UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
MESTRADO EM LINGUÍSTICA
ESP e gênero textual: uma proposta de trabalho na área de
secretariado
FÁTIMA REGINA SILVA SANTOS
Orientadora: Profa. Dra. Ana Elvira Luciano Gebara
Dissertação apresentada ao Mestrado em
Linguística, da Universidade Cruzeiro do Sul,
como parte dos requisitos para a obtenção
do título de Mestre em Linguística.
SÃO PAULO
2014
AUTORIZO A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE
TRABALHO, POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO, PARA
FINS DE ESTUDO E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE.
FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA
BIBLIOTECA CENTRAL DA
UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL
S234e
Santos, Fátima Regina Silva.
ESP e gênero textual: uma proposta de trabalho na área de
secretariado / Fátima Regina Silva Santos. -- São Paulo; SP: [s.n],
2014.
106 p. : il. ; 30 cm.
Orientadora: Ana Elvira Luciano Gebara.
Dissertação (mestrado) - Programa de Pós-Graduação em
Linguística, Universidade Cruzeiro do Sul.
1. Linguística textual 2. Gêneros textuais 3. Língua inglesa –
Processo ensino-aprendizagem 4. Curso de secretariado executivo
trilíngue (SET). I. Gebara, Ana Elvira Luciano. II. Universidade
Cruzeiro do Sul. Programa de Pós-Graduação em Linguística. III.
Título.
CDU: 81’42(043.3)
UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
ESP e gênero textual: uma proposta de trabalho na área de
secretariado
FÁTIMA REGINA SILVA SANTOS
Dissertação de mestrado defendida e aprovada
pela Banca Examinadora em 18/12/2014.
BANCA EXAMINADORA:
Profª. Drª. Ana Elvira Luciano Gebara
Universidade Cruzeiro do Sul
Presidente
Profª. Drª. Patrícia Silvestre Leite Di Iório
Universidade Cruzeiro do Sul
Prof. Dr. José Garcez Ghirardi
Fundação Getulio Vargas
DEDICATÓRIA
Aos meus pais que me educaram
com muito carinho e, em especial
à minha mãe, que me ensinou a
ter forças nos momentos mais
difíceis e nunca desistir.
AGRADECIMENTO ESPECIAL
À Professora Doutora Ana Elvira Luciano Gebara,
pela
serenidade,
dedicação,
carinho
e
competência com que conduziu a orientação
deste trabalho, cujo apoio foi de fundamental
importância durante toda a trajetória do curso.
AGRADECIMENTOS
A Deus, Frei Galvão e Nossa Senhora de Fátima, por colocarem pessoas tão
especiais em meu caminho.
Ao meu amor e companheiro, William, pelo carinho, apoio e incentivo,
viabilizando a concretização de meu sonho.
A minha família, e, em particular, ao meu filho, Vitor, pelo apoio, carinho e
compreensão.
A minha coordenadora, Professora Ms. Regina Helena Giannotti, por permitir a
realização desta pesquisa.
Aos meus alunos e participantes da pesquisa, pela disposição em colaborar.
Aos professores Dr. José Garcez Ghirardi e Dra. Patrícia Silvestre Leite Di
Iório, pelas orientações e sugestões oferecidas na Banca de Qualificação.
Por fim, agradeço a todos os professores do curso de Mestrado em Linguística
Aplicada da Universidade Cruzeiro do Sul, pelo universo linguístico
descortinado.
Yesterday is gone.
Tomorrow has not yet come.
We have only today.
Let us begin.
Mother Teresa
SANTOS, F. R. S. ESP e gênero textual: uma proposta de trabalho na área de
secretariado. 2014. 105 f. Dissertação (Mestrado em Linguística)–Universidade
Cruzeiro do Sul, São Paulo, 2014.
RESUMO
Esta dissertação, cujos pressupostos teóricos se fundam nas relações entre ESP e
gênero textual, traz uma proposta de trabalho para o ensino de Língua Inglesa para
propósitos específicos baseada na abordagem dos gêneros textuais, a ser
desenvolvida no curso de Secretariado Executivo Trilíngue (SET) de uma instituição
privada. Para tal, foram estabelecidos os seguintes objetivos: 1) identificar a
percepção das necessidades linguísticas dos alunos de secretariado executivo
trilíngue com relação ao uso da língua inglesa no ambiente de trabalho; 2) identificar
os gêneros com os quais trabalham e elaborar uma proposta de trabalho por meio
dos quais pode-se desenvolver o ensino da língua inglesa; e 3) indicar por meio da
análise dos textos dos alunos se e quais elementos de nossa proposta auxiliariam
na construção de conhecimento sobre o gênero em questão (e-mail corporativo),
que podem ser estendidos a outros gêneros quando necessários na atuação desses
alunos. A proposta de trabalho se iniciou pelo mapeamento dos dados gerais dos
alunos com relação ao ensino-aprendizagem da língua inglesa em um curso de
secretariado executivo trilíngue, bem como às tarefas executadas no ambiente de
trabalho envolvendo o idioma em questão. Num segundo momento, foram
selecionados os subsídios que auxiliam no desenvolvimento de uma estratégia de
ensino que contribua para a aquisição sociolinguística necessária para a prática das
tarefas requeridas no ambiente de trabalho (utilização dos gêneros da esfera
corporativa) e, em particular, da redação de e-mails corporativos em inglês, ação
descrita como principal atividade realizada no ambiente de trabalho. Num terceiro
momento, direcionamos nossa pesquisa para a análise de redações produzidas
pelos alunos no ambiente de trabalho: análise do corpus. Responsável não só por
sua própria redação, como também pela redação de terceiros (assessorando o
executivo a quem se subordina), é importante refletirmos sobre o papel social que o
profissional de secretariado exerce, por meio de sua prática discursiva, no ambiente
de negócios. Para essas necessidades e habilidades elaboramos a proposta em
análise nesta dissertação. Como fundamentação teórica, de acordo com os
pressupostos iniciais, trazemos a abordagem do inglês instrumental (Inglês para
Fins Específicos/Inglês Comercial) segundo Dudley-Evans e St. John (1998), Ellis e
Johnson (1994) e Hutchinson e Waters (1987); o conceito de gêneros segundo
Marcuschi (2010, 2011) e Maingueneau (2001); gêneros emergentes segundo
Crystal (2001) e Marcuschi (2002); os conceitos de Enunciação, segundo
Maingueneau (1997a, 1997b, 1997c, 2005); e Representação Social, segundo
Moscovici (2011); aportes teóricos que apontam caminhos para o esclarecimento de
nossos questionamentos. A proposta para o ensino dentro da perspectiva dos
gêneros tem como objetivo secundário e, poderíamos afirmar em longo prazo, o
desenvolvimento de estratégias que o aluno pode estender a outros gêneros da
esfera corporativa quando necessários na sua atuação.
Palavras-chave: Inglês para negócios, Profissional de secretariado, Gêneros
textuais e ESP, Proposta de trabalho com gêneros da esfera corporativa.
SANTOS, F. R. S. ESP and text genre: a working proposal in the secretarial
field. 2014. 105 f. Dissertação (Mestrado em Linguística)–Universidade Cruzeiro do
Sul, São Paulo, 2014.
ABSTRACT
This study, supported by literature based on the integration between ESP and the
text genre, intends to bring an ESP genre-based working proposal to be implemented
in the Trilingual Secretarial course from a private institution. To conduct such
research the following goals have been set: 1) to identify the trilingual secretarial
students’ linguistic needs concerning the corporate tasks performed by them
involving the English language; 2) to identify the corporate genres they deal with in
order to design a proposal, through which, the English learning process can be
developed; and 3) to demonstrate, through the corpus analysis, if and which
elements of our proposal contributed to the students’ knowledge acquisition on such
genre, the corporate e-mail; being extended, if necessary, to other corporate genres
they deal with. As the starting point of our working proposal, we mapped students’
general data relating to the English teaching-learning process in the Trilingual
Secretarial course, as well as tasks performed by them in the corporate environment,
which involves the English language. Secondly, we searched for tools to support us
to develop a “teaching strategy” which contributes to the sociolinguistic acquisition
required to perform such tasks (corporate genres uses) and, particularly, the
corporate e-mail English writing, which has been described by students as the main
task performed at work. In the third place, we have the analysis of students’ authentic
corporate texts: corpus analysis. Not only responsible for his/her own writing, but also
for his/her boss’ writing, we also highlight the social role the personal assistant plays
in the corporate world. In order to fulfill such needs and abilities, we have developed
the working proposal demonstrated in this study. As per the initial assumptions, the
research is grounded in the principles of English for Specific Purposes and Business
English by Dudley-Evans and St. John (1998), Ellis and Johnson (1994) and
Hutchinson and Waters (1987); the Genre Concept by Marcuschi (2010, 2011) and
Maingueneau (2001); Digital Genres by Crystal (2001) and Marcuschi (2002); the
Enunciation Concept by Maingueneau (1997a, 1997b, 1997c, 2005) and the Social
Representation Concept by Moscovici (2011); theoretical foundation that enables us
to clarify our questions. The teaching-genre based proposal has as its secondary and
long-term goal, the development of strategies that can be extended to other
corporate genres, if necessary, in order to improve students’ work performance.
Keywords: Business English, Personal assistant, Text genre and ESP, Working
proposal based on corporate genres.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 13
CAPÍTULO 1: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA......................................................... 20
1.1
A influência norte-americana no ensino superior brasileiro na década de
1960 e os desdobramentos para a Linguística Aplicada, para a
representação social e para o docente ....................................................... 20
1.2
Inglês para Fins Específicos e Inglês para Negócios ................................ 24
1.2.1 Histórico e considerações sobre o ensino-aprendizagem........................ 24
1.2.2 Conceitos
presentes
nas
diferentes
correntes
linguísticas
que
contribuíram para a concepção atual do inglês para fins específicos .... 33
1.3
A importância dos gêneros textuais no ensino-aprendizagem do inglês
para fins específicos e desenvolvimento da escrita empresarial............. 38
1.3.1 Gênero textual: e-mail .................................................................................. 41
1.3.2 Gênero textual: e-mail corporativo ............................................................. 46
CAPÍTULO 2: DESCRIÇÃO DA PESQUISA E SUA METODOLOGIA .................... 58
2.1
Levantamento geral: contexto; instrumento de coleta de dados;
referencial teórico ......................................................................................... 58
2.2
Apresentação e discussão das características gerais dos participantes61
2.2.1 Percepção das necessidades linguísticas dos alunos com relação ao uso
da língua inglesa no ambiente de trabalho ................................................ 65
CAPÍTULO 3: TRIANGULAÇÃO DE DADOS .......................................................... 67
3.1
Análise de corpus ......................................................................................... 69
3.2
As
habilidades
e
competências
necessárias
ao
profissional
de
secretariado sob a perspectiva do mercado de trabalho .......................... 89
CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 94
REFERÊNCIAS......................................................................................................... 98
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA ............................................................................ 101
ANEXO A
QUESTIONÁRIO DE PESQUISA ...................................................... 102
ANEXO B
ENTREVISTA ONLINE CONCEDIDA PELA SRA. STEFI MAERKER
(DIRETORA/ PRESIDENTE DA SEC TALENTOS HUMANOS) EM
08/06/2014 ......................................................................................... 105
13
INTRODUÇÃO
Ao lidarmos com diferentes faixas etárias em institutos de idiomas, deparamonos também com diferentes anseios e objetivos. Por requererem um retorno de
aprendizado mais imediato do que o dos jovens, é usual, como professores, termos
diante de nós alunos adultos que interrompem e reiniciam o curso de inglês por
várias vezes, já que a maioria dos cursos regulares oferecidos para adultos nos
institutos de idiomas objetivam o aprendizado do inglês para uso geral (Regular
English) e não para propósitos específicos (English for Specific Purposes – ESP).
Como docentes no ensino superior, verificamos as lacunas linguísticodiscursivas ocasionadas pela descontinuidade no aprendizado agravar-se, uma vez
que a necessidade de um retorno de aprendizado em um prazo menor é crucial para
a entrada e/ou permanência dos alunos universitários no mercado de trabalho.
Deste modo, é importante, como docentes em cursos de inglês para
propósitos específicos, incorporarmos - no dia a dia da docência - os dados
linguísticos e sociais da área de atuação profissional do aluno a fim de
desenvolvermos atividades que contemplem as necessidades apresentadas em seu
ambiente de trabalho, auxiliando-os no desenvolvimento de uma comunicação
eficaz.
Diante do exposto, e por ter atuado também como secretária bilíngue1
(inglês/português), tais questionamentos motivaram a elaboração desta pesquisa,
cujos objetivos são:
1) identificar a percepção das necessidades linguísticas dos alunos de
secretariado executivo trilíngue com relação ao uso da língua inglesa no ambiente
de trabalho;
2) identificar os gêneros com os quais trabalham e elaborar uma proposta de
trabalho por meio da qual seja possível desenvolver o ensino da língua inglesa;
1
Peço licença para a utilização da 1a pessoa para associação do percurso acadêmico, da atividade
profissional e da pesquisa.
14
3) indicar por meio da análise dos textos dos alunos se e quais elementos de
nossa proposta de trabalho auxiliariam na construção de conhecimento sobre o
gênero em questão (e-mail corporativo), em proposta que pode ser estendida a
outros gêneros – quando necessários – na atuação desses alunos, habilitando-os
não só a desenvolver seu discurso, como também a refletir sobre o papel que sua
formação discursiva exerce no mundo dos negócios.
Sendo um curso de inglês em uma área específica de atuação (Secretariado
Executivo Trilíngue – SET), a nossa proposta de trabalho traz fundamentos teóricos
relacionados às abordagens de ensino-aprendizagem do English for Specific
Purposes – ESP (termo doravante tratado em nossa pesquisa como inglês para
propósitos específicos) e do Business English (termo doravante tratado como inglês
para negócios), bem como visões de outros pesquisadores em trabalhos
semelhantes na área, tais como o de Pinto (2002), Ramos (2004), Brancher e
Santos (2007), Souza (2009), Sanctis e Abib (2010), e Johns (2013).
Tendo como principal característica basear suas estratégias de ensino em
uma coleta inicial de dados para análise das necessidades linguísticas de
aprendizagem do aluno (ELLIS; JOHNSON, 1994), o inglês para fins específicos, ou
inglês instrumental2, como ficou conhecido no Brasil, atende às necessidades
acadêmicas
ou
profissionais
dos
alunos,
abrangendo
áreas
diversas
do
conhecimento; entre elas, o “inglês para negócios”, abordagem tratada em nossa
pesquisa.
Segundo Ellis e Johnson,
2
Segundo Celani (2005), no fim da década de 1970, cria-se um centro de excelência, no Brasil,
voltado para a formação de professores e ao ensino de Inglês Instrumental. Conforme Ramos (2008),
a ocorrência de tal fato deve-se ao grande número de professores universitários matriculados no
curso de mestrado da PUC-SP interessados em aprimorar seus conhecimentos na área de inglês
instrumental e a visão que tais profissionais tinham a respeito do ensino do Inglês Instrumental no
Brasil: uma atividade não tão nobre quanto o ensino de língua e literatura inglesa. Deste modo, de
acordo com Ramos (2005), foi nesse contexto que surgiu o Projeto Nacional de Inglês Instrumental
em Universidades Brasileiras, coordenado pela professora Maria Antonieta Alba Celani, da PUC-SP,
com apoio do Conselho Britânico, tendo por objetivos principais a formação de professores, produção
de material didático e ensino de habilidades de leitura para textos acadêmicos (CELANI; RAMOS
apud SOUZA, 2009).
15
Business English must be seen in the overall context of English for Specific
Purposes (ESP), as it shares the important elements of needs analysis,
syllabus design, course design, and materials selection and development
3
which are common to all fields of work in ESP. (1994, p. 3).
Vale lembrar que “as with other varieties of ESP, Business English implies the
definition of a specific language corpus and emphasis on particular kinds of
communication in a specific context.”4 (ELLIS; JOHNSON, 1994, p. 3).
Para Ellis e Johnson (1994), o primeiro passo a ser tomado pelo docente com
relação às necessidades linguísticas de aprendizagem é o mapeamento dos tipos de
tarefas executadas pelos alunos em seu ambiente de trabalho, possibilitando
selecionar, assim, material relevante para o desenvolvimento do curso.
Deste modo, a fim de coletar os dados para a concretização de seu trabalho,
o docente poderá conduzir o mapeamento das necessidades linguísticas dos alunos
(Needs Analysis) por meio de diferentes canais de coleta de dados, tais como
questionário, entrevista pessoal/por telefone, e-mail etc. É igualmente importante
ressaltarmos que a análise de dados contenha “information about factors which
could affect the learner’s response to training, motivation, and learning potential”5
(ELLIS; JOHNSON, 1994, p. 72), fatores que, segundo Krashen (1982)6, podem
afetar o filtro afetivo dos alunos e, consequentemente, seu desempenho na
aprendizagem.
Com relação ao desenho de um curso específico para secretárias, Ellis e
Johnson (1994) apontam que, como a posição do profissional de secretariado varia
não só com relação ao tempo de carreira, mas também à empresa para a qual
3
“O inglês para negócios deve ser visto como uma área pertencente ao contexto do inglês para fins
específicos (ESP), uma vez que compartilha elementos importantes comuns a todas as áreas de
trabalho do ESP, tais como análise de dados, desenvolvimento de conteúdo, desenvolvimento do
curso e seleção e desenvolvimento de material.” (tradução nossa).
4
“Como outras variedades do Inglês para Fins Específicos (ESP), o Inglês para Negócios implica a
definição de um corpus com linguagem específica, bem como a ênfase em discursos de contexto
específico.” (tradução nossa).
5
“Informações referentes a fatores que possam afetar o desempenho do aluno com relação ao
ensino, motivação e processo de aprendizagem.” (tradução nossa).
6
Stephen Krashen, conhecido por sua contribuição para a Linguística Aplicada na área de
aprendizagem de línguas estrangeiras, defende a posição de que a aquisição da segunda língua
deva ocorrer de maneira natural (Natural Approach), exatamente como ocorre a aquisição da língua
materna, estabelecendo 5 condições a serem levadas em consideração no ensino-aprendizagem de
línguas estrangeiras; entre as quais, o filtro afetivo – vontade de querer aprender, de seus
sentimentos interiores e de atitudes em relação à aula – pode servir como barreira, impedindo que o
aluno aceite o input fornecido pelo meio.
16
trabalha, o ideal será o desenho de um curso de inglês para negócios que envolva
competências linguísticas comuns a todos os níveis do profissional de secretariado,
incluindo situações como atendimento telefônico, redação de cartas, memorandos,
e-mails, recepção de visitantes etc.
Do mesmo modo, Berwick argumenta que, antes da elaboração de qualquer
instrumento de coleta de dados, “precisamos saber exatamente o que queremos
descobrir e o que faremos com as respostas” obtidas (apud DUDLEY-EVANS; ST.
JOHN, 1998, p. 123).
Na esfera do ensino, os dados obtidos tornarão os objetivos mais precisos e,
assim, o docente poderá desenvolver um curso que auxilie o aluno com relação às
necessidades linguísticas de aprendizagem requeridas para sua atuação no mundo
corporativo, conscientizando-o da formação discursiva a ser utilizada com os
interlocutores internos e externos (stakeholders7) da empresa.
Capaz de refletir sobre sua prática discursiva, o aluno, ao assumir seu papel
na construção do conhecimento, terá um melhor entendimento do poder que sua
comunicação – seja ela verbal ou não verbal – exerce sobre os coenunciadores,
podendo evitar situações embaraçosas e possíveis mal-entendidos, uma vez que “a
formação discursiva se define como aquilo que numa formação ideológica dada, isto
é, a partir de uma posição dada em uma conjuntura sócio-histórica dada determina o
que pode e deve ser dito.” (ORLANDI, 2007, p. 43).
Deste modo, ao colocarmos o aluno no centro do aprendizado (ELLIS;
JOHNSON, 1994), explorando seus conhecimentos e experiências profissionais,
motivamo-lo a trazer, para a sala de aula, tópicos que o auxiliem na construção do
conhecimento e na concretização de seus objetivos, tornando, desta maneira, as
aulas mais interessantes e o aprendizado mais eficaz.
Para uma melhor compreensão das necessidades de aprendizagem de
nossos alunos, iniciamos nossa pesquisa com o levantamento das seguintes
informações:
7
“Stakeholder inclui aqueles indivíduos, grupos e outras organizações que têm interesse nas ações
de uma empresa e que têm habilidade para influenciá-la.” (SAVAGE; NIX; WHITEHEAD; BLAIR apud
LYRA; GOMES; JACOVINE, 2009, p. 41).
17

Características gerais dos alunos com relação à idade e cargo ocupado na
empresa;

Percepção das necessidades linguísticas dos alunos de secretariado
executivo trilíngue com relação ao uso da língua inglesa no ambiente de
trabalho;

Levantamento dos gêneros com os quais trabalham e por meio dos quais
seja possível desenvolver o ensino da língua inglesa, bem como possíveis
dificuldades em relação a esse ensino.
Para o levantamento das informações, tivemos como método de coleta de
dados o relato de experiências de alunos do 3o e 4o semestres do curso de
secretariado executivo trilíngue (SET) de uma faculdade particular de São Paulo, na
qual a professora-pesquisadora leciona. Como canal de coleta de dados,
escolhemos a aplicação de um questionário com 7 perguntas, que nos forneceram
dados relacionados a fatores extrínsecos e intrínsecos de aprendizagem do aluno,
informações importantes para nossa proposta de trabalho.
Por ser um curso de secretariado executivo trilíngue (modalidade:
bacharelado) regido pelas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), preestabelecidas
pelo MEC, devemos canalizar nossos esforços para que os alunos desenvolvam as
competências necessárias para o bom desenvolvimento do profissional de
secretariado no mundo dos negócios.
Conforme competência descrita no item VI das Diretrizes Curriculares
Nacionais (DCN), promulgada pela resolução CNE/CES no. 3, de 23 de junho de
2005, os profissionais de secretariado executivo deverão ter “domínio dos recursos
de expressão e de comunicação compatíveis com o exercício profissional, inclusive
nos processos de negociação e nas comunicações interpessoais ou intergrupais”.
Porém, como ajudá-los na obtenção e consolidação desse conhecimento?
Para a obtenção de respostas aos nossos questionamentos, utilizamos como
referencial teórico o conceito de gêneros segundo Marcuschi (2010, 2011) e
Maingueneau (2001); gêneros emergentes segundo Crystal (2001) e Marcuschi
(2002); e a abordagem do Inglês Instrumental (Inglês para Fins Específicos e Inglês
18
para Negócios) segundo Dudley-Evans e St. John (1998), Ellis e Johnson (1994) e
Hutchinson e Waters (1987). Utilizamos, também, os conceitos de Enunciação
segundo Maingueneau (1997a, 1997b, 1997c, 2005) e de Representação Social
segundo Moscovici (2011), entre outros pesquisadores. Como principais resultados,
temos a indicação, por meio da análise dos textos dos alunos, se e quais elementos
de nossa proposta de trabalho auxiliariam na construção de conhecimento sobre o
gênero em questão (e-mail corporativo), cuja sistematização em proposta de ensino
pode ser estendida a outros gêneros quando necessários na atuação desses alunos.
Para melhor exposição de ideias, dividimos nossa pesquisa em 3 capítulos,
conforme a seguir:

Capítulo 1: Fundamentação Teórica → iniciamos o capítulo apresentando
um breve histórico sobre a influência norte-americana no ensino superior
no Brasil na década de 1960 e seus desdobramentos para a Linguística
Aplicada; o conceito de representação social; e o papel do docente para o
entendimento, por parte do aluno, de tal conceito. Discorremos, em
seguida, sobre a abordagem do inglês para fins específicos, inglês para
negócios e inglês regular; e, num terceiro momento, citamos os conceitos
presentes nas diferentes correntes linguísticas que contribuíram para a
concepção atual do inglês para fins específicos e, em particular, da escrita
comercial em inglês.

Capítulo 2: Descrição da pesquisa e sua metodologia → iniciamos o
capítulo apresentando o contexto, instrumento de coleta de dados e
suporte teórico de sustentação da metodologia; a seguir, discutimos as
características gerais dos participantes, finalizando com a identificação da
percepção das necessidades linguísticas dos alunos de secretariado
executivo trilíngue com relação ao uso da língua inglesa no ambiente de
trabalho.

Capítulo 3: Triangulação de dados: análise de corpus → Mediante a
análise de corpus, realizada com produções textuais autênticas do
ambiente corporativo, analisamos e discutimos os resultados obtidos em
nossa pesquisa, baseados na fundamentação teórica e procedimentos de
19
análise apresentados na metodologia. A fim de complementar e fornecer
suporte à triangulação de dados, apresentamos e analisamos, igualmente,
os dados relacionados à entrevista e anúncios online, trazendo a visão
do mercado de trabalho com relação às competências requeridas de tais
profissionais.
Nas considerações finais, avaliamos os resultados obtidos apresentando
nossas reflexões sobre o papel que a disciplina de inglês desempenha em um curso
de secretariado executivo trilíngue.
20
CAPÍTULO 1: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Como nosso objetivo é identificar estratégias para o ensino de inglês para fins
específicos em um curso superior de secretariado executivo trilíngue (SET –
modalidade bacharelado), discorremos, brevemente, neste primeiro capítulo, acerca
da influência norte-americana no ensino superior brasileiro na década de 1960, bem
como a importância do instituto Yázigi e da Fundação Ford para a Linguística
Aplicada. Ressaltamos, igualmente, a relevância do conceito de representação
social para a prática discursiva e o papel do docente em suscitar no aluno o
entendimento de tal conceito.
A fim de prover conhecimento linguístico aos futuros profissionais de
secretariado, temos, na segunda parte do capítulo, os pressupostos teóricos
relacionados ao ensino-aprendizagem do inglês para fins específicos e do inglês
para negócios, discorrendo sobre sua origem, desenvolvimento, principais
características e implicações no mundo corporativo. Analisamos, também, os
principais pontos a serem considerados pelo docente no ensino-aprendizagem do
inglês para negócios e do inglês regular, finalizando com a contribuição dos
conceitos presentes nas diferentes correntes linguísticas para a concepção atual do
inglês para fins específicos. Na terceira parte do capítulo, analisamos a importância
do conceito de gêneros na abordagem do inglês para fins específicos e sua
influência no desenvolvimento da escrita empresarial em inglês.
1.1 A influência norte-americana no ensino superior brasileiro na década de
1960 e os desdobramentos para a Linguística Aplicada, para a representação
social e para o docente
No final dos anos 60, sob a tutela do regime militar, Brasil e Estados Unidos
firmam – por meio da USAID8 – uma série de acordos conhecidos como MECUSAID, os quais – conforme diretrizes da Aliança Para o Progresso – “eram voltados
para a cooperação entre os dois países, visando à ‘modernização’ do sistema
educacional do Brasil.” (SANTOS, 2005, p. 105, grifo do autor).
8
USAID (U.S. Agency for International Development – Agência Norte-Americana para o
Desenvolvimento Internacional).
21
Sob a visão do milagre econômico, este período é fortemente marcado pelo
aumento do capital norte-americano e europeu em nosso país, tendo a reforma
universitária de 1968 como parte dos planos de desenvolvimento planejados pela
Aliança Para o Progresso.
Moldado de acordo com o contexto sócio-histórico, o ensino superior recebe
influências diversas, dentre as quais a do modelo alemão ou humboldismo, que
entra em vigor no Brasil a partir das diretrizes contidas na Lei 5.540/68, na qual
[...] a ciência busca unir os professores entre si e aos alunos pela
pesquisa, em dois espaços de atuação: os institutos, visando à formação
profissional e os centros de pesquisa, que seriam regidos por situações
essencialmente opostas ao modelo francês, a saber: autonomia ante o
Estado e a sociedade civil [...] (PIMENTA; ANASTASIOU, 2008, p. 151, grifo
nosso).
Conforme exposto, as diretrizes adotadas na reforma universitária de 1968
privilegiam a troca de conhecimento entre aluno e professor, separando a pesquisa
do ensino, ou seja, “deixando à graduação a responsabilidade de formação dos
quadros profissionais, destinando à pós-graduação a responsabilidade da
pesquisa.” (PIMENTA; ANASTASIOU, 2008, p. 152, grifo nosso).
Deste modo, a fim de obter apoio das camadas médias da população, os
militares promovem a implantação de uma educação superior voltada à formação
dos quadros profissionais, tendo a escola como modelo reprodutor de tais quadros,
consoante explanação abaixo.
[...] com o acesso ao ensino superior ampliado, as camadas médias
acreditavam que estavam garantidas a ascensão e manutenção social, ou
seja, através das medidas econômicas do chamado “milagre econômico” o
governo militar proporcionou a esta fração da classe trabalhadora o
aumento do consumo dos bens materiais e intelectuais, estes últimos
presentes nas reformas do ensino. (SANTOS, 2005, p. 105, grifo nosso).
Portanto, é neste contexto sócio-histórico, diante do poderio econômico e
militar dos Estados Unidos, após a Segunda Guerra Mundial, que surge – na década
de 1960 – a necessidade do ensino de inglês a países periféricos, a fim de que tais
“acordos de cooperação” sejam concretizados.
Fomentado pela Fundação Ford, é criado em 1959, o Centro de Linguística
Aplicada em Washington, Estados Unidos, cujo objetivo é
22
auxiliar na solução de problemas com relação ao ensino de línguas,
encontrados em vários países em desenvolvimento. Institutos semelhantes
foram criados em várias partes do mundo, visando à coleta e à análise de
dados sobre o papel e o uso do inglês e de outras línguas, resultando na
criação de programas e materiais para o ensino de idiomas, bem como o
treinamento de professores para a sua utilização. (COSTA, 2011, p. 20).
Segundo Costa (2011), banida pelo Estado dos currículos dos cursos de
Letras no final da década de 1930, a Linguística volta a fazer parte da universidade
brasileira a partir da Resolução de 1962.
Em 1963, é implantado, na Universidade de Brasília (UNB), o primeiro
departamento de Linguística do Brasil, e o primeiro programa de pós-graduação em
Linguística em nível de mestrado. Porém, a falta de profissionais nas universidades
brasileiras resulta na vinda de professores-pesquisadores europeus e americanos,
os quais trazem novas concepções e teorias com relação ao estudo da linguagem;
entre elas, a Linguística Aplicada, que tem a Linguística como principal suporte
(COSTA, 2011).
Sob iniciativa do Instituto de Idiomas Yázigi, acontece, “em 1965, no Rio de
Janeiro, o 1o Seminário Brasileiro de Linguística, com o patrocínio do Ministério da
Educação e Cultura, dentre outras instituições.” (COSTA, 2011, p. 29).
Em 1968, a Universidade do Rio de Janeiro, em parceria com o Museu
Nacional, cria o curso de pós-graduação em Linguística, tendo uma de suas áreas
de concentração voltada para a “Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas”.
Em 1969, subsidiada pela Fundação Ford e o instituto de idiomas Yázigi, é
fundada a ABRALIN – Associação Brasileira de Linguística.
Considerada por muitos autores como uma ciência jovem, a LA [...] tem
contribuído com afinco para o desenvolvimento da pesquisa, transgredindo
fronteiras, renovando conceitos [...] Esse processo evolutivo foi possível
devido à reflexão sobre a língua e a linguagem, em um primeiro
momento, por meio do ensino de línguas e, consequentemente, pela
demanda social, como processo e produto da atividade histórica do
homem no mundo. (COSTA, 2011, p. 90, grifos nossos).
Assim, ao refletirmos sobre o papel da linguagem como processo e produto
da atividade do homem em diferentes contextos sócio-históricos, deparamo-nos,
igualmente, com a relevância que as representações sociais exercem neste
processo.
23
O psicólogo social Serge Moscovici entende “representações sociais” como
um sistema de valores, ideias e práticas, com uma dupla função: primeiro,
estabelecer uma ordem que possibilitará às pessoas orientar-se em seu
mundo material e social e controlá-lo; e, em segundo lugar, possibilitar que
a comunicação seja possível entre os membros de uma comunidade,
fornecendo-lhes um código para nomear e classificar, sem ambiguidade, os
vários aspectos de seu mundo e de sua história individual. (MOSCOVICI,
2011, p. 21).
Moscovici nos lembra que “as representações podem ser o produto da
comunicação, mas também é verdade que, sem a representação, não haveria
comunicação.” (2011, p. 22). Como atores sociais, ao interagirmos em situações
diversas, moldamos nossas ações e comunicações conforme o referencial
situacional, utilizando “um comportamento adequado para cada circunstância, uma
fórmula linguística para cada confrontação e a informação apropriada para um
contexto determinado.” (MOSCOVICI, 2011, p. 52).
Inseridas dentro do contexto sócio-histórico, as representações propiciam o
aparecimento de novas formas de comunicação, que demandam dos sujeitos a
adequação de seu comportamento às novas situações discursivas. No mundo
contemporâneo, no qual as novas formas de comunicação têm como uma das
principais características o compartilhamento de informações em larga escala, a
clareza e adequação da informação são fatores primordiais para a transmissão
eficaz da mensagem.
Clay Shirky, professor da Universidade de Nova York e pesquisador das
formas de comunicação das mídias sociais, defende que o conhecimento seja “a
coisa mais combinável que nós, humanos, temos, mas tirar proveito disso requer
condições especiais [...]” (SHIRKY, 2011, p. 142).
Deste modo, para que as informações sejam utilizadas de maneira eficaz,
resultando em uma produção discursiva clara e objetiva, devemos – como docentes
– auxiliar o aluno na construção de conhecimento que o capacite a “trabalhar com as
informações classificando-as, analisando-as e contextualizando-as” (MORIN apud
PIMENTA, 2002, p. 21), propiciando-lhe meios de recriar sua realidade
(MOSCOVICI, 2011), na medida em que é capaz de argumentar racionalmente
sobre sua ação.
24
Nesse universo de representações não estáticas – no qual a ação do sujeito
tem papel de destaque –, ressaltamos, mais uma vez, a importância do docente
como orientador, provendo suporte ao aluno para que identifique qual representação
deseja assumir perante as situações discursivas de seu cotidiano, uma vez que é
mediante as representações sociais, traduzidas por meio da comunicação, que nos
ligamos ou nos distanciamos uns dos outros, construindo ou restringindo nossas
oportunidades pessoais e profissionais.
Assim sendo, a fim de prover meios para que a prática social seja a mais
efetiva possível, e estando nosso objeto de pesquisa inserido no contexto de
negócios, buscamos nos aportes teóricos do inglês para fins específicos e inglês
para
negócios
caminhos
que
auxiliem
na
construção
do
conhecimento
sociolinguístico requisitado no ambiente de trabalho, tema a ser discutido a seguir.
1.2 Inglês para Fins Específicos e Inglês para Negócios
1.2.1 Histórico e considerações sobre o ensino-aprendizagem
Falada por 1,5 bilhão de pessoas no mundo9, língua oficial das Nações
Unidas e outras organizações mundiais, a língua inglesa – considerada língua
franca10 em muitas regiões – é essencial na comunicação empresarial.
Segundo Hutchinson e Waters (1987), tal fato sucedeu-se devido à expansão
das atividades científica, tecnológica e econômica ocorridas no mundo após o final
da Segunda Guerra Mundial e, mais notadamente, pelo poderio econômico
conquistado pelos Estados Unidos no período pós-guerra. Segundo os autores,
como resultado dessa expansão, tivemos um aumento do número de pessoas
interessadas em estudar a língua inglesa; não pelo prazer ou pelo prestígio de
conhecer o idioma, mas pela necessidade de utilizá-la em contextos tecnológicos
e/ou comerciais.
9
Fonte: disponível em: <www.davidcrystal.community.librios.com/?fileid>. Acesso em: 29 out. 2014.
“A língua franca tem, assim com as demais línguas com que está em relação, a característica de
ser a língua de intercurso para os falantes de línguas diferentes”. Fonte: disponível em:
<http://www.labeurb.unicamp.br/elb/portugues/leiamais_lingua_franca.html>. Acesso em: 21 jan.
2014.
10
25
Para Hutchinson e Waters, o final da década de 1960 e início da de 1970 é
visto como período de grande expansão nas pesquisas relacionadas à utilização da
língua inglesa em diferentes áreas profissionais e acadêmicas (1987), posição
compartilhada por Ellis e Johnson, os quais afirmam que “[...] in the late 1960s and
early 1970s, specialist vocabulary was seen to be what distinguished Business
English from General English, and there was a preoccupation with business-related
words and terminology.”11 (1994, p. 3).
Segundo Ellis e Johnson (1994), os primeiros livros de inglês para negócios
(ex.: British Banking de J. Firth) contextualizam o vocabulário-chave por meio de
texto ou diálogo de tópico específico, com o ensino-aprendizagem baseado,
principalmente, em exercícios de compreensão de texto/vocabulário e de repetição
de estruturas selecionadas para uma determinada situação. Desenhado para alunos
que deveriam ter, no mínimo, o nível intermediário, o ensino-aprendizagem não
levava em consideração nem o conhecimento prévio do aluno, tampouco como tal
conhecimento seria colocado em prática.
Paralelamente, no campo da Linguística, em 1972, van Dijk defende a ideia
de que a linguística textual deveria ultrapassar a análise dos limites das frases,
investigando suas interações semânticas com o texto, ou seja, estabelecendo
relações entre a sequência de frases e as propriedades do discurso. Avançando em
relação aos estudos transfrásticos, em 1978, Charolles publica, na França, seu
artigo intitulado Introdução aos problemas de coerência dos textos, defendendo uma
proposta que visualizava – igualmente – o texto como um todo, dando, assim, um
enfoque mais pragmático aos estudos linguísticos.
Uma segunda abordagem, anunciada pelo vídeo e livro da BBC/OUP English
for Business (1972), enfatiza o ensino das quatro macro habilidades comunicativas12
no contexto de negócios, impulsionando, segundo Ellis e Johnson (1994), o
desenvolvimento do ensino do inglês para negócios.
11
“[...] No final da década de 1960 e início da década de 1970, o vocabulário específico era o que
distinguia o Inglês para Negócios do Inglês Regular, havendo uma preocupação com palavras e
termos relacionados aos negócios.” (tradução nossa).
12
Macro Habilidades: escrita, leitura, fala e compreensão auditiva.
26
Deste modo, seguindo as tendências da linguística textual (mudança da
abordagem estruturalista para a funcionalista), a partir da década de 1980 o ensinoaprendizagem do inglês para negócios focaliza a linguagem em situações
interativas, tais como expressar opiniões, concordar/discordar de certos assuntos,
recomendar etc.
O livro Functioning in Business (1987), de Knowles e Bailey, é apontado por
Ellis e Johnson (1994) como exemplo da abordagem funcionalista, no qual o
vocabulário-chave para situações discursivas, como confirmação de planos,
apresentações, almoços de negócios etc., é apresentado em áudio e colocado em
prática mediante encenações (role-play situations) das situações discursivas
previamente estudadas.
Tal mudança também é discutida por Hutchinson e Waters como processo de
desenvolvimento no ensino do inglês para fins específicos, que passa do estágio
inicial, no qual a linguagem era analisada apenas pela perspectiva da sentença, para
um segundo estágio – um nível acima –, em que o inglês para fins específicos
aproxima-se do campo do discurso ou retórica, no qual “[...] attention shifted to
understanding how sentences were combined in discourse to produce meaning.”13
(1987, p. 11).
Na década de 1980, vemos também o desenvolvimento de programas de
treinamento para empresas que propiciam aos funcionários a oportunidade de
frequentar cursos para o aprimoramento de habilidades requeridas no contexto
corporativo, como técnicas de apresentação, negociação etc., influenciando,
segundo Ellis e Johnson (1994), o desenvolvimento do ensino-aprendizagem do
inglês para negócios, no qual tais práticas são igualmente incorporadas como
ferramentas de aprendizagem.
Deste modo, consoante Ellis e Johnson, “since the late 1980s, Business
English teaching has drawn on aspects of all the previous approaches, but also
places much more emphasis on the need to develop the skills for using the language
13
“O foco mudou para o entendimento de como as sentenças combinavam-se no discurso a fim de
produzir sentido.” (tradução nossa).
27
learned”14 (1994, p. 4), posição compartilhada por Dudley-Evans e St. John (1998),
para os quais existe atualmente uma tendência a se aceitar um ecletismo entre
abordagens e uma liberdade para se mesclarem vários materiais didáticos e
metodologias diferentes.
Com relação à sua concepção, Hutchinson e Waters (1987) classificam o
inglês para negócios (definido pelos pesquisadores como English for Business and
Economics – EBE) como uma área do conhecimento existente dentro do contexto do
inglês para fins específicos (ESP), devendo ser compreendido como uma
abordagem e não um produto, uma vez que as decisões relacionadas ao conteúdo e
método são baseadas nas necessidades de aprendizagem do aluno.
Para Dudley-Evans e St. John (1998), o inglês para negócios, embora visto
por alguns pesquisadores como um ramo do EOP15 (Inglês para Propósitos
Ocupacionais) por apresentar tanto características do inglês geral como do inglês
específico, envolve situações discursivas relacionadas a negociações, devendo ser
classificado como inglês para propósitos ocupacionais (área existente dentro do
campo do inglês para fins específicos).
Entretanto, mais do que classificá-lo em uma determinada área, DudleyEvans e St. John (1998) defendem a posição do inglês para negócios como uma
linguagem intermediária entre o inglês geral e o inglês para propósitos específicos,
posição compartilhada por Picket, para o qual o inglês para negócios é visto como “a
mediating language between the technicalities of particular businesses... and the
language of the general public.”16 (apud DUDLEY-EVANS; ST. JOHN, 1998, p. 8).
Definido como campo dentro do inglês para fins específicos, Ellis e Johnson
(1994) argumentam que o curso de inglês para negócios assemelha-se a outras
áreas do curso de inglês para fins específicos, por compartilhar pontos comuns,
como a análise de dados, escolha/desenvolvimento do conteúdo do curso e
14
“Desde o final da década de 1980, o ensino do inglês para negócios utiliza todas as abordagens
anteriores, enfatizando – entretanto – o desenvolvimento das habilidades necessárias para a prática
do vocabulário apreendido.” (tradução nossa).
15
O termo EOP (English for Occupational Purposes) refere-se ao inglês para propósitos profissionais,
cobrindo áreas como administração, medicina, direito e negócios (DUDLEY-EVANS; ST. JOHN, 1998,
p. 7).
16
“[...] uma linguagem mediadora das tecnicidades específicas do inglês para negócios... e da
linguagem do público geral.” (tradução nossa).
28
seleção/desenvolvimento do material. Porém, os autores argumentam que o inglês
para negócios difere de outras áreas do curso de inglês para fins específicos por
apresentar conteúdo pertinente às habilidades comunicativas necessárias para
situações de negócios, ponto de grande relevância no mundo corporativo e no
ensino-aprendizagem do inglês para negócios, conforme exposto abaixo.
The recognition of the need for businesspeople to be proficient in business
communication skills has had a major impact on Business English teaching.
Although it is not the designated brief of the Business English teacher to
train businesspeople in behavioural techniques (for example, presentation or
negotiation), it is hard to ignore the influence that good behavioural skills
17
have on successful communication. (ELLIS; JOHNSON, 1994, p. 5).
Outro ponto importante, segundo Ellis e Johnson (1994), a ser considerado no
ensino-aprendizagem do inglês para negócios é a distinção entre alunos com pouca
ou nenhuma experiência (pré-serviço) e alunos experientes. Segundo os
pesquisadores, alunos de universidades ou faculdades ganham experiência pelos
livros, isto é, uma experiência mais teórica do que prática, não tendo, muitas vezes,
consciência das necessidades linguísticas e comportamentais necessárias para as
situações discursivas no contexto de negócios.
Tais argumentos corroboram posição expressa por pesquisadores em matéria
de Ruth Costas, da BBC-Brasil, de 09 de outubro de 2013, seção “mercado de
trabalho”, na qual “a decepção do mercado com o que já está sendo chamado de
‘geração do diploma’ é confirmada por especialistas, organizações empresariais e
consultores de recursos humanos”. Essa posição é compartilhada pelo sociólogo e
especialista em relações do trabalho José Pastore, que diz que “os empresários não
querem canudo. Querem capacidade de dar respostas e de apreender coisas
novas.” (COSTAS, 2013, s. p.).
A fim de prover pré-conhecimento do mundo corporativo, Ellis e Johnson
(1994) propõem que o docente propicie aos alunos com pouca ou nenhuma
experiência (pré-serviço) oportunidades que envolvam situações em contextos que
englobem (1) leitura de textos ou acompanhamento de palestras em inglês e (2)
17
“O reconhecimento de que profissionais do mundo corporativo devam ser proficientes nas
habilidades de comunicação foi ponto crucial no ensino do inglês comercial. Embora não seja papel
do professor treinar tais profissionais referente a técnicas (por exemplo, apresentação ou
negociação), é difícil negar a influência que a boa etiqueta empresarial exerce em uma comunicação
eficaz.” (tradução nossa).
29
participação em seminários ou escrita de artigos em inglês, com foco no
aprendizado que os prepare para a futura vida profissional. Como atividades
relevantes para o desenvolvimento do aprendizado, Ellis e Johnson (1994) sugerem,
também, a escrita de correspondência comercial e desenvolvimento de situações,
como participação em reuniões, interações sociais etc.
Cientes de que perfis diferentes demandam atividades diferentes, Ellis e
Johnson (1994) lembram que, por terem a vivência prática de situações discursivas
no ambiente de trabalho, os alunos experientes percebem suas deficiências em
termos de fluência e nível de proficiência na comunicação, necessitando de
atividades que os auxiliem no aprimoramento dessas competências.
Os pesquisadores Ellis e Johnson expõem, ainda, outra importante questão
no ensino do inglês para negócios, problemática que também nos inquietou e nos
levou à busca de respostas para as necessidades de aprendizagem dos alunos: a
“funcionalidade” na linguagem. Os autores defendem que “the practical use of the
language will be more important than theoretical knowledge about the language.”18
(ELLIS; JOHNSON, 1994, p. 5).
Entretanto, é importante salientar que o “uso prático” da linguagem, descrito
acima pelos autores, não deve ser entendido como uma tarefa puramente mecânica,
mas como uma atividade discursiva adequada a um objetivo, na qual
o enunciado ou discurso não é um ato isolado e solitário, nem na oralidade
nem na escrita. O discurso diz respeito aos usos coletivos da língua que são
sempre institucionalizados, i.e., legitimados por alguma instância da
atividade humana socialmente organizada. (MARCUSCHI, 2011, p. 20).
Consoante Ellis e Johnson, grande parte da linguagem transacional utilizada
no mundo corporativo é objetiva, devendo ser conduzida de maneira clara e concisa,
ou seja, “getting what you want and persuading others to agree with the course of
action you propose.”19 (1994, p. 8). Porém, deve-se ressaltar que, para que haja a
persuasão, é necessário que o aluno entenda seu papel como sujeito discursivo e
18
“o uso prático da língua será mais importante do que o conhecimento teórico sobre a língua.”
(tradução nossa).
19
“conseguindo o que você quer e persuadindo outros a concordarem com o curso da ação que você
propôs.” (tradução nossa).
30
seu discurso como prática discursiva a ser construída de maneira a atingir o objetivo
proposto.
Para tanto, para que possamos ajudar o aluno na construção do
conhecimento necessário para o desenvolvimento da prática discursiva de modo a
atingir o objetivo proposto,
we may thus distinguish between studying the language and discourse of,
for example, medicine for academic purposes, which is designed for
medical students, and for studying for occupational (professional)
20
purposes, which is designed for practising doctors. (DUDLEY-EVANS;
ST. JOHN, 1998, p. 7, grifos nossos).
Deste modo, com a definição clara dos objetivos a serem atingidos, isto é, as
habilidades/linguagem/discurso específicos a serem trabalhados (DUDLEY-EVANS;
ST. JOHN, 1998), otimizamos o processo de ensino, tendo maior chance de êxito na
aprendizagem.
Portanto, diante dos argumentos expostos e cientes de que o inglês para
negócios engloba tanto termos específicos como termos gerais da língua inglesa,
expomos, abaixo, alguns pontos relevantes a serem considerados pelo docente no
desenvolvimento de cursos destinados a propósitos comerciais.
Preparação para o curso
Análise de dados
Análise de nível
Inglês para Negócios
Avaliar os dados dos alunos e
definir o nível de linguagem
necessária para a execução das
tarefas a serem desempenhadas
no trabalho.
Testes escritos ou entrevistas.
Ementa
Cursos já estabelecidos terão
objetivos
e
ementas
já
determinados. Cursos especiais
necessitam uma ementa especial.
Objetivos do curso
Objetivos do curso definidos
conforme
resultados
obtidos
mediante a análise de dados. Os
objetivos devem ser trabalhados
em:
(1)
termos
de
tarefas/habilidades necessárias ao
aluno para a execução das tarefas
relacionadas ao trabalho, ou (2)
20
Inglês Regular (Geral)
Avaliar
as
necessidades
linguísticas dos alunos.
Testes
de
colocação
ou
entrevistas para agrupar alunos
de nível semelhante.
Geralmente determinada pela
escolha do livro a ser seguido e
realização de teste ao final do
curso.
A
ementa
engloba
vocabulário e gêneros diversos.
Cursos preparatórios para exames
terão objetivos preestabelecidos
(ex.: CAE).
Cursos individuais: as pessoas
terão objetivos diferentes, tais como
interesse na cultura, desejo de
viajar ou morar no exterior,
“Devemos distinguir entre estudar a linguagem e discurso de, por exemplo, medicina para
propósitos acadêmicos, a qual é desenhada para estudantes, e estudar a linguagem para propósitos
ocupacionais (profissionais), desenhada para a prática da medicina.” (tradução nossa).
31
Preparação para o curso
Duração
Expectativas dos alunos
Material
Metodologia
Avaliação do
desenvolvimento
Inglês para Negócios
em termos de desenvolvimento de
linguagem necessária ao aluno,
tais como estruturas de comando,
pronúncia etc.
Em faculdades e universidades, a
duração
do
curso
é
preestabelecida.
Os alunos tendem a ter objetivos
bem definidos com foco no
resultado. Os profissionais têm
alta expectativa com relação à
eficiência,
qualidade
e
profissionalismo.
Material impresso, de áudio e
vídeo
são
encontrados
à
disposição do professor. Porém,
podem
não
atender
às
expectativas dos alunos. É
necessário o desenvolvimento de
material próprio para o curso
específico.
Muitas
atividades
são
semelhantes às realizadas no
curso de inglês regular, como as
relacionadas
ao
ensino
de
estruturas
gramaticais,
vocabulário e socialização. As
dramatizações
(role-play)
de
situações
estudadas
são
semelhantes, diferindo apenas
com relação ao contexto e
vocabulário. O inglês comercial
também emprega ideias adotadas
no treinamento de pessoal em
empresas, como tarefas de
resolução de problemas, tomadas
de decisão e trabalho em equipe.
Aos alunos com experiência
profissional é dada a oportunidade
de compartilhar sua vivência com
os demais.
Em faculdades e universidades, a
avaliação formal é feita mediante
testes orais e escritos. Em uma
avaliação mais informal, enfatizase o progresso na comunicação,
isto
é,
o
locutor/escritor
expressou-se de maneira eficaz o
suficiente, atingindo o objetivo do
discurso na situação-alvo?
Inglês Regular (Geral)
necessidade de melhorar as
habilidades linguísticas para fins
profissionais.
Fora do sistema educacional a
duração do curso pode variar.
Os alunos querem progredir,
porém – geralmente – são menos
propensos a traçarem metas
específicas para serem cumpridas
em um prazo determinado.
Existe à disposição uma grande
variedade de material didático
para o ensino do Inglês Regular
(em todos os níveis). Na maioria
das
vezes,
não
há
o
desenvolvimento
de
material
próprio por parte do professor.
Existe uma grande variedade de
técnicas a serem utilizadas nas
aulas de inglês regular. Muitas
atividades são desenvolvidas a
fim de tornar a aula mais
“prazerosa”,
assegurando
a
motivação e interesse.
As avaliações incluem teste
escrito (relacionado à adequação
gramatical e de vocabulário) e
teste oral (avaliação da fluência,
pronúncia
e
habilidade
comunicativa).
Com relação ao teste mais
informal (ex.: o desempenho em
sala de aula), avalia-se o aluno
com relação ao conhecimento
gramatical,
apropriação
de
vocabulário e adequação da
pronúncia.
Fonte: Quadro adaptado a partir de Ellis e Johnson (1994, p. 10).
32
Conforme explanação contida no quadro acima, observarmos que, apesar de
apresentar vários pontos em comum com o curso de inglês regular, tais como
avaliação das necessidades linguísticas, avaliação do desenvolvimento etc., o curso
de inglês para propósitos específicos tem, na análise de dados da área específica
de atuação do aluno, o principal subsídio para o desenvolvimento de uma ementa
que motive os alunos na obtenção dos objetivos propostos.
Segundo afirmam Ellis e Johnson, “success in learning can only come about if
the learner is motivated. Making the course relevant to job or study needs is usually a
good way to motivate the learner.”21 (1994, p. 71).
Deste modo, para que o desenho do curso seja relevante e para um melhor
entendimento sobre as diferenças e semelhanças existentes entre o curso de inglês
regular e inglês para negócios, Dudley-Evans e St. John (1998) dividem o campo do
“inglês para negócios” (Business English) em duas subcategorias:
A) inglês para propósitos gerais de negócios (English for General Business
Purposes – EGBP);
B) inglês para propósitos específicos de negócios (English for Specific
Business Purposes – ESBP).
Dudley-Evans e St. John (1998) argumentam que os cursos de inglês para
propósitos gerais de negócios (EGBP) são – em sua grande maioria – desenvolvidos
para alunos sem ou com pouca experiência na área profissional em questão, tendo
seu desenho semelhante ao dos cursos regulares de inglês para estrangeiros
(English as a Foreign Language – EFL), porém com material direcionado ao contexto
corporativo.
Com relação aos cursos de inglês para propósitos específicos de negócios
(ESBP), os pesquisadores os definem como cursos desenvolvidos para alunos com
experiência corporativa na área em questão, trazendo, desta maneira, as
habilidades comportamentais necessárias para o aprendizado da língua nas
situações discursivas a serem estudadas. Com relação ao material a ser
21
“O sucesso no aprendizado virá somente se o aluno estiver motivado. Tornar o curso relevante,
atendendo às necessidades profissionais ou acadêmicas, é – na maioria das vezes – uma boa
maneira de se motivar o aluno.” (tradução nossa).
33
desenvolvido para o curso de inglês para propósitos específicos de negócios, os
autores defendem a posição de uma escolha cuidadosa do material, focalizando
uma ou duas habilidades linguísticas em situações discursivas específicas do
contexto corporativo.
Assim sendo, diante do exposto, Dudley-Evans e St. John (1998) defendem a
posição de que, nas aulas do curso de Business English cujo contexto seja o geral, a
interação entre professor e aluno seja semelhante à das aulas do curso de inglês
regular. Porém, nas aulas do curso de Business English cujo contexto seja mais
específico, o professor deve agir como um consultor de línguas, experienciando
status semelhante ao dos alunos com expertise no assunto corporativo em pauta.
Ao promover, portanto, um ambiente propício para o desenvolvimento das
competências necessárias à prática discursiva no ambiente de trabalho, o docente
terá mais chances de êxito no ensino-aprendizagem, motivando o aluno na busca da
construção de seu conhecimento.
1.2.2
Conceitos
presentes
nas
diferentes
correntes
linguísticas
que
contribuíram para a concepção atual do inglês para fins específicos
Consoante Hutchinson e Waters (1987), o inglês para fins específicos
incorporou ideias advindas de sucessivas correntes linguísticas, as quais
influenciaram na construção da concepção atual dessa abordagem. Abaixo,
discorremos sobre a trajetória das correntes linguísticas e respectivos conceitos que,
segundo os autores, contribuíram para o desenvolvimento do ensino-aprendizagem
do inglês para fins específicos nos moldes atuais.
A) Linguística estrutural:
Com o advento do estruturalismo na década de 1930, associado a linguistas
como Bloonfield, a linguística estrutural ganha grande influência no ensino de
línguas no período pós-guerra (HUTCHINSON; WATERS, 1987).
34
Conhecida também como “slot and filter”22, a linguística estrutural tem sua
gramática descrita em termos de estruturas sintagmáticas que carregam
proposições fundamentais (afirmação, interrogação etc.) e de noções (tempo,
número etc.).
Segundo Hutchinson e Waters (1987), ao modificarmos as palavras dentro
desses
“enquadramentos
estruturais”,
obtemos
sentenças
com
diferentes
significados, consoante quadro de substituição, exemplificado abaixo, utilizado como
meio de ensino de diferentes estruturas.
Some foods
can
cause
death
may
result in
allergies
asphyxia
Fonte: Quadro retirado de Hutchinson e Waters (1987, p. 25).
Hutchinson
e
Waters
(1987)
avaliam
também
a
contribuição
dos
pesquisadores Ewer e Latorre como fator de fundamental importância para o
estruturalismo no ESP, ao utilizarem tais preceitos como base para a ementa de seu
curso em inglês científico básico (Basic Scientific English).
B) Gramática Gerativa Transformacional:
A visão estrutural da língua como uma coleção de estruturas sintagmáticas
predominou até a publicação, em 1957, de “Syntactic Structures”, por Noam
Chomsky.
Chomsky (apud HUTCHINSON; WATERS, 1987) argumentava que a
descrição estrutural da sentença – por ser uma mera descrição da estrutura – era
muito superficial, não explicando as relações de significado existentes no enunciado,
conforme exemplo a seguir:
John is easy to please.
John is eager to please.
22
Modelo conhecido como “ranhura e filtro”.
35
De acordo com a descrição estrutural, tais sentenças teriam a mesma relação
entre as palavras, o que não ocorre quando analisadas, tendo-se como referência o
significado do enunciado.
Chomsky (apud HUTCHINSON; WATERS, 1987) conclui que tais problemas
decorrem da análise e descrição da língua como um fenômeno isolado da produção
humana e não como reflexo dessa produção. O pesquisador descreve, dessa forma,
a construção de significado no enunciado em dois níveis: um mais interiorizado,
ligado à organização dos pensamentos, e outro de superfície, no qual os
pensamentos são expressos por intermédio da sintaxe da língua. Desta maneira,
segundo o linguista americano, a gramática de uma língua não se reduz a estruturas
de superfície, e sim a princípios e parâmetros que possibilitam o enunciador criar
estruturas de superfície de modo a comunicar seus pensamentos, ou seja, uma
teoria que permite verificarmos o funcionamento linguístico, daí o nome gerativa.
O trabalho de Chomsky restabelece, primeiramente, a ideia de que a língua é
governada por regras. Em segundo lugar, ele amplia a visão da língua como
significado-forma. Porém, segundo Hutchinson e Waters, o legado mais importante
de Chomsky para o ensino-aprendizagem do inglês para fins específicos é o da
distinção entre performance ou desempenho (estrutura de superfície: o fazer) e
competência (saber interiorizado: domínio de certos princípios), isto é, “what people
do with the language (performance) is important, but of equal, if not greater
importance is discovering the competence that enables them to do it”23 (1987, p. 27),
ressaltando, com esse conceito, a relação entre produção textual e propósito
comunicativo.
C) Variação Linguística e Análise-Registro:
A análise de registro tinha como foco a gramática e vocabulário do inglês
técnico e científico. Conforme Hutchinson e Waters (1987), o conceito de variação
linguística deu origem a um tipo de inglês para fins específicos baseado na análise
de registro. Em outras palavras, se a linguagem varia de acordo com o contexto, é
possível identificar o tipo de vocabulário associado a um contexto específico, tanto
23
“o que as pessoas fazem com a língua (desempenho) é importante, mas de igual importância – se
não maior – é desvendar a competência que possibilita tal desempenho.” (tradução nossa).
36
no que se refere a uma determinada área do conhecimento (Inglês Jurídico, Inglês
para Negócios etc.), como à área de uso (manuais técnicos, textos acadêmicos,
reuniões de negócios etc.).
D) Gramática Funcional/Nocional:
Consoante Hutchinson e Waters (1987) as funções estão relacionadas com o
comportamento social e representam a intenção do enunciador, tais como descrição,
conselho, ameaça etc., isto é, os atos comunicativos existentes na linguagem.
Noção24, por outro lado, reflete a maneira como o ser humano pensa; é
representada por categorias mediante as quais a mente e, por consequência, a
linguagem divide a realidade em elementos, tais como o tempo, frequência, duração
etc.
Igualmente, segundo Hutchinson e Waters (1987), a visão funcional da
linguagem começou a ter influência no ensino de línguas na década de 1970,
principalmente com relação aos esforços do Conselho Europeu em padronizar
conteúdos relacionados ao ensino de diferentes línguas. Tal padronização tornavase difícil, tendo como base a estrutura gramatical. No entanto, caso a base fosse
funcional ou nocional, tal padronização/equivalência poderia ser alcançada, uma vez
que noções e funções representam categorias do pensamento humano e
comportamento social, não sofrendo grandes variações entre as línguas.
Deste modo, vemos na década de 1970 a migração de conteúdos baseados
em critérios estruturais, para conteúdos baseados em critérios nocionais ou
funcionais. Este movimento foi de grande importância no desenvolvimento do
ensino-aprendizagem do inglês para fins específicos, uma vez que tal critério baseiase na língua em uso e não somente na forma.
Entretanto, o conteúdo funcional tem seus próprios obstáculos. Segundo os
autores, o principal problema é o fato de ele ser visto, na maioria das vezes, como
substituto do conteúdo estrutural. Hutchinson e Waters (1987) defendem a ideia de
que os dois conteúdos devem ser vistos como complementares, um dando suporte
ao outro, posição igualmente defendida por Brumfit (apud HUTCHINSON e
24
Notions, on the other hand [...]. Termo utilizado pelos pesquisadores.
37
WATERS, 1987) ao desenvolver o conteúdo a ser ensinado utilizando uma escada
central com estruturas entrelaçadas a uma cobra em espiral (snakes and ladders) e
funções correlatas.
E) Análise do Discurso (retórica):
Segundo Hutchinson e Waters (1987), a Análise do Discurso (retórica) teve
grande influência no desenvolvimento do ensino-aprendizagem do inglês para fins
específicos, já que a linguagem não era mais vista só pela perspectiva das
sentenças, mas como tais sentenças eram combinadas a fim de se produzir
significado. Segundo os autores, essa foi uma evolução natural da visão
funcional/nocional para uma visão de linguagem na qual havia um sentido além das
simples palavras das sentenças, demonstrando que o contexto era fator igualmente
importante na criação de significado.
Como exemplo, Hutchinson e Waters (1987) utilizam a frase it’s raining (está
chovendo) em três diferentes contextos, conforme descrição abaixo:
Can I go out to play?
25
It’s raining.
Have you cut the grass yet?
26
It’s raining.
I think I’ll go out for a walk.
27
It’s raining.
Hutchinson e Waters (1987) afirmam que, em todos os casos, tanto a
proposição (afirmação), quanto a noção (tempo verbal, neutralidade) são as
mesmas. Entretanto, as sentenças atendem a três propósitos comunicativos
diferentes, de acordo com seus respectivos contextos. Na primeira sentença,
teríamos um pai falando com o filho (função: pedido de permissão); na segunda, a
esposa falando com o marido (função: dar desculpas); e na terceira, uma conversa
entre amigos (função: aconselhamento).
Hutchinson e Waters (1987) afirmam que tais mudanças ocorrem devido ao
contexto sociolinguístico (grau de relacionamento entre os participantes e motivo do
25
Posso sair para jogar? Está chovendo. (tradução nossa).
Já cortou a grama? Está chovendo. (tradução nossa).
27
Acho que vou sair para andar. Está chovendo. (tradução nossa).
26
38
diálogo) e a posição da elocução no discurso (a elocução ganha sentido em virtude
das palavras posicionadas anteriormente e posteriormente a ela).
Assim, seguindo a tendência da retórica do discurso, “another important
characteristic of the 1990 – 2011 period is the dominance of genre in ESP
research.”28 (JOHNS, 2013, p. 14). Cientes de que o contexto é fator primordial na
construção de sentidos, o estudo de gêneros na abordagem do inglês para fins
específicos é de grande importância, uma vez que, “ao dominarmos um gênero
textual, não dominamos uma forma linguística e sim uma forma de realizar
linguisticamente objetivos em situações sociais particulares” (MARCUSCHI, 2010, p.
31), situação vivida pelo enunciador que utiliza o inglês para fins específicos como
ferramenta de comunicação no ambiente de negócios.
E é sob a visão do uso do inglês para negócios como prática sociodiscursiva
que analisamos, a seguir, a importância dos gêneros textuais no ensinoaprendizagem do inglês para fins específicos e seus desdobramentos para o
desenvolvimento da escrita e, em particular, da escrita empresarial em inglês.
1.3 A importância dos gêneros textuais no ensino-aprendizagem do inglês para
fins específicos e desenvolvimento da escrita empresarial
Em nossa pesquisa, vemos a produção textual como uma atividade interativa,
social e cognitiva, na qual “o texto, ao se constituir como evento comunicativo,
materializa-se como processo, uma vez que é atividade mediada pelos atores
sociais que interagem com ele.” (DIONÍSIO; MARCUSCHI, 2007, p. 125).
Conforme Bazerman (apud MARCUSCHI, 2011), embora concebidos como
“rotinas sociais de nosso dia a dia” delimitando nossas escolhas linguísticas, isto é, o
que Amy Devitt (apud Marcuschi, 2011) descreve como “linguagem estândar”, os
gêneros devem ser vistos como entidades “dinâmicas” que atuam como formas de
expressão cultural e cognitiva de seu tempo; ou seja, o que Bhatia define como uma
“seleção tática de ferramentas adequadas a algum objetivo” (apud MARCUSCHI,
2011, p. 20), submetida a um critério de êxito.
28
“Outra importante característica do período de 1990 – 2011 é o domínio dos gêneros nas pesquisas
relacionadas ao inglês para fins específicos.” (tradução nossa).
39
Como forma de expressão de seu tempo, a noção tradicional de gênero,
inicialmente ligada à literatura, foi recentemente estendida a todos os tipos de
produções verbais, conforme Maingueneau (2001), posição igualmente defendida
por Marcuschi, para o qual
a expressão gênero sempre esteve, na tradição ocidental, especialmente
ligada aos gêneros literários, mas já não é mais assim, como lembra Swales
(1990:33), ao dizer que “hoje, gênero é facilmente usado para referir uma
categoria distintiva de discurso de qualquer tipo, falado ou escrito, com ou
sem aspirações literárias.” (2011, p. 31).
Assim, incorporando a noção de gêneros a discursos não literários, o estudo
sobre gêneros no inglês para fins específicos tem seu início com o trabalho pioneiro
de Swales (apud DUDLEY-EVANS; ST. JOHN, 1998), referente à análise de
“introduções” de artigos acadêmicos. O autor verifica uma regularidade de
“movimentos” e “passos” em todas as introduções analisadas, classificando como
“movimento” a unidade que se relaciona ao propósito do enunciador e ao conteúdo a
ser transmitido, o qual se subdivide em “passos”, provendo o enunciador com uma
perspectiva
detalhada de
opções
existentes
para o
estabelecimento
dos
“movimentos”.
Seguindo a tendência de estudos sobre gêneros não literários, Bhatia (apud
DUDLEY-EVANS; ST. JOHN, 1998) demonstra que a pesquisa conduzida por
Swales na área acadêmica pode ser também aplicada à área do inglês para
propósitos ocupacionais (English for Occupational Purposes – EOP), desenvolvendo
estudos relacionados a documentos jurídicos e cartas comerciais, sendo, este
último, objeto de interesse de nossa pesquisa.
Bhatia (apud DUDLEY-EVANS; ST. JOHN, 1998) analisa dois tipos de cartas,
classificadas, pelo autor, como pertencentes ao “gênero promocional”: a carta
promocional de vendas e a carta de apresentação para uma vaga de emprego. O
pesquisador verifica que ambas apresentam o mesmo padrão de “movimentos”,
conforme exposto a seguir.
40
Carta Promocional de
Carta de Apresentação
Vendas
(vaga de emprego)
Movimento 1 Estabelecer contato
Estabelecer contato
Movimento 2 Apresentar a oferta
Apresentar a candidatura
Apresentar vantagens
Movimento 3 Apresentar vantagens
Anexar documentos
Movimento 4 Anexar documentos
Movimento 5 Solicitar resposta
Utilizar táticas de persuasão
Movimento 6 Utilizar táticas de persuasão
Solicitar resposta
Movimento 7 Fechamento cordial
Fechamento cordial
Fonte: Quadro retirado de Dudley-Evans e St. John (1998, p. 91).
Embora tal análise tenha como foco a superfície do texto, não fazendo
menção ao contexto e outras influências externas, Bhatia a vê como um instrumento
útil ao docente na preparação de materiais relacionados à escrita e leitura, uma vez
que tais estratégias de textualização servem como elo entre os “movimentos”
resultantes do enunciado e as características da comunidade discursiva ao qual o
gênero pertence.
Para Swales (apud DUDLEY-EVANS; ST. JOHN, 1998), a comunidade
discursiva apresenta mecanismos de intercomunicação entre seus membros,
utilizando-se de um ou mais gêneros para o alcance de seu objetivo. Segundo
Swales, a maneira pela qual o discurso é produzido é influenciada pelas
expectativas geradas pelo coenunciador em relação ao gênero discursivo em
questão, ou seja, o que Maingueneau descreve como competência genérica
partilhada por membros de uma coletividade a fim de assegurar a comunicação
verbal (2001).
Segundo Maingueneau, “todo gênero do discurso implica um certo lugar e um
certo momento. Não se trata de coerções externas, mas de algo constitutivo” (2001,
p. 66, grifo nosso) dentro de um contexto sócio-histórico. Com a evolução
tecnológica e a criação da Internet, vemos, no mundo contemporâneo, o surgimento
de novos gêneros digitais da mídia virtual; entre os quais, o e-mail, cujas
características “possibilitam a redefinição de alguns aspectos centrais na
41
observação da linguagem em uso, como, por exemplo, a relação entre a oralidade e
a escrita, desfazendo ainda mais suas fronteiras.” (MARCUSCHI, 2010, p. 21).
Consoante Havelock (apud MARCUSCHI, 2010), essa tensão oralidade x
escrita – de caráter histórico – pode manifestar-se tanto em favor de uma oralidade
resgatada, ou em favor de uma sofisticada cultura escrita, dependendo do objetivo
do enunciador.
Cientes de que as diferenças de poder no mundo dos negócios traduzem-se
por meio do discurso, e diante dessa tensão “oralidade x escrita” presente nos
enunciados dos e-mails, concordamos com os argumentos de Dudley-Evans e St.
John ao dizerem que “the purposes of the interactions, the topics covered and the
professional relationships will affect the choice of the language”29 (1998, p. 55), fator
importante a ser considerado pelo enunciador em relação aos diferentes tipos de
público para os quais o enunciado será dirigido, e ponto de grande relevância para o
profissional de secretariado atuante no Brasil, onde as relações entre a formalidade
e a informalidade são difusas.
Deste modo, como docentes, é importante termos em mente que
quando ensinamos a operar com um gênero, ensinamos um modo de
atuação sociodiscursiva numa cultura e não um simples modo de
produção textual. (MARCUSCHI, 2011, p. 20, grifo nosso).
Ao promovermos – como docentes – atividades que desenvolvam as
habilidades necessárias para que o aluno possa refletir sobre a (in)adequação de
sua produção textual à situação sociodiscursiva apresentada no contexto
corporativo, a prática discursiva terá mais chances de êxito, resultando numa
comunicação eficaz, competência requisitada do profissional de secretariado no
atual mercado de trabalho.
Assim, é sob o ponto de vista da prática discursiva presente neste novo
gênero da mídia virtual, o e-mail, que apresentaremos o subitem a seguir.
1.3.1 Gênero textual: e-mail
29
“O propósito das interações, os tópicos a serem cobertos e o grau de hierarquia entre funcionários
são fatores que afetam a escolha do vocabulário.” (tradução nossa).
42
Conforme dados apresentados a posteriori em nossa pesquisa, temos o envio
e recebimento de e-mails como percepção da principal atividade realizada pelos
alunos do curso de secretariado executivo trilíngue (SET) no ambiente de trabalho,
sendo sua redação vista como uma das dificuldades apresentadas com relação às
tarefas a serem realizadas.
Deste modo, focalizamos, neste subitem, as peculiaridades e mudanças
linguísticas trazidas pelos novos gêneros da mídia virtual e, em particular, pelo
gênero e-mail.
A revolução e o impacto da tecnologia digital ocorrida no mundo pós-moderno
trouxeram grandes transformações na área da comunicação. O advento da Internet
propiciou o surgimento de novos gêneros com características inovadoras, como a
junção de texto, som e imagem (MARCUSCHI, 2002), modificando diretamente os
recursos linguísticos até então utilizados.
Para Marcuschi, a análise desses novos gêneros, denominados gêneros
digitais, deve levar em conta os seguintes pontos:
(1) seu franco desenvolvimento e um uso cada vez mais generalizado; (2)
suas peculiaridades formais e funcionais, não obstante terem eles
contrapartes em gêneros prévios; (3) a possibilidade que oferecem de se
rever conceitos tradicionais, permitindo repensar nossa relação com a
oralidade e a escrita. (2002, p. 1).
Objeto de estudo de vários pesquisadores, devemos lembrar que a análise
dos gêneros digitais requer cautela, por encontrar-se em pleno processo de
desenvolvimento.
Conforme Crystal, “the language of Internet users is plainly in a state of
transition”30 (2001, p. 16), posição compartilhada por Marcuschi, ao também citar
Crystal, em observação na qual argumenta que
o discurso eletrônico (ou a comunicação mediada por computador [CMC] se
alguém assim o preferir) ainda se acha em estado meio selvagem e
indomado sob o ponto de vista linguístico e organizacional. (2002, p. 6).
Levando em consideração o “estado de transição” em que o discurso
eletrônico se encontra, e tendo em mente a concepção de gênero como entidade
30
“a linguagem dos usuários da Internet está claramente num estado de transição.” (tradução nossa).
43
não estática, que se ancora em gêneros já existentes, processo denominado por
Bakhtin
(apud
MARCUSCHI,
2010)
como
“transmutação”
de
gêneros,
demonstramos, a seguir, estudo realizado com alguns dos gêneros emergentes mais
estudados e conhecidos na mídia virtual, relacionando-os às suas contrapartes
preexistentes.
GÊNEROS TEXTUAIS EMERGENTES NA MÍDIA VIRTUAL E SUAS
CONTRAPARTES EM GÊNEROS PREEXISTENTES
Gêneros já existentes
Carta pessoal // bilhete // correio
Conversações
(em grupos abertos?)
Conversações duais (casuais)
3 Bate papo virtual reservado
Encontros pessoais (agendados?)
4 Bate-papo ICQ (agendado)
5 Bate-papo virtual em salas privadas Conversações (Fechadas?)
6 Entrevista com convidado
Entrevista com pessoa convidada
7 Aula virtual
Aulas presenciais
(Aula participativa e interativa???)
8 Bate-papo educacional
Reunião de grupo/ conferência/ debate
9 Vídeo-conferência
Circulares/ séries de circulares (???)
10 Lista de discussão
Endereço postal
11 Endereço eletrônico
Fonte: Quadro retirado de Marcuschi (2002, p. 14, grifos do autor).
1
2
Gêneros emergentes
E-mail
Bate-papo virtual em aberto
Conforme exposto acima, embora existam muitos aspectos a serem
focalizados quanto a esses gêneros digitais, priorizamos, em nosso estudo, os
aspectos ligados ao e-mail como gênero emergente da mídia virtual, uma vez que
nos dará suporte para indicar, por meio da análise dos textos dos alunos, se e quais
elementos da proposta apresentada em nossa pesquisa auxiliariam na construção
de conhecimento sobre o gênero em questão.
De acordo com a descrição do quadro, observamos que a contribuição da
tecnologia para o surgimento de novos gêneros é fato incontestável. Entretanto,
conforme argumentos de Marcuschi, “não são propriamente as tecnologias per se
que originam os gêneros e sim a intensidade dos usos dessas tecnologias e suas
interferências nas atividades comunicativas diárias” (2010, p. 21), as quais,
acolhidas por suportes tecnológicos como a Internet, propiciam o surgimento de
novas formas discursivas, gerando o aparecimento de novos gêneros.
Para Crystal (2001), a Internet é um meio eletrônico, global e interativo, no
qual cada uma dessas propriedades tem grande impacto no tipo de linguagem a ser
utilizada na produção textual. Para o pesquisador (2001), vista sob a perspectiva
44
social, a rede – atualmente – muda seu foco da tecnologia para as pessoas que a
utilizam e seus propósitos de uso, daí a linguagem exercer papel central.
Indeed, notwithstanding the remarkable technological achievements and the
visual panache of screen presentation, what is immediately obvious when
engaging in any of the Internet’s functions is its linguistic character. If the
31
Internet is a revolution, therefore, it is likely to be a linguistic revolution.
(CRYSTAL, 2001, viii, grifo nosso).
Crystal (2001) argumenta que o mundo da Internet é extremamente fluido, no
qual os usuários exploram suas possibilidades de expressão, combinando novos
elementos, num permanente estado de transição e, sem precedentes, buscam
padrões e uma direção a ser seguida.
Citando Crystal, Marcuschi ressalta que “o impacto da Internet é menor como
revolução tecnológica do que como revolução dos modos sociais de interagir
lingüisticamente.” (2002, p. 6). Para Marcuschi, a mídia virtual transmuta alguns
gêneros existentes, apresentando, em seu enunciado, um hibridismo acentuado
entre “fala” e “escrita”.
Marcuschi (2002) argumenta, também, que o novo tipo de comunicação
centrado na tecnologia computacional – conhecido como Comunicação Mediada por
Computador (CMC)32 ou comunicação eletrônica – faz surgir novos gêneros na
mídia virtual, altamente centrados na escrita. Ao citar Yates, Marcuschi alega que
“com as novas tecnologias digitais, vem-se dando uma espécie de ‘radicalização do
uso da escrita’ e nossa sociedade parece tornar-se ‘textualizada’, isto é, passar para
o plano da escrita.” (2002, p. 2, grifos do autor).
Para Jonsson, o hibridismo entre “fala” x “escrita” presente na comunicação
digital e, em particular, no gênero e-mail deve ser visto sob o seguinte aspecto:
os e-mails não se conformam aos domínios tradicionais do discurso oral e
escrito, mas transgridem constantemente os limites entre os dois. Assim,
31
“De fato, apesar das notáveis realizações tecnológicas e do estilo visual da apresentação da tela, o
que se torna evidente ao acessarmos qualquer uma das funções da Internet é o seu caráter
linguístico. Se a Internet é uma revolução, portanto, é provável que seja uma revolução linguística.”
(tradução nossa).
32
Para Marcuschi, “a CMC abrange todos os formatos de comunicação e os respectivos gêneros que
emergem nesse contexto. Futuramente, é provável que a expressão Internet assuma a carga
semântica e pragmática do sistema completo, já que se trata da rede mundial de comunicação
ininterruptamente interconectada a todos os computadores interligados.” (2002, p. 3).
45
pode-se dizer que o e-mail cria seu próprio domínio de discurso no território
da comunicação. (apud MARCUSCHI, 2002, p. 24).
Assim, mediante a flexibilidade e variabilidade da linguagem – componente
principal dos gêneros (MARCUSCHI, 2011) –, observamos, para o gênero e-mail, a
utilização de enunciados mais curtos, propiciando, segundo Halliday, “uma escrita
mais amigável e mais próxima da fala” (apud MARCUSCHI, 2010, p. 39). Halliday
(apud MARCUSCHI, 2010), entretanto, nos lembra de que o uso deste recurso
requer cautela por parte do enunciador, uma vez que o que ocorre na mídia virtual
não é a neutralização das diferenças entre fala e escrita, mas uma interação entre
elas.
Para Crystal (2001), o gênero e-mail ampliou o leque estilístico da linguagem
de maneira interessante e motivadora, devendo ser visto como uma oportunidade e
não uma ameaça para o estudo da linguagem. Segundo o pesquisador, a parte difícil
da análise do gênero e-mail fica por conta da extensa gama de opiniões sobre o seu
propósito como meio de comunicação e sobre o tipo de linguagem a ser utilizada
para obtenção do objetivo proposto. Com mais de 800 milhões de pessoas usando
e-mails em 2000, e 100 milhões ou mais sendo enviados a cada dia, Crystal (2001)
vê como o ponto mais difícil a ser analisado, um consenso sobre o tipo de linguagem
a ser utilizada no e-mail.
O e-mail é descrito por Marcuschi (2010) como um dos gêneros emergentes
mais praticados na mídia virtual33, tendo a carta, o bilhete e o correio como gêneros
antecedentes, opinião compartilhada por Crystal (2001), ao argumentar que uma das
funções do e-mail seja sua utilização com propósitos semelhantes aos da carta.
Deste modo, cientes de que “genres evolve with time and change in
accordance with changes in the communities that use them”34 (DUDLEY-EVANS;
ST. JOHN, 1998, p. 115), buscamos entender como o gênero e-mail é concebido na
atualidade por pesquisadores e, em particular, no contexto corporativo, tema a ser
discutido no próximo subitem.
33
O autor relata o e-mail, o bate-papo virtual e as listas de discussão como os gêneros textuais
emergentes na mídia virtual mais praticados.
34
“os gêneros evoluem com o tempo e mudam de acordo com as mudanças das comunidades que
os utilizam.” (tradução nossa).
46
1.3.2 Gênero textual: e-mail corporativo
A importância da escrita no mundo moderno é inegável. Segundo Marcuschi
(2007), sua relevância e papel na sociedade contemporânea são indiscutíveis.
Dentro deste contexto, exercemos nossa individualidade com uma autonomia e
responsabilidade muito maiores (BAUMAN, 2001) do que há algumas décadas,
tornando o papel do sujeito discursivo de fundamental importância na condução das
negociações, ao exigir atenção especial na escolha da linguagem a ser utilizada em
sua prática discursiva.
Tendo como base o conceito de Maingueneau (2001) para gênero de discurso
e tipo de discurso, verificamos que o e-mail comercial, como gênero situado dentro
do tipo de discurso corporativo, tomando por invariante o lugar institucional
corporação, assume papel de destaque na comunicação empresarial, exigindo, do
enunciador, entendimento das peculiaridades presentes neste novo gênero da mídia
virtual.
Conforme Orlandi, a autoria, quando analisada como função discursiva, é –
das dimensões do sujeito – a que está “mais determinada ao contexto sócio-histórico
e mais afetada pelas exigências de coerência, não contradição, responsabilidade
etc.” (2007, p. 75). Deste modo, como atores sociais pertencentes a uma
comunidade discursiva35, observamos o “assujeitamento” do enunciador às regras
do gênero com o qual trabalha, adequando seu enunciado à prática discursiva em
questão.
Descrito por Marcuschi e Crystal como um dos gêneros predecessores do email corporativo, a carta comercial nos traz “toda uma série de normas que a regula,
como, por exemplo, o uso de vocativo epistolar, de formas de tratamento, de fecho,
de cortesia” (MEDEIROS, 2003, p. 61), ou seja, exigências de coerência, não
contradição e responsabilidade, relacionadas ao gênero antecessor e igualmente
esperadas pela comunidade discursiva ao qual o novo gênero pertence.
35
Conforme exposto anteriormente em nossa pesquisa, para Swales (1990, p. 24-7 apud DUDLEYEVANS; ST. JOHN, 1998, p. 92), a comunidade discursiva apresenta mecanismos de
intercomunicação entre seus membros, utilizando-se de um ou mais gêneros para o alcance de seu
objetivo.
47
Assim, cientes de que o gênero, como entidade comunicativa da ação social,
“reflete estruturas de autoridade e relações de poder muito claras” (MILLER apud
MARCUSCHI, 2010, p. 3), estabelecendo – conforme definição de Maingueneau –
uma “espécie de contrato” entre os sujeitos do discurso, é papel do enunciador fazer
com que sua produção textual seja condizente ao “contrato” estabelecido pelo
gênero em andamento, favorecendo, assim, as negociações entre os parceiros.
A noção de contrato pressupõe que os indivíduos pertencentes a um
mesmo corpo de práticas sociais sejam capazes de entrar em acordo a
propósito
das
representações de linguagem
destas práticas.
Consequentemente, o sujeito que se comunica sempre poderá, com certa
razão, atribuir ao outro (o não EU) uma competência de linguagem análoga
à sua que o habilite ao reconhecimento. O ato de fala transforma-se, então,
em uma proposição que o EU dirige ao TU e para a qual aguarda uma
contrapartida de conivência. (MAINGUENEAU, 1997a, p. 30).
O reconhecimento – por parte do coenunciador – da linguagem análoga
esperada pelo “não EU” é fator de grande relevância em práticas discursivas
envolvendo os novos gêneros da mídia virtual, entre eles o e-mail, uma vez que, ao
trazer “traços inteiramente novos para a comunicação, tais como a postagem
cruzada e encadeamentos” (JONSSON apud MARCUSCHI, 2002, p. 24, grifo
nosso), gera expectativas com relação à linguagem a ser utilizada entre os parceiros
legítimos do enunciado.
Ao estabelecer “o estatuto de parceiros legítimos” de um enunciado,
Maingueneau reflete sobre os papéis dos interlocutores nessa interação.
Que papel devem assumir o enunciador e coenunciador? Nos diferentes
gêneros do discurso, já se determina de quem parte e a quem se dirige a
fala. [...] A cada uma delas correspondem direitos e deveres, mas também
saberes [...] (2001, p. 66, grifo nosso).
Para Ellis e Johnson (1994), inserido nos “direitos e deveres” assumidos pelo
enunciador e coenunciador, o “aspecto social”, traduzido na escolha linguística a ser
utilizada no enunciado, é ponto relevante a ser considerado no discurso corporativo.
Como um dos “saberes” esperados do enunciador, o entendimento do aspecto social
e consequente escolha linguística gera expectativas entre os membros da
comunidade discursiva ao qual o gênero pertence, promovendo, ou não, o êxito na
comunicação.
Com relação às expectativas geradas pelos membros da comunidade
discursiva, Erickson argumenta que
48
um gênero é um padrão de comunicação criado pela combinação de forças
individuais, sociais e técnicas implícitas numa situação comunicativa
recorrente. Um gênero estrutura a comunicação ao criar expectativas
partilhadas acerca da forma e do conteúdo da interação, atenuando assim
a pressão da produção e interpretação. (apud MARCUSCHI, 2002, p. 10,
grifos nossos).
Sendo as saudações uma das formas de traduzirmos as forças ou aspectos
sociais presentes no discurso corporativo, devemos ter especial atenção com a
escolha linguística a ser utilizada no vocativo epistolar, a fim de que a interação
entre os interlocutores ocorra da melhor forma possível.
Segundo Crystal (2001, p. 101), as saudações expressam um leque variado
de situações, indo das formais às mais informais, indicando o nível social de
relacionamento e intimidade dos interlocutores. O vocativo epistolar, fator
relevante para a construção do discurso, é de grande importância na condução das
negociações entre pessoas que não se conhecem, atenuando a pressão da
produção textual e interpretação do enunciado entre “parceiros legítimos” de
diferentes culturas, como postulam Ellis e Johnson,
International businesspeople have a need to make contact with others whom
they have never met before, or know only slightly [...] There is a need for an
internationally accepted way of doing things so that people from different
cultures, and with different mother tongues, can quickly feel more
36
comfortable with one another. (1994, p. 8).
Outro importante ponto a ser levado em consideração no que tange às
saudações é a utilização da desinência de gêneros: masculino/feminino. No
mundo atual, em que homens e mulheres ocupam posições semelhantes, é de bom
tom utilizarmos ambas as desinências quando o coenunciador não for conhecido
(COTTON; FALVEY; KENT, 2006), evitando, assim, possível desconforto entre os
interlocutores.
[...] in the past, one might assume male dominance in an occupation. No
longer. Using language that does not restrict itself solely to the male gender
is good business because it is realistic, recognizes the current shifts in the
37
work force [...] (BLAKE; BLY, 1991, p. 41, grifo nosso).
36
“Homens e mulheres de negócios internacionais necessitam contatar pessoas que não conhecem,
ou conhecem vagamente. [...] Deste modo, há a necessidade de uma padronização internacional, a
fim de que pessoas de diferentes culturas e diferentes línguas maternas sintam-se, rapidamente,
mais à vontade umas com as outras.” (tradução nossa).
37
“[...] no passado, esperava-se o domínio masculino nos cargos empresariais. Isso não mais
acontece. Por isso, é de bom tom utilizarmos uma linguagem que não seja restrita somente ao gênero
masculino, uma vez que segue as mudanças ocorridas no mercado de trabalho.” (tradução nossa).
49
Para prover os alunos de um melhor entendimento sobre o ponto em questão,
trazemos para a sala de aula a discussão sobre o aspecto social relacionado à
linguagem, fator muitas vezes negligenciado pelo enunciador na ocasião de sua
produção textual. Como parte dessa discussão, demonstramos, a seguir, modelo de
e-mail formal, retirado do livro Market Leader, utilizado como um dos materiais de
apoio da disciplina de Business Writing do curso de secretariado executivo trilíngue,
no qual há a explanação do enunciado a ser utilizado em ambas as ocasiões:
quando o leitor é conhecido, bem como quando não se tem tal conhecimento.
Fonte: modelo retirado do livro de inglês para negócios Market Leader
(COTTON; FALVEY; KENT, 2007, p. 132).
38
Conforme mencionado anteriormente em nosso estudo, as novas tecnologias
modificaram a percepção do enunciador com relação à interação entre a fala e a
escrita, causando um “hibridismo ainda não bem-conhecido e muitas vezes mal-
38
Começo: Quando o nome do leitor é conhecido:
Quando o nome do leitor é desconhecido:
Final:
Quando o nome do leitor é conhecido:
Quando o nome do leitor é desconhecido:
Dear Mr/Mrs/Ms Peng
Dear Sir/Madam
Yours sincerely
Yours faithfully. (traduções nossas).
50
compreendido” (MARCUSCHI, 2010, p. 39, grifo nosso), exigindo cuidado especial
na ocasião da produção textual.
Cientes da relevância do e-mail comercial nas negociações, e tendo em
mente os diferentes públicos existentes na esfera corporativa, o entendimento, por
parte do enunciador, de tal hibridismo é fator relevante para o êxito de seu
enunciado, já que “nossa sociedade é constituída por relações hierarquizadas, são
relações de força, sustentadas no poder desses diferentes lugares, que se fazem
valer na comunicação.” (ORLANDI, 2007, p. 40, grifo do autor).
Assim, como parte do debate realizado em sala de aula, ocasião em que “as
relações de força” presentes nos discursos do contexto corporativo são discutidas,
apresentamos, abaixo, modelos de enunciados formais, informais e semiformais,
fornecidos aos alunos na disciplina de Business Writing do curso de secretariado
executivo trilíngue.
51
Fonte: modelos de e-mail formal e informal retirados do livro de inglês para negócios Market
Leader (COTTON; FALVEY; KENT, 2007, p. 130)
52
Fonte: modelo de e-mail semiformal retirado do livro de inglês para negócios Market Leader
(COTTON; FALVEY; KENT, 2006, p. 139).
Pontos igualmente importantes a serem considerados pelo enunciador, na
ocasião da produção textual, a legibilidade e inteligibilidade do texto são elementos
de grande relevância nas negociações, como afirma Crystal:
The clarity of the message on the screen is a dominant theme of e-mail
manuals. Clarity in this context involves both legibility and intelligibility.
Legibility chiefly refers to ways of avoiding a screenful of unbroken text.
Writers are recommended to use a line-of-white between paragraphs, for
39
example, or to highlight points in a list using a bullet or numbering facility.
(2001, p. 110, grifo nosso).
Conforme exposto, a legibilidade do texto promove uma leitura mais eficaz,
possibilitando maior rapidez nas tomadas de decisões, fator crucial no ambiente
corporativo. A inteligibilidade considera, entre vários aspectos, a grafia como um dos
fatores responsáveis pelo êxito ou fracasso na comunicação. Segundo Angell e
39
“A clareza da mensagem na tela é tema dominante nos manuais de e-mails. A clareza envolve
tanto a legibilidade, como a inteligibilidade. A legibilidade refere-se principalmente ao modo de evitarse uma tela com um texto sem quebras. Recomenda-se a utilização, por exemplo, de uma linha em
branco entre os parágrafos, ou, para destaque de assuntos em uma lista, a utilização de marcadores
ou numeração como facilitadores.” (tradução nossa).
53
Heslop, “not only are misspellings annoying and confusing, they also cause the
reader to question your credibility.”40 (apud CRYSTAL, 2001, p. 112).
No mundo corporativo, tais desvios podem ser resultantes da limitação
linguística do enunciador, mas também podem revelar a pouca importância dada
pelo profissional ao desenvolvimento da habilidade “escrita” em seu plano de
carreira, pois, segundo Piotrowski41, “some people who write on the job do not
consider writing to be part of their professional duties; therefore, they are unwilling
to give it the time and discipline it requires.”42 (2005, p. 2, grifo nosso).
Ao não conceder o tempo e a disciplina necessários à redação do discurso, o
enunciador pode ocasionar a desconstrução de sua imagem e a da empresa para a
qual trabalha, prejudicando possíveis negociações entre parceiros comerciais. Deste
modo, o reconhecimento – por parte do enunciador – dos diferentes gêneros da
esfera corporativa é fator crucial para a construção de sua prática discursiva e
consequente êxito nas transações comerciais, uma vez que “todos os gêneros têm
uma forma e uma função, bem como um estilo e um conteúdo” (MARCUSCHI, 2008,
p. 150) a serem seguidos. Com formas e funções definidas, os e-mails podem
também assumir a estrutura típica de um bilhete (MARCUSCHI, 2010),
apresentando, neste contexto, uma linguagem informal, conforme exemplo a seguir,
fornecido aos alunos na disciplina de Business Writing do curso de secretariado
executivo trilíngue.
40
“não só os erros ortográficos são irritantes e confusos, como também podem ocasionar, ao leitor,
dúvidas com relação à credibilidade do enunciador.” (tradução nossa).
41
Maryann V. Piotrowski lecionou comunicação empresarial em várias universidades, tais como MIT
Sloan School of Management, Harvard Business School, Boston University e Boston College. Atua
como consultora de redação para várias empresas, tais como Time Warner, Times Publishing
Company etc. (tradução nossa).
42
“Algumas pessoas não consideram a escrita empresarial como parte de suas responsabilidades
profissionais, não dando – deste modo – o devido valor e disciplina que tal habilidade requer.”
(tradução nossa).
54
Fonte: modelo retirado do livro de inglês para negócios Market Leader (COTTON; FALVEY;
KENT, 2006, p. 139).
Ainda segundo o autor (MARCUSCHI, 2010), quando utilizado como bilhete, o
e-mail apresenta uma linguagem, geralmente, não monitorada, podendo ser
elaborada em separado, já que, na atualidade, permite-se trabalhar no campo para
e-mail com rascunhos, os quais podem ser remetidos posteriormente e não apenas
no ato da elaboração. Quanto ao tamanho, o e-mail – neste contexto – não tem um
limite, mas, no geral, não ultrapassa 5-10 linhas; e sua paragrafação nem sempre é
realizada (embora alguns o façam). A rigor, os formatos, neste particular, são livres e
hoje podem ter arquivos de textos agregados (attachment) em quantidade ilimitada.
Ao “ter os arquivos agregados”, ou seja, ao desempenhar a função de correio
(MARCUSCHI, 2002, p. 14), o e-mail, em particular o e-mail corporativo, agrega
gêneros diversos pertencentes à esfera empresarial, tais como o memorando, o
qual, concebido como “fato social” (MAINGUENEAU, 2001, p. 23), cuja identificação
reside na ação social praticada dentro da esfera de atividade em que circula, requer
– em seus enunciados – escolhas sociolinguísticas adequadas à situação discursiva
em questão.
Segundo Maingueneau, “para um locutor, o fato de dominar vários gêneros de
discurso é um fator de considerável economia cognitiva” (2001, p. 63, grifo do
autor), uma vez que, ao adequar sua prática discursiva ao gênero em questão,
atenderá à finalidade discursiva proposta, tendo maior probabilidade de êxito na
comunicação.
55
Deste modo, a fim de que sua produção textual seja condizente ao propósito
discursivo, é importante que o enunciador consiga reconhecer as particularidades
existentes entre “texto” e “discurso”, confusão bastante frequente, segundo
Marcuschi:
Deve-se ter o cuidado de não confundir texto e discurso como se fossem a
mesma coisa. Embora haja muita discussão a respeito, pode-se dizer que o
texto é uma entidade concreta realizada materialmente e corporificada em
algum gênero textual. Discurso é aquilo que um texto produz ao se
manifestar em alguma instância discursiva. Assim, o discurso se realiza nos
textos. (2010, p. 25, grifos do autor).
Ao saber identificar tais especificidades e o propósito da produção textual, o
enunciador terá maior chance de êxito no tocante às escolhas sociolinguísticas
adequadas ao gênero a ser trabalhado, exercendo, assim, seu papel como ator
social, responsável pelo discurso a ser utilizado com os stakeholders ligados à
empresa da qual faz parte. Esse reconhecimento é fator central para poder agir por
meio dos gêneros, uma vez que
todo gênero de discurso visa a um certo tipo de modificação da situação da
qual participa. Essa finalidade se define ao se responder a questão
implícita: “Estamos aqui para dizer ou fazer o que?” [...] A determinação
correta dessa finalidade é indispensável para que o destinatário possa ter
um comportamento adequado ao gênero de discurso utilizado.
(MAINGUENEAU, 2001, p. 66).
Ao caracterizar os gêneros, o autor francês recorre a metáforas decorrentes
de 3 domínios das esferas de atividade: “Jurídico (contrato), Teatral (papel) e Lúdico
(jogo).” (2001, p. 69).
Regido por normas de cooperação mutuamente conhecidas entre enunciador
e coenunciador, Maingueneau (2001) argumenta que o “contrato” de comunicação,
como fundador do ato de linguagem, inclui sua própria validação, prevendo
“sanções” para quem o transgredir.
Com relação ao papel, ele argumenta que, como atores sociais, vivenciamos
diferentes papéis no nosso dia a dia. Para o pesquisador, “falar de papel é insistir no
fato de que cada gênero de discurso implica os parceiros sob a ótica de uma
condição determinada e não de todas as suas determinações possíveis.” (2001,
p. 69, grifos nossos).
56
Por implicar regras preestabelecidas mutuamente, Maingueneau compara o
gênero ao “jogo”, uma vez que o não cumprimento das regras pode causar exclusão
do transgressor. No entanto, por ter uma finalidade discursiva, “contrariamente às
regras do jogo, as regras do discurso nada têm de rígido: elas possuem zonas de
variação, os gêneros podem se transformar.”43 (2001, p. 70).
Assim, diante dessas “zonas de variação”, nas quais os gêneros interagem,
vemos, na atualidade, que “within institutions, e-mails can be mainly used for the
sending out of information and instructions to all members of staff, in the manner of a
traditional memo [...]”44 (CRYSTAL, 2001, p. 100, grifos nossos), conforme modelo
apresentado abaixo, utilizado como exemplo na disciplina de Business Writing do
curso de secretariado executivo trilíngue.
Fonte: modelo retirado do livro de inglês para negócios Market Leader (COTTON; FALVEY;
KENT, 2007, p. 131).
Deste modo, é sob a ótica de uma condição determinada e não de todas as
suas determinações possíveis, ou seja, uma “espécie de sequência teoricamente
definida pela natureza linguística de sua composição como aspectos lexicais,
43
Vale ressaltar que o gênero é estável como objeto de conhecimento, porém como objeto de ensino
em sala de aula “esses gêneros que emergiram no último século no contexto das mais diversas
mídias criam formas comunicativas próprias com certo hibridismo que desafia as relações entre
oralidade e escrita e inviabiliza de forma definitiva a velha visão dicotômica ainda presente em muitos
manuais de ensino de língua” (2002, p. 21), proporcionando, assim, outras leituras do gênero.
44
“dentro das instituições, os e-mails são muito utilizados para o envio de informações e instruções
para os funcionários, nos mesmos padrões do memorando tradicional [...]” (tradução nossa).
57
sintáticos, tempos verbais, relações lógicas” (MARCUSCHI, 2010, p. 23) que
estendemos nosso estudo ao gênero memorando45, a fim de auxiliar os estudantes
no entendimento dos diferentes tipos textuais presentes nos gêneros discursivos,
conforme exposto no capítulo 3.
45
A opção com relação ao estudo do gênero memorando, em detrimento de outros gêneros como
relatório ou minuta – os quais também apresentam a “exposição” como tipo textual predominante em
seus enunciados – deve-se aos seguintes fatores: extensão e natureza do documento; elementos de
organização composicional; formatos que não permitem sua edição.
58
CAPÍTULO 2: DESCRIÇÃO DA PESQUISA E SUA METODOLOGIA
Iniciamos o capítulo apresentando o contexto; instrumento de coleta de dados
e o referencial teórico de suporte para a metodologia. Na sequência, apresentamos
e discutimos os dados referentes às características gerais dos participantes e, num
terceiro momento, identificamos a percepção das necessidades linguísticas dos
alunos de secretariado executivo trilíngue com relação ao uso da língua inglesa no
ambiente de trabalho.
2.1 Levantamento geral: contexto; instrumento de coleta de dados; referencial
teórico
O processo de coleta de dados desta pesquisa foi realizado nos anos de 2012
(agosto) e 2013 (março e agosto), com 78 alunos de 3o e 4o semestres do curso de
bacharelado em secretariado executivo trilíngue de uma faculdade particular de São
Paulo, na qual a professora-pesquisadora leciona. Dos 78 alunos, 46 utilizam o
inglês na execução de tarefas no ambiente de trabalho, e 32, ainda, não utilizam o
idioma para execução de suas tarefas corporativas.
Por se tratar de um curso de secretariado executivo trilíngue (modalidade:
bacharelado) com Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) já preestabelecidas pelo
MEC, tem-se a abordagem do inglês para negócios como principal referencial na
ementa a ser seguida.
A coleta de dados é essencial para nosso estudo, uma vez que, consoante
Ellis e Johnson (1994), o curso de inglês para negócios envolve, por parte do
docente, a seleção de um corpo linguístico específico a ser trabalhado em uma
determinada área do conhecimento, opinião compartilhada por Dudley-Evans e St.
John (1998), para os quais a análise de dados está entre os principais pontos a
serem levantados para o delineamento de um curso de inglês para propósitos
específicos.
Segundo Hutchinson e Waters, “designing a course is fundamentally a matter
of asking questions in order to provide a reasoned basis for the subsequent
59
processes
of
syllabus
design,
materials
writing,
classroom
teaching
and
evaluation.”46 (1987, p. 21). Porém, tão importantes quanto às questões acima
descritas, fatores como local e duração do curso, possíveis limitações impostas e
nível de proficiência a ser atingido (KIPLING apud HUTCHINSON; WATERS, 1987)
são pontos igualmente relevantes a serem considerados quando da elaboração e
desenvolvimento da ementa e conteúdo programático.
Assim, concordamos com os argumentos de Brown (2011) quando expõe que
a análise de dados é o primeiro passo para o desenvolvimento de uma ementa que
atenda às necessidades dos alunos e da instituição na qual o curso está sendo
ministrado. Para o autor,
Needs analysis (NA) is the systematic collection and analysis of all
information necessary for defining a defensible curriculum. A defensible
curriculum is one that satisfies the language learning and teaching
requirements of the students and teachers within the context of particular
47
institution(s) involved. (BROWN, 2011, p. 269).
Deste modo, para que pudéssemos obter as respostas necessárias ao nosso
estudo, escolhemos, dentre os vários instrumentos de coleta de dados possíveis, o
questionário, com 3 perguntas abertas e 4 perguntas fechadas de múltipla escolha
(Anexo I), por meio do qual mapeamos os dados relacionados a fatores extrínsecos
(tarefas realizadas no dia a dia no escritório) e intrínsecos de aprendizagem
(motivação, tipo de atividade e material de que mais gosta em um curso de inglês
etc.), informações relevantes para o processo de formulação de ementa e
desenvolvimento de atividades.
Segundo Long (2005), as questões abertas permitem a coleta de um maior
número de informações detalhadas, sendo adequada para situações complexas;
entretanto, são mais difíceis para a padronização, consumindo mais tempo para
interpretação de seus dados.
46
“o desenho de um curso é baseado, principalmente, na formulação de perguntas que forneçam
base para o processo subsequente de ementa, desenvolvimento de material, desenvolvimento de
aula e avaliação.” (tradução nossa).
47
“a análise das necessidades (NA) é a coleta e análise sistemática de toda a informação necessária
para o desenvolvimento de um currículo defensável. Um currículo defensável é aquele que satisfaz a
aprendizagem da língua e as necessidades didáticas de alunos e professores, dentro do contexto da
instituição(ões) envolvida(s).” (tradução nossa).
60
Com relação às questões fechadas, o pesquisador argumenta que, embora
padronizadas, fornecendo dados que permitem maior facilidade de quantificação,
elas podem limitar as respostas conduzindo a uma análise simplificada de tópicos
complexos. Entretanto, é importante lembrar que “the results of a needs analysis are
not unique. Even with the same raw data different interpretations are possible.”48
(DUDLEY-EVANS; ST. JOHN, 1998, p. 137).
Deste modo, a fim de evitar tais mal-entendidos, buscamos, nos pressupostos
teóricos de Brown (2011), um conceito cada vez mais presente nos estudos sobre a
análise das necessidades: a utilização da “triangulação” de dados. Segundo o autor,
a triangulação não é um procedimento específico, mas uma estratégia de pesquisa
que vem sendo aplicada por vários pesquisadores, como Gilbert (2005); JassoAguilar (1999) etc., em suas análises das necessidades.
Segundo Long,
Triangulation is a procedure used by researchers... to increase the credibility
of their data and thereby, eventually, to increase the credibility of their
interpretations of those data. [...] it involves the researchers comparing
49
different sets and sources of data with one another [...] (apud BROWN,
2011, p. 283).
Assim, concordamos com a posição de Fielding e Fielding (apud BROWN,
2011) de que, ao usarmos diferentes métodos, devemos ter em mente que a
abordagem multioperacional não implicará o empilhamento de instrumentos de
coleta de dados, mas a combinação de diferentes fontes – cuidadosamente
pensadas e planejadas – que fornecerão suporte entre si.
Conforme Huberman e Miles (apud BROWN, 2011), o ideal é ter a
triangulação com fontes de diferentes vieses, a fim de que se complementem,
conduzindo a um fechamento de dados mais preciso.
Desta maneira, como instrumento extra de triangulação de métodos e fontes,
incluímos em nossa pesquisa a percepção do mercado de trabalho com relação às
48
“os resultados de uma análise de dados não são únicos. Podem-se obter diferentes interpretações
dos mesmos dados.” (tradução nossa).
49
“A triangulação é um procedimento usado pelos pesquisadores... para aumentar a credibilidade de
seus dados e, assim, eventualmente, aumentar a credibilidade de suas interpretações daqueles
dados. [...] consiste na comparação, pelos pesquisadores, de diferentes conjuntos e fontes de dados
entre si.” (tradução nossa).
61
habilidades requeridas do profissional de secretariado em início de carreira, com
base na entrevista (Anexo II) concedida pela Diretora/Presidente da SEC Talentos
Humanos, Sra. Stefi Maerker, assessora de executivos do primeiro escalão
organizacional de empresas multinacionais, bem como em anúncios online de
emprego capturados durante os meses de julho e agosto/2014 dos seguintes sites:
Grupo
AGP-São
Paulo
(http://www.indeed.com.br/viewjob),
Catho
(http://emprego.catho.com.br/) e Manager (http://www.manager.com.br/).
Temos, portanto, o questionário; a entrevista e anúncios online; as produções
textuais de estudantes como diferentes procedimentos para a obtenção de dados
para análise de nossa pesquisa, os quais se complementam e dão suporte entre si.
A discussão encontra-se no capítulo 3 deste estudo.
2.2 Apresentação e discussão das características gerais dos participantes
A apresentação e discussão dos dados relacionados ao questionário
aplicado aos alunos do curso de secretariado executivo trilíngue é fator relevante
para o embasamento de nosso estudo, já que – conforme atestado por vários
pesquisadores mencionados em nossa pesquisa – a análise de dados relacionada
ao campo de atuação do aluno é fator crucial no desenvolvimento da ementa do
curso de inglês para propósitos específicos.
Conforme coleta de dados50, a grande maioria do público do curso de
secretariado executivo trilíngue é composta por mulheres, na faixa etária de 18 a 25
anos (51 respondentes – 65,39%). Num total de 78 participantes, tivemos como
respondentes 77 mulheres e 1 homem, dos quais mais da metade ocupa cargos
administrativos afins com a área acadêmica escolhida na faculdade, isto é, 37
alunos (47,43%) ocupam o cargo de secretário(a) ou estagiário(a) da área de sua
formação acadêmica, enquanto que 20 alunos (25,64%) ocupam cargos na área
administrativa, conforme itens 1 e 2 das tabelas abaixo.
50
Modelo do questionário completo de coleta de dados: vide anexo A.
62
Item 1: Faixa etária
Faixa etária
18 a 25 anos
26 a 30 anos
31 a 35 anos
36 a 40 anos
41 a 50 anos
Acima de 51 anos
Respondentes
51
19
3
3
1
1
%
65,39
24,35
3,85
3,85
1,28
1,28
Item 2: Cargo ocupado na empresa
Cargo
Analista Administrativo
Analista de Dados
Analista de Qualidade
Analista de Sinistros
Assistente de Professor
Auxiliar Administrativo
Bancária
Coordenadora Administrativo
Estagiário: assuntos institucionais
Estagiária: eventos/outros
Estagiária: secretariado
Garçonete
Promotora de Eventos
Recepcionista
Revisora de Cadastro
Secretária Júnior
Secretária
Não trabalha atualmente
Respondentes
2
1
1
1
1
17
2
1
1
2
22
1
1
7
1
1
14
2
%
2,56
1,28
1,28
1,28
1,28
21,79
2,56
1,28
1,28
2,56
28,20
1,28
1,28
8,97
1,28
1,28
17,95
2,56
Os dados resultantes no item 4 revelam que a grande maioria dos 78
respondentes (54 alunos – 69,23%) já estudou inglês em algum instituto de línguas
e/ou com professor particular, tendo conhecimento prévio do idioma, o que reforça a
ideia descrita na introdução desta pesquisa, ou seja, a de reinício do aprendizado da
língua. O item 5 nos revela que, atualmente, 36 dos 78 respondentes (46,15%) não
estudam inglês fora da instituição acadêmica, tendo a faculdade como principal
provedor de conhecimento linguístico referente à disciplina. Vide tabelas a seguir.
63
Item 4: Estudo da língua inglesa anteriormente
Você já estudou inglês antes?
sim
não
Respondentes
54
24
%
69,23
30,77
Respondentes
42
36
%
53,85
46,15
Item 5: Estudo atual
Estuda inglês atualmente?
sim
não
Os dados resultantes no item 6 são de grande importância para o desenho da
ementa, pois revelam que grande parte dos alunos (22 respondentes – 28,21%)
espera um curso que possibilite o desenvolvimento de tarefas relacionadas ao dia a
dia do profissional de secretariado, tendo o desenvolvimento das 4 macro
habilidades linguísticas necessárias para a aquisição da língua (21 respondentes –
26,92%) e a prática de conversação (19 respondentes – 24,36%) como principais
meios de atingir suas metas.
Item 6: Expectativas dos alunos com relação ao curso de inglês na instituição
O que você espera de um curso que atenda às suas
necessidades?
Colocar em prática o conhecimento gramatical
Desenvolva atividades relacionadas ao profissional de
secretariado
Desenvolvimento das 4 macro habilidades
Pratique a conversação
Não especificaram
Respondentes
%
4
5,13
22
28,21
21
19
12
26,92
24,36
15,38
Ainda com relação ao item 6, no que se refere ao tipo de material a ser
utilizado no curso – ver continuação da tabela a seguir –, grande parte dos alunos
(26 respondentes – 33,33%) optou por materiais que estimulem os sentidos da
audição e visão para o processo de ensino-aprendizagem da língua, recursos
comuns na atualidade, em que o vídeo e o áudio imperam no mundo digital.
Podemos também notar a influência da metodologia aplicada ao ensinoaprendizagem do inglês regular, na visão do que seja um curso de línguas para tais
alunos, ao requisitarem a apostila ou o livro didático como base a ser seguida, bem
como a realização de jogos em sala de aula: dinâmica fortemente presente no
ensino-aprendizagem dos cursos de inglês regular.
64
Conforme já citado anteriormente, o curso de inglês para negócios requer a
seleção de material que priorize a comunicação na área de trabalho do aluno,
envolvendo, desta maneira, diferentes fontes como base a serem seguidas. No que
tange às dinâmicas de grupo, concordamos que, quando adaptadas ao contexto de
negócios, estimulam o aluno no processo de aprendizagem.
Com relação à utilização de textos como material a ser utilizado no curso, 7
respondentes (8,97%) apoiam o uso pelo docente não só de textos didáticos, como
também de textos com propósitos não pedagógicos (authentic material), uma vez
que trazem traços ou jargões não apresentados em textos pedagógicos (ELLIS;
JOHNSON, 1994), características importantes para o ensino-aprendizagem do
contexto de negócios.
Item 6 – Expectativas dos alunos com relação ao curso de inglês na instituição
(continuação)
Qual o tipo de material gostaria que fosse utilizado?
Apostilas/Livros
CDs, Música, Vídeo
Jogos
Material online
Seminários
Textos
Não opinaram
Respondentes
4
26
3
1
2
7
35
%
5,12
33,33
3,85
1,28
2,56
8,97
44,87
Um dado preocupante, ainda com relação ao item 6, é que 35 dos
respondentes (44,87%, de um total de 78 alunos), ou seja, quase a metade não se
manifestou a respeito da escolha do material didático que possa atender às
expectativas de ensino-aprendizagem da língua, posição de construção de
conhecimento extremamente passiva, aumentando a responsabilidade do docente
com relação à escolha do material a ser utilizado no curso.
De acordo com o item 7, classificação das habilidades necessárias para o
aprendizado da língua, a grande maioria dos alunos (55 respondentes – 70,51%)
considera
ter
nível
bom/razoável
referente
à leitura,
considerando seu
desempenho como razoável/fraco referente às habilidades de fala (60
respondentes – 76,92%), audição (53 respondentes – 67,95%) e escrita (58
respondentes – 74,36%).
65
Assim, observamos que os dados obtidos nos itens 6 e 7 são de extrema
importância na escolha de material e no desenvolvimento de atividades a serem
exploradas pelo docente, ao fornecerem informações sobre as reais expectativas
dos alunos quanto ao curso, bem como a percepção das deficiências relacionadas
às habilidades requeridas para a obtenção da proficiência linguística.
2.2.1 Percepção das necessidades linguísticas dos alunos com relação ao uso
da língua inglesa no ambiente de trabalho
Dos 78 respondentes de nossa pesquisa, 46 alunos (58,97%), utilizam a
língua inglesa para execução de tarefas comunicativas no ambiente de trabalho. De
acordo com os dados coletados desses 46 alunos, independentemente do cargo
ocupado na empresa, as principais tarefas comunicativas envolvendo a língua
inglesa são: envio/recebimento de e-mails (21 alunos – 45,65%); atendimento
telefônico (19 alunos – 41,31%); recepção de clientes (16 alunos – 34,78%).
Item 3 – Descrição das atividades comunicativas realizadas no ambiente de
trabalho, envolvendo o uso da língua inglesa
Descrição da atividade
Atendimento telefônico
Agendamento de reuniões
Agendamento de viagens
Conferência
Criação de apresentações
Envio/recebimento de e-mail
Leitura de manual técnico
Leitura de sistemas
Recepção de clientes
Redação de Contrato
Reserva de restaurantes/hotel
Respondentes
19
1
1
2
1
21
1
2
16
1
1
%
41,31
2,17
2,17
4,35
2,17
45,65
2,17
4,35
34,78
2,17
2,17
Com relação às dificuldades descritas por esses alunos para a execução das
tarefas comunicativas, obtivemos as seguintes observações:

pronúncia incorreta;

desenvolvimento da conversação;

redação de e-mails.
66
Ao observar as principais dificuldades linguísticas relatadas pelos alunos,
verificamos que estão diretamente ligadas ao desempenho das principais tarefas
realizadas no dia a dia empresarial: pronúncia incorreta (fonética) e desenvolvimento
da conversação (ligadas ao atendimento telefônico e recepção de clientes), redação
de e-mails (ligada ao envio/recebimento de e-mails).
Dessa maneira, concordamos com os argumentos de Dudley-Evans e St.
John quando dizem que “in planning a course, ESP teachers should first be aware
of the options and of the limitations arising from institutional and learner
expectations”51 (1998, p. 154, grifos nossos), para o desenvolvimento de uma
ementa que atenda às reais necessidades dos alunos e os objetivos propostos pelo
curso.
Assim, diante das opções e limitações percebidas a partir da coleta de
dados, e do contexto em que a pesquisa está inserida, direcionamos a próxima
etapa de nossos estudos com o propósito de indicar – por meio da análise de textos
dos alunos – se e quais elementos de nossa proposta de trabalho auxiliariam na
construção de conhecimento sobre o gênero e-mail corporativo, podendo ser
estendidos a outros gêneros quando necessários na atuação desses alunos.
51
“Ao planejar o curso, os professores de ESP devem ter consciência das opções e das limitações
decorrentes das expectativas institucional e dos alunos.” (tradução nossa).
67
CAPÍTULO 3: TRIANGULAÇÃO DE DADOS
Objetivamos apresentar e discutir neste capítulo os resultados obtidos em
nossa pesquisa, baseados na fundamentação teórica e procedimentos de análise
apresentados na metodologia.
Como estratégia de análise dos resultados, seguimos orientações de Brown
(2011) para a triangulação de dados, que sugere aos pesquisadores lidar com fontes
de vieses diferentes, a fim de que os dados obtidos possam fornecer suporte entre
si.
Desta maneira, como instrumentos de triangulação de dados, temos os
seguintes indicadores:

o questionário realizado com 78 (setenta e oito) alunos do curso de
secretariado executivo trilíngue, dos quais 46 (quarenta e seis) utilizam
inglês no ambiente corporativo;

análise de corpus: e-mails ↔ produções textuais autênticas de
estudantes que utilizam o inglês no ambiente de trabalho;

entrevista semiestruturada com a Sra. Stefi Maerker, Diretora/Presidente
da SEC Talentos Humanos, bem como anúncios online requisitando
profissionais de secretariado em início de carreira.
Com relação ao questionário, devemos ressaltar que, dentre os 46 (quarenta
e seis) participantes de nossa pesquisa que utilizam o inglês no ambiente
corporativo, 6 (seis) participantes dispuseram-se a participar do estudo relacionado
ao gênero e-mail corporativo – percebido como atividade mais executada no
ambiente de trabalho –, fornecendo produções textuais autênticas realizadas por
eles no dia a dia corporativo.
O critério de escolha das produções textuais analisadas em nossa pesquisa
contemplou os seguintes fatores:
68

diferentes níveis linguísticos: básico, intermediário e avançado52;

experiência profissional: estagiário, experiência de até 1 ano, experiência
de 2 anos ou mais;

troca de correspondência envolvendo somente o enunciador;

troca de correspondência envolvendo os interlocutores.
A opção em contemplar as trocas de correspondências envolvendo
interlocutores, em detrimento das correspondências que envolviam somente o
enunciador, deveu-se ao fato de uma possibilidade mais ampla de análise de
enunciados em situação de interação de discurso, trazendo marcas linguísticas
peculiares a falantes nativos, bem como falantes de língua inglesa como segundo
idioma.
Estendendo nossa pesquisa – durante o curso de Business Writing do curso
de secretariado executivo trilíngue – ao estudo de outros gêneros pertencentes ao
discurso corporativo, tais como recado telefônico e memorando, percebemos o não
entendimento dos alunos com relação ao tipo textual53 presente na redação de
diferentes enunciados e, em particular, do enunciado do gênero memorando.
Assim, em março de 2014, aplicamos um exercício para os alunos que já
utilizavam o inglês no ambiente corporativo, com o objetivo de averiguar se a
hipótese levantada durante semestres anteriores, do não entendimento – por parte
dos alunos – do tipo textual a ser utilizado em diferentes gêneros era verdadeira ou
não.
Deste modo, estendemos nossa análise a produções textuais pertencentes ao
gênero memorando, a fim de averiguar se e quais elementos de nossa proposta de
52
Níveis linguísticos de proficiência segundo padrões do CEF (Common European Framework of
Reference for Languages).
53
Segundo Marcuschi, o conhecimento sobre os tipos textuais é fator de grande relevância para o
enunciador na ocasião da produção textual. Conforme o pesquisador, “usamos a expressão tipo
textual para designar uma espécie de sequência teoricamente definida pela natureza linguística de
sua composição (aspectos lexicais, sintáticos, tempos verbais, relações lógicas). Em geral, os tipos
textuais abrangem cerca de meia dúzia de categorias conhecidas como: narração, argumentação,
exposição, descrição, injunção.” (2010, p. 23).
69
trabalho auxiliariam no entendimento, por parte do aluno, dos diferentes tipos
textuais a serem utilizados nos gêneros discursivos.
Uma vez que tais alunos estão se preparando para atuarem no mundo
corporativo, buscamos, no mercado de trabalho, informações que contribuíssem
para uma melhor elaboração de nossa proposta de trabalho, fornecendo suporte
para o reforço na triangulação de dados.
Conseguimos tais informações, sob a ótica do mercado de trabalho, por meio
de entrevista realizada com a Diretora/Presidente da empresa de consultoria SEC
Talentos Humanos, bem como por anúncios online de empregos capturados dos
sites Grupo AGP-São Paulo, Catho e Manager.
A entrevista semiestruturada (LONG, 2005) com a Sra. Stefi Maerker da SEC
Talentos Humanos teve como eixos balizadores (1) o percentual de vagas que exige
o idioma inglês para o cargo de secretário(a) júnior e posição de estagiário(a); (2) o
nível linguístico exigido para profissionais em início de carreira; (3) as funções
executadas por tais profissionais em início de carreira.
Desta
maneira,
finalizamos
o capítulo
discutindo
as
habilidades
e
competências necessárias ao profissional de secretariado sob a perspectiva do
mercado de trabalho.
3.1 Análise de corpus
Iniciamos o subitem analisando nove (9) produções textuais54 geradas na
troca de correspondências de estudantes que utilizam o inglês no ambiente de
trabalho, trazendo os elementos presentes em nossa proposta de trabalho como
subsídios para análise dessas produções.
Conforme exposto anteriormente, o impacto da tecnologia digital ocorrida no
mundo pós-moderno trouxe grandes transformações na área da comunicação,
propiciando o aparecimento de novos gêneros da mídia virtual.
54
Informamos que os nomes descritos nas produções textuais analisadas nessa pesquisa são
fictícios, sendo os nomes verdadeiros preservados, a fim de manter suas identidades sob sigilo.
70
Com características inovadoras e altamente centrado na escrita, vemos,
dentre esses novos gêneros, o surgimento do e-mail, com presença marcante no
contexto pessoal e corporativo.
E é sob o ponto de vista do e-mail como meio de comunicação largamente
utilizado no contexto corporativo que analisaremos as produções a seguir.
Para a análise do corpus, relacionamos o e-mail a seus gêneros
preexistentes, isto é, carta, bilhete e correio.
Análise 1: e-mail como carta
O excerto do corpus a ser analisado abaixo, textos 1 e 2, baseia-se na troca
de e-mails corporativos entre uma assistente com mais de 2 anos de experiência
profissional (nível linguístico de inglês: avançado) e um cliente externo. O tema
principal da interação é o agendamento de uma reunião.
A correspondência comercial, como gênero antecessor do e-mail, nos traz
diversas normas que a regulam, as quais, conhecidas pelo enunciador, propiciam a
adequação do enunciado às expectativas da comunidade discursiva à qual o novo
gênero pertence.
Cientes de que as diferenças de poder no mundo dos negócios, traduzidas
no discurso, impactam diretamente nas negociações, apresentamos o e-mail abaixo
(texto 1) como modelo de e-mail corporativo formal, trazendo, em seu enunciado,
particularidades do gênero antecessor – carta comercial – como a escrita formal
(não contração de palavras “It was”, “I am copying”), vocativo epistolar (“Dear
Susan”), termos de cortesia (“Please find below”, “Thanks”) e termo de fechamento
(“Regards”),
apresentando,
ao
mesmo
tempo,
características
inovadoras
relacionadas ao gênero e-mail, como enunciado mais curto – propiciando uma
escrita mais amigável –, tendendo a uma certa informalidade, demonstrada pelo
enunciador ao utilizar os termos “catch up” e “see you”.
71
(texto 1)
Dear Susan,
It was very nice to catch up with you last afternoon. Please find below availability for a
meeting with Ms. Sue in Dallas.
th
Thursday – November 10 at 10:00 a.m.
I am copying Marsha, her assistant, so you can coordinate schedule directly with her.
Thanks.
See you.
Regards,
George
...........................................
Prezada Susan,
Foi muito bom estar com você ontem à tarde. Envio abaixo a disponibilidade para uma
reunião com Srta. Sue, em Dallas.
Quinta – 10 de novembro às 10:00h.
Estou copiando Marsha, assistente da Srta. Sue, para que você possa coordenar o
cronograma diretamente com ela. Grato.
Saudações,
George
O gênero, como entidade comunicativa de ação social, traduz, em seu
enunciado, estruturas de autoridade e relações de poder, estabelecendo uma
espécie de “contrato” entre os sujeitos do discurso. O enunciador, por sua vez, como
ator social, deve identificar as “condições” requeridas para a realização de tal
“contrato”, adequando sua produção textual à situação discursiva proposta.
Ao enviar o e-mail com cópia para a assistente Marsha, o enunciador George
atribui ao outro (o não EU) uma competência linguística semelhante a sua,
esperando dele uma contrapartida de conivência.
Ao utilizar em sua resposta (texto 2, a seguir) traços ligados ao gênero carta
comercial, tais como layout com espaçamento, grafia não contraída “I am doing”, “It
will” e termos de cortesia “Please” e “Thanks in advance”, o enunciador Marsha
corresponde à competência de linguagem análoga atribuída por George, adequando
sua produção discursiva às expectativas geradas pela comunidade discursiva do
gênero em questão.
72
(texto 2)
Dear Susan,
I am doing the final arrangements in Ms. Sue’s schedule and would like to check if it will
be possible for her to meet you when she is in Dallas. Please let me know what works
best for you and I will provide the adjustments as required.
Thanks in advance,
Marsha
.............................................
Prezada Susan,
Estou fazendo os últimos arranjos no cronograma da Srta. Sue e gostaria de saber se é
possível para ela encontrá-la quando estiver em Dallas. Favor avisar-me a melhor data e
providenciarei os ajustes necessários.
Antecipadamente grata,
Marsha
Ponto igualmente importante a ser considerado na ocasião da produção
textual, a interação entre um sujeito discursivo e um receptor, ou de um sujeito
discursivo e vários receptores – traço comumente encontrado na postagem cruzada
de e-mails –, é fator relevante para a escolha linguística a ser utilizada pelo
enunciador, a fim de obter êxito em sua prática discursiva.
Assim sendo, observamos que, ao enviar cópia do e-mail para a assistente
Marsha (texto 1, anteriormente descrito), o sujeito discursivo George não só expõe o
padrão de sua comunicação, como também traduz, ao dirigir-se ao seu interlocutor
utilizando o vocativo “Dear Susan”, as relações sociais de relacionamento existentes
entre ambos.
Cientes de que o aspecto social é fator relevante nas negociações e que as
saudações, como uma das formas de traduzirmos esse aspecto, denotam o nível de
relacionamento e intimidade dos interlocutores, a não utilização do pronome de
tratamento “Ms” ou “Mrs” na sentença de saudação do enunciado de Marsha à
Susan (texto 2) denota um grau de intimidade entre enunciador e coenunciador,
podendo causar desconforto entre os parceiros e consequente prejuízo às
negociações.
73
Como ator social, responsável pela intermediação de negociações, o
profissional de secretariado deve ter entendimento das reproduções de estratégias
da língua falada presentes na postagem cruzada de e-mails, adequando seu
enunciado às exigências da situação discursiva proposta, a fim de evitar possíveis
mal-entendidos.
(texto 2)
Dear Susan,
I am doing the final arrangements in Ms. Sue’s schedule and would like to check if it will
be possible for her to meet you when she is in Dallas. Please let me know what works
best for you and I will provide the adjustments as required.
Thanks in advance,
Marsha
Cientes de que o e-mail formal, direcionado aos colaboradores externos, ou
colaboradores com o qual o enunciador tem pouca intimidade social, possui
características pertences ao gênero antecessor (como sentença de fechamento),
consideramos a não utilização de um fecho, como o vocábulo “Regards”, por parte
do enunciador Marsha, como um provável fator de “não monitoramento” da produção
textual, motivado pela rapidez exigida do meio, característica citada pelos autores
relacionados em nossa pesquisa como traço pertencente ao gênero e-mail.
Portanto, classificado como aluno experiente (job-experienced learner)55,
embora possua um bom nível linguístico, depreendemos que – como profissional de
secretariado, atuando como interface entre os colaboradores – há a necessidade de
uma maior conscientização, por parte do enunciador Marsha, com relação ao
aspecto social de sua prática discursiva, fator que facilitará a condução de futuras
negociações e ascensão profissional.
55
Classificação segundo Ellis e Johnson (1994, p. 17).
74
Análise 2: e-mail como carta
O excerto do corpus a ser analisado a seguir, textos 3, 4, 5 e 6, baseia-se na
troca de e-mails corporativos entre uma secretária com experiência profissional de
mais de 2 anos, porém com pouca experiência no que se refere à escrita
empresarial em inglês (nível linguístico de inglês: básico), e um colaborador
estrangeiro (pertencente a uma empresa-parceira no exterior). O tema principal da
interação é a reserva de hotel no Brasil.
Visto que o domínio dos recursos de comunicação e expressão é uma das
competências necessárias ao profissional de secretariado nas comunicações
interpessoais ou intergrupais, o reconhecimento das características do gênero e-mail
corporativo, independentemente do idioma a ser utilizado, é condição primordial para
o desenvolvimento e ascensão do profissional de secretariado.56
Conforme exposto anteriormente em nossa pesquisa, o campo do discurso
digital se encontra ainda em fase de “transição”, e o hibridismo existente entre “fala”
e “escrita” presente nos enunciados dos e-mails desencadeia incertezas, levando,
muitas vezes, o enunciador ao não entendimento de tal interação, fazendo, assim,
com que utilize escolhas linguísticas inapropriadas ao propósito discursivo.
Conforme apresentado abaixo, a limitação linguística, ou seja, a não inversão
do auxiliar “will” x sujeito “you” prevista na gramática normativa da língua inglesa
para formulação de perguntas, bem como a escolha sintática indevida (utilização do
verbo “reserve” sem o infinitivo, no lugar do substantivo “reservation”) e o não
entendimento do propósito discursivo, colaboram para o processo de desconstrução
da imagem esperada do sujeito discursivo para tal situação, levando à quebra das
expectativas geradas pela comunidade discursiva com relação ao gênero e-mail
corporativo.
56
As informações desse parágrafo foram coletadas 1) como sendo uma das competências
requisitadas do profissional do secretariado, descrita no item VI das Diretrizes Curriculares Nacionais
(DCN) promulgada pela resolução CNE/CES no. 3 de 23 jun. 2005, e 2) por meio das respostas ao
questionário enviado à consultora da área de secretariado, Stefi Maerker, e de anúncios online
referentes ao cargo de secretária jr., expostos nos capítulos Introdução e Triangulação de Dados,
respectivamente.
75
(texto 3)
Paul,
You will need reserve too?
Maria
....................................................
Paul,
Você precisará reservar também?
Maria
Cientes de que os novos gêneros não são criações totalmente originais, mas
ancoram-se em outros já existentes, ressaltamos a importância do entendimento –
pelo enunciador – dos traços trazidos do gênero antecessor, na ocasião da
produção textual. Tendo a carta comercial como um dos gêneros antecessores, o
enunciado do novo gênero deve contemplar e adequar-se aos aspectos
relacionados à estrutura, coesão e coerência relacionados à carta comercial, a fim
de atingir o objetivo da situação discursiva.
A não utilização do vocativo “Dear” e do termo de fechamento “Regards”,
previstos para a correspondência comercial, demonstra o desconhecimento – por
parte do enunciador – de seu lugar de enunciação, isto é, de seus deveres e
saberes necessários para que seu enunciado atenda às normas de saudação e
cortesia previstas para o gênero e-mail corporativo.
Concebendo o gênero como fato social cuja identificação reside na ação
social praticada dentro da esfera de atividade em que circula, verificamos, no texto
abaixo descrito, que, mesmo diante de um enunciado que apresenta desvios, o
coenunciador Paul – que assume agora a posição de enunciador –, a fim de manter
a comunicação, utiliza o gênero como algo constitutivo destinado a um propósito
discursivo e não como um enunciado livre de coerções. Para tanto, utiliza-se de
traços apropriados à correspondência comercial, tais como o uso de vocativo
epistolar “Maria” e formas de polidez “Please” e “Thank you”, previstas para o gênero
e-mail corporativo.
(texto 4)
Maria:
76
Please reserve a room for me
and a room for Peter (XYZ
company) from Tuesday night
through Thursday night.
Thank you,
Paul Smith
........................................................
Maria:
Favor reservar um quarto para mim
e um quarto para o Peter (empresa
XYZ) de terça à noite, até quinta à
noite.
Grato,
Paul Smith
Cientes de que a língua não serve apenas como instrumento de transmissão
de informações, mas algo constitutivo que, ao mesmo tempo em que torna o
enunciador sujeito de seu discurso, o submete a regras, verificamos que a não
utilização – no texto 5 – de formas de polidez previstas para o gênero e-mail
corporativo, tais como “Could you please inform”, “Is it possible to inform”, ou “I am
not allowed to reserve”, desencadeia uma mudança no tom da comunicação (texto
6), até então amigável, causando desconforto entre os interlocutores.
(texto 5)
Paul,
You’ll stay in a double room with Michael or with Sérgio?
Because i can’t reserve 2 single rooms.
Maria
.........................................................................
Paul,
Você ficará num quarto duplo com Michael ou com o Sérgio?
Porque eu não posso reservar 2 quartos individuais.
Maria
(texto 6)
77
Maria:
To begin with, Michael will stay in a single
room. Michael is the President of a USA
company, our most important partner and the
guest of XXXX.
Second of all, as Sérgio will attest through
personal experience, no one can sleep in a
room with me.
If I need to, I will speak with XXX personally
about the issue.
Regards,
Paul Smith
..................................................................
Maria:
Para começo de conversa, Michael ficará num quarto individual.
Michael é presidente de uma empresa americana, que é nossa
parceira mais importante e convidado do XXXX.
Em segundo lugar, como Sérgio pode comprovar através de
experiência pessoal, ninguém dorme no quarto comigo.
Caso seja necessário, falarei com o XXXX pessoalmente a
respeito desse assunto.
Saudações,
Paul Smith
Diante de tais desvios, o coenunciador Paul – que agora assume o lugar de
enunciador – muda sua conduta e, ao lançar mão da elocução de caráter expressivo
“to begin with”, o “ator social” Paul faz uso do poder atribuído a sua posição
corporativa para mudar o tom da interação entre os interlocutores.
Igualmente, a fim de que a mensagem apresente fluidez, ao utilizar o
conectivo “second of all” na junção de parágrafos, o enunciador não só faz uso
correto da sintaxe, proferindo seu discurso de maneira clara e objetiva, como
também reajusta, propositadamente, seu enunciado em função de coerções
imediatas à situação.
Para ter seu pedido efetivado, ou seja, ao utilizar o verbo de função apelativa
“falar com” ↔ “speak with”, o enunciador constrói seu discurso final de maneira que
as palavras mudam de sentido, deixando claras as posições dos que as empregam,
isto é, revelando a diferença “na relação de forças” existente entre Paul e Maria.
78
Classificada como funcionário iniciante (junior company members)57, Maria é
profissional em início de carreira. Conforme dados obtidos em nosso estudo, é
importante ressaltar que tais profissionais estão aprendendo a maneira que a
empresa opera e podem não estar familiarizados com o que acontece fora de seus
departamentos. Deste modo, podem ter menos consciência das necessidades
linguísticas em termos de comunicação em situações reais no ambiente de trabalho,
sendo suas expectativas, com relação ao aprendizado da linguagem corporativa,
moldadas mediante suas experiências na escola.58
Deste modo, tendo a escola como base do conhecimento sociolinguístico
relacionado a situações corporativas, a escolha de atividades59 – por parte do
docente – a serem utilizadas com tais alunos é fator primordial para o
desenvolvimento de sua prática discursiva no ambiente de trabalho. Ao obter uma
melhor compreensão das situações discursivas apresentadas no ambiente
corporativo, o aluno terá maior chance de êxito na comunicação, evitando situações
embaraçosas, que podem acarretar prejuízos às negociações, bem como ao
desenvolvimento profissional do enunciador e à imagem corporativa da empresa
para a qual trabalha.
Análise 3: e-mail como bilhete
Essa análise refere-se à troca de correspondências entre uma estagiária, que
trabalha na divisão brasileira de uma empresa multinacional, cuja experiência
profissional é de 1 ano (nível linguístico de inglês: intermediário), e um membro da
empresa pertencente à matriz (localizada no exterior). O tema principal é a tiragem
de cópias.
57
Classificação segundo Ellis e Johnson (1994, p. 16).
As informações contidas neste parágrafo são baseadas em argumentos de Ellis e Johnson (1994,
p. 5).
59
Ellis e Johnson apontam algumas atividades a serem realizadas com alunos com pouca ou
nenhuma experiência (pré-serviço): leitura de textos, escrita de artigos em inglês, escrita de
correspondência comercial e desenvolvimento de situações corporativas, como reuniões, interações
sociais etc.
58
79
Conforme exposto anteriormente em nosso estudo, o bilhete é apontado por
pesquisadores60 como um dos gêneros antecessores do e-mail. Quando utilizado
neste contexto, o e-mail, em termos gerais, apresenta linguagem não monitorada,
tamanho não ultrapassando 5-10 linhas, sem paragrafação, podendo trazer arquivos
agregados (attachments).
Tendo sua interação discursiva realizada entre colaboradores internos,
verificamos, no texto abaixo, traços pertencentes ao gênero e-mail como bilhete, tais
como o tamanho de seu enunciado, formato livre de paragrafação (sem
espaçamento de uma linha entre eles, comum no sistema bloco utilizado para a
língua inglesa) e arquivo agregado.
(texto 7)
Ana,
Thanks for all your help with making these copies.
Attached is the scoring guide – it is a pdf of the entire packet. All you need to copy is the
second page, with that grid. It is the fourth page of the pdf, and it says page 2 on the
bottom of the page.
Let me know if this works any better.
Regards,
Clair
..........................................
Ana,
Grata por toda sua ajuda ao fazer as cópias.
Envio, em anexo, o guia de pontuação – é um pdf do pacote inteiro. A cópia que você
precisa fazer é da segunda página, com a tabela. É a quarta página do pdf e está
numerada como 2 no final da página.
Avise-me se dessa maneira está melhor.
Saudações,
Clair
O gênero, como forma cultural e cognitiva de ação social numa situação
comunicativa corrente, estrutura a comunicação, atenuando a pressão entre os
membros da comunidade discursiva, promovendo maior chance de êxito na
comunicação.
60
Marcuschi (2002, p. 23).
80
Ao manter as expectativas com relação à forma e ao conteúdo da interação
esperados para o gênero “e-mail” corporativo como bilhete, ou seja, ao utilizar o
vocativo “Ana”, forma de polidez “Thanks” e sentença de fechamento “Regards”, o
enunciador Clair expõe os padrões de cortesia peculiares ao enunciado do e-mail
corporativo, propiciando maior conforto entre os interlocutores.
Sabemos que o enunciador, em seu discurso, presume uma espécie de ritual
linguístico implícito entre os interlocutores, escolhendo para si, e impondo ao
coenunciador “papéis”, cujas informações devem ser inferidas através do texto.
Desta maneira, ao mesclar o vocabulário informal “Let me know” às formas
não contraídas “It is” e “Attached is” (a não utilização de formas de contração é
peculiar à linguagem formal em inglês), o enunciador Clair impõe um tom um pouco
mais formal a sua comunicação, criando expectativas com relação à forma de
interação a ser utilizada por seu coenunciador.
Entretanto, o coenunciador Ana (que assume agora o papel de enunciador no
texto 8, descrito a seguir) quebra as expectativas partilhadas acerca do tom um
pouco mais formal utilizado no e-mail anterior, não atendendo à forma de interação
“proposta” por Clair ao utilizar marcas de oralidade, como “Hi”, formas contraídas,
como “You’re” e “I’ve”, abreviações, como “BR”, e pontos de exclamação.
(texto 8)
Hi Clair,
You’re welcome! I’ve already done all the copies and the scoring guide are clear now.
I’ve left all on Peters desk.
Have a nice event!
BR,
Ana
.................................................
Olá Clair,
Estou à sua disposição! Já fiz as cópias e o guia de pontuação está claro agora.
Os deixei na mesa do Peter.
Tenha um bom evento!
Sds,
Ana
81
Sabedores de que os gêneros do discurso, como entidades dinâmicas de
ação social, constroem o tempo-espaço de sua legitimação, presenciamos nos
novos gêneros da mídia virtual, dentre eles, o e-mail, um forte hibridismo entre “fala”
e “escrita”, fazendo-nos rever antigos conceitos ligados à produção textual de seus
enunciados.
Desta forma, conforme excerto abaixo, mesmo com a ocorrência de desvios
gramaticais como “are” e “Peters” e a falta de pronomes de tratamento como “Ms” ou
“Mrs” (denotando um grau de intimidade social maior entre os interlocutores), a
clareza, objetividade e polidez do enunciado, expressas através de termos como
“You’re welcome” e “Have a nice event” propiciam ao discurso (texto 8) o tom
amigável necessário às negociações, gerando uma resposta positiva de Clair;
conforme texto 9, também mencionado a seguir.
(texto 8)
Hi Clair,
You’re welcome! I’ve already done all the copies and the scoring guide are clear now.
I’ve left all on Peters desk.
Have a nice event!
BR,
Ana
Resposta de Clair:
(texto 9)
Obrigado! Thank you so much. I am glad the e-mail version worked out.
Clair
............................................
Obrigado! Muitíssimo obrigada. Fico feliz pela versão do e-mail ter funcionado.
Clair
82
Tal qual o enunciador Maria (análise 2 de nossa pesquisa), o enunciador Ana
(análise 3) é igualmente classificado como funcionários iniciantes (junior company
members), isto é, profissionais que estão aprendendo a maneira que a empresa
opera.
Embora apresentando níveis linguísticos diferentes (Maria: nível linguístico
básico e Ana: nível linguístico intermediário), observamos que a principal diferença
entre as duas comunicações reside não na limitação de vocabulário, uma vez que o
enunciado de Ana também apresenta desvios gramaticais, mas na falta de
conhecimento das características apresentadas em enunciados do gênero em
questão.
O enunciador Ana obtém êxito em sua comunicação validando seus
argumentos por meio de layout claro – o que facilita a interpretação do enunciado
com maior rapidez – e de utilização de formas de polidez, essenciais para o bom
andamento das negociações, seja entre membros internos da empresa ou clientes
externos, traço, muitas vezes, negligenciado por enunciadores em início de carreira.
Por outro lado, o enunciador Maria, ao ignorar a identidade e o propósito do
gênero, negligencia o uso de formas de polidez – necessário na condução de
negociações, em qualquer idioma – e utiliza, também, um grau de informalidade na
escolha linguística e layout de forma livre, quebrando as expectativas geradas pelos
membros da comunidade discursiva com relação ao gênero e-mail corporativo.
Assim sendo, devemos ressaltar que, mesmo com limitações linguísticas, ao
conscientizar-se sobre o aspecto sociocomunicativo de sua produção textual no
ambiente corporativo, o enunciador em início de carreira poderá evitar possíveis
mal-entendidos na condução das negociações, alcançando maior chance de êxito na
comunicação.
Análise 4: e-mail como correio eletrônico
Durante a disciplina de Business Writing do curso de secretariado executivo
trilíngue, foi possível verificar que, mesmo distinguindo gêneros diversos, os
83
estudantes não conseguiam adequar seu enunciado ao propósito discursivo
proposto.
Deste modo, estendendo nossa pesquisa ao estudo de outros gêneros
igualmente importantes no discurso corporativo, tomando por invariante o lugar
institucional empresa, requisitamos aos estudantes que já utilizam o inglês no dia
a dia corporativo discorrerem sobre o tema “aquisição de um sistema de vendas”
sob a perspectiva de dois gêneros: e-mail formal (carta requisitando informações
sobre o produto) e memorando (informando aos funcionários sobre a aquisição de
tal produto).
Partindo do princípio de que já trabalham como profissional de secretariado
utilizando o idioma inglês no dia a dia corporativo, ou seja, utilizam gêneros
pertinentes ao discurso corporativo, como o relatório, carta, memorando etc., essa
análise tem como objetivo averiguar o conhecimento sociolinguístico que tais
estudantes possuem com relação aos diferentes tipos textuais presentes nos
gêneros da esfera corporativa, e, em particular, nos gêneros carta e memorando,
possibilitando-nos identificar as dificuldades que os levam à não adequação da
produção textual aos diferentes gêneros discursivos.
Portanto, é sob o ponto de vista do e-mail como um lócus virtual, servindo de
base ou ambiente de fixação tanto para o gênero carta, quanto para o gênero
memorando, que analisaremos as produções textuais a seguir.
Texto 10: e-mail formal
(carta requisitando informações sobre o produto)
(texto 10)
Dear Sir/Madam,
I would like to have further details about the new sales system.
Could you please tell me what is the biggest advantage in acquiring it? I would also like
to know how long the process of implementing it in my company would take.
Yours faithly,
Margareth Smith
Sales Manager
.......................................
Prezado Senhor(a),
84
Gostaria de obter maiores informações a respeito do sistema de vendas.
Poderia informar-me quais vantagens teríamos em adquirir tal sistema? Gostaria
igualmente de ser informada sobre o tempo de implantação do sistema em minha
empresa.
Atenciosamente,
Margareth Smith
Gerente de Vendas
Conforme texto 10, acima descrito, observamos que o enunciador Margareth
adéqua sua produção textual à situação discursiva proposta, utilizando sentenças de
abertura “Dear Sir/Madam”61 e fechamento “Yours faithly”62 (apesar da grafia
incorreta), formas de polidez “I would like” e “Could you please”, layout e estrutura
esperados para o gênero em questão, demonstrando – assim – o conhecimento
sociolinguístico requerido para o gênero e-mail corporativo formal.
Entretanto, tal adequação não é apresentada no texto 11, descrito a seguir,
cujo discurso apresenta desvios que, apesar de não causarem ruídos à
comunicação, sugerem o conhecimento parcial do enunciador Pat com relação ao
gênero e-mail corporativo formal.
Texto 11: e-mail formal
(carta requisitando informações sobre o produto)
(texto 11)
Dear Sir
As you may know we are about to change our internal Sales System. This is going to
happen because the employees that used to manage it are no longer with us.
For that reason I need you to provide us a new one similar as this one so this way the
change will not be so dramatic for the sales department.
From now on I put my self on your disposal for any doubts you may have.
Thank you very much and kind regards,
Pat Parker
Sales Manager
........................................
Prezados Senhores
61
Quando o destinatário não é conhecido, usa-se “Dear Sir/Madam” na sentença de abertura
(COTTON; FALVEY; KENT, 2006, p. 138).
62
Quando o destinatário não é conhecido, usa-se “Yours faithfully” no fechamento (COTTON;
FALVEY; KENT, 2006, p. 138).
85
Como os senhores devem saber estamos para trocar nosso sistema de vendas interno.
Isto irá acontecer uma vez que os funcionários que lidavam com ele não estão mais
conosco.
Por essa razão necessito que vocês providenciem um novo sistema semelhante a esse
para que a troca não seja tão dramática para o departamento de vendas.
Coloco-me à disposição para quaisquer dúvidas que vocês tenham.
Muito obrigada e saudações,
Pat Parker
Gerente de Vendas
Cientes de que a correspondência comercial serve como instrumento para o
fechamento de negócios, ao não utilizar o espaçamento adequado entre os
parágrafos, o enunciador dificulta a legibilidade e consequente interpretação do
enunciado, fator de grande importância no momento das negociações, podendo criar
uma imagem pessoal e corporativa menos positiva da organização emitente.
No mundo atual, em que mulheres e homens ocupam o mesmo nível
hierárquico no ambiente corporativo, ao fazer uso somente do vocativo “Sir” na
saudação, o enunciador demonstra o desconhecimento sociolinguístico necessário
com relação às formas de tratamento esperadas para o gênero e-mail formal quando
o destinatário é desconhecido63, ou seja, a utilização de uma saudação que esteja
endereçada a ambos os sexos: Sir/Madam.
Outro ponto relevante a ser destacado no texto 11 é a falta de pontuação.
Segundo estudos realizados em nossa pesquisa64, a pontuação inadequada nos emails deve-se a omissões do enunciador, cuja atitude traz, indubitavelmente,
consequências para o contexto da comunicação empresarial, no qual as atitudes
prescritivas têm presença marcante, seja de maneira consciente ou inconsciente.
Verificamos que, da mesma forma, os erros de ortografia como “my self”, ou o
uso inadequado do vocábulo “doubts”, no lugar de “questions”, apesar de não
causarem prejuízo à comunicação, expõem o desconhecimento linguístico do
enunciador, podendo trazer desconforto às negociações, uma vez que poderá gerar
questionamentos quanto à credibilidade do enunciador.
63
64
Argumentos apresentados por Cotton, Falvey e Kent (2006, p. 138).
Argumentos apresentados por Crystal (2001, p. 112).
86
Deste modo, ao não considerar a esfera de atividade da ação humana em
que o gênero circula, isto é, o lugar institucional empresa, o enunciador coloca
sua imagem e credibilidade profissional em risco, bem como a imagem e
credibilidade da empresa da qual faz parte, podendo enfraquecer as relações nas
negociações entre parceiros.
Texto 12: memorando
Concebendo os gêneros como “fatos sociais” e não somente como fatos
linguísticos, cuja identificação reside na ação social praticada dentro da esfera de
atividade em que circula, vemos o quão importante é para o enunciador o
conhecimento sobre gêneros diversos, a fim de ter seu texto adequado à situação
discursiva em questão.
Partilhada entre membros de uma coletividade, a competência genérica
atenua a pressão da comunicação existente entre os interlocutores, propiciando
maior êxito à comunicação.
Ao adequar sua produção textual ao gênero memorando, o enunciador deve
ter em mente que, como instrumento de comunicação interna veiculada entre as
unidades administrativas da empresa, o memorando tem como traço principal a
objetividade, apresentando uma linguagem breve, precisa e direta.65
Cientes de que na mídia virtual o e-mail, como plataforma eletrônica, é
igualmente utilizado na forma tradicional do memorando, é importante que o
enunciador tenha conhecimento dos traços pertencentes ao gênero antecessor,
adequando sua produção textual à finalidade discursiva proposta.
Conforme excerto do corpus a seguir, ao utilizar estruturas sintáticas como
“the best way to make the best use of it” e “so”, tempos verbais como “I would like to
inform” e “I would like to invite” e sentença de fechamento “kind regards” (não
utilizada em memorandos na língua inglesa)66, o enunciador Margareth mantém,
65
Argumentos apresentados por Cotton, Falvey e Kent (2006, p. 140).
Para Bosco e Hernandes, no gênero memorando são dispensáveis saudação de abertura,
repetição de cargo abaixo da assinatura e saudação final, como “atenciosamente” (2010, p. 69). A
mesma opinião é compartilhada por Cotton, Falvey e Kent, para os quais o memorando, em inglês, é
finalizado somente com as iniciais do nome do enunciador (2006, p. 140).
66
87
para o memorando, o mesmo tipo textual, narrativo utilizado em seu e-mail (carta
formal), ou seja, a mesma sequência de aspectos lexicais, sintáticos, tempos
verbais, relações lógicas, descaracterizando o gênero memorando e sua finalidade
discursiva: objetividade e concisão do enunciado.
(texto 12)
Dear all,
I would like to inform you that we have implanted a new sales system which will be on
by the 14th of the current month.
I would really appreciate ideas about the best way to make the best use of it, so I
would like to invite all of you to participate of the meeting that will take place on
th
February 5 .
I am looking forward to seeing you at the meeting.
Kind regards,
Margareth Smith
Sales Manager
........................................
Prezados,
Gostaria de informá-los que implantaremos um novo sistema de vendas que estará em
funcionamento a partir do dia 14 do mês corrente.
Gostaria muitíssimo de ideias sobre a melhor maneira de fazer um bom uso dele, então
gostaria de convidá-los para participar de uma reunião que será realizada em 05 de
fevereiro.
Aguardando vê-los na reunião.
Saudações,
Margareth Smith
Ao dominar vários gêneros de discurso, ou seja, ao considerar os aspectos
lexicais, sintáticos, tempos verbais e relações lógicas do gênero, o enunciador terá
uma considerável economia cognitiva, atendendo à finalidade discursiva e tendo
maior probabilidade de êxito na comunicação e de resultado satisfatório às
negociações.
Conforme exposto anteriormente em nosso estudo, por não considerar a
escrita como parte de suas funções, muitos profissionais não concedem o tempo e
disciplina exigidos para o desenvolvimento de tal habilidade.
Desta maneira, ao não conceder a disciplina necessária à produção textual, o
enunciador Margareth descaracteriza o gênero memorando, dando um aspecto
88
narrativo e não expositivo ao seu enunciado, portanto não atingindo o propósito
requisitado pela situação corporativa e demonstrando – assim – desconhecimento
sociolinguístico com relação à prática discursiva proposta para a situação.
Outro ponto importante a ser considerado na ocasião da produção textual é o
entendimento – por parte do enunciador – da diferença entre “texto” e “discurso”.
Concebendo o texto como entidade concreta materializada em um gênero discursivo
e tendo o gênero como ação social manifestada em uma esfera discursiva
institucional, é primordial que o enunciador contemple sua produção textual em
interação com o meio no qual está inserida, fazendo com que o discurso se realize
por meio do texto.
Assim, o uso da sentença de fechamento “best regards” e de estrutura
sintática como “to find a new one to replace that one you were used to deal with” –
no texto 13, a seguir – indica a quebra, pelo enunciador Pat, dos padrões de
objetividade e concisão esperados para o gênero memorando, não adequando seu
enunciado à situação discursiva proposta.
Tal qual o enunciador Margareth (texto 12), o enunciador Pat (texto 13), ao
apresentar desconhecimento sociolinguístico do que seja texto e discurso, faz
igualmente uso da narração para o gênero memorando, quebrando, desta maneira,
as expectativas geradas pela comunidade discursiva para o gênero em questão.
Texto 13: memorando
(texto 13)
Dear all,
Since yesterday we have a new sales system for our department. All the IT group was
very kind to help us to find a new one to replace that one you were used to deal with.
In order to have a peaceful transition and to prevent any kind of problems I would like to
hear from you the first impression about this new system.
Next Monday on 3:00 p.m. is already placed a meeting for this proposal. Please, bring
your comments, complaints and ideas to help us to improve it.
Thank you and best regards,
Pat Parker
Sales Manager
.........................................
Prezados,
89
Desde ontem temos um novo sistema para nosso departamento. Todo o grupo de T.I. foi
muito gentil em ajudar-nos a encontrar um novo para substituir àquele com que
estávamos acostumados a lidar.
A fim de termos uma transição pacífica e prevenir quaisquer tipos de problemas, gostaria
de obter de vocês as primeiras impressões sobre o sistema.
Na próxima segunda, às 15:00 h, teremos uma reunião para esse propósito. Favor trazer
seus comentários, reclamações e ideias para ajudar-nos a melhorá-lo.
Grata e saudações,
Pat Parker
Gerente de Vendas
Assim sendo, ao não assumirem o papel para o qual foram legitimados, os
enunciadores Margareth e Pat utilizam, para gêneros distintos – carta e memorando
–, os mesmos aspectos lexicais, sintáticos e de tempos verbais, negligenciando as
diferentes finalidades discursivas do gênero como forma de ação social.
3.2 As habilidades e competências necessárias ao profissional de secretariado
sob a perspectiva do mercado de trabalho
Tendo como base de nossa proposta de trabalho o ensino da língua inglesa
para propósitos específicos em um curso de secretariado, identificamos, conforme já
exposto anteriormente em nosso estudo, as principais atividades linguísticas67
requeridas do profissional de secretariado para a execução das tarefas no ambiente
de trabalho, por meio das quais abordamos o estudo dos gêneros.
Deste modo, buscamos entender, sob a ótica do mercado de trabalho, como
tais funções são requeridas do profissional de secretariado; informações que, ao
trazerem elementos ligados à execução das tarefas, contribuirão para o
aprimoramento de nossa proposta de trabalho.
Assim sendo, apresentamos, a seguir, anúncios online capturados dos sites
Grupo AGP-São Paulo, Catho e Manager – referentes aos meses de julho e
agosto/2014 – requisitando profissionais de secretariado bilíngue em início de
carreira, bem como entrevista concedida pela Sra. Stefi Maerker (Diretora/Presidente
da SEC Talentos Humanos) em 08/06/2014, cuja íntegra encontra-se no Anexo II.
67
Envio/recebimento de e-mails; atendimento telefônico; recepção de clientes; leitura de sistemas;
agendamento de reuniões e viagens; criações de apresentações; leitura de manual técnico; redação
de contrato; reserva de hotel e restaurantes.
90
Catho:
Anúncio 1
Secretária / Assistente Júnior Bilíngue – 10/07/2014
Atividades:
Responsável, majoritariamente, por atividades
administrativas de contas a pagar e receber como:
administração de pagamentos, suporte à contabilidade
terceirizada, relacionamento com fornecedores etc.
Trabalhar com atividades pertinentes ao secretariado,
como cotações de viagens, renovação de seguros,
administração da telefonia móvel, oferecendo suporte
administrativo a 2 diretores.
Experiência: Necessário experiência como secretária ou assistente
administrativa, principalmente nas funções inerentes a
contas a pagar e receber.
Escolaridade: Ensino Superior completo em Secretariado,
Administração de Empresas ou áreas relacionadas.
Ter inglês avançado ou fluente, uma vez que o
trabalho será desenvolvido no idioma. Possuir registro
na SRTE.
Regime de contratação: Temporário
Anúncio 2
Secretária Bilíngue Júnior – 11/07/2014
Responsabilidades: Programar a agenda de reuniões e itinerários de
viagens e coordenar as providências
necessárias (contato com agências, reserva de
hotel e compra de passagens). Preparar,
executar e manter atualizada e organizada as
correspondências da diretoria. Organizar e
manter os arquivos e documentos da diretoria.
Controlar e filtrar contatos telefônicos e
pessoais, resolvendo questões de rotina.
Receber e encaminhar visitantes nacionais e
91
internacionais. Dar apoio à equipe de staff
(gerentes). Desenvolver serviços de tradução
(e-mails, comunicados e folders). Realizar atas
formais.
Experiência na área.
Escolaridade: Ensino Superior completo. Inglês: intermediário.
Competência: Boa desenvoltura.
Grupo AGP-São Paulo:
Anúncio 3
Secretária Bilíngue JR – 07/08/2014
Responsabilidades: Irá assessorar o Presidente de uma grande
associação, cuidando de agendas, reservas de
viagens, hotéis, salas, preparar apresentações
das reuniões/atas/ memorandos.
Experiência:
Redação própria para preparar palestras e
reuniões e envio de e-mails; No
assessoramento de nível gerencial/diretoria;
Em Excel, Power Point.
Habilidade em:
Atendimento a Clientes; Comunicação;
Relacionamento Interpessoal.
Competências:
Discreta; Proatividade; Flexibilidade; Humildade;
Atitude; Iniciativa.
Indispensável:
Formação: Superior Completa; Inglês Fluente;
Disponibilidade de horários.
Manager
Anúncio 4
Secretaria Bilíngue Júnior – 07/08/2014
Nível: Secretária(o)
Área: Administrativa
Descrição das atividades: Cuidar de agendas; Reservas de viagens,
hotéis, salas; Preparar apresentações das
reuniões/ atas/ memorandos.
92
Redação própria para preparar palestras e
Experiência:
reuniões e envio de e-mails.
Ao compararmos as informações contidas nos anúncios online com as
informações expostas anteriormente em nosso estudo com relação às competências
requeridas para o profissional de secretariado, podemos constatar que as
competências estabelecidas pelo MEC68, no tocante à formação de profissionais de
secretariado, não diferem das competências requeridas por tais consultorias, para as
quais o conhecimento cognitivo que o profissional precisa ter, no que se refere às
funções a serem executadas no ambiente corporativo, é de fundamental
importância.
Por recrutarem profissionais bilíngues, observamos que a necessidade do uso
do inglês é mencionada em três dos quatro anúncios capturados, dentre os quais
dois mencionam a necessidade de inglês de nível avançado ou fluente, e o outro
menciona a necessidade do inglês de nível intermediário para traduções.
Esta necessidade – inglês de nível avançado – é também apontada pela Sra.
Stefi Maerker, da consultoria SEC Talentos Humanos, como pré-requisito para
profissionais
em
início
de
carreira,
demonstrando,
conforme
mencionado
anteriormente em nossa pesquisa, a relevância na escolha de atividades que
propiciem a prática discursiva relacionada à área de atuação do aluno.
Observamos, também, que três dos quatro anúncios trazem a redação própria
para o envio de e-mails como pré-requisito para a contratação, reafirmando a
importância do ensino-aprendizagem do novo gênero da mídia virtual em cursos de
inglês para fins específicos.
Com relação ao aspecto social da prática discursiva, pode-se observar que as
competências requeridas dos candidatos com relação à comunicação interpessoal
ou intergrupal é fator marcante em todos os anúncios. Esta posição corrobora o
argumento da Sra. Stefi Maerker, ao afirmar que o profissional de secretariado deve
68
Segundo competência descrita no item VI das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) promulgada
pela resolução CNE/CES no. 3 de 23 jun. 2005, o profissional de secretariado executivo deverá ter
“domínio dos recursos de expressão e de comunicação compatíveis com o exercício profissional,
inclusive nos processos de negociação e nas comunicações interpessoais ou intergrupais”.
93
“atuar como interface entre os colaboradores”, posição igualmente defendida em
nossa pesquisa, ao abordar o papel que a representação social exerce no mundo
corporativo.
Mediante tais dados, e cientes de que o percentual de vagas que exige o
idioma inglês para profissionais em início de carreira ultrapassa 70%69, reiteramos a
importância de atividades que propiciem o desenvolvimento do conhecimento
sociolinguístico necessário ao aluno no ambiente corporativo, auxiliando-os em sua
entrada e permanência no mercado de trabalho.
69
Dados relacionados à entrevista concedida pela Sra. Stefi Maerker.
94
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nosso estudo baseia-se em pressupostos teóricos que se fundam nas
relações entre ESP e gênero textual, tendo como metodologia o relato de
experiência de alunos do curso de secretariado executivo trilíngue de uma
universidade privada. Como instrumento de coleta de dados, iniciamos nossa
pesquisa mapeando informações relacionadas a fatores extrínsecos e intrínsecos de
aprendizagem desses alunos, identificando, também, a percepção das necessidades
linguísticas no tocante ao uso da língua inglesa no ambiente de trabalho e os
gêneros com os quais trabalham, por meio dos quais nossa proposta de trabalho é
elaborada.
Concebendo os gêneros como formas culturais e cognitivas de ação social
corporificada por meio da linguagem, buscamos no conceito de representação social
subsídios que auxiliem o aluno a refletir sobre a importância deste conceito para a
construção de sua prática discursiva. Segundo Moscovici (2011), as representações
sociais possibilitam a comunicação entre os membros de uma comunidade em
diferentes situações discursivas, ocasião em que nossas ações são moldadas de
acordo com o contexto em questão, utilizando-se – para tanto – do emprego de
gêneros diversos.
Ao trabalharmos com gêneros dentro da abordagem do ESP, trouxemos, para
nossa pesquisa, as características que dão suporte a esta abordagem. Para tanto,
discorremos sobre a origem e trajetória do ESP, o que nos propiciou, entre vários
aspectos, conhecer as diferentes correntes linguísticas que ajudaram na construção
de sua concepção atual, a qual, seguindo tendências da linguística textual, muda
seu foco da abordagem estruturalista para a funcionalista, aproximando-se do
campo do discurso ao dar ênfase ao enunciado em interação com o meio no qual
está inserido.
Assim sendo, a partir da década de 1980, vemos a utilização de atividades
envolvendo situações discursivas, como confirmação de planos, apresentações,
almoços de negócios etc., altamente recomendadas por pesquisadores para o
ensino-aprendizagem do inglês para fins específicos e, em particular, do inglês para
95
negócios, abordagem utilizada com os alunos do curso de secretariado executivo
trilíngue.
Considerado por pesquisadores como uma linguagem intermediária entre o
inglês geral e o inglês para propósitos específicos, o inglês para negócios
apresenta traços relacionados tanto ao inglês geral (ao envolver situações
discursivas relacionadas a negociações, como reuniões, telefonemas etc.), quanto
ao inglês para propósitos específicos (análise de dados dos alunos, escolha de
material específico da área etc.), atendendo às necessidades acadêmicas ou
profissionais de alunos de áreas específicas.
Deste modo, como elemento facilitador para a escolha e desenvolvimento de
atividades que atendam às necessidades dos alunos de secretariado, temos, como
demonstrado em nosso estudo, as diferenças e semelhanças presentes em ambas
as abordagens (inglês para negócios x inglês regular), pontos muitas vezes não
compreendidos na ocasião da formulação da ementa de um curso.
Outro ponto trazido por nossa proposta de trabalho e igualmente importante
na ocasião da confecção da ementa do curso de inglês para negócios é o
reconhecimento – por parte do docente – das necessidades linguísticas de alunos
sem ou com pouca experiência (pré-serviço) e alunos experientes.
Diante das limitações apresentadas nas instituições, nas quais alunos de
diferentes níveis e com experiências diversas são colocados em um mesmo grupo, o
consenso na escolha de atividades que atendam às necessidades de ambas as
partes (alunos pré-serviço e alunos experientes), bem como a abordagem dos
gêneros dentro dessas atividades – por parte do docente –, é de crucial importância
para o desenvolvimento do curso, uma vez que a diversidade de níveis apresentase, muitas vezes, como obstáculo à obtenção do objetivo estabelecido.
Para minimizar tal problema, apresentamos em nossa proposta de trabalho
sugestões de pesquisadores, entre os quais Ellis e Johnson, que indicam, ao curso
destinado a profissionais de secretariado, atividades que envolvam competências
linguísticas comuns a todos os níveis do profissional, tais como atendimento
telefônico, redação de cartas, memorandos, e-mails, recepção de visitantes etc.
96
Igualmente exposto em nossa pesquisa, sabemos que antes da elaboração
de qualquer instrumento de coleta de dados precisamos ter consciência do que
queremos descobrir, bem como o que faremos com as respostas obtidas.
Assim sendo, tendo o envio e recebimento de e-mails apontado na coleta de
dados de nosso estudo como principal atividade realizada no ambiente corporativo,
e sua redação vista como uma das dificuldades apresentadas pelos alunos para a
execução de tarefas no ambiente de trabalho, buscamos trazer subsídios teóricos
que nos auxiliassem para um melhor entendimento da ocorrência de tais problemas.
Segundo dados de nossa análise, o e-mail encontra-se em um campo em
“estado de transição”, trazendo consigo traços inovadores e, como os demais
gêneros da mídia virtual, apresentando um hibridismo entre “fala” e “escrita” que nos
obriga a rever antigos conceitos presentes nas produções textuais. Entretanto,
devemos ressaltar que, como em todo processo de transição, tanto os aspectos
antigos como os novos devem ser respeitados pelo enunciador.
Cientes de que os gêneros possuem contrapartes preexistentes em outros
gêneros, é importante que o enunciador, na ocasião de sua produção textual, tenha
bom entendimento de ambos os aspectos, a fim de adequar seu enunciado à prática
discursiva em andamento. Tendo a carta, o bilhete e o correio como gêneros
preexistentes, o e-mail, em particular o e-mail corporativo, traz, em seu enunciado,
traços
pertencentes
aos
gêneros
antecessores,
gerando
expectativas
da
comunidade discursiva ao qual o gênero pertence.
Assim sendo, considerando o papel de destaque que o gênero e-mail exerce
na comunicação empresarial, buscamos, mediante a análise do corpus, formado por
produções textuais autênticas de alunos que já utilizam o inglês no mercado de
trabalho, verificar como tal “transição” se dá no ambiente corporativo e como é
compreendida pela comunidade discursiva à qual o gênero pertence. Tendo como
base o corpus, pudemos analisar traços presentes nos enunciados relacionados a
aspectos sociais, relação de poder, legibilidade, hibridismo “fala” x “escrita”, polidez
etc., os quais podem promover êxito ou fracasso à produção discursiva e
consequente condução nas negociações.
97
Outrossim, estando nosso objeto de estudo inserido no ensino superior e,
uma vez que “o ensino superior insere-se no contexto social global que determina e
é determinado também pela ação dos sujeitos que aí atuam” (PIMENTA;
ANASTASIOU, 2008, p. 161), buscamos saber – sob a ótica dos que contratam –
qual conhecimento sociolinguístico é requerido dos profissionais de secretariado em
início de carreira para a execução de tarefas utilizando a língua inglesa e, em
particular, a importância do conhecimento relacionado a gêneros para execução de
tais tarefas.
Conforme observado, no que se refere aos anúncios online, o aspecto social
da prática discursiva é fortemente destacado nas tarefas a serem executadas por
profissionais de secretariado, inclusive em início de carreira, corroborando a posição
defendida em nosso estudo, ao salientarmos a importância do entendimento – por
parte do aluno – de sua prática discursiva e do gênero como fenômeno histórico,
vinculado à vida cultural e social do enunciador.
Desta forma, a presente pesquisa demonstra a existência de uma estrutura de
caráter geral, que proporciona o desenvolvimento produtivo de uma ementa e
atividades voltadas para o ESP, tendo como base os seguintes pontos:
1. diagnóstico das estruturas linguísticas utilizadas pelos alunos (gêneros e
sua estrutura);
2. estabelecimento de estratégias para apresentação desses gêneros como
prática discursiva (áreas de produção textual e leitura);
3. avaliação da produção textual sob o ponto de vista do docente e do aluno.
Como conclusão, verificamos que a estrutura de caráter geral, apresentada
em nossa proposta de trabalho para alunos do ESP na área de secretariado, pode
ser estendida a cursos de outras áreas acadêmicas ou profissionais que exijam
conhecimento específico do inglês.
98
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101
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Quais competências? Tradução de Fátima Murad e Eunice Gruman. 2. ed. Porto
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RAMOS, R. C. G. ESP in Brazil: history, new trends and challenges. 2009.
Disponível em:
<http://www.teachingenglish.org.uk/sites/teacheng/files/ESPBrazil_Ramos>. Acesso
em: 16 jun. 2014.
102
ANEXO A – QUESTIONÁRIO DE PESQUISA
Este questionário tem por objetivo mapear as necessidades linguísticas
específicas de aprendizagem dos alunos do curso de secretariado executivo – 3o/4o
semestres / FMU com relação ao uso
da língua inglesa em seu ambiente de
trabalho, investigando as tarefas comunicativas realizadas diariamente por tais
alunos e eventuais dificuldades apresentadas.
Nome do participante: _____________________________________
Semestre: _______________________________________________
1) Assinale com um “X” sua faixa etária.
( ) 18 a 25 anos
( ) 26 a 30 anos
( ) 31 a 35 anos
( ) 36 a 40 anos
( ) 41 a 50 anos
( ) acima de 51 anos.
2) Que cargo você ocupa na empresa em que trabalha?
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
3) Descreva as tarefas que você realiza utilizando a língua inglesa em seu
ambiente de trabalho. Caso tenha dificuldade na execução de alguma das tarefas,
especifique-a.
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
103
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
4) Você já estudou inglês antes?
( ) Não
( ) Sim. Há quanto tempo? _________/ Onde? ___________________
Qual o tipo de material utilizado em seu curso? ________________
Por que parou? ________________________________________
5) Você estuda inglês atualmente?
( ) Não
( ) Sim. Há quanto tempo? _____________________ / Onde? _______
Qual o tipo de material utilizado em seu curso atual?
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
6) O que você espera de um curso de inglês que atenda às suas
necessidades? Qual o tipo de material gostaria que fosse utilizado?
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
104
7) Com relação às competências necessárias para o aprendizado da língua
inglesa, como você classifica seu nível de inglês:
Bom
Razoável
Fraco
Falar
Ouvir
Ler
Escrever
Obrigada por participar de nossa pesquisa. Sua informação será de grande valia!
105
ANEXO B – ENTREVISTA ONLINE CONCEDIDA PELA SRA. STEFI
MAERKER
(DIRETORA/
PRESIDENTE
DA
SEC
TALENTOS
HUMANOS) EM 08/06/2014
ROTEIRO DE ENTREVISTA PARA
PESQUISA DE DISSERTAÇÃO DE MESTRADO:
necessidades linguísticas com relação à Língua Inglesa para o
profissional de secretariado
1)
Qual o percentual de vagas que exige o idioma inglês para o cargo de
secretário(a), incluindo posição de estagiário(a):
(
) 0%
(
) de 10 a 30%
(
) de 31 a 50%
(
) de 51 a 70%
( x ) mais de 70%
2)
Qual o nível linguístico de inglês requerido para tais profissionais (início
de carreira):
Básico
Intermediário
Avançado
Falar
x
Ouvir
x
Ler
x
Escrever
x
106
3)
Quais as funções executadas por esses profissionais:
favor assinalar com um X ao lado da atividade executada
Atividades
Atendimento telefônico
x
Agendamento de reuniões
x
Agendamento de viagens
x
Conferência
x
Criação de apresentações
x
Envio/recebimento de e-mail
x
Recepção de clientes
x
Reserva de restaurantes/hotel
x
Outros (favor especificar abaixo)
x
Outras atividades:
Dar suporte a todo trabalho administrativo e atuar como interface entre os
colaboradores
Observações:
Obrigada por participar de nossa pesquisa. Sua informação será de grande
valia!
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Artigo Completo - Universidade Cruzeiro do Sul