Universidade Estadual de Santa Cruz Reitora: Adélia Maria Carvalho de Melo Pinheiro Vice-Reitor: Evandro Sena Freire Departamento de Letras e Artes Diretor: Isaías Francisco de Carvalho Vice-Diretor: Fernando José Reis de Oliveira Rodovia Jorge Amado (BA-415), km 16 Campus Soane Nazaré de Andrade CEP 45662-900 – Ilhéus – Bahia – Brasil Endereço eletrônico: [email protected] Sítio eletrônico: http://www.uesc.br/dla/index.php Fone/Fax: 55 73 3680-5088 EID&A Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação ISSN 2237-6984 Editores Eduardo Lopes Piris Emília Mendes Isabel Cristina Michelan de Azevedo Moisés Olímpio Ferreira Paulo Roberto Gonçalves Segundo Endereço eletrônico: [email protected] Sítio eletrônico: http://www.uesc.br/revistas/eidea Indexada em: EID&A: Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação Departamento de Letras e Artes – Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) Editores Eduardo Lopes Piris • Emília Mendes • Isabel Cristina Michelan de Azevedo • Moisés Olímpio Ferreira • Paulo Roberto Gonçalves Segundo • Conselho editorial Ana Maria Di Renzo (UNEMAT) Ana Zandwais (UFRGS) Anna Flora Brunelli (UNESP) Carlos Piovezani (UFSCar) Christian Plantin (ICAR/CNRS) Cristian Tileaga (U.Loughborough) Christiani Margareth de Menezes e Silva (UESC) Eduardo Chagas Oliveira (UEFS) Edvânia Gomes da Silva (UESB) Eliana Alves Greco (UEM) Eugenio Pagotti (UFS) Evandra Grigoletto (UFPE) Fabiana Cristina Komesu (UNESP) Fabiele Stockmans de Nardi (UFPE) Galia Yanoshevsky (U.Tel-Aviv) Gilberto Nazareno Teles Sobral (UNEB) Grenissa Bonvino Stafuzza (UFG) Guylaine Martel (U. Laval) Helena Nagamine Brandão (USP) Ivo José Dittrich (UNIOESTE) John E. Richardson (U.Newcastle) José Niraldo de Farias (UFAL) Juan Eduardo Bonnin (UBA) Juan Marcelo Columba-Fernández (UPEA) Juciane dos Santos Cavalheiro (UEA) Leonildo Silveira Campos (UMESP) Lineide Salvador Mosca (USP) Luciana Salazar Salgado (UFSCar) Luciano Novaes Vidon (UFES) Manuel Alexandre Júnior (U.Lisboa) Marc Angenot (U.MacGill) Márcia Regina Curado Pereira Mariano (UFS) Maria Adélia Ferreira Mauro (FOCSP) María Alejandra Vitale (UBA) Maria Amélia Chagas Gaiarsa (UCSAL) Maria de Lourdes Faria dos Santos Paniago (UFG) Maria Eliza Freitas do Nascimento (UERN) Maria Emília de Rodat de A. Barreto Barros (UFS) Maria Helena Cruz Pistori (PUCSP) Maria Rosa Petroni (UFMT) Maria Teresinha Py Elichirigoity (UFRGS) Marianne Doury (CNRS) Marie-Anne Paveau (U.Paris XIII) Marinalva Vieira Barbosa (UFTM) Marisa Grigoletto (USP) Maurício Beck (UESC) Nelson Barros da Costa (UFC) Pedro Luis Navarro Barbosa (UEM) Ricardo Henrique Resende de Andrade (UFRB) Rui Alexandre Grácio (U.Nova de Lisboa) Ruth Amossy (U.Tel-Aviv) Ruth Wodak (U.Lancaster) Sheila Vieira de Camargo Grillo (USP) Sírio Possenti (UNICAMP) Sophie Moirand (U.Paris III) Soraya Maria Romano Pacífico (USP) Thierry Guilbert (U. Picardie) Valdemir Miotello (UFSCar) Valdir Heitor Barzotto (USP) Vânia Lúcia Menezes Torga (UESC) Viviane Cristina Vieira Sebba Ramalho (UnB) Viviane de Melo Resende (UnB) Wander Emediato de Souza (UFMG) William Augusto Menezes (UFOP) William M. Keith (U.Wisconsin) Zilda Gaspar Oliveira de Aquino (USP) Revisores Alice Vasques de Camargo • Anna Carolina Araújo • Giselle Luz • Laurenci Barros Esteves • Leonardo Dalvo Silva de Andrade • Roberto Santos de Carvalho • Capa e logotipo Laurenci Barros Esteves Diagramação Eduardo Lopes Piris Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação O DISCURSO SOBRE O BRINQUEDO NA MÍDIA ELETRÔNICA E A CONSTRUÇÃO DE SENTIDOS SOBRE MASCULINO E FEMININO Marina Coelho Pereirai Soraya Maria Romano Pacíficoii Resumo: Este trabalho objetiva analisar, à luz da Análise do Discurso pecheutiana (AD), o discurso publicitário sobre o brinquedo na construção de sentidos sobre masculino e feminino. O corpus é constituído por um recorte de um blog que veiculou propagandas de brinquedos bem como pelos comentários do blogueiro a esse respeito. O blog foi selecionado a partir de uma busca na internet utilizando as palavras-chave: gênero, propaganda, brinquedo. Os resultados apontam que as propagandas e os anúncios de brinquedos destinados à criança, como analisados, legitimam os sentidos tecidos sóciohistoricamente para masculino e feminino, reforçando a separação de gênero. Com base nisso, defendemos que a escola deve constituir-se como um contraponto ao apelo publicitário e ser um lugar de (trans)formação, especialmente, no que se refere a brinquedos e brincadeiras. O professor, nessa perspectiva, deve colocar em curso discursos abertos à polifonia, os quais coloquem os sujeitos-alunos em contato com inúmeras possibilidades de sentidos e interpretações sobre criança, brinquedos, brincadeiras e gênero. Desse modo, os alunos terão a oportunidade de aprender que o sentido pode vir a ser outro. Palavras-chave: Discurso. Sujeito. Brinquedo. Gênero. Abstract: The objective of this paper is to analyze, in the spotlight of peuchetian discourse analysis (DA), the senses that go around about the toys, related to the idea they bring on male and female. Our corpus consists of a blog that brings advertisements for toys, as well as the blogger opinion. The blog was selected from a seach using the keywords: gender, advertisement, toys. The results indicate that advertisements and announcements for the child legitimize the socio-historical sense produced for male and female. The school, however, must constitute itself as a counterpoint to the advertising appeal and be a place of (trans) formation, especially in relation to toys and games. The teacher, in this perspective, should produce and present discourses open to polyphony, which put the students in contact with numerous possibilities of senses and interpretations, about children, toys, games and gender. This way, they will have the opportunity to learn that the sense may prove to be another. Keywords: Discourse. Subject. Toys. Gender. i Mestranda em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP/USP), Brasil. E-mail: [email protected]. ii Docente da Universidade de São Paulo (FFCLRP/USP), Brasil. E-mail: [email protected]. 89 PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102, jun.2014. Introdução Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma - na princesinha e na mendiga. E para ambos é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divino à vida da mulher: o momento da boneca - preparatório -, e o momento dos filhos definitivo. Depois disso, está extinta a mulher (Negrinha, Monteiro Lobato). Este artigo pretende discutir e investigar em que medida o discurso publicitário que circula sobre os brinquedos – e o brincar – interfere na construção dos sentidos sobre os gêneros, masculino e feminino, na contemporaneidade. Para tal, buscamos, no discurso publicitário veiculado pela internet, indícios de determinado funcionamento discursivo que nos oferecesse pistas sobre a contextualização sócio-histórico-ideológica desses discursos. O trabalho está ancorado na Análise do Discurso (AD) pecheutiana, teoria que articula três campos de saber: a linguística, o materialismo histórico e a psicanálise. A escolha pela AD se deu por ser esta um dispositivo de análise discursiva que considera o contexto sócio-histórico-ideológico que sustenta a construção dos sentidos de maneira a oferecer instrumentos para uma análise que não se fecha no sistema linguístico. A realização deste justifica-se, partindo da ideia de que se os brinquedos podem favorecer as singularidades das crianças e ampliar suas experiências de socialização, da maneira como lhes são apresentados, discursivamente, eles podem contribuir para a cristalização dos sentidos dominantes sobre os gêneros. Desde criança, meninos e meninas têm suas brincadeiras “pré-escolhidas”: existem os brinquedos “de menino” e os “de menina”. Nas lojas de brinquedos, por exemplo, assim como nas propagandas voltadas para os pequenos, os sentidos sobre masculino e feminino ainda se sustentam nos sentidos tecidos desde tempos remotos, da mulher dona de casa e do homem provedor da família. Entende-se, então, que os sujeitos são cerceados já na infância, “treinados” desde cedo - tanto em casa quanto na escola - para atividades que exercerão na vida adulta, pois as meninas devem brincar de casinha e os meninos ficam com as brincadeiras de aventura, por exemplo. Diariamente é possível encontrar - ao assistir à televisão ou folhear uma revista - sentidos ditos adequados para feminino e masculino e, pelo efeito da 90 PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102, jun.2014. ideologia, esses sentidos nos passam a ideia de que sempre existiram e não poderiam ser diferentes. Há ocupações voltadas para homens e habilidades que mulheres devem ter, apenas pelo fato de serem mulheres. Sentidos amplamente repetidos até parecerem naturais. Com este artigo, pretendemos despertar a atenção do leitor para uma questão que nos é tão cara: o discurso sobre o brinquedo afeta a construção dos sentidos sobre masculino e feminino? Para responder a essa questão, voltamos nosso olhar à mídia publicitária. É sabido que grande parte da população, hoje, tem acesso a esse meio de comunicação. Muito do tempo que antes a criança passaria com seus pais é hoje dedicado à televisão, e por diversos motivos que não nos cabe analisar agora. Sendo assim, parte da educação das crianças é exercida por ela. Partindo daí, não é difícil deduzir que, numa sociedade baseada no consumo como a contemporânea, a publicidade também teria seu espaço nesse nicho tão lucrativo, que é a infância. Não somente a mídia televisiva, como também a mídia impressa ou eletrônica funcionam como espaços que põem em circulação sentidos sobre brinquedo e gênero. A mídia tenta a qualquer custo controlar e “antecipar” as vontades dos sujeitos, colocando-se em todos os âmbitos possíveis para seduzir seus alvos. Neste trabalho, voltamos nossa escuta para a mídia eletrônica para coletar nosso corpus e proceder às análises. A mídia publicitária e seu papel na infância da contemporaneidade Sempre baseada na imagem de algo melhor, a publicidade não só faz circular sentidos considerados “adequados” para o sujeito, como define o que deve ou não ser consumido. Nesse movimento, leva os sujeitos a consumirem da maneira que melhor lhe interessa: intensamente. E exerce poder sobre eles. A mídia publicitária aproveita-se da divisão sexual do trabalho historicamente construída para categorizar os sujeitos. Assim, cria-se um nicho de consumo destinado a cada uma dessas categorias e, por meio do discurso publicitário, o sujeito é levado a consumir os produtos que lhe são destinados. Ocorre uma identificação do sujeito com determinados sentidos e, então, ele sente a necessidade de consumir, na ilusão de aproximar-se daquilo que imagina ou deseja ser/ter. E se estamos todos – inconscientemente, 91 PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102, jun.2014. ideologicamente - sujeitos a esse processo, o panorama se torna ainda mais cruel quando voltamos o olhar para o sujeito-criança. A mídia, em seus mais diversos formatos, tem o poder de determinar e/ou legitimar lugares e papéis aceitáveis, desejáveis e, até mesmo, obrigatórios para masculino e feminino. Na contemporaneidade, ela é mais um lugar de realização da ideologia dominante. E o grande contato que as crianças têm com a televisão e a internet, por exemplo, faz destas mídias companheiras constantes dos pequenos. Vale lembrar que os pequenos aprendem não apenas em situações dedicadas ao ensino-aprendizagem. Aprendem - e apreendem - o tempo todo e com tudo o que têm contato. Expostos a todo tipo de publicidade, estão constantemente vulneráveis e são facilmente capturados pela ideia do consumo. Os sentidos sobre criança, da maneira como entendemos a infância, isto é, na perspectiva discursiva, não são compreendidos como um processo natural, mas sim, construídos socialmente. Sentidos que circulam hoje poderiam ser outros, de modo a contribuir para a construção de novas interpretações e possibilidades para ser criança, e no caso do nosso trabalho, para ser menina ou menino. O mesmo ocorre com o brinquedo. Se o compreendemos dessa maneira, percebemos nele toda a materialidade historicamente construída e impossível de dele ser dissociada. A criança, quando se utiliza do brinquedo, logicamente, não está consciente de todo esse processo. Mas faz parte dele. E já começa a, desde pequena, ser capturada pela ideologia que circula nos discursos, tanto no que se refere à produção desse instrumento quanto em relação a seu uso. Se temos a impressão de que certo sentido é imutável, sempre foi assim e não poderia ser diferente, esse efeito se dá pela ideologia que constitui o sujeito; a ideologia tem um funcionamento muito específico e atua sempre e sem que o sujeito se dê conta. Concordamos com Ferreira quando afirma que [...] por força do efeito do discurso midiático, nos sentimos vivenciando […] esse sentimento “funesto” de estarmos expostos a tudo, sabermos de tudo, para o bem ou para o mal. E precisamente por conta desse 'tudo' é que acabamos ficando muito perto do 'nada'. Ou seja, um excesso que, em seu transbordamento, conduz à falta (FERREIRA, 2008, p. 14). O discurso midiático, nesse contexto, apresenta ao sujeito uma quantidade imensa de informações, mobilizando sentidos que o capturam num movimento de constante “saturação e esvaziamento da memória”, como 92 PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102, jun.2014. escreve Ferreira (2008, p. 14). E, se a vida, na atualidade, é corrida e atribulada, a mídia se vale dessa condição para mostrar-se onipresente e fazer circular um discurso que, ainda de acordo com a autora, “tenta nos constituir num verdadeiro 'processo sem início nem fim' […]” (Idem, p. 15). Análise de Discurso pecheutiana: uma breve contextualização Pretendemos, à luz da AD, analisar como os brinquedos são discursivizados pela mídia eletrônica e quais sentidos sobre masculino e feminino esses discursos colocam em circulação. A interpretação desses sentidos será possível por meio da busca de indícios que circulam nas marcas linguísticas presentes nos textos analisados - haja vista que entendemos por texto tudo aquilo que faz circular sentidos. De acordo com Orlandi e Lagazzi (2006), texto é elemento privilegiado por estar presente nas mais variadas áreas do conhecimento. Portanto “a vocação da linguagem é ser texto” (Idem, p. 9). Para o analista de discurso, o texto é unidade de análise, de sentido. De acordo com os pressupostos da Análise de Discurso, o dado é considerado um indício de um determinado tipo de funcionamento que se mostra nas marcas formais, linguístico-discursivas. Não são postuladas categorias prévias de análise, uma vez que a construção e a organização dos dados dependem de mecanismos de interpretação que só podem ser aplicados após a constituição do corpus. Ao produzir sentidos, o sujeito o faz a partir de um lugar - e não de outro. Ao analisar o discurso, o sujeito deve estar atento a diversas possibilidades de interpretação. Não se trata de querer ver através do que está posto, isso porque a linguagem é uma construção histórica e não é transparente. Como afirmam Pêcheux e Gadet (2011), a língua não pode ser tomada pela realidade já que o texto perderia muito em criatividade. Mais interessante é perceber a linguagem em sua opacidade e o sujeito, para a AD, é igualmente opaco. Há muito mais entre o que o sujeito disse, aquilo que pretendeu dizer e o que foi efetivamente compreendido de seu discurso. Além disso, não é possível escamotear o fato de que a interpretação pode estar vinculada à ideologia das classes dominantes. Dessa maneira, a interpretação deixa de ser livre, pois está ligada a vozes que controlam os sentidos que podem ou não circular (PACÍFICO, 2002), e a mídia é uma voz que 93 PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102, jun.2014. tem o poder de produzir e divulgar sentidos. Sabemos que a interpretação possui relação direta com a ideologia e, dessa forma, vale lembrar que a ideologia é tomada, neste trabalho, como um mecanismo que naturaliza os sentidos de maneira que pareça natural atribuir determinados sentidos às palavras e não outros. “A leitura não envolve somente conhecimentos linguísticos, e, sim, a articulação da língua com o contexto sócio-históricoideológico” (PACÍFICO, 2002, p. 3). Partindo disso, entende-se, consoante a AD, que sendo a leitura uma articulação da língua com a situação sócio-histórico-ideológica, sujeito e sentido se constroem junto com o texto, em um contexto que nunca é neutro, tampouco é neutra a interpretação. A escuta discursiva, sob a forma de um gesto de interpretação do analista vai consistir em trabalhar, a partir das lentes de seu dispositivo teórico-analítico, a opacidade desses textos e hipertextos que circulam por mídias mais diversas, desnaturalizando o que parece natural, pondo em questão o que se apresenta como evidente e trazendo à presença o que se mostra ausente (FERREIRA, 2008, p. 21). Uma análise, dessa forma, considera o texto em funcionamento – discurso – e em sua materialidade. Mais ainda, é também importante, além do que foi dito, o não dito, pois ao dizer X o sujeito não disse Y. De acordo com Pêcheux (1995), o sentido das palavras não é transparente, literal, mas sim, dependente das formações ideológicas de quem as interpreta, e assim, poderiam sempre ser outros. Como afirma Orlandi (2005, p. 20) “os sentidos e os sujeitos poderiam ser sujeitos ou sentidos quaisquer, mas não são. Entre o possível e o historicamente determinado é que trabalha a análise de discurso. A determinação não é uma fatalidade mecânica, ela é histórica”. Sobre o corpus O corpus aqui analisado é constituído de um recorte de um blog que encontramos na rede eletrônica. Partindo de uma busca simples, através da ferramenta imagens, recorremos às palavras-chave gênero, brinquedo e propaganda. Diante da lista de imagens que foram selecionadas pelo site de busca, selecionamos as que nos chamaram a atenção porque nelas encontramos indícios do funcionamento discursivo que buscávamos. Tratavase de um blog que, além de apresentar textos visuais de propagandas e 94 PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102, jun.2014. embalagens de brinquedos, ainda trazia textos escritos pelo próprio blogueiro, nos quais ele tecia comentários sobre brinquedos e gênero. Sobre as análises Com base no exposto, iniciaremos as análises de uma postagem de um blog que selecionamos em uma busca feita na internet, pelo fato de o mesmo colocar em circulação propagandas e sentidos sobre brinquedos. Para isso, é importante explicitar a noção de recorte, que será nossa unidade de análise. A AD trabalha com a noção de texto, como já mencionado, tendo o recorte uma relação de constituição histórica do sentido do texto. Para Orlandi e Lagazzi (2006, p. 139), recorte pode ser entendido como “[...] uma unidade discursiva: fragmento correlacionado de linguagem - e situação”. Dessa forma, o recorte analisado não deve ser compreendido como estrutura linear, mas sim como pedaço do discurso, no qual estarão materializados, linguisticamente, indícios de um modo de funcionamento do discurso sobre brinquedo e gênero. O recorte a seguir, que chamaremos de recorte 1, é constituído pelo dizer do blogueiro (em moldura) e pelas propagandas de brinquedos (textos visuais) que ele comenta, como se estabelecesse um diálogo com o leitor. Vejamos: Recorte 1 - Textos (escrito e visual) do blog Nerd Pai: Será que alguma coisa mudou para as mulheres desde 1950? Claro, muita coisa mudou e avançamos MUITO em igualar os direitos entre homens e mulheres. Não irei listar aqui pois é uma grande lista e espero que continue a crescer. Mas as propagandas de brinquedos ainda empurram as meninas para a cozinha! Olhe essa propaganda de um jogo dos Anos 50: 95 PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102, jun.2014. Figura 1 – Texto visual 1 Vamos ampliar um pouco o canto superior direito? Figura 2 - Texto visual 2 E os brinquedos de HOJE, como são? Evoluímos? 96 PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102, jun.2014. Figura 3 - Texto visual 3 Bem, tenho uma amiga que defende esses brinquedos para as meninas. O argumento: “Uma mulher que não sabe o mínimo de limpeza, culinária ou de como arrumar uma casa, é horrível. Os homens não têm essa noção e nem vão ter! Se esses dois casarem, imaginem como vão viver?” Não concordo com isso. Os homens conquistaram tantos outros direitos como as mulheres. A organização da casa não é e nem deve ser exclusiva da mulher. Separar tarefas hoje em dia é a fórmula do sucesso de um Casal! E, como uma empresa, você precisa saber fazer tudo e mais um pouco. E você, o que acha?” O autor do blog analisa, a partir de imagens de propagandas de brinquedos, o que se transformou em relação às mulheres. Ele aponta que “muita coisa mudou” para a mulher; entretanto, as propagandas de brinquedos ainda continuam a reproduzir sentidos que sustentam que “o lugar da mulher é na cozinha”. Observando o texto visual 1, vemos que brincando estão pai e filho. A brincadeira é “batalha naval”, que simula uma guerra em alto mar, além de ser um jogo que exige dos participantes estratégia e concentração. De acordo 97 PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102, jun.2014. com o que está representado, esse é um jogo voltado para o sexo masculino, já que não há ninguém do sexo feminino jogando. Se considerarmos a relevância que tem para a sociedade a ilusão de um mundo “semanticamente estabilizado” (PÊCHEUX, 1997), não estranharemos o que está no texto visual 2. Trata-se de uma ampliação do canto superior direito do texto visual 1 - que é a própria embalagem do jogo - na qual vemos que mãe e filha lavam a louça e sorriem enquanto os homens se divertem. As mulheres têm que dar conta dos seus afazeres domésticos, em um trabalho que não tem horário determinado para acabar. Os homens, em posição de relaxamento, podem desanuviar a cabeça com um jogo, descansar depois de um dia de trabalho terminado, no caso do pai. O dia de trabalho das mulheres não acaba tão cedo: o descanso e a descontração que os homens têm com o jogo não são possíveis a elas, de acordo com os sentidos que circulam nesse texto visual. No texto visual 3, encontramos embalagens de brinquedos e propagandas que circularam no século XX - e ainda circulam - nos dias de hoje. Vemos imagens de meninas, exclusivamente. Todas brincando com miniutilitários domésticos, reproduzindo os sentidos da mulher que cuida da casa, que não trabalha no espaço público e tem como função única a casa e os cuidados com a família. Há ainda a predominância da cor rosa, muito associada ao feminino e com a qual boa parte das meninas se identifica, não por acaso. Nos brinquedos mostrados há participação ativa das meninas limpando, lavando, servindo, cozinhando: todas essas ações fortemente relacionadas ao lar e aos cuidados com a família. Serão esses os sentidos sobre mulheres que ainda circulam entre as famílias na contemporaneidade? Uma escuta mais atenta ao que é discursivizado, hoje, leva-nos a interpretar que há certa mudança nos sentidos que estão sendo construídos para masculino e feminino. Fato que pode ser percebido pelo texto do próprio blogueiro, que traz um estranhamento e contesta as imagens que ele encontrou nas embalagens e propagandas dos brinquedos. O blogueiro reúne as imagens, organiza-as na tela, intercaladas ao texto escrito, movimento que cria determinados efeitos de sentido, e tece os comentários que ele julga apropriados, ou seja, estranha o que vê de tal maneira que se faz necessária a construção de um texto para, posteriormente, ser tornado público na internet, para um número incontável de leitores. Além disso, ao incluir o texto 98 PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102, jun.2014. de sua amiga “que defende esses brinquedos para as meninas”, no qual temos que “uma mulher que não sabe arrumar a casa é horrível”, o blogueiro marca que não concorda com o que ela diz, que não se inscreve nas formações discursivas nas quais esses sentidos cabem. Se, para a amiga, o fato de essa mulher “que não tem essa noção e nem vai ter” tornará sua vida incerta, no casamento, para o blogueiro, o movimento é diferente. Ele inscreve-se em uma formação discursiva que materializa dizeres sobre os homens que também conquistaram seus direitos e, a partir daí, cuidar da casa e dos filhos é visto não mais como ajuda, e sim como direito dos homens. Podemos citar, como exemplo, a luta masculina pela licença paternidade. Mas, na visão da amiga, a mulher deve aprender os afazeres domésticos, já que, de acordo com o que ela diz, um homem não o fará, por ser homem, por ter outros afazeres com os quais se importar. Há, aí, um efeito da ideologia naturalizando as ocupações do homem como superiores às da mulher, já que ele teria outros afazeres, mais importantes do que aqueles que realizam as mulheres, no espaço doméstico. Um homem não faria tais atividades simplesmente por ser homem, como se essa condição justificasse - e explicasse - toda a construção histórico-ideológica que coloca homens e mulheres nos lugares em que estão hoje. Se esses são sentidos dominantes é pela ideologia que eles se mantêm circulando. A evidência, produzida pela ideologia, representa a saturação dos sentidos e dos sujeitos produzida pelo apagamento de sua materialidade, ou seja, pela sua deshistorização. Corresponde a processos de identificação regidos pelo imaginário e esvaziados de sua historicidade. Processos em que perde-se a relação com o real, ficando-se só com (nas) imagens. No entanto há sempre o incompleto, o possível pela interpretação outra. Deslize, deriva, trabalho da metáfora (ORLANDI, 2005, p. 55). Vale enfatizar que, no recorte analisado, de acordo com o dizer da amiga, temos que, além de ser quase um dever da mulher saber limpar, cozinhar e arrumar a casa, ela deve fazer tudo isso almejando um casamento. Sabemos que esses sentidos - ainda que dominantes em alguns círculos sociais -, atualmente, vêm se transformando e, nesse movimento, novas possibilidades aparecem. Porém, aqui, é importante marcar que, ainda hoje, circulam sentidos que tentam congelar os papéis que homem/mulher tinham (ou têm) na sociedade há sessenta anos, como nos mostram os textos visuais 1 e 2. Se, nas propagandas de brinquedos, destinadas às crianças os sentidos 99 PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102, jun.2014. estão engessados, interpretamos que isso estanca a migração dos sentidos que, na contemporaneidade, tentam instalar-se em outras formações discursivas sobre masculino e feminino. Finalizando, é possível notar na fala do blogueiro a comparação entre o casamento e uma empresa, como podemos ler em “como uma empresa, você precisa saber fazer tudo e mais um pouco”. Gostaríamos de chamar a atenção para esse ponto já que percebemos que as relações humanas são postas numa perspectiva empresarial, pois, acredita-se que dessa maneira as relações seriam otimizadas, utilizando um termo da área. Assim, a divisão das tarefas, em casa, seria feita com maior eficiência, como se acredita serem feitas nas empresas, numa lógica que admite apenas duas possibilidades e condiciona pessoas a isto ou àquilo, desconsiderando as nuances e tons presentes em qualquer relação humana. Considerações finais O resultado das análises indica que, ainda hoje, circulam sentidos que mantêm os sujeitos - sejam homens ou mulheres - no lugar discursivo em que estavam há 60 anos, como nos mostram os textos visuais 1 e 2. Que mecanismos atuam para que tais discursos se mantenham tão pouco moventes? Se, nos brinquedos, como analisamos, o que temos é uma separação do que seria adequado para cada gênero, na sociedade temos um movimento um pouco diferente, considerando alguns deslizamentos de sentidos possíveis de serem encontrados - exemplo disso é a mulher trabalhando ativamente fora de casa e o homem que realiza trabalhos domésticos como um ideal a ser almejado. Mas esse deslizamento ainda não nos parece dominante. Ainda que esteja a cada dia mais presente, essa ruptura com os sentidos de conservação tem, a nosso ver, outra faceta: tanto a mulher quanto o homem contemporâneo não constroem para si um novo lugar e sim trocam de papéis, um ocupando o lugar que era do outro, revezando-se em papéis, ora ditos femininos, ora ditos masculinos. Na contemporaneidade, não há mais um lugar para cada; em outros tempos, ainda que fossem papéis engessados e “velhos”, eram um lugar de identidade para esses sujeitos. Necessário, neste ponto, enfatizar a importância da circulação de novos sentidos sobre os brinquedos e sobre tudo aquilo que se apresenta como 100 PEREIRA, Marina Coelho; PACÍFICO, Soraya Maria Romano. O discurso sobre o brinquedo na mídia eletrônica e a construção de sentidos para masculino e feminino. EID&A - Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 6, p. 89-102, jun.2014. tendo sentido único e imutável. A família e a escola são instituições que podem atuar, colocando em circulação sentidos de transformação. A resistência se dá diária e incansavelmente, e assim também é a manutenção de determinados sentidos. Trazendo a discussão para o campo escolar, sabemos que a escola pode ser um lugar de formação e de transformação. Ainda que os deslizamentos comentados acima não predominem no ambiente escolar como o conhecemos, se o discurso sobre o brinquedo aparece na publicidade, ele pode encontrar seu lugar, também, nessa instituição. Sabe-se que o ambiente escolar é preenchido por diversas vozes e o discurso autoritário (ORLANDI, 2006), muitas vezes, prevalece. O professor, o livro didático, as avaliações são exemplos do discurso autoritário o qual supõe que os sujeitos sejam sempre sujeitos a e não tenham nada a acrescentar ao que é dito. O discurso autoritário, instaurado na escola, legitima a circulação de sentidos permitidos para meninos e meninas nas brincadeiras, separando as cores e os brinquedos que cada gênero pode usar. Entretanto, se este mesmo discurso deslizar para o discurso polêmico (Idem), a escola pode romper com sentidos dominantes sobre ser menino e menina e abrir fendas discursivas, espaços onde novas possibilidades de sentidos possam instaurar outros discursos sobre brinquedo e gênero. Referências FERREIRA, Maria Cristina Leandro. A ciranda dos sentidos. In: ROMÃO, Lucília Maria Sousa; GASPAR, Nadea Regina (Org.) Discursos Midiáticos: sentidos de memória e arquivo. 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