramos e Guimes Rodrigues Filho – Mídia e Preconceito em Propagandas: Um panorama sobre a propagação de estereótipos e discriminação contra negros (as) pelos meios de comunicação.................................................................... 132 Raoni Oscar Nery e Maria Elizabeth Ribeiro Carneiro – O “NEGRO” NA MÍDIA TELEVISIVA: Uma análise da representação do negro no mundo da televisão..................................................... ............................................................................. 143 Juliana Cristina da Silveira e Mara Lucia Leal – Inter-Relações de Intervenções Artísticas no Ambiente Escolar em Consonância com a Lei 10.639/03................................. 156 PARTE IV – LUIZ GAMA Renato Augusto de Assis Silva e Marili Peres Junqueira – Cotas: Entre a desigualdade social e a desigualdade racial ................................................................................................ 175 Elaine Costa Oliveira e Luciane Ribeiro Dias Gonçalves – O Negro no Mercado de Trabalho de Ituiutaba: Aproximações preliminares ............................................................. 189 Isabel Cristina da Costa Silva, Cairo Mohamad Ibrahim Katrib e Betânia de Oliveira Larterza Ribeiro – Mulheres Negras na Universidade Federal de Uberlândia/Pontal: Trajetórias da carreira docente............................... .............................................................. 210 Anderson Aparecido Gonçalves de Oliveira e Cairo Mohamad Ibraim Katrib – Diálogos Extensionistas para a implementação da lei 10.639/03 em Ituiutaba-MG: A parceria UFU-FACIP-FUNZUP.................................. ........................................................................ 225 Maria Laura Pacheco da Silva e Maria Lúcia Vannuchi – A Atuação do Grupo de Consciência e Identidade Negra de Uberlândia na Problemática de Gênero..................................................... ............................................................................... 235 Anderson Pereira Santiago e João Marcos Alem – Violência, Racismo e a Penitenciária Pimenta da Veiga................................ ................................................................................... 247 PARTE V – VOVÓ MARIA JOANA Antônio Augusto Oliveira Gonçalves, Mônica Chaves Abdala e Jeremias Brasileiro – O Banquete “Rosa”: A preparação, o ritual e a comilança na cozinha congadeira ................ 258 César Paulo Silva e Guimes Rodrigues Filho – Angoleiros e Congadeiros: Entrelaçando os cantos negros................................... .................................................................................. 273 Daniella Santos Alves e Marcel Mano – O Vestuário da Identidade: A cor da pertença cultural................................................... ................................................................................ 291 Sidney Leopoldino da Mata e Sandra Alves Fiúza – Uma Janela Entreaberta: Algumas considerações sobre a presença de práticas católicas e símbolos cristãos nas escolas públicas de Ituiutaba....................................... ....................................................................... 306 PARTE VI – MILTON SANTOS Renata Ribeiro da Silva Ramos e Guimes Rodrigues Filho – África: Reflexão geográfica............................................................................................................................... 321 Fernando Teixeira dos Santos e Sônia Bertoni – A Educação Física Escolar e suas Possibilidades Diante da Lei 10.639/03................................................................................. 335 Renato Mateus e Cristiane Coppe de Oliveira – O Jogo como Recurso Pedagógico para a Implementação da Lei 10639/03................................................... ...................................... 345 Ilzimeire Alves da Silva e Pedro Barbosa – O Ensino sobre História e Cultura AfroBrasileira e as Limitações Encontradas na Implementação da Lei 10639/03................................................ ................................................................................. 357 PARTE VII – TEODORO SAMPAIO Suane Cristyne Luz de Sousa, Cristiane Coppe de Oliveira – Etnomatemática e as Relações Etnicorraciais: Um olhar na formação inicial ....................................................... 372 Fabiane Nunes Riello e Roberta Fusconi – Ensino de Microbiologia a partir da utilização da Noz de Cola segundo a Lei Federal 10.639/03................................... ............. 385 Patrícia Ferreira Fernandes da Cruz e Samuel do Carmo Lima – Paradigmas em Saúde................................................... ................................................................................... 394 Lucas Rodrigues Santos e Roberta Fusconi – A Biodiversidade do Berimbau no Ensino de Biologia.............................................................................................................................. 409 PARTE VIII – BEATRIZ NASCIMENTO Luciana Guimarães e Vânia Aparecida Martins Bernardes – A Criança Negra na Escola: Uma nova visão de currículo .................................................................................... 420 Ana Kelly Silva Arantes Maia e Luciane Ribeiro Dias Gonçalves – Educação Infantil: O que é ser criança negra na escola?................................... ................................................. 433 Neide Francisca dos Santos e Mical de Melo Marcelino – Discriminação: Quem sofre não esquece. Reflexões de preconceito em Ituiutaba................................................... .......... 449 Luana Regina Mendes Rafael e Cairo Mohamad Ibrahim Katrib – Um Olhar sobre a Plurailidade e Diversidade Cultural na Escola: Repensando a importância da efetivação da Lei N. 10639.03................................................ ................................................ 463 ANEXOS Lei Federal 10.639/2003 ........................................................................................................ 474 Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnicorraciais e para o Ensino de História e Cultura Afrobrasileira e Africana................................... .................................................................... 475 APRESENTAÇÃO "A procura de formas" O desenho que apresentamos na capa desse livro é resultado de uma atividade realizada na disciplina Construção do conhecimento em Matemática do curso de Pedagogia da Faculdade de Ciências Integradas do Pontal da Universidade Federal de Uberlândia (FACIP/UFU). Falávamos das formas geométricas, suas propriedades e importância no processo e construção de conceitos matemáticos. Entre uma explicação e outra uma aluna interrompeu-nos dizendo: “Só existem essas formas no mundo?”. Naquele momento, ocorreu-nos um insight pedagógico que, de vez em quando nos cerca e nos inspira para ações imediatas. Como as aulas ocorriam no Laboratório de Ensino, pegamos folhas de papel em branco e realizamos uma atividade pedagógica em que os alunos de olhos fechados, ao som de uma música, marcavam pontos aleatórios. Finalizando, juntamente, com a música os alunos uniram os pontos e construíram, a partir de suas ideias e coloridos, uma nova forma geométrica. Ao final da atividade, dialogando com os alunos chegamos à conclusão que não existem apenas as formas (quadrado, retângulo, círculo e outros) que aprendemos na escola. De igual modo, quando tratamos das relações etnicorraciais na Formação Inicial, percebemos que há várias formas de trabalho e que estamos sempre “a procura de formas”, para que os pontos que marcamos no “papel” da universidade para a implementação da Lei Federal 10639/03 sejam unidos a fim de construirmos uma educação antirracista. Nesse sentido, entendemos que o curso de Formação Inicial em História e Cultura Africana e Afro-Brasileira promovido pelo Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal de Uberlândia (NEAB/UFU), através do Edital UNIAFRO2009, MEC/SECAD/FNDE, com as parcerias da Pró-Reitoria de Graduação, do Instituto de Química e da FACIP-Pontal, foi uma das formas encontradas para ressaltarmos os valores africanos e afro-brasileiros no espaço de formação inicial, desmitificando a ideia de que os saberes e fazeres se constituíram apenas no mundo europeu, contribuindo para uma nova visão (não-eurocêntrica) do conhecimento. Cristiane Coppe de Oliveira 1 PARTE I LUIZA MAHIN Em Rebelião Escrava no Brasil – A história do levante dos Malês de 1835, João José Reis afirma que não há indício que vislumbre a existência de uma mulher com o nome Luiza em quaisquer listas de presos por envolvimento no levante. Embora saliente que é possível ter havido participação feminina na revolta, o historiador desconhece fontes que comprovem tal atuação. Em síntese, destaca: “O personagem Luiza Mahin, então, resulta de um misto de realidade possível, ficção e mito” (REIS, 2003, p. 301-304). Aqueles que asseguram sua existência se baseiam principalmente numa carta redigida por seu filho – carta escrita pelo poeta e abolicionista Luiz Gama ao amigo Lúcio Mendonça, ou em obras como a escrita por Pedro Calmon - Malês, a insurreição das senzalas. Não se sabe se Luiza nasceu na Costa Mina, na África, ou na Bahia, no Brasil. Pertencia à nação NAGÔ-JEJE, da tribo Mahin, daí seu sobrenome, nação originária do Golfo do Benin, noroeste africano. Tornou-se livre por volta 1812 comprando sua liberdade e sobreviveu trabalhando como quituteira em Salvador. Segundo seu filho, Luiz Gama, dizia ter sido princesa na África. Aproveitando-se de sua profissão de quituteira, participou de todas as revoltas escravas que ocorreram em Salvador nas primeiras décadas do século XIX, pois de seu tabuleiro eram distribuídas as mensagens em árabe, através dos meninos que pretensamente com ela compravam seus quitutes. Em suas notas biográficas, Luiz Gama indica que Luiza Mahin teve mais um filho, cujo destino lhe era ignorado. O próprio Luiz Gama tentou por toda vida ter informações do destino de sua mãe, mas sem sucesso. Seu filho a descreveu da seguinte forma: "Sou filho natural de negra africana, livre, da nação nagô, de nome Luísa Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa, magra, bonita, a cor de um preto retinto sem lustro, os dentes eram alvíssimos, como a neve. Altiva, generosa, sofrida e vingativa. Era quitandeira e laboriosa."1 1 Ver mais em http://www.acordacultura.org.br/herois/ A LEI 10.639/2003 E A FORMAÇÃO POLÍTICA EM SENTIDO GRAMSCIANO Lorena Silva Oliveira Universidade Federal de Uberlândia – UFU Graduanda em Filosofia– IFILO Bolsista do PIBID-HCAFRO1 [email protected] Profª. Dra. Maria Socorro Ramos Militão Universidade Federal de Uberlândia – UFU Instituto de Filosofia – IFILO [email protected] Ao analisarmos a História do Brasil percebemos que a construção do mesmo deveu-se a exploração que os portugueses exerceram sobre os índios e mais tarde sobre os negros trazidos da África. “Os números não são precisos, mas estima-se que entre o século XVI e meados do século XIX mais de 11 milhões de homens, mulheres e crianças africanos foram transportados para as Américas” (ALBUQUERQUE; FRAGA FILHO, 2006, p. 39). Esses homens foram arrancados de seus seios familiares, desterrados de suas terras em condições subumanas de vida por mais de três séculos, unindo assim, para sempre, o Brasil à África. Essas condições de vida e trabalho subumanas às quais foram submetidos, logo os fariam compreender que as suas condições de escravidão os equiparavam à condição de mercadoria, e isso significava, sobretudo, submeterem-se aos seus senhores e trabalharem de sol a sol. Nessas situações, os negros construíram a riqueza do Brasil por mais de trezentos anos. No entanto, os europeus, (...) os trouxeram para trabalhar e servir nas grandes plantações e nas cidades, mas eles e seus descendentes fizeram muito mais do que plantar, explorar as minas e produzir riquezas materiais. Os africanos para aqui trazidos como escravos tiveram um papel civilizador, foram elementos ativos, criadores, visto que transmitiram à sociedade, em formação, elementos valiosos da sua cultura. Muitas das praticas da criação de gado eram de origem africana. A mineração do ferro no Brasil foi aprendida dos africanos. Com eles a língua portuguesa não apenas incorporou novas palavras, como ganhou maior espontaneidade e leveza. Enfim, podemos afirmar que o trafico fora feito para escravizar os africanos, mas terminou também africanizando o Brasil. (ALBUQUERQUE; FRAGA FILHO, 2006, p. 43) Além das contribuições apontadas, é imprescindível ressaltar a relevância dos negros na formação do povo brasileiro, tendo em vista a miscigenação entre índios, 1 Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/CAPES - Sub-projeto História e Cultura Afro brasileira. 3 portugueses e africanos, e ainda, a contribuição do negro africano no desenvolvimento econômico do Brasil, tornando-o, parte constituinte do povo e do País. Contudo, embora tenham importância crucial na construção do País, os negros e os índios foram deixados à margem da sociedade. Não obstante, tentando mudar essa segregação, os negros buscaram ganhar espaços na sociedade, desde os primórdios da dominação até os dias atuais, através de lutas e da exigência dos espaços que também lhes pertencem na sociedade brasileira. Graças a esse processo de luta, os movimentos negros obtiveram conquistas devido às ações políticas empreendidas, como foi o caso, por exemplo, da definição do racismo como crime inafiançável e imprescritível, das ações afirmativas, do dia da consciência negra, entre outras conquistas. O problema da educação também seria uma pauta prioritária dos movimentos negros, especialmente a partir de meados do século XX, até que em 2003, foi sancionada a Lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da Historia e Cultura Africana e Afro-brasileira nas escolas públicas e privadas do País. Entretanto, esta lei foi recentemente alterada para a Lei 11.645/2008, agregando à obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana em todo ensino brasileiro, o estudo da História e Cultura Indígena. Também fora sancionada a Lei 3627/2008 de cotas, que reserva um número de vagas para negros e índios nas universidades públicas federais brasileiras. Essas conquistas representam um avanço para os Afros brasileiros, porque reconhece o negro como construtor do País e reafirma a sua condição de cidadão brasileiro, que merece o acesso a uma educação pública e de qualidade. Considerando a importância da Historia e da Cultura africana e afro-brasileira na formação e na construção do Brasil, este artigo pretende analisar o processo de inclusão da Lei 10.639/2003, recentemente alterada pela 11.645/2008. O objetivo é analisar como a inclusão destes conteúdos no ensino brasileiro pode contribuir para um processo de formação política dos estudantes a partir da noção de reforma intelectual e moral do filósofo marxista italiano Antônio Gramsci. E dentro desta considera-se o conceito gramsciano de formação política. Em outras palavras, busca-se verificar, se em alguma medida o estudo destes conteúdos pode contribuir para uma formação política classista. Assim, o problema que orienta este trabalho é: a inclusão da Lei 10.639/2003 pode contribuir com a formação política dos estudantes brasileiros? Supomos como hipótese provisória desta questão que, a partir da noção de reforma intelectual e moral, a inclusão da lei juntamente com outros conteúdos formadores, como: os filosóficos, 4 sociais, políticos, históricos, geográficos, matemáticos, artísticos, literários, antropológicos, dentre outros, podem contribuir com a formação política dos estudantes ao longo de sua formação, desde o ensino básico ao superior. Este estudo se justifica enquanto um problema filosófico porque a filosofia se preocupa com a totalidade dos problemas, e porque o tema ora proposto, só pode ser compreendido em sua totalidade, a partir de seus aspectos humanos, sociais, políticos, econômicos e históricos. Com efeito, sua análise demanda uma criteriosa reflexão critica e, por conseguinte, exige o empenho filosófico e sua especificidade própria: que é a reflexão sobre problemas e conceitos à luz da razão. Além disso, a análise deste problema se justifica por poder contribuir para que a sociedade brasileira avance do ponto de vista filosófico político, por meio do enfrentamento da complexa questão de reconhecimento da condição de humanidade e dignidade da comunidade negra e de toda a sociedade brasileira com suas matrizes africanas. Para isto, este estudo terá como base teórica o marxismo e mais especificamente o pensamento do filósofo político italiano Antônio Gramsci, em especial seus conceitos de reforma intelectual e moral e formação política. E ainda, a lei 10.639/2003. A LEI 10.639/2003 Durante o processo histórico do Brasil, os europeus desenvolveram suas estratégias de poder fundadas no etnocentrismo. Desta forma, edificou-se a cultura e a economia brasileira a partir da exploração de nativos e africanos. Dessas praticas sociais centradas na dominação, foram sendo tecidas as ideologias racistas enquanto pseudoverdades em beneficio de um grupo social, o grupo hegemônico branco. Por isto, mesmo passados 123 anos de abolição, ainda há reflexos do que as teorias raciais e a política do branqueamento causaram no País, já que os afrodescendentes, ou melhor, os negros brasileiros, ainda são classificados e descriminados por sua cor, cultura e traços físicos, como nos chama a atenção Nogueira, ao dizer que, no Brasil, (...) mesmo de um grupo de irmão, filhos de um casal misto, cuja cor varie do claro ao escuro, uns se incorporarão sem problema ao grupo branco, outros terão uma situação ambígua e outros, finalmente, terão sempre contra si o percalço da cor [...]. Em outras palavras, a percepção da cor e outros traços negróides é ‘gestáltica’, dependendo, em grande parte, a tomada de consciência dos mesmos pelo observador, do contexto de elementos não-raciais (sociais, culturais, psicológicos, econômicos) a quem esteja associados - maneiras, educação sistemática, formação profissional, estilo e padrão de vida - tudo isto obviamente ligado à posição de classe, ao poder econômico e à socialização daí decorrente. (NOGUEIRA, 1985, p. 6-7) 5 Não obstante, ser negro no Brasil é uma escolha muitas vezes política. Haja vista que em nosso País não denominamos como negras todas as pessoas que tenham antepassados africanos ou afro-brasileiros. Ser negro no Brasil não é uma questão de origem como nos Estados Unidos, pois se assim o fosse, todos os brasileiros seriam considerados negros, visto que somos resultado de uma miscigenação, entre índios, portugueses e africanos. E como Nogueira afirma “o brasileiro comum ou típico é tanto africano quanto europeu, quer genética quer culturalmente”. (NOGUEIRA, 1985, p. 50) E, embora não nos proponhamos desenvolver uma analise filosófica sobre o Ser negro (dados os limites desse estudo), sentimos a necessidade de lembrar que o termo negro começou a ser usado pelos senhores de engenho para designar pejorativamente os escravizados; e, ainda, evidenciar que seu sentido pejorativo se estende até os dias atuais, o qual, muitas vezes está interligado com posturas subjetivas e objetivas de preconceito, racismo e discriminação aos afrodescendentes. Além disso, a análise das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana mostrou-nos que, em 1988, o Brasil ainda possuía uma realidade discriminadora e racista. O que impossibilitava o acesso e/ou a permanência dos afrobrasileiros nas escolas do País. Isto evidenciava que, mesmo após um século do término da escravidão a desigualdade racial permanecia, pois embora os negros estivessem livres dos cativeiros, permaneciam presos a preconceitos. Considerando esse processo histórico de exclusão e desigualdades entre negros e brancos, podemos notar que muitos negros buscam transformar sua própria realidade, exigindo do Estado Brasileiro a criação de leis e políticas públicas específicas, que contribuíssem para solucionar os problemas étnico-raciais no País. Aqui é preciso distinguir, ainda que de modo sucinto o que seja raça e etnia, para uma melhor compreensão, pois apesar dos conceitos de raça e etnia serem usualmente confundidos, os mesmos trazem definições distintas, visto que, “raça engloba características fenotípicas, como a cor da pele, e etnia também compreende fatores culturais, como a nacionalidade, afiliação tribal, religião, língua e as tradições de um determinado grupo”. (SANTOS; PALOMARES; NORMANDO; QUINTÃO, 2010, p. 121) Esse processo de luta étnico-racial teve no governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva algumas “transformações sociais” - que contribuíram para corrigir as desigualdades existentes entre negros e brancos - quando este sancionou, em janeiro de 6 2003, a Lei 10.639/03, cujas determinações instituíram a obrigatoriedade do ensino da História da África, dos Africanos e a formação da cultura afro-brasileira, no currículo escolar de todas as escolas brasileiras públicas e privadas. Esta Lei altera a Lei n° 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabeleceu as diretrizes e bases da educação nacional e inclui no currículo oficial da Rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. A promulgação da Lei 10.639/03 representa uma conquista política de reconhecimento e valorização das ações afirmativas que podem ser definidas como: (...) um conjunto de políticas públicas e privadas de caráter compulsório, facultativo ou voluntário, concebidas com vistas ao combate à discriminação racial, de gênero, por deficiência física e de origem nacional, bem como para corrigir ou mitigar os efeitos presentes da discriminação praticada no passado, tendo por objetivo a concretização do ideal de efetiva igualdade de acesso a bens fundamentais como a educação e o emprego. (GOMES; SILVA, 2003, p. 94) As ações afirmativas visam também o reconhecimento dos direitos dos negros e a inserção da sua cultura em âmbito nacional. O que representa, ainda, a possibilidade deles terem maior liberdade de expressão, pensamentos e visões de mundo próprias, além do direito de manifestar-se com autonomia individual e coletiva. A Educação das Relações Étnico-raciais demonstra que o sucesso para o reconhecimento da cultura e da história dos negros nas instituições depende da criação de condições físicas e matérias adequadas e, ainda, da qualificação de professores para o ensino da História e da Cultura Afro-Brasileira. Porém, sabe-se que o combate ao racismo não é apenas tarefa escolar e professoral, já que a discriminação se forma, principalmente fora da escola. Apesar de sabermos que a idéia de raças para os biólogos moleculares ou geneticistas não exista, por acreditarem haver apenas uma raça, Homo Sapiens: a raça humana (o que o torna o uso do termo raça um conceito social e político), o racismo, doutrina que sustenta a superioridade de raças, como define Aurélio (2001, p. 578) “existe na cabeça dos racistas e de suas vitimas” (MUNANGA, 2005-2006, p. 56), configurando assim, a existência de relações sociais racializadas. E sendo assim, o racismo é construído socialmente e a escola é apenas uma das muitas instituições formadoras do Ser Social e de seus valores. Por isso, a obrigatoriedade da inclusão da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nos currículos não é apenas uma disciplina de caráter formal, mas é antes de tudo uma questão política por visar o reconhecimento das contribuições histórico-culturais dos 7 povos negros, indígenas, asiáticos, entre outras etnias, constitutivas da brasilidade. E este reconhecimento implica na garantia, ainda que mínima, da justiça e igualdade de direitos sociais, civis, culturais, políticos e econômicos. De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana a discussão racial deve ser incluída no currículo da Educação Infantil, da Educação Fundamental, Educação Média, Educação de Jovens e Adultos, e, ainda, no processo de formação continuada de professores, inclusive de docentes do Ensino Superior. Com isso, a História da Cultura Afro-brasileira passará a ser ensinada desde o ensino básico até o superior, o que representa uma evolução na luta dos negros, posto que, (...) a criação dessa lei representa um avanço nos esforços para a desconstrução de idéias estereotipadas e preconceituosas da África e dos africanos e suas contribuições para a formação nacional do Brasil, bem como o avanço contra o obscurantismo e silenciamento a que foram relegados às culturas negras, inclusive, pela historiografia brasileira. (ALMEIDA, 2011, p. 167) Contudo, o exercício da lei exige como condição necessária para o cumprimento de suas determinações, o conhecimento da temática da qual se trata; e de professores preparados para ministrá-la, posto que, a não preparação destes pode resultar numa difusão ainda maior do racismo. Soma-se a essa exigência do conhecimento acerca da História e Cultura Afro-brasileira, as condições materiais para a sua implantação. Sem isso, colocar-se-ia o iminente risco de descumprimento da aplicabilidade da referida lei, o que poderia “ser justificado pela maneira como a lei foi ‘imposta’ aos professores sem uma concomitante formação adequada para lidarem com as temáticas”. (ALMEIDA, 2011, p. 170) Se junta a esses fatores, a falta de materiais didáticos apropriados, a hostilidade de alguns professores e técnicos administrativos das instituições escolares, entre outros, a causa da lei não estar presente em alguns cotidianos escolares. Todavia, os Núcleos de Estudos Afro-brasileiros, movimentos sociais que estejam próximos da região escolar, podem colaborar com a divulgação, entre os professores, de alguns materiais didáticos, como bibliografias afro-brasileiras referentes às diásporas da África, os quais são essenciais para difundir o conteúdo propalado pela lei 10.639/03, e levá-lo a fazer parte do cotidiano das escolas públicas e privadas. Isto auxiliará na percepção dos alunos de 8 que a cultura negra não se encontra apenas na capoeira, na feijoada, no samba, entre outros, mas os faria perceber que, no Brasil, “tudo” é um pouco africano. Além do mais, o real exercício da lei na educação brasileira pode auxiliar-nos no combate a discriminação, pois como ressalta Munanga “a solução não esta na negação das diferenças ou na erradicação da raça, mais sim na luta e numa educação que busquem a convivência igualitária das diferenças”. (MUNANGA, 2005-2006 p. 56) Portanto, a inclusão da História e da Cultura Afro-Brasileira e Africana nos currículos escolares brasileiros é uma questão política que tende a incluir, no contexto dos estudos e atividades escolares, as contribuições histórico-culturais dos povos indígenas e africanos, na construção do Brasil, com vista a praticas sociais centradas na justiça. Desenvolveremos a seguir um estudo rápido do pensamento de Antônio Gramsci para que possamos compreender o que significam os seus conceitos de reforma intelectual e moral e formação política. Neste artigo, no entanto, não pretendemos, desenvolver um tratado sobre o pensamento deste autor, mas apenas apontar a contribuição que ele pode trazer para se pensar na possibilidade desta lei colaborar com um processo de formação política classista, dos estudantes brasileiros, especialmente aqueles das escolas publicas. GRAMSCI E SEUS CONCEITOS DE REFORMA INTELECTUAL E MORAL E FORMAÇÃO POLÍTICA Antônio Gramsci (1891-1937) foi um filosofo marxista italiano que viveu em um período histórico de grandes transformações na Europa e sofreu a violência do fascismo. Preocupado em construir o socialismo no século XX, Gramsci analisa, em suas obras, como é possível uma revolução econômica e social, ou seja, cultural e moral, no Ocidente. A partir de sua analise sobre o capitalismo avançado2, Gramsci cria uma estratégica de construção, um novo sistema, o socialista. Entretanto, para que sua estratégia3, a guerra de posições, seja posta em pratica no Ocidente, é necessário 2 Gramsci cria o conceito de Capitalismo Avançado para evidenciar que o capitalismo encontra-se em seu grau máximo de desenvolvimento, ou seja, para referir ao capitalismo atual e aos seus complexos e diversificados problemas de toda ordem. 3 Estratégia: Arte de aplicar os meios disponíveis ou explorar condições favoráveis com vista a objetivos específicos (FERREIRA, 1910-1989, p. 297). No caso gramsciano, refere-se à sua estratégia, a sua proposta de construção do socialismo no capitalismo avançado, atual. 9 desenvolver uma reforma intelectual e moral para que o proletariado possa em um processo longo e gradual superar o capitalismo da contemporaneidade. Para tanto, Gramsci analisa a estratégia de guerra frontal4 de Marx e compreende que esta no Ocidente seria motivo de derrota, devido à complexidade em que encontra o Estado, visto que o Estado no Ocidente é considerado por Gramsci como mais complexo, por ser formado pela sociedade política5 mais sociedade civil, pois no capitalismo avançado, a sociedade civil possui uma intrincada rede de aparelhos privados de hegemonia que auxiliam na difusão das ideologias dominantes. E para que este Estado complexo seja superado é necessário que a estratégia de guerra de posições ocorra dentro da sociedade civil, mais especificadamente, nos seus aparelhos privados de hegemonia, que são as grandes instituições como: escolas, igrejas, grandes centros de comunicação, entre outros. Mas, para que haja esta tomada de posições dentro da sociedade civil, o Partido político deve, através de seus intelectuais6 orgânicos, participar da democracia burguesa e também dos aparelhos privados de hegemonia. Todavia, para que esta estratégia seja colocada em pratica é necessário desenvolver uma reforma intelectual e moral que consiste em “transformar a concepção de mundo das massas e mudar a maneira de agir e de se relacionar socialmente” (SAID, 2009, p. 89), ou seja, consiste em elevar as massas culturalmente, prepará-las ideologicamente, para que possam ter consciência do seu devir histórico e o lugar que ocupam no mundo. Portanto, a base da estratégia denominada guerra de posição, (...) se daria entre as classes opostas que tivessem concepções de mundo diferentes e buscassem se manter hegemônicos: aquele que defendia o estado de coisas existentes e aquele que buscasse superá-los, pois é quando as condições materiais estão dadas contraditoriamente que os homens tomam consciência da crise e das formas ideológicas que permitem entender o processo histórico. (MILITÃO, 2011, p. 4) A reforma intelectual e moral é a base da guerra de posições pelo fato que em Gramsci para haver revolução, o proletariado deve ter uma formação política, para que assim possa agir coerentemente, formar a sua ideologia e um grupo hegemônico capaz de conquistar um Estado ético, ou seja, o comunismo. Visto que, a hegemonia7 do 4 Guerra Frontal: guerra armada, de enfrentamento frontal. Sociedade política: é o Estado em sentido restrito, ou seja, é o conjunto dos aparelhos repressivos governamentais. É a sede da força e da violência oficializada. (DIAS; BIANCHI, 2009, p. 51) 6 O conceito gramsciano de Intelectual não é sociológico e sim político. Refere-se, não apenas aos intelectuais pensadores e profissionais, mas a todos os homens e mulheres que exerçam funções organizadoras na sociedade. 7 Segundo Luciano Gruppi (1980b, p. 70), em Gramsci, a Hegemonia significa a capacidade de unificar através da ideologia e de conservar unido um bloco social que não é homogêneo, mas sim, marcado por profundas contradições de classe. 5 10 proletariado desenvolveria uma nova sociedade, uma nova organização política e orientação ideológica e cultural. Em Gramsci é o Partido político, denominado por ele de intelectual orgânico coletivo (Educador) que tem a função de preparar ideologicamente a massa, dando lhe acesso à cultura, e proporcionando-lhes o conhecimento e uma nova maneira de ver o mundo, novos valores e comportamentos. Gramsci denomina como intelectual orgânico, todos os membros deste partido que ajam como educadores, transformando o senso comum em bom senso. Como advoga Militão, (...) o intelectual orgânico da classe trabalhadora se constitui pelo estrito vinculo com que possui com a cultura popular, ao tomar para si as aspirações dessa classe e se esforçar na procura de soluções dos problemas relacionados ao desenvolvimento da classe trabalhadora, o intelectual passa a promover uma ascensão cultural, ou seja, uma visão de mundo coerente e rigorosa. Busca-se a transição do senso comum ao bom senso. (MILITÃO, 2011, p. 6) Esta transição leva o individuo a formação de uma consciência critica, pelo fato que, para Gramsci, o senso comum é um conjunto desagregado de idéias e opiniões e precisamos de idéias verdadeiras, coerentes e unitárias, ou seja, necessitamos de bom senso. Pelo fato que, (...) a existência de uma consciência desagregada e ocasional é justamente uma das principais razões que fortalecem a hegemonia da classe burguesa. Em função dessa consciência a massa trabalhadora não consegue identificar os meios concretos que já existem ou que estão em processo de formação, capazes de solucionar os seus problemas. Dai o trabalho filosófico de transformação da mentalidade popular ser concebido por Gramsci como uma ‘luta cultural’, que realiza a mediação entre a filosofia e o ‘senso comum’. (MILITÃO, 2011, p. 3) Segundo Gramsci, em um momento de crise orgânica que deve ocorrer à guerra de posições. Esta crise ocorre quando há uma contradição entre as relações de produção e as forças produtivas, o que abala as estruturas e superestruturas da sociedade, a vida social e moral das pessoas. Todavia, é neste momento que a classe dominante, proprietária dos meios de produção, também age para fortalecer e permanecer unida sua hegemonia. Devido às estruturas e superestruturas da sociedade estar abaladas, o que pode ocasionar o fim do capitalismo, a classe dominante, através da revolução passiva- período que a classe burguesa reorganiza-se e revoluciona a maneira de produzir, melhorando as condições de vida dos trabalhadores- cria uma nova ideologia que visa apenas unificar e manter sua hegemonia no poder. Esta revolução passiva gera um novo tipo de homem, por mudar a maneira de produzir a vida material e mudar o tipo de ideologia dominante da sociedade. 11 Apesar disto, é neste momento de crise que o Partido deve trabalhar e preparar ideologicamente as massas e conscientizá-las da contradição existente neste modo de produção chamado capitalismo. E quando o proletariado estiver preparado ideológica e moralmente, trabalhando teoria e pratica, ou seja, consciência de classe e ação coerente, estará preparado para lutar por uma renovação política, econômica, social e cultural, e, neste processo lento e gradual, conseguir tomar espaço e conquistar o Estado coercitivo e assim excluir a coerção e atingir o comunismo. MAS AFINAL O QUE É FORMAÇÃO POLÍTICA? Percebemos que Gramsci ao propor como solução para o fim do capitalismo avançado a estratégia denominada guerra de posições, o mesmo se preocupa com uma base que será a causa necessária para que a revolução proletária aconteça, e esta base como citamos acima é a reforma intelectual e moral que consiste em transformar a maneira de vermos o mundo, nossos valores, hábitos e comportamentos. Com a reforma intelectual e moral um novo modo de vida surge e ela ocorre ao mesmo tempo em que o Partido com seus intelectuais orgânicos estão preparando e elevando as massas culturalmente, transformando o senso comum em bom senso, visto que este só é possível quando mudamos nossa maneira de ver o mundo, nossos valores, e conseqüentemente, a maneira como produzimos a nossa vida material. Devemos compreender, porém, que Gramsci percebe que é necessário que a classe trabalhadora forme um grupo hegemônico para assim conquistar o poder. Mas como formar um grupo hegemônico se o proletariado não tem uma formação política e não percebem que há uma contradição no modo de produção capitalista? Em razão disso que Gramsci acredita ser necessário fazer uma reforma intelectual e moral para educar as massas politicamente, fazê-las perceber que são sujeitos históricos que produzem sua própria vida material e que devem agir e viver com uma consciência critica unitária e coerente, e não a partir de uma concepção de mundo imposta de maneira desagregada, como pensava Gramsci ao dizer que (...) é preferível ‘pensar’ sem disto ter consciência crítica, de uma maneira desagregada e ocasional, isto é, participar de uma concepção do mundo ‘imposta’ mecanicamente pelo ambiente exterior, ou seja, por um dos vários grupos sociais nos quais todos estão automaticamente envolvidos desde sua entrada no mundo consciente [...] ou é preferível elaborar a própria concepção do mundo de uma maneira crítica e consciente e, portanto, em ligação com este trabalho do próprio cérebro, escolher a própria esfera de atividade, participar ativamente na produção da historia do mundo, 12 ser o guia de si mesmo e não aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da própria personalidade? (GRAMSCI, 1978, p. 12) Para o filósofo, o processo educacional dos trabalhadores, o trabalhoeducativo- cultural de elevação da consciência política das massas, é absolutamente importante para o desenvolvimento e à sedimentação da consciência de classe dos trabalhadores. Entretanto como iniciamos o processo de Formação Política? Segundo Oliveira; Felisbino “Gramsci mostra-nos que os indivíduos iniciam sua formação política quando, ao lutarem contra as condições de alienação em que estão inseridos, passam a se reconhecer como sujeitos pertencentes a uma das duas forças hegemônicas” (OLIVEIRA; FELISBINO, p. 5). O que nos permite definir que, nos formamos politicamente, quando nos reconhecemos pertencentes a um grupo, ou seja, quando tomamos consciência do pertencimento a uma classe e quando assumimos como nossos os problemas dessa classe. E, é este o objetivo do Partido político e de seus intelectuais orgânicos coletivos: elevarem a massa culturalmente para que os mesmos tendo acesso a cultura, que traz conhecimento, se conscientizem de seu devenir histórico e dos objetivos a serem alcançados pela e com a luta revolucionaria. E assim possam desenvolver uma consciência critica combativa e classista. Gramsci acredita que “a consciência de fazer parte de uma determinada força hegemônica (isto é, a consciência política) é a primeira fase de uma ulterior e progressiva autoconsciência, na qual teoria e pratica finalmente se unificam” (GRAMSCI, 1978, p. 21). E é no processo de luta, contra o sistema capitalista e suas ideologias, que o proletariado poderá desenvolver sua consciência de classe, se formar politicamente e se transformar. É importante ressaltarmos que Marx (...) apresenta o aparecimento da consciência de classe na burguesia e no proletariado como conseqüência da crescente luta política [...] E a formação da consciência de classe no proletariado pode ser vista como a contrapartida do fracasso necessário da consciência de classe política entre os pequenos camponeses. (BOTTOMORE, 1988, p. 76) Mas não nos cabe aqui discutir e desenvolver profundamente este conceito na perspectiva de Marx. Interessa-nos resgatar o conceito marxiano como condição para que o proletariado possa construir sua hegemonia e assim conquistar o Estado coercitivo e iniciar o processo de construção da sociedade regulada. Diante desta síntese do pensamento gramsciano, podemos, portanto compreender que o conceito de reforma intelectual e moral juntamente com o conceito 13 de formação política em sua estratégia de construção do socialismo no capitalismo avançado é condição necessária para o proletariado conquistar a hegemonia. Todavia este processo estratégico requer um lento e gradual processo. Esta revolução não é espontânea, mas deve ser gerada dentro do capitalismo avançado, visando à transformação da sociedade, num processo histórico determinado. É dentro desta perspectiva gramsciana que vislumbramos a elevação cultural das massas a partir de uma formação política dos trabalhadores, e vemos na inserção da Lei 10639/2003 - se aplicada com seriedade - uma perspectiva de contribuição para a formação política dos estudantes brasileiros. Todavia, poder-se-ia perguntar: em que medida esta lei pode contribuir com a formação política classista dos estudantes brasileiros? Analisemos. A LEI 10639/2003 PODE CONTRIBUIR COM A FORMAÇÃO POLÍTICA DOS ESTUDANTES BRASILEIROS? Em primeira instância é necessário ressaltarmos que, Gramsci não desenvolveu estudos específicos sobre racismo, raça, etnias, ou sobre quaisquer categorias de trabalhadores de forma corporativista, mas dedicou sua vida ao estudo dos problemas de toda uma classe social: a trabalhadora8. Para ele, dividir a classe trabalhadora em frações seria fragmentá-la do ponto de vista político. Isso é, para ele, o que faz a classe burguesa: dividir a sua classe oponente exatamente para que ela se enfraqueça politicamente, para isso, cria as mais diversas ideologias e as difunde como se estas representassem os anseios de todos, e não apenas os da classe burguesa. Nessa perspectiva, os conceitos gramscianos nos permitem compreender que, especialmente os problemas sociais e políticos da sociedade capitalista atual estão diretamente relacionados às ideologias que sustentam esta sociedade e são exatamente as ideologias burguesas que impedem as classes subalternas de desenvolverem uma consciência crítica acerca de si mesmas, do que são no mundo, de seu papel na construção dessa sociedade e dos problemas pelos quais são afetados. É nesta perspectiva que propomos a reflexão sobre a relevância da Lei 10.639/2003 no ensino brasileiro. Isto porque, entendemos que a escola é uma 8 Atualizamos o conceito de proletariado marxiano para o conceito de classe trabalhadora, que é composta por todos os trabalhadores que são desprovidos dos meios de produção e, por isso, obrigados a vender a sua força de trabalho como forma de sobrevivência. 14 instituição que pode colaborar significativamente com uma formação humana integral, e com um processo de construção e desconstrução de ideologias. Assim, numa perspectiva marxista, esta instituição pode desenvolver uma formação que privilegie uma ou outra classe. Nesse sentido, ela é um espaço onde se pode desenvolver uma formação integral e uma formação política classista, isto é, em favor de toda a classe trabalhadora, por isso a inserção desta lei e a efetivação de suas determinações nas escolas podem contribuir com uma formação político-cultural não apenas dos negros e índios, mas de todos os afrodescendentes brasileiros, isto é, toda a nossa sociedade. É nesses termos que acreditamos que a referida lei pode colaborar com um lento e gradual processo de formação política dos estudantes brasileiros. Assim, tendo em vista o poder que a escola tem na construção e desconstrução de ideologias é que acreditamos que nela podemos trabalhar não apenas as questões étnico-raciais e de combate ao racismo e descriminação, mas, sobretudo, evidenciar que estes mesmos problemas são político-sociais e, com isso, estaremos contribuindo com um processo de formação política classista dos estudantes. Se assim analisarmos, veremos que a Lei 10.639/2003 ao ser aplicada com as demais disciplinas formadoras: filosofia, sociologia, historia, artes, geografia, biologia, matemática, literatura, etc., estará contribuindo, em alguma medida, com o processo de transformação da concepção de mundo dos estudantes. Haja vista que, ao transformarmos nossa concepção de mundo, através da educação e da cultura, estamos nos transformando intelectualmente e moralmente. E este é o primeiro passo para nos formarmos politicamente. Nessa perspectiva de elevação ideológica e cultural, vemos a inserção da Historia e Cultura Afro nas escolas brasileiras, como importante fator de colaboração com um processo de formação política dos estudantes brasileiros, pelo fato de poderem ter contato com um universo desmistificado e poder encontrar–se com sua própria história ao ter acesso aos fundamentos da cultura Africana e Afro-brasileira. Tendo com isso, a oportunidade de poderem iniciar uma nova forma de pensar a sua história e, por conseguinte, pensarem si mesmo e por si mesmos, evitando-se assim a alienação por concepções exteriores e, numa perspectiva bastante otimista, poderem iniciar, lentamente, uma tomada de consciência critica e coerente, de pertencimento a uma classe, que é dividida em categorias ou pseudo etnias apenas por conveniência de uma outra classe, que não é a sua. Aqui, nos abstemos da discussão de que todos são afrodescendentes independentemente de posição de classe, já que fizemos a opção de abordarmos a inserção da lei por uma perspectiva mais ampla, a partir de uma escola 15 filosófica e de autores que nos auxiliam a fazer um recorte a partir da oposição de classes e não por um viés corporativista. Não temos, aqui, a pretensão de acreditar que a simples inserção da Lei 10.639/2003 nos currículos das instituições de ensino brasileiras erradique os problemas concernentes às relações inter-raciais, pois essa é apenas uma conquista entre as muitas que a sociedade brasileira tem de enfrentar para minimizar os problemas raciais e classistas em nosso País. Com essa conquista, iniciam-se outras frentes de lutas que deverão ser enfrentadas coletivamente. De certo, essas lutas sociais em conjunto com os conteúdos formadores citados anteriormente, podem auxiliar no combate ao racismo brasileiro, ora exposto ora velado, e no reconhecimento da cultura africana como participe da formação da cultura e do povo brasileiro. Ações sociais como as desenvolvidas pelo Movimento Negro que vem “recontando a historia do negro na África e no Brasil, desde a formação de grupos organizados há séculos, reivindicando educação para os negros por meio de manifestos, teatro, musica e ação sistemática junto aos órgãos de ensino” (SILVA, 2008, p. 29) são imprescindíveis porque auxiliam no processo de formação política dos estudantes e porque podem melhorar as condições de vida e trabalho dos negros e seus descendentes, podendo fazê-los avançar nas conquistas políticas, econômicas, educacionais, culturais e especialmente jurídicas. Não obstante, o Brasil tem uma divida com os afro-descendentes e africanos devido aos anos de exclusão, abdicação de direitos e não reconhecimento de sua importância na Historia, na formação e na construção do País. Diante disto, acreditamos que a Lei 10.639/2003, antes de qualquer contribuição que possa oferecer para o combate ao racismo brasileiro, apresenta-se como um instrumento político que pode auxiliar no resgate da nossa historicidade para a inteligibilidade do nosso presente. Ademais, permite o acesso a nossa gênese e contribui para que nos tornemos mais conscientes de nosso papel como sujeito histórico. Se conseguirmos atingir, lenta e gradualmente, esses objetivos, teremos colaborado, de fato, para um processo de formação política de nossos estudantes. CONCLUSÃO O problema levantado neste estudo nos permitiu analisar a Lei 10.639/2003 à luz do pensamento de Antonio Gramsci, especialmente no que concerne à sua estratégia 16 de construção do socialismo na atualidade – a guerra de posições e dentro dela o seu conceito de reforma intelectual e moral. O qual nos aponta, particularmente, a necessidade de elevarmos o nível de consciência política dos trabalhadores por meio do acesso ao conhecimento e a alta cultura produzida pela humanidade, objetivando iniciar um processo de formação político-hegemonica das classes subalterna. Foi, portanto, a partir da análise do universo conceitual gramsciano que lançamos um olhar sobre a implantação da Lei 10.639/2003 e a historia da construção e formação do Brasil, nos currículos escolares brasileiros. Sob esta ótica, a investigação nos obrigou a considerar as conquistas obtidas pelo meio desta lei a partir de uma visão de totalidade e, portanto, de classe, desconsiderando os elementos puramente corporativistas. De certo, todas as conquistas obtidas por frações das classes subalternas são imprescindíveis, porém estas não podem perder de vista a visão de unidade de classe, pois é precisamente a fragmentação político-ideológica do operariado que alimenta os interesses da classe burguesa e sua dominação. Assim, buscamos mostrar que a inserção dessa lei nas instituições de ensino pode contribuir com o início de uma reforma intelectual e moral, que se desenvolve visando propiciar uma formação política às classes subalternas. O empreendedor desse processo seria o Partido Político que pelas mãos de intelectuais orgânicos da classe trabalhadora poderiam educá-la, lenta e gradualmente, do ponto de vista político, intelectual e moral com vistas a construir a hegemonia dos subalternos rumo a uma nova sociedade que cuide dos interesses de todos os seus membros e os trate de acordo com o papel que ocupam na construção de sua própria história, valorizando-o como Ser Humano e com capacidade para suprir as carências de todos e não apenas de alguns. É nesse contexto que o resgate do valor do povo africano deve ser considerado não apenas como uma questão minoritária ou de minorias, mas como uma questão que diz respeito à genética da brasilidade, isto é, de todos os brasileiros. Nessa perspectiva, acreditamos que considerar a inserção da Lei 10.639/2003, apenas como uma conquista dos negros brasileiros é continuar reduzindo-a uma questão menor, apenas de reconhecimento da herança africana e não percebê-la como parte constitutiva do Brasil e dos brasileiros. Portanto, essa lei deve ser vista antes de tudo como uma questão político-filosófica que interessa a todos nós. O modo como ela será implantada dependerá de nossa capacidade de mostrar qual é a sua real importância para o povo brasileiro e esse processo passa, necessariamente, pela seriedade com que seja encarada pelos educadores e, principalmente, pela sociedade brasileira. 17 Defendemos que a presença da História e Cultura Africana e Afro-brasileira nas instituições de ensino seja percebida como uma oportunidade para politizar os estudantes quanto à herança africana dos brasileiros. No entanto, o aproveitamento dessa oportunidade dependerá de nossa capacidade, enquanto intelectuais orgânicos, de articular politicamente a implantação dessa lei com a formação política de nossos estudantes. Os meios para o desenvolvimento desse objetivo poderão ser pensados a partir de novos estudos, os quais não podem ser abarcados neste artigo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBUQUERQUE, W. R. de; FRAGA FILHO, W. Uma história do negro no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006. 320p. ALMEIDA, C. N. de. A obrigatoriedade do ensino das historias e culturas africanas e afro-brasileiras na educação escolar: reflexos sobre a lei 10.639/2003. In: Revista de História, Petrolina, p. 163-173, out/abr. 2011. Disponível em: http://www.revistahistorien.com/1S%20HIST%C3%93RIAS%20E%20CULTURAS.pd f Acesso em 22 de julho de 2011. BIANCHI, A. Realismo e política. Revista Cult, São Paulo, nº 141, p. 50-52, nov. 2009. BOTTOMORE, T. 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Uberlândia: UFU, 2009. 19 A HERANÇA DAS TEORIAS RACIALISTAS E O DESEMPENHO DA EDUCAÇÃO EM PROMOÇÃO À IGUALDADE ETNICO-RACIAL Pollyanna Fabrini Universidade Federal de Uberlândia – UFU Graduanda em Ciências Sociais- INCIS Bolsista do PIBID-HCAFRO1 [email protected] Prof. Dr. Marcelo Lapuente Mahl Universidade Federal de Uberlândia – UFU Instituto de História – INHIS [email protected] O presente trabalho pretende apresentar algumas das teses de cunho eugênico, proposições que justificaram o racismo em todo o mundo. O recorte históricosociológico parte do início do fortalecimento das crenças eugênicas, no século XIX, até sua repercussão na atualidade, para compreender as teorias raciais, verificar o quão estão presentes no imaginário social dos indivíduos, e estender a discussão para a importância da lei 10.639/2003, como possibilidade de superar as proposições que preconizavam a inferioridade do negro, criada e naturalizada socialmente pelos pressupostos cientificistas. Contudo, nos deparamos com uma dificuldade. Na medida em que sabemos que o ambiente escolar não é o único formador de valores, como poderemos atribuir apenas à educação escolar a responsabilidade do combate ao racismo? Levando em conta a importância da instituição escolar como um dos principais veículos propulsores para formação de opinião, serão ponderados algumas expectativas pós implementação da lei e a forma como essa política pública contribuirá para uma maior conscientização social em relação a grupos distintos. A pretensão é verificar se a lei 10.639/03 contribui efetivamente na luta contra o preconceito racial, ou seja, se a educação pode fomentar a promoção da equidade étnico-racial e a desconstrução da imagem posta pelas teorias eugênicas. Foi avaliada inicialmente a herança das teorias raciais, que admitiram por anos a presunção da inferioridade do negro, construção essa que justificava a escravidão de povos. Por conseguinte abordamos a entrada desses julgamentos no Brasil e o papel dos 1 Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/CAPES - Sub-projeto História e Cultura Afro brasileira 20 intelectuais vernáculos que adequaram tais opiniões à particularidade da população miscigenada; avaliamos o complicador desse ideário construído que prevalece no imaginário social, embasamento de ações racistas; e para findar consideramos a importância da lei como possibilidade de alterar o ideário estigmatizado, enaltecendo as contribuições desse grupo étnico e proporcionando dentro do ambiente escolar, uma visão maior do papel do negro na formação da sociedade que vivemos. Foi utilizada análise bibliográfica documental de produções que abordaram algumas questões relevantes para compor a pesquisa. A seleção foi direcionada em obras que discutem a eugenia, como o livro Espetáculo das raças, e todas as produções que apontam a inferioridade de grupos em detrimento de outros; em conseguinte verificamos a repercussão dessas teorias no Brasil, e as dificuldades de ascensão do grupo negro devido um ideal posto e naturalizado na sociedade. Encerrando, foi avaliada a inserção da lei com base em estudos dessa natureza, acompanhando suas falhas e contribuições para efetiva consolidação da mesma nas instituições escolares. TEORIAS RACIAIS: ALICERCE PARA CONSTRUÇÃO DE UM MITO No século XVI surge o princípio das discussões sobre as diferenças físicas entre os homens. A busca da compreensão da origem e da própria heterogeneidade humana arrastou-se por séculos. Os temas levantados pelos iluministas em busca por explicações científicas para a questão racial tornaram-se em determinados momentos complexos e contraditórios, sendo necessário uma análise densa para explicações de tais diferenças. As teorias científicas dialogam com variadas explicações, como a teologia, biologia e a antropologia física para qualificar um grupo de pessoas. Neste período, surgem duas correntes que se opõem quanto à formação de hipóteses racialistas; de um lado os monogeístas, e de outro os poligenistas. A distinção entre uma vertente e outra, se refere ao fato da primeira partir da análise de teses cristãs, e justificavam as diferenças físicas pelo determinismo geográfico, climático e cultural, colocando a crença em primeiro lugar, mantendo vínculo com a tradição religiosa. Conforme afirma SCHWARCZ (1993, p. 48) “Pensava-se na humanidade como um gradiente – que iria do mais perfeito (mais próximo do Éden) ao menos perfeito (mediante a degeneração).” A segunda corrente é contrária às idéias cristãs; acreditava nas origens separadas, o foco principal dessas teses se aplicava na tentativa de distinguir e hierarquizar as “raças” 21 existentes. Por ser uma análise mais científica para os padrões da época, contestadora dos dogmas cristãos, torna-se uma opção crível. Cria-se uma pirâmide imagética e eurocêntrica, onde os arianos ocuparam o topo, os “amarelos” as intermediações e os negros a base da figura geométrica. Em meio a todas as contestações sobre a temática racial, o processo eugênico ganhou força através da biologia com a publicação do livro A origem das espécies de Charles Darwin. A aproximação das teorias raciais com o darwinismo deu procedência ao darwinismo social. Os adeptos dessa vertente acreditavam em um melhoramento da raça, onde a raça pura era superior a miscigenada; estas concebidas como degeneradas e doentes. Dessa forma exaltavam as ‘raças puras brancas’ estimulando sua reprodução, condenando e controlando a reprodução miscigenada e/ou inferiorizada da raça negra. A eugenia não apenas representava esse melhoramento genético como também vinculava o caráter moral dos indivíduos à sua origem racial. SCHWARCZ (1993, p. 58) nos auxilia na afirmação quando explicita: [...] as raças constituiriam fenômenos finais, resultados imutáveis, sendo todo cruzamento, por principio entendido como erro. As decorrências lógicas desse tipo de postulado eram duas: enaltecer a existência de “tipos puros” - e portanto não sujeitos ao processo de miscigenação – e compreender a mestiçagem como sinônimo de degeneração não só racial como social. Fomentado por esse movimento, nascem estudos dos mais variados para qualificar os indivíduos levando em consideração suas características fenotípicas. Um deles é a frenologia e antropometria, teorias criadas para decifrar a capacidade humana levando em conta a proporção e tamanho do cérebro, assim como as medidas e traços do rosto e corpo. Nas medidas consideradas desproporcionais e fora do padrão europeu, eram atribuídas características morais duvidosas, o sujeito era classificado como criminoso, fraco e retardado. Nesse período as teorias raciais e a conseqüente exclusão racial do negro acabam por considerar os traços morfológicos como o cabelo crespo, pele escura, associado-os com a inferioridade. Em oposição, cabelo liso, pele clara, rosto ortognato eram características da superioridade da espécie humana branca. Pensadores da época chegaram a afirmar que indivíduos da etnia negra jamais chegariam sozinhos a civilização. Assim, as teorias raciais, corroboraram com a escravidão de povos. A investigação do significado da própria cor preta e branca, já é um processo que nos remete a uma apreciação dialética. Na civilização Européia a cor branca sempre foi considerada pela igreja católica como símbolo de pureza, de paz, da luz. O negro já 22 possuía um significado totalmente pejorativo, associado às trevas, aos caos e ao mal. Essas impressões já são construídas antes mesmo da discussão das teorias racialistas. Conforme a constatação da autora SANTOS (2002, p. 45) “[...] mesmo antes da elaboração concreta de raça como algo que diferenciasse grupos de sujeitos no mundo, a cor negra já possuía características negativas”. Outro argumento, agora religioso, que reforçava a atrocidade da escravidão, era erguido pela igreja com o mito de Cam, do livro Gênesis. O personagem Cam era filho de Noé e em um momento onde o pai estava embriagado e se despiu, o mesmo olhou sua nudez ao contrário de seus irmãos que não olharam e cobriram-no com uma capa. Quando Noé acordou e soube do ocorrido, amaldiçoou o filho sendo este e seus descendentes condenados ao último dos servos para seus irmãos. A ligação do mito com a cor negra vem da parte em que Cam era responsável pelo desenvolvimento de Canaã, atual continente africano. Após a maldição todos os males foram arrogados a tal terra. Este mito fortifica além da permissão à escravização, que com ela o povo oriundo dessa ascendência deveria deixar o paganismo e se tornarem cristão. Essas pesquisas baseadas em fontes primárias explicam como esse mito foi de certa forma um dos conceitos criadores de hierarquizações das raças, alentando preconceitos e discriminações. Com todos os argumentos das teorias racialistas, o método intelectual e teológico em muitos casos passou a ser um grande aliado na sustentação da escravização de raças dito inferiores. No Brasil esse processo não foi diferente, com o negro colocado em um papel subalterno em relação a seus “senhores”, deveriam saber seu lugar e posição na sociedade. A escravidão criou uma série de estereótipos em relação ao negro, montando um sujeito geral. MUNANGA (2009, p. 35) descreve a relação entre colonizador e colonizado, onde considera que as características do negro são conferidas no coletivo e essas depreciadas: [...] Todas as qualidades humanas serão retiradas do negro, uma por uma. Jamais se caracteriza um deles individualmente, isto é, de maneira diferencial. Eles são isso, todos os mesmos. Além do afogamento no coletivo anônimo, a liberdade, direito vital reconhecido à maioria dos homens, será negada. Colocado à margem da história, da qual nunca é sujeito e sempre objeto, o negro acaba perdendo o hábito de qualquer participação ativa, até reclamar. Não desfruta da nacionalidade e cidadania, pois a sua é contestada e sufocada, e o colonizador não estende ao seu colonizado. [...] O BRASIL E OS MODELOS RACIAIS EUROPEUS O Brasil foi um dos últimos países a manter o regime escravista e com isso tornou-se um local fecundo para que intelectuais estrangeiros pudessem comprovar suas 23 teses da inferioridade da raça negra. Com base nesse pressuposto, destaca-se o autor francês Louis Couty, que confirma essa tese de inferioridade pautada no argumento do atraso econômico do país. Para ele o Brasil precisava urgentemente da mão de imigrantes. Considerava-se um abolicionista, era contrário a escravidão, mas com a intenção maior de eliminar os negros e expulsá-los do país. Era simpático ao final do regime escravista e favorável à imigração, que poderia trazer ao país uma técnica mais desenvolvida de trabalho. Primava pelo progresso da nação, sendo este possível apenas com mão de obra qualificada vinda do imigrante europeu; considerava a escravidão um atraso e como a maioria da população do país era escrava dependiam de mão de obra competente para seu desenvolvimento. O autor coloca sua tese como uma possibilidade de solucionar a derrocada nacional, sendo a raça branca a única capaz de produzir cultura, civilização e prosperidade. SANTOS (2002, p. 91) pondera a possível vantagem da imigração no país, “A imigração somente era mais vantajosa do que a abolição porque oferecia o que os escravos e ex-escravos jamais poderiam oferecer: o verniz branco europeu e industrial pelo qual o país tanto almejava.” A partir do momento em que o Brasil cresce como nação, surge intelectuais autóctones que também questionaram e deixaram suas contribuições quanto às questões atreladas à raça e a escravidão. De início dão razão às teorias universais reafirmando o caráter inferior do negro. Mas na conjuntura brasileira percebe-se que a maioria da população era negra, sendo impossível seguir o modelo racial da Europa. Cria-se a aspiração de embranquecer a população com vinda de imigrantes europeus. Essa também não era a única preocupação dos pensadores brasileiros. Muitos deles, abolicionistas declaradas, viam que com o processo de trabalho escravista, não chegariam ao avanço dos países europeus. Esta foi uma das vertentes do movimento abolicionista, que nem sempre estava pautado nas boas intenções, e sim no interesse em obter um novo processo econômico classificado como mais moderno. Dessa maneira, a estratégia de vinda dos imigrantes resolveria dois problemas: a questão da cor, branqueando a população, e a transição lenta e tardia de uma economia agrícola para uma economia industrial. Nesse mesmo andamento podemos destacar a forma como a abolição foi posta e executada no país. Enfatizando as idéias ditas liberais vindas de Joaquim Nabuco, um renomado advogado e parlamentar que se colocava, muitas vezes, como o porta voz dos escravos “ingênuos”. Seus argumentos eram norteados por julgamentos racistas e contribuía para a exclusão dos negros no processo abolicionista. O autor pretendia 24 instigar pensamentos de uma abolição sem guerra, via a necessidade de não suscitar o ódio nos escravos, comprovando um temor de uma possível revolta da população negra que era a grande maioria. A abolição era vista por ele como solução para futuros conflitos, sendo este possível apenas pelas vias legais que a seu modo, obtinha certa neutralidade sem tomar partido de um dos lados na tratativa da questão, o que bem sabemos ser uma grande falácia. O movimento abolicionista defendia em seu prisma os interesses dos brancos que, com uma estratégia pré-elaborada, tinha como intenção manter o negro controlado, sem gerar apoquento a ordem estabelecida. Percebe-se que Nabuco, em alguns momentos, não se distância tanto de Couty, uma vez que ambos rejeitam a participação do negro no processo que os diz respeito, que é o direito a sua liberdade. Com toda essa elucidação, a abolição nos parece ter sido um processo pacífico, um caráter de concessão dos senhores, onde os negros permaneciam em sua inércia sem tentativas de mudança de tal condição. Não eram levadas em consideração suas participações nas tentativas de fugas, assassinatos de seus senhores e rebeliões como amostra de insatisfação com o sistema vigente e que em certa medida contribuiu para a ruína do mesmo. No final do período republicano, entre os anos de 1888 e 1889, um problema é posto aos políticos e intelectuais. O que fazer com os negros ex-escravos e agora futuros cidadãos? Como acomodá-los na nova sociedade brasileira? Uma pergunta bastante astuciosa, pois ainda hoje ela paira e carece de resposta. A república veio como estímulo e possibilidade de um governo igualitário, mas como sempre o negro estava à margem dessa participação e longe de ser reconhecido como cidadão. A abolição fez com que escravos, agora trabalhadores livres, fossem inseridos em subempregos ou desempregados. A passagem da monarquia para república não abarcou a participação da camada popular constituída pelos negros e mestiços. Continuaram os mesmo excluídos da configuração de nação brasileira. Pós-abolição e proclamada à república, o negro ganhou novas conotações, é novamente visto como submisso e inferior, mas agora com outra roupagem, inserido no processo de liberdade. As idéias oriundas do molde Europeu ainda persistiam. O negro continua sendo, muitas vezes, sinônimo de atraso, de ausência de civilização e predisposto biologicamente a criminalidade. Ganha destaque em jornais da época a desqualificação desses supostos cidadãos, envolvidos em relatos que afirmavam a inferioridade biológica e cultural de tal população, enfatizando a propensão à promiscuidade, preguiça, criminalidade, alcoolismo, vadiagem e até mesmo bruxaria. 25 A MUDANÇA ECONÔMICA E A FALSA IDÉIA DE DEMOCRACIA Conforme suscita FERNANDES (2008) a integração do negro na sociedade, mesmo com a economia industrial emergente, era utópica. A participação do negro como atuante no trabalho foi comprometida, sua posição nas relações de produção foi contida. O negro estava fora da possibilidade de ascensão dentro deste sistema, inserido apenas em setores residuais do mesmo. Após todas as implicações para inserção do processo econômico e mudança no quadro racial, os velhos questionamentos sobre a mestiçagem ainda permanecem. Vimos que na Europa a visão que se tinha com ideais eugenistas é que o mestiço era uma combinação inferior e degenerada. Como um país poderia alcançar o avanço se em seu âmago estava presente em grande volume os negros, figura do retrocesso. Percebemos que as noções de progresso e desenvolvimento não se desassociaram das noções de seleção étnica. Contudo, surge na nação uma necessidade de construção da identidade nacional, e se a mesma era composta por mestiços deveria ser trabalhada com aceitação desta condição. O sociólogo Gilberto Freyre (2006) introduz o mestiço como ponto de equilíbrio inter-racial da sociedade brasileira. O autor define que a sociedade por conta de toda sua bagagem histórica, refuta as idéias de raça inferior estabelecida no Brasil. Acreditava que essa miscigenação contribuía para formação de uma identidade única capaz de conter em seu âmbito uma democratização social. Muitas críticas são direcionadas a tese do autor por ser esta carregada de apologia quanto à mestiçagem. Se por um lado o mesmo era contra a condição ariana como superior, por outro era favorável ao branqueamento como símbolo do desenvolvimento cultural. E os negros propriamente ditos? Ainda seriam vistos como primitivos e desfavoráveis? Freyre aparentemente tinha a pretensão de apresentar a possibilidade de uma relação harmoniosa entre etnias, partindo da análise das relações íntimas e da sociabilidade por meio do contexto da família patriarcal. Abandonava desse modo a questão racial. Exaltava a identidade nacional, onde indiferente de cor o povo era uno, era brasileiro. Sustentar tal argumento nos dias atuais, com base na construção de uma democracia racial é, em muitos aspectos, bastante questionável. Não se pode negar que nosso país ainda abriga o preconceito e a discriminação, em vários níveis. Na teoria o preconceito é posto como desprezível, mas na prática ele impera junto às ações 26 cotidianas das mais variadas. O mito da democracia racial foi prejudicial na medida em que, alcançou uma parcela da população negra fazendo com que a mesma imergisse na padronização dos moldes europeizados. Recebiam tal condição na possibilidade de uma aceitação social. Isso acarretou em certa perda de um referencial de raça e desvalorização da negritude. Processo que desencadeou em uma rejeição nas novas gerações que ao invés de se perceberem como negros procuram sentirem-se aceitos e para isso, inserem-se numa tentativa frustrante aos moldes físicos do branco. Como MUNANGA (2009) colocou a necessidade do negro em se assemelhar-se o tanto quanto possível ao branco para reclamar dele o reconhecimento de fato e de direito. Essa é uma nota que nos permite analisar o quão grande foi à extensão da colonização aos negros, um processo tão brutal que ultrapassou a exploração física e deturpou o plano psicológico, inculcando a inferioridade e implantando os padrões europeus como verdade absoluta. Um dos artífices opositor das teses freyrianas, foi FERNANDES (2003). O próprio descreve que “Os ‘brancos’ constituíram a raça dominante e os ‘negros’ a raça submetida”. Alocava a idéia de mito da democracia racial, sendo mito não no sentido de falsidade, mas no sentido de uma ideologia vinda dos dominantes, que inseriam o ideal de comportamento de classe de modo a encobrir seu racismo. Para Fernandes o mito vem no sentido de criar barreiras ao progresso e à autonomia do negro. Se definirmos mito, podemos nos valer das idéias de SOUZA (1983, p. 25): O mito é uma fala. Um discurso - verbal ou visual - uma forma de comunicação sobre qualquer objeto: coisa, comunicação ou pessoa. Mas o mito não é uma fala qualquer. É uma fala que objetiva escamotear o real, produzir o ilusório, negar a história, transformá-la em “natureza”. Instrumento formal da ideologia, o mito é um efeito social que pode entender-se como resultante da convergência de determinações econômicas-político-ideológicas e psíquicas. O mito da democracia de forma geral não rompe com o estigma de inferioridade. A inferioridade atribuída ao negro perdurou mesmo depois da ruína do sistema escravista, até a transição ao capitalismo. O indivíduo negro ainda é visto socialmente como um ser diminuto, sendo essa perspectiva naturalizada pelo campo social devido toda bagagem histórica do “indivíduo de cor”. Sabemos que a lógica da ideologia dominante estabelece a falsa democracia racial e faz com que o próprio grupo negro, não possuindo concepção positiva dentre os seus, se sinta submisso. Dessa forma muitos dos negros se vêem sujeitados a tomar o branco como modelo, um processo que 27 distende e comporta a perda gradativa da identidade negra, negros que não se reconhecem. NECESSIDADE DE DESCONSTRUIR MITOS E RESGATAR DIREITOS A identidade do negro atravessa primeiramente o corpo, e depois do corpo é que se estende para a cultura, história, religião, etc. Se o sujeito não assume tais preceitos, atenua a dificuldade da construção da identidade. Assumir a identidade no que diz respeito às características físicas, é uma ação árdua e dolorosa, já que o indivíduo vai contra uma construção padrão introjetada ideologicamente. MUNANGA (2009) acredita que é pela busca da identidade que o negro poderá despojar-se do seu complexo de inferioridade e colocar-se em pé de igualdade com os outros oprimidos. A recuperação dessa identidade começa pela aceitação dos atributos físicos de sua negritude antes de atingir os campos culturais, mentais, morais, psicológicas; pois o corpo constitui a sede material de todos os aspectos da identidade. Com base nos aspectos ideológicos estabelecidos por uma parcela dominante em nossa sociedade conseguimos demonstrar que a inferioridade do negro, é uma construção social específica, pautada no preconceito racial e em séculos de exploração de grupos étnicos distintos que comungavam da mesma cor de pele. Por esse motivo nos permite imaginar formas diferentes de ordenar a sociedade para acabar com este mal. O movimento negro, com toda sua luta, busca sempre modos e ações que possam fazer valer os direitos que estão previstos em leis e constituições. Dessa forma, podemos compreender como ações afirmativas todo instrumento que fomenta a equidade social e proporciona aos indivíduos sem exceção, direitos igualitários bem como a proteção legal desses direitos. A lei 10.639/03 alterou as diretrizes e bases da educação básica, tornando obrigatório o ensino da temática História e Cultura Afrobrasileira, além da inserção da data de 20 de novembro no calendário escolar como o dia nacional da consciência negra. Essa lei foi instituída por intervenção do movimento social negro que tinha/tem em seu âmago a preocupação da integração dos assuntos africanos e afro-brasileiros nos currículos escolares. A escola, por ser um espaço de sociabilidade e reflexão dos valores sociais, é um ambiente prático para inserção de ideais que conduzam a uma quebra do estigma de inferioridade racial e promova o término do racismo no Brasil. 28 DIFICULDADES E POSSIBILIDADES PARA CUMPRIMENTO DA LEI Observamos que, mesmo com oito anos de sanção da obrigatoriedade da lei, o trabalho com a diversidade é um processo lento. Ainda nos deparamos com o problema da formação docente, que não responde efetivamente o preceito quanto à introdução do conteúdo no currículo escolar. Além disso, o manejo com a temática étnico-racial não é tarefa fácil. A necessidade de crítica dos próprios materiais didáticos que contribuem para formação do professor deve ser levada em consideração, pois muitos deles ainda estão carregados de atribuições preconceituosas e formas que reforçam os estereótipos. Em muitos momentos os jovens negros tendem a se retrair e desistir dos estudos por conta de situações que os diminui; por exemplo, podemos citar circunstâncias em que o “outro” faz uso de expressões verbais preconceituosas, que por vezes depende de uma firme intervenção do professor, que ao invés de interferir no fato, silencia-se. O profissional em muitos momentos não age; ignorar a situação aparenta ser a melhor saída para aquele que não tem argumentos que elucide os diferentes valores das etnias raciais. Desta forma entendemos o quão importante é o papel do professor que poderá contribuir além da permanência desse aluno na escola, para a derrocada de mitos, inserindo as diferenças em pé de igualdade, pluralizando o acesso às histórias de outras origens. Cabe aos futuros profissionais da educação saber trabalhar a multiculturalidade. Deve ser criado um novo ambiente de estudo para os discentes negros, um ambiente em que o mesmo se reconheça e se enxergue como parte da história. Em uma análise pontual sobre a necessidade de reformulações metodológicas para se educar para igualdade, MUNANGA (2009, p. 35) expõe: É através da educação que a herança social de um povo é legada às gerações futuras e inscrita na história. [...] a memória que lhe inculcam não é de seu povo; a história que lhe ensinam é outra; os ancestrais africanos são substituídos por gauleses e francos de cabelos loiros e olhos azuis; os livros estudados lhe falam de um mundo totalmente estranho, da neve e do inverno que nunca viu, da história e da geografia das metrópoles; o mestre e a escola representam um universo muito diferente daquele que sempre a circundou. Com a análise do quadro de dificuldades de professores em trabalhar com a história e cultura afro-brasileira, percebemos que o maior motivo é por não terem visto questões similares em sua formação. A busca sobre como trabalhar essa temática, dependerá de iniciativas por muitas vezes isoladas, do próprio professor. Felizmente, a 29 quantidade de recursos disponíveis para a preparação dos profissionais da educação quanto esse conteúdo étnico, tem aumentado. Além dos livros de apoio muitas universidades paulatinamente têm oferecido cursos de formação continuada, instituindo um processo de coletividade e conscientização com toda equipe escolar, cessando o argumento da falta de formação para ministrar tal conteúdo. CONSIDERAÇÕES FINAIS Podemos avaliar que o mito de inferioridade atribuído aos negros, possui uma parcela de contribuição das teorias raciais, aceitas e difundidas no mundo ocidental desde o século XV. O negro permanece com sua imagem associada à herança escravagista e cientificamente alocada como ser diferenciado e diminuto. Já que podemos afirmar que a idéia de inferioridade do negro é uma construção social, esse processo incutido pode ser desconstruído, e nada mais favorável que seja realizado no viés de uma das principais instituições formadora de opinião, o ambiente escolar. Não podemos nos valer da inocência de que delegar toda responsabilidade na instituição escolar fará com que o racismo seja superado. Sabemos que não é apenas a escola que forma o indivíduo, outras formas de convivência e sociabilidade devem ser ponderadas, mas a escola é um ambiente responsável pelo desenvolvimento de novas idéias, de provocações, motivo pelo qual se torna um lugar privilegiado para promoção das opiniões igualitárias e um espaço que poderá preencher as lacunas deixadas pelo silêncio da contribuição na história dos indivíduos negros. Quando a lei 10.639/03 tornar realidade nas escolas; e apreendido no ambiente escolar de forma significativa, poderá ser estendido para outras esferas de formação social. Se o mito de inferioridade foi edificado através da ciência, por esse mesmo viés poderá ser questionado e refutado. Após a consolidação efetiva da lei e devidos ajustes nas falhas já apresentadas ao longo da dissertação, provavelmente a educação servirá de ferramenta para superação de preconceitos. Podemos identificar que, gradativamente, a lei 10.639/03 contribuirá de forma positiva para ultrapassar o quadro da desigualdade racial presente na sociedade brasileira. A partir do momento que os negros nos conteúdos escolares deixarem de ser vistos apenas como os escravos, sem passado, inferiorizados (moral e fisicamente), sem capacidade e passivos perante seu destino, poderemos avançar na imagem real de um grupo que foi e é atuante na história. 30 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRÉ, Maria da Consolação. O ser negro - A construção de subjetividades em afro-brasileiros.1° ed. Brasília: LGE editora, 2008. COSTA, Hilton; SILVA, Paulo Vinícius Baptista da. (org.). Notas de histórias e cultura afro-brasileiras. Ponta Grossa: Editora UEPG/UFPR, 2007. COUTY, Louis. O Brasil em 1884: esboços sociológicos. Rio de Janeiro: Editora Senado Federal, 1984, volume 29 da coleção Bernardo Pereira de Vasconcelos. FERNANDES, Florestan. O negro no mundo dos brancos. 2° ed. São Paulo: globo, 2003. ____________. A integração do negro na sociedade de classes. 5° ed. Vol. I. São Paulo: Globo, 2008. FREYRE, Gilberto. Casa grande e senzala: formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal. 48° ed. São Paulo: Global editora, 2006. GOMES, Nilma Lino. Sem perder a raiz - corpo e cabelo como símbolos da identidade negra. 2° ed. Belo Horizonte: autêntica editora, 2008. GUIMARÃES, Antônio Sérgio Alfredo. Racismo e Anti-racismo no Brasil. 2° ed. São Paulo: editora 34, 2005. MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Petrópolis: Vozes, 1999. ___________. Negritude usos e sentido. 3° ed. Belo Horizonte: autêntica editora, 2009. NABUCO, Joaquim. O abolicionismo. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938. SANTOS, Gislene Aparecida dos. A invenção do se negro - um percurso das idéias que naturalizam a inferioridade dos negros. 1° ed. São Paulo: Pallas, 2002. SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças – cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. 1° ed. Rio de Janeiro: Graal, 1983. 31 NOVAS ABORDAGENS NO ENSINO DA REVOLUÇÃO FRANCESA: INSERÇÃO DAS TEMÁTICAS DE RACISMO E GÊNERO POR MEIO DA OBRA DE OLYMPE DE GOUGES. Nádia Carrasco Pagnossi Universidade Federal de Uberlândia – UFU Graduanda em História – INHIS Bolsista do PIBID-HCAFRO1 [email protected] Prof. Dra. Regina Ilka Vasconcelos Universidade Federal de Uberlândia – UFU Instituto de História – INHIS [email protected] Este trabalho é fruto de um ano de estudos e a conclusão do Curso de Formação Inicial promovido pelo NEAB, iniciado no segundo semestre de 2010. Agradeço desde já pela oportunidade de realizar esse curso, agradeço à CAPES/ PIBID/ PROGRAD/ NEAB/ HCAFRO por esses dois anos de atuação nas escolas com o objetivo de implementar a lei 10.639/03 e combater o racismo. A luta continua, e programas como esse, de iniciação à docência, são louváveis, visto que há uma crescente desesperança em relação à profissão de educador, e uma desesperança também em relação a erradicar os preconceitos presentes em nossa sociedade. Porém, não vejo meios de desistir de lutar por mudanças sociais em vários níveis, pois acredito no princípio da brava mulher que me inspirou neste trabalho (Olympe de Gouges), de que todas as mulheres e homens são iguais e que deveriam conviver em paz e solidários uns aos outros. Os objetivos desse artigo são: pensar como é possível inserir algumas temáticas que precisam ser discutidas para a quebra de preconceitos em conteúdos sempre reconhecidos por seu eurocentrismo e androcentrismo, como é o caso da história da Europa em geral; oferecer algumas sugestões aos docentes dos ensinos fundamental e médio de como se trabalhar com a obra de Olympe de Gouges no conteúdo da Revolução Francesa, mais especificamente com as temáticas de racismo e gênero; e finalmente fazer uma breve análise de quem foi Olympe e de algumas de suas obras. 1 Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/CAPES - Sub-projeto História e Cultura Afro brasileira. 32 JUSTIFICATIVA, ANÁLISE DAS FONTES E METODOLOGIA Meu trabalho é resultado de uma ideia que tive durante a leitura do livro de Michelle Perrot, Minha história das mulheres, no qual ela comenta que Olympe de Gouges, além de ter escrito “A declaração dos direitos da mulher e da cidadã”, também foi autora de peças de teatro e de panfletos abolicionistas. Utilizarei basicamente três fontes: a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã; a peça L'esclavage des noir (A escravidão negra); e finalmente o tratado Réflexions sur les hommes négres (Reflexões sobre os negros). Antes de analisar a natureza das fontes, é importante saber quem é essa mulher, responsável por escrever os documentos analisados: A autora da Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne (Declaração dos direitos da mulher e da cidadã) é Marie Gouze, mais conhecida como Olympe de Gouges (1748-1793). Em 1793 ela foi guilhotinada em Paris. E a condenação deveuse ao fato de ela ter-se oposto aos conhecidos revolucionários Robespierre e Marat, que a consideraram mulher “desnaturada” e “perigosa demais”. Ao ser conduzida à morte, Olympe de Gouges teria afirmado: “A mulher tem o direito de subir ao cadafalso; ela deve ter igualmente o direito de subir à tribuna”.2 Além disso, Olympe era atriz, escritora de peças de teatro e de panfletos revolucionários. Obviamente, uma mulher com ideias tão revolucionárias teve suas peças e sua própria figura ridicularizadas na época, foi acusada de ser “paranoica” e de ter mania de perseguição por declarar que sua peça L'esclavage des noir fora boicotada por atores, pelos jornais da época (ácidos em suas críticas) e pela Comédie francesa, a qual obteve os direitos autorais de sua peça, pelo fato de não ter alcançado sucesso de bilheteria. A Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã foi escrita em 1791 com dedicatória a Maria Antonieta, possui dezessete artigos, com preâmbulo e pós-âmbulo, no qual ela convida as mulheres a acordarem de seu estado de reclusão no espaço privado e invadirem ativamente o espaço público, exercendo os mesmos direitos políticos e civis que os homens. Este é um dos últimos de seus escritos, em um momento em que já se mostra revoltada com os rumos da revolução, comandada por homens extremamente machistas, que acreditavam que a mulher deveria se dedicar à 2 ASSMANN, Selvino José. Declaração dos direitos da mulher e da cidadã. Tradução e apresentação para DE GOUGES, Olympe. Declaração dos direitos da mulher e da cidadã. Interthesis, Florianópolis, n.1, v.4, jan./jun. 2007. Disponível em: <http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/interthesis/issue/view/154>. Acesso em:13 ago. 2011. 33 satisfação do homem e ficar longe dos assuntos intelectuais e revolucionários. Ela também aponta que as injustiças com as mulheres estão na maioria dos povos, inclusive entre os ex-escravos (alforriados), pois foi uma das militantes contra a escravidão: Mulher, acorda! A força da razão faz-se ouvir em todo o universo: reconhece teus direitos. O poderoso império da natureza já não está limitado por preconceitos, superstição e mentiras. A bandeira da verdade dissipou todas as nuvens da parvoíce e da usurpação. O homem escravo multiplicou suas forças, precisou recorrer às tuas (forças) para romper seus grilhões. Tornado livre, ele fez-se injusto em relação à sua companheira.3 É clara a sua posição em colocar a mulher como importante agente social e político, que no caso, foi uma das coautoras na luta contra a escravidão. É importante frisar que, indignada com os resultados da Revolução Francesa e mesmo antes desta, Olympe de Gouges mostra-se a favor da antiga monarquia em detrimento do Terror instaurado por Robespierre. Defende um governo em que exista um rei, rainha ou governante que zele por todos os seus súditos, respeitando-os e não os oprimindo. Para ela, o monarca/governante deve garantir que os direitos e interesses coletivos prevaleçam em relação aos individuais: o governante deve simbolizar todo o povo. Sua utopia é a de uma monarquia democrática. Apesar de esta ser uma questão interessante e existirem opiniões controversas sobre se Olympe era ou não monarquista, não cabe neste momento essa análise, pois os objetivos do artigo são as discussões de gênero e racismo em suas obras. O desejo da monarquia democrática é claramente expresso em sua peça L'esclavage des noir, que é a segunda fonte escolhida. Escrita em 1783, aceita no mesmo ano pela Comédie-française, impressa em 1786 e apresentada em 1789. O enredo básico da peça é o seguinte: Dois escravos indianos que são amantes (Zamor e Mirza), fogem de seus donos após Zamor ter matado o feitor de Mirza que a amava. Não o faz por ciúme, mas pelo feitor o ter encarregado de castigar Mirza, pois ela não queria tê-lo como amante. Os dois estão em uma ilha deserta nas Índias, onde um naufrágio acontece. Sobrevivem Valère e Sophie, um casal francês, que Zamor e Mirza irão ajudar a salvar. Eternamente gratos, Valère e Sophie irão intervir pela vida dos escravos quando esses são capturados e levados de volta ao seu senhor. O senhor dos dois, M. de Saint-Fremont é o governador da ilha, homem educado e não deseja que Zamor (em especial, porque o considerava como um filho) e Mirza sejam levados à 3 DE GOUGES, Olympe. Pós-âmbulo. Ver: ASSMANN, Selvino José. Declaração dos direitos da mulher e da cidadã. Tradução e apresentação para DE GOUGES, Olympe. Declaração dos direitos da mulher e da cidadã. Interthesis, Florianópolis, v.4, n.1, jan./jun. 2007. Disponível em: <http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/interthesis/issue/view/154>. Acesso em: 13 ago. 2011. 34 morte, porém ele sabe que os outros escravos precisam de um exemplo para não perder o respeito. Sua esposa também busca intervir por eles, mas sem muito sucesso. No final, M. De Saint-Fremont descobre que Sophie era a filha que ele teve em seu primeiro casamento e, comovido com isso, escuta a moça e perdoa os escravos. A história termina com o casamento de Zamor e Mirza e Sophie e Valère sendo aceitos no seio familiar. Durante toda a história, há diálogos entre os escravos do governador sobre o porquê da escravidão, as disparidades de condições entre escravos e senhores. E há uma personagem que aparece em só uma cena, chamada Caroline, que representa as ideias de Olympe; é como se ela entrasse na cena para mostrar seus ideais de igualdade entre os homens e denunciar as injustiças da escravidão e do racismo. Outro ponto importante é que, na história, não há nenhum africano, porém, para os franceses, a denominação noir (negro) era destinada a qualquer pessoa não européia que fosse escravizada. Qualquer um de pele mais escura (mouro, indígena) era chamado de negro. As ideias de Olympe valiam para qualquer caso de escravidão, inclusive a escravização de negros e índios que acontecia na América, como ela deixa claro no prefácio da peça. Porém, ela não deixa de abominar os acordos existentes entre alguns tiranos na África que faziam com que os próprios pais vendessem seus filhos para serem escravos. Na peça, a figura do governador como um bom senhor, que não maltrata os escravos e leva em consideração a opinião do público, deixa clara a sua ideia de monarquia democrática. Olympe advogava que a resistência e a crueldade de alguns escravos para com seus senhores não tinham justificativa, visto que existiam muitos senhores que eram bons. Porém, odiava e condenava ferozmente a escravidão e a dominação do branco sobre o negro, como demonstra em seu tratado de reflexão sobre os negros, escrito em 1788: Eu claramente percebo que a força e o preconceito os condenaram àquela terrível escravidão, na qual a Natureza não representa nenhum papel, e por isso os interesses poderosos e injustos dos Brancos são os únicos responsáveis.(DE GOUGES, 1788, tradução da autora, da tradução inglesa de Maryann De Julio.)4 Esse tratado é como um segundo prefácio sobre a peça escrita em 1783, no qual Olympe esclarece ainda mais suas ideias e se coloca como militante antiescravista. Existem alguns motivos para o seu engajamento e o de outras mulheres nesse tipo de luta na França desse período: 4 I clearly realized that it was force and prejudice that had condemned them to that horrible slavery, in which Nature plays no role, and for which the unjust and powerful interests of Whites are alone responsible. 35 Com efeito, o “universalismo” da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão não conseguiu acolher as diferenças. A Revolução Francesa de 1789 que aboliu a servidão feudal sem compensações não fez o mesmo com a escravidão e o tráfico de africanos. Esse “universalismo” remetia na verdade a um referente singular, a um único sujeito: o homem branco europeu. Não foi, então, por acaso, que as mulheres francesas tornaram-se promotoras da batalha pelos direitos dos negros. Tanto a discriminação da mulher quanto a do negro eram baseadas em pretensas diferenças de ordem biológica.5 Esse não é um fenômeno exclusivo da França, como demonstra Marinete dos Santos Silva, dando visibilidade a brasileiras que lutaram contra a escravidão, como a Princesa Isabel e Suzanne de Castera. Descritas e analisadas em linhas gerais as fontes utilizadas, partirei para a questão prática: a do ensino da revolução francesa. O modo como ele aparece em dois livros didáticos, e propostas de trabalho com a obra de Olympe de Gouges para a inclusão das temáticas de gênero e racismo neste meio. COMO A REVOLUÇÃO FRANCESA É APRESENTADA NOS LIVROS DIDÁTICOS A Revolução Francesa é um dos assuntos mais discutidos, tanto no Ensino Fundamental quanto no Médio e mesmo no Superior. Mas, se na universidade o acesso a diferentes possibilidades interpretativas permite que o aluno conteste e problematize o que lhe é ensinado sobre esse assunto, como será que esse conteúdo é trabalhado com um aluno do Ensino Médio? Se ele tem menos possibilidades de acesso a interpretações diferentes e questionadoras, qual o papel dos(as) professores(as) para tentar lidar com esse e outros temas? Analisarei de que modo é apresentado o conteúdo da Revolução Francesa em dois livros didáticos que estão disponíveis para a escolha dos(as) professores(as) nos cadastros do PNLD (Programa Nacional do Livro Didático): Conexões com a História, de autoria de Alexandre Alves e Letícia Fagundes de Oliveira e História das cavernas ao terceiro milênio, de Patrícia Braick Ramos e Myriam Becho Mota. Nos referidos livros, dedicou-se um capítulo para a Revolução Francesa. Realizarei uma análise crítica sobre o conteúdo e as propostas didáticas dos livros, focando em brechas e possibilidades diferenciadas de atuação. 5 SILVA, Marinete dos Santos. Gênero, cidadania e participação política: as aventuras e desventuras de uma “cocotte” no movimento abolicionista. Caderno Espaço Feminino, Uberlândia, v. 21. n. 1, p. 239-254, jan./jul. 2009. 36 Tratando-se do livro História das cavernas ao terceiro milênio, as autoras iniciam o capítulo sobre a Revolução Francesa, comentando que esta foi o estopim de uma longa crise que já atingia o chamado Antigo Regime. Além da dura estratificação social, que relegava a maioria da população a condições precárias de vida, o livro aponta alguns pensadores que “forneceram elementos para a crítica das estruturas políticas e sociais do absolutismo e a proposta de uma ordem liberal burguesa”6, como Voltaire, Montesquieu, Diderot e D'Alembert. Na sequência, as autoras discorrem sobre as causas da Revolução, em um formato causa/consequência. Apontam a formação da nova Assembleia Constituinte e lembram que umas das primeiras medidas tomadas pela assembleia foi a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, mas pouco é dito sobre esse documento. O livro explica de forma hermeticamente cronológica os acontecimentos da Revolução Francesa, passando pela Convenção Nacional, a República Jacobina, a fase do Terror, e encerra o capítulo com o surgimento do Diretório. Mas em todos esses tópicos e sub-tópicos, o que fica claro é a ausência no livro de alguns sujeitos: existiram mulheres na Revolução Francesa? Existiu alguma discussão sobre a questão dos negros e da escravidão nesse momento? Se algum aluno dependesse exclusivamente desse livro para responder essas perguntas, a conclusão que tomaria seria provavelmente negativa. Se o livro nem sequer explica a importância e o que foi a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, não podemos esperar que ele cite sequer a existência da Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. Já o livro Conexões com a História começa o capítulo sobre a Revolução Francesa de forma diferente. Inicialmente há um tópico sobre os movimentos sociais atuais, tratando também sobre as lutas por igualdade de direitos, incluindo a dos movimentos negros. O capítulo conta com uma reflexão interessante sobre o porquê desses movimentos ser tão atacados e estigmatizados. Afinal, o que esses movimentos querem revolucionar? O livro segue tratando sobre a revolução, afirmando que se hoje todo e qualquer cidadão pode exigir direitos, essa possibilidade de exigência tem algumas de suas bases justamente na Revolução Francesa. Certamente que esse “todo e qualquer cidadão” inclui apenas os homens brancos, porém isso não é demonstrado no texto. Em seguida há uma citação do historiador Henry Peyre, que afirma a importância dos 6 BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. 2 ed. São Paulo: Moderna, 2010. p. 159. 37 filósofos na ebulição do movimento revolucionário, já que foi a partir dessa filosofia que se começou a considerar vil a condição de vida da maioria das pessoas. Segue minimamente uma cronologia, apresentada de forma menos hermética que no outro livro. É feita também uma breve referência à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, mas novamente a declaração escrita por Olympe nem sequer é citada. Os autores fazem uma descrição dos eventos de forma um pouco mais crítica que a do livro anterior, mas novamente fica o questionamento: onde estão as mulheres e os negros? O livro começa o capítulo abrindo uma brecha colossal para trabalhar com temas da contemporaneidade, como as lutas raciais e de gênero, que se enquadram na luta por igualdade, mas peca ao não aproveitar essas possibilidades intertextuais durante o capítulo, nem dialogando com os movimentos abolicionistas/feministas na França revolucionária e nem com a atual conjuntura nacional de uma luta ferrenha pela igualdade dos direitos. POSSIBILIDADES DE INCLUSÃO DA OBRA DE OLYMPE DE GOUGES PARA A DISCUSSÃO DA TEMÁTICA DE GÊNERO E RACISMO Visto que os livros didáticos deixam lacunas para possíveis complementos no conteúdo da Revolução Francesa, acredito ser de suma importância localizar as mulheres e os negros nesse momento, por intermédio da obra de Olympe de Gouges. Quanto à temática do racismo, é possível, em sala de aula, usar os seguintes recursos didáticos e/ou dinâmicas: 1) Realizar uma leitura na íntegra do texto Reflections on negroes (traduzido para o português) com os estudantes, estimulando o debate sobre como eram as condições dos negros e dos escravizados naquele momento na França, e nas colônias francesas, bem como deixar claros o racismo e a dominação do branco sobre o negro; 2) Levar informações de movimentos abolicionistas na França revolucionária, como a Société des Amis des Noirs, da qual Olympe de Gouges era simpatizante; 3) Fazer um paralelo com os movimentos abolicionistas brasileiros, e com a participação das mulheres dentro destes, aproveitando trechos do livro História 38 das mulheres no Brasil de Carla Bassanezi e Mary del Priore7; 4) Realizar leituras de trechos da peça L' esclavage des noir, e propor a encenação de alguns desses trechos, ou a leitura em voz alta com dramatização. 5) Explicitar quais foram os recursos usados por Olympe nessa peça: o estilo melodramático, o final feliz, etc. E realizar um paralelo com o estilo melodramático que vemos no presente, em novelas, filmes e literatura. As possibilidades de trabalho com a obra de Olympe de Gouges neste quesito são enormes, e provavelmente caberá ao(à) professor(a) escolher com qual fonte ele(a) desejará trabalhar. Porém, antes de apontar os possíveis métodos de inclusão da temática de gênero, considero importante citar um dos trechos da peça L' esclavage des noir que pode ser utilizado em sala de aula. O trecho que citarei a seguir é a resposta que Zamor dá a Mirza após ela perguntar o porquê dos europeus possuírem tantas vantagens perante os escravizados se, em sua opinião, todos são humanos: ZAMOR: A diferença é muito pequena; ela existe somente na cor; mas as vantagens que eles têm sobre nós são enormes. A arte para eles tem um lugar acima da Natureza: a educação fez deles deuses, e nós somos apenas homens. Eles nos usam em seus territórios como eles usam animais nisto.(...)A maioria desses senhores bárbaros nos trata com uma crueldade que faz a natureza estremecer. Nossa infeliz espécie cresceu acostumada a esses castigos. Eles cuidam para não nos instruírmos. Se por chance nossos olhos se abrirem, ficaremos horrorizados pelo estado a que eles nos reduziram, e nós devemos nos livrar desse jugo que é tão cruel quanto vergonhoso; mas está em nosso poder escolher nosso destino? O homem difamado com a escravidão perdeu toda sua energia, e o mais brutalizado entre nós é no mínimo infeliz.(DE GOUGES, 1783, tradução da autora, da tradução inglesa de Maryann De Julio.).8 Esse é somente um dos trechos da peça que pode ser trabalhado e analisado em sala de aula. A peça pode ser vista sob vários ângulos, inclusive o das relações sociais: a aceitação de uma filha ilegítima; as relações amorosas diversas; a relação inversa de gênero existente no casal de Saint-Fremont, pois o marido herdou o nome e as terras da companheira; a relação de apadrinhamento do senhor para com o escravo; os jogos de interesses entre o juiz e o governador e, finalmente, a exploração dos escravos. 7 BASSANEZI, Carla; DEL PRIORE, Mary. História das mulheres no Brasil. 2. ed. São Paulo: Contexto, 1997. ZAMOR: That difference is very small; it exists only in color; but the advantages that they have over us are huge. Art has placed them above Nature: instruction has made Gods of them, and we are only men. They use us in these climes as they use animals in theirs.(...) Most of these barbaric masters treat us with a cruelty that makes Nature shudder. Our wretched species has grown accustomed to these chastisements. They take care not to instruct us. If by chance our eyes were to open, we would be horrified by the state to which they have reduced us, and we would shake off a yoke as cruel as it is shameful; but is it in our power to change our fate? The man vilified by slavery has lost all his energy, and the most brutalized among us are the least unhappy. 8 39 Voltando à questão da temática de gênero, acredito que a seguinte citação mostra o porquê da importância de se levantar essa temática no ensino da Revolução Francesa: Os filósofos das luzes não pensam muito diferente. É preciso ministrar às meninas “luzes amortecidas”, filtradas pela noção de seus deveres. Assim diz Rousseau: “Toda educação das mulheres deve ser relativa aos homens. Agradá-los, ser-lhes úteis, fazerse amar e honrar por eles, criá-los, cuidar deles depois de crescidos, aconselhá-los, consolá-los, tornar-lhes a vida agradável e suave: eis os deveres das mulheres em todos os tempos, e o que se deve ensinar-lhes desde a infância”(...) Os revolucionários seguem seus conselhos a esse respeito como em muitos outros. Com exceção de Condorcet e do deputado Le Peletier de Saint-Fargeau, não preveem nada para as meninas, que serão ensinadas pelas respectivas mães, no seio da família.9 O trecho da peça citado acima, em que Zamor diz que os senhores não querem dar educação aos seus escravos, pode então ser claramente relacionado com o trecho escrito por Michelle Perrot: as mulheres também não recebiam a educação adequada. Neste momento, é dever do(a) professor(a) fazer esse tipo de relação e provocar o debate com algumas perguntas: Mulheres e negros não foram/são educados por quais motivos? Há um medo de subversão da ordem androcêntrica e eurocêntrica vigente? Neste sentido, apresento aqui as possibilidades de trabalho com a obra de Gouges, no que diz respeito à temática de gênero: • Fazer uma comparação entre a Declaração dos direitos do homem e do cidadão, de Rousseau e a Declaração dos direitos da mulher e da cidadã, de Olympe de Gouges, apontando as diferenças e semelhanças de objetivos entre as duas declarações e, principalmente, deixando claro qual era a posição que a mulher deveria ocupar para Rousseau (e os demais revolucionários) e para Gouges; • Estudar a biografia de Olympe, e indagar o porquê de sua condenação à guilhotina e de sua fama de louca na época; • Ler trechos da peça L' esclavage des noir que levantam esta temática e debater a repercussão da peça. CONSIDERAÇÕES FINAIS Quando se trata da Revolução Francesa, nunca são pensados os temas como gênero e racismo. Porém, muito se fala em Liberdade, Igualdade e Fraternidade, ideais que as mulheres e os negros não conhecem até hoje, e lutam para alcançar. A 9 PERROT, Michele. Minha Historia das Mulheres. São Paulo: Contexto, 2007. p. 92. 40 humanidade ainda tem muito a caminhar para se livrar dos ranços da escravidão e do patriarcalismo. Com este trabalho, tento provar que é possível o engajamento contra preconceitos em um conteúdo tão eurocêntrico e androcêntrico. Incitar o debate e rever os nossos conceitos e preconceitos é meu principal objetivo. O “século das Luzes” não foi nada iluminado para as populações inferiorizadas, bem como o nosso século também não o é. Nossa luta continua. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, Alexandre, OLIVEIRA, Letícia Fagundes de. Conexões com a História. São Paulo: Moderna, 2010. vol.1. ASSMANN, Selvino José. Declaração dos direitos da mulher e da cidadã. Tradução e apresentação de DE GOUGES, Olympe. Declaração dos direitos da mulher e da cidadã. Interthesis, Florianópolis, n.1, v.4, jan./jun 2007. Disponível em: <http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/interthesis/issue/view/154>. Acesso em: 13 ago. 2011. BASSANEZI, Carla; DEL PRIORE, Mary. História das mulheres no Brasil. 2. ed. São Paulo: Contexto, 1997. BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. 2 ed. São Paulo: Moderna, 2010. DE GOUGES, Olympe. Black slavery or the happy shipwreck. Tradução Maryann De Julio. Paris: [s. n.], 1783. Disponível em: <http://www.uga.edu/slavery/texts/literary_works/black_slavery.pdf>. Acesso em 13 ago. 2011. DE GOUGES, Olympe. Reflections on negroes. Tradução Maryann De Julio. Paris: [s. n.], 1788. Disponível em: <http://www.uga.edu/slavery/texts/literary_works/reflections.pdf>. Acesso em 13 ago. 2011. DE JULIO, Maryann. On translating Gouges. Disponível em: <http://www.uga.edu/slavery/texts/criticalessays/translatinggouges.pdf>. Acesso em 13 ago. 2011. LE HIR, Marie-Pierre. Feminism, Theater, Race: L'esclavage des noirs. Disponível em: <http://www.uga.edu/slavery/texts/criticalessays/feminism_theatre.pdf>. Acesso em 13 ago. 2011. PERROT, Michele; Minha Historia das Mulheres. Tradução Angela M. S. Corrêa. São Paulo: Contexto, 2007. 41 SILVA, Marinete dos Santos. Gênero, cidadania e participação política: as aventuras e desventuras de uma “cocotte” no movimento abolicionista. Caderno Espaço Feminino, Uberlândia, v. 21, n. 1, p. 239-254, jan./jul. 2009. 42 O PENSAMENTO BRANCO DE JOÃO BATISTA LACERDA E SUAS CONSEQUÊNCIAS: BRASIL 1911-2011 João Gabriel do Nascimento Universidade Federal de Uberlândia – UFU Núcleo de Estudos Afro Brasileiros – NEAB Graduando em História – INHIS Bolsista do PIBID-HCAFRO1 [email protected] Prof. Dr. João Marcos Alem2 Universidade Federal de Uberlândia – UFU Instituto de Ciências Sociais – INCIS [email protected] O Brasil no século XIX foi fortemente influenciado pelas teorias cientificas de cunho racista, nos quais vários cientistas estrangeiros e brasileiros acreditavam, defendiam e propagavam a ideia de que a raça3 negra era inferior a branca. Esse ideal foi incorporado na política de estado do inicio da república, quando o governo provisório liderado pelo chefe de governo Marechal Deodoro da Fonseca comandou uma série de decretos, no qual um desses, tratava da regulamentação da entrada e localização de imigrantes no país, sendo que, os indivíduos de origem africana e asiática necessitavam de autorização do Congresso Nacional para desembarcarem em portos brasileiros.4 Diante desse contexto, é necessário refletirmos acerca da política de branqueamento da população, que foi defendida por alguns intelectuais da época e, pelo Estado Brasileiro, uma vez que, no começo do século XX, o Brasil foi o único país latino-americano convidado para participar do Primeiro Congresso Universal das Raças5, realizado em Londres, no período de 26 a 29 de julho de 1911. O então presidente da república, Marechal Hermes da Fonseca enviou como delegado da comissão brasileira, o médico João Batista Lacerda, diretor do Museu Nacional do Rio 1 Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/CAPES - Sub-projeto História e Cultura Afro brasileira. Pós-Doutorado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, França. 3 O conceito raça abordado neste artigo é o mesmo utilizado pelo teórico Stuart Hall, quando o mesmo afirma que “A raça é uma categoria discursiva e não uma categoria biológica.”, HALL, Stuart. A identidade cultural na pósmodernidade. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro. DP&A. 2006, pp. 63. 4 Ver BRASIL. Decreto-lei nº 528, de 28 de junho de 1890. Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brazil. Rio de Janeiro, 1890; p. 1425 5 O congresso foi financiado pela Inglaterra e contou com a participação de outros países: França, Inglaterra, Bélgica, Itália, Pérsia, Turquia, Egito, Japão, África do Sul, Hungria, Rússia, Haiti, Serra Leoa e Brasil. 2 43 de Janeiro. Durante o congresso, João Lacerda apresentou a comunicação “Sobre os mestiços no Brasil”6, no qual elucidou aos participantes do congresso, que o Brasil era um país exemplo, no que tange a mistura das raças, e que devido à política de imigração realizada no país, o branqueamento da população ocorreria com o passar do tempo, ocasionando assim a extinção da raça negra, e consequentemente a modernização do Brasil. O objetivo deste artigo é analisar alguns trechos da comunicação apresentada por Lacerda e, incitar uma reflexão acerca dos resultados das “profecias” por ele anunciadas, focando em duas questões; após cem anos das previsões de João Batista Lacerda, quais são os resultados, no que se refere ao campo biológico? E no campo ideológico, o pensamento de Lacerda, que ganhou apoio de outros intelectuais, e em determinados momentos do próprio Estado Brasileiro, obteve sucesso no transcorrer desse tempo? LACERDA E SEU PENSAMENTO João Batista Lacerda resume em sua comunicação, alguns dos pensamentos que circulavam pelo Brasil na época referida, no que diz respeito ao indivíduo negro. Lacerda afirma que: O negro, quase completamente selvagem, comprado dos feitores africanos e transportado a costa do Brasil pelos traficantes portugueses até a metade do último século, chegava aqui no estado de mais completo embrutecimento que é possível decair uma raça humana. (...) Essa nefasta imigração forçada de escravos pesou sobre os destinos do Brasil até os nossos dias, implicando em resultados morais desastrosos que não desaparecerão a não ser com a lenta ação do tempo. (LACERDA, 1911: 03) Lacerda era apenas mais um, em meio a vários outros intelectuais da época que acreditavam que os negros eram inferiores aos brancos e, que a presença desses no país, era motivo do retardamento do progresso e desenvolvimento. Deste modo, Lacerda, avistou no cruzamento das raças, negra e branca, a resposta para o desenvolvimento e modernização do Brasil, em outras palavras, ele acreditava que a mestiçagem era a “salvação” do Brasil, uma vez que o mestiço herdaria de sua ascendência branca, as habilidades necessárias para a ascensão social, ao passo que as heranças negras, seriam apenas de, “Vícios de linguagem, vícios de 6 Ver LACERDA, João Batista. Sur le métis au Brésil. In; Premier Congrès Universel des Races: 26-29 Juillet 1911. Paris: Imprimérie Devouge. 1911. Tradução: Tradução de Eduardo Dimitrov, Íris Morais Araújo e Rafaela de Andrade Deiab 44 sangue, concepções errôneas sobre a vida e a morte, superstições grosseiras, fetichismo, incompreensão de todo sentimento elevando de honra e dignidade humana (...)” (LARCERDA, 1911: 04). Esse pensamento é o oposto do defendido pelo médico baiano Nina Rodrigues, que no final do século XIX afirmava que a mistura de raças era prejudicial, pois o resultado desse cruzamento geraria seres intelectualmente inferiores, e o país que fosse constituído por raças muito distintas, estava fadado ao declínio.7 A partir da estratégia da miscigenação e da política de imigração praticada pelo Estado Brasileiro, Lacerda esperava que a população brasileira tivesse um aspecto físico bem diferente no decorrer de cem anos. As uniões matrimoniais entre os mestiços e os brancos não são mais repelidas, como já foram no passado, a partir do momento em que a posição elevada do mulato e suas qualidades morais provadas fazem esquecer o contraste evidente de suas qualidades físicas, e que sua origem negra se esvai pela aproximação das suas qualidades morais e intelectuais dos brancos. O próprio mulato esforça-se por meio dessas uniões em fazer voltar seus descendentes ao tipo puro branco. Já se viu, depois de três gerações, os filhos de mestiços apresentarem todas as características físicas da raça branca, por mais que em alguns persistam ainda alguns traços da raça negra devido à influência do atavismo. (LACERDA, 1911: 07) Para ilustrar esse pensamento, João Batista Lacerda, ao apresentar o seu trabalho no congresso, exibiu a tela do artista Modesto Brocos, intitulada “A redenção de Cam”, no qual, trazia como legenda “O negro passando a branco, na terceira geração, por efeito do cruzamento de raças.” 7 Ver mais em SCHUWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil (1870 - 1930). São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 249 45 Imagem 01: “A redenção de Cam”, de modesto Brocos. 1895. Óleo sobre tela, 199 cm x 166 cm. (Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro) A pintura ilustra bem as ideias defendidas e propagadas por Lacerda. Ao analisar a imagem, concordamos com Lilia Moritz Schwarcz, quando a mesma afirma que a tela nos remete a uma família, no qual a “(...) avó era preta retinta, a mãe já trazia traços ‘suavizados e evoluídos’, e o filho localizado no centro da composição, fruto do casamento com um branco (possivelmente estrangeiro e português), mais se parecia com um europeu.” (SCHUWARCZ, 2011: 228) Em outras palavras, podemos dizer que a “profecia” de Lacerda se cumpria, pois, a terceira geração dessa família é representada por uma criança com os aspectos físicos de um branco. Por outro lado, podemos fazer a seguinte leitura, uma avó negra, agradece a Deus, pela filha mestiça ter um marido branco, e pelo fato de seu neto ter herdado os caracteres físicos do pai, resultando assim no branqueamento da família. Nessa perspectiva, podemos dizer que para além do campo biológico, o branqueamento se manifestou no imaginário.8 8 Abordarei melhor essa questão no item A ideologia do branqueamento e suas consequências 46 Diante disso, Lacerda afirmava que “Graças a este procedimento de redução étnica, é lógico supor que, no espaço de um novo século, os mestiços desaparecerão do Brasil, fato que coincidirá com a extinção paralela da raça negra entre nós.” (LACERDA, 1911: 07) João Batista Lacerda encerra seu trabalho com oito conclusões, sendo que, a menção de duas é relevante para o presente artigo. 6. A imigração crescente de povos de raça branca, a seleção sexual, o desaparecimento de preconceito de raça cooperam para a extinção a curto prazo dos mestiços no Brasil. 7. Após um século, provavelmente, a população do Brasil será representada, na maior parte, pelos indivíduos de raça branca, latina e, ao mesmo tempo, o negro e o índio terão sem dúvida desaparecido desta parte da América. (LACERDA, 1911: 12) Lacerda concluiu que as políticas de imigração, que colabora com a entrada de indivíduos da raça branca no país, os cruzamentos inter-raciais e o fim do preconceito de raça, favorecerão para a extinção do mestiço, negro e povos indígenas do Brasil, sendo isso, no prazo de um século. Nesse sentido, se faz necessário pensar quais foram os resultados e consequências dessas conclusões que forjaram os alicerces da ideologia do branqueamento, passados cem anos. A IDEOLOGIA DO BRANQUEAMENTO E SUAS CONSEQUÊNCIAS A partir da década de 1930, a discussão em torno dos “problemas raciais” no Brasil, começa a ficar em segundo plano, isso ocorre em parte, devido ao surgimento da ideia de “democracia racial”, no qual o sociólogo Gilberto Freyre desenvolve uma interpretação benevolente do passado escravista e, enaltece a mestiçagem, nesse caso, Freyre não se refere simplesmente ao cruzamento biológico das raças, mas sim a mistura das culturas negras, brancas e indígenas. No entanto, por mais que Freyre vê na mestiçagem, uma forma de superar os “problemas” culturais entre negros, brancos e indígenas e, desse modo promover a formação identitária do Brasil, o historiador Andreas Hofbauer aponta que Gilberto Freyre reproduzia em seus escritos ideias da ideologia do branqueamento. Mas, por baixo do enaltecimento da miscigenação, o autor reproduziu recorrentemente o velho ideal branqueador, por exemplo, quando escreve em Sobrados e Mucambos: ‘Talvez em nenhum outro país seja possível ascensão social mais rápida de uma classe a outra: do mucambo ao sobrado. De uma raça a outra: de negro a branco (...)’. Ou quando comenta com satisfação e orgulho que, no Brasil, 47 uma mestiça clara bem-vestida e comportando-se como gente fina pode ‘torna[r]-se branca para todos os efeitos.’ (HOFBAUER, 2006: 251) Nessa perspectiva, é notório dizer, que as ideias de Gilberto Freyre, contribuíram para a manutenção e propagação da ideologia do branqueamento, devido principalmente à sua teoria de que o Brasil era uma “democracia racial”, onde não havia preconceitos de raça e, todos viviam em harmonia. Um século após a “profecia” de João Batista Lacerda e, devido às contribuições que a ideologia do branqueamento encontrou no decorrer desse período, se faz necessário respondermos à seguinte questão, em 2011, a população brasileira é representada por uma maioria branca? E os negros foram extintos do Brasil, conforme previsto por Lacerda? A resposta para as duas indagações é não. O Brasil não é representado majoritariamente por indivíduos da raça branca e, muito menos teve sua população negra extinta, ao contrário, de acordo com o Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, o Brasil tem em sua população total, 51,1% de indivíduos que se auto declaram negros.9 Deste modo, podemos afirmar que a “profecia” de Lacerda não se cumpriu no campo biológico, todavia, no campo ideológico, no transcorrer desses cem anos ela vem se difundindo no imaginário social por diversas formas, em diferentes áreas, seja na mídia, educação, política, e/ou outras. No decorrer desses cem anos a ideologia do branqueamento atuou de forma nítida e/ou velada nos distintos tipos de mídia. Um exemplo disso é a peça publicitária (Imagem 02) que foi veiculada na primeira metade do século XX. É possível notar nitidamente que se trata de uma propaganda de teor racista, que remete a ideia dicotômica de que negro é sujo e branco é limpo, em outras palavras, de acordo com o pensamento racista, e devido ao ideal de brancura, era necessário lavar todos os negros com esse sabonete para tornar-los higiênicos, limpos, educados, puros, ou seja, brancos. 9 Denominam-se negros, os indivíduos que se definem como pretos ou pardos. 48 Imagem 02: Imagem publicitária “Um sabonete que embranquece” (Jornal Afro Brasil Notícias, São Paulo, 20 nov. 2007.) Essa e outras imagens que geram interpretações ambíguas foram expostas na exposição “Imagens Perversas e Inocentes” no período de agosto a novembro de 2007, no Museu Afro Brasil, na cidade de São Paulo. O jornal publicado pelo museu no mês de novembro trouxe ao leitor essa e outras duas imagens que representam a exclusão do negro na sociedade e, a ideologia do branqueamento. Algumas peças da exposição apresentam situações que, naturalizadas pelo senso comum, mostram o negro como um ser que precisa ser purificado, embranquecido, como é o caso da peça publicitária de um sabonete que é tão bom que transforma uma criança negra e suja em outra branca e limpa. (CAMARGO, 2007: 16) Concordamos com o jornal, quando o mesmo afirma que determinadas imagens são naturalizadas pelo senso comum, e, afirmamos que essas naturalizações interferem de modo direto no imaginário social, uma vez que, a partir do momento em que uma pessoa negra participa da campanha publicitária de um produto de limpeza, a sociedade não estranha, pois está fixado no imaginário social que o negro tem conhecimento para falar sobre esse produto, em face de sua presença histórica nas ocupações do trabalho doméstico e de limpeza. No entanto, se um negro tem sua imagem veiculada na compra de um carro importado, isso gera suspeita e inquietação 49 no público, pois se pensa que o negro não teria condições de usufruir desse bem e, assim, não teria bagagem cultural para falar dele. A reação do público seria a oposta, se fosse um indivíduo branco que associasse sua imagem com a de um carro importado, pois a sociedade brasileira naturalizou o processo de branqueamento, no qual o indivíduo branco é o aceitável, é o padrão. Deste modo, podemos dizer que, Quanto mais branco melhor, quanto mais claro superior, eis aí uma máxima difundida, que vê no branco não só uma cor, mas também uma qualidade social: aquele que sabe ler, aquele que é mais educado e que ocupa uma posição social mais elevada. (SCHUWARCZ, 1998: 189) Schuwarcz define bem a ideologia do branqueamento, sendo essa definição incorporada e praticada pela mídia brasileira, seja na publicidade, na tele-novela, no cinema, e/ou em outras, em outras palavras, o espaço reservado para os negros na mídia brasileira está quase sempre associado aos estereótipos negativos oriundos da escravidão e, que ganharam uma nova modelagem pós abolição, mas que na essência, são os mesmos. O branqueamento idealizado por Lacerda e outros não se concretizou, no entanto, o branqueamento prevaleceu no imaginário social de parte da população brasileira, ocasionando assim algumas consequências negativas para a sociedade, principalmente para o sujeito negro. A ideologia do branqueamento, pautada pelo racismo, fez e faz com que parte da população negra rejeite sua cor, suas origens, e aspire na cor branca, a “solução” de seus “problemas”. Neusa Santos Souza, em seu livro “Tornar-se Negro”, aponta que devido ao racismo manifestado dentre outras formas, pelo ideal de brancura, “(...) leva o sujeito negro a desejar, invejar e projetar um futuro identificatório antagônico em relação à realidade de seu corpo e de sua história étnica e pessoal.” (SOUZA, 1983: 05) Podemos afirmar que essas são apenas algumas das consequências que a ideologia do branqueamento causa à população brasileira, mais precisamente, a população negra. Entretanto, desde escravização dos africanos até dos dias atuais, há movimentos de resistência as opressões sofridas pelos negros, movimentos esses que surgiram na época que o Brasil era colônia de Portugal, e que no século XX tiveram 50 papel fundamental na divulgação e valorização da cultura negra, e na luta contra o racismo e o ideal de brancura. A RESISTÊNCIA No decorrer desses cem anos, alguns movimentos se destacaram, como por exemplo, a Frente Negra Brasileira que surgiu na primeira metade do século XX e foi extinta no governo de Getúlio Vargas; o Teatro Experimental do Negro (TEN) que foi fundada por Abdias Nascimento e Solano Trindade, dois importantes nomes do Movimento Negro Brasileiro; o Movimento Negro Unificado (MNU) que foi fundado na década de 1970, e contou com o apoio e participação do importante sociólogo e historiador Clovis Moura. A música também foi um importante veículo de denúncia das práticas de racismo, e de resistência a imposição do padrão de beleza europeu. O movimento HipHop que surgiu nos Estados Unidos da América na segunda metade do século XX, e chegou ao Brasil na década de 1980, teve um papel fundamental nesse processo de denúncia da situação do negro no Brasil e, de valorização das raízes africanas, da negritude. Nessa perspectiva, podemos citar alguns trechos das letras de música do grupo paulista de RAP, Racionais Mc’s, cujos conteúdos abordam os acontecimentos cotidianos da população brasileira, em especial, da negra, como um modo resistência e, de re-elaboração de identidades. Não quero ser o Mandela Apenas dar um exemplo Não sei se você me entende Mas eu lamento que, Irmãos convivam com isso naturalmente Não proponho ódio, porém Acho incrível que o nosso compromisso Já esteja nesse nível Mas Racionais, diferentes nunca iguais Afrodinamicamente mantendo nossa honra viva Sabedoria de rua O RAP mais expressivo A juventude negra agora tem voz ativa. (RACIONAIS Mc’s, 1994: disco 01) O grupo Racionais Mc’s demonstra muito bem nessa letra de música, cujo título é “Voz Ativa”, como é ser negro no Brasil convivendo diariamente com o racismo, seja declarado ou camuflado. Entretanto, é nítida a posição do grupo de reagir, mas não com violência, tal como a evitou Nelson Mandela. 51 Atualmente o Hip-Hop é um dos movimentos de cultura negra que mais cresce no Brasil, podendo ser considerado porta voz da realidade de parte da população negra brasileira e, um importante mecanismo na valorização/preservação da cultura afro brasileira e, no combate ao racismo. CONSIDERAÇÕES FINAIS O Brasil hoje tem a segunda maior população negra do mundo e, isso evidencia que a “profecia” de João Batista Lacerda não se concretizou. Todavia como foi demonstrado, o seu pensamento foi incorporado e propagado por diferentes setores da sociedade, ocasionando assim, a manutenção da ideologia do branqueamento, e, passados cem anos, essa ideologia ainda está presente no imaginário social. A ideologia do branqueamento age de modo direto na construção identitária do indivíduo, pois ela se manifesta nas diferentes áreas da sociedade, ocasionando a formação de estereótipos negativos relacionados à população negra. Entretanto, é fato dizer que, os movimentos de resistência e preservação da cultura negra aumentaram consideravelmente nas últimas décadas, sendo isso, algo de extrema relevância na luta contra o racismo, e na valorização do sujeito negro, sujeito esse, que sofre corporal e mentalmente em seu cotidiano os efeitos do racismo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CAMARGO, O. Imagens Perversas e Inocentes escondem racismo. Jornal Afro Brasil Notícias, São Paulo, 20 nov. 2007. HOFBAUER, Andréas. Uma história de branqueamento ou o negro em questão. São Paulo: Editora Unesp, 2006. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Síntese de Indicadores Sociais 2010. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/indicadoresminimo s/sinteseindicsociais2010/default.shtm. Acesso em: 08/07/2011. LACERDA, João Batista. Sur le métis au Brésil. In; Premier Congrès Universel des Races: 26-29 Juillet 1911. Paris: Imprimérie Devouge. 1911. Tradução: Tradução de Eduardo Dimitrov, Íris Morais Araújo e Rafaela de Andrade Deiab RACIONAIS Mc’s. São Paulo: Zimbabwe, 1994. Disco 1 (70min.) 52 SCHUWARCZ, Lilia Moritz. Previsões são sempre traiçoeiras: João Baptista de Lacerda e seu Brasil Branco. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 18, n. 1, jan-mar. 2011. SCHUWARCZ, Lilia Moritz (Org.). História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 189 SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se Negro. Rio de Janeiro, Editora Graal. 1983. 53 PARTE II AUTA DE SOUZA Auta de Souza nasceu em 1876, no município de Macaíba, Rio Grande do Norte. Seus pais morreram quando ela era criança e Auta foi criada pelos avós maternos em Recife. Educada em colégio católico, Auta rapidamente aprendeu Francês, Literatura, Inglês, Música e Desenho. Em razão do diagnóstico de tuberculose, aos 14 anos, Auta teve que deixar o colégio, mas continuou sua formação intelectual sozinha, tornando-se autodidata. A doença, que já havia atingido seus familiares, não impediu que ela começasse a escrever e a declamar, hábito muito comum em reuniões sociais na época. Em 1894, ela começaria a escrever para a revista Oásis, de circulação restrita, pois era veículo do grêmio literário Le Monde Marche. Dois anos depois, passaria a colaborar no jornal A República, periódico com maior visibilidade que o primeiro, não só porque era o mais lido, mas por estabelecer permuta com a imprensa de outras regiões. Assim, mesmo vivendo fora do circuito de maior efervescência intelectual, Auta passaria a ser conhecida e ter seus poemas divulgados no jornal O Paiz, do Rio de Janeiro. Entre 1899 e 1900, ela usaria os pseudônimos de Ida Salúcio e Hilário das Neves para assinar seus poemas. Vários deles foram musicados por compositores regionais e transmitidos oralmente, desde o final do século XIX. Seu grande e único livro publicado foi Horto, de 1900, que mereceu prefácio do mais consagrado poeta brasileiro da época, Olavo Bilac. Pouco depois, em 7 de fevereiro de 1901, com 24 anos, Auta sucumbiria à tuberculose.1 1 Ver mais em http://www.acordacultura.org.br/herois/ 54 HISTÓRIA E CRÔNICA EM MACHADO DE ASSIS Sálua Francinele Ribeiro Universidade Federal de Uberlândia – UFU Graduanda em História – INHIS Bolsista do PIBID-HCAFRO1 [email protected] Prof. Dra. Daniela Magalhães da Silveira2 Universidade Federal de Uberlândia – UFU Instituto de História – INHIS [email protected] Este artigo propõe fazer uma discussão bibliográfica, na qual os autores aqui tratados analisam os vários conteúdos que algumas séries de crônicas do século XIX abordavam, especialmente, as do autor Machado de Assis. Os autores partem de diferentes perspectivas para analisarem as crônicas, abordando por ora assuntos relevantes que nos permite conhecer melhor o cronista Machado de Assis, e sua forma de escrita geralmente caracterizada pelo uso de pseudônimos. COMENTÁRIOS DA SEMANA A série de crônicas “Comentários da Semana” foi analisada no artigo publicado na Revista Brasileira, em 2008, intitulado “Narradores do ocaso da Monarquia”, pelos autores Jefferson Cano, Sidney Chalhoub, Leonardo Pereira e Ana Flávia C. Ramos. Esses autores se apropriam da série e apresentam uma discussão referente aos problemas de interpretação nas crônicas Machadianas oitocentistas. Essas trazem consigo a experiência da indeterminação da história vivida. Além da indeterminação perante os acontecimentos que o autor da crônica e o seu leitor vivem, há a dificuldade de interpretar tais crônicas, haja vista que essas foram assinadas em primeira pessoa, geralmente por um autor fictício. Muitos leitores e críticos ficam 1 Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/CAPES - Sub-projeto História e Cultura Afro brasileira. Daniela Magalhães da Silveira Professora do Instituto de História – Universidade Federal de Uberlândia-UFU. Possui graduação em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (2002), mestrado em História pela Universidade Estadual de Campinas (2005) e doutorado em História também pela Universidade Estadual de Campinas (2009). Tem experiência na área de História, atuando principalmente nos seguintes temas: História e Literatura, História da Imprensa e História da Leitura. Email: [email protected] 2 55 tentados a atribuir o conteúdo político e ideológico das crônicas ao autor Machado de Assis e não ao narrador inventado por ele. Essas questões serão abordadas na observação dos comentários políticos dessa série em questão que, segundo os autores, foi a estratégia mais recorrente entre os narradores machadianos. As crônicas intituladas “Comentários da Semana”, publicadas no Diário do Rio de Janeiro, foi a série de estréia de Machado de Assis no gênero conhecido como crônica de variedades. Foi publicada entre outubro de 1861 e maio de 18623. Machado de Assis, por meio do pseudônimo “Gil”, começou a publicar crônicas no Diário do Rio de Janeiro, nos meses de 1861, sendo essas em sua maioria marcadas pelo caráter exaltado do autor em suas críticas políticas. Mesmo quando a série deixou de ser assinada por “Gil” e foi substituída pelas iniciais “M.A”, não houve qualquer alteração no tom das críticas, nem mesmo no seu conteúdo ideológico. Assim: Parece indicar que, apesar do investimento retórico presente na escrita das crônicas, o sentido do discurso do cronista coincidia de maneira algo transparente com o do jornalista e com o credo geral da redação do Diário. (CHALHOUB: 2008, 296) Essas questões apontadas pelos autores do artigo em questão tiram a possibilidade de conferir uma autoria ficcional ao que Machado escrevia nessa série. Especialmente porque as opiniões eram do próprio autor, diferentemente do que encontraremos em outras séries, publicadas nas décadas seguintes, nas quais as opiniões do autor e do personagem aparecem de forma mais embaralhada. “HISTÓRIA DE QUINZE DIAS” / “HISTÓRIA DE TRINTA DIAS” A série de crônicas “História de Quinze Dias” / “História de Trinta Dias” foi analisada também no artigo publicado na Revista Brasileira, citado anteriormente. Machado de Assis iniciou a série com título “História de quinze dias” em julho de 1876, na revista Ilustração Brasileira. Quanto ao conteúdo político dessa revista, diferentemente do Diário de Notícias, parecia não haver uma defesa explícita de ideias e de sentimentos de qualquer partido. Seu lema era “independência e verdade”. O pseudônimo usado nessa série foi o de “Manassés”, conservado até o seu final. A única mudança ocorrida durante a sua publicação foi o título, que passou a ser 3 CANO, Jefferson; CHALHOUB, Sidney; PEREIRA, Leonardo; RAMOS, Ana Flávia. “Narradores do ocaso da Monarquia (Machado de Assis, cronista)”. Revista Brasileira. Rio de Janeiro, v. 55, pp. 289-316, 2008, pp. 292. 56 “História de Trinta Dias”, seguindo a periodicidade da revista, que deixou de ser quinzenal e passou a ser mensal. Levantam-se algumas hipóteses a respeito da escolha do título da série e do apelido do personagem-narrador. A palavra “História” parecia definir esses textos como se fossem iguais a outro gênero narrativo, ou seja, aquele usado pelos antigos cronistas do século XV e XVI, em que estes se preocupavam apenas em narrar os fatos tais como aconteceram, assemelhando-se assim à noção histórica que perdurou no século XIX. Ao chamar de História o que era crônica, o narrador buscava dar ao seu texto o caráter de objetividade tão caro à Ilustração Brasileira. Machado de Assis explorava as contradições do título da série, a ponto de fazer Manassés pensar sobre seus textos. Para Manassés, ele próprio não passava de um “contador de histórias”. Mas afinal, para ele, o historiador era a mesma coisa, um mero contador de histórias, portanto não se distinguia do cronista. Machado parecia se distanciar de seu personagem-narrador, ironizando a pretensão da série de querer ser tão imparcial. Às vezes, Machado não conseguia essa imparcialidade, que era retratada melhor com a construção de um personagem-narrador. Por ora, o autor expressava repetidamente assuntos que o atingiam de maneira pessoal, como a morte de amigos queridos. “BALAS DE ESTALO” A série de crônicas “Balas de Estalo” foi analisada no artigo publicado na Revista Brasileira4 e também por Ana Flávia C. Ramos, em artigo publicado no livro História em cousas miúdas. Segundo esses trabalhos, a série em questão foi construída coletivamente, pois foi publicada por vários literatos e não somente por Machado de Assis, que usou o pseudônimo de “Lélio”. Essa série teve três anos de duração (1883-1886), contando com a participação de vários narradores-personagens que acompanhavam os mais variados assuntos na década de 1880, como por exemplo, a vinda de imigrantes europeus, as mudanças urbanas na corte, a abolição dos escravos, a questão religiosa no Brasil e, principalmente, a crise no regime monárquico. 4 CANO, Jefferson; CHALHOUB, Sidney; PEREIRA, Leonardo; RAMOS, Ana Flávia. “Narradores do ocaso da Monarquia (Machado de Assis, cronista)”. Revista Brasileira. Rio de Janeiro, v. 55, pp. 289-316, 2008. 57 Essa série de crônicas possuía um caráter ambivalente, pois poderiam ser apenas balas de guloseimas, mas, por outro lado, poderiam representar balas de artilharia, principalmente quando se tratava de assuntos políticos5. Além disso, a série possuía grandes doses de humor, que era um desejo de Ferreira de Araújo, dono da Gazeta de Notícias, jornal no qual foi publicada. Ferreira de Araújo desejava produzir um jornal leve e acessível ao grande público. O uso de pseudônimos ajudava a estabelecer o jogo ficcional entre os narradores, pois muitos literatos escreviam várias crônicas e criavam narradorespersonagens diferentes. Criavam vários personagens com perfis diversos, podendo abordar os mais variados assuntos e de muitas maneiras, sem repetição. Ana Flávia C. Ramos, no livro Histórias em Cousas Miúdas, comenta a série: Em “Balas”, a neutralidade política almejada pela Gazeta era, muitas vezes, deixada de lado, dando lugar a um espaço coletivo de críticas diretas ao regime monárquico e a tudo que ele representava naquele final de século. (FLÁVIA, 2005: 896) Muitos literatos que publicaram crônicas na Gazeta de Notícias, entre eles Machado de Assis, construíram um discurso acerca do ideário político, que naquela época estava voltado principalmente para o progresso e para a visão de um país que buscava se modernizar. Para tal fim, muitos desses literatos atacaram o regime monárquico, que era visto como símbolo do atraso no Brasil. Segundo Ana Flávia C. Ramos, os autores da série faziam uso de vários pseudônimos para falar sobre diversos assuntos e de modos diferentes. Para isso construíam pseudônimos com características bem definidas para instituir uma discussão coletiva que despertasse o interesse do leitor7. Os numerosos autores que constituíram essa série serviram para que houvesse uma maior liberdade, principalmente na hora de se fazer alguma crítica ao imperador, aos gabinetes ministeriais e a atividade política de forma geral. Não era apenas mais um cronista quem falava, mas um grupo de vozes que transformava essa série num verdadeiro debate, permitindo assim que as críticas fossem mais suavizadas, especialmente aquelas destinadas ao regime monárquico. 5 RAMOS, Ana Flávia Cernic. “Políticas e humor nos últimos anos da monarquia”. In: CHALHOUB, Sidney; NEVES, Margarida de Souza e PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. História em cousas miúdas: Capítulos de História Social da Crônica no Brasil. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2005, pp 94. 6 Idem. Op. Cit. p 89. 7 Idem. Op. Cit. p. 100. 58 Para a maioria dos 12 “personagens-narradores” 8, que escreveram a série “Balas de Estalo”, o regime monárquico parecia ultrapassado e não atendia mais às necessidades da população. Era preciso algo inovador que, acima de tudo, proporcionasse o progresso. Para alguns cronistas, a República seria o melhor caminho. Eles construíram nessa série uma função de conduzir a sociedade ao progresso, esse seria um sentido que unificou essa série. “A + B” A série “A+B” foi discutida no mesmo artigo publicado na Revista Brasileira9 e em artigo assinado por Sidney Chalhoub, publicado nas Histórias em cousas miúdas. Essa série foi constituída por apenas sete crônicas, publicadas na Gazeta de Notícias e foi a que apresentou melhor a ideia de personagens imersos na indeterminação de seu tempo, fascinados diante dos acontecimentos, mas que, mesmo assim, buscaram uma significação para o cotidiano da época10. As crônicas eram um diálogo entre dois leitores, “A” e “B”, causando a impressão de que o cronista não interferia no assunto de ambos, pois as vozes eram dos leitores. “A” e “B” eram figurações dos próprios leitores da Gazeta de Notícias11. Se o jogo ficcional agora passava a ser a ideia de reprodução, pelo narrador, de diálogos entre leitores das folhas, também era verdade que tal narrador, apelidado João das Regras, exercia a prerrogativa de escolher o que transcrever. (CHALHOUB: 2008, p. 309) Com relação à elaboração do João das Regras em “A + B”, destaca-se que os diálogos que esse transcreveu foram, em sua grande maioria, sobre problemas financeiros que repercutiram no governo imperial e sobre as insatisfações de lideranças políticas nas províncias. No capítulo “A arte de alinhavar histórias, a série ‘A + B’ de Machado de Assis”, do autor Sidney Chalhoub, há a discussão sobre se os conteúdos das crônicas são ideias de personagens-narradores, criados por Machado de Assis, ou se são do próprio literato. 8 Idem. Op. Cit. p. 96. CANO, Jefferson; CHALHOUB, Sidney; PEREIRA, Leonardo; RAMOS, Ana;Flávia.“Narradores do ocaso da Monarquia (Machado de Assis, cronista)”. Revista Brasileira. Rio de Janeiro, v. 55, pp. 289-316, 2008 10 Idem. Op. Cit. p. 308. 11 Idem. Op. Cit. p. 309 9 59 São narradores com desenvoltura própria, como Brás Cubas ou Dom Casmurro, por exemplo, ou são personalidades fracas, por assim dizer, ventríloquos (ainda que irônicos) de seu autor, Machado de Assis? (CHALHOUB, 2005: 89) Essa pergunta, segundo o autor, é de extrema importância, pois indica de que maneira os textos de Machado de Assis devem ser interrogados para se buscar as intenções e modos que ele pensava sobre assuntos cotidianos. É importante assim para sabermos como lidar com o testemunho de Machado a respeito dos acontecimentos da época e da sociedade em geral. Sidney Chalhoub exemplifica esse problema por meio de duas crônicas da série “Bons dias”, nas quais o personagem-narrador, apelidado de Policarpo, ora se aproxima de Machado, mostrando a irrelevância entre autor e personagem, ora se afasta e torna-se objeto da crítica e da ironia Machadiana. Policarpo se mostra, no decorrer da série, como um narrador de opiniões não totalmente formadas sobre os assuntos que dominavam o cotidiano da época. Por isso parecia usar um discurso que se aproximava, ora da classe senhorial, ora da classe dominada. Esse vaivém do personagem permitia uma maior liberdade para discutir sobre os mais variados assuntos políticos e sociais. Policarpo permanecia envolvido nas indeterminações dos acontecimentos e do processo social, sobre o qual Machado refletia e participava. Segundo Chalhoub, deve-se assim considerar que há várias maneiras e possibilidades de se fazer a leitura da mesma série de crônicas. O que devemos fazer é analisar cada texto da série em particular, procurar entrecruzar as fontes, observar os nexos entre os assuntos e verificar tudo isso na empiria da série12. Deve-se ter um estudo mais aprofundado das séries, para que os leitores consigam distinguir Machado de Assis de seus narradores ficcionais. MODO ESPECÍFICO DE SE TRABALHAR AS CRÔNICAS DE MACHADO DE ASSIS Alfredo Bosi em seu livro Brás Cubas em três versões, publicado em 2006, discute sobre um modo específico de se trabalhar as séries de crônicas de Machado de 12 CHALHOUB, Sidney, NEVES, Margarida de Souza, PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. História em cousas miúdas: Capítulos de História Social da Crônica no Brasil. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2005, pp70. 60 Assis. Esse analista toma algumas séries para discutir questões exclusivas, como por exemplo, a política. Para Bosi, Machado não estava interessado em remontar histórias de feitos políticos. Quando abordava algum acontecimento político que já havia se passado, ele relembrava o fato político para abordar discursos, gestos e reações dos políticos em questão e não para mostrar as consequências ou benefícios de tais atos políticos. Machado não acreditava nem esperava nada (ou quase nada) nem da Política nem da História, escritas aqui com iniciais maiúsculas para diferenciá-las do verdadeiro objeto do cronista: políticos e suas histórias. (BOSI, 2006: 53) O autor traz a tona um acontecimento ocorrido na época do Segundo Reinado, visto como um fato dramático da época, a saber, a demissão por parte de Dom Pedro II do gabinete liberal de Zacarias de Góis, em 1868, que foi substituído então pelo gabinete ultraconservador de Itaboraí. Segundo Bosi, Machado assistiu a tudo, como bom observador que era e como um bom simpatizante dos liberais. Depois de alguns anos, quando fora noticiar a morte de um amigo seu que foi membro daquela Câmara dissolvida, chamado Saldanha Marinho, Machado trata o acontecimento sobre o viés de uma narração repleta de detalhes. Relata os gestos naquela ocasião, os aplausos e as palmas e não o contexto político em si. A leitura de Machado tem a ver com os gestos, os ritos, os gritos, as palmas, os silêncios, a vida, paixão e morte de indivíduos, o ciclo mesmo da existência pelo qual uns vão, outros voltam e todos partem definitivamente. Interessava-lhe, artista que era o estilo dos atores políticos; atraíram-no as suas aparições efêmeras, ora risíveis, ora patéticas, mas não algum sentido da política e da História, que não cabe nas suas crônicas como dificilmente se desprende de seus romances e contos. (BOSI, 2006: 54) Machado desloca o ponto de vista do ato político para as impressões que os espectadores tiveram do acontecimento de 1868. Não há nenhum conteúdo político sobre o ocorrido, tampouco idéias ou projetos que são discutidos ou propostos pelo autor, há apenas uma encenação com falas e agitação no “Velho Senado”. Os espectadores, ou seja, o público estaria ali apenas para ver tal espetáculo. Não havia um interesse desse público em toda a configuração política. Alfredo Bosi, em seu livro, interpreta o olhar de Raymundo Faoro13 (BOSI, 2006 apud FAORO, 1974) sobre as crônicas de Machado. Para Faoro, mesmo que 13 BOSI, Alfredo. “O teatro político na crônica de Machado de Assis”. In: Brás Cubas em três versões: estudos machadianos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, pp 79. Apud FAORO, Raymundo, Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio, São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1974, pp. 495505. 61 Machado se distanciasse de assuntos políticos ou mesmo econômicos, assuntos esses muito discutidos na época, ele não deixava de abordá-los em suas crônicas. Mas Machado não se interessava pelo foco narrativo desses assuntos, foco esse encontrado nos historiadores que fazem uso dessas crônicas. Os historiadores se interessam por buscar a narração de fatos políticos, sociais e econômicos. Machado se preocupava mais com a literatura e suas palavras de devoção Bosi nos traz também sua interpretação da autora Lúcia Miguel Pereira14 (BOSI, 2006 apud PEREIRA, 1988) no que se refere à forma como Machado lidava com assuntos políticos. Para Bosi, Miguel Pereira via um tom discreto e sóbrio de Machado a respeito dos assuntos políticos e sociais. Seria como uma válvula de escape, que serviria para que o autor tivesse certa ascensão social. O decoro no discurso de Machado, em seus gestos e em sua pessoa pública, permitiria que sua intimidade frágil (mulato pobre e enfermiço) não recebesse os golpes da esfera pública com suas formas de dominação. Essa seria uma justificativa, que viria a explicar o tom não indignado e supostamente não crítico que Machado adotaria em suas crônicas dos anos 1860, diferentemente daquele adotado no começo de sua carreira. O cronista se tornou descrente da política que outrora sempre o atraíra15. Segundo Bosi, há várias justificativas que buscam explicar essa mudança, mas tantas justificativas não dão conta da profundidade da mudança ocorrida, que foi ideológica, estrutural e existencial. Bosi foca na ideia de que o interesse de Machado era pelos atores com suas palavras e para a cena com todo seu décor e decoro. Ele teria omitido os conteúdos, valendo-se da retórica política e deixando para o historiador o papel de compreender o drama político que os discursos dos parlamentares traziam a tona. Dessa forma: Machado nada esperava da política enquanto intervenção efetiva na sociedade civil. A política que transforma ou inova não encontra lugar nas suas crônicas, que preferem ver a precariedade nas ações e a vacuidade nas palavras dos homens políticos. (BOSI: 2006, 92) A posição de Machado face ao regime republicano não era positiva, já que, para Machado, de nada adiantaria novas leis, se as condições morais e mentais da sociedade permanecessem a mesma. Segundo Bosi, Machado acreditava que a 14 BOSI, Alfredo. “O teatro político na crônica de Machado de Assis”. In: Brás Cubas em três versões: estudos machadianos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, pp 79. Apud Lúcia Miguel Pereira, Machado de Assis, “Estudo crítico e biográfico”, 6a. ed., ver., Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Edusp, 1988, p. 192. 15 BOSI, Alfredo. “O teatro político na crônica de Machado de Assis”. In: Brás Cubas em três versões: estudos machadianos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, pp 79. 62 população se encontrava em sua infância constitucional e os hábitos dessa população estavam enraizados de tal forma, que um conjunto de leis e constituições outorgadas não permitiria que houvesse de fato uma mudança efetiva. Segundo Bosi, para Machado, os hábitos estavam inseridos no egoísmo inerente a cada homem e essa natureza estava em voga, ora descarada, ora mascarada pela população. O autor Davi Arrigucci nos traz outro olhar analítico, diferente dos autores abordados acima, já que ele, em vez de discutir a respeito das crônicas de Machado de Assis, faz um breve comentário sobre a “crônica” e suas especificidades de uma forma geral. Davi Arrigucci Junior em Enigma e Comentário: Ensaios sobre literatura e experiência, publicado em 1987, explica-nos o significado da palavra crônica, analisando-a fora das séries de Machado de Assis. Arrigucci Junior nos mostra que a crônica, desde o seu surgimento, esteve ligada ao tempo e à memória. O autor aponta que no início o papel fundamental da crônica era de narrar os acontecimentos cotidianos, por isso ela foi caracterizada como crônica histórica. Nessa acepção histórica, o cronista seria então um narrador da História. Arrigucci Junior recorre a uma referência de Benjamim (ARRIGUCI, 1987 apud Benjamim, 1985), para explicitar melhor seu argumento. Para Benjamim16, O historiador escreve os fatos, buscando-lhes uma explicação, enquanto que o cronista, que o precedeu, se limitava a narrá-los, de uma perspectiva religiosa, tomando-os como modelos da história do mundo e deixando toda explicação na sombra da divindade, com seus desígnios insondáveis. (BENJAMIN, 1987: 52) Hoje, quando falamos em crônica, pensamos em algo diferente da crônica histórica, mas em um relato ou comentário de um fato corriqueiro. No Brasil, ela assumiu o papel de gênero literário, com sua relativa autonomia e estética. Passou a ser vista como um fato moderno que se submete às novidades, consumismo, transformações e ao capitalismo. Assim, a crônica adquiriu entre nós toda completude de um texto literário, com sua linguagem, sua complexidade, penetração psicológica e social, pela força poética ou mesmo pelo humor, uma forma de conhecimento da nossa realidade e história. Então a uma só vez ela parece penetrar agudamente na substância íntima de seu tempo e esquivar-se da corrosão dos anos, como se nela se pudesse sempre renovar aos olhos de um leitor atual, um teor de verdade íntima, humana e histórica, impresso 16 ARRIGUCCI JUNIOR, Davi. “Fragmentos sobre a crônica”. In: Enigma e comentário: ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, pp 59. Apud BENJAMIM, Walter. “O narrador” In: Magia e técnica, arte e política. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo, Brasiliense, 1985, pp.209. 63 na massa passageira dos fatos esfarelando-se na direção do passado. (ARRIGUCI, 1987: 53) Para Davi Arrigucci Junior, nas crônicas de Machado havia, por parte do autor, a penetração histórica, que aparecia sob a forma de ironias nas páginas do ficcionista. Arrigucci Junior destaca Gledson e sua visão sobre as crônicas de Machado. Segundo Gledson, Machado, no decorrer dos seus textos, mostra-nos uma aguda consciência histórica17. O cronista tinha profundo interesse pelas questões sociais e políticas de seu tempo. Arrigucci Junior nos traz sua interpretação referente a John Gledson18 (ARRIGUCCI, 1987 apud GLEDSON, 1986), que nos diz que a crônica é um gênero propício à análise machadiana das efemeridades da história política do Brasil. Mas, segundo seu ponto de vista, mesmo na obra machadiana, as crônicas acabam recebendo outra significação: Como os romances, a que elas se ligam por vários lados, e provavelmente também como os contos, fazem parte de um projeto literário e histórico, mais vasto e coerente, que Machado teria concebido, levado pela intenção realista de retratar a natureza e o desenvolvimento da sociedade em que vivia. São, portanto, um elo valioso nas relações entre história e ficção no universo machadiano. (ARRIGUCCI: 1987, 60) Davi Arrigucci nos traz outra interpretação do autor Gledson (ARRIGUCCI 1987, apud GLEDSON, 1986), esse não apenas nos mostra a visão aguda que Machado teve a respeito da História do Brasil, como também uma íntima relação da crônica (“Bons dias”) com o romance, mais precisamente com Quincas Borba e Esaú e Jacó. Gledson demonstra que a atitude agressiva do cronista, na série “Bons dias”, parece anunciar a posição do narrador na versão de Quincas Borba, que é caracterizado justamente por essa agressividade para com o leitor, juntamente com um tom brincalhão19. A crônica, mesmo com enorme número de escritores diferentes entre si, possui em comum o plano expressivo da mesma e a fala coloquial brasileira que se ajustava a observação dos fatos cotidianos, por isso ela se tornou tão próxima do leitor. A linguagem da crônica se adequou à necessidade da pesquisa brasileira, que passou a 17 ARRIGUCCI JUNIOR, Davi. “Fragmentos sobre a crônica”. In: Enigma e comentário: ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, pp 59. 18 ARRIGUCCI JUNIOR, Davi. “Fragmentos sobre a crônica”. In: Enigma e comentário: ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, pp 61.apud GLEDSON, John. Machado de Assis: ficção e história. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. 19 ARRIGUCCI JUNIOR, Davi. “Fragmentos sobre a crônica”. In: Enigma e comentário: ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, pp 61. 64 fazer parte da consciência dos intelectuais, principalmente na Revolução de 30. Assim atingia, através desse viés simplista, a consciência do grande público. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARRIGUCCI JUNIOR, Davi. “Fragmentos sobre a crônica”. In: Enigma e comentário: ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. BOSI, Alfredo. “O teatro político na crônica de Machado de Assis”. In: Brás Cubas em três versões: estudos machadianos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. CANO, Jefferson; CHALHOUB, Sidney; PEREIRA, Leonardo; RAMOS, Ana Flávia. “Narradores do ocaso da Monarquia (Machado de Assis, cronista)”. Revista Brasileira. Rio de Janeiro, v. 55, pp. 289-316, 2008. CHALHOUB, Sidney, NEVES, Margarida de Souza, PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. História em cousas miúdas: Capítulos de História Social da Crônica no Brasil. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2005. GLEDSON, John. “Introdução”. In: ASSIS, Machado de. Bons dias! Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2008. 65 MULHERES ESCRAVIZADAS NA OBRA CASA-GRANDE E SENZALA: RESSIGNIFICAÇÕES CULTURAIS COMO ESTRATÉGIAS DE RESISTÊNCIA Felipe Silva Pasqua Universidade Federal de Uberlândia – UFU Graduando em História – INHIS Bolsista do PIBID-HCAFRO1 [email protected] Prof. Dra. Maria Lúcia Vannuchi Universidade Federal de Uberlândia – UFU Instituto de Ciências Sociais – INICIS [email protected] Se existe um outro momento da História brasileira que também deve ser amplamente pensado, criticado e historicizado é o período da escravidão. Esse processo contínuo de questionamento é importante não só pela conjuntura social contemporânea, que está repleta de estigmas desse período, como o racismo que inunda diversas instituições, que leva inúmeras injustiças àqueles que divergem do desejado padrão racial europeizado (ou seja, branco); ou como a condição patriarcal de nosso tempo, entendida segundo a acepção da “Segunda Onda” do feminismo, na qual “o patriarcado designa uma formação social em que os homens detêm o poder (…), o poder é dos homens.”2 Mas é importante também porque ao rememorarmos determinadas instituições históricas, essas são humanizadas, desnaturalizando-se e começando um processo de desconstrução histórico e ideológico. E já que podemos relacionar a escravidão com o racismo que existe em nosso país, não em uma estreita relação de causa e consequência, como se o racismo fosse fruto apenas e diretamente do processo escravagista que existiu no Brasil, mas entendendo a situação como um dos laços de permanências econômicas, sociais e culturais; podemos também dizer que o regime do patriarcado naquele período deixou, como a escravidão, traços na sociedade atual. Mas como a relação escravidão/racismo, o diálogo entre patriarcado/androcentrismo é muito complicado: primeiro porque não acreditamos que possamos declarar que o patriarcado deixou de existir. Evidentemente, 1 Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/CAPES - Sub-projeto História e Cultura Afro brasileira HIRATA, Helena; LABORIE, Françoise; LE DOARÉ, Hélène; SENOTIER, Danièle. Dicionário Crítico do Feminismo. 1ª ed. Editora UNESP: São Paulo, 2009. 2 66 seu funcionamento não é o mesmo de 200 anos atrás, mas tomando como base o verbete acima, retirado do Dicionário Crítico Feminista, percebemos que ainda hoje existe um poder que privilegia o homem em detrimento da mulher, fazendo com que exista um regime que se utilize de dois pesos e duas medidas para julgar homens e mulheres, tanto na esfera criminal, quanto na esfera do trabalho e principalmente na esfera doméstica. E se essa justiça parcial existe hoje, é também por causa de permanências do período escravocrata da História do Brasil. Quando vemos ainda hoje a utilização de mão de obra escrava em fazendas e fábricas, logo condenamos essa situação, tendo certeza de que um crime está em andamento, portanto, agimos. Mas quando vemos uma mulher ser agredida pelo marido durante uma discussão, quantos de nós acionariam a polícia ou interfeririam no conflito? Na maioria dos casos, será colocado em prática o ditado sobre briga de marido e mulher (“Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”), e nos omitiremos diante de uma situação de violência e abuso de poder. Nossa reação é muito diferente quando vemos um afrodescendente apanhar das autoridades sem motivo aparente a não ser sua cor? Também não nos omitimos diante dessa situação de opressão a um companheiro cidadão, que merece tanto respeito quando acreditamos que merecemos? Não é uma omissão quando não achamos um absurdo a quantidade de negros que vivem em situação de miséria, e principalmente, quando vemos essa situação e nem sequer pensamos em agir? E justamente por acreditarmos que existe uma necessidade de deixar essas relações mais evidentes, esse trabalho pretende relacionar a escravidão no país com as práticas androcêntricas, focalizando nos meados de 1800, as ressignificações culturais entendidas como estratégias de resistências. Essas alterações no plano ideológico cultural foram levadas pelos escravizados, mas especialmente pelas mulheres negras escravizadas, que por terem um contato, de certa forma privilegiado, com a família dos seus dominadores, foi criadora e transportadora dessas ressignificações, que alcançaram toda a sociedade brasileira (em maior ou menor grau dependendo das regiões), se mostrando como sujeitos sociais e políticos de sua época, mesmo que isso não estivesse completamente claro para elas. Para isso, optamos em, através da análise e da observação da obra Casa-grande e Senzala, do brasileiro Gilberto Freyre, realizar uma leitura sobre o autor, à luz dos estudos de gênero, como as obras da historiadora Joan Scott; apreendendo também reflexões do sociólogo francês Pierre Bourdieu. E através desses referências, tentaremos 67 trazer uma perspectiva diferente da obra de Freyre, focando as mulheres escravizadas, que através de ressignificações culturais, protagonizavam resistências ao sistema escravagista, bem como ao sistema androcêntrico no qual estavam inseridas. Em um primeiro momento justificaremos a escolha desse autor, contextualizando-o e mostrando a abrangência de suas ideias tanto no Brasil quanto no exterior. Posteriormente analisaremos mais profundamente o livro Casa-grande e Senzala, alguns de seus pressupostos e intenções, mas sem a pretensão de esgotar a análise desse livro. Para o segundo momento pretendemos trabalhar as ressignificações culturais como estratégias de resistências, focando em trechos do livro que mostram a influência da mulher escravizada sobre a sociedade brasileira, mostrando como essa reelaboração sociocultural pode ser entendida como uma forma de luta contra a escravidão, seja ela realizada conscientemente ou não. Iremos ressaltar o papel-chave da mulher nessa estratégia de resistência, sendo uma transportadora e criadora ímpar nesse processo de ressignificação cultural, religiosa e histórica. Através de transcrições de trechos da obra, deixaremos mais evidentes e discutiremos mais profundamente os tipos de resistência e as formas de ressignificação que ocorriam através e devido a mulher escravizada. Durante essas observações cotejaremos discussões de gênero com as ideias propostas, inserindo teóricas e teóricos que discorram sobre a invisibilidade da mulher na história; sobre o regime androcêntrico que nega a posição de agentes sociais e históricos para a maior parte das mulheres, especialmente se forem negras e escravizadas. Finalizaremos apontando novas possibilidades de discussão sobre ressignificações como estratégias de resistências. FREYRE E CASA-GRANDE E SENZALA: CRÍTICAS, CONSTRUÇÕES E POLÊMICAS O livro Casa-grande e Senzala, desde seu lançamento, causou grande furor no Brasil. Segundo a Biblioteca Virtual Gilberto Freyre, realização da Fundação Gilberto Freyre com apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia, de 1940 até hoje, existem cerca de 55 livros publicados no Brasil sobre o autor. Desses, cerca da metade tem no título, a referência à obra Casa-grande e Senzala, incluindo a Introdução à tradução italiana de Casa-grande e Senzala do historiador Fernand Braudel. O número de artigos sobre a obra, tanto na imprensa comum quanto em periódicos científicos é considerável. 68 Cremos que seja justo dizer que, Freyre é, ao mesmo tempo, um dos autores mais lidos e mais criticados do Brasil. Escrita em 1933, a obra causou espanto nas editoras, devido ao seu tamanho e conteúdo. Freyre se utilizou de inúmeros documentos já elaborados sobre o Brasil: O livro provavelmente recorria a todos os estudos históricos até então publicados no Brasil em português, inglês e francês, bem como a estudos médicos e anatômicos comparativos, à literatura de viagens, a etnografias de diferentes regiões da África e a relatórios coloniais publicados, bem como a algumas reminiscências pessoais, de caráter semi-etnográfico.3. Nesses anos que nos separam da data de lançamento desse livro não foram poucos aqueles que o elogiaram, que o ratificaram, que o criticaram, que o colocaram numa lata de lixo e atearam fogo. Mas perante todas essas reações distintas, só se consegue ter uma certeza: não podemos estudar Gilberto Freyre (e nenhum autor na realidade) tentando inseri-lo em uma definição absoluta, afirmando com convicção militar que sua obra é um retrato perfeito do país ou que ela é apenas um grande livro que só reforçou o preconceito no Brasil (como insistem em afirmar algumas vertentes de alguns movimentos sociais), e muito menos podemos simplificá-lo e mistificá-lo como o criador de um mito. São muitos os que dizem que Gilberto Freyre é o criador do famigerado “mito da democracia racial”. Esse mito consiste na afirmação de que a miscigenação racial que ocorreu no Brasil levou a uma forma democrática mais perfeita e justa do que outras democracias pelo mundo, uma democracia que se pautava pela igualdade imanente entre todos, não apesar da cor, mas especialmente por causa dessa. Se por um lado essa ideia já é considerada insuficiente como teoria social, porque idealiza uma situação que nunca existiu, afinal, a disparidade política, econômica e social derivada de motivos raciais é e sempre foi clara para qualquer um que esteja disposto a ver. Indicar Freyre como autor dessa teoria, por outro lado, já é algo um tanto duvidoso. É difícil achar essa expressão em suas obras, e quando ele se referiu à ela numa entrevista, foi dizendo que o Brasil estava mais para uma democracia racial do que para um formato democrático clássico. Ou seja, parece que se Gilberto Freyre já usou a expressão democracia racial, não foi tão próxima dos termos que conhecemos hoje, que mantém velada uma situação de dominação e rebaixamento de certo componente social. Freyre parece adotar realmente essa ideia de democracia 3 LEHMANN, David. Gilberto Freyre: a reavaliação prossegue. In.: Horiz. Antropol. Vol. 14 n° 29: Porto Alegre, 2008. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-1832008000100015&lang=pt. Acesso em 05/07/2011. 69 racial, mas mais como uma bandeira de uma luta do porvir do que como uma condição pronta da realidade brasileira. MULHERES NO PERÍODO ESCRAVOCRATA: RACISMO E ANDROCENTRISMO A escolha de Gilberto Freyre como fonte desse trabalho vem justamente pelo número de discussões já realizadas sobre ele e sua obra, mas que ainda parecem ter uma brecha: onde estão as mulheres no livro Casa-grande e Senzala? Elas tem certa visibilidade no livro, mas quem são elas realmente? O que elas fazem? Como podemos entendê-las, a partir dos estudos de Freyre, como agente sociais e políticos? Qual é a imagem das mulheres daquela época, sejam elas escravizadas ou não, que podemos vislumbrar através da obra do sociólogo brasileiro? No capítulo IV O escravo negro na vida sexual e de família do brasileiro, Freyre traz alguns apontamentos de valia para nós. Ele começa dizendo que não foi a mulher brasileira que corrompeu a sociedade brasileira, mas a mulher escravizada. Se essa afirmação já é um começo de desconstrução do preconceito para com a negra, culpar a escravizada, naturalizando essa condição socialmente criada, e não a escravidão e a sociedade que a sustentava é algo problemático. Parece ser ainda uma afirmação androcêntrica, que aposta na ideia da mulher como corruptora, que contamina e desvirtua aqueles que estão à sua volta, mesmo quando essa corrupção não provêm dela, mas de um sistema que a envolve, ela é a transportadora dessa baixeza moral. Ou seja, por um lado o estudo de Freyre parece avançar na questão da desnaturalização racial, dizendo que o problema do país estava na escravidão, e não nas diferenças raciais; mas por outro lado ele não parece caminhar quando o assunto é a disparidade de empoderamento social entre mulheres e homens. Aparecem na obra Casa-grande e Senzala algumas personagens femininas muito interessantes como as amas de leite e negras velhas. Essas tinham comportamento importante nessas práticas de ressignificação. De certa forma, elas eram indivíduos sociais empoderados: estão numa sociedade racista e androcêntrica, mas adquiriram alguma liberdade de circulação e estão livres para contar histórias quando interessam à família do seu senhor. Mesmo ao contar histórias que vem do continente europeu, elas modificam a narração, acrescentando fragmentos de histórias que partem da cultura africana. É importante lembrar que tradicionalmente, boa parte das 70 populações africanas preza pela transmissão oral da sua história, que é repassada através da figura das anciãs e dos anciãos de um povo: é o que vemos na figura dos griots, por exemplo. Portanto, tradicionalmente, essas afrodescendentes entendiam a importância da história contada como forma de construção social. Nesse sentido, a oralidade era utilizada como forma de luta contra a opressão sofrida, especialmente pela condição de escravizada. As amas de leite são responsáveis pela educação inicial dos filhos dos senhores, afinal, são as adultas que tem mais contato com eles durante toda a infância. Essa negra estava longe de educar como um professor daquela época (profissão rara além de tudo), muitas sequer sabiam ler em português, mas educavam para a vida como ressalta Gilberto Freyre. E “contaminavam” a sociedade com sua cultura. Mesmo a língua falada conservou-se por algum tempo dividida em duas: uma, das casas-grandes; outra, das senzalas. Mas a aliança da ama negra com o menino branco, da mucama com a sinhá moça, do sinhozinho com o moleque acabou com essa dualidade.4 Mas essa questão nos parece um tanto mais complexa. A interação entre escravos e senhores levou mais do que somente ao fim da dualidade, mas também a uma mistura entre essas duas línguas. Se pode-se dizer que a dualidade deixa de existir, não é devido ao desaparecimento de uma das línguas, pelo contrário, é sim pela nova significação que mescla as duas em uma. Obviamente esse tipo de transformação linguística não ocorre rapidamente, mas durante o passar de séculos. Prova de sua existência é a atual formatação da língua portuguesa que falamos: um verdadeiro caldeirão de expressões que derivam das línguas de matrizes africanas, de línguas européias, asiáticas e indígenas. Outro ponto interessante que denota a presença das mulheres na obra de Freyre é quando ele afirma que existe uma repercussão psíquica devido à bruteza da relação entre brancos e negros na infância, que recai num sadismo, especialmente sobre a mulher, inclusive violência de mulher contra mulher, no caso, da sinhá contra a escravizada. Freyre continua dizendo que a senhora passa a vida sem contrariedades, olhando a senzala da casa-grande, “nunca imaginando que possam estar em erro.”5 Essa imagem construída por Freyre é interessante, porque denota o espaço da mulher branca e rica de forma geral: é a casa-grande, o ambiente doméstico. Freyre 4 FREYRE, Gilberto. Casa-grande e Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal – 51ª ed. São Paulo: Global, 2006. p. 416. 5 Idem. p. 420. 71 critica essa situação dizendo que o fato da senhora de engenho ficar em casa a maior parte do tempo, fazia com que ela se tornasse uma sádica, mimada que não aceitava ser desobedecida. Mas será que esse não era o lugar socialmente instituído da mulher naquele período? Será que ela tinha realmente opções a não ser essa, de ficar recluída no espaço da casa? Essa reflexão é importante porque complexifica o estudo do lugar da mulher na época, buscando-a não só por suas práticas, mas também através da estrutura que a cercava, sobre as formas de poder ao seu redor e que ela reproduzia. Não seria um caso de “domesticalização” da violência ocorrida nas senzalas, nas lavouras e com ela própria na sua relação com seu marido? Pode-se pensar isso através do próprio Freyre, quando ele diz que “Sadistas eram, em primeiro lugar, os senhores com relação às esposas.”6 Portanto, como afirma Tereza Martins Godinho em seu artigo sobre a violência praticada por mulheres brancas contra mulheres negras no período da escravidão em Goiás, nota-se que foi conferido ao homem um poder de decidir para e pela mulher, o que consiste em uma das dominações do patriarcado. Ou seja, conclui-se que a mulher está efetivamente em uma posição inferior que a do homem, bem como o negro está em posição inferior ao branco, o que nos leva a um dúvida: e a mulher negra escravizada? Que era considerada inferior às mulheres brancas, bem como aos escravos. Como afirma Godinho: Considera-se, portanto que as mulheres negras advêm de uma experiência diferenciada e o discurso clássico sobre a opressão da mulher ainda não deu conta da diferença qualitativa da opressão sofrida pelas mulheres negras. O seu perfil é marcado pela opressão e investidas com base no patriarcado. Em geral foram e são agredidas por diversos segmentos, entre eles, pelo homem branco, pelo homem negro, pela mulher branca.7 Podemos complementar Godinho com a citação de Bourdieu, quando este fala sobre a violência simbólica. Ele nos ajuda a entender o processo de apropriação da violência pela senhora de engenho como adequação social, ajudando também a ratificar essas práticas. Por conseguinte, a representação androcêntrica da reprodução biológica e da reprodução social se vê investida da objetividade do senso comum, visto como senso prático, dóxico, sobre o sentido das práticas. E as próprias mulheres aplicam a toda realidade e, particularmente, às relações de poder em que se veem envolvidas esquemas de pensamento que são produto da incorporação dessas relações de poder e 6 Ibidem. p. 421. GODINHO, Tereza Martins. Traços da Violência Praticada Por Mulheres Brancas contra Mulheres Negras no Período Escravocrata, em Fazendas no Estado de Goiás. PUC-SP. Fundação Ford. p. 3. 7 72 que se expressam nas oposições fundantes da ordem simbólica. Por conseguinte, seus atos de conhecimento são, exatamente por isso, atos de reconhecimento prático, de adesão dóxica, crença que não tem que se pensar e se afirmar como tal e que “faz”, de certo modo, a violência simbólica que sofre.8 Ou seja, a mulher negra escravizada parecia e ainda parece estar no ponto mais baixo da pirâmide social formada infelizmente pelo capitalismo, o racismo e o androcentrismo, parafraseando Godinho. Nesse sentido, um trabalho que tente dar conta de uma perspectiva que englobe tanto a luta contra o racismo quanto os estudos de gênero, pode dar o devido valor à mulher negra. Outro momento em que percebemos a presença das mulheres na obra é quando Freyre discorre sobre a relação sexual entre senhoras/escravizados e senhores/escravizadas. Se o segundo caso era tratado com naturalidade (apenas as relações puramente carnais, relações pudessem levar a qualquer tipo de compromisso eram extremamente mal vistas), o primeiro caso, de maneira bem diferente, era tratado com brutalidade singular. Para o escravizado que fosse pego nessa situação, não havia outro caminho senão a mutilação ou a morte. Parece ser um caso de defesa da honra da família, reificando a mulher que teve relações sexuais com um escravo, fazendo dela um objeto que pertence à família, e mais especificamente, tem relação com a honra da família que seria manchada com esse tipo de relação, e só poderia ser limpa com a morte do “culpado”, aquele que desonrou a mulher. É mais um exemplo claro de uma sociedade androcêntrica dominante, no qual são instituídos dois tipos de julgamentos, um para a mulher e outro para o homem. Se o homem pode desfrutar do prazer com quem ele quiser, a mulher só pode fazer sexo para fins reprodutivos. Não só lhe são vetadas as possibilidades de parceria, mas também lhe é proibido o próprio prazer, enclausurando-a em uma situação de constante violência (física, verbal, moral...) e vigilância. Com esse tipo de construção social, não é difícil deduzir que a mentalidade dessas senhoras não poderia divergir dessa lógica de violência e vigilância, mas como a situação social as colocavam em patamar inferior ao dos homens brancos, a prática de sua “vivência social” apreendida ocorria com escravas e escravos. Outro ponto passível de análise decorre da afirmação de Gilberto Freyre, de que era comum que ocorressem casamentos entre os membros da elite ainda quando as mulheres eram muito jovens, na realidade, jovens o suficiente para serem chamadas de 8 BOURDIEU, Pierre. A Dominação Masculina. 8ª ed. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010. p. 45. 73 adolescentes ou mesmo crianças. Não era raro meninas de treze anos casadas com homens bem mais velhos. Além de mais um traço evidente de um sistema androcêntrico, que obriga meninas a casarem contra vontade por causa de interesses econômicos, isso levou a um sério problema de mortalidade dessas jovens mães. Boa parte delas, logo depois de casarem, engravidavam dos senhores de engenho, mas devido à pouca idade e a medicina pouco avançada da época, não resistiam ao parto. Devido ao grande número de mortes de jovens mães, as mucamas acabavam assumindo o papel de criação dos filhos, o que é também uma situação de empoderamento, segundo a lógica de Bourdieu. Essas mucamas, segundo Freyre, eram tidas como aquelas que ensinavam “porcarias” às crianças. Mas o que são essas “porcarias”? Estariam ligadas à religiões afro descendentes? Seriam histórias africanas? Não seria uma espécie de “contra aculturação”, que funcionaria como uma estratégia de resistência à dominação? Dentro dessa lógica é importante a contribuição de Pierre Bourdieu, com seu livro A dominação masculina, no qual ele nos apresenta a noção de “arma dos fracos”. Essa noção consiste em um empoderamento de alguém que é oprimido dentro de um determinado sistema, mas um empoderamento que não consiste necessariamente em uma reviravolta da lógica dos poderes vigentes. Essa noção de empoderamento reforça a nossa ideia de ressignificações culturais funcionando como estratégias de resistência dentro do sistema escravocrata. Afinal, se a mucama assume um papel maternal na criação dos filhos dos senhores de engenho, isso implica em uma série de aquisição de afetividades, o que sem dúvida poderá refletir em benefícios individuais e coletivos a longo prazo. Além disso, ao educá-lo, ela lhe ensina parte de sua cultura, incluindo língua, religiosidade, práticas alimentares, dentre outros fatores culturais. Se entendermos que a posição de transmissão de conhecimento é privilegiada dentro da maioria das sociedades, já que, de certa forma, tem-se um tipo de poder sobre o outro indivíduo, é evidente que essa mucama está empoderada, e mesmo longe de poder levar a uma revolução imediata, está apta a fazer frentes de resistência para os abusos que costuma sofrer. Se entendermos que educação é inicialmente o embate entre gerações distintas, a escravizada já passa, a partir daí a ter mais um “direito”, o de confrontar diretamente o filho de seu senhor, mesmo que seja apenas uma discussão sobre religião, ou um “puxão de orelha” devido alguma travessura. 74 São também empoderadas aquelas mulheres que dormiam com os senhores de engenho. Apesar de não podermos generalizar, lembrando dos inúmeros casos de estupros e abusos pela força, aquelas que aceitavam deitar-se com seus senhores e eram capazes de seduzi-los até certo ponto, provavelmente adquiriam vantagens em relação aos outros escravizados. Mas diferentemente do outro caso, no qual apostamos em um impacto mais amplo e a longo prazo naquilo que podemos chamar de cultura brasileira, com essas escravizadas a “arma dos fracos” aparece de forma mais evidente, porque além de não subverter em praticamente nada a ordem vigente, na realidade, é uma tentativa de se adentrar nessa mesma lógica. É um empoderamento que leva a escravizada a não mais do que a um posto superior ao de outra escravizada, talvez um meio termo entre escrava e sinhá. Outra interessante personagem são as velhas e os velhos pretos que se dedicavam em contar histórias. Freyre afirma que esses idosos tinham certa respeitabilidade dentro da sociedade escravocrata, tendo acesso às casas do senhores de engenho onde podiam contam suas lendas e contos para as filhas e os filhos da elite rural, para as sinhás e mesmo para os senhores. Essas histórias eram basicamente histórias européias, mas que eram alteradas, em maior ou menor grau, de acordo com a cultura africana. Esses sujeitos sociais inseriam assim, no cerne daquela sociedade, elementos de sua cultura através da ressignificação da cultura do dominador. Mas sobre essa miscigenação, creio que seja importante fazer uma ressalva. Se Freyre afirma que: Somos duas metades confraternizantes que se vêm mutuamente enriquecendo de valores e experiências diversas; quando nos completarmos em um todo, não será com o sacrifício de um elemento ao outro.9 Não podemos deixar esse trecho sem uma crítica. Se hoje existem graus de miscigenação na cultura do Brasil, isso não ocorreu de forma tão pacífica quanto diz Gilberto Freyre. É anacrônico dizer que as influências eram mútuas, afinal, os escravos eram obrigados a seguir uma determinada religião e uma determinada forma de agir. O problema é evidente, se houve miscigenação não foi por um processo pacífico, mas através de um embate que além de derramamento de sangue, levou também a ressignificações culturais dos dois lados e até hoje, é complicado dizermos que existe um fim pré-definido para um processo de comunicação/embate entre culturas distintas. 9 FREYRE, Gilberto. Casa-grande e Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal – 51ª ed. São Paulo: Global, 2006. p. 41. 75 Exemplo disso é a permanência que vemos ainda hoje da apropriação das imagens dos santos católicos para se louvar orixás africanos. Se Freyre afirma que: “(...) o certo é que, por contágio e pressão social, rapidamente se impregnou o escravo negro, no Brasil, da religião dominante”.10, imaginamos que o autor cai no mínimo em uma grande fenda de ingenuidade ao achar que alguém pode abandonar tão facilmente suas crenças de toda vida, em detrimento da crença de um senhor dominador que o escraviza e o tortura. A situação parece ser melhor explicada pela tese do sincretismo religioso, que é justamente a que afirma que os africanos e afrodescendentes escravizados se apropriavam da religião européia para exercer a sua. Não seria esse aparente aceite uma forma de resistência velada, evitando assim espancamentos e torturas e permitindo que se rezasse para os deuses africanos e possibilitando que sua cultura africana e afro-brasileira fosse exercida mais tranquilamente? E claro, nesse sincretismo religioso, eram as mucamas e escravas que ensinavam aos filhos e filhas dos senhores a rezar. Como será que essa oração era ensinada? Não seriam inseridos de forma velada traços das religiões de matrizes africanas? Mais um ponto para pensarmos esses indivíduos como sujeitos sociais atuantes e participativos em uma resistência contra a escravidão, se mostrando como mulheres legitimamente empoderadas. CONCLUSÃO Como afirma Godinho, é preciso que nos aprofundemos nos estudos que envolvam tanto as relações de gênero quanto as relações raciais. Nesse sentido, a obra de Gilberto Freyre é uma fonte de primeira linha, tanto pelo conteúdo da pesquisa do autor, como também pela repercussão do livro pelo Brasil e pelo mundo. É importante que sempre olhemos para Casa-grande e Senzala com um olhar crítico, tentando entendê-lo no seu tempo de criação, mas reconhecendo sua importância extrema para os estudos da história do Brasil. Ao adicionar a perspectiva de gênero de Bourdieu e outras teóricas, vemos que as discussões se enriquecem e se tornam mais profícuas para podermos dar visibilidade para as mulheres escravizadas como sujeitos sociais e históricos ativos, especialmente no que toca a resistência e luta contra a escravidão. 10 FREYRE, Gilberto. Casa-grande e Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal – 51ª ed. São Paulo: Global, 2006. p. 437. 76 Entender as ressignificações culturais como práticas de resistência passa pelo entendimento de que a cultura também está envolvida nas práticas de poder, sendo também alvo de interesse da política, e hoje mais do que nunca, dos interesses mercadológicos. Assim sendo, ao conseguir implantar sua cultura na de seu dominador, seja de forma mais ou menos sutil, a escravizada consegue resistir mantendo partes de suas raízes ideológicas e culturais. Assim, se acreditamos na metáfora de John Lennon, em sua música Women is the nigger of the world, também nos questionamos sobre qual seria então a posição da mulher negra nesse mundo? Se temos a certeza de que sua imagem era vista nas mais baixas camadas sociais, podemos também ter completa certeza de que ela não aceitava essa condição tranquilamente, atuando segundo suas melhores possibilidades tanto contra a escravidão quanto contra sua aparente inferioridade por ser mulher, através da ressignificação da cultura. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOURDIEU, Pierre. A Dominação Masculina. 8ª ed. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010. FREYRE, Gilberto. Casa grande e Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal – 51ª ed. São Paulo: Global, 2006. GODINHO, Tereza Martins. Traços da Violência Praticada Por Mulheres Brancas contra Mulheres Negras no Período Escravocrata, em Fazendas no Estado de Goiás. PUC-SP. Fundação Ford. HIRATA, Helena; LABORIE, Françoise; LE DOARÉ, Hélène; SENOTIER, Danièle. Dicionário Crítico do Feminismo. 1ª ed. Editora UNESP: São Paulo, 2009. LEHMANN, David. Gilberto Freyre: a reavaliação prossegue. In.: Horiz. Antropol. Vol. 14 n° 29: Porto Alegre, 2008. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010471832008000100015&la ng=pt. Acesso em 05/07/2011. SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil para a análise histórica. Tradução: Christine Rufino Dabat e Maria Betânia Ávila. Disponível em: http://posterous.com/getfile/files.posterous.com/musadesastrada/toXBpEzMR4ocbyWR RI74eqvUfFBTx8Td8p1XgBIPD4hRvo0XScHHWTKLry99/Joan_Scott_Genero.pdf. Acesso em 04/07/2011. 77 O RAP COMO INSTRUMENTO CONTRA A EXCLUSÃO SOCIAL: OS RACIONAIS MC’S Andressa Oliveira Costa Universidade Federal de Uberlândia – UFU Graduanda em História – INHIS Bolsista do PIBID-HCAFRO1 [email protected] Prof. Dr. Florisvaldo Paulo Ribeiro Júnior Universidade Federal de Uberlândia – UFU Instituto de História – INHIS Núcleo de Estudos Afro Brasileiros – NEAB [email protected] No final da década de 1980 surgiu, na periferia da cidade de São Paulo, um dos grupos que se tornariam um dos mais importante e influente no cenário do rap brasileiro, os Racionais MC’s. Este é composto por quatro integrantes: Mano Brown, KL Jay, Ice Blue e Edy Rock. O nome do grupo é inspirado no disco de Tim Maia e Álvaro Carvalho de 1972, Racional. Uma das músicas do disco de Tim Maia e Álvaro Carvalho serviu de motivação para a criação de uma das músicas de maior sucesso dos Racionais MC’s, “O Homem na Estrada”. Nota-se que os discos do grupo passam por transformações no decorrer de sua criação e produção. Através do trabalho de Cinthia Camargo doutora em Letras pela UNESP [1], obtive o auxilio para identificar essas mudanças principalmente ao observar a diferença na dialética do grupo de um álbum para o outro. Os discos produzidos (Holocausto Urbano, Escolha seu Caminho, Raio X Brasil) no período de 1990 à 1993, trabalham com a realidade do negro sendo marginalizado pelo branco independente de sua classe social, validando a discussão sobre a presença de racismo e preconceito na sociedade brasileira. Já a partir de 1997 nos álbuns que foram produzidos (Sobrevivendo no Inferno e Nada como um Dia após o Outro Dia) percebese que começa a existir na elocução do grupo á uma iteração do sujeito branco e mestiço, levando em consideração que o Brasil é um país de miscigenação de raças, e esses sujeitos também estão presentes no cenário da marginalização brasileira. Porém 1 Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/CAPES - Sub-projeto História e Cultura Afro brasileira. 78 ainda contendo em suas letras um forte apelo aos problemas raciais, como na música Negro Drama do álbum Nada Como Um Dia Após o Outro. O PROTESTO EM FORMA DE VERSOS O rap brasileiro sempre esteve ao lado de protestos e denuncias contra o preconceito racial e social. Os Racionais MC’s se destacaram por suas composições que abordam e denunciam o preconceito racial sofrido pela população negra e o descaso das autoridades competentes e da mídia, que poderia ser um forte veículo de propagação da igualdade racial e social. Neste trabalho foram escolhidas as seguintes músicas para que seja realizada uma análise mais detalhada, a saber: Fim de Semana no Parque do álbum de 1990 (Holocausto Urbano) e Negro Drama do álbum de 2002 (Nada Como Um Dia Após o Outro). OLHA O PRETINHO VENDO TUDO DO LADO DE FORA Na letra da música Fim de Semana no Parque de 1990 podemos observar as críticas ao preconceito tanto social como racial: Olha só aquele clube que da hora,/olha aquela quadra, olha aquele campo/olha, olha quanta gente,/tem sorveteria cinema piscina quente/olha quanto boy, olha quanta mina/afoga essa vaca dentro da piscina/tem corrida de kart dá pra ver/é igualzinho o que eu ví ontem na TV/olha só aquele clube que da hora,/olha o pretinho vendo tudo do lado de fora/nem se lembra do dinheiro que tem que levar/do seu pai bem louco gritando dentro do bar/nem se lembra do dinheiro que tem que levar/pro seu pai bem louco gritando dentro do bar/nem se lembra de ontem, de hoje e o futuro/ele apenas sonha através do muro (...) (...) Aqui não vejo nenhum clube poliesportivo/pra molecada freqüentar nenhum incentivo/o investimento no lazer é muito escasso/o centro comunitário é um fracasso/mas aí se quiser se destruir está no lugar certo/tem bebida e cocaína sempre por perto. Quando os Racionais MC’s diz: “Olha só aquele clube que da hora, olha aquela quadra, olha aquele campo, olha,”, pode-se perceber que quem narra a música fica maravilhado com as coisas que vê, e que é diferente do universo onde o mesmo convive que seria a favela, mas adiante ele diz: “Aqui não vejo nenhum clube poliesportivo pra molecada freqüentar, nenhum incentivo o investimento no lazer é muito escasso o centro comunitário é um fracasso, mas aí se quiser se destruir está no lugar certo tem bebida e cocaína sempre por perto”. Ele se dirige a estrutura física da 79 favela que é uma realidade de descaso e que o governo pouco investe para o lazer das crianças pobres diferente da cena descrita no verso mais acima. A ideia de que o local do negro é a favela é uma das heranças da escravidão, onde ele era considerado “inferior”. Este pensamento ajuda a gerar as conhecidas desigualdades sociais que vem sendo amplamente percebidas e ganhando notoriedade nos últimos anos no Brasil. Como podemos observamos na fala: “Não obstante, o dilema social representado pelo negro liga-se à violência dos que cultivaram a repetição do passado no presente.” (CARNEIRO, Sueli) Na parte da música “Tem sorveteria cinema piscina quente olha quanto boy, olha quanta mina afoga essa vaca dentro da piscina tem corrida de kart dá pra ver, é igualzinho o que eu ví ontem na TV, olha só aquele clube que da hora, olha o pretinho vendo tudo do lado de fora, nem se lembra do dinheiro que tem que levar, do seu pai bem louco gritando dentro do bar”, percebe-se que o grupo faz uma referencia a favela que se retrata no “pretinho” da música, onde os moradores da favela almejam as oportunidades de igualdade, onde ficam maravilhados com as coisas que vêm de fora da sua convivência com a pobreza. Vemos essa realidade de exclusão da população negra na alocução de Kabengele Munanga, "Vozes eloqüentes, estudos acadêmicos qualitativos e quantitativos recentes realizados pelas instituições de pesquisas respeitadíssimas como o IBGE e o IPEA não deixam dúvidas sobre a gravidade gritante da exclusão do negro, isto é, pretos e mestiços na sociedade brasileira.” As descrições apresentadas na letra são ratificadas pelas estatísticas. Segundo dados da UNICEF, de cada dez crianças pobres no Brasil, sete são negras e que filhos de mães negras têm mais chance de morrer do que filhos de mães brancas (UNICEF, 2003). Observa-se que não é uma questão de “achismo”, e sim de dados coletados com pesquisas, demonstrando que a história descrita na música dos Racionais MC’s é uma verdade e que vergonhosamente insiste em se repetir no Brasil até os dias de hoje. Como citado por Mano Brown no inicio de uma das canções do grupo (“Cap. 4, Versículo 3”) do álbum Sobrevivendo ao Inferno, “60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial. A cada 4 pessoas mortas pela polícia, 3 são negras. Nas universidades brasileiras, apenas 3% dos alunos são negros. A cada 4 horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo. Aqui quem fala é Primo Preto, mais um sobrevivente.” Percebe-se como expresso nas letras do grupo Racionais MC’s e nas descrições dos autores citados, que o negro ainda continua sendo marginalizado para as 80 bordas de nossa sociedade, ou seja, as favelas. O grupo Racionais MC’s mostra em suas letras que a população negra precisa lutar e defender seus direitos de igualdade. Igualdade essa que se torna de difícil acesso se tratando de que a sociedade brasileira advém de um passado de escravidão, com a qual contribuiu, posteriormente, para que o racismo científico do século XIX. Este racismo dotou de suposta cientificidade a divisão da humanidade em raças estabelecendo hierarquia entre elas e conferindo-lhes estatuto de superioridade ou inferioridade natural. NEGO DRAMA, ENTRE O SUCESSO E A LAMA. “Nego drama,/entre o sucesso e a lama,/dinheiro, problemas,/inveja, luxo, fama./nego drama,/cabelo crespo, e a pele escura,/a ferida, a chaga, a procura da cura. [...]” No trecho da música acima, os Racionais MC’s passam com toda a sua agressividade nas palavras o lema do negro no Brasil, fazendo um convite ao seu público para identificarem sua música a realidade dos mesmos. Isso é devido a muitos jovens negros possuírem dificuldades de identificação de suas raízes africanas e afrobrasileiras. Essa dificuldade advém do ideal de branqueamento que é proliferado na sociedade que somos pertencentes, como discutido por Kabengele Munanga em entrevista concedida a Estudos Avançados em 13 de fevereiro de 2011: “Parece simples definir quem é negro no Brasil. Mas, num país que desenvolveu o desejo de branqueamento, não é fácil apresentar uma definição de quem é negro ou não. Há pessoas negras que introjetaram o ideal de branqueamento e não se consideram como negras. Assim, a questão da identidade do negro é um processo doloroso”. Em nossa sociedade onde a ideia que persiste é a da herança escravista, as pessoas acabam agindo de forma anestesiada diante aos problemas raciais enfrentados pelos negros. Elucidando a fala acima observe os versos da musica Nego Drama: “Me vê, pobre, preso ou morto,/já é cultural./Histórias, registros,escritos,/não é conto,nem fábula,/lenda ou mito,/não foi sempre dito,que preto não tem vez,/então olha o castelo e não,foi você quem fez cuzão,/eu sou irmão,/dos meus truta de batalha,/eu era a carne,/agora sou a própria navalha.” Ao dizer no verso da música “eu sou irmão,/dos meus truta de batalha,/eu era a carne,/agora sou a própria navalha,” o grupo faz referencia a imagem coletiva dos negros, que assim como eles enfrentam os mesmos problemas impostos pela grande 81 maioria de pensamento etnocêntrico, e que eles estão na luta contra este tipo de pensamento como afirmado por um dos integrantes do grupo, KL Jay “Somos os pretos mais perigosos do país e vamos mudar muita coisa por aqui. Há pouco ainda não tínhamos consciência disso”. No decorrer da música é notável a evolução tanto do personagem Nego Drama quanto ao público atingido pelas suas letras impactantes. No trecho que sucede é explicito que não só as pessoas da favela, mas como alguns jovens das classes dominantes passam a escutar o rap dos Racionais MC’s. E também desmistificação de inferioridade imposta pela sociedade burguesa, que o negro e os pobres não têm voz na sociedade contemporânea: “(...) Inacreditável, mas seu filho me imita,/no meio de vocês, ele é o mais esperto,/ginga e fala gíria,gíria não dialeto,/esse não é mais seu,hó,subiu,/entrei pelo seu rádio,tomei,/cê nem viu,/nóis é isso ou aquilo,/o quê?,cê não dizia,/seu filho quer ser preto,/rhá,que irônia,/cola o pôster do 2Pac ai,/que tal,/que cê diz,/sente o negro drama,/vai,tenta ser feliz,/ei bacana,quem te fez tão bom assim,/o que cê deu,/o que cê faz,o que cê fez por mim,/eu recebi seu tic,/quer dizer kit,/de esgoto a céu aberto,e parede madeirite,”. A música Nego Drama representa a ascensão de um negro na sociedade, em que ele não esquece e valoriza suas raízes africanas e afro-brasileira. Sempre fazendo denuncias e luta contra o descaso com os negros como afirmado por Bruno Zeni em seu trabalho sobre a música Nego Drama “O rap dos Racionais pretende, ao que parece levar a lei da selva que domina a periferia ao interior da casa grande, aos ouvidos da elite, com a certeza brutal – com a agressividade que os afirma e protege – de que eles são demais para o quintal das classes dominantes.” Nada como o próprio Mano Brown para nos dizer o que é o drama do negro na sociedade. Aê, você saí do gueto, mas o gueto nunca saí de você, morou irmão,você tá dirigindo um carro o mundo todo tá de olho em você, morou sabe por quê? Pela sua origem, morou irmão é desse jeito que você vive, é o negro drama, eu não li, eu não assisti eu vivo o negro drama, eu sou o negro drama eu sou o fruto do negro drama. (Mano Brown). A IMPORTÂNCIA DOS RACIONAIS MC’S PARA O PROCESSO DE VALORIZAÇÃO DO NEGRO Os Racionais MCs são um grupo de grande impacto no cenário do rap brasileiro, por suas letras serem carregadas de características de valorização e afirmação 82 da cultura negra. O grupo também se faz muito influente no pensamento critico de vários adolescentes que absorvem suas ideias passadas através da musicalidade. Tendo noção disso, os integrantes dos Racionais MC’s procuram demonstrar que o rap nacional, além de uma forma de protesto pode ser também características de uma mudança no cenário social. Como visto nos textos acima suas músicas têm um forte apelo à valorização do negro, isso faz com que seu público tenha atitudes individuais que façam com que os negros passem a pertencer a um lugar diferente da tradição brasileira. Como enfatizado pelos integrantes do grupo em entrevista ao DJ Sound n.15, em 1991 a respeito de qual a ideia que eles querem transmitir ao seu público: “Gostaria que eles se valorizassem e gostassem de si mesmos” (Mano Brown); “Ideologia e autovalorização” (KL Jay); “Dignidade deve ser o seu lema” (Ice Blue); “Que escutem os Racionais, é lógico; E paz!”. (Edy Rock). CONCLUSÕES As diferenças existem, o governo e a sociedade sabem disso, os negros ganham cada vez mais voz nos espaços públicos, um exemplo desta afirmação é a popularidade e influência que o rap dos Racionais MC’s tem sobre os muitos jovens da população brasileira da periferia além dos jovens de outras classes sociais. Esses reppers servem como referência e símbolo de luta e conquistas do espaço do afro-brasileiro na sociedade contemporânea burguesa, onde o que vale é a cor da pele, e não seu caráter, intelecto e personalidade. Os Racionais MC’s desenvolvem um trabalho exemplar no campo da conscientização e valorização da sua cultura de origem. O preconceito para com esse estilo de musica o rap também é um problema do qual temos que rever nossos conceitos, o rap pode e deve ser inserido no estudo que vai do ensino fundamental ao superior, sendo trabalhado em sala de aula como exemplo de que o rap também é um estilo musical de protesto e com letras que fazem criticas e observações importantes sobre a sociedade em que vivemos e os problemas que são enfrentados por nós como indivíduos pertencentes da mesma. Além de que suas musicas nos mostram que somos pertencentes a um país multiétnico onde todos são iguais perante a constituição. Por conta desta característica da população nacional, deve-se reforçar que as manifestações culturais, religiosas e várias outras são diversificadas e necessitam ser respeitadas em todo seu contexto. 83 Portanto, precisa-se praticar a tolerância. A tolerância nada mais é que receber e aceitar a diversidade, combatendo assim todas as formas de opressão e de desigualdades sociais. Em suma a tolerância é o ato da solidariedade entre grupos, povos, nações. Assim, deve-se quebrar o pensamento etnocêntrico de superioridade de raça, pois não existe raça, existe o racismo, o qual deve ser combatido com atitudes que vão desde as mais simples até as penalidades mais sérias amparadas por leis. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CAMARGO, Cinthia “Quais as possibilidades para a construção de uma literatura afro-brasileira: a representação do sujeito negro contemporâneo.” Disponível em: http://www.xiconlab.eventos.dype.com.br/resources/anais/3/1308363035_arquivo_quai saspossibilidadesparaaconstrucaodeumaliteraturaafro_textocompleto.pdf. Acesso em: 08/01/2012 BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura AfroBrasileira e Africana. Brasília – DF, Outubro, 2004. RACIONAIS MC’S. Fim de Semana no Parque. Composição: Mano Brown/edy Rock. Disponível em: <http://www.vagalume.com.br/racionais-mcs/fim-de-semana-noparque.html#ixzz1XSenXqjV>. Acesso em 07/07/2011. MUNAGA, K. “A difícil tarefa de definir quem é negro no Brasil”. Disponível em <http://umnegro.blogspot.com/2008/05/kabengele-munanga-difcil-tarefa-de.html. Acesso em 24/01/2012. MUNANGA, K. “Políticas de ação afirmativa em benefício da população negra no Brasil – um ponto de vista em defesa de cotas”. Revista Espaço Acadêmico, mar. 2003. Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/022/22cmunanga.htm. Acessado em 07/01/2012. MUNANGA, K. “Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil: Identidade Nacional Versus Identidade Negra”. Petrópolis: Ed. Vozes, 1999. RACIONAIS MC’S. Nego Drama. Composição: Mano Brown/edy Rock. Disponível em: <http://www.vagalume.com.br/racionais-mcs/nego-drama.html#ixzz1XSenXqjV>. Acesso em 28/01/2012. CARNEIRO, Sueli. “A questão dos direitos humanos e o combate às desigualdades: discriminação e violência”. Disponível em: <http://www.unickidsrg.br/pag_texto.php? Acesso em: 12/08/2011. 84 ZENI, Bruno. “O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva”. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010340142004000100020. Acesso em: 10/01/2012. 85 MACHADO DE ASSIS E O TEMA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL Everton Rafael Ferreira Universidade Federal de Uberlândia – UFU Núcleo de Estudos Afro Brasileiros – NEAB Graduando em História – INHIS Bolsista do PIBID-HCAFRO1 [email protected] Profª. Dra. Maria Elizabeth Ribeiro Carneiro Universidade Federal de Uberlândia – UFU Instituto de História – INHIS Centro de Documentação e Pesquisa em História [email protected] Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferecem sua região; mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor, antes de tudo é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no espaço e no tempo. (GLEDSON, 2006, p. 73) Joaquim Maria Machado de Assis, considerado um dos maiores representantes das letras nacionais, na sua escrita, não deixou de demonstrar preocupação em relação às questões políticas de seu tempo. A proposta deste artigo é refletir sobre o assunto a partir de duas crônicas do conjunto intitulado Bons Dias2, escritas nos dias 11 e 19 de maio de 1888, ou seja, no período que foi significativo no processo de abolição da escravidão no Brasil. O autor, como se pode constatar na citação abaixo, apreendia aspectos singulares da sociedade em que vivia e que o cercavam e os registrava em suas obras: Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira nem provavelmente consternará é se outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito dez. Dez? Talvez cinco (...). (ASSIS, 1994, p. 2) De forma irônica, ele evidencia um problema daquele tempo, que era a falta de leitores num país de imensa maioria de analfabetos3. Assim, refere-se à parcela da 1 Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/CAPES - Sub-projeto História e Cultura Afro brasileira. ASSIS, Machado de. Bons Dias. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994. 3 O Censo de 1872 indicava que apenas 16% da população brasileira era alfabetizada, ou seja, sabia ler e escrever. Já o censo de dezoito anos depois (1890) apresentava uma população de alfabetizados de 14,8%, sendo que 12 mil pessoas freqüentavam a educação secundaria e havia oito mil bacharéis no país, num universo de 10 milhões de habitantes. Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano3. Nº 36. Setembro de 2008, Rio de Janeiro: FBN, p. 17. 2 86 população composta por sujeitos escravizados ou libertos que tinham pouco ou nenhum acesso à educação, juntamente com segmentos livres e pobres, marcados por uma relação de desigualdade social, particularmente de raça-etnia, condição ou classe social. Era arguto observador da realidade social que o cercava e sobre ela se deteve criticamente, inclusive ao tratar sobre o tema da escravidão, ao contrário do que defenderam alguns estudiosos, como a historiadora Emilia Viotti da Costa, que afirmam que o escritor “(...) raras vezes, e apenas marginalmente referiu-se a escravos ou a negros” (COSTA, 1999). Ao contrário, Machado de Assis não desconhecia as contradições da sociedade em que vivia e fez questão de abordá-las em seus contos, romances e crônicas, sempre com fino humor e por vezes de forma ácida. Eram as questões que ele lia na sociedade da época também porque o incomodavam. Entre as diversas manifestações sociais e políticas relevantes do período de sua vida, é possível observar registros que dão a ler sua leitura atenta em relação à desagregação do regime escravocrata, ao fim do regime monárquico e ao advento da República, sem dúvida, marcos históricos fundamentais no período. Pensando a relação entre a história e a literatura, pretende-se, aqui, abordar o fenômeno da escravidão na literatura machadiana, ou pelo menos exercitar uma leitura possível das relações sociais conflituosas do período que emergem em alguns trechos de sua escrita. Tal como assinala a historiadora Sandra Jatahy Pesavento, a historiografia está comprometida com “o que aconteceu”, ainda que mediatizado por um narrador que “organiza o acontecido” e “ordena os acontecimentos”. Já o discurso literário trabalha com o que “poderia ter acontecido” (PESAVENTO, 1999, p. 819-20). Como salienta Carneiro, ao se debruçar sobre o estudo da relação entre a história e a literatura à luz de Pesavento, seria importante observar a diferença entre a natureza das duas escritas, embora recursos ficcionais e estratégias de veracidade se combinem de formas distintas (CARNEIRO, 2010, p. 80): os textos históricos comportam recursos ficcionais, numa escrita “controlada pelo documento, pelo arquivo, pelo caco e pelos traços do passado que chegam até o presente”, por sua vez, os textos literários cercam-se de “estratégias documentais de veracidade”. As crônicas, em que pesem os recursos ficcionais e as estratégias de verossimilhança, têm como tema recorrente a discussão sobre como se desenrola a escravidão, abordando a política do cotidiano e a violência nas relações sociais brasileiras. Os utensílios da ordem escravocrata estariam presentes nas ruas e feriam os olhos do escritor, que deixaria em sua escrita a trama dos costumes conflitantes, das 87 maneiras singulares e dos emblemas que evidenciam a violência da sociedade escravocrata: A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo oficio. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha de -flandres. A máscara fazia perder o vicio da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, uma para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vicio de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidades certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel (...). (ASSIS, 2008, p. 49) O TEMA DA ESCRAVIDÃO NAS CRÔNICAS DE MACHADO DE ASSIS As crônicas reunidas na publicação intitulada Bons Dias foram escritas entre os anos de 1888 a 1889, época de grande tensão social e efervescência política que marcariam o processo de abolição da escravatura, a queda da monarquia e o início da Primeira República. Esse conjunto de escritos foi publicado no Jornal Gazeta de Noticias, e talvez para despistar a autoria daquele teor crítico e ácido em relação à sociedade e às instituições mencionadas, a escrita foi registrada sob pseudônimo e a identidade do autor somente seria revelada na década de 50 do século XX. Isso é o que sugere a suposição do historiador Sidney Chalhoub, a seguir: (...) Para permanecer em “Bons Dias!”, o fato de ser Machado de Assis o autor da série era desconhecido dos contemporâneos, ao que parece. A questão só teria sido elucidada na década de 1950, por Galante de Souza, que encontrou na Biblioteca Nacional um estudo inédito, manuscrito, sobre identificação por pseudônimos. (CHALHOUB et al.,2005, p. 70) Em Bons Dias, Machado de Assis descreve aqueles dias difíceis em que se desdobravam as contradições inerentes ao processo de luta pela abolição do regime escravista, e a crônica de 11 de maio é um exemplar de sua inquietação. Nela, ele também nos informa sobre as fugas em grande número de sujeitos escravizados, o valor dos aluguéis destes no mercado de almas, em suma, fala das relações ambíguas de vida e de trabalho e do ambiente de conflitos que preside o cotidiano das cidades: (...) Não é novidade para ninguém, que os escravos fugidos, em Campos, eram alugados. Em Ouro Preto fez-se a mesma coisa, mas por um modo mais particular. Estavam ali muitos escravos fugidos. Escravos, isto é, indivíduos que, pela legislação em vigor, eram obrigados a servir a uma pessoa; e fugidos, isto é, que se haviam subtraído ao poder do senhor, contra as disposições legais. Esses escravos fugidos não tinham ocupação; lá veio, porém, um dia em que acharam salário, e parece que bom salário. (ASSIS, 1994, p. 4) 88 Além de representar uma das formas de resistência ao regime por parte daqueles sujeitos considerados escravos, a fuga de cativos das cidades de Campos e Ouro Preto pode ser compreendida como prática comum, corriqueira, e que exprime a realidade violenta e opressiva do cotidiano vivido por aquelas pessoas. Seres humanos que nem eram considerados “pessoas”, fato que ele enfatiza quando explica o que eram escravos – indivíduos que eram obrigados a servir a uma pessoa -; e o que eram fugidos – que se haviam subtraído ao poder do senhor, contra as disposições legais -. Também ao desnaturalizar suas identidades, como quem ensina a ler a realidade e a violência contida na própria “legislação em vigor”. Existe no texto a denúncia da circunstância que não se tratava de uma prática isolada, e o autor deixa claro o fato de que a fuga “não era novidade para ninguém que os escravos eram alugados”. Essa situação reforça o discurso muito veiculado no período no sentido de que a escravidão acabava por corromper as relações humanas naquele contexto e não esconde o fato de que, àquela altura, não era possível mais entender a dominação escravocrata como uma prática natural ou naturalizada. Os próprios senhores, que seriam os maiores interessados na manutenção do sistema, acabavam por contribuir para a extinção do regime, já que alugavam escravizados fugidos de outros senhores. Nesse momento o comportamento senhorial muitas vezes parecia contrariar a lógica que garantia a preservação e a longevidade do próprio sistema escravocrata, revelando, assim, aquela fase final e esgarçada do regime e seu caráter paradoxal. É interessante ressaltar o fato de Machado de Assis não ser tão explícito em seus escritos, ou talvez exagerado em sua ironia, como na frase final do trecho acima, onde diz que “veio, porém, um dia em que acharam salário e parece que bom salário”. Segundo a análise das obras machadianas, como atenta John Gledson4, ali ele estaria fazendo menção à troca de um regime político por outro em que a situação sócioeconômica dos ex-escravizados nada ou pouco mudaria. Quem os contratou? Quem é que foi a Ouro Preto contratar com esses escravos fugidos aos fazendeiros A, B, C? Foram os fazendeiros D, E, F. Estes é que saíram a contratar com aqueles escravos de outros colegas, e os levaram consigo para as suas roças. Não quis saber mais nada; desde que os interessados rompiam assim a solidariedade do direito comum, é que a questão passava a ser de simples luta pela vida, e eu, em todas as lutas, estou sempre do lado do vencedor. Não digo que este procedimento seja original, mas é lucrativo (...). (ASSIS, 1994, p. 6) 4 Segundo o pesquisador, “A abolição não é um movimento da escuridão para luz, mas a simples passagem de um relacionamento econômico e social opressivo para outro”. (GLEDSON, 2006, p. 156) 89 O que podemos verificar na análise da continuação do trecho, acima, é o quão a esgarçadura da ordem escravista se revela no ambiente das relações entre os senhores que ainda buscam status e prestígio. No âmbito das idéias das antigas elites, e disputando espaço entre os valores arraigados na sociedade desde o período colonial, aparece a competição desmedida, ou a concorrência característica da racionalidade e do espírito capitalista, este que parecia engendrar-se. Os senhores pareciam estar conscientes tanto da fuga, quanto das práticas de contratação de fugidos no círculo das relações dos próprios proprietários. Uma hipocrisia que, embora eles não pudessem evitar ou esconder, era alimentada pelo desejo de muitos dos senhores de terras e de escravos em manter aquele regime, sua posição social, e também o próprio lucro a qualquer preço. Logo, rompia-se, assim, com o que o escritor denomina como “solidariedade do direito comum” entre os senhores, em nome da lucratividade que é apresentada de forma quase cômica, ou tragicômica. Essa contradição no jogo de interesses por trás da questão do abolicionismo aparecerá de forma Machadiana, quer dizer, humorada, além de agressiva e ferina, na crônica de 19 de maio: (...) Bons dias! Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário for, que toda a história desta Lei de 13 de Maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar. Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico. (ID., IBID.) Ao iniciar a crônica, o escritor expressa sua crítica irreverente em relação ao regime escravista e também ao sentimento de religiosidade presente nos debates sobre a abolição. Para traduzir a fala e as idéias da classe senhorial, ele expõe a ambigüidade do projeto político das elites escravocratas brasileiras, que tentam controlar a passagem de um sistema produtivo para outro - no caso, do escravismo pós-colonial para a ordem das relações do trabalho assalariado, sem admitir que pudessem ter prejuízos. Para os proprietários, segmentos sociais e econômicos que configuravam as elites ameaçadas pela iminência de perda do precioso patrimônio, que também representava força de trabalho, era preciso frear o processo, garantir indenizações, conter a perda de poder, como nos informa Roberto Schwarcz sobre os desdobramentos do processo: 90 (...) Passados os anos, é notório que o fim do cativeiro não transformou escravos e dependentes em cidadãos, e que a tônica do processo, pelo contrário, esteve na articulação de modos precários de assalariamento com as antigas relações de propriedade e mando, que entravam para a nova era sem grandes abalos. (SCHWARCZ, 2000, p. 226). Essas antigas relações de propriedade e mando eram evidentes nas crônicas e assunto a ser tratado ao final deste texto. Com a inevitabilidade da emancipação dos escravizados, era comum que os senhores, antevendo que perderiam seu patrimônio, preferissem alforriar sua propriedade humana, utilizando-se desse ato para se promoverem através daquela ação5. Este também foi um discurso muito veiculado no período e Machado dele se apropria, sublinhando essa mistura da caridade com outros sentimentos relacionados à cristandade, com fins de atender aos interesses senhoriais, e assim revela o aspecto histórico e singular dos desejos internos das elites escravocratas. É interessante ressaltar nesta crônica que o ser destituído de humanidade e tornado objeto atende pelo nome de Pancrácio, enquanto o leitor não consegue saber o de seu proprietário, o que poderia revelar assim um jogo de inversão da lógica e de papéis, expondo a desumanidade do senhor, proprietário de escravos, estes, seres geralmente anônimos naquela sociedade. O ser humano escravizado aparece nos textos da época como coisa, objeto, mercadoria, e é esse dado que o localiza na posição inferiorizada nas relações da escravidão, que são reproduzidas na escrita de Machado de Assis. Considerando-se as crônicas e alguns contos, a inferioridade construída será um dos temas recorrentes não apenas em Machado, mas na análise de Gilberto Freyre em uma das famosas obras da sociologia brasileira, Casa Grande & Senzala. Este, por sua vez, recorre ao literato para estudar o assunto e acentuar a violência física presente naquelas relações de dominação: Quase que do moleque leva – pancadas se pode dizer que desempenhou entre as grandes famílias escravocratas do Brasil as mesmas funções de paciente do senhor moço que na organização patrícia do Império Romano o escravo púbere escolhido para companheiro do menino aristocrata: espécie de vítima, ao mesmo tempo em que camarada de brinquedos (...). (FREYRE, 2006, p. 113). A violência e o processo de coisificação de crianças e jovens no período de escravidão brasileira foram aspectos abordados por muitos autores e autoras6 e revelam um traço típico dessa experiência sofrida. Por exemplo, é possível percebê-la na análise 5 Sobre o assunto, ver também: MATTOS, Hebe Maria. Laços de família e direitos no final da escravidão. In: NOVAIS, Fernando (dir.) ALECASTRO, Luiz Felipe de (org.). HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA NO BRASIL (VOLUME 2) - Império: a corte e a modernidade nacional. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. 6 Entre outros, refiro-me ao estudo referencial de MATTOSO, Kátia Queirós. Ser Escravo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1982. 91 de Rúbia Freitas, quando trata a respeito da continuação da escravidão no seio das mulheres escravizadas e dos jovens: (...) A criança escrava também foi vítima do processo de coisificação descrito anteriormente, já que sequestraram, predominantemente, africanos de 15 a 30 anos. Além das crianças negras capturadas na África, havia aquelas nascidas em solo nacional e que, por serem filhas de mulheres escravizadas, nasciam nesta mesma condição. (FREITAS, 2010, p. 47) Portanto, voltando à leitura do parágrafo que abre a primeira crônica, é possível constatar a postura crítica, corrosiva, do autor em relação à sociedade brasileira. E nela, trazida pelo texto, a escravidão aparece clara na trama de seus personagens, estes que não escondem o sentimento de mal-estar do escritor, que inclusive exibe seu espanto em relação à hipocrisia das relações humanas de seu tempo. (...) No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levanteime eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado. Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo (...). (Ibid., 1994, p. 6) Podemos analisar, do trecho acima, sinais do pensamento conservador no contexto abolicionista que pretende que a abolição seja interpretada como uma dádiva ou concessão e não como luta, ou resistência dos sujeitos escravizados. Logo, o objetivo dos senhores, ressaltado no texto de Machado de Assis, era o de evidenciar, com a ironia que lhe era peculiar, que tinham sido eles, os representantes conservadores das elites proprietárias de terras e escravos, única e exclusivamente que promoveram o fim do regime escravista brasileiro. Seriam eles, os grandes mentores e agentes do processo de “evolução” e “civilização” da sociedade brasileira. Ainda que tivessem resistido arduamente à mudança do regime, como o próprio texto evidencia na fala do senhor, seriam eles, senhores, sujeitos pertencentes às camadas consideradas superiores da sociedade - proprietária e senhorial -, os responsáveis pela condução da nação, pelo “progresso” das relações econômicas, sociais e políticas no país. O texto mais uma vez reproduz, na transparência, a ficção senhorial de que a situação continuava sob controle. Sugere que tais liberdades, garantidas gradualmente por meio das fugas e das pressões que levaram às legislações específicas e às 92 possibilidades de acumulação de pecúlio para a auto-compra e alforrias, eram concessões da camada senhorial, do conjunto de senhores; que estas emanavam da vontade senhorial inviolável e soberana, pilar da política de domínio de trabalhadores escravos e dependentes em geral. O mesmo texto, porém, lido a contrapelo, evidencia que, àquela altura, os proprietários de escravos estavam a reboque dos acontecimentos. Conforme ensina Chalhoub, os escravos fugiam em massa das fazendas, “a Lei da Abolição era cousa decidida, a publicidade de tais alforrias cousa fácil de glosar” (CHALHOUB et al. 2005, p. 69). O diálogo entre o senhor e sua propriedade humana exprime a derrota do proprietário e não esconde a violência daquela relação que se desdobra, na crônica: (...) No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza: — Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que... — Oh! meu senhô! fico. — ... Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos... — Artura não qué dizê nada, não, senhô... (ASSIS,1994, p. 6) Neste ponto, Machado de Assis utiliza-se do recurso da metáfora, quando o senhor diz a Pancrácio: no momento em que “nascestes era um pirralho e hoje estás mais alto do que eu”. Assim, ele pretendia mostrar que o processo de dominação escravista estava em franca decadência e que as relações de trabalho capitalista, embora exploradoras, teriam uma impessoalidade quase insuportável na mentalidade do senhor proprietário de bens e de gentes. E, ainda, o autor demonstra que seria difícil superar a violência daquela dominação tão arraigada nas práticas cotidianas. Se ele demarca o crescimento do corpo cativo, como uma figura do crescimento social da imagem de Pancrácio como ser escravizado em vias de ser liberto, entretanto tal figura não condiz com a permanência de uma realidade exploradora do corpo subalterno, que pode ser lida na humildade do personagem escravizado. (...) — Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha. - Eu vaio um galo, sim, senhô. — Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete. Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos. Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí para cá, tenholhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta 93 quando lhe não chamo filho do Diabo; coisas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre. (ASSIS, 1994, p. 6) É notório que a relação senhor versus escravizado não se deu de forma pacífica e harmônica e, para discuti-la, João José Reis e Eduardo Silva colocam uma perspectiva de análise fundamental. Os autores analisam formas de negociação e conflito que se desdobraram no período escravocrata, por exemplo, ao demonstrarem quão complexa era a relação estabelecida no escravismo brasileiro, como se pode observar nos documentos que apresentam no apêndice do livro “Carta de João Dias Pereira Guimarães ao Visconde de Camamu (1828)”. Neste, pode-se tomar contato com a queixa de um senhor de engenho em relação a uma rebelião dos escravizados que estão em pleno conflito e enfrentamento contra o senhor: (...) Tenho precisão representar a V.Exa. que no ano de 1821 se levantaram contra o Sr. do Engenho de Santa Anna os Escravos daquele mesmo Engenho de que é proprietário o Exmo Marquês de Barbacena. Naquele tempo passava do n° 220 de serviço por cujo o motivo veio naquele ano a esta vila o Capitão José Ricardo da Silva a ver se os sossegava, mas ficando mais furiosos requisitou aquele Capitão socorro à Capitania (...). (REIS & SILVA, 1989, p. 124-125) Analisando o documento acima em diálogo com o que sugere parágrafo final da crônica de 19 de Maio, podemos estabelecer uma leitura possível da não-passividade dos escravizados naquela condição. O que transparece é a ambigüidade, acentuada no texto, da relação tensa e esgarçada de vínculo ou de dominação absoluta que envolveria Pancrácio e seu proprietário, bem como o receio que este tem das atitudes do primeiro, diante das grosserias do outro. Do ponto de vista da camada senhorial, esta perderia rendas, poder, status e patrimônio, substantivamente, ao ter o trabalho tradicionalmente prestado limitado à disciplina do trabalho assalariado, ao horário, e ver a possibilidade da exploração exorbitante e da dominação personalizada se desvanecer no horizonte. Lembrando ainda os vários fatores do período que contribuíram para a derrocada do sistema escravagista, podemos citar a abolição da escravatura no Ceará em (1884) e a guerra no Paraguai em (1864-1870). Além, é claro, da própria resistência cotidiana, silenciosa e permanente dos sujeitos escravizados, responsável por centenas de acontecimentos do período que, além de fatores desagregadores do escravismo, funcionaram como elementos de articulação e mobilização dos setores abolicionistas e alimentaram o receio das elites conservadoras e proprietárias. Enquanto isso, o proprietário tentava capitalizar o processo a seu favor, como assinala Machado sem perder a ironia, na crônica: 94 (...) O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes de abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dele teve notícia; que esse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposição) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do Céu. Boas noites. (ASSIS, 1994, p. 6) A atitude do senhor de Pancrácio é bem reveladora de como pensavam as elites escravocratas quanto às atitudes tomadas com respeito à abolição da escravidão. Acompanhando o desfecho da crônica, nela Machado disserta sobre os benefícios que poderia ser auferidos pelo senhor que concedesse a alforria a seu escravizado, como se estivesse preocupado, preparando-o para o mundo dos libertos, para que tivesse uma qualificação com o início da República. Ainda podemos pontuar, na crônica, críticas aos políticos “falsos” e à legislação tardia, no caso à Lei Áurea. Do ponto de vista senhorial, o problema da escravidão seria resolvido pela ação individual e, segundo o texto, esta ação satisfaria as demandas das elites escravocratas. A crônica de 11 de maio por si só oferece um quadro explicativo da realidade social brasileira e ilumina o momento abolicionista. O fim da crônica traz a superação da escravidão como inevitável e logo Machado traduz, não sem fazer-lhe a crítica, o pensamento das elites de seu tempo. Ao explanar o plano do senhor de Pancrácio que, tendo de libertar suas propriedades humanas, seus trabalhadores escravizados, daquele regime de dominação, monta uma argumentação estratégica para tornar-se deputado, por conta de seu ato de pretensa caridade e exibido humanismo. Os trechos mostram que Machado de Assis analisa os acontecimentos, recriaos com doses de realismo, espírito crítico e sarcasmo, retratando, exibindo e intervindo politicamente na realidade de seu tempo e lugar. CONSIDERAÇÕES FINAIS A proposta desse trabalho é tentar discutir, ainda que brevemente, o tema da escravidão a partir de duas crônicas de 11 e 19 de maio de 1988 da série Bons Dias de Machado de Assis. Por se tratar de um artigo, ainda que a discussão pudesse ser ampliada, já que o tema aparece em obras do autor, por exemplo, em romances, tais como, Memória Póstumas de Brás Cubas, Iaiá Garcia, Casa Velha, em contos, entre eles Pai Contra Mãe, foi necessário delimitar esta análise. O objetivo foi, portanto, o de 95 exercitar leituras possíveis, contestando assim, críticas a respeito da omissão e do silêncio do escritor em relação à perversidade e desumanidade que representou a experiência do escravismo no Brasil. Qualquer trecho de crônica ou conto do autor permite revisitar o lugar e o período histórico vivido em muitas de suas contradições. Em um breve exercício, como este, é possível tangenciar o imaginário da sociedade carioca, pensada como um conjunto complexo de sujeitos, interesses, desejos, conflitos, comumente observados e analisados no interior de uma partitura binária vincada, nesse caso, pela ordem escravocrata: de um lado, proprietários de terras e escravos e propriedades humanas, de outro. Ou seja, é possível observar a dicotomia política que fundamenta as relações sociais: sujeitos livres que se desenham em relação aos sujeitos escravizados. Para além do binarismo, todavia, observam-se poderes em movimento na obra machadiana, na expressão e nos gestos de fugidos, lutadores, homens e mulheres escravos, crianças, forros ou libertos, livres, uma gama de sujeitos sociais que emergem entre outros dominados pelos/nos discursos cotidianos do período. A obra permite acessar, portanto, uma sociedade no plural. Machado de Assis não foi um escritor óbvio e talvez esta possa ser considerada uma das explicações para tantos artigos, teses e dissertações sobre sua vida e obra. Essa não-obviedade pode ser traduzida na citação que abre este trabalho. Nela o autor diz não procurar estabelecer doutrinas absolutas em seus escritos. Assim, em romances, contos e crônicas, o que podemos destacar é seu sentimento intimo em relação ao gênero humano e suas motivações, invariavelmente inspiradas nas práticas sociais cotidianas, nas contradições históricas daquela sociedade, nas relações humanas encarnadas nas paisagens das ruas, na realidade de seus contemporâneos. Daí, sua contribuição singular para nós, historiadores, que podemos tomar como fontes aquelas crônicas, entre outras obras que, sob o olhar sensível e a habilidade de sua escrita, aparecem como relevante testemunho em um dado momento da história. A atuação do escritor não se limita apenas à escrita e às representações construídas. Ele trabalhou no Ministério da Agricultura, contribuindo para a aplicação da Lei do Ventre Livre (1871), também conhecida como “Lei Rio Branco”, 96 promulgada em 28 de setembro de 1871, quando foi um dos responsáveis por fiscalizar as práticas em relação à nova norma, como atenta Chalhoub7. Machado, através de suas práticas e seus escritos, transmitiu um legado que dá a ler o contexto humano, político, cultural, em suma histórico, as experiências que mirou e vivenciou, e muito sobre as relações sociais conflituosas e tensas que abordou com lucidez e sensibilidade em muitos de seus textos. Através de sua literatura, obra de uma riqueza impressionante, é possível debruçar-se e aprofundar a análise, a fim de ampliar essa perspectiva, inclusive com base em olhares que salientam justamente o caráter histórico e político desse conjunto. Na análise empreendida, portanto, procurou-se demonstrar um pouco das possíveis leituras sobre a escrita de Machado, uma trama encarnada nos eventos e significados históricos do período. Também, reafirmar que não se pode percebê-la como se não fosse, ela mesma, a forma que o autor escolheu para viver, pensar, trabalhar e intervir politicamente na sociedade, no seu lugar e em seu tempo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSIS, Machado de. Obras Completas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. _________________. Contos Escolhidos. São Paulo: Martin Claret, 2008. CALDWELL, Hellen. O Otelo Brasileiro de Machado de Assis. Cotia – SP: Ateliê Editorial, 2008. CARNEIRO, Maria Elizabeth Ribeiro. Joanna e Arminda: objetos-sujeitos, sentidos e poderes em movimento na sociedade carioca do oitocentos. In: STEVENS, Cristina et. al. (org.) Gênero e Feminismos: convergências (in)disciplinares. Brasília-DF: Ex Libris, 2010. CHALHOUB, Sidney. Visões da Liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. CHALHOUB, Sidney. NEVES, Margarida de Souza, PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. História em cousas miúdas. Campinas – SP: Unicamp, 2005. COSTA, Emilia Viotti da. Da Monarquia à República: Momentos Decisivos. São Paulo: Unesp, 1999. 7 O estudo de Sidney Chalhoub sobre a atuação de Machado no Ministério da Agricultura fornece uma perspectiva detalhada sobre a determinação e coragem no seu trabalho cotidiano. (GLEDSON, 2006, p. 27). Para maiores informações sobre Machado I: um mestre na periferia, ver entrevista disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=hln2xUlUs0Y. Acesso em 15/09/2011. 97 FREITAS, Rúbia Mara de. A Efetividade dos Direitos Fundamentais da Criança e do Adolescente Afro Brasileiro. Monografia – Curso de Direito, Universidade Federal de Uberlândia, Minas Gerais, 2010. FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal 51ªed. São Paulo: Editora Global, 2006. GLEDSON, Jonh. Por um novo Machado de Assis: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. PESAVENTO, Sandra Jatahy. Fronteiras da ficção: diálogos da história com a literatura. In: NODARI, Eunice; PEDRO, Joana; IOKOI, Zilda Márcia Gricoi (org.). XX Simpósio Nacional da Anpuh. História: Fronteiras. São Paulo: Humanitas/FFLCH/Anpuh, 1999. REIS, João José e SILVA, Eduardo. Negociação e Conflito: A Resistência Negra no Brasil Escravista. São Paulo: Scwarcz, 1989. SCWARCZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. São Paulo: Ed. 34, 2000. REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL. Ano 3. Nº36. Rio de Janeiro: FBN, Setembro de 2008. MÍDIA ELETRÔNICA: TV ESCOLA. Machado de Assis: Um mestre na periferia I. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=hln2xUlUs0Y. Acesso em 15/08/2011 98 PARTE III BENJAMIM DE OLIVEIRA Benjamin Chaves, posteriormente conhecido como Benjamin de Oliveira, nasceu em Pará de Minas, no estado de Minas Gerais, no dia 11 de junho de 1870. Foi o quarto filho de Malaquias e da escravizada Leandra. Aos 12 anos, fugiu de casa com o Circo Sotero, onde começou a trabalhar como trapezista e com números de acrobacia. Do artista Severino de Oliveira, seu orientador no circo, adotou seu novo sobrenome, mas abandonou a trupe três anos depois. Benjamim passou por vários circos ainda como acrobata até estrear como palhaço, numa turnê no interior de São Paulo, ao substituir o artista original, que estava doente. Benjamim de Oliveira foi uma das mais importantes figuras do mundo do circo, o primeiro palhaço negro do Brasil e, de acordo com o pesquisador Brício de Abreu, o primeiro palhaço negro do mundo. Em 1892, ingressou no circo do português Manoel Gomes, conhecido como Comendador Caçamba. Foi nesta ocasião que o palhaço conheceu um ilustre freqüentador do Circo, e dele tornou-se amigo, segundo afirma o pesquisador Nei Lopes. Esse admirador era o então presidente Floriano Peixoto. Por volta de 1896, conheceu Affonso Spinelli. Até os anos 30, Benjamim atuou no Circo Spinelli, período que correspondeu aos seus anos de maiores glórias. Entre 1907 e 1912, o já popularíssimo palhaço Benjamim de Oliveira gravou cançonetas, lundus e modinhas em seis discos pela Columbia Records. Nos entreatos do circo, cantava acompanhado de um violão. Até 1938 foi o principal nome do circo brasileiro, atuando no Circo Spinelli como Tony ou Clown e como ator teatral em diversas peças, promovidas como complemento da sessão circense. O circo-teatro teve o seu apogeu entre os anos de 1918 e 1938, sendo introduzido no Rio de Janeiro por Benjamim. Essa versatilidade fez com que a obra de Benjamim de Oliveira marcasse uma revolução no circo brasileiro. Foi aclamado como o rei dos palhaços no Brasil e respeitado por homens de teatro como Procópio Ferreira. Benjamin encerrou sua carreira no circo na década de 1940, vindo a falecer no Rio de Janeiro no dia 3 de maio de 1954.1 1 Ver mais em http://www.acordacultura.org.br/herois/ 99 REPRESENTAÇÕES DO RACISMO NA ESCOLA: UMA ANÁLISE DO SERIADO “TODO MUNDO ODEIA O CHRIS” Mônica Martins Naves Universidade Federal de Uberlândia – UFU Graduanda em História – INHIS Bolsista do PIBID-HCAFRO1 [email protected] Prof. Dr. Florisvaldo Paulo Ribeiro Júnior Universidade Federal de Uberlândia – UFU Instituto de História – INHIS Núcleo de Estudos Afro Brasileiros – NEAB [email protected] Para entendermos como foi construída a história de quatro séculos dos Estados Unidos, os pesquisadores brasileiros Leandro Karnal, Luiz Estevam Fernandes e Marcus Vinicius de Morais, e o canadense Sean Purdy, apresentam em sua obra “História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI”, elementos que permitem tal entendimento. A obra se baseia no mais rigoroso estudo histórico, e sem se perder em ideologias relata a história do país quanto ao nascimento do estado americano, por meio das 13 colônias; mostra a heterogeneidade de uma cultura que agrega brancos, índios e negros; revela o racismo; o crescimento econômico e tecnológico; o neoliberalismo; o imperialismo; os movimentos sociais no século XX; a democracia, a militarização, a mídia e a cultura. Ao analisar tais fontes bibliográficas utilizadas para a elaboração deste trabalho, é possível perceber que a historiografia contemporânea afirma que desde a chegada dos primeiros negros africanos aos Estados Unidos, em 1619, a população negra norte-americana enfrentou a escravidão e a segregação racial. A história da escravidão nos Estados Unidos inicia-se no século XVII, e estava intimamente ligada ao modo de produção econômica adotado no país. Este era constituído por Treze Colônias, porém estas não tiveram o mesmo tipo de colonização; as Colônias do centro e do norte tinham suas economias baseadas na pequena propriedade familiar e no trabalho livre, e nas Colônias do Sul era predominante o 1 Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/CAPES - Sub-projeto História e Cultura Afro brasileira. 100 latifúndio monocultor escravista. Portanto, o país era dividido em formas econômicas distintas, o que representava um conflito de interesses entre os dois extremos do país. O sul era muito menos desenvolvido economicamente e menos urbanizado do que o norte, tinham sua produção voltada para a exportação e defendiam a manutenção do tráfico negreiro, acreditando que o seu fim levaria o país à ruína. Já os colonos nortistas, viam suas cidades e indústrias crescerem rapidamente, defendiam o trabalho livre e sua economia estava voltada para abastecer o mercado interno; o que simbolizava o progresso de uma sociedade capitalista em oposição ao atraso dos escravistas do sul. As vozes abolicionistas iam surgindo gradualmente, e se fortaleceram com a eleição de Abraham Lincoln à presidência dos Estados Unidos, no ano de 1860; este era um oponente declarado à expansão da escravidão nos Estados Unidos. Convictos de que a eleição do novo presidente representava uma ameaça e indicava a derrota da economia de seus estados, os sulistas ou confederados decidiram se separar dos estados da União, do norte, e declararam a Guerra de Secessão. Durante o conflito, em 1863, o presidente assinou a Proclamação de Emancipação, que proibia a escravidão em o todo país e libertava os escravos dos estados confederados. A guerra duraria até 1865 com a derrota dos Sulistas e o fim dos Estados Confederados que voltaram a integrar-se à União. Assim, a Guerra Civil estava deflagrada, deixando centenas de milhares de mortos e um grande número de negros marginalizados. Nenhum programa governamental foi instituído a fim de integrar o negro nos níveis econômico, profissional e social do país. Os territórios sulistas permaneceram, até 1877, ocupados por militares e assim, este se tornou um ambiente favorável ao surgimento de sociedades secretas como os Cavaleiros da Camélia Branca e a Ku Klux Klan, que empregavam a violência para perseguir e segregar racialmente os negros. Por estarem economicamente afetados devido ao fim da escravidão, os estados do Sul promulgaram uma série de leis e determinações com o intuito de legitimar a discriminação racial e dificultar o acesso dos negros na sociedade. A segregação racial estava institucionalizada, e passou a ser uma realidade nos Estados Unidos. Espaços públicos e privados tinham áreas separadas para negros e brancos – a área dos negros constantemente se encontrava em condições deploráveis. As chamadas leis Jim Crow, por exemplo, proibiam negros de usarem os mesmos locais públicos que os brancos; 101 como escolas, ônibus e trens; casamentos entre brancos e negros ou seus descendentes eram proibidos em diversos estados, para evitar a miscigenação. Houve uma onda migratória da população negra, entre os anos de 1916 e 1930, do sul para o norte, meio-oeste e oeste do país; regiões onde a tolerância e as oportunidades eram maiores. Pobreza, discriminação, segregação, linchamento e violência policial – tudo isso caracterizava a vida dos negros dos Estados Unidos até então. Iniciou-se assim um movimento pela igualdade de direitos civis, e somente a partir da década de 1950, tais movimentos começaram a atingir uma proporção maior. O movimento foi se difundindo e produziu líderes como Martin Luther King, um pastor do estado da Geórgia que liderou a luta por direitos civis por meio da desobediência civil não violenta. King utilizava um discurso marcado pela moral religiosa que combinava o ideal de liberdade com a justiça social, sua retórica notável era capaz de mobilizar multidões emocionadas e foi um elemento fundamental para divulgar a causa. Em 1963 na Marcha pelo Trabalho e Liberdade em Washington, quando King proferiu seu famoso discurso “I Have a Dream”, o movimento atingiu seu ápice. O uso de canções e manifestações públicas despertou na comunidade negra um sentimento de proteção das represálias e violências praticadas por brancos e policiais. Diante da força que tais movimentos vinham adquirindo, o presidente Lyndon Johnson se viu forçado a sancionar, entre 1964 e 1967 diversas leis proibindo a discriminação no emprego, nos serviços públicos e nas eleições estadunidenses. Segundo Rockman (1994, p. 60) “[...] é a partir dessa época que a questão racial começa aparecer com muita consistência na política americana, transformando-se, paulatinamente, em um tema nacional”.2 Outros movimentos somavam um caráter político ao movimento de luta pela igualdade dos direitos civis. O Black Power, movimento que defendia o orgulho racial e a criação de instituições culturais e políticas para cultivar e promover interesses, valores e autonomia para os negros, expandiu-se com a popularidade de Malcolm X; um líder islâmico que pregava a autodefesa contra a brutalidade da polícia, a valorização das tradições afro-americanas e estava preocupado em apoiar os movimentos revolucionários no Terceiro Mundo. O Partido dos Panteras Negras, fundado em 1968 por universitários na Califórnia, combinou “nacionalismo cultural”, serviços sociais para a comunidade negra e luta militante armada contra o racismo; houve muitos 2 ROCKMAN, Berta A.. Política nos Estados Unidos: tendências nas últimas quatro décadas. Estudos Avançados Usp, São Paulo, n. 8 (21), p.51-77, 1994. 102 conflitos entre os panteras negras e a polícia, durante os anos 1960 e 1970, mas a perda de muitos membros e as constantes hostilidades entre os membros do partido e a polícia, e ainda a diminuição da simpatia entre os líderes negros americanos, fez com que o partido mudasse seus métodos, porém em meados dos anos 1980 o partido se desfez. A história da luta dos negros pela igualdade de direitos civis marca profundamente e contribui para a formação social, política e cultural dos Estados Unidos. Nos anos 1980, após toda a efervescência dos movimentos negros pela igualdade de direitos civis, a sociedade norte-americana vivenciava uma situação diferente. A segregação racial era proibida por lei, os negros faziam parte da sociedade como cidadãos e gozavam dos mesmos direitos dos brancos; porém ainda existia uma discriminação que se demonstrava de forma velada, pois em uma sociedade que teve sua história marcada pela hierarquização social, dividindo os indivíduos pela cor da pele, o racismo ainda se fazia presente. A partir deste contexto, este trabalho visa analisar as representações do racismo no ambiente escolar dos Estados Unidos na década de 1980 retratados no seriado “Todo mundo odeia o Chris”. O SERIADO “Todo mundo odeia o Chris” (Everybody Hates Chris) é um seriado televisivo norte americano que foi inspirado nas vivências da adolescência de Chris Rock, um negro que vivia no bairro de Bed-Stuy, no distrito do Brooklyn em Nova York; e atualmente trabalha como comediante, ator e diretor nos Estados Unidos. A série é considerada um programa humorístico e é dividida em quatro temporadas e um total de 88 episódios, exibidos originalmente nos Estados Unidos entre os anos de 2005 a 2009. O seriado retrata a vida de Chris Rock e sua família entre os anos de 1982 e 1987; período em que o preconceito e a segregação racial nos Estados Unidos fazia parte da realidade da população negra. Apesar da existência de numerosas leis, instituições e medidas destinadas a eliminar os vestígios do passado, o racismo e a discriminação continuava a ser um problema candente nos EUA. Em 1983, após se mudarem de um conjunto habitacional para uma casa no bairro de Bed-Stuy, Chris, um garoto de 13 anos, é matriculado por sua mãe em uma escola chamada "Corleone Junior High School", uma escola em que só havia pessoas 103 brancas, e por ser o único aluno negro ele se torna vítima de constantes perseguições e preconceitos. Durante a primeira, segunda e terceira temporadas são representadas situações da vida do personagem na escola Corleone, em sua vida cotidiana e familiar entre os anos de 1982 e 1986, onde Chris adquire um pensamento crítico acerca de sua realidade e da questão racial no país. Na quarta temporada, passada entre 1986 e 1987, Chris já está com 15 anos e vai cursar o ensino médio no Tattaglia High School, um colégio composto majoritariamente por alunos brancos; ele já não é mais o único aluno negro, mas reencontra a realidade vivenciada em sua antiga escola em que ele sofria com preconceitos, estereótipos e discriminações por parte de outros alunos e de sua antiga professora, Senhorita Morello, que se tornou diretora do colégio Tattaglia. Neste contexto, a série expõe a relação entre o personagem Chris e sua professora, Senhorita Morello; relação esta que será o foco de análise do presente trabalho. SOBRE AS REPRESENTAÇÕES DO RACISMO A sociedade norte-americana caracteriza-se por uma pluralidade étnica, que é resultado de um processo histórico que inseriu em um mesmo território, grupos distintos. O contato entre esses grupos, porém, não eliminou os antagonismos e desigualdades que foram se estruturando na sociedade. As diferenças levaram a formação de uma hierarquia marcada, principalmente, pelo preconceito, marginalização e exclusão social de grupos considerados inferiores pela classe dominante branca ou de descendência européia. Um dos grupos de indivíduos que se tornaram vítimas da hierarquização da sociedade foram os negros. Sendo assim, são construídas relações raciais no espaço escolar que contribuem para a formação da identidade das crianças negras. Os negros, muitas vezes são relacionados a aspectos negativos, à condição de pobreza e como sendo um só povo que compartilham das mesmas tradições e culturas; assim generaliza-se e se atribui ao fato de estes serem descendentes de africanos, uma condição de igualdade cultural que não existe integralmente, e isto se transforma em estereótipos que são utilizados para justificar o preconceito ou mesmo para falsear uma relação de tolerância. Na série televisiva analisada, a professora Senhorita Morello, constantemente se refere à Chris como membro de um “gueto”, de uma família pobre e necessitada; 104 demonstrando assim, um pensamento estereotipado em uma suposta tentativa de inserção do aluno no ambiente escolar. Tal fato pode ser demonstrado no episódio “Todo mundo odeia: o Natal”, em que a professora faz uma campanha com os alunos para arrecadar alimentos para distribuir para famílias necessitadas; porém, tais alimentos serão doados para a família de Chris, mesmo após ele afirmar que não estão precisando da doação, pois a professora julga que “mesmo que eles sejam totalmente desprivilegiados, são orgulhosos demais para pedir ajuda”. A concepção de relacionar o negro à pobreza também pode ser demonstrada no seguinte diálogo: (...) cantem com sentimento. Vocês estão cantando sobre uma família pobre, vivendo no gueto, que tiveram seu primeiro filho em uma manjedoura. Chris, pode se identificar com isso, não?3 Além de relacionar o Chris à condição de pobreza, a educadora também menciona o aluno em comentários que fazem alusão a características negativas, como sendo próprias dos negros; como se segue: (...) eu entendo o quanto agressivo as pessoas do subúrbio podem ficar quando elas têm um sabor do poder.4 (...) Eu sei que nicotina e cerveja são vícios dos negros.5 (...) A maioria dos negros não consegue tirar vantagem do analfabetismo.6 (...) você podia fazer o teste para o grupo de teatro... Aposto que você seria natural... Seu povo tem uma facilidade natural para lidar com a decepção. Por que não a usa como vantagem?7 Morello: (...) Você tem que mudar essa mentalidade do gueto. Chris: Mentalidade do gueto? Eu não tenho mentalidade do gueto. Morello: Você tem Chris. Um gueto psicológico... E lembre-se, Chris: aumente a esperança e diminua a burrice!8 Em outras ocasiões, Senhorita Morello faz referência ao aluno de forma positiva, mas acaba reforçando estereótipos ao mencionar termos como povo, gueto e ao compará-lo a personalidades importantes de maneira não adequada. (...) Às vezes eu esqueço o quão forte sua raça é... Você superará em algum dia.9 3 EVERYBORY HATES CHRIS: Everybory Hates Kris. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2007. [DVD] 22 min., color, som (legendado). 4 EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates Hall Monitors. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2007. [DVD] 22 min., color, som (legendado). 5 EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates Being Cool. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2008. [DVD] 22 min., color, som (legendado). 6 EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates English Teacher. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2009. [DVD] 22 min., color, som (legendado). 7 EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates Varsity Jackets. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2009. [DVD] 22 min., color, som (legendado). 8 EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates the Class President. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2007. [DVD] 22 min., color, som (legendado). 9 EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates Christmas. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2006. [DVD] 22 min., color, som (legendado). 105 (...) O povo do Chris tem um histórico de acordar junto com o galo para ir trabalhar nos cafezais.10 (...) São pessoas como você Chris, que fazem do gueto um lugar melhor pra se viver.11 (...) Chris, você é como um Einstein de chocolate.12 Tais diálogos demonstram a visão estereotipada da educadora, que mesmo se considerando uma defensora dos negros, não deixa de atuar de maneira segregacionista. (...) Chris, não tem nada pior do que estereótipo racial. Já vimos isso milhares de vezes. O homem negro alto sem camisa, um negro brilhando pelo suor do trabalho no campo, sua sobrancelha peluda, cheio de luxúria selvagem (...).13 (...) eu quero ler sobre homens pretos genuínos que andam pelas ruas rústicas de seu bairro... Diga-me a verdade sobre cafetões e os enganadores, a violência... tudo conectado a um ritmo de jazz!14 A professora também questiona atitudes e ações de Chris, que ela avalia como sendo racistas e trata o aluno como um indivíduo que discrimina os brancos. A educadora procede a uma inversão defensiva: a vítima se torna algoz, no caso citado os negros se tornam racistas. Como pode ser observado no episódio em que Chris muda para o colégio Tattaglia, onde existem garotos negros, e percebe que está em uma sala onde só têm alunos brancos, assim como na sua antiga escola; e ao questionar a respeito, a professora responde da seguinte forma: Morello: (...) se soubesse que você era racista... Chris: Eu não sou racista! Morello: Bom, não ouço nenhum dos garotos brancos reclamando por estarem perto de você. Acho que é muito gentil da parte deles.15 E Chris insiste em saber por que estava naquela sala, e então Senhorita Morello age relacionando, novamente, o negro a aspectos negativos: Morello: (...) Chris, quando vi seu nome na matrícula, pensei: se você não levou um tiro, acabou quebrando pedras ou se tornando pai durante o verão; que gostaria de ter de volta algo que conhecia. Chris: Sim. Eu conheço garotos negros, asiáticos, latinos. Então porque não posso ficar na sala deles? Morello: Chris, todos os garotos negros estão em gangues, todas as garotas são esnobes e nem preciso falar dos porto-riquenhos... Afinal o que você tem contra os brancos?16 10 EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates Housegets. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2008. [DVD] 22 min., color, som (legendado). 11 EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates James. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2009. [DVD] 22 min., color, som (legendado). 12 EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates PSAT's. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2009. [DVD] 22 min., color, som (legendado). 13 EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates Bed-Stuy. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2008. [DVD] 22 min., color, som (legendado). 14 EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates Bed-Stuy. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2008. [DVD] 22 min., color, som (legendado). 15 EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates Tattaglia. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2009. [DVD] 22 min., color, som (legendado). 106 A educadora faz outras menções ao aluno em comentários ligados à religiosidade, à família, à educação e ao futuro profissional de Chris. Pergunta ao aluno se ele precisaria de um tocador de órgão ao realizar um discurso, pois na sua visão, neste momento ele poderia manifestar algum espírito. Ela acredita que ele não conhece seu pai, que ele tem 19 ou 20 irmãos e que sua família é vítima de doenças como a anemia falciforme, raquitismo e gripe suína. E quando Chris se forma na 8ª série, ela o cumprimenta e o parabeniza, pois ela entende que na família do aluno isso “deve ser como conseguir um título de PhD”. Em relação ao futuro profissional do aluno, a professora acredita que as únicas carreiras disponíveis aos negros, estão relacionadas a empresas de tratamento de cabelo. Além destas ocasiões em que Senhorita Morello relaciona o aluno a situações que não fazem parte da realidade do aluno, a série também traz casos em que a educadora faz alusões a características físicas de Chris, mesmo que tais alusões sejam desprovidas de qualquer sentido. É quando ao retornar de uma viagem feita à África, a professora traz presentes para os alunos, e para Chris ela dá um “ossinho”; e ele não entende o propósito daquilo e Senhorita Morello justifica que o “ossinho” é para ser colocado em seu nariz. No episódio “Todo mundo odeia formatura”, Chris concorre a uma bolsa de estudos na Academia de Ciências do Bronx, uma escola de brancos e elitista, mas é rejeitado após uma entrevista domiciliar, o que causa bastante surpresa em Senhorita Morello: (...) Bom, por mais louco que possa parecer, acontece que seu pai realmente tem dois empregos. A sua mãe não é viciada em heroína, ela até tem um emprego! E, aparentemente vocês são donos daquela casa. Sua família está muito bem para você ser qualificado em ajuda financeira (...).17 Ao observarmos as relações raciais dentro do espaço escolar, questionamo-nos até que ponto ele está sendo coerente com a função social à qual se baseia sua responsabilidade, que é de ser um espaço que preserva a diversidade cultural e que se propõe a promover a equidade. 16 EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates Tattaglia. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2009. [DVD] 22 min., color, som (legendado). 17 EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates Graduation. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2008. [DVD] 22 min., color, som (legendado). 107 A relação apresentada no seriado, não deve ser entendida como uma representação fictícia, apesar de em certos momentos ela estar carregada de certo exagero, necessário para a construção do caráter humorístico da série. As diferenças estão presentes na escola, e geram conflitos; assim é necessário que se analise tais manifestações de maneira crítica, entendendo que os fatos representados são uma demonstração de como o racismo se faz presente no ambiente escolar e que ele pode trazer prejuízos aos alunos, pois assim, as crianças negras não se identificam com o espaço em que estão, e as crianças brancas não aprendem a conviver com as diferenças e permanecem repetindo práticas preconceituosas que deveriam ser extintas. De tal modo, a criança negra é mantida na exclusão e dominação, permanecendo assim a ilusão da estabilidade e ordem vividas na ausência da diferença. A exclusão simbólica que é manifestada no discurso da professora, toma formas a partir da observação do cotidiano escolar; tornando-se assim uma via de disseminação do preconceito por meio da linguagem, na qual estão contidos estereótipos e concepções negativas entendidas como características próprias dos negros, termos que em geral desvalorizam a imagem do negro. Nesse sentido, o estereótipo leva a uma "comodidade cognitiva", pois não é preciso pensar sobre a questão racial de modo crítico, uma vez que já existe um (pré) conceito formado, fazendo com que os sujeitos simplesmente se apropriem dele, colaborando para a acentuação do processo de alienação da identidade negra. Esses estereótipos dão origem ao estigma que vem sinalizar suspeita, ódio e intolerância dirigidos a determinado grupo, inviabilizando a sua inclusão social. (Menezes, 2002) CONSIDERAÇÕES FINAIS Na conjuntura que se insere a análise do seriado “Todo mundo odeia o Chris”, é possível perceber que na década de 1980 o forte racismo estrutural ainda persistia nos Estados Unidos, as diferenças raciais ainda serviam como uma forma de marginalizar o indivíduo e tais manifestações racistas poderia ser observada no ambiente escolar, além de em outros ambientes de sociabilidade. A educadora que se considera simpática às reivindicações da comunidade negra e na tentativa de inserir o aluno em um ambiente em que este é constantemente discriminado, acaba reforçando estereótipos raciais se referindo à Chris como um ser de outro mundo, um afro americano não pertencente ao ambiente ítalo-americano da escola. As mensagens ideológicas e as práticas que transmitem uma imagem depreciativa do negro, quando exercidas no ambiente escolar, tomam uma dimensão 108 mais agravante; se considerarmos quem são seus receptores. São crianças em processo de aprendizado e desenvolvimento moral e social, que incorporam com facilidade as mensagens que contém elementos discriminatórios que permeiam as relações sociais. Desta maneira, podemos entender que a escola tanto pode ser um espaço de disseminação quanto um meio eficaz de prevenção e diminuição do preconceito. Como citado em: A educação constitui-se um dos principais ativos e mecanismos de transformação de um povo e é papel da escola, de forma democrática e comprometida com a promoção do ser humano na sua integralidade, estimular a formação de valores, hábitos e comportamentos que respeitem as diferenças e as características próprias de grupos e minorias. Assim, a educação é essencial no processo de formação de qualquer sociedade e abre caminhos para ampliação da cidadania de um povo. (Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, p. 07) E em uma sociedade marcada pela hierarquização social e pelo preconceito, se faz necessário um amplo trabalho de conscientização, seja nos espaços escolares, familiares e sociais, pois é preciso que as pessoas entendam que a população de um país é composta por múltiplas culturas e que todas elas devem ser respeitadas. A escola e o professor são de fundamental importância, neste processo, capazes de promover transformações na sociedade e nos indivíduos que a constituem, e a educação é fator primordial para a desconstrução da prática do racismo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura AfroBrasileira e Africana. Brasília – DF, Outubro, 2004. EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates Bed-Stuy. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2008. [DVD] 22 min., color, som (legendado). EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates Bed-Stuy. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2008. [DVD] 22 min., color, som (legendado). EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates Being Cool. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2008. [DVD] 22 min., color, som (legendado). 109 EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates Christmas. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2006. [DVD] 22 min., color, som (legendado). EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates English Teacher. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2009. [DVD] 22 min., color, som (legendado). EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates Graduation. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2008. [DVD] 22 min., color, som (legendado). EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates Hall Monitors. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2007. [DVD] 22 min., color, som (legendado). EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates Housegets. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2008. [DVD] 22 min., color, som (legendado). EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates James. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2009. [DVD] 22 min., color, som (legendado). EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates PSAT's. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2009. [DVD] 22 min., color, som (legendado). EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates Tattaglia. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2009. [DVD] 22 min., color, som (legendado). EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates the Class President. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2007. [DVD] 22 min., color, som (legendado). EVERYBORY HATES CHRIS: Everybody Hates Varsity Jackets. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2009. [DVD] 22 min., color, som (legendado). EVERYBORY HATES CHRIS: Everybory Hates Kris. Rock, Chris; Le Roi, Ali (real.). EUA: CBS Paramount Television, 2007. [DVD] 22 min., color, som (legendado). GOMES, Nancy. Racismo e xenofobia nos Estados Unidos da América. Janus 2001. Disponível em: http://www.janusonline.pt/2001/2001_3_1_6.html. Acesso em: 06 de setembro de 2011. 110 KARNAL, Leandro; FERNANDES, Luiz Estevam; MORAIS, Marcus Vinícius de; Purdy, Sean. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo, Contexto, 2007. MENEZES, Waléria. O preconceito racial e suas repercussões na instituição escola. Trabalhos para discussão nº 147/agosto de 2002. Fundação Joaquim Nabuco. Disponível em: http://www.fundaj.gov.br/tpd/147.html. Acesso em: 06 de setembro de 2011. ROCKMAN, Berta A. Política nos Estados Unidos: tendências nas últimas quatro décadas. Estudos Avançados - Usp, São Paulo, n. 8 (21), p.51-77, 1994. 111 A IMAGEM DO NEGRO NA MÍDIA BRASILEIRA: DESCORTINANDO OLHARES Leonardo Silva Oliveira1 Universidade Federal de Uberlândia - UFU Faculdade de Ciências Integradas do Pontal – FACIP Graduando em História [email protected] Prof. Dr. Cairo Mohamad Ibrahim Katrib2 Universidade Federal de Uberlândia - UFU Faculdade de Ciências Integradas do Pontal – FACIP Núcleo de Estudos Afro Brasileiros – NEAB [email protected] Certamente você já viu inúmeras propagandas, inclusive do poder público, afirmando que o Brasil é um país de todos; país democrático, de oportunidades iguais a todos, dentre outros. Mas será que é mesmo? Você concorda com essa afirmativa? Isso é o que pretendo discutir neste artigo, na tentativa de entender como essa visão é formatada pela mídia, além de procurar compreender os dados oficiais acerca da dinâmica social brasileira e dialogar com as representações televisivas sobre o negro no Brasil. Tais pretensões se fazem necessárias, uma vez que procuramos dialogar com as muitas formas de padronização cultural brasileira com o mito da democracia racial no Brasil que ainda hoje exerce forte papel nas visões de sociedade homogênea dificultando o exercício da diversidade e pluralidade cultural e no entendimento de um país plural, miscigenado, resultado da interlocução cultural dos diversos grupos sociais que contribuíram e contribuem para a efetivação da identidade diversificada dos brasileiros. TRAJETÓRIAS E OLHARES É senso comum em nossa sociedade de que vivemos em uma democracia 3 racial , onde todos se respeitam mutuamente. Vendem a imagem de que o Brasil é um 1 Aluno do Curso de Formação Inicial em História e Cultura Africana e Afro-Brasileira. Docente do Curso de Graduação em História-FACIP/UFU; Tutor PET (Re) Conectando Saberes, Fazeres e Práticas: Rumo à Cidadania Consciente. MEC/SESU/SECADI. 3 Segundo Guimarães, o que explica a ideia da democracia racial é o fato de que desde fins do império “a ideia de que o Brasil era uma sociedade sem “linha de cor”, ou seja, uma sociedade sem barreiras legais que impedissem a 2 112 país onde existem lugares e oportunidades para todos; Brasil da miscigenação4 cultural e racial, fruto das relações entre as diferentes etnias tecidas desde a colonização. Essa imagem se reproduziu durante séculos de história, porém, nem sempre a imagem de Brasil das diferenças étnicas, difundido pelos meios de comunicação, refletiu a realidade, ou seja, a todo instante, nos deparamos com uma série de episódios seja nos jornais impressos, nos noticiários da televisão relatos de discriminação racial, de imposição de padrões culturais, de desvalorização da cultura e da etnia de determinados grupos, dentre tantos outros aspectos. A própria propaganda oficial do governo brasileiro prega uma liberdade racial que vemos não condizer com a realidade, a não ser se relida como ideário a ser alcançado. As cores do logo oficial do governo brasileiro propagandeia uma visão de país plural e coeso no sentido de país de todos. Representa o exercício da interação cultural. A título de exemplo temos: nas três primeiras letras do logo atual da Presidência o azul, amarelo e verde representam as cores da bandeira, enquanto nas três últimas, S; I; L; a cor branca da letra S representa as pessoas de pele branca, o I na cor preta a população negra e o L em vermelho os indígenas.5 Nessa marca vemos a tentativa de referendar o Brasil das muitas nacionalidades e, ao mesmo tempo o país do progresso e das oportunidades. Esse mesmo discurso, foi disseminado em diferentes contextos atendendo as especificidades de cada período histórico. O discurso da democracia racial, mas não o termo, é atribuído a Gilberto Freyre, pela obra Casa Grande & Senzala e por algumas de suas declarações, como Costa (1999) nos mostra: Numa série de palestras proferidas há mais de trinta anos nos Estados Unidos e depois publicadas sob o título de Interpretação do Brasil, o sociólogo brasileiro Gilberto Freyre descreveu o idílico cenário da democracia racial brasileira. Embora reconhecesse que os brasileiros não foram inteiramente isentos de preconceito racial, Freyre argumentava que a distância social, no Brasil, fora o resultado de diferenças de classe, bem mais do que de preconceitos de cor ou raça. Como os negros brasileiros desfrutavam de mobilidade social e oportunidades de expressão cultural, não ascensão social de pessoas de cor a cargos oficiais ou a posições de riqueza ou prestígio, era já uma idéia bastante difundida no mundo, principalmente nos Estados Unidos e na Europa, bem antes do nascimento da sociologia. Tal idéia, no Brasil moderno, deu lugar à construção mítica de uma sociedade sem preconceitos e discriminações raciais. Mais ainda: a escravidão mesma, cuja sobrevivência manchava a consciência de liberais como Nabuco, era tida pelos abolicionistas americanos, europeus e brasileiros, como mais humana e suportável, no Brasil.” (p. 2) ver mais em: GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Democracia racial. p. 16. Disponível em: <http://www.fflch.usp.br/sociologia/asag/Democracia%20racial.pdf> 4 O conceito de “miscigenação” é utilizado ligado ao de “mestiçagem” que, segundo Nascimento (2006), pode ser considerado um estilo de vida, uma forma de esconder o preconceito. O conceito engloba a questão de “mistura racial” e “fusão de culturas”, ver mais em: NASCIMENTO, Alessandra Santo. Classificação oficial e extra-oficial: raça e cor em debate. In: Perspectivas: Revista de Ciências Sociais, São Paulo: v. 29, p. 133-148, 2006. Disponível em: <http://seer.fclar.unesp.br/perspectivas/article/view/35> Acesso em 09 nov. 2011. 5 Manual de uso da marca do governo federal. Disponível em: <http://www.ifrs.edu.br/site/midias/arquivos/2010418103110625anexoii.pdf> Acesso em 28 jun. 2011. 113 desenvolveram uma consciência de serem negros da mesma forma que seus congêneres norte-americanos. Freyre também apontou o fato de que, no Brasil, qualquer pessoa que não fosse obviamente negra era considerada branca. Expressou a convicção de que os negros estavam rapidamente desaparecendo no Brasil e incorporando-se ao grupo branco. E foi além disso. Censurou os que se inquietavam com os possíveis efeitos negativos do amálgama étnico e reafirmou a confiança na capacidade social e intelectual do mulato. Foi no processo de miscigenação que Freyre julgou terem os brasileiros descoberto o caminho para escapar dos problemas raciais que atormentavam os norte-americanos.6 A autora expõe que a ideia de democracia racial mascara toda a discriminação existente. Num dos trechos da obra de Freyre (2003), referindo-se ao conquistador português, ele afirma que este: [...] não só conseguiu vencer as condições de clima e de solo desfavoráveis ao estabelecimento de europeus nos trópicos, como suprir a extrema penúria de gente branca para a tarefa colonizadora unindo-se com a mulher de cor. Pelo intercurso com mulher índia ou negra multiplicou-se o colonizador em vigorosa e dúctil população mestiça, ainda mais adaptável do que ele puro ao clima tropical. A falta de gente que o afligia, mais do que a de qualquer outro colonizador, forçando-o à imediata miscigenação – contra o que não indispunham, aliás, escrúpulos de raça, apenas preconceitos religiosos – foi para o português vantagem na sua obra de conquista e colonização dos trópicos.7 Para Freyre (2003) o preconceito era apenas religioso, o que não impedia que o senhor se relacionasse com as “mulheres de cor”. Pode-se concluir, então, que por poder converter os negros ao cristianismo e combaterem suas religiões “pagãs”, o preconceito se faz inexistente. Para o autor, o homem branco apenas achava estranho os cultos de matriz africana, nada tinha de preconceito contra a condição étnica dos povos africanos. Um exemplo que pode ilustrar isso é o fato de algumas personalidades negras ganharem projeção na mídia, seja ela nacional ou internacional, e se tornarem representações de nossa nação, pretensamente mostrando como os negros possuem oportunidades de ascensão social no Brasil. Exemplos disso são: Pelé, Daiane dos Santos, Gilberto Gil, Milton Santos, a Globeleza, entre outros. O fato de terem projeção na mídia implica intensificar a visão acerca da democracia racial, já que se tornam personalidades com uma dimensão midiática grande e são respeitados pela população, mas na maioria das vezes não como negros, mais sim pelas conquistas alcançadas no esporte ou pelas características físicas exuberantes. Mas será que somente isso sustenta a ideia da democracia racial? Isso é um dos tópicos que 6 COSTA, Emília Viotti da. O mito da democracia racial no Brasil. In: Da monarquia à república: momentos decisivos. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, p. 365-366, 1999. 7 FREYRE, Gilberto. Características gerais da colonização portuguesa do Brasil: formação de uma sociedade agrária, escravocrata e híbrida. In: Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sobre o regime da economia patriarcal. São Paulo: Global, p.74-75, 2003. 114 discutiremos mais a frente. Começaremos a análise por fatos e uma visão quantitativa da inclusão e aceitação social da população negra. OS NEGROS NA SOCIEDADE E NA MÍDIA Agora veremos o preconceito8 através de outra visão, observando acontecimentos do cotidiano que implicam discriminação e segregação – e que por sinal, não são preconceitos religiosos. Em Jaguarão, RS, Helder Santos, um baiano que pretendia estudar História na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), - na qual havia ingressado através do Sistema de Seleção Unificada (SISU) do Enem – foi perseguido pela Brigada Militar do Rio Grande do Sul. Segundo o estudante, foi maltratado em uma abordagem de rotina e ao questionar o porquê dos atos, foi agredido publicamente pelos policiais. Ele, então, entrou com um recurso para que as pessoas fossem punidas e quando o acontecimento se tornou público, muitas pessoas o contataram e delataram terem, também, sofrido preconceito da mesma forma. E ao mesmo tempo, ocorreu uma repercussão “positiva”, denunciando o preconceito, o estudante também sentiu o quanto o preconceito ainda é forte, recebendo ameaças por cartas, dizendo que iam agredi-lo, baterem no mesmo na sola do pé para não deixar marcas, etc. O aluno encaminhou os acontecimentos à direção de sua faculdade e eles se dirigiram à brigada. Então esta encaminhou a ele uma carta ainda mais ameaçadora, afirmando que poderiam fazer com ele o que quisessem, sem ao menos “sujarem suas mãos”. A diretora também recebeu uma carta, ameaçando-a de morte, porém a mesma não foi divulgada. Em uma das cartas, disseram ao mesmo que a universidade atrai lixo para a cidade, se referindo aos estudantes negros. O estudante, então, estava tentando transferência para a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) através do MEC e a Secretaria de Justiça dos Direitos Humanos, pois o Estado que o impediu de estudar em Jaguarão deveria garanti-lo o direito de prosseguir os seus estudos em outro local.9 O Exército brasileiro contou apenas com 5 generais negros em 358 anos de história, segundo a pesquisa do jornalista Sionei Ricardo Leão para a confecção do documentário “Kamba Racê”. O Exército não se preocupava com esse fato, muito 8 9 Por preconceito, entendo especificamente o preconceito contra os negros, o qual é o tema principal de meu trabalho. Entrevista disponível em: <http://migre.me/5qqOg>. Acesso em 20 jun. 2011. 115 menos em registrar a participação dos negros entre os oficiais mais graduados. O jornalista Leandro Fontes, que também participou do seminário “Os negros nas forças armadas”, no qual foi apresentado o documentário, afirmou que os negros são numerosos no exército, mas possuem grande dificuldade de ascensão, ocupando, em sua maioria, posições subalternas.10 Por estes dois exemplos já podemos constatar formas de preconceito contra os negros, começando a desmistificar o mito da democracia racial. Mas antes de prosseguirmos, é importante ressaltar que a população negra no nosso país, segundo o último censo do IBGE, é de 50,3% (autodeclarados negros e pardos)11, ou seja, metade da população é negra, o que torna ridículo terem existido apenas 5 generais negros num universo tão dinâmico. Por outro lado, entendemos esse quantitativo se levarmos em consideração que a ascensão social do negro no Brasil se destoa da maioria da população, já que além de enfrentarem a questão do desemprego, são os que mais são prejudicados no que se refere à ocupação de cargos de projeção no mundo do trabalho, tornam-se invisíveis, recebem baixos salários se comparados aos de brancos nas mesmas funções. Se existe uma democracia racial, por qual motivo os negros não possuem uma representação maior entre cargos de destaque nacional? Eles são a maioria da população brasileira e não possuem representações expressivas em diversos setores, possuem grande dificuldade de ascensão. Retomaremos tal questão mais a frente, prosseguindo agora com mais dados quantitativos. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), os negros ganham 53% das rendas dos brancos12, e um outro estudo do IPEA: [....] mostrou que entre os 10% mais pobres da população (indigentes), 70% são negros e 30%, brancos. Entre os 10% mais ricos há 15% de negros e 85% de brancos. Em outras palavras, a pobreza é negra e a riqueza é branca.13 O último censo do IBGE também aponta que entre os 14 milhões de brasileiros com mais de 15 anos que são analfabetos, 30% são brancos e 70% são pretos ou pardos. E este quadro abaixo mostra a situação do analfabetismo no Brasil segundo gênero, cor 10 Informações disponíveis em: <http://migre.me/5qssm>. Acesso em 22 jun. 2011. Informações disponíveis em: <http://migre.me/58hBt>. Acesso em: 26 jun. 2011. 12 Informações disponíveis em: <http://migre.me/58hpW>. Acesso em: 26 jun. 2011. 13 TRAGTENBER; et al. Como aumentar a proporção de estudantes negros na universidade? In: Cadernos de Pesquisa. v. 36, n. 128, maio/ago, p. 477, 2006. 11 116 e faixa etária, segundo a pesquisa do Instituto de Estudos do Trabalho e da Sociedade (IEST).14 O que nos interessa, obviamente, são as estatísticas da população negra, e pode-se perceber pelo quadro que ela se insere em maior grau na faixa dos analfabetos, sendo quase 3 vezes maior do que a branca, o que demonstra novamente uma disparidade imensa entre os brancos e os negros. Já em um estudo recente, realizado também pelo Ipea, mostra que a taxa de mortalidade entre os jovens negros entre 15 a 29 anos é maior do que entre jovens brancos da mesma faixa etária. Metade os casos são causados por fatores externos, como homicídios.15 É possível se perceber claramente a heterogeneidade que existe na sociedade brasileira. Possuímos a ideia arraigada de respeito entre supostas raças, de igualdade, mutualidade, etc., Mas deixamos de ver essa realidade que está posta quase que diante de nossos olhos. Podemos também reparar isso em nosso cotidiano. Quando frequentamos médicos, um fórum, ou paramos para observar o corpo docente de uma universidade pública, os colegas de sala, seja na escola ou na universidade, percebemos a ausência dessas pessoas, elas não se fazem presentes ali em grande proporção. Muito pelo contrário, se apresentam em uma dimensão baixíssima, na maioria das vezes. No 14 15 Disponível em: <http://migre.me/5qvDU>. Acesso em: 01 ago. 2011. Disponível em: <http://migre.me/5qvCn>. Acesso em 01 ago. de 2011. 117 entanto, se observarmos profissões de invisibilidade social como: garis ou diaristas, vemos muitas pessoas negras exercendo-as. Não se tratam de meros números, a realidade em nossas cidades nos mostra a mesma coisa – diferentemente da propaganda que prega a ideia de um Brasil de todos. Ateremos-nos agora às representações negras na mídia, mais especificamente em um episódio exibido no dia 16 de julho de 2011 do programa de humor da Rede Globo, Zorra Total, que vai ao ar aos sábados, e na novela “Insensato Coração”, da mesma emissora, exibida as 21 horas, tendo sido analisada entre os dias 29/07 a 05/08 de 2011. No episódio da série de humor Zorra Total, o personagem negro Angolano (Romeu Evaristo) aparece no quadro “Metrô Brasil” anunciando sua nova profissão, corretor de zoológico (na linguagem popular: bicheiro), mas quando ele diz que possui uma notícia boa para contar a todos, lhe é indagado se ele vai retornar para a Angola. O personagem negro além de representar um trambiqueiro, ainda é visto como um “subtrambiqueiro” pois o jogo dele, segundo o mesmo, é formado de “bichos genéricos”. E o fato de desejarem com desdém que ele retorne ao seu país natal passa uma imagem de que o negro não possui lugar em nosso país – o mulato que passa pelo processo de embranquecimento pode ter o seu lugar, porém o negro, não, este que volte para a África, lugar de onde nunca deveria ter saído na visão de muitos brasileiros. Isso fica subliminarmente afirmado em tais atos. Já na semana analisada da telenovela “Insensato Coração”, acontece certos desentendimentos entre o personagem André Gurgel (Lázaro Ramos) e Carolina Miranda (Camila Pitanga). Os dois encontram-se casados, mas não conseguem aceitar as particularidades um do outro; não convivem em harmonia, pois ambos são retratados com certos problemas. André é um “garanhão” extremamente individualista e Carol uma mulher quase neurótica quando se trata do assunto de casamento. Numa das discussões do casal, André se dirige ao seu apartamento individual e no local encontra Leila Machado (Bruna Linzmeyer) e com ela trai sua namorada, e conversando os dois descobrem que possuem o mesmo ideal de felicidade, ou seja, para André se relacionar com uma pessoa também negra não é algo que vá lhe dar frutos no futuro, não é algo que o levará ao progresso. O progresso para ele, na visão branqueadora, seria se relacionar com uma mulher branca para que sua próxima geração se embranquecesse. 118 Essa estratégia do branqueamento é explicada por Barbosa como o “elemento central das políticas racistas atuais, caracterizada pelo discurso da democracia racial.”16 (BARBOSA, 2006, p. 62). Segundo o autor, a própria comunidade negra aceita esta estratégia. Os jovens negros renunciam a perspectiva de construção de um lar negro, a miscigenação é vista como uma saída disso, uma fuga da opressão e da repressão.17 E nas palavras de Costa (1999)18: A negação do preconceito, a crença no “processo de branqueamento”, a identificação do mulato como uma categoria especial, a aceitação de indivíduos negros entre as camadas da elite branca tornaram mais difícil para os negros desenvolverem um senso de identidade como grupo. De outro modo, criaram oportunidades para alguns indivíduos negros ou mulatos ascenderem na escala social. Embora socialmente móveis, os negros tinham entretanto que pagar um preço por sua mobilidade: tinham que adotar a percepção que os brancos possuíam do problema racial e dos próprios negros. Tinham que fingir que eram brancos. Eram negros “especiais”, “negros de alma branca” – expressão comum empregada pelos brasileiros da classe superior branca sempre que se referiam aos seus amigos negros. Se alguns deles estavam conscientes das sutis formas de preconceito e discriminação, fizeram questão de não mencioná-las. Esses indivíduos compartilharam com os brancos o mito da democracia racial. (COSTA, 1999, p. 375) Obviamente a autora fala do contexto do surgimento das ideias branqueadoras e da democracia racial, porém se tratando de uma realidade não muito distante de nossa pelo tempo também explica o fato de negros ganharem projeção social em nossa época. Ocorre um processo de branqueamento nestas pessoas, como os exemplos citados no início do texto – Pelé, Daiane dos Santos, Gilberto Gil, Milton Santos, Globeleza – eles ascendem socialmente carregando um estereótipo, seja ele de jogador de futebol, atleta, cantor, intelectual ou até símbolo sexual, não ascendem carregando a imagem de negro, por isso, são socialmente aceitos e respeitados. Essa imagem representada na mídia vende a ideia de uma igualdade, já que é feio se representar o negro para o exterior numa imagem de pobreza, de mal estar. Essa imagem de igualdade e de bem estar reforça essa democracia racial. Mas, ao mesmo tempo que alguns são representados em situações de bem estar, outros, no caso das novelas, muito frequentemente, são representados quase que inconscientemente em situações subalternas, e o inconsciente racial coletivo brasileiro não se incomoda em ver tal representação da maioria do seu povo, como aponta Joel Zito Araújo. Para o autor, a 16 BARBOSA, Wilson do Nascimento. A estratégia do branqueamento. In: Cultura negra e dominação. São Leopoldo: Ed. Unisinos, p. 62, 2006. 17 Ibid., p. 63. 18 COSTA, Emília Viotti da. O mito da democracia racial no Brasil. In: Da monarquia à república: momentos decisivos. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, p. 375, 1999. 119 internalização da ideologia do branqueamento provoca uma “naturalidade” na produção e recepção destas imagens, além de uma aceitação passiva.19 Também devemos levar em conta que essas representações se inserem no âmbito do interesse mercadológico. Os negros são interessantes para serem mostrados como iguais para o exterior, “para inglês ver”, já para o mercado interno que está acostumado a desigualdade - a encara como coisa natural e determinada – e se encontra impregnado pela ideologia do branqueamento, não há essa demanda da representação do bem estar da população negra, pelo menos não nas novelas. Tudo gira em torno do interesse, seja ele social, cultural, político etc. Além de todas as representações anteriores, uma que merece atenção especial é a mulata: uma ideia embranquecida da mulher negra e um símbolo sexual brasileiro. A partir da definição de Giacomini a mulata (a exemplo a Globeleza, no nosso caso) é a mulher que “dança o autêntico samba e é o símbolo perfeito do autêntico Brasil.”20. Para a autora, a mulata é uma espécie de mediadora entre culturas e raças. Ela busca essa mediação através da sua sensualidade, se apresentando “como mulher sem família, exposta, disponível, cujo valor advém exclusivamente da sexualidade.”21 A mulata brasileira estimula a comunicação com o estrangeiro revelando-se “a mulher sedutora por excelência - sedutora porque é sensual e disponível.”22 Essa mulata, então, representa essa negra embranquecida que personifica a miscigenação, a aliança entre negros e brancos para supostamente melhorar os primeiros, numa visão branqueadora e preconceituosa, obviamente. CONCLUSÃO Após todos os exemplos anteriores que nos mostram uma grande segregação e má representação da população negra, você ainda acredita na democracia racial? No país de todos? Se existe uma democracia racial – uma igualdade – por que a maioria da população analfabeta é negra? Por que os jovens negros são mais assassinados? Por que os negros geralmente recebem salários menores que os brancos? Por que a brigada militar – e mais precisamente, o Estado – perseguiu o estudante no Rio Grande do Sul? 19 ZITO, Joel Araújo. O negro na dramaturgia, um caso exemplar de decadência do mito da democracia racial brasileira. In: O negro na TV pública. Brasilia: FCP, p. 149, 2010. 20 GIACOMINI, Sandra Maria. Beleza negra e beleza mulata. In: Estudos feministas. nº 217, p. 219, 1994. 21 Ibid., p. 220 22 Ibid., p. 221 120 E por que os negros não ascendem com facilidade no Exército e o mesmo mal se preocupa com eles? A resposta para todas as perguntas é simples: A democracia racial não existe. O país para todos acaba se tornando retórica política, pois a população negra, parte expressiva de nosso país, não anda sendo bem representada nos mais diversos setores e encontra-se segregada, com menos oportunidades. Este preconceito existe latente em nossa sociedade e como a ideia da democracia racial encontra-se impregnada, as pessoas pensam serem inúteis ações afirmativas, como cotas para negros e indígenas em universidades, sendo que estas tem notória importância na inclusão social dos que ficam à margem da sociedade. Esse discurso da democracia racial foi revisto nos anos 6023 e declarado morto, como Guimarães afirma, porém para o autor ele continua vivo como um mito, seja no sentido de falsa ideologia ou “no ideal que orienta as ações dos atores sociais”.24 Temos ainda um bom caminho até atingirmos o verdadeiro “País de todos”, só devemos nos conscientizar disso e fazermos a nossa parte, e essa é justamente a função deste artigo. Devemos admitir a existência desse preconceito e combatê-lo, seja em grupo ou individualmente. Apesar de termos avançado em muitos pontos, das ações afirmativas estarem ganhando mais espaço na sociedade, devemos também fazer a nossa parte para garantir a igualdade. E novamente utilizando a ideia de Guimarães, a democracia racial deve se tornar apenas democracia, na qual todos sejam incluídos, sem a menção ao termo “raça”. Já que estas não existem, seria melhor que abandonássemos esse termo25, pois é justamente ele que segrega, pois quando separamos seres humanos por raças pode-se abrir a interpretação de que existe uma raça superior à outra, já que é o que acontece aos animais ditos selvagens. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARBOSA, Wilson do Nascimento. A estratégia do branqueamento. In: Cultura negra e dominação. São Leopoldo: Ed. Unisinos, p. 62-69, 2006. 23 GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Democracia <http://www.fflch.usp.br/sociologia/asag/Democracia%20racial.pdf> 24 Ibid., p 19. 25 Ibid., p 19. racial. p. 16. Disponível em: 121 COSTA, Emília Viotti da. O mito da democracia racial no Brasil. In: Da monarquia à república: momentos decisivos. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, p. 365-, 384, 1999. FREYRE, Gilberto. Características gerais da colonização portuguesa do Brasil: formação de uma sociedade agrária, escravocrata e híbrida. In: Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sobre o regime da economia patriarcal. São Paulo: Global, p. 64-155, 2003. GIACOMINI, Sandra Maria. Beleza negra e beleza mulata. In: Estudos feministas. nº 217, p. 217-227, 1994. GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Democracia racial. Disponível em: <http://www.fflch.usp.br/sociologia/asag/Democracia%20racial.pdf> Manual de uso da marca do governo federal. Disponível em: <http://www.ifrs.edu.br/site/midias/arquivos/2010418103110625anexoii.pdf> Acesso em 28 jun. 2011. TRAGTENBER; et al. Como aumentar a proporção de estudantes negros na universidade? In: Cadernos de Pesquisa. v. 36, n. 128, maio/ago, p. 473-495, 2006. ZITO, Joel Araújo. O negro na TV pública. Brasilia: FCP, 2010. 122 A REPRESENTAÇÃO MIDIÁTICA DOS “PIRATAS” DA SOMÁLIA PELA REVISTA VEJA Gabrielle Carolina Silva Universidade Federal de Uberlândia – UFU Graduanda em Comunicação Social: Habilitação Jornalismo [email protected] Profª. Dra. Adriana Cristina Omena dos Santos Universidade Federal de Uberlândia – UFU Faculdade de Educação – FACED [email protected] A EQUIVOCADA CONSTRUÇÃO SOCIAL DA REALIDADE PELA MÍDIA No dia 05 de agosto de 2011, uma criança somali, em aparente estado de desnutrição, estampou capas e foi manchete em diferentes veículos de comunicação, nacionais e internacionais. O fato, divulgado em telejornais e jornais impressos, noticiava um conflito entre civis e um grupo de homens armados, acusados de matar e saquear a comida a ser doada em um campo de refugiados na capital da Somália, Mogadíscio. Tal acontecimento representa um prodigioso exemplo das frequentes publicizações midiáticas que permeiam os acontecimentos no continente africano. Selecionado pela imprensa a partir de critérios de noticiabilidade, necessários para tornar um fato pauta de discussão na mídia, o episódio trouxe para este trabalho a necessidade de refletir acerca do papel educativo exercido pela mídia em relação ao tratamento dado aos países africanos. Para isso, outro exemplo de publicização sobre a Somália será usado na reflexão a respeito da influência exercida pela mídia nos olhares deterministas que lançamos sobre a África e as construções que fazemos das muitas realidades existentes neste território. A proposta não está relacionada à realização de grandes reflexões a respeito dos interesses políticos e econômicos que permeiam as ações dos neocolonizadores do continente africano, muito menos esmiuçar a função exercida pela mídia enquanto ferramenta útil para os referidos propósitos. O que intencionamos aqui é apresentar o conceito de Educomunicação, por entender esta nova ciência como solução cidadã crítica para tratar das singularidades do continente africano nos diferentes 123 conteúdos midiáticos. O presente trabalho é edificado em argumentações sobre a necessidade de reeducação da mídia com base na Educomunicação, “um campo de pesquisa, e reflexão e de intervenção social, cujos objetivos, conteúdos e metodologia são essencialmente diferentes tanto da Educação Escolar quanto da Comunicação Social” (SOARES, 2002, p. 01). Desta forma, analisaremos o caso específico dos conflitos marítimos em território somali, apregoados pela imprensa e organizações mundiais como os episódios de “pirataria”, a partir do material disponibilizado na página online da revista Veja, na editoria de Educação1. Neste intuito, os pilares da Educomunicação serão a referência na proposta de uma nova produção midiática, nos quais não se separam as duas áreas do conhecimento, Comunicação e Educação, e se faz essencial que a atividade de uma prescinda da consciência da outra. A Somália, país situado no chamado Chifre da África, é frequentemente estigmatizada como a região da miséria, corrupção e doenças, caracterização, não rara, atribuída também ao continente. Tais exposições pela mídia fazem surgir uma preocupação relacionada à influência exercida por ela na formação do imaginário social em relação à complexa realidade dos países africanos e, por conseqüência, na constituição da autoimagem erigida pelo cidadão afro-descendente no Brasil, país com 97 milhões de pessoas negras2. Esta frequente exposição dos impasses sociais, políticos e econômicos na África, a partir de uma ótica impiedosa, aponta a região como sendo lugar inferior, intelectualmente infértil e incapaz de autogovernar suas riquezas. Nas palavras de Saraiva, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (iREL-UnB) e diretor-geral do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IBRI), (...) as escolas continuam afônicas de histórias da África. As tragédias e genocídios ganham a cor espetacular das telas televisivas enquanto as experiências de estabilização e crescimento econômico assim como as iniciativas políticas de redução da pobreza e das doenças endêmicas na África são silenciadas (SARAIVA, 2008, p. 90). No que diz respeito à educação formal, as necessidades de tais correções foram previstas na Lei 10.639/03, que instituiu a inserção da história e cultura africana e afrobrasileira nos materiais didáticos e na própria ementa curricular. Tal medida deveria se encarregar de dar os primeiros passos para o diálogo entre as diferentes verdades que 1 2 Link para acesso: http://veja.abril.com.br/educacao/piratas-somalia/piratas-somalia.html Dado obtido do Comunicado do IPEA n° 91 de 12 de maio de 2011 (Censo de 2010). 124 permeiam a história do continente africano, porém, a lei sancionada em 2003 caminha a passos lentos no Brasil. A Educomunicação, ao entender que a mera divulgação de conteúdos não é capaz de dotá-los das devidas complexidades existentes nos contextos de cada realidade, propõe que a educação faça parte do processo produtivo destes mesmos conteúdos. Trata-se de uma educação midiática, com a mídia e para a mídia. Desta forma, propomos a reflexão sobre a produção deste material midiático, que entendemos exercer função educativa, e apontar para a urgência da reeducação da mídia, principalmente para temas que influenciam significativamente na construção da história, da realidade política e econômica e, sobretudo, dos próprios indivíduos enquanto os seres sociais edificadores destas realidades. A EDUCOMUNICAÇÃO COMO POSSIBILIDADE PARA A MÍDIA Quando pensamos no uso de conteúdo noticioso na sala de aula, podemos perceber que este material é fruto de uma lógica mercadológica, na qual a informação refere-se apenas a um produto. A leitura prevista para tais materiais apelam para a divulgação do senso comum, desvalorizando a capacidade crítica dos indivíduos. De acordo com Ismar de Oliveira Soares, coordenador do Núcleo de Comunicação e Educação da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (NCE – ECA/USP), a Educomunicação se define como um conjunto de “ações destinadas a integrar às práticas educativas o estudo sistemático dos sistemas de comunicação”. Trata-se de compreender a forma como os meios de comunicação se manifestam na sociedade e preparar alunos para lidar com esta nova realidade de inserção midiática “sem se deixarem manipular” (SOARES, 2002, p. 01). No intuito de elucidar o caso, trazemos a exemplo a página online da revista Veja, em que o veículo propõe, por meio de um quadro didático e dinâmico, apresentar o caso dos “piratas” da Somália. Sem atualizações ou contextualizações, a revista disponibiliza o referido conteúdo no site com uma linguagem infantil e uma abordagem insuficientemente profunda. Nesta página, podemos notar, além da carência de fontes sobre o fato, o uso espetaculoso de imagens, por vezes incoerentes com os textos, que aparentam simplesmente buscar a atenção do leitor. Para Souto (2010), jornalista e pesquisadora do Núcleo de Estudos em Arte Mídia e Política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (NEAMP/PUC-SP), 125 os mecanismos de escolha e de produção de conteúdos jornalísticos pressupõem que a mídia é responsável, no mínimo, sobre o quê a população deve pensar. Refere-se a uma hipótese que fornece à mídia, o poder de “espetacularizar” os fatos em seu próprio processo de produção de notícias e reportagens. Além disso, o autor produz uma análise do consumo impensado de informações, que nos parece útil à Educomunicação: Não falta comunicação em nossa sociedade, nem falta uma outra comunicação. A comunicação está sempre em excesso. O que nos falta é resistência ao presente para não nos agarrarmos a idéias prontas. E é precisamente por meio das idéias prontas que operam os meios de comunicação. Os jornais procedem por redundância, pelo fato de nos dizerem o que é “necessário” pensar, reter, esperar. A linguagem não é informativa ou comunicativa, mas a transmissão de palavras de ordem. A linguagem não é feita para transmitir informações ou mesmo para que se acredite nela, mas para obedecer e fazer obedecer (SOUTO, 2010, p. 11). Diferentemente dos padrões e deslizes da confecção de conteúdo informativo dos dias de hoje, sustentados na lógica da produção massificada de informações que acabam por serem amputadas de contextualização histórica e geográfica, uma produção educomunicativa sobre o caso somali voltaria o foco não apenas para o que acontece, mas também para suas causas profundas. Donizete Soares Donizete, fundador e diretor do Instituto de Educação e Cultura GENS, entende a Educomunicação como um campo de ação política no qual devem se encontrar os debates para que não aconteçam as generalizações ou a criação de modelos fixos e estáveis. Para ele, trata-se de uma construção conjunta dos sujeitos sociais. É uma área de “transdiscursividade e, por isso, multidisciplinar e pluricultural” (SOARES, 2006, p. 04). O autor define a Educomunicação como processual e tal caracterização poderia, com mais fidelidade, diversidade e complexidade, abordar os mais diversos episódios ocorridos em território africano. Analisar e reproduzir, por exemplo, o caso dos “piratas” da Somália, com a profundidade e a contextualidade que lhe são devidas, faz parte de um processo consciente de comunicação. Devemos tratar a informação não apenas como um produto, mas em sua forma histórica, um processo “rico em detalhes, cheio de incongruências, ao mesmo tempo compreensível e difícil de entender, atraente, fascinante e pleno em problemas de toda ordem” (SOARES, 2006, p. 05). A parte desta história que a revista Veja nos conta dispensa explicações das mais diversas. A publicação escolhe por não noticiar as origens da “pirataria” na Somália ou mesmo o histórico de conflitos fronteiriços, estatais e religiosos que assolam o país e que datam do final do século XV (VICENTE, 2009, p. 02) até os dias atuais. 126 Para o etnólogo, professor e escritor cubano, Carlos Moore (2008), especialista em assuntos internacionais e o impacto que questões de raça, etnia e gênero exercem sobre a sociedade, a situação social, política e econômica dos países africanos tem raízes principalmente na exploração milenar destes territórios: O chamado ‘continente negro’ [...] foi transformado, durante um período de um milênio, em um verdadeiro terreno de caça humana e de carnificina. O impacto negativo cumulativo dessa realidade sobre o desenvolvimento econômico, tecnológico, político, demográfico, cultural e psicológico dos povos africanos está ainda por ser determinado. Mas, as complexas interconexões existentes entre as singularidades apresentadas e a visão depreciativa que permeia tudo o que se refere a herança histórica e cultural dos povos africanos já começam a aparecer (MOORE, 2008, p. 168). Mas, não pretendemos aqui justificar os sequestros praticados nos mares da Somália ou mesmo os abusos de poder militar oficial ou não-oficial pela e contra a população do país. Porém, a publicização de tal material pela revista Veja em uma editoria educativa incita alguns questionamentos relacionados à forma como tem sido realizada a comunicação nos dias de hoje pelas grandes mídias. Não existem possibilidades para este novo olhar sobre a comunicação e a educação crítica na mídia? Não estão as grandes agências internacionais aptas a lidarem com situações conflituosas em culturas e espaços diferentes? O que buscamos sugerir é que este caso refere-se a um exemplo carente de observações críticas, bem como o anteriormente referido episódio do roubo de comida no campo de refugiados em Mogadíscio. Nesse contexto, apontamos ainda para a necessidade de ouvir as diferentes realidades deste contexto que está sempre em processo de construção, fundamental também para as produções discursivas. Apesar das dificuldades para cooptação de informações no contexto internacional e de conflito, além das responsabilidades do jornalismo em relação às atualizações dos fatos, esperase que as novas ferramentas tecnológicas contribuam também em sua função investigativa, descritiva, informativa, educativa e, sobretudo, a imparcialidade, elementos chave para a ética jornalística. Além disso, necessita-se de uma nova cultura de consumo de informações, em que as pessoas estejam preparadas para avaliar os fatores que influenciam a produção destas mesmas informações, como, por exemplo, o poder econômico ou mesmo sua própria montagem discursiva, textual e imagética. Dessa forma, além de propor a revisão da produção de conteúdos midiáticos educativos, a Educomunicação demanda, também, rever o olhar para nossa forma de organização social a partir dos indivíduos, que devem ser autônomos e críticos para 127 enxergar o que lhes é diverso e estranho à primeira vista. A mídia não deve ensinar, e sim, mediar e esta é sua função educativa. Nesse contexto, torna-se direito destes mesmos indivíduos o acesso a informações completas e complexas e não de produtos prontos para o consumo tal qual a mídia o propõe. Na ótica de Donizete Soares, o senso comum deve ser deixado para trás, na medida em que entendemos as razões que o fundamenta, para realizarmos as interrogações que cada problemática encontrada na mídia exige: “quem disse isso ou aquilo? De onde esse quem está falando? Esse alguém fala em nome de um grupo? Isso que foi e é dito é especialmente endereçado a alguém? A quem, exatamente?...” (SOARES, 2006, p. 07). Não falamos, contudo, de um discurso pronto, acabado. Não falamos de algo como um produto, mas de um novo discurso que vai se construindo no processo. Isso porque, ao contrário dos milhares discursos que estão aí à disposição para venda ou até mesmo para doação, esse novo discurso não pode ser escrito num gabinete. Nem é o resultado de um esforço solitário do pesquisador acadêmico buscando se encontrar em meio a citações e referências bibliográficas [...] Não se trata de fazer desse mais um espaço em que o senso comum predomine, como tem acontecido com tanta frequência, tanto nos meios acadêmicos como nos meios de comunicação social. [...] Pré-conceitos e pré-julgamentos são ações, além de irresponsáveis, extremamente autoritárias e, portanto, merecedoras de toda a nossa atenção. (SOARES, 2006, p. 06) Para o autor, o novo discurso apresentado pela Educomunicação está construído no diálogo também dos participantes, diferente do discurso de “gabinete”. Mas, no caso da Somália, qual seria este novo discurso e estes novos participantes? Não seria necessário apostar nos diferentes olhares e deslocamentos das verdades para melhor representá-los nas mídias? De acordo com Vicente (2009), defensor da importância dos novos meios digitais nas relações de poder e contrapoder existentes em conflitos de guerra, tais possibilidades de informações atualizadas poderiam estar nas comunidades online estabelecidas na Somália, são as chamadas “grassroot communities”. O autor cita, como exemplo, o trabalho do website Somaliland.org, “criado por cidadãos da Somalilândia que ‘sentiam a necessidade de trazer à luz informação alargada e politicamente descomprometida’ tendo em vista ‘uma imagem real sobre o país’. O Somaliland.org desenvolve uma extensa actividade informativa, complementada com um vasto leque de textos de análise e opinião” (VICENTE, 2009, p. 08). Na sala de aula, a Lei 10.639/03 contribui para estas revisões sobre o continente africano e, como explica Moore, 128 (...) à primeira vista, uma das formas eficientes de alcançar esses objetivos seria a organização de oficinas de formação para agentes multiplicadores selecionados, preferencialmente, entre os docentes das disciplinas humanas, e não somente na disciplina histórica. [...] o docente incumbido do ensino da matéria africana deverá cultivar sua sensibilidade em relação aos povos e culturas oriundos deste continente. Num país como o Brasil, onde as tradições e culturas africanas nutrem, de maneira tão vigorosa, a personalidade do povo brasileiro, a empatia para com a África apareceria como algo natural, mas ela não é, apesar de todos os brasileiros serem herdeiros das tradições e cosmovisões desse continente (MOORE, 2008, p. 206). Para Moore, na academia as atualizações da história do continente africano são fundamentais para desqualificar os mitos preconceituosos sobre o território e sua população. A busca incessante pela fidelidade aos fatos proposta por Moore está também relacionada com qualquer material de disseminação sobre o continente que contribua para mantê-lo em condição de incapacidade para os padrões ocidentais. CONSIDERAÇÕES FINAIS São nestes apontamentos que encontramos a possibilidade de educomunicar sobre o caso “Os piratas da Somália”. Atualização, renovação e interdisciplinaridade vão ao encontro da necessidade do processo construtivo proposto por Soares (2006). A partir desta compreensão, surgem questionamentos que agora nos parecem fundamentais: os fatos publicados acerca dos roubos e sequestros que acontecem em território marítimo somali correspondem à realidade do país africano? O tratamento dado à situação contempla a complexidade social, política e econômica da Somália ou tal questão está resumida em apenas um simples caso de “bandidagem” e corrupção, como pressupõe a Veja? Existe coerência das publicações com a ótica particular dos somalis ou apenas com o olhar ocidental? O continente africano, silenciado nas mídias, é visto como incapaz de ser narrador de sua própria realidade. Para que novos olhares sejam deitados sobre passado e presente da África, faz-se necessário um aprimoramento no tratamento histórico dos acontecimentos ou até mesmo uma revisão e melhor seleção do que será compartilhado na sala de aula ou divulgado pela mídia. Este material é de suma importância para nortear e alimentar os focos de discussão crítica proposta pela Educomunicação. Se as riquezas edificadas e acumuladas pelo continente africano durante milênios não são valorizadas pelo mundo ocidental, existem ainda informações sobre o crescimento econômico desta mesma região, neste caso baseadas nos padrões ocidentais, ignoradas pela mídia. De acordo com Saraiva (2008), o crescimento na 129 região subsaariana, “considerada a região mais pobre do mundo, cresce entre 5% e 6% ao ano desde 2003. Adaptações macroeconômicas à globalização moveram as economias de todo o continente para equilíbrios na área da gestão dos negócios dos Estados.” (SARAIVA, 2008, p. 88). Mas o autor aponta ainda que tais dados são ignorados: (...) há, sobretudo, o sentimento de que nos últimos sete anos, justamente os primeiros do novo século, a África vem superando o drama histórico das guerras intestinas e internacionais. O número de países africanos com conflitos armados internos caiu de 13 para 5, nos últimos seis anos, apesar da dramaticidade do caso do Darfur. Os conflitos foram a mais importante causa imediata da pobreza no continente. A redução dramática dos mesmos faz pensar que os recursos, quase da ordem de US$ 300 bilhões queimados nos conflitos entre 1990 e 2005, podem agora ser dirigidos às políticas de redução da pobreza e da miséria (SARAIVA, 2008, p. 89). A partir disso, trata-se de analisar criticamente todo o material apresentado na sala de aula e pelos meios de comunicação. Nos processos educativos formais ou não, todos os indivíduos estão inseridos em um espaço midiático no qual são socioculturalmente responsáveis pela difusão de conhecimento e pela formação das concepções de realidade. Nesse sentido, as indagações realizadas ao longo do texto pretendem contribuir para a construção de novos olhares sobre o continente africano. Para Moore (2008), tratar de África exige a (...) conjunção de três fatores essenciais: uma alta sensibilidade empática para com a experiência histórica dos povos africanos; uma constante preocupação pela atualização e renovação do conhecimento baseado nas novas descobertas científicas; e uma interdisciplinaridade capaz de entrecruzar os dados mais variados dos diferentes horizontes do conhecimento atual, para se chegar a conclusões que sejam rigorosamente compatíveis com a verdade (MOORE, 2008, p. 208-209). Deste modo, faz-se urgente novos modelos de informação, dispostos a driblarem todos as dificuldades de lidar com temas internacionais. Mas, para além dos impasses técnicos, é ainda mais importante a construção de interações entre a população brasileira e as realidades africanas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS MOORE, Carlos. A África que incomoda: sobre a problematização do legado africano no quotidiano brasileiro. Belo Horizonte: Nandyala, 2008 (Coleção Repensando a África, Volume 1) OLIVEIRA, Gilberto Carvalho de. Pirataria na Somália e paz internacional. Disponível em: 130 http://cabodostrabalhos.ces.uc.pt/n3/documentos/4_Gilberto_Oliveira.pdf. Acesso em abril de 2010. SARAIVA, José Flávio Sombra. A África na ordem internacional do século XXI: mudanças epidérmicas ou ensaios de autonomia decisória? Rev. Bras. Polít. Int. 51 (1): 87-104 [2008] SOARES, Donizete. Educomunicação – o que é isto? Disponível em: http://portalgens.com.br/baixararquivos/textos/educomunicacao_o_que_e_isto.pdf. Acesso em junho de 2011. SOARES, Ismar de Oliveira. Mas, afinal, o que é Educomunicação? Disponível em: http://www.usp.br/nce/wcp/arq/textos. Acesso em junho de 2011. SOARES, Ismar de Oliveira. Uma Educomunicação para a cidadania. Disponível em: http://www.usp.br/nce/wcp/arq/textos/6.pdf. Acesso em julho de 2011. SOUTO, Fhoutine Marie Reis Souto. Desafios para a análise do jornalismo internacional. Disponível em: http://www.pucsp.br/revistaaurora/ed7 _2010/artigos/download/ed7/4_artigo.pdf. Acesso em maio de 2010. VICENTE, Paulo Nuno. Somália: Contributos para uma reflexão à luz dos novos meios. Diálogos De La Comunicación, nº. 78, Enero - Julio 2009. Revista Académica De La Federación Latinoamericana de Facudades de Comunicação Social. ISSN: 1995 – 6630 WOLF, Mauro. Da sociologia dos emissores ao newsmaking. In: Teorias da comunicação. Lisboa: Presença, 2009, p.177-254. 131 MÍDIA E PRECONCEITO EM PROPAGANDAS: UM PANORAMA SOBRE A PROPAGAÇÃO DE ESTEREÓTIPOS E DISCRIMINAÇÃO CONTRA NEGROS (AS) PELOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO. Ludma Lillyan Vieira Ramos Universidade Federal de Uberlândia – UFU Graduanda em Ciências Sociais – INCIS Bolsista do PIBID-HCAFRO1 [email protected] Prof. Dr. Guimes Rodrigues Filho Universidade Federal de Uberlândia – UFU Instituto de Química – IQ Núcleo de Estudos Afro Brasileiros – NEAB [email protected] A mídia2 tem um papel fundamental na formação cultural das pessoas, pois como afirma BELELI (2007, p. 193) “(...) a propaganda é um meio divulgador de cultura.” Ou seja, ela difunde modelos e visões específicos para seus telespectadores, que utilizam os mesmos para comprar. No entanto, as propagandas também difundem opiniões e valores. O rádio, a televisão, o cinema e os outros produtos da indústria cultural fornecem os modelos daquilo que significa ser homem ou mulher, bem- sucedido ou fracassado, poderoso ou impotente. A cultura da mídia também fornece o material com que muitas pessoas constroem o senso de classe, de etnia e raça, de nacionalidade, de sexualidade, de “nós” e “eles”. (KELLNER, 2001, p. 9) Dessa maneira, o nosso recorte se estabelece na difusão da imagem de pessoas negras e a divulgação delas na mídia brasileira. Esta como formadora de opinião possui uma peculiaridade ao utilizar de pessoas negras em suas propagandas, em que muitos casos, são retratados como marginais, inferiores e/ou sensuais em diversas propagandas. Apesar disso, deve-se ressaltar que os criadores e difusores de propagandas, as quais possuem teor racista ou estereotipado sobre o negro são influenciados pela história e pela cultura em que vivem. Dessa forma, na nossa visão, isso explica os diálogos e as propagandas que ridicularizam ou inferiorizam o negro. Este trabalho procura, a partir dos referenciais teóricos, analisar as imagens da Revista Rolling Stones - Número 51, dezembro de 2010, páginas 6 e 7 e da Campanha 1 2 Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/CAPES - Sub-projeto História e Cultura Afro brasileira “Cinema, tv, rádio, jornal, revista...” (BELELI, 2005, p.2). 132 “Começar de Novo”, Campanha do Conselho Nacional de Justiça, Cartaz lançado em 2010, e demonstrar que as propagandas não possuem somente o intuito de venda de determinados produtos, mas também elas são responsáveis pela veiculação e perpetuação do racismo na sociedade brasileira. Além disso, o trabalho propõe discutir o racismo e os estereótipos impostos aos negros nas propagandas brasileiras que utilizam da imagem de pessoas negras. O NEGRO, O RACISMO E OS ESTEREÓTIPOS As propagandas de outdoors ou disseminadas na televisão são um meio de divulgar cultura, de formar opiniões e de luta contra o racismo ou de disseminação do mesmo. Segundo Beleli (2007), o discurso dos publicitários se baseia na ideia de que “(...) nós só mostramos aquilo que o consumidor quer ver.” (BELELI, 2007, p. 193) Porém, não é isso que se observa nas propagandas, pois elas estão cheias de significações e de ideias que são transmitidas a população como ordem natural das coisas. De acordo com Bobbio; Mateucci; Pasquino (1998), as propagandas utilizam de mensagens que criam imagens positivas e negativas de fenômenos e ao mesmo tempo estimulam certos comportamentos. A Propaganda pode ser definida como difusão deliberada e sistemáticas de mensagens destinadas a um determinado auditório e visando a criar uma imagem positiva ou negativa de determinados fenômenos (pessoas, movimentos, acontecimentos, instituições, etc.) e a estimular determinados comportamentos. A propaganda é, pois, um esforço consciente e sistemático destinado a influenciar as opiniões e ações de um certo público ou de uma sociedade total. (...) Em suas acepções mais correntes, a Propaganda difere de outras formas de persuasão, enquanto realça elementos puramente emotivos, recorre a estereótipos, põe em relevo só certos aspectos da questão, revela um caráter sectário, etc (BOBBIO, MATEUCCI, PASQUINO, 1998, p. 1018). Pelos meios de comunicação circulam informações e padrões de acordo com os interesses da classe dominante, afirma THOMPSON (2002). Para alcançar o poder, o domínio e os objetivos desejados, esta classe emprega todos os recursos disponíveis, inclusive o recurso midiático. Dessa forma, a mídia não mostra somente aquilo que o consumidor quer ver, como afirmam diversos publicitários. Ela também dissemina o controle dos indivíduos e normas impostas para a sociedade, em que são afirmados estereótipos e hierarquização social (superioridade e inferioridade entre classes e cores). 133 O recorte aqui privilegiado são propagandas que circularam na mídia nacional que inferiorizam e impõe estereótipos a população negra. A escolha das propagandas se baseou em demonstrar através deste trabalho a disseminação da discriminação e dos estereótipos. As imagens remetem a diversas interpretações, mas a nossa leitura está orientada pela inferioridade e marginalização dos negros e a imposição de apelos sexuais do corpo da mulher negra difundidos nas propagandas estudadas. Dessa forma, a propaganda, presente nos lugares mais secretos de nossas vidas, ao propor que o consumidor se identifique com a marca/logo, também propõe uma identificação com determinados modelos que reforçam “identidades”. (BELELI, 2007, p. 193) Essa identificação com determinados modelos que reforçam identidades nem sempre é benéfica para a sociedade. No caso da discriminação3, diversas propagandas podem contribuir para o ódio contra o negro, a exclusão social ou para a disseminação da ideia de inferioridade do mesmo. Dessa forma, muitas propagandas contribuem para o reforço de atos de violência contra a população negra e para a afirmação de estereótipos que desqualificam os (as) afrodescendentes ao impor e difundir ideias de que estes são perigosos, bandidos, prostitutas, etc. Se abrirmos aqui um breve espaço para a mídia televisiva, notaremos que também nas telenovelas ocorre a manipulação negativa da imagem de pessoas negras. BARBOSA (2002) em seu estudo sobre as telenovelas brasileiras afirma que o negro aparece de forma estereotipada e/ou em posições subordinadas. Isso ocorre por causa de diversos fatores: As instituições como a família, escola e religião, enfim, a sociedade, encarregam-se de transmitir os valores que já estão formulados e perpetuados, de geração a geração. A propagação dos estereótipos negativos em relação ao negro está presente na História, arraigados na cultura brasileira e se disseminam de várias formas. (BARBOSA, 2002, p. 4) Uma das formas de estereótipos propagadas pela mídia é a imagem associada ao crime e à inferioridade da população negra. Por isso, o foco deste trabalho são propagandas que reforçam os estereótipos, a inferioridade do negro e o racismo; este visto através da perspectiva que BARBOSA (2002), aborda em seu trabalho científico 3 De acordo com a Convenção Internacional para a Eliminação de todas as Normas de Discriminação Racial da ONU, ratificada pelo Brasil em 27 de março de 1968, a discriminação racial, conforme seu artigo 1°: significa qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada na raça, cor, ascendência, origem étnica ou nacional com a finalidade ou o efeito de impedir ou dificultar o reconhecimento e/ou exercício, em bases de igualdade, aos direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou qualquer outra área da vida pública. 134 sobre o modelo branco, em que se baseia “[...] na crença da hierarquia entre as supostas raças humanas[...] branquitude4 pode ser entendida a partir da representação do branco como modelo universal de humanidade.” (BARBOSA, 2002, p. 5) ANÁLISE DAS PROPAGANDAS Além de a mídia propagar a branquitude sobe a nossa leitura, ela também propaga a ideia de mulher negra como um objeto a ser desejado. A figura 1 mostra o apelo sexual com que a mulher negra é exibida no anúncio. Dessa forma, o corpo da mulher é relacionado com a sensualidade, a lascívia e a um objeto de desejo. [...] a ilustração de uma mulher negra apresenta uma contextualização de dançarina de bordel, que está exposta sobre a mesa junto ao produto, fazendo alusão à possibilidade de consumo dos dois “objetos”. (BATISTA, L.L.; LEITE, F, 2011, p. 45). FIGURA 1 – “É pelo corpo que se reconhece a verdadeira negra” Revista Rolling Stones - Número 51, dezembro de 2010, páginas 6 e 7. O desenho da mulher na figura 1 relaciona a cerveja preta à mulher negra. O foco da propaganda é demonstrar o quanto a cerveja é boa para ser consumida e o quanto ela é saborosa e desejável. Para esta propaganda utilizaram da imagem de uma mulher negra, pois relaciona-se a cor da mulher com a cor da cerveja: preta. No entanto, 4 “A branquitude como um lugar estrutural de onde o sujeito branco vê os outros, e a si mesmo, uma posição de poder, um lugar confortável do qual se pode atribuir ao outro aquilo que não se atribui a si mesmo (Frankenberg, 1999b, pp. 70-101, Piza, 2002, pp. 59-90). 135 a mulher é retratada nesta propaganda como um objeto sexual, em que deve ser usado, ou seja, experimentado, por ser encorpada e sensual. Além disso, outro aspecto importante na imagem da mulher da propaganda é que ela tem o corpo com características de pessoas negras, como a cor preta, mas também tem características de pessoas brancas no rosto, como nariz afilado e lábios mais finos. Na nossa leitura, o anúncio impõe um padrão de beleza, que estabelece a beleza ideal como ter corpo com curvas e rosto que possua traços de brancos. O Brasil possui um histórico de discriminação e exploração contra os negros que ocorre desde a escravatura. Os negros foram trazidos às terras brasileiras pelos navios negreiros, que exportava mão-de-obra escrava para o trabalho nos canaviais e nas cidades. Desde a chegada dos africanos nos portos do Brasil, que inicio no século XVI, até meados do século XIX, que essas pessoas sofreram com a escravidão, através de maus-tratos físicos e da discriminação. Neste período, as mulheres negras sofreram abusos sexuais por parte de seus senhores, pois elas eram vistas como objetos sexuais a serem utilizados a mercê da vontade dos grandes proprietários de terras. Durante séculos, as mulheres negras do Brasil foram exploradas sexualmente; no trabalho e também nas condições de vida. Dessa forma, a imagem das negras era de objetos de exploração e o seus corpos retratadados como símbolos de pecado e sensualidade. FERNANDES (2008) afirma que mesmo com as transformações históricosociais, a estrutura e funcionamento da sociedade não afetaram muito a ordenação das relações raciais. Ou seja, mesmo após anos da abolição da escravatura, os negros ainda são retratados como inferiores e seus corpos exotizados, principalmente nas propagandas. Na figura 1, a propaganda demonstra essa visão de mulher negra como um corpo sensual. FREYRE (1998) em sua grande obra Casa Grande e Senzala explica como os negros eram vistos no Brasil antigamente, em particular a mulher negra. Esta possuia admiráveis formas e o seu corpo era considerado fonte de grandes prazeres ao patriarca português. A mídia como forma de propagação de estereótipos tem difundido o corpo da mulher negra como sinônimo de devassidão, de desejo e de sexualidade. Em diversas propagandas encontram-se esse estereótipo de mulher negra como objeto de sensualidade. 136 Os meios de comunicação não só disseminam esses estereótipos, mas também os perpetua ao exarcebar a sexualidade das negras nas propagandas. A imagem da mulher negra é difundida de maneira negativa, o que contribui para o aumento e propagação do preconceito. A frase da propaganda “É pelo corpo que se reconhece a verdadeira negra” exprime o estereótipo de que a mulher negra só é vista como objeto de desejo e de uso. Os estereótipos refletem traços da cultura dominante, em que são aplicados a sujeitos em posição hierárquica subordinada, neste caso os negros. Percebe-se isso, em diversas propagandas que personagens negros aparecem seminus ou em posições inferiores. Ao distribuir na mídia a imagem da mulher negra, que possui curvas e corpo voluptuoso, as propagandas buscam além de vender o produto, realçar o desejo de consumo dos homens. O anúncio induz a ideia de desejo e de satisfação para o consumidor de poder tomar a cerveja com o imaginário libidinoso de ter o mesmo prazer em se relacionar com uma mulher, que possui um corpo também saboroso. Dessa maneira, observamos que a propaganda relaciona o desejo de consumir a cerveja com o desejo sexual. De acordo com NOGUEIRA (1985), o preconceito no Brasil está centrado na aparência e não na essência. É justamente, essa aparência que é disseminada nas propagandas preconceituosas, em que o negro é mostrado em posições de rebaixamento e sensualidade. Os meios de comunicação de massa influenciam na organização social e na construção da realidade da sociedade, por isso, o pensamento social também é influenciado por eles. PAVARINO (2003) afirma que os meios de comunicação transmitem valores, crenças e modelos de conduta. Thompson (2002) afirma que os meios de comunicação têm uma dimensão simbólica capaz de (re) elaborar a vida social, de reorganizar os meios de produção e transmissão da informação e de seu conteúdo simbólico. Por isso, eles atingem diversos contextos sociais, em que os impactos podem ser favoráveis ou nocivos. No caso dos estereótipos, a propaganda da Devassa é um exemplo, pois retrata a mulher negra na mídia de forma erótica. Através disso, notamos que as propagandas que exibem a mulher negra como sensual podem contribuir para a visão social de sexualidade inata dessas mulheres. De acordo com o Dossiê Mulher (2010), as vítimas de atentado violento ao pudor e estupro no Estado do Rio de Janeiro em 2009 demonstram que 41,0% eram 137 brancas e 54,0% negras (pardas ou pretas). Já as vítimas de homicídio doloso no mesmo ano demonstram que 55,2% eram negras (pardas e pretas) e 38,3% eram brancas. Essa diferença demonstra que inclusive nos crimes cometidos contra as mulheres, as negras são mais agredidas. As propagandas ao difundirem a ideia de negra como consumo e uso colaboram para o aumento dos crimes contra elas, pois os valores transmitidos nas propagandas são absorvidos e utilizados nos meios sociais, em que ocorrem crimes cometidos contra a população negra, principalmente crimes relacionados a abuso e violência. FIGURA 2 – CAMPANHA “COMEÇAR DE NOVO” Campanha do Conselho Nacional de Justiça. Cartaz lançado em 2010. O cartaz da Figura 2 é da campanha “Começar de Novo” do Conselho Nacional de Justiça. O objetivo da campanha é reinserir ex-presidiários no mercado de trabalho e proporcionar possibilidades de sua efetiva inclusão na sociedade civil de forma extensa e participativa. A campanha está em vigor desde o dia 29 de dezembro de 2008, iniciada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Supremo Tribunal Federal (STF). A imagem do cartaz da Figura 2 mostra um homem, cuja face direita é branca (trabalho) e a sua face esquerda é preta (volta ao crime). Dessa maneira, o lado branco 138 simboliza o “Começar de Novo”, enquanto que o lado preto simboliza a “criminalidade”. Para compreender a negatividade da imagem e das características negras faz-se necessário um breve exame sobre o período da escravidão e pós-escravidão. O Brasil tem uma história de discriminação e exploração dos negros, que começou desde que o primeiro navio negreiro trouxe africanos para o trabalho escravo. Durante séculos, os negros foram submetidos a trabalhos pesados, exploração sexual e exclusão social. Os escravos negros eram considerados como propriedade e objeto dos senhores de terras, que praticavam atrocidades contra eles. Dessa maneira, os escravos não eram vistos como pessoas de direito e respeito. Além dos sofrimentos sofridos, a cor preta passou a ser vista como cor de escravo, de delinqüência e de maldade. “A escravidão foi muito mais do que um sistema econômico. Ela moldou condutas, definiu desigualdades sociais e raciais, forjou sentimentos, valores e etiquetas de mando e obediência.” (ALBUQUERQUE, 2006, p. 67-68). Com o fim da escravidão, o Brasil não promoveu políticas de integração dos negros, por isso, a discriminação em relação à cor e a aspectos negros continuaram,. Posteriormente começaram as lutas contra o racismo e as leis e as punições contra atitudes discriminatórias. Após a escravidão, as desigualdades sociais entre brancos e negros continuou. As pessoas negras não eram bem vistas pela sociedade brasileira, por isso, ocorreu nesse período o incentivo à imigração européia, com o propósito de embranquecer os brasileiros. Schwarcz (2001) afirma que a impressa contribuiu para a imagem negativa das pessoas negras pós-escravidão. A imagem do negro era associada com constância às ideias de violência, barbarismo e exotismo. A cor preta se tornou sinônimo de escuridão, de crime e de negatividade. Por isso, ao retratar a parte preta e/ou negra como “volta ao crime”, o cartaz da campanha “começar de novo” promove uma imagem negativa do negro, através da cor preta estar vinculada ao adjetivo criminoso. Como explicado anteriormente, a mídia não só mostra o que a sociedade quer ver, ela também transmite informações, valores e símbolos que são incorporados pela sociedade. Através disso, esses símbolos tornam-se padrões e verdades que, neste caso, transmitem uma imagem distorcida das pessoas negras. 139 De acordo com RAMOS (2007), o racismo não é reproduzido na mídia através da afirmação aberta da inferioridade e da superioridade, mas ele ocorre implicitamente. “As dinâmicas de exclusão, invisibilização e silenciamento são complexas, híbridas e sutis, ainda que sejam decididamente racistas.” (RAMOS, 2007, p. 9) Os meios de comunicação são um exemplo da forma sutil de expressão das desigualdades e de discriminações raciais. RAMOS (2007) afirma que a mídia desempenha um papel central na produção e manutenção do racismo, pois ela naturaliza e banaliza as desigualdades raciais. Dessa maneira, o negro é retratado na mídia de forma negativa, em que os aspectos de criminalidade são atribuídos como ordem natural da sociedade. CONCLUSÃO Os meios de comunicação de massa tem produzido e perpetuado estereótipos e discriminações contra negros. Discute-se nos ambientes acadêmicos e na própria mídia os meios para maior inserção do negro nos jornais, nas novelas e nas propagandas. Porém, pouco se tem discutido sobre como o negro deve ser retratado no meio midiático. A inserção dos negros na mídia tem ocorrido com maior frequência e números, dada as reinvindicações do movimento negro, porém a imagem deles ainda é utilizada com estereótipos de pobreza, criminalidade e sensualidade, o que é um problema social por contribuir para a discriminação, os atos preconceituosos e a imagem negativa do negro no Brasil. A mídia continua a disseminar padrões de beleza europeus, opiniões de classes dominantes e estereótipos que são incorporados pela sociedade, inclusive pelos negros. Essas imagens dos negros retratadas na mídia em papéis subalternos ou com teor sexual promovem uma baixa auto-estima nas pessoas negras e atitudes violentas contra elas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBUQUERQUE, W. R. de. Uma história do negro no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006. 140 ARAÚJO, Joel Zito. A negação do Brasil: o negro na telenovela brasileira. São Paulo: Editora Senac, 2000. BARBOSA, Luciene Cecilia. Louca Paixão: Questões Raciais na Telenovela sob o olhar do receptor. Dissertação de Mestrado na Escola de Comunicações e Artes; Universidade de São Paulo, 2002. BATISTA, L. L.; LEITE, F. O negro nos espaços publicitários brasileiros: perspectivas contemporâneas em diálogo. São Paulo: USP, 2011. BELELI, Iara. Corpo e identidade na propaganda. 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Petrópolis: Vozes, 2002. 142 O “NEGRO” NA MÍDIA TELEVISIVA: Uma Análise da Representação do Negro no Mundo da Televisão Raoni Oscar Nery Universidade Federal de Uberlândia – UFU Graduando em História – INHIS Bolsista do PIBID-HCAFRO1 [email protected] Profª. Dra. Maria Elizabeth Ribeiro Carneiro Universidade Federal de Uberlândia – UFU Instituto de História – INHIS Centro de Documentação e Pesquisa em História [email protected] Pensa-se então em fabricar um contra-imaginário, arma de combate, mas também instrumento de educação destinado a inculcar no espírito do povo novos valores e novos modelos formadores. (Bronislaw Bakzco) O imaginário social2 é uma "força" que atua na sociedade, nos indivíduos e os transforma, criando identidades, valores, crenças, forjando modelos de comportamento que demarcam sujeitos e influenciam suas atitudes. O imaginário está em constante mudança, moldando-se de acordo com as condições do lugar e de seu tempo, pois em cada época, as vivências e experiências adquiridas são únicas, tornando-se, assim, algo que não se cristaliza. Quando pensamos as imagens do negro dentro desse processo, podemos ver uma grande diferença, por exemplo, no modo em que elas eram tratadas no período da escravidão em comparação aos dias atuais. E mesmo pensando nessa ressignificação do/no imaginário criado, que aciona na sociedade a classificação do referente negro a partir dos traços negróides3, suas imagens ainda hoje trazem consigo uma marca de 1 Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/CAPES - Sub-projeto História e Cultura Afro brasileira. Segundo Marilena Chauí, Baczko afirma que o imaginário social se assenta e opera através dos sistemas simbólicos, os quais são construídos a partir da experiência dos agentes sociais: “[...] Ele é elaborado e consolidado por uma coletividade, como uma resposta que esta dá a seus conflitos, divisões e violências reais ou potenciais. É uma das forças reguladoras da vida coletiva, designando identidades, elaborando determinadas representações de si, estabelecendo e distribuindo papéis e posições sociais, exprimindo e impondo crenças comuns, construindo modelos de bom comportamento”. (Federação Nacional dos Jornalistas. Mídia e Poder. Pesquisa realiza por Marilena Chauí. Disponível em http://www.fenaj.org.br/materia.php?id=1324. Acessada em 12/09/2011.) 3 "[...] os indivíduos são classificados e se classificam a si próprios como brancos, pardos ou mulatos claros, pardos ou mulatos escuros e pretos - variando, até certo ponto, os "tipos" reconhecidos e as respectivas designações de uma para outra região do país - levando-se em consideração, em cada caso, a ausência ou concentração de traços negróides (densidade da pigmentação, contextura e cor dos cabelos, formato do nariz e dos lábios etc.), ou seja, a aparência resultante da combinação ou fusão de traços europeus e africanos". (NOGUEIRA, 1998, 199) 2 143 inferioridade social. Se no século XIX ser negro era ser inferior intelectual e socialmente, e a imagem do sujeito negro era identificada com as práticas do trabalho manual ou braçal e com o uso de atributos do corpo físico, no século XX, uma das imagens construídas nos discursos cotidianos sobre o negro é o de sujeito ocioso, malandro, marginal ou bandido. O que podemos perceber é que no Brasil a imagem do negro quase nunca teve espaço em destaque na sociedade, ou muitas vezes quando isso acontece, este é distinguido por sua inferioridade. Nos dias atuais a mídia é uma das principais formas de construir e propagar um imaginário social. Este imaginário tem como base representações fortes e evidentes na sociedade brasileira, esta que insiste em criar e reproduzir identidades sociais que aparecem vincadas por diferenças de classe, gênero, e também, uma clara desigualdade construída historicamente com base nos traços de raça-etnia. Neste processo de criação e reprodução de um imaginário social, processo que incide sobre a homogeneização da representação (PESAVENTO, 1995, 20), são reiterados símbolos e signos, muitas vezes de formas implícita, que atingem a sociedade diretamente. A mídia ajuda na criação e reprodução desses símbolos que estão carregados de preconceitos e, quando inseridos na sociedade, induzem à reprodução dessas práticas da comunicação social. A mídia televisiva, ao repassar informações pelos jornais, novelas, seriados ou filmes, trazem consigo todo um conjunto de valores já existentes e em circulação na sociedade brasileira. Mas, cabe a nós refletir: qual o papel da mídia na construção ou desconstrução desses imaginários? Quando essas representações depreciativas do negro são mostradas na mídia, elas estão veiculando valores e forjando identidades? Que valores? Quais identidades? Talvez fosse mais importante ainda, a pergunta: quais os efeitos da disseminação de representações preconceituosas dos negros na sociedade? Pensando sobre o preconceito que sujeitos identificados como “negros” sofreram e sofrem na história brasileira, desde o período da escravidão, e vendo a mídia como disseminadora de imagens, identidades sociais e do preconceito que ainda permanece na sociedade, no presente artigo pretende-se analisar algumas representações criadas e veiculadas pela mídia, tendo em foco a informação televisiva. Salienta-se, na leitura das fontes, a discriminação de uma imagem referencial do “negro” na sociedade brasileira, considerando-se a mídia televisiva como um dos principais instrumentos que reiteram e difundem um imaginário abrangente e ainda preconceituoso. 144 A MÍDIA TELEVISIVA COMO INSTRUMENTO DE PODER Os grupos que detém o controle da mídia representam interesses de uma elite política e econômica, identificada com certas culturas e valores singulares, considerados cultos ou superiores, que evidenciam o poder em exercício, ou seja, o lugar que ocupa e revela uma supremacia socioeconômica e política. Para manter-se e legitimar-se, tratase de uma esfera produtora de discursos e imagens que, por sua vez, exibem esse lugar “superior” ou "melhor", de instituição "competente", também por estar ocupando este lugar. A mídia televisiva é um instrumento de fácil acessibilidade, com isso a comunicação com a massa torna-se freqüente, facilitando a criação de certas imagens com grande potencial de penetração social. Como diz Baczko, o imaginário é criado através de símbolos e ritos que ajudam a implantar novos valores sociais. Desta forma a sociedade é moldada dentro dos ideais de grupos detentores e operadores de poder que historicamente operam e definem a ordem social, criando e reproduzindo hierarquias, inserções e exclusões sociais, inclusive de identidades pobres, negros, mulheres, entre outros. (...) Quando as antigas legitimidades foram postas em causa e dessacralizadas no século XVIII, criou-se a necessidade de pensar e imaginar novos objectivos legítimos, assim como os meios de os inculcar nas mentalidades. A atitude técnico-instrumental perante os imaginários sociais alimentava-se muito da crítica racionalista contra a Igreja. Esta apenas teria conseguido implantar os “preconceitos” e o “fanatismo” nos espíritos graças à fraude e a manipulação particularmente hábil das palavras, signos, cerimônias, etc. Esta crítica aplicava-se também, e cada vez mais, ao poder monárquico absoluto, bem como ao universo simbólico que o rodeava. (BAKZCO, 1985, 301) As imagens homogêneas criadas e repassadas por essas elites não é algo cristalizado e, nos dias de hoje, estamos presenciando mudanças neste imaginário preponderantemente excludente, também por conta do exercício crítico. Muitas lutas sociais e alguns avanços são notáveis, por exemplo, a grande potência econômica, os Estados Unidos, está sendo governada por um negro de família pobre, fato significativo que recria uma nova visão do negro na sociedade; no Brasil e na Argentina são mulheres que governam o país, mostrando como a mulher está conseguindo ocupar um lugar que antes parecia pertencer aos homens, mas esta desconstrução e reconstrução de novos imaginários só estão sendo possíveis em razão de muitos movimentos históricos de mobilização social. Se a mídia é um instrumento de poder, cabe a nós pensarmos 145 sobre seu papel na criação e disseminação de imagens identitárias e na formação de um imaginário social e criarmos formas para decifrá-lo para, sobretudo, combater algumas das formas de discriminação e preconceito social. (...) Simultaneamente, o pensamento político e social das Luzes interrogava-se acerca do problema mais geral do papel do imaginário na vida colectiva. A atitude técnicoinstrumental prolonga-se através de teorias que concebem o imaginário como um artifício arbitrariamente fabricado e manipulável até ao infinito. Daí a idéia de colocar o imaginário ao serviço da razão manipuladora. Daí, também, a idéia de dar batalha aos “preconceitos” e ao “despotismo” no terreno que eles haviam açambarcado. Pensa-se então em fabricar um contra-imaginário, arma de combate, mas também instrumento de educação destinado a inculcar no espírito do povo novos valores e novos modelos formadores. (Idem, ibidem) A criação de representações sociais do negro pode ser notada desde eras remotas, mais exatamente na Antiguidade Clássica, como nos ensina Anderson Oliva. Segundo o autor, os negros africanos eram considerados bárbaros por não serem civilizados, ou seja, por sua cultura estranha aos olhos dos europeus. Essas representações foram se modificando ao longo do tempo. No imaginário medieval, a cor negra dos africanos representava em alguns textos a escuridão bíblica, a ausência de luz e predominância da maldade em seu estágio demoníaco. No Brasil, a forma inferiorizada de tratar o negro era pautada por valores cristãos europeus, herdados do período medieval, trazidos por portugueses. É possível pensar como, na colonização, tais valores tornam-se referências étnico-raciais, exprimem poderes em exercício e aparecem veiculados em discursos que mostram a violência nas formas de manutenção e legitimação das práticas de escravização. Assim, antes de qualquer esforço para individualizar essas representações, não podemos ignorar que elas são resultado da associação das imagens que nos chegam do passado - recente ou/e remoto - com as nossas ações mentais cotidianas contemporâneas. Sendo assim, elas podem ser sintetizadas pelas interpretações dos efeitos gerados pelas experiências envolvendo tráfico de africanos escravizados, o colonialismo europeu, o racismo e a situação da África no pós-independência, elaboradas tanto pelas próprias sociedades africanas, como pelas outras origens. (OLIVA, 2007, 38-39) Neste processo de dominação, a cultura dos negros parecia desconsiderada: suas línguas/dialetos, crenças, danças, seus conhecimentos adquiridos e repassados por gerações, são elementos culturais desprezados, rejeitados pelas elites proprietárias, ou seja, segmentos populacionais identificados com a cultura eurocêntrica. No Brasil, havia interesses do governo em criar uma identidade para a nação brasileira. Com o 146 surgimento do IHGB4 (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro) em 1838, uma das formas encontradas foi criar uma História do Brasil que valorizasse sua população, atentando para a diversidade do povo que constituía o Estado. Um dos escritores consagrados do IHGB foi Karl Von Martius5 e no seu artigo Como se escrever a História do Brasil, ele trata da formação do Brasil e reforça benefícios da mistura entre as três “raças”, destacando o europeu em relação ao africano e ao indígena. Martius destaca três grupos humanos e coloca esta mistura como um aspecto positivo. Assim, ao falar da contribuição de cada uma das “raças” individualmente, percebemos uma grande exaltação do europeu, que é colocado pelo autor como o motor gerador deste processo, pois representava cultura considerada mais evoluída que as demais e por isso superior às outras. Já ao falar dos negros, o autor desconsidera suas práticas culturais, colocando-os como inferiores. Esta idéia de supremacia da cultura européia, formulada pelo naturalista bávaro e considerado referência da/na História do Brasil, mostra-nos bem a forma eurocêntrica de pensar das elites que elaboram os discursos fundadores da nossa sociedade. Nos dias de hoje, tal visão eurocêntrica ainda está presente em nossa sociedade, ainda que historicamente alguns deslocamentos sejam verificáveis, por exemplo, pensando-se na redistribuição da dominação política global após a Segunda Guerra Mundial, quando o antigo poderio europeu passa a dividir o lugar cultural de “centro do mundo” com os Estados Unidos. A idéia de que “tudo que vem de fora (Europa e Estados Unidos) é melhor” vem sendo impregnada em nossa sociedade ao longo da história, e aparece também entre repertórios do imaginário social que reforçados pela mídia. A mídia televisiva é um dos veículos desse imaginário histórico e constantemente reconstruído, ora reiterando ora renovando, ou veiculando, traços dessa cultura estrangeira por meio das telenovelas, músicas, moda, filmes/desenhos, propagandas e programas em geral, difundindo modelos a serem seguidos. E quando fala da cultura africana ou afrobrasileira, são visíveis ainda os sinais de uma forma estereotipada, que não consegue sair do senso comum, ao referir-se às práticas da culinária, da capoeira, ao samba, como se sujeitos identificados como negros fossem bons apenas para sambar ou tocar batuque, 4 O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) é a mais antiga e tradicional entidade de pesquisa do Brasil. Foi criado com o intuito de incentivar pesquisas na área da História e Geografia brasileira. O IHGB era constituído por intelectuais juntamente com figuras das elites políticas do país. (Estudos Históricos,1988, 5-27) 5 Carl Friedrich Philipp von Martius nasceu em 1974, na cidade de Erlagen. Estudou medicina, apresentando como trabalho de doutorado um estudo botânico. Foi membro correspondente de várias academias científicas , dentre elas o Instituo Histórico Geográfico Brasileiro. Em Munique, lecionou na cadeira de botânica da Universidade e tornou-se secretário vitalício da Real Academia de Ciências. Faleceu em 1868. (Revista Brasileira de História, 1995,73-91) 147 para cozinhar e jogar capoeira. Essas representações sociais do negro veiculadas pela mídia chegam à sociedade carregadas de um simbolismo que contribui para a criação ou repetição de estereótipos, reforçando preconceitos mais ou menos dissimulados, evidenciando poderosos setores da população que insistem em demarcar fronteiras identitárias, inclusive as de raça-etnia, e que buscam uma supremacia política, ideológica e econômica. (...) esse simbolismo e esse ritual fornecem um cenário e um suporte para os poderes que sucessivamente se instalam, tentando estabilizar-se. Com efeito, é significativo que as elites políticas se dêem rapidamente conta do facto de o dispositivo simbólico ser um instrumento eficaz para influenciar e orientar a sensibilidade colectiva, em suma, para impressionar e eventualmente manipular as multidões. (BACZKO, 1985, 324.) A mídia é uma expressão ampla da sociedade que, por sua vez, atinge quase todos os seus segmentos sociais. Segundo uma pesquisa feita pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)6, cerca de 96% da sociedade brasileira possui aparelho de televisão em casa, isso significa que apenas 4% da sociedade não tem acesso à mídia televisa. Outro dado importante é a quantidade de horas que se passa em frente à televisão, tempo que foi estimado em 3,5 horas. Pensando a vida de um trabalhador que cumpre 8 horas de trabalho e mais 8 horas por dia dormindo (pelo menos), sobrará para ele 8 horas “livre”. Destas 8 horas, 3,5 horas equivale ao tempo que ele passa em frente à televisão, e as outras 4,5 horas lhe servirá para fazer as refeições diárias, locomover-se de casa para o trabalho e do trabalho para a casa, dar atenção à família etc. Segundo estes dados, seriam gastos pelos brasileiros 42% do tempo “livre” em frente à televisão, e esses números nos ajudam a perceber o poder que a mídia televisiva possui e o alcance deste poder dentro da sociedade. No Brasil, a quantidade de negros que participa em produtos da televisão, em jornais, novelas, programas e comerciais é muito baixa; não chega a ser proporcional à quantidade de negros que existe no país, já que 50,7% da população é considerada negra7. Segundo uma pesquisa feita por uma revista eletrônica "Com Ciência”8 em 2003, o número de negros que participam da televisão brasileira não passa de 10%. 6 Jornal da UFRJ. O brasileiro passa em média cerca de 3,5 horas por dia em frente à televisão. Pesquisa realizada em http://www.jornal.ufrj.br/jornais/jornal11/jornalUFRJ1109.pdf. Acessado em 08/09/2011. 7 Centro de Integração de Cultura Afro-Brasileira. IBGE. Negros são a maioria no país. Pesquisa realizada por Ciafro, Disponível em http://www.portalciafro.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=62:ibge-negros-saoa-maioria-no-pais&catid=48:noticias-brasil&Itemid=66. Acesso em: 02/07/2011. 8 Revista Com Ciência. O BRASIL NEGRO: Presença do negro na mídia é marcada pelo preconceito. Disponível em http://www.comciencia.br/reportagens/negros/08.shtml. Acessado em 02/072011. 148 Caberia, então, perguntar: se existe mais de 50% de negros no Brasil, porque é que, na televisão, um dos maiores instrumentos de criação e reprodução de imaginário social, só há 10% de negros que aparecem em seus produtos imagéticos? Segundo a mesma fonte, existem países com a população predominantemente branca, como a Dinamarca, que, ao contrário do Brasil, possui uma quantidade de negros que fazem parte da mídia televisiva superior a 10%. Esses números que mostram o Brasil como um dos países que contêm maior número de negros não têm em medida proporcional uma quantidade desses negros na tevê, o que ajuda a confirmar o silenciamento produzido e o racismo na sociedade que, como vimos, não está tão camuflado como parece, e que a mídia televisiva ajuda a reforçá-lo. IMAGENS DA PUBLICIDADE: BREVE-ANÁLISE Os comerciais de televisão não se restringem em falar da qualidade do produto que está sendo oferecido, mas, sim, em representar cenas do cotidiano no qual este produto está sendo consumido. Desta forma, espera-se que os telespectadores consigam se enxergar naquele meio social, identificando-se com os protagonistas da cena. [...] a televisão se inscreve numa sequência temporal breve, que se impõe à instância que olha, orientando-a em seu olhar sobre os dramas do mundo. Assim, pode-se dizer que a televisão cumpre um papel social e psíquico de reconhecimento de si através de um mundo que se fez visível. (CHARAUDEAU, 2004, apud DOURADO, 2007, 02) Cabe pensar se esta representação do cotidiano está condizendo com a realidade que vivemos. A forma mais comum em que vemos o negro ser representado nos comerciais de televisão também é significativo do lugar social entendido como classe econômica desfavorecida, já que é difícil vê-lo como protagonista ou referência nos comerciais publicitários. Quando aparece, geralmente assume um papel subalterno. Podemos citar dois exemplos, o comercial da Start Química, divulgando seu produto de limpeza "AZULIM"9 e o comercial da cerveja "SOL"10. No comercial do produto de limpeza Azulim, logo que se inicia, podemos perceber um estereótipo quase clássico criado para representar o sujeito negro feminino: a mommy, mulher negra, gorda e escandalosa que está sempre na cozinha. Além de 9 Linha de produtos da Start Química, destinado a limpeza de casa, desde pisos e azulejos até objetos mais sensíveis como porcelanato (http://www.startquimica.com.br/). 10 Segundo consta no rótulo do produto, trata-se de bebida alcoólica tipo pilsen, produzida pela Femsa Cerveja Brasil. 149 trazer esta representação que fixa e até ridiculariza a figura feminina negra, podemos perceber também a classe social e a localização social em que ela está colocada, sem querer aqui desvalorizar os serviços de doméstica, mas, sim, fazer uma crítica ao desprestígio monetário e também ao desprestígio social que tal localização significa. O serviço de doméstica, assim como os trabalhos braçais e manuais, historicamente esteve relacionado a serviços de "preto", e até hoje os negros são representados desta forma na mídia, como se até hoje não usassem ou dispusessem de intelecto e ainda atuassem apenas na área de serviços domésticos ou corporais na nossa sociedade. Já no comercial da cerveja Sol, o protagonista da cena é um homem de fenótipo branco que se encontra em um escritório. Do escritório ele parte em direção à praia fazendo o trajeto de carro, em uma cena que não dura mais de dois segundos. Podemos perceber, se olharmos atentamente, que no banco de trás do carro, ao lado do "carona", encontra-se um negro. Chegando à praia, eles se deparam com "lindas" mulheres, identificadas como brancas, e sem querer entrar na análise da desigualdade de gênero, estas figuras são representadas como simples objetos de desejo e conquista sexual, significando a figura da mulher como um prêmio e/ou troféu do homem, enfatizando o discurso social androcêntrico. Em uma das cenas, o negro que estava atrás do carro aparece novamente, fazendo mais uma vez o papel de coadjuvante, ou seja, estava ali só para compor o fundo da cena e, enquanto o protagonista vai em direção à praia, abraçado com duas mulheres, o negro sai andando logo atrás, sozinho, em um ângulo que fica difícil de ver seu rosto, quase escondido atrás do protagonista. Ao chegar à praia, eles procuram o vendedor da cerveja Sol e, quando este vendedor aparece, ele é um homem negro carregando uma caixa de isopor, anunciando a venda do seu produto na praia. Mais uma vez, o negro aparece identificado com a força física, em detrimento da intelectual. E, além disso, na função de vendedor, desqualificado, atuante no mercado informal e inferiorizado no quadro social. Nesta análise, podemos ver que o papel representado pelos dois sujeitos negros que têm mais evidência nas cenas é a de coadjuvante, ou de subalterno nas práticas sociais. Quando o primeiro negro aparece no banco de trás do carro do protagonista, subentende-se que ele também trabalha no escritório, mas não possui um carro, logo colocando o negro em uma posição socioeconômica inferior ao protagonista, que se 150 mostra dono de um carro do ano. Já na segunda atuação de outro ator negro, percebemos a mesma inferiorização socioeconômica, ou seja, quando os atores brancos da cena estão na praia, divertindo-se, aparece um negro trabalhador fazendo o papel de vendedor ambulante de cerveja. Partindo desses exemplos usados aqui, percebemos o imaginário que envolve as representações dos sujeitos sociais, inclusive as do negro, na nossa sociedade. E vale ressaltar como esta reprodução do imaginário social, sob um olhar analítico baseado em teorias e conceitos históricos, ajuda-nos a trabalhar na desconstrução e na historicização de identidades negras. [...] a identidade da pessoa negra traz do passado a negação da tradição africana, a condição de escravo e o estigma de ser objeto de uso como instrumento de trabalho. [...] A cor da pele e as características fenotípicas acabam operando como referência que associam de forma inseparável raça e condição social, o que leva o negro à introjeção de um julgamento de inferioridade [...] (SOUZA, 2005, apud DOURADO, 2007, 07) Temos que lutar para intervir no presente e na história e reconstruir o imaginário social, principalmente no que diz respeito às velhas imagens construídas sobre os negros, as mulheres e os índios, livrando-os da visão histórica que os desqualifica. Só assim o negro, ou seja, o conjunto de sujeitos sociais identificados nessa categoria poderá ser inserido na sociedade, tornando-se referência identitária para homens e mulheres, independente da cor da pele. IMAGENS DA TELE-DRAMATURGIA: BREVE ANÁLISE O negro ganha destaque na tele-dramaturgia brasileira em meados da década de 60, com a novela "O Direito de Nascer". A atriz Isaura Bruno que interpretava Mamãe Dolores, foi vista e aplaudida por quase todo o Brasil, por sua atuação. Na novela, Isaura (Mamãe Dolores), representava a combinação de dois estereótipos, a mãe negra da literatura brasileira e a mommy do cinema norte americano, reiterando aquela imagem de mulher negra, gorda, escandalosa, que está sempre na cozinha, preparando deliciosos pratos. Joel Zito faz esta observação em seu documentário "A Negação do Brasil - O negro nas tele-novelas”11. 11 A negação do Brasil, de Joel Zito Araújo: 90min. Brasil, 2000. 151 Em vista do descaso existente em relação ao negro na época, o fato de uma atriz negra ter seu talento reconhecido no meio de tantas atrizes/atores brancas, já era um grande avanço nas relações étnico-raciais, mas estava (e ainda está) distante de uma situação de igualdade. A atriz teve um final de vida que não corresponde com todo o sucesso que atingiu no auge de sua carreira. O documentário "A Negação do Brasil" traz um pouco da história de Isaura Bruno, mostrando que após o seu sucesso na novela, participou de mais outras três novelas, e mesmo com todo sucesso, a atriz morreu pobre, vendendo doces na rua e totalmente esquecida. Este fato me fez questionar: será que esse esquecimento e o reconhecimento passageiro foi igual para os atores que não eram negros? Tomando o exemplo de Isaura Bruno, que não foi o único existente na história da tele-dramaturgia, percebe-se dois graves problemas em relação aos atores/atrizes negros que participaram nas tele-novelas. Em primeiro lugar, os papéis que eram interpretados por esses negros revelavam representações inferiorizadas; em segundo, a própria falta de atenção e prestígio conferido a esses atores. Já se passaram mais de cinco décadas desde o ocorrido com Isaura Bruno; será que houve alguma mudança? Os papéis que os negros interpretam ainda são relacionados aos estereótipos do negro da nossa época? E o povo brasileiro dá mais valor aos atores negros nos dias atuais? Infelizmente algumas representações do negro na tele-dramaturgia ainda são estereotipadas, mas podemos observar uma pequena mudança ocorrendo na forma de divulgação da imagem e cultura afro-descendente. Pegando o exemplo de dois papéis na dramaturgia brasileira, desempenhados por Lázaro Ramos, podemos identificar algumas mudanças. No seriado Ó Paí, Ó, que foi uma adaptação do filme12 lançado em 2007, dirigido por Monique Gardenberg na Rede Globo, retrata como era a vida em um bairro pobre próximo ao Pelourinho, na Bahia. Composto por um elenco que na sua maioria era de afro-descendentes, pode-se perceber muitos papéis que representam o negro através dos estereótipos que já conhecemos: malandro, promíscuo, de baixa condição econômica. Mas, dentro deste enredo, cabe ressaltar que o protagonista é um ator negro. Lázaro Ramos é o ator que interpreta Roque, um negro talentoso que, além de ser um ótimo pintor, também é compositor. Para além de ser o protagonista do seriado, ele traz consigo toda uma exaltação em ser negro, visto que ele assume seu cabelo estilo 12 Ó Paí, Ó, de Monique Gardenberg: 96min. Brasil, 2007. 152 black, usa cores mais vivas no modo de se vestir, em suma, desvia daquele padrão europeu de uso de cores mais escuras. Em suas falas, percebemos o culto aos orixás, que é característica religiosa de afro-descendentes e, no meu ponto de vista, um fato mostra o personagem consciente sobre as práticas racistas existentes na sociedade. É possível observar até uma crítica sobre ela, em seu CD "Mercado Branco", que enfoca o uso da denominação "negro" para coisas ruins e da denominação "branco" para coisas boas, mostrando que existe um preconceito não só com o individuo negro, mas também com a cor preta, e que logo se associa tudo em um só, modelando a sociedade de forma opressiva, maniqueísta e hierarquizada. Outro papel que podemos destacar de Lázaro Ramos é aquele em que o ator interpreta André Gurgel na novela “Insensato Coração”. André, um homem negro, bem sucedido na carreira, é um dos maiores nomes do design no Rio de Janeiro e o seu sucesso não era apenas na profissão, já que ele também era um dos homens mais cobiçados pelo elenco feminino, relacionando-se com mulheres de todas as classes sociais, desde mulheres que almejavam a riqueza, até outras de grande expressão social. Neste papel, o personagem de Lázaro Ramos não traz aspectos da cultura afrobrasileira, e nem tem um discurso claro sobre a questão do racismo como Roque, em Ó Paí Ó. Mas a grande mudança que podemos perceber é a personagem que ele encarna: um sujeito negro que ocupa um papel da alta sociedade brasileira e também representado na tele-dramaturgia em horário nobre. Trata-se de algo a ser levado em consideração, pois se há cinco décadas os papéis dos negros restringiam-se a lugares subalternos da sociedade, por exemplo, estavam apenas na cozinha ou na senzala, hoje as representações do negro já começam a ocupar outros espaços. Mas, mesmo com esses exemplos, estamos longe de alcançarmos uma situação de igualdade étnico-racial na sociedade, quando negros e brancos serão representados na televisão igualmente, sem distinção de papéis, ainda que se possa reconhecer que está havendo uma mudança, mesmo ela sendo lenta e tardia. CONCLUSÃO É possível perceber que ainda se produzem imagens que sugerem, criam, afirmam a desvalorização do negro em nossa sociedade, e isso está se repetindo em muitos discursos, inclusive na mídia. Mas não se pode deixar de enxergar ou esquecer 153 as representações e imagens, também construídas na mídia televisiva, que caminham contra esta lógica. Hoje, é possível ver algumas ações afirmativas veiculadas na própria televisão, que auxiliam na construção de outras representações que forjam outras identidades negras que fogem dos antigos padrões preconceituosos, também veiculados e recriados no início da era moderna por europeus, brasileiros e tantos outros. Ao ligarmos a televisão, é possível se deparar com uma maior quantidade de atores/atoras negros, atuando fora da cozinha, da senzala, ou seja, não apenas no núcleo periférico da casa e da sociedade. Imagens de homens e mulheres negras podem ser vistos ocupando outros papéis, mais importantes, nas tramas da tele-dramaturgia no país. Mas se a televisão é veículo que contribui para construir imagens identitárias, é preciso pensar esse instrumento criticamente e, também, contribuir para historicizar, desconstruir os estereótipos e preconceitos ainda existentes para, assim, avançar nesta luta por uma sociedade brasileira mais justa ou menos desigual. Trata-se de uma mudança que está ocorrendo na nossa sociedade, fruto de muitas lutas históricas travadas contra o racismo, portanto é preciso ainda reconhecê-la também como resultante de esforços de vários grupos que formam o movimento negro no Brasil. A figura do negro deve e pode ganhar novos espaços. É preciso trabalhar para ampliar os espaços e para se enxergar os sujeitos excluídos de nossa sociedade, inclusive os negros, inseridos em outras esferas sociais. Assim, será possível viver em uma sociedade melhor, em que a contribuição da cultura africana e indígena poderá ter lugar visível e, assim, ser mais valorizada na nossa sociedade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BACZKO, Bronislaw. A Imaginação Social. In: Enciclopédia Einaudi. Anthropos Homem. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 1985. GUIMARÃES, Manoel Luís Salgado. Nação e civilização nos trópicos: o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o projeto de uma história nacional. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, CPDOC/Vértice, n.1, p. 5-27, 1988. LISBOA, Karen Macknow. Viagem pelo Brasil de Spix e Martius: Quadros da Natureza e Esboços de uma Civilização. In: Revista Brasileira de História. Representações. São Paulo, v.15, nº29, pp.73-91, 1995. 154 NOGUEIRA, Oracy. Estrutura Social e Ideologia de Relações Inter-Raciais. In: Preconceito de Marca: as relações raciais em Itapetininga. São Paulo; EDUSP, 1998. OLIVA, Anderson. Os africanos entre representações. A invenção da África no Imaginário Ocidental e o Espelho Africano Despedaçado In: LIÇÕES SOBRE A ÁFRICA. Tese de doutoramento. Cap.2. Brasília: PPGHIS, 2007. mimeo, [p.38-89]. VON MARTIUS, Karl Friedrich Philip. Como se Escrever a História do Brasil. In: Revista do IHGB. Rio de Janeiro: IHGB, 1991. PESAVENTO, Sandra Jatahy. Em busca de uma Outra história: imaginando o imaginário. In: Revista Brasileira de História, vol. 15, n. 29. São Paulo: Anpuh/Contexto, 1995. DOURADO, Lise Mary Arruda. Um discurso racista na TV: uma análise do comercial da cerveja Sol. ALB, Campinas: (s/d). Disponível em http://alb.com.br/arquivomorto/edicoes_anteriores/anais16/sem05pdf/sm05ss02_08.pdf. Acesso em 10/09/2011. CHAUÍ, Marilena. Mídia e Poder. FENAJ, Brasília: set. 2006. Disponível em http://www.fenaj.org.br/materia.php?id=1324. Acessada em 12/09/2011. Centro de Integração de Cultura Afro-Brasileira. IBGE. Negros são a maioria no país. Olinda: Maio, 2011. Disponível em http://www.portalciafro.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=62:ib ge-negros-sao-a-maioria-no-pais&catid=48:noticias-brasil&Itemid=66. Acesso em: 02/07/2011. Jornal da UFRJ. O brasileiro passa em média cerca de 3,5 horas por dia em frente à televisão. Rio de Janeiro: UFRJ, (s/d). Disponível em http://www.jornal.ufrj.br/jornais/jornal11/jornalUFRJ1109.pdf. Acesso em 08/09/2011. Revista Com Ciência. O Brasil Negro: presença do negro na mídia é marcada pelo preconceito. Campinas: Unicamp. Nov. 2003. Disponível em: http://www.comciencia.br/reportagens/negros/08.shtml. Acesso em 02/072011. 155 INTER-RELAÇÕES DE INTERVENÇÕES ARTÍSTICAS NO AMBIENTE ESCOLAR EM CONSONÂNCIA COM A LEI 10.639/03 Juliana Cristina da Silveira Universidade Federal de Uberlândia – UFU Graduanda em Arte Cênicas – DEMAC Bolsista do PIBID-HCAFRO1 [email protected] Profª. Dra. Mara Lucia Leal Universidade Federal de Uberlândia Departamento de Música e Artes Cênicas [email protected] Enquanto escrevo estas linhas meus dedos mudam de cor. Eles já foram brancos e já foram negros... Agora a cor dos meus dedos varia, mas não os torna pardos. Eu Branca. Quando meu corpo ainda era completamente branco, houve uma vez em que fiz uma apresentação artística em uma escola da rede estadual na cidade de Uberlândia/MG. Seria uma boa oportunidade de compartilhar com os alunos do ensino fundamental e médio o que entendia ser a lei 10.639/032. Busquei em meu repertório algo que pudesse fazer com meu grupo de trabalho, ou seja, os outros bolsistas do programa PIBID, mas não consegui encontrar nada. Procurei em livros, na internet, mas não encontrei um conteúdo que pudesse transformar em apresentação artística3. 1 Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/CAPES - Sub-projeto História e Cultura Afro brasileira. A lei 10.639/03 torna obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares. 3 A sigla PIBID significa Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência, e acontece em várias Universidades brasileiras trabalhando com áreas distintas da licenciatura. Ingressei no PIBID de História e Cultura 2 156 Um dia, conversando com uma amiga negra da faculdade, ela me contou sobre uma de suas experiências da infância. Disse que quando criança sonhava em ser branca, e que durante seus banhos se esfregava com a bucha para tentar clarear o tom de sua pele. Foi o que precisei para montar uma apresentação com meu grupo de trabalho. Quatro garotas, cada qual usando uma roupa de cor diferente, se espalharam pelo pátio da escola e esfregavam uma bucha de banho em suas peles, e concomitantemente diziam poemas referentes aos negros e a beleza da mulher negra.4 Uma contradição de ação, pois em seus gestos queriam mudar de cor, mas em suas falas enalteciam a raça negra. A idéia da intervenção artística era provocar no espectador o pensamento crítico e reflexivo sobre a questão racial que no Brasil se traduz também, muitas vezes, em diferença de cor. No segundo momento da intervenção artística, pegamos duas bacias de alumínio com tinta vermelha, simbolizando sangue, e molhamos nossas mãos para, em seguida, colocá-las num pano branco que envolvia dois jovens. Um desses jovens estava de figurino e maquiagem branca e o outro de preto, representando as duas raças, mas ambos estavam amarrados como escravizados. O pano branco envolvia-os e com as mãos sujas de tinta marcávamos aquele tecido. Depois, convidávamos os alunos para que também tivessem a oportunidade de molhar as mãos “no sangue” e colocar sua marca naquele tecido, e automaticamente tocar aquelas duas pessoas que estavam “dentro” do pano. Este convite para que os espectadores fizessem parte da proposta, traz em si um caráter brechtiano5 de tirá-los de uma zona de conforto passional ou catarse e levá-los à reflexão, daí o sentido da intervenção artística no ambiente escolar, tratando da temática afro-brasileira. Quando trazemos o aluno para dentro da cena, em tempo real, estamos fazendo com que “o estudante descubra que a arte nasce de seres humanos com questões humanas e que, portanto, em cada época, essas questões estão próximas da vida de cada um.” (AGRA, 2009, p. 6) O convite aproxima a temática das realidades dos estudantes e este era um dos objetivos propostos. Afro-Brasileira, no qual existem pessoas de diferentes cursos de graduação. O grupo inicial de 24 bolsistas foi dividido para atuar em 3 escolas de Uberlândia. Fui designada para a escola Estadual René Gianetti, com mais seis bolsistas da área de Biologia, Ciências Sociais, História e Teatro. Todos eles se denominavam de raça branca. 4 Esses poemas foram conhecidos e selecionados fruto de uma viagem de campo ao Museu Afro-Brasileiro, em São Paulo. 5 Bertolt Brecht é um influente nome do teatro do século 20, pois trouxe inovações teóricas e práticas em suas obras. Ele se opunha ao teatro dramático, que conduzia o espectador a uma ilusão e para isto criou o “efeito de distanciamento” onde o ator torna claro o artifício da representação cênica, buscando uma interpretação que gere espírito crítico a quem assiste. 157 Durante estas ações, um CD de música africana instrumental de tambores tocava e dizíamos que independente da cor da pele de cada um, o sangue de todos é igual e da mesma cor: vermelho! Este era o objetivo da atuação: ressaltar as diferenças, mas mostrar a igualdade. Logo no início da apresentação, que acontecia durante um recreio, os alunos ficaram em polvorosa. Eles faziam rodas fechadas ao redor das atrizes que se espalharam pelo pátio, e brincavam com a situação. Alguns meninos pediam a minha bucha emprestada para poder esfregar em mim e, em minha opinião, pareciam querer aproveitar o fato de eu ser mulher. Eles passavam a bucha e olhavam para os colegas como um “garanhão”. Eu, enquanto atriz e estudante de teatro, deixei que os alunos fizessem as intervenções que achassem necessárias, pois aquilo refletia suas crenças, ideologias, posicionamentos sociais e etc. Lembro que em determinado momento muitos adolescentes estavam ao meu redor e fechavam cada vez mais a roda em cima de mim com palavras de baixo calão e posicionamentos ofensivos, mas tomei aquilo como a personagem/vítima que estava representando. Vítima de conceitos prévios, de preconceito. A questão maior, ainda neste momento, seria a de gênero, pois os alunos do sexo masculino percebiam o poder que poderiam ter em relação ao feminino, e esta se colocava como “menor” para explorar o caos. Além das questões de gênero, a relação de opressor e vítima também se estabeleceu. Pensei estar vivenciando novos sentimentos por meio de toda aquela experiência, mas novos sentidos ainda estavam por vir. Quando fui buscar a bacia “de sangue”6 e saí da biblioteca com ela, os estudantes começaram a gritar muito. Uns gritavam para assustar, com gritos de “pavor”; outros diziam expressões como: “Chuta que é macumba”; “Deus é pai”; “Sai de mim Satanás”, “Xô capeta”, “Macumbeira”! Nesse momento comecei a mensurar nas palavras que escutava os preconceitos arraigados naqueles jovens. As questões, neste segundo momento, deixavam de ser de gênero e se transformavam em questões culturais e raciais. O que antes eu estava sentindo “no ar”, agora entendia através das palavras: era preconceito! Mesmo assim, motivados pelo lúdico e pela experiência, muitos estudantes quiseram colocar as mãos na bacia e marcar o tecido branco. Certo rapaz pediu para carregar a bacia e eu deixei que sua vontade fosse realizada. Logo que pegou a bacia de tinta ameaçou jogar em cima de mim, em minha cabeça. Eu perguntei a ele se aquilo era mesmo o que tinha 6 A bacia com tinta vermelha. 158 vontade de fazer, e ele fez que sim, com o apoio de seu público. Eu hesitei um pouco, mas a vontade de experiênciar aquilo me motivou a continuar. Como afirma Larrosa (2002, p. 25) “o sujeito da experiência tem algo desse ser fascinante que se expõe atravessando um espaço indeterminado e perigoso, pondo-se nele à prova e buscando nele sua oportunidade, sua ocasião”. Queria ver até onde chegaria, e algo dentro de mim, como um impulso momentâneo, convidava a me permitir ter aquela experiência e correr o risco. Isso tudo se passou em segundos. Reafirmei minha pergunta sobre se era aquilo mesmo que ele queria fazer, e ele disse que sim. Foi nesse momento que ele jogou todo aquele liquido em cima de mim. Aquela tinta, aquele “sangue” escorriam sobre a minha cabeça, percorrendo todo o meu corpo. Algo que não estava planejado, mas que fazia parte daquele contexto. Os outros alunos riam muito. Insatisfeito, o garoto ainda virou a bacia e a esfregou na minha cabeça. Eu perguntei se havia mais alguma coisa que ele gostaria de fazer comigo, e ele então colocou a bacia virada em mim como se fosse um chapéu, fazendo de mim a figura de um bobo. Perguntei, com a bacia na cabeça, se havia ainda mais alguma coisa que ele queria fazer, colocando meu corpo de forma disponível para o inusitado. O que sentia era uma maldade gradual do rapaz, mas que evidenciava um pensamento coletivo, pois todos riam e se divertiam ao redor. Minha disponibilidade, 159 porém, interrompeu a ação do menino, que vendo que nada mais tinha a fazer, virou as costas e saiu um pouco sem graça. Fabião, em seu texto sobre as relações entre Performance e Teatro elucida sobre as características desta forma de arte, dizendo que o artista propositor busca relacionar corpo, estética e política através de ações, como foi o caso, considerando que: [...] estas práticas alargam, que estes programas oxigenam e dinamizam nossas maneiras de agir e de pensar ação e arte contemporânea. Esta é, a meu ver, a força da performance: turbinar a relação do cidadão com a polis; do agente histórico com seu contexto; do vivente com o tempo, o espaço, o corpo, o outro, o consigo. Esta é a potência da performance desabituar, des-mecanizar, escovar à contra-pêlo. Trata-se de buscar maneiras alternativas de lidar com o estabelecido, de experimentar estados psicofísicos alterados, de criar situações que disseminam dissonâncias diversas: dissonâncias de ordem econômica, emocional, biológica, ideológica, psicológica, espiritual, identitária, sexual, política, estética, social, racial. (FABIÃO, 2008, p. 3-4) A força da intervenção artística aconteceu naquele colégio devido à interação do público com o que foi proposto e a disposição dos que realizaram a ação para que aquilo se tornasse real e verdadeiro dentro dos contextos ali estabelecidos. Depois do diálogo (e ação) com o “rapaz da tinta”, saí de cena. Parecia que minhas forças estavam acabando e me sentia muito esgotada. No trajeto, alguns alunos ainda tentavam retirar restos de tinta da minha cabeça para sujar os colegas e continuar a “guerrinha”. Eu apenas caminhava. Enquanto esperava que abrissem a sala aonde iria me limpar, notei que as lágrimas escorriam dos meus olhos. Algumas crianças ainda em volta de mim, e que haviam me acompanhado, diziam para eu não ficar triste com o garoto, que ele era “bobo” e alguns ainda justificavam suas atitudes, mas eu sabia que não era com aquele garoto que estava chateada, nem com aquela situação, mas com todos aqueles símbolos que fizeram sentido para mim naquele dia. Aquele garoto simbolizava um passado, uma raça querendo ser superior a outra, e não por sua cor, mas por suas atitudes. As coisas eram muito vagas na minha mente, mas eu sabia que não era o garoto que havia me feito mal, mas o que ele representou naquele momento para mim. Sentia-me profundamente emocionada, mas não sabia ao certo as emoções que estavam aflorando. Eu havia planejado tocar a sensibilidade daqueles jovens, mas eu é que estava tocada, estava fora de controle. Nunca antes, em nenhuma apresentação, eu havia perdido a razão e deixado que meus sentimentos fugissem do controle. Em alguns momentos a sensação que tenho é que os sentidos chegaram primeiramente no meu corpo e inconsciente, para depois eu ter algumas pequenas impressões e análise cognitivas do que se passou comigo, como 160 quando Larrosa (2002, p. 23) afirma que “o acontecimento nos é dado na forma de choque, do estímulo, da sensação pura, na forma da vivência instantânea, pontual e fragmentada”. Hoje consigo discernir algumas coisas. O que houve ali foi uma experiência que permitiu o meu aprendizado, primeiro no corpo e depois no meu intelecto. Ali os conteúdos que eu tinha sobre a temática foram ressignificados. Nem tudo são certezas, existem ainda algumas coisas que não são mensuráveis, ou explicadas, o pouco que consigo entender está no campo da experiência, e é dela que parto na problematização da questão da lei e sua relação com o arte-educador, trazendo algum sentido para o compartilhamento. Lembro-me também que enquanto tudo isso se passava dentro de mim e naquela escola uma imagem ficou bastante marcada. Os docentes tomavam seus cafés na sala dos professores, como se nada estivesse acontecendo. Depois soube que eles realmente não sabiam de nada, e também não tiveram a curiosidade de descobrir o porquê de tamanha gritaria. Acharam que era “bagunça de menino”, como se diz no Estado de Minas Gerais. O que estava bagunçado eram as cores do meu corpo, da minha raça. Lembrei de um texto da professora Mariene Perobelli (2009, p. 1-2) sobre a sala dos professores: Decidimos entrar neste espaço... a tal sala é para nós o "supra-sumo". Ela revela exatamente o que a escola, seja qual for, se propõe a ser. Vemos neste espaço a exata forma do corpo – falamos em corpo entendendo que a cabeça faz parte do corpo escolar. Cada pessoa ali envolvida leva a sua forma e compõe neste espaço e ambiente, um coletivo. É nele que se revela, em poucos minutos, os distanciamentos entre os conhecimentos. Um ambiente quase novelesco, às vezes surreal, excludente, desintegrador, cheio das mazelas contidas na sociedade. O espaço transforma-se em “confessionário", com comentários que trazem em si muita verdade cruel do cotidiano presente nas escolas. Aquela sala reflete para mim aspectos sociais de alienação que acontecem dentro e fora das escolas. O professor, e muitas vezes o cidadão comum, está inserido numa realidade, mas não faz ideia disso, não percebe questões que o permeiam, como o racismo, por exemplo. Esta apresentação foi um marco inicial na minha vida, pois pela primeira vez me senti muito humilhada no ambiente escolar. A situação foi real, ainda que por escolha minha. Eu, enquanto artista e ou- educadora escolhi ter aquela experiência, e não ser um personagem fictício. Citando Agra, no caráter performático “o que está em jogo não é atuar, mas talvez, ‘lá estar’” (AGRA. 2009. p. 7) Já tinha passado por 161 algumas situações difíceis, mas nada comparado àquela experiência. Várias crianças ao meu redor, rindo de mim, zombando, gritando e me fazendo sentir-me menor. Foi tudo muito intenso. Percebi o que Fabião (2008, p. 5) descreve sobre performance quando diz que o artista pode até ter um roteiro programado, mas é o público que determina a direção da experiência: [...] etimologicamente a palavra inclui os sentidos de risco, perigo, prova, aprendizagem por tentativa, rito de passagem. Ou seja, uma experiência, por definição determina um antes e um depois, corpo pré e corpo pós experiência. Uma experiência é necessariamente transformadora, ou seja, um momento de trânsito da forma, literalmente, uma trans-forma. Nesse dia percebi que a cor de pele no Brasil importa e é geradora de ações. Este era o tema da apresentação e houve conflitos que trouxeram à tona esta afirmativa. Nesse dia percebi-me como a senhorinha da novela que era boa e lutava por escravos, mas nunca tinha saído e sentido o cheiro das senzalas, suas reais condições de moradia, suas necessidades, suas lutas. Eu era como ela. Nunca fui contra os negros, sempre soube que somos todos iguais, e por minha melhor amiga ser negra, achava que isto bastava para que eu entendesse sobre preconceito e racismo no Brasil, inclusive falando veementemente que isto não existia e que os negros “exageravam” em suas manifestações e lutas. Falava de algo que não sentia na pele, literalmente, como afirmou Abdias do Nascimento (2003, p. 214): “Uma coisa é aquilo que o branco exprime como sentimentos e dramas do negro: outra coisa é o seu até então oculto coração, isto é, o negro desde dentro. A experiência de ser negro num mundo branco é algo intransferível”. Nessa ocasião, como que uma cortina caiu dos meus olhos. E foi nesse momento, que ao voltar para casa olhei minhas mãos. Quando vi, meus dedos tornaramse negros. Esfreguei um pouco os olhos, e olhei de novo... Estavam brancos novamente. Mal sabia que meu processo de enegrecimento havia começado. A experiência de outra pessoa (minha amiga negra que se esfregava com a bucha) compôs minha arte, e com isso fui tocada. Nascia a negra dentro de mim. “Negro desde dentro”. Uma expressão forte, mas ainda enfraquecida em seu grau de atuação quando se vê a aplicação da lei 10.639/03 nos espaços escolares. A lei é categórica em suas diretrizes: Assim sendo, sistemas de ensino e estabelecimentos de diferentes níveis converterão as demandas dos afro-brasileiros em políticas públicas de Estado ou institucionais, ao tomarem decisões e iniciativas com vistas a reparações, reconhecimento e valorização da história e cultura dos afro-brasileiros, à constituição de programação, de formação de cidadãos que explicitamente se esbocem nas relações pedagógicas cotidianas. 162 Medidas que, convém, sejam compartilhadas pelos sistemas de ensino, estabelecimentos, processos de formação de professores, comunidade, professores, alunos e seus pais. (DIRETRIZES, 2003. p 13) Ainda é fraca a aplicação da lei, mas mais fraco ainda é o sentido dela para muitos professores, como era para mim. Percebi, na minha experiência, que existia uma boa vontade de promover a lei, mas eu tinha pouco conteúdo de informações, e uma certa superficialidade de entendimento do que é ser negro no Brasil. Desta experiência iniciou-se a “negra de dentro”. Em primeiro lugar, é importante esclarecer que ser negro no Brasil não se limita às características físicas. Trata-se também, de uma escolha política. Por isso, o é quem assim se define. (DIRETRIZES, 2003. p. 15) Eu Negra. Participei de um curso de formação inicial sobre a História e Cultura AfroBrasileira, no qual aprendi que a História que tinha aprendido na escola estava deformada. Como diz Fonseca (2006, p. 22) eram “construções socioculturais, repletas de informações e deformações que transformaram a África e seus povos, bem como nossa identidade social, étnico-racial e nacional.” Em nenhum momento da minha educação formal foi me apresentado o valor que os negros trouxeram ao Brasil, mas o que aprendi era que tinham sido trazidos para o Brasil como escravos (neste termo/ não escravizados) e que uma mulher branca de bom coração, chamada Isabel os havia libertado. Percebi, vendo o outro lado da História, a importância da obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Afro-brasileira e Africana, pois estas são: [...] prescrições que não apenas conferiram à idéia de cidadão um traço marcante plural e diverso, como também reavaliaram o papel ocupado pela cultura indígena e afro-brasileira, no passado e no presente, como elementos fundantes da nacionalidade e do processo civilizatório nacional, ao lado, naturalmente, da cultura de matiz européia. (SILVA JR, 2000. p. 364) Outro aspecto bastante novo para mim foi em relação à religiosidade. Fui criada numa família tradicionalmente cristã, com direito a batizados, profissão de fé, dízimos e cultos aos domingos. Embora eu não frequentasse uma igreja pentecostal e nem tampouco radical, sempre ouvia falar das religiões de matrizes africanas como algo que não vinha “de Deus”, e existia certa resistência ao abordar assuntos relacionados. Também a escola em que estudei boa parte de meu período escolar era de denominação 163 presbiteriana, daí a ausência de abordagem dos assuntos ligados a outras religiões. As Diretrizes (2003, p. 17) afirmam que: É importante destacar que não se trata de mudar o foco etnocêntrico marcadamente de raiz europeia por um africano, mas de ampliar o foco dos currículos escolares para a diversidade cultural, racial, social e econômica brasileira. [...] É preciso ter clareza que o Art. 26ª acrescido à Lei 9.394/1996 provoca bem mais do que inclusão de novos conteúdos, exige que se repensem relações étnico-raciais, sociais, pedagógicas, procedimentos de ensino, condições oferecidas para a aprendizagem, objetivos tácitos e explícitos da educação oferecidas pelas escolas. O curso de formação foi um divisor de águas, pois alguns conteúdos velados vieram à tona. Através do conhecimento de novos conteúdos percebi que as questões raciais reverberavam em mim também, enquanto brasileira. Enquanto descobria novos aprendizados, também uma nova oportunidade de apresentação artística em escola surgiu.7 Meu desejo então era de não mais depender de outros para compor a apresentação. Queria vasculhar em meu passado, em minha história fatores suficientes para compor meu repertório. Se meu processo de enegrecimento estava acontecendo, então queria que o conteúdo abordado viesse desta nova negritude. Foi exatamente neste período em que li um texto relacionado à pesquisa em artes, o qual apresentava um grupo teatral do Peru que passava por transformações em seu processo de construção de dramaturgia. De um teatro cujo foco estava centrado no ator-militante, ou seja, num ator que compreende criticamente seu meio social e utiliza a palavra como instrumento teatral de percepção e discussão do mundo, passa à compreensão de um ator que percebe e trabalha, a partir de seus referenciais culturais, seus canais psicofísicos na construção de uma dramaturgia própria, por um procedimento de “treinamento” contínuo. A concepção do exercício e do ofício atorial ganha uma maior complexidade sem perder de vista seu posicionamento e função social. (TELLES, 2008. p. 65) Percebi que isto também se dava comigo. Eu “militava” pela questão racial, e havia passado por uma experiência transformadora, então seria hora de eu levantar em minha biografia aspectos suficientes para a nova apresentação. Passei a vasculhar a história de minha família e de meus antepassados, e fazer entrevistas com os mesmos. Juntei fotos, casos e objetos que tivessem um significado em nossa história. Este levantamento de material foi rico, pois enquanto realizava uma pesquisa autoetnográfica, fazia relações com os valores civilizatórios africanos. 7 No segundo ano de PIBID passei a desenvolver minhas atividades na Escola Estadual Segismundo Pereira, também em Uberlândia, com novos parceiros de trabalho, mas também de áreas de licenciaturas distintas, que não o teatro. 164 A auto-etnografia (próxima da autobiografia, dos relatórios sobre si, das histórias de vida, dos relatos anedóticos) caracteriza-se por uma escrita do ‘eu’ que permite o ir e vir entre a experiência pessoal e as dimensões culturais a fim de colocar em ressonância a parte interior e mais sensível de si. (FORTIN, 2010, p. 83) Com meus resultados de análise fui permeando como seria minha atuação na escola enquanto artista e educadora e o que queria dizer. Em minhas buscas percebi que havia coisas que não eram ditas e assumidas. Alguns assuntos eram tratados de forma superficial, e lembrei-me da expressão “Roupa suja se lava em casa”, pois algumas coisas só são ditas dentro do contexto do dia a dia de uma família. Embora tenha descoberto alguns casos muito interessantes, como de meu antepassado que ao morrer deixou seus bens a seus escravos, e outro que lutou no Congresso Nacional por políticas de reparação, também podia me lembrar de pequenas frases discriminatórias que já havia ouvido em festas familiares. Disso tudo surgiu a temática da minha apresentação. A metáfora seria a “lavação de roupa”, quase como eu querendo “botar em pratos limpos” a situação da minha família e ancestralidade. A questão da ancestralidade foi algo que me impulsionou, uma vez que é um dos valores africanos que percebi ser de extrema importância e um valor pouco cultivado aqui no Brasil. Em nosso país, quando uma pessoa está mais velha ela é tida como improdutiva, como um peso, e na África, quanto mais experiência a pessoa tem, mais valorizada ela é, pois carrega em si o ‘capital humano”, o conhecimento que leva consigo e o qual ninguém pode lhe tirar. Por isso escolhi minha avó materna como fonte maior de inspiração. Dela veio boa parte dos relatos, das fotos que juntei. Dela vem minha identidade cristã. Quando eu tinha sete anos de idade, tive que ir morar com ela por um tempo, e neste período, todas as noites ela cantava o hino “Finda-se este dia” do Hinário Evangélico. Ela é descendente direta de alemães, então representaria minha ascendência europeia por parte dela. Gravei-a cantando este hino. Já tinha então a temática de lavar roupa e a questão da ancestralidade. Enquanto analisava alguns aspectos etnográficos de minha avó, me atentei a um fato muito curioso, o de que ela estava perdendo a memória recente. Ela lembrava com facilidade histórias antigas e sabia narrar as situações das fotos, mas acontecimentos recentes ficavam confusos em sua memória. Essa doença já havia sido diagnosticada quando fui entrevistá-la, mas não tinha me dado conta do quanto a perda dessa memória poderia ser significativa em minha família, uma vez que muitas informações iriam embora junto com a ausência de suas lembranças. Isto passou então a ser mais um 165 aspecto que colocaria na minha apresentação: a questão da memória, e sua desvalorização também aqui no Brasil. Diz-se que brasileiro tem memória curta, e queria, em meu discurso, ir contra essa afirmação. Peguei então uma radiografia da cabeça de minha avó para utilizar como objeto de cena. A importância de cada objeto cênico ia surgindo de acordo com minhas pesquisas auto-etnográficas. Pensei no que poderia ser “lavado” na apresentação. Faltava um objeto simbólico para ser lavado. Pensei primeiro na cor desse objeto. Queria que fosse vermelho, pois como fruto da primeira apresentação, lembrei que independente da cor da pele, todos os seres humanos tem a cor do sangue igual, vermelha. Cheguei então às meias vermelhas, uma vez que elas estão em nossos pés, como que dando um suporte ao homem que as usa. Uma metáfora de que ela caminha para onde aquele humano vai, e da base de sua sustentação. Meias são objetos que devem ser lavados com frequência, ou fica-se um mal cheiro, como o assunto a ser abordado, que se não tratado pode vir a apodrecer o coração ( e as ações) de uma pessoa. Para que essas meias fossem penduradas num varal, pensei em usar pregadores, mas estes também receberiam um sentido metafórico. Escolhi colocar nos pregadores fotos 3x4 de familiares e amigos de minha conivência, pessoas que fazem e fizeram parte da minha história e que me tornaram a pessoa que sou e fui. Elas sustentariam as minhas meias no varal. Quase ninguém gosta de foto 3x4, ela é fria, frontal e sem 166 nenhum outro atributo, como sorrir ou escolher o melhor ângulo. Ela é usada, na maioria das vezes, em documentos de identificação, por isso escolhi esse formato. Seria um objeto para identificar as pessoas que me relaciono, tornando-as o mais parecido possível umas das outras em relação ao nível social, econômico ou de parentesco. Quando eu pedia para que as pessoas me entregassem as fotos, muitas delas disseram: “Não faça macumba com minha foto, hein?” Este aspecto me impulsionou a querer colocar em minha apresentação alguma coisa de religião de matriz africana. Também queria arranjar uma maneira de mostrar minha descendência africana, ainda que não direta. Permiti-me uma licença poética e inventei que meu pai era africano, frequentador de umbanda e que tocava o instrumento macumba. Alguns chamam a África de “Mãe África”, pois no meu caso seria o pai. Uma representação simbólica de que sou fruto da mistura de europeus com os africanos escravizados em meu país. Dessa forma poderia abordar a questão de que nós, brasileiros, somos afro-brasileiros, pois descendemos dos africanos que aqui chegaram, e dos primeiros humanos, e seus ossos encontrados no continente africano. Neste período li um artigo sobre a experiência de Edna Roland (2003), no qual ela conta, em entrevista, sobre o difícil desafio de ser negro no Brasil. Ao responder sobre os traços físicos de sua mãe, pensei na questão do nariz, pois ela afirma que mesmo sendo mestiça, sua mãe tinha traços de negros, mas o que se exaltava era a origem francesa do nome da família. O nariz largo do negro é tido como feio perante a sociedade que incita que o belo é quem tem o nariz fino, inclusive, as atrizes negras tidas como beldades no contexto contemporâneo são as de nariz fino. Daí surgiu a ideia de reverenciar o nariz do negro, e trazê-lo para o positivo. Foi assim que resolvi utilizar o nariz de palhaço, máscara símbolo do clown, como engrenagem para a minha personagem palhaça. Ela teria o nariz negro, mas queria também brincar com “metade branca, metade negra”. Em minhas buscas etnográficas fui ficando angustiada por não ter nenhum parente com a pele negra em minha família. Eu ansiava encontrar, mas todos eram brancos demais. Pensei nessa angústia, e daí surgiu a personagem Pardoca. O nome seria da origem parda, ou seja, da mistura de um negro com um branco. Ela era uma palhaça com crise de identidade, pois seu rosto seria branco e seu nariz preto. Assim surgiu a possibilidade de eu trabalhar minhas origens, e falar sobre a cor da pele com o público escolar. Também fui orientada pelo grupo de trabalho a colocar na cor de 167 minha maquiagem o amarelo e o vermelho, como indicação indireta das outras “raças”8 existentes e assim o fiz na parte superior de meus olhos, mas com menor intensidade. Dessa forma nasceu a apresentação, ou melhor, as apresentações, pois foram várias e para turmas diferentes. A cada participação percebia um aspecto que poderia ser melhorado e a partir da reação de como o público se manifestava estendia ou encurtava a ação. Quando, por exemplo, os alunos ouviam minha avó cantando, muitos se identificavam e me contavam, durante a apresentação que permitia estas intervenções, que também tinha algum evangélico em suas famílias. Quando eu tocava um pandeiro anunciando a história de meu pai, muitos faziam o sinal da cruz com os dedinhos, e arregalavam os olhos quando eu dizia que meu pai era macumbeiro. Existe um enorme preconceito com os participantes dessas práticas religiosas e isso era mensurável durante a apresentação. Os jovens não se continham durante as sessões e mostravam seus pensamentos, ideologias e também seus preconceitos. No final das apresentações via-se, porém, que meu objetivo de comunicação havia sido alcançado, pois a palhaça, depois de contar sua história e origem, dizia ser afro-brasileira e perguntava quem mais assim se identificava, no que a maioria levantava as mãos. Alguns alunos também, ao final, vinham me contar que alguém da 8 As ciências biológicas e sociais defendem que não existem várias raças humanas, mas como o termo é utilizado ainda hoje para marcar diferenças, ele é ainda utilizado pelos Estudos Críticos de Raça. 168 sua família, ou eles mesmos, praticavam alguma religião de matriz africana, coisa que antes pareciam ter vergonha de mostrar e falar. O saldo das apresentações foi muito positivo e percebi que isso se devia a alguns fatores. O primeiro foi minha realização enquanto artista, arte-educadora e cidadã. Sentia que tinha propriedade para falar daquilo, pois era algo real para mim, em mim, era minha história, minha construção, minhas metáforas, mas que no ato estético da apresentação poderia fazer sentido para os que assistiam. Eu dialogava com os alunos trazendo discussões sobre as questões raciais. Ao fazermos teatro, realizamos o ato estético. E nessa aventura, seja como atores ou como espectadores, ampliamos nossa visão sobre o mundo e nos treinamos na percepção da nossa própria individualidade. [...] Ao desenvolver a dimensão poética, a arte ensina que é possível transformar continuamente a existência, trazendo ao mesmo tempo a força e a flexibilização necessárias para a proposição de novos caminhos, garantindo a continuidade das mudanças. (VIGANÓ, 2007, p. 38) Um segundo fator foi o fato de que memória e ancestralidade são valores milenares e que me auxiliaram a permear o meu processo de auto-etnografia como uma maneira de dialogar nos espaços escolares. Por fim, acredito que essa apresentação foi mais intensa em sua abordagem, pois o conhecimento e conteúdo abordados foram planejados em sua essência, estudados, e trabalhados de forma não superficial. O uso metafórico também foi propulsor para que meu objetivo fosse alcançado, uma vez que a metáfora convida o espectador a refletir e fazer conexões com a temática e os assuntos curriculares abordados. Os alunos refletiam sobre o porquê de cada símbolo utilizado, e mencionado nas apresentações. Esse convite para sair do comodismo oferecia respostas diferentes da primeira apresentação, pois tudo tinha um sentido de “estar ali”, ainda que em maior ou menor grau. Como já disse, nem tudo são certezas, mas a impressão que tenho é de que a segunda apresentação, com a palhaça, foi mais bem sucedida, pois tinha respaldo em conhecimentos antes distantes da minha realidade. Com esse conhecimento, pude estabelecer outro tipo de relação com os espectadores. Por mais que as duas apresentações tenham sido muito distintas em seus procedimentos, o mais relevante é que eu havia mudado. Existia um sentido para mim enquanto artista e educadora. Tomo sol para ficar “preta”, escovo bem os dentes para ficarem brancos... Mas é meu coração que muda de cor 169 CONSIDERAÇÕES FINAIS DE UMA PESSOA QUE MUDA DE COR Maria Lúcia Puppo (2001, p. 43) em seu artigo Rituais de Iniciação aborda questões relacionadas ao pesquisador em teatro e a prática teatral como terreno de pesquisa: “Na medida em que o teatro se caracteriza pela efemeridade, sabemos que toda tentativa de documentá-lo está, a rigor, fadada à insuficiência, pois será sempre uma ‘referência a’, nunca a coisa mesma”. Ela afirma ainda que o estudante de teatro pode fazer uso de suas anotações, registros e compartilhamento de experiências para levantar questões problemas. Fiquei a pensar qual seria a minha questão problema a ser levantada e qual a relevância para outras pessoas, uma vez que a mesma é individual e intrasferível. O lugar a que cheguei, e onde me limito a ficar no presente artigo, é o convite para a experiência. É preciso que o professor que pretende seguir a LDB9 e aplicar a lei 10.639/03 veja como isso tem sentido para si em sua trajetória e re-crie um real sentido para que essa “aplicação” seja verdadeira. Sei que não é através da minha experiência que farei com que mais e mais professores abordem o tema, mas através do uso do sensível posso convidá-los a experiênciar também alguma situação ligada à temática, pois são os professores que vão “fazer valer” a prática da lei. Como se afirma nas Diretrizes (2003, p. 11), “ao Estado cabe promover e incentivar políticas de reparação”, mas aos professores cabe a implementação em si. Pode ser verdade que seja impossível decretar a integração por meio da lei, mas pode se decretar a não-segregação. Pode ser verdade que seja impossível legislar sobre moral, mas o comportamento pode ser regulamentado. Pode ser verdade que a lei não seja capaz de fazer com que uma pessoa me ame, mas pode impedi-la de me linchar. (LUTHER KING JR. Apud GÊNERO, 2009, p. 250). Muitos ainda são céticos em relação à lei, mas se o professor aproximar essa realidade de sua vida ela também fará sentido, como fez para mim, se ainda não faz. Gosto da afirmação do Livro de Conteúdo lançado pelo Governo Federal aos professores de rede pública, que diz que a lei 10.639/03 [...] veio para corrigir a ausência do continente africano e da história e cultura da África e dos valores afro-brasileiros na Lei de Diretrizes e Bases da Educação. [...] Foi um passo importante a caminho de uma pedagogia e de uma didática que valorize a diversidade étnico-racial e cultural presente no Brasil. (GÊNERO, 2009, p. 252) 9 Lei de Diretrizes e Bases é a lei que dita as diretrizes e as bases da organização do sistema educacional brasileiro. 170 Esta ausência também se percebe nas pessoas, nos professores negros e brancos. É preciso que ao menos exista espaço para diálogo das diversidades. Segundo análise do mesmo livro, o que se viu “debruçando sobre o material didático” foi que ele reforça que “tudo o que vem de ‘negros/as e indígenas’ é ruim e tudo o que vem das/os brancos é bom.” (GÊNERO, 2009, p. 253) Meu convite é que o material didático seja também elaborado a partir da própria experiência do professor, e para que isto aconteça é necessário que haja disponibilidade para a experiência. Nem todos os professores passaram pelo choque da discriminação, como Edna Roland, para lutar pela causa das desigualdades raciais, mas todos podem passar por experiências transformadoras, ou que aumentem o significado da temática. “Em nossa arrogância passamos a vida opinando sobre qualquer coisa sobre que nos sentimos informados. [...] No entanto, a obsessão pela opinião também anula nossas possibilidades de experiência, também faz com que nada nos aconteça”. (LARROSA, 2002. p. 22). Creio que o artista educador está mais próximo de se colocar à disposição do risco, uma vez que o próprio fazer teatral já é um risco, e desta disponibilidade muitos sentidos podem vir à tona, inclusive sobre a forma, o formato de se trabalhar a temática, saindo de livros e vídeos, mas proporcionando também aos alunos uma autoetnografia e dramaturgias próprias. Edna Roland (2003, p. 10) afirma que no caso dela, foi a discriminação que construiu sua identidade ética, e que “essa construção somente foi conseguida nas experiências pessoais”. Reforço, então, meu pedido aos professoresartistas: Permitam-se experiênciar! REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGRA, Lucio. Fronteira do múltiplo: performance, pedagogia, contemporaneidade. In: DUARTE de OLIVEIRA; MRAZ e ACHATKIN (Orgs.). Território das artes: ensinar-aprender. SP: Educ/Artgraph/MEC, 2009. BERSTEIN, Ana. A performance solo e o sujeito autobiográfico. Sala Preta. Revista de Artes Cênicas. PPG Artes Cênicas da ECA/USP. n. 1, p. 91-103, 2001. BRECHT, Bertolt. Teatro Completo. Tradução: Fernando Peixoto, Willi Bolle, Geir Campos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. 171 CARREIRA, André & CABRAL, Biange & RAMOS, Luiz Fernando & Et al. O Teatro como conhecimento. Metodologias de Pesquisa em Artes Cênicas. Santa Catarina: 7 letras, 2006. DECRETO-LEI n. 9.394, de 20 de dezembro 1996 (atualizada até 2005). 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Já liberto, em 1848 assentou praça na Força Pública da Província. Em 1854 teve baixa da Força Pública por insubordinação e em 1856 foi nomeado escrevente da Secretaria de Polícia. Foi nesse período, como escrevente, que Luiz teve acesso à biblioteca do delegado, então professor de Direito. Autodidata e dono de uma memória excepcional, Luiz Gama se tornaria um grande advogado (rábula). Foi um dos abolicionistas mais atuantes de São Paulo. Com seu trabalho nos tribunais, conseguiu a libertação de centenas de negros mantidos injustamente em cativeiro ou acusados de crimes contra os senhores. Especializou-se nessa área. Três anos depois, publicou seu único livro de poesias. Seu célebre poema “A Bodarrada” ironizava os que tentavam negar a influência africana na formação da nossa identidade nacional. Ao admitir no poema que também era bode – termo pejorativo usado para ridicularizar os negros, Gama tornou-se o primeiro escritor brasileiro a assumir explicitamente sua identidade negra, sendo assim o fundador da literatura de militância dos negros no Brasil. Também colaborou com diversos periódicos, escrevendo para jornais satíricos de São Paulo. Em 1880, já tinha se transformado em um líder do movimento abolicionista da cidade. Considerava legítima a defesa dos crimes cometidos por escravos contra seus senhores. Por insistência de Lúcio de Mendonça, advogado e amigo, Luiz Gama escreveu uma carta autobiográfica. Graças a ela, a lembrança de Luiza Mahim chegou até os dias atuais. Após longo período de doença, Luiz Gama morreu no dia 24 de agosto de 1882, em São Paulo.1 1 Ver mais em http://www.acordacultura.org.br/herois/ 174 COTAS: ENTRE A DESIGUALDADE SOCIAL E A DESIGUALDADE RACIAL Renato Augusto de Assis Silva Universidade Federal de Uberlândia – UFU Graduando em Ciências Sociais- INCIS Bolsista do PIBID-HCAFRO1 [email protected] Profª. Dra. Marili Peres Junqueira Universidade Federal de Uberlândia – UFU Instituto de Ciências Sociais – INCIS [email protected] A sociedade brasileira discrimina pela cor da pele, comportamento que se reflete no sistema educacional do país. Pretos e pardos tem menores chances de acesso à escola, de progresso no sistema educacional e de ingresso no ensino superior, quando comparados aos brancos. Desde a década passada, visando remediar essas desigualdades, diversas universidades brasileiras vêm adotando políticas de cotas, seja com reserva de vagas para negros ou aquelas que beneficiem alunos oriundos de escolas públicas. As políticas de reserva de vagas, as cotas, vêm sendo tema de intensos debates na sociedade. Este trabalho ressalta duas experiências diferentes de políticas de ação afirmativa no ingresso no ensino superior público. Uma delas é a reserva de vagas baseada no critério racial adotado pela Universidade de Brasília (UnB), instituída a partir de 2004, que usa a mesma prova paras classificar cotistas e não cotistas. A outra é a recente experiência da Universidade Federal de Uberlândia que, desde 2008, optou pelo critério social para reservar as vagas de seus cursos. A peculiaridade desta última é a forma de ingresso, que, além de ser exclusiva para alunos que cursaram ensino fundamental e médio em escola pública, ocorre de forma seriada e separada do vestibular tradicional. Para tanto faço uma breve caminhada por diversos autores que colaboram na compreensão do tema. De início uma contextualização sobre a historicidade do conceito “raça” no contexto social brasileiro, partindo, principalmente, de óticas sociológicas. Em seguida, passo pelas ações afirmativas, sua trajetória no território brasileiro e suas 1 Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/CAPES - Sub-projeto História e Cultura Afro brasileira 175 diferentes aplicações, principalmente no que se refere a cotas. Logo entramos nos dois casos que são os focos deste trabalho, as experiências de cotas na UnB e UFU. A principal contribuição deste texto é observar como se comporta a entrada de alunos negros entre diferentes sistemas de cotas com a intenção de inclusão social. Para tanto, fiz uso de trabalhos que expunham os casos isoladamente para então conseguir observar os pontos positivos e negativos de cada um dos sistemas na tentativa de inclusão racial de estudantes no ensino superior público brasileiro. O CONCEITO DE RAÇA NO CONTEXTO SOCIAL BRASILEIRO A elite colonial brasileira do século XIX não organizou um sistema de discriminação legal ou uma ideologia racista que justificasse as diferentes posições dos grupos raciais. Havia uma série de conceitos negativos associados ao negro que amparava visões hierárquicas da sociedade, enquanto o branco era dotado de uma positividade que se acentuava quanto mais próximo estivesse da cultura europeia. Cultivavam-se estereótipos ligados à raça e ao ideal de branqueamento que operaram ativamente enquanto vigorou no período de transição do trabalho escravo para o trabalho livre. O processo de abolição da escravatura tampouco significou o declínio dos valores associados às “designações de cor”. Com o surgimento do racismo científico, os fenômenos de preconceito não só continuaram como aumentaram drasticamente. A abolição coincide com o nascimento da República e com a disseminação das ideias de igualdade e cidadania que lhe são associadas. A coincidência entre a expansão dos princípios republicanos e liberais e a adesão às formulações racistas parece refletir a dificuldade então observada para operar o direito individual e o reconhecimento da cidadania em uma sociedade fundamentalmente hierárquica. O enfrentamento do problema racial brasileiro seria, pois, identificado como exigência nacional e associado ao princípio de que somente um país branco seria capaz de realizar os ideais do liberalismo e do progresso. (JACCOUD, 2009. p 21) A perspectiva da existência de uma hierarquia racial e o reconhecimento dos problemas de uma sociedade multirracial foram base não apenas das políticas de imigração, assim como também da valorização da miscigenação. Miscigenação que era basicamente o projeto de branqueamento da sociedade brasileira, que visava o progressivo desaparecimento do negro da sociedade brasileira. A ideia vigente era de 176 que em poucos anos a sociedade brasileira estaria livre da presença do negro e próxima ao objetivo de ser uma nação branca como a Europa nesse período. Segundo Guimarães (2003), o período dos anos 1930 para cá podem ser divididos em três grandes fases. A primeira fase é de constituição da nação brasileira, onde prevalece a ideia de cor sobre a ideia de raça. O anti-racialismo é uma das ideias fundadoras dessa nação. Para o autor, o conceito de nação se refere ao momento em que etnias ou raças passam a reivindicar um destino político comum, quando formam uma comunidade de origem e destino. Esse discurso se cristaliza basicamente nos anos 20 e 30, e tem Gilberto Freyre como seu principal intelectual. A chamada “geração realista”, segunda fase, vêm logo depois. Alegando que não é mais possível não enxergar o negro na sociedade brasileira. Esse grupo vai agora incorporar esse povo, essa raça, nessa nação nova, criar símbolos nacionais. Nos anos 1950, a palavra de ordem que ainda encontramos é a seguinte: a cor é apenas um acidente. Somos todos brasileiros e por um acidente temos diferentes cores; cor não é uma coisa importante; “raça” então nem se fala, esta não existe, quem fala em raça é racista. (Guimarães, 2003. p. 101) Na Sociologia acadêmica, o movimento interpretativo da realidade racial que se constitui no pós-1930, terceira fase, começou com o trabalho de campo de Donald Pierson na Bahia, em 1939 e segue até o final dos estudos da UNESCO sobre relações raciais, e se formam nesse período duas interpretações. A primeira, captada por Donald Pierson, diz que a sociedade brasileira é uma sociedade multirracial de classes, na qual as “raças” não eram propriamente “raças”, mas grupos abertos. A sociedade brasileira não se basearia na cor da pele para abrir ou fechar oportunidades para os indivíduos. Essa, a primeira maneira das Ciências Sociais pensarem essa realidade continuou colada à ideologia nacional. Os estudos patrocinados pela UNESCO, principalmente os realizados em Rio e São Paulo, marcam uma terceira fase. Esses estudos documentam a situação do negro no Sudeste do Brasil (pela primeira vez de forma racional e científica). A grande discussão que os estudos de Bastide e Florestan (1955) e Costa Pinto (1953) estabelecem é uma discussão já colocada pelo movimento negro nos anos 1930: a existência do preconceito racial no Brasil, apesar do ideal de democracia racial. Preconceito racial era definido a partir da experiência americana de preconceito. A ideia básica é que o preconceito existe como uma reação emocional de um grupo racial (o 177 branco) que se sente ameaçado por outro (o negro) na competição por recursos em uma ordem igualitária. É muito comum se ouvir, principalmente daqueles que se opõe às políticas de cotas raciais, que biologicamente raças não existem, e que “insistir na categorização racial não é só moralmente condenável, mas cientificamente infundado” (TAVOLARO, 2010, p. 4). Quando se trabalha com o conceito de raça em estudos sociológicos é necessário que se diferencie os sentidos analíticos reivindicados pela biologia genética e pela Sociologia. É importante atentar que a Biologia e a Antropologia Física forjaram a ideia de raças humanas, que colocava a espécie humana como dividida em subespécies, tal como o mundo animal, e de que tal divisão estaria associada ao desenvolvimento diferencial de valores morais, de dotes psíquicos e intelectuais aos seres humanos. Essa ideia que hierarquizava as raças humanas, e para isso se baseava nos traços fenotípicos, se tornou umas das bases para o que se conhece como racismo na modernidade. Porém, estudos biológicos contemporâneos comprovam que é impossível definir geneticamente raças humanas que digam respeito à noção corrente de raça. Portanto, as raças no caso dos seres humanos só podem ser tomadas como construção social, que muitas vezes serviu para classificar grupos hierarquicamente. Nesse sentido, para a Sociologia, raças são: [...] discursos sobre a origem de um grupo, que usam termos que remetem à transmissão de traços fisionômicos, qualidades morais, intelectuais, psicológicas, etc., pelo sangue (conceito fundamental para entender raças e certas essências). (GUIMARÃES, 2003, p. 19) Segundo Tavolaro, o estudo de Durkheim contribui para a compreensão do status social da raça, pois o autor atribui aos sistemas de crença como sendo a um só tempo dados socialmente e eles mesmos constitutivos da realidade social. Essa abordagem torna mais claro o porquê, ainda que seja o conclusão de uma “operação mental coletiva” e de uma concepção específica da realidade social, a raça é uma ideia que tem consequências reais e efetivas na vida social. O traço fisionômico que mais serviu para dar base à ideia científica e corrente de raça foi a cor da pele. Este fenômeno pode ser visto na história dos conflitos raciais que aconteceram nos países que foram destino da maior parte dos traficantes de escravos. A cor da pele se torna o determinante para a qualificação de raça. Assim é o caso do Brasil. Oracy Nogueira para estudar o fenômeno de preconceito racial, 178 comparando os casos brasileiro e estadunidense, cunha os conceitos ideais (que são aqueles conceitos que indicam situações puras, abstratas, para as quais propendem os casos reais) preconceito racial de marca e preconceito racial de origem. Considera-se como preconceito racial uma disposição (ou atitude) desfavorável, culturalmente condicionada, em relação aos membros de uma população, aos quais se têm como estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido a toda ou parte da ascendência étnica que se lhes atribui ou reconhece. Quando o preconceito de raça se exerce em relação à aparência, isto é, quando toma por pretexto os traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gestos, o sotaque, diz-se que é de marca, quando basta a suposição de que o indivíduo descende de certo grupo étnico para que sofra as consequências do preconceito, diz-se que é de origem. (NOGUEIRA, 2006, p. 292) O autor classifica o preconceito racial que ocorre no Brasil como sendo de marca, no qual os indivíduos negros fazem parte do grupo estigmatizado, o grupo discriminado. No caso do preconceito racial de marca a diferenciação do grupo social discriminado e do grupo social discriminador se faz pelo fenótipo. AÇÕES AFIRMATIVAS E COTAS RACIAIS O tema das ações afirmativas – em especial as cotas raciais – vem sendo foco de inúmeras discussões na mídia, em órgãos governamentais, trabalhos diversos e até em tribunais de justiça. “Ações afirmativas podem ser compreendidas como ações públicas ou privadas, ou ainda como programas que buscam promover oportunidades ou outros benefícios para pessoas pertencentes a grupos específicos alvo de discriminação”. (JACCOUD, 2009, p. 185) A instituição de cotas é um dos recursos de correção e compensação aos mecanismos de discriminação. Segundo pesquisa realizada pelo IPEA em 2007, das 48 instituições públicas de ensino superior que adotam alguma modalidade de ação afirmativa, 43 adotam a modalidade de cotas. Outras cinco instituições adotaram o sistema de bônus em seus vestibulares. Entretanto o sistema de cotas adotado não é o mesmo naquele conjunto de 43 universidades. No sistema de “cotas sociais”, o aluno que pleiteia uma vaga pelo sistema de cotas deve necessariamente ser oriundo do sistema público de ensino, ou seja, proveniente de escolas municipais, estaduais ou federais, ou dos cursos supletivos presenciais de educação de jovens e adultos. 179 A maior parte das instituições pesquisadas pelo IPEA, entretanto, optou por um sistema de cotas raciais, divididas em três diferentes modelos. O modelo de “cotas raciais” o estudante deve se identificar como negro – ou indígena – e participar de um processo de avaliação de sua auto declaração. Não há obrigação de que o estudante seja oriundo do sistema público de ensino ou que apresente baixa renda familiar. O modelo de “cotas raciais e sociais independentes” utiliza, separadamente, os critérios de ser egresso de escola pública e de ser negro ou indígena, formando um sistema em que há dois subconjuntos distintos de reserva de vagas em um mesmo processo seletivo. As “cotas raciais e sociais sobrepostas” operam com dois critérios complementares a serem observados simultaneamente: os candidatos devem se autodeclarar negros e ser egressos de escolas públicas. No segundo modelo de ações afirmativas que ocorre em instituições públicas de ensino superior é o de bonificação. Nesse modelo não são reservadas um número específico de vagas para estudantes negros ou oriundos de escolas públicas: os estudantes negros recebem uma quantidade de pontos que serão somados ao resultado do exame de seleção. Observam-se duas diferentes modalidades dos sistemas de bonificação em vigor: uma que afere pontos para alunos de escola pública e alunos negros, podendo ou não ser cumulativos. A primeira vez que um governo brasileiro admitiu discutir políticas públicas específicas voltadas para a ascensão do negro no Brasil aconteceu em julho de 1996, quando o Ministério da Justiça convidou vários pesquisadores, brasileiros e americanos, assim como um grande número de lideranças negras do país, para um seminário internacional sobre “Multiculturalismo e racismo: o papel da ação afirmativa nos estados democráticos contemporâneos”. Desde 2001, universidades públicas brasileiras vêm implementando ações afirmativas que visam promover o acesso ao ensino superior de estudantes negros. Ações estas que tem demonstrado ser importante mecanismo de democratização do acesso ao ensino superior e de ampliação do acesso da juventude negra às universidades. 180 AS COTAS NA UNB A UnB foi a primeira instituição pública federal a adotar um sistema de ações afirmativas para o ingresso de estudantes negros nos cursos de graduação. A universidade não se restringiu a adotar o sistema de ingresso para alunos negros, mas buscou implantar um amplo sistema de ações que atuasse em diversos âmbitos das instituições. São oferecidos espaços como o Centro de Convivência Negra, Núcleo de Promoção da Igualdade Racial, Programa Brasil Afroatitude, Núcleo de Estudos Afrobrasileiros, EnegreSer, entre outros. A UnB implementou a política de cotas para alunos negros (pretos e pardos) nos seus cursos de graduação, e institui desde 2004 que 20% das vagas de cada curso sejam destinadas a alunos que se autodeclaram negros; os outros candidatos continuaram a concorrer pelo vestibular tradicional, que passou a se chamar sistema universal. Todos os candidatos realizam a mesma prova, tanto os que concorrem pelo sistema universal quanto os que o fazem pelo sistema de cotas. Como a instituição adota o modelo de “cotas raciais” não é requerida destes alunos nenhuma outra condição como ser egresso de escola pública ou possuir determinada renda familiar para concorrer às vagas para cotistas. O aluno que se declarar negro no ato da inscrição para o vestibular e tiver a intenção de concorrer às vagas reservadas será submetido a uma entrevista com uma banca que irá avaliar a pertinência ou não do aluno concorrer às vagas pelo sistema de cotas. Até 2007, a homologação da inscrição de um candidato cotista era realizada por uma comissão que analisava a fotografia e os dados do pretendente em processo que tem sido objeto de acertadas criticas, como a de um dos autores da proposta de cotas na UnB, Carvalho (2005), que via um sentido político na autodeclaração de negro (em vez de preto ou pardo), por isso dispensando qualquer certificação posterior, ou como a de Maio e Santos (2005), insinuando que na classificação racial havia ares da superada e repudiada antropologia física que se praticava no final do século 19 e início do século 20, cerca de cem anos antes da implantação das cotas na UnB. A partir de 2008 a UnB suprimiu a exigência de foto, mas passou a requerer uma entrevista (realizada depois do vestibular) para homologar a inscrição no sistema de reserva de vagas, à moda da UFPR. Nesta a confirmação da vaga de candidato aprovado é feita há tempos por comissão destinada a verificar se o candidato possui “traços fenotípicos que o identifiquem com o tipo negro, objeto da discriminação racial existente no Brasil.(VELLOSO e CARDOSO, 2011, p. 226) 181 Segundo o edital do vestibular da universidade2, os critérios a serem observados na entrevista são a autodeclaração e os traços fenotípicos que o caracterizam como negro. Até o ano de 2008 caso o aluno tivesse a inscrição no sistema de cotas indeferida, automaticamente passaria a concorrer no sistema universal de vagas. A partir de uma mudança ocorrida nas normas para o ingresso no ano de 2008 a entrevista passou a ocorrer depois das provas do vestibular, e o aluno que no pleito da inscrição como cotista fosse rejeitado seria alijado do vestibular: não concorreria no sistema universal e nem, evidentemente, como cotista. Nessa entrevista, o candidato é questionado sobre sua história como negro na sociedade, como se enxerga como negro nessa sociedade e que conte um pouco de sua vida em geral. Segundo o reitor José Geraldo de Souza Júnior, essa entrevista não tem como objetivo aferir raça, mas sim serve “para evitar fraudes, que alguém se disfarce e iluda o sistema sob a impressão de que vai encontrar um modo mais fácil”. (QUEIROZ, 2010) Velloso e Cardoso (2011) realizaram um estudo onde identificam os efeitos do sistema de cotas sobre as oportunidades de acesso dos negros às vagas da UnB em cinco vestibulares – de 2004 a 2008. O estudo buscou saber quais seriam as chances de ingresso dos alunos que se inscreveram pelo sistema de cotas se este inexistisse. Posteriormente buscou constatar as probabilidades de entrada de estudantes negros caso o sistema de cotas não tivesse sido adotado, porém, supondo que as vagas ofertadas pela UnB correspondessem ao dobro das que foram efetivamente oferecidas a cada ano. A partir de suas simulações, a dupla constatou que, na maioria dos casos, as cotas aumentariam drasticamente as possibilidades de ingresso de alunos negros. Nessas simulações, constatamos que, na maioria dos casos (grupos de cursos/áreas/anos), as cotas dobrariam – ou mais que dobrariam – as probabilidades de ingresso de candidatos negros e que seus efeitos positivos em geral seriam maiores nos cursos socialmente mais valorizados. Nessas situações, majoritárias, as cotas se revelaram uma poderosa alavanca para ampliar as chances de ingresso de jovens negros na UnB. Noutros casos, minoritários, a reserva de vagas ainda teria efeitos positivos, porém frequentemente eles seriam bem mais reduzidos. (VELLOSO e CARDOSO, 2011, p. 240) Quando a suposição adotada foi a de que o número de vagas ofertadas pela universidade dobrasse instantaneamente a cada vestibular, os resultados foram muito parecidos com a primeira simulação. Se tal medida de aumento de vagas fosse adotada, 2 Ver Edital Vestibular UnB 04/2010. Disponível em: <http://www.cespe.unb.br/vestibular/2vest2010/arquivos/ED_2_2010_2_VEST_2010_ABT___19.04.2010.PDF>. Acesso em 01 de setembro de 2011 182 as chances de ingresso de candidatos negros se manteriam em patamares semelhantes aos alcançados com o número real de vagas ou, em alguns casos, sofreriam diminutas alterações. A conclusão a que se chega a partir deste estudo é que as cotas raciais na UnB foram e estão sendo uma poderosa ferramenta de ingresso de alunos negros no espaço universitário. É por sua causa por exemplo, que em determinados processos seletivos para cursos mais prestigiados, que se não fosse o sistema de reserva de vagas não entraria nenhum negro nessas cadeiras tão objetivadas. AS COTAS NA UFU A Universidade Federal de Uberlândia atualmente dispõe de um sistema de cotas sociais, chamado PAAES – Programa de Ação Afirmativa de Ingresso no Ensino Superior. Esse programa reserva 50% das vagas dos cursos que tem entrada semestral e 25% dos cursos que possuem entrada anual para alunos que cursaram os últimos quatro anos do ensino fundamental e todo o ensino médio em escola pública, o restante das vagas é distribuída no sistema de vestibular comum. O PAAES molda seu método de avaliações baseado no extinto PAIES – Programa Alternativo de Ingresso ao Ensino Superior, onde o candidato realiza as provas em três etapas distintas, onde é obedecido um sistema sequencial de avaliação dos candidatos, cada etapa realizada ao final de cada ano do ensino médio. Em cada uma das etapas as provas são constituídas de uma redação, uma questão discursiva e quarenta e três questões objetivas (4 questões por disciplina, exceto a disciplina com questão discursiva, com 3 questões objetivas). O candidato que concorre ao PAAES pode participar dos outros métodos de seleção da universidade sem nenhum prejuízo ao seu direito ao programa seriado. As discussões oficiais sobre ações afirmativas na Universidade Federal de Uberlândia tiveram início em 2003 com a instituição da Comissão para estudo de políticas a serem adotadas para aumentar os níveis de inclusão social e democratização ao acesso ao ensino superior na UFU. Durante o processo de estudo sobre ações afirmativas na instituição foram instituídas três comissões subsequentes para realizar esta discussão. As reflexões conduzidas pelas comissões ofereceram um denso diagnóstico da situação do ensino superior, demonstrando o evidente descompasso entre 183 o crescimento tímido de vagas no ensino superior e o aumento significativo da demanda demográfica na faixa etária que deve ser atendida pelo ensino superior. Durante o processo de debate foram propostas diversas modalidades de cotas, desde as modalidades raciais e sociais independentes, sobrepostos e, evidentemente, cotas sociais. A primeira comissão, instituída em 2003 esteve sob a presidência do professor João Marcos Alem. Essa primeira comissão elaborou um relato onde sugeria a adoção de políticas afirmativas. Sua proposta era a seguinte: (...) reserva de 25% das vagas dos cursos de graduação para estudantes oriundos de escolas públicas; reserva de 25% das vagas dos cursos de graduação para estudantes afrodescendentes (negros e/ou pardos), independente de renda; combinação dos critérios de renda e etnia na formulação da proposta de cotas; políticas especiais de apoio e acesso às pessoas portadoras de deficiência física e de necessidades especiais; e, adoção de política de bolsas de estudos destinadas à permanência de alunos carentes, brancos e afrodescendentes. (BARBOSA, 2008, p. 16) A continuação desses trabalhos foi retomada em outubro de 2004, em uma segunda comissão de trabalhos, sob a presidência do professor Marcelo Soares Pereira Silva. Coube à comissão de 2004 apresentar uma proposta para as atividades relativas à definição de políticas de inclusão na UFU. A nova comissão se prontificou à elaboração de uma agenda de discussão, que demandou a criação de uma nova comissão, cujos trabalhos retomaram as proposições apresentadas pela primeira comissão. A terceira comissão, instituída em 2006, ficou sob a presidência do professor Newton Dângelo. A finalidade desta era conduzir os trabalhos, colher dados, implementar um calendário de discussões e apresentar uma proposta de ato normativo sobre a política de cotas para a apreciação do CONSUN. Como conclusão dos encaminhamentos, dos debates e operados os trabalhos, a comissão apresentou a Proposta de Resolução ao Programa de Inclusão Social e Étnico Racial Para Elevar os Níveis de Acesso e Permanência no Ensino Superior. Assim encaminhou as seguintes diretrizes para instituir o Sistema de Reserva de Vagas para a Adoção da Política de Cotas Sociais e Étnico-Raciais na UFU: 1. Criação do Programa de Inclusão, integrado por diferentes políticas públicas e afirmativas: a política de cotas sociais e étnicoraciais, a criação de cursos noturnos, a política de preenchimento de vagas ociosas de estudantes desistentes, o apoio a cursinhos prévestibulares, a política social de permanência dos estudantes de baixa renda, medidas de adaptação curricular e desenvolvimento do Núcleo de Estudos Afrobrasileiros (NEAB) e a criação de um programa permanente de extensão de acompanhamento do desenvolvimento educacional dos estudantes de escolas públicas de ensino médio; 2. Instituição de um sistema de reserva de vagas para a adoção da política de cotas visando o acesso de estudantes ao ensino superior da UFU; 184 3. Combinação dos critérios sociais e étnicoraciais na formulação da proposta de cotas para oriundos da escola pública, negros e indígenas, sem prejuízo da meritocracia como critério de classificação dos candidatos; 4. Política especial de inclusão e de acesso das pessoas portadoras de deficiência física ao ensino superior da UFU; 5. Reserva de 50% das vagas dos cursos de graduação para estudantes oriundos de escolas públicas, acompanhando o conteúdo do ProjetoLei 073/99 que se encontra no Congresso Nacional e objeto de consenso entre o MEC, ANDIFES, UNE, movimentos negros, parlamentares e entidades sociais; 6. Preenchimento dos 50% das vagas nos cursos de graduação reservadas aos estudantes oriundos de escolas públicas por uma proporção de autodeclarados negros e indígenas igual à proporção desses grupos no Estado de Minas Gerais, segundo o último censo do IBGE. O conteúdo dessa proposta acompanha o consenso produzido nas discussões do Projeto Lei 073/99, acima citado; 7. Instituição de Política Social de apoio ao acesso e à permanência na UFU a estudantes carentes e cotistas; 8. Criação de uma Comissão de Acompanhamento da Política de Cotas e de uma Ouvidoria para a promoção dos direitos das vítimas de preconceito; 9. Aplicação da Política de Cotas nos processos seletivos de ingresso à UFU (vestibular e PAIES), em todas as extensões universitárias; 10. Fixação de um prazo para avaliar a experiência da Política de Cotas. (BARBOSA, 2008, p. 17) Porém, o meio acordado para realizar esse a inclusão social foi a criação das cotas sociais, que substituíram o processo seriado de ingresso PAIES. Criado em 1997 com a intenção de democratizar o ingresso ao ensino superior, o PAIES acabou por favorecer as classes mais abastadas e os alunos de escolas privadas da região. Considerando a realidade local, os defensores da “qualidade” e do “mérito” não se constrangem quando fica evidente que a UFU possui há 10 anos um sistema de cotas que se destina às classes médias e setores mais abastados da sociedade local e regional, trata-se do PAIES, que desde a sua implantação favorece abertamente o sistema privado de ensino, cuja qualidade se expressa na dimensão conteudista conservada pelas práticas de decoração e formalismo tendo em vista o êxito em provas de seleção. (CONSUN/UFU, 2007, p. 10) Segundo o estudo “O PAAES como possibilidade de acesso inclusivo ao ensino superior”, de Rodrigues Filho, que analisa a primeira edição do programa alternativo de ingresso exclusivo para alunos oriundos de escolas públicas, foram pesquisados 447 alunos aprovados, de um total de 1162 vagas oferecidas em 84 cursos pela instituição. Desses, 61% (273) se declaram brancos, enquanto 39% (174) se declaram negros (preto ou pardo). Em outro trabalho, publicado em 2008 por Barbosa, é pesquisado o extinto PAIES, programa de ingresso seriado que não tinha recorte social. No subprograma 2002/2005, de 569 candidatos aprovados, existia a seguinte distribuição: brancos obtiveram 70,2% das vagas; pretos 3,5%; pardos 18,1%; orientais (amarelos) 0,1%; e, indígenas 0,8%. Não declararam 6,9% dos aprovados. “Ou seja, foram aprovados 185 naquele PAIES 70,2% de brancos e 21,6% de negros (pretos e pardos).” (BARBOSA, 2008, p. 9). Na edição seguinte do programa (2003/2006) a distribuição foi a seguinte: brancos 70,4%; pretos 2,1%; pardos 16,3%; orientais (amarelos) 0,8%; indígenas 0,4%. Não declararam 9,9% dos aprovados. Neste PAIES foram aprovados 70,4% de brancos e 18,4% de negros. Assim é visível uma curva ascendente na proporção de negros aprovados no programa de ingresso seriado. No antigo sistema de processo de ingresso seriado, sem recorte social, a entrada de negros nos cursos foi de 21,6% e 18,4% nos dois processos pesquisados. A curva se torna ascendente quando se relaciona esses dados com a porcentagem de negros que ingressaram na versão do programa com o recorte social, que é de 39%. Tendo em vista os dados acima, mesmo a curva dos ingressantes sendo positiva no novo processo, a proporção ainda não é condizente com a proporção de autodeclarados negros do Brasil, que segundo o último levantamento do IGBE é de 51,1%. Isso somado ao fato de que o processo de ingresso seriado só preenche 25% das vagas oferecidas pela UFU. Há que se ter em mente também que estes resultados são preliminares. São visivelmente necessários estudos aprofundados que demonstrem mais detalhadamente as relações sociais e étnico-raciais no ingresso e permanência de estudantes na instituição. Estudo que auxiliariam na tomada de políticas públicas para o favorecimento de grupos que se veem afastados do ensino superior público atualmente. CONSIDERAÇÕES FINAIS A intenção deste artigo não é debater em torno da questão da aceitação ou nãoaceitação das cotas raciais, mas sim contribuir com a resposta da questão formulada por Silvério (2002): “Como podemos incluir minorias historicamente discriminadas, uma vez que as políticas universalistas não tem tido o sucesso almejado, e ao mesmo tempo, debater em que bases é possível rever aspectos fundamentais do pacto social?” A adoção de cotas sociais é sim um grande passo para a inclusão de minorias que geralmente não tem acesso ao ensino superior público brasileiro, porém não dão conta do problema sozinhas. Quando são adotadas cotas sociais, se atribui à desigualdade entre ricos e pobres a proeminência da explicação sobre os profundos 186 problemas sociais do país. Existe uma multiplicidade de fatores na explicação das desigualdades, que tem a vantagem de mostrar tanto a multicausalidade dos elementos explicativos da vida social quanto o aspecto dinâmico e relacional das relações sociais. Mesmo se se considerar a proeminência da desigualdade entre ricos e pobres na explicação dos fenômenos sociais, o modo como ela se expressa na contemporaneidade brasileira é problemático, uma vez que os indicadores sociais mostram uma confluência entre desigualdade econômica e desigualdade racial. Estes estudos demonstram que a dimensão econômica explica apenas parte das desigualdades entre negros e brancos, a outra parte é explicada pelo racismo, e a discriminação racial teve uma configuração institucional, tendo o Estado legitimado historicamente o racismo institucional. (SILVÉRIO, 2002, p. 222) Desta forma, é necessário se recolocar o problema da desigualdade entre negros e brancos como uma dimensão fundamental da explicação entre ricos e pobres. Desde que foram trazidos para o Brasil, os negros estiveram submetidos a todo tipo de juízos, normalmente negativos e pejorativos, sobre sua condição diferente no plano sócio cultural. A partir disso, o modo como as diferenças naturais e culturais são construídas socialmente, na forma de desigualdades sociais, revela-se um problema científico e político nas sociedades contemporâneas multirraciais. E é desse problema que as cotas sociais, quando adotadas em caráter exclusivo, não dão conta. O sistema de cotas adotado pela UnB vem dando bons resultados no que diz respeito à inclusão de jovens negros no ensino superior público brasileiro. Porém mesmo assim alguns estudos ainda se mostram não totalmente satisfeitos com a proporção de jovens pretos e pardos que lá ingressam. Os sistemas de ingresso da UFU ainda se mostram insatisfatórios no que diz respeito à inclusão de alunos negros nos seus cursos. Uma boa proposta seria o entrelaçamento entre cotas sociais e raciais nos seus processos seletivos, para que mais alunos negros pudessem ser beneficiados. São necessários estudos mais profundos e melhor divulgados que esclareçam qual é a inserção e a participação do negro na UFU. O processo seletivo baseado na questão socioeconômica já é um grande avanço em uma universidade que sempre teve a característica de privilegiar as elites econômicas da região. Porém não é suficiente para atender as demandas da população negra que a cerca. 187 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARBOSA, Pedro. O debate sobre a adoção de políticas de cotas sociais e raciais na UFU. Disponível em www.simposioestadopoliticas.ufu.br/iagens/anais/pdf/CC09.pdf Acesso em 28 de agosto de 2011. GOFFMAN, Erving. Estigma – notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de janeiro: Zahar, 1982. GUIMARÃES, Antônio S. A. Racismo e anti-racismo no Brasil. São Paulo: Ed. 34, 1999. 256 p. JACCOUD, Luciana (Org.) A construção de uma política de igualdade racial: uma análise dos últimos 20 anos. Brasília: Ipea, 2009. 233 p. NOGUEIRA, Oracy. Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem. Tempo social, São Paulo, v.19, n.1, p. 287-308, nov. 2006. RAÇA Humana. Direção: Dulce Queiroz. Brasil: TV Câmara, 2010. 1 filme (41min), son., color. RODRIGUES FILHO, Guimes. O PAAES como possibilidade de acesso inclusivo ao ensino superior. Ação 1 do programa Conexões de Saberes – PROEX UFU, Coordenação NEAB UFU TAVOLARO, Lília G. M. Raça, classe e cultura no contexto das políticas de ação afirmativa para negros no Brasil. In: VI Seminário racismo e educação & V Seminário de gênero, raça e etnia, 2010, Uberlândia. Anais. Uberlândia: NEAB, 2010, CD-ROM. UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA. CONSUN. Parecer do processo 94/2003. Uberlândia, 2007. VELLOSO, J. e CARDOSO, C. B. Um quinquênio de cotas: as chances de ingresso de negros na Universidade de Brasília. Revista brasileira de estudos pedagógicos, Brasília, v. 92, n. 231, p. 221-245, maio/agosto 2011. 188 O NEGRO NO MERCADO DE TRABALHO DE ITUIUTABA: APROXIMAÇÕES PRELIMINARES Elaine Costa Oliveira Universidade Federal de Uberlândia – UFU Faculdade de Ciências Integradas do Pontal – FACIP Graduanda em Pedagogia [email protected] Profª. Dra. Luciane Ribeiro Dias Gonçalves Universidade Federal de Uberlândia – UFU Faculdade de Ciências Integradas do Pontal – FACIP [email protected] Este artigo originou-se de uma conversa com uma militante do movimento negro organizado de Ituiutaba, a Srta Luzia Eterna – Presidente da Fundação Municipal Zumbi dos Palmares, por ocasião de uma entrevista para um trabalho da disciplina Educação, sociedade e cidadania, do curso de Pedagogia da Faculdade de Ciências Integradas do Pontal - FACIP/UFU. Sendo indagada sobre a situação do movimento negro na cidade de Ituiutaba – MG, ela destacou que houve avanços e desafios que seriam tanto para o município quanto para o Brasil como um todo. A mesma expressou sua indignação em relação ao preconceito existente nesta cidade, e desafiou-me a dar uma volta pelo comércio local onde poderia verificar a existência de poucos negros atuando no mercado de trabalho. Em virtude deste posicionamento, fui despertada a investigar o cenário do mercado de trabalho em Ituiutaba, o que pude realizar durante o curso oferecido pelo NEAB1 em Ituiutaba. Mesmo que muitos brasileiros neguem a existência do racismo, algumas pesquisas têm desmistificado isso. Tais pesquisas esclarecem que o preconceito está diretamente ligado ao racismo e à discriminação, fatores excludentes que tiveram sua origem na época do processo de escravidão e que mesmo com a abolição da escravatura estes se estendem até os dias atuais. Para que se compreenda o que acontece hoje no mercado de trabalho, faz-se necessário entender o processo histórico e a problemática de inserção da população 1 NEAB – Núcleo de Estudos afro-brasileiros sediado na Universidade Federal de Uberlândia. Este núcleo realizou curso de formação docente na Faculdade de Ciências Integradas do Pontal. 189 negra no mercado de trabalho livre. Desta forma, objetivo conhecer, através de uma amostra da realidade, a presença de pessoas negras nesse contexto. Busquei investigar como duas empresas da cidade lidam com a questão racial no processo de admissão e inclusão de funcionários. Na pesquisa qualitativa, utilizei para coleta de dados questionários e entrevistas semi-estruturadas dirigidas a funcionários do centro de recursos humanos destas empresas. As entrevistas foram gravadas e transcritas, o que possibilitou conhecer a política adotada pelas empresas para a contratação de seus funcionários. Assim, procurei conhecer a totalidade de funcionários, a quantidade de funcionários negros e em que departamento eles atuam, bem como a forma que estas os encaram, ou seja, fazer uma aproximação sobre aspectos da atuação das pessoas negras que trabalham nestas empresas. As reflexões iniciais remetem ao contexto histórico e normativo e as especificidades que a população negra passou em relação à sua inserção no mercado de trabalho. Posteriormente nas análises das entrevistas, busco compreender as formas de ingresso, as características esperadas dos funcionários, a presença de funcionários negros e a sua ascensão nas empresas estudadas. HISTÓRIA DO TRABALHO NO BRASIL E A PRESENÇA NEGRA A história brasileira retrata que após processo de libertação da escravização a exclusão dos escravos ao direito a bens essenciais como educação e ao trabalho foram fatores determinantes para essa população, como esclarecem Albuquerque e Fraga Filho: Na ausência de qualquer iniciativa séria por parte do governo para garantir um futuro digno aos negros brasileiros após o dia 13 de maio, um grupo de libertos da região de Vassouras, no Rio de Janeiro, endereçou uma carta a Rui Barbosa, então figura importante da política nacional. Na carta, eles reivindicavam que os filhos dos libertos tivessem acesso à educação. (ALBUQUERQUE; FRAGA FILHO, 2006, p. 198) Desta forma, entende-se que a abolição da escravatura em 1888, com a promulgação da Lei Áurea, não proporcionou aos “libertos” direitos que efetivassem essa liberdade principalmente ligada aos direitos como moradia, emprego, educação e preparação para o trabalho. Embora a libertação dos escravos constituísse uma questão de tempo, a assinatura da Lei Áurea foi apenas uma estratégia política para a garantia do 190 poder. Isso fora feito conjuntamente às lutas de escravizados e abolicionistas. Nesta fase, apenas em torno de 5% da população negra continuavam escravizados. A maioria dos escravizados já se recusava a trabalhar nos canaviais e nas plantações de café. O clima de revoltas se espalhava por todo o país. Albuquerque e Fraga Filho relatam que: No início dos anos 1888, os escravos ao invés de fugirem se recusaram a trabalhar nos canaviais e nas plantações de café (...) a princesa regente promulgou a Lei de 13 de Maio de 1888 extinguindo em definitivo a escravidão (...), porém sem se cogitar qualquer forma de reparação aos escravos. (ALBUQUERQUE; FRAGA FILHO, 2006. p. 194-195). Para os libertos, a abolição representava mais que a expectativa de liberdade aos trabalhos forçados e submissão, mas prioritariamente era o desejo de garantia de direitos sociais, direito à cidadania, o que de fato não acontecera. Vale ressaltar que a luta do movimento negro sempre se fizera presente antes e após a abolição, “os libertos, ex-escravos, e seus descendentes organizaram-se criando dezenas de grupos, grêmios, clubes, ou associações em várias regiões do país” (KATRIB; BERNARDES, 2010, p. 19). Gomes e Araujo (2008) destacam que os componentes desses grupos eram pertencentes ao setor literário, ao meio operário e recreativo que estudavam os assuntos referentes aos negros e possibilidades de contribuir para melhoria de vida destes. Domingues (2007) destaca que os grupos estavam espalhados pelo país e cita alguns desses grupos como: o Clube 28 de Setembro constituído em 1897 em São Paulo, O Clube 13 de Maio dos Homens de Cor em 1902, e ainda “ A Associação Lotérica Feliz Esperança, por volta de 1877, 1878, que em 1880 passa a chamar-se Sociedade Beneficente Feliz Esperança, em Pelotas, RS” (LONER, 2009, p. 5-6). Esses grupos tinham o caráter assistencial que a abolição não oferecera aos libertos. Desde a abolição até a proclamação da república estes ficaram fora do mercado de trabalho. Segundo Albuquerque e Fraga Filho (2006), nesse contexto, circulava a teoria da pureza do sangue com base em argumentos religiosos e de descendência. Segundo estes postulados o sangue puro seria o sangue europeu e as demais etnias seriam inferiores. Tais pensamentos repercutiam em todas as áreas da sociedade, inclusive na atuação de uma pessoa no mercado de trabalho e sua inserção na sociedade. Assim, o Estado incentivou a imigração de europeus como tentativa de “melhorar a raça brasileira”. Como se não bastasse a falta de políticas públicas que garantisse a inserção 191 dos negros libertos no mercado de trabalho pós-abolição, somaram-se a isso repercussões das teorias pseudo-científicas de cunho racistas. Conforme estas teorias, os brancos teriam características biológicas mais inclinadas à civilização do que os negros, desta forma, justificar-se-ia o tratamento inferiorizante destinado aos negros. Com intuito de forjar um conceito mais progressista de Estado-nação no Brasil, houve a implementação de políticas públicas destinadas a anular a presença negra no país. Uma das formas encontradas para o branqueamento foi incentivar as relações inter-raciais. A proposta teórica seria de que com a mistura entre brancos e negros ocorreria a miscigenação no Brasil. A suposição desta prática baseavase no postulado de que a raça branca, na sua superioridade, corrigiria assim as marcas deixadas pela população de raça inferior, os negros e os índios. O campo teórico é expressivo para a discussão acerca da raça e da miscigenação e Munanga menciona como teorias mundiais repercutiram no Brasil: A discussão travada por alguns iluministas a respeito do caráter ambivalente da mestiçagem, seja para explicar e confirmar a unidade da espécie humana (Buffon, Diderot), seja para negá-la (Voltaire); a ideia de mestiçagem tida ora como meio para reconduzir a espécie a seus traços originais; as ideias sobre a degenerescência da mestiçagem, etc. todo o arcabouço pseudocientífico engendrado pela especulação cerebral ocidental repercute com todas suas contradições no pensamento racial da elite intelectual brasileira. (MUNANGA, 1999, p. 50) Assim, como resultado da crença nesta teoria, o país investiu em imigração de trabalhadores europeus para o Brasil, permitindo a criação de uma ideologia de branqueamento e de uma suposta democracia racial em que brancos, mulatos e negros viveriam em completa harmonia. Conforme Hasenbalg (1999), a exclusão dos negros desde a primeira etapa da industrialização até 1930 se dera pela política estatal de imigração e não pelo despreparo, incapacidade ou pela falta de organização social dos ex-escravos. Na década de 30 inicia o período conhecido como Estado Novo em substituição à Velha República. Com a expansão da indústria têxtil e a diminuição da imigração europeia, o governo Vargas incentivara a industrialização. São instituídos direitos trabalhistas como a carga horária de trabalho de oito horas diárias, o salário mínimo, dentre várias outras medidas. Contudo, este é um período que se caracteriza por forte sentimento de preconceito e racismo. Como sugerem os autores abaixo: Os empresários preferiam para o trabalho, o imigrante italiano e alemão e seus filhos nascidos no Brasil. As dificuldades crescentes impostas aos trabalhadores negros para sua inserção no mercado de trabalho eram de cunho racista (...). O critério adotado 192 era: primeiro os brancos, depois os mulatos e por último os de cor escura. (ALBUQUERQUE; FRAGA FILHO, 2006, p. 260) Este clima de racismo explícito incitou o movimento negro brasileiro a protestar contra estas arbitrariedades. Em vista desses critérios adotados pelos empresários, a imprensa negra abre espaço para discutir a situação do negro na sociedade brasileira, tendo uma expressiva força no Jornal “O Menelik”2 dentre outros que desde a época de 1910 se manifestaram. O movimento ganhara força em 1931, ocasião em que fora fundada a Frente Negra Brasileira, que futuramente viera a se consolidar um partido político. Este veio atuar como sindicato dos trabalhadores negros e assegurar o lugar destes no mercado de trabalho com garantias legais (ALBUQUERQUE; FRAGA FILHO, 2006). Além das reivindicações relacionadas à garantia do direito ao trabalho, a educação era outro ponto da luta da época. Desta forma, em 1934, na cidade de São Paulo, fora criada a primeira escola primária de educação para crianças, jovens e adultos (ARAUJO, 2007). Conforme este autor apresenta, a Frente Negra Brasileira tinha o objetivo de reunir esforços políticos num programa de reivindicações comuns para levar a todo o território brasileiro a união política e social da classe negra para a reclamação de seus direitos, dentre eles o de participação e debate político de um projeto de educação que fosse instrumento de progresso, luta por direitos e participação na sociedade. Assim a Frente Negra reivindicava políticas públicas que incluíssem os negros na sociedade que permitissem a sua interação com a mesma em busca de possibilidades para lutarem em favor de sua causa. O processo de industrialização no Brasil na década de 1950, na cidade de São Paulo, dera referência ao modelo fordista de mercado, “baseado na divisão do trabalho, na implementação de uma rígida linha de produção dividida por setores de trabalho, esse modelo, perdura até o final da década de 80 e início dos anos 90” (PAULA, 2007, p. 15). Esse período fora denominado de redemocratização e marcado pelas eleições diretas para os cargos políticos. Houve uma forte manifestação dos movimentos sociais em prol da melhoria das condições de vida, saúde e trabalho sendo marcado por 2 O jornal “O Menelik”, era um órgão oficial e principal porta-voz da entidade, sucedido pelo O Clarim d’Alvorada, sob a direção de José Correia Leite e Jayme de Aguiar. Fundado em 1915, foi o primeiro jornal da imprensa negra nesse período. O título homenageava o imperador etíope Menelick II, que derrotara os italianos na batalha de Adwa, em 1896 (ALBUQUERQUE e FILHO, 2006, p. 260). 193 manifestações nacionalistas e de grande investimento de recursos financeiros no país tendo como representante o Presidente Juscelino Kubitscheck. Concomitantemente, fora criado o Teatro Experimental do Negro em 1945. Este movimento interessava-se pelas artes, a poesia, as músicas negras e, principalmente, as tradições religiosas de matriz africana, incluindo o candomblé. A valorização da herança cultural africana e, ao mesmo tempo, a idéia de que a mestiçagem era algo positivo, pois traria a originalidade de um país com referências africanas, indígenas e européias. (ALBUQUERQUE; FRAGA FILHO, 2006, p. 274). O governo militar na década de 60 pregava que não era admitida a discriminação racial de qualquer natureza. Em 1968, pautada em elementos da Lei Afonso Arinos de 19513, denúncias e estudos a respeito da mão-de-obra negra fizeram com que o regime militar atuasse, não sendo “permitido qualquer tipo de discriminação racial num país que pregava a tolerância racial, os casos de preconceito eram vistos como aberrações e não como manifestações” (ALBUQUERQUE; FRAGA FILHO, 2006, p. 276). Assim o ministério do trabalho institui a reserva de dois terços das vagas em empresas particulares para negros, contudo esta legislação não chegou a efetivar-se porque: Setores da sociedade, a imprensa, sobretudo, logo reagiu. Nos jornais cariocas dizia-se que o Brasil era um país de mestiços, onde todos tinham tanto sangue índio e negro quanto branco, e por isso não se deveria privilegiar aqueles a serem contemplados pela reserva de vagas. Naquele momento, o discurso da mestiçagem e da cordialidade das relações raciais no Brasil foi o bastante para barrar qualquer tentativa de reparação racial. Logo em seguida, a partir 1970, o regime militar endureceu com o general Garrastazu Médici, e falar de racismo no Brasil virou ato de subversão da ordem pública. (ALBUQUERQUE; FRAGA FILHO, 2006, p. 277) Algumas práticas de contratação feitas pelas empresas demonstravam o caráter discriminatório. As empresas utilizavam critérios de seleção como o candidato ser portador de boa aparência. Como esta prática foi caracterizada racista, algumas empresas como forma de burlar a postura discriminatória substituíram esta determinação por currículo com foto. Este procedimento evidencia a forma velada de preconceito em estabelecer um perfil para o trabalhador, o que também é esclarecido por Albuquerque e Fraga Filho: 3 A Lei Afonso Arinos definia como crime de contravenção a restrição do acesso de alguém a serviços, educação e empregos públicos por causa da cor da pele. Porém não teve qualquer eficácia no combate ao preconceito racial (ALBUQUERQUE e FILHO, 2006, p. 276). 194 Fora dos salões, a preocupação com a aparência da roupa, cabelo e comportamento traduzia o esforço desses negros para se mostrarem adequados a um mercado de trabalho regido pela lógica, muitas vezes racista, da “boa aparência”. (ALBUQUERQUE; FRAGA FILHO, 2006, p. 262) Conforme Rodrigues (1994), “a sociedade brasileira é preconceituosa”, contudo os responsáveis pelos estabelecimentos comerciais em sua maioria não se declaram preconceituosos, mas atribuem à sociedade consumidora a não contratação de pessoas negras para o mercado de trabalho. Desta forma, utilizavam o aspecto da boa aparência, o que retrata a forma velada de preconceito e o que se entende como racismo institucional, ou seja, que se mostra oculto, mas se faz presente por meio de atitudes bem discretas. Para combater o cenário discriminatório no mercado de trabalho, fora criada uma legislação própria para reger e punir as relações raciais neste setor. Segundo a Constituição Federal, todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. A Carta Magna diz, também, que constituem princípios fundamentais da República Federativa do Brasil o de promover o bem comum, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de discriminação. E nesta mesma Constituição, o artigo 205 estabelece que a educação é um direito de todos e dever do estado e da família; será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o desenvolvimento da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Diante disso, o Ministério do Trabalho lançou o documento Brasil, Gênero e Raça que define: Racismo: "a ideologia que postula a existência de hierarquia entre grupos humanos"; Preconceito: “uma indisposição, um julgamento prévio negativo que se faz de pessoas estigmatizadas por estereótipos"; Estereótipo: "atributos dirigidos a pessoas e grupos, formando um julgamento a priori, um carimbo. Uma vez ‘carimbados’ os membros de determinado grupo como possuidores deste ou daquele ‘atributo’, as pessoas deixaram de avaliar os membros desses grupos pelas suas reais qualidades e passam a julgá-las pelo carimbo"; Discriminação: "é o nome que se dá para a conduta (ação ou omissão) que viola direitos das pessoas com base em critérios injustificados e injustos, tais como: a raça, o sexo, a idade, a opção religiosa e outros. (BRASIL, 2006, p. 01) Segundo a mesma Constituição Federal, racismo é crime inafiançável e imprescritível, Art. 5.º, XLII, (BRASIL, 2006). Dentre os crimes resultantes de preconceitos de raça ou de cor, punidos pela lei (Leis N.º 7.716/89 e 9.459/97) alguns são evidenciados, como impedir ou obstar o acesso de alguém, devidamente habilitado, a qualquer cargo da administração pública, bem como negar ou impedir emprego em 195 empresa privada; recusar, negar ou impedir a inscrição de aluno em estabelecimento de ensino público de qualquer grau; impedir o acesso ou recusar o atendimento em restaurantes, bares e confeitarias, estabelecimentos esportivos, casas de diversões, clubes sociais abertos ao público, hotéis, pensões e estalagens; impedir o acesso às entradas sociais em edifícios públicos ou residenciais e respectivos elevadores ou escadas. Assim, em meio desse processo histórico e do meu desejo investigativo referente ao sentimento de indignação da militante do movimento negro ituiutabano, este trabalho tem por objetivo analisar a realidade das pessoas negras no mercado de trabalho de Ituiutaba, averiguando como o processo de admissão e inclusão destes acontece. A coleta de dados deu-se por meio de um questionário e entrevista semiestruturada a funcionários dos recursos humanos de duas empresas da cidade, para conhecer a política adotada para a contratação de funcionários e a presença de funcionários negros nestas empresas. O MERCADO DE TRABALHO EM ITUIUTABA: AMOSTRA DA SITUAÇÃO DO NEGRO. O processo histórico dos povos africanos e do povo afro brasileiro fora marcado por fatores excludentes condicionados desde a época da abolição da escravidão, que não permitiu o crescimento destes nos setores de trabalho, como destaquei anteriormente. O processo de educação propiciado pelos órgãos governamentais também não contribuíram para que houvesse a formação da população negra para o mercado de trabalho, mesmo com a criação de escolas técnicas voltadas para a preparação das pessoas para este, como salienta Araujo: Essas escolas propiciaram a escolarização profissional de uma pequena parcela da população negra, não obstante a existência de uma conspiração de circunstâncias sociais que mantinham os negros fora da escola. Pretos e Pardos que obtiveram sucesso nesta direção formaram uma nova classe social independente e intelectualizada (ARAÚJO. 2005). Essa classe intelectualizada pensava nas ações que pudessem inserir a classe negra na sociedade. Apesar do aparato jurídico normativo, na atualidade o censo 196 realizado pelo IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - mostra que as pessoas negras ainda ocupam menor espaço no mercado de trabalho (IBGE, 2008). Recentemente a Folha de São Paulo, em 22 de maio de 2011, publicou uma pesquisa realizada nas 500 maiores empresas do país pelo Instituto Ethos. A referida pesquisa demonstra que houve uma ampliação na contratação do trabalhador negro e que a participação destes no mercado subiu de 23,4% em 2003 para 31,1% em 2010. Segundo o vice-presidente do Instituto Ethos, Paulo Itacarambi, esse aumento se dá por fatores como a melhoria da auto estima que contribui para o aumento do número de pessoas que se declaram negras (pretos ou pardos), e pela política de cotas nas universidades melhorando a qualificação: Independente de política de governo, uma das medidas que está sendo adotada por um número crescente de universidades públicas brasileiras são as chamadas cotas sociais e raciais. Apesar de cada universidade adotar políticas específicas, a ideia geral é reservar um determinado número de vagas para pessoas pobres e negras, em geral vindas de escolas públicas. (ALBUQUERQUE; FRAGA FILHO, 2006, p. 303) Assim, as cotas destinadas aos negros é um instrumento que tem permitido o acesso à educação negado historicamente e que garante, na atualidade, a qualificação compreendida como oportunidade para adentrarem no mercado de trabalho. Segundo a Folha de São Paulo, das quinhentas empresas participantes da pesquisa os negros ocupam 25,6% dos cargos de supervisão, 13,2% dos cargos de gerência e 5,6% dos cargos de direção, conforme mostra o gráfico abaixo. População Negra 5,60% Supervisão Gerência Direção 13,20% 25,60% FONTE: FOLHA DE SÃO PAULO, 22 MAIO 2011. p. B9 197 O presidente do Instituto Ethos, Itacarambi justifica, conforme a Folha salienta, que as empresas possuem metas e não cotas para reduzir as desigualdades, mas que se fizessem isso contribuiria para maior equilíbrio quantitativo de representatividade. Em 2003 o perfil dos trabalhadores foi assim definido: 74,6% eram brancos, 23,4% negros (pretos e pardos), 1,8% amarelos e 0,2% indígenas. Já em 2010 o perfil ficou assim estabelecido: 67,3% brancos, 31,1% negros, 1,3% amarelos e 0,3% indígenas, conforme os gráficos abaixo. Perfil dos Trabalhadores em 2003 1,80% 0,20% 23,40% Brancos Negros (pretos e pardos) Amarelos Indígenas 74,60% FONTE: FOLHA DE SÃO PAULO, 22 MAIO 2011. p. B9. Perfil dos Trabalhadores em 2010 1,30% 0,30% 31,10% Brancos Negros (pretos e pardos) Amarelos Indígenas 67,30% FONTE: FOLHA DE SÃO PAULO, 22 MAIO 2011. p. B9. Com relação à divisão da população brasileira, o percentual por raça fica da seguinte forma: 50,7% Negros, 47,7% brancos, 1,1% amarelos e 0,4% indígenas, conforme o gráfico abaixo: 198 FONTE: FOLHA DE SÃO PAULO, 22 MAIO 2011. p. B9. Diante do quadro histórico e dos dados estatísticos apresentados, nota-se uma significativa evolução no acesso do trabalhador negro ao mercado de trabalho nos últimos tempos. Tais dados demonstram um crescimento gradual da participação da população negra no mercado de trabalho brasileiro. Como seriam estes dados em Ituiutaba? A cidade localiza-se no pontal do triângulo mineiro, possuindo uma população de 97.171 habitantes segundo censo de 2010 (IBGE, 2010). Sua economia está voltada para o agronegócio e prestação de serviços. Após esta análise no âmbito geral, foram observadas duas empresas da cidade de Ituiutaba, de prestação de serviços conceituadas, aqui denominadas Empresas A e B. A empresa A possui um quadro de 260 funcionários, sendo que 5,7% são negros, e 94,3% são brancos. Quadro de Funcionários Empresa A: 260 5,70% Brancos Negros 94,30% Figura 1 A empresa B possui um quadro de 15 funcionários, em que 20% são negros e 80% são brancos. Conforme o gráfico: 199 Quadro de Funcionário da Empresa B: 15 20% Brancos Negros 80% Figura 2 Conforme se percebe pelos dados coletados quanto ao número de funcionários, ambas as empresas têm número reduzido de colaboradores negros. Caso fôssemos fazer a visita às empresas com o olhar orientado pelo desafio da Srta Luzia Eterna teríamos a comprovação de sua hipótese inicial. Os dados coletados confirmam a hipótese lançada pela representante do movimento negro e o desafio que apresentei no início do texto. Ambas as empresas mantêm o quadro de funcionários majoritariamente branco. O cenário nacional apresentado anteriormente neste trabalho demonstra que, na conjuntura brasileira, tem havido acréscimo da participação negra no mercado de trabalho. Os dados coletados não possibilitam analisar comparativamente o nível de progressão desta participação no contexto da cidade de Ituiutaba. Contudo, comprova que no período da coleta de dados a participação negra apresenta-se ínfima em comparação com a população branca. Diante da proporcionalidade da população brasileira ser majoritariamente negra, entendo que para ser equinânime estes números deveriam refletir nos diversos setores da sociedade. A proporcionalidade de negros com acesso à educação, moradia, saúde, trabalho e demais políticas públicas que garantem uma vida digna e plena de cidadania deveria guardar a proporcionalidade da participação numérica na população. Assim sendo, entendo que as empresas pesquisadas deveriam ter um número maior na representatividade da participação negra como funcionários das mesmas. E o(a)s negros que trabalham nestas empresas? Como são tratados profissionalmente o(a)s funcionário(a)s negro(a)s? 200 FORMAS DE INGRESSO Pelos dados relativos aos números de funcionários negros e brancos fica a questão: como os colaboradores das empresas são contratados? Quais são as formas de ingresso? Na empresa A, a avaliação para ingresso, acontece de duas formas, a primeira acontece uma seleção interna, com indicação de candidatos parentes dos funcionários contratados, e quando não há uma pessoa que se enquadre no perfil desejado, a empresa opta pelo currículo ou divulgação no SINE4. Conforme a responsável pelo recurso humano esclarece: Na verdade nem divulga as vagas fora da empresa porque a gente já tem currículos o tempo todo, todo o tempo o pessoal deixa no atendimento da loja, então, a gente não utiliza esse critério de divulgação até mesmo por isso, eu recorro a eles (currículos), a não ser que tem uma vaga que não encontrei nos currículos que o pessoal deixou aí tem que divulgar, então eu divulgo no SINE (EMPRESA A). Há também o relato desta empresa que ressalta a pouca procura de pessoas negras por trabalho naquele estabelecimento. A entrevistada atribui o fato ao preconceito da própria população negra. Segundo ela, Caso a empresa colocasse um determinado número de vagas para as pessoas negras, ou seja, uma cota seria uma forma de preconceito da empresa que estaria limitando o número de funcionários negros que poderiam ser admitidos. Como a entrevistada poderia dizer da pouca procura de negro(a)s por vagas na empresa A? A entrevistada havia afirmado que a seleção primeiramente acontece entre os membros das famílias dos funcionários, e caso não supra a demanda de vaga dentre esses seria feita por curriculum deixado no estabelecimento ou com a colaboração do SINE. Haveria nestas formas de ingresso algum instrumento de identificação de pertença racial? Isso não foi identificado nos dados coletados, contudo como uma pessoa poderia não querer um emprego que é cobiçado por tantos? Segundo o gerente da Empresa B, a escolha se faz por meio do sistema on line de inteligência, em que o candidato responde a um questionário que definirá seu perfil para qual função está qualificado. 4 SINE – Sistema Nacional de Emprego do Ministério do Trabalho e Emprego instituído pelo decreto lei 76.403 de 08 de outubro de 1975. 201 Tais empresas afirmam não levar em consideração para contratação o fator de etnia, raça, deficiência do candidato, justificam que estes têm a mesma oportunidade de ingressarem na empresa, por seu próprio esforço ou desempenho. Nestas não há o sistema de cotas, pois consideram um candidato negro tão apto quanto qualquer outro. Na antiga China foi criado Um sistema de seleção de funcionários que promovesse o sujeito ao poder como forma de detenção da sucessão hereditária das famílias, a escolha acontecia pelo desempenho do candidato frente às avaliações submetidas, sendo denominado sistema de meritocracia. Esse sistema mais tarde chegou aos países ocidentais e adotados pelas empresas nacionais. (SILVA, BARBOSA e SOUZA, 2006, p. 70) Dessa forma o mérito é a seleção dos mais aptos. A este sistema que valoriza o esforço e o trabalho individual dos sujeitos, legitima-se a nova ordem social emergente burguesa, tendo sua origem no Brasil no fim da Monarquia e início da República. A partir das entrevistas realizadas constatou-se que as empresas adotam o sistema meritocrático como forma de contratação de seus funcionários, ou seja, em ambas os candidatos são submetidos a avaliações por meio de entrevista e testes que demonstrariam seus próprios méritos e dons. As entrevistas revelam que ambas as empresas procuram demonstrar lisura e transparência nas suas contratações. As falas guardam tom de impessoalidade e isonomia no processo, mesmo nos casos de indicações de familiares. Uma das empresas opta por utilizar de parceiros como SINE para desenvolver o processo de seleção, já a outra busca nas novas tecnologias para garantir a isonomia do processo. Certamente estes poderiam ser os caminhos ponderados, mas, quando focalizamos a presença negra percebemos que isso não é garantido. Fatores históricos que destaquei anteriormente, como as marcas de teorias racistas que consideraram a população negra inferior e a dificuldade de acesso ao processo educacional e de formação profissional, fizeram com que a população negra ficasse presa a um ciclo de desvantagens cumulativas. Os dados coletados facilitam o entendimento de que, mesmo depois de mais de cem anos de abolição do processo de escravização, a população negra continua acorrentada à estas desvantagens. Processos de seleção universal, como os propostos pelas empresas pesquisadas, não conseguiram solucionar o problema da discriminação negra do mercado de trabalho e de outros setores da sociedade. Aliada a isso, a lógica meritocrática tem servido como instrumento de perpetuação das desigualdades, pois se baseia na visão liberal que exalta o individualismo e a competição. 202 Com intuito de diminuir as desigualdades sociais e combater o racismo são necessárias medidas específicas e pontuais como as ações afirmativas. As empresas pesquisadas são unânimes em afirmar que não adotam nenhuma forma de ação afirmativa com relação à presença de negro(a)s em seus quadros. Suponho que isso dificulta a contratação e a presença de trabalhadores negro(a)s nestes estabelecimentos, haja vista o número percentual da presença negra nestes espaços. Em observação aos dados obtidos, as empresas possuem em seu quadro de funcionários o maior número de pessoas brancas. O que nos leva a pensar a respeito das formas de ingresso destes funcionários nas referidas empresas. Na Empresa A, como destaquei anteriormente, tem 5,7% (15 pessoas) de funcionários negros. O(a)s funcionário(a)s negro(a)s estão assim distribuídos: 1,9% (05 pessoas) empacotadores, 1,52% (04 pessoas) caixas, 0,38% (01 pessoa) balconista de frios, 0,76% (02 pessoas) balconista hortifruti, 0,38% (01 pessoa) repositor hortifruti, 0,38% (01 pessoa) estoquista e 0,38% (01 pessoa) embalador de açougue. Destes apenas um cursa o ensino superior e os outros o segundo grau. Quando indagada sobre o funcionário que está cursando o terceiro grau e ocupando a função de empacotador, esta disse que muitos funcionários entram na empresa e depois começam a cursar o ensino superior, e veem neste trabalho apenas oportunidade para suprir a necessidade de custeio de seu curso, tendo o atual local de emprego como uma passagem de sua vida, posteriormente este procurará desempenhar um papel em sua área específica de formação, como é evidenciado na fala da entrevistada: Às vezes acontece da pessoa entrar naquela vaga, e depois ela começar a cursar a faculdade, é o que ocorre muito. O pessoal do caixa, por exemplo, a maioria faz faculdade, cursos que até na verdade não têm haver com a empresa, muitos acabam que depois vão procurar a área que eles formaram, então acontece demais isso. O pessoal vê assim a empresa mais como um lugar de passagem. (Empresa A) Na Empresa B, dos 15 funcionários, 20% (03 pessoas) são negros, desses, 13,4% (02 pessoas) possuem o ensino médio e atuam na área de vendas, 6,6%, (01 pessoa) o ensino fundamental e atuam na área de serviços gerais. Baseando na premissa de necessidade de formação educacional para que se atuem em cargos mais elevados hierarquicamente, as funções desempenhadas pelo(a)s funcionário(a)s negros estariam em conformidade com o estabelecido. A exceção desta regra seria o(a) funcionário(a) da empresa A que mesmo cursando da universidade 203 ainda não teria conseguido ascender de cargo. Acredito que mesmo assim a argumentação da entrevistada seja frágil diante da realidade. O que pode causar estranhamento é a presença de funcionário (a)s brancos com precariedade de formação educacional ocupando cargos de chefia. Para este funcionário(a) branco(a) a falta da formação acadêmica não seria empecilho? O(a) funcionário(a) negro(a) com pouca escolaridade não conseguiria desempenhar funções de chefia? O que as empresas esperam de seus funcionário(a)s? AS CARACTERÍSTICAS ESPERADAS DOS FUNCIONÁRIOS Ambas as empresas buscam nos candidatos características que se enquadram no perfil desejado como forma de política de trabalho, como a motivação, a determinação, a comunicação e o dinamismo, conforme a fala de um dos entrevistados: O perfil, geralmente é de uma pessoa comunicativa, que goste de atender, goste de trabalhar com pessoas, principalmente isso, porque o nosso diferencial, a gente sempre trabalha o foco no atendimento ao cliente, então precisa ser essas pessoas mais espontâneas, que goste mesmo de trabalhar com o público (Empresa A). Segundo estes as características étnico raciais não são levadas em consideração. O que fica evidenciado, é a capacidade de desempenho exigida pela função que estes venham a exercer na empresa, como apresenta a seguinte citação da Empresa A: “A empresa encara um candidato negro normal, todos têm acesso para deixar os seus currículos, contratamos normalmente pelo desempenho da pessoa, todos têm acesso pra deixar os currículos”. A Empresa B, traz a seguinte citação justificando a idéia de não levar a cor do candidato em consideração: “O candidato negro hoje a gente encara como um candidato comum, como um candidato qualquer, não temos distinção de cor, nem de raça”. Observa-se que as empresas são receptivas e as características dos candidatos estão relacionadas com a sua capacidade de desempenho. Encarar os “desiguais” como “iguais”, que é o apresentado pelas entrevistas, constitui uma forma de conservar as diferenças hierarquizadas. Não tem como tratar como iguais pessoas que foram historicamente hierarquizadas e estigmatizadas. Existe uma “diferença” posta. Ignorá-la ou invisibilizá-la não resolvem os problemas sociais. Contradições implícitas na existência concomitante de desigualdades sociais e seleções 204 baseadas em mérito individual são formas de perpetuação do racismo em nossa sociedade. Segundo Anacleto, Conceição, Marques e outros (2006): Para efetivarmos a justiça que queremos, em que as diferenças não fossem usadas para criar e sustentar desigualdades, seria preciso abrir mão da crença nesta idéia de igualdade que temos agora, presente e ilusória, para que pudéssemos repensar e construir uma outra noção de igualdade, futura, mas, porém, real. (ANACLETO, CONCEIÇÃO, MARQUES, 2006, p. 82) ASCENSÃO DO FUNCIONÁRIO NEGRO As empresas declaram que a ascensão do funcionário negro é de sua própria responsabilidade, depende de como este tenha desempenhado sua função, como destaca a fala da Empresa B: “Depende de acordo com o desempenho de cada um, é avaliado o desempenho de cada um, não temos distinção de acordo com cor para ocupação de cargo, é avaliado o perfil do candidato, e a experiência profissional.” Na Empresa A, para a ascensão é exigido que o candidato esteja inserido num contexto escolar, só assim este candidato terá condições de crescimento dentro da empresa, conforme a citação da Empresa A: “Que ele esteja buscando qualificação, então isso, realmente a empresa olha, porque é contratado quem está estudando ou quem já terminou os estudos, tanto o segundo grau como o ensino superior, a empresa não contrata quem não está estudando.” Para as empresas os candidatos devem estar capacitados para que possam ascender, tanto em desempenho e experiência profissional, como em formação acadêmica. Então como analisar o caso do(a) funcionário(a) cursando a universidade e trabalhando como empacotador(a)? Como defender tanto a contratação como a ascensão de funcionários baseada em fatores de méritos individuais quando lidamos com uma sociedade desigual? As empresas não podem ignorar que as diferenças sociais construídas historicamente têm prejudicado e excluído um número grande de brasileiros. Tenho a convicção que seja necessário que empresas busquem maneiras de incluir a população negra em seus quadros pois a diversidade pode contribuir para o crescimento das mesmas. Algumas empresas têm investido nisso através de ações afirmativas para o acesso e progressão desta camada da população em seus quadros. 205 CONSIDERAÇÕES O desafio lançado pela militante do movimento negro de Ituiutaba além de perturbador é atual. Percebe-se pela pesquisa que a maioria dos funcionários das empresas não são pessoas negras. O olhar para a história do Brasil traz evidências da construção da situação atual através dos tempos. A escravização foi fator preponderante neste caso. Durante as décadas em que a população negra foi submetida a trabalhos forçados e não remunerados definiram no imaginário nacional uma posição inferior nas relações trabalhistas. Além disso, as várias pseudo-teorias científicas que circularam no campo acadêmico postulavam pela veridicidade desta inferioridade. Assim, para formar uma nação progressista deveriam ser apagadas as marcas da negritude. Nas relações de trabalho, isso influiu decisivamente para que o governo brasileiro financiasse a vinda dos imigrantes europeus para ocuparem os cargos no início do processo de industrialização do país. Esta breve retrospectiva histórica demonstra que as dificuldades de acesso ao trabalho formal não é de agora, contudo no âmbito das empresas pesquisadas a porcentagem de funcionários negro(a)s ainda é pequena. Com relação às empresas estudadas foi possível depreender dados que são ainda incipientes para uma generalização de análises, contudo acredito que tenham sido aproximações com a realidade que apresenta características definidas. A forma de ingresso em ambas as empresas baseia-se na inobservância de características raciais dos interessados no emprego. As empresas reforçam que a forma de contratação baseia-se em características profissionais desejáveis apresentadas pelos candidatos. Então fica a questão: os candidatos negros não possuem estas características visto que apenas uma minoria é contratada? Nas entrevistas feitas, há o cuidado em salientar que as empresas não levam o fator cor em consideração, nos critérios de admissão e ascensão dos funcionários, porém os dados coletados comprovam que a maioria destes é de cor branca. Em relação à ascensão na carreira, as empresas destacam características subjetivas ligadas ao empenho e à formação acadêmica. As empresas reforçaram a idéia de que o funcionário desejado é aquele que procura desenvolver bem suas funções. Porém, os poucos funcionários contratados pelas empresas desempenham funções subalternas justificado pela falta de formação ou pela admissão recente do funcionário. 206 Estas declarações me fizeram questionar a presença de um funcionário de uma das empresas que cursa o ensino superior, mas ainda desempenha função de menor remuneração e grau de representatividade. Portanto, é perceptível que mesmo o quadro nacional apresentar um acréscimo na participação negra no mercado de trabalho e o quadro local revelar que esta participação ainda é muito pequena, tudo contribui para desvelar a necessidade de políticas públicas que possam corrigir a desigualdade social imposta pelo processo de escravização. As políticas públicas educacionais, especialmente, contribuiriam com um trabalho teórico metodológico que incluísse ações que promovessem a desmitificação dessa herança histórica hierarquizante e inferiorizante. Entendo que o processo educacional deva possibilitar o acesso do aluno à cultura africana e afro-brasileira para que as pessoas sejam formadas sabendo que as diferenças existem e que elas devem ser respeitadas em toda sua magnitude, desmitificando e contribuindo para a formação de pessoas capazes de se constituírem cidadãos e respeitem a condição de qualquer pessoa quanto a sua raça, cor, crença bem como costumes e hábitos de diferentes povos que residem em nosso país, e implementem ações e projetos que possibilitem a permanência destes nos estabelecimentos de ensino durante sua formação para que sua presença na escola ou academia não seja sentida de forma negativa na família. Acredito que as reflexões apresentadas aqui sejam iniciantes, mas puderam alertar-me para o papel fundamental da Educação na perspectiva transformadora. É perceptível que as mudanças não acontecem de uma hora para outra, porém espero que as políticas públicas de educação na forma da Lei 10.639/03, sejam de fato concretizadas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBUQUERQUE, W. R. FILHO, W. F. Uma história do negro no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006. Disponível em <http://pt.scribd.com/doc/58755926/Uma-Historia-Do-Negro-NoBrasil> acesso em 10 abr. 2011. ANACLETO, A, CONCEIÇÃO, A, MARQUES, G e outros. Por que uns e não todos? O papel do mérito na manutenção da lógica hegemônica. In: SILVA, Jailson de Souza e, 207 BARBOSA, Jorge Luiz e SOUSA, Ana Inês. Rio de Janeiro: UFRJ, Pró-reitoria de extensão, 2006. p. 83-93. ARAUJO, M. A Escola Primária da Frente Negra Brasileira em São Paulo (1931 – 1937). In; OLIVEIRA, I., AGUIAR, M. A. 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Práticas Pedagógicas e a lógica meritória nas universitárias – Rio de Janeiro: UFRJ, Pró-Reitoria de Extensão, 2006. 209 MULHERES NEGRAS NA UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA/PONTAL: Trajetórias da carreira docente Isabel Cristina da Costa Silva1 Universidade Federal de Uberlândia - UFU Faculdade de Ciências Integradas do Pontal – FACIP Graduanda em Pedagogia [email protected] Orientador: Prof. Dr. Cairo Mohamad Ibrahim Katrib2 Universidade Federal de Uberlândia - UFU Faculdade de Ciências Integradas do Pontal – FACIP Núcleo de Estudos Afro Brasileiros – NEAB [email protected] Co-orientadora: Profª Dra. Betânia de Oliveira Larterza Ribeiro3 Universidade Federal de Uberlândia - UFU Faculdade de Ciências Integradas do Pontal – FACIP [email protected] O INÍCIO DA CONVERSA Ao dar início as reflexões para a escrita desse ensaio, sabia que encontraria muitas inquietações, sobretudo a dificuldade do distanciamento ou a tão cobrada “neutralidade” em relação ao objeto de pesquisa. Por ser também mulher, negra e, desde pequena ouvir de minha mãe que a escola era caminho de transformação indispensável em minha vida, compartilho com as narrativas dessas docentes por saber que falar de mulheres negras é um trabalho acadêmico não me isentaria de viver minhas emoções compartilhadas com as das depoentes, pois muito dos assuntos aqui discutidos tem relação com minha própria trajetória. As histórias de vida das nossas protagonistas emergem embebidas de sentimentos que revelam um cotidiano mediado de privações sofridas e impostas na infância, adolescência e na vida adulta. É perceptível que essas ranhuras não lhes direcionaram para o descrédito em relação às transformações possíveis de serem 1 Aluna do Curso de Formação Inicial em História e Cultura Africana e Afro-Brasileira. BolsistaPet (re) conectando Saberes, Fazeres e Práticas Rumo a Cidadania Consciente - MEC/SESU/SECADI 2 Docente do Curso de Graduação em Historia-FACIP/UFU;Tutor PET(Re)Conectando Saberes Fazer e Praticas Rumo a Cidadania Consciente.MEC/SESU/SECADI. 3 Docente do Curso de Graduação de Pedagogia- FACIP/UFU e do Programa de Pós Graduação em Educação FACED/UFU. 210 trilhadas ao longo de suas trajetórias de vida. Nas suas falas, está o reconhecimento do esforço pessoal e familiar, a construção de caminhos que levam ao reconhecimento e ao respeito profissional e/ou pessoal, pois, como ressalta Ribeiro (1997)4: A origem de classes sociais e da propriedade privada, substituindo o sistema matriarcal para o patriarcal, predominantemente nas grandes organizações dos povos culturais da humanidade, vinculava as relações de gênero, estabelecendo para o contingente feminino, condições não muito solidarias em que estabelecia à luz do século, um longo processo de domesticação, no sentido de torná-la responsável pela casa, pela família, pelo casamento, pela procriação, de uma forma violenta, em que inseria parâmetros de adestramento [...]. (RIBEIRO, 1997, p. 50-51) Se esse conceito hoje nos é chocante, imaginem a situação da mulher negra na condição de cativa no Brasil dos séculos XVII, XVIII5 e, que carrega ainda hoje os resquícios de uma sociedade machista e preconceituosa? Nessa lógica, Neto & Cavas (2011)6, inspirados pelas colocações de Gilberto Freire em Casa Grande & Senzala, nos ajudam a responder tal indagação, pautando-se nessa condição de objeto dado a mulher dizendo: Desde o Brasil - Colônia, as mulheres negras eram utilizadas como mão de obra escrava servindo de mucamas e amas de leite, prestando favores sexuais aos seus senhores e, ainda hoje, perpetuadas em ofícios como cozinheiras, arrumadeiras, faxineiras. Se a abolição da escravatura lhes concedeu a liberdade, dessa liberdade pouco puderam usufruir, uma vez que ser mulher, negra e pobre, já era um estigma que significava: inferioridade, ignorância, subalternidade e ausência de direitos mínimos que assegurasse sua cidadania”. (NETO & CAVAS, 2001, p. 02) Diante desses fatos, me isentar dos meus sentimentos é impossível, pois faço parte desse mundo. No entanto, sabemos que o preconceito é velado, pois estamos inseridos em uma sociedade que por mais democrática que se pareça ser, as questões raciais são parâmetros de segregação social, definidora de ocupação de espaços, reveladora de olhares discriminatórios. A educação é excludente, intencional e focada no enaltecimento da cultura de uns em detrimento da de outros; onde existem leis que pregam a igualdade, mas não punem pelos atos racistas, assim como existem leis que punem pelos atos de discriminação e não ganham a visibilidade necessária. Existem aquelas que foram criadas para referendarem leis já existentes, justamente na tentativa 4 RIBEIRO, B. de O. L. Mulheres no Curso de Pedagogia: vida, sentido e perspectivas. Universidade de São Paulo - Faculdade de Educação-1997. 5 Muitos estudiosos da sociedade brasileira contribuíram para a intensificação do olhar projetado sobre a trajetória das mulheres negras no Brasil. Sobre o assunto consultar: RODRIGUES, Nina. Os Africanos no Brasil. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1935; VIANNA, Oliveira. Evolução do Povo Brasileiro. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1933 e do mesmo autor Raça e Assimilação. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1932; FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala. Rio de Janeiro: Record, 1989. 6 NETO, M. I. D’A. CAVAS, C. Diáspora Negra: Desigualdade de Gênero e Raça no Brasil. Revista Latino americana de Geografia e Gênero, Ponta Grossa, v. 2, n.1, p.3-11 jan/ jul. 2011. 211 de fazer valer a Lei, como ocorreu com a Lei n. 10.639/03 que torna obrigatório o ensino de historia e cultura africana em todas as escolas. São essas situações que nos levam a questionar se existe igualdade no Brasil. Daí a inquietação e também o desejo de trilhar pelas falas dessas mulheres e ver como elas teceram suas histórias de vida e suas conquistas indo na contramão das estatísticas tabuladas a partir dos parâmetros raciais. Essas apontam que a expectativa dos negros/as em relação a sua inserção no mercado de trabalho, aos níveis de escolaridade e remunerações é sempre inferior aos dos brancos, parecendo que a competência é medida pela quantidade de melanina da pele de cada sujeito social. De acordo com Santomé (1995) 7: É preciso estar consciente de que as ideologias raciais são utilizadas como álibi para a manutenção de situações de privilégios de um grupo social sobre outro. Essas ideologias são, com freqüência, acompanhadas de uma linguagem com aparência de cientificidade, com o fim de impedir que as raças ou grupos étnicos oprimidos possam exigir a modificação das estruturas sócio-políticas que perpetuam seu atual estado de inferioridade. (SANTOMÉ, 1995, p. 168) É válido salientar que para Hall (1996)8: Uma coisa é posicionar um sujeito ou um conjunto de pessoas como o Outro de um discurso dominante. Coisa muito diferente é sujeitá-los a esse ‘conhecimento’, não só como uma questão de dominação e vontade imposta, mas pela força da compulsão íntima e a com formação subjetiva à norma. [...] A expropriação íntima da identidade cultural deforma e leva à invalidez. (HALL, 1996, p. 70) Falando especificamente das entrevistadas o que mais nos chamou atenção foram às relações familiares tão latentes. São a partir delas que as mesmas narram e resignificam os seus vínculos identitários refletindo sobre o modo como elas foram educadas, e porque não dizer preparadas para enfrentar todas as dificuldades que encontrariam em sociedade referindo a escola, que é o primeiro espaço de convivência social fora do seu convívio cotidiano que elas se encontrariam. Assim a subjetividade como nos fala Silva (2007)9, compõe cada estrutura familiar e tem elementos primordiais para a formação identitária que nos remete a pensar sobre os conceitos criados sobre identidade e diferenças que sabemos que tanto um como outro sofrem 7 SANTOMÉ, J. T. As Culturas Negadas e Silenciadas no Currículo. In: SILVA, T. T, da. (Org.) Alienígenas na sala de aula. Petrópolis, R.J: Vozes, 1995. 8 HALL, Stuart. Identidade Cultural e Diáspora. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, n.24, p.6875, 1996 9 SILVA, T. T, da. Identidade e Diferença: a perspectiva dos estudos culturais/ SILVA, T. T, da. (Org.). Hall, S. WOODWARD, K. 7ª Ed.-Petropolis, R.J: Vozes, 2007. 212 interferências sociais as quais determinam como somos constituídos, vistos ou não aceitos. Nesse viés: A subjetividade envolve nossos sentimentos e pensamentos mais pessoais. Entretanto, nos vivemos nossa subjetividade em um contexto social no qual a linguagem e a cultura dão significado, à experiência que temos de nos mesmos e no qual nós adotamos uma identidade. Quaisquer que sejam os conjuntos de significados construídos pelos discursos, eles só podem ser eficazes se eles nos recrutam com sujeitos. (SILVA, 2007, p. 55) Já a identidade e a diferença: [...] tem que ser ativamente produzidas. Elas não são criaturas do mundo natural ou de um mundo transcendental, mas de um mundo cultural e social. Somos nós que as fabricamos, no contexto de relações culturais e sociais. A identidade e a diferença são criações sociais e culturais. (SILVA, 2007, p. 76) Pelas reflexões de Hall (1999)10 e Silva (2007) a nossa identidade cultural é fruto dos aspectos relacionados à nossa pertença a culturas étnicas, raciais, lingüísticas, religiosas, regionais e/ou nacionais. Em especial Hall nos diz que vivemos atualmente numa “crise de identidade” que é decorrente do amplo processo de mudanças ocorridas nas sociedades modernas que fragmentam o sentido dado ao conceito identidade, porém nos projeta a pensar sobre a forma como essas identidades são recriadas a partir das relações culturais estabelecidas entre os grupos sociais. Dessa maneira, pensar identidade é compreendê-la como processo dinâmico em constante reelaboração, porém apresentando na sua composição elementos que nos ligam as nossas raízes, as quais se encontram presentes em toda a nossa trajetória de vida. Vejamos como as nossas depoentes articulam suas falas e buscam nos veios da memória (re) vivida e praticada a composição do mosaico vida. FALAS, MEMÓRIAS E TRAJETÓRIAS DE VIDA Entrevistei três professoras negras atuantes na UFU/Pontal, Campus fora de Sede, localizado na cidade de Ituiutaba, Pontal do Triângulo Mineiro e posso dizer que as histórias delas têm ligações e relações diretas em seus históricos de vida. As suas famílias tiveram papel fundamental para que se firmassem e afirmassem como pessoas de qualidades e possibilidades. Todas de condição social popular, onde seus pais 10 HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. 3º ed. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 1999 213 desenvolviam atividades informais ou do setor terciário e as mães donas de casa. O relato de uma das professoras revela bem o que destacamos acima. A professora 111 ao falar sobre sua condição social nos diz: Pra mim é classe baixa. Meu pai quando foi no começo da vida dele, foi fotógrafo depois foi vendedor de revista e, depois, abriu um bar que chamava o “Galo de Ouro” aqui na quatorze ali perto do posto era um bar vinte e quatro horas não fechava pra nada e como não fechava era um bar boêmio tudo que tinha [risos] de boemia na cidade [...]. [Sobre a mãe ela diz:] Ela trabalhava fazendo as coisas pro bar; além de tomar conta da casa. (Professora 1. Entrevista, 2011) No caso da Professora 2 a sua condição social é apresentada tendo como ponto de referência o campo de atuação de seus familiares, reforçando o sentido do trabalho deles para a sua formação identitária. Ela nos diz: Minha avó era lavadeira e analfabeta. [...] Meu pai tinha a quarta série. Na época também minha mãe tinha quarta série né?! Então a gente morava no Santa Mônica.. (Professora 2. Entrevista, 2011) Para a da professora 2, a mãe era dona de casa, o pai vendedor autônomo, entretanto a estrutura familiar sempre serviu como ponto de partida e de chegada a ela contribuindo para sua conscientização e valorização das suas pertenças identitária. A Professora 3 relata-nos que: [...] sou de uma família classe baixa eu consideraria, sim. Meu pai [pausa] ele fez até a oitava serie. Ele trabalhava numa empresa, de fabricação de aço, a Usiminas que é uma empresa muito grande e ele trabalhava lá na área operacional. A função dele era operador de auto forno. Ele trabalhou lá 25 anos. Minha mãe não trabalhava. [Ela] fez até a quarta série depois de adulta. Sempre foi do lar, sempre ficou por conta de cuidar da gente e nos somos seis irmãos. (Professora 3. Entrevista, 2011) É perceptível nas falas das professoras que as condições familiares se inserem dentro de um universo parecido da maioria da população brasileira que é de muito trabalho e luta pela sobrevivência. Diante dessas falas fica evidente que as expectativas de dias melhores existiam, porém as dificuldades para torná-los realidade não foi tarefa fácil na vida desses sujeitos. Todas relembram da condição social, da labuta diária como marcas significativas de suas trajetórias e denotam que conseguiram transpor tal universo sem perder a referência e a essência familiar. O que nos desperta atenção na fala das nossas depoentes é o fato da reafirmação dos impactos vividos até hoje, com a negação ou dificuldades de acesso à educação, inserção no mundo do trabalho, sobretudo no exercício de atividades braçais 11 As entrevistadas serão chamadas de professora 1,2 e 3. 214 pouco valorizadas. Podemos entender essas situações como sendo modos operantes de uma sociedade excludente que carrega em seu âmago características de uma sociedade dual em que a condição racial do branco aliada a sua situação econômica sempre predominou sobre os afros descendentes. Para Appel (2001)12: A um processo no qual grupos dominantes da sociedade se juntam formando um bloco e impõe sua liderança sobre grupos subordinados.Um dos elementos mais importantes que essa idéia implica é o de que o bloco do poder não tem que se basear em coerção.Embora ,às vezes ,o faça. (APPEL. 2001, p. 43) As palavras de Appel ilustram claramente a herança imprimida pelo sistema de escravidão vivida pelos negros,assim como seus reflexos atuais vistos dentro de uma coerção hoje invisível, por não usar castigos físicos que deixavam marcas em seus corpos como se fosse um aviso para a obediência, mas impedindo que os mesmo tenham condições igualitárias através de uma formação sistematizada. Entretanto, sabemos que a formação da identidade de todos nós tem forte influência do meio ao qual estamos inseridos. Hall (1996) destaca muito bem isso quando diz que a nossa identidade é construída das relações tecidas com o meio e, por mais que nos distanciamos do convívio dos nossos grupos de origem, as nossas pertenças, fruto das nossas vivências e experiências fará parte da nossa trajetória social, cultural, política, dentre muitas outras. Os teóricos nos ajudam a entrever pelo cotidiano das nossas depoentes, trazido à tona pelas suas rememorações e perceber que o vivido e o praticado não serviram como inspiração para a acomodação e sim, como incentivos e estímulos para a busca de novas possibilidades. De acordo com a fala da professora 1: Desde muito pequena [ a depoente se lembra que] a minha família conviveu com manifestações culturais da cidade [fala sobre a relação com a cultura afro-brasileira e a inserção nas práticas locais]. Minha mãe, antes de se casar, ela foi rainha do Palmeira [clube tradicional da cidade de Ituiutaba-MG]; depois que casou a gente continuou freqüentando o Clube. Meu pai, o tempo todo militando em todos os movimentos sociais, aliás, inclusive no Movimento Negro. Então, minha formação, além da formação acadêmica, eu tive uma formação militante muito forte porque a gente vivia a congada dentro de casa e vive até hoje[...] As coisas do Palmeira Clube, do Grupo de Estudo da Consciência Negra da Fundação Zumbi dos Palmares, tudo desembocava dentro da minha casa: as reuniões eram lá. Tinha muita reunião à noite; eu pequena nem sabia o que eles estavam fazendo [...] Estava todo mundo ali por perto, depois que eu cresci ai eu já me engajei[no movimento], comecei a participar! Perguntada sobre o papel da família responde: 12 APPEL, M. W. Política Cultural e Educação-2ª Ed - São Paulo: Cortez, 2001 215 E a questão da família é muito importante porque igual agora a pouco tempo na Faculdade, um professor lá falando sobre preconceito disse que nós negros carregamos o preconceito com a gente, eu falei: __ah! Não é não eu não carrego essas coisas comigo; ai ele: __como assim? E eu peguei e falei assim: olha a minha criação me possibilitou a isso. E isso tudo eu devo a minha mãe porque lá em casa, é igual eu to te falando, [ diz dos elogios recebidos em casa reforçando positivamente sua negritude], você é muito bonita; você é e pode; você vai conseguir [ falando do sucesso pessoal e profissional] então é isso que eu trago comigo. .(Professora 1. Entrevista, 2011) A Professora 2 apresenta seus argumentos em relação a forma como aprendeu a lidar com os olhares dos outros e a construir a sua dignidade a partir dos ensinamentos herdados. Ela nos diz: Eu fui preparada pra isso [desde] criança. A minha avó ela era lavadeira de roupa e analfabeta. Eu lembro que os outros chamavam para algumas atividades e minha avó falava não eu não vou não; eu não tenho roupa. Mas a minha avó falava isso não porque realmente ela não tinha roupa é porque ela sabia que nós íamos chegar naquele lugar e ela seria a única negra ali. E a minha avó pode ser usava como exemplo de que até hoje as pessoas passam [e pensam] que negro passa fome; que negro só bebe; que negro que não tem as coisas e eu trago essa minha infância comigo. E, isso eu tinha seis anos de idade e nunca esqueço! (Professora 2. Entrevista, 2011) Para a Professora 3: Nossa! Minha mãe então, principalmente porque era quem controlava o dinheiro das contas que fazia o dinheiro tentar render, mas não durava o mês inteiro mais a gente não tinha essa questão assim de passar fome e tal, era tudo contadinho!. Ela mesma, sem escolaridade nunca que a gente ficava devendo sabe? Porque ela conseguia organizar tudo. Eu fico pensando: ela tem umas idéias, uma postura que eu fico pensando: nossa se tivesse escolarização aonde e que teria chegado?! Sabe, tanta possibilidade que acho que ela podia ter tido [...] Fico com pesar do meu pai, dele ter trabalhado assim, vinte e cinco anos, numa profissão que ele não gostava. Meus irmãos, por exemplo, eu acho que teve o papel da influência da família da valorização porque eu acho que os meus pais por não ter tido oportunidade valorizavam muito a questão de ir pra escola. Minha irmã mais velha ela já me ensinava, brincava de escolinha e tal então ela me ensinou na verdade, depois dela, ela foi ensinando todo mundo [...]. (Professora 3. Entrevista, 2011) Esses relatos nos levam a refletir sobre a importância de uma formação de qualidade, não só voltada para a formação escolar, mas também para a vida. Os exemplos que servem de espelho as nossas entrevistas, marcam suas vidas não só no âmbito da valorização e da dignidade humana como também referenda as visões de mundo rumo a conquista de novos espaços sem perder de vista os saberes herdados, a postura ética e o comprometimento com o humano. Considerando que a educação sistematizada é prioritária para a formação e para a construção de conhecimento e analise critica de mundo, as instituições escolares tinham que ter como base e foco as diferenças, para que o respeito ao outro fosse estabelecido de forma a romper com paradigmas arcaicos de submissão racial, onde as 216 diferenças são questões diretamente relacionadas às discriminações sociais e culturais dentre outras, diante daquilo que Appel nos faz refletir sobre o currículo. A educação está profundamente implicada na política. O currículo nunca é simplesmente uma montagem neutra de conhecimentos, que de alguma forma aparece nos livros e nas salas de aula de um país. Sempre parte de uma tradição seletiva, da seleção feita por alguém, da visão que um grupo tem do que seja o conhecimento legítimo. Ele é produzido pelos conflitos, tensões e compromissos culturais, políticos e econômicos que organizam e desorganizam um povo”. (APPEL, 2001, p. 53) Portanto, as visões de sociedade das entrevistadas nos levam a pensar o espaço escolar como possibilidade dos indivíduos galgarem sua projeção social, sobretudo para aqueles oriundos das camadas populares. Tal visão foi bastante difunda a partir do momento em que o Estado Nacional assume a escola como sua responsabilidade e projeta na população anseios de utilizarem esse espaço e terem acesso a uma formação e que esta fosse um diferencial social significativo, no que se refere à condição social do individuo na sociedade. Atualmente, essa visão ainda é mantida por parte das famílias e para as camadas populares é o único caminho capaz de promover a resignificação da condição social dos membros dos grupos sociais populares. É através do conhecimento que transformações acontecerão; o acesso a educação formal por parte das mulheres negras contribuirá para romper com esses paradigmas impostos de sujeição social, de inferioridade racial dentre outros. Concordando com Santomé (1995)13 em relação às negações nas instituições escolares reitero que: A reflexão sobre o verdadeiro significado das diferentes culturas das raças ou etnias é uma das importantes lacunas que ainda existem. É precisamente em momentos como os atuais, em que surgem problemas devido a que raças e etnias diferentes tratam de compartilhar ou utilizar um mesmo território, que esse vazio deixa sentir. E é também a instituição escolar o lugar o qual a carência de experiências e reflexões sobre uma educação anti-racista e programas plurilingüísticos se deixar notar de forma visível. (SANTOMÉ, 1995, p. 167) As Instituições educacionais assim como os demais seguimentos sociais marcam as vidas das pessoas. Marcas essas tão profundas que podem silenciar a construção da autonomia do sujeito ou porque não dizer extirpar todas as expectativas de mudança de vida, ou o que é pior, condicioná-lo a uma sobrevida onde os ressentimentos o impossibilitam de enxergar que há outras formas e possibilidades de 13 SANTOMÉ, J. T. As Culturas Negadas e Silenciadas no Currículo. In: SILVA, T. T, da. (Org.) Alienígenas na sala de aula. Petrópolis, R.J: Vozes, 1995. 217 lutar e buscar algo que o faça sentir-se diferente, rompendo com o estereótipo da inferioridade racial a ele designado e imposto. As falas das nossas narradoras exemplificam bem que as transformações na sua trajetória pessoal e profissional são reflexos, primeiro, do apoio familiar, segundo, do esforço pessoal, terceiro da forma como suas visões de mundo foram ressignificadas voltadas para o exercício pleno da inserção social.. A visão deturpada que muitas vezes se forma em relação às mulheres negras não são desfeitas nem mesmo quando a escola assume o papel de levar a população o acesso a educação de qualidade e construtora da cidadania e da alteridade coletiva e individual. Ressaltando a importância da educação, assim segundo Santomé (1995): Uma pedagogia antimarginalização precisa levar em consideração as dimensões éticas dos conhecimentos e das relações sociais. É preciso que as instituições escolares sejam lugares onde se aprenda, mediante a prática cotidiana, a analisar como e por que as discriminações surgem que significado devem ter as diferenças coletivas e, é claro, individuais. (SANTOMÉ, 1995, p. 176-177) Fica explicito nas falas das professoras as marcas da educação infantil que ao invés de integrá-las, gerava o desconforto coletivo de inseri-las como fora dos padrões raciais da época, como se fosse possível estabelecer um perfil de aluno a partir de sua condição racial. A seguir, apresentamos as impressões dessas vivências que marcam a trajetória das nossas interlocutoras. Professora 1: Na minha época, quando eu completei seis anos, as crianças não tinham a oportunidade de ir pra escola na rede pública. Então eu não fiz Educação Infantil; eu entrei direto no primeiro ano. Porém, meu pai era vendedor de revistas e, naquela época, as revistas que não eram vendidas, ele arrancava as capas e mandava de volta pra editora e a gente ficava com as revistas. Então minha casa era cheia de revistas e gibis. [...] Meu pai fazia a entrega das revistas nas casas então eu tive contato desde muito pequena com a leitura e com a escrita. E quando eu entrei pra escola eu já sabia ler e escrever. Eu fui intuitivamente porque minha mãe e meu pai não tinha tempo pra explicar o que era aquilo eu fui intuitivamente juntando as coisas, então quando eu fui pra escola eu já sabia ler mesmo não tendo feito a Educação Infantil. Naquela época tinha o primeiro ano; o primeiro aninho e primeiro ano né? Então eu fiquei dois anos numa sala de alfabetização já alfabetizada, mas eu sou a primeira de quatro irmãos e logo que eu entro pra escola a minha irmã depois de dois anos. Eu estudei na Escola João Pinheiro nos primeiros anos do Ensino Fundamental e fiquei lá no João Pinheiro da quinta a oitava E, naquela época, os meninos ficavam na escada esperando pra poder mexer comigo [...] porque eu tinha que deixar meus irmãos nas salas. Ai ficavam [zuando do cabelo]: __ou rosquinha queimada! Trancinha de Bombril [...]!Então aquilo me deixava muito chateada, triste eu passava, tinha dia, que eu chegava atrasada pra não passar na escada porque ficavam tanto numa escada quanto na outra fazendo isso mexendo comigo [...] Nunca ninguém tomou conhecimento disso; nunca ninguém tomou nenhuma atitude; nunca que eu me lembre [silêncio] Nunca, nunca, nunca, nunca [...] Nem depois de adulta não me lembro nunca disso [a depoente demonstrou muita emoção e tristeza tanto na fisionomia quanto na voz]. Naquela época tinha um quadro de colocar o nome, não lembro bem, mas acho que era menção honrosa do mês. Era um quadro. Meu nome 218 não saia do quadro; meu nome não saia de lá. Eu fui daqueles alunos mais dedicados e que hoje os meninos chamam de “CDF” né!. (Professora 1. Entrevista, 2011) Professora 2: Eu comecei a minha trajetória escolar na época com seis anos de idade porque naquele período estava exigindo a Lei n. 5692/71[LDB] né? [...] Dizia que o aluno teria que ingressar na primeira serie com sete anos de idade. Naquela época tinha a Lei ao contrario de hoje. E como eu faço aniversário em julho eu nunca podia ingressar com seis anos como acontece hoje no inicio do ano. Então o que aconteceu: eu poderia só ingressar com sete anos no ensino público e ai, na época, minha mãe ficou sabendo de um pré-escolar e me falou que iria me colocar na escola a pedido meu, porque eu era daquelas alunas que ficavam assim: __ mãe eu quero aprender a ler! Mãe eu quero aprender a ler! A minha mãe já não suportava mais [risos] né? Eu ficava na barra da saia dela que eu queria estudar, que eu queria estudar, tudo o que eu pegava eu queria ver e, ai, minha mãe naquela época, quando eu fui pro pré-escolar, que não era comum, eu já sabia escrever o meu nome e eu já sabia escrever, contar até dez, porque a pré-escola, até então, não tinha esse valor né? De preparar pra dar o início ao processo de ensino aprendizagem de alfabetização, então a minha mãe foi minha primeira alfabetizadora. [...]Quando eu fui para o pré eu não tive nenhuma dificuldade porque a gente começava aquela coisa né acreditava - se naquela época em que você teria que começar na criança né pelo método silábico então com pelas vogais [...] Ao passar para a primeira série, no ano seguinte, a gente já entrava numa sala que tinha aquela coisa de sala A, B, C[...] Eu me lembro que eu já entrei na C porque que eu já entrei na C? Porque eu já entrei praticamente junto pra prestes a quase fazer oito anos. E então tinha tipo de um critério de classificação, então a sala A e B era como se diz: era mais para os ditos inteligentes ou que já era pré determinado pelos professores e que faziam aniversario no meio do ano eram os menores os mais novos né? A escola tinha isso como cultura escolar naquele período e ai então eu fui pra primeira a quarta série [...] Minha mãe gostava muito de trançar meus cabelos, de fazer com que eu fosse limpinha pra escola. Minha mãe tinha muito esse cuidado e ai, os meninos gostavam muito de puxar as minhas tranças né? [percebi emoção, mudança no tom de voz e olhos marejados de lágrimas] E aquele negócio de não falar nada e teve um dia que eu peguei e bati numa menina, mas, bati bati mesmo! Ela pegou minha trança, do jeito que ela pegou, eu peguei nela e bati, bati mesmo [risos] No outro dia a mãe foi lá [na escola]e eu sempre falava pra minha mãe:__mãe os meninos ficam puxando [meu cabelo]. E não vou falar que era a sala toda não, e engraçado que eu me lembro de duas pessoas que estudaram comigo no pré-escolar: uma que eu tenho amizade hoje e dessa menina que não sei nem te falar o nome; ela era meio loira né? E eu falava pra minha mãe e minha mãe falava:__ fala pra professora, isso não pode! Isso era na hora do recreio e essa menina não era da minha sala, então na minha sala eu não me lembro disso; eu me lembro durante o recreio e ai ela né?! No dia que eu bati nessa menina, no outro dia a mãe foi lá e no outro dia também ai chamaram a minha mãe e ai o que eu percebi: o que aconteceu as professora vieram falar com minha mãe: __ olha [fulana...] A [cicrana] bateu na menina. A minha mãe pegou com aquele jeito dela que até hoje ela tem esse perfil falou assim: __ bateu e fui eu que falei pra bater e se alguém encostar nela de novo[...] Eu quem falei pra ela que era pra bater porque vocês não estavam vendo ai todo dia eles puxar as tranças dela. Ai a diretora, menina toda educada nossa! Mais desse jeito você está incentivando a violência da filha da senhora? Mais disso eu nunca me esqueci! Você entendeu? Ou seja, enquanto a menina podia estar todo dia puxando minhas tranças não teve nada... quando eu reagi[...]. Sabiam, todos sabiam. Ai minha mãe pegou e falou assim e na frente da mãe da menina: __ olha a sua filha que fica puxando as tranças da minha. Eu educo os meus filhos. A minha mãe fala isso até hoje; fala pra mim; fala pro meu irmão. (Professora 2. Entrevista, 2011) Professora 3: Eu estudei em escola publica até o ensino fundamental. E não tinha escola de ensino médio que fosse publica, não. Tinha, então o que a prefeitura fazia; ela cotava bolsas pro alunos. Tinha que levar uma documentação na prefeitura, comprovar a necessidade pra que a gente pudesse fazer o ensino médio em escolas particulares que eram credenciadas na prefeitura.. Então, eles mandavam umas fichinhas que tinha que 219 levar histórico, que tinha que levar comprovação de renda. Então levava aqueles contra cheques do pai ,conta de água, luz e tudo pra mostrar a necessidade[...] então você precisa provar que você necessita, então por isso que eu fiz o ensino médio numa escola particular mais com toda aquela situação que assim o grupo dos alunos que eram bolsistas e o grupo de alunos que não eram Eu falo por que minha vida escolar eu tinha uma questão que eu acho que ajudava essa discriminação diminuir um pouco, não que não existisse, eu acho que é bobagem a gente falar que não existe, isso não existe [risos]. Então eu era uma boa aluna sempre fui né? Então tinha um respeito né, eu falo porque, por exemplo, durante o ensino fundamental eu tive uma colega de turma que também era negra e os alunos abusam, sabe brincavam com a questão do cabelo, então eles a maltratavam, mas comigo eles não faziam o que eles faziam com ela. Eu me afastava, ficava chateada né? [...] Eu não entendia porque eles faziam aquilo com ela e não faziam comigo. Hoje eu entendo que assim, tinha um respeito muito grande porque os professores tinham uma valorização pelo fato de eu ser boa aluna, ter boas notas. Eu ser educada e como eu estudei o tempo inteiro até o final ensino fundamental na mesma escola todos os irmãos tinham passado por lá então éramos conhecidos como uma família gente boa sabe de gente inteligente... (Professora 3. Entrevista, 2011) A escola é também reveladora da discriminação e dos olhares velados, principalmente quando se queria e quer vender uma imagem de escola para todos. As trajetórias da fala das professoras nos remetem a uma reflexão sobre a ênfase dada à educação, principalmente nos anos iniciais. Nessa fase, as crianças em idade escolar são apresentadas a uma nova dinâmica de vida sendo inseridos em um “mundo novo”, fazendo novas descobertas que terão fortes conseqüências na sua formação. A escola nem sempre traz experiências exitosas, pois na fala das narradoras estarem no espaço escolar representava também estarem expostas ao preconceito e a discriminação, além do que, na maioria das vezes, o diferente fosse tratado como o estranho e o causador da desordem e não se tinha nenhuma preocupação mais direta em acabar com os tratamentos discriminatórios entre os alunos. A escola é, nessa perspectiva, o espaço de padronização, de homogeneização, contudo espaço dual, antagônico aonde a alteridade não era exercida. As experiências relatadas sobre discriminações sofridas têm forte conotação sobre o cabelo, que é um marco identitário fortíssimo na vida e na construção de identidade do negro, que segundo Gomes (2002)14: Na escola também se encontra a exigência de “arrumar o cabelo”, o que não é novidade para a família negra. Mas essa exigência, muitas vezes, chega até essa família com um sentido muito diferente daquele atribuído pelas mães ao cuidarem dos seus filhos e filhas. Na família, na vizinhança e no círculo de amigos mais Em alguns momentos, o cuidado dessas mães não consegue evitar que, mesmo apresentando-se bem penteada e arrumada, a criança negra deixe de ser alvo das piadas e apelidos pejorativos no ambiente escolar. Alguns se referem ao cabelo como: “ninho de guacho”, “cabelo de Bombril”, “nega do cabelo duro”, “cabelode picumã”! Apelidos que expressam que o tipo de cabelo do negro é visto como símbolo de inferioridade, 14 GOMES, N. L. Trajetórias Escolares, Corpo Negro e Cabelos crespos: reprodução de estereótipos ou ressignificação cultural? – Revista Brasileira de Educação. Set/Out/Nov/Dez 2002 Nº 21. 220 sempre associado à artificialidade (esponja de bombril) ou com elementos da natureza (ninho de passarinhos, teia de aranha enegrecida pela fuligem).Esses apelidos recebidos na escola marcam a história de vida dos negros. São, talvez, as primeiras experiências públicas de rejeição do corpo vividas na infância e adolescência. A escola representa uma abertura para a vida social mais ampla, em que o contato é muito diferente daquele estabelecido íntimos. (GOMES, 2002, p. 45) Concordando com a estudiosa, na escola aprendem-se valores que terão influência na formação. Segundo ela, por essa perspectiva, a instituição escolar é vista como um espaço em que aprendemos e compartilhamos não só conteúdos e saberes escolares, mas também valores, crenças, hábitos e preconceitos raciais, de gênero, de classe e de idade. (GOMES, 2002, p. 40) A relação principalmente entre professor e alunos são fatores determinantes na vida da criança nessa fase, pois ela vê no professor o modelo, tendo total confiança e espera que esse vá lhe transmitir todos os conhecimentos necessários, porque não dizer que irá além de ensinar, proteger, porque nesse novo espaço a referência maior que ela tem é o professor. Diante dos depoimentos das entrevistadas nos momentos conflituosos vivenciados nas series iniciais, o que percebemos é que todas elas esperavam uma postura diferente dos educadores, não vou dizer de defesa mais que pelo menos se colocassem com interventores para que aquela situação discriminatória fosse rompida. Concordando com Gomes, (2002) sobre as relações escolares, O discurso pedagógico proferido sobre o negro, mesmo sem referir-se explicitamente ao corpo, aborda e expressa impressões e representações sobre esse corpo. O cabelo tem sido um dos principais símbolos utilizados nesse processo, pois desde a escravidão tem sido usado como um dos elementos definidores do lugar do sujeito dentro do sistema de classificação racial brasileiro. Essa situação não se restringe ao discurso. Ela impregna as práticas pedagógicas, as vivências escolares e socioculturais dos sujeitos negros e brancos. É um processo complexo, tenso e conflituoso, e pode possibilitar tanto a construção de experiências de discriminação racial quanto de superação do racismo. (GOMES, 2002, p. 43) Partindo do “modelo” seguido por todas, que eram boas alunas, educadas, boas notas, quietas que não davam trabalho, enfim, que eram aquelas discentes que todo os professores queriam ter, penso que já era um alicerce criado pelas as famílias, como primeira educadora, por saber o que seus filhos iriam sofrer, pois as mesmas já tinham vivido o mesmo processo. Afirmo que essa postura passada dos pais para seus filhos é uma forma de serem aceitos, falando de forma clara e objetiva ser educado para ter melhores chances e assim poderem sair da mesma condição que eles vivem e sabem que é através da educação que seus filhos terão outras oportunidades, pois não querem que 221 eles vivam os mesmos dissabores que eles pela falta de uma educação sistematizada, passaram e são obrigados a viver. Atualmente, diante das posturas apresentadas não resta dúvida que a família e a educação são elementos primordiais na vida de qualquer ser humano, especialmente para os grupos sociais populares, pois são essas pessoas que sofrem os piores preconceitos e discriminação e já nascem rotuladas de seres inferiores e dentro de uma concepção arcaica e a elas bastam “saber servir”. Dentro de todas essas concepções pré-determinadas, os movimentos antagônicos contra tudo isso que é imposto às mulheres negras tem como base o conhecimento. CONSIDERAÇÕES E REFLEXÕES Enfatizando que o conhecimento é de suma importância, pois o que ficou perceptível nas falas das entrevistadas é a conscientização ao reforço identitário, de pertencimento e de valorização através de uma educação que efetive rumo à igualdade e que rompa com a ignorância de julgar e conceber o ser humano pelas suas diferenças. Ressaltando que a negação da educação é a única forma de manter parâmetros de desigualdade, pois é a educação que possibilita que os negros, até hoje, de outra forma, ainda vistos como cativos, tenham voz e reconhecimento, desmitificando os conceitos e preconceitos de todas as incapacidades a eles delegadas por uma classe que visa manter o status quo desrespeitando princípios formativos elementares para que todos sem distinção tenham e vivam de forma plena. Espero que todos os trabalhos dentro do contexto que abordem as diferenças tenham uma contribuição efetiva nas novas concepções de ser humano, que a educação seja para os negros os Quilombos que antes eram os maiores símbolos de resistências e lutas em busca da igualdade até hoje sonhada e que cada relato de vida sejam motivadores pela busca da liberdade almejada desde que os negros eram escravizados. Entretanto, que essa ruptura conscientizadora sirva de parâmetro para as novas gerações, pois os movimentos contrários começaram em África desde a captura dos negros e persistem até hoje. Diante de todas as adversidades, ressalto que essas três professoras são exemplos de que apesar de todas as negações elas reafirmam suas condições e assim 222 como todos os negros são “guerreiras” por ter força e dignidade para lutar contra todas as imposições, persistindo e provando que as desigualdades são paradigmas passiveis a transformações. Não posso afirmar que suas escolhas dentro da área profissional teve alguma influencias do “papel” que foi destinado principalmente às mulheres no campo educacional, que tinha o enfoque de “cuidar”, assim como tantas outras questões por elas levantadas que são de suma importância para compreendermos como o processo histórico influencia na vida e na complexidade de construção identitária do ser humano,mas, como é apenas um inicio de conversa os vários questionamentos ainda existentes ficam para uma próxima reflexão sabendo que a relação de poder permeia todo o contexto histórico e que principalmente as relações constituídas são conflitantes. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: APPEL, M. W. Política Cultural e Educação-2ª Ed - São Paulo: Cortez, 2001 FREIRE, P. Educação Como Pratica da Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra. FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala. Rio de Janeiro: Record,1989. HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. 3º ed. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 1999 ______. Identidade Cultural e Diáspora. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, n.24, 1996 GOMES, N. L. Trajetórias Escolares, Corpo Negro e Cabelos crespos: reprodução de estereótipos ou ressignificação cultural?-Revista Brasileira de Educação. Set/Out/Nov/Dez 2002 Nº 21 NETO, M. I. D’A. CAVAS, C. Diáspora Negra: Desigualdade de Gênero e Raça no Brasil. Revista Latino americana de Geografia e Gênero, Ponta Grossa, v. 2, n.1, p.3-11 jan/ jul. 2011. PONCE, A. Educação e Lutas de Classes-21º Ed - São Paulo: Cortez 2005 PRIORE, M, D. (ogr) Historias das Mulheres no Brasil-2ª Ed - São Paulo: Contexto, 1997. RIBEIRO, B. de O. L. Mulheres no Curso de Pedagogia: vida, sentido e perspectivas. Universidade de São Paulo - Faculdade de Educação-1997. RODRIGUES, Nina. Os Africanos no Brasil. São Paulo: Cia Editora Nacional,1935. 223 SANTOMÉ, J. T. As Culturas Negadas e Silenciadas no Currículo. In: SILVA, T. T, da.(Org.) Alienígenas na sala de aula. Petrópolis, R.J: Vozes, 1995. SILVA, T. T, da. Identidade e Diferença: a perspectiva dos estudos culturais/ SILVA, T. T, da. (Org.). Hall, S. WOODWARD, K. 7ª Ed.-Petropolis, R.J: Vozes, 2007. VIANNA, Oliveira. Evolução do Povo Brasileiro. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1933 e do _______________ Raça e Assimilação. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1932. FONTES: Professora1 – Entrevista concedida em 04/7/2011. Professora2 – Entrevista concedida em 22/7/2011. Professora3 – Entrevista concedida em 05/6/2011. 224 DIÁLOGOS EXTENSIONISTAS PARA A IMPLEMENTAÇÃO DA LEI 10.639/03 EM ITUIUTABA-MG: A PARCERIA UFU-FACIP-FUNZUP Anderson Aparecido Gonçalves de Oliveira1 Universidade Federal de Uberlândia - UFU Faculdade de Ciências Integradas do Pontal – FACIP Graduando em História [email protected] Prof. Dr. Cairo Mohamad Ibraim Katrib2 Universidade Federal de Uberlândia - UFU Faculdade de Ciências Integradas do Pontal – FACIP Núcleo de Estudos Afro Brasileiros – NEAB [email protected] [...] A importância da Fundação Zumbi dos Palmares, não apenas em minha vida, assim como para a Comunidade Negra Tijucana, é de dar projeção aos trabalhos e a luta constante das ações [etnicorraciais em Ituiutaba] [...] O Movimento Negro é muito atuante, mas acredito que ele pode avançar mais. Como fazer isso? Através da educação.... Não possui outro caminho a não ser a: educação, educação e educação... [...] De maneira alguma poderia deixar de ressaltar que foi um marco no seio da Comunidade Negra, da mesma estar dentro da universidade [...] Isso pra mim foi fantástico... Esse elo não pode ser rompido [...] (Marta Helena Rosa – Ex Presidente da Fundação Zumbi dos Palmares) Pensar a universidade como veículo mantenedor da interlocução com a comunidade reitera o seu papel social, a necessidade de ação/atuação para além dos seus muros e da sua clientela. Revigora o tripé ensino-pesquisa-extensão como possibilidade de reinventar seu papel, a sua política de formação e os conhecimentos produzidos e sistematizados. Num outro caminho, ter nos órgãos públicos a representação dos movimentos populares, fazendo valer a representatividade dos grupos sociais e o acesso ao conhecimento para o diálogo e a vontade de estabelecer parcerias exitosas voltadas para atender a comunidade popular é um aspecto de significativa relevância. Entrever saberes populares e conhecimento acadêmico em prol da transformação social é o exercício que a academia deveria fazer continuamente, posto que assim revigoraria o pensar, o fazer e o refletir de muitas práticas e representações. 1 Aluno do Curso de Formação Inicial em História e Cultura Afro-Brasileira. Graduado em Licenciatura e Bacharelado em História pela Universidade Federal de Uberlândia – Faculdade de Ciências Integradas do Pontal. 2 Docente do Curso de Graduação em Historia-FACIP/UFU; Tutor PET(Re)Conectando Saberes Fazer e Praticas Rumo a Cidadania Consciente.MEC/SESU/SECADI. 225 Nessa lógica refletir sobre o estabelecimento de parcerias entre universidade e movimento negro representado nesse texto pelas ações da Fundação Zumbi dos Palmares de Ituiutaba nos remete a reflexão sobre a importância dessa instituição na implementação da Lei 10.639/03 e na valorização da história e cultura africana e afrobrasileira em Minas Gerais. CAMINHOS TRILHADOS No ano de 1988, após várias discussões e luta do Movimento Negro no país, é criada em Brasília-DF durante o governo Sarney, a Fundação Palmares, tendo como primeiro presidente o Sr. Carlos Alves Moura. Como reflexo dessa criação, várias outras fundações foram surgindo em todo território nacional, dentre elas a Fundação Zumbi dos Palmares, no município de Ituiutaba, estado de Minas Gerais. O Movimento Negro da cidade já vinha a um bom tempo persistindo, lutando e levantando a hipótese acerca da criação da mesma, mas foi o surgimento da Fundação Palmares que impulsionou a criação de uma fundação que atendesse os anseios do movimento negro local3. Esta Fundação recebe o nome de Zumbi dos Palmares por este representar para o Movimento Unificado do Brasil, da década de 70, o mito fundador das lutas de resistência do negro às péssimas condições de vida que lhe foram legadas, após o fim da escravidão e na contemporaneidade4. A FUNZUP já foi alocada em diferentes endereços. O primeiro foi na Rua Capitão Jerônimo, nº 46, Bairro Junqueira, ficando ali até o período de 1992/1993. Nessa época enfrentou sérios problemas de ordem administrativa, sobretudo em função dos parcos ou inexistentes recursos financeiros para o desempenho de suas ações. É nítido que a sua criação pelo poder público local amenizava os conflitos com a comunidade negra local e o não repasse de verbas para a fundação silenciaria as ações e o reconhecimento do movimento e de sua militância por representatividade. A Fundação Zumbi dos Palmares quando a prefeitura deixa de repassar a subvenção à instituição se 3 A Fundação Zumbi dos Palmares foi criada no ano de 1991, durante a administração do Prefeito Gilberto Aparecido Severino e o apoio da então Secretária de Educação e Cultura a Srª Márcia Majadas, tendo como primeira presidente a Sr.ª Sônia Maria Silva do Carmo. 4 Havia toda uma lenda em torno de Zumbi de que ele seria imortal, e que levaria seus irmãos a liberdade. Mas o fato é que ele era uma pessoa determinada, que lutou e resistiu até os últimos instantes pelos seus ideais, sendo assim não haveria outro nome a não ser o de Zumbi dos Palmares para sintetizar a relevância da Fundação para com a Comunidade Negra tijucana. 226 vê obrigada a ver todo o seu mobiliário ser levado para um galpão da Prefeitura Municipal de Ituiutaba dificultando o exercício das ações em defesa do movimento negro. E em 1994, Iza Costa, militante do movimento negro local, assume a presidência dessa fundação, aluga um imóvel na Avenida 19 com as ruas 34 e 36 e reabre o espaço e, posteriormente, chama todos os grupos e movimentos negros para, juntos congregarem daquele espaço a fim de fortalecer a ação da fundação não deixando esmorecer os desejos de atuação constante na sociedade local dos saberes e da cultura negra. Tornaram-se parceiros do trabalho da fundação: as associações ligadas às religiões de matriz africanas, a Irmandade de São Benedito, o Grupo de Estudos e Consciência Negra, além de outros grupos isolados. Foi esse trabalho coletivo que permitiu a fundação dar seus primeiros passos para sua concretude enquanto órgão público de apoio à cultura negra de Ituiutaba. O passo mais significativo foi o da instalação de uma biblioteca, algo que já vinha sendo pensado desde a criação desta instituição e que, neste momento, começava a promover o acesso da comunidade à leitura, a escrita, ao conhecimento. Pela falta de subvenção para custear o aluguel, entre os anos de 1994/95 a 1997, a Fundação da continuidade a sua segunda “peregrinação” em busca de um espaço que pudesse chamar de seu. Ela, novamente, transfere todos seus materiais e móveis, parte para uma antiga fábrica de farinha da cidade, onde atualmente situa-se a sede da ROTAM (Batalhão da Polícia Militar) e o restante para o Palmeira Clube, o qual também é um espaço de resistência e luta do Movimento Negro. Tendo em vista que em seu último endereço a Fundação não estava em funcionamento e os móveis e materiais pertencentes à instituição estavam apenas guardados, mesmo assim, a atuação do movimento negro no que se refere a militância e as ações em prol da sua comunidade construía sua trajetória paralela a da inconstância da Fundação. Somente em 1997 a FUNZUP retorna com o mínimo de suas atividades e vai para a Avenida 19 com as ruas 20 e 22, nº 1387, no antigo prédio da Secretaria de Saúde de Ituiutaba, não ficando muito tempo e mudando novamente, desta vez, para a Avenida Minas Gerais com as ruas 30 e 32, onde hoje se encontra uma marcenaria. Durante os anos de 1998/99 se desloca para a Rua 36 com as Avenidas 19 e 21 nos fundos de um prédio o qual havia sido uma pensão, compartilhando o espaço com a 227 Diretoria do Programa Saúde da Família, PROCON, Associação dos Radio Amadores, entre outros, ficando ali alocados até meados de 2003 onde é transferido em definitivo na Avenida 25 com as ruas 30 e 32, nº 996, Praça 13 de maio. Na realidade, nos anos de 1999/2000, a Fundação iria ser alocada em uma residência na Rua 22 com a 7 e 9, em frente a sede da Prefeitura Municipal, a qual seria desapropriada por questões de tombamento e impostos atrasados do imóvel locado. Assim a tentativa de fixação espacial da Fundação Municipal Zumbi dos Palmares, a luta para obter uma sede própria e definitiva, voltou à estaca zero com a falta de um espaço para suas atividades e pela falta de apoio do poder público em garantir seu pleno funcionamento. Nos anos 2000, a Fundação recebe a notícia de que um barracão situado na Praça 13 de maio, um local originalmente de resistência negra da cidade, estava com uma grande quantidade de impostos atrasados, e seria desapropriado pela prefeitura para a instalação da fundação. Após acordo financeiro entre a Prefeitura Municipal e o dono do imóvel, instala-se a sala de reuniões e o Espaço Cultural Arlindo Antônio Gabriel, local agora pertencente à Fundação, a qual ainda tinha sua sede administrativa na Rua 36, funcionando neste espaço adquirido apenas as oficinas e as atividades culturais isoladas. Em meados de 2003, a Fundação se instala permanentemente em seu endereço atual - Avenida 25 com as Ruas 30 e 32, nº 996, Praça 13 de maio. Enfrentando ainda grandes dificuldades quanto a verbas, além de uma luta constante para utilizar alguns espaços pertencentes à Fundação, mas que estão sendo utilizados cotidianamente por terceiros. A Fundação Municipal Zumbi dos Palmares não prevê fins lucrativos e oferece inúmeras oficinas, dentre elas: construção de vasos e potes de barro, dança de salão, dança axé, dança afro, balé, capoeira, entre outros. A Fundação possui ainda parcerias, como com a FEIT/UEMG em relação ao PREVEST, o qual é um curso preparatório de vestibulares, com o Palmeira Clube que também é um espaço de resistência negra na cidade e com a Universidade Federal de Uberlândia no que tange a instalação da Biblioteca comunitária “Solano Trindade”5. 5 A atual Presidente dessa fundação é a Senhora Luzia Eterna Ribeiro, que teve mandatos durante os anos de: 1999/2001 – 2001/2003 – 2003/2005, deixa a Fundação no ano de 2005 e retorna no ano de 2009/2010 e se encontra no cargo até os dias atuais. 228 A biblioteca comunitária, apesar de ser idealizada pela primeira presidente, a senhora Sônia Maria do Carmo, começa a ser montada durante a gestão de Iza Costa. Durante o período de 2005 a 2009, tendo Marta Helena Rosa como presidente dessa fundação, a sua biblioteca se reestrutura, ampliando o acervo temático nas questões etnicorraciais e abre as portas para a comunidade em geral. A gestora da entidade, nessa época, nos disse que os trabalhos realizados foram importantes, funcionando como fio condutor para a educação das relações raciais, pois através da divulgação, acesso e empréstimo de literatura no âmbito das questões etnicorraciais, a FUNZUP conseguiu chegar até a comunidade negra de forma mais crítica e atuante graças as parcerias tecidas e os recursos alcançados através de ações de extensão da UFU em Ituiutaba6. Com isso foi possível, segundo a gestora “abrir as portas” para os colégios que alegavam não trabalhar a questão negra e a Lei 10.639 de 09 de janeiro de 2003, por não terem materiais ou suporte necessário para tal discussão nas escolas. Continua reafirmando que “se dentro da fundação você não começasse esse trabalho não teria como você cobrar das escolas!”7. Esta parceria não se restringiu apenas na aquisição dos livros, mas também em palestras (com professores tanto da UFU-FACIP ou convidados), apresentações de filmes, simpósios, além das aulas de apoio ao ensino-aprendizagem8 e executados por alunos da UFU/FACIP, além de diversos outros projetos em que ambas as instituições estiveram juntas. A reinauguração do espaço se deu com um workshop de literatura afrobrasileira, congada, práticas e saberes, onde contou com a presença de vários representantes da Comunidade Negra da Região e do estado de Goiás. Sendo assim, essa parceria foi relevante no âmbito de uma aproximação da comunidade negra com a UFU-FACIP e com a lei 10.639, além de alavancar ações da Fundação. Segundo a fala da gestora dessa época, senhora Marta Rosa, “a UFU-FACIP dá credibilidade e acredita na parceria”, principalmente por esta Universidade ter como lema a “Pesquisa, 6 É neste momento que surge a parceria com a Universidade Federal de Uberlândia – Faculdade de Ciências Integradas do Pontal, onde a partir de um projeto em conjunto com o Professor Doutor Cairo Mohamad Ibrahim katrib foi possível a compra de diversos exemplares para compor a biblioteca comunitária da Fundação, pois o professor já obtinha intenção em reestruturar a mesma. 7 ROSA, Marta Helena. Entrevista concedida em setembro de 2010. 8 Essa atividade foi coordenada pela Professora Dra. Vânia Aparecida Martins Bernardes. 229 o Ensino e a Extensão”, os quais são pontos fundamentais para se manter essa relação com a comunidade tijucana, em especial, com o movimento Negro. A chegada da Universidade Federal de Uberlândia a Ituiutaba, com a instalação da Faculdade de Ciências Integradas do Pontal, propicio o estabelecimentos de várias parcerias, sobretudo no campo extensionista, uma vez que foi o primeiro setor desta faculdade a se instalar e iniciar seus trabalhos com recursos voltados para atividades de extensão na cidade. A partir do ano de 2007, uma série de ações se consolidaram na cidade com a temática racial, a partir das relações tecidas entre membros do movimento negro local e docentes UFU. A interação se deu através das reuniões com a comunidade no Fórum de Extensão local, espaço de reivindicação encontrado pelo movimento negro local para reivindicar projetos, defendê-los e aprová-los para execução. A metodologia do Fórum de extensão, coordenados por docentes e técnicos UFU/FACIP, sob a orientação da Pró-Reitoria de Extensão foi a plenária de reivindicações, onde os interessados apresentavam suas propostas e todos os presentes votavam. As propostas mais votadas eram ranqueadas pelo número de votos recebidos. Os recursos disponibilizados, por meio de recursos oriundos de Emenda Parlamentar, geralmente repassada à UFU e destinada à cidade eram divididos de acordo com o número de projetos apresentados e aprovados todo ano nas reuniões do Fórum. Tivemos de 2007 até hoje a aprovação de vários projetos destinados as questões raciais e realizados em parceria com o movimento negro através da Fundação Zumbi dos Palmares ou Irmandade São Benedito, dentre os quais destacamos os seguintes projetos: Preservando a memória ativa da Congada; Biblioteca itinerante Solano Trindade, Workshop Congadas, Culinária e cidadania, encontros e seminários étnicorraciais, dentre outros. Essas ações muito mais do que significativas para o movimento negro local serviram de consolidadoras de uma parceria efetiva entre a comunidade e a universidade na cidade de Ituiutaba, em virtude da visibilidade dada as ações extensionistas e as transformações sociais e culturais propiciadas, modificando qualitativamente a participação popular nos projetos de extensão UFU. O espaço da Fundação Zumbi dos Palmares, palco da maioria dessas ações é referência local em atividades e projetos de extensão da Universidade Federal de Uberlândia em Ituiutaba. Seus gestores sensíveis à melhoria da qualidade de vida das camadas populares, tem aberto as portas desse lugar para sediar oficinas, mini cursos eventos acadêmicos e populares que nos tem permitido estreitar os laços e parcerias, a 230 fim de promover uma implementação efetiva e consolidada das questões étnicas e raciais na cidade, valorizando e ressignificando seus valores e pertenças. É válido ressaltar que a comunidade negra constrói dia-a-dia sua trajetória e suas reivindicações, principalmente no âmbito de apoio as ações de valorização de sua identidade étnica. Contudo, a partir da educação e da discussão da Lei 10.639/03, a Fundação Zumbi dos Palmares deu um salto qualitativo significante, e nem as dificuldades financeiras esmoreceu o trabalho concreto e dinâmico desenvolvido por todas as gestões que atuaram e atuam na conscientização da importância da valorização das pertenças identitárias e dos saberes herdados para o movimento negro e também da perspectiva de que a comunidade negra influencia sobremaneira a composição étnica e cultural do município, de forma empreendedora e plural. DIALOGOS EM EBULIÇÃO Percebemos que é, através do diálogo tecido entre universidade, movimento negro e setores da administração pública municipal que promovem a interlocução positiva da construção e valorização dos saberes e fazeres de um grupo social, além de sua inserção na história local de forma atuante sem se projetar para o campo dos silenciamentos promovidos pelos mantenedores da história oficial local. Ao percebermos a lógica história construída pelo movimento negro a partir da disseminação do acesso ao conhecimento pelo acervo da biblioteca pública Solano Trindade, é notório a contribuição desse espaço para a implementação da Lei 10.639 e para que ela seja realmente aplicada e que assuma a sua relevância social no que tange a mudanças de posturas e posicionamentos acerca das discussões em torno da etnia e da cultura popular de modo geral. Nessa perspectiva, é visível o papel político dos dirigentes e seu engajamento na militância em prol do reconhecimento da consciência negra local. Todos que estiveram e estão à frente dessa Fundação exerceram e exercem muito mais do que um cargo político, uma representação, são atuantes, conscientes e desveladores de um universo de expectativas que leva a conscientização a comunidade local e, através de suas ações reinventam espaços, dialogam com o social, referendam e produzem conhecimentos e culturas. 231 Pessoas como Sonia Maria (1991 a 1992), José Cassemiro Teles (1992 a 1993), Iza Costa (1993 a 1993 – 1996 a 1997), Maria Senhora Domingos Martins (1996 a 1996), Gilca Ribeiro dos Santos (1997 a 1999), Marta Helena Rosa (2005 a 2009) e Luzia Eterna Luzia Eterna Ribeiro (1999 a 2001 – 2001 a 2003 – 2003 a 2005 – 2009 até os dias atuais) que estiveram e/ou ainda se encontram a frente dessa Fundação, promoveram e promovem cada uma a seu modo e com suas convicções ideológicas e partidárias, a (re)significação dos valores e das pertenças negras, dos saberes e fazeres dos grupos sociais por elas representados. É valido salientar que refizeram e refazem a história do movimento negro em Ituiutaba contribuindo sobremaneira para a intervenção positiva na comunidade. O projeto da Fundação Zumbi dos Palmares se mesclou a própria trajetória de vida de seus presidentes. Cada um fala da sua administração como sendo parte de sua vida, dos seus objetivos pessoais mais latentes, como bem expressado pela fala de uma das administradoras da Fundação no inicio desse artigo. Dessa forma, percebemos que viver a dinamicidade das ações e parcerias dessa Fundação (re)elabora o fazer cultural local e redimensiona o processo de construção/reconstrução da identidade dos sujeitos sociais, possibilitando a reflexão dialógica sobre relações etnicorraciais não só entre o movimento mas em todos os setores da vida social. REFLEXÕES POSSÍVEIS Recontar a história ou presentificá-la como se esta fosse uma estrutura congelada e sem interferências do meio social não é papel do historiador, pois cabe a ele recompor caminhos, redescobrir o já descoberto se projetando rumo a novas reinterpretações, novas narrativas do vivido, do presenciado. O desafio aqui foi recompor a trajetória de uma fundação cultural apoiadora das ações do movimento negro, trajetória essa embebida nas falas, nos olhares, no contexto político de pessoas que se fizeram e se fazem presentes a frente dessa Fundação. Negros, militantes, homens, mulheres, profissionais, em fim, sujeitos dotadas de desejos, sonhos e vontades de acertar e fazer a diferença. Nesse sentido, como bem reforça Benjamim (1987)3, exercitar o olhar sobre As ações desenvolvidas pela FUNZUP em parceira com a 3 BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre Literatura e história da Cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1987. 232 FACIP-UFU nos abre possibilidades de compreensão da dinâmica da narrativa apresentada nesse artigo pelas vozes das gestoras pesquisadas, em especial Iza Costa, Marta Helena Rosa e Luzia Eterna. Nesse sentido, as narrativas desenroladas por elas nos fazem refletir sobre os vários tipos de narrativas contadas e recontadas por diferentes tipos de narradores. Para Benjamin, há duas formas de narrar: uma que busca na memória os relatos históricos compartilhados pelos homens em outra época, cuja narrativa viaja dinamicamente no tempo sem que o narrador tenha se ausentado do seu espaço (para isso Benjamim recorre à figura do camponês); a outra, edificada através do ato de narrar os fatos ou histórias vivenciadas; histórias estas de outros lugares. Nesse caso, o estudioso recorre ao papel do viajante que percorria diferentes lugares e em cada parada reunia pessoas e relatava suas experiências a partir do seu ponto de vista. Sendo assim, ao desvelar nossos olhares sobre determinado espaço, situação o indivíduo vê neles narrativas, linguagens e falas, uma vez que ao retratar determinados momentos vivenciados numa temporalidade e espacialidade distintas, contam através do olhar, dos sentimentos, da sensibilidade histórias construídas a partir de uma relação entre memória e imaginação, cuja linguagem visual é capaz de unir, numa moldura imaginária, passado - presente – futuro, tornando-se imagens expressivas de um tempo presente, (re) significação de valores e sentidos identitários. Nossa intenção nesse artigo foi justamente entrever pelas falas e pelos arquivos de memória dessas mulheres com o intuito de produzir uma construção histórica da trajetória da FUNZUP a partir do estreitamento da parceria com a Universidade Federal de Uberlândia através do Campus do Pontal em Ituiutaba, a partir do ano de 2006. Nesse contexto, foi para nós um desafio articular uma memória descritiva, pontuada nas administrações dessas gestoras para construir uma interpretação das ações desenvolvidas pela Fundação em parceria com a FACIP-UFU na consolidação de um espaço-referência para o movimento negro, para as ações extensionistas locais e, sobretudo como lugar do diálogo, da troca de experiências e de manutenção das pertenças culturais negras evidenciadas nas atividades da Fundação e na articulação com a comunidade, aqui exemplicadas pelo acesso ao acervo temático da biblioteca Solano Trindade. Sabemos que não conseguiremos recompor com tantos detalhes toda a história da fundação Zumbi dos Palmares e nem foi nossa pretensão nesse artigo, mas sim, 233 refletir sobre os caminhos possíveis de serem trilhados entre Comunidade e Universidade a fim de (re)signifcar olhares, pertenças e conhecimentos, respaldados aqui, nas políticas de reafirmação étnica, através da Lei 10.639/03. O caminho esta aberto; as fendas em processo de ampliação e a espera de outras interpretações, de outros olhares e em busca de um mestre capaz de reinventar narrativas e recompor essa história a partir de outros fios e outros pontos de vistas. REFEÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre Literatura e história da Cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1987. 234 A ATUAÇÃO DO GRUPO DE CONSCIÊNCIA E IDENTIDADE NEGRA DE UBERLÂNDIA NA PROBLEMÁTICA DE GÊNERO Maria Laura Pacheco da Silva Universidade Federal de Uberlândia – UFU Graduanda em Instituto de Ciências Sociais – INICIS Bolsista do PIBID-HCAFRO1 [email protected] Prof. Dra. Maria Lúcia Vannuchi Universidade Federal de Uberlândia – UFU Instituto de Ciências Sociais – INICIS [email protected] A carne mais barata do mercado é a carne negra Que vai de graça pro presídio E para debaixo de plástico Que vai de graça pro subemprego E pros hospitais psiquiátricos Que fez e faz história Segurando esse país no braço O cabra aqui não se sente revoltado Porque o revólver já está engatilhado E o vingador é lento Mas muito bem intencionado E esse país Vai deixando todo mundo preto E o cabelo esticado Mas mesmo assim Ainda guardo o direito De algum antepassado da cor Brigar sutilmente por respeito Brigar bravamente por respeito Brigar por justiça e por respeito De algum antepassado da cor Brigar, brigar, brigar.2 A proposta deste artigo é analisar a atuação do Grupo de Consciência e Identidade Negra - Grucon da cidade de Uberlândia-MG a partir das problemáticas que envolvem as interseccionalidades de gênero/raça, ou seja, é compreender quais os mecanismos que este grupo utiliza para conscientizar politicamente a população negra, em especial, as mulheres negras que ainda ocupam a última posição na hierarquia social, decorrente de um processo histórico de exclusão e racismo. 1 Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/CAPES - Sub-projeto História e Cultura Afro brasileira A carne. Composição: Seu Jorge, Marcelo Yuca e Wilson Capellette. Disponível em: http://letras.terra.com.br/elzasoares/281242/. Acesso em: 11 de setembro de 2011. 2 235 A maioria dos negros neste país encontra-se na base da pirâmide social, pesquisas realizadas anteriormente comprovam essa afirmação. O estudo “Síntese de Indicadores Sociais – Uma análise das Condições de vida da População Brasileira,” publicado pelo IBGE em 2007, constata que as desigualdades entre brancos e negros ainda persistem. Os dados mostram que entre os 10% dos mais pobres que se encontram no mercado de trabalho há mais de 10 anos, o percentual de brancos é de 26,1% e de 73,2% para pretos ou pardos. Já entre o 1% dos mais ricos, 87,7% são brancos e 12,4% pretos e pardos. Na educação, em 2006, dos 15 milhões de analfabetos brasileiros mais de 10 milhões eram pretos e pardos. Ainda no mesmo ano, os estudantes de nível superior na faixa etária de 18 a 24 anos, foram representados por apenas 22% de pretos e pardos. As desigualdades também são gritantes no mercado de trabalho. No rendimento por hora de trabalho, os brancos recebem salários 40% mais elevados que os pardos e negros. Os indicadores socioeconômicos citados comprovam de fato a exclusão social dos homens negros e das mulheres negras no Brasil, posto que, tais iniqüidades raciais vinculam-se nas piores condições de moradia, escolaridade, assistência médica e renda para essa parcela da população, além dos índices mais elevados de mortalidade infantil, jovem e de gestantes. Contudo, mesmo representando de acordo com o último senso, 50,7% da população brasileira, os negros e as negras neste país são minoria nas esferas de influência e de poder. Os homens estão inseridos num contexto social marcado pela marginalização e as mulheres, além disso, numa hierarquização social baseada no indicador gênero/raça, o que os/as dificultam praticar a mobilidade profissional e social bem como acreditar nas possibilidades concretas de mudança. VIOLÊNCIA SIMBÓLICA: ESTEREÓTIPOS CONSTRUÍDOS HISTORICAMENTE No sistema capitalista é difundida a tese de que o fracasso e o sucesso de um indivíduo dependem exclusivamente do próprio individuo, como se o mesmo estivesse desvinculado da estrutura social que está inserido, mais ainda, se não fosse produto de 236 um processo histórico, mas afinal, será que são dadas aos indivíduos as mesmas oportunidades para uma concorrência justa? A estrutura social que sempre esteve vigente em nossa sociedade é a androcêntrica na qual existe uma hierarquização de oportunidades baseada no indicador gênero/raça. Segundo Bourdieu, o padrão androcêntrico de pensamento também pode ser exercido através da violência simbólica traduzida não como uma violência meramente espiritual e sem efeitos reais, mas como uma violência dotada de objetividade da experiência subjetiva das relações de dominação, assim, o sistema de signos e símbolos presentes na nossa sociedade através de valores e normas transformam as diferenças biológicas existentes entre homens e mulheres em desigualdades de gênero/raça. O princípio masculino é tomado como medida de todas as coisas. E aí reside a violência simbólica que se ancora nos canais da comunicação, do conhecimento, e que pode se valer de um idioma, de um estilo de vida, de uma cor de pele, e de um sexo específico.3 Portanto, os mecanismos de violência simbólica são resultados do padrão androcêntrico imposto na sociedade que acabam sendo internalizados e vistos como naturais por essas mulheres. Dentre esses mecanismos, Bourdieu ressalta o “learned helplessness”, ou seja, a “impotência apreendida” ajusta as possibilidades que estão colocadas para essas mulheres e limitam suas esperanças, reproduzindo muitas vezes discursos que as inferiorizam, como por exemplo, “isso não é serviço de homem” ou “não adianta, sempre foi assim.” O discurso sexista discrimina e inferioriza principalmente as mulheres negras que desde que pisaram em solo brasileiro como escravizadas foram submetidas a todas as formas de abuso, exploração e negação de sua liberdade plena. As práticas de discriminação que violam o princípio de igualdade entre os indivíduos podem ser provocadas e motivadas pelo preconceito e muitas vezes acontecem de forma sutil. Segundo Sodré “a identidade de alguém, de um ‘si mesmo’, é sempre dada pelo reconhecimento de um ‘outro’ (1999). Nesse processo de formação identitária o sentimento de pertença e de estranhamento pode originar exclusões e inclusões de acordo com as afinidades, além de relações hierárquicas. 3 VANNUCHI 2010, p. 72. 237 Se há uma identidade racial dominante que define o que é belo e feio, ou seja, os padrões estéticos, o simples fato de pertencer à raça dita dominante implicará ser valorizado do ponto de vista estético e vice-versa. O branco acreditará que é bonito e observará que o padrão estético da raça negra como não bonito; o negro possivelmente achará o branco bonito. E se o padrão estético do branco predomina e os valores do negro poderão ser valores daqueles que os negam na sua diferença. Ele é negado e ao mesmo tempo se nega. O preconceito passa pela relação social, pela atribuição identitária e auto-identificação, que nega duplamente a alteridade, seja como negação do outro, seja como autonegação.4 A citação anterior retrata o que o período escravocrata deixou de herança para o ideário popular brasileiro, ou seja, a construção da imagem negativa e estereotipada do corpo negro em especial o da mulher negra. Apesar de a elite colonial não cultivar uma ideologia racista que justificasse a hierarquia existente entre os grupos étnicos, o século XIX foi fortemente marcado pela construção de valores ligados à raça, sobretudo quando se referia à política de branqueamento como solução para o progresso brasileiro. Segundo Renato Kehl, importante médico eugenista da época, para que o Brasil se tornasse um país próspero não deveria haver casamentos mistos. Esta proposta nós a apresentamos sem qualquer intuito nacionalista, nem qualquer preconceito de raça. Entendemos que a mestiçagem é dissolvente, desmoralizadora e degradante, prejudicando, portanto o espírito superior visando à procriação eugênica. É indiscutível o antagonismo e mesmo a repulsa sexual existente entre indivíduos de raças diversas. Só motivos acidentais ou aberrações mórbidas fazem unir-se um homem branco com uma negra ou vice-versa. E o produto desse conúbio nasce estigmatizado não só pela sociedade, como, sobretudo, pela natureza (...).5 Esse mesmo médico estipulou também um padrão de beleza masculino e feminino baseado no tamanho e nas formas de partes do corpo. Nas mulheres, delicadeza e harmonia eram fundamentais. (...) representam defeitos muito desgraciosos, tornozelos, punhos, joelhos, cotovelos muito grossos. A delicadeza dessas saliências é sinal de pureza da raça. Articulações grossas, ossos espessos, pés e mãos exageradamente fortes são próprios de indivíduos criados nos trabalhos pesados, ou que praticam exercícios demasiados. (...) é necessário não confundir delicadeza das partes com a fraqueza própria dos raquíticos e degenerados.6 A maneira pejorativa de se referir aos negros e aos mestiços não ficava restrito aos médicos eugenistas, na literatura a escritora Júlia Lopes de Almeida em trechos de seu romance também estigmatizava a imagem do negro e também o corpo feminino negro. 4 BANDEIRA e BATISTA 2002, p. 131. KEHL, apud. Santos, 2005. 6 Idem. 5 238 (...) revoltado contra a natureza que o fizera negro, odiava o branco com o ódio da inveja, que é o mais perene. Criminava Deus pela diferença das raças. Um ente misericordioso não deveria ter feito de dois homens iguais dois seres dessemelhantes! Ah, se ele pudesse despir-se daquela pele abominável, mesmo que a fogo lento, ou a afiados gumes de navalha, correria a desfazer-se dela com alegria. Mas a abominação era irremediável. O interminável cilício duraria até que, no fundo da cova, o verme pusesse a nu a sua ossada branca... Branca! Era a mulher branca que ele preferia, desprezando com asco as da sua raça. (...)7 É nítida a maneira preconceituosa como a escritora enxerga-os na sociedade brasileira da época. “Para ser suprema a sua formosura ela terá os teus doces olhos azuis, tão cedo fechados, Elvira; e o teu riso alegre, Maria Laura; e a tua voz, Janan; e a tua bondade adorável, Marie; e as linhas do teu corpo, Alice; e a doçura da tua tez, Carlota! Terá da negra Josefa, tão triste por não ser branca, a branca inocência; e de vós todas, com que topei na minha infância, a gárrula alegria e a trêfega imaginação.” 8 Nos poemas anteriores é notória a desvalorização da imagem da mulher. Essa visão estereotipada da autora influenciou gerações de mulheres da elite e perpetua até os dias atuais. Entre o antagonismo racializado, branco (beleza) e negro (feiúra) há um terceiro elemento, a mulata, tida como bela, mas apenas no campo erótico, se tornando mundialmente sinônimo de sexualidade. Em obras como, “Memórias de um Sargento de Milícias”, “O Cortiço” e “Gabriela, Cravo e Canela”, os próprios autores brasileiros representavam a mulata como uma mulher sensual, dotada de encantos, sem princípios morais e sempre a “outra”. Ao visitar o Brasil nos anos de 1848 e 1849, o pintor francês Edouard Manet disse em carta ao seu primo que negros e mulatos eram feios, mas as mulatas eram quase todas bonitas. A pintura “Mulata com leque” de Di Cavalcanti ilustra as palavras de Manet sobre a mulata. O ambiente, as cores vibrantes da figura, a vestimenta, os seios à mostra, o olhar penetrante, a maquiagem e o leque, em conjunto, expressam o calor dos trópicos acompanhado pela sua sensualidade. 7 8 ALMEIDA, 2000/2002, p. 79-80 ALMEIDA, 1906, p. 6. 239 9 Ainda hoje, esse é um dos cartões postais brasileiros, faz-se a associação da mulata ao erotismo e ao prazer, mascarando as atrocidades destinadas à população negra ocorridas no decorrer dos séculos, perpetuando assim, valores racistas. A beleza da mulata é exaltada, mas não ultrapassa o campo sexual. É no corpo, a partir das diferenças fenotípicas que as discriminações acontecem. A imagem do outro é aparentemente mais forte do que suas condições de caráter que desta forma podem ficar subsumidas. O racismo é resultado da desvalorização imagética do negro (a). Os resquícios de violência física, psicológica e moral, deixados pelo período escravocrata retardaram a ascensão social e econômica das mulheres negras, visto que, não foram oferecidas a elas as mesmas oportunidades educacionais, no mercado de trabalho ou na distribuição de renda se comparados aos homens e mulheres brancas. A violência simbólica, decorrente dos estereótipos negativos destinados à população negra, prejudica a auto-afirmação da identidade negra através das práticas discriminatórias ocorridas em todos os âmbitos da sociedade, mas há instituições como o Grupo de Consciência e Identidade Negra - Grucon da cidade de Uberlândia/MG, que 9 CAVALCANTI, Emiliano di. Mulata com leque, 1937. Coleção Gilberto Chateaubriand. Disponível em: http://vejabrasil.abril.com.br/galeria/rio-de-janeiro/genealogias-do-contemporaneo/#img/05.jpg. Acesso em: 31 de agosto de 2011. 240 auxiliam os próprios/as negros/as no reconhecimento e valorização de seus fenótipos, mais ainda, na conscientização política dessas mulheres. A ATUAÇÃO DO GRUPO DE CONSCIÊNCIA E IDENTIDADE NEGRA GRUCON EM UBERLÂNDIA-MG NA DESCONSTRUÇÃO DE ESTIGMAS A formação do Grupo de União e Consciência Negra de Uberlândia - Grucon coincide com o cenário brasileiro de mudanças políticas e sociais ocorridas na década de 1980. No Brasil iniciava-se o processo de redemocratização política resultante de pressões populares e dos movimentos sociais. Os anos de 1980 foram profundamente mobilizadores, com uma intensa atividade política que abarcava a intelectualidade, setores populares, um forte movimento popular urbano e sindical e o processo de reorganização político-partidária no País. Foi o período de retomada das eleições diretas, das primeiras eleições presidenciais pós 1964, dos debates e mobilizações em torno da Assembléia Nacional Constituinte, forjando um clima em que as questões diretamente identificadas com a política pareciam envolver mais fortemente a população.10 É neste contexto de luta por liberdade de expressão, por justiça social, por escolha direta de representatividade política e por igualdade de gênero que os grupos de mulheres e de jovens, o clube de mães, os movimentos homo, os bissexuais, os contra a carestia e os negros ganham mais visibilidade. [...] trata-se, sim, de uma pluralidade de sujeitos, cujas identidades são resultado de suas interações em processos de reconhecimentos recíprocos, e cujas composições são mutáveis e intercambiáveis. As posições dos diferentes sujeitos são desiguais e hierarquizáveis; porém essa ordenação não é anterior aos acontecimentos, mas resultado deles. E, sobretudo, a racionalidade da situação não se encontra na consciência de um ator privilegiado, mas é também resultado do encontro das varias estratégias.11 O quadro político da época relaciona-se com o surgimento de diversos movimentos negros e um destes foi o Grupo de Consciência e Identidade Negra Grucon de Uberlândia-MG. Em meados da década de 1980, a Comunidade Eclesial de Base (CEB), composta por classes populares e vinculada com a paróquia de Nossa Senhora Aparecida localizada na região central de Uberlândia, discutia com seus membros assuntos relacionados ao trabalhador, as pessoas que participavam da CEB começaram a entender e perceber que a problemática do (a) negro (a) era particular, ou 10 11 GODINHO, 2004, p. 151. SADER, 1988, p. 55. 241 seja, diante do contexto geral do trabalhador, os efeitos do trabalho, o sistema, a remuneração para os (as) negros (as) era diferenciada dos demais membros da sociedade. A partir de então, começa a florescer neste grupo os questionamentos referentes às desigualdades raciais. Nasce em 1986, dentro da igreja católica o Grupo de União e Consciência Negra - Grucon de Uberlândia - MG, um dos movimentos negros mais antigos da cidade. Em entrevista com Jussara Gabriel dos Santos, atual presidente do mesmo, ela disse que desde o início, o grupo tem como finalidade a conscientização dos negros em relação a sua condição social, condição cultural e sua identidade, além da denuncia contra o racismo e contra o preconceito racial. A ata de fundação do grupo objetiva: a) crescer na consciência de povo negro assumindo nossa identidade como pessoa e cidadão brasileiro; b) comprometer com o aprofundamento de nossas raízes históricas através da pesquisa, registros e estudo; c) desenvolver a caminhada em confronto com a situação socioeconômica- politico-religiosa; d) unir nossa luta a todos os oprimidos: operários, lavradores, mulheres, organizações sindicais, grupos pastorais e grupos populares.12 Hoje, ele tem uma sede localizada na rua Benjamin Constant, 930 no bairro Aparecida onde as atividades são realizadas. Qualquer pessoa pode se filar ao grupo, independente da raça, do gênero ou cor. Há uma proporção igualitária de homens negros e mulheres negras, mas também existem brancos que aderem às questões raciais, Jussara afirma: (...) a secretária que está na executiva com a gente é branca e é bem consciente da situação do negro no Brasil. Ela disse que queria ir junto, então disse a ela, venha, porque precisamos de pessoas que independente da raça aderem à causa, e ela foi uma delas. Participam ativamente das atividades 20 pessoas, esse número é das que auxiliam na organização dos eventos, mas há outros filiados. A maioria dos membros é de religião católica, mas dialogam no mesmo espaço outras religiões, as que fazem parte do “terreiro” e as evangélicas. A organização do grupo se dá pela composição da executiva, da coordenação, da presidência, do secretariado, dos tesoureiros, do diretor de patrimônio que cuida da instituição e dos fiscais que cuidam da legalidade das questões financeiras, resumindo, são três equipes; a de celebração da missa afro, a de finanças que discutem como levantar recursos e a equipe de projeto e formação política, 12 Grupo de União e Consciência Negra de Uberlândia. Ata de fundação do grupo. Uberlândia, 1986. Acervo do GRUCON. Apud SANTOS, Fernanda. 242 as pessoas dentro do Grupo de União e Consciência Negra - Grucon vão se encaixando nessas equipes e há um (a) coordenador (a) para cada. A presidente tem como responsabilidade pensar nas bandeiras de luta do mesmo, nas suas várias áreas de atuação, na questão política e auxiliar esses coordenadores. O mandato da coordenação é de dois anos, quando esse período está se encerrando é aberto pela gestão atual um edital para chamada de chapas que fazem suas inscrições, tem o dia da assembléia para a votação das chapas, todos podem ser votados, sendo membros participativos ou não, mas quem vota são apenas os filiados. Ao longo de sua história, o grupo agiu ativamente de diversas formas. Publicou o informativo “Negritude” em 1997, devido à importância do dia 20 de novembro e o “Boletim Interno”, em janeiro de 2000, para que as informações chegassem a todos os membros e organizou eventos como o I° Encontro Estadual da Consciência Negra realizado em 2007. Em 2008 e 2009 o foco do grupo era a juventude. Foram feitas atividades e encontros para os jovens negros em sua sede e reuniões ampliadas que discutissem a questão da juventude. De 2011 a 2013 o mesmo estará em comemoração aos seus vinte e cinco anos, o objetivo neste momento é a divulgação e a visibilidade do grupo por ter mais de duas décadas e poucas pessoas o conhecê-lo. Dentro desta visibilidade o público alvo é a mulher negra, a entrevistada nos explica o porquê: Pelo Brasil viver um momento ímpar, por termos pela primeira vez uma presidente mulher. Se pensarmos numa presidente negra ai teremos que avançar muito, conquistas que são possíveis, mas ainda é preciso muita luta. Para focar nesse momento histórico, começamos com o IV Encontro de Mulheres Negras pensando nas possibilidades dessas mulheres que são mais vulneráveis a violência, a marginalização, a falta de emprego, as novas perspectivas do que os outros seguimentos que tem na sociedade. Pensando no histórico nacional e também dentro do grupo é a quarta coordenação do Grucon com mulheres negras. O evento citado na fala de Jussara aconteceu nos dias 14 e 15 de maio deste ano. O IV Encontro teve como tema, "Mulheres Negras em Foco, Beleza Afro/Afro Beleza", uma conferência com palestra e plenária, que debateu idéias relacionadas com as questões raciais. O grupo Maria da Glória trabalhou a identidade da mulher negra, a sua auto-estima, as diversas formas de violência e outras problemáticas que envolvem essas mulheres. Participaram 35 mulheres negras discutindo sobre a questão. Jussara enfatiza que: 243 O objetivo geral desse encontro foi trabalhar a auto-estima e a identidade da mulher e os objetivos específicos foram pensar na conscientização das mulheres negras em relação ao seu papel na sociedade de ficarmos atentas e propormos política, para chamar a atenção dessas mulheres o evento foi chamado de "Mulheres Negras em Foco Beleza Afro/Afro Beleza para que essas mulheres se sentissem com a autoestima mais elevada, trabalhando a questão política e a auto-estima ao mesmo tempo, foi uma das estratégias que a gente pensou. Após a avaliação do encontro, os membros concluíram que até mesmo as pessoas que coordenaram a plenária estavam mais interessadas na divulgação do grupo. Nenhuma proposta discutida no decorrer da plenária foi voltada para as mulheres negras, a presidente concluiu que este seria um desafio a ser encarado. Apesar dos imprevistos, por outro lado, havia mulheres dispostas a entender sobre si mesmas, a entender o que é o movimento negro e qual a sua importância, os questionamentos levantados culminou na idéia de fazer outro evento, o “Cine Pipoca Afro” ocorreu no dia 16 de julho com o intuito de chamar essas mulheres para a luta. Nas palavras de Jussara seu anseio era: (...) de sentar na cadeira e perguntar, o que a gente vai fazer agora? Nós somos mulheres negras e sentimos na pele o que nós precisamos. Foi enviado o convite através de cartas, todas haviam deixado o endereço, poucas compareceram no evento, de 35 cartas enviadas participaram 5, mas foi uma discussão muito boa, o filme escolhido foca Uberlândia. Matizes por ser passado na cidade e conhecermos as pessoas nós começamos a nos identificar, as pessoas que estavam ali amaram o momento de discussão política com mulheres negras que queriam mesmo sentar com a gente e discutir, a discussão começou pela atriz negra principal do filme que contou como foi e as suas próprias experiências e as outras que estavam ali se identificaram e contaram como eram as suas vidas, a intenção era que as pessoas se sentissem dentro da situação, de colocar quais eram os desafios de todas porque o que acontece com você acaba acontecendo num contexto geral, não é da mesma forma para todas mas há coisas incomum e essas coisas é que são trabalhadas em conjunto para pensarmos também em conjunto o que fazer. Quando estamos discutindo nossas vidas também estamos discutindo política, estamos no meio social e tudo isso é política, não tem jeito. Assim, a violência simbólica discutida anteriormente prejudica a autoafirmação da identidade negra nas mulheres negras. O Grupo de União e Consciência Negra - Grucon vai de encontro às práticas discriminatórias resultantes do período colonial que dificultam a mobilidade social e castram as possibilidades dessas mulheres negras, fazendo com que muitas se conformem com a posição que representam na hierarquia gênero/raça. Como foi exposto, o grupo, através de seus eventos de conscientização política trabalha com a finalidade de reconstruir a auto-estima dessas mulheres negras para que elas possam superar todas as formas de preconceito e discriminação racial. 244 CONSIDERAÇÕES FINAIS Contudo, por mais que a população negra tenha um papel crucial na construção da sociedade brasileira tanto no aspecto cultural quanto material, os resquícios de violências deixados pelo período escravocrata explicam o porquê de ainda hoje os negros e as negras deste país ocuparem a base da pirâmide social. Apesar de todo o sofrimento imposto a esses indivíduos, não é os/as vitimizando que sua situação sofrerá modificações, mas sim através da emancipação política e é por isso que eu considero a atuação do Grupo de Consciência e Identidade Negra - Grucon tão importante para a cidade de Uberlândia- MG. O grupo trabalha com a tese de que a conscientização política é a melhor maneira de se livrar das opressões, assim, aqueles sujeitos que até então eram excluídos das esferas de poder, após tomarem consciência de que também estão inseridos na sociedade se transformarão em sujeitos políticos, capazes de decidir e pensar de fato nas soluções para as iniqüidades sociais e raciais. Dessa forma, as mulheres negras sempre foram estigmatizadas historicamente, mas muitas delas não concordaram com a condição de inferioridade imposta. Destaco entre elas a escravizada Anastácia, Luísa Mahin uma das líderes da revolta dos Malês e mãe de Luis Gama e por fim, a professora Lélia González. O que ambas tem em comum? Essas heroínas brasileiras atuaram como sujeitos ativos na história e nos provaram que é possível superar as adversidades através de muita luta, mais ainda, acreditar nas possibilidades concretas de mudanças. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS A mulher negra e pobre no Brasil. Disponível em: http://www.overmundo.com.br/overblog/a-mulher-negra-e-pobre-no-brasil. Acesso em: 21 de julho de 2011. BANDEIRA, Lourdes Batista. SORIA, Analía. Preconceito e discriminação como expressões de violência. Revista Estudos Feministas, num. jan., pp. 119- 141. 2002. BOURDIEU. Pierre. A Dominação Masculina, Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 1999. 245 GODINHO, T. Democracia e política no cotidiano das mulheres brasileiras. In: A mulher brasileira nos espaços público e privado. VENTURI, G. et al. (Org.). Editora Fundação Perseu Abramo, 2004. SANTOS, Fernanda. Negros em movimento: sentidos entrecruzados de práticas políticas e culturais. 2010. Disponível em: http://www.bdtd.ufu.br/tde_arquivos/16/TDE-2011-04-13T081119Z2361/Publico/Diss%20Fernanda.pdf. Acesso em: 17 de julho de 2011. KEHL, R. A cura da fealdade: eugenia e medicina social. São Paulo: Monteiro Lobato, 1923. MÜLLER. Maria Lúcia Rodrigues. Produção de sentidos e institucionalização de idéias sobre as mulheres negras. Cadernos Penesb, 2006. Disponível em: http://www.uff.br/penesb/Publicacoes/penesb8_web.pdf. Acesso em: 06 de agosto de 2011. SANDER, Eder. Quando novos personagens entraram em cena. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. SANTOS. Walkyria Chagas da Silva. A mulher negra brasileira. Revista África e Africanidades – Ano 2 - n. 5 - Maio. 2009. Disponível em: http://www.africaeafricanidades.com/documentos/A_mulher_negra_brasileira.pdf. Acesso em: 21 de julho de 2011. VANNUCHI. Maria Lúcia. A construção das identidades de gênero. Caderno Espaço Feminino | v. 23 | n. 1/2 |p. 61-77| 2010. Disponível em: http://www.seer.ufu.br/index.php/neguem/article/viewFile/7591/7050. Acesso em: 11 de setembro de 2011. 246 VIOLÊNCIA, RACISMO E A PENITENCIÁRIA PIMENTA DA VEIGA Anderson Pereira Santiago Universidade Federal de Uberlândia – UFU Graduando em Relações Internacionais – RI [email protected] Prof. Dr. João Marcos Alem Universidade Federal de Uberlândia – UFU Instituto de Ciências Sociais – INCIS [email protected] Há muito tempo a questão da desigualdade racial vem sendo discutida em diversas áreas, principalmente após a introdução de cotas raciais nas universidades federais que são parte das ações afirmativas do Governo para promover a igualdade racial. Esta discussão não está limitada à educação, é feita também no que diz respeito ao mercado de trabalho e à própria visão da sociedade como um todo em relação às desigualdades decorrentes da questão racial. Entretanto, a promoção de políticas públicas ainda não significa uma diminuição da discriminação racial em várias situações sociais, por exemplo, pouco tem sido feito em relação à questão da desigualdade racial nos presídios de todo o Brasil. De acordo com o IHA (Índice de Homicídios na Adolescência) de 2009 a violência atinge a população negra, sobretudo a jovem, de maneira muito mais incisiva; o risco de ser assassinado, por exemplo, é 2,6 vezes maior para os adolescentes e jovens (15 a 34 anos) negros em comparação com os brancos. E isto porque o negro, em sua histórica trajetória de desigualdade no Brasil, viu-se obrigado a habitar as áreas de risco e se sujeitar às atividades de risco para poder sobreviver; a criminalidade é uma destas atividades. Orientado de início por esses dados, o presente estudo de caso tem como objetivo analisar os resultados de um levantamento de informações, feito por meio de pesquisa direta junto a educadores e administradores que atuam na Penitenciária Professor João Pimenta da Veiga, em Uberlândia-MG, a fim de avaliar em que medida a discriminação acontece nas relações sociais cotidianas dos sujeitos penalizados e presos. Trata-se de avaliar se os preconceitos e a discriminação, principalmente a discriminação racial, presentes na sociedade, se refletem nesta instituição carcerária e como as pessoas 247 ali presentes agem diante de situações discriminatórias. A relevância do estudo se fundamenta em alguns motivos destacados a seguir. Primeiramente ao se considerar a ineficiência da pena privativa de liberdade como forma de compensação social para as práticas criminais e, segundo, quando se constata a situação considerada falida do Sistema Penitenciário brasileiro como um todo. Tais constatações se fazem presentes em análises de vários pensadores da sociologia, da ciência política e da antropologia, pois não é novidade que em muitos presídios os detentos vivem em condições subumanas, com celas superlotadas, sem as mínimas condições de higiene e dignidade. Em teoria o sistema carcerário tem como objetivo não apenas punir, mas também recuperar e reintegrar os detentos para sociedade, ao promover o seu desenvolvimento social e psicológico a fim de evitar a reincidência criminal que, em nosso país possui níveis alarmantes. Segundo reportagem do Jornal Estado de São Paulo de Janeiro de 2008, o ex-ministro da Justiça, Tarso Genro, declarou durante a apresentação do balanço do Sistema de Informações Penitenciárias (Infopen): “de cada dez detentos postos em liberdade sete voltam à prisão por novos delitos”. Com isso, não é a recuperação que observamos nos presídios. Muitas vezes, são justamente as precárias condições em que os presos vivem que provocam revoltas e a saída da reclusão com condutas piores da que tinham quando entraram. Segundo a avaliação da Exposição de Motivos da Nova Parte Geral do Código Penal de 1984: [...] as críticas que em todos os países se têm feito à pena privativa da liberdade fundamentam-se em fatos de crescente importância social, tais como o tipo de tratamento penal frequentemente inadequado e quase sempre pernicioso, a inutilidade dos métodos até agora empregados no tratamento de delinquentes habituais e multireincidentes, os elevados custos da construção e manutenção dos estabelecimentos penais, as consequências maléficas para os infratores primários, ocasionais ou responsáveis por delitos de pequena significação, sujeitos, na intimidade do cárcere, a sevícias, corrupção e perda paulatina da aptidão para o trabalho. (pp. 04) É neste sentido que Dani Rudnicki (1999) afirma: Para tanto, precisa-se de uma nova punição, uma nova concepção de punição – uma punição que eduque, previna ou repare o dano, incentive novas condutas, sendo compatível com os Direitos Humanos. Nunca que sirva como mera vingança, nunca que sirva apenas ao controle social. Nessa ideia não existe espaço para pena privativa de liberdade. (pp. 545) Além destes fatores, há também a pouquíssima oportunidade que a própria sociedade oferece para estes cidadãos, pois eles são sim cidadãos, estando ou não na 248 prisão, depois que eles saem do cárcere. Essa situação é decisiva para o alto índice de reincidência e de exclusão social. É sabido que a exclusão racial ocorre desde o período colonial e por séculos as minorias étnicas foram marginalizadas de praticamente todos os setores da sociedade. Com a consciência de que não há uma raça superior às demais, a luta pela igualdade étnica ganhou mais força e tal luta pela igualdade pode ser observada não só no que diz respeito aos direitos étnicos, mas também sexuais, religiosos, culturais e todos os demais que dizem respeito às minorias da sociedade. Porém, apesar desse desabrochar de consciência, alguns sujeitos sociais ainda continuam à margem e muitas vezes não são sequer lembrados ou considerados quando decisões políticas importantes são tomadas. A população carcerária, sobretudo a parcela que se considera negra é um bom exemplo dessa atual marginalização. A Penitenciária Professor João Pimenta da Veiga, situada em Uberlândia na estrada de Sucupira S/Nº, foi inaugurada em 8 de Outubro de 2003 com uma área de 6 alqueires. Possui atualmente 144 celas, tendo, pois, uma capacidade de 396 apenados. É composta por quatro pavilhões, sendo um feminino. Desde sua inauguração passou por algumas adaptações nos quais foram construídas a Escola Penitenciária Mário Quintana e a Assessoria de Inteligência entre 2004 e 2005; e também por melhorias como a construção de uma garagem, um sistema de coleta de lixo e reciclagem, uma horta (feita pelos próprios apenados) e uma praça para os dias de visita que ocorrem aos sábados e domingos. Sua administração é composta por quatro diretorias as quais: Segurança, Atendimento e Ressocialização, Finanças e a diretoria Geral. As diretorias trabalham em conjunto e possuem como objetivo a ressocialização do preso por meio da escola penitenciária ou da disponibilização de trabalho para o preso, através dos núcleos de parcerias externas ou internas com empresas, que trazem atividades pra dentro da penitenciária. Além destas diretorias, a Assessoria de Inteligência é responsável por monitorar o que ocorre dentro e fora dos muros da penitenciária em relação às condutas dos presos. Atualmente 400 presos cumprem pena na Pimenta da Veiga, dentre estes 53 mulheres e 347 homens. Há também os presos albergados, ou seja, aqueles que são “temporários”, os que só passam a noite na penitenciária. Com estes, cerca de 470 apenados convivem na penitenciária, onde de dois a quatro apenados dividem as celas, mostrando, portanto, um quadro tranquilo que não caracteriza a superlotação da media 249 das demais penitenciárias brasileiras. Em relação ao número de funcionários o quadro também é positivo, foram feitas contratações recentes, apesar de a penitenciária ter ficado mais de dois anos sem contratar nenhum agente, e atualmente contam com 233 funcionários. A faixa etária média dos apenados fica entre 18 e 25 anos, o que já demonstra o quadro alarmante da forte presença da violência em gerações de jovens. Apesar de certa diversificação no tipo de sentença que levou os apenados a estarem ali, a maioria deles teve sua pena de reclusão dada devido ao envolvimento com o tráfico de drogas ilícitas, seja de maneira direta ou indireta; a estimativa é ainda mais elevada entre as mulheres. Apesar da situação aparentemente positiva desta unidade carcerária, ela também possui e reflete as contradições que nos são apresentadas na sociedade em que estamos inseridos, e o racismo é uma destas contradições. Segundo Marilena Chauí (2007): [...] na medida em que a ética é inseparável da figura do sujeito racional, voluntário, livre e responsável, tratá-lo como se fosse desprovido de razão, vontade, liberdade e responsabilidade é tratá-lo não como humano e sim como coisa, fazendo-lhe violência [...] É sob este aspecto (entre outros, evidentemente), que o racismo é definido como violência. (pp. 01) A autora também afirma que “o racismo é uma ideologia das classes dominantes e dirigentes, interiorizada pelo restante da sociedade”. Ou seja, através desta ideologia, entendida como falsificação da realidade, a classe dominante transmite para o resto da sociedade seus valores e crenças fazendo com que muitas vezes os próprios explorados e discriminados não se vejam enquanto tal, mas pelo contrário, se vejam enquanto livres e exógenos a este modelo desigual de sociedade. De acordo com o diretor de finanças e professores da unidade prisional Pimenta da Veiga, os negros não são maioria. Mas também é mister saber até onde vai a identidade racial destes apenados, pois o fato de ser negro e possuir tal identidade transcende a característica fenotípica da cor da pele e vai para um campo muito mais histórico-cultural. Todo preso quando chega à unidade prisional é “classificado”. Passa por uma equipe interdisciplinar composta por assistente social, psicólogo, pedagogo, médico, enfermeiro, núcleo de produção e segurança. Esta comissão analisa o perfil do preso e o “classifica” para o trabalho, se tem condições ou não de ir para a escola, se possui o perfil de que não vai trazer risco para ele ou para qualquer funcionário. Porém, mesmo 250 com esta ampla comissão que busca compreender a situação do preso para melhor lidar com ele durante seu tempo de cárcere, nenhum questionamento é feito sobre a questão racial ou como o próprio preso se vê nesta questão e age sobre ela. Isto é feito sobre o argumento de que na penitenciária, todos são tratados como iguais, mas esquece-se que tratar grupos e/ou indivíduos desiguais de forma igual é manter a disparidade que existe entre eles. Na Pimenta da Veiga, poucos são os que se consideram negros. A maioria se vê como moreno ou com um sub tom de pele que tire o peso que é ser negro hoje, sobretudo no Brasil. E mesmo entre aqueles que se consideram negros, pode-se perceber, em suas falas, como o fato de ser negro é um determinante para sua condição atual e um forte empecilho para que tal condição seja superada. Falas como “não tive oportunidade na vida, porque sou negro” são comumente ouvidas pelos psicólogos, assistentes sociais e agentes da penitenciária. Com isto, pode-se analisar o papel sutil da linguagem na disseminação e na manutenção de um racismo e preconceito velados, que se fazem presentes a todo o momento e na maioria das vezes são ignorados. Como argumentado antes, o racismo, enquanto um tipo de violência possui além das formas diretas, físicas e coercitivas, formas menos severas de se expressar e que são de muito mais difícil percepção e consequente combate. A linguagem certamente é uma destas formas. Através da linguagem, seja por meio de brincadeiras, apelidos ou falas de ironia que expressam certo tom de superioridade, o racismo, e demais formas de preconceito, vai se naturalizando no meio social como um mito que é interiorizado de forma profunda, deixando de ser percebido como uma crença e passando a tomar a forma da própria realidade. Na Pimenta da Veiga, mesmo havendo boa convivência entre os presos de maneira geral, não existindo entre eles uma discriminação clara que nos remeta à questão racial, alguns apelidos como “Buiu”, “Negão”, “Crioulo” ou “Macaco”, funcionam como uma forma de distinção entre os apenados que não está livre, de forma alguma, de preconceitos e racismo. Além disso, essa distinção ocorre de maneira ao mesmo tempo naturalizada e sutil, perpetuando desta forma a ideia de que brancos e negros são sim distintos entre si. Daí surge a crença quase inconsciente de que os sujeitos devem receber tratamentos diferentes, por uns serem historicamente melhores que os outros. 251 A partir desta análise impõe-se, então, a necessidade de que os presos que de fato são e se consideram negros passem a conhecer de forma mais íntima a história e cultura africana e afro-brasileira; passem a conhecer suas origens e suas lutas; conheçam as contribuições dos negros para a economia, política e sociedade brasileira; passem a ver no povo negro que para o Brasil foi trazido à força, um símbolo de resistência à “ordem” estabelecida. Mas não só os presos e sim todos que sofrem da desigualdade e racismo imanente desta sociedade, pois à medida em que este grupo, marginalizado e subjugado, passa a ter maior clareza sobre sua situação perante o resto da sociedade, consegue agir sobre esta realidade de maneira mais incisiva e organizada a fim de transformar estruturalmente sua realidade social. É neste sentindo que podemos analisar a importância da lei 10.639 de 2003, que instaura a obrigatoriedade do ensino sobre História e Cultura Afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares. Com esta lei é possível resgatar toda a trajetória dos afro-brasileiros desde sua chegada ao território que hoje chamamos de Brasil e dar autonomia a este grupo que tanto representa nossa nação. Entretanto, apesar de instaurada a lei 10.639/03 e conhecida sua importância, existem muitas dificuldades para que ela seja de fato implementada nas escolas da rede pública. E na escola Mário Quintana da penitenciária Pimenta da Veiga a situação é ainda mais complicada. Apesar da disposição dos trabalhadores em educação que lá estão presentes, tendo inclusive proposto para a escola uma atividade sobre “cultura negra”, faltam condições materiais para que a lei 10.639/03 se efetue na escola. Não há material didático que trate especificamente da cultura e história africana ou afrobrasileira e nem os próprios trabalhadores da escola possuem formação adequada e suficiente em relação ao tema que a lei se propõe a debater. Isto prejudica sobremaneira o conhecimento por parte dos apenados que se consideram negros, de se verem enquanto um extrato subalterno da esfera social e de, a partir disto, tomarem consciência não só desta injustiça, mas também do poder de derrubá-la. Entende-se que, quando possuem educação sobre sua origem histórica, os negros possuem recursos de auto-afirmação, de organização e de tomada de consciência sobre sua posição social, que são as ferramentas mais poderosas que podem ter para suplantar a precária situação em que se encontram e isto se reafirma de maneira ainda mais forte para os negros que cumprem pena e lutam para resgatar sua cidadania. 252 Uma peculiaridade da penitenciária Pimenta da Veiga é a chamada “ala dos seguros”. Esta ala é composta pelos apenados que por algum motivo, se vêem impossibilitados de manterem contato com os demais presos da penitenciária devido a uma série de “animosidades”, como afirmam os próprios agentes da unidade. Os motivos destes presos se colocarem na “ala dos seguros” gira em torno de dívidas de droga que possuíam na rua, antes de entrar na penitenciária, ou que passaram a ter na própria unidade; rixas entre grupos rivais da cidade de Uberlândia e arredores; cometeram crimes rejeitados pelos próprios presos, como os sexuais; mas o mais surpreendente caso da “ala dos seguros” são os homossexuais que não têm sua condição respeitada pelos demais presos e são, por isso, rechaçados e excluídos. Assim, observa-se que, enquanto os negros sofrem veladamente o preconceito que lhes é imposto e refletido na penitenciária a partir da sociedade, os homossexuais são vitimas de discriminação e preconceito explícitos e incisivos por parte dos outros presos. Isto ocorre apenas com os homossexuais masculinos. Na ala feminina, casais de lésbicas, além de comuns, não são tratados de forma discriminatória pelas outras apenadas. Com este panorama fica evidente a urgente necessidade de não só o movimento negro, mas também o LGBT (Movimento de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) se organizarem na luta por seus direitos, tal como tem acontecido em todo o Brasil. Grandes marchas contra o racismo e a homofobia aglomeram cada vez mais pessoas, pertencentes ou simpatizantes ao movimento e que clamam por mudanças. Os presos da “ala dos seguros” nunca se misturam com os demais, seja nos banhos de Sol, nas aulas ou durante o trabalho. Entretanto, devido à sua condição de excluídos, possuem minimamente uma coesão entre si, independente dos motivos que os levaram a estar nesta ala. Outra característica deste grupo é que seus sujeitos são também mais assíduos e interessados no que tange à escola e ao trabalho oferecido para eles na penitenciária. Ambas as atividades funcionam como ressocializadoras e permitem a remissão de suas penas. Para cada três dias de trabalho o preso tem um dia abatido de sua pena. O trabalho, que gira em torno de seis e oito horas diárias, em parceria com outras empresas é a montagem de micro aspersor (irrigação), confecção de luvas e de uma roupa especial para canavial. Existem presos que fazem trabalhos de manutenção, jardinagem e pintura da unidade prisional e o refeitório também possui uma presa que trabalha. Alguns recebem um terço do salário mínimo por seu trabalho, 253 os outros dois terços vão para sua conta judicial e para ressarcimento do Estado. Para exercer qualquer atividade na penitenciária é necessário que esteja na escola, o que permite que mais apenados frequente a instituição de ensino ali presente e possam obter uma formação humana enquanto têm sua liberdade restrita. O problema do Sistema Penitenciário brasileiro e da questão do racismo ali presente é muito profundo. Tem ocorrido por séculos de continuo descaso, corrupção e extrema falta de respeito para com os extratos sociais mais excluídos de direitos políticos, sociais e econômicos. Entender como se produziu essa exclusão é papel de todo cidadão que acredita numa transformação real do panorama que podemos observar atualmente. Obviamente, este recorte racial feito com o estudo da penitenciária Pimenta da Veiga pode ser observado todos os dias, nos mais diversos locais e situações. Já não é mais possível ignorar as contradições que o sistema capitalista nos apresenta e certamente a aqui exposta é só mais uma dentre as tantas existentes. Entretanto, é possível observar como alternativas dadas aos presos são de extrema importância para o papel ressocializador da prisão. A educação e trabalho ali oferecidos, na Pimenta da Veiga e demais unidades penitenciárias, deve ultrapassar a lógica imediatista a fim de explorar a capacidade pedagógica que estas duas ferramentas possuem. Colocar todo o peso da violência de nossa sociedade nas mãos destes indivíduos que tiveram sua liberdade restrita por praticar tal violência, é um erro que não devemos cometer. A violência que os levou a estar na penitenciária é a mesma violência que naturalizamos para as nossas vidas, a mesma que historicamente se tornou um mito arraigado nas profundezas de cada um que não só ignora as debilidades de nossa atual realidade, mas o poder que temos nas mãos para combatê-las. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CHAUÍ, Marilena. Contra Violência. 2007. Disponível em: http://www.fpa.org.br/contra-violencia-por-marilena-chaui. Acesso em 01/09/2011. BRASIL. Lei nº 7.209, de 11 de Julho de 1984. Exposição de motivos da nova parte geral do código penal. BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de Janeiro de 2003. Presidência da república, casa civil e subchefia para assuntos jurídicos. 254 JORNAL ESTADO DE SÃO PAULO, 25 de Janeiro de 2008. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,reincidencia-de-presos-chega-a70,114805,0.htm. Acesso em 01/09/2011. PROGRAMA DE REDUÇÃO DA VIOLÊNCIA LETAL CONTRA ADOLESCENTES E JOVENS. Índice de Homicídios na Adolescência (IHA). 2009. RUDNICKI, Dani. Prisão, direito penal e respeito pelos direitos humanos. In: Violência no tempo da globalização. José Vicente Tavares dos Santos (organizador). São Paulo: Editora Hucitec, 1999. ANEXO Roteiro de perguntas feitas para os coordenadores, administradores e agentes da penitenciária Pimenta da Veiga, em Uberlândia como forma de pesquisa empírica sobre o racismo e suas linguagens neste local: 01) Qual é a área da penitenciária? 02) Como se dá o funcionamento da penitenciária como um todo? 03) Quando ela foi fundada? Houve algum tipo de reforma estrutural desde então? 04) Ela foi construída para comportar quantos apenados? Quantos homens e quantas mulheres? 05) Quantos apenados estão aqui hoje? E quantos agentes penitenciários? 06) O Senhor(a) consegue fazer uma estimativa de quais são os principais crimes cometidos pelas pessoas encarceradas e uma aproximação do tempo que elas devem cumprir aqui? 07) Qual a média do grau de escolarização dos apenados(as)? 08) Como é a relação entre os apenados(as)? É conturbada? Existem grupos ou “facções” presentes na penitenciária? 09) Há ocorrência de agressão entre os apenados(as)? De que tipo: física, verbal, moral? Como é esta agressão? 10) Como você vê a questão da discriminação racial tanto dentro quanto fora da penitenciária? 11) Como você caracterizaria a presença do negro(a) na penitenciária? São maioria? Há uma forte afirmação entre eles? 255 12) A caracterização do negro se dá apenas pela tonalidade da cor da pele? 13) Como se dá a relação entre negros e não negros? 14) Existe algum tipo de preconceito explícito? Se sim, como ele é tratado dentro da penitenciária? É visto como uma forma de violência? 15) Outros grupos específicos, como homossexuais ou religiosos, sofrem preconceito na penitenciária? 16) Quais são os apelidos mais peculiares existentes entre os apenados? 17) Quais são as gírias e termos mais utilizados pelos apenados? Há algum com conotação racista? 18) É possível identificar piadas ou brincadeira de tom racista ou discriminatório? 19) Como se dá a relação entre apenado e agente penitenciário? Como eles se referem um ao outro? 20) Como é a relação dos apenados(as) dentro da escola Mário Quintana? 21) É possível perceber uma mudança do comportamento deles(as) dentro e fora da escola? 22) É possível perceber uma diferenciação do tratamento entre os apenados(as) que frequentam e os que não frequentam a escola? 23) Há algum debate na escola sobre a questão do negro na história e na sociedade atual e sobre sua cultura? >Se sim, como se dá este debate? >Se não, quais são os motivos da ausência deste debate? Você acredita que se tal debate existisse haveria uma maior afirmação do negro na penitenciária e menos práticas racistas? 256 PARTE V VOVÓ MARIA JOANA Mãe de santo, rezadeira, líder comunitária, fundadora da escola de samba Império Serrano e divulgadora do jongo. Graças a sua atuação e a de sua família, o jongo transformou-se em patrimônio imaterial. Maria Joana Monteiro nasceu em 24 de junho de 1902, na Fazenda Saudade, perto da Fazenda Bem Posta, em Valença/RJ. Aprendeu a ler e a fazer trabalhos manuais na fazenda, cuja dona era sua madrinha. Aprendeu a dançar jongo na fazenda onde nasceu. Quando seus padrinhos morreram, foi para o Rio de Janeiro viver com o pai, pois sua mãe já era falecida. Logo depois seu pai morreu. Com doze anos foi exercer a atividade de ama-seca em Cascadura. Casou-se aos 14 anos com Pedro Francisco Monteiro, carregador do Lloyd Brasileiro, jongueiro, músico e pai dos seus 14 filhos, dos quais só dois sobreviveram. Morou 12 anos no Morro da Mangueira, mudando-se depois para a Serrinha, onde viveu o restante de sua vida. Depois de casada, através de um vizinho da Mangueira, que havia se mudado para a Serrinha, foi convidada com seu marido para participar de uma roda de jongo na casa de Seu Antenor. A partir de então, não parou mais de dançar e participar do jongo. Quando ficou viúva, casou-se novamente com o alemão Frederico Kemper, com quem viveu por 7 anos, enviuvando novamente depois de um acidente. Aos 27 anos, começou a desenvolver a mediunidade iniciando suas atividades como Mãe de Santo na Tenda Espírita Cabana de Xangô (umbanda), em um espaço dentro de sua própria casa. Também era rezadeira bastante requisitada na Serrinha e como tal tornouse líder da comunidade, principalmente por ser respeitada e ter a confiança de todos. Foi integrante da escola de Samba “O prazer da Serrinha” e fundadora da escola de samba Império Serrano. Pessoa influente na comunidade era parteira e mãe de santo que tinha entre seus filhos de santo, a cantora Clara Nunes. O trabalho de Vovó Maria Joana e de sua família permitiu que a Serrinha fosse a última comunidade urbana do Rio a preservar o jongo. Hoje o jongo é patrimônio imaterial. Vovó Maria faleceu no Rio de janeiro, em 27 de fevereiro de 1986.1 1 Ver mais em http://www.acordacultura.org.br/herois/ 257 O BANQUETE “ROSA”: A PREPARAÇÃO, O RITUAL E A COMILANÇA NA COZINHA CONGADEIRA Antônio Augusto Oliveira Gonçalves Universidade Federal de Uberlândia – UFU Graduando em Ciências Sociais – INICIS Bolsista do PET Ciências Sociais [email protected] Orientadora: Profa. Dra. Mônica Chaves Abdala Universidade Federal de Uberlândia – UFU Instituto de Ciências Sociais – INICIS [email protected] Co-orientador: Jeremias Brasileiro Universidade Federal de Uberlândia – UFU Mestrando em História – PPGHIS [email protected] Meu São Benedito Chegô no quartel Fez tanta comida Que encheu o céu. (BRASILEIRO, 2001, p. 96) O presente artigo procede de uma pesquisa de campo realizada na cidade de Ituiutaba (MG) no mês de maio de 2011. A análise a ser desenvolvida na festa da Irmandade de São Benedito, por meio de uma abordagem etnográfica, tem um recorte específico, o Terno1 Moçambique Camisa Rosa. Na ocasião, este terno comemorava o seu sexagésimo aniversário, uma data singular para a história do mesmo, pois nesse ano o desfile ocorreu sem a presença da matriarca, Geralda Ramos de Oliveira2. Foi possível observar que o sentimento de ancestralidade, pertença cultural e congraçamento não são expressos somente na ocasião da festança, mas também durante o ano todo na preparação ritual do terno. 1 Segundo dados da Irmandade de São Benedito (2007), em outras regiões os ternos são conceituados como confrarias, grupos, guardas ou batalhão, ao passo que, no Triângulo Mineiro a denominação mais comum é o terno. Cada terno tem vestimentas, cantos, ritmos e danças diferentes. 2 Dona Geralda faleceu em meados de outubro de 2010. 258 O objetivo proposto está centrado na análise da preparação e organização social dos banquetes coletivos que acontecem nos dias das Congadas. A importância da escolha deste Terno de Moçambique se justifica pelas seguintes características: é o Terno mais antigo da cidade, portanto esteve na vanguarda do movimento congadeiro e ajudou a galgar os espaços simbólicos e geográficos necessários para a consolidação da festa; no festejo de maio de 2011 o Terno completou aniversário e esteve em destaque nos meios informativos e midiáticos. Cabe enunciar a diferença conceitual entre Congado e Congadas.3 Conforme o historiador e pesquisador Jeremias Brasileiro (2006, p. 17) em sua monografia: “Congado em Uberlândia: espaço de resistência e identidade cultural, 1996-2006”, as Congadas são o produto final do Congado. Esse último consiste na preparação dos Ternos, nos leilões, novenas e terços realizados durante o ano todo e a primeira na festa em si. Por isso Brasileiro (2009, p. 107), em seu texto: “Aspectos socioculturais do congado de Uberlândia: cultura, tradição e modernidade”, sublinha que é uma tarefa complexa determinar com precisão a localidade onde ocorrem esses preparativos. “A festa do Santo Preto”, livro do antropólogo Carlos Rodrigues Brandão (1985), tem como foco a análise das Congadas de Catalão, no sudeste goiano (GO). No texto “A Congada” Brandão enfatiza a fecundidade da definição de um dos capitães ao conceituar o Congado como “a reunião de todos os ternos”, isto é, o conjunto de confrarias e as relações estabelecidas entre elas. O autor não diferencia claramente Congadas de Congado, conforme conceituado por Brasileiro. Para a concretização dos banquetes coletivos e realização das Congadas, a antropóloga Juliana Calábria (2008, p. 97), em sua dissertação “Distintas possibilidades de negritude e tradição: um estudo sobre a festa de Nossa Senhora do Rosário de Uberlândia – MG” enfatiza a preeminência dos leilões, dos sistemas de arrecadação entre os comerciantes locais, e da contribuição financeira repassada à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário pela Prefeitura de Uberlândia aos ternos da cidade. No Terno Moçambique Camisa Rosa observa-se uma estrutura análoga à analisada por Calábria e Brasileiro. A arrecadação dos alimentos e doações necessárias para a 3 A partir desse ponto, utilizarei a distinção elaborada por Brasileiro (2006) entre Congado e Congadas. 259 constituição dos banquetes se dá por meio de leilões. Os vizinhos, amigos e familiares convidam o Terno para visitação da casa, oferecem alguma prenda e procedem com a realização do leilão, sendo que este acontece uma vez ao dia. Geralmente são doados enfeites, alimentos, bebidas e artigos diversos. Segundo Calábria (2008), a realização dos leilões garante certa autonomia aos ternos, uma vez que estes não ficam exclusivamente dependentes das doações da Prefeitura e da Irmandade. Visto que, segundo entrevistas e relatos orais realizados no trabalho de campo, o Terno Moçambique Camisa Rosa recebe um subsídio financeiro no valor de R$ 1000,00 (mil reais) da Prefeitura de Ituiutaba, tal auxílio não é suficiente para a concretização dos banquetes, confecção das vestimentas, a compra e reforma dos instrumentos musicais sendo, portanto, indispensável à organização de leilões. Na composição de um espaço geográfico próprio do Congado, na cidade, o Terno percorre caminhos de acordo com os convites realizados por familiares, amigos e parentes que possuem afeição pela confraria. Entretanto, ele obedece ao princípio da circularidade, isto é, no seu percurso ritual o Terno não pode retroceder e nem cruzar caminhos, o que é ratificado nas palavras de uma cozinheira: “Não se pode cruzar, somente quando dá a volta na cidade que pode leiloar”.4 A importância do sistema de leilões está imbricada com a fartura dos banquetes, do alimento na cozinha. E a cozinha congadeira está relacionada à imagem do padroeiro da festa e da Irmandade, uma vez que a Irmandade de São Benedito tem como patrono um santo cozinheiro e negro. Um dos capitães narra a história de vida do santo: [...] O São Benedito viveu a vida inteira no convento e lá no convento ele era cozinheiro entendeu? Foi chefe de cozinha, ele São Benedito chegô a ser chefe do convento ai quando passô esse período dele ele voltô a fazer o que fazia antes, que é cozinhar, dizem que é o santo mais humilde São Benedito, e por isso quem tem a imagem pequena de São Benedito guardam na cozinha.5 Conforme descrito acima, os aspectos simbólicos e significativos da comida e da negritude são expressos na imagem de São Benedito. O congraçamento na cultura 4 Entrevista com SILVA, Nildete, Ituiutaba, 15 de maio, 2011. Imaginemos 5 casas no perímetro urbano, dispostas na seguinte ordem: A, B, C, D, E. Os moradores das casas A, B e D convidam o Terno para realizar o leilão, e o morador da casa C não o faz. Contudo, em um momento posterior, após a realização do ritual nas demais residências, ele realiza o convite. Ele deverá aguardar a volta completa no entorno da cidade para que o Terno retorne à sua residência. 5 Entrevista com OLIVEIRA, Francis, Ituiutaba, 15 de maio, 2011. 260 congadeira, através de rituais no ato de alimentar, é um produto visível da pertença identitária que o grupo possui para com o santo, assim como as indumentárias, as danças, os ritmos e os cantos realizados no decorrer da festa. A criação da Irmandade de São Benedito coincide com a história do Terno Moçambique Camisa Rosa, como também com o início do Congado na cidade de Ituiutaba. É em si uma história peculiar nas suas múltiplas dimensões. Segundo Naves e Katrib (2008), o Terno foi fundado em 1951 pelo senhor Demétrio Silva da Costa6, “Seu Cizico”, com o intuito de homenagear sua esposa Geralda Ramos de Oliveira. Em meados de 1957, o padre João Ave autorizou, sob os preceitos da Santa Madre Igreja, a criação da Irmandade de São Benedito, constituída por dois ternos: Congo Camisa Verde e Moçambique Camisa Rosa. De acordo com informações de alguns entrevistados, em 1963 o Terno Moçambique Camisa Rosa recebeu esta denominação devido a um fato histórico: “Seu Cizico” e os demais integrantes do Terno, no desfile daquele ano, com vestimentas brancas, se direcionaram à entrada central da Igreja de São Benedito, entretanto o pároco fechou as portas. Os congadeiros prosseguiram pela porta lateral, na qual se depararam com uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, com flores naturais do mês de maio (rosas) a seus pés. O capitão da confraria cantou alguns versos em homenagem à santidade e enfatizou que a partir daquele momento o Terno se denominaria Moçambique Camisa Rosa. Uma senhora que possuía um pequeno cômodo de costuras e presenciou o ocorrido ofereceu ao “Seu Cizico” tiras de fitas rosa, com as quais os congadeiros adornam seus chapéus e vestes. Nota-se, com nitidez, que a história do terno está intrinsecamente ligada à imagem de São Benedito, um santo preto e cozinheiro, muito presente nos rituais de preparação de comida na festa do Congado, bem como à imagem de Nossa Senhora de Fátima, na cor do vestuário. Nas cozinhas congadeiras é comum a presença de pequenas esculturas de São Benedito dispostas em armários, balcões, enfim, sempre no alto, denotando a fé. 6 Faleceu em meados de julho de 1964. 261 A PREPARAÇÃO “ROSA” Para o sociólogo Max Weber (2003), a realidade é infinita e apresenta múltiplas possibilidades. Segundo o autor é impossível um estudo que consiga abarcar a infinitude da realidade social. Para tanto, é fundamental o recorte do objeto de estudo, transformando a infinitude em uma parte finita. O pesquisador, por meio da relação com os valores, na terminologia weberiana, recorta o objeto de análise científica. Devido a algumas leituras prévias sobre a importância social da comida, não encontrei muitas dificuldades em recortar o meu objeto de estudo, a organização social por detrás dos banquetes coletivos e a sua preparação ritual. Digo, de antemão, que um dos grandes desafios do trabalho antropológico e etnográfico é “desnaturalizar” o discurso social. Este, na concepção de Geertz, é naturalizado pelos sujeitos imersos em seu fluxo. A etnografia que propus desenvolver foi respaldada na matriz teórica e metodológica do antropólogo americano Clifford Geertz (1978), para o qual o trabalho etnográfico consiste em registrar, anotar o “discurso social” e torná-lo passível de pesquisa. O autor sublinha que nessa ação o antropólogo efetua uma descrição densa e transforma o fato em uma inscrição, um relato que pode ser averiguado quantas vezes for necessário. Essa descrição densa apresenta alguns aspectos essenciais: interpreta o fluxo do discurso social - a interpretação busca resgatar o “dito” no discurso social a fim de fixá-lo em modos pesquisáveis - e é microscópica. O objetivo antropológico nessa descrição é o “alargamento do universo do discurso humano” (GEERTZ, 1978, p. 24). Considerados esses aspectos constituintes e fundamentais do trabalho etnográfico, iniciei uma descrição densa do trabalho de campo. No inicio do mês de maio de 2011 tive a oportunidade de participar de uma oficina sobre cultura negra, ministrada pelo antropólogo Carlos Rodrigues Brandão, programada para ocorrer dias antes da festa da Irmandade de São Benedito na cidade de Ituiutaba.7 Na oficina, Brandão apresentou as múltiplas possibilidades de análise e pesquisa da festa. Assim, esta pode ser compreendida enquanto uma realidade infinita passível de estudo 7 A oficina foi realizada no Campus Pontal da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e durou até o dia da festa. 262 sobre variadas facetas ou dimensões. Nesse sentido, o antropólogo expôs as possibilidades de pesquisa pela dimensão antropológica, geográfica e histórica. No enfoque antropológico, o que se pesquisa é o processo ritual enquanto uma série de ações relacionadas e concatenadas visando algo maior do que elas mesmas, a esfera simbólica, cultural e social. Após alguns dias da oficina, na qual pude aperfeiçoar meus conhecimentos sobre a cultura congadeira da cidade de Ituiutaba, através de diálogos e conversas com os próprios integrantes do evento, dentre os quais muitos eram componentes do movimento congadeiro, pude selecionar entre os sete ternos da Irmandade de São Benedito8, um terno específico. Esta opção foi devida à limitação do tempo de pesquisa e com isso a impossibilidade do estudo de todos os ternos. Portanto, optei pela pesquisa do terno Moçambique Camisa Rosa, que é o mais antigo da cidade e um dos atores vitais na criação da Irmandade de São Benedito. Os primeiros contatos com os membros do terno foram no quartel do mesmo. Nas primeiras conversas ocorridas, um dia antes do festejo, não encontrei grandes obstáculos nas respostas dos meus questionamentos de pesquisa. Os componentes se mostraram receptivos e logo me encaminharam até a cozinha. Notei, nos primeiros relatos de entrevistas, que as cozinheiras da véspera da festa eram, em grande parte, as mulheres dos capitães e as mães dos dançadores. Enquanto as últimas cuidavam do preparo inicial dos alimentos, como “catar feijão”, corte do alho, cenoura, mandioca, abobrinha e couve, as primeiras se ocupavam do cozimento final dos alimentos tal como a carne e o feijão. Observei que alguns vegetais crus, como cenouras, chuchus, cebolas, abobrinhas estavam imersos na água. As cozinheiras, quando questionadas sobre o objetivo de deixálos assim, me responderam que era para prepará-los para o corte e/ou cozimento, facilitando a elaboração das saladas cruas e cozidas servidas no banquete. Não havia um único tipo de carne, mas uma variedade mesclada (carne bovina, suína e de frango) cozendo em grandes panelas de metal sobre fogões industriais. O feijão, por sua vez, se restringia a uma única espécie, o “carioquinha”. Posteriormente a algumas entrevistas e indagações 8 De acordo com Naves e Katrib (2008), a festa da Irmandade de São Benedito é constituida por 7 (sete) ternos de Congado da cidade de Ituiutaba e outras confrarias de cidades próximas. Os autores enfatizam que, no inicio, a Irmandade era composta por 100 pessoas e, atualmente, tem mais de 600 integrantes. Para maiores detalhes ver: NAVES, Fernanda Domingos; KATRIB, Cairo Mohamad Ibrahim. Cultura, identidade e religiosidade: mapeamento e reconstrução histórica do congado de Ituiutaba - MG. 2008. Relatório (Iniciação Científica). Faculdade de Ciências Integradas do Pontal. Universidade Federal de Uberlândia. 263 com os sujeitos, fui convidado a jantar no quartel junto aos demais membros da confraria. Durante o jantar, são comuns conversas e diálogos sobre os preparativos das Congadas. Ao final, a presidente da Irmandade, e cozinheira na ocasião, me convidou para acompanhar a preparação do banquete, no domingo de festa. Enquanto pesquisador constatei que a preparação dos alimentos e a organização social existente é uma tarefa imprescindível para o acontecimento dos banquetes. Maciel (2001), estudiosa em antropologia da alimentação, lembra que existe uma distinção fundamental entre o ato alimentar (biológico) e o ato culinário (humano). Este último é intrinsecamente ligado à cultura humana. O homem faz do ato de comer um ato simbólico e cultural, ele corta, tempera, cozinha, e até mesmo ornamenta o alimento. A sucessão de diversos atos de preparo do alimento e o tempo gasto para isso denotam uma peculiaridade humana, ao passo que, entre as demais espécies, a alimentação está intimamente vinculada aos aspectos fisiológicos e instintivos. Em outras palavras, os animais apenas saciam a fome sem nenhuma preparação do alimento. A preparação “rosa” corresponde a esse ato culinário. Os moçambiqueiros rosas preparam o alimento, fazem uso de um tempo considerável para torná-lo comestível, até mesmo existe uma preocupação com a ornamentação destes. Nas saladas, as cozinheiras não salpicam o sal de imediato com intuito de não deixar alguns alimentos “murchos”. Assim, aguardam até o momento de servir para temperá-las, ou seja, existe o cuidado com a elaboração do alimento. A distinção fundamental da preparação “rosa” e de outras culturas alimentares é na escolha dos alimentos. De acordo com Fischler, citado por Maciel (2001, p. 147): [...] a variedade de escolhas alimentares humanas procede, sem dúvida, em grande parte da variedade de sistemas culturais: se nós não consumimos tudo o que é biologicamente ingerível, é porque tudo o que é biologicamente ingerível não é culturalmente comestível. Ainda conforme Fischler existem infinitas possibilidades de escolhas culinárias na cultura humana. A estrutura fisiológica humana faz a ingestão de diversos tipos de alimentos, no entanto, não coincide com a escolha dos sistemas culturais alimentares específicos. Essa seleção é determinada por um sistema cultural, um arbitrário cultural, o qual seleciona, culturalmente, o que é comível do que não é comível. O cardápio da 264 preparação “rosa” é comível e aceitável culturalmente para o sistema cultural congadeiro, todavia talvez este não fosse aceitável por outra cultura alimentar, por exemplo, a indiana.9 O CAFÉ PRETO AO SANTO PRETO Ao retornar ao terno no domingo de festa para acompanhar a preparação do banquete, por volta das 9 (nove) horas da manhã, indaguei as quatro cozinheiras sobre os possíveis rituais que norteiam a organização do banquete, isto é, algo que antecede a própria preparação. Todas haviam realizado aproximadamente o costume descrito abaixo: Vô te falá como que o santo faz. Vamos supô que ocê levanta 6 horas da manhã, aí ocê vai lá faz seu café, antes docê tomar seu café, cê vai lá e coloca na xícara de São Benedito, primeiro para ele depois a gente. Aí a gente reza o pai nosso oiando pra ele e agradece a Deus pelo alimento que a gente tem dentro de casa e pede a ele que nunca falte. Depois que eu bebo meu café a xícara dele fica lá dia e noite sem tirá do lugar só tira na hora de colocar o café para ele notro dia. Tem dia que tem café e tem dia que não tem! [...] Arha, ele bebe o café!10 Esse comportamento descrito pelas cozinheiras, em conversas e diálogos no momento da preparação, é conceituado por elas como algo reincidente na cultura congadeira dos ternos na cidade de Ituiutaba. Isso denota claramente como a imagem de São Benedito é onipresente na composição cultural dessas confrarias. Considero o costume acima um ritual. Para o antropólogo Roberto da Matta (1983, p. 65), em seu texto “Mecanismos básicos de ritualização”, os ritos não constituem momentos ou situações substancialmente diferentes daquelas observadas no mundo cotidiano. O âmbito do ritual é fornecido através de combinações e relações desse mundo e não por meio de modificações essenciais dele e de suas relações sociais. Segundo o autor, os rituais são maneiras de sublinhar características do mundo habitual e corriqueiro. Da Matta destaca que a matéria prima do mundo ritualizado é a mesma do mundo cotidiano e as nuances entre ambos não se dão pela qualidade, mas pelo grau de clareza das mensagens sociais emitidas através dos momentos ritualizados. Assim, uma xícara de café no mundo cotidiano e a mesma na homenagem a São Benedito se tratam de uma idêntica matéria prima. O que as distingue 9 O exemplo faz referência ao tabu alimentar muito conhecido do não consumo de carne bovina na Índia, por ser um animal sagrado cria-se uma restrição alimentar. Portanto, o cardápio “rosa” não seria aceito no sistema cultural indiano, visto que este é repleto de diversos tipos de carnes, dentre elas, a bovina. 10 Entrevista com SILVA, Nildete, Ituiutaba, 15 de maio, 2011. 265 são os tipos de combinações, suas relações sociais, ou seja, o grau elucidativo do discurso social. No ato de oferecer a primeira xícara e não qualquer outra a São Benedito é colocado “em foco, em close up, de um elemento e de uma relação.” (DA MATTA, 1983, p. 65) A primeira xícara de café é um elemento mediador, ela denota a fé, o congraçamento das cozinheiras para com o Santo Preto. A simbologia disso transcende a própria xícara e atinge o aspecto sobrenatural da fé. As cozinheiras, como observado nos relatos de entrevista acima, realizam a oferenda do café preto ao Santo na crença de que a consequência disso é a fartura de alimentos na cozinha. Em outras palavras, movidas pela fé a São Benedito realizam o ritual. O produto da fé é a crença na fartura do banquete, por isso a assiduidade na prática do ritual. Enquanto a não continuidade deste denotaria a escassez. A COZINHA CONGADEIRA As cozinheiras, após a realização do ritual do café preto, prosseguem com a preparação do banquete iniciado no sábado. Observei que havia quatro delas responsáveis pelo almoço festivo, sendo que tinham entre 40 a 50 anos, além de serem mães dos tocadores e dançadores do terno. No sábado, o ambiente culinário era composto por essas mães e as esposas dos capitães. Entretanto, no domingo, essas últimas assumiam outras funções, acompanhavam o desfile, andavam pelas margens nas calçadas das ruas tijucanas servindo água aos capitães, tocadores, dançadores e meninas do estandarte. Havia uma clara distinção das tarefas atribuídas a cada uma das cozinheiras de domingo, enquanto uma cortava a mandioca outra aquecia a carne para a preparação da “vaca atolada”11 e assim sucessivamente. Vale enfatizar que essa divisão do trabalho na preparação do banquete não foi imposta a elas pelos demais integrantes do terno, mas algo combinado previamente. De acordo com Katrib (2011, p. 31), a conservação da fartura nesses almoços só é possível através da cooperação coletiva, das doações de comerciantes e da própria doação de trabalho. O pesquisador de congadas enfoca que a realização desses banquetes não expressa somente momentos de confraternização entre as pessoas, mas algo que transcende. 11 Cozido feito com mandioca e carne de vaca, geralmente é utilizada a costela. O prato foi feito com costela bovina e “costelinha” de porco. 266 Os banquetes exprimem acontecimentos sagrados, ao mesmo tempo em que momentos oportunos e fecundos da renovação e reavivação dos laços de sociabilidade. Segundo Katrib, grande parte das cozinheiras, na culinária congadeira, elabora os pratos com sabores e saberes peculiares, assim não existe uma receita prévia de como preparar um suculento “tutu de feijão” ou qual a medida certa de pimenta na deliciosa macarronada salpicada com fartas porções de queijo ralado. As cozinheiras professam o que o autor denomina de memória congadeira, elas aprenderam a fazer na prática com suas mães, tias e avós. É uma bagagem cultural que perpassa gerações e torna possível concretizar os saberes nos sabores. Assim, as cozinheiras do terno em nenhum momento tinham papéis ou cadernos de receitas para auxiliá-las na preparação dos pratos, estas seguiam uma memória congadeira aprendida e transmitida. O quintal do quartel se transformava em um ambiente culinário, uma fonte de aromas, cheiros e sensações que se propagava por toda a casa. Nele havia tendas de lona e estruturas metálicas, fogões industriais e mesas de madeira. Saladas, ornamentadas com folhas de alface e grandes rodelas de cebola, cenouras raladas, chuchu picado e cozido, abobrinha “batida” se desdobravam sobre as mesas. O arroz e o macarrão coziam dentro de panelas industriais em grandes quantidades propiciando a fartura do banquete. O arroz contava com uma “técnica” singular para auxiliar no cozimento, assim as cozinheiras utilizavam as próprias embalagens, abrindo-as e estendendo-as sobre o mesmo. A “técnica”, segundo as congadeiras, objetiva deixar o arroz “soltinho”. O cardápio “rosa” era composto por pratos quentes e frios, dentre eles: a temperada “vaca atolada”, o arroz, variadas saladas, “tutu de feijão”, couve refogada, carne suína e bovina, frango ao molho e a apetitosa macarronada. Ao ouvir os primeiros ruídos de batuques, cantorias e louvores anunciando a chegada dos congadeiros, as cozinheiras apressam os preparativos e colocam os primeiros pratos sobre a mesa. A efervescência do banquete se aproxima, na medida em que os sons dos instrumentos, gungas e patagomas se tornam mais intensos. Os congadeiros adentram o quartel, primeiro os ternos visitantes: Congo Beija Flor e o Moçambique Renovação Esperança, ambos do município de Centralina (MG), seguidos do terno anfitrião, Moçambique Camisa Rosa. O banquete é servido pelas mulheres às mães de capitães, aos tocadores e aos dançadores. Cada uma serve um prato específico. Existe um processo ritual no ato de servir 267 a comida, assim a congadeira que serve a macarronada não serve o arroz, o tutu e as saladas e vice-versa. Os homens não podem entrar nas tendas destinadas à preparação do banquete e também não servem a comida. O ato de servir é tarefa privilegiada das congadeiras, conforme se observa na foto abaixo: O servir “rosa”. Foto: Acervo do pesquisador, Quartel do Moçambique Camisa Rosa. Maio, 2011. Os integrantes dos ternos formam uma única fila, na qual é servido o almoço coletivo. A comida é colocada em recipientes de isopor acompanhados por talheres de plástico. Os ternos visitantes são servidos antes do terno anfitrião. “É uma questão de educação, primeiro né, então você serve a visita e depois você vai se servir até porque é uma forma de não deixar a visita esperando”12, destaca um dos capitães. Conforme a socióloga da alimentação Mônica Chaves Abdala13, citada por Katrib (2011, p. 31), para os mineiros a fartura desses almoços coletivos denota a veemência de sua hospitalidade. Os ternos visitantes são recepcionados por dois capitães do terno anfitrião no portão de entrada do quartel, enquanto outro capitão os aguarda na fila para o inicio do banquete. A fartura 12 Entrevista com OLIVEIRA, Francis, Ituiutaba, 15 de maio, 2011. Sobre hospitalidade e os costumes mineiros na cozinha conferir: ABDALA. Mônica Chaves. Receita de Mineiridade: a cozinha e a construção da imagem do mineiro. Uberlândia: EDUFU, 1997. 13 268 dos almoços coletivos retempera os laços sociais simbolizando a hospitalidade, um traço peculiar do mineiro como também do moçambiqueiro. Ao término do banquete, os ternos visitantes realizam cantorias ao som dos instrumentos em agradecimento aos santos padroeiros e à presidente da Irmandade pelo compartilhar da comida. O terno anfitrião segue o mesmo processo ritual. Após se deleitarem com os diversos sabores e saberes da cultura moçambiqueira os congadeiros e congadeiras prosseguem com o desfile. A organização social por detrás do banquete “rosa”14 exprime uma análise criativa dos almoços. Relaciono esse aspecto significante da vida social com um acontecimento paradigmático, classificado por Geertz (1978) como aquele que coordena e traz a foco uma ampliada quantidade das impressões da vida humana, impressões essas que geralmente se encontram espaçadas e frouxas no fluxo da vida cotidiana de cada indivíduo. Entendo por essas impressões as sensações, aromas, temperos, sabores, gostos, até então não sistematizados na memória dos moçambiqueiros. Essas sensações e sabores inerentes à cozinha congadeira se apresentam durante o ano todo, na memória do moçambiqueiro, de forma fragmentada e efêmera. Porém, na festa da Irmandade de São Benedito, no momento de deleite do almoço, as sensações, aromas, e gostos são sistematizados, relacionados uns com os outros. O banquete “rosa” sistematiza e dá foco aos sabores e aromas da culinária congadeira. Isso se realiza através dos moçambiqueiros, indivíduos capazes de reunir, vale dizer, “costurar” todos aqueles elementos efêmeros de sua vida cotidiana num único acontecimento paradigmático, repleto dos mais variados aspectos simbólicos. Ainda segundo Geertz (1978), as formas artísticas são capazes de influenciar a subjetividade, criando e ressignificando o que elas se propõem a exibir. Isso é justamente o que acontece no banquete “rosa”, que gera, instiga e origina a subjetividade no que se relaciona aos sabores, temperos, aromas, gostos, dentre outros, que são reunidos naquele momento pelos moçambiqueiros. A “vaca-atolada”, arroz, feijão, macarronada, as diversas saladas, enfim, ganham um novo significado na subjetividade dos moçambiqueiros no momento do banquete “rosa”, vale dizer, do evento paradigmático. O banquete “rosa” 14 Sobre preparações e comidas servidas nos almoços de festas religiosas, incluindo as congadas em Minas, ver também: ABDALA, M. C. Sabores da cultura popular: tradições e mudanças. In: MACHADO, M.C. T.; ABDALA, M. C. (Org.). Caleidoscópio de saberes e práticas populares. Catálogo de produção cultural do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Uberlândia: EDUFU, 2007. 269 pode ser analisado pelo viés de uma obra de arte, o almoço se propõe a originar e regenerar as sensações e sabores, reafirmando a memória e tradições do grupo. CONSIDERAÇÕES FINAIS Durante o ano todo, esses sujeitos de fé se preparam para os festejos que ocorrem em maio. Os preparativos vão desde novenas até mesmo a realização dos leilões. Esses acontecimentos esporádicos antes da festa se integram com ela. No festejo a São Benedito, as tarefas desses sujeitos são materializadas, se tornam ilustrativas aos demais olhares. Na tessitura de ações das mães de capitães, de dançadores, de tocadores, e na força dos congadeiros é que o banquete se constitui. A fé em São Benedito é expressa desde os primeiros eventos em prol da festa, nas novenas, missas, nos leilões, e durante o próprio festejo. Assim, as congadeiras antes de iniciar o preparativo dos banquetes, oferecem a xícara de café ao Santo Preto. A cozinha congadeira adquire uma posição de ênfase durante o festejo, se transforma em lócus do congraçamento, das conversas informais, da doação de trabalho para a elaboração do almoço coletivo. As cozinheiras são componentes fundamentais na preparação do banquete, são o fermento na conservação identitária e cultural da própria confraria, como bem frisa Katrib (2011). Isso se torna expressivo no processo ritual de agradecimento dos congadeiros, quando as cantorias denotam a gratidão desses indivíduos pelo almoço servido e pelo trabalho, iniciado meses antes, de preparação dos integrantes do terno. O banquete é um acontecimento paradigmático na vida dos moçambiqueiros, que mescla fé, reconhecimento, sabores e saberes. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABDALA. Mônica Chaves. Receita de Mineiridade: a cozinha e a construção da imagem do mineiro. Uberlândia: EDUFU, 1997. 270 _________. Sabores da cultura popular: tradições e mudanças. In: MACHADO, M.C. T.; ABDALA, M. C. (Org.). Caleidoscópio de saberes e práticas populares. Catálogo de produção cultural do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Uberlândia: EDUFU, 2007. BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A festa do Santo de Preto, Rio de Janeiro: FUNARTE/ Instituto Nacional do Folclore; Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 1985. BRASILEIRO, Jeremias. 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São Paulo: Ática, 2003. 272 ANGOLEIROS E CONGADEIROS: ENTRELAÇANDO OS CANTOS NEGROS César Paulo Silva Universidade Federal de Uberlândia – UFU Núcleo de Estudos Afro Brasileiros – NEAB Graduando em História – INHIS Bolsista do PIBID-HCAFRO1 [email protected] Prof. Dr.Guimes Rodrigues Filho Universidade Federal de Uberlândia – UFU Instituto de Química – IQ Núcleo de Estudos Afro Brasileiros – NEAB [email protected] “As mãos negras que sobem e descem; os arames esticados dos berimbaus, os caxixis2 fazem os sons das cobras, as cabaças dão os sons melancólicos, os couros das caixas, e do atabaque; os sons sãos agudos e graves, conforme os tocadores tocam seus instrumentos e os dançadores jogadores se mexem e alguns entram em transe, as vozes cantam para seus Orixás. Mas quem canta e toca seus instrumentos? Os instrumentos movem os negros? Ou os negros fazem os instrumentos falarem? Não seriam os dois apenas um?”. (César Paulo Silva, Julho de 2011) A proposta deste trabalho consiste em forjar uma discussão a cerca da interface entre os cantos entoados no contexto Capoeira Angola3 e os cantos celebrados pelos Ternos de congado4. Para atender a esse proposito é necessária uma breve contextualização sobre a origem e os sistemas de ressignificações inerentes a Capoeira Angola e das festas do Congado em Uberlândia-MG. A Capoeira Angola é uma manifestação artístico-cultural que abrange o universo da dança, da música, da literatura, do teatro e da arte marcial. Brincadeira mandingueira que revela em si suas indiscutíveis origens africanas. Alguns estudiosos e mestres mais antigos acreditam que ela teve sua origem no Ngolo, ritual ancestral dos negros bantos do sul de Angola. O Ngolo, ou “dança da zebra”, conhecido também como Mufico, Efico ou Efundula, é um ritual que marca a passagem das meninas à vida adulta. Nessa dança ritualística dois lutadores competem e o objetivo é atingir o rosto 1 Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/CAPES - Sub-projeto História e Cultura Afro brasileira. Instrumento da percussão afrobrasileira mais popularmente conhecido pela parceria com o berimbau na capoeira, e reflexões de perspectiva etnomusicológica decorrentes da localização das origens deste instrumento e das transformações de seus usos e funções em contextos rituais e populares. Ver em: GALLO P. M. CAXIXI: Um exemplar da percussão afro- brasileira e sua contribuição para as reflexões de perspectiva etnomusicologica. Anais do I Simpósio Brasileiro de Pós Graduandos em Música & XV Colóquio do Programa de Pós Graduação em Música na UNIRIO, 2010. 3 Capoeira de Angola é um estilo das diversas modalidades de capoeira existentes no Brasil. 4 Os ternos são os grupos de congado compostos por mulheres, homens e crianças de todas as idades que se organizam a partir de características peculiares, com ritmo musical, instrumentos musicais, guias, patuás, roupas, danças e cores. 2 273 do adversário com o pé, o que condiz com os objetivos do jogo da Capoeira Angola. Nesse jogo o vencedor pode escolher sua esposa entre as meninas iniciadas à vida adulta. (YAHN, 2010, p. 02) No Brasil, a mão-de-obra escrava foi em grande parte proveniente da região Congo-Angola, de onde os negros foram trazidos como prisioneiros para o Brasil. Neste contexto os homens escravizados adaptaram os seus conhecimentos e a memória de suas manifestações culturais à necessidade de se defenderem dos feitores nas senzalas e à construção de uma resistência nos quilombos e em outros espaços sociais, como as irmandades, além de existir outras resistências como o aborto, suicídio e os Quilombos. Segundo o Prof. Leonardo Castro. O aborto foi freqüentemente provocado pelas escravas para não verem seus filhos na mesma situação degradante delas e também como meio de prejudicar o senhor, sempre interessado no aumento do número de crias. A reação pelo suicídio era uma forma do escravo em se libertar das condições subumanas em que vivia. O suicídio estava geralmente ligado a um momento de medo ou impasse em que o escravo se via indefeso diante da repressão do branco, sendo comum escravos se matarem após terem agredido ou matado um branco. A forma de resistência escrava mais temida pelos senhores era a fuga seguida da formação de aldeamentos coletivos, os quilombos. A fuga era para o escravo a solução mais simples contra a violência da dominação branca. O trabalho compulsório e excessivo, as precárias condições de subsistência, a degradação e o controle constante a que estavam submetidos predispunham os escravos a evasão, facilitada pela grande extensão de terras sem ocupação efetiva no país. (Disponível em: http://novahistorianet.blogspot.com/2009/01/escravido-e-resistncia-no-brasil.html Acesso em 01 de fevereiro de 2011) Assim, o NGOLO, que era tido como uma prática de homem livre na África transformou-se numa prática que concomitante a inúmeras outras ações como o aborto, demarcaram um sistema de resistência a politica de hostilidade imposto pela empresa colonial e pela busca de liberdade no Brasil. Para efeitos metodológicos busca- se embasar essa análise sob uma interpretação historiográfica que põe em tônica a existência das manifestações da resistência durante o período escravocrata a partir da perspectiva do povo negro em um contexto de diáspora, ressignificação e rememoração da sua cultura suplantada pelos interesses da sociedade escravocrata. Nesse sentido, a capoeira também faz parte desse processo de resistência que se estende como dispositivo de sociabilidade, ressignificação e integração entre o povo negro. E a esta manifestação de resistência negra deu-se o nome de Capoeira, palavra de origem indígena - caá-puêra. Macedo escreve. "Capuer", capoêra é pura e simplesmente o guarani caá-puêra, que significa o mato que foi cortado, atualmente mato miúdo que nasceu no lugar do mato virgem que se 274 derrubou. A proposta mais coerente considerada sobre a luta capoeira é do estudioso argentino, radicado no Brasil, Adolfo Morales de Los Rios Filho, onde, segundo sua lógica, o termo capoeira era empregado aos escravos carregadores, quase exclusivos dos grandes, cestos chamados "capu" (a justaposição do termo indígena "ca", que se refere a qualquer material oriundo da mata, da floresta, com "pu" referente a cesto, forma o termo "ca-pu", que significa cestos feitos com produtos da mata).5 (Disponível em http://www.reocities.com/Arte_Marcial_Brasileira/Introducao.htm Acesso em 25 de fevereiro de 2011) A Capoeira Angola, enquanto uma manifestação cultural originária da África tem como uma de suas características mais marcantes a capacidade de integrar as várias formas de expressão humana - artística, religiosa, econômica, pessoal, entre outros. É tal característica que transforma este jogo-luta-dança em uma filosofia, em que a ginga do corpo, a versatilidade, o jogo de cintura, a camaradagem, a malícia, se traduzem numa forma de subjetividade e sociabilidade. A Capoeira também e uma manifestação que ainda hoje luta para não ser denominada como “folclorização”, Silva: A capoeira é uma manifestação cultural afro-brasileira criada pelos negros escravos como forma de luta contra a opressão, luta esta que se travou no plano físico e cultural. Em seu universo simbólico e motor encontramos elementos, tais como a musicalidade, a religiosidade, movimentos acrobáticos, dentre outros, que a tornam bastante peculiar. A capoeira é plural, e nela o lúdico e o combativo interpenetram-se, caracterizando-a como jogo, luta e dança. (SILVA, 2002, 2) A utilização de termos como ‘descaracterização’ e ‘folclorização’ se dá na medida em que, com o passar dos tempos, algumas manifestações culturais que se expressavam (e ainda expressam) enquanto essência da cultura negra – como a Capoeira, por exemplo - acabaram por perder parte de seus sentidos, seus valores reais que implícita ou explicitamente formavam e estabeleciam culturas próprias, identitárias, a partir do momento em que não são transmitidas/recebidas por outros grupos com a mesma mentalidade daqueles que fazem parte desta vivência. É em relação a estes princípios que a Capoeira Angola vem sendo transmitida historicamente, da escravidão à atualidade. Neste sentido de preservação da cultura afrobrasileira, dois nomes em especial estão ligados ao estilo da Capoeira Angola, Vicente Ferreira Pastinha6 (1889-1981), conhecido como Mestre Pastinha, que se 5 Disponível em: http://www.nativocapoeira.com/historiacapoeira.htm. Acesso em 23 ago. 2011. Vicente Ferreira Pastinha nasceu em 1889, filho do espanhol José Señor Pastinha e de Dona Maria Eugenia Ferreira. Seu pai era um comerciante, dono de um pequeno armazém no centro histórico de Salvador e sua mãe com a qual ele teve pouco contato, era uma negra natural de Santo Amaro da Purificação e que vivia de vender acarajé e de lavar roupas. Disponível em: http://www.senzala.org.br/historia/bibliografia/11-mestre-pastinha.html. Acesso em 25 ago. 2011. 6 275 manteve fiel aos princípios da capoeira angola e Dr. João Pereira dos Santos7, conhecido como Mestre João Pequeno de Pastinha o Mestre mais velho de Capoeira, ainda vivo sendo que Mestre João Pequeno de Pastinha e condecorado por dois títulos de Doutores Honoris Causa pelos saberes da Capoeira Angola um pela Universidade Federal de Uberlândia-MG em 2003 e outro pela Universidade Federal da Bahia. Ainda em 2003 o Dr. Mestre João Pequeno de Pastinha recebeu das mãos do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Comenda da Ordem do Mérito Cultural tornando-se Comendador da Cultura da República brasileira. Assim, o Congado também pode ser compreendido como uma manifestação de resitencia cultural e politica que surgiu no Brasil com a vinda forçada de povos africanos de origem banto, oriundos das regiões do Congo, segundo Jeremias Brasileiro Comandante Geral da Festa da Congada de Uberlândia, (...) chama-se festa da Congada pelo seguinte motivo: Festa da Congada reúne danças, cantorias, coroações, desfiles, procissões, grandes encontros coletivos na hora das comidas: almoço, café, jantar, missas, novenas, leilões. E Congado é a reunião dos grupos e tudo aquilo que eles fazem durante o ano inteiro, ou seja, nós vivemos o Congado de várias maneiras no cotidiano de nossas vidas, quando chega a festa, é tempo de nós festejarmos. (BRASILEIRO, 2006, p. 19) Também foram trazidos negros (as) de Moçambique, Angola, entre outros países do continente africano. A Congada é uma manifestação com característica da cultura afrobrasileira, que encontrou no sincretismo religioso um meio de resistir ao domínio e à imposição etnocêntrica do catolicismo e dos rituais religiosos do homem branco. Neste sincretismo, os negros foram forçados a aceitar, na construção de suas práticas religiosas, santos brancos em vez de santos negros, e importante destatacar que esta aceitação ao santos brancos se deu pelas codições que o negros se encontravam na época na condição de escravos, e pela sua condição, eles não podiam cultuar seus próprios santos (orixás). Com a expressão da congada, o povo negro sustentou sua fé e sua cultura com a manutenção de seus rituais religiosos e culturais de seus países de origem. A história do congado em Minas Gerais é contada por muitos congadeiros como tendo início com a vinda forçada de Chico Rei - rei na África - trazido como escravo, na metade do século XVIII. Anos depois Chico Rei teria organizado a primeira 7 Em 27 de dezembro 1917 nasceu em Araci no interior da Bahia João Pereira do Santos, filho de Maria Clemença de Jesus, ceramista e descendente de índio e de Maximiliano Pereira dos Santos cuja profissão era vaqueiro na Fazenda Vargem do Canto na Região de Queimadas. Disponível em: http://joao-pequeno.com/historia/. Acesso em 25 ago. 2011. 276 festa dos negros em Minas, como forma de agradecer à Nossa Senhora do Rosário a benfeitoria de ter enriquecido depois de explorar uma mina abandonada. Assim teriam surgido as irmandades e guardas de Congado no estado de Minas Gerais. Este seria o mito fundador do congado mineiro. Segundo Fabíola Marra O Congado em Uberlândia é fundamentado no mito da aparição e resgate da imagem de Nossa Senhora do Rosário e possui pelo menos duas versões: a) Nossa Senhora do Rosário estava dentro do mar, um garoto a vê submergir, chama os pais para verem, eles não acreditam. Então ele chama os Marinheiros, que também presenciam a santa submergir, eles tentam tirá-la, mas ela não sai do local. Chegam brancos e padres e tentam levá-la para uma capela, mas a santa “foge” do altar e volta para o mar. Vem, então o terno de Congo, todo colorido e canta para ela sair da água, ela submerge, mas ao ser levada para a capela dos brancos, volta a “fugir” para o mar. Um terno de Moçambique, todo vestido de branco, descalço, com gungas nos pés, canta para ela, que então submerge e lhes acompanha, eles então constroem uma capela para ela e ali Nossa Senhora do Rosário permanece, o terno de Moçambique então se retira sem lhe dar as costas. b) a segunda versão, contada por Maria Conceição Cardoso, do Moçambique Rosário de Fátima, afirma que ao tentar capturar escravos fugidos na serra da Montanhesa, um grupo de capitães do mato encontra um grupo de negros, vestidos de branco, fazendo rosários, com contas de lágrima em frente a uma árvore de umbaúba onde Nossa Senhora do Rosário estava encravada num galho. Os capitães do mato surram os negros e tentam capturá-los, mas eles permanecem imóveis. Apavorados com a visão voltam para a cidade e chamam um padre para ir até o local verificar o fato. E como na primeira versão, brancos e Congos não conseguem levá-la, Nossa Senhora do Rosário acompanha apenas o Moçambique que canta, vestido de branco e lhe construiu uma igreja e não lhe dá as costas ao se retirar de sua presença.O Moçambique é, por isso, a Guarda Real. Isto é, são os ternos de Moçambique os responsáveis por conduzir as imagens dos santos, bem como os reis durante a procissão. É responsável por levantar o mastro na porta da Igreja dando início ao Congado, é quem geralmente conduz os casais reais até a procissão e também no encerramento da festa. (MARRA, 2005, p. 11) Cada Terno de Congado é formado por rainha, rei, capitães, madrinhas, guardiões e a guarda que toma conta da corte, e os caixeiros, que são aqueles que tocam os tambores e fazem todos os ternos mexerem o corpo e entrar em transe. Tal saber é passado através de gerações e consolidado à partir do momento em que é colocado em prática por aqueles que fazem parte desta manifestação cultural, religiosa, enfim, através do respeito àqueles detentores da memória e da oralidade – passadas adiante, baseados nas experiências vividas por esses sujeitos. Os Ternos de Congado estão constituídos em sua essência pela espiritualidade da religião africana, como o Candomblé, Omolocô e a Umbanda, o que não significa que todos os congadeiros são praticantes de religiões de matrizes africanas, assim como nem todo praticante de alguma religião de matriz africana é necessariamente congadeiro, apesar de haver contato direto e indireto com aqueles que frequentemente participam do congado. Estas semelhanças são vistas através dos instrumentos musicais, das danças e Guias que cada componente dos ternos usa. Os santos cultuados 277 pelos congadeiros são Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. A devoção a Nossa Senhora do Rosário é uma tradição desde os tempos da escravidão, pois aparece como a protetora dos negros. Cada Terno de Congado tem um estandarte e uma bandeira guia, sendo que este estandarte e a bandeira possuem a imagem de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Para os congadeiros a bandeira e o estandarte são os símbolos que representam a fé em Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Por mais que boa parte das tradições orais desses negros ficasse em sua terra natal (África), as mulheres, homens, os Griots8 passavam-nas de geração a geração por meio da oralidade. Assim, mesmo tendo deixado parte de sua ancestralidade, suas origens e costumes em sua terra natal, os negros e negras conseguiram manter vivas suas lembranças. Isto pode ser constatado quando são analisadas as músicas da Capoeira Angola e as músicas dos Ternos de Congados, que são expressas oralmente e tratam de temas diversos, como a escravidão, fatos sociais, Santos e Orixás. É também por força desta resistência Capoeira Angola e as músicas dos Ternos de Congados, conseguem se expandir e se manter como expressões vivas e atuais sem, entretanto, se curvar a um processo de descaracterização. Mantendo a fidelidade a sua filosofia, se reafirma enquanto uma “escola para a vida” que, reproduzindo metaforicamente as situações que o jogador pode encontrar na realidade, prepara-o para melhor encará-las. Um exemplo das músicas que podemos observar ocorre tanto na capoeira angola e em alguns ternos de congado são: Capoeira Onde esta minha liberdade/ onde esta minha liberdade São Genaro já falou Negro / que sua liberdade Negro também que ser douto/ princesa Isabel Princesa Isabel liberdade do Negro não saiu do papel.9 Congado Mãe do Rosário venha ver meu povo O Marinheiro acabo de chegar Pelos caminhos eu enfrentei batalha Venci a guerra e consegui chegá10. 8 Grandes contadores de histórias africanos que, apesar de ainda atuarem isoladamente em algumas regiões da África Ocidental, tiveram, há séculos, um vasto e importantíssimo papel na evolução e manutenção da cultura e tradição de todo continente. Os Griots, contadores e cantadores de histórias, eram considerados verdadeiras bibliotecas ambulantes e sua importância era tão grande que eram poupados até pelos inimigos nas guerras. Lendas, feitos heróicos e lições de vida, tudo era adorado e servia de alimento para o espírito alegre e guerreiro do povo do continente. Disponível em: http://www.griots.org.br/porque_griots.asp. Acesso em: 15 jan. 2012. 9 Música cantada em roda de capoeira. Autor desconhecido. 278 Pode-se observar que as músicas dessas duas Culturas afrobrasileiras fazem referência a personagens da História do Brasil. A música da Capoeira Angola traz o nome da Princesa Isabel e do Congado traz o nome de Nossa senhora do Rosário. Na ladainha da capoeira Angola o autor faz critica à participação da Princesa na assinatura da Lei Áurea, lei que deu a liberdade aos negros (as) no Brasil. A referida lei foi assinada em 13 de maio de 1888 pela Princesa Isabel do Brasil e o Conselheiro Rodrigo Augusto da Silva extinguindo a escravidão no Brasil. Muitos acham que a Princesa Isabel assinou a lei Áurea por estar comovida com a condição dos negros no Brasil, porém ela assinou pela decorrência de pressões internas e externas, como, por exemplo, o país ser o único, a partir de 1870, com o fim do tráfico em Cuba, a continuar com a prática escravista. Para além, o movimento abolicionista já tinha grande força no país, ocorrendo frequentes fugas de negros e mulatos para os Quilombos. O fato de o país ter sido o último a abolir a escravidão fez com que os negros se mantivessem por um longo período de tempo à margem do acesso aos direitos sociais, assim como os direitos políticos, econômicos, culturais e também ao setor educacional. Analisando o trecho da música “Pelos caminhos eu enfrentei batalha/Venci a guerra e consegui chegá”, tem-se a ideia de ‘superação’ no sentido de que por mais que houvesse barreiras impostas aos negros – independente da abolição da escravidão – foi possível àquele negro se tornar doutor. Independente disso, o preconceito está presente. É uma questão social, passada através de gerações. A escolaridade média dos indivíduos de ambas as raças cresce ao longo do século, mas o padrão de discriminação racial, expresso pelo diferencial nos anos de escolaridade entre brancos e negros, mantém-se perversamente estável entre as gerações. (HENRIQUES, 2002, p. 42). Retornando às duas culturas afro-brasileiras, em ambas são necessários vários instrumentos, que funcionam como o coração do ritual. Estas duas manifestações afrobrasileiras são formadas pelo conjunto de músicos e cantadores, que são regidos pelo ritmo, aspecto que pode ser considerado o mais importante nas manifestações da cultura afrobrasileira. Assim como são na vida humana, esses ritmos podem nos levar a voar como os pássaros. É importante ressaltar que os ritmos afrobrasileiros sempre 10 Fonte: CD Memória do Congado. Produzido pelo Instituto Folia Cultural, em parceria com a Petrobrás. Apoio da EDUCAFRO – Núcleo de Estudos e Políticas das Relações Raciais na Educação. Uberlândia-MG, 2003. 279 esteve presente na história do Brasil, e geralmente caminha em direção a ancestralidade pelo fato de os sons terem o poder de depositar todas as energias necessárias para que aqueles envolvidos na prática da capoeira e do congado possam se sentir integrados àquele movimento. Como diz Octavio Paz: O ritmo é inseparável de nossa condição [...] é a manifestação mais simples, permanente e antiga do fato decisivo que nos torna homens: seres temporais, seres mortais e lançados sempre para algo, para o outro: a morte, Deus, a amada, nossos semelhantes. (PAZ, 1982, p. 73) A roda de Capoeira Angola tem vários instrumentos: três berimbaus11, gunga, médio, viola, pandeiro, reco-reco, agogô e atabaque. Podemos considerar que o berimbau hoje se tornou reconhecido no mundo todo. Porém antes de ser introduzido na capoeira, era tocado por ex-escravos, com o propósito de atrair fregueses com vistas a efetuarem compras de algumas mercadorias que estavam sendo vendidas. Na figura 1 nota-se a presença do berimbau num grupo de negros vendendo suas mercadorias, sendo escravos ou não. FIGURA 1: Escravo tocando berimbau. DEBRET. Voyage pittoresque et historique au Brésil. Paris: Didot Firmin et Fréres, 1824. 11 Trazido para o Brasil pelos escravos, o Berimbau é um instrumento de percussão da família dos cordofones. De suposta origem africana, tornou-se conhecido através das manifestações culturais como o samba de roda, candomblé e a capoeira, onde tem a função de marcar o ritmo da luta. O nome de origem do conhecido arco musical é termo angolano Urucungo. Berimbau é uma palavra brasileira e onomatopéica, que imita o som do instrumento. Porém, também pode ser associado ao nome mbirimbau, vindo do termo Balimbano. O instrumento é constituído de um arco feito de uma vara de madeira de comprimento aproximado de 1,20m e um fio de aço (arame) preso nas extremidades da vara. Em uma das extremidades do arco é fixada uma cabaça que funciona com caixa de ressonância. O som é obtido percutindo-se uma haste no arame; podendo variar abafando o som da cabaça e (ou) encostando uma moeda de cobre no arame. Complementa o instrumento o caxixi, uma cestinha de vime com sementes secas no seu interior. Disponível em: http://www1.prefpoa.com.br/pwtambor/default.php?reg=8&p_secao=158. Acesso em 17 ago. 2011. 280 O berimbau Gunga toca São Bento pequeno ou Angola. Tem o timbre grave e é quem comanda a roda de capoeira Angola. É tocado geralmente por um mestre mais velho e detentor de mais conhecimento, sendo que o médio toca São Bento Grande Amarrado e possui timbre intermediário. Sua função é de intermediação entre gunga e viola. O berimbau viola toca São Bento Grande, e tem o timbre mais agudo. Também faz as improvisações e alguns angoleiros dizem que o instrumento parece Exu, devido às movimentações e às brincadeiras feitas; dois pandeiros um reco-reco ou ganzá. Para além dos instrumentos utilizados na Capoeira, há também aqueles utilizados no Congado, como, por exemplo, os tambores, repiques, sanfonas e as gungas, sendo que estas ficam amaradas aos tornozelos dos dançadores – Moçambiqueiros – cujos sons são produzidos à medida que a coreografia evolui. É importante perceber que tanto na Capoeira Angola como nos Moçambiques alguns instrumentos musicais possuem a mesma denominação, como, por exemplo, as gungas. Segundo Jeremias Brasileiro, Tcharles Avner Gungas ou Pai ás de Proteção - Instrumentps sagrados que nos tempos maisprimitivos eram de uso particular dos benzedores. Nos tornozelos dos moçambiqueiros, revela-se toda a magia incorporada a eles através da força mística dos magos, capazes de destruir todas a quecequências-doenças espirituais-que pudessem atingir qualquer membro do clã. Usava-se somente seis gungas, três em cada tornozelo, cada uma com 16 nozes de dendê, coité ou esferas de chumbo.O total de sementes ou esferas era de 96, um número eterno, para cima ou para baixo. Tinha-se assim em cada gunga, um Rosário de Ifá (feitocom as 16 nozes de dendê).Ifá é um Kamano Maioral- deus da revelação, transmissor das mensagens oraculares aos Olowô(curandeiros e advinhos), responsáveis pela guarda espiritual de seus adeptos.( BRASILEIRO,2001, p. 79) Para Tcharles Avner, No Moçambique, é importante esclarecer que as Gungas tem o mesmo poder mágico ritualistico, é e com ela que os moçambiqueiros “reza e é com ele encontra a capacidade de se conctar com os ancestrais (...) (AVNER, 2010, p. 126) Como o berimbau gunga na Capoeira Angola, o símbolo que se destaca entre os ternos de congado são os bastões, por serem reverenciados por todos do terno, tanto pelos capitães, madrinhas e soldados. Para muitos congadeiros os bastões são como uma arma para os capitães, porque o bastão para muitos capitães significa o poder de superar crises espirituais. 281 A B FIGURA 2 - A e B: Fotografia dos bastões tirada na festa do congado em Uberlândia, no ano de 2010 (Foto: Cesar Paulo Silva - Foguinho) A B FIGURA 3 - A e B: Fotografia das gungas tirada do Terno Moçambique Princesa Isabel do Bairro Patrimônio em Uberlândia, no ano de 2010. (Foto: Cesar Paulo Silva -Foguinho) FIGURA 4: Fotografias das gungas e bastão do terno Moçambique de Belém do Bairro Santa Mônica em Uberlândia. Disponível em: http://mocambiquedebelem.blogspot.com/. Acesso em 19 de agosto de 2011 282 Outra semelhança que se encontra dessas manifestações afro-brasileiras são através das músicas cantadas pelos mestres de capoeira e pelos capitães do Congado. Nas rodas de capoeira as ladainhas sempre narram diversos fatos históricos, lendas dos mais variados assuntos. As ladainhas fazem crítica social, falam da situação do negro no Brasil. As músicas que fazem parte destas manifestações afro-brasileiras constituem-se em verdadeiras oferendas. Pesquisas de estudiosos das mais diversas disciplinas interessados na temática, como Lopes: Existe a cantoria sobre temas históricos, românticos, de valentia, religiosos, reivindicatórios e tantos outros. Temos, portanto, um prato cheio que ainda não foi servido nas mesas de discussão. Algumas dezenas, talvez centenas de Festivais de Cantos de Capoeira já foram realizados, mas nenhum deles com a preocupação de refletir e fazer refletir sobre as funções da cantoria na Capoeira. (LOPES, 2006, p. 1) As músicas dessas manifestações afrobrasileiras são em sua maioria cantadas em língua portuguesa, porém, há uma parte relativamente considerável de cantigas em línguas de origem africana, como nagô e ioruba. Turutunga turu turumá No dia de hoje setum balança, eia! Eia! Dia de hoje curú curumá Nossa senhora vai te abençoa, eia! Eia! Cumi a pipoca cumi piruá Mas no pita de hoje deixa colemá, eia! Eia! Eu falo em engola engulí culimá No dia de hoje deixa colemá, eia! Eia! Ih rum, rum, gumbá Dia de hoje deixa curumá, eia! Eia!12 Pode-se notar que nesta música do terno Princesa Isabel do bairro Patrimônio o Capitão Nestor da Silva mesmo cantando em português traz algumas palavras desconhecidas do vocabulário brasileiro e estas provavelmente devem ser de alguma língua materna do continente africano. Cultura trazida, preservada e passada adiante, de geração em geração. As músicas dessas manifestações afro-brasileiras podem ser divididas em três tipos. Na Capoeira Angola, tem-se as ladainhas, louvações e corridos. As ladainhas geralmente tratam de temas dos grandes feitos realizados por grandes capoeiristas, como Mestre Noronha, Mestre Pastinha, Mestre João Pequeno, Mestre João Grande, entre vários outros, e também podem tratar das narrativas históricas dos afro-brasileiros, denúncias sociais, agradecimentos aos Orixás e diversas outras manifestações de caráter 12 Fonte: CD produzido em Uberlândia, com apoio da Petrobrás, em parceria com o Grêmio Recreativo do Bloco Aché e Educafro, envolvendo 14 grupos de Gongado. 283 afro-brasileiro. As louvações vem depois das ladainhas e louvam os capoeiristas e santos. Os corridos da Capoeira também tratam de temas diversos e podem ser de domínio público e improvisados pelos capoeiristas que podem mandar alguns recados para os jogadores. Um bom capoeirista sempre tem que estar atendo às músicas que o cantador está entoando na hora de seu jogo. Os corridos fazem parte do momento em que os capoeiristas dão início ao jogo e alguns falam que vão vadiar. De acordo com Ana Paula Macedo. O termo vadiar, vadiação, que identifica a prática da Capoeira, desde o início do século XIX, na Bahia, é usado com conotação crítica, por parte das classes dominantes, às práticas do batuque e, certamente, do samba, como o foi durante o século XX. Para seus praticantes, em ambos os períodos, vadiar é festejar, é “brincar” dançando, é jogar Capoeira. (MACEDO, 2006, p. 432) As músicas do Congado também entram no tema dos afro-brasileiros e dos Santos, porém estas entram no mundo dos desafios, sendo estes chamados de demandas pelos congadeiros. As músicas do Congado também entram no tema dos afro-brasileiros e dos Santos, e no mundo dos desafios, sendo estes chamados de demandas pelos congadeiros, que na perspectiva de Vívian Parreira: Os cantos conhecidos como ponto de demanda ou simplesmente demanda têm relação com forças mágicas, espirituais e a presença de um universo mágico religioso. As demandas são cantadas dentro do ritual da congada, seja nas preparações anteriores à festa, seja no dia da festa. Segundo o histórico da Festa da Congada de Uberlândia, o congadeiro canta demanda porque “por uma razão ou outra se sente ofendido com o ponto cantado por outro Terno”. (VIVIAN, 2011, p. 119) As demandas são entoadas quando um capitão canta para outro terno que está vindo a seguir com o seu terno. Segundo alguns congadeiros estas demandas servem para enfeitiçar os congadeiros sem experiência, ou seja, os que iniciam a montagem de um terno sem contar com a tradição ritualística que rege o mundo da Congada. Um exemplo de demandas que podemos mostrar é a do terno Pena Branca, do Bairro Patrimônio, cantada por um capitão do Terno. É preto é preto é preto pelejá Toco com raiz é duro de rancá Oiá é duro de arranca ### O capitão me chega de arranco Sapo não tem bunda e qué senta no banco Oiê qué sentá no banco.13 13 Idem. 284 Estas demandas foram cantadas por integrantes do Terno Moçambique Pena Branca do Bairro Patrimônio. Segundo a história estas demandas foram cantadas para um ex-integrante do seu terno que saiu e montou outro terno sem a devida fundamentação tradicional. No dia em que tais demandas aconteceram, tal ex-integrante do terno Pena Branca passou mal o dia todo e só ficou bem porque sua mãe é Mãe de Santo e conseguiu tirá-lo do transe em que se encontrava. As demandas são produzidas pelos próprios capitães. Algumas demandas são “tradicionais” do Terno que passadas de capitão para capitão seguindo a hierarquia do Terno. Algumas demandas são consideradas “segredo de Família” que o capitão só são executadas em cerimônias reservadas aos familiares. Outra possibilidade de análise relativas às músicas da capoeira Angola e as do congado é compará-las às cantadas no terreiro de Omolocô, que neste local são denominadas de Zuelas e também fazem referência aos Orixás: Iê Xangô rei de Oyó O Exu é mensageiro Omolu Senhor São Bento Oxóssi santo guerreiro Iansã das tempestades Janaína rainha do mar Nanã Iyabá Senhora Mãe de todos os Orixás Ogum o Deus da guerra, Oxalá santo de fé Olurum o rei supremo O Senhor do candomblé (BOLA SETE, 1989, p. 80) Fuzuê! Fuzuê, Fuzuê, Fuzuê, Fuzuá Quando chega a festa santa Faz meu coração chorar Eu sonhei com meu Preto Velho Ele mandou me avisar Quem que meche com demanda Sua vida vai atrapalhar. Adeus a deus, preto velho vai embora. Adeus a deus, preto velho vai embora. É quem não sente É quem não chora14 14 Zuela ouvida no terreiro de Omolocô em 01 ago. 2011. O terreiro fica localizado no Bairro Osvaldo Resende na cidade de Uberlândia-MG. 285 Vê-se que a ladainha de mestre Bola Sete traz em si alguns orixás: Xangô, Exu, Omolu, Oxóssi, Iansã, Iemanjá, Nana, Ogum, Oxalá, Olurum, e a música do congado e a zuela trazem o nome do Preto Velho. Assim, é possível perceber (que as três manifestações afro-brasileiras estão ligadas através dos cânticos, e cada jogador, dançador e girante tem sua energia, e estas energias estão ligadas a cada orixá que chega ao terreiro, pessoa que entra na roda de Capoeira, ou dentro de algum terno de Congado, porque como acontece nos terreiros a energia muda com a chegada de cada orixá em Aié15 e cada capoeirista ou dançador de algum terno de congado, ou filho ou filha de santo que através dos movimentos do seu corpo ou de seu canto traz consigo a interlocução do seu passado, presente e futuro. Dito isto, a Capoeira Angola e a Congada são manifestações que resgatam as africanidade no Brasil, sendo que este resgate se dá por meio de Griot, Griotas, homens, mulheres, crianças e adolescentes que destituídos de sua condição de seres humanos no tempo da escravização hoje ainda, muitos negros e negras continuam na condição de cidadãos/ãs de segunda categoria. CONCLUSÃO Os interesses da empresa colonial e o processo de escravidão implicaram em resistência e conflito, fatores esses fundamentais tanto para preservação e ressignificação da herança e o legado cultural oriundo dos diversos povos africanos que pertenciam por assim dizer a várias etnias e consequentemente embutidas de uma diversidade linguística e cultural. Contudo a diáspora escravocrata impõe lhes uma mesma lógica e condição social, na qual se viam obrigados a se unirem, processando por assim dizer, uma forte interação entre os diversos grupos em que códigos e leituras da realidade social foram compartilhados e símbolos se interpenetraram. É a partir dessas circunstancias que se pode compreender as particularidades e as semelhanças entre a Capoeira Angola e as manifestações de congado no município de Uberlândia-MG, uma vez que, historicamente dessas duas culturas afrobrasileiras mantém seus ensinamentos através da musicalidade e das tradições orais. Essas características se manifestam também de forma muito peculiar e própria nos processos 15 Aiê Terra dos humanos. 286 educativos e na transmissão de saberes e conhecimentos que tradicionalmente se fazem presentes nesse universo simbólico. Para tanto, é necessário compreender tais práticas culturais como um exercício crítico respaldado no desafio de não se contaminar por visões estereotipadas cultivadas sistematicamente por uma sociedade racializada que devota às africanidades um conjunto de interpretações desqualificantes. Dessa forma, os cantos, a oralidade e todo universo simbólico que constitui essas duas culturas afrobrasileiras operam com uma lógica que resgata a sua identidade, volta-se às raízes culturais e históricas, estabelece um elo entre o individuo e a musicalidade. É pelo canto que se reconstitui a história tradicional de um povo que resulta na criação dos espaços de sociabilidade e de resistência contra a opressão imposta ao povo negro. O que é característico na musicalidade na Capoeira Angola e no Congado é que ambas são marcadas por uma pluralidade e heterogeneidade que compõe um sistema de manifestações totalizantes que integram aspectos religiosos, sociais, culturais e políticos. Além disso, os cantos reportam aos impasses, os sofrimentos e os feitos do povo negro do passado estabelecendo uma conexão com o mundo contemporâneo, ou seja, existe um vinculo que liga o tradicional no seu sentido mais amplo com tudo aquilo que é legítimo e significante para os atores sociais que fazem parte da Capoeira Angola e do Congado. Não é correto sinomizar de forma simplista a musicalidade e a oralidade no contexto ritualístico da Capoeira e do Congado, pois o intento dessa análise consistiu se em instigar e estimular a busca por um maior conhecimento sobre os possíveis significados que estabelecem essa interface. Congadeiros e angoleiros entrelaçam cantos negros por meio de celebrações que renovam e reafirmam as tradições de maneira poética, pois, o canto reproduz padrões estéticos, comportamentais forjam em última análise a maneira de ser e agir dos sujeitos que fazem parte dessa realidade social. O canto é fundamental para a construção de novos saberes sobre a história e cultura afro-brasileiras que são transmitidos coletivamente. Provocam, nesse sentido, uma alteração da realidade ao sair da omissão, da negligência, do silêncio diante das discriminações e desigualdades raciais, de certa maneira, pode se dizer que os cantos 287 são responsáveis por desconstruir estereótipos e preconceitos presentes na sociedade brasileira. O canto é uma materialização simbólica expressa no cotidiano dos angoleiros e congadeiros que celebra uma troca ativa de diversos aspectos culturais pelos sujeitos envolvidos. Com efeito, listar e compreender os múltiplos sentidos em torno do canto configura se em uma tarefa inesgotável. Porém, numa perspectiva de um olhar mais atento percebe-se que a musicalidade reconstitui os laços de solidariedade na medida em que existe uma valorização das experiências dos sujeitos. Logo, o canto negro na Capoeira Angola e no Congado implica comemoração, momento de lazer, sociabilidade, e expressão da religiosidade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, R. História da Música Brasileira. 2ª ed. Rio de Janeiro: F. Brigied e Comp. Editores, 1942. ANDRADE, M. Dicionário Musical Brasileiro. São Paulo: Edusp, 1989. AVNER, T. Moçambique pede lincença-Historia, costumes e Tradições do Rosário em Betim – Lisboa, 2011. BOLA SETE, M. A Capoeira Angola na Bahia. Salvador: EGBA / Fundação Artes, 1989. BRASILEIRO, J. Congada de Minas Gerais. Brasilia: fundação Cultural Palmares, 2001. BRASILEIRO, J. Congado em Uberlândia: espaço de resistência e identidade cultural (1996-2006). Monografia (Graduação em História) – Universidade Federal de Uberlândia. 2006. CARNEIRO, E. Capoeira de Angola. In: Religiões Negras / Negros Bantos. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981. CARYBÉ. O Jogo da Capoeira. Salvador: Livraria Turista, Coleção Recôncavo, nº 3, 1951. DESCH-OBI, M. T. 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Capoeira angola e literatura popular: marcas da tradição oral afrobrasileira Revista África e Africanidades – Ano 2 - n. 6 - Agosto. 2009 - ISSN 19832354 www.africaeafricanidades.com 290 O VESTUÁRIO DA IDENTIDADE: A COR DA PERTENÇA CULTURAL Daniella Santos Alves Universidade Federal de Uberlândia – UFU Graduanda em Ciências Sociais – INICIS Bolsista do PET Ciências Sociais [email protected] Prof. Dr. Marcel Mano Universidade Federal de Uberlândia – UFU Instituto de Ciências Sociais – INCIS [email protected] O presente artigo pretende analisar a festa da Irmandade de São Benedito na cidade de Ituiutaba (MG) pelo viés etnográfico, enfatizando assim uma investigação sobre o vestuário como elemento de formação de identidade em um terno1 específico: Terno Moçambique Camisa Rosa. Em maio de 2011, este terno completou seis décadas de existência. Além de ser uma data de comemoração esta representava também o primeiro desfile do terno sem a matriarca Dona Geralda Ramos de Oliveira.2 Neste sentido, devo sublinhar que a indumentária utilizada por homens, mulheres e crianças na festa das congadas deste ano constitui-se algo singular, particular em comemoração ao aniversário. A relevância da seleção deste terno específico é, em grande parte, justificada por ser o terno mais antigo da cidade de Ituiutaba, e, portanto, constitutivo e constituinte da cultura congadeira na cidade. A origem do terno coincide com a história da Irmandade São Benedito3 da cidade de Ituiutaba, bem como com o inicio do Congado no município. Nesse sentido, é de suma importância a compreensão histórica de tais expressões culturais: Congadas e Congado. 1 De acordo com informações da Irmandade de São Benedito (2007), os ternos são agremiações que constituem um grupo de congada. Em Minas Gerais, comumente, é denominado de terno. Todavia, em outras regiões, podem ser classificados como batalhões, grupos ou confrarias. Geralmente, se distinguem um do outro pelos ritmos de batidas dos instrumentos, cores do vestuário, as gestualidades e acessórios utilizados na festa. 2 In memorian. 3 Sobre o histórico da Irmandade de São Benedito e a composição dos ternos de Congada na cidade de Ituiutaba, conferir: NAVES, Fernanda Domingos; KATRIB, Cairo Mohamad Ibrahim. Cultura, Identidade e Religiosidade: Mapeamento e Reconstrução Histórica do Congado de Ituiutaba – MG. 2009. 291 Segundo o historiador Jeremias Brasileiro (2006, p. 18) nas congadas existiria a consumação final do congado, isto é, a preparação ritualística de indumentárias, instrumentos musicais, turbantes, bastões e alimentos, a preparação que antecede a festa é o Congado. Assim, as Congadas são a “festa” em si, os festejos, as procissões, coroações, as danças e o desfile dos ternos. O autor enfatiza ainda como as Congadas permitem o encontro de pessoas e a manutenção das relações sociais dos componentes da festa (congadeiros). O Congado neste aspecto se constituiria de vários elementos responsáveis pela resistência diária dos seus componentes, ultrapassando dança dramáticas ou uma festa simplória. Carlos Rodrigues Brandão (1975, p. 36), no entanto, acredita não ser fácil encontrar uma definição melhor para Congado não sendo a definida por Gabriel, general das Congadas da cidade de Catalão, no sul do estado de Goiás (GO). O congadeiro define este movimento como “a reunião de todos os ternos é o Congado”. A antropóloga brasileira Juliana Calábria (2008), observa como a relevância dos sistemas de arrecadação, leilões e verbas municipais são imprescindíveis para a confecção das indumentárias na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito, em Uberlândia (MG). Algo similar parece ter ocorrido nas Congadas da cidade de Ituiutaba na Irmandade de São Benedito. A confecção de indumentárias estilizadas, de vestidos, turbantes, capelas (chapéus), e de todos os trajes que denotam a pertença identitária dos mesmos são realizadas por meio de leilões, doações, e de auxílio fornecido pelos amigos, parentes e familiares aos integrantes do Terno Moçambique Camisa Rosa no período de Congado. A análise etnográfica da identidade do terno por meio do vestuário será respaldada, metodologicamente, pelo antropólogo americano Clifford Geertz (1978), também como da antropóloga francesa Jeanne Favret- Saada (2005). Tendo em vista, que o contato com o terno se deu através de uma aceitação e imersão. A interpretação da problemática de pesquisa se constitui através dos seguintes autores: Roberto da Matta (1983) e sua sistematização sobre o que seria um momento ritual, Castells (2008) e seu conceito de identidade de resistência. A análise estrutural para a interpretação do par binário de oposição: tradição e modernidade serão fundamentadas pelas proposições estruturais de Claude Lévi-Strauss (1973). 292 A “IMERSÃO” Em meados de maio de 2011, ocorre a oportunidade de uma oficina na Universidade Federal de Uberlândia ministrada pelo antropólogo Carlos Rodrigues Brandão, renomado pesquisador em cultura afro-brasileira e africana com ênfase em congado. Na ocasião, participei dos quatros dias da oficina organizada pelo curso de Geografia do Campus Pontal (UFU), na cidade de Ituiutaba e por meio de diálogos e conversas conheci outros pesquisadores dentro da área mencionada acima. Neste contexto pude me localizar na complexidade de informações sobre os sete ternos da Irmandade de São Benedito. No recorte do objeto de estudo optei pelo terno mais antigo, Terno Moçambique Camisa Rosa. Poderia em outro contexto e com um tempo de pesquisa maior estudar os demais ternos. Entretanto, decorrente do tempo diminuto, selecionei apenas um terno. Na oficina, Brandão apresentou as diversas possibilidades de estudo a respeito da festa, apresentou a dimensão antropológica, geográfica e histórica na pesquisa e investigação científica sobre os ternos. Recordo-me, com alguma precisão, falas do professor Brandão, a qual informava os aspectos da cultura congadeira da cidade de Ituiutaba e enfatizava a peculiaridade da mesma. A cidade é uma das poucas de Minas Gerais que abriga um terno com matriz religiosa africana, o Congo da Libertação. Enquanto pesquisadora conheci a particularidade e densidade do movimento congadeiro. Diante disso, procedi com o recorte, sempre necessário, do objeto de estudo e selecionei assim o vestuário. Após algumas orientações a respeito de como proceder às entrevistas com os integrantes da confraria, me direcionei ao quartel do Terno Moçambique Camisa Rosa. O quartel fica próximo a Praça da Igreja de São Benedito, local do desfile dos ternos. Ao chegar ao quartel alguns dias antes da comemoração, tive o primeiro contato com uma integrante do terno, descendente da família dos fundadores desta agremiação. Desde a minha chegada ao quartel, as primeiras conversas e aproximações com os sujeitos pesquisados foram norteadas, com alguma frequência, por uma relação de indiferença ou algo similar. Notei, por parte dos moçambiqueiros do Camisa Rosa certa apatia, constante desconfiança, nem sempre receptivos, respostas evasivas e falta de disposição em 293 participar das entrevistas, conversas e diálogos necessários para a investigação científica. Tal situação perdurou por dois dias, antes do festejo no domingo. No dia do desfile participei da festa desde a preparação do café até a saída final da praça. Nesta caminhada tirei fotografias, conversei com integrantes do terno entre meninas do estandarte, meninos dançadores e tocadores, capitães e guardiãs do terno. Essas últimas foram descritas por uma guardiã integrante: “as mães do terno elas são as guardiãs do terno, carregam água para os maridos, filhos [...]”.4 As guardiãs do terno, geralmente, andam nas calçadas a margem do desfile e fornecem apoio aos integrantes do terno. Comumente, as guardiãs são mães dos componentes da agremiação ou esposas de capitães, cercam o desfile simbólica e empiricamente. Logo após, na praça, ocorre o encontro dos sete ternos da Irmandade de São Benedito, sendo que cada um deles se apresenta, separadamente, cantando, dançando as musicas de louvor a São Benedito para o reinado da Irmandade e para o reinado do Moçambique Camisa Rosa, denotando o congraçamento peculiar dessas agremiações. Dentre os ternos, o Moçambique Camisa Rosa foi o último a se apresentar, sendo assim, tive a oportunidade de acompanhar e estar junto à apresentação dos demais ternos. No entanto, não acompanhei devido ao meu recorte de pesquisa estar vinculado ao estudo de um terno específico também como, mencionado anteriormente o tempo de investigação era diminuto. Ao final da apresentação do terno na praça, e o início da recepção dos ternos visitantes, o Terno Moçambique Camisa Rosa recebe outras duas agremiações da cidade de Centralina (MG). Os ternos visitantes prosseguem a frente enquanto o anfitrião vai logo atrás dos primeiros, ao final do percurso ambos se direcionam ao quartel onde ocorre o almoço. Nesse ínfimo intervalo de tempo, um dos principais capitães do terno anfitrião se direciona a mim e expressa às seguintes palavras: “Acho que você realmente gostou do terno”.5 Como a figura do capitão é de extrema importância para a constituição simbólica6 do vestuário, o resgate da tradição, também como da cultura africana, ele é um referencial para os integrantes do Moçambique Camisa Rosa. Sendo assim, no final 4 Entrevista com JUAREZ, Maria Joana, Ituiutaba, 15 de maio, 2011. Entrevista com OLIVEIRA, Francis, Ituiutaba, 15 de maio, 2011. 6 A constituição simbólica é dada através do capitão. O mesmo realiza a escolha das cores do vestuário masculino também como a ornamentação. 5 294 do desfile e nos diálogos posteriores a este acontecimento me senti aceita por toda a comunidade. É relevante demonstrar que a interpretação antropológica nem sempre se encontra disponível no trabalho de campo, assim o antropólogo deve “desnaturalizar” o discurso social e questionar os hábitos e tradições da comunidade estudada. Estes indivíduos, enquanto imersos em uma determinada cultura, naturalizam o discurso social, ao passo que o antropólogo faz o papel reverso e “desnaturaliza” os seus comportamentos culturais. O antropólogo Geertz em seu texto “Um Jogo Absorvente: Notas sobre a Briga de Galo Balinesa” (1978) demonstra como procedeu a sua aceitação e de sua mulher em uma tribo nativa. No primeiro contato com os aldeões o autor ressalta como a indiferença e indisposição por parte dos balineses acontecia de forma natural. Neste contexto, passaram-se alguns dias, até que um dia presenciaram uma briga de galos, a qual há muito estava proibida pelas elites locais. No acontecimento ocorrido, as autoridades locais interferiram coercitivamente sobre os balineses. O autor sublinha como ele e sua mulher correram juntamente com os aldeões e se esconderam em um galpão. Geertz possuía documentos fornecidos pelas elites locais e poderia muito bem fazer uso do mesmo no momento da briga de galos. Entretanto, opta por acompanhar a multidão, assim nos dias posteriores o olhar e a disposição dos balineses para com o antropólogo se modificaram. Neste sentido, Geertz enfatiza que foi absorvido e aceito pelos balineses, pois os nativos passaram a caçoar e fazer brincadeiras com ele e, segundo o próprio autor (GEERTZ, 1978, p. 282), “em Bali, ser caçoado é ser aceito”. No processo de pesquisa ocorreram basicamente duas etapas não previstas e nem mesmo concensuadas na minha mente. A primeira foi à imersão no universo de pesquisa, na qual o produto mais ilustrativo foi às palavras do capitão, citadas acima. A segunda é uma conseqüência do produto a qual me senti afetada pelo discurso do capitão. A noção de afeto pode ser compreendida sendo expressa nas palavras da antropóloga francesa Favret- Saada: “quando se está em um tal lugar, é-se bombardeado por intensidades específicas (chamemo-las de afetos), que geralmente não são significáveis” (2005, p. 159). Na investigação científica, houve danças, gestualidades 295 próprias para determinados momentos rituais do desfile, que podem ser compreendidas, a meu ver, enquanto intensidades específicas acidentáveis.7 Ser afetada, na perspectiva de Fravet-Saada (2005), é uma imersão quase completa no universo de pesquisa. Neste sentido, quase todas as intensidades específicas foram naturalizadas no meu intelecto e passaram então a não ser significáveis do ponto de vista científico. Senti-me “imersa” na cultura. Em outras palavras, as cores das indumentárias estilizadas, a forma como eram dispostas nos corpos dos sujeitos e como denotavam as gestualidades rituais estavam naturalizadas e não significáveis. É necessário demonstrar, enquanto pesquisadora, como o papel do antropólogo dito anteriormente de desnaturalizar o discurso social, em contato com essas intensidades específicas acidentáveis fez-se reverso. No entanto, como a autora enfatiza, é uma imersão quase completa no universo de pesquisa, assim continuei com o questionamento de hábitos e tradições da cultura em questão, desnaturalizando parte do discurso social. Cabe enunciar uma diferença conceitual apontada pela autora (FAVRET SAADA, 2005, p. 158) “aceitar ‘participar’ e ser afetado não tem nada a ver com uma operação de conhecimento por empatia”, ou seja, não é se por no lugar do outro, da alteridade. Ser afetada é algo que transcende a empatia. O cientista, orientado pelo processo empático, se coloca no lugar do nativo, alicerçado por um serie de preceitos científicos, objetivando registrar o discurso social. Porém, quando imerso, afetado em uma dada cultura, as suas experiências, ocasiões e situações inerentes ao processo de pesquisa se tornam inenarráveis, impossíveis de serem reelaboradas intelectualmente, na rememoração dos fatos. Voltemos a minha pesquisa no Terno Moçambique Camisa Rosa. Logo após as palavras emitidas pelo capitão, quando menos esperava interrompe seu almoço para me contar um pouco sobre a história do terno. Devo sublinhar que o mesmo é descendente direto dos fundadores da agremiação, além de grande conhecedor da cultura congadeira de Ituiutaba e região. Segue abaixo trechos da entrevista: 7 Entendo por intensidades específicas acidentáveis, algo não previsto no processo de pesquisa, específica pois envolve a singularidade do discurso social dos sujeitos pesquisados. Segundo Geertz (1978), a significação do mesmo só pode ser compreendida em sua totalidade significável apenas pelo sujeito e não na apreensão científica do pesquisador. Na nomenclatura dada à situação de pesquisa, entendo por acidentável algo não premeditado e peculiar em uma situação específica concreta. 296 Em 1963 o Terno Moçambique Camisa Rosa ia descendo a rua 20 chegando a 7 para ir na catedral são Jose, na porta lateral da rua 20 tava o irmão Pedro que dava faxina, ele então fechou a porta, meu avô como se fosse tomar a porta central, ele correu (irmão Pedro) e fechou a porta, meu avô conduziu o terno para a porta lateral da 22, e nisso uma senhora que tinha uma loja na 26 presenciou aquilo ( não consigo lembrar seu nome, ela questionou o irmão Pedro, ai o irmão Pedro disse que (Moçambiqueiros) eram um bando de desordeiro nem freqüenta a igreja e nem nome num tem. Na lateral onde meu avô entrou tem um nossa senhora de Fátima ate hoje, não é nossa senhora do rosário quem fala isso fala errado, do lado que eles entraram, e aos pés dela eles colocavam naquela época rosas naturais (do mês de maio), ai através de um verso cantado meu avô fez um verso e canto ele paara nossa senhora de Fátima e o terno iria chamar Camisa Rosa e foi cantando e entrando na igreja. Meu avô tinha uma fitinha rosa na Mao do bastão dele, ai quando ele saiu de lá a mulher da loja levo ele na loja dela e corta um pedaço de rosa e coloco nele. Ai em 1964 o Camisa Rosa saiu com a Camisa Rosa meu avô saiu em maio e morreu em junho. E a nossa senhora é a de Fátima e não nossa senhora do rosário quem falo errou feio.8 Percebe-se, com clareza, que a história do terno está intrinsecamente ligada a cor do vestuário. Visto que a cor do manto e das flores envolta da imagem de Nossa Senhora de Fátima eram rosa, na qual reflete nas indumentárias, na denominação e no processo de formação de identidade do terno. AS CORES DA IDENTIDADE MOÇAMBIQUE CAMISA ROSA: 60 ANOS Olha que coisa mais linda Olha que coisa mais bela! Sou Camisa Rosa, de calça branca e faixa amarela!9 Conforme descrito acima, as cores das indumentárias do terno são o rosa, a calça branca e uma faixa amarela. Todavia essas cores não faziam parte da constituição inicial do terno. Segundo dados da Irmandade de São Benedito (2007), o Moçambique Camisa Rosa fundando por Seu Demetrio Silva Costa10, “Seu Cizico”, no dia 2 de abril de 1951. Desde sua fundação até o ano 1964, Demetrio foi capitão deste terno. As modificações, ocorridas nas cores do vestuário datam do primeiro e único desfile do capitão com este novo fardamento. As cores da nova indumentária são justificadas por um fato histórico descrito anteriormente nas falas do capitão. A estrutura do Terno Moçambique Camisa Rosa se divide em duas: o Terno Moçambique Camisa Rosa adulto e o Terno Moçambique Camisa Rosa mirim. Segundo 8 Entrevista com OLIVEIRA, Francis, Ituiutaba, 15 de maio, 2011. “Grito de guerra” inscrito em um banner de lona, carregado pelos integrantes do terno na ocasião do desfile. 10 In memorian. 9 297 dados da Irmandade de São Benedito, o mirim foi fundando em 2004 com o intuito de preservação da cultura congadeira entre jovens e crianças. A composição indumentária do terno é dividida de acordo com as seguintes categorias sociais: meninas do estandarte; guardiãs do terno; tocadores, dançadores; capitães de guia. Excepcionalmente, neste ano de aniversario de seis décadas houve uma homenagem a matriarca do terno Dona Geralda que faleceu em outubro de 2010. A comemoração deste ano foi singular, tendo em vista que o desfile foi norteado pelo primogênito de cada geração, algo não realizado anteriormente. As vestes destes foram brancas e de rendas devido Dona Geralda travestir vestes da mesma cor e ornamentação em desfiles anteriores. As vestimentas das meninas do estandarte foram diferenciadas durante dois períodos da festa: de manhã e a tarde. No primeiro período a indumentária das meninas era composta por vestidos de dois babados com estampa de flores brancas e rosa. No final da tarde e início da noite vestiram “tubinhos” de renda em homenagem a matriarca do terno. Haja vista o fato de nos anos 1960 ser comum o uso dessa vestimenta. As guardiãs do terno, mães e esposas dos capitães, por sua vez, vestem “terninhos rosa”: calça cor-de- rosa, blusa branca rendada e um blazer rosa. Os tocadores trajam calça branca, blusa e turbante rosa e uma fita amarela na cintura. Blusa cor-de-rosa, calça branca e faixa amarela cruzada sobre a blusa, caracterizam o vestuário dos dançadores. Os capitães de guia, por sua vez, descendentes hereditários de “Seu Cizico” e Dona Geralda vestem calça branca, blusa branca e uma faixa cruzada cor-de-rosa, com ênfase e um chapéu denominado “capela” ornamentado com espelhos. O antropólogo brasileiro Roberto da Matta (1983, p. 66), em seu livro “Carnavais Malandros e Heróis” contribui na interpretação das indumentárias. Estas podem ser analisadas enquanto momentos ritualizados do festejo a São Benedito. Segundo esse autor (1983, p. 63), os rituais não são situações que destoam substancialmente daquelas presenciadas no mundo cotidiano, eles são a combinação dessas situações. O âmbito do ritual não é permeado de rupturas fundamentais com o mundo corriqueiro. O ritual é conseqüência da mistura dos elementos e das relações intrínsecas do mundo cotidiano. A meu ver, o vestuário encontra-se em um contexto ritualizado. Um “tubinho rosa” no mundo cotidiano não difere do mesmo “tubinho rosa” no mundo dos rituais. 298 Conforme o autor, a matéria prima é a mesma. As diferenças entre os vestidos se originam por meio das combinações imbricadas em contextos sociais específicos. Entendo por esses contextos a festa da Irmandade e por essas combinações a escolha dos calçados, vestidos, ternos e calças inseridos em um momento ritual. As meninas de tubinho dançam com o vestido, carregam as fitas do estandarte e verbalizam cantorias em homenagem aos padroeiros da agremiação. Os dançadores, tocadores e capitães têm a calça branca enquanto uma peça na composição de suas indumentárias. A mesma calça pode ser encontrada na escolha indumentária de qualquer individuo na vida cotidiana. A calça branca dos integrantes do terno combina com a camisa cor-de-rosa, com as faixas amarelas, com a batida do bastão, com o estalar sobre o couro da caixa e o “semear” das patagomas, denotando assim um momento ritualizado. Constatei que o terno é dividido em dois segmentos principais, que não são únicos. Cada segmento apresenta uma combinação própria do seu vestuário específico com os demais elementos constitutivos da festa. A mistura desses elementos dentro dos segmentos do terno cria uma expressão identitária dos mesmos, a composição das vestimentas das mulheres denota a modernidade, ao passo que a dos homens se vincula a tradição. O filósofo e antropólogo francês Claude Lévi-Strauss em sua análise estrutural corrobora, cientificamente, para a interpretação do par binário de oposição: tradição e modernidade. Assim, o construto teórico desse autor contribui na interpretação da classificação acima. Em seu livro “Antropologia Estrutural” (1973), a sua análise é norteada pela lógica binária de oposição. Para o autor as explicações das estruturas conscientes do pensamento cultural se dão pelos aspectos inconscientes, ou seja, a unidade psíquica do pensamento.11A “cultura” indumentária do terno perpassa gerações, assim não sofre grandes modificações seguindo, a meu ver, uma estrutura lógica binária inerente. Os homens trajam hoje vestimentas similares daquelas utilizadas nos primeiros anos da fundação do terno, ou seja, a indumentária masculina traduz com veemência a tradição. Um dos capitães de guia e coordenador da confecção de indumentária enfatiza “os homens mantém a cultura, o tradicional”. 11 Cf. LÉVI-STRAUSS, Claude. As estruturas elementares do parentesco. Petrópolis: Vozes, p. 92-107, 1984. 299 A seleção das vestes femininas, ao contrário, é alterada de acordo com uma periodicidade, de ano a ano. A indumentária das mulheres simboliza para o terno, o hoje, os traços da contemporaneidade, enfim, o moderno. A madrinha da bandeira e confeccionista das vestes femininas destaca: “A mulher na congada no terno representa a modernidade, então todo ano muda, a mulher representa o agora, a atualidade”. Portanto o pensamento social do moçambiqueiro opera segundo uma lógica binária, isto é a oposição entre a “revolucionária” 12 modernidade das mulheres e a constância masculina. No desfile, a tradição e a modernidade se entrelaçam formando uma unidade de pertença identitária por meio das indumentárias. Os sujeitos atuam por meio destas com o intuito de preservação e afirmação da identidade há muito perdida seja pelo período da escravidão ou por estigmas e estereótipos criados no cerne da sociedade. Essa identidade se torna mais ilustrativa e clara no conceito de Castells (2008). Segundo autor a identidade de resistência é resultado de uma lógica de dominação que gera indivíduos em condições marginalizadas. Estes constroem “trincheiras de resistência e sobrevivência com base em princípios diferentes dos que permeiam as instituições da sociedade, ou mesmo opostos a estes últimos”. (CASTELLS, 2008, p. 24) Compreendo por trincheiras de resistência o movimento congadeiro da cidade de Ituiutaba. Este é representado pelos espaços geográficos e simbólicos de expressão das pertenças identitárias de cada confraria. Os desfiles e todas as manifestações culturais e religiosas nos dias de festa são concebidos nesses lugares simbólicos e geográficos. Todavia, esses espaços não são resultados de um processo natural histórico, mas sim conseqüências da lutas travadas principalmente pelo Terno Moçambique Camisa Rosa, a confraria precursora da criação da Irmandade de São Benedito. A batalha nas trincheiras apresenta uma diversidade de expressões, de caminhos e princípios distintos para a concretização da resistência. Entendo por princípios diferentes a heterogeneidade de estratégias em realizar essa identidade. Em outras observações científicas poderia dar ênfase na cantoria, nas gestualidades, nos 12 Considero por “revolucionária”, as mudanças reincidentes no vestuário das mulheres. A cada ano elas se propõem a uma nova “revolução” no ato de se vestir, alteram cores, recortes e os acessórios usados na ornamentação dos vestidos. 300 ritmos musicais e na religiosidade do terno. Entretanto o princípio que abarco neste trabalho na expressão da identidade de resistência é através do vestuário. Às cinco horas da manhã do domingo de festa, esses sujeitos de fé e força, os moçambiqueiros do Camisa Rosa, passam por uma transformação substancial, eles vestem suas roupas e adereços, tomam uma café da manhã reforçado, realizam suas orações em louvor a São Benedito. Notei uma ruptura entre os homens trabalhadores de sábado e os mesmos como capitães de domingo. Os indivíduos, fisiologicamente, eram os mesmos, mas ao vestirem as roupas rosa tornam-se dançadores, capitães e tocadores. Esses assumem funções e obrigações sociais com o terno ao vestirem suas indumentárias. As vestimentas tornam esses indivíduos mais fortes e pertencentes a uma cultura. “Me sinto com essa roupa demaizão”; 13 “Me sinto com a roupa the best”14. Esses relatos ilustram a transformação simbólica sofrida pelos sujeitos em decorrência do vestuário. É comumente observada a predominância de pessoas de cor negra e mulata nas Congadas pela relação evidente do movimento congadeiro com a cultura africana. Todavia observei uma jovem de pele clara, integrante veemente do terno, enfatizar os seguintes dizeres: “quando coloco o vestido e vou olhar no espelho, me sinto negra”. 15 Respaldada por essas análises, afirmo que o vestuário, é sim um elemento, um princípio, na formação de identidade de resistência no Terno Moçambique Camisa Rosa. 13 Entrevista com JUNQUEIRA, Marcos Henrique, Ituiutaba, 15 de maio, 2011. Entrevista com MARCÍLIO ALVES, Victor, Ituiutaba, 15 de maio, 2011. 15 Entrevista com SANTOS FERNANDES, Thaísa, Ituiutaba, 15 de maio, 2011. 14 301 Meninas do estandarte com vestimentas do período da tarde. Foto: Acervo da autora, Ituiutaba. Maio, 2011 Guardiãs do terno a margem e meninas do estandarte ao centro, com a indumentária do período da manhã. Foto: Acervo da autora, Ituiutaba. Maio, 2011. 302 Dançadores, tocadores e alguns capitães de guia. Foto: Acervo da autora, Ituiutaba. Maio, 2011. BASTIDORES DE UMA ETNOGRAFIA A trajetória etnográfica e de pesquisa é analisada por meio de dois momentos elementares. Em um primeiro momento, vinculada aos princípios metodológicos e científicos, realizei os passos iniciais do trabalho de campo. Os moçambiqueiros se mostraram resistentes ao contato com um membro exterior da comunidade, enfim com uma pesquisadora. O discurso social estava implícito aos segredos da cultura congadeira, algo que representa a identidade dos moçambiqueiros. Portanto, não consegui compreendê-lo, inicialmente. Após a imersão, o discurso social dos integrantes do terno se fez claro. “Se eu ‘participasse’, o trabalho de campo se tornaria uma aventura pessoal, isto é, o contrário de um trabalho; mas se tentasse ‘observar’ quer dizer, manter-me à distância, não acharia nada para ‘observar’” (FAVRET-SAADA, 2005, p. 157). Faço minhas as palavras de Favret-Saada. Após a sistematização da pesquisa na forma deste artigo, pude notar como a minha experiência era similar da antropóloga francesa. Concluo que corri o risco de ‘participar’ da cultura moçambiqueira, de colocar esse próprio trabalho em risco. Nos 303 últimos louvores e cantorias da procissão, coloquei uma camiseta rosa e dancei ao meio dos moçambiqueiros permeada pelos sons das patagomas, gungas e os batuques, naquele lapso de momento, senti-me pertencente. Assim como a menina de pele clara que incitei acima, na qual o vestuário a torna moçambiqueira, com uma identidade negra. A indumentária rosa denota a identidade, o sentimento de pertença cultural no terno. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A Festa do Santo de Preto, Rio de Janeiro: FUNARTE/Instituto Nacional do Folclore. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 1985. BRASILEIRO, Jeremias. Congado em Uberlândia: Espaço de Resistência e Identidade Cultural, 1996-2006. Uberlândia, 2006, 74 p. Monografia (Bacharelado em História) – Instituto de História, Universidade Federal de Uberlândia. CALÁBRIA, Juliana. Distintas Possibilidades de Negritude e Tradição. Um Estudo sobre a Festa de Nossa Senhora do Rosário de Uberlândia – MG. Curitiba, 2008, 264 p. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) - Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná. CASTELLS, Manuel. “A construção da identidade”. In: O Poder da Identidade. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 2008, p. 22-28. DA MATTA, Roberto. “Mecanismos Básicos de Ritualização”. In: Carnavais, Malandros e Heróis: Para Uma Sociologia do Dilema Brasileiro. 4ª ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983, p. 56-66. GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. 3a ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978. IRMANDADE DE SÃO BENEDITO. Reencontro com a Congada: Histórico da Irmandade de São Benedito e dos Ternos de Congada de Ituiutaba - MG. Ituiutaba: Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural, Ministério da Cultura, 2007. ISKANDAR, Jamil Ibrahim. Normas da ABNT: Comentadas para Trabalhos Científicos. 4a ed. Curitiba: Juruá Ed, 2009. LÉVI-STRAUSS, Claude. (1944-56) Antropologia Estrutural I. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1973, 456 p. 304 NAVES, Fernanda Domingos; KATRIB, Cairo M. Ibrahim. Cultura, Identidade e Religiosidade: Mapeamento e Reconstrução Histórica do Congado de Ituiutaba - MG. 2009. _______. As estruturas elementares do parentesco. Petrópolis: Vozes, p. 92-107, 1984. FAVRET-SAADA, Jeanne. “Ser afetado”, de Jeanne Favret-Saada. Cadernos de Campo, n. 13, PPGAS/FFLCH-USP p. 155-161. São Paulo, jan. 2005. 305 UMA JANELA ENTREABERTA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A PRESENÇA DE PRÁTICAS CATÓLICAS E SÍMBOLOS CRISTÃOS NAS ESCOLAS PÚBLICAS DE ITUIUTABA. Sidney Leopoldino da Mata Universidade Federal de Uberlândia - UFU Faculdade de Ciências Integradas do Pontal – FACIP Graduando em História [email protected] Profª. Dra. Sandra Alves Fiúza Universidade Federal de Uberlândia - UFU Faculdade de Ciências Integradas do Pontal – FACIP [email protected] O relato que segue propõe uma discussão acerca da permanência dos símbolos religiosos dentro do espaço público reservado a educação. Partimos de nossas incursões pelas escolas públicas do município de Ituiutaba durante o período de orientação de estágio supervisionado e de outras atividades acadêmicas realizadas dentro do espaço escolar. Nestes momentos de vivência do cotidiano escolar percebemos como algumas instituições de ensino público em nosso município ainda carregam um o forte apelo religioso norteado pelo catolicismo que podem se refletir na formação de alunos das séries iniciais e também do ensino médio. Chamou-nos a atenção dentro do cotidiano das escolas que freqüentamos ações tais como: a oração do pai-nosso, da Ave Maria professadas cotidianamente ao início das aulas, além da ostentação de imagens de santos cristãos promovidas por professores, diretores e demais servidores das escolas em áreas de convivência comuns aos alunos. Somam-se ainda a estas questionáveis práticas o advento do ensino religioso autorizado como disciplina pela legislação vigente (LDBEN, 2006). A nosso ver este conjunto de atitudes, somadas às práticas docentes anteriormente apresentadas privilegiam a religião católica em detrimento de tantos outros credos religiosos que compõe nossa sociedade e, por conseguinte na comunidade escolar, potencializando desta forma a construção de representações psicológicas e sociais nos alunos que as freqüentam, dificultando a democratização do espaço escolar e interferindo negativamente na desmistificação da concepção unívoca que ainda permanece sobre as demais correntes religiosas inclusive as de matrizes 306 africanas e afro-brasileiras. Entendemos que a mudança de concepção destes atores é um dos objetivos maiores contemplados na proposta da Lei Federal 10.639/03, que em consonância com a Constituição Federal de 1988, vedam de forma objetiva qualquer forma de proselitismo, norteando o respeito à diversidade cultural e religiosa em todos os estados da federação. Ocorre que a detecção destas práticas em boa parte das escolas públicas não só do município de Ituiutaba mais acredito que em todos os recantos do país colocam em cheque a credibilidade do arcabouço legal que regulamenta o sistema educacional brasileiro, já bastante questionado por vários segmentos da sociedade brasileira desde que a LDBEN foi alterada em 2007 em seu artigo 33 promovendo o Ensino Religioso ao status de disciplina de caráter científico constante da grade curricular do Ensino Básico brasileiro. A grande questão posta neste evento gira em torno da dimensão e alcance da participação Igreja Católica Apostólica Romana nestas modificações? O questionamento parte do principio de que os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Religioso (PCNER, 2000) que foi basicamente elaborado pela FONAPER1, entidade que congrega diversas denominações religiosas e cuja composição é majoritariamente de representantes católicos, tendo sido a proposta aceita pelas autoridades educacionais brasileiras sem nenhuma restrição ou questionamento (TOLEDO)2. Diante de um evento desta envergadura e considerando os seus reflexos na educação nacional, volta à tona uma antiga e polêmica questão sobre o assunto: Será que o Estado brasileiro e a Igreja Católica Apostólica Romana separam-se de fato após a proclamação da República em 1889? É evidente que uma questão de tamanha complexidade demandaria uma análise da mesma magnitude o que não é nossa intenção neste trabalho, mas não podemos, no entanto, deixar de considerar as relações de imbricamento que esta temática tem com a realidade religiosa observada no cotidiano escolar para qual se voltam nossas observações, motivo pelo qual retomaremos esta discussão mais adiante. 1 FONAPER – Fórum Nacional Permanente para o Ensino Religioso, entidade que congrega diversas denominações religiosas e que tem o propósito de influir nas discussões e encaminhamentos da questão do ensino religioso nas escolas. 2 César de Alencar Arnaut de Toledo em trabalho apresentado na IV Jornada de HISTEDBR (Grupo de pesquisa em História, Sociedade e Educação no Brasil) na Universidade Estadual do Maringá-PR em 2004. 307 Avançando em nossa reflexão salientamos que a Lei 10.639/033 alterou a Lei 9.394 de 1996 estabelecendo as Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) tornando obrigatória a “Educação das Relações Étnico-Raciais e o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana” no ensino fundamental e médio das escolas públicas e particulares da federação. Neste contexto a Lei 10.639/03 se soma a outros dispositivos legais e reivindicatórios propostos por alguns segmentos dos movimentos negros ao longo do século XX que em tese relaciona-se às novas orientações assumidas pelo Estado brasileiro em relação às políticas públicas e ao campo das representações sobre as relações raciais. Destacamos que a referida Lei tem uma forma bastante peculiar de discutir as relações raciais, estando alinhada aos mais recentes discursos acerca das propostas de ações afirmativas, além de sustentar-se em argumentos que colocam o racismo como principal entrave para a aprendizagem, especialmente na escola pública, implicando em “exclusão racial”. A Lei em questão também explicita a necessidade do reconhecimento e valorização da cultura afro-brasileira, da história da África e a urgência de se promover a educação das relações étnico-raciais como forma de combate ao racismo e às discriminações que atingem particularmente os negros em nossa sociedade. Teoricamente acredita-se que com a adoção destes moldes de “políticas públicas” resolver-se-á o problema da inclusão desses segmentos sociais. Mas, e na prática como anda o encaminhamento destas questões dentro das escolas brasileiras depois de oito anos da promulgação da Lei 10.639/03? Por que centenas de escolas públicas em pelo menos 11 estados do território brasileiro inclusive Minas Gerais, não abrem suas janelas definitivamente para que se desenvolva de fato a aplicação da referida lei e ainda de quebra deixam de cumprir impunemente os preceitos do caráter laico assumido pelo Estado brasileiro, trabalhando de forma articulada o Ensino Religioso e a ostentação de símbolos e práticas cristãs em suas dependências? Este é o diagnóstico inserido no recente relatório produzido por membros da Organização das Nações Unidas, após visita a vários estados brasileiros, como noticiado pelo jornal o Estado de São Paulo: Centenas de escolas públicas em pelo menos 11 Estados do Brasil não seguem os preceitos do caráter laico do Estado e impõem o ensino religioso, alerta a Organização das Nações Unidas. Em relatório a ser apresentado na semana que vem ao Conselho 3 A Lei 10.639 foi promulgada em 09 de janeiro de 2003 pelo Governo Federal sendo resultante de importantes conquistas do Movimento Negro no Brasil, oriunda da Lei 259, apresentada em 1999 pela deputada Esther Grossi e pelo deputado Benhur Ferreira. A nova legislação acrescentou dois artigos a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394/96). 308 de Direitos Humanos da ONU, a situação do Brasil é criticada (Fonte: O Estado de São Paulo de 28/05/2011). É de fato intrigante que eventos desta natureza possam ocorrer no Brasil em pleno século XXI, momento em que historicamente se observa ao menos teoricamente a maior mobilização do Estado brasileiro voltada para as ações afirmativas, principalmente a partir 2005 quando foi lançado o Programa Estratégico de Ações Afirmativas, cujo objetivo centrava-se no combate ao racismo e a discriminação, ou seja, a promoção da igualdade social, que passa é lógico pelo prisma da igualdade religiosa. Mais como promover de fato a igualdade religiosa e a liberdade de culto em um país plural como o nosso? Ao analisarmos os dados oficiais do IBGE sobre a distribuição percentual por religião no país podemos mensurar a grandeza dessa diversidade – cristãos: católicos apostólicos romanos (73,57%), evangélicos: 15,41%, espíritas: 1,33%, umbanda: 0,23%, candomblé: 0,08%, sem religião: 7,35%, religiões ligadas às tradições indígenas: 0,01% (FONTE: IBGE, 2000)4. Se temos um Estado laico, Políticas Afirmativas e um arcabouço legal, voltados para a igualdade religiosa, quais seriam então os elementos contribuidores para que se configure na prática este antagonismo? E ainda porque ele se reflete de forma tão abrangente dentro das instituições escolares? Se verificarmos o art. 5º da Constituição Federal Brasileira5 veremos que ela consagra o princípio da liberdade de crença, de culto, de liturgias e de organização religiosa, inseridas no catálogo constitucional das liberdades públicas. Neste sentido entendemos a educação como sendo direito de todos, portanto não deveria prejudicar nem discriminar nenhuma pessoa, seja ela professor, funcionário ou aluno, porque este(a) professa determinada religião. A Lei das Diretrizes e Bases da Educação6 recomenda em seu texto que o ensino religioso deve ser ofertado em escolas públicas de ensino fundamental do país, em caráter facultativo para todos os alunos, no entanto não é isso que se observa na 4 Dados do IBGE referentes à pesquisa do ano 2000. A divulgação dos dados referentes ao Censo 2010 está prevista para o ano de 2012. 5 Artigo 5º da Constituição Federal: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País, a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança, a propriedade, nos termos seguintes: VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida na forma d à lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias. 6 A Lei de Diretrizes e Bases da Educação com redação dada pela Lei nº. 9475, de 22 de julho de 1997 definem o seguinte: Art.33° - O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo. 309 prática, uma vez que várias escolas públicas do município de Ituiutaba-MG continuam adotando práticas que estão na contramão destas propostas. Exemplos notórios podem ser facilmente encontrados em incursões aos estabelecimentos de ensino público do município. Algumas das situações abaixo descritas sinalizam bem o quanto elementos predominantente católicos ainda compõe o ambiente escolar das instituições de ensino tijucanos7. Vejamos algumas situações que ilustram esta realidade: Alunos do ensino fundamental rezando o pai-nosso todos os dias antes do inicio das aulas sempre estimuladas pelos professores mesmo fora da disciplina de religião8, presença de uma espécie de nicho9 para abrigar uma imagem de santa na entrada principal da instituição, no interior da secretaria de uma das escolas visitadas que se situa na periferia da cidade, encontramos uma grande imagem de Nossa Senhora Aparecida com uma Bíblia sagrada aberta aos seus pés, aproximando-se do que se convencionou chamar entre os católicos de altar. Encontramos ainda crucifixos dependurados em paredes e sobre mesas de trabalho em salas de diretores e vice-diretores, e o uso de expressões do tipo “menino não faça isto, pois Deus te castiga” durante o decurso das aulas. Estas foram algumas das situações que pudemos perceber dentro da rotina das instituições públicas de ensino no município de Ituiutaba. Pensamos que dentro do contexto apresentado, o uso dos símbolos e práticas acima descritas equivale à exaltação de iconografias e rituais religiosos praticados em escolas públicas do município com a anuência e participação de gestores, professores e alunos. Nos termos do sociólogo francês Pierre Bordieu estas práticas evidenciam uma “violência simbólica”: O sistema de ensino, cuja inculcação impõe a semi-sistematização e a semi-teorização dos conteúdos inculcados realiza sobre estes um efeito de neutralização e de banalização da transmissão de significações. À medida que o sistema de ensino se transforma, modificam-se também os esquemas de pensamentos que constituem a história do campo cultural. A repetição didática de mensagens carregadas de violência simbólica contribui as classes dominantes mediante a imposição de um consenso cultural e a sublimação – pela via de ritualização – dos conflitos presentes ou passados das suas diversas frações. (MIRANDA, 2005, p. 86) 7 O termo Tijucano é usado na Região do Triângulo Mineiro, para se fazer referência a cidade de Ituiutaba que se situa geograficamente as margens do rio Tejuco. 8 Este episódio foi observado durante todas as aulas de “HISTÓRIA” ministradas para alunos do Ensino Fundamental no segundo semestre do ano de 2010 durante o nosso período de Estágio Supervisionado em uma das Escolas Estaduais que compõe a rede pública de ensino no município de Ituiutaba. 9 Segundo o dicionário Aurélio nicho quer dizer: Cavidade ou vão localizado em parede ou muro para assentar estátua, imagem, etc. 310 Segundo o historiador francês Pierre Nora “realizar celebrações ou cultos de qualquer tipo adquire sentido de comemorações que são lugares de memória, ou seja, lugares que se encarregam de lembrar algo que já se foi, mas parece atemporal em função do processo repetitivo que traz o passado sempre presente com sendo a essência da escatologia que trará a felicidade humana no mundo sublunar” (NORA, p.7-28, 1993). Dentro desta perspectiva seriam lugares de memória as esculturas de Nossa Senhora, a Bíblia e as celebrações que se realizam dentro dos ambientes escolares de Ituiutaba, com o agravante de que estes não são meramente inocentes como comumente se difunde, na verdade representam a moral cristã, simbolizando valores milenares do ocidente medieval que visam atestar a legitimidade da ideologia e das práticas religiosas do cristianismo. Podemos dizer que os Parâmetros Curriculares Nacionais10 seriam um importante recurso legal a ser usado para nortear o não uso destas práticas nos ambientes escolares, não fosse à coexistência do PCNER11 regulamentando parâmetros para o Ensino Religioso, fator que se coloca a meu ver como uma das mais importantes referências nacionais a ser utilizada para elaboração dos projetos pedagógicos pelos professores cuja a possibilidade de interpretação tornou-se ambígua, podendo ser usado contra ou a favor de tais práticas, e de acordo com o credo de cada um que busque essa referência. Se considerar-mos como já foi dito, que o grande desafio da escola é investir na superação da discriminação, e, conhecendo a riqueza representada pela diversidade etnocultural que compõe o patrimônio sociocultural brasileiro e a valorização da trajetória particular dos grupos que compõe a sociedade”, vem a tona a seguinte dúvida: Como chegar a equidade trabalhando com estas ferramentas? Historicamente todas as redes de ensino sejam elas públicas ou privadas têm dificuldades e conflitos em ministrar as aulas de Ensino Religioso, dado a complexidade do conteúdo da mesma e o pluralismo religioso. Dificuldades porque os professores e não só os de Ensino religioso, insistem em catequizar e educar na fé seus alunos, fato este, que é no mínimo questionável haja vista a existência de várias denominações eclesiais entre os alunos. Conflitos por que existem pais que não acreditam ou não 10 Os PCNs são definidos como referencias de qualidade para a educação no ensino fundamental em todo o Brasil. Ou seja, quem os escreveu pensou neles como “uma referência curricular comum para todo o País”. O documento de introdução aos PCNs sustenta a necessidade dessa referência comum para toda a Nação porque afirma que fortaleceria a unidade nacional e a responsabilidade do governo Federal para com a Educação. Os PCNs não se autodenominam um currículo acabado e obrigatório, mas o seu nível de detalhamento torna-os o currículo do ensino fundamental (AUAD, Daniela). 11 Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Religioso. 311 admitem determinados conceitos religiosos que são apresentados aos alunos como único dogma de fé. Pensamos que cabe aqui a pergunta: Será que religião é um assunto a ser tratado como disciplina dentro da escola? Dentro deste contexto não devemos nos esquecer da condição narrada anteriormente no que se refere ao processo de produção do PCNER em 1997, transformando o Ensino Religioso em disciplina do Sistema Nacional de Ensino com todas as características que lhes são próprias. Ressaltamos ainda que enquanto os “Parâmetros Curriculares Nacionais” dos diversos níveis e áreas foram elaborados por comissões instituídas pelo Ministério da Educação, os PCNER foram elaborados por um grupo da FONAPER12 e aceito sem questionamentos pelas autoridades do segmento educacional como nos esclarece TOLEDO: É intrigante e, até difícil, pela própria natureza histórica do Ensino Religioso no Brasil, compreender o caráter “científico” que ora lhe é impresso. Mais intrigante ainda é concebê-lo de forma neutra, secularizada, dentro de uma sociedade hegemonizadora, da qual, a partir do novo modelo, abriu mão a Igreja Católica Romana, que deteve, desde o início da colonização, o controle sobre tal matéria. (TOLEDO, 2004, p. 6) É possível que a própria ambigüidade que permeia o Estado brasileiro no que se refere à laicidade repercuta na formulação das Leis e dos discursos por ele produzido fazendo com que a aplicação destes dispositivos possa ferir de certa forma a igualdade de direitos. Essa dimensão torna-se grave quando se reflete negativamente nas ações concretas de gestores e do corpo docente das escolas públicas de Ituiutaba, uma vez que este é inegavelmente um espaço de socialização onde convivem diversas formas de culturas, ambiente no qual estes atores podem sentir-se autorizados a aplicar livremente suas concepções religiosas. Entendemos que este quadro é bastante preocupante uma vez que nas escolas que freqüentamos não percebemos ações voltadas para tentar reverter esta realidade, o que implica em minha opinião no engessamento das perspectivas voltadas para atender as demandas da Lei 10.639/2003 em prol da cultura e desmistificação da religiosidade afro-brasileira em sala de aula. Acreditamos que a manutenção desta postura maniqueísta dos profissionais envolvidos com a educação não seja de tudo arbitraria ou intencional. Talvez precisemos de outra escola, onde não se perceba a opção por uma religião considerada sagrada e afeta a Deus em detrimento de outra excomungada e 12 Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso. 312 afeta ao demônio. Uma nova escola onde se trabalhe de fato a emancipação do ser humano, onde se empregue uma nova lógica, que não seja pautada na leitura monocultural do mundo, pois é dessa forma que muitos gestores e professores ainda lidam com as diferenças nas escolas públicas tijucanas. Acreditamos que se faz necessário uma reflexão de cunho conjuntural uma vez que diante do quadro até aqui destacado seria inocente de nossa parte, por exemplo, pensar que apenas uma lei que determine a introdução no currículo da História e da Cultura afro-brasileira seja suficiente para reverter este cenário lastimável em que as pessoas que tem o seu credo afeto as religiões de matrizes africanas, que professam outros credos, ou mesmo as que não têm nenhuma predileção religiosa sejam classificadas como anormais e pertencentes ao lado mal. É necessário que gestores, educadores e toda a comunidade escolar busquem romper com a lógica autoritária ainda reinante nas escolas e nas sala de aula e busquem o respeito à diversidade cultural e religiosa tão latente em nosso país, afinal estas são posturas inadequadas as demandas sociais em curso no século XXI. Retomando o exemplo de uma das Escolas de Ituiutaba já mencionada, aquela que ostenta a imagem de uma santa católica em suas dependências. Pensemos se lá nesta mesma posição estratégica da referida instituição estivesse um dos diversos orixás africanos, ou a roda dharmica símbolo do budismo, ou ainda um pentagrama um dos mais importantes símbolos da religião neo-pagã wicca que foi erroneamente associado ao satanismo? Como seria vista a referida escola pela sociedade local? E os seus gestores de que forma seriam tratados ou referenciados? Seriam estes atores considerados anormais ou contrários a uma ordem religiosa dominante no município? Nesta complexa realidade a educação brasileira regride e distancia-se da laicidade por meio das práticas instituídas no cotidiano escolar que anulam ou mascaram estas intenções. Que significados ostentam estas práticas religiosas cristãs que parecem estar incorporadas pelos profissionais da educação em nosso país? Chamamos João Batista Libânio para nos auxiliar nesta reflexão: O povo brasileiro teve e tem ainda uma ampla socialização católica. Impregnam-lhe o imaginário social religioso os ritos católicos. Ai estão disponíveis significantes religiosos de cristo, cruzes, ostensório, hóstia, Maria, os santos que podem ser resgatados a qualquer momento. (LIBÂNIO, 2002, p. 241) Não temos como já foi dito a pretensão de nos aprofundar nestes meandros em busca das possíveis respostas, limitamo-nos neste artigo, a propor questões que 313 necessitam ser refletidas urgentemente, diante das demandas sociais que se apresentam em nosso país. Alguns autores defendem a teoria que o imaginário social se origina comumente de uma matriz de interação simbólica cujas ações são normalmente voltadas para o controle e estabilização social e por isso deve ser sempre questionado, uma vez que através desta prática comum as classes dominantes que se manifestam os preconceitos, os estereótipos e os estigmas que são assimilados de maneira acrítica e inconsciente pela sociedade, dificultando imensamente a inclusão dos chamados diferentes, como argumenta Hilda Maria Rodrigues Avelato: Para as modernas sociedades, a rede de significados é rica, plástica e multideterminada, predominando diferenciações sustentadas por elementos ideológicos, mas onde se encontram exatamente por sua complexidade elementos míticos e religiosos, além de outros. É preciso não se esquecer que é nesse tecido, composto por crenças, valores, mitos, religiões, ideologias, utopias, etc., nesse verdadeiro amalgama que chamamos de imaginário social, que as representações se constroem, ancorando-se e objetivando. (AVELATO, 1999, p. 99-100) Apresentaremos breve narrativa de cunho histórico com fins de que conheçamos as origens do município de Ituiutaba e, por conseguinte ter acesso a uma das possíveis matrizes simbólica das práticas cristãs que ainda hoje perpassa a cultura das escolas públicas locais. O professor Edelweiss Teixeira escreveu, na Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, publicada em 1959, que Ituiutaba, localizada no estado de Minas Gerais, no Brasil, não passou de um pequeno lugarejo, nascido, em 1832, no entorno da capela fundada pelo Padre Antônio Dias de Gouveia; dono da sesmaria das Três Barras, próxima ao rio Tijuco. Em 1833, o primeiro capelão, Padre Francisco de Sales Souza Fleury, chegou ao lugarejo que se formou em torno da capela; um casario às margens do córrego Sujo, em uma parte baixa. O povo resolveu instalar a capela em uma parte mais alta, com maior visibilidade, e, em 1839, edificou-se a Paróquia de São José do Tijuco, criada pela Lei Municipal n.º 138, de 3 de abril de 1839. Esta paróquia: (...) compreendia os curatos do Carmo, de Morrinhos da Prata e de São Francisco das Chagas de Monte Alegre. Em 1840 foi tornada sem efeito a lei nº 138, e, em conseqüência, a criação da paróquia de Prata. Em 7 de novembro de 1866, foi novamente criada à freguesia de São José do Tijuco, desmembrada de Nossa Senhora do Carmo do Prata, no local da antiga capela edificada em 1839, José Martins Ferreira e José Flauzino Ribeiro, à frente da população de São José do Tijuco, edificaram a matriz que concluíram em 1862. (TEIXEIRA, 1959, p. 305) 314 Verificamos, na narrativa acima, uma breve explanação sobre os primórdios da fundação da cidade de Ituiutaba que desde seu surgimento desenvolveu-se, como inúmeras outras cidades brasileiras, sob a égide da Igreja e da fé Católica. Seria no mínimo inocente pensar que Ituiutaba ficou imune ao papel que a Igreja católica manteve em todo território nacional no sentido de forjar comportamentos e códigos sociais, sendo uma peça fundamental de interlocução no processo civilizador, onde a educação e a religiosidade foram à base para a construção de vários discursos e práticas constituídas no espaço social, criando um ambiente de homogeneidade do pensamento religioso que ainda hoje percebemos nas escolas. E quem seriam os atores, sobre quem hoje recai a responsabilidade pela manutenção ou pela mudança deste panorama? Como já foi dito o espaço escolar agrega diferentes culturas e esta singularidade do segmento demanda preparo e competência para lidar com as diversas vertentes religiosas que ali se apresentam. Em nossas observações tivemos a oportunidade de constatar que as escolas públicas do município de Ituiutaba nas quais fizemos nossas incursões têm ou seguem uma tendência tradicional e conservadora no que diz respeito à esfera religiosa que permeia os espaços de convivência e salas de aula; onde a maioria das orações proferidas é de cunho exclusivo da religião católica, não se levando em conta o valor cultural e histórico de outras religiões, postura que aparece implícita a gestores e ao corpo docente das referidas instituições. Perguntamos então o que poderia ser mudado neste contexto tão amplo, de forma a propiciar a quebra destes enormes paradigmas? Considerando que a escola é um dos espaços onde se concentra uma das maiores diversidades culturais, mas que também é notadamente um dos locais onde mais se veicula a discriminação e ainda reconhecendo que trabalhar as diferenças é um dos grandes desafios do corpo docente das instituições escolares neste século, partimos da premissa que o docente é um facilitador do processo ensino- aprendizagem e que na maioria das vezes traz consigo uma formação deficitária para lidar com as demandas que lhe são atribuídas na esfera cultural e religiosa. Entendemos que esta nuance pode condicioná-lo a aderir de forma incondicional a uma matriz reprodutora do poder dominante inculcada nos gestores dentro da escola. Estes muitas vezes produzem normas embasadas no seu credo religioso como formas camufladas e ditas redentoras, com o objetivo de controlar condutas de indisciplinas dos alunos. Entendemos que a 315 intenção de utilizar a religião na escola como instrumento apaziguador de conflitos e indisciplina deve ser entendido como uma prática equivocada por parte de diretores ou supervisores ou por qualquer componente da equipe pedagógica. Pensamos que principalmente o professor que é o elemento que mantém um contato cotidiano com os alunos deve planejar constantemente as suas práticas de intervenção e construção do conhecimento, procurando assimilar as trajetórias, saberes e conflitos trazidos pelos alunos, explorando-as para formação do sujeito crítico e não utilizando elementos da religião como camisa de força para sufocá-las. É sobre esta questão que Luiz Antônio Cunha nos propõe refletir: Com o acirramento da crise econômica e dos conflitos sociais, desde a década passada, a religião virou uma panacéia, defendida, surpreendentemente, por religiosos e ateus. Um remédio para todos os males, que se pretende ministrar em doses amplas aos alunos das escolas públicas como mecanismo de controle individual e social supostamente capaz de acalmar os indisciplinados, de conter o uso de drogas, de evitar gravidez precoce e as doenças sexualmente transmissíveis, apresentando-se, também como única base válida para a ética e a cidadania, como se fosse uma espécie de educação moral e cívica do bem. (CUNHA, 2008, p. 170) Martin Buber propõe que a escola seja pensada como espaço acolhedor, aberto as aprendizagens, mais do que ao ensino, uma vez que o termo ensino já carrega em si a definição de superioridade, incompatível com o conhecimento e o reconhecimento do outro como também portador de saberes igualmente válidos (BUBER, 2006). Como pudemos perceber ao longo desta reflexão a experiência profissional, o bom nível de formação acadêmica, são pré-requisitos essenciais para laborar nos espaço escolar, no entanto, nem sempre estes requisitos se apresentam como fatores determinantes de qualidade na atuação do profissional quando a questão da diversidade religiosa esta em jogo. Segundo Adauto Leite Oliveira: Soma-se a este fator a retórica do processo histórico da educação brasileira, as ambigüidades presentes na legislação educacional, que interferem na visão dos profissionais da educação no sentido de que estes não conseguem fazer a distinção entre a sua opção religiosa e o seu papel profissional, sendo que muitos se percebem ainda como missionários que devem ensinar o que é ‘bom/bem’ e afastá-los do que consideram ‘mau/mal’ para os seus alunos. (OLIVEIRA, 2011, p. 16) Desta forma entendemos que não podemos nos calar ou fazer vista grossa, partilhamos da idéia de que a escola não deve ser um espaço ideológico de transmissão de valores de qualquer religião e sim o lugar de desenvolver a criticidade dos alunos, de problematizar as religiões, a religiosidade, os sincretismos e as dimensões ideológicas 316 de dominação. Entendemos que proporcionar conhecimento sobre as religiões é bem diferente de trabalhar no sentido de doutrinar alunos para qualquer religião. Por tudo que aqui foi exposto acreditamos que as escolas públicas de Ituiutaba e de outros municípios da federação que adotam as mesmas práticas têm as seguintes opções para libertar-se do poder simbólico cristocêntrico. A primeira opção seria abrir espaço para as representações simbólicas de todas as religiões o que muito provavelmente seria uma tentativa utópica. A segunda seria simplesmente serem sensíveis as demandas sociais que hoje se impõem, procurando se esquivar das ambigüidades promovidas pela LDB, pela Constituição Federal, e pelos próprios PCNs, buscando encarar os desafios de forma a alcançar o status de uma escola de qualidade que possa ser de fato ser uma escola para todos e, portanto, mais democrática e inclusiva. A polêmica sobre os símbolos religiosos cristãos nas escolas aponta para a subsistência entre nós de um militantismo católico que não condiz com os requisitos elementares da laicidade que deveria nortear as ações da escola pública no Brasil. Sendo assim, consideramos que já é avançada à hora da escola pública assumir uma postura adulta, que dê uma resposta a altura dos anseios de nossa sociedade, afinal, o que esta em jogo nesta batalha é a intolerância religiosa, o preconceito e a desqualificação do outro, e estes elementos deveriam ser a muito uma página virada de nossa História. 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Milton Santos também foi o primeiro negro a obter o título de professor-emérito da Universidade de São Paulo. Acompanhou o presidente Jânio Quadros em viagem a Cuba, como jornalista, e foi nomeado representante da Casa Civil da Bahia. Na época do golpe de 64, foi despedido da Universidade Federal da Bahia e passou três meses preso em um quartel de Salvador. Em exílio voluntário, partiu para o exterior a convite de amigos franceses. Por 13 anos lecionou na França, Canadá, Reino Unido, Peru, Venezuela, Tanzânia e Estados Unidos. Retornou ao Brasil em 1977. Milton foi consultor da Organização das Nações Unidas, da Unesco, da Organização Internacional do Trabalho e da Organização dos Estados Americanos. Também foi consultor em várias áreas junto aos governos da Argélia, Guiné-Bissau e Venezuela. Fez pesquisas e conferências em mais de 20 países, como Japão, México, Índia, Tunísia, Benin, Gana, Espanha e Cuba, entre outros. Consciente da situação do negro na sociedade brasileira, analisava com acuidade quando dizia: “tenho instrução superior, creio ser personalidade forte, mas não sou um cidadão integral deste país. O meu caso é como o de todos os negros brasileiros, exceto quando apontado como exceção. E ser apontado como exceção, além de ser constrangedor para aquele que o é, constitui algo de momentâneo, impermanente, resultado de uma integração casual." Milton Santos morreu aos 75 anos, no dia 24 de junho de 2001, na cidade de São Paulo.1 1 Ver mais em http://www.acordacultura.org.br/herois/ 320 ÁFRICA: REFLEXÃO GEOGRÁFICA Renata Ribeiro da Silva Ramos Universidade Federal de Uberlândia – UFU Graduanda em Geografia – IG [email protected] Prof. Dr. Guimes Rodrigues Filho Universidade Federal de Uberlândia – UFU Instituto de Química – IQ Núcleo de Estudos Afro Brasileiros – NEAB [email protected] Antes de expor argumentos sobre a África é importante evitar generalizações abusivas capazes de mutilar a riqueza da diversidade que este continente possui já que poucas são as informações que apresentam essa diversidade como algo positivo frente à massa de noticiários pessimistas. Apesar da África toda não ser a mesma coisa, tem muitas semelhanças e experiências comuns. Artigos sintetizam de modo geral aspectos e questões comuns de toda a África, como Educação, Saúde, Violência, Desenvolvimento, Geopolítica entre outros e, conforme Kabengele Munanga (MUNANGA, 2011), é importante somar abordagens generalistas com as nominalistas, pois assim ajudam o leitor a entender os desafios comuns de todo o continente para o milênio e as particularidades de alguns países sobre questões específicas. Apesar da promulgação da lei federal 10.639 em 2003 os avanços para o efetivo cumprimento da LDB são ainda muito incipientes. A África permanece ausente dos currículos escolares em todos os níveis de ensino. O que nos faz chegar a essa conclusão é o fato de que o governo federal, através do Ministério da Educação, MEC, e da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, SEPPIR, lançou apenas em 2009 o Plano Nacional para a implementação da lei 10.639. Desse modo, o presente trabalho pretende apresentar uma perspectiva do continente africano a partir de uma revisão bibliográfica que possibilite situar o ensino e a pesquisa em geografia. Por exemplo, o artigo de Ferreira e colaboradores (FERREIRA et al., 2008) África de ontem, África de hoje, resquícios de permanência? Nos mostra ao norte do continente uma organização sócio-econômica muito semelhante à do Oriente Médio formando um mundo islamizado, ao sul temos a chamada África negra, assim 321 denominada pela predominância de povos de pele escura. Nesta região, segundo os autores, encontram-se os piores indicadores sociais. Os principais problemas são: Fome, Guerras civis, Epidemias e Questões ambientais. É importante, e necessário, ao se estudar a formação, estruturação, ocupação territorial e configurações atuais do espaço e dos modos de vida, não só nos países da África como de qualquer outro país e nação, fazer um retrospecto histórico para entender como foi condicionada esta configuração, aonde se consolidou, no tempo e no espaço, as recentes formas de poder, dominação, ocupação e vivência, mas não cabe aqui focar neste retrospecto, apenas estão destacados alguns itens julgados aqui como sendo os mais importantes para o presente artigo. Segundo Emir Sader (SADER, 2010) a África foi um dos objetivos essenciais da ação colonizadora e sua divisão tornou-se um dos temas centrais da política mundial nas últimas décadas do século XIX, podendo vir daí as condições que hoje vivencia. O autor acima se refere a um fato de ordem histórica o qual julgo ter sido possivelmente o motivo das condições atuais em que o continente africano se encontra, pois sendo a África um dos focos essenciais e estratégicos para os que colonizavam naquela época acabou sendo alvo de uma ocupação desenfreada e de uma exploração desumana. As potências colonizadoras estabeleceram suas fronteiras de dominação (pela conferência de Berlim 1883-84) sem considerar os povos, culturas, famílias e etnias de cada espaço, dividindo o território em “linhas” retas, não “compreendendo” que os africanos também possuíssem almas mais fortes que qualquer arranjo territorial, sem contar que a ocupação colonial ocasionou o quase completo corte das antigas e fortes relações com o Brasil segundo Alberto da Costa e Silva (SILVA, 1994). Os territórios controlados pelas potências européias aumentaram dez vezes de 1860 a 1914, passando de um total de 145 milhões para 568 milhões de habitantes, sem incluir ainda o Oriente Médio, que estava em disputa. A extensão total dos territórios dominados pelas potências imperialistas européias chegava a 90% do território da África. (sem contar ainda os 56% do território da Ásia e 99% da Oceania) (SADER, 2010, p. 32). A exploração do continente africano, de origem então imperialista, desde aí se intensifica e continua árdua até hoje. Algumas das principais nações européias responsáveis pela exploração do continente em questão foram França, Alemanha, Holanda, Reino Unido e Bélgica. A partir daí aparecendo novos países, de outros continentes, também exploradores. Outro exemplo, já na segunda metade do século XX, 322 é dos EUA que se aproveitando das jazidas petrolíferas da África dominava e explorava o continente e daí adquiria petróleo tão barato que se enriquecia cada vez mais, obtendo a hegemonia automobilística com a aquisição de petróleo barato incentivando a produção e consumo exacerbado de automóveis (SADER, 2010) o quê com um pouco mais de malícia instiga ser um fato precursor dessa difusão do consumo exacerbado de automóveis em todo o Brasil que presenciamos a cada dia e em cada cidade. Essa ressalva se dá apenas para indicar que várias foram as formas de exploração deste continente, desde as explorações de recursos naturais até a de seres humanos. A África possui, sobretudo, muitas riquezas naturais e minerais sem contar a grande diversidade humana e cultural que é desrespeitada, explorada e depredada por muitos. Possui imensos recursos hídricos (grandes rios e lagos, terras úmidas vastas, e extensos cursos de água subterrânea), importantes e fundamentais para a vida conforme demonstrado por GONÇALVES, 2005 em seu artigo sobre os Rios Nilo e Tigre. Os rios exercem na história humana um impacto tão decisivo e evidente que se torna até desnecessário descrevê-lo nos aspectos vitais (GONÇALVES, 2005). Possui ainda jazidas de petróleo, diamante, dentre outros. Como exemplo a África do Sul que abriga em seu subsolo uma grande quantidade de minérios, destaca-se na produção de carvão mineral, manganês, ferro, cobre, platina, diamante, ouro e urânio e de energia elétrica, impulsionada pelo rio Orange, riquezas que são fundamentais para o desenvolvimento industrial e que se bem utilizadas e manejadas podem contribuir para um desenvolvimento de toda a região, mas, sobretudo, são riquezas fundamentais também para que seja feita a preservação ambiental. Sabe-se que os recursos naturais são extremamente importantes para o desenvolvimento econômico e social de um país. No entanto, o continente africano apesar de tais riquezas ainda sofre com várias crises em sua maior parte. O potencial em recursos naturais e minerais é grande como visto acima e aí que se faz necessário, assim como em outros países, a preservação ambiental para garantir que esse “estoque” de recursos dure por mais tempo e consequentemente também a vida do ser humano se prolongue por mais gerações. Nota-se em determinadas regiões da África situações de pobreza e fome extremas e as dificuldades das organizações sociais e mesmo dos órgãos internacionais em promover ações efetivas para um desenvolvimento sustentável. Mesmo sabendo 323 que, por exemplo, a seca natural que em algumas regiões é a causa fundamental da infertilidade do solo e improdutividade de alimentos para atender a toda a população, pode ser passível de correção e amenização. Segundo a ONU, 2011, um dos grandes desafios para o milênio é a busca de soluções para as situações críticas de sobrevivência nas quais está inserida boa parte da população mundial e em particular no território africano236. Outro aspecto relevante é que não somente a África subsaariana (conforme a imprensa sempre apresenta em imagens afropessimistas), como países do Norte a exemplo do Egito, Tunísia e Líbia (estes dois últimos países podem ser considerados como componentes do Magreb)237 e o conhecido “Chifre da África” a Nordeste do continente (Somália, Etiópia, Quênia, Djibuti), enfrentam sérios problemas contribuindo para uma defasagem socioeconômica e democrática que tem ressonância em todo o continente africano (FAO, 2011)238. Um dos problemas que assola algumas regiões do continente como já foi dito é a fome, com grande foco na região do Chifre da África devido ao alto índice de seca presente, por exemplo, na Somália. Notícias foram publicadas recentemente com ênfase na questão alimentar em várias regiões do Chifre da África. Na folha de São Paulo, em 5 de Agosto de 2011, foi apresentada a fome que matou 29 mil crianças na Somália em apenas três meses e se tratando de crises ambientais a seca apareceu como principal motivo causador da falta de alimentos. A mesma notícia afirmou que a seca causadora desta epidemia de fome foi considerada uma das piores secas dos últimos 60 anos e foi responsável pela escassez de alimentos para 10 milhões de pessoas em países do Chifre da África. Por informações da ONU (2011), 640 mil crianças somalis estão desnutridas, é possível verificar que a fome se agrava e expande pela Somália (com maior foco no Sul). A ONU apresentou estimativa da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) no dia 05 de Setembro de 2011 de que 750 mil pessoas possam morrer de fome na Somália nos próximos quatro meses239. Para comparação seria o equivalente a população do município de Uberlândia. Foi então declarado neste mesmo dia epidemia de fome pela 236 www.onu-brasil.org.br www.educarbrasil.org.br 238 www.fao.org.br 239 http://www.onu.org.br/chifredaafrica/fao-estima-que-750-mil-pessoas-possam-morrer-de-fome-na-somalia-nosproximos-quatro-meses/ 237 324 FAO na região sul da Somália, depois de levantamento, realizado em agosto, apontar que a desnutrição aguda e a alta taxa de mortalidade alcançaram a área. Dentre alguns dos aspectos abordados no presente texto a ênfase do ponto de vista da geografia será dada à seca, um dos maiores motivos da fome que recentemente está em foco em determinadas regiões do continente, principalmente no que tange a região conhecida como Chifre da África; aos conflitos, firmados há séculos passados e que ainda hoje assolam praticamente todo o continente, por motivos variados entre cada região; às crises ambientais que decorrem até mesmo da própria seca e condicionam algumas situações atuais e às crises sociais em consequência de todos os demais aspectos citados, buscando contribuir com reflexões geográficas pertinentes ao continente africano que possam impactar no cumprimento da lei 10.639/03. OS ESTUDOS GEOGRÁFICOS Por mais defasados que sejam os estudos geográficos acerca do continente africano em âmbito nacional ainda podemos contar com algumas informações e instrumentos geográficos relevantes (importados na maioria das vezes) que exemplificam algumas situações e contribuem muito para estudos sobre a África. Essa ressalva é devida à dificuldade em encontrar dados e demais aspectos relativos a geografia física, por exemplo, validados sobre o continente que talvez ainda seja “desconhecido” pela distância, pela dificuldade nos acessos a certas áreas devido a motivos internos como os próprios conflitos existentes, e até mesmo por falta de interesse (exceto os interesses econômicos sobre os recursos naturais, minerais, existentes ali), de recursos financeiros e demais empecilhos que tornam inviável o aprofundamento de estudos e pesquisas sobre outras regiões e outros países. A proximidade, de acordo com Jonuel Gonçalves (GONÇALVES, 2005), é, sem dúvida, determinante em qualquer caso, como exemplo o autor cita em seu trabalho que o Sudão tem sua história (antiga ou recente) marcada pela proximidade do Egito, ele próprio com território nos dois continentes e as forças políticas da Somália têm nos países da península arábica suas maiores fontes de apoio e financiamento, enquanto Djibuti tem uma função internacional de vigilância do estreito de Bab-elMandeb, articulado com o lado iemenita do mesmo. Assim, é notável que condições geográficas permitam configurações, situações e relações sócio-espaciais diferentes. 325 Abaixo segue um mapa representando a última seca registrada sobre a região do Chifre da África, publicado pela OCHA (2011) – Coordenação de Assuntos Humanitários das Nações Unidas240, que nos permite visualizar as regiões mais comprometidas e em estado de alerta. O mapeamento mostra a seca através de uma variação de cores que vai do verde (pouca ou nenhuma seca) até o vermelho escuro (onde ocorre epidemia de fome). A cor amarela representa áreas com índice já acentuado de seca onde começa a intensificar as precariedades quanto à produção de alimentos. Na transição para o laranja as regiões se encontram já em crise passando posteriormente para as áreas vermelhas já em estado de emergência e a região mais escura, próxima a Mogadíscio (capital da Somália, localizada mais ao Sul do país), com escassez total de alimentos vindo a ser uma real catástrofe e para onde ainda muitos refugiados estão indo em busca de ajuda. “Os números em fundo preto representam a estimativa do número de pessoas que estão sofrendo com a insegurança alimentar”. Um processo responsável por ocasionar a seca é a desertificação. Existem diversos fatores de ocorrência da desertificação. Como afirma Matallo (2001) desertificação significa a degradação da terra nas zonas áridas, semiáridas e subúmidas secas, resultante de vários fatores, incluindo as atividades humanas e as variações climáticas. Assim, as terras suscetíveis a esse processo perdem sua “fertilidade”, sua capacidade produtiva, não possibilitando desenvolvimento de nenhuma cultura e formação vegetal tornando-se pobre e desprezível uma vez que sua recuperação é irreversível na maioria das vezes. Mapa da seca e insegurança alimentar no Chifre da África: 240 http://www.un.org/apps/news/infocusRel.asp?infocusID=145&Body=Horn+of+Africa&Body1= 326 Fonte: OCHA, 2011 No caso da região semiárida do Brasil (região nordeste), por exemplo, Soares et al (2010) afirmam que levando-se em conta as características fisiográficas dessa região bem como a forma de uso e ocupação do solo historicamente observada no semiárido brasileiro, acredita-se que há uma susceptibilidade natural dessa região ao processo de desertificação, principalmente em função do clima e das classes de solo existentes, mas que as principais causas da desertificação estão atreladas à ação humana, em virtude do manejo inadequado dos seus recursos naturais. É um fenômeno que ocorre em todos os continentes, exceto na Antártida, e seus efeitos se dão em escalas nacional, local e regional. No caso da África, é o continente com maior incidência onde 2/3 do continente é constituído de desertos ou terras secas com grandes extensões sendo utilizadas para agricultura e quase ¾ já com algum tipo de degradação, de acordo com ficha informativa da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação241, UNCCD, sigla em inglês (MATALLO Jr., 2009). Outra informação obtida por esta mesma fonte é de que a desertificação na África está estritamente vinculada a pobreza, migração e falta de segurança alimentar: 241 http://www.unccd.int/publicinfo/factsheets/pdf/factsheets-spa.pdf 327 Em meio a pobreza uma das únicas saídas é explorar a terra e quando o trabalho termina por não ser mais rentável o mais freqüente é que se produzam migrações internas e transfronteiriças o que leva a novas pressões sobre o meio ambiente dando origem a tensões e conflitos sociais e políticos. (Fichas Informativas (Fact Sheet). Nações Unidas, Convenção de Luta contra a Desertificação. Trad. autor. Ficha 11, p.21) Só a Somália possui mais de 1,800 milhão de deslocados internos e refugiados e cerca de 800 mil pessoas fugiram para Quênia (423 mil), Iêmen (188 mil) e Etiópia (140 mil), além de Djibuti, Egito, Eritréia, Tanzânia e Uganda, segundo dados da ONU, 2011242. Ao migrarem em busca de melhores condições de vida e principalmente atrás de alimentos para seus filhos os africanos dessas regiões habitam locais inseguros e enfrentam condições precárias de vida nos pontos de refúgio. Foto: Roberto Neumiller Fonte: UNCCD Além do mapa apresentado outras geotecnologias também oferecem instrumentos que estão sendo benéficos para diversas regiões como, por exemplo, o monitoramento foram feitas análises via satélite pela ONU mapeando a crise humanitária no Chifre da África, os mapas foram produzidos pelo programa Operacional de Aplicações via Satélite (UNOSAT) da UNITAR (Instituto das Nações Unidas para Formação e Pesquisa)243, é importante saber que trabalhos como esses são humanitários e surgem para contribuir e ao menos amenizar e controlar as crises que 242 http://www.onu.org.br/chifredaafrica/ http://www.onu.org.br/chifredaafrica/analises-via-satelite-feitas-pela-onu-mapeiam-a-crise-humanitaria-no-chifreda-africa/ 243 328 vários países e regiões, enfrentam, por isso a importância de identificar, analisar e comunicar essa movimentação complexa de pessoas apenas para os agentes humanitários. A partir das imagens produzidas por satélites, os analistas já identificaram 200 áreas que concentram deslocados e refugiados, com abrigos emergenciais para mais de 20 mil pessoas na Somália, Etiópia e Quênia. Mais de 1,1 mil quilômetros de estradas também foram mapeados e 65 obstruções identificadas. (ONU, 2011) Mapeamento de campos informais de deslocados e refugiados no Chifre da África: Fonte: ONU, 24 de Agosto de 2011. Além da seca a FAO aponta também como principais motivos de crise a combinação de baixa produção agrícola e deterioração do poder aquisitivo e os conflitos armados. Não é de hoje que tais conflitos decorrem e, acima de tudo, eles podem ser tidos como barreiras às ações humanitárias como no caso do Sul da Somália aonde o grupo atuante Al Shabab, no mês do Ramadã, controla o território, não aceitando a entrada de nenhuma assistência, com exceção para a cruz vermelha (uma das únicas organizações internacionais autorizadas pelas milícias a operar no país) de acordo com notícia da Folha de São Paulo (2011), que venha ajudar com ações humanitárias combatendo a fome e a consequente desnutrição de muitas crianças, por afirmarem que a região não passa por nenhuma crise, como a da fome generalizada. Boa parte do continente africano ainda padece de conflitos armados, conflitos 329 étnicos e regionais, de disputas políticas e de interesses econômicos, de golpes militares, regimes políticos ditatoriais em vigência, por exemplo, nos países do Magreb (por mais que haja exigências pela democracia como a imposta pelo ocidente), de guerras civis e golpes de Estado. Enfim, a negação dos direitos humanos que assolam várias regiões da África e a falta de democracia em geral são empecilhos que dificultam as ações em prol do desenvolvimento dos países africanos. Quanto aos interesses citados diga-se, sobretudo dos interesses de países não africanos que intervém no continente, como os EUA, a Rússia, França, dentre outros. Países e algumas instituições que dizem serem não governamentais agem por interesses próprios como, por exemplo, interesse nos recursos naturais da África como o petróleo afim de ter dominação sobre o território e daí se enriquecerem economicamente. Há bom número de países africanos vulneráveis aos humores políticos das etnias que os compõem, e é importante destacar que vários são os motores de origem. Um dos recursos naturais mais apresentados pela mídia como causador de conflitos e interesses políticos e econômicos é o petróleo, mas é necessário levar em conta que não só o petróleo como outros elementos também são responsáveis por conflitos, ora são fontes de riqueza ora precursores da miséria africana, como no caso do diamante. O domínio das jazidas de diamante orienta massacres diariamente. De acordo com noticiário da VEJA (2000) companhias mineradoras ou seus intermediários estimulam o prosseguimento dos combates fornecendo armas e mercenários e em alguns casos apoiam governos, em outros dão suporte a grupos guerrilheiros. As minas de diamante são responsáveis pela produção de 50% das pedras consumidas no mundo (cerca de 50 bilhões de dólares por ano no mercado) e estão espalhadas por 15 dos 53 países da África, 12 países (como Namíbia, Botsuana e África do Sul) produzem para exportação e sem causar danos à sociedade enquanto que nos 3 restantes, República Democrática do Congo, Angola e Serra Leoa já morreram 1 milhão de pessoas em duas décadas244. 244 http://veja.abril.com.br/310500/p_066.html 330 Fonte Veja, 2000. Na República Democrática do Congo (leste e nordeste) ainda ocorre um genocídio silencioso interétnico denunciados por bispos do país (cf “Notícias, pág. 0609). Como outro exemplo de país conflituoso citamos o Quênia onde o presidente Mwai Kibaki, da etnia kikuyu, fraudou, no final de 2007 e início de 2008, o resultado de eleições gerando revoltas245. Em Angola, o governo controla a exploração de petróleo e na insurgente Unita, boa parte da produção de diamantes. Em Serra Leoa, as minas de diamante do país estão sob o comando das tropas de Foday Sankoh, chefe da Frente Revolucionária Unida (FRU). Muitos motivos, dentre os já citados, para as grandes crises na África já são conhecidos, dentre eles MUNANGA (2011), cita os próprios legados do tráfico negreiro, da escravidão e da colonização; as dificuldades para a construção da democracia e da nacionalidade; os conflitos etnicopolíticos ou as guerras civis e sua violência; a má governança; a ausência de uma educação que liberte culturalmente, com enfoque nas necessidades e realidades africanas; a violação dos direitos humanos, a começar pelo direito à vida; a falta de investimentos em ciência e tecnologia, com aplicação na agricultura e na indústria de manufaturados; a falta de investimentos em ciência e tecnologia, com aplicação na agricultura e na indústria de manufaturados; a falta de investimentos na saúde pública, começando pela produção de alimentos; a falta de instalações sanitárias e de água potável; a pandemia de aids, o paludismo e outras doenças curáveis que matam mais na África que em outros países desenvolvidos, por falta de infraestrutura médica mínima; sem esquecer os neocolonialismos que persistem 245 http://www.pime.org.br/mundoemissao/atualidadesafricaafrica2.html 331 na figura dos organismos internacionais e multilaterais como o Banco Mundial, FMI, OMC, G8 etc. E quanto aos Objetivos do Milênio? Os Objetivos do Milênio foram estabelecidos pela Organização das Nações Unidas – ONU, a partir da análise dos principais problemas do mundo e consistem em: Erradicar a extrema pobreza e a fome; Atingir o ensino básico universal; Promover a igualdade entre os sexos e a valorização das mulheres; Reduzir a mortalidade na infância; Melhorar a saúde materna; Combater o HIV/Aids a malária e outras doenças; Garantir a sustentabilidade ambiental e qualidade de vida e Estabelecer uma Parceria Mundial para o Desenvolvimento246. Propostos em 2000, pelos 191 Estados-Membros das Nações Unidas, com compromisso de serem cumpridos até 2015, ainda percebemos que são objetivos longe de serem atingidos em muitos lugares, mais ainda em países da África. Infelizmente a maior parte do continente africano passa por essas realidades que são difíceis de serem transformadas e corrigidas pelos motivos já citados, entre outros. O processo histórico de colonização e descolonização do continente africano gerou as intervenções internacionais, as ações humanitárias, as ajudas de ONG’s e demais instituições. Este processo fez com que vários países do continente se tornassem extremamente dependentes desses tipos de ações. Sendo as mesmas, na maioria das vezes a única fonte de esperança de reversão das situações de miséria e fome anteriormente descritas. Os estudos geográficos apresentam uma visão mais generalista sendo capazes de abordar diversos temas e assim podemos aproveitar a Geografia para apresentá-los com consistência, de forma didática, dinâmica, chamando a atenção para a importância e para as peculiaridades também existentes do continente africano no contexto mundial. Ao mesmo tempo os estudos podem ser mais detalhistas apontando características e situações diferenciadas e especificidades de cada região, estado e local da África. Tais abordagens são princípios que podem ser estudados e aprofundados de diferentes formas em cada nível do ensino brasileiro e servir de instrumento para inserir, assim como os demais continentes, o continente africano no dia a dia mostrando sua complexidade e talvez ofertando uma base para quem quiser se aprimorar e investir em apresentações mais simbólicas e globais do continente, sendo possível ainda a sensibilização e daí a elaboração de soluções passíveis de efetivação para os vários 246 http://www.objetivosdomilenio.org.br/index.asp 332 problemas e crises que a grande maioria da população africana infelizmente enfrenta. Sendo assim é possível uma abordagem dentro da geografia física e humana bem como de geopolítica que possibilitem compreender os aspectos históricos que levam à permanência de determinadas situações no continente africano hoje contribuindo para a discussão das temáticas pertinentes à lei federal 10.639/03. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FERREIRA, F. M.; PIMENTA, L. 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Acesso em 05 de setembro de 2011 333 Water Africa Vision 2025, em português. http://www.waterandyouthafrica.org/africawater.html Disponível em: Objetivos do Milênio. Disponível em: http://www.objetivosdomilenio.org.br/casos/ Acesso em 28 de agosto de 2011. Organização das Nações Unidas. Disponível em: http://www.onu.org.br/chifredaafrica/analises-via-satelite-feitas-pela-onu-mapeiam-acrise-humanitaria-no-chifre-da-africa/. Acesso em 29 de agosto 2011. Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. http://www.pnud.org.br/home/. Acesso em 27 de agosto de 2011. Disponível em: 334 A EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR E SUAS POSSIBILIDADES DIANTE DA LEI 10.639/03 Fernando Teixeira dos Santos Universidade Federal de Uberlândia – UFU Graduando em Educação Física – FAEFI [email protected] Profª. Dra. Sônia Bertoni Universidade Federal de Uberlândia – UFU Faculdade de Educação Física – FAEFI [email protected] Este artigo tem como objetivo mostrar como a Educação Física escolar pode contribuir com as questões étnico-raciais, conforme a Lei 10.639/03. Para isto, primeiramente procuramos mostrar como estão as políticas para a questões étnicoraciais no Brasil. Em seguida discorremos a respeito da Lei 10.639/03. E, por fim, apresentamos a Educação Física escolar e possibilidades metodológicas diante da referida lei. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem em sua população 52% de afro-brasileiros. Percebe-se que diante da realidade brasileira, a maioria dessa população está na base de uma pirâmide social. Diante disso, fica evidente uma discrepância social entre a população afrobrasileira e branca. Nesse contexto, várias ações afirmativas são organizadas ou determinadas no intuito de eliminar desigualdades sociais historicamente acumuladas. Abreu et al. (2010) citam exemplos de ações afirmativas, tais como: cotas em concursos e universidades, apoio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) às comunidades quilombolas, políticas educacionais implementadas pelo Ministério da Educação (MEC) e fomento à cultura africana e afro-brasileira. Para Abreu et al (2010, p. 23), Dos anos de 1990 para cá houve um significativo aumento das discussões sobre ações afirmativas e direitos de reparação para as populações afrodescendentes. Mas, sem dúvida, seus fundamentos repousam na Constituição Federal de 1988, quando ficou clara a necessidade de implementar medidas capazes de promover, de fato, a igualdade sancionada pela lei e a valorização da diversidade étnica e cultural brasileira. A Constituição de 1988 garantiu, nos Artigos nº 215 e 216, proteção às manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e estendeu a noção de direito às práticas culturais. 335 POLÍTICAS PARA AS QUESTÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL Segundo Maranhão et al. (2007), as políticas educacionais veem os problemas escolares relacionados à escolaridade da população negra sem considerar a especificidade do pertencimento étnico-racial social, tendo uma ótica apenas para o contexto social; assim sendo, de certa forma, ignora alguns problemas ou dificuldades pós-abolicionistas e, consequentemente, a promoção à educação antirracista. Com isso, os problemas escolares se limitam a questões sociais que podem mascarar o racismo ainda presente nas políticas e gestões escolares. Considerando que a sociedade brasileira precisa mais de educação, no sentido de educação formal – ambiente escolar –, a escola deve ser um lugar para as diferentes possibilidades do conhecimento e respeito ao outro. Para tanto, entendemos que é importante abordar a Lei 10.639/93, que propõe para a educação brasileira, o ensino das Relações Étnico-Raciais, da História e Cultura Afro-Brasileira, e o dia da consciência negra comemorada no dia 20 de novembro, bem como suas possibilidades dentro do cenário da Educação Física escolar. LEI 10.639/03 A Lei 10.639/03 traz para a educação brasileira a Educação das Relações Étnico-Raciais e o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira, segundo Brasil (2003, p. 01), "Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. § 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil. § 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras. "Art. 79-B. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como Dia Nacional da Consciência Negra". 336 Esta lei foi implementada com o objetivo de levar aos alunos a história e cultura afro-brasileira e quem sabe poder corroborar com a conscientização sobre as questões étnico-raciais. A lei surgiu da luta das lideranças do movimento negro. Dias (2004, p. 1) afirma que a Lei 10.639/03 “teve como função precípua responder a antigas reivindicações do movimento negro”. Portanto, esperamos com este artigo colaborar para uma melhor compreensão de como a Educação Física escolar pode contribuir para as questões étnico-raciais em atenção à Lei 10.639/03, além disto, pretendemos aumentar o acervo científico sobre a temática afro-brasileira ainda incipiente. DESENVOLVIMENTO Um conflito dos negros é assumir e declarar sua cor perante a sociedade. Exemplo disso são alguns pais que ao registrar os filhos utilizavam a base do clareamento, ou seja, não declaram uma identidade negra aos seus filhos. Segundo Gomes (2003) nós vivemos em uma sociedade que historicamente impõe ao negro desde muito cedo que para ser aceito é preciso negar-se a si mesmo. Por não haver uma valorização da cultura africana e afro-brasileira, os alunos negros são impedidos de assimilar características dessas culturas para a construção de sua identidade. No trabalho de Maranhão et al. (2007) foi notória a supervalorização eurocêntrica e estadunidense ao discorrer sobre descendência nas escolas. O autor, em seu trabalho, ao perguntar aos alunos sobre sua descendência, nenhum aluno se referiu a algum país africano, apenas descendência européia. A Educação Física é uma área do conhecimento que tem como conteúdo os elementos da cultura corporal como o esporte, a dança, a ginástica, o jogo e as lutas (Soares et al, 1996). 337 CONTRIBUIÇÕES DA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR PARA AS QUESTÕES ÉTNICO-RACIAIS: No nosso entendimento, para que a Educação Física escolar possa colaborar com questões étnico-raciais, buscaremos como referência a abordagem CríticoSuperadora de Soares, et al. (1992). Essa abordagem Crítico-Superadora tem-se como ponto de partida uma concepção histórico-crítica (Muñoz Palafox e Nazari, 2007). Essa abordagem por si só releva várias possibilidades ao lidar com questões étnico-raciais e a construção e crítica história das culturas africanas e afro-brasileiras. É, portanto, uma abordagem que privilegia a avaliação do processo ensino e aprendizagem. Segundo Muñoz Palafox e Nazari, 2007, p. 1), a abordagem Crítico-Superadora, (...) propõe olhar para as práticas constitutivas da cultura corporal, como "Práticas Sociais", vale dizer, produzidas pela ação (trabalho) humana com vistas a atender determinadas necessidades sociais. Dessa forma, as atividades corporais, esportivas ou não, componentes da nossa Cultura Corporal, são vivenciadas - tanto naquilo que possuem de "fazer" corporal, quanto na necessidade de se refletir sobre o significado/sentido desse mesmo "fazer". Portanto, se faz necessário não apenas criticar movimentos da cultura corporal, muito menos meramente reproduzi-los, mas os conteúdos devem ser historicamente criticados e aprendidos na sua totalidade (Soares et al, 1992, Muñoz Palafox e Nazari, 2007). Contudo, percebe-se a dificuldade da comunidade escolar aplicar tais leis, sendo que alguns estudos sugerem uma maior demanda e investimento para formação inicial e continuada a fim de promover não apenas conhecimento acerca da lei, mas para propor procedimentos metodológicos e aplicá-los conforme as diretrizes curriculares. Essa dificuldade fica bastante evidente no trabalho de Silva (2010), que realizou uma pesquisa com professores de história em escolas públicas e concluiu que a lei em si, bem como a preparação e capacitação de professores para tal, não são suficientes, não garantindo assim a aplicação da Lei 10.693/03. Então, entendemos que é necessário buscar uma conscientização da importância e vivência entre os vários nuances dos atores sociais das comunidades estudantis e na formação de cidadãos, como sugere as Leis e Diretrizes Curriculares, em prol de uma formação de cidadãos que (re)conhecem 338 a sua cultura, suas origens e, através disso, quebra uma série de paradigmas e preconceitos. Nesse sentido, está o estudo de Silva (2010) que pesquisou alguns professores e profissionais e pode verificar a falta de material e de preparação para ministrar aulas, concomitante à falta de conhecimento da lei e desconhecimento de suas possibilidades. Somando a esse fator, tem-se a questão do racismo em livros didáticos brasileiros que, segundo Rosemberg et al., (2003), simplesmente expõe estereótipos e valores em livros que vão para a escola, além de dar importância e enfatizar o indivíduo branco como representante da espécie humana em ilustrações, até mesmo relevando papéis sociais com mais prestígio necessariamente configurados à pessoa branca. Além disso, tem-se a visão puramente eurocêntrica na perspectiva do ensino da história durante o ensino da história em nível escolar. Torna-se necessário, então, discussões acerca do conteúdo a ser abarcado a fim de contemplar as questões étnico-raciais no cenário escolar. Diante da Lei 10.639/03, Silva (2007) evidencia duas considerações pertinentes ao ensino da história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas no ensino fundamental e médio: sociedade multicultural e sociedade pluriétnica. Na sociedade multicultural, segundo Silva (2007), há o predomínio de práticas sociais voltadas à valorização da diversidade, ou seja, tem o objetivo de criar iguais oportunidades de perspectivas escolares para todos os alunos, independente da etnia ou grupo social. Essa diversidade está em todos os campos da sociedade, como o étnico, religioso, cultural, entre outros. Uma das propostas, então, segundo Silva (2007) é o resgate da “memória étnica”, ao buscar a igualdade e oportunidade de valorizar culturas historicamente marginalizadas. Já o outro conceito, sociedade pluriétnica, sugere, segundo Silva (2007), práticas sociais voltadas à convivência plena dos cidadãos, independente dos valores culturais criados pela realidade de cada indivíduo. Sociedade pluriétnica se aproxima da sociedade multicultural ao desenvolver políticas de ações afirmativas e valorização de patrimônios histórico-culturais, embora nesta fique mais evidente certa luta antirracista. Com isso, cabe elucidar, diante da Educação Física, as possibilidades de se trabalhar a cultura africana e afro-brasileira, bem como as questões étnico-raciais, entendendo que esta prática trabalha com a sociedade, de forma geral, podendo ser pluriétnica ou multicultural, dependendo da concepção e visão de mundo por parte dos atores sociais inseridos na realidade a ser trabalhada. Portanto, várias possibilidades 339 podem ser discutidas, contemplando várias realidades culturais do próprio ambiente escolar e das pessoas envolvidas neste. EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR E POSSIBILIDADES DE ATENDER ESPECIFICAMENTE A LEI 10.639/03 Ao estudarmos os princípios e propósitos da Lei 10.639/03, podemos formular uma série de práticas educacionais a fim de promover o ensino da cultura africana e afro-brasileira, diante da proposta da Educação Física escolar. Entre as possibilidades da Educação Física na Lei 10.639/93, Maranhão et al. (2007) destaca os jogos. Presumindo que o jogo é uma manifestação antiga, relacionada à preparação para a vida, sugerindo então que o homem sempre jogou, Tembe e Edmundo (1992 apud. Maranhão et al. 2007), temos como exemplo: os brinquedos, brincadeiras, danças, cantos e contos. Diante dessas possibilidades ligadas à Educação Física escolar, Maranhão et al. (2007) afirma que há uma grande dificuldade em encontrar registros de sistematizações de atividades da cultura corporal e corporeidade a serem desenvolvidas nas aulas, devido à forma de concepção de educação muito utilizada na cultura africana: a oralidade. Portanto, vários registros são apenas orais/culturais, sendo escasso o material registrado de forma escrita e/ou arquivada. Vale ressaltar que os jogos africanos, assim como qualquer outro jogo, possuem particularidades em relação a gênero, idade, número de participantes, sendo de certa forma, uma questão também a ser discutida na Educação Física. Souza et al. (2007), conclui que práticas pedagógicas escolares que contemplam a Lei 10.639/03 não se aplicam de forma sistematizada (e quando se aplica, se limita à semana do dia da consciência negra). Isso ocorre por falta de conhecimento do corpo docente acerca da referida lei. Indo um pouco além, tem-se a hipótese de que também há falta de preparação, formação inicial e continuada, e até mesmo a formação acadêmica, já que na pesquisa de Souza et al. (2007), uma professora de história que foi entrevistada afirma que ao cursar a graduação, a disciplina de História e Cultura da África era optativa, se tornando obrigatória apenas há alguns anos (desde 2004, na instituição em que esta professora se formou). Neste sentido, é necessário averiguar o que se tem feito nas universidades. Num curso de graduação em Educação Física, por 340 exemplo, comumente não se trabalha questões acerca da história e cultura africana, mesmo sabendo que se tem uma gama de práticas corporais, indo muito além da reprodução, já que são geralmente práticas com movimentos não-lineares, como é notório nas manifestações artísticas e corporais africanas, diferenciando um pouco do fitness, por exemplo. A dança é considerada uma expressão representativa de diversos aspectos da vida e do ser humano, possibilitando ao aluno, no caso da aula de Educação Física, trabalhar habilidades corporais (Soares et al, 1992). No caso de movimentos e gestos técnicos da dança, releva-se no contexto da cultura africana e afro-brasileira, expressões e movimentos que não são lineares e alguma das vezes apresenta sincronias que envolvem além da interação entre indivíduos, a interação com o meio, resgatando assim valores, como é bastante evidente no contexto histórico da formação quilombola. Seguindo a linha de movimentos não lineares, a capoeira, mesmo sendo considerada genuinamente brasileira, contém traços da manifestação afro-brasileira. Isto se dá pelo fato desta prática estar diretamente ligada à formação de grupos étnicos que se uniram pela escravidão, formando uma cultura africana no Brasil, criando e disseminando tradições dentro da cultura brasileira, em relação às práticas corporais. Com isso, fica evidente que a capoeira é genuinamente brasileira, pois trouxe em si elementos da cultura africana e também possui elementos do branco e do índio que, ora, esteve ligado a esta construção e manifestação cultural, no qual incorporou experiências vivenciadas no contexto brasileiro, com entrelaçamentos heterogêneos de diferentes grupos, culturas, saberes e desejos (Da Silva, 2007). Sendo assim, entendemos que principalmente a luta como a capoeira pode ser um conteúdo que possa mediar discussões e reflexões a respeito dos temas que tratam a Lei 10.639/03 como a história e cultura afro-brasileira. Abre-se, então, a possibilidade de trabalhar outros contextos de outros componentes curriculares, como história, geografia, literatura e até a matemática num sentido de trabalhar a geometria encontrada numa roda de capoeira, por exemplo. (Natividade, 2006). É importante ressaltar que não se pode valorizar somente a cultura africana em detrimento das outras (Souza et al., 2007). Mas vale ressaltar que ao contrário das outras descendências, a africana foi por muito tempo privada da memória de seus ancestrais. E até nos dias atuais, ou materiais didáticos, segundo Rodrigues (2009) ainda têm uma visão eurocêntrica e estadunidense, representando, grosso modo, 341 apenas uma visão da história e cultura, neste caso, uma visão opressora, em detrimento do oprimido. Abreu et al. (2010), baseado na Lei 10.639/03, ressaltam que o objetivo de trabalhar a cultura africana e afro-brasileira na escola não é de expor a miséria ou discriminações sofridas ao longo da história, mas de trabalhar a história do continente africano e sua importância para o desenvolvimento tecnológico e da humanidade: Em vez da mera substituição de etnocentrismo europeu por um africano, propõe-se ampliar as balizas dos currículos escolares para a diversidade brasileira. Daí a indicação de que o ensino de história do Brasil não dê destaque aos negros e seus descendentes somente no tempo da escravidão e do ponto de vista da submissão. A importância do estudo da história das organizações negras, como os quilombos e seus remanescentes, das irmandades religiosas, associações recreativas, artísticas, políticas e culturais negras, por exemplo, vincula-se também à exigência de que as instituições escolares repensem as relações étnico-raciais e pedagógicas em seu espaço e entorno (Abreu et al., 2010, p. 25 e 26). A inclusão da história da África e dos afro-brasileiros nos currículos escolares está ancorada, sem dúvida, num projeto de afirmação do Brasil como uma sociedade multicultural e de reconhecimento do importante papel dos negros na formação da sociedade brasileira, em todos os aspectos, muito além da escravidão ou da submissão (Abreu et al. p. 35). Vários outros elementos e práticas ainda podem ser discutidos a fim de comtemplar a Educação Física escolar e a Lei 10.639/03, como religiosidades e até mesmo o basquete de rua, que não é uma manifestação de origem africana, mas trabalha vários aspectos e culturas dos negros. CONSIDERAÇÕES FINAIS Embora a Lei 10.639/03 regulamenta a inserção de estudos acerca da cultura africana e afro-brasileira nos vários níveis de ensino escolar, ainda é um desafio para o professor, aluno e toda a comunidade escolar em relação às perspectivas de trabalho dentro do contexto das questões étnico-raciais, bem como a história e cultura africana e afro-brasileira, pois apesar da referida lei ser de 2003, ainda são escassas a formação, capacitação e até o almejo de professores a fim de trabalharem esta temática em sala de aula. Entende-se que várias questões estão ligadas a esse fator, como por exemplo, a falta de estrutura na escola ou desconhecimento desta lei e conhecimento por parte dos docentes. Portanto, se faz necessário, discussões acerca das questões étnicas e raciais, considerando a cultura africana e afro-brasileira, não apenas em nível de ações 342 afirmativas ou simplesmente da aplicação ou não da lei, pois é necessário refletir as possibilidades de trabalhar estas questões, que contempla, dentre outros componentes curriculares, a Educação Física, trabalhando questões do corpo, dança, movimento, entre outros aspectos, no sentido de trazer à tona elementos que contemplam a preparação docente e formação do indivíduo para o desafio de trabalhar a história e cultura africana e afro-brasileira. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABREU, Martha; MATTOS, Hebe; DANTAS, Carolina Vianna. Em Torno do Passado Escravista: as ações afirmativas e os historiadores. Antíteses, vol. 3, n. 5, jan.jun. de 2010, pp. 21-37. BRASIL, (2003). Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. BRASIL. Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. LEI No. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. D.O. 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SAPIENTIA – CESAT – PIO XII – UNICES <em revista> nº 6 – Agosto/2007. 344 O JOGO COMO RECURSO PEDAGÓGICO PARA A IMPLEMENTAÇÃO DA LEI 10639/03 Renato Mateus Universidade Federal de Uberlândia – UFU Faculdade de Ciências Integradas do Pontal – FACIP Graduando em História [email protected] Profª. Dra. Cristiane Coppe de Oliveira Universidade Federal de Uberlândia – UFU Faculdade de Ciências Integradas do Pontal – FACIP Núcleo de Estudos Afro Brasileiros – NEAB [email protected] O desenvolvimento deste artigo foi estimulado a partir de uma breve investigação de instituições educacionais públicas de ensino fundamental em que verificamos que há, atualmente, uma lacuna substancial no que tange a implementação/aplicação da Lei 10639/03, que torna obrigatório a inserção da história e cultura africana e afro-brasileira no currículo escolar. A prática escolar ainda carece de recursos pedagógicos direcionados ao entendimento da cultura africana e afro-brasileira, que sempre foi deixada de lado a favor de um pensamento eurocêntrico, fazendo prevalecer o “imperialismo cultural” que dominou por completo a formação inicial dos profissionais da Educação em nosso país. Desse modo, temos, até os dias de hoje, um sistema educacional voltado para o modelo tradicional europeizante, apesar das ações afirmativas recentes e de leis complementares como a citada anteriormente. Tal fato, poderia indicar uma mudança de paradigma, incorporando ao ensino métodos que trariam maior participação das questões etnicorraciais nos debates e nos currículos escolares. O professor do ensino fundamental do século XXI deve estar preparado para debater questões como o racismo, a discriminação racial/social e para se posicionar frente a fatos preconceituosos de maneira a esclarecer sobre a igualdade de oportunidades, independentemente de cor, credo, crenças e diversidade de pensamentos. Assim, torna-se necessário que os seus alunos assimilem e passem a respeitar, através do conhecimento das culturas diversas que compõem a nação e que ao final do processo de aprendizagem eles possam formar conceitos com agregados às relações culturais e 345 raciais que se estabelecem neste contexto. O aprofundamento do conhecimento histórico, cultural e de saberes, como por exemplo, os dos africanos e de seus descendentes, ajudam o aluno a compreender o que se passa consigo mesmo e, com isso, há uma colaboração para uma transformação interna positiva de conceitos. Este indivíduo passa a se perceber diferente, mas não menos importante ou inferior perante a seus pares. A diferença de cor da pele, do uso e costumes, dos trajes, da culinária, das músicas e de todas as demais nuances culturais é vista a partir desta nova visão na qual coloca todos estes elementos como igualitários perante qualquer outra cultura. Este assunto deve ser trabalhado por um professor consciente do seu papel de educador e formador, orientando seu aluno perante a sociedade em que vivemos. Pretendo discutir, neste momento, situações que permitam compreender como a Lei 10639/03 tem se consolidado no espaço escolar. E mais: Quais tem sido os parâmetros que o professor está adotando por uma educação antirracista e sem discriminações? Quais são os recursos pedagógicos que podem auxiliar na efetivação da Lei 10639/03 para um ensino interdisciplinar para a educação das relações etnicorraciais? Diante dessas perguntas, pretendo discutir a possibilidade de utilização de jogos de matriz africana como um recurso pedagógico, no qual por seu intermédio, pode-se discutir interdisciplinarmente Filosofia, Matemática, História e Geografia, além de propiciar aos alunos um relacionamento mais próximo de suas realidades. Utilizarei, como exemplo, para a prática docente, dois jogos de origem africana no intuito de promover a curiosidade sobre a cultura africana. Esta proposta pode ser trabalhada, tanto em aulas de História, como de Artes, Geografia e Matemática, pois estimulam o aluno a realizar cálculos e a elaborar conjecturas, favorecendo o raciocínio lógico, de acordo com a faixa-etária selecionada. Este recurso pedagógico certamente poderá, ainda, contribuir para o maior entendimento dos valores africanos e fazer com que os alunos visualizem outro campo de conhecimentos além da cultura ocidental européia. Diante das questões relativas à consolidação da diversidade cultural que enfrentamos a partir das relações étnico-raciais dentro do quadro educacional brasileiro, principalmente nas recentes discussões e dimensionamentos que a sociedade do século XXI tem exigido, tratamos de discutir tomando por ponto inicial o desejo de se estabelecer argumentos e práticas educativas principalmente para o ensino básico que possam dialogar com as políticas de ações afirmativas que o Estado brasileiro tenta 346 consolidar, iniciando com a promulgação da Lei 10.639/2003. Daí surgem discussões acerca do combate à discriminação racial, da questão da formação escolar nacional voltada historicamente a uma estrutura eurocentrista e de como usar os recursos didáticos e pedagógicos para que, na prática escolar, sejam aplicadas estas visões que acabam por proporcionar aos alunos um entendimento mais amplificado da sociedade em que vive e que possa ajudá-lo a enxergar a si próprio dentro deste meio. A Lei 10.639/2003 acrescentou dois artigos à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394/96): Art.26-A- Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre história e Cultura Afro-Brasileira. Parágrafo Primeiro - O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política, pertinentes à História do Brasil. Parágrafo segundo - Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo currículo escolar em especial, nas áreas de Educação Artística e de Literatura e Histórias Brasileiras. Art.79-B – O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como “Dia Nacional da Consciência Negra”. Essa lei foi alterada pela Lei 11.645 de 10 de março de 2008, passando a incorporar também a história e cultura dos povos indígenas. Analisando friamente a lei podemos incorrer no pensamento de que sua incorporação seria facial e sua implantação não denotaria grandes dificuldades e obstáculos. Mas não é assim que acontece na prática, pelo menos esta é a análise de vários especialistas no assunto. Para DOS SANTOS (2008): Percebemos que para efetivar a lei, não é tarefa só dos professores, mas sim de toda a escola, de todas as disciplinas, não apenas como um projeto, em datas comemorativas, mas sim em todo o decorrer do ano letivo, pois é preciso que se recupere o orgulho de ser negro, de se buscar uma pedagogia de auto-estima. Devem os professores, ao tratar a História da África e da presença negra no Brasil, fazer abordagens positivas, claro que não deixando de mostrar todo o sofrimento dos negros, mas principalmente salientando as várias lutas de resistências empreendidas por eles. (pp. 08) A consolidação desta política mostra que é necessário a divisão de responsabilidades de toda a cadeia de ensino desde o Ministério da Educação e Cultura 347 (MEC), das escolas, dos gestores e educadores. A sua efetivação dependerá da necessária mobilização da sociedade civil a fim de que o direito à diversidade étnicoracial seja garantido nas escolas, nos currículos, nos projetos político-pedagógicos, na formação de professores, e nas demais políticas educacionais. A Lei 10.639/03 faz parte de uma modalidade de política, até então, pouco adotada pelo Estado brasileiro e pelo próprio MEC. São políticas de ação afirmativa voltadas para a valorização da identidade, da memória e da cultura negras. Para GOMES( 2005): A sua efetivação como política pública em educação vem percorrendo um caminho tenso e complexo, no Brasil. É possível perceber o seu potencial indutor e realizador de programas e ações direcionados à sustentação de políticas de direito e de reforço às questões raciais em uma perspectiva mais ampla e inclusiva. Estes vêm sendo realizados pelo MEC e, em graus muito diferenciados, pelos sistemas de ensino. No entanto, dada a responsabilidade do MEC, dos sistemas de ensino, das escolas, gestores e educadores na superação do racismo e na educação das relações étnicoraciais, as iniciativas para a concretização dessa política ainda se encontram em um nível incipiente. (pp. 40) Esta política governamental visa transparecer uma resposta, dentro da área da educação às questões etnicorraciais, procurando dar espaço e valorizar a cultura da população afrodescendente, usando de ações afirmativas, que possibilitam transparecer sua história, cultura e identidade. É uma política curricular, fundada em dimensões históricas, sociais, antropológicas oriundas da realidade brasileira e propõe a divulgação e produção de conhecimentos,de formação de atitudes, posturas e valores que eduquem cidadãos orgulhosos de seu pertencimento étnico-racial. Para DOS SANTOS (2008) Estas políticas têm como meta o direito dos negros se reconhecerem na cultura nacional, expressarem visões de mundo próprio, manifestar com autonomia, individual e coletiva, seus pensamentos. É necessário salientar que tais políticas têm, também, como meta o direito dos negros, assim como todos os cidadãos brasileiros, cursarem cada um dos níveis de ensino, em escolas devidamente instaladas e equipadas, orientados por professores qualificados para o ensino das diferentes áreas do conhecimento; com formação para lidar com as tensas relações produzidas pelo racismo e discriminações, sensíveis e capazes de conduzir a reeducação das relações entre diferentes grupos étnico-raciais. (pp. 09) Temos como objetivo propor ações educativas que possam contribuir para a consolidação de uma cultura cotidiana escolar que traga reconhecimento dos valores civilizatórios africanos e que estes sejam incluídos na construção do conhecimento. Sabemos que é um processo árduo e de difícil a implantação e a aceitabilidade por parte da comunidade escolar, que está ainda arraigada por ditames tradicionalistas. Para GOMES (2005): 348 O desencadeamento desse processo não significa o seu completo enraizamento na prática das escolas da educação básica, na educação superior e nos processos de formação inicial e continuada de professores. A Lei e as diretrizes entram em confronto com as práticas e com o imaginário racial presentes na estrutura e no funcionamento da educação brasileira, tais como o mito da democracia racial, o racismo ambíguo, a ideologia do branqueamento e a naturalização das desigualdades raciais. (pp. 41) Penso que o primeiro passo seria a proposição de um ambiente propício onde as diferenças e as diversidades seriam respeitadas e isto, por si só, já valeria como objeto dinamizador da aproximação entre o discurso bem intencionado e a prática efetiva. Diante destas questões relativas às ações para a educação das relações etnicorraciais, Rocha e Trindade (2010) compartilham da opinião de que (...) acreditamos poder contribuir para a construção de uma educação que seja geradora de cidadania, que atenda e respeite as diversidades e peculiaridades da população brasileira em questão, que respeite o repertório cultural da população negra e o relacione com as práticas educativas existentes. (p. 54) Estas mesmas autoras propõem alguns questionamentos, nos quais compartilho no intuito de ser discutida a temática e estabelecer um diálogo construtivo com relação às práticas educativas etnicorraciais: em que ponto a escola se encontra no itinerário de construir uma educação que valorize e respeite as diferenças? Que tipo de diálogos temse estabelecidos com as diferentes culturas, em especial a negra? Diante das dificuldades do aluno negro no campo da educação, causados não pela sua falta de capacidade intelectual, mas por circunstâncias socioeconômicas, há um direcionamento de ações educativas para que ao menos se possa discutir sobre este tema? Vejo que são várias as etapas que terão de ser cumpridas para que a educação pública fundamental consiga abarcar estas práticas pedagógicas não exclusivas e que não correspondem com a realidade escolar de hoje, sempre baseada na teórica igualdade uniformizadora de direitos. Vejamos que até mesmo nos Parâmetros Curriculares Nacionais falam do assunto: O conhecimento do “outro” possibilita, especialmente, aumentar o conhecimento do estudante sobre si mesmo, à medida que conhece outras formas de viver, as diferentes histórias vividas pelas diversas culturas, de tempos e espaços diferentes. Conhecer o “outro” e o “nós” significa comparar situações e estabelecer relações e, nesse processo comparativo e relacional, o conhecimento do aluno sobre si mesmo, sobre seu grupo, sobre sua região e seu país aumenta consideravelmente”. (PCN, 1997, p. 28) A discussão sobre o conhecimento das diversidades obrigatoriamente passa pela constatação da existência de descriminações e racismo no ambiente escolar. O professor 349 deve estar atento a isso, já que estas expressões são negadas no discurso, mas se mantêm presentes nos sistemas de valores e dos comportamentos que regem nossa sociedade. Para GOMES (2005): Essa discussão deveria fazer parte do processo de formação dos professores, porém é necessário que na educação, a discussão teórica e conceitual sobre a questão racial esteja acompanhada da adoção de práticas concretas.” (GOMES, 2005, p. 148) Um dos pontos importantes e que teria papel preponderante neste contexto seria o currículo escolar, onde as discussões interdisciplinares teriam de ser uma prática constante e componente dos mesmos, além das questões éticas, políticas, sociais e econômicas. Para isso o professor funcionaria como elemento central nesta disponibilização de argumentos inerentes a ações pedagógicas e através da seleção e organização do planejamento de aulas, as estratégias educativas se efetivariam. Compartilho da opinião de Rocha e Trindade (2010), nas quais pensam que o currículo deve contemplar a efetivação de uma pedagogia que respeite as diferenças, trate a questão racial como conteúdo interdisciplinar, estabelecendo um diálogo entre o tema étnico-racial e os demais conteúdos. Novamente podemos notar as falas deste assunto nos Parâmetros Curriculares Nacionais, principalmente na disciplina de História do ensino fundamental (...) conhecer e respeitar o modo de vida de diferentes grupos sociais, em diversos tempos e espaços, em suas manifestações culturais, econômicas, políticas e sociais, reconhecendo semelhanças e diferenças entre eles; reconhecer mudanças e permanências nas vivências humanas, presentes na sua realidade e em outras comunidades, próximas ou distantes no tempo e no espaço. (BRASIL. PCN, 1997, p. 28) Com relação aos usos de recursos pedagógicos, estes seriam manipulados no sentido da ação em grupos, com propostas de trabalho vivenciadas coletivamente, levando em conta a singularidade individual. (ROCHA E TRINDADE, 2010, p. 67) Proporcionar o fortalecimento das relações entre brancos, negros e outros grupos étnico-raciais no ensino fundamental nos leva necessariamente a impasses e conflitos. Mas tal dificuldade pode possibilitar uma aproximação de interesses comuns. Há de se buscar no repertório educacional um caminho no qual a História produzida seria não a partir de grandes sagas e heróis, mas a partir de relações comunitárias vividas pelos grupamentos humanos. Promovendo a discussão sobre igualdade de culturas, as disciplinas não somente de História, mas de Geografia, Artes, Literatura, 350 Matemática, faz com que este reconhecimento da igualdade se consolide. Ainda para Rocha e Trindade (2010) as ações educativas (...) não se pretende pensar uma sociedade idílica, harmônica e sem conflitos, uma sociedade que negue as desigualdades sociais, raciais e regionais. O que se busca não é simplesmente a troca de uns heróis e divindades por ouros, mas uma diretriz educacional que possibilite uma pluralidade de visões de mundo. (p. 60) As palavras “jogo”, “brincadeira”, “brinquedo” designam um variável número de fenômenos, podendo ter diferentes sentidos nas diversas culturas. O jogo é para Huizinga (2007), mais que um fator cultural e pode se configurar na linguagem. O jogo ultrapassa a esfera da vida humana e é impossível que tenha seu fundamento em qualquer esfera racional, não está ligado a determinados tipos de civilização. O uso do jogo na escola será um estimulador das relações sociais e objeto até mesmo de se encontrar as divergências que por ventura estiverem já presente dentro do quadro étnico e sócio-racial dos alunos e momento do professor trabalhar estas diferenças no intuito de diminuí-las. Como afirma Pereira e Gonçalves (2009) (...) ao brincar e jogar na rua ou na escola podemos sentir em situações de acolhimento étnico-cultural: valorização, receptividade, conforto e alegria. Como também, em situações de tolhimento étnico-cultural: desvalorização, constrangimento, desconforto e tristeza. De um modo ou de outro são momentos de aprendizagem que, no entanto, oscilam entre prazer e dor, devendo as primeiras serem encorajadas e as segundas banidas de nossa sociedade. (p. 05) O jogo é praticado até mesmo por certos animais irracionais, materializados em brincadeiras, portanto, leva-nos a afirmar que o jogo possui uma autonomia, uma língua própria irracional, longe da realidade física. Para este mesmo autor, o jogo leva o indivíduo a uma esfera intermediária entre a realidade e o irreal – é uma brincadeira – mas com suas regras características, com uma ordem e ritmo seus. Para Huizinga (2007) (...) embora o jogo enquanto tal esteja para além do domínio do bem e do mal, o elemento de tensão lhe confere certo valor ético, na medida em que são postas à prova as qualidades do jogador, sua força e tenacidade, sua habilidade e coragem e igualmente, suas capacidades espirituais, sua lealdade. Por que apesar de seu ardente desejo de ganhar, deve sempre obedecer às regras do jogo. (p. 14) Nesta concepção do autor supracitado o jogo é considerado uma totalidade no sentido moderno da palavra, e é como totalidade que devemos procurar avaliá-lo e tirar dele compreensões múltiplas. Para ele, o jogo seria (...) uma atividade livre, conscientemente tomada como “não séria” e exterior a vida habitual, mas ao mesmo tempo capaz de absorver o jogador de maneira intensa e total. É uma atividade desligada de todo e qualquer interesse material, com a qual não se 351 pode obter qualquer lucro, praticado dentro de limites espaciais e temporais próprios, segundo uma certa ordem e certas regras. (HUIZINGA, 2007, p. 16) Buscando mais uma explicação plausível sobre o tema do jogo como objeto social, cultural e pedagógico, a humanidade sempre jogou e diante das variáveis que este proporcionar ao analisarmos mais amplamente o tema, este toma como função segundo, Maranhão (2009), o de comunicação, interiorização, de normas de convivência e diversificação dialética de tensões e distensões comportamentais. Para ele (...) o conceito de jogo é pautado num fenômeno universal, no entanto sua universalidade é tão verdadeira quanto a especificidade que lhe é conferida pela sua prática concreta num meio próprio. Isso quer dizer, que para estudarmos os jogos africanos, devemos considerá-los, por um lado, como comportamento comum de toda humanidade e, por outro, como atividades realizadas em condições determinadas pela cultura, clima, espaço geográfico e situação política, isso dentro e fora do continente africano. Os jogos para os africanos sempre estiveram ligados à vida social, da mesma forma que a religião, as artes e outras manifestações culturais da humanidade, o indivíduo vive dentro de comunidades onde ensina/aprende dentro de uma unicidade. (MARANHÃO, 2009, p. 48) A seguir faço a descrição de dois jogos de tabuleiro de origem africana – Yoté (Figura 1) e Fanorama (Figura 2), que, em minha opinião, poderão ser usados como elementos iniciadores da discussão sobre as questões étnico-raciais e também seus usos ajudarão a cumprir as direções estabelecidas pelos órgãos públicos direcionadores das políticas educacionais, onde a interdisciplinaridade é a base desta concepção de ensino. Figura 1 – Jogo Yoté Fonte: http://www.ilhadotabuleiro.com.br/jogos/yote 352 Segundo a publicação da obra Yoté: jogo da nossa história da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD) do Ministério da Educação (MEC), Yoté é um jogo de estratégia dos povos africanos. Ele pode ser praticado por dois ou mais jogadores e é encontrado em vários países da África Ocidental, tais como Senegal, Guiné e Gâmbia. Conta-se, ainda, uma história que cabia a uma pessoa mais velha da família ensinar aos meninos e meninas as regras do jogo. Depois de praticarem o jogo por algum tempo e atingirem uma certa maturidade como jogadores, os jovens passavam a conhecer o “plano de jogo” da família ou tribo, tomando assim conhecimento dos diferentes caminhos que asseguraram brilhantes vitórias aos seus antepassados. Desse modo, as estratégias do jogo estão ligadas às tradições que se revelam como segredos de família, passados de geração a geração. Em diversos países africanos a prática do jogo se dá por meio das crianças que fazem o desenho do tabuleiro na areia. Do ponto de vista pedagógico, o Yoté incentiva o educando ao raciocínio, desde o posicionamento da primeira peça até a percepção de que se ganhou ou perdeu a partida. O jogo é composto por um tabuleiro com trinta casas com 24 peças, 12 de cada cor ou tonalidade. Pode ser jogado por duas pessoas, tendo como objetivo capturar ou bloquear todas as peças do adversário. Cada jogador escolhe uma cor e coloca sua reserva de peças fora do tabuleiro. Os jogadores sorteiam quem iniciará e cada jogador, na sua vez, pode colocar uma peça em uma casa vazia da sua escolha ou mover uma peça já colocada no tabuleiro. As peças se movimentam de uma casa em direção a uma casa vazia ao lado, no sentido horizontal ou vertical, mas nunca na diagonal. A captura ocorre quando uma peça pula por cima da peça do adversário, como no jogo de Damas. A peça que captura deve sair da casa adjacente à peça capturada e chegar, em linha reta, na outra casa adjacente que deve se encontrar vazia. Além de retirar a peça capturada, o jogador retira mais uma peça do adversário de sua livre escolha. Assim, para cada captura, o jogador exclui um total de duas peças do adversário. A captura não é obrigatória. Caso um jogador sofra captura de uma peça e não possua outras sobre o tabuleiro, seu adversário não poderá reivindicar a outra peça a qual teria direito. Um jogador pode capturar várias peças do adversário com a mesma peça, até que não haja mais condições de pular. Durante a captura múltipla é obrigatório, depois de cada captura, retirar a segunda peça antes de prosseguir com outras capturas. O jogo termina 353 quando um dos jogadores ficarem sem peças ou com as peças bloqueadas. Quando os jogadores concordam que não há mais nenhuma captura possível, vence aquele que capturou mais peças. Se ambos os jogadores ficarem com três ou menos peças no tabuleiro, e não seja mais possível efetuar capturas, o jogo termina empatado. Figura 2 – Jogo Fanorama Fonte: http://www.artgamesonline.com.br/produto/625/jogos/jogos-de-mesa/jogo-de-tabuleiromitra-fanorama.html É um jogo tradicional de Madagáscar, que surgiu nos finais do século XVI, tendo-se se tornado o jogo nacional deste país. Durante muitos anos teve um papel importante nos rituais malgaches e parece ter tido poderes divinatórios. Por volta de 1895, quando os franceses invadiram a capital de Madagáscar, sua rainha confiando mais nos poderes do jogo do que no seu chefe militar, decidiu que seria o desenrolar de uma partida deste jogo a determinar a estratégia militar a ser adotada. Esta atitude ajudou a facilitar a conquista francesa e a abolição da monarquia no país. O jogo de Fanorama é desenvolvido em um tabuleiro (90cmx50cm), de superfície plana, o qual pode ser conseguido facilmente, por exemplo, com um pedaço de carvão ou um papel e caneta, alguns traços e pronto. Para iniciar uma partida basta recolher umas pedrinhas ou conchas (22 peças), que serão os peões (vato). O objetivo do jogo é eliminar todas as peças do adversário ou impedi-lo de se movimentar. Aliás, o nome "Fanorama" derivaria de "Fano", que é uma árvore, da qual se usam as sementes como peças para o jogo. 354 Os jogadores tiram a sorte e distribuem as peças no tabuleiro como na figura. Cada jogador move uma peça de cada vez, de um ponto para outro adjacente, acompanhando as linhas do tabuleiro. As capturas ocorrem sempre quando, uma ou algumas peças adversárias, estando alinhadas ininterruptamente, encontram-se na mesma linha de movimentação da peça do outro jogador. Se o jogador aproximar sua peça para a casa a frente da linha de peças do adversário, captura todas as peças. Ou, se a peça do jogador estiver numa casa adjacente a do adversário, na mesma linha, e se este se afastar na mesma linha, uma casa, também captura todas as peças adversárias. Podem ocorrer possibilidades de capturas simultâneas com uma só jogada, por aproximação e por afastamento. Neste caso o jogador escolhe uma das alternativas de captura. É possível fazer capturas múltiplas, desde que após ter feito uma captura por aproximação ou afastamento, puder capturar mais peças, ao mover a mesma peça de captura em outra direção. Se em cada nova direção o jogador puder mover a mesma peça, ele fará novas capturas, na mesma jogada. Em cada um dos seus movimentos o jogador não pode passar mais do que uma vez pelo mesmo ponto. Não são permitidas capturas múltiplas na primeira jogada de ambos os jogadores. As capturas são obrigatórias, mas o jogador escolhe qual fazer se tiver mais de uma opção na mesma jogada. Vence o jogador que eliminar todas as peças inimigas ou que consiga impedir todos os movimentos do adversário. Não é minha pretensão desenvolver um roteiro de aplicação destes jogos em sala de aula, mas posso sugerir algumas observações que poderão dar um encaminhamento do uso da metodologia e que ajudarão talvez em um planejamento das aulas que serão cerceadas pelo uso dos jogos de origem africana e que possam dentre tantas finalidades, despertar a curiosidades dos jovens. Em um primeiro momento poder-se-ia apresentar textos que levariam a contextualização temporal, cultural e social dos jogos e como seriam vistos na ótica do povo africano. O mapa da África é essencial e já se nota a possibilidade da vertente de aplicação da Geografia no contexto. Podemos depois de termos em mãos os jogos prontos, simular partidas, onde as regras ficariam já explanadas, deixando a curiosidades e as dúvidas sobre o desenvolvimento destas para um período posterior, onde os alunos colocariam em prática as ações. Penso que a distribuição das turmas em grupos será interessante. A disciplina de Artes poderá dar sua contribuição no sentido de até mesmo ajudar os alunos a confeccionarem eles 355 próprios estes jogos, sempre respeitando a disponibilidade do espaço físico, material e humano da escola. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Yoté: o jogo da nossa história. Ministério da Educação/ Secretaria da Educação Continuada. Brasília: SECAD, 2010. BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais. Ensino Fundamental. Ministério da Educação: Brasília, 1997. DOS SANTOS, Jocéli Domanski Gomes. A lei 10.639/03 e a importância de sua implementação na educação básica. 2008 IN: www.diaadia.pr.gov.br/.../A_LEI_10639_03_E_A_IMPORTANCIA. acesso em 10/08/2011. 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Essa Lei prioriza o debate e a ação na área da educação no sentido desenvolver a partir do Protocolo do Ministério de Educação e Cultura e da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (MEC/SEPPIR), firmado no mesmo ano, os seguintes eixos: garantia do acesso e permanência das crianças negras na escola; promoção da alfabetização e qualificação profissional de jovens e adultos negros/as; incentivo à inserção de jovens negros/as nas universidades e o estímulo de uma pedagogia não racista, não sexista e não homofóbica no sistema educacional brasileiro. A Lei nº 10.639/03 é regulamentada pelo Parecer homologado em 19 de maio de 2004, que estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. As Diretrizes se constituem em orientações de como a Lei deve ser implementada. Ela faz parte de um conjunto de ações afirmativas que devem ser assumidas pelo Governo Federal e por toda a sociedade, representada nas diversas instâncias, assumindo uma agenda de compromisso no combate ao racismo e no reconhecimento do povo negro como constituinte da nação brasileira. As conquistas oriundas da implementação da Lei nº 10.639/03 como uma ação afirmativa, fruto das reivindicações do Movimento Negro Brasileiro, contém incentivos e aprendizados para as novas gerações que devem perceber que a Lei, se não for 357 implementada e colocada em prática com o apoio das Secretarias de Educação de cada Estado e Município, tornar-se-á letra morta. Portanto, cabe aos educadores, educandos, corpo diretivo da escola, bem como familiares e à comunidade civil organizada a responsabilidade pela fiscalização e acompanhamento da aplicação da Lei nº 10.639/03, contribuindo, assim, para a disseminação de novos conceitos e práticas educativas que auxiliem no combate ao racismo e preconceito racial, ainda presentes na sociedade brasileira. Esses pressupostos nos orientam que a educação tem um caráter que vai além da aquisição de competências técnicas para o trabalho, pois em nosso entendimento o ato de educar perpassa pela preparação de pessoas independentemente de sua raça, gênero ou etnia para que essa possa exercer seus direitos enquanto cidadão numa perspectiva de uma sociedade de direitos e democrática. O MOVIMENTO NEGRO E AS AÇÕES AFIRMATIVAS NA ÓTICA DE ALGUNS AUTORES A escravidão no Brasil durou quase quatro séculos e o nosso país foi o último das Américas a libertar os descendentes de africanos. A abolição representou a alteração do regime jurídico, abrindo caminho para igualdade formal entre negros e brancos. Este ato, em 1888, foi um dos principais impulsos para as dinâmicas econômicas e sociais do país, propiciando a alteração de um sistema de colonização para o início da mecanização da lavoura e da industrialização. No entanto, não significou mudança substantiva para os ex-escravos quanto a sua inclusão na nova ordem social. No final dos anos 1970, Carlos Hasenbalg ao publicar o livro Discriminação e Desigualdades Raciais no Brasil (1979), observa que ser branco e pobre no Brasil nunca será o mesmo que ser negro e pobre, porque apresentar aos negros pobres as mesmas políticas públicas de igualdade social que se apresenta aos brancos significa ignorar sua condição histórica. Para o autor, a discriminação racial que estava subsumida na escravidão emerge, após a abolição, transpondo-se ao primeiro plano de opressão contra os negros, mais do que isso, ela passou a ser um dos determinantes do destino social, econômico, político e cultural dos afro-brasileiros. Desde a Abolição, a população negra nas antigas sociedades escravistas das Américas tem estado na retaguarda do capitalismo industrial. Durante várias décadas após a abolição, os negros ficaram concentrados nas regiões agrícolas mais atrasadas como 358 parceiros, pequenos arrendatários, camponeses e moradores. (HASENBALG, 2005, p. 116) Este mesmo autor acrescenta que: Com a abolição do escravismo, o racismo, como construção ideológica e conjunto de práticas mais ou menos articuladas, foi preservado e em alguns acasos até mesmo reforçado. (HASENBALG, 2005, p. 120) Devido a estas diferenças comprovadas sociologicamente, a partir de finais de 1970 o Movimento Negro Brasileiro recomeça seu protesto. Em 1988, o ano do Centenário da Abolição e da Assembléia Constituinte, esse movimento saiu às ruas em todo território nacional para protestar contra a farsa da abolição. No campo institucional, saiu da constituinte vitorioso com uma série de ações afirmativas. Dentre essas constam o dispositivo que garantiu o direito da população remanescente de quilombo à titulação da terra. No aspecto jurídico político foi sancionado a Lei Caó que criminaliza o racismo. Na política institucional, foi criada a Fundação Palmares como um órgão do Ministério da Cultura. No decorrer do tempo, a combinação de uma política de mobilização popular com a via institucional o Movimento Negro Brasileiro tem sido propositivo para o Estado no sentido de implementações de políticas afirmativas. No ano de 2003, foi criada a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), com estatuto de Ministério e sancionado a Lei 10639/03. Assim, orientado pela permanente mobilização do Movimento Negro Brasileiro os governantes tem criado algumas ações afirmativas e estas têm sido entendidas por Gomes (2001) como: [...] políticas públicas (e também privadas) voltadas à concretização do princípio constitucional da igualdade material e à neutralização dos efeitos da discriminação racial, de gênero, de idade, de origem nacional, de compleição física e situação socioeconômica. (p. 99) Seguindo na mesma linha de raciocínio, Santos (1990) enfatiza que ações afirmativas são: [...] Medidas especiais e temporárias, tomadas ou determinadas pelo estado, espontânea ou compulsoriamente, com o objetivo de eliminar desigualdades historicamente acumuladas, garantindo a igualdade de oportunidades e tratamento. Bem como de compensar perdas provocadas pela discriminação e marginalização, decorrentes de motivos raciais, étnicos, religiosos, de gênero e outros. Portanto, as ações afirmativas visam combater os efeitos acumulados em virtude das discriminações ocorridas no passado. (p. 25) 359 As leis de inclusão social surgem do processo de mobilização e lutas dos movimentos sociais, sobretudo, as leis anti-preconceito e racismo. Dias (2004) afirma que a Lei nº 10.639/03 apresentada de imediato teve como função precípua responder a antigas reivindicações do Movimento Negro. Para Kabengele Munanga, Não existem leis no mundo que sejam capazes de erradicar as atitudes preconceituosas existentes nas cabeças das pessoas, atitudes essas provenientes dos sistemas culturais de todas as sociedades humanas. No entanto, cremos que a educação é capaz de oferecer tanto aos jovens como aos adultos a possibilidade de questionar e desconstruir os mitos de superioridade e inferioridade entre grupos humanos que foram introjetados neles pela cultura racista na qual foram socializados. (2005, p. 17) Assim, entendemos que é urgente e mais que necessário continuarmos incentivando a reflexão sobre o temática racial brasileira, esencialmente no que diz respeito a luta contra o preconceito, o racismo, a discriminação racial e qualquer tipo de intolerâncias corrrelatas contra a população negra. Nesse sentido, consideramos que a Lei 10.639/03 é mais um dos instrumentos a serem utilizados nessa luta. APLICAÇÃO DA LEI Nº 10.639/03 EM ESCOLAS PÚBLICAS DE UBERLÂNDIA Uberlândia é uma cidade com população total de 604.013 habitantes, segundo Censo 2010/Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), destes, os negros (aqueles se declaram de cor preta ou parda) representam 42,9% deste total de habitantes. Este número é bastante significativo quando falamos de políticas direcionadas à temática afro-racial. Esta cidade possui 384 instituições escolares, sendo 179 do ensino fundamental, 158 da pré-escola e 47 de ensino médio (IBGE, 2010). De acordo com esses dados podemos perceber que a região encontra-se privilegiada no tocante ao número de instituições de ensino destinados ao ensino da pré-escola, fundamental e médio. Assim sendo e, considerando os conceitos e a Lei 10639/03 citada acima, realizamos uma pesquisa em 03 escolas públicas da região leste da cidade de Uberlândia, no ano de 2010, com o objetivo de primeiro observar qual nível de conhecimento que os (as) professores (as) de história possuem sobre a Lei 10639/03; 360 segundo verificar de que forma a mesma tem sido aplicada na escola e terceiro, embora saibamos da importância dessa Lei, buscamos verificar se para a escola essa importância é reconhecida e quais os impasses encontrados para a sua execução. METODOLOGIA Para a realização do presente trabalho foi feita uma pesquisa bibliográfica e pesquisa de campo. Para o trabalho de campo elaboramos um questionário constituído de perguntas abertas e fechadas. Este questionário foi composto de duas partes: na primeira parte buscamos identificar o tempo de docência, a idade e o sexo; na segunda parte do questionário foram feitos os seguintes questionamentos: você tem conhecimento da Lei 10.639/03? Ela é aplicada em sala de aula? Como ela é aplicada? Quais materiais são utilizados para trabalhar a temática afro-racial em sua escola? Você considera essa lei importante? Por quê? Quais os procedimentos adotados pela escola em situações de racismo? Quais os impasses encontradas para a implementação da lei 10.639/03? Os sujeitos dessa pesquisa foram professores da disciplina de história de 10 escolas públicas das redes Estaduais e municipais de Uberlândia que atuam no ensino fundamental. A escolha por professores que atuam no ensino fundamental na disciplina de história se deu em função de serem esses professores os que mais recebem a incumbência de ministrar conteúdo em consonância com os preceitos da lei 10.639/03. O que é um erro, pois embora a referida Lei tenha um conteúdo multidisciplinar, podendo ser trabalhada em várias disciplinas, percebemos que muitas vezes torna-se uma “obrigação” do professor de história articular a lei 10.639/03 dentro de seu conteúdo. As questões aplicadas aos professores estavam relacionadas às práticas pedagógicas utilizadas para a implementação da lei 10639/03 no currículo escolar das escolas em que os mesmos atuavam. Para melhor andamento da pesquisa elencamos alguns questionamentos que julgamos ser importantes: Dentre os questionamentos levantados elencamos abaixo as consideradas mais relevantes. Dos 10 (100%) questionários aplicados apenas 03 (33%) destes foram respondidos e devolvidos, sendo que a maioria dos que foram procurados pela pesquisadora apresentaram diversos motivos para não respondê-los como falta de 361 tempo, desconhecimento do assunto, desinteresse a respeito do tema e alguns ainda demonstravam descaso tanto a temática envolvendo a Lei quanto às questões relacionadas a importância do papel da população negra na história de formação do nosso país. Dos questionários entregues 03 foram devolvidos em branco, 04 não devolveram os mesmos e 03 foram devolvidos respondidos, estes últimos foram de escolas da região leste da cidade e são compostos por 02 sujeitos do sexo feminino e 01 do sexo masculino. Com o objetivo de preservar a identidade dos nossos sujeitos, codificamos os mesmos utilizando como critério a ordem numérica e o sexo. Um dos entrevistados (01M) possuía 11 anos de docência; o outro (02F) possuía 14 anos de experiência em escolas, sendo que estava apenas 05 anos nessa escola e o último (03F) atuava há 17 anos como professor. A partir das respostas obtidas, as mesmas foram analisadas, categorizadas e dividas em três sub-temas conforme descreveremos a seguir: O CONHECIMENTO DOS PROFESSORES SOBRE A LEI 10.639/03 Ao analisarmos os questionários devolvidos pelos 03 professores das 03 escolas pesquisadas, verificamos que 02 (67%) professores/as têm o conhecimento da Lei e sabem da sua importância e do seu conteúdo. Neste contexto, percebemos que a Lei foi bem divulgada em duas das escolas visitadas. Porém, estes mesmos professores/as deixam transparecer que a Lei não é aplicada com importância e a seriedade com que deveria ser: “Eu conheço a lei, ela é importante, mas ela não é aplicada, até por falta de tempo, não dá pra trabalhar no ano, já temos muita matéria e o tempo é curto”. (01M). Na segunda escola a professora respondeu: “Reconheço a importância da lei e inclusive já fiz o curso de capacitação, mas não sei como colocar em prática na sala de aula, pois não depende só de mim”. (02F) Já na terceira escola detectamos um desconhecimento sobre a Lei, por parte da professora que lecionava a disciplina de história naquele semestre. Em resposta a pergunta sobre seu conhecimento a respeito da lei uma professora identificada como 02F disse: “que lei é essa?”. Assim, diante dessa pergunta buscamos esclarecê-la sobre seus objetivos, e histórico de seu surgimento, a fim de contribuir para a divulgação da mesma. Porém, entendemos que ações mais pontuais devem ser empreendidas no 362 sentido de capacitar os professores e a partir daí estes poderem desenvolver ações dentro de sala de aula. Segundo depoimentos dos professores que afirmaram ter conhecimento sobre a lei, havia materiais didáticos sobre a temática, e estes ficavam na diretoria da escola em uma caixa. Embora não tenhamos tido a oportunidade de verificar o conteúdo deste material, entendemos que tal fato não contribui para que o professores se sintam coresponsáveis pelo seu processo de capacitação bem como seu papel de multiplicador. APLICAÇÃO DA LEI EM SALA DE AULA Ao questionarmos a professora 02F sobre a aplicação da referida lei, ela nos respondeu que “não existe um momento especifico para colocar em prática o que a Lei exige”. Ela esclareceu ainda que a temática que trata os preceitos da lei é inserida no cotidiano escolar apenas quando acontecem algumas “desavenças e humilhações entre alunos referentes às diferenças étnico-raciais”, e que a atuação do professor se resume a fazer comentários no sentido de procurar amenizar a situação para a vítima- no caso o aluno negro. Ela também relatou que: “se for questionado a um/a aluno/a sobre qual é o real objetivo da Lei 10639/03 e se a mesma foi discutida em sala de aula, a resposta, na maioria das vezes é não”. Já o professor 01M reforçou que não há espaço no currículo para mais uma matéria e 03F preferiu não responder a esta pergunta por escrito, mas comentou que nos casos de briga que envolva questões relacionadas a humilhações em decorrência da cor ela encaminha para a Supervisora Escolar ou para a Diretoria. Conforme exposto na situação acima, esses resultados nos mostram o quanto ainda resta caminhar, no sentido de as pessoas assumirem a responsabilidade no combate e eliminação de todas as formas de preconceito e racismo no Brasil. Entendemos que isso é mais uma das causas que tem dificultado o sucesso de aplicações de leis que procuram combater o racismo. De acordo com Trevisan (1988): Toda sociedade que está marcada por desigualdades muito visíveis, mantidas por certa violência, precisa sempre escolher alguém- individualizado ou em grupo- como inimigo, a quem se deve ofender quando possível, a quem deve temer quando inferiorizado, e a quem se deve humilhar sempre, principalmente utilizando a marca do plural. É, justamente, em contraposição a esse comportamento ideológico-social que, a partir das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais (2004), se entende que para promover a reeducação das relações étnico-raciais, no Brasil, é necessário fazer emergir as dores e medos que têm sido gerados. (1988, p. 17) 363 Em nossa pesquisa, percebemos que infelizmente ainda paira na sociedade uma cultura de cinismo, ou seja, uma ideologia que persiste em defender que vivemos num país onde as diferenças são aceitas e valorizadas. Em razão disso, a população negra encontra-se submetida a um processo em que as condições de existência e o exercício de cidadania tornam-se muito mais precários com relação à população considerada branca e conseqüentemente superior. Em decorrência desse quadro, a construção de uma identidade positivamente afirmada como requisito necessário para as pessoas se engajarem em políticas efetivas voltadas para a melhoria de suas condições sociais, torna-se um processo dificultado, pois percebemos que permanece a cultura da submissão e da discriminação. Também, em nosso trabalho de campo, assistimos em vários momentos como se dá a situação do preconceito e da discriminação racial citadas por alguns alunos/as e também professores/as no ambiente escolar. Esses atores sociais comentaram que na maioria das vezes quando ocorreram fatos de preconceito e discriminação racial na escola não foram tomadas as possíveis providencias; não foram feitos questionamentos sobre manifestações de racismos e a direção e orientação pedagógica nem ao menos buscou promover um diálogo em forma de debate para esclarecer o problema e, nos casos extremados, nem boletim de ocorrência policial ocorreu. Esse exemplo demonstra a necessidade de uma maior capacitação de professores/as e todos trabalhadores da educação para a consolidação da Lei 10639/03 no sentido incluí-la na grade curricular e efetivar as ações nelas prescritas. Numa sociedade como a brasileira onde o preconceito, a discriminação racial e a intolerância correlata é fato consumado é sempre comum encontrar alunos/as afrodescendente que por diversas vezes já foram vitimados. São situações de afronta e indignidade em função de suas características étnico-raciais, sob a forma de agressões físicas ou mesmo verbais abertas, e que muitas vezes são silenciadas dentro da própria instituição escolar, que deveria ser a responsável por tomar providencias no sentido de combater essas agressões. 364 RECONHECIMENTO DA LEI E OS IMPASSES OBSERVADOS NA SUA EXECUÇÃO Apesar de termos avançado muito no sentido de consolidar políticas públicas de promoção da igualdade racial, ainda sofremos com a precariedade das escolas para lidar com a questão. Compreendemos que a solução do problema está muito longe do ideal, sobretudo no quesito de requalificação mais apurada dos profissionais de ensino e a falta de material pedagógico suficiente. Em nossa pesquisa, uma das professoras entrevistadas comentou que um dos empecilhos na realização de atividades relacionadas à Lei é a falta de material. Segundo a mesma, (...) há um interesse da escola em colocar em prática a lei dentro da escola, mas a falta de materiais direcionados aos alunos, com uma linguagem menos técnica é o que dificulta todo o processo. (02F) Ao analisarmos alguns materiais entendemos que existe até certo nível de discussão sobre a questão racial em alguns livros didáticos de Historia ou Geografia, como por exemplo, livros da coleção PROJETO ARARIBÀ, organizado e produzido pela Editora Moderna em 2006. Nesse material encontramos textos escritos por diversos autores para alunos do 6º ano. Entretanto, podemos constatar que os conteúdos dos textos não favorecem o desenvolvimento da Lei 10639/03. Nessa publicação, as fotos com imagens de pessoas negras e termos como escravos ou escravidão não esclarecem a questão de raça e nem de preconceito e discriminação racial. O enredo desses livros narram que os negros foram prisioneiros de guerra, filhos de escravos ou até mesmo homens livres que foram vendidos como escravos. Entretanto, quando se trata da origem dos seres humanos e do povoamento de vários lugares do mundo, o negro parece não fazer parte desse processo. Porque nesse contexto de conquista do espaço territorial e expansão demográfica os principais sujeitos são os brancos. Assim, como acontece na maioria das vezes nos livros didáticos, a partir do momento em que a palavra escravo é citada nos textos, de imediato cria-se a ligação entre escravo e negro. Ou seja, [...] os quatrocentos terríveis anos de escravatura negra deixaram profundas marcas entre nós, facilmente perceptíveis em historias e piadas, carregadas de preconceito. Esse legado é tão forte que, pra nós, parece que a única escravidão da Historia foi a que atingiu os povos negros africanos [...]. (BORGES, 2002, p. 23) 365 Além dessa problemática encontrada na maioria dos livros didáticos, encontramos o fator omissão por parte da maioria dos/as profissionais da educação em querer discutir a questão étnica racial na escola. Um dado preocupante, por exemplo, é que de todas as escolas que visitamos 07 (67%) não responderam nosso questionário. Como já dissemos anteriormente, várias foram as desculpas, houve até certa resistência dos professores o que acabou dificultando, em parte, o andamento da pesquisa, dando a entender que o assunto não era tratado com a devida importância em algumas instituições. Percebemos que mesmo com a lei, algumas escolas ainda não têm a real noção da sua importância. Desconhecem a importância de se desenvolver ações que contemplem a referida na lei, sua importância para todos os alunos, para a formação de caráter ou ate mesmo mudança de comportamento, seja esta mudança imediata ou em longo prazo, e ainda como forma de elevar a auto-estima do público alvo desta política. Tomamos como exemplo a professora 03F que, segundo ela, ficou sabendo da Lei por intermédio dessa pesquisa. Isso demonstra que há a necessidade de que todo o grupo escolar se intere a respeito da Lei 10.639/03 e ainda, seja feito um trabalho coletivo no sentido de divulgá-la no âmbito escolar, entre professores, gestores, diretores e todos os profissionais envolvidos, para que não tomemos o professor, principalmente o de historia, como o único responsável por realizar tais ações. O professor 01M justificou que como não encontra tempo para discutir tal assunto em sala de aula, considera então que o planejamento pedagógico não favorece a inserção de mais uma “matéria” dentro de sua disciplina. Analisando todos os casos, observa-se que a não-implementação da lei nas salas de aula se dá devido a vários motivos: a falta de conhecimento dos professores quanto a real importância da lei (pelo fato de algumas das equipes escolares ignorarem a aplicação da lei enxergando-a apenas como mais uma lei); a falta de interesse dos professores em se qualificar - para transmitir aos alunos estas informações, e ainda esses fatores aliados à falta de material pedagógico destinados ao ensino de crianças e jovens, numa linguagem acessível e adaptada a sua faixa etária. Assim, questões a serem trabalhadas dentro da Lei 10.639/03 ficam mais uma vez relegadas a um segundo plano. Foi detectada na pesquisa que em alguns casos os materiais didáticos são utilizados apenas em caso de questionamentos e/ou necessidade de alguma intervenção, caso 366 aconteça alguma ocorrência de racismo ou preconceito que venha “manchar” a imagem da escola. CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante da pesquisa realizada e dos questionamentos que surgiram por parte dos sujeitos, observamos que o assunto em questão ainda provoca muita resistência. Das 10 escolas procuradas, 07 (77%) professores destas se recusaram a responder o questionário. Alguns pediram para analisar o questionário primeiro, antes de respondêlo, outros ao ouvir a palavra lei ficavam assustados, e questionavam: “... para onde vão essas informações?”. Um dos fatos mais alarmantes foi deparar com questionamento do tipo: “que lei é essa?”, referindo-se a primeira pergunta do questionário: Você tem conhecimento da Lei 10.369/03? Podemos concluir que a simples existência da Lei 10639/03 e os cursos de capacitação para os profissionais da educação com o foco “História e Cultura AfroBrasileira” não é a garantia da sua aplicação. Acreditamos que além de investir na formação continuada dos/as professores/as, pois embora alguns já tenham conhecimento da lei, sabem de sua importância, não possuem os recursos (habilidades) necessários para transmiti-la aos alunos/as, orientá-los sobre quais as metodologias adequadas para se tratar o assunto, ressaltando sua parcela de responsabilidade enquanto agente de mudanças e assim estabelecer uma reflexão do seu papel no processo enquanto educador. Outra questão que nos chamou a atenção foi o fato de que os sujeitos da nossa pesquisa terem em média 14 anos de docência. Acreditamos que o tempo de atuação em sala de aula possa ter contribuído para um aparente comodismo e até descrédito entre os mesmos quanto à implementação da referida lei. Para aqueles professores (as) que não tem conhecimento da lei ou não dão a devida importância, seja pela falta de interesse ou qualquer outra causa, deve se demonstrar com ações educativas e a importância da aplicação da lei e seus reflexos na comunidade estudantil. Concordamos com Munanga (2004) quando este diz que: “Não se luta contra o racismo apenas com retórica e leis repressivas, não somente com políticas macrossociais ou universalistas, mas também, e, sobretudo, com políticas 367 focadas ou específicas em benefício das vítimas do racismo numa sociedade onde este é ainda vivo”. (p. 15) A lei se aplica não apenas a população negra, mas a todos. De acordo com Lancillotti “todos os homens devem ser vistos pela ótica da igualdade e merecem ser alvo de preocupação e ações diversas, seja por parte do poder público ou da iniciativa privada.” (2000, p. 90-91) Nesta ótica finalizamos afirmando que mesmo com as ações políticas elencadas neste artigo, percebemos a necessidade de um comprometimento maior de todos com a educação numa perspectiva humanitária. Numa sociedade marcada pelas desigualdades, mais do que implementar políticas de reparações vemos a necessidade de ressaltar o respeito às diferenças, sejam elas sociais, étnicas, ou culturais. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DOCUMENTOS: CÂMARA MUNICIPAL DE UBERLÂNDIA. I Conferência Municipal de Promoção da Igualdade Racial. Uberlândia / MG: Estado e Sociedade Promovendo a Igualdade Racial. Uberlândia, Maio de 2005. MINISTÉRIO DA CULTURA. III Conferência Mundial de Combate ao Racismo. Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata. Declaração de Durban e Plano de Ação. 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Diário Oficial [da República Federativa do Brasil], Brasília, DF, v. 134, n. 248, 23 dez. 1996. BRASIL. Lei no 10.639, de 9 de Janeiro de 2003. Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira", e dá outras providências. DIAS, L. Quantos passos já foram dados? A questão de raça nas leis educacionais. Maringá: Revista Espaço Acadêmico nº38, julho de 2004. FERREIRA, A. B de H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2. Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986, p. 619. GOMES, Joaquim Benedito Barbosa. Ação Afirmativa & Princípio Constitucional da Igualdade: o direito como instrumento de transformação social. A experiência dos EUA. Rio de Janeiro: Renovar, 2001, p. 6-7. HASENBALG, Carlos. 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Brasília: Ministério da Educação, p. 155-156. 2005. 369 TREVISAN, Leonardo. Abolição: um suave jogo político. São Paulo: Moderna, 1988. 370 PARTE VII TEODORO SAMPAIO Teodoro Sampaio nasceu em 1855 na cidade de Santo Amaro, Bahia. Era filho de uma escravizada do engenho Canabrava e, supostamente, do sacerdote Manoel Fernandes Sampaio, que o alforriou no batismo. Há quem registre, no entanto, que seu pai era o senhor de engenho Francisco Antônio da Costa Pinto. O próprio Teodoro, porém, jamais revelou publicamente a verdadeira identidade de seu pai. Aos dois anos de idade foi entregue a uma senhora da sociedade, D. Inês Leopoldina, que o criou até os nove anos. Aos 10, foi levado para o Rio de Janeiro e internado no colégio São Salvador, onde mais tarde se tornou professor de Matemática, Filosofia, História, Geografia e Latim. Logo depois de formado na Escola Politécnica, em 1877, voltou à Bahia e negociou a alforria de sua mãe e de seus dois irmãos, que ainda eram escravizados. Um dos maiores engenheiros do país, além de geógrafo e historiador, Teodoro foi o primeiro a mapear a região da Chapada Diamantina. Suas anotações ajudaram Euclides da Cunha a escrever Os Sertões. Foi também um dos homens públicos de maior importância nos debates e projetos urbanísticos do país, no final do século XIX e início do XX. Hoje, municípios em São Paulo e na Bahia carregam seu nome. Em 1886, Teodoro integrou a Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo, como 1º Engenheiro e Chefe de Topografia. No governo de Prudente de Morais (1890), assumiu a chefia dos Serviços de Água e Esgoto da cidade de São Paulo. A partir da década de 1890, Teodoro ganhou reconhecimento intelectual cada vez maior, devido, entre outros fatores, à sua participação na comissão que organizou a Escola Politécnica de São Paulo. Em 1901, lançou o livro O Tupy na Geografia Nacional, obra reconhecida como referência fundamental no estudo do Tupy e de sua influência na formação cultural do país. Nos últimos anos de sua vida, dedicou-se ao livro História da Fundação da Cidade da Bahia, obra publicada postumamente em 1949. Teodoro morreu antes de completar o último capítulo, em 15 de outubro de 1937, no Rio de Janeiro, onde residia.1 1 Ver mais em http://www.acordacultura.org.br/herois/ 371 ETNOMATEMÁTICA E AS RELAÇÕES ETNICORRACIAIS: UM OLHAR NA FORMAÇÃO INICIAL Suane Cristyne Luz de Sousa Universidade Federal de Uberlândia - UFU Faculdade de Ciências Integradas do Pontal – FACIP Graduanda em Matemática [email protected] Profª. Dra. Cristiane Coppe de Oliveira Universidade Federal de Uberlândia - UFU Faculdade de Ciências Integradas do Pontal – FACIP Núcleo de Estudos Afro Brasileiros – NEAB [email protected] O presente artigo trata-se de uma investigação desenvolvida em paralelo com o trabalho de conclusão de curso (TCC) Etnomatemática e valores na formação inicial: potencialidades por meio da pesquisa realizado no ano de 2010. A partir de uma investigação bibliográfica nos Anais do IX Encontro Nacional de Educação Matemática - IX ENEM e do X Encontro Nacional de Educação Matemática - X ENEM, levantouse uma reflexão referente à Etnomatemática no Brasil juntamente com a temática étnicorracial e a Lei Federal 10.639/2003 - que estabelece a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana na Educação Básica - bem como sua importância para os pesquisadores e professores que em seu cotidiano se envolvem com a temática. A trajetória percorrida é fruto do primeiro contato com a Etnomatemática que se deu na disciplina Educação Matemática III, no curso de graduação em Matemática da Faculdade de Ciências Integradas do Pontal da Universidade Federal de Uberlândia – FACIP/UFU. A temática da aula despertou o interesse da autora deste artigo em relação à dimensão e trajetória da pesquisa em Etnomatemática e da criação do termo até o atual movimento da área na Educação Matemática. Iniciou-se uma primeira pesquisa na disciplina Metodologia Científica, investigou-se que o Programa Etnomatemática e seus estudos sobre o saber-fazer matemático praticado entre os diferentes contextos culturais valorizava a construção de um conhecimento não-formal e acadêmico. 372 Por meio dessa primeira pesquisa, verificou ainda que a Etnomatemática é dada pela aventura da humanidade, que se identifica com obtenção de comportamentos e de conhecimentos para sobrevivência e transcendência, buscando adquirir modos, estilos, artes, técnicas de explicar, aprender, conhecer, lidar com o ambiente natural, social, e imaginário. O grande motivador do programa de pesquisa que denomina Etnomatemática é procurar entender o saber-fazer matemático ao longo da história da humanidade, contextualizado em diferentes grupos de interesse, comunidades, povos e nações. (D’AMBROSIO, 2001, p. 17) Diante das primeiras inquietações da pesquisadora e da trajetória que se estabeleceu ao longo de seu processo de formação inicial em Matemática, pretende-se investigar as produções científicas em Etnomatemática, mostrar seu crescimento e suas dimensões, tendo como fontes principais os Anais do IX ENEM e X ENEM, buscando estabelecer uma ponte entre a pesquisa na área, a formação de professores em Matemática e as possíveis relações que foram estabelecidas nos trabalhos investigados nesses eventos que se referem à Lei 10.639/2003. O presente artigo apresenta a importância da pesquisa em Etnomatemática, sua relação com a temática Étnicorracial e a Lei 10.639/2003. Essa perspectiva foi se formando e amadurecendo no Curso de Formação Inicial em História e Cultura Africana e Afro-Brasileira promovido pelo NEAB no ano de 2010-2011, revelando a importância de estudar e investigar a temática na formação inicial em Matemática na Faculdade de Ciências Integradas do Pontal da Universidade Federal de Uberlândia – FACIP/UFU. Cabe destacar a importância do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal de Uberlândia – NEAB/UFU, por meio da qual se desenvolve diversas atividades promovendo aos educadores a valorização da cultura afro-brasileira, o conhecimento das ciências sob um olhar não-eurocêntrico que ressalta os valores e contribuições dos africanos para a história das ciências, possibilitando discussões ligadas aos contextos de gênero, raça, etnia e religiosidade e o cumprimento da Lei Federal 10.639/2003. A partir da participação no curso de Formação Inicial em História e Cultura Africana e Afro-Brasileira do NEAB, paralelamente à pesquisa para a elaboração do trabalho de conclusão de curso de Matemática da FACIP/UFU em 2010, tornou-se importante para a pesquisadora realizar um levantamento nos Anais citados 373 anteriormente sobre os trabalhos que envolvem a Etnomatemática e a temática Étnorracial nas quais estão relacionados com a cultura, os costumes, crenças e valores dos Afro-Brasileiros. Desse modo, acredita-se que a partir dos estudos realizados durante o curso promovido pelo NEAB, de discussões nas diversas temáticas a cada módulo, encontrouse a perspectiva de agregar valores à formação inicial em matemática, articulando a pesquisa em Etnomatemática e as relações etnicorracias. POR QUE A ETNOMATEMÁTICA? Aproximar-se com o tema Etnomatemática é acreditar na possibilidade e na grande diversidade de culturas e contextos do mundo atual. A temática faz parte da trajetória acadêmica da pesquisadora, portanto a escolha pelo tema encontra-se intrínseca ao que se propõe a conhecer, compreender, classificar e investigar nessa área. E pelo fato de acreditar que a aprendizagem acontece por meio da valorização do contexto sócio-cultural de cada indivíduo, ou seja, cada ser humano é único e possui características próprias que se agregam aos valores culturais do meio em que se vive. Outra característica relevante quanto à escolha do tema é possibilitar a percepção de que a Matemática é uma ciência para todos, e, portanto, compõe a visão de um mundo em comunidades tradicionais a qual configura-se no saber-fazer matemático de maneiras diversificadas, por exemplo, a maneira como os pescadores utilizam as artes e técnicas para confeccionarem suas redes. Essas artes e técnicas demonstram muito mais do que um conhecimento lógico matemático, elas possibilitam a visão de que a matemática é essencial para sobrevivência do homem (D´AMBROSIO, 2001). Perante as mudanças da sociedade e o contato com o mundo desenvolvido é considerável que se reflita, discuta e compreenda o conhecimento da área Etnomatemática, pois é ela que articula a aproximação na relação da matemática (ciência) com a matemática (cultural ou no saber-fazer), as quais se desenvolvem em várias comunidades a partir da necessidade de sobrevivência e transcendência de uma cultura. Trabalhar com esta área da Educação Matemática enquanto linha de pesquisa é reconhecer e respeitar as raízes de cada indivíduo e não ignorar e rejeitar a maneira de pensar do outro e sim utilizá-la para reforçar suas próprias raízes. Aí está o porquê mais 374 relevante da escolha do tema pela pesquisadora, em acreditar neste reconhecimento e, principalmente, no respeito pelas culturas e crenças de cada indivíduo, sem rejeitar o pensar e o fazer do outro, pois a valorização é um passo importante para poder agir, desenvolver e refletir sobre a própria Etnomatemática. Acredita-se que a inserção na educação, enquanto professor nos convida a um novo contexto cultural no qual o agir se configura em nossas ações, desenvolve-se a cada nova experiência e é consolidado no ser professor pesquisador desta área da Educação Matemática. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA De acordo com Silva (2005), a partir da segunda metade do século XV e durante o século XVI, após a expansão das navegações, com o período de colonização de pessoas em países diferentes, tornou-se mais visível as diferenças das culturas dos colonizadores. Os europeus que foram os principais colonizadores tinham como proposta civilizar os índios americanos e os negros africanos, pois para o povo da Europa os colonizados eram homens insignificantes e o objetivo era fazer com que os homens contidos se tornassem iguais aos europeus. O que contraria o olhar sob a ótica da pesquisa desenvolvida. A partir da importância de entender as diferenças culturais entre os colonizadores que tinham se espalhado pelo mundo, D’Ambrósio (2001) afirma que foi importante no século XIX ocorrer o surgimento da Antropologia, pois era necessário não apenas ter crenças e sim entender os modos de pensar de culturas de diferentes povos, daí em diante criou-se o respeito em relação às diferentes maneiras de pensar, inclusive a maneira matemática, com isso ocorreu à vontade e o encorajamento das reflexões mais extensas sobre o pensamento matemático, ou seja, do pensamento cognitivo, histórico, social e pedagógico, sendo este o objetivo principal do Programa Etnomatemática. Na perspectiva de Fantinato (2008), a Etnomatemática a partir da década de oitenta vem se expandindo no Brasil e no mundo, onde até nos dias de hoje está diretamente ligada com a Educação Matemática. Ela contribuiu para seus pesquisadores perceberem a grande relação entre a matemática e seus conhecimentos com a cultura da humanidade e com as suas aplicações em sala de aula. Com a expansão da 375 Etnomatemática os professores e os pesquisadores começaram a ficar interessados a aprofundar os estudos neste tema. Segundo a autora citada anteriormente, um dos primeiros brasileiros que é o verdadeiro teorizador da Etnomatemática conhecido como “pai da Etnomatemática” que fez e está fazendo com que o Brasil tenha um papel importante no desenvolvimento desta linha de pesquisa é Ubiratan D’Ambrósio. De acordo com D’Ambrosio (2001) a Etnomatemática é hoje considerada uma sub-área da História da Matemática e da Educação Matemática, com uma relação muito natural com a Antropologia e as Ciências da Cognição e tem por objetivo analisar os diferentes grupos sociais existentes, tais como os urbanos e rurais, os grupos de trabalhadores, as sociedades indígenas, dentre outros grupos que tenham objetivos e tradições comuns e todas as suas raízes culturais relacionadas com a matemática. Nesta perspectiva, segundo Ferreira, Domite & Ribeiro (2006), é importante compreender o saber matemático de diversos aspectos culturais, tais como as artes, as técnicas, as maneiras de explicar e as maneiras de aprender. A partir desses aspectos é apontada uma paisagem que deixa para trás preconceitos vinculados a modernidade. Fiorentini & Lorenzato (2006), consideram que uma pesquisa em Educação Matemática é um processo de estudo que aborda uma busca disciplinada/metódica de saberes e compreensões de um determinado fenômeno, problema ou questões da realidade, no qual o pesquisador instiga o que se sabe ou o que se diz a respeito. Com a expansão da área de pesquisa é necessário a sociedade considerar a matemática em diversos contextos, de maneira que todos percebam quando a matemática é usada para classe dominante e quando a matemática é usada para a vida, assim as pessoas podem desenvolver atitudes críticas. A Etnomatemática tenta ao máximo valorizar o conhecimento cultural do meio social para uma aprendizagem significativa e crítica da matemática. No curso de formação de professores em Matemática, torna-se necessário desenvolver situações pedagógicas que considerem as histórias, as experiências de vida e a cultura dos alunos, sendo importante conhecer suas escolhas profissionais e suas perspectivas para o futuro, proporcionando um cenário crítico de uma Educação Matemática para a cidadania. A Educação Matemática possibilita construir relações com outras comunidades, podendo haver uma “interculturalidade”, ou seja, até hoje existem povos 376 que conservam sua língua e sua cultura, enquanto comunidades tradicionais. Nesse sentido, Melià (1999), considera que os povos além de superar o período colonial, superaram a luta da assimilação e da integração dos tempos de hoje, isso só aconteceu devido às estratégias e ação pedagógica, a partir desse contexto cultural surge à importância da escola. Ainda nessa perspectiva, Knijnik (2004) afirma que a Etnomatemática propõe a tarefa de pesquisar as culturas dos povos, destacando suas diferentes maneiras de calcular, medir, estimar, interferir e raciocinar, desta forma acredita-se na identificação desde o horizonte educativo no qual os seres são socializados, como os modos de lidar matematicamente com o mundo. DA INVESTIGAÇÃO No contexto dessa investigação, acredita-se que professores e futuros professores necessitam perceber que há diferentes maneiras de compreender, lidar, pensar, inferir, substituir, contar e valorizar as distintas maneiras de explicar e conhecer a matemática - Etnomatemáticas. Como a Etnomatemática é um Programa de pesquisa em Educação Matemática, com óbvias implicações pedagógicas (D´AMBROSIO, 2001), considera-se importante que o docente saiba lidar com as várias maneiras de elaboração de um saberfazer matemático, promovendo a junção das ideias matemáticas trabalhadas em sala de aula com os contextos sócio-culturais dos alunos. Assim é importante que o professor saiba a necessidade de trabalhar em suas aulas atividades que envolvem discussões, cultura, história e a partir deste trabalho, o mesmo reflita sobre as suas práticas. A partir do Conselho Nacional em Educação, pode-se dizer que além da importância dos educadores em suas aulas desenvolverem discussões sobre história e cultura é importante que o mesmo tenha conhecimento sobre a Lei 10.639 que se trata da demanda da população afro-descendente presentes nas escolas e por meio da sua vivência no espaço escolar o docente saiba reconhecer e valorizar a história, cultura e identidade. Permitindo-se através das dimensões históricas, antropológicas e sociais da realidade nacional, buscar meios para lutar contra o racismo e as discriminações que ocorrem geralmente com os Afros. Possibilitando a interação de uma nação em que todos são tratados igualmente, tanto quanto nos direitos e na identidade. 377 A Etnomatemática vem se avançando como uma área de pesquisa que desenvolve um novo conceito em Educação Matemática, valorizando as diferenças culturais. E sugerindo novas formas de lidar com seu ensino e aprendizagem, nasce aí a possibilidade de implementação da lei 10639/03 no ensino de matemática. No Brasil a Etnomatemática tem uma grande relevância, o que é confirmado por vários grupos de pesquisadores que se colocam em discussões e fóruns da Educação Matemática. O Encontro Nacional de Educação Matemática – ENEM, por exemplo, é o maior evento organizado pela Sociedade Brasileira de Educação Matemática - SBEM, tendo por objetivo a participação de professores de matemática, ampliando o debate nas diversas áreas do conhecimento científico, assim podendo fazer que os professores semeiem em suas aulas conhecimentos adquiridos por meio desta troca de aprendizagem. O IX Encontro Nacional de Educação Matemática - IX ENEM foi realizado entre 18 a 21 de julho de 2007, na cidade de Belo Horizonte na Universidade de Belo Horizonte - UNI - BH. O tema proposto no ENEM 2007 foi “Diálogos entre a pesquisa e a prática educativa”, o foco principal foi discutir os reflexos da pesquisa em Educação Matemática nas salas de aula. Tendo como parceria a SBEM - DNE e a SBEM - MG, o encontro foi organizado em palestras, mesas redonda, minicursos, comunicações científicas, relatos de experiência e pôsteres. O evento foi proporcionado para promover aos participantes uma reflexão em Educação Matemática. Investigando os anais dos últimos Encontros de Educação Matemática, constatou-se que no IX ENEM realizado em 2007, foram apresentados 23 trabalhos no total, sendo todos eles relacionados com a Etnomatemática, mas apenas 1 trabalho envolveu a temática Étnicorracial (Quadro nº 1), representando apenas 4,5% dos trabalhos publicados. 378 QUADRO Nº 1 – ANAIS DO IX ENCONTRO NACIONAL DE EDUCAÇÃO MATEMÁTICA TRABALHO INVESTIGADO O ENSINO-APRENDIZAGEM DA MATEMÁTICA A PARTIR DA HISTÓRIA DA ÁFRICA EM UMA SALA DE AULA DE MATEMÁTICA DO ENSINO FUNDAMENTAL EM SALVADOR – BA AUTOR PALAVRAS-CHAVE Ubiratan D’Ambrosio História Africana; Afro Etnomatemática; Matemática. O X Encontro Nacional de Educação Matemática - X ENEM foi realizado no período de 7 a 9 de julho de 2010, em Salvador, com o Tema “Educação Matemática, Cultura e Diversidade”, onde esteve presente quatro mil participantes de todo o Brasil, sendo eles os professores de escolas, pesquisadores, alunos e professores de graduação e pós graduação. No X ENEM realizado em 2010, foi publicado e apresentado no total de 31 trabalhos que envolvem a Etnomatemática, mas do total foram somente 2 trabalhos que envolvem a temática (Quadro nº 2), representando 6,45% dos trabalhos no evento. Quadro nº 2 – Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática TRABALHOS INVESTIGADOS PRODUÇÃO DE FARINHA DA MANDIOCA: UM ESTUDO NA COMUNIDADE QUILOMBOLA LAGOA DA PEDRA IMPLICAÇÕES NO ENSINO E NA APRENDIZAGEM DE MATEMÁTICA UTILIZANDO A AUTORES PALAVRAS-CHAVE Idemar Vizolli Rosa Maria Gonçalves Santos Leandra Gonçalves dos Santos Quilombola; Farinha de mandioca; Etnomatemática; Idéias Matemáticas. Auto Cad; Arquitetura Africana; Formação Profissional; Educação de 379 ETNOMATEMÁTICA COMO APORTE TEÓRICO Henrique Cunha Junior base para as profissões. Esses dados nos mostram, por um lado, que as pesquisas em Educação Matemática que se apresentam nos Anais dos últimos ENEM´s, quase não contemplam a educação para as relações étnicorraciais. Por outro lado, apontam a Etnomatemática como princípio instaurador para a implementação da lei 10639/03 nas aulas de matemática, representando as propostas apresentadas nas Diretrizes educacionais para a Educação das relações étnicorraciais em que se torna necessário promover a (...) inclusão, respeitada a autonomia dos estabelecimentos do Ensino Superior, nos conteúdos de disciplinas e em atividades curriculares dos cursos que ministra, de Educação das Relações Étnico-Raciais, de conhecimentos de matriz africana e/ou que dizem respeito à população negra. Por exemplo: em Medicina, entre outras questões, estudo da anemia falciforme, da problemática da pressão alta; em Matemática, contribuições de raiz africana, identificadas e descritas pela Etnomatemática; em filosofia, estudo da filosofia tradicional africana e de contribuições de filosóficos africanos e afrodescendentes da atualidade. (BRASIL, 2004) VALORES AGREGADOS À FORMAÇÃO INICIAL E A LEI 10639/03 Desde a década de oitenta, segundo Schön (1987), vem se destacando e ocorrendo discussões sobre o modo de trabalhar a reflexão na ação e a reflexão sobre a ação, sendo consideradas duas atitudes muito importantes para um educador competente e para compreender que a partir da reflexão de sua prática podem ocorrer transformações como professor. Conforme as ideias desse autor, a formação de professores seguindo o aspecto da Etnomatemática é voltada para os educandos, mas sempre trabalhando como professor reflexivo que sempre “dá voz” aos alunos, ou seja, o educador deve reconhecer e valorizar os conhecimentos prévios dos alunos a partir de suas experiências sócio-culturais, que na temática étnicorracial mostra-se como uma ação afirmativa em que se valoriza e respeitam-se seus valores afro-brasileiros, promovendo o início da implementação da Lei 10.639/2003 em Matemática. A tendência dos cursos de formação inicial é propor que o professor seja reflexivo na suas ações (Lima & Gomes (2002). Tal ideia tem muita adesão de profissionais da educação desde 1987, quando Donald Schön profere seu trabalho no Congresso da American Educational Research Association. Desta forma as autoras discorrem que o interesse de que o professor seja reflexivo vem à necessidade da 380 eficiência, construir uma aproximação entre a teoria e a prática e a proposta de formar a reflexão. Coloca-se em discussão que no processo de formação de professores é necessário levar em conta primeiro o conhecimento do educando, mesmo que tal preocupação ainda não se mostra relacionada ao qual o mesmo pertence. É certo que, a escola dita tradicional trata os alunos como se fossem iguais, com o mesmo caminho/método e conteúdo a todos. Daí a ideia de que o professor é o representante de um grupo detentor do conhecimento, ou seja, é aquele que pode oferecer ao educando uma opção para passar do senso comum à compreensão da ciência por meio de um determinado contexto e valor. Deste modo o ambiente da sala de aula pode ser definido, de acordo com Feldmann (2009), como um intercruzamento de diferentes culturas, expresso em significados, valores, sentimentos, costumes e crenças, mostrando assim que a escola é composta por uma diversidade de alunos. Daí então um caminho possível, para que por meio da reflexão e do reconhecimento destes que estão inseridos no âmbito escolar, o professor valorize o aprendizado a partir do seu contexto sócio-cultural e sempre valorize o saber-fazer de matriz africana. A partir da prática reflexiva do professor, considera-se relevante para novas práticas, o perfil de professor pesquisador de sua própria prática. Lima & Gomes (2002), caracterizam a “produção da profissão docente/ professor reflexivopesquisador”, com as palavras de competências e habilidades. De fato, a produção do profissional da educação está ligada a palavra competência, pois quando se fala em um bom educador, espera-se apresentar um perfil de professor (a) que entenda as novas dimensões do conhecimento, as relações interpessoais, o desenvolvimento humano e crítico. Assim, nota-se que o professor enquanto pesquisador possui suas características e teorias que se encontram com a teoria de Tardif (2003), em que indica o professor como um ser ativo e que admita a prática pedagógica não apenas como um espaço de aplicação de saberes provenientes de teorias e sim de produção de saberes específicos oriundos dessa mesma. De fato o trabalho do professor deve ser considerado como um espaço prático e específico de produção, de transformação, de saberes e, sobretudo de teorias do próprio saber-fazer do professor. Essa proposta pode ampliar e 381 construir novos rumos para a Educação das Relações Etnicorraciais em Matemática, sob a perspectiva da Etnomatemática. CONSIDERAÇÕES A pesquisadora aproximou-se com o tema Etnomatemática, na tentativa de mostrar as recentes produções científicas na área, por meio das pesquisas realizadas nos Anais dos últimos dois eventos que envolvem a temática e ainda ressaltar os possíveis valores científicos que podem ser agregados à formação inicial do professor pesquisador em Matemática. Por meio deste trabalho percebe-se que a Etnomatemática é um programa que desenvolve pesquisas e juntamente com a temática Étnicorracial pode desenvolver o conhecimento sobre a importância de ocorrer discussões sobre historia e cultura no contexto escolar, possibilitando a implementação da Lei 10.639/2003. Respeitando a população afro-descendente presente nas escolas, valorizando sua história, sua cultura, seu conhecimento e a identidade de cada aluno. Assim possibilitando buscar meios para lutar contra o racismo e as discriminações que ocorrem no cotidiano escolar. Desta forma, o professor a partir das reflexões no contexto da diversidade cultural, do conhecimento e estudo da cultura africana e afro-brasileira (nãoeurocêntrica), vivenciadas em sua prática, tende a se tornar um docente pesquisadorreflexivo que saiba descrever, reconhecer e respeitar as manifestações culturais que despontam no contexto escolar. Portanto acredita-se que o ser professor não se constitui apenas pelo aprendizado científico e sim pelos valores culturais e pedagógicos agregados em sua formação inicial - juntamente com a reflexão e com a pesquisa - criando uma aproximação entre conteúdos a serem trabalhados e o contexto sócio-cultural do aluno, iniciando uma possível prática para uma Educação Matemática para as Relações Etnicorraciais. 382 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações ÉtnicoRaciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Brasília: MEC/SEPPIR, 2004. BRASIL. 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Conta-se que, quando o Orum fazia limite com o Aiê, um ser humano tocou o Orum com as mãos sujas. O céu imaculado dos Orixás fora conspurcado. O branco imaculado de Obatalá se perdera. Oxalá foi reclamar com Olorum. Olorum, Senhor do Céu, Deus Supremo, irado com a sujeira, o desperdício e a displicência dos mortais, soprou enfurecido seu sopro divino e separou para sempre o Céu da Terra. O Orum separou-se do mundo dos homens, e nenhum homem poderia ir ao Orum e retornar de lá com vida. E os Orixás também não poderiam vir a terra com os seus corpos. Agora havia o mundo dos homens e dos orixás, separadaos. Isolados dos homens habitantes do Aiê, as divindades se entristeceram. Os Orixás tinham saudade de suas peripécias entre os humanos e andavam tristes e amuados. Foram se queixar com Olodumare, que acabou consentindo que os orixás pudessem de vez em quando retornar a terra. Para isso, entretanto, teriam que tomar o corpo material de seus devotos, condição imposta por Olodumare. Oxum, que antes gostava de vir a terra e brincar com as mulheres dividindo com elas sua formosura e vaidade, ensinando-lhes feitiços de adoravél sedução e irresistível encanto, recebeu de Olorum o novo encargo: preparar os mortais para receberem em seus corpos os orixás. Oxum fez oferendas a Exú para propiciar sua delicada missão. De seu sucesso dependia a alegria dos seus irmãos e amigos orixás Veio ao Aiê e juntou as mulheres a sua volta, banhou seus corpos com ervas preciosas, cortou seus cabelos, raspou suas cabeças, pintou seus corpos. Pintou suas cabeças com pintinhas brancas como as penas da galinha-d'angola. Vestiu-as com belíssimos panos e fartos laços, enfeitou-as com jóias e coroas. O ori, a cabeça, ela adornou ainda com a pena ecodidé, pluma vermelha, rara e misteriosa do papagaio-da-costa. Nas maõs fez levar abebés, espadas, cetros, e nos pulsos, dúzias de dourados indés. O colo cobriu com voltas e voltas de coloridas contas e múltiplas fieiras de búzios, cerâmicas e corais. 1 2 Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/CAPES - Sub-projeto História e Cultura Afro brasileira Núcleo de Estudos Afro Brasileiros da Universidade Federal de Uberlândia 385 Na cabeça pôs um cone feito de manteiga de ori, finas ervas e obi mascado, com todo condimento de que gostam os orixás. Esse oxo atrairia o orixá ao ori da iniciada e o orixá não tinha como se enganar em seu retorno ao Aiê. Finalmente as pequenas esposas estavam feitas, estavam prontas, e estavam odara. As iaôs eram noivas mais bonitas que a vaidade de Oxum conseguia imaginar. Estavam prontas para os deuses. Os orixás agora tinham cavalos, podiam retornar com segurança ao Aiê, podiam cavalgar o corpo das devotas. Os humanos faziam oferendas aos orixás, convidando-os à Terra, aos corpos dos iaôs. Então, os orixás vinham e tomavam seus cavalos. E, enquanto os homens tocavam seus tambores, vibrando os batás e agogôs, soavam xequerês e adjás, os homens cantavam, davam vivas e aplaudiam, convidando todos os humanos iniciados para roda do xirê e os orixás dançavam, dançavam e dançavam. Os orixás estavam felizes. Eles podiam conviver novamente com os mortais. Na roda das feitas, no corpo das iaôs, eles dançavam e dançavam e dançavam. Estava inventado o candomblé. (PRANDI, 2005, 175-187) Através da mitologia africana, onde a noz de cola aparece sendo usada na preparação dos mortais para que seus corpos recebam os orixás é possível fazer uma introdução ao estudo dessa semente, aprofundando em seu uso medicinal e antimicrobiano para ser utilizado como recurso pedagógico em uma aula de microbiologia para implementar a Lei Federal 10.639/03. O Governo Federal durante o mandato do presidente Luís Inácio Lula da Silva, sancionou, em março de 2003, a Lei 10.639 (BRASIL, 2003) que altera a LDB (Lei de Diretrizes e Bases). A Lei Federal 10.639/03, que foi regulamentada pelo parecer CNE/CP 003/2004 (CNE, 2004a) e pela Resolução CNE 01/2004 (CNE, 2004b) que estabelece as Diretrizes Curriculares para a implementação da mesma, institui a obrigatoriedade do ensino da história da África e da cultura afro-brasileira nas escolas de Educação Básica. Esta Lei é o resultado das propostas e reivindicações do Movimento Negro ao longo do Século XX, e tem como objetivo de resgatar historicamente a contribuição dos negros na construção e formação da sociedade brasileira visando à educação de relações étnicorraciais positivas. Como apresentado no texto da Lei Federal 10.639/03, essa decisão resgata historicamente a contribuição dos negros na construção e formação da sociedade brasileira, uma vez que o conteúdo programático: (...) incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil. (BRASIL. Lei Federal 10.639/2003) Além disso, com base na Lei 10.639/03: 386 Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras. (BRASIL. Lei Federal 10.639/2003) Neste sentido a Lei é clara no que diz respeito ao seu cumprimento. Todos os estabelecimentos de Ensino Fundamental e Médio são obrigados a incluir em seus currículos escolares, ou seja, em todas as áreas do conhecimento, a história e cultura africana e afro-brasileira. Embora a Lei 10.639 tenha sido sancionada em 2003, até hoje existem diversas dificuldades quanto à sua implementação nas diferentes modalidades de ensino, especialmente no Ensino Superior. Um agravante é que o após a graduação, os profissionais formados irão atuar no Ensino Fundamental e Médio. É imprescindível que esses profissionais saibam como agir no cumprimento da Lei 10.639/03 criando aulas que contextualizem os tópicos a serem ministrados com o conteúdo relacionado à história e cultura africana e afro-brasileira. A necessidade da inclusão deste conteúdo no Ensino Superior é apresentada pela Resolução CNE 01/2004 (CNE, 2004b): As Instituições de Ensino Superior incluirão nos conteúdos de disciplinas e atividades curriculares dos cursos que ministram, a Educação das Relações Étnico- Raciais, bem como o tratamento de questões e temáticas que dizem respeito aos afro descendentes, nos termos explicitados no Parecer CNE/CP 3/2004. Em uma pesquisa realizada durante as atividades propostas pelo PIBID/UFU (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/Universidade Federal de Uberlândia), RIELLO e SANTOS (2011 – resultados não publicados), analisaram o conteúdo programático das disciplinas do curso de Biologia da Universidade Federal de Uberlândia. Durante a pesquisa observaram que, entre as diversas disciplinas existentes no curso, apenas na de Evolução são feitos apontamentos sobre África. Estes apontamentos estão relacionados com o tema “A formação da raças humanas”, onde aborda que a origem da humanidade é proveniente da África e como os fenótipos foram se modificando ao longo do tempo em consequência das mudanças climáticas dos diferentes continentes onde a espécie humana passou. Porém esses apontamentos são desvinculados da Educação das Relações Étnico- Raciais. Assim, os autores apontaram a possibilidade de introduzir aspectos da história e cultura africana e afro-brasileira dentro do curso de Biologia. No ensino de ecologia, exemplificando as técnicas de conservação dos solos utilizadas pelos diferentes povos do continente africano, e a 387 importância da mão de obra dos negros escravizados no plantio da cana de açúcar e café na época do império, que juntamente com o trabalho trouxeram conhecimento científico e tecnológico para o plantio e processamento destes cultivares; na anatomia, introduzindo o conhecimento médico do Egito antigo, no qual há aproximadamente 1500 anos antes de Cristo, já se tinha noções de como aferir batimentos cardíacos, anatomia de órgãos, testes de gravidez, entre outras técnicas; na física e na química, aprendendo com Ogun, o orixá do ferro, a manipulação de matéria, como a forja do ferro, e com Iemanjá, orixá da água, a química e a física do ciclo da água. Nesse contexto, o presente trabalho tem como objetivo introduzir elementos da cultura africana e afro-brasileira no ensino de microbiologia a partir da noz de cola como parte do conteúdo programático em uma aula sobre antimicrobianos. A utilização da noz de cola como recurso pedagógico foi inicialmente proposta por FUSCONI e RODRIOGUES FILHO (2009) para o ensino de biologia, e em seguida por MOREIRA, RODRIGUES FILHO, FUSCONI et al. (2011) para o ensino de química. A noz de cola é um recurso natural de origem africana de grande significado sócio-cultural para as comunidades da África Ocidental (FUSCONI e RODRIGUES FILHO, 2009). Com nome de Cola nitida (Sterasliaceae), também chamada Kola nut é largamente consumido em todas as partes da Nigéria. É chamado Oji (Ibo), ObiAbata (iorubá) e Gworo (Hausa) (IBEZIM, ESIMONE, NNAMANI et al., 2006). Na África a noz de cola é mastigada há milhares de anos devido ao seu efeito estimulante. Entre os povos muçulmanos, é apreciada por substituir as bebidas alcoólicas proibidas pela religião islâmica. (FUSCONI e RODRIGUES FILHO, 2009) Também é usada em cerimônias culturais e sociais (NIEMENAK, ONOMO e FOTSO et al., 2008). Além da importância sócio-cultural, a noz de cola apresenta grande relevância econômica no mercado na África Ocidental. No Brasil, a noz de cola foi introduzida durante a época do tráfico de negros escravizados, principalmente de regiões de língua iorubá da Nigéria e de Angola. Segundo os estudos de VOEKS (1997). A noz de cola, que tem uso sacro na África Ocidental, no Brasil tem uso sagrado no Candomblé. No Candomblé, como apresentado na transcrição no início do texto, é utilizada em cerimônias litúrgicas e conhecida como obi (seu nome iorubá). 388 A NOZ DE COLA NA MICROBIOLOGIA O extrato da noz de cola é obtido das sementes (Figura 1) de duas espécies de Cola (Cola nítida, Ventenat) e Cola acuminata (Beauv.), da Família Sterculiaceae. (BURDOCK, CARABIN e CRINCOLI, 2009). C. nitida contém quantidades significativas de purina e xantina, alcalóides que são responsáveis pela sua propriedade farmacológica como um estimulante do sistema nervoso central (SNC) (ODIMGBE, 1998). Ela tem sido usada, entre outras coisas, para estimular o miocárdio, melhorar a sensibilidade do olho à luz e para potencializar a ação de analgésicos afetando a circulação cerebral devido ao seu teor de cafeína (NEHLIG et al., 1992). Além disso, extratos de noz de cola foram incorporados em formas farmacêuticas bem como em muitas bebidas de cola não alcoólicas (ANOZIE et al., 1984). Figura 1 - Desenho das folhas, fruto e sementes da Cola realizado por Sayre em 1917 (BURDOCK, CARABIN e CRINCOLI, 2009). Em uma pesquisa realizada por IBEZIM, ESIMONE, NNAMANI et al. (2006), foi observado a utilização da noz de cola como potencializador de fluoroquinilonas (antibióticos) contra Escherichia coli, uma bactéria gram-negativa, em forma de bacilo, mais comumente aeróbias, fazem parte da microbiota normal do intestino humano e de alguns animais. Mas esse micro-organismo pode causar uma variedade de doenças, incluindo sepse, infecção do trato urinário, meningite e gastroenterites (KAPER et al., 2004). As fluoroquinolonas são uma das novas classes de antibióticos altamente potentes. São antibióticos oralmente ativos, de amplo espectro antibacteriano, desenvolvidos a partir de 1,8 - naphthyridine e usados no tratamento de infecções do 389 trato respiratório, infecções do trato urinário (MANDELL et al, 1960;. WILLIAM et al, 1986), infecções abdominais (AGUWA, 1996), entre outras. Segundo IBEZIM, ESIMONE, NNAMANI et al. (2006), a associação de antibióticos com o extrato da noz de cola pode implicar no uso de uma menor dosagem de antibiótico para atingir o mesmo efeito terapêutico. PLANO DE AULA Os planos de ensino de microbiologia dos cursos de Graduação em Ciências Biológicas abordam de forma geral: conhecimentos básicos de morfologia, fisiologia, genética e cultivo de microrganismos (vírus, bactérias e fungos); procedimentos usuais para controle de populações bacterianas; e noções básicas de Ecologia de Microrganismos, Microbiologia de Alimentos e Microbiologia Industrial. Desta forma, com base na discussão realizada sobre o aumento do potencial antimicrobiano associado à noz de cola e sua importância sócio-cultural na África e no Brasil, o conteúdo sobre a noz de cola abordando a Lei 10.639/03 pode ser introduzido no tópico “Mecanismos de ação de drogas antibacterianas”, presente no conteúdo programático da disciplina de microbiologia. Nesse conteúdo são abordados temas como: os principais patógenos emergentes, definição e as principais classes de antibióticos e quimioterápicos, os mecanismos de resistência específicos conferidos às bactérias para cada classe de antimicrobianos, efeito dos antimicrobianos sobre as bactérias, como é realizada a transferência da resistência a antimicrobianos entre as bactérias, dentre outros tópicos que são acrescidos dependendo do professor que ministra a aula. Conforme os tópicos exemplificados de uma aula de antimicrobianos pode-se abordar o uso da noz de cola ao referir-se as classe de antibióticos e quimioterápicos, já que através do artigo IBEZIM, ESIMONE, NNAMANI et al. (2006) foi comprovada sua utilização como potencializador de uma classe de antibacterianos, as quinolonas (fluoroquinolonas). A ação das quinolonas sobre as bactérias ainda é estudado, mas acredita-se que essa ação pode ser alcançada pela penetração do composto no citoplasma da célula da bactéria, inibição da DNA girase bacteriana e inibição na síntese de replicação do DNA (JACKSON, L. C. et al., 1998). 390 Para exemplificar mais claramente o uso da noz de cola como potencializador antimicrobiano propõe-se a sua utilização também em uma aula prática, preparando assim duas placas de Petri com Agar Mac Conkey semeadas com amostras de E.coli, essa preparação será feita antes da aula, para que os alunos já tenha as placas prontas e inoculadas. Por sua vez os alunos terão que aplicar em uma placa um antibiótico podendo ser ciprofloxacina, levofloxacina ou pefloxacina que são exemplos de fluoroquinolonas e na outra placa um desses antibióticos associados com o extrato de noz de cola anteriormente preparado pelo professor conforme descrito por IBEZIM, ESIMONE, NNAMANI et al. (2006) . As duas placas são incubadas em estufa a 37°C por 24 horas e na aula sucessiva os alunos poderão comparar qualitativamente qual das duas placas obteve maior e menor crescimento bacteriano. Espera-se com esse experimento mostrar aos alunos que a placa que contém o extrato de noz de cola associado ao antibiótico consegue maior inibição bacteriana do que a placa com antimicrobiano somente. Assim, através do conteúdo sobre o efeito antimicrobiano da noz de cola podese trazer para a sala de aula a ancestralidade africana, mostrando como a noz de cola era e é utilizada por diversos povos e que foi trazida a partir da África e que também é utilizada no Brasil em cerimônias de candomblé e incorporada no mundo através de produtos alimentícios. CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente trabalho procurou mostrar como introduzir elementos da cultura africana e afro-brasileira no ensino de microbiologia a partir da noz de cola como parte do conteúdo programático em uma aula sobre antimicrobianos no ensino superior. O trabalho é de suma importância uma vez que sugere a introdução do conteúdo tanto em uma aula teórica quanto em uma aula prática da disciplina de microbiologia, utilizando conceitos vindos de tradições africanas e utilizando referencial teórico produzido por pesquisadores africanos, valorizando a produção científica em África. Cabe salientar que é no Ensino Superior onde são formados os futuros professores que atuarão no Ensino Básico onde de fato a Lei 10.639/03 deve ser implementada. 391 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGUWA, C.N. Drug interaction. In: Therapeutic Basis of Clinical Pharmacy in the tropics. 2nd Edn, Enugu, Optimal Pubs, p. 148-150, 1996. ANOZIE, K., SOLADOYE, G. 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CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. (b). Resolução n.01 de 17 de junho de 2004. Dispõe sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Relatora: Petronilha Beatriz Gonçalves. Ministério da Educação. Brasília, julho de 2004. FUSCONI, ROBERTA; FILHO, GUIMES RODRIGUES. A Coca-Cola® no ensino de Biologia segundo a lei federal 10.639/03. In: V Seminário de Racismo e Educação e IV Seminário de Gênero, Raça e Etnia, 2009, Uberlândia. Anais V Seminário de Racismo e Educação e IV Seminário de Gênero, Raça e Etnia. Uberlândia: EDUFU, 2009. ISSN 2176-1949 IBEZIM, E.C., ESIMONE, C.O., NNAMANI, P.P., ONYISHI, I.V., BROWN, S.A., OBODO, C.E. In vitro study of the interaction between some fluoroquinolones and extracts of Kola nitida seed. African Journal of Biotechnology, v.5, n. 19, p. 17811784, Oct. 2006. JACKSON, L. C., REYES, L. A. M., CORDIES, M. L. H. Quinolonas y terapia antimicrobiana. 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O processo de expansão ultramarina, iniciado nos séculos XV e XVI, ampliou o trânsito de mercadorias, os contatos entre os povos, além de representar a “união microbiana do mundo”, por incrementar o trânsito de doenças (ALENCASTRO, 2000). Durante a época da escravidão, o Brasil já era um país tipicamente estratificado enquanto seus grupos populacionais os quais eram divididos entre brancos e negros, significativamente senhores e escravos. A saúde neste período já se mostrava em condições de precariedade. O discurso médico difundido no século XIX via no negro escravo a causa de muitos males, sua presença no seio da família é corruptora, representando perigo físico e moral (PÔRTO, 2006). É preciso enfatizar ainda que o escravo se concretizava numa reflexão secundária para a medicina oficial da época (MACHADO, 1976). Para os negros a injustiça social aflorava: não se alimentavam nutricionalmente bem, recebiam altas jornadas diárias de trabalho, além do uso indiscriminado do álcool para mascarar o trabalho compulsório que estavam submetidos. Segundo Mattoso (1988), citada por Fonseca (2009, p. 15), a população africana e afro-brasileira além do não atendimento a saúde, era violentada em todo o dia a dia, sem o descanso devido para as jornadas de trabalho de 12 a 14 horas diárias no eito e 394 posteriormente nos afazeres artesanais vinculados à atividade da lavoura e ainda, recebia uma ração alimentar insuficiente do ponto de vista nutricional, mas recheada de calorias (rapadura, carne de sol, farinha de mandioca, mingau de milho, feijão preto, torresmos e aguardente). Em contrapartida a esta situação, muitas sociedades escravistas desempenhavam o papel de médicos para si próprias, desenvolvendo práticas curandeiras que procuravam sanar as suas enfermidades. Para Pôrto (2006) a medicina africana se mostrava mais eficaz aos olhos da população negra da Corte e, para surpresa geral, muitos brancos utilizavam de seus serviços curativos, mesmo achando que eram charlatões. Ainda segundo a autora, “a troca de saberes e experiências entre europeus, índios e africanos enriquece, desde os tempos da Colônia, o receituário de mezinhas domésticas que constitui prática bastante comum no Brasil no século XIX”. Neste momento, com o surgimento das Instituições Universitárias, com a abolição da escravatura e processo de urbanização das cidades, muito começou a se pensar sobre saúde no Brasil. A era Bacteriológica fomentou por muitos anos suas idéias e práticas no atendimento a saúde, sendo que o agente etiológico era considerado como a máxima expoente das doenças em geral. Baseada na teoria de Durkheim, ela “explicava o surgimento das doenças de forma simplista, pela ignorância e descaso das próprias pessoas” (PELICIONI; PELICIONI, 2007). Silva e Azevedo (2002) afirmam que [...] o modelo explicativo do processo saúde-doença, foi reduzido a uma relação quase exclusivamente biológica e monocausal entre os humanos, de um lado, e as bactérias, os vírus e os protozoários do outro. Bastava descobrir qual etiologia regia a enfermidade, esta era tratada, e o doente era tido como curado. As escolas de saúde da época eram centradas nesta prática sanitária que enfatizava o estudo dos microrganismos nas relações saúde-doença, descaracterizando quaisquer outros fatores que pudessem se relacionar a saúde. No entanto, de acordo com Rosen (2006) desde 1842 na Inglaterra, já se evidenciava a relação da doença com a imundície do ambiente, com a falta de escoamento, abastecimento de água e meios para a remoção de refugos. Muitos autores já se preocupavam com o caráter social da medicina ao estabelecer através de diferentes maneiras e por diferentes caminhos uma possível relação entre as doenças e a situação sanitária, podendo se citar Snow que investigou a cólera em 1824, Villermé ao descrever as condições das fábricas têxteis em 1840 ou Engels ao relatar sobre as dramáticas condições dos operários ingleses em 1844 (NUNES, 1998, p. 108). 395 Apesar do caráter ambiental ou sanitário fazer parte das discussões sobre as problemáticas envolvidadas em torno da doença, estas não era incluídas nas suas ações e práticas, tornando o modelo bacteriológico incapaz de solucionar todos os problemas relacionados á saúde. Para Nunes (1998) este modelo perdurou até o século XIX, quando mais a frente receberia críticas por sua ineficiência ao lidar com as doenças de um modo geral. Ainda segundo o autor, além de não dar conta de explicar as doenças crônicas, com o advento da psiquiatria, colocava-se inoperante para explicar as doenças de cunho psicológicas (NUNES, 1998). Com a crescente urbanização efetuada de modo acelerado e sem qualquer planejamento de infra-estrutura, as cidades do Brasil República foram se formando como centros aglomerados, onde muitas vezes faltavam pré-requisitos básicos, para uma boa qualidade de vida incluindo esgotamento sanitário, energia e asfalto. Somado se a isto, os trabalhadores estavam submetidos a uma carga horária estressante, e péssimas condições de trabalho. Logo, é de se esperar que a população continuasse a adoecer. Contudo, as práticas médicas implementadas neste contexto visavam à preocupação na descoberta de patógenos e preceitos referentes à higiene pessoal que eram disseminados através de tímidos meios de informação. Também denominadas de práticas curativistas, estas eram centradas na individualidade e na dualidade médicopaciente. Como afirma Brito Bastos (1969 apud LEVY et al, 1998) os Serviços de Educação Sanitária da época, ainda limitavam-se a realizar algumas atividades como publicar impressos, distribuir à imprensa algumas notas a respeito de assuntos de saúde e promover concursos de saúde, apesar de a maioria da população ser analfabeta no Brasil. As campanhas sanitárias deste período apresentavam estratégias de Educação em Saúde tidas como autoritárias, tecnicistas e biologicistas, onde as classes populares eram tidas como passivas e incapazes de iniciativas próprias (VASCONCELOS, 2001). Ainda para Oshiro (1988), “a prática profissional na área era conservadora e reprodutiva, traduzida em ações de higienização, normatização e domesticação”. Neste âmbito, podem-se citar as ações de vacinação compulsória implementadas por Oswaldo Cruz baseadas na ideologia da bacteriologia ou microbiologia (NUNES, 1998). Mais uma vez, o poder econômico e político da época, operavam em circunstâncias geradoras de condições sociais heterogêneas na população onde nem 396 todos possuíam o mesmo acesso a bens e serviços. A assistência médica era relegada às cidades portuárias e as capitais, sendo que as demais cidades também infladas de contingente populacional e condições habitacionais indignas de sobrevivência eram entregues a própria sorte. Embora, neste período a política de saúde apresentasse um caráter nacional, inclusive com a criação do Ministério de Educação e Saúde em 1930, ainda era relevante o seu modo restritivo de atuação (NUNES, 1998). A distância social entre a população era tremenda, e para Yida (1988) o modelo de saúde pública brasileira que vigorou nos anos 30 refletia a formação de um estado burguês. Como principais acontecimentos deste período destacam-se a criação do Ministério da Saúde em 1953, a criação da Lei Orgânica da Previdência Social em 1960, bem como a unificação dos Institutos de Previdência em 1967 (NUNES, 1998). Com a ditadura militar, e a mudança de governantes no cenário político brasileiro as disparidades sociais só se fizeram aumentar. As políticas públicas implementadas eram demasiadamente opressoras e antidemocráticas, simplistas demais para resolver a situação. O Estado neste período foi caracterizado por manter ações centralizadoras e burocráticas (NUNES, 1998). Apesar de alguns avanços na economia que atingiram principalmente as classes mais favorecidas, a inflação aumentava diariamente provocando grande desigualdade nos níveis de vida e saúde (PELICIONI; PELICIONI, 2007). Ainda segundo as autoras “a atenção à saúde era feita principalmente por instituições privadas seguindo e reforçando o modelo biomédico baseado em ações curativas”. O contexto da época exigia uma nova forma de se pensar em saúde necessitando reformulações de base epistemológica e semântica, quanto aos significados das ações e práticas relacionadas à saúde, que as populações mundiais querem para si. A epidemiologia nasceu como resultado de uma urgente solução para problemas em saúde. Ela possibilitou o controle de diversas enfermidades que assolavam a população mundialmente por incluir em seus estudos variáveis como o controle e fatores de riscos e prevenção, além do monitoramento de ecossistemas humanos e sua possível intervenção quando necessário. As doenças e demais eventos relativos à saúde possuem distribuição absolutamente aleatória e, portanto, não determinista, fatores estes que culminaram para o surgimento da epidemiologia (SILVA; AZEVEDO, 2002). Todavia, a existência da 397 epidemiologia é antiga, não se perfazendo como um novo paradigma, mas tendo os seus referenciais teóricos e práticos reascendidos frente á crise de saúde instalada no momento. A associação entre pobreza e mortalidade já havia sido sugerida desde o século XVIII (GOLDBERG, 1990). Um dos principais motivos para essa ascensão foi a Revolução Industrial que provocou mudanças nas condições de vida da população das cidades européias (SILVA; AZEVEDO, 2002). Neste contexto, segundo Engels, tido como fundador da epidemiologia social (Breilh, 1991), a estimativa de vida para os operários europeus não passava de 15 anos (ENGELS, 1984). Porém, a mesma não era capaz de atuar no cerne dos agravos a saúde, estes, aliás, extrapolavam o seu entendimento. Portanto, a epidemiologia por si só, não seria capaz de resolver tais agravos, quanto mais erradicá-los. Foi quando em 1975 [...] iniciou-se em algumas Instituições, um movimento denominado de medicina social que retomou as idéias de causalidade social do processo saúde-doença (SILVA; AZEVEDO, 2002). A Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a difundir a partir da década de 80 uma maior amplitude sobre o conceito de saúde dando uma importância vital á inclusão de determinantes e condicionantes ao seu significado (PELICIONI; PELICIONI, 2007). Com o fim da ditadura militar em meados de 1986, dois anos após, instituiu-se a Nova Constituição Brasileira de 1988. Com a redemocratização, o contexto da época foi revigorado por anseios de universalidade e igualdade, podendo se afirmar ainda que a Nova Constituição [...] “foi inspirada pelo paradgima da produção social da saúde” (SANTOS; WESTPHAL, 1999). Ao promover a máxima de que saúde é direito de todos e dever do Estado, presente no Art. 196 da Constituição Federal (Brasil, 1988), abre-se um novo paradigma em saúde, afinal a frase possui circunstâncias dignas de entendimento quanto ao seu significado. Como tornar o cidadão suficientemente apto a garantir a sua própria saúde? Como o Estado que, uma vez negligente com as necessidades de sua população e omisso quanto aos seus deveres em disponibilizar serviços básicos a sobrevivência humana, poderia garantir saúde a todas as populações? O Sistema Único de Saúde (SUS) foi consolidação durante a promulgação da Constituição Federal de 1988 e regulamentado por meio da Lei 8.080 em 1990, (Souza, 398 2002) “estabelecendo universalidade de acesso aos serviços de saúde em todos os níveis de assistência” Art. 7° (Brasil, 1988). O SUS é um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, sendo o único a garantir assistência integral e completamente gratuita para a totalidade da população, inclusive aos pacientes portadores do HIV, sintomáticos ou não, aos pacientes renais crônicos e aos pacientes com câncer. A descentralização de recursos e responsabilidades para os estados e, principalmente, para os municípios, constitui-se em um dos mais importantes elementos desse processo (SOUZA, 2002, p. 16). A Constituição de 1988 recebeu fortes influências da Carta de Otawa, fruto da I Conferência Internacional de Promoção em Saúde realizada em 1986, no Canadá (PELICIONI; PELICIONI, 2007). A Carta de Otawa preconizava um novo paradigma em saúde: a Promoção em Saúde, firmada na academia no ano de 1986 (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 1996). Neste cenário, o conceito de saúde passou por profundas reformulações originando uma nova semântica: “saúde era muito mais do que ausência de doenças” (SCHAEFER, 1994), compreendendo também fatores essências na manutenção de bem estar físico e mental, inerentes a qualquer ser humano. No entanto, para Pelicioni e Pelicioni, (2007) o conceito de saúde como o estado de mais completo bem estar e não simplesmente ausência de doença foi cunhado muito antes, em 1945 com a criação da (OMS). Para Santos e Westphal (1999, p. 76) o movimento da nova saúde pública baseado nesse referencial apresenta uma noção mais abrangente de saúde por buscar métodos adequados à nossa realidade política, tornando as ações sociais e ambientais mais eficientes na busca de saúde e qualidade de vida, abandonando de vez o enfoque paternalista e vertical herdados do passado decorrentes de práticas baseadas no biologicismo e mecanicismo. Segundo a Opas/OMS (1993) a Promoção em Saúde é definida como: “uma soma das ações da população, dos serviços de saúde, das autoridades sanitárias e de outros setores sociais dirigidos para um bem comum [...]”. É importante ressaltar ainda que esta nova prática sanitária demanda uma ação intersetorial do governo para a resolubilidade das distorções e desigualdades existentes na esfera da saúde (BARRETO; CARMO 1996). De acordo com Santos e Wesphal (1999) a Promoção em Saúde possui suas ações centralizadas na busca de ampliação de conscientização sanitária, dos direitos e deveres da população, ou no sentido mais amplo, no exercício de cidadania. No contexto latino-americano, caracterizado por graves problemas econômicos e sanitários, a proposta de Promoção em Saúde ganha uma forte conotação política que preconiza a articulação entre o Estado e a sociedade na busca da eqüidade. Já no 399 contexto brasileiro este novo paradigma, significa uma das bases do Sistema Único de Saúde, quando este se define como sendo aberto à participação da comunidade e sob controle social, e encontra-se instituída em normas que definem as responsabilidades dos municípios e seus compromissos com a coletividade por meio de uma gestão participativa e transparente (PEDROSA, 2006, p. 43). Como afirma Pelicioni e Pelicioni (2007) a partir de 1990, a Promoção em Saúde, com a participação coletiva da comunidade [...] veio fortalecer a saúde pública e a cidadania e, aos poucos, foi se espalhando por todo o Brasil. A Educação em Saúde é um meio de se atingir a Promoção em Saúde. Educação esta que pode ocorrer na escola, no trabalho ou lazer para levar concepções de melhores condições de vida, e estabelecimento de práticas judiciosas para com a nossa própria saúde. Contudo, é necessário dizer ainda que a Educação em Saúde não se configura como um tema novo, podendo se dizer que o enfoque educacional sempre foi negligenciado por parte das autoridades nacionais (PELICIONI; PELICIONI, 2007). Para Marcondes (1964), “a idéia de educação e higiene sanitária são antigos e transparece na literatura de todos os tempos [...], sendo incorporados na legislação federal em meados de 1923”. A importância da Educação em Saúde já era enfatizada desde a Idade Média, onde um regime alimentar correto, adequadas práticas de higiene e uma quantidade significativa de sono eram recomendados para prolongar o tempo de vida das pessoas (PELICIONI; PELICIONI, 2007, p. 321). No entanto, hegemonicamente, as ações de Educação em Saúde têm se apresentado como importantes instrumentos de dominação e de responsabilização dos indivíduos pelas suas condições de vida (ALBUQUERQUE, 2004). É preciso mais do que nunca disponibilizar os subsídios necessários para que a população edifique o seu próprio conhecimento. Afinal, como afirma Paulo Freire (2004), “ensinar não é transferir conhecimentos, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. Durante os processos de ensinamento e prática direcionados à população deve-se antes de mais nada valorizar o conhecimento prévio num processo constante de aprendizagem, além de estimular a participação comunitária como ponto de partida para qualquer tipo de mudança. Por outro lado, implementar a Promoção em Saúde significa também implementar territórios saudáveis. A Promoção em Saúde estabelece concepções para se chegar a uma qualidade de vida que só será alcançada se o espaço urbano estiver em consonância com um estado de saúde, fazendo com que suas ações se tornem 400 significativamente concretas. O estabelecimento de habitas saudáveis equipados com infra-estrutura básica para a sobrevivência humana é pressuposto indiscutível para o fomento de ações da Promoção em Saúde. De acordo com Santos e Wesphal (1999), as primeiras iniciativas para a construção de cidades saudáveis foram difundidas na década de 70, no Canadá, espalhando-se depois para diversos continentes [...]. O movimento por cidades saudáveis, fundamenta se numa visão de saúde como qualidade de vida, focalizando também a participação popular como forma de mobilização e de democratização, além de valorizar o compromisso político com a eqüidade e busca de mudanças na forma de gestão nos diferentes níveis de governo, sobretudo o local (SANTOS; WESPHAL, 1999, p. 81). Hoje, a concepção de cidades saudáveis está ligada ao paradigma da produção social da saúde, [...] que, resumidamente, define a cidade saudável como aquela nas quais as políticas públicas são favoráveis à saúde (ASHTON et al., 1986). Afinal, se a saúde é um dever do Estado, implementar, planejar, reformular e estruturar cidades saudáveis também é responsabilidade do poder público juntamente com as pessoas cobrando e exigindo esse direito com responsabilidade e dignidade, instituindo deste modo a sua cidadania. As sociedades saudáveis (território saudável e população saudável) só seram atingidos se a população estiver totalmente emancipada e regada de autonomia para lutar por seus direitos e instaurar deus deveres devidamente. Outra questão eminente para a disseminação da Promoção em Saúde, é a criação do Programa Saúde da Família instituído pelos governantes que ganhou grande notoriedade para a viabilização e disseminação dessas práticas saudáveis, como pauta primordial para a viabilização da Promoção em Saúde. O Programa Saúde da Família (PSF) teve inicio por volta de 1993, porém foi regulamentado de fato em 1994, como uma estratégia adotada pelo Ministério da Saúde que visa uma mudança na forma tradicional de prestação de serviços, objetivando a implantação de uma Atenção Primária a Saúde que resolvesse a maior parte dos problemas de saúde da população na Atenção Básica (BESEN et al., 2007). Silveira, (2010) afirma que o PSF surgiu também como uma possibilidade de melhorar a adesão da população ao sistema de saúde, bem como ampliar o contato dos profissionais de saúde com a realidade na qual vivem as pessoas assistidas pelo SUS. Uma das prioridades do PSF é à Promoção em Saúde, onde o indivíduo é tido como um sujeito integrado a família, ao domicílio e a comunidade, propondo à integralidade da assistência [...] (PEREIRA; LACERDA; MARQUES, 2010). 401 Para Santos e Wesphal (1999) “a estratégia Saúde da Família têm demonstrado alta resolubilidade (incluindo aspectos curativos), baixos custos diretos e indiretos, com excelentes efeitos na articulação com outros setores que determinam à saúde”. É preciso enfatizar, no entanto que os novos rumos atingidos pelas políticas públicas na área da saúde, nas últimas décadas não foram suficientes para a redução da morbimortalidade. As propostas levantadas pela Promoção e Educação em Saúde, estabelecimento de territórios saudáveis e o PSF significaram grandes avanços para a saúde de um modo geral. Contudo é necessário ir mais a frente e repensar também na forma, no modo e no tipo de atendimento que o paciente recebe ou recebeu nos últimos anos, afinal as mesmas mudanças que se processaram para o surgimento dos diversos paradigmas em saúde também ocorreram a nível individual dentro dos consultórios médicos. As doenças que acometem a humanidade não são apenas crônicas, ou originadas a partir de um microrganismo. As infecções, as parasitoses e as doenças epidemiológicas tidas antes como superáveis foram substituídas por outros agravos: as doenças chamadas degenerativas e muitas vezes provocadas pelo próprio ser humano, processo este denominado de “transição epidemiológica” (Silva; Azevedo, 2002), fruto deste mundo desigual e fortemente competitivo influenciado pela globalização. Estamos experimentando no mundo uma insurgência de doenças psicológicas que demandam um atendimento focado não apenas no seu físico, mas também na sua mente. O estresse chegou a índices alarmantes e se relaciona fortemente á diversas doenças. E o que dizer das drogas: sejam lícitas ou ilícitas provocam a morte de milhares de pessoas no mundo e são responsáveis por uma das piores formas de degradação humana que possa existir. Percebe-se ai que o fator físico e mental são indissociáveis para o bem estar do ser humano e que tratar somente o fator físico não culminará na cura definitiva. Neste sentido, o paradigma holístico vem à tona para definir o ser humano como um conjunto de singularidades que não se separaram, mas antes repousam para a busca de um equilíbrio entre o corpo e a alma. A saúde para ser holística precisa ser estudada como um grande sistema, como um fenômeno multidimensional, que envolve aspectos físicos, psicológicos, sociais e culturais, todos interdependentes e não arrumados numa seqüência de passos e medidas isoladas para atender cada uma das dimensões apontadas, (TEIXEIRA, 1996, p. 289). 402 De acordo com Capra (1982) á relação entre médico e paciente precisa ser reformulada, afim de que o paciente seja educado, sobre a sua enfermidade e das possibilidades de mudança do tipo de vida que o levaram à doença. É preciso ressaltar, no entanto que esta forma de tratamento que se traduz numa forma de acolhimento integral ao ser humano, necessita de apoio social e integração entre os atores sociais para que possa surtir efeito. Esta integração carece de mobilização de todos os envolvidos na área da saúde, incluindo não somente o paciente, mas toda a equipe médica e psicológica num processo contínuo de construção de aprendizagem. CONCLUSÃO Ao longo do texto foram abordadas as questões referentes à saúde envolvendo as teorias que marcaram época, desde o século XVIII, frutas do contexto em que estavam inseridas. Os paradigmas, ou correntes de pensamentos por assim dizer ilustram no seu âmago tentativas de diminuir, os óbitos relacionados à saúde. Podem apresentar ideologias contrárias uns aos outros, ou até mesmo são reflexos de alguma continuidade de pensamento que venha a somar para aumentar o seu êxito, no que tange a resolubilidade das problemáticas em torno da doença. O termo saúde, passou por diversas mudanças ao longo dos tempos, atingindo hoje uma visão mais globalizada no que se refere ao estado de bem estar do corpo humano atingindo dimensões que extrapolam o nível médico se estendendo ao nível social, político e econômico. No entanto, nem sempre foi assim, e foi exatamente por isto que a situação da saúde no período do Brasil colônia não foi apresentada simplesmente para iniciar o assunto neste texto. O tema constitui grande importância para o entendimento hoje de como se articula as políticas públicas voltadas para a população negra. Passados mais de um século após o fim da escravidão, grande parte da população negra ainda continua subjugada á segundo plano pelas autoridades políticas no que tange a saúde retificando o oposto do que prediz a nossa Constituição Brasileira. De acordo com dados epidemiológicos os negros brasileiros, homens ou mulheres adoecem mais e morrem mais cedo, em todas as idades (ROCHA, 2004). Ainda segundo o autor “a pobreza crônica e abrangente, além do racismo disfarçado e 403 profundo, completam os principais determinantes do quadro de saúde da população negra no Brasil”. Neste caso, a iniqüidade em saúde pode ser compreendida como uma manifestação mensurável da injustiça social (SILVA; AZEVEDO, 2002). O Biologicismo ou curativismo pode ser configurado como um paradigma falho na tentativa de explicar as doenças através da descoberta de microrganismos numa relação unicausal desprovida de qualquer outro fator. Trata-se de um modelo inábil para a solução desses males, e que infelizmente perdura até os dias atuais. Há vários séculos a medicina ocidental mostra-se mais preocupada com a doença do que com o (a) doente, observando-se, contemporaneamente, a continuidade deste tipo de visão, em toda a formação da biomedicina a qual não se mostra centrada no paciente, mas na patologia, ignorando, assim, as necessidades subjetivas e os conflitos da pessoa doente levando a um atendimento médico assimétrico, hierárquico e desumano (DESLANDES, 2006, citado por AYRES, 2007, p. 45). O paradigma da epidemiologia significou um grande avanço para a saúde de um modo geral porque através de seus estudos era capaz de traçar perfis epidemiológicos, analisar riscos e impedimentos à saúde fornecendo uma visão mais totalizada de todos os processos envolvidos que culminavam na doença. No entanto, não atuava na essência destes agravos possuindo assim como o curativismo lacunas no seu modo de atuação e com a ascensão das doenças degenerativas teve sua importância diminuída. Era necessário repensar a saúde incluindo todos os seus determinantes, condicionantes, entendendo que o processo de doença está relacionado intimamente ao modo de vida e questões psicológicas bem como emotivas. Hoje, a prática mais concernente ao tema saúde é a Promoção em Saúde, cujas estratégias englobam os determinantes e condicionantes a saúde de modo intersetorial solidificando seus resultados a nível coletivo. Para Santos e Wesphal (1999) é por meio da Educação em Saúde que as pessoas adquirem a capacidade de gestoras de sua própria saúde, não se limitando a responsabilidade ao setor de saúde pública apenas. Contudo, o direito de saúde pelo Estado não deve ser transferido do público para o privado na menor das circunstâncias. O Estado ao contrário, deve garantir aos cidadãos a liberdade que lhes é fundamental para se constituírem como sujeitos ativos e para participarem das decisões políticas, ao mesmo tempo em que garanta a justiça social, [...] (GAUDENZI; SCHRAMM, 2010). A Educação em Saúde é um modo para a viabilização desses 404 sujeitos ativos, por trabalhar a Promoção em Saúde através de suas ações, contribuindo para o enpoderamento de práticas saudáveis. A habitação ganhou grande notoriedade para o estabelecimento de saúde com a disseminação das cidades saudáveis. O paradigma das cidades saudáveis implica na motivação de governos e sociedades por melhores condições de vida viabilizada pelo protagonismo do estado e sensibilização das sociedades (SANTOS; WESPHAL 1999). No entanto, a proposta por cidades saudáveis esta longe de se concretizar como uma realidade concreta, em vista da falta de infra-estrutura básica para maioria da população brasileira que a expõe em riscos de insalubridade. Segundo o Instituto Trata Brasil (2007) “estima-se que 65% das internações de crianças com menos de 10 anos sejam provocadas por problemas oriundos da deficiência ou da inexistência de esgoto e de água limpa”. Certamente não há setor que interfira mais diretamente na saúde da população de um país do que o do saneamento, sendo que a falta de esgotamento sanitário reflete diretamente nos setores econômicos, políticos e sociais (PIMENTA et al., 2002). Estamos acompanhando nas últimas décadas uma espécie de mercantilização de todos os subsídios necessários à sobrevivência humana, gerando uma lógica social desigual e excludente. A saúde denota-se para nós como um produto prontamente comercializado a favor de interesses políticos dominadores e elitizados. Partindo-se da premissa de que as doenças afetam a identidade das populações, o desenvolvimento de políticas públicas de saúde que busquem a autonomia dos indivíduos em detrimento á sua dependência é o caminho mais apto para a busca de igualdade através da desnudação de iniqüidades. Afinal, um bom estado de saúde constitui um fator imprescindível para que os homens possam vivenciar as transformações políticas que regem uma sociedade, possibilitando que se tornem sujeitos ativos e participativos no processo de construção de sua cidadania. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALENCASTRO, L. F. da. O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XV e XVI. 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Vários povos da África tomaram conhecimento do causo e passaram a cultuar esse instrumento como símbolo de paz entre as nações. E hoje, em toda a parte do mundo onde se toca o berimbau, ouve-se o lamento de dor e o pedido de paz, justiça e liberdade [...] 1 2 Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/CAPES - Sub-projeto História e Cultura Afro brasileira Núcleo de Estudos Afro Brasileiros da Universidade Federal de Uberlândia 409 Figura1. Livro: “Histórias de Tio Alípio e Kauê: O BEABÁ do BERIMBAU” (Folha, 2009). O berimbau é um instrumento musical de matriz africana utilizado nas rodas de capoeira. O processo de sua confecção, como mostra a história contada no livro “O Beabá do Berimbau” pelo griot Tio Alípio, abordando valores civilizatórios afrobrasileiros, como no trecho acima citado, em que Tio Alípio ensina seu discípulo Kauê, é um excelente pressuposto para o professor de biologia do ensino médio para iniciar uma discussão em sala de aula envolvendo o assunto de biodiversidade enfocando a Lei Federal 10.639/03. A Lei Federal 10.639/03 sancionada pelo Presidente Lula (BRASIL, 2003) e regulamentada pelo parecer CNE/CP 003/2004 (CNE, 2004a) e pela Resolução CNE 01/2004 (CNE, 2004b), institui o ensino da história da África e da cultura afrobrasileira nas escolas de Educação Básica. O berimbau foi utilizado por Kandus et al (2006) como exemplo para discutir a física das oscilações mecânicas, e por Fusconi e Rodrigues Filho (2007) como pressuposto enfocando a Lei 10639/03 para explorar uma ampla gama de conceitos dentro do ensino de Biologia, entre os quais: a importância da biodiversidade/extinção de espécies, espécies endêmicas, espécies nativas/ espécies exóticas ou introduzidas, biomas brasileiros, sucessão ecológica, conservação e manejo dos recursos naturais, extrativismo/comunidades tradicionais, atividades antrópicas/degradação dos ecossistemas e desenvolvimento sustentável. 410 Assim, com base nos Conteúdos Básicos Comuns (CBCs - 2007) que compõem a matriz de competências básicas para a avaliação dos estudantes das Escolas da Rede Estadual de Ensino de Minas Gerais, o presente trabalho propõe a introdução de elementos da cultura africana e afro-brasileira no ensino de biologia enfocando a Lei 10.639/03 a partir do berimbau, especificamente no ensino de biodiversidade no 2º ano do Ensino Médio. O BERIMBAU ENSINANDO BIOLOGIA Conhecendo as espécies constituintes do berimbau e a concepção de respeito da natureza para que haja extração desses elementos, consegue-se um direcionamento para a montagem de um plano de aula em que os elementos do berimbau e os valores civilizatórios afro-brasileiros aprendidos durante o processo de construção do mesmo, podem ser usados como estímulo inicial para a discussão do conteúdo de biodiversidade na matéria de biologia. O conceito de biodiversidade de um local não envolve somente a variedade de animais de um determinado local, mas também o tipo de solo, assim como a disponibilidade e a distribuição de água sendo pela chuva ou rios, córregos e lagoas, no decorrer do ano. É o conjunto de condições ecológicas que podem suportar as interações que mantém o vigor da riqueza de espécies em um dado local, em um tempo definido. O berimbau (figura 2) é um arco musical de uma corda, geralmente acompanhado por uma caixa de ressonância (cabaça), por um chocalho (caxixi) e tocado com uma vareta. Acredita-se que é o instrumento musical mais antigo, com possíveis evidencias de sua utilização há mais de 15.000 a.C., como registrado em pinturas de cavernas por Les Trois Frères no sudeste da França. Segundo as pesquisas sobre sua origem, o berimbau pode ter sido originado ou ter dado origem ao arco de caça, sendo o ato de caçar a primeira utilização do arco, vindo a utilização do mesmo como instrumento, uma prática secundaria. Ou a partir da prática da musicalidade percebeu-se a possibilidade de utilização do arco para a caça. E uma terceira hipótese menciona os dois arcos com origens independentes (SHAFFER, 1977). Segundo o mesmo autor, no Brasil não há evidencias de que os índios utilizavam arco musical. Pelo fato do berimbau hoje em dia ser muito semelhante aos arcos musicais encontrados em África, somado os relatos da época da colonização de que somente os negros tocavam 411 berimbau, e pela forma que o berimbau é tocado hoje é muito semelhante a forma de se tocar os arcos musicais africanos, reforçando a idéia de que o berimbau foi introduzido no Brasil pelos negros escravizados do continente africano. Figura2. Link: http://www.cppa.szczecin.pl/instrumenty.html, acesso em: setembro/2011 Existem três tipos de berimbau, o gunga (de som grave), o médio (de som menos grave) e o viola (com som mais agudo) (FUSCONI E RODRIGUES, 2007). Comumente usado em rodas de capoeira, no Brasil, o berimbau sobrevive até hoje devido à associação com a capoeira (SHAFFER, 1977). O livro “Histórias de Tio Alípio e Kauê: O BEABÁ do BERIMBAU” (FOLHA, 2009), mostra em forma de história em quadrinhos o processo de construção do berimbau. Na história, mestre Alípio ensina a Kauê, seu discípulo, como fazer um berimbau. Nesse processo Kauê aprende também sobre os valores civilizatórios africanos, trazidos da áfrica pelos negros escravizados e transmitidos de geração em geração. Dentre os ensinamentos Kauê aprende a importância de se ter paciência, respeitar a natureza, histórias sobre divindades africanas que cuidam da natureza e a importância do berimbau para a capoeira. É o toque do instrumento que influencia o ritmo da dança e no estado espiritual de quem o escuta. Como Tio Alípio ensina, o berimbau é constituído de uma verga de pau, uma cabaça, o arame, uma vareta e o caxixi. 412 A verga de pau é tradicionalmente feita a partir da madeira de Escheweira ovata (Cambess.) Miers, popularmente chamada biriba ou imbiriba. Tem porte variando de médio (3m) a grande (20m), com tronco ereto e cilíndrico de 40-60 cm de diâmetro, possui casca grossa de aparência acinzentada. Ocorre entre o leste da Amazônia e o leste da costa brasileira, sendo exclusiva nos biomas de mata Atlântica e na floresta Amazônica. É encontrada, de forma quase continua, entre os Estados de Pernambuco e Espírito Santo, em terrenos bem drenados, tanto em florestas primárias quanto em campos abertos (capoeirões). É polinizada principalmente por abelhas do gênero Xylocopa, e a dispersão de frutos dentro da família a que pertence, é feita por morcegos, aves, pequenos roedores e símios (GUSSON, 2003). Na fabricação do Berimbau, a madeira é extraída da floresta, em seguida é retirada a sua casca, a madeira é cortada em pedaços, e finalmente lixada. A verga, de acordo com Tio Alípio, tem que ficar lisinha. A preocupação com a conservação dos recursos naturais é retratada na história em quadrinho, a qual é mostrada nos rituais que precedem a extração da madeira, no modo como é cortada, transmitindo a mensagem de sustentabilidade e respeito ao meio ambiente. Assim, a partir do berimbau, a espécie E. ovata, se mostra um ótimo exemplo em uma aula sobre conservação da biodiversidade visando a implementação da Lei 10.639/03. Como já mencionado, E. ovata tem um papel muito importante no ecossistema em que se insere, tendo relações com vários tipos de animais através da polinização e da dispersão de suas sementes. É importante para o processo de reflorestamento misto uma vez que apresenta grande capacidade de rebrote devido, principalmente, ao acúmulo de reservas em suas raízes, de apresentar vida longa, e contribuir para a reabilitação do solo através do incremento de carbono e nitrogênio (GUSSON, 2003). O modo de extração da biriba é fundamental para não prejudicar a rebrota. Para realizar o corte é necessário o conhecimento de identificação da biriba e de como deve ser cortada para que haja o fenômeno da rebrota (SIMÕES & CARDOSO, 2004). A cabaça é feita a partir do fruto seco de Lagenaria vulgaris, que é uma espécie exótica. Segundo análise feita da Carta de Caminha por Filgueiras e Peixoto (2002), Lagenaria vulgaris pertencia somente ao velho mundo e foi introduzida no Brasil. Mas pesquisas recentes demonstram que Lagenaria spp pode ter sido introduzida no Brasil por escravos negros a partir do continente africano. Um exemplo de 413 curcubitacea comum introduzida no Brasil por escravos africanos é o melão (Citrullos lanatus) (FUSCONI E RODRIGUES, 2007). A semente de L. vulgaris é rica em cucurbitacinas, substancia que tem efeito sobre pragas. Essa substancia é usada nas plantações em armadilhas de insetos, pois tem ação estimuladora, atraindo insetos provocando estímulos alimentares em seu organismo. Para sucesso da armadilha a cucurbitacina tem que estar misturada com inseticidas ou com fungos que predam insetos, sendo direcionada a insetos já adultos, pois após capturados os insetos adultos são impedidos de se reproduzirem e de ovipor, tendo um controle eficiente da população de insetos (NARDI, 2010). Segundo Roel (2001), a cucurbitacina se mostra eficiente no controle do besouro verde e amarelo, Diabrotica especiosa, em que eles voam até as armadilhas, atraídos pela cucurbitacina e a ingerem com inseticida. Utiliza-se também como caixa de ressonância a cuia do fruto seco de Crescentia cujete, também introduzida no Brasil e proveniente da América central (FUSCONI E FILHO, 2007) A verga do berimbau é tensionada com arame geralmente retirado de pneu inutilizado de automóvel, e é lixado antes de colocar na verga de pau, como ensina Tio Alípio no livro. Ele ensina que antes do arame, usava-se a fibra de uma planta chamada cipó imbé, Philodendron corcovadense uma hemi-epifita endêmica do Brasil, com distribuição do estado de Pernambuco até Santa Catarina. Esta planta é encontrada predominantemente nas matas de restinga podendo ocupar desde o solo como o dossel dependendo do nível de iluminação (VALENTE, 2009). A relação dessa espécie com a fauna se dá principalmente por dispersão de suas sementes por marsupiais e primatas. O caxixi é feito do cipó titica, outra hemi-epifita, também da família Araceae (MORAIS, 2008). Heteropsis flexuosa tem distribuição no Brasil ocorrendo nos estados do Norte (Roraima, Amapá, Pará, Amazonas, Acre, Rondônia), Nordeste (Maranhão, Pernambuco, Bahia), encontrada no bioma da Amazônia e Mata Atlântica. Assim, no contexto da Lei 10.639/03, no dia em que fosse haver a introdução do assunto biodiversidade no segundo ano do ensino médio, de acordo com o CBC de Minas Gerais, o docente levaria o livro “O BEABÁ do BERIMBAU” (FOLHA, 2009) e um berimbau para sala de aula a fim de facilitar a visualização dos elementos constituintes do mesmo, despertando e motivando a discussão entre os alunos, em qual contexto o instrumento é usado. 414 Num segundo momento o professor introduziria as informações a cerca de cada elemento do instrumento, contextualizando o bioma onde cada planta constituinte é encontrada e caracterizando esse bioma. Como modo de facilitar a visualização da espécie e do bioma, o professor poderia mostrar figuras com legenda por meio de um projetor caso a sala possua um, ou por meio de figuras impressas, para que os alunos identifiquem melhor e relacionem a espécie e suas características com o bioma à que cada espécie pertence. Como visto anteriormente os biomas em que os elementos do berimbau mais se inserem é o da Amazônia e da Mata Atlântica. De acordo com o ICM (Instituto Chico Mendes -< http://www.icmbio.gov.br >) o bioma Amazonia é definido da seguinte forma: “Com 4.196.943 Km², equivalente a 49,29% do território brasileiro, a região amazônica abriga a maior biodiversidade do planeta e, pelo menos, 20% de toda a água doce da superfície terrestre, espalhando-se por nove estados: Amazonas, Acre, Amapá, Pará, Roraima, Rondônia, Mato Grosso, Maranhão e Tocantins. Não é à toa que o bioma Amazônia é conhecido como Pulmão do Mundo, Inferno Verde ou Planeta Água. Sua diversidade biológica, até então conhecida, compreende mais de 40 mil espécies de plantas, 300 espécies de mamíferos, 1,3 mil espécies de aves e de 3 mil a 9 mil espécies de peixes.” E o bioma da Mata Atlântica: “A área original do bioma Mata Atlântica representaria 13,04% do território nacional com 1.110.182 Km². O bioma já ocupou grande parte da zona costeira brasileira, do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul. Hoje, restam apenas de 7 a 8% de sua cobertura vegetal, com mais incidência no Espírito Santo, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina, além de porções isoladas em outros 11 estados. Mesmo assim, o que resta do bioma Mata Atlântica abriga 20 mil espécies de plantas, 261 espécies de mamíferos, mais de mil espécies de aves e 350 espécies de peixes.” . Esse conteúdo se encontra disponível em: <http://www.icmbio.gov.br/biodiversidade/unidades-de-conservacao/biomasbrasileiros>. Esses dois biomas são considerados ‘hot spots’ da biodiversidade do mundo, pois contém um número muito grande de espécies endêmicas, por conseguirem manter condições climáticas (temperatura, disponibilidade de água, período de incidência da luz solar durante o ano) ideais e pouco variáveis, que favorecem o desenvolvimento da vida, aparecimento de novas espécies, aumento de relações intraespecíficas e conseqüentemente a biodiversidade. 415 No próximo momento o professor poderia explorar cada espécie em particular, introduzindo conceitos importantes para o entendimento do conteúdo “biodiversidade”. Os conceitos de nicho ecológico relacionando com as interações que as espécies constituintes do berimbau têm com outras espécies pertencentes ao mesmo bioma que a espécie em questão pertence. O conceito de espécie nativa e exótica explicando os efeitos que as espécies exóticas causam nas interações principalmente em relação à competição por alimento, luminosidade e espaço. A distribuição da espécie e a ocorrência da população no planeta. O conceito de endemismo discutindo a razão de os biomas da Amazônia e da Mata Atlântica serem hot spots, entre outros. Mas em especial o de extinção, pois com a ajuda do livro: “Histórias de Tio Alípio e Kauê: O BEABÁ do BERIMBAU” o professor pode dar noção de como a importância do manejo sustentável da natureza é abordada pela cultura africana, contemplando dessa forma o que se obriga na lei 10.639/2003 e o aprendizado pelos alunos, da importância da conservação da biodiversidade do nosso planeta, que implica na conservação e restauração das espécies em processo de extinção. CONSIDERAÇOES FINAIS O presente trabalho teve como objetivo introduzir elementos da cultura africana e afro-brasileira no ensino de biologia enfocando a Lei 10.639/03 a partir do berimbau, especificamente no ensino de biodiversidade no 2º ano do Ensino Médio com base nos Conteúdos Básicos Comuns de Minas Gerais. Relacionar a biologia com os elementos do berimbau em um plano de aula é um modo de contemplar o que se obriga na Lei 10.639/2003. A identificação dos elementos constituintes do berimbau: a verga, a cabaça, o caxixi e o habitat nos quais são encontrados, permitem abrir a discussão sobre os diferentes biomas nos quais cada planta de que o berimbau é feita, se originaram, evoluíram e se estabeleceram, formando o nicho a que pertencem hoje. Os valores práticos aprendidos no processo de construção do berimbau servem de base para inserir a discussão da importância de se respeitar e tentar reparar o que resta de ambiente natural. Que isso implica na manutenção de nichos, de cadeias alimentares e conseqüente manutenção da biodiversidade. 416 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARRUDA-GATTI, I. C. DE; VENTURA, M. U. Iscas contendo cucurbitacinas para o manejo de Diabrotica spp. Semina: Ciências Agrárias, Londrina, v. 24, n. 2, p. 331336, jul./dez. 2003BRASIL. Lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Diário Oficial da União, 10 de janeiro de 2003. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO (a). Parecer n.03 de 10 de março de 2004. Dispõe sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Relatora: Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva. Ministério da Educação. Brasília, julho de 2004. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. (b). Resolução n.01 de 17 de junho de 2004. Dispõe sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Relatora: Petronilha Beatriz Gonçalves. Ministério da Educação. Brasília, julho de 2004. FOLHA, MARCIO. Histórias de Tio Alípio e Kauê: O BEABA do BERIMBAU. 1ª edição.São Paulo: Edição do autor, 2009.144p. FUSCONI, R.; RODRIGUES-FILHO, G. 2007. O berimbau como pressuposto para o ensino de biologia segundo a Lei 10639/03. In: Anais do III seminário racismo e Educação & II segundo seminário Gênero Raça e Etnia: desafios para a formação docente. Universidade Federal de Uberlândia, MG. ISBN 978-85-7078-173-4. GUSSON, E. Uso e diversidade genética em populações naturais de biriba (Eschweilera ovata [Cambess.] Miers): subsídios ao manejo e conservação da espécie. 91p. Dissertação(Mestrado em Agroecossistemas) - ESALQ, Universidade de São Paulo, 2003. GUSSON, E.; SEBBENN, A.M.; KAGEYAMA, P.Y. Diversity and spacial genetic structure in two Eschweilera ovata populations. Scientia Forestalis, Piracicaba, n.67, p.123-135, 2005.GUSSON, E.; SEBBENN, A.M.; KAGEYAMA, P.Y. Sistema de reprodução em populações de Eschweilera ovata (Cambess.) Miers. Revista Árvore, Viçosa, v.30, n.4, p. 491-502, 2006. 417 ROEL, A. R. Utilização de plantas com propriedades inseticidas: uma contribuição para o desenvolvimento rural sustentável. Revista Internacional de Desenvolvimento Local, Campo Grande, v.1, n.2, 2001, p.43-50 SECRETARIA DE ESTADO DE MINAS GERAIS.CONTEUDO BÁSICO COMUM (CBC) DE BIOLOGIA.ENSINO MÉDIO,2007 SHAFFER, Kay. O Berimbau-de-barriga e seus toques. Rio de Janeiro: Funarte, 1977. 67p.STÜPP, J.J.; BOFF, M.I.C.; GONÇALVES, P.A.S. Manejo de Diabrotica speciosa com atrativos naturais em horta orgânica. Horticultura Brasileira, Campinas, v.24, n.4, p. 442-445, 2006. SIMÕES, R. M. A. ; CARDOSO, M. D.;Cardoso, Marina D. . Capoeira angola: uma discussão sobre turismo e preservação de recursos naturais a partir de tradições culturais.. In: II ANPPAS (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e SociedadeII ANPPAS (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade, 2004, Indaiatuba. Anais da II ANPPAS (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade, 2004. p. 1-9. SAKURAGUI, C.M., SOARES, M.L. 2010. 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Ela e seus dez irmãos migraram com a família para o Rio de Janeiro na década de 1950. Com 28 anos, iniciou o curso de graduação em História, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), formando-se em 1971. Formada, passaria a trabalhar como professora de História da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro, articulando ensino e pesquisa. Nessa mesma época, passaria a exercer sua militância intelectual através de temáticas e objetos ligados à história e à cultura negras. Concluiu a Pós-graduação lato sensu em História, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em 1981, com a pesquisa “Sistemas alternativos organizados pelos negros: dos quilombos às favelas”, mas seu trabalho mais conhecido e de maior circulação foi o filme Ori (1989, 131 min), de sua autoria, dirigido pela socióloga e cineasta Raquel Gerber. O filme, narrado pela própria Beatriz, apresenta sua trajetória pessoal como forma de abordar a comunidade negra em sua relação com o tempo, o espaço e a ancestralidade, emblematicamente representados na ideia de quilombo. Beatriz Nascimento, ao longo de vinte anos, tornou-se estudiosa das temáticas relacionadas ao racismo e aos quilombos, abordando a correlação entre corporeidade negra e espaço com as experiências diaspóricas dos africanos e descendentes em terras brasileiras, por meio das noções de “transmigração” e “transatlanticidade”. Beatriz era poetisa. Sua poesia traz à cena a experiência de ser mulher negra. Essa sensibilidade se traduziu em toda sua escrita. Estava fazendo mestrado em comunicação social, na UFRJ, sob orientação de Muniz Sodré, quando sua trajetória foi interrompida. Beatriz foi assassinada ao defender uma amiga de seu companheiro violento. Faleceu em 28 de janeiro de 1995 no Rio de Janeiro.1 1 Ver mais em http://www.acordacultura.org.br/herois/ 419 A CRIANÇA NEGRA NA ESCOLA: UMA NOVA VISÃO DE CURRÍCULO Luciana Guimarães Universidade Federal de Uberlândia – UFU Graduanda em Pedagogia – FACED Bolsista do PIBID-HCAFRO1 [email protected] Profª. Dra. Vânia Aparecida Martins Bernardes Universidade Federal de Uberlândia – UFU Faculdade de Ciências Integradas do Pontal – FACIP Núcleo de Estudos Afro Brasileiros – NEAB [email protected] A inclusão do negro na sociedade é uma questão que a partir da Constituição Federal de 1988, vem sendo foco de muitas discussões. Leis são postas, decretos são feitos, emendas são inseridas. Mas, é notável que ainda existam muitas brechas e muito a mudar para que o negro seja visto pela sociedade como parte integrante. Em virtude disso, a escola é um grande ponto de partida para que a sociedade passe a reconhecer que todos são iguais e têm os mesmos direitos. Entretanto, a luta pela educação desde a assinatura da Lei Áurea vem tornando um desafio para a comunidade negra, pois a escola desde então passa a ser vista como veículo de ascensão social. Para garantir uma educação mais justa e igualitária, implementa-se a Lei 10639/2003, em seguida, a aprovação dos PCN’s para Educação das Relações ÉtnicoRaciais e o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana no interior das escolas, alterando a então Lei das Diretrizes e Bases 9394/96. Partindo disso, o presente trabalho será constituído em duas partes, na qual, a primeira terá como objetivo apresentar um breve comparativo entre os direitos fundamentais dos afro-brasileiros, desde a Constituição Federal de 1988 até o Estatuto da Igualdade Racial com sua última modificação em 2010, apresentando as conquistas adquiridas pelos mesmos. Já na segunda parte será apresentada a Lei 10639/2003 e seus principais objetivos, interligando com o currículo das escolas. Desta forma, é necessária uma reflexão acerca de uma educação que visa interromper a reprodução de práticas discriminatórias e racistas, uma escola centrada no 1 Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/CAPES - Sub-projeto História e Cultura Afro brasileira 420 respeito às diferenças, em um currículo flexível, que parte da diversidade das crianças para a construção da coletividade, discutindo as mudanças e permanências nas suas relações sociais, tais como a conquista por espaços na sociedade e a questão da discriminação racial, buscando trabalhar outras disciplinas que envolvam tais temas, como as questões geográficas e sócio-cultural. Para tanto, a aplicação e o aperfeiçoamento da legislação são decisivos, mas insuficientes. Para construir uma sociedade justa e livre, o processo educacional terá de tratar do campo ético, de como se desenvolvem no cotidiano atitudes e valores voltados para a formação de novos comportamentos, novos vínculos em relação àqueles que historicamente foram alvo de injustiças. UM BREVE COMPARATIVO ENTRE OS DIREITOS FUNDAMENTAIS DOS AFRO-BRASILEIROS A UNESCO, em 1950, financiou estudos sobre a questão racial e a mestiçagem no Brasil. Como resultado, um grupo de estudiosos, dentre eles Florestan Fernandes e Octavio Ianni, demonstrou que as relações entre negros e brancos não eram harmoniosas, apontando diversas relações de desigualdade racial (CHOR MAIO, 1998). Assim, após 100 anos de abolição, na Constituição Federal de 1988 começam as primeiras discussões legais sobre os direitos dos afro-brasileiros, pois até então este era visto como um ser inferior na sociedade. A partir dessa lei, as reflexões e as lutas feitas por militantes do movimento negro passam a ganhar voz. O deputado negro Carlos Alberto de Oliveira, ao propor à Assembléia Constituinte de 1988 a tipificação do racismo como crime diz que: Passados praticamente cem anos da data da abolição (da escravatura), ainda não se completou uma revolução política iniciada em 1988. Com efeito, imperam no país diferentes formas de discriminação racial, velada ou ostensiva, que afetam mais da metade da população brasileira, constituída de negros ou descendentes de negros, privados do pleno exercício da cidadania. Como a prática do racismo equivale a decretar a morte civil, urge transformá-la em crime (Oliveira, 1988). A partir daí, práticas discriminatórias são consideradas crime, assim a Constituição de 1988 tenta garantir um Brasil sem preconceitos, de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação, tendo em vista que a prática do 421 racismo é crime inafiançável e imprescritível, além da proteção das manifestações culturais. (Art. 3°, inciso IV) Junto a isso, a Constituição Federal de 1988 estabelece que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, visto que a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamental. A de se afirmar que, o compromisso da Constituição é assegurar o desenvolvimento de uma "sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, promovendo o bem de todos, protegendo a cultura negra, seus ritos religiosos e costumes trazidos da África. A partir disso, garantindo a inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença", "o livre exercício dos cultos religiosos" e "a proteção aos locais de culto e suas liturgias", apresentado um avanço em relação aos textos constitucionais anteriores, que reprimiam e excluíam a cultura negra, pois considerava atentatória à ordem pública e aos "bons costumes". A preocupação com as culturas afro-brasileiras também se manifesta nos diversos aspectos culturais, fazendo com que o Estado proteja as manifestações das culturas populares afro-brasileiras. E, assim, a lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais. No que se refere ao resgate dos valores étnicos dos integrantes da raça negra e à sua contribuição para a formação da cultura brasileira, o ensino da História do Brasil inserido nas escolas e faculdades levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro. Na verdade, a grande luta da qual o movimento anti racista busca é por um sistema constitucional que ressalta a visibilidade dos negros no Brasil. Inúmeras gerações de afro-brasileiros conviveram com a invisibilidade social, que lhes excluíam de qualquer oportunidade de ascensão sócio-econômica, numa sociedade cercada de preconceitos. A ideologia da democracia racial absorvida pela elite brasileira foi, sem dúvidas, a grande incentivadora deste sistema de invisibilidade social dos não-brancos brasileiros. (MUNANGA, 2004, p. 15) Apesar da Constituição de 1988, ter sido um marco importante para a visibilidade dos negros pode-se dizer que muito ainda faltava para ser mudado, o simples fato dos negros serem permitidos freqüentar escolas noturnas, não era garantia 422 da permanência, nada era feito para que o mesmo se incluísse na sociedade, nada era falado sobre a história destes, não importavam para que as crianças olhassem em volta e entendessem que negros e brancos eram iguais. Assim, em meio a várias alterações e emendas, criada em 1961, seguida por uma versão em 1971, que vigorou até a promulgação da mais recente em 1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) define e regulariza o sistema de educação brasileiro com base nos princípios presentes na Constituição. Com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, esperava-se que a história e a cultura negra fossem exploradas e trabalhada com os alunos, mas como na Constituição o que esperava não aconteceu de fato, assim em 9 de janeiro de 2003 foi inserida na LDB a Lei 10.639, a qual tornou obrigatório a inclusão nos currículos oficiais a história da África e dos africanos, fato este considerado um importante passo para a sociedade e, conseguintes a isso, a cultura negra brasileira e sua contribuição na criação da identidade do povo brasileiro e na formação do país. Junto a isso, no novo artigo 26-A § 1º define que a inclusão dessa temática visa resgatar “a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à história do Brasil”. O parágrafo seguinte explica que os conteúdos “serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras”. Apesar da LDB já incluir de modo implícito a historicidade afro-brasileira enquanto conteúdo pedagógico, o corpo docente das instituições de ensino faziam que o mesmo não existisse, nos dizeres WALDMAN (2003) talvez pelo fato de apesar dos afro-descendentes serem uma maioria demográfica no nosso pais, constituem simultaneamente uma minoria sociológica, isto é, estão sub-representados em todo as esferas da vida social. Esta ausência de representatividade obviamente repercute em nível do sistema de ensino, que desqualifica ou se cala a respeito da historia e da cultura negra. Para complementar a LDB e as outras leis até então postas, o Estatuto da Igualdade Racial modificado em 2010, surge com o objetivo da redução das desigualdades entre negros e brancos no país, o qual reúne um conjunto de ações e medidas em termos de políticas públicas que, se aprovadas, irão garantir acesso a direitos fundamentais à população afro-brasileira, além de resolver um problema antigo, por trazer pela primeira vez um conceito jurídico para afro-brasileiros. 423 Além disso, o atual Estatuto estabelece que o poder público adotará programas de ação afirmativa para tentar reduzir as desigualdades étnicas, para tanto, reafirma o que já prescrito na Constituição, a liberdade de culto religioso, para isso, a pessoa que se sentir tolhida ou discriminada deve recorrer ao Ministério Público; estabelece ainda o incentivo à celebração de personalidades negras e de datas comemorativas relacionadas a história do samba. Também, como já mencionado no estatuto, reafirma a obrigatoriedade do ensino de História Geral da África e História Geral da População Negra no Brasil nas instituições de ensino. Junto isso, estabelece que os governos deverão incentivar pesquisas de temas de interesse dos negros, e incluir alunos negros nos programas de mestrado, doutorado e pós-doutorado. Além de, tornar obrigatória a inclusão do quesito raça ou cor, a ser preenchido por auto classificação, na coleta de dados do Censo Escolar. É visível que, partindo da Constituição Federal até as últimas mudanças no Estatuto da Igualdade Racial, vários direitos foram adquiridos, em virtude de muita luta e resistência da comunidade negra. As implicações jurídicas, cada vez mais estão encaminhando para a construção da igualdade racial, a qual se faz tão urgente, pois a democracia e o respeito à dignidade da pessoa negra foram calcadas na Constituição Federal de 1988 e deve-se fazer jus ao que está prescrito em lei. A LEI 10639/2003: UMA QUESTÃO MULTICULTURAL Para lidar com a temática do preconceito e da discriminação racial/étnica ainda é nítida certa dificuldades por parte do corpo docente. Na escola, muitas vezes, há manifestações de racismo, discriminação social e étnica, por parte de professores, de alunos, da equipe escolar, ainda de maneira involuntária ou inconsciente. Essas atitudes representam violação dos direitos dos alunos, professores e funcionários discriminados, trazendo consigo obstáculos ao processo educacional pelo sofrimento e constrangimento que essas pessoas são expostas. O princípio de interromper e intervir nas práticas discriminatórias raciais é de suma importância que a escola seja a grande responsável por essa quebra de paradigma, na qual de um lado reina a cultura americana, onde o branco é o centro das práticas sociais e o grande responsável pelas conquistas e vitórias, já do outro lado, muito mais 424 inferiorizado a cultura africana, vista com desprezo e piedade, o negro é marginalizado e lembrado apenas no dia 20 de novembro. Na perspectiva do campo do currículo, é de fundamental importância repensar como as questões raciais estão sendo aplicadas na sala de aula. São bastante conhecidas as análises sobre os sistemas escolares que evidenciam como as formas curriculares dominantes têm seus efeitos perversos sobre as camadas dos seus usuários menos privilegiados. (APPLE, 1997; CONNEL, 1995), o professor, ou seja, a classe dominante é quem transmite valores, crenças e moral dentro do meio escolar e, é a partir desta transmissão que o aluno irá adquirir grande parte dos seus conceitos. Portanto, é no currículo oculto que encontra tais valores, normas e comportamentos, que não estão legalmente implícito nos documentos oficiais da escola, este é construído cotidianamente pelo professor no interior da sala de aula e é a partir daí que o docente passa ser reflexo de seus atos, pois o currículo é um local onde frequentemente se produzem e se criam significados sociais. Vale ressaltar que, o currículo da escola é um projeto em formação, cuja construção se faz a partir de uma multiplicidade de práticas inter-relacionadas através da deliberação tomada nos contextos social, cultural, político, ideológico e econômico. Este é o determinante daquilo que deve ou não ser selecionado, sendo o mais abrangente possível, abordando as demandas sociais, pois o poder está no currículo, sendo a reprodução da expressão ideológica. Dessa forma, cabe ao professor ser coadjuvante do processo, trabalhar paralelamente com as novas mudanças da lei, buscando a ampliação de sua formação e, explorando o currículo oculto. Com isso, é necessário compreender as questões que levaram à criação da lei 10.639/03, no sentido de ampliar a visão e tentar superar aquelas visões estereotipadas sobre o tema recuperando os elementos da resistência negra, suas formas de luta e de organização, sua cultura, não apenas no passado, mas também no tempo presente. Entretanto, tomamos o espaço escolar como objeto de análise para entender os discursos e as práticas curriculares, pelo exame das ações decorrentes ali concretizadas a partir das políticas oficiais locais e nacionais. É nesse contexto que reconhecemos a relação da escola com os processos externos, ampliando o entendimento do currículo como um campo de conflitos, do qual participam uma gama de atores e situações sociais que têm papeis definidores nas relações que os sujeitos educacionais estabelecem com a 425 vida escolar e seus resultados (APPLE, 1997, 1982; APPLE E BEANE, 1997; GOODSON, 1995). Ao que se refere ao ensino de história e culturas africanas e afro-brasileiras pode ser comprovada observando que a grande maioria dos alunos desconhece tal temática. Sendo assim, o que se espera da escola, hoje, é que a Lei 10639/2003 seja efetivada de acordo, para que o aluno conheça sua a história de seu país, sua cultura e seus ancestrais. Porém, o livro didático é um meio que merece ser repensado, pois em grande parte, as ilustrações e textos partem da representação do homem branco, onde a figura da mulher, povos indígenas, negros, dentre outros são vistas de forma estereotipada, desprovidos de humanidade e cidadania. Vale ressaltar que, crianças com um poder aquisitivo inferior, ainda têm em casa apenas o livro fornecido pela escola como o único meio de leitura mais acessível, estes na maioria das vezes encontra apenas a história da escravidão dos negros, deixando a diáspora africana de lado, sem se quer as crianças sabem o que isto significa. Livro este que vários professores seguem durante o ano inteiro e de certa forma este acaba algo a ser idealizado pelas famílias, crianças e professores. Desta forma, para Silva (1989, p. 57): Ao veicular estereótipos que expandem uma representação negativa do negro e uma representação positiva do branco, o livro didático está expandindo a ideologia do branqueamento, que se alimenta das ideologias, das teorias e estereótipos de inferioridade/superioridade raciais, as quais se conjugam com a não legitimação, pelo Estado, dos processos civilizatórios indígena e africano, entre outros, constituintes a identidade cultural da nação. É notável que culturas oriundas dos grupos subordinados na sociedade, cujas contribuições são apenas da tradição e um passado significativo acabam sendo invisibilizadas e minimizadas nos currículos e a pratica educativa a respeito de certos grupos se resumem apenas em poucas aulas, ou até mesmo, é imposta uma imagem tão negativa do negro que a própria criança negra passa a se rejeitar, pois a idéia de bom e perfeito está muito longe do que ela é, visto que, o professor pode se tornar um mediador inconsciente dos estereótipos. Para Rosemberg (1985, p. 77) “o homem branco adulto proveniente dos estratos médios e superiores da população é o representante da espécie mais freqüente nas estórias, aquele que recebe um nome próprio, aquele que se reveste da condição normal”. Assim, é notável que valores culturas do povo negro, são vistos como 426 “anormais”, com isso rejeitado e negado, pois são considerados fora do padrão almejado pela sociedade. Para que os docentes trabalhem em uma perspectiva inclusiva é necessário inovar a prática pedagogia, a qual muitas vezes está arraigada no tradicionalismo, pois é necessário “pensar e construir” uma escola que inspire e promova a troca entre os alunos, que confronte formas desiguais de pensamento e de estilo de vida, que busque metodologias interativas e faça, do reconhecimento e da convivência com as diversidades, estratégias e alternativas para uma nova aprendizagem, voltada para o educando. Uma escola, enfim, que reconheça as diferenças e respeitando-as, possa conviver com elas (CAPUTO e GUIMARÃES, 2003, p. 149), para que assim as relações que os professores mantêm com o currículo tanto conceitualmente quanto na sua prática, por sua vez impliquem relações dinâmicas entre professores, alunos e o conhecimento escolar e as práticas sociais; Para uma educação efetivamente abrangente e livre de estereótipos é necessário partir de uma pluralidade cultural, a qual de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1987) diz respeito ao conhecimento e à valorização de características étnicas e culturais dos diferentes grupos sociais que convivem no território nacional, às desigualdades socioeconômicas e à crítica às relações sociais discriminatórias e excludentes que permeiam a sociedade brasileira, oferecendo ao aluno a possibilidade de conhecer o Brasil como um país complexo, multifacetado e algumas vezes paradoxal. Nesse sentido, quanto mais às crianças tiverem o conhecimento que os argumentos usados para provar a inferioridade de outras raças foram desmentidos, mais fortemente hábitos e atitudes de aceitação e integração do diferente elas irão desenvolver, assim, cabe ao professor desmistificar conceitos e estereótipos, demonstrando aos seus alunos que não existe correlação entre capacidade intelectual e a cor da pele. Para isso, de acordo com McLaren (1997), é essencial para os educadores desmantelar os discursos de poder e desmistificar aqueles que existe apenas um sujeito universal da história, o qual basea-se no branco, masculino e heterossexual do privilegio burguês. Pois, nos dizeres de Banks (1997) educar cidadãos numa sociedade multicultural é necessário que a educação efetiva de forma multicultural. 427 A educação liberal multicultural visa garantir a igualdade nas escolas, tomando como ponto de partida a questão da “cor branca”. Embora os brancos vêem-se como transparentes e livres de discriminação racial, eles são vistos como um terror branco na maneira de interação entre negros e brancos, percebida pelos negros (TORRES, 2001, p. 198). Com isso, embora o valor de poder do branco resida, sobretudo em suas instabilidades, a cor carrega ainda um sentido simbólico de superioridade moral e também estética (DYER, 1997, p. 70), ideal este que deve ser desmistificado no interior das escolas, onde a cor negra também deve estar associada a classe superior e ao ser bonito esteticamente. Assim, o multiculturalismo deve ser visto como um movimento social, que está interligado com a política das diferenças e contra as sociedades racistas, sexistas e classistas, levando em consideração as diversas culturas, baseando em um currículo democrático, onde os estudantes precisam aprender e ter oportunidades da adquirir tais valores e, ao mesmo tempo enxergar as realidades que desafiam estes ideais, como a discriminação baseada na raça, sexo e classe social (BANKS, 1997, p. 9), levando em conta reduzir preconceitos individuais e institucionais, enfatizando a igualdade e a excelência, pois só assim os estudantes negros encontraram em seus professores uma pedagogia de equidade. De acordo com FREIRE (1987), adultos, jovens e crianças negras na condição de oprimidos, sofrem de uma dualidade que se instala na interioridade do seu ser. Querem ser, mas temem ser, tais pessoas introjetaram a sombra do opressor e seguem suas pauta, sua luta se trava entre serem eles mesmos ou serem duplos. Entretanto, háde-se considerar o grande número de negros que escapam a tais condicionamentos e que fazem oposição sistemática à ideologia do embranquecimento, buscando identificar-se com suas raízes culturais. Assim, a escola é um ambiente de expressão e diversidade, cabe ao corpo docente explorar de forma aguçada o que cada criança pode oferecer, partindo do principio que ninguém é igual, e que formos seres humanos que estamos em constante aprendizagem, onde a questão cultural e suas mais diversas contribuições são de grande relevância, tanto para a escola quanto para o currículo oculto. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1987) afirmam tal idéia e a Lei 10639/2003, nas quais dizem que: As culturas são produzidas pelos grupos sociais ao longo das suas histórias, na construção de suas formas de subsistência, na organização da vida social e política, 428 nas suas relações com o meio e com outros grupos, na produção de conhecimentos etc. A diferença entre culturas é fruto da singularidade desses processos em cada grupo social. (Brasil, 2007, p. 04) Para isso, cabe a escola seguir o que está prescrito em lei e permitir que não só a aluno negro, mas que todos os alunos expressem diferentes opiniões e vivências. Tendo em aspecto a educação étnico-raciais é necessário fortalecer tal educação entre os negros e despertar entre os brancos a consciência negra. Entre os negros, poderão oferecer conhecimentos e segurança para orgulharem-se da sua origem africana; para os brancos, poderão permitir que identifiquem as influências, a contribuição a participação e a importância da história e da cultura dos negros no seu jeito de ser, viver, se relacionar com outras pessoas, notadamente as negras. (Parecer CNE/CP 3/2004; 16). A lei 10639/2003 constituiu um bom passo para os direitos humanos dentro da escola. Restam agora aos profissionais da educação, assim como para as universidades, escolas de rede pública e particular, militantes dos movimentos sociais e o conjunto da sociedade brasileira se preparar para o desafio de aplicar notável da legislação (WALDMAN, 2003). CONSIDERAÇÕES FINAIS É notável que apesar dos direitos conquistados pelas crianças ao longo da história como: a Constituição Federal/88, Estatuto da Criança e do Adolescente/90, Lei das Diretrizes e Bases/96, nem sempre esses foram respeitados, ou seja, décadas de conquistas não são respeitadas, voltando a um período de constrangimento, indiferença, racismo, maus-tratos, invisibilidade, dentre outros. Apesar disso, existe uma minoria que presa pelo cumprimento das leis e os fatos históricos e é a partir dessa pequena parte que o pensamento anti racista vai se alastrando, principalmente dentro das escolas que é um lugar de trocas de conhecimento e formação de opiniões, Gonçalves Silva (2001) sugere o estudo das africanidades em todos os níveis de ensino e, ainda, que lancemos desafios para que nossos alunos ampliem ou reformulem suas concepções prévias, incentivando-os a pesquisar, debater, trocar idéias e argumentar de forma que valorizem igualmente as diferentes e diversas raízes das identidades dos distintos grupos que constituem o povo brasileiro, de forma 429 que permitam aprender a respeitar as expressões culturais negras que, juntamente com outras de diferentes raízes étnicas, compõem a história e a vida do nosso país. Desta forma, é fundamental que os institutos escolares cumpram o que está prescrito em Lei e reconheça a importância que os negros tiveram para a formação do Brasil e do até mesmo do mundo. Mas para isso, é necessário que o corpo docente busque cursos de formação em História Africana e afrobrasileira para realmente dominar sobre o que ensinando e dentro de aula trabalha conceitos de racismo e discriminação, porém além de trabalhar é necessário viver o que está sendo falado, pois é através desse currículo oculto que as crianças notaram o verdadeiro significado da frase “Somos todos iguais”. Entretanto, não podemos desconsiderar que a Constituição Federal tem sido um importante instrumento de combate a discriminação racial, porém, é preciso entender que muito ainda se tem por fazer. A cor da pele não define a capacidade ou competência das pessoas e mais que leis, precisamos de educação e sensibilidade para compreender isso, pois as escolas muitas vezes, não têm sido instrumento de democracia como gostaríamos, o currículo oculto está sendo uma reprodução de uma ordem social que continua sendo notavelmente iníqua em termos de classe, gênero e raça (APPLE, 1987). Assim, de acordo com Apple (1991) o currículo escolar ainda tem predominantemente uma origem social (burguesa), um gênero (masculino) e uma etnia (branca). Junto a isso, é necessário desmistificar essa idéia, nos dizeres de Cardoso (1992), espera-se que a questão racial brasileira pode quem sabe, levar os professores a desenvolver uma postura critica diante de instrumentos pedagógicos os quais vem recorrendo tão passivamente. Para que o ensino da História e da Cultura Africana e Afro-brasileira tenha por finalidade essencial contribuir significativamente para que essas gerações se fortaleçam e, portanto, aumente a sua auto-estima, no aspecto democrático e igualitário. Portanto, o ensino da História e da Cultura Africana e Afro-brasileira possibilitará a valorização do negro e de sua imensa contribuição para a formação e construção desta nação. Visto que, cumprir a lei é um comprometimento de toda à sociedade e não apenas da escola, mas indiscutivelmente como diz a conselheira Petronilha, não se trata simplesmente de incluir os negros e integrá-los numa sociedade que secularmente os exclui e os desqualifica, mas oferecer uma educação que lhes 430 permita assumirem-se como cidadãos autônomos, críticos e participativos, cabe isto a sociedade e aos professores participarem desta construção. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS APPLE, Michael W. Ideologia e currículo. São Paulo: Brasiliense, 1982. ______________. 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Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira", e dá outras providências. _________.. Lei nº 12.288, de 20 de julho de 2010. Institui o Estatuto da Igualdade Racial; altera as Leis nos 7.716, de 5 de janeiro de 1989, 9.029, de 13 de abril de 1995, 7.347, de 24 de julho de 1985, e 10.778, de 24 de novembro de 2003. _________. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Parecer CNE/CP3/2004, 10 de março de 2004. CAPUTO, M.E.; GUIMARÂES, M. Educação inclusiva. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. CLANDININ, Jean. Classroom practice- Teacher images in action, London, Philadelphia: The Falmer Press, 1986 CARDOSO, Edson L. Racismo: o papel do professor. In: Bruxas, espíritos e outros bichos. 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Luciane Ribeiro Dias Gonçalves Universidade Federal de Uberlândia - UFU Faculdade de Ciências Integradas do Pontal – FACIP [email protected] A escola é o local apropriado para que o indivíduo se forme como um cidadão capaz de pensar sobre a relação em sociedade, um lugar para desenvolver o respeito pelo outro, onde acontecem as trocas de experiências e o indivíduo se descobre inserido num contexto próprio. Da mesma forma, particularmente na escola, a criança se descobre participante de uma sociedade preconceituosa e discriminatória ao se reconhecer e ao ser reconhecida pelo outro como diferente. Esse processo está arraigado há muito tempo na nossa história, e que nas relações raciais construiu a imagem do negro como raça inferior. Sendo assim, desde pequena a criança negra sofre as consequências desta historicidade racista. Cavalleiro alerta para a necessidade de atenção, na infância, para essas diferenças étnicas: Compreende-se que o reconhecimento positivo das diferenças étnicas deve ser proporcionado desde os primeiros anos de vida. Para tornar a pré-escola um espaço positivo ao entendimento das diferenças étnicas, é necessário observarmos o processo de socialização atualmente desenvolvido no espaço escolar, que conforme demonstrado por diversos estudos e pesquisas, parece ignorar essa questão. Contudo, a educação infantil não pode esquivar-se do dever de preparar o indivíduo para a existência das diferenças étnicas, já que ela, inevitavelmente, permeará a sua relação com os demais cidadãos. (CAVALLEIRO, 2000, p. 26) De acordo com a autora, é premente a necessidade de reverter a situação discriminatória da sociedade brasileira que reflete o quanto o negro é ainda referido como uma raça inferior interferindo diretamente no contexto escolar, e principalmente na educação infantil que, configura o momento de descoberta do indivíduo como participante do mundo. A Lei 10.639/03 veio ao encontro do processo de combate a essa discriminação. A referida lei introduz nos currículos da Educação Básica a história e 433 cultura africana e afro-brasileira. A lei objetiva contribuir para a construção de uma sociedade menos preconceituosa e discriminatória por meio da formação de cidadãos que respeitem as diversidades culturais existentes. A educação infantil não está isenta dessa normativa. Pelo contrário, a criança, desde a sua mais tenra idade, passa por situações de conflitos raciais no meio onde está inserida. Tanto a Educação Infantil quanto a sociedade em geral são marcadas pelas diferenças. Contudo, estas diferenças nem sempre são observadas como relevantes nas relações sociais. Exemplificando isso, cotidianamente pode-se presenciar atitude de indiferença pelo “outro” por conta da sua pertença étnico racial, e que pode até gerar a exclusão e atitudes racistas. Cavalleiro explora em seus estudos a situação abaixo: O fato de duas crianças negras caminhando pelo parque, quando um menino esbarra em uma delas e lhe diz em tom de deboche: ”Desculpa neguinha!”. Depois parte gargalhando, junto com o amigo que também ri muito. A menina arregala os olhos, mas continua a sua caminhada sem nada dizer. (CAVALLEIRO, 2000, p. 53) A prática educativa deste nível de ensino tem que desenvolver um papel contrário a isso, buscando o respeito e a valorização das diferenças étnicas. Dessa forma, este artigo objetiva fazer uma revisão bibliográfica com a finalidade de perceber a concepção da criança construída historicamente e, especialmente, colocar em foco a criança negra. Inicialmente, busco a concepção do que seja ser criança e a variação desta conceituação nos diferentes momentos históricos. Neste universo da infância, busco referências à criança negra. Na segunda parte do artigo, busco responder à questão: o que é ser criança negra? Finalizando, analiso as especificidades de ser criança negra no contexto da educação infantil. As análises centralizam a compreensão da presença da criança negra no contexto escolar. CONCEPCÃO DE CRIANÇA E INFÂNCIA. O QUE É SER CRIANÇA? Na história da humanidade, nem sempre o conceito de criança e de infância foi estável ou teve seu reconhecimento. Historicamente, este conceito veio sendo construído obedecendo a características específicas de cada tempo histórico e da cultura da sociedade. Ao mencionar criança, remete-nos na atualidade a observar o quanto esta se faz mais reconhecida nas particularidades da infância e inserida num novo contexto social 434 em comparação a antiguidade onde a criança não possuía um papel tão significativo dentro do meio no qual vivia. Seu papel veio ficando mais atuante e participante no meio e isso é consequência de uma construção histórica. Contudo, para a criança chegar a tal condição e para um melhor entendimento sobre a construção da sua identidade fazse necessária uma breve investigação sobre o que se entende por infância, neste sentido será importante verificar como a criança vem sendo vista historicamente no contexto social. Busco nesta parte da pesquisa bibliográfica a contribuição de autores que pesquisaram sobre o conceito de infância. O enfoque será evidenciado sobre as concepções de pesquisadores que aprofundaram seus estudos sobre as crianças do século XVII ao século XIX. Segundo estudos realizados por Ariès, no século XIII, a relação da família com a presença da criança comparava-se a uma relação de criação de um animal doméstico, como sugere o autor: A criança era tratada como um animal de estimação, se esta morresse logo era substituída por outra. A família não preocupava em ter relação de afetividade, se existisse era algo por acaso, não era respeitada como tal em sua especificidade, era considerada um adulto em miniatura no mundo das fórmulas românticas, e até o fim do século XIII, não existiam crianças caracterizadas por uma expressão particular, e sim homens de tamanho reduzido. (ARIÈS, 1981, p. 02) Segundo o autor, a criança neste sentido não ocupava um lugar de destaque na sociedade onde estava inserida. O sentimento e a afeição para com as crianças não eram expressos de modo significativo. Assim, o processo educativo das mesmas também não fazia parte das práticas sociais deste período. Seguindo a mesma linha de pensamento, Heywood afirma que neste período histórico, a criança morria na mais tenra idade devido ao descaso dos pais: Pode-se apresentar um argumento contundente para demonstrar que a suposta indiferença com relação à infância nos períodos medieval e moderno resultou em uma postura insensível com relação à criação dos filhos. Os bebês abaixo de dois anos, em particular, sofriam de descaso assustador; com os pais considerando pouco aconselhável investir muito tempo ou esforço em um “pobre animal suspirante”, que tinha tantas probabilidades de morrer com pouca idade. (HEYWOOD, 2004, p. 87) Devido a esse descaso em relação à criança, a família não tinha preocupação de mantê-la, a todo o momento, sob sua guarda. Neste sentido, esta era afastada desde pequena, passava a conviver com outra criança participando ativamente nas tarefas diárias, não aproveitando a fase de infância como fase de descoberta, indo assim, direto para a fase adulta. 435 Segundo Ariès (1981), as crianças não conviviam entre si, tinham o contato desde cedo com os adultos, frequentavam lugares que não eram apropriados, participavam dos trabalhos para aprenderem uma profissão. Essa condição de criança como adulto em miniatura, segundo Ariès, sofre uma transformação a partir do século XVII. Nesse período surge o sentimento de afeto e de carinho que leva a educá-las. Com esta nova visão, surgiram as instituições educacionais, permitindo que os adultos desvinculassem a antiga concepção em relação à criança. Em outras palavras, “compreenderam a particularidade da infância e a importância tanto moral como social e metódica das crianças em instituições especiais, adaptando a essas finalidades” (ARIÈS, 1981, p. 193). Neste enfoque, a criança passa a conviver com seus pares possibilitando uma transformação em relação a sua condição de ser criança. Antes era tratada como um adulto em miniatura, agora como um sujeito que possui suas especificidades. Apesar do reconhecimento da particularidade da infância, a criança perde um pouco da sua liberdade. A escola foi uma forma de retirada dessa liberdade conforme é relatado por Ariès: A escola confiscou uma infância outrora livre num regime disciplinar cada vez mais rigoroso, que nos séculos XVIII e XIX, resultou no enclausuramento total do internato. A solitude da família, da igreja, das moralidades e dos administradores privou as crianças da liberdade que ela gozava entre os adultos. Infligiu-lhe o chicote, a prisão, em suma, as correções reservadas aos condenados das condições mais baixas. Mas esse rigor traduzia um sentimento muito diferente da antiga indiferença: um amor obsessivo que deveria dominar a sociedade a partir do século XVIII. (ARIÈS, 1981, p. 287) O que antes era tratado como indiferença se transformou em uma forma de inserir a criança num outro momento da sua história, assim, ela vive outra fase de sua vida na história, sendo reconhecida por seus pais como um ser que precisa de cuidados, de amor e de educação. A construção do conceito de infância mundial não difere desta construção aqui no Brasil. No período de colônia a percepção de infância estava ligada a ideias higienistas com particularidade de fragilidade e ingenuidade. Apenas no final do século XIX aparece uma nova abordagem de infância brasileira, contudo, as crianças eram tratadas como adultos em miniaturas numa família patriarcal. A sociedade brasileira contemporânea ainda guarda resquícios das concepções do tempo de colônia, contudo, apresenta 436 inovações com relação à necessidade de políticas públicas específicas para esta faixa etária1. E a criança negra nesta construção de infância no Brasil? A população negra escravizada vinda de África contava com crianças a partir de 10 anos de idade. A vida de escravizado certamente negou a estes o período de infância, pois vinham para o Brasil para desempenhar trabalho nas lavouras. As condições de vida precária com relação a saneamento básico e saúde provocavam um alto índice de mortalidade infantil entre as crianças brancas. No caso da criança negra tudo isso era muito mais agravado. Segundo Pardal (2005) as mães negras eram obrigadas a retornarem ao trabalho três dias após o parto e para sobreviverem os bebês tinham que acompanhá-las amarradas às costas. As crianças nascidas de mães escravizadas não gozavam de nenhum direito. A autora esclarece que: Na primeira infância, até os 6 anos, a criança branca era geralmente entregue à amade-leite. O pequeno escravo sobrevivia com grande dificuldade, precisando para isso adaptar-se ao ritmo de trabalho materno. Após esse período, brancos e negros começavam a participar das atividades de seus respectivos grupos. Os primeiros, dedicando-se ao aprimoramento das funções intelectuais, e os segundos, iniciando-se no mundo do trabalho ou no aprendizado dos ofícios. (PARDAL, 2005, p. 5) A criança negra brasileira guarda a particularidade de ser filha do processo de escravização. Se aos pais era dado tratamento de animais que serviam ao trabalho, para as crianças restava serem vítimas de maus tratos devido à vida precária dos pais. Até a mais singela forma de afeto lhes era negada. O momento da amamentação, vital para o bom crescimento da criança, muitas vezes era negado, pois as mães, na maioria das vezes, eram obrigadas a serem amas-de-leite dos filhos dos senhores. A referida autora esclarece que as crianças filhas de escravas amas de leite eram destinadas as rodas dos expostos onde seus bebês eram tirados das mães e levados para entidades religiosas para adoção. Algumas vezes a própria mãe escrava levava seus filhos para a roda dos expostos, local onde eram abandonados devido à precária situação de sobrevivência que seus pais possuíam. As escravas viam nesta atitude uma tentativa de livrar seus filhos também da escravidão. Mott (1979) relata que: Esse horror à escravidão é tão grande, que eles não só se suicidam como também matam seus filhos para escapar dela. As negras são conhecidas como sendo ótimas mães (...) mas neste amor frequentemente as leva a cometer infanticídio. Várias delas, sobre tudo as negras Minas tem maior aversão a ter filhos e provocam aborto, precavendo-se assim, contra o desgosto de dar vida a escravos. (MOTT, 1979, p. 59) 1 A esse respeito ver: PRIORE, Mary Del. História das crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 1999. 437 A Lei do ventre livre foi a primeira demonstração de preocupação pública com relação à criança negra. Contudo, esta lei abria a possibilidade de que os senhores de escravos deveriam cuidar das crianças negras nascidas livres, até completarem 8 anos de idade, caso contrário elas deveriam ser entregues ao Estado. Acreditava-se que cerca de um sexto das crianças seriam entregues, o que não aconteceu. A maioria dos senhores optou por ficar com elas e utilizar os serviços dos menores até os 21 anos. Silva (2007) argumenta que: No final do século XIX, o Brasil passava por transformações; a escassez de mão-deobra escrava fez com que os senhores mantivessem não só as crianças nascidas livres, como amparassem órfãos para educá-los em suas fazendas, buscando na infância desamparada uma forma promissora de se resolver os problemas relativos à falta de mão-de-obra (FONSECA, 2004). E mesmo após a abolição, a questão das crianças negras nascidas livres passou a ser diluída em meio à questão dos problemas da infância pobre. (SILVA, 2007, p. 24) Portanto, a história da infância nos remete a perceber que a criança negra, passa por processos discriminatórios herdados da escravização de seus pais e que dificultou o processo de acesso ao sistema educacional. As discrições numéricas relativas à presença de crianças negras nas escolas nos períodos de colônia e império brasileiros não são precisos, pois não havia o registro de pertença racial nos documentos da época. Contudo, historiadores têm tentado evidenciar esta presença mesmo sendo pequena. Apesar disso, os pesquisadores têm demonstrado que o processo educacional da população passava necessariamente por um processo de civilização da população inferiorizada através de um processo organizado de homogeneização cultural. A historicidade da população negra, marcada pelo processo de inferiorização, repercute diretamente na construção do conceito de criança negra. Enquanto a criança branca recebe uma nova conceituação social que lhe permite ter tratamento especial, a criança negra herda dos pais o tratamento de inferiorização e discriminação. Como apresentei anteriormente, as questões relativas ao reconhecimento da necessidade de escolaridade na infância são recentes. Por um longo período histórico não houve preocupação com a escolaridade das crianças. A educação infantil é uma invenção nova e também guarda suas especificidades. A educação é um direito de todos, conforme a Lei 9394/96 e em consonância com as deliberações do Estatuto da Criança e do Adolescente que assegura 438 (...) o direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas Leis; (...) direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho (...). Igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; direito de ser respeitado por seus educadores; e ter respeitados os valores culturais, artísticos e históricos próprios no contexto social da criança e do adolescente, garantindo-se a estes a liberdade de criação e o acesso às fontes de cultura. (BRASIL, 2008, p. 18) Portanto, a escola é uma instituição formal onde a criança necessita ter uma educação de qualidade voltada para um ensino que a transforme em uma pessoa crítica capaz de ser ativa na sociedade a qual pertence. Na educação infantil a criança não é vista somente com atitudes de cuidar, ela passa também pelo processo de educar; neste sentido, estas duas vias fazem parte do cotidiano da educação infantil que consiste em uma forma de contribuir para um desenvolvimento que visa à construção de um sujeito capaz de compreender o que lhe é proposto. Porém, “ao longo da história, a educação infantil não tinha como princípio a preocupação com a educação, mas somente com o cuidado. O foco das instituições com relação ao trabalho com as crianças era de cunho assistencial, o cuidar dos filhos das mães trabalhadoras” (KUHLMANN, 1998, p. 85). Para Campos (1994, p. 35) “esse cuidar como prática da educação infantil inclui todas as atividades ligadas ao cotidiano de qualquer criança: alimentar, lavar, trocar, curar, proteger, consolar, todas as atividades que são integrantes ao educar”. Já o educar caminha para outra posição que abrange nova forma de entender a aprendizagem para a criança. Para o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI), educar é: (...) propiciar situações de cuidados, brincadeiras e aprendizagens orientadas de forma integrada e que possam contribuir para o desenvolvimento das capacidades infantis de relação interpessoal, de ser e estar com os outros em uma atitude básica de aceitação, respeito e confiança, e o acesso, pelas crianças, aos conhecimentos mais amplos da realidade social e cultural. (BRASIL, 1998, p. 23) Portanto, acredita-se que o que é mencionado no RCNEI, é o que realmente tem que ser a proposta da educação infantil. Deve haver o compromisso com o desenvolvimento integral da criança, dando um suporte significativo na construção de um cidadão consciente, não só dos seus deveres, mas também dos seus direitos. Assim cabe às instituições escolares proporcionar a estas crianças o conhecimento destes 439 deveres e direitos, para que, quando inseridos no mundo fora da escola, possam fazer com que estes sejam validos. Entende-se que a educação da criança não possa ficar apenas ligada ao cuidar. Este processo deve ter o objetivo de educar, que se torna um fator de transformação de vida com o objetivo de ser uma pessoa capaz de viver e conviver bem nas suas relações com a sociedade a qual está inserida, fazendo com que as diferenças sejam vistas de forma rica para nossa sociedade, pois o nosso país tem uma grande diversidade cultural, e a raça negra teve uma grande contribuição para que esta diversidade se estabelecesse, desde a nossa colonização. Assim, a criança em contato com o professor e com as outras crianças cria situações que juntas e num consenso buscam de forma interativa ações de aprendizagens. A educação infantil na perspectiva de educar é de suma importância para o desenvolvimento da criança. Nesta fase são estabelecidas trocas significativas para que ela, na convivência e na interação com o outro, estabeleça formas de aprender, de respeitar as críticas, de ser competitivo, de saber ganhar e perder tendo como mediador o professor. Neste contato com o outro, a criança descobre situações de conflitos e de troca de experiências que podem trazer influências positivas ou negativas. As crianças neste período se desenvolvem nos aspectos tanto cognitivo quanto do social e emocional como ressalta Cavalleiro: Assim é na fase da educação infantil que o professor terá condições de desenvolver uma construção de ética, de moral, de cidadania em seus alunos, nesta fase as crianças são passíveis de influências do meio que podem determinar consequências negativas para a vida adulta. (CAVALLEIRO, 2000. p. 38) Segundo a autora, a fase da educação infantil é prioritária para a construção da imagem da criança. A criança se descobre num ambiente de novos conhecimentos capaz de perceber através dos outros a sua própria concepção de mundo. O professor, neste caso, tem que estar apto a desenvolver uma concepção diferenciada voltando-se para a criança como um ser construtor da sua história e sendo o mediador fundamental neste desenvolvimento, proporcionando a ela situações que se insiram em contextos diversos, para que aprenda sobre a diversidade e tome consciência de que faz parte de uma sociedade heterogênea. 440 ESPAÇO ESCOLAR. E O PAPEL DA ESCOLA? A família, em primeiro lugar, tem que proporcionar à criança condições para que esta cresça num ambiente de respeito, da mesma forma a escola possui um papel de total importância na construção de valores. Conforme Cavalleiro (2000, p. 17), “a experiência escolar amplia e intensifica a socialização da criança”, pois ao entrar em contato com o mundo, ela saberá se posicionar perante os problemas que irá encontrar na convivência com o outro. No processo de interação da criança, o preconceito é mais evidenciado primeiramente no âmbito escolar; a família, pelo contrário, evidencia o valor e o respeito pela criança. Cavalleiro (2000, p. 100) afirma que “no lar, diante das pessoas próximas, a criança negra é respeitada nas suas características, seu comportamento não é recriminado nem ela é vítima de humilhações constantes baseadas em seu pertencimento étnico.” Neste contexto, para a formação da criança, a escola é prioritária no que se relaciona ao convívio interétnico. A convivência com o diverso lhe proporciona experiências significativas que podem ser positivas ou negativas. Segundo RCNEI (BRASIL, 2006, p. 30), “os educadores devem promover a reflexão sobre a imagem de criança, pois isso possibilita a compreensão das singularidades e potencialidades de cada criança. Tal prática pedagógica pode contribuir para promover condições de reflexões e de redução da desigualdade racial.” Na educação infantil, a criança começa a formar a sua identidade. É no contato com outros grupos que ela se descobre e aprende sobre suas diferenças interagindo e percebendo tudo o que a cerca. Para Cavalleiro (2000, p. 19) “a identidade resulta da percepção que temos de como os outros nos veem”. Neste sentido, pretende-se afirmar que a identidade se dá num processo de trocas de experiências como comenta Godoy: A socialização, o processo de interiorização e assimilação da realidade social pela criança, as normas da sociedade a que pertencem, os tipos de relações que se estabelecem durante o seu desenvolvimento intelectual e social dependem do tipo de experiências que pode promover interação. E é nessa interação que a criança descobre quem ela é à medida que vai aprendendo, extraindo dela sua identidade, seus papéis e uma visão mais ampla, interiorizando, assim seu mundo. (GODOY, 1996, p. 78) Para a criança branca, essa visão não traz grandes conflitos, pois ela se reconhece pertencente a um ambiente que não a hostiliza. O ambiente escolar na sua 441 perspectiva homogeneizadora é majoritariamente um ambiente eurocêntrico. O mesmo não pode se dizer da criança negra. O ambiente eurocêntrico nega e inferioriza a cultura e o conhecimento da criança negra. Assim, ela se sente excluída, não se sente pertencente ao mesmo grupo. A criança negra, devido a sua interação com o outro, descobre que existem características físicas diferenciadas. A criança descobre o racismo na escola. O entendimento de suas características de forma estereotipada e ridicularizada faz com ela se sinta excluída. Assim inicia o processo de autonegação da imagem e a formação identitária marcada pelo preconceito. Cavalleiro (2000) esclarece que a identidade da criança negra é construída nas relações com as demais crianças, principalmente pela indiferença do outro que força uma identidade de negação. Numa sociedade como a nossa, na qual predomina uma visão negativamente preconceituosa, historicamente construída, a respeito do negro e, em contrapartida, a identificação positiva do branco, a identidade estruturada durante o processo de socialização terá por base a precariedade de modelos satisfatórios e a abundância de estereótipos negativos sobre os negros. (CAVALLEIRO, 2000, p. 19) Em seu trabalho, Cavalleiro (2000) evidencia que a criança negra passa por situações de preconceito e de discriminação. A educação infantil é um período de buscar o seu próprio espaço e a construção da sua identidade. É o lugar onde as crianças se interagem uns com os outros reconhecendo-se como um sujeito social. Nessa relação de reconhecimento a criança negra julga-se fora dos padrões ditos normais para compor. Em uma sociedade em que ter a pele branca e o cabelo liso são características positivas, ter o corpo negro e o cabelo crespo são características negativas, como argumenta: Isso leva a supor que uma imagem desvalorativa /inferiorizante de negros, bem como a valorativa de indivíduos brancos, possa ser interiorizada, no decorrer da formação dos indivíduos, por intermédio dos processos socializadores. Diante disso, cada indivíduo socializado em nossa cultura poderá internalizar representações preconceituosas a respeito desse grupo sem dar conta disso por acreditar ser o mais correto. (CAVALLEIRO, 2000, p. 20) Os padrões de beleza embasados na cultura eurocêntrica acabam por fazer com que o sujeito, fora destes padrões, seja tratado como se fosse pessoa anormal ou inferiorizada. A mídia reforça este padrão ao colocar em suas propagandas o personagem branco em foco positivo, transferindo credibilidade à marca anunciada. Em contrapartida, o personagem negro não aparece, pois sua imagem é tida como negativa incapaz de ser relacionada a algo positivo e bom. 442 Tais características existentes na sociedade como um todo, refletem diretamente na escola e nas práticas pedagógicas. Atitudes preconceituosas em relação a crianças fazem com que os professores comparem e classifiquem os seus alunos. Com este tipo de atitude, na maioria das situações, a criança negra é excluída. Assim, “as crianças brancas são referidas por meio de apelidos carinhosos: branquinha, princesa enquanto que as crianças negras são rotuladas com apelidos que reforçam a inferioridade de como neguinho, furacão negro entre outros” (OLIVEIRA; SILVA; PINTO, 2005, p. 32). O afeto, o contato físico com a criança negra é visto como algo indesejado pelo professor que pretere carinhos e afagos a ela. Ao se aproximar mais das crianças brancas, os professores afirmam a sua preferência negando que existem na sua sala outras crianças que precisam também do seu carinho e de sua atenção reforçando assim a condição de exclusão e de direitos iguais para todos contribuindo para que a criança negra se sinta mais desvalorizadas e levando a estas uma baixa estima (CAVALLEIRO, 2000). Assim, as Orientações e ações para a Educação das relações étnico-raciais afirmam que: Faz-se necessário que as demonstrações de afeto sejam manifestadas para todas as crianças indistintamente. Colocar no colo, afagar o rosto, os cabelos, atender o choro, consolar nos momentos de angústia e medo faz parte dos cuidados a serem dispensados a todas as crianças. (BRASIL, 2006, p. 38) Dentro dessas ações também é verificado o preconceito por meio das brincadeiras entre crianças que não sofrem interferência da professora. Geralmente o papel assumido pela criança branca é o de mãe, o de filha, o de pai e para as crianças negras são atribuídos os papéis de empregada e de babá. Já nesta fase, a criança se vê ocupando o lugar da pessoa sem referência familiar e de inferioridade social. O que fica evidenciado é que no âmbito escolar, local apropriado para promover as diversidades como forma de valorização pelo outro, tem promovido práticas educativas que reforçam o preconceito e a discriminação. O aluno negro passa por situações de constrangimentos que na maioria das vezes são despercebidas pelos professores, ou estas situações são invisibilizadas julgando como atitudes sem importância. Para Cavalleiro existe receio por parte dos professores ao tratarem as relações étnico-raciais no contexto escolar: Tal discurso parece denunciar o medo que se tem em discutir a questão da convivência multiétnica na sociedade e no espaço escolar. Parece-me que está de 443 acordo com a sociedade. O silêncio sobre o tema aparece aqui como indicador da inexistência do problema. (CAVALLEIRO, 2000, p. 56) Assim, o ambiente escolar não está cumprindo o propósito de formação de cidadãos críticos e autônomos. A prática do silêncio reafirma a situação do branco como superior e a situação do negro fica reservada à condição de inferior. Cavalleiro faz indagações a respeito do real papel da escola na vida de qualquer sujeito, “a escola está formando ou conformando os indivíduos a uma realidade já estabelecida, não possibilitando, assim, a alteração dessa realidade?” (CAVALLEIRO, 2000, p. 35). Portanto, na escola é importante que haja reavaliação sobre o processo de formação dos professores. O profissional da educação tem papel prioritário para que a cultura negra seja reconhecida e valorizada por todos. O professor será o mediador neste processo, cabe a ele respeitar todos os seus alunos independentemente de raça e de cor, buscando trabalhar com a diversidade cultural que existe dentro da escola. Conforme a atitude do professor, este poderá desenvolver futuros homens/mulheres preconceituosos perpetuando as relações raciais vigentes na sociedade brasileira que exclui e divide negros, pobres, índios, homossexuais entre outros. O que se espera dos professores é que suas práticas pedagógicas promovam a desmistificação de condutas discriminatórias e preconceituosas oriundas da sociedade. Assim, a escola deve promover uma educação transformadora, que reconheça a existência das diferenças. Contudo, na perspectiva de respeito a elas para que no futuro sejam banidas da sociedade todas as formas de preconceito e haja maior abertura para a diversidade presente no mundo. A escola precisa se organizar para demonstrar a todos a importância da pluralidade racial na sociedade. Os educadores devem contemplar a discussão da diversidade racial da sociedade; discutir os problemas sociais, em suas diferentes proporções, que atingem os grupos raciais. Para isto, os educadores podem utilizar as notícias veiculadas pela mídia nacional, mostrando os prejuízos e as desvantagens acarretadas por se pertencer a determinado grupo. A ausência deste questionamento na escola mostra-se prejudicial ao grupo negro. Silenciar diante do problema não apaga as diferenças. (LIMA; ROMÃO; SILVEIRA, 1999, p. 55) Desta forma, o papel da escola e de uma educação das relações étnico-raciais é prioritário para que, desde a educação infantil, o combate às práticas discriminatórias seja efetivado. Tal prática contribuirá para a formação identitária de crianças negras baseadas na autoestima elevada. Consequentemente, as crianças brancas e negras envolvidas neste processo, serão capazes de ser pessoas livres de preconceito e de 444 buscar o seu próprio espaço dentro de uma sociedade que está cada vez mais seletiva. Só assim poderemos contribuir para a construção de um país mais democrático. CONSIDERAÇÕES FINAIS A questão racial brasileira é um fator que ainda causa desconfortos quando discutida em âmbito geral da sociedade bem como nas relações escolares. Observa-se que o mundo está em constante evolução tecnológica e industrial mesmo assim, ainda persistem o preconceito e as atitudes discriminatórias arraigadas nos pensamentos do ser humano que tanto cria e recria. Desse modo, conforme as leituras realizadas durante pesquisa bibliográfica busquei ressignificar o real papel da criança na sociedade da qual faz parte. Percebi que, segundo autores estudados, o sentido de ser criança passou por processos de desenvolvimento e de transformações. Antes a criança convivia no meio dos adultos e que se desenvolvia copiando os adultos sem ter suas próprias especificidades. Eram consideradas como cópias em miniatura dos adultos. Observa-se que, neste mesmo contexto, a criança negra passa pelo mesmo dilema de valorização, não é vista como um sujeito com necessidades e cuidados diferenciados. O conceito de criança negra foi historicamente sendo desenvolvido num ambiente de preconceito e de discriminação cujas heranças características vêm sendo transmitidas pela sociedade desde a escravidão. A escravidão marcou no imaginário nacional que o negro seria um ser inferior e não possuía um lugar de valor: nem ele, nem seus conhecimentos ou cultura. Desta forma, também a criança negra sofre por estar indefesa contra as críticas do outro, herdando, assim, as mesmas formas de preconceito e discriminação sofridas por seus pais. Pode-se afirmar que o preconceito racial é percebido desde muito cedo nas relações sociais das crianças. As mais simples brincadeiras denunciam atitudes racistas. Percebe-se que dentro desta perspectiva o que precisa ficar evidenciado é o real papel da educação infantil na promoção de uma educação comprometida em romper com o preconceito, proporcionando o suporte para um desenvolvimento significativo da criança. Portanto, as diferenças precisam ser focadas e discutidas no contexto da educação infantil. É neste primeiro contato com o outro que as identidades são formadas 445 e afirmadas como sendo positiva ou negativa, e tal processo de interação é prioritário para a formação da identidade. A escola passa a ter como obrigação fazer referências às diversidades existentes na nossa sociedade e dar voz à população negra que vem sendo excluída desde o início da colonização deste país. Contudo, os textos estudados explicitam que o que acontece é o inverso revelando a falta de preparo dos profissionais para lidar com as crianças negras. Desse modo, o que seria um ambiente de socialização passa a ser um espaço de exclusão. Os textos estudados revelam que a criança negra convive com o despreparo dos professores. Em consonância com os autores estudados, a educação infantil precisa sofrer alterações em suas concepções com relação ao desenvolvimento social, emocional e cognitivo da criança dando condições de acrescentar no seu cotidiano momentos de reflexão sobre as diferenças étnicas e dando a oportunidade de todos se conhecerem como diferentes, mas com a mesma importância. Dentro do mesmo ponto de vista, acredito que o silêncio tem que ser quebrado em relação ao diferente e às diversas culturas. O professor tem que estar atento a situações de conflitos dentro do contexto escolar e interferir de forma pedagógica nestas relações. Ao continuar o processo de silenciamento da escola sobre a questão étnica não será possível desmistificar as relações preconceituosas. O silêncio tem função de camuflar e conservar tal situação que é tão presente na sociedade. A criança negra continuará sendo apontada como inferior e a branca superior. Concluo que a Lei 10.639/03 veio de encontro à construção de uma nova sociedade e avança em evidenciar, no âmbito escolar, questões relativas à educação das relações étnico-raciais até então invisibilizadas. Da mesma forma, isso tem lançado vários desafios à prática docente que propõe uma visão mais ampla sobre um tema tão relevante e necessário. Assim, pensando na formação do sujeito, cabe aos profissionais da educação a responsabilidade de formar uma nova perspectiva de cidadãos, voltados para o respeito da diversidade cultural existente no nosso país. A sociedade pode reverter este quadro tão assustador. O silêncio tem que ser quebrado sendo necessário reformular novas formas de incluir de forma positiva a criança negra dando a ela, a oportunidade de êxito independentemente da sua raça, 446 promovendo a construção de cidadãos críticos que sabem diferenciar os seus direitos e deveres. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARIÈS, Philipe. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de janeiro: LTC, 1981. BRASIL. Lei n.º 9.394, de 20.12.96, Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: [s.n.], 1996. _______. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEF, Vol. 1, 1998. _______. Lei nº 10.639, de 09 de janeiro de 2003. Diário Oficial da República Federativa do Brasil. Poder Executivo, Brasília: DF, 10 jan. 2003. _______. MEC/CNE. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana. 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Estes revelam diferentes interpretações que a sociedade e os sujeitos têm a respeito das relações sociais: a identidade negra, raça, etnia, racismo, etnocentrismo, preconceito racial, discriminação racial e democracia racial. Os alvos, mesmo que inconsciente, sempre são os mesmos. Negros, mestiços, nordestinos, pessoas fora do padrão da moda, ou seja, obesos, magros ou altos demais, baixos ou anões e, diretamente, os mais pobres sofrem com a discriminação no Brasil. Um processo de marginalização destas pessoas pode ser apontado como uma das conseqüências da discriminação: para estes não será fácil arrumar um bom trabalho, estudo e, sobretudo, dignidade e respeito. O movimento reverso implica que a sociedade passe a ver o sujeito como ver a si mesmo sem ver cor. Apenas quando o Brasil passar a ver o sujeito como iguais uns ao outros saberá que o preconceito está mascarado, podendo assim lutar pelos direitos dos negros e de todos que são discriminados. Reflexo disso encontro em minha própria experiência como mulher negra, durante o período de escolarização básica, ocasião na qual não eram raras, as cenas marcadas por frases preconceituosas que se referiam ao meu cabelo e corpo negros e de aspecto muito magro. Uma visada empírica para a escola contemporânea permite-nos afirmar que o preconceito continua existente nessa instituição. Embora haja uma tentativa de se fazer 449 crer que o mesmo já tenha sido superado, é muito comum ainda hoje vermos as crianças brancas apontarem as crianças negras como feias, incapazes de aprenderem e até mesmo reproduzirem falas preconceituosas como “não façam serviço de preto”, entre outras semelhantes. Diante desses fatos, o presente trabalho tem como objetivo demonstrar, através de relatos, como os sujeitos interlocutores experienciaram essas relações durante sua escolarização. Para tanto, entrevistamos ex-estudantes do ensino básico e optamos por trabalhar com uma amostragem de quatro sujeitos, todos do sexo feminino, que se encontram na faixa etária de 24 a 40 anos. Todas concluíram o ensino fundamental e pararam seus estudos no segundo ano do ensino médio. Esse caminho metodológico tem raízes nas proposições de pesquisas de caráter qualitativo, vinculadas à investigação das expectativas dos sujeitos por amostragem. Tal escolha permite segundo André (1995), descrever significados que são socialmente construídos e, por isso, subjetivos, conhecer características não estruturadas, mas ricas para fins de estudo. A coleta de dados foi realizada em momentos diferentes, pois se buscou primeiramente localizar tais sujeitos e realizar um primeiro contato a fim de confirmar suas disponibilidades para a pesquisa. A partir disso, fizemos um questionário cujas questões foram conduzidas em conversas informais. Todas as respostas foram anotadas, primando pela não identificação direta dos sujeitos. O tratamento dos dados apontou para o mesmo cenário que viemos de descrever a título de experiência pessoal. Exemplo disso reside em parte do relato apresentado por uma das informantes, conta que as p