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EID&A
Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação
ISSN 2237-6984
Editores
Eduardo Lopes Piris
Emília Mendes
Isabel Cristina Michelan de Azevedo
Moisés Olímpio Ferreira
Paulo Roberto Gonçalves Segundo
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Indexada em:
EID&A: Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação
Departamento de Letras e Artes – Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC)
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Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação
O DISCURSO SOBRE O BRINQUEDO NA MÍDIA ELETRÔNICA E A
CONSTRUÇÃO DE SENTIDOS SOBRE MASCULINO E FEMININO
Marina Coelho Pereirai
Soraya Maria Romano Pacíficoii
Resumo: Este trabalho objetiva analisar, à luz da Análise do Discurso pecheutiana (AD),
o discurso publicitário sobre o brinquedo na construção de sentidos sobre masculino e
feminino. O corpus é constituído por um recorte de um blog que veiculou propagandas
de brinquedos bem como pelos comentários do blogueiro a esse respeito. O blog foi
selecionado a partir de uma busca na internet utilizando as palavras-chave: gênero,
propaganda, brinquedo. Os resultados apontam que as propagandas e os anúncios de
brinquedos destinados à criança, como analisados, legitimam os sentidos tecidos sóciohistoricamente para masculino e feminino, reforçando a separação de gênero. Com
base nisso, defendemos que a escola deve constituir-se como um contraponto ao apelo
publicitário e ser um lugar de (trans)formação, especialmente, no que se refere a
brinquedos e brincadeiras. O professor, nessa perspectiva, deve colocar em curso
discursos abertos à polifonia, os quais coloquem os sujeitos-alunos em contato com
inúmeras possibilidades de sentidos e interpretações sobre criança, brinquedos,
brincadeiras e gênero. Desse modo, os alunos terão a oportunidade de aprender que o
sentido pode vir a ser outro.
Palavras-chave: Discurso. Sujeito. Brinquedo. Gênero.
Abstract: The objective of this paper is to analyze, in the spotlight of peuchetian
discourse analysis (DA), the senses that go around about the toys, related to the idea
they bring on male and female. Our corpus consists of a blog that brings advertisements
for toys, as well as the blogger opinion. The blog was selected from a seach using the
keywords: gender, advertisement, toys. The results indicate that advertisements and
announcements for the child legitimize the socio-historical sense produced for male and
female. The school, however, must constitute itself as a counterpoint to the advertising
appeal and be a place of (trans) formation, especially in relation to toys and games. The
teacher, in this perspective, should produce and present discourses open to polyphony,
which put the students in contact with numerous possibilities of senses and
interpretations, about children, toys, games and gender. This way, they will have the
opportunity to learn that the sense may prove to be another.
Keywords: Discourse. Subject. Toys. Gender.
i Mestranda em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da
Universidade de São Paulo (FFCLRP/USP), Brasil. E-mail: [email protected].
ii Docente da Universidade de São Paulo (FFCLRP/USP), Brasil. E-mail: [email protected].
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PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na
mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista
Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102,
jun.2014.
Introdução
Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a
mesma - na princesinha e na mendiga. E para ambos é a
boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois
momentos divino à vida da mulher: o momento da
boneca - preparatório -, e o momento dos filhos definitivo. Depois disso, está extinta a mulher
(Negrinha, Monteiro Lobato).
Este artigo pretende discutir e investigar em que medida o discurso
publicitário que circula sobre os brinquedos – e o brincar – interfere na
construção dos sentidos sobre os gêneros, masculino e feminino, na
contemporaneidade. Para tal, buscamos, no discurso publicitário veiculado
pela internet, indícios de determinado funcionamento discursivo que nos
oferecesse pistas sobre a contextualização sócio-histórico-ideológica desses
discursos.
O trabalho está ancorado na Análise do Discurso (AD) pecheutiana,
teoria que articula três campos de saber: a linguística, o materialismo histórico
e a psicanálise. A escolha pela AD se deu por ser esta um dispositivo de análise
discursiva que considera o contexto sócio-histórico-ideológico que sustenta a
construção dos sentidos de maneira a oferecer instrumentos para uma análise
que não se fecha no sistema linguístico. A realização deste justifica-se,
partindo da ideia de que se os brinquedos podem favorecer as singularidades
das crianças e ampliar suas experiências de socialização, da maneira como lhes
são apresentados, discursivamente, eles podem contribuir para a cristalização
dos sentidos dominantes sobre os gêneros. Desde criança, meninos e meninas
têm suas brincadeiras “pré-escolhidas”: existem os brinquedos “de menino” e
os “de menina”. Nas lojas de brinquedos, por exemplo, assim como nas
propagandas voltadas para os pequenos, os sentidos sobre masculino e
feminino ainda se sustentam nos sentidos tecidos desde tempos remotos, da
mulher dona de casa e do homem provedor da família. Entende-se, então, que
os sujeitos são cerceados já na infância, “treinados” desde cedo - tanto em
casa quanto na escola - para atividades que exercerão na vida adulta, pois as
meninas devem brincar de casinha e os meninos ficam com as brincadeiras de
aventura, por exemplo.
Diariamente é possível encontrar - ao assistir à televisão ou folhear uma
revista - sentidos ditos adequados para feminino e masculino e, pelo efeito da
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PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na
mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista
Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102,
jun.2014.
ideologia, esses sentidos nos passam a ideia de que sempre existiram e não
poderiam ser diferentes. Há ocupações voltadas para homens e habilidades
que mulheres devem ter, apenas pelo fato de serem mulheres. Sentidos
amplamente repetidos até parecerem naturais. Com este artigo, pretendemos
despertar a atenção do leitor para uma questão que nos é tão cara: o discurso
sobre o brinquedo afeta a construção dos sentidos sobre masculino e
feminino?
Para responder a essa questão, voltamos nosso olhar à mídia
publicitária. É sabido que grande parte da população, hoje, tem acesso a esse
meio de comunicação. Muito do tempo que antes a criança passaria com seus
pais é hoje dedicado à televisão, e por diversos motivos que não nos cabe
analisar agora. Sendo assim, parte da educação das crianças é exercida por
ela. Partindo daí, não é difícil deduzir que, numa sociedade baseada no
consumo como a contemporânea, a publicidade também teria seu espaço
nesse nicho tão lucrativo, que é a infância.
Não somente a mídia televisiva, como também a mídia impressa ou
eletrônica funcionam como espaços que põem em circulação sentidos sobre
brinquedo e gênero. A mídia tenta a qualquer custo controlar e “antecipar” as
vontades dos sujeitos, colocando-se em todos os âmbitos possíveis para
seduzir seus alvos. Neste trabalho, voltamos nossa escuta para a mídia
eletrônica para coletar nosso corpus e proceder às análises.
A mídia publicitária e seu papel na infância da contemporaneidade
Sempre baseada na imagem de algo melhor, a publicidade não só faz
circular sentidos considerados “adequados” para o sujeito, como define o que
deve ou não ser consumido. Nesse movimento, leva os sujeitos a consumirem
da maneira que melhor lhe interessa: intensamente. E exerce poder sobre
eles. A mídia publicitária aproveita-se da divisão sexual do trabalho
historicamente construída para categorizar os sujeitos. Assim, cria-se um nicho
de consumo destinado a cada uma dessas categorias e, por meio do discurso
publicitário, o sujeito é levado a consumir os produtos que lhe são destinados.
Ocorre uma identificação do sujeito com determinados sentidos e, então, ele
sente a necessidade de consumir, na ilusão de aproximar-se daquilo que
imagina ou deseja ser/ter. E se estamos todos – inconscientemente,
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PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na
mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista
Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102,
jun.2014.
ideologicamente - sujeitos a esse processo, o panorama se torna ainda mais
cruel quando voltamos o olhar para o sujeito-criança.
A mídia, em seus mais diversos formatos, tem o poder de determinar
e/ou legitimar lugares e papéis aceitáveis, desejáveis e, até mesmo,
obrigatórios para masculino e feminino. Na contemporaneidade, ela é mais um
lugar de realização da ideologia dominante. E o grande contato que as
crianças têm com a televisão e a internet, por exemplo, faz destas mídias
companheiras constantes dos pequenos. Vale lembrar que os pequenos
aprendem não apenas em situações dedicadas ao ensino-aprendizagem.
Aprendem - e apreendem - o tempo todo e com tudo o que têm contato.
Expostos a todo tipo de publicidade, estão constantemente vulneráveis e são
facilmente capturados pela ideia do consumo.
Os sentidos sobre criança, da maneira como entendemos a infância, isto
é, na perspectiva discursiva, não são compreendidos como um processo
natural, mas sim, construídos socialmente. Sentidos que circulam hoje
poderiam ser outros, de modo a contribuir para a construção de novas
interpretações e possibilidades para ser criança, e no caso do nosso trabalho,
para ser menina ou menino. O mesmo ocorre com o brinquedo. Se o
compreendemos dessa maneira, percebemos nele toda a materialidade
historicamente construída e impossível de dele ser dissociada. A criança,
quando se utiliza do brinquedo, logicamente, não está consciente de todo
esse processo. Mas faz parte dele. E já começa a, desde pequena, ser
capturada pela ideologia que circula nos discursos, tanto no que se refere à
produção desse instrumento quanto em relação a seu uso. Se temos a
impressão de que certo sentido é imutável, sempre foi assim e não poderia ser
diferente, esse efeito se dá pela ideologia que constitui o sujeito; a ideologia
tem um funcionamento muito específico e atua sempre e sem que o sujeito se
dê conta. Concordamos com Ferreira quando afirma que
[...] por força do efeito do discurso midiático, nos sentimos vivenciando […]
esse sentimento “funesto” de estarmos expostos a tudo, sabermos de tudo,
para o bem ou para o mal. E precisamente por conta desse 'tudo' é que
acabamos ficando muito perto do 'nada'. Ou seja, um excesso que, em seu
transbordamento, conduz à falta (FERREIRA, 2008, p. 14).
O discurso midiático, nesse contexto, apresenta ao sujeito uma
quantidade imensa de informações, mobilizando sentidos que o capturam
num movimento de constante “saturação e esvaziamento da memória”, como
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PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na
mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista
Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102,
jun.2014.
escreve Ferreira (2008, p. 14). E, se a vida, na atualidade, é corrida e atribulada,
a mídia se vale dessa condição para mostrar-se onipresente e fazer circular um
discurso que, ainda de acordo com a autora, “tenta nos constituir num
verdadeiro 'processo sem início nem fim' […]” (Idem, p. 15).
Análise de Discurso pecheutiana: uma breve contextualização
Pretendemos, à luz da AD, analisar como os brinquedos são
discursivizados pela mídia eletrônica e quais sentidos sobre masculino e
feminino esses discursos colocam em circulação. A interpretação desses
sentidos será possível por meio da busca de indícios que circulam nas marcas
linguísticas presentes nos textos analisados - haja vista que entendemos por
texto tudo aquilo que faz circular sentidos. De acordo com Orlandi e Lagazzi
(2006), texto é elemento privilegiado por estar presente nas mais variadas
áreas do conhecimento. Portanto “a vocação da linguagem é ser texto”
(Idem, p. 9). Para o analista de discurso, o texto é unidade de análise, de
sentido.
De acordo com os pressupostos da Análise de Discurso, o dado é
considerado um indício de um determinado tipo de funcionamento que se
mostra nas marcas formais, linguístico-discursivas. Não são postuladas
categorias prévias de análise, uma vez que a construção e a organização dos
dados dependem de mecanismos de interpretação que só podem ser
aplicados após a constituição do corpus.
Ao produzir sentidos, o sujeito o faz a partir de um lugar - e não de outro.
Ao analisar o discurso, o sujeito deve estar atento a diversas possibilidades de
interpretação. Não se trata de querer ver através do que está posto, isso
porque a linguagem é uma construção histórica e não é transparente. Como
afirmam Pêcheux e Gadet (2011), a língua não pode ser tomada pela realidade já
que o texto perderia muito em criatividade. Mais interessante é perceber a
linguagem em sua opacidade e o sujeito, para a AD, é igualmente opaco. Há
muito mais entre o que o sujeito disse, aquilo que pretendeu dizer e o que foi
efetivamente compreendido de seu discurso.
Além disso, não é possível escamotear o fato de que a interpretação
pode estar vinculada à ideologia das classes dominantes. Dessa maneira, a
interpretação deixa de ser livre, pois está ligada a vozes que controlam os
sentidos que podem ou não circular (PACÍFICO, 2002), e a mídia é uma voz que
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PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na
mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista
Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102,
jun.2014.
tem o poder de produzir e divulgar sentidos. Sabemos que a interpretação
possui relação direta com a ideologia e, dessa forma, vale lembrar que a
ideologia é tomada, neste trabalho, como um mecanismo que naturaliza os
sentidos de maneira que pareça natural atribuir determinados sentidos às
palavras e não outros. “A leitura não envolve somente conhecimentos
linguísticos, e, sim, a articulação da língua com o contexto sócio-históricoideológico” (PACÍFICO, 2002, p. 3).
Partindo disso, entende-se, consoante a AD, que sendo a leitura uma
articulação da língua com a situação sócio-histórico-ideológica, sujeito e
sentido se constroem junto com o texto, em um contexto que nunca é neutro,
tampouco é neutra a interpretação.
A escuta discursiva, sob a forma de um gesto de interpretação do analista vai
consistir em trabalhar, a partir das lentes de seu dispositivo teórico-analítico, a
opacidade desses textos e hipertextos que circulam por mídias mais diversas,
desnaturalizando o que parece natural, pondo em questão o que se apresenta
como evidente e trazendo à presença o que se mostra ausente (FERREIRA,
2008, p. 21).
Uma análise, dessa forma, considera o texto em funcionamento –
discurso – e em sua materialidade. Mais ainda, é também importante, além do
que foi dito, o não dito, pois ao dizer X o sujeito não disse Y. De acordo com
Pêcheux (1995), o sentido das palavras não é transparente, literal, mas sim,
dependente das formações ideológicas de quem as interpreta, e assim,
poderiam sempre ser outros. Como afirma Orlandi (2005, p. 20) “os sentidos e
os sujeitos poderiam ser sujeitos ou sentidos quaisquer, mas não são. Entre o
possível e o historicamente determinado é que trabalha a análise de discurso.
A determinação não é uma fatalidade mecânica, ela é histórica”.
Sobre o corpus
O corpus aqui analisado é constituído de um recorte de um blog que
encontramos na rede eletrônica. Partindo de uma busca simples, através da
ferramenta imagens, recorremos às palavras-chave gênero, brinquedo e
propaganda. Diante da lista de imagens que foram selecionadas pelo site de
busca, selecionamos as que nos chamaram a atenção porque nelas
encontramos indícios do funcionamento discursivo que buscávamos. Tratavase de um blog que, além de apresentar textos visuais de propagandas e
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PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na
mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista
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embalagens de brinquedos, ainda trazia textos escritos pelo próprio
blogueiro, nos quais ele tecia comentários sobre brinquedos e gênero.
Sobre as análises
Com base no exposto, iniciaremos as análises de uma postagem de um
blog que selecionamos em uma busca feita na internet, pelo fato de o mesmo
colocar em circulação propagandas e sentidos sobre brinquedos. Para isso, é
importante explicitar a noção de recorte, que será nossa unidade de análise. A
AD trabalha com a noção de texto, como já mencionado, tendo o recorte uma
relação de constituição histórica do sentido do texto. Para Orlandi e Lagazzi
(2006, p. 139), recorte pode ser entendido como “[...] uma unidade discursiva:
fragmento correlacionado de linguagem - e situação”.
Dessa forma, o recorte analisado não deve ser compreendido como
estrutura linear, mas sim como pedaço do discurso, no qual estarão
materializados, linguisticamente, indícios de um modo de funcionamento do
discurso sobre brinquedo e gênero. O recorte a seguir, que chamaremos de
recorte 1, é constituído pelo dizer do blogueiro (em moldura) e pelas
propagandas de brinquedos (textos visuais) que ele comenta, como se
estabelecesse um diálogo com o leitor. Vejamos:
Recorte 1 - Textos (escrito e visual) do blog Nerd Pai:
Será que alguma coisa mudou para as mulheres desde 1950?
Claro, muita coisa mudou e avançamos MUITO em igualar os direitos entre
homens e mulheres. Não irei listar aqui pois é uma grande lista e espero
que continue a crescer.
Mas as propagandas de brinquedos ainda empurram as meninas para a cozinha!
Olhe essa propaganda de um jogo dos Anos 50:
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mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista
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Figura 1 – Texto visual 1
Vamos ampliar um pouco o canto superior direito?
Figura 2 - Texto visual 2
E os brinquedos de HOJE, como são? Evoluímos?
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mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista
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jun.2014.
Figura 3 - Texto visual 3
Bem, tenho uma amiga que defende esses brinquedos para as meninas. O
argumento:
“Uma mulher que não sabe o mínimo de limpeza, culinária ou de como arrumar uma
casa, é horrível. Os homens não têm essa noção e nem vão ter! Se esses dois casarem,
imaginem como vão viver?”
Não concordo com isso. Os homens conquistaram tantos outros direitos como as
mulheres. A organização da casa não é e nem deve ser exclusiva da mulher. Separar
tarefas hoje em dia é a fórmula do sucesso de um Casal! E, como uma empresa, você
precisa saber fazer tudo e mais um pouco.
E você, o que acha?”
O autor do blog analisa, a partir de imagens de propagandas de
brinquedos, o que se transformou em relação às mulheres. Ele aponta que
“muita coisa mudou” para a mulher; entretanto, as propagandas de
brinquedos ainda continuam a reproduzir sentidos que sustentam que “o
lugar da mulher é na cozinha”.
Observando o texto visual 1, vemos que brincando estão pai e filho. A
brincadeira é “batalha naval”, que simula uma guerra em alto mar, além de ser
um jogo que exige dos participantes estratégia e concentração. De acordo
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PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na
mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista
Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102,
jun.2014.
com o que está representado, esse é um jogo voltado para o sexo masculino,
já que não há ninguém do sexo feminino jogando.
Se considerarmos a relevância que tem para a sociedade a ilusão de um
mundo “semanticamente estabilizado” (PÊCHEUX, 1997), não estranharemos
o que está no texto visual 2. Trata-se de uma ampliação do canto superior
direito do texto visual 1 - que é a própria embalagem do jogo - na qual vemos
que mãe e filha lavam a louça e sorriem enquanto os homens se divertem. As
mulheres têm que dar conta dos seus afazeres domésticos, em um trabalho
que não tem horário determinado para acabar. Os homens, em posição de
relaxamento, podem desanuviar a cabeça com um jogo, descansar depois de
um dia de trabalho terminado, no caso do pai. O dia de trabalho das mulheres
não acaba tão cedo: o descanso e a descontração que os homens têm com o
jogo não são possíveis a elas, de acordo com os sentidos que circulam nesse
texto visual.
No texto visual 3, encontramos embalagens de brinquedos e
propagandas que circularam no século XX - e ainda circulam - nos dias de hoje.
Vemos imagens de meninas, exclusivamente. Todas brincando com
miniutilitários domésticos, reproduzindo os sentidos da mulher que cuida da
casa, que não trabalha no espaço público e tem como função única a casa e os
cuidados com a família. Há ainda a predominância da cor rosa, muito associada
ao feminino e com a qual boa parte das meninas se identifica, não por acaso.
Nos brinquedos mostrados há participação ativa das meninas limpando,
lavando, servindo, cozinhando: todas essas ações fortemente relacionadas ao
lar e aos cuidados com a família. Serão esses os sentidos sobre mulheres que
ainda circulam entre as famílias na contemporaneidade?
Uma escuta mais atenta ao que é discursivizado, hoje, leva-nos a
interpretar que há certa mudança nos sentidos que estão sendo construídos
para masculino e feminino. Fato que pode ser percebido pelo texto do próprio
blogueiro, que traz um estranhamento e contesta as imagens que ele
encontrou nas embalagens e propagandas dos brinquedos. O blogueiro reúne
as imagens, organiza-as na tela, intercaladas ao texto escrito, movimento que
cria determinados efeitos de sentido, e tece os comentários que ele julga
apropriados, ou seja, estranha o que vê de tal maneira que se faz necessária a
construção de um texto para, posteriormente, ser tornado público na
internet, para um número incontável de leitores. Além disso, ao incluir o texto
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PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na
mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista
Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102,
jun.2014.
de sua amiga “que defende esses brinquedos para as meninas”, no qual temos
que “uma mulher que não sabe arrumar a casa é horrível”, o blogueiro marca
que não concorda com o que ela diz, que não se inscreve nas formações
discursivas nas quais esses sentidos cabem.
Se, para a amiga, o fato de essa mulher “que não tem essa noção e nem
vai ter” tornará sua vida incerta, no casamento, para o blogueiro, o
movimento é diferente. Ele inscreve-se em uma formação discursiva que
materializa dizeres sobre os homens que também conquistaram seus direitos
e, a partir daí, cuidar da casa e dos filhos é visto não mais como ajuda, e sim
como direito dos homens. Podemos citar, como exemplo, a luta masculina
pela licença paternidade. Mas, na visão da amiga, a mulher deve aprender os
afazeres domésticos, já que, de acordo com o que ela diz, um homem não o
fará, por ser homem, por ter outros afazeres com os quais se importar. Há, aí,
um efeito da ideologia naturalizando as ocupações do homem como
superiores às da mulher, já que ele teria outros afazeres, mais importantes do
que aqueles que realizam as mulheres, no espaço doméstico. Um homem não
faria tais atividades simplesmente por ser homem, como se essa condição
justificasse - e explicasse - toda a construção histórico-ideológica que coloca
homens e mulheres nos lugares em que estão hoje. Se esses são sentidos
dominantes é pela ideologia que eles se mantêm circulando.
A evidência, produzida pela ideologia, representa a saturação dos sentidos e dos
sujeitos produzida pelo apagamento de sua materialidade, ou seja, pela sua deshistorização. Corresponde a processos de identificação regidos pelo imaginário e
esvaziados de sua historicidade. Processos em que perde-se a relação com o
real, ficando-se só com (nas) imagens. No entanto há sempre o incompleto, o
possível pela interpretação outra. Deslize, deriva, trabalho da metáfora
(ORLANDI, 2005, p. 55).
Vale enfatizar que, no recorte analisado, de acordo com o dizer da
amiga, temos que, além de ser quase um dever da mulher saber limpar,
cozinhar e arrumar a casa, ela deve fazer tudo isso almejando um casamento.
Sabemos que esses sentidos - ainda que dominantes em alguns círculos sociais
-, atualmente, vêm se transformando e, nesse movimento, novas
possibilidades aparecem. Porém, aqui, é importante marcar que, ainda hoje,
circulam sentidos que tentam congelar os papéis que homem/mulher tinham
(ou têm) na sociedade há sessenta anos, como nos mostram os textos visuais
1 e 2. Se, nas propagandas de brinquedos, destinadas às crianças os sentidos
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PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na
mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista
Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102,
jun.2014.
estão engessados, interpretamos que isso estanca a migração dos sentidos
que, na contemporaneidade, tentam instalar-se em outras formações
discursivas sobre masculino e feminino.
Finalizando, é possível notar na fala do blogueiro a comparação entre o
casamento e uma empresa, como podemos ler em “como uma empresa, você
precisa saber fazer tudo e mais um pouco”. Gostaríamos de chamar a atenção
para esse ponto já que percebemos que as relações humanas são postas numa
perspectiva empresarial, pois, acredita-se que dessa maneira as relações
seriam otimizadas, utilizando um termo da área. Assim, a divisão das tarefas,
em casa, seria feita com maior eficiência, como se acredita serem feitas nas
empresas, numa lógica que admite apenas duas possibilidades e condiciona
pessoas a isto ou àquilo, desconsiderando as nuances e tons presentes em
qualquer relação humana.
Considerações finais
O resultado das análises indica que, ainda hoje, circulam sentidos que
mantêm os sujeitos - sejam homens ou mulheres - no lugar discursivo em que
estavam há 60 anos, como nos mostram os textos visuais 1 e 2. Que
mecanismos atuam para que tais discursos se mantenham tão pouco
moventes?
Se, nos brinquedos, como analisamos, o que temos é uma separação do
que seria adequado para cada gênero, na sociedade temos um movimento um
pouco diferente, considerando alguns deslizamentos de sentidos possíveis de
serem encontrados - exemplo disso é a mulher trabalhando ativamente fora
de casa e o homem que realiza trabalhos domésticos como um ideal a ser
almejado. Mas esse deslizamento ainda não nos parece dominante. Ainda que
esteja a cada dia mais presente, essa ruptura com os sentidos de conservação
tem, a nosso ver, outra faceta: tanto a mulher quanto o homem
contemporâneo não constroem para si um novo lugar e sim trocam de papéis,
um ocupando o lugar que era do outro, revezando-se em papéis, ora ditos
femininos, ora ditos masculinos. Na contemporaneidade, não há mais um
lugar para cada; em outros tempos, ainda que fossem papéis engessados e
“velhos”, eram um lugar de identidade para esses sujeitos.
Necessário, neste ponto, enfatizar a importância da circulação de novos
sentidos sobre os brinquedos e sobre tudo aquilo que se apresenta como
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PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na
mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista
Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102,
jun.2014.
tendo sentido único e imutável. A família e a escola são instituições que
podem atuar, colocando em circulação sentidos de transformação. A
resistência se dá diária e incansavelmente, e assim também é a manutenção
de determinados sentidos.
Trazendo a discussão para o campo escolar, sabemos que a escola pode
ser um lugar de formação e de transformação. Ainda que os deslizamentos
comentados acima não predominem no ambiente escolar como o
conhecemos, se o discurso sobre o brinquedo aparece na publicidade, ele
pode encontrar seu lugar, também, nessa instituição.
Sabe-se que o ambiente escolar é preenchido por diversas vozes e o
discurso autoritário (ORLANDI, 2006), muitas vezes, prevalece. O professor, o
livro didático, as avaliações são exemplos do discurso autoritário o qual supõe
que os sujeitos sejam sempre sujeitos a e não tenham nada a acrescentar ao
que é dito. O discurso autoritário, instaurado na escola, legitima a circulação
de sentidos permitidos para meninos e meninas nas brincadeiras, separando
as cores e os brinquedos que cada gênero pode usar. Entretanto, se este
mesmo discurso deslizar para o discurso polêmico (Idem), a escola pode
romper com sentidos dominantes sobre ser menino e menina e abrir fendas
discursivas, espaços onde novas possibilidades de sentidos possam instaurar
outros discursos sobre brinquedo e gênero.
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Universidade Estadual de Santa Cruz Reitora: Adélia Maria