UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO MESTRADO EM LINGUÍSTICA ESP e gênero textual: uma proposta de trabalho na área de secretariado FÁTIMA REGINA SILVA SANTOS Orientadora: Profa. Dra. Ana Elvira Luciano Gebara Dissertação apresentada ao Mestrado em Linguística, da Universidade Cruzeiro do Sul, como parte dos requisitos para a obtenção do título de Mestre em Linguística. SÃO PAULO 2014 AUTORIZO A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE TRABALHO, POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO, PARA FINS DE ESTUDO E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE. FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL DA UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL S234e Santos, Fátima Regina Silva. ESP e gênero textual: uma proposta de trabalho na área de secretariado / Fátima Regina Silva Santos. -- São Paulo; SP: [s.n], 2014. 106 p. : il. ; 30 cm. Orientadora: Ana Elvira Luciano Gebara. Dissertação (mestrado) - Programa de Pós-Graduação em Linguística, Universidade Cruzeiro do Sul. 1. Linguística textual 2. Gêneros textuais 3. Língua inglesa – Processo ensino-aprendizagem 4. Curso de secretariado executivo trilíngue (SET). I. Gebara, Ana Elvira Luciano. II. Universidade Cruzeiro do Sul. Programa de Pós-Graduação em Linguística. III. Título. CDU: 81’42(043.3) UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO ESP e gênero textual: uma proposta de trabalho na área de secretariado FÁTIMA REGINA SILVA SANTOS Dissertação de mestrado defendida e aprovada pela Banca Examinadora em 18/12/2014. BANCA EXAMINADORA: Profª. Drª. Ana Elvira Luciano Gebara Universidade Cruzeiro do Sul Presidente Profª. Drª. Patrícia Silvestre Leite Di Iório Universidade Cruzeiro do Sul Prof. Dr. José Garcez Ghirardi Fundação Getulio Vargas DEDICATÓRIA Aos meus pais que me educaram com muito carinho e, em especial à minha mãe, que me ensinou a ter forças nos momentos mais difíceis e nunca desistir. AGRADECIMENTO ESPECIAL À Professora Doutora Ana Elvira Luciano Gebara, pela serenidade, dedicação, carinho e competência com que conduziu a orientação deste trabalho, cujo apoio foi de fundamental importância durante toda a trajetória do curso. AGRADECIMENTOS A Deus, Frei Galvão e Nossa Senhora de Fátima, por colocarem pessoas tão especiais em meu caminho. Ao meu amor e companheiro, William, pelo carinho, apoio e incentivo, viabilizando a concretização de meu sonho. A minha família, e, em particular, ao meu filho, Vitor, pelo apoio, carinho e compreensão. A minha coordenadora, Professora Ms. Regina Helena Giannotti, por permitir a realização desta pesquisa. Aos meus alunos e participantes da pesquisa, pela disposição em colaborar. Aos professores Dr. José Garcez Ghirardi e Dra. Patrícia Silvestre Leite Di Iório, pelas orientações e sugestões oferecidas na Banca de Qualificação. Por fim, agradeço a todos os professores do curso de Mestrado em Linguística Aplicada da Universidade Cruzeiro do Sul, pelo universo linguístico descortinado. Yesterday is gone. Tomorrow has not yet come. We have only today. Let us begin. Mother Teresa SANTOS, F. R. S. ESP e gênero textual: uma proposta de trabalho na área de secretariado. 2014. 105 f. Dissertação (Mestrado em Linguística)–Universidade Cruzeiro do Sul, São Paulo, 2014. RESUMO Esta dissertação, cujos pressupostos teóricos se fundam nas relações entre ESP e gênero textual, traz uma proposta de trabalho para o ensino de Língua Inglesa para propósitos específicos baseada na abordagem dos gêneros textuais, a ser desenvolvida no curso de Secretariado Executivo Trilíngue (SET) de uma instituição privada. Para tal, foram estabelecidos os seguintes objetivos: 1) identificar a percepção das necessidades linguísticas dos alunos de secretariado executivo trilíngue com relação ao uso da língua inglesa no ambiente de trabalho; 2) identificar os gêneros com os quais trabalham e elaborar uma proposta de trabalho por meio dos quais pode-se desenvolver o ensino da língua inglesa; e 3) indicar por meio da análise dos textos dos alunos se e quais elementos de nossa proposta auxiliariam na construção de conhecimento sobre o gênero em questão (e-mail corporativo), que podem ser estendidos a outros gêneros quando necessários na atuação desses alunos. A proposta de trabalho se iniciou pelo mapeamento dos dados gerais dos alunos com relação ao ensino-aprendizagem da língua inglesa em um curso de secretariado executivo trilíngue, bem como às tarefas executadas no ambiente de trabalho envolvendo o idioma em questão. Num segundo momento, foram selecionados os subsídios que auxiliam no desenvolvimento de uma estratégia de ensino que contribua para a aquisição sociolinguística necessária para a prática das tarefas requeridas no ambiente de trabalho (utilização dos gêneros da esfera corporativa) e, em particular, da redação de e-mails corporativos em inglês, ação descrita como principal atividade realizada no ambiente de trabalho. Num terceiro momento, direcionamos nossa pesquisa para a análise de redações produzidas pelos alunos no ambiente de trabalho: análise do corpus. Responsável não só por sua própria redação, como também pela redação de terceiros (assessorando o executivo a quem se subordina), é importante refletirmos sobre o papel social que o profissional de secretariado exerce, por meio de sua prática discursiva, no ambiente de negócios. Para essas necessidades e habilidades elaboramos a proposta em análise nesta dissertação. Como fundamentação teórica, de acordo com os pressupostos iniciais, trazemos a abordagem do inglês instrumental (Inglês para Fins Específicos/Inglês Comercial) segundo Dudley-Evans e St. John (1998), Ellis e Johnson (1994) e Hutchinson e Waters (1987); o conceito de gêneros segundo Marcuschi (2010, 2011) e Maingueneau (2001); gêneros emergentes segundo Crystal (2001) e Marcuschi (2002); os conceitos de Enunciação, segundo Maingueneau (1997a, 1997b, 1997c, 2005); e Representação Social, segundo Moscovici (2011); aportes teóricos que apontam caminhos para o esclarecimento de nossos questionamentos. A proposta para o ensino dentro da perspectiva dos gêneros tem como objetivo secundário e, poderíamos afirmar em longo prazo, o desenvolvimento de estratégias que o aluno pode estender a outros gêneros da esfera corporativa quando necessários na sua atuação. Palavras-chave: Inglês para negócios, Profissional de secretariado, Gêneros textuais e ESP, Proposta de trabalho com gêneros da esfera corporativa. SANTOS, F. R. S. ESP and text genre: a working proposal in the secretarial field. 2014. 105 f. Dissertação (Mestrado em Linguística)–Universidade Cruzeiro do Sul, São Paulo, 2014. ABSTRACT This study, supported by literature based on the integration between ESP and the text genre, intends to bring an ESP genre-based working proposal to be implemented in the Trilingual Secretarial course from a private institution. To conduct such research the following goals have been set: 1) to identify the trilingual secretarial students’ linguistic needs concerning the corporate tasks performed by them involving the English language; 2) to identify the corporate genres they deal with in order to design a proposal, through which, the English learning process can be developed; and 3) to demonstrate, through the corpus analysis, if and which elements of our proposal contributed to the students’ knowledge acquisition on such genre, the corporate e-mail; being extended, if necessary, to other corporate genres they deal with. As the starting point of our working proposal, we mapped students’ general data relating to the English teaching-learning process in the Trilingual Secretarial course, as well as tasks performed by them in the corporate environment, which involves the English language. Secondly, we searched for tools to support us to develop a “teaching strategy” which contributes to the sociolinguistic acquisition required to perform such tasks (corporate genres uses) and, particularly, the corporate e-mail English writing, which has been described by students as the main task performed at work. In the third place, we have the analysis of students’ authentic corporate texts: corpus analysis. Not only responsible for his/her own writing, but also for his/her boss’ writing, we also highlight the social role the personal assistant plays in the corporate world. In order to fulfill such needs and abilities, we have developed the working proposal demonstrated in this study. As per the initial assumptions, the research is grounded in the principles of English for Specific Purposes and Business English by Dudley-Evans and St. John (1998), Ellis and Johnson (1994) and Hutchinson and Waters (1987); the Genre Concept by Marcuschi (2010, 2011) and Maingueneau (2001); Digital Genres by Crystal (2001) and Marcuschi (2002); the Enunciation Concept by Maingueneau (1997a, 1997b, 1997c, 2005) and the Social Representation Concept by Moscovici (2011); theoretical foundation that enables us to clarify our questions. The teaching-genre based proposal has as its secondary and long-term goal, the development of strategies that can be extended to other corporate genres, if necessary, in order to improve students’ work performance. Keywords: Business English, Personal assistant, Text genre and ESP, Working proposal based on corporate genres. SUMÁRIO INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 13 CAPÍTULO 1: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA......................................................... 20 1.1 A influência norte-americana no ensino superior brasileiro na década de 1960 e os desdobramentos para a Linguística Aplicada, para a representação social e para o docente ....................................................... 20 1.2 Inglês para Fins Específicos e Inglês para Negócios ................................ 24 1.2.1 Histórico e considerações sobre o ensino-aprendizagem........................ 24 1.2.2 Conceitos presentes nas diferentes correntes linguísticas que contribuíram para a concepção atual do inglês para fins específicos .... 33 1.3 A importância dos gêneros textuais no ensino-aprendizagem do inglês para fins específicos e desenvolvimento da escrita empresarial............. 38 1.3.1 Gênero textual: e-mail .................................................................................. 41 1.3.2 Gênero textual: e-mail corporativo ............................................................. 46 CAPÍTULO 2: DESCRIÇÃO DA PESQUISA E SUA METODOLOGIA .................... 58 2.1 Levantamento geral: contexto; instrumento de coleta de dados; referencial teórico ......................................................................................... 58 2.2 Apresentação e discussão das características gerais dos participantes61 2.2.1 Percepção das necessidades linguísticas dos alunos com relação ao uso da língua inglesa no ambiente de trabalho ................................................ 65 CAPÍTULO 3: TRIANGULAÇÃO DE DADOS .......................................................... 67 3.1 Análise de corpus ......................................................................................... 69 3.2 As habilidades e competências necessárias ao profissional de secretariado sob a perspectiva do mercado de trabalho .......................... 89 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 94 REFERÊNCIAS......................................................................................................... 98 BIBLIOGRAFIA CONSULTADA ............................................................................ 101 ANEXO A QUESTIONÁRIO DE PESQUISA ...................................................... 102 ANEXO B ENTREVISTA ONLINE CONCEDIDA PELA SRA. STEFI MAERKER (DIRETORA/ PRESIDENTE DA SEC TALENTOS HUMANOS) EM 08/06/2014 ......................................................................................... 105 13 INTRODUÇÃO Ao lidarmos com diferentes faixas etárias em institutos de idiomas, deparamonos também com diferentes anseios e objetivos. Por requererem um retorno de aprendizado mais imediato do que o dos jovens, é usual, como professores, termos diante de nós alunos adultos que interrompem e reiniciam o curso de inglês por várias vezes, já que a maioria dos cursos regulares oferecidos para adultos nos institutos de idiomas objetivam o aprendizado do inglês para uso geral (Regular English) e não para propósitos específicos (English for Specific Purposes – ESP). Como docentes no ensino superior, verificamos as lacunas linguísticodiscursivas ocasionadas pela descontinuidade no aprendizado agravar-se, uma vez que a necessidade de um retorno de aprendizado em um prazo menor é crucial para a entrada e/ou permanência dos alunos universitários no mercado de trabalho. Deste modo, é importante, como docentes em cursos de inglês para propósitos específicos, incorporarmos - no dia a dia da docência - os dados linguísticos e sociais da área de atuação profissional do aluno a fim de desenvolvermos atividades que contemplem as necessidades apresentadas em seu ambiente de trabalho, auxiliando-os no desenvolvimento de uma comunicação eficaz. Diante do exposto, e por ter atuado também como secretária bilíngue1 (inglês/português), tais questionamentos motivaram a elaboração desta pesquisa, cujos objetivos são: 1) identificar a percepção das necessidades linguísticas dos alunos de secretariado executivo trilíngue com relação ao uso da língua inglesa no ambiente de trabalho; 2) identificar os gêneros com os quais trabalham e elaborar uma proposta de trabalho por meio da qual seja possível desenvolver o ensino da língua inglesa; 1 Peço licença para a utilização da 1a pessoa para associação do percurso acadêmico, da atividade profissional e da pesquisa. 14 3) indicar por meio da análise dos textos dos alunos se e quais elementos de nossa proposta de trabalho auxiliariam na construção de conhecimento sobre o gênero em questão (e-mail corporativo), em proposta que pode ser estendida a outros gêneros – quando necessários – na atuação desses alunos, habilitando-os não só a desenvolver seu discurso, como também a refletir sobre o papel que sua formação discursiva exerce no mundo dos negócios. Sendo um curso de inglês em uma área específica de atuação (Secretariado Executivo Trilíngue – SET), a nossa proposta de trabalho traz fundamentos teóricos relacionados às abordagens de ensino-aprendizagem do English for Specific Purposes – ESP (termo doravante tratado em nossa pesquisa como inglês para propósitos específicos) e do Business English (termo doravante tratado como inglês para negócios), bem como visões de outros pesquisadores em trabalhos semelhantes na área, tais como o de Pinto (2002), Ramos (2004), Brancher e Santos (2007), Souza (2009), Sanctis e Abib (2010), e Johns (2013). Tendo como principal característica basear suas estratégias de ensino em uma coleta inicial de dados para análise das necessidades linguísticas de aprendizagem do aluno (ELLIS; JOHNSON, 1994), o inglês para fins específicos, ou inglês instrumental2, como ficou conhecido no Brasil, atende às necessidades acadêmicas ou profissionais dos alunos, abrangendo áreas diversas do conhecimento; entre elas, o “inglês para negócios”, abordagem tratada em nossa pesquisa. Segundo Ellis e Johnson, 2 Segundo Celani (2005), no fim da década de 1970, cria-se um centro de excelência, no Brasil, voltado para a formação de professores e ao ensino de Inglês Instrumental. Conforme Ramos (2008), a ocorrência de tal fato deve-se ao grande número de professores universitários matriculados no curso de mestrado da PUC-SP interessados em aprimorar seus conhecimentos na área de inglês instrumental e a visão que tais profissionais tinham a respeito do ensino do Inglês Instrumental no Brasil: uma atividade não tão nobre quanto o ensino de língua e literatura inglesa. Deste modo, de acordo com Ramos (2005), foi nesse contexto que surgiu o Projeto Nacional de Inglês Instrumental em Universidades Brasileiras, coordenado pela professora Maria Antonieta Alba Celani, da PUC-SP, com apoio do Conselho Britânico, tendo por objetivos principais a formação de professores, produção de material didático e ensino de habilidades de leitura para textos acadêmicos (CELANI; RAMOS apud SOUZA, 2009). 15 Business English must be seen in the overall context of English for Specific Purposes (ESP), as it shares the important elements of needs analysis, syllabus design, course design, and materials selection and development 3 which are common to all fields of work in ESP. (1994, p. 3). Vale lembrar que “as with other varieties of ESP, Business English implies the definition of a specific language corpus and emphasis on particular kinds of communication in a specific context.”4 (ELLIS; JOHNSON, 1994, p. 3). Para Ellis e Johnson (1994), o primeiro passo a ser tomado pelo docente com relação às necessidades linguísticas de aprendizagem é o mapeamento dos tipos de tarefas executadas pelos alunos em seu ambiente de trabalho, possibilitando selecionar, assim, material relevante para o desenvolvimento do curso. Deste modo, a fim de coletar os dados para a concretização de seu trabalho, o docente poderá conduzir o mapeamento das necessidades linguísticas dos alunos (Needs Analysis) por meio de diferentes canais de coleta de dados, tais como questionário, entrevista pessoal/por telefone, e-mail etc. É igualmente importante ressaltarmos que a análise de dados contenha “information about factors which could affect the learner’s response to training, motivation, and learning potential”5 (ELLIS; JOHNSON, 1994, p. 72), fatores que, segundo Krashen (1982)6, podem afetar o filtro afetivo dos alunos e, consequentemente, seu desempenho na aprendizagem. Com relação ao desenho de um curso específico para secretárias, Ellis e Johnson (1994) apontam que, como a posição do profissional de secretariado varia não só com relação ao tempo de carreira, mas também à empresa para a qual 3 “O inglês para negócios deve ser visto como uma área pertencente ao contexto do inglês para fins específicos (ESP), uma vez que compartilha elementos importantes comuns a todas as áreas de trabalho do ESP, tais como análise de dados, desenvolvimento de conteúdo, desenvolvimento do curso e seleção e desenvolvimento de material.” (tradução nossa). 4 “Como outras variedades do Inglês para Fins Específicos (ESP), o Inglês para Negócios implica a definição de um corpus com linguagem específica, bem como a ênfase em discursos de contexto específico.” (tradução nossa). 5 “Informações referentes a fatores que possam afetar o desempenho do aluno com relação ao ensino, motivação e processo de aprendizagem.” (tradução nossa). 6 Stephen Krashen, conhecido por sua contribuição para a Linguística Aplicada na área de aprendizagem de línguas estrangeiras, defende a posição de que a aquisição da segunda língua deva ocorrer de maneira natural (Natural Approach), exatamente como ocorre a aquisição da língua materna, estabelecendo 5 condições a serem levadas em consideração no ensino-aprendizagem de línguas estrangeiras; entre as quais, o filtro afetivo – vontade de querer aprender, de seus sentimentos interiores e de atitudes em relação à aula – pode servir como barreira, impedindo que o aluno aceite o input fornecido pelo meio. 16 trabalha, o ideal será o desenho de um curso de inglês para negócios que envolva competências linguísticas comuns a todos os níveis do profissional de secretariado, incluindo situações como atendimento telefônico, redação de cartas, memorandos, e-mails, recepção de visitantes etc. Do mesmo modo, Berwick argumenta que, antes da elaboração de qualquer instrumento de coleta de dados, “precisamos saber exatamente o que queremos descobrir e o que faremos com as respostas” obtidas (apud DUDLEY-EVANS; ST. JOHN, 1998, p. 123). Na esfera do ensino, os dados obtidos tornarão os objetivos mais precisos e, assim, o docente poderá desenvolver um curso que auxilie o aluno com relação às necessidades linguísticas de aprendizagem requeridas para sua atuação no mundo corporativo, conscientizando-o da formação discursiva a ser utilizada com os interlocutores internos e externos (stakeholders7) da empresa. Capaz de refletir sobre sua prática discursiva, o aluno, ao assumir seu papel na construção do conhecimento, terá um melhor entendimento do poder que sua comunicação – seja ela verbal ou não verbal – exerce sobre os coenunciadores, podendo evitar situações embaraçosas e possíveis mal-entendidos, uma vez que “a formação discursiva se define como aquilo que numa formação ideológica dada, isto é, a partir de uma posição dada em uma conjuntura sócio-histórica dada determina o que pode e deve ser dito.” (ORLANDI, 2007, p. 43). Deste modo, ao colocarmos o aluno no centro do aprendizado (ELLIS; JOHNSON, 1994), explorando seus conhecimentos e experiências profissionais, motivamo-lo a trazer, para a sala de aula, tópicos que o auxiliem na construção do conhecimento e na concretização de seus objetivos, tornando, desta maneira, as aulas mais interessantes e o aprendizado mais eficaz. Para uma melhor compreensão das necessidades de aprendizagem de nossos alunos, iniciamos nossa pesquisa com o levantamento das seguintes informações: 7 “Stakeholder inclui aqueles indivíduos, grupos e outras organizações que têm interesse nas ações de uma empresa e que têm habilidade para influenciá-la.” (SAVAGE; NIX; WHITEHEAD; BLAIR apud LYRA; GOMES; JACOVINE, 2009, p. 41). 17 Características gerais dos alunos com relação à idade e cargo ocupado na empresa; Percepção das necessidades linguísticas dos alunos de secretariado executivo trilíngue com relação ao uso da língua inglesa no ambiente de trabalho; Levantamento dos gêneros com os quais trabalham e por meio dos quais seja possível desenvolver o ensino da língua inglesa, bem como possíveis dificuldades em relação a esse ensino. Para o levantamento das informações, tivemos como método de coleta de dados o relato de experiências de alunos do 3o e 4o semestres do curso de secretariado executivo trilíngue (SET) de uma faculdade particular de São Paulo, na qual a professora-pesquisadora leciona. Como canal de coleta de dados, escolhemos a aplicação de um questionário com 7 perguntas, que nos forneceram dados relacionados a fatores extrínsecos e intrínsecos de aprendizagem do aluno, informações importantes para nossa proposta de trabalho. Por ser um curso de secretariado executivo trilíngue (modalidade: bacharelado) regido pelas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), preestabelecidas pelo MEC, devemos canalizar nossos esforços para que os alunos desenvolvam as competências necessárias para o bom desenvolvimento do profissional de secretariado no mundo dos negócios. Conforme competência descrita no item VI das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), promulgada pela resolução CNE/CES no. 3, de 23 de junho de 2005, os profissionais de secretariado executivo deverão ter “domínio dos recursos de expressão e de comunicação compatíveis com o exercício profissional, inclusive nos processos de negociação e nas comunicações interpessoais ou intergrupais”. Porém, como ajudá-los na obtenção e consolidação desse conhecimento? Para a obtenção de respostas aos nossos questionamentos, utilizamos como referencial teórico o conceito de gêneros segundo Marcuschi (2010, 2011) e Maingueneau (2001); gêneros emergentes segundo Crystal (2001) e Marcuschi (2002); e a abordagem do Inglês Instrumental (Inglês para Fins Específicos e Inglês 18 para Negócios) segundo Dudley-Evans e St. John (1998), Ellis e Johnson (1994) e Hutchinson e Waters (1987). Utilizamos, também, os conceitos de Enunciação segundo Maingueneau (1997a, 1997b, 1997c, 2005) e de Representação Social segundo Moscovici (2011), entre outros pesquisadores. Como principais resultados, temos a indicação, por meio da análise dos textos dos alunos, se e quais elementos de nossa proposta de trabalho auxiliariam na construção de conhecimento sobre o gênero em questão (e-mail corporativo), cuja sistematização em proposta de ensino pode ser estendida a outros gêneros quando necessários na atuação desses alunos. Para melhor exposição de ideias, dividimos nossa pesquisa em 3 capítulos, conforme a seguir: Capítulo 1: Fundamentação Teórica → iniciamos o capítulo apresentando um breve histórico sobre a influência norte-americana no ensino superior no Brasil na década de 1960 e seus desdobramentos para a Linguística Aplicada; o conceito de representação social; e o papel do docente para o entendimento, por parte do aluno, de tal conceito. Discorremos, em seguida, sobre a abordagem do inglês para fins específicos, inglês para negócios e inglês regular; e, num terceiro momento, citamos os conceitos presentes nas diferentes correntes linguísticas que contribuíram para a concepção atual do inglês para fins específicos e, em particular, da escrita comercial em inglês. Capítulo 2: Descrição da pesquisa e sua metodologia → iniciamos o capítulo apresentando o contexto, instrumento de coleta de dados e suporte teórico de sustentação da metodologia; a seguir, discutimos as características gerais dos participantes, finalizando com a identificação da percepção das necessidades linguísticas dos alunos de secretariado executivo trilíngue com relação ao uso da língua inglesa no ambiente de trabalho. Capítulo 3: Triangulação de dados: análise de corpus → Mediante a análise de corpus, realizada com produções textuais autênticas do ambiente corporativo, analisamos e discutimos os resultados obtidos em nossa pesquisa, baseados na fundamentação teórica e procedimentos de 19 análise apresentados na metodologia. A fim de complementar e fornecer suporte à triangulação de dados, apresentamos e analisamos, igualmente, os dados relacionados à entrevista e anúncios online, trazendo a visão do mercado de trabalho com relação às competências requeridas de tais profissionais. Nas considerações finais, avaliamos os resultados obtidos apresentando nossas reflexões sobre o papel que a disciplina de inglês desempenha em um curso de secretariado executivo trilíngue. 20 CAPÍTULO 1: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Como nosso objetivo é identificar estratégias para o ensino de inglês para fins específicos em um curso superior de secretariado executivo trilíngue (SET – modalidade bacharelado), discorremos, brevemente, neste primeiro capítulo, acerca da influência norte-americana no ensino superior brasileiro na década de 1960, bem como a importância do instituto Yázigi e da Fundação Ford para a Linguística Aplicada. Ressaltamos, igualmente, a relevância do conceito de representação social para a prática discursiva e o papel do docente em suscitar no aluno o entendimento de tal conceito. A fim de prover conhecimento linguístico aos futuros profissionais de secretariado, temos, na segunda parte do capítulo, os pressupostos teóricos relacionados ao ensino-aprendizagem do inglês para fins específicos e do inglês para negócios, discorrendo sobre sua origem, desenvolvimento, principais características e implicações no mundo corporativo. Analisamos, também, os principais pontos a serem considerados pelo docente no ensino-aprendizagem do inglês para negócios e do inglês regular, finalizando com a contribuição dos conceitos presentes nas diferentes correntes linguísticas para a concepção atual do inglês para fins específicos. Na terceira parte do capítulo, analisamos a importância do conceito de gêneros na abordagem do inglês para fins específicos e sua influência no desenvolvimento da escrita empresarial em inglês. 1.1 A influência norte-americana no ensino superior brasileiro na década de 1960 e os desdobramentos para a Linguística Aplicada, para a representação social e para o docente No final dos anos 60, sob a tutela do regime militar, Brasil e Estados Unidos firmam – por meio da USAID8 – uma série de acordos conhecidos como MECUSAID, os quais – conforme diretrizes da Aliança Para o Progresso – “eram voltados para a cooperação entre os dois países, visando à ‘modernização’ do sistema educacional do Brasil.” (SANTOS, 2005, p. 105, grifo do autor). 8 USAID (U.S. Agency for International Development – Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional). 21 Sob a visão do milagre econômico, este período é fortemente marcado pelo aumento do capital norte-americano e europeu em nosso país, tendo a reforma universitária de 1968 como parte dos planos de desenvolvimento planejados pela Aliança Para o Progresso. Moldado de acordo com o contexto sócio-histórico, o ensino superior recebe influências diversas, dentre as quais a do modelo alemão ou humboldismo, que entra em vigor no Brasil a partir das diretrizes contidas na Lei 5.540/68, na qual [...] a ciência busca unir os professores entre si e aos alunos pela pesquisa, em dois espaços de atuação: os institutos, visando à formação profissional e os centros de pesquisa, que seriam regidos por situações essencialmente opostas ao modelo francês, a saber: autonomia ante o Estado e a sociedade civil [...] (PIMENTA; ANASTASIOU, 2008, p. 151, grifo nosso). Conforme exposto, as diretrizes adotadas na reforma universitária de 1968 privilegiam a troca de conhecimento entre aluno e professor, separando a pesquisa do ensino, ou seja, “deixando à graduação a responsabilidade de formação dos quadros profissionais, destinando à pós-graduação a responsabilidade da pesquisa.” (PIMENTA; ANASTASIOU, 2008, p. 152, grifo nosso). Deste modo, a fim de obter apoio das camadas médias da população, os militares promovem a implantação de uma educação superior voltada à formação dos quadros profissionais, tendo a escola como modelo reprodutor de tais quadros, consoante explanação abaixo. [...] com o acesso ao ensino superior ampliado, as camadas médias acreditavam que estavam garantidas a ascensão e manutenção social, ou seja, através das medidas econômicas do chamado “milagre econômico” o governo militar proporcionou a esta fração da classe trabalhadora o aumento do consumo dos bens materiais e intelectuais, estes últimos presentes nas reformas do ensino. (SANTOS, 2005, p. 105, grifo nosso). Portanto, é neste contexto sócio-histórico, diante do poderio econômico e militar dos Estados Unidos, após a Segunda Guerra Mundial, que surge – na década de 1960 – a necessidade do ensino de inglês a países periféricos, a fim de que tais “acordos de cooperação” sejam concretizados. Fomentado pela Fundação Ford, é criado em 1959, o Centro de Linguística Aplicada em Washington, Estados Unidos, cujo objetivo é 22 auxiliar na solução de problemas com relação ao ensino de línguas, encontrados em vários países em desenvolvimento. Institutos semelhantes foram criados em várias partes do mundo, visando à coleta e à análise de dados sobre o papel e o uso do inglês e de outras línguas, resultando na criação de programas e materiais para o ensino de idiomas, bem como o treinamento de professores para a sua utilização. (COSTA, 2011, p. 20). Segundo Costa (2011), banida pelo Estado dos currículos dos cursos de Letras no final da década de 1930, a Linguística volta a fazer parte da universidade brasileira a partir da Resolução de 1962. Em 1963, é implantado, na Universidade de Brasília (UNB), o primeiro departamento de Linguística do Brasil, e o primeiro programa de pós-graduação em Linguística em nível de mestrado. Porém, a falta de profissionais nas universidades brasileiras resulta na vinda de professores-pesquisadores europeus e americanos, os quais trazem novas concepções e teorias com relação ao estudo da linguagem; entre elas, a Linguística Aplicada, que tem a Linguística como principal suporte (COSTA, 2011). Sob iniciativa do Instituto de Idiomas Yázigi, acontece, “em 1965, no Rio de Janeiro, o 1o Seminário Brasileiro de Linguística, com o patrocínio do Ministério da Educação e Cultura, dentre outras instituições.” (COSTA, 2011, p. 29). Em 1968, a Universidade do Rio de Janeiro, em parceria com o Museu Nacional, cria o curso de pós-graduação em Linguística, tendo uma de suas áreas de concentração voltada para a “Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas”. Em 1969, subsidiada pela Fundação Ford e o instituto de idiomas Yázigi, é fundada a ABRALIN – Associação Brasileira de Linguística. Considerada por muitos autores como uma ciência jovem, a LA [...] tem contribuído com afinco para o desenvolvimento da pesquisa, transgredindo fronteiras, renovando conceitos [...] Esse processo evolutivo foi possível devido à reflexão sobre a língua e a linguagem, em um primeiro momento, por meio do ensino de línguas e, consequentemente, pela demanda social, como processo e produto da atividade histórica do homem no mundo. (COSTA, 2011, p. 90, grifos nossos). Assim, ao refletirmos sobre o papel da linguagem como processo e produto da atividade do homem em diferentes contextos sócio-históricos, deparamo-nos, igualmente, com a relevância que as representações sociais exercem neste processo. 23 O psicólogo social Serge Moscovici entende “representações sociais” como um sistema de valores, ideias e práticas, com uma dupla função: primeiro, estabelecer uma ordem que possibilitará às pessoas orientar-se em seu mundo material e social e controlá-lo; e, em segundo lugar, possibilitar que a comunicação seja possível entre os membros de uma comunidade, fornecendo-lhes um código para nomear e classificar, sem ambiguidade, os vários aspectos de seu mundo e de sua história individual. (MOSCOVICI, 2011, p. 21). Moscovici nos lembra que “as representações podem ser o produto da comunicação, mas também é verdade que, sem a representação, não haveria comunicação.” (2011, p. 22). Como atores sociais, ao interagirmos em situações diversas, moldamos nossas ações e comunicações conforme o referencial situacional, utilizando “um comportamento adequado para cada circunstância, uma fórmula linguística para cada confrontação e a informação apropriada para um contexto determinado.” (MOSCOVICI, 2011, p. 52). Inseridas dentro do contexto sócio-histórico, as representações propiciam o aparecimento de novas formas de comunicação, que demandam dos sujeitos a adequação de seu comportamento às novas situações discursivas. No mundo contemporâneo, no qual as novas formas de comunicação têm como uma das principais características o compartilhamento de informações em larga escala, a clareza e adequação da informação são fatores primordiais para a transmissão eficaz da mensagem. Clay Shirky, professor da Universidade de Nova York e pesquisador das formas de comunicação das mídias sociais, defende que o conhecimento seja “a coisa mais combinável que nós, humanos, temos, mas tirar proveito disso requer condições especiais [...]” (SHIRKY, 2011, p. 142). Deste modo, para que as informações sejam utilizadas de maneira eficaz, resultando em uma produção discursiva clara e objetiva, devemos – como docentes – auxiliar o aluno na construção de conhecimento que o capacite a “trabalhar com as informações classificando-as, analisando-as e contextualizando-as” (MORIN apud PIMENTA, 2002, p. 21), propiciando-lhe meios de recriar sua realidade (MOSCOVICI, 2011), na medida em que é capaz de argumentar racionalmente sobre sua ação. 24 Nesse universo de representações não estáticas – no qual a ação do sujeito tem papel de destaque –, ressaltamos, mais uma vez, a importância do docente como orientador, provendo suporte ao aluno para que identifique qual representação deseja assumir perante as situações discursivas de seu cotidiano, uma vez que é mediante as representações sociais, traduzidas por meio da comunicação, que nos ligamos ou nos distanciamos uns dos outros, construindo ou restringindo nossas oportunidades pessoais e profissionais. Assim sendo, a fim de prover meios para que a prática social seja a mais efetiva possível, e estando nosso objeto de pesquisa inserido no contexto de negócios, buscamos nos aportes teóricos do inglês para fins específicos e inglês para negócios caminhos que auxiliem na construção do conhecimento sociolinguístico requisitado no ambiente de trabalho, tema a ser discutido a seguir. 1.2 Inglês para Fins Específicos e Inglês para Negócios 1.2.1 Histórico e considerações sobre o ensino-aprendizagem Falada por 1,5 bilhão de pessoas no mundo9, língua oficial das Nações Unidas e outras organizações mundiais, a língua inglesa – considerada língua franca10 em muitas regiões – é essencial na comunicação empresarial. Segundo Hutchinson e Waters (1987), tal fato sucedeu-se devido à expansão das atividades científica, tecnológica e econômica ocorridas no mundo após o final da Segunda Guerra Mundial e, mais notadamente, pelo poderio econômico conquistado pelos Estados Unidos no período pós-guerra. Segundo os autores, como resultado dessa expansão, tivemos um aumento do número de pessoas interessadas em estudar a língua inglesa; não pelo prazer ou pelo prestígio de conhecer o idioma, mas pela necessidade de utilizá-la em contextos tecnológicos e/ou comerciais. 9 Fonte: disponível em: <www.davidcrystal.community.librios.com/?fileid>. Acesso em: 29 out. 2014. “A língua franca tem, assim com as demais línguas com que está em relação, a característica de ser a língua de intercurso para os falantes de línguas diferentes”. Fonte: disponível em: <http://www.labeurb.unicamp.br/elb/portugues/leiamais_lingua_franca.html>. Acesso em: 21 jan. 2014. 10 25 Para Hutchinson e Waters, o final da década de 1960 e início da de 1970 é visto como período de grande expansão nas pesquisas relacionadas à utilização da língua inglesa em diferentes áreas profissionais e acadêmicas (1987), posição compartilhada por Ellis e Johnson, os quais afirmam que “[...] in the late 1960s and early 1970s, specialist vocabulary was seen to be what distinguished Business English from General English, and there was a preoccupation with business-related words and terminology.”11 (1994, p. 3). Segundo Ellis e Johnson (1994), os primeiros livros de inglês para negócios (ex.: British Banking de J. Firth) contextualizam o vocabulário-chave por meio de texto ou diálogo de tópico específico, com o ensino-aprendizagem baseado, principalmente, em exercícios de compreensão de texto/vocabulário e de repetição de estruturas selecionadas para uma determinada situação. Desenhado para alunos que deveriam ter, no mínimo, o nível intermediário, o ensino-aprendizagem não levava em consideração nem o conhecimento prévio do aluno, tampouco como tal conhecimento seria colocado em prática. Paralelamente, no campo da Linguística, em 1972, van Dijk defende a ideia de que a linguística textual deveria ultrapassar a análise dos limites das frases, investigando suas interações semânticas com o texto, ou seja, estabelecendo relações entre a sequência de frases e as propriedades do discurso. Avançando em relação aos estudos transfrásticos, em 1978, Charolles publica, na França, seu artigo intitulado Introdução aos problemas de coerência dos textos, defendendo uma proposta que visualizava – igualmente – o texto como um todo, dando, assim, um enfoque mais pragmático aos estudos linguísticos. Uma segunda abordagem, anunciada pelo vídeo e livro da BBC/OUP English for Business (1972), enfatiza o ensino das quatro macro habilidades comunicativas12 no contexto de negócios, impulsionando, segundo Ellis e Johnson (1994), o desenvolvimento do ensino do inglês para negócios. 11 “[...] No final da década de 1960 e início da década de 1970, o vocabulário específico era o que distinguia o Inglês para Negócios do Inglês Regular, havendo uma preocupação com palavras e termos relacionados aos negócios.” (tradução nossa). 12 Macro Habilidades: escrita, leitura, fala e compreensão auditiva. 26 Deste modo, seguindo as tendências da linguística textual (mudança da abordagem estruturalista para a funcionalista), a partir da década de 1980 o ensinoaprendizagem do inglês para negócios focaliza a linguagem em situações interativas, tais como expressar opiniões, concordar/discordar de certos assuntos, recomendar etc. O livro Functioning in Business (1987), de Knowles e Bailey, é apontado por Ellis e Johnson (1994) como exemplo da abordagem funcionalista, no qual o vocabulário-chave para situações discursivas, como confirmação de planos, apresentações, almoços de negócios etc., é apresentado em áudio e colocado em prática mediante encenações (role-play situations) das situações discursivas previamente estudadas. Tal mudança também é discutida por Hutchinson e Waters como processo de desenvolvimento no ensino do inglês para fins específicos, que passa do estágio inicial, no qual a linguagem era analisada apenas pela perspectiva da sentença, para um segundo estágio – um nível acima –, em que o inglês para fins específicos aproxima-se do campo do discurso ou retórica, no qual “[...] attention shifted to understanding how sentences were combined in discourse to produce meaning.”13 (1987, p. 11). Na década de 1980, vemos também o desenvolvimento de programas de treinamento para empresas que propiciam aos funcionários a oportunidade de frequentar cursos para o aprimoramento de habilidades requeridas no contexto corporativo, como técnicas de apresentação, negociação etc., influenciando, segundo Ellis e Johnson (1994), o desenvolvimento do ensino-aprendizagem do inglês para negócios, no qual tais práticas são igualmente incorporadas como ferramentas de aprendizagem. Deste modo, consoante Ellis e Johnson, “since the late 1980s, Business English teaching has drawn on aspects of all the previous approaches, but also places much more emphasis on the need to develop the skills for using the language 13 “O foco mudou para o entendimento de como as sentenças combinavam-se no discurso a fim de produzir sentido.” (tradução nossa). 27 learned”14 (1994, p. 4), posição compartilhada por Dudley-Evans e St. John (1998), para os quais existe atualmente uma tendência a se aceitar um ecletismo entre abordagens e uma liberdade para se mesclarem vários materiais didáticos e metodologias diferentes. Com relação à sua concepção, Hutchinson e Waters (1987) classificam o inglês para negócios (definido pelos pesquisadores como English for Business and Economics – EBE) como uma área do conhecimento existente dentro do contexto do inglês para fins específicos (ESP), devendo ser compreendido como uma abordagem e não um produto, uma vez que as decisões relacionadas ao conteúdo e método são baseadas nas necessidades de aprendizagem do aluno. Para Dudley-Evans e St. John (1998), o inglês para negócios, embora visto por alguns pesquisadores como um ramo do EOP15 (Inglês para Propósitos Ocupacionais) por apresentar tanto características do inglês geral como do inglês específico, envolve situações discursivas relacionadas a negociações, devendo ser classificado como inglês para propósitos ocupacionais (área existente dentro do campo do inglês para fins específicos). Entretanto, mais do que classificá-lo em uma determinada área, DudleyEvans e St. John (1998) defendem a posição do inglês para negócios como uma linguagem intermediária entre o inglês geral e o inglês para propósitos específicos, posição compartilhada por Picket, para o qual o inglês para negócios é visto como “a mediating language between the technicalities of particular businesses... and the language of the general public.”16 (apud DUDLEY-EVANS; ST. JOHN, 1998, p. 8). Definido como campo dentro do inglês para fins específicos, Ellis e Johnson (1994) argumentam que o curso de inglês para negócios assemelha-se a outras áreas do curso de inglês para fins específicos, por compartilhar pontos comuns, como a análise de dados, escolha/desenvolvimento do conteúdo do curso e 14 “Desde o final da década de 1980, o ensino do inglês para negócios utiliza todas as abordagens anteriores, enfatizando – entretanto – o desenvolvimento das habilidades necessárias para a prática do vocabulário apreendido.” (tradução nossa). 15 O termo EOP (English for Occupational Purposes) refere-se ao inglês para propósitos profissionais, cobrindo áreas como administração, medicina, direito e negócios (DUDLEY-EVANS; ST. JOHN, 1998, p. 7). 16 “[...] uma linguagem mediadora das tecnicidades específicas do inglês para negócios... e da linguagem do público geral.” (tradução nossa). 28 seleção/desenvolvimento do material. Porém, os autores argumentam que o inglês para negócios difere de outras áreas do curso de inglês para fins específicos por apresentar conteúdo pertinente às habilidades comunicativas necessárias para situações de negócios, ponto de grande relevância no mundo corporativo e no ensino-aprendizagem do inglês para negócios, conforme exposto abaixo. The recognition of the need for businesspeople to be proficient in business communication skills has had a major impact on Business English teaching. Although it is not the designated brief of the Business English teacher to train businesspeople in behavioural techniques (for example, presentation or negotiation), it is hard to ignore the influence that good behavioural skills 17 have on successful communication. (ELLIS; JOHNSON, 1994, p. 5). Outro ponto importante, segundo Ellis e Johnson (1994), a ser considerado no ensino-aprendizagem do inglês para negócios é a distinção entre alunos com pouca ou nenhuma experiência (pré-serviço) e alunos experientes. Segundo os pesquisadores, alunos de universidades ou faculdades ganham experiência pelos livros, isto é, uma experiência mais teórica do que prática, não tendo, muitas vezes, consciência das necessidades linguísticas e comportamentais necessárias para as situações discursivas no contexto de negócios. Tais argumentos corroboram posição expressa por pesquisadores em matéria de Ruth Costas, da BBC-Brasil, de 09 de outubro de 2013, seção “mercado de trabalho”, na qual “a decepção do mercado com o que já está sendo chamado de ‘geração do diploma’ é confirmada por especialistas, organizações empresariais e consultores de recursos humanos”. Essa posição é compartilhada pelo sociólogo e especialista em relações do trabalho José Pastore, que diz que “os empresários não querem canudo. Querem capacidade de dar respostas e de apreender coisas novas.” (COSTAS, 2013, s. p.). A fim de prover pré-conhecimento do mundo corporativo, Ellis e Johnson (1994) propõem que o docente propicie aos alunos com pouca ou nenhuma experiência (pré-serviço) oportunidades que envolvam situações em contextos que englobem (1) leitura de textos ou acompanhamento de palestras em inglês e (2) 17 “O reconhecimento de que profissionais do mundo corporativo devam ser proficientes nas habilidades de comunicação foi ponto crucial no ensino do inglês comercial. Embora não seja papel do professor treinar tais profissionais referente a técnicas (por exemplo, apresentação ou negociação), é difícil negar a influência que a boa etiqueta empresarial exerce em uma comunicação eficaz.” (tradução nossa). 29 participação em seminários ou escrita de artigos em inglês, com foco no aprendizado que os prepare para a futura vida profissional. Como atividades relevantes para o desenvolvimento do aprendizado, Ellis e Johnson (1994) sugerem, também, a escrita de correspondência comercial e desenvolvimento de situações, como participação em reuniões, interações sociais etc. Cientes de que perfis diferentes demandam atividades diferentes, Ellis e Johnson (1994) lembram que, por terem a vivência prática de situações discursivas no ambiente de trabalho, os alunos experientes percebem suas deficiências em termos de fluência e nível de proficiência na comunicação, necessitando de atividades que os auxiliem no aprimoramento dessas competências. Os pesquisadores Ellis e Johnson expõem, ainda, outra importante questão no ensino do inglês para negócios, problemática que também nos inquietou e nos levou à busca de respostas para as necessidades de aprendizagem dos alunos: a “funcionalidade” na linguagem. Os autores defendem que “the practical use of the language will be more important than theoretical knowledge about the language.”18 (ELLIS; JOHNSON, 1994, p. 5). Entretanto, é importante salientar que o “uso prático” da linguagem, descrito acima pelos autores, não deve ser entendido como uma tarefa puramente mecânica, mas como uma atividade discursiva adequada a um objetivo, na qual o enunciado ou discurso não é um ato isolado e solitário, nem na oralidade nem na escrita. O discurso diz respeito aos usos coletivos da língua que são sempre institucionalizados, i.e., legitimados por alguma instância da atividade humana socialmente organizada. (MARCUSCHI, 2011, p. 20). Consoante Ellis e Johnson, grande parte da linguagem transacional utilizada no mundo corporativo é objetiva, devendo ser conduzida de maneira clara e concisa, ou seja, “getting what you want and persuading others to agree with the course of action you propose.”19 (1994, p. 8). Porém, deve-se ressaltar que, para que haja a persuasão, é necessário que o aluno entenda seu papel como sujeito discursivo e 18 “o uso prático da língua será mais importante do que o conhecimento teórico sobre a língua.” (tradução nossa). 19 “conseguindo o que você quer e persuadindo outros a concordarem com o curso da ação que você propôs.” (tradução nossa). 30 seu discurso como prática discursiva a ser construída de maneira a atingir o objetivo proposto. Para tanto, para que possamos ajudar o aluno na construção do conhecimento necessário para o desenvolvimento da prática discursiva de modo a atingir o objetivo proposto, we may thus distinguish between studying the language and discourse of, for example, medicine for academic purposes, which is designed for medical students, and for studying for occupational (professional) 20 purposes, which is designed for practising doctors. (DUDLEY-EVANS; ST. JOHN, 1998, p. 7, grifos nossos). Deste modo, com a definição clara dos objetivos a serem atingidos, isto é, as habilidades/linguagem/discurso específicos a serem trabalhados (DUDLEY-EVANS; ST. JOHN, 1998), otimizamos o processo de ensino, tendo maior chance de êxito na aprendizagem. Portanto, diante dos argumentos expostos e cientes de que o inglês para negócios engloba tanto termos específicos como termos gerais da língua inglesa, expomos, abaixo, alguns pontos relevantes a serem considerados pelo docente no desenvolvimento de cursos destinados a propósitos comerciais. Preparação para o curso Análise de dados Análise de nível Inglês para Negócios Avaliar os dados dos alunos e definir o nível de linguagem necessária para a execução das tarefas a serem desempenhadas no trabalho. Testes escritos ou entrevistas. Ementa Cursos já estabelecidos terão objetivos e ementas já determinados. Cursos especiais necessitam uma ementa especial. Objetivos do curso Objetivos do curso definidos conforme resultados obtidos mediante a análise de dados. Os objetivos devem ser trabalhados em: (1) termos de tarefas/habilidades necessárias ao aluno para a execução das tarefas relacionadas ao trabalho, ou (2) 20 Inglês Regular (Geral) Avaliar as necessidades linguísticas dos alunos. Testes de colocação ou entrevistas para agrupar alunos de nível semelhante. Geralmente determinada pela escolha do livro a ser seguido e realização de teste ao final do curso. A ementa engloba vocabulário e gêneros diversos. Cursos preparatórios para exames terão objetivos preestabelecidos (ex.: CAE). Cursos individuais: as pessoas terão objetivos diferentes, tais como interesse na cultura, desejo de viajar ou morar no exterior, “Devemos distinguir entre estudar a linguagem e discurso de, por exemplo, medicina para propósitos acadêmicos, a qual é desenhada para estudantes, e estudar a linguagem para propósitos ocupacionais (profissionais), desenhada para a prática da medicina.” (tradução nossa). 31 Preparação para o curso Duração Expectativas dos alunos Material Metodologia Avaliação do desenvolvimento Inglês para Negócios em termos de desenvolvimento de linguagem necessária ao aluno, tais como estruturas de comando, pronúncia etc. Em faculdades e universidades, a duração do curso é preestabelecida. Os alunos tendem a ter objetivos bem definidos com foco no resultado. Os profissionais têm alta expectativa com relação à eficiência, qualidade e profissionalismo. Material impresso, de áudio e vídeo são encontrados à disposição do professor. Porém, podem não atender às expectativas dos alunos. É necessário o desenvolvimento de material próprio para o curso específico. Muitas atividades são semelhantes às realizadas no curso de inglês regular, como as relacionadas ao ensino de estruturas gramaticais, vocabulário e socialização. As dramatizações (role-play) de situações estudadas são semelhantes, diferindo apenas com relação ao contexto e vocabulário. O inglês comercial também emprega ideias adotadas no treinamento de pessoal em empresas, como tarefas de resolução de problemas, tomadas de decisão e trabalho em equipe. Aos alunos com experiência profissional é dada a oportunidade de compartilhar sua vivência com os demais. Em faculdades e universidades, a avaliação formal é feita mediante testes orais e escritos. Em uma avaliação mais informal, enfatizase o progresso na comunicação, isto é, o locutor/escritor expressou-se de maneira eficaz o suficiente, atingindo o objetivo do discurso na situação-alvo? Inglês Regular (Geral) necessidade de melhorar as habilidades linguísticas para fins profissionais. Fora do sistema educacional a duração do curso pode variar. Os alunos querem progredir, porém – geralmente – são menos propensos a traçarem metas específicas para serem cumpridas em um prazo determinado. Existe à disposição uma grande variedade de material didático para o ensino do Inglês Regular (em todos os níveis). Na maioria das vezes, não há o desenvolvimento de material próprio por parte do professor. Existe uma grande variedade de técnicas a serem utilizadas nas aulas de inglês regular. Muitas atividades são desenvolvidas a fim de tornar a aula mais “prazerosa”, assegurando a motivação e interesse. As avaliações incluem teste escrito (relacionado à adequação gramatical e de vocabulário) e teste oral (avaliação da fluência, pronúncia e habilidade comunicativa). Com relação ao teste mais informal (ex.: o desempenho em sala de aula), avalia-se o aluno com relação ao conhecimento gramatical, apropriação de vocabulário e adequação da pronúncia. Fonte: Quadro adaptado a partir de Ellis e Johnson (1994, p. 10). 32 Conforme explanação contida no quadro acima, observarmos que, apesar de apresentar vários pontos em comum com o curso de inglês regular, tais como avaliação das necessidades linguísticas, avaliação do desenvolvimento etc., o curso de inglês para propósitos específicos tem, na análise de dados da área específica de atuação do aluno, o principal subsídio para o desenvolvimento de uma ementa que motive os alunos na obtenção dos objetivos propostos. Segundo afirmam Ellis e Johnson, “success in learning can only come about if the learner is motivated. Making the course relevant to job or study needs is usually a good way to motivate the learner.”21 (1994, p. 71). Deste modo, para que o desenho do curso seja relevante e para um melhor entendimento sobre as diferenças e semelhanças existentes entre o curso de inglês regular e inglês para negócios, Dudley-Evans e St. John (1998) dividem o campo do “inglês para negócios” (Business English) em duas subcategorias: A) inglês para propósitos gerais de negócios (English for General Business Purposes – EGBP); B) inglês para propósitos específicos de negócios (English for Specific Business Purposes – ESBP). Dudley-Evans e St. John (1998) argumentam que os cursos de inglês para propósitos gerais de negócios (EGBP) são – em sua grande maioria – desenvolvidos para alunos sem ou com pouca experiência na área profissional em questão, tendo seu desenho semelhante ao dos cursos regulares de inglês para estrangeiros (English as a Foreign Language – EFL), porém com material direcionado ao contexto corporativo. Com relação aos cursos de inglês para propósitos específicos de negócios (ESBP), os pesquisadores os definem como cursos desenvolvidos para alunos com experiência corporativa na área em questão, trazendo, desta maneira, as habilidades comportamentais necessárias para o aprendizado da língua nas situações discursivas a serem estudadas. Com relação ao material a ser 21 “O sucesso no aprendizado virá somente se o aluno estiver motivado. Tornar o curso relevante, atendendo às necessidades profissionais ou acadêmicas, é – na maioria das vezes – uma boa maneira de se motivar o aluno.” (tradução nossa). 33 desenvolvido para o curso de inglês para propósitos específicos de negócios, os autores defendem a posição de uma escolha cuidadosa do material, focalizando uma ou duas habilidades linguísticas em situações discursivas específicas do contexto corporativo. Assim sendo, diante do exposto, Dudley-Evans e St. John (1998) defendem a posição de que, nas aulas do curso de Business English cujo contexto seja o geral, a interação entre professor e aluno seja semelhante à das aulas do curso de inglês regular. Porém, nas aulas do curso de Business English cujo contexto seja mais específico, o professor deve agir como um consultor de línguas, experienciando status semelhante ao dos alunos com expertise no assunto corporativo em pauta. Ao promover, portanto, um ambiente propício para o desenvolvimento das competências necessárias à prática discursiva no ambiente de trabalho, o docente terá mais chances de êxito no ensino-aprendizagem, motivando o aluno na busca da construção de seu conhecimento. 1.2.2 Conceitos presentes nas diferentes correntes linguísticas que contribuíram para a concepção atual do inglês para fins específicos Consoante Hutchinson e Waters (1987), o inglês para fins específicos incorporou ideias advindas de sucessivas correntes linguísticas, as quais influenciaram na construção da concepção atual dessa abordagem. Abaixo, discorremos sobre a trajetória das correntes linguísticas e respectivos conceitos que, segundo os autores, contribuíram para o desenvolvimento do ensino-aprendizagem do inglês para fins específicos nos moldes atuais. A) Linguística estrutural: Com o advento do estruturalismo na década de 1930, associado a linguistas como Bloonfield, a linguística estrutural ganha grande influência no ensino de línguas no período pós-guerra (HUTCHINSON; WATERS, 1987). 34 Conhecida também como “slot and filter”22, a linguística estrutural tem sua gramática descrita em termos de estruturas sintagmáticas que carregam proposições fundamentais (afirmação, interrogação etc.) e de noções (tempo, número etc.). Segundo Hutchinson e Waters (1987), ao modificarmos as palavras dentro desses “enquadramentos estruturais”, obtemos sentenças com diferentes significados, consoante quadro de substituição, exemplificado abaixo, utilizado como meio de ensino de diferentes estruturas. Some foods can cause death may result in allergies asphyxia Fonte: Quadro retirado de Hutchinson e Waters (1987, p. 25). Hutchinson e Waters (1987) avaliam também a contribuição dos pesquisadores Ewer e Latorre como fator de fundamental importância para o estruturalismo no ESP, ao utilizarem tais preceitos como base para a ementa de seu curso em inglês científico básico (Basic Scientific English). B) Gramática Gerativa Transformacional: A visão estrutural da língua como uma coleção de estruturas sintagmáticas predominou até a publicação, em 1957, de “Syntactic Structures”, por Noam Chomsky. Chomsky (apud HUTCHINSON; WATERS, 1987) argumentava que a descrição estrutural da sentença – por ser uma mera descrição da estrutura – era muito superficial, não explicando as relações de significado existentes no enunciado, conforme exemplo a seguir: John is easy to please. John is eager to please. 22 Modelo conhecido como “ranhura e filtro”. 35 De acordo com a descrição estrutural, tais sentenças teriam a mesma relação entre as palavras, o que não ocorre quando analisadas, tendo-se como referência o significado do enunciado. Chomsky (apud HUTCHINSON; WATERS, 1987) conclui que tais problemas decorrem da análise e descrição da língua como um fenômeno isolado da produção humana e não como reflexo dessa produção. O pesquisador descreve, dessa forma, a construção de significado no enunciado em dois níveis: um mais interiorizado, ligado à organização dos pensamentos, e outro de superfície, no qual os pensamentos são expressos por intermédio da sintaxe da língua. Desta maneira, segundo o linguista americano, a gramática de uma língua não se reduz a estruturas de superfície, e sim a princípios e parâmetros que possibilitam o enunciador criar estruturas de superfície de modo a comunicar seus pensamentos, ou seja, uma teoria que permite verificarmos o funcionamento linguístico, daí o nome gerativa. O trabalho de Chomsky restabelece, primeiramente, a ideia de que a língua é governada por regras. Em segundo lugar, ele amplia a visão da língua como significado-forma. Porém, segundo Hutchinson e Waters, o legado mais importante de Chomsky para o ensino-aprendizagem do inglês para fins específicos é o da distinção entre performance ou desempenho (estrutura de superfície: o fazer) e competência (saber interiorizado: domínio de certos princípios), isto é, “what people do with the language (performance) is important, but of equal, if not greater importance is discovering the competence that enables them to do it”23 (1987, p. 27), ressaltando, com esse conceito, a relação entre produção textual e propósito comunicativo. C) Variação Linguística e Análise-Registro: A análise de registro tinha como foco a gramática e vocabulário do inglês técnico e científico. Conforme Hutchinson e Waters (1987), o conceito de variação linguística deu origem a um tipo de inglês para fins específicos baseado na análise de registro. Em outras palavras, se a linguagem varia de acordo com o contexto, é possível identificar o tipo de vocabulário associado a um contexto específico, tanto 23 “o que as pessoas fazem com a língua (desempenho) é importante, mas de igual importância – se não maior – é desvendar a competência que possibilita tal desempenho.” (tradução nossa). 36 no que se refere a uma determinada área do conhecimento (Inglês Jurídico, Inglês para Negócios etc.), como à área de uso (manuais técnicos, textos acadêmicos, reuniões de negócios etc.). D) Gramática Funcional/Nocional: Consoante Hutchinson e Waters (1987) as funções estão relacionadas com o comportamento social e representam a intenção do enunciador, tais como descrição, conselho, ameaça etc., isto é, os atos comunicativos existentes na linguagem. Noção24, por outro lado, reflete a maneira como o ser humano pensa; é representada por categorias mediante as quais a mente e, por consequência, a linguagem divide a realidade em elementos, tais como o tempo, frequência, duração etc. Igualmente, segundo Hutchinson e Waters (1987), a visão funcional da linguagem começou a ter influência no ensino de línguas na década de 1970, principalmente com relação aos esforços do Conselho Europeu em padronizar conteúdos relacionados ao ensino de diferentes línguas. Tal padronização tornavase difícil, tendo como base a estrutura gramatical. No entanto, caso a base fosse funcional ou nocional, tal padronização/equivalência poderia ser alcançada, uma vez que noções e funções representam categorias do pensamento humano e comportamento social, não sofrendo grandes variações entre as línguas. Deste modo, vemos na década de 1970 a migração de conteúdos baseados em critérios estruturais, para conteúdos baseados em critérios nocionais ou funcionais. Este movimento foi de grande importância no desenvolvimento do ensino-aprendizagem do inglês para fins específicos, uma vez que tal critério baseiase na língua em uso e não somente na forma. Entretanto, o conteúdo funcional tem seus próprios obstáculos. Segundo os autores, o principal problema é o fato de ele ser visto, na maioria das vezes, como substituto do conteúdo estrutural. Hutchinson e Waters (1987) defendem a ideia de que os dois conteúdos devem ser vistos como complementares, um dando suporte ao outro, posição igualmente defendida por Brumfit (apud HUTCHINSON e 24 Notions, on the other hand [...]. Termo utilizado pelos pesquisadores. 37 WATERS, 1987) ao desenvolver o conteúdo a ser ensinado utilizando uma escada central com estruturas entrelaçadas a uma cobra em espiral (snakes and ladders) e funções correlatas. E) Análise do Discurso (retórica): Segundo Hutchinson e Waters (1987), a Análise do Discurso (retórica) teve grande influência no desenvolvimento do ensino-aprendizagem do inglês para fins específicos, já que a linguagem não era mais vista só pela perspectiva das sentenças, mas como tais sentenças eram combinadas a fim de se produzir significado. Segundo os autores, essa foi uma evolução natural da visão funcional/nocional para uma visão de linguagem na qual havia um sentido além das simples palavras das sentenças, demonstrando que o contexto era fator igualmente importante na criação de significado. Como exemplo, Hutchinson e Waters (1987) utilizam a frase it’s raining (está chovendo) em três diferentes contextos, conforme descrição abaixo: Can I go out to play? 25 It’s raining. Have you cut the grass yet? 26 It’s raining. I think I’ll go out for a walk. 27 It’s raining. Hutchinson e Waters (1987) afirmam que, em todos os casos, tanto a proposição (afirmação), quanto a noção (tempo verbal, neutralidade) são as mesmas. Entretanto, as sentenças atendem a três propósitos comunicativos diferentes, de acordo com seus respectivos contextos. Na primeira sentença, teríamos um pai falando com o filho (função: pedido de permissão); na segunda, a esposa falando com o marido (função: dar desculpas); e na terceira, uma conversa entre amigos (função: aconselhamento). Hutchinson e Waters (1987) afirmam que tais mudanças ocorrem devido ao contexto sociolinguístico (grau de relacionamento entre os participantes e motivo do 25 Posso sair para jogar? Está chovendo. (tradução nossa). Já cortou a grama? Está chovendo. (tradução nossa). 27 Acho que vou sair para andar. Está chovendo. (tradução nossa). 26 38 diálogo) e a posição da elocução no discurso (a elocução ganha sentido em virtude das palavras posicionadas anteriormente e posteriormente a ela). Assim, seguindo a tendência da retórica do discurso, “another important characteristic of the 1990 – 2011 period is the dominance of genre in ESP research.”28 (JOHNS, 2013, p. 14). Cientes de que o contexto é fator primordial na construção de sentidos, o estudo de gêneros na abordagem do inglês para fins específicos é de grande importância, uma vez que, “ao dominarmos um gênero textual, não dominamos uma forma linguística e sim uma forma de realizar linguisticamente objetivos em situações sociais particulares” (MARCUSCHI, 2010, p. 31), situação vivida pelo enunciador que utiliza o inglês para fins específicos como ferramenta de comunicação no ambiente de negócios. E é sob a visão do uso do inglês para negócios como prática sociodiscursiva que analisamos, a seguir, a importância dos gêneros textuais no ensinoaprendizagem do inglês para fins específicos e seus desdobramentos para o desenvolvimento da escrita e, em particular, da escrita empresarial em inglês. 1.3 A importância dos gêneros textuais no ensino-aprendizagem do inglês para fins específicos e desenvolvimento da escrita empresarial Em nossa pesquisa, vemos a produção textual como uma atividade interativa, social e cognitiva, na qual “o texto, ao se constituir como evento comunicativo, materializa-se como processo, uma vez que é atividade mediada pelos atores sociais que interagem com ele.” (DIONÍSIO; MARCUSCHI, 2007, p. 125). Conforme Bazerman (apud MARCUSCHI, 2011), embora concebidos como “rotinas sociais de nosso dia a dia” delimitando nossas escolhas linguísticas, isto é, o que Amy Devitt (apud Marcuschi, 2011) descreve como “linguagem estândar”, os gêneros devem ser vistos como entidades “dinâmicas” que atuam como formas de expressão cultural e cognitiva de seu tempo; ou seja, o que Bhatia define como uma “seleção tática de ferramentas adequadas a algum objetivo” (apud MARCUSCHI, 2011, p. 20), submetida a um critério de êxito. 28 “Outra importante característica do período de 1990 – 2011 é o domínio dos gêneros nas pesquisas relacionadas ao inglês para fins específicos.” (tradução nossa). 39 Como forma de expressão de seu tempo, a noção tradicional de gênero, inicialmente ligada à literatura, foi recentemente estendida a todos os tipos de produções verbais, conforme Maingueneau (2001), posição igualmente defendida por Marcuschi, para o qual a expressão gênero sempre esteve, na tradição ocidental, especialmente ligada aos gêneros literários, mas já não é mais assim, como lembra Swales (1990:33), ao dizer que “hoje, gênero é facilmente usado para referir uma categoria distintiva de discurso de qualquer tipo, falado ou escrito, com ou sem aspirações literárias.” (2011, p. 31). Assim, incorporando a noção de gêneros a discursos não literários, o estudo sobre gêneros no inglês para fins específicos tem seu início com o trabalho pioneiro de Swales (apud DUDLEY-EVANS; ST. JOHN, 1998), referente à análise de “introduções” de artigos acadêmicos. O autor verifica uma regularidade de “movimentos” e “passos” em todas as introduções analisadas, classificando como “movimento” a unidade que se relaciona ao propósito do enunciador e ao conteúdo a ser transmitido, o qual se subdivide em “passos”, provendo o enunciador com uma perspectiva detalhada de opções existentes para o estabelecimento dos “movimentos”. Seguindo a tendência de estudos sobre gêneros não literários, Bhatia (apud DUDLEY-EVANS; ST. JOHN, 1998) demonstra que a pesquisa conduzida por Swales na área acadêmica pode ser também aplicada à área do inglês para propósitos ocupacionais (English for Occupational Purposes – EOP), desenvolvendo estudos relacionados a documentos jurídicos e cartas comerciais, sendo, este último, objeto de interesse de nossa pesquisa. Bhatia (apud DUDLEY-EVANS; ST. JOHN, 1998) analisa dois tipos de cartas, classificadas, pelo autor, como pertencentes ao “gênero promocional”: a carta promocional de vendas e a carta de apresentação para uma vaga de emprego. O pesquisador verifica que ambas apresentam o mesmo padrão de “movimentos”, conforme exposto a seguir. 40 Carta Promocional de Carta de Apresentação Vendas (vaga de emprego) Movimento 1 Estabelecer contato Estabelecer contato Movimento 2 Apresentar a oferta Apresentar a candidatura Apresentar vantagens Movimento 3 Apresentar vantagens Anexar documentos Movimento 4 Anexar documentos Movimento 5 Solicitar resposta Utilizar táticas de persuasão Movimento 6 Utilizar táticas de persuasão Solicitar resposta Movimento 7 Fechamento cordial Fechamento cordial Fonte: Quadro retirado de Dudley-Evans e St. John (1998, p. 91). Embora tal análise tenha como foco a superfície do texto, não fazendo menção ao contexto e outras influências externas, Bhatia a vê como um instrumento útil ao docente na preparação de materiais relacionados à escrita e leitura, uma vez que tais estratégias de textualização servem como elo entre os “movimentos” resultantes do enunciado e as características da comunidade discursiva ao qual o gênero pertence. Para Swales (apud DUDLEY-EVANS; ST. JOHN, 1998), a comunidade discursiva apresenta mecanismos de intercomunicação entre seus membros, utilizando-se de um ou mais gêneros para o alcance de seu objetivo. Segundo Swales, a maneira pela qual o discurso é produzido é influenciada pelas expectativas geradas pelo coenunciador em relação ao gênero discursivo em questão, ou seja, o que Maingueneau descreve como competência genérica partilhada por membros de uma coletividade a fim de assegurar a comunicação verbal (2001). Segundo Maingueneau, “todo gênero do discurso implica um certo lugar e um certo momento. Não se trata de coerções externas, mas de algo constitutivo” (2001, p. 66, grifo nosso) dentro de um contexto sócio-histórico. Com a evolução tecnológica e a criação da Internet, vemos, no mundo contemporâneo, o surgimento de novos gêneros digitais da mídia virtual; entre os quais, o e-mail, cujas características “possibilitam a redefinição de alguns aspectos centrais na 41 observação da linguagem em uso, como, por exemplo, a relação entre a oralidade e a escrita, desfazendo ainda mais suas fronteiras.” (MARCUSCHI, 2010, p. 21). Consoante Havelock (apud MARCUSCHI, 2010), essa tensão oralidade x escrita – de caráter histórico – pode manifestar-se tanto em favor de uma oralidade resgatada, ou em favor de uma sofisticada cultura escrita, dependendo do objetivo do enunciador. Cientes de que as diferenças de poder no mundo dos negócios traduzem-se por meio do discurso, e diante dessa tensão “oralidade x escrita” presente nos enunciados dos e-mails, concordamos com os argumentos de Dudley-Evans e St. John ao dizerem que “the purposes of the interactions, the topics covered and the professional relationships will affect the choice of the language”29 (1998, p. 55), fator importante a ser considerado pelo enunciador em relação aos diferentes tipos de público para os quais o enunciado será dirigido, e ponto de grande relevância para o profissional de secretariado atuante no Brasil, onde as relações entre a formalidade e a informalidade são difusas. Deste modo, como docentes, é importante termos em mente que quando ensinamos a operar com um gênero, ensinamos um modo de atuação sociodiscursiva numa cultura e não um simples modo de produção textual. (MARCUSCHI, 2011, p. 20, grifo nosso). Ao promovermos – como docentes – atividades que desenvolvam as habilidades necessárias para que o aluno possa refletir sobre a (in)adequação de sua produção textual à situação sociodiscursiva apresentada no contexto corporativo, a prática discursiva terá mais chances de êxito, resultando numa comunicação eficaz, competência requisitada do profissional de secretariado no atual mercado de trabalho. Assim, é sob o ponto de vista da prática discursiva presente neste novo gênero da mídia virtual, o e-mail, que apresentaremos o subitem a seguir. 1.3.1 Gênero textual: e-mail 29 “O propósito das interações, os tópicos a serem cobertos e o grau de hierarquia entre funcionários são fatores que afetam a escolha do vocabulário.” (tradução nossa). 42 Conforme dados apresentados a posteriori em nossa pesquisa, temos o envio e recebimento de e-mails como percepção da principal atividade realizada pelos alunos do curso de secretariado executivo trilíngue (SET) no ambiente de trabalho, sendo sua redação vista como uma das dificuldades apresentadas com relação às tarefas a serem realizadas. Deste modo, focalizamos, neste subitem, as peculiaridades e mudanças linguísticas trazidas pelos novos gêneros da mídia virtual e, em particular, pelo gênero e-mail. A revolução e o impacto da tecnologia digital ocorrida no mundo pós-moderno trouxeram grandes transformações na área da comunicação. O advento da Internet propiciou o surgimento de novos gêneros com características inovadoras, como a junção de texto, som e imagem (MARCUSCHI, 2002), modificando diretamente os recursos linguísticos até então utilizados. Para Marcuschi, a análise desses novos gêneros, denominados gêneros digitais, deve levar em conta os seguintes pontos: (1) seu franco desenvolvimento e um uso cada vez mais generalizado; (2) suas peculiaridades formais e funcionais, não obstante terem eles contrapartes em gêneros prévios; (3) a possibilidade que oferecem de se rever conceitos tradicionais, permitindo repensar nossa relação com a oralidade e a escrita. (2002, p. 1). Objeto de estudo de vários pesquisadores, devemos lembrar que a análise dos gêneros digitais requer cautela, por encontrar-se em pleno processo de desenvolvimento. Conforme Crystal, “the language of Internet users is plainly in a state of transition”30 (2001, p. 16), posição compartilhada por Marcuschi, ao também citar Crystal, em observação na qual argumenta que o discurso eletrônico (ou a comunicação mediada por computador [CMC] se alguém assim o preferir) ainda se acha em estado meio selvagem e indomado sob o ponto de vista linguístico e organizacional. (2002, p. 6). Levando em consideração o “estado de transição” em que o discurso eletrônico se encontra, e tendo em mente a concepção de gênero como entidade 30 “a linguagem dos usuários da Internet está claramente num estado de transição.” (tradução nossa). 43 não estática, que se ancora em gêneros já existentes, processo denominado por Bakhtin (apud MARCUSCHI, 2010) como “transmutação” de gêneros, demonstramos, a seguir, estudo realizado com alguns dos gêneros emergentes mais estudados e conhecidos na mídia virtual, relacionando-os às suas contrapartes preexistentes. GÊNEROS TEXTUAIS EMERGENTES NA MÍDIA VIRTUAL E SUAS CONTRAPARTES EM GÊNEROS PREEXISTENTES Gêneros já existentes Carta pessoal // bilhete // correio Conversações (em grupos abertos?) Conversações duais (casuais) 3 Bate papo virtual reservado Encontros pessoais (agendados?) 4 Bate-papo ICQ (agendado) 5 Bate-papo virtual em salas privadas Conversações (Fechadas?) 6 Entrevista com convidado Entrevista com pessoa convidada 7 Aula virtual Aulas presenciais (Aula participativa e interativa???) 8 Bate-papo educacional Reunião de grupo/ conferência/ debate 9 Vídeo-conferência Circulares/ séries de circulares (???) 10 Lista de discussão Endereço postal 11 Endereço eletrônico Fonte: Quadro retirado de Marcuschi (2002, p. 14, grifos do autor). 1 2 Gêneros emergentes E-mail Bate-papo virtual em aberto Conforme exposto acima, embora existam muitos aspectos a serem focalizados quanto a esses gêneros digitais, priorizamos, em nosso estudo, os aspectos ligados ao e-mail como gênero emergente da mídia virtual, uma vez que nos dará suporte para indicar, por meio da análise dos textos dos alunos, se e quais elementos da proposta apresentada em nossa pesquisa auxiliariam na construção de conhecimento sobre o gênero em questão. De acordo com a descrição do quadro, observamos que a contribuição da tecnologia para o surgimento de novos gêneros é fato incontestável. Entretanto, conforme argumentos de Marcuschi, “não são propriamente as tecnologias per se que originam os gêneros e sim a intensidade dos usos dessas tecnologias e suas interferências nas atividades comunicativas diárias” (2010, p. 21), as quais, acolhidas por suportes tecnológicos como a Internet, propiciam o surgimento de novas formas discursivas, gerando o aparecimento de novos gêneros. Para Crystal (2001), a Internet é um meio eletrônico, global e interativo, no qual cada uma dessas propriedades tem grande impacto no tipo de linguagem a ser utilizada na produção textual. Para o pesquisador (2001), vista sob a perspectiva 44 social, a rede – atualmente – muda seu foco da tecnologia para as pessoas que a utilizam e seus propósitos de uso, daí a linguagem exercer papel central. Indeed, notwithstanding the remarkable technological achievements and the visual panache of screen presentation, what is immediately obvious when engaging in any of the Internet’s functions is its linguistic character. If the 31 Internet is a revolution, therefore, it is likely to be a linguistic revolution. (CRYSTAL, 2001, viii, grifo nosso). Crystal (2001) argumenta que o mundo da Internet é extremamente fluido, no qual os usuários exploram suas possibilidades de expressão, combinando novos elementos, num permanente estado de transição e, sem precedentes, buscam padrões e uma direção a ser seguida. Citando Crystal, Marcuschi ressalta que “o impacto da Internet é menor como revolução tecnológica do que como revolução dos modos sociais de interagir lingüisticamente.” (2002, p. 6). Para Marcuschi, a mídia virtual transmuta alguns gêneros existentes, apresentando, em seu enunciado, um hibridismo acentuado entre “fala” e “escrita”. Marcuschi (2002) argumenta, também, que o novo tipo de comunicação centrado na tecnologia computacional – conhecido como Comunicação Mediada por Computador (CMC)32 ou comunicação eletrônica – faz surgir novos gêneros na mídia virtual, altamente centrados na escrita. Ao citar Yates, Marcuschi alega que “com as novas tecnologias digitais, vem-se dando uma espécie de ‘radicalização do uso da escrita’ e nossa sociedade parece tornar-se ‘textualizada’, isto é, passar para o plano da escrita.” (2002, p. 2, grifos do autor). Para Jonsson, o hibridismo entre “fala” x “escrita” presente na comunicação digital e, em particular, no gênero e-mail deve ser visto sob o seguinte aspecto: os e-mails não se conformam aos domínios tradicionais do discurso oral e escrito, mas transgridem constantemente os limites entre os dois. Assim, 31 “De fato, apesar das notáveis realizações tecnológicas e do estilo visual da apresentação da tela, o que se torna evidente ao acessarmos qualquer uma das funções da Internet é o seu caráter linguístico. Se a Internet é uma revolução, portanto, é provável que seja uma revolução linguística.” (tradução nossa). 32 Para Marcuschi, “a CMC abrange todos os formatos de comunicação e os respectivos gêneros que emergem nesse contexto. Futuramente, é provável que a expressão Internet assuma a carga semântica e pragmática do sistema completo, já que se trata da rede mundial de comunicação ininterruptamente interconectada a todos os computadores interligados.” (2002, p. 3). 45 pode-se dizer que o e-mail cria seu próprio domínio de discurso no território da comunicação. (apud MARCUSCHI, 2002, p. 24). Assim, mediante a flexibilidade e variabilidade da linguagem – componente principal dos gêneros (MARCUSCHI, 2011) –, observamos, para o gênero e-mail, a utilização de enunciados mais curtos, propiciando, segundo Halliday, “uma escrita mais amigável e mais próxima da fala” (apud MARCUSCHI, 2010, p. 39). Halliday (apud MARCUSCHI, 2010), entretanto, nos lembra de que o uso deste recurso requer cautela por parte do enunciador, uma vez que o que ocorre na mídia virtual não é a neutralização das diferenças entre fala e escrita, mas uma interação entre elas. Para Crystal (2001), o gênero e-mail ampliou o leque estilístico da linguagem de maneira interessante e motivadora, devendo ser visto como uma oportunidade e não uma ameaça para o estudo da linguagem. Segundo o pesquisador, a parte difícil da análise do gênero e-mail fica por conta da extensa gama de opiniões sobre o seu propósito como meio de comunicação e sobre o tipo de linguagem a ser utilizada para obtenção do objetivo proposto. Com mais de 800 milhões de pessoas usando e-mails em 2000, e 100 milhões ou mais sendo enviados a cada dia, Crystal (2001) vê como o ponto mais difícil a ser analisado, um consenso sobre o tipo de linguagem a ser utilizada no e-mail. O e-mail é descrito por Marcuschi (2010) como um dos gêneros emergentes mais praticados na mídia virtual33, tendo a carta, o bilhete e o correio como gêneros antecedentes, opinião compartilhada por Crystal (2001), ao argumentar que uma das funções do e-mail seja sua utilização com propósitos semelhantes aos da carta. Deste modo, cientes de que “genres evolve with time and change in accordance with changes in the communities that use them”34 (DUDLEY-EVANS; ST. JOHN, 1998, p. 115), buscamos entender como o gênero e-mail é concebido na atualidade por pesquisadores e, em particular, no contexto corporativo, tema a ser discutido no próximo subitem. 33 O autor relata o e-mail, o bate-papo virtual e as listas de discussão como os gêneros textuais emergentes na mídia virtual mais praticados. 34 “os gêneros evoluem com o tempo e mudam de acordo com as mudanças das comunidades que os utilizam.” (tradução nossa). 46 1.3.2 Gênero textual: e-mail corporativo A importância da escrita no mundo moderno é inegável. Segundo Marcuschi (2007), sua relevância e papel na sociedade contemporânea são indiscutíveis. Dentro deste contexto, exercemos nossa individualidade com uma autonomia e responsabilidade muito maiores (BAUMAN, 2001) do que há algumas décadas, tornando o papel do sujeito discursivo de fundamental importância na condução das negociações, ao exigir atenção especial na escolha da linguagem a ser utilizada em sua prática discursiva. Tendo como base o conceito de Maingueneau (2001) para gênero de discurso e tipo de discurso, verificamos que o e-mail comercial, como gênero situado dentro do tipo de discurso corporativo, tomando por invariante o lugar institucional corporação, assume papel de destaque na comunicação empresarial, exigindo, do enunciador, entendimento das peculiaridades presentes neste novo gênero da mídia virtual. Conforme Orlandi, a autoria, quando analisada como função discursiva, é – das dimensões do sujeito – a que está “mais determinada ao contexto sócio-histórico e mais afetada pelas exigências de coerência, não contradição, responsabilidade etc.” (2007, p. 75). Deste modo, como atores sociais pertencentes a uma comunidade discursiva35, observamos o “assujeitamento” do enunciador às regras do gênero com o qual trabalha, adequando seu enunciado à prática discursiva em questão. Descrito por Marcuschi e Crystal como um dos gêneros predecessores do email corporativo, a carta comercial nos traz “toda uma série de normas que a regula, como, por exemplo, o uso de vocativo epistolar, de formas de tratamento, de fecho, de cortesia” (MEDEIROS, 2003, p. 61), ou seja, exigências de coerência, não contradição e responsabilidade, relacionadas ao gênero antecessor e igualmente esperadas pela comunidade discursiva ao qual o novo gênero pertence. 35 Conforme exposto anteriormente em nossa pesquisa, para Swales (1990, p. 24-7 apud DUDLEYEVANS; ST. JOHN, 1998, p. 92), a comunidade discursiva apresenta mecanismos de intercomunicação entre seus membros, utilizando-se de um ou mais gêneros para o alcance de seu objetivo. 47 Assim, cientes de que o gênero, como entidade comunicativa da ação social, “reflete estruturas de autoridade e relações de poder muito claras” (MILLER apud MARCUSCHI, 2010, p. 3), estabelecendo – conforme definição de Maingueneau – uma “espécie de contrato” entre os sujeitos do discurso, é papel do enunciador fazer com que sua produção textual seja condizente ao “contrato” estabelecido pelo gênero em andamento, favorecendo, assim, as negociações entre os parceiros. A noção de contrato pressupõe que os indivíduos pertencentes a um mesmo corpo de práticas sociais sejam capazes de entrar em acordo a propósito das representações de linguagem destas práticas. Consequentemente, o sujeito que se comunica sempre poderá, com certa razão, atribuir ao outro (o não EU) uma competência de linguagem análoga à sua que o habilite ao reconhecimento. O ato de fala transforma-se, então, em uma proposição que o EU dirige ao TU e para a qual aguarda uma contrapartida de conivência. (MAINGUENEAU, 1997a, p. 30). O reconhecimento – por parte do coenunciador – da linguagem análoga esperada pelo “não EU” é fator de grande relevância em práticas discursivas envolvendo os novos gêneros da mídia virtual, entre eles o e-mail, uma vez que, ao trazer “traços inteiramente novos para a comunicação, tais como a postagem cruzada e encadeamentos” (JONSSON apud MARCUSCHI, 2002, p. 24, grifo nosso), gera expectativas com relação à linguagem a ser utilizada entre os parceiros legítimos do enunciado. Ao estabelecer “o estatuto de parceiros legítimos” de um enunciado, Maingueneau reflete sobre os papéis dos interlocutores nessa interação. Que papel devem assumir o enunciador e coenunciador? Nos diferentes gêneros do discurso, já se determina de quem parte e a quem se dirige a fala. [...] A cada uma delas correspondem direitos e deveres, mas também saberes [...] (2001, p. 66, grifo nosso). Para Ellis e Johnson (1994), inserido nos “direitos e deveres” assumidos pelo enunciador e coenunciador, o “aspecto social”, traduzido na escolha linguística a ser utilizada no enunciado, é ponto relevante a ser considerado no discurso corporativo. Como um dos “saberes” esperados do enunciador, o entendimento do aspecto social e consequente escolha linguística gera expectativas entre os membros da comunidade discursiva ao qual o gênero pertence, promovendo, ou não, o êxito na comunicação. Com relação às expectativas geradas pelos membros da comunidade discursiva, Erickson argumenta que 48 um gênero é um padrão de comunicação criado pela combinação de forças individuais, sociais e técnicas implícitas numa situação comunicativa recorrente. Um gênero estrutura a comunicação ao criar expectativas partilhadas acerca da forma e do conteúdo da interação, atenuando assim a pressão da produção e interpretação. (apud MARCUSCHI, 2002, p. 10, grifos nossos). Sendo as saudações uma das formas de traduzirmos as forças ou aspectos sociais presentes no discurso corporativo, devemos ter especial atenção com a escolha linguística a ser utilizada no vocativo epistolar, a fim de que a interação entre os interlocutores ocorra da melhor forma possível. Segundo Crystal (2001, p. 101), as saudações expressam um leque variado de situações, indo das formais às mais informais, indicando o nível social de relacionamento e intimidade dos interlocutores. O vocativo epistolar, fator relevante para a construção do discurso, é de grande importância na condução das negociações entre pessoas que não se conhecem, atenuando a pressão da produção textual e interpretação do enunciado entre “parceiros legítimos” de diferentes culturas, como postulam Ellis e Johnson, International businesspeople have a need to make contact with others whom they have never met before, or know only slightly [...] There is a need for an internationally accepted way of doing things so that people from different cultures, and with different mother tongues, can quickly feel more 36 comfortable with one another. (1994, p. 8). Outro importante ponto a ser levado em consideração no que tange às saudações é a utilização da desinência de gêneros: masculino/feminino. No mundo atual, em que homens e mulheres ocupam posições semelhantes, é de bom tom utilizarmos ambas as desinências quando o coenunciador não for conhecido (COTTON; FALVEY; KENT, 2006), evitando, assim, possível desconforto entre os interlocutores. [...] in the past, one might assume male dominance in an occupation. No longer. Using language that does not restrict itself solely to the male gender is good business because it is realistic, recognizes the current shifts in the 37 work force [...] (BLAKE; BLY, 1991, p. 41, grifo nosso). 36 “Homens e mulheres de negócios internacionais necessitam contatar pessoas que não conhecem, ou conhecem vagamente. [...] Deste modo, há a necessidade de uma padronização internacional, a fim de que pessoas de diferentes culturas e diferentes línguas maternas sintam-se, rapidamente, mais à vontade umas com as outras.” (tradução nossa). 37 “[...] no passado, esperava-se o domínio masculino nos cargos empresariais. Isso não mais acontece. Por isso, é de bom tom utilizarmos uma linguagem que não seja restrita somente ao gênero masculino, uma vez que segue as mudanças ocorridas no mercado de trabalho.” (tradução nossa). 49 Para prover os alunos de um melhor entendimento sobre o ponto em questão, trazemos para a sala de aula a discussão sobre o aspecto social relacionado à linguagem, fator muitas vezes negligenciado pelo enunciador na ocasião de sua produção textual. Como parte dessa discussão, demonstramos, a seguir, modelo de e-mail formal, retirado do livro Market Leader, utilizado como um dos materiais de apoio da disciplina de Business Writing do curso de secretariado executivo trilíngue, no qual há a explanação do enunciado a ser utilizado em ambas as ocasiões: quando o leitor é conhecido, bem como quando não se tem tal conhecimento. Fonte: modelo retirado do livro de inglês para negócios Market Leader (COTTON; FALVEY; KENT, 2007, p. 132). 38 Conforme mencionado anteriormente em nosso estudo, as novas tecnologias modificaram a percepção do enunciador com relação à interação entre a fala e a escrita, causando um “hibridismo ainda não bem-conhecido e muitas vezes mal- 38 Começo: Quando o nome do leitor é conhecido: Quando o nome do leitor é desconhecido: Final: Quando o nome do leitor é conhecido: Quando o nome do leitor é desconhecido: Dear Mr/Mrs/Ms Peng Dear Sir/Madam Yours sincerely Yours faithfully. (traduções nossas). 50 compreendido” (MARCUSCHI, 2010, p. 39, grifo nosso), exigindo cuidado especial na ocasião da produção textual. Cientes da relevância do e-mail comercial nas negociações, e tendo em mente os diferentes públicos existentes na esfera corporativa, o entendimento, por parte do enunciador, de tal hibridismo é fator relevante para o êxito de seu enunciado, já que “nossa sociedade é constituída por relações hierarquizadas, são relações de força, sustentadas no poder desses diferentes lugares, que se fazem valer na comunicação.” (ORLANDI, 2007, p. 40, grifo do autor). Assim, como parte do debate realizado em sala de aula, ocasião em que “as relações de força” presentes nos discursos do contexto corporativo são discutidas, apresentamos, abaixo, modelos de enunciados formais, informais e semiformais, fornecidos aos alunos na disciplina de Business Writing do curso de secretariado executivo trilíngue. 51 Fonte: modelos de e-mail formal e informal retirados do livro de inglês para negócios Market Leader (COTTON; FALVEY; KENT, 2007, p. 130) 52 Fonte: modelo de e-mail semiformal retirado do livro de inglês para negócios Market Leader (COTTON; FALVEY; KENT, 2006, p. 139). Pontos igualmente importantes a serem considerados pelo enunciador, na ocasião da produção textual, a legibilidade e inteligibilidade do texto são elementos de grande relevância nas negociações, como afirma Crystal: The clarity of the message on the screen is a dominant theme of e-mail manuals. Clarity in this context involves both legibility and intelligibility. Legibility chiefly refers to ways of avoiding a screenful of unbroken text. Writers are recommended to use a line-of-white between paragraphs, for 39 example, or to highlight points in a list using a bullet or numbering facility. (2001, p. 110, grifo nosso). Conforme exposto, a legibilidade do texto promove uma leitura mais eficaz, possibilitando maior rapidez nas tomadas de decisões, fator crucial no ambiente corporativo. A inteligibilidade considera, entre vários aspectos, a grafia como um dos fatores responsáveis pelo êxito ou fracasso na comunicação. Segundo Angell e 39 “A clareza da mensagem na tela é tema dominante nos manuais de e-mails. A clareza envolve tanto a legibilidade, como a inteligibilidade. A legibilidade refere-se principalmente ao modo de evitarse uma tela com um texto sem quebras. Recomenda-se a utilização, por exemplo, de uma linha em branco entre os parágrafos, ou, para destaque de assuntos em uma lista, a utilização de marcadores ou numeração como facilitadores.” (tradução nossa). 53 Heslop, “not only are misspellings annoying and confusing, they also cause the reader to question your credibility.”40 (apud CRYSTAL, 2001, p. 112). No mundo corporativo, tais desvios podem ser resultantes da limitação linguística do enunciador, mas também podem revelar a pouca importância dada pelo profissional ao desenvolvimento da habilidade “escrita” em seu plano de carreira, pois, segundo Piotrowski41, “some people who write on the job do not consider writing to be part of their professional duties; therefore, they are unwilling to give it the time and discipline it requires.”42 (2005, p. 2, grifo nosso). Ao não conceder o tempo e a disciplina necessários à redação do discurso, o enunciador pode ocasionar a desconstrução de sua imagem e a da empresa para a qual trabalha, prejudicando possíveis negociações entre parceiros comerciais. Deste modo, o reconhecimento – por parte do enunciador – dos diferentes gêneros da esfera corporativa é fator crucial para a construção de sua prática discursiva e consequente êxito nas transações comerciais, uma vez que “todos os gêneros têm uma forma e uma função, bem como um estilo e um conteúdo” (MARCUSCHI, 2008, p. 150) a serem seguidos. Com formas e funções definidas, os e-mails podem também assumir a estrutura típica de um bilhete (MARCUSCHI, 2010), apresentando, neste contexto, uma linguagem informal, conforme exemplo a seguir, fornecido aos alunos na disciplina de Business Writing do curso de secretariado executivo trilíngue. 40 “não só os erros ortográficos são irritantes e confusos, como também podem ocasionar, ao leitor, dúvidas com relação à credibilidade do enunciador.” (tradução nossa). 41 Maryann V. Piotrowski lecionou comunicação empresarial em várias universidades, tais como MIT Sloan School of Management, Harvard Business School, Boston University e Boston College. Atua como consultora de redação para várias empresas, tais como Time Warner, Times Publishing Company etc. (tradução nossa). 42 “Algumas pessoas não consideram a escrita empresarial como parte de suas responsabilidades profissionais, não dando – deste modo – o devido valor e disciplina que tal habilidade requer.” (tradução nossa). 54 Fonte: modelo retirado do livro de inglês para negócios Market Leader (COTTON; FALVEY; KENT, 2006, p. 139). Ainda segundo o autor (MARCUSCHI, 2010), quando utilizado como bilhete, o e-mail apresenta uma linguagem, geralmente, não monitorada, podendo ser elaborada em separado, já que, na atualidade, permite-se trabalhar no campo para e-mail com rascunhos, os quais podem ser remetidos posteriormente e não apenas no ato da elaboração. Quanto ao tamanho, o e-mail – neste contexto – não tem um limite, mas, no geral, não ultrapassa 5-10 linhas; e sua paragrafação nem sempre é realizada (embora alguns o façam). A rigor, os formatos, neste particular, são livres e hoje podem ter arquivos de textos agregados (attachment) em quantidade ilimitada. Ao “ter os arquivos agregados”, ou seja, ao desempenhar a função de correio (MARCUSCHI, 2002, p. 14), o e-mail, em particular o e-mail corporativo, agrega gêneros diversos pertencentes à esfera empresarial, tais como o memorando, o qual, concebido como “fato social” (MAINGUENEAU, 2001, p. 23), cuja identificação reside na ação social praticada dentro da esfera de atividade em que circula, requer – em seus enunciados – escolhas sociolinguísticas adequadas à situação discursiva em questão. Segundo Maingueneau, “para um locutor, o fato de dominar vários gêneros de discurso é um fator de considerável economia cognitiva” (2001, p. 63, grifo do autor), uma vez que, ao adequar sua prática discursiva ao gênero em questão, atenderá à finalidade discursiva proposta, tendo maior probabilidade de êxito na comunicação. 55 Deste modo, a fim de que sua produção textual seja condizente ao propósito discursivo, é importante que o enunciador consiga reconhecer as particularidades existentes entre “texto” e “discurso”, confusão bastante frequente, segundo Marcuschi: Deve-se ter o cuidado de não confundir texto e discurso como se fossem a mesma coisa. Embora haja muita discussão a respeito, pode-se dizer que o texto é uma entidade concreta realizada materialmente e corporificada em algum gênero textual. Discurso é aquilo que um texto produz ao se manifestar em alguma instância discursiva. Assim, o discurso se realiza nos textos. (2010, p. 25, grifos do autor). Ao saber identificar tais especificidades e o propósito da produção textual, o enunciador terá maior chance de êxito no tocante às escolhas sociolinguísticas adequadas ao gênero a ser trabalhado, exercendo, assim, seu papel como ator social, responsável pelo discurso a ser utilizado com os stakeholders ligados à empresa da qual faz parte. Esse reconhecimento é fator central para poder agir por meio dos gêneros, uma vez que todo gênero de discurso visa a um certo tipo de modificação da situação da qual participa. Essa finalidade se define ao se responder a questão implícita: “Estamos aqui para dizer ou fazer o que?” [...] A determinação correta dessa finalidade é indispensável para que o destinatário possa ter um comportamento adequado ao gênero de discurso utilizado. (MAINGUENEAU, 2001, p. 66). Ao caracterizar os gêneros, o autor francês recorre a metáforas decorrentes de 3 domínios das esferas de atividade: “Jurídico (contrato), Teatral (papel) e Lúdico (jogo).” (2001, p. 69). Regido por normas de cooperação mutuamente conhecidas entre enunciador e coenunciador, Maingueneau (2001) argumenta que o “contrato” de comunicação, como fundador do ato de linguagem, inclui sua própria validação, prevendo “sanções” para quem o transgredir. Com relação ao papel, ele argumenta que, como atores sociais, vivenciamos diferentes papéis no nosso dia a dia. Para o pesquisador, “falar de papel é insistir no fato de que cada gênero de discurso implica os parceiros sob a ótica de uma condição determinada e não de todas as suas determinações possíveis.” (2001, p. 69, grifos nossos). 56 Por implicar regras preestabelecidas mutuamente, Maingueneau compara o gênero ao “jogo”, uma vez que o não cumprimento das regras pode causar exclusão do transgressor. No entanto, por ter uma finalidade discursiva, “contrariamente às regras do jogo, as regras do discurso nada têm de rígido: elas possuem zonas de variação, os gêneros podem se transformar.”43 (2001, p. 70). Assim, diante dessas “zonas de variação”, nas quais os gêneros interagem, vemos, na atualidade, que “within institutions, e-mails can be mainly used for the sending out of information and instructions to all members of staff, in the manner of a traditional memo [...]”44 (CRYSTAL, 2001, p. 100, grifos nossos), conforme modelo apresentado abaixo, utilizado como exemplo na disciplina de Business Writing do curso de secretariado executivo trilíngue. Fonte: modelo retirado do livro de inglês para negócios Market Leader (COTTON; FALVEY; KENT, 2007, p. 131). Deste modo, é sob a ótica de uma condição determinada e não de todas as suas determinações possíveis, ou seja, uma “espécie de sequência teoricamente definida pela natureza linguística de sua composição como aspectos lexicais, 43 Vale ressaltar que o gênero é estável como objeto de conhecimento, porém como objeto de ensino em sala de aula “esses gêneros que emergiram no último século no contexto das mais diversas mídias criam formas comunicativas próprias com certo hibridismo que desafia as relações entre oralidade e escrita e inviabiliza de forma definitiva a velha visão dicotômica ainda presente em muitos manuais de ensino de língua” (2002, p. 21), proporcionando, assim, outras leituras do gênero. 44 “dentro das instituições, os e-mails são muito utilizados para o envio de informações e instruções para os funcionários, nos mesmos padrões do memorando tradicional [...]” (tradução nossa). 57 sintáticos, tempos verbais, relações lógicas” (MARCUSCHI, 2010, p. 23) que estendemos nosso estudo ao gênero memorando45, a fim de auxiliar os estudantes no entendimento dos diferentes tipos textuais presentes nos gêneros discursivos, conforme exposto no capítulo 3. 45 A opção com relação ao estudo do gênero memorando, em detrimento de outros gêneros como relatório ou minuta – os quais também apresentam a “exposição” como tipo textual predominante em seus enunciados – deve-se aos seguintes fatores: extensão e natureza do documento; elementos de organização composicional; formatos que não permitem sua edição. 58 CAPÍTULO 2: DESCRIÇÃO DA PESQUISA E SUA METODOLOGIA Iniciamos o capítulo apresentando o contexto; instrumento de coleta de dados e o referencial teórico de suporte para a metodologia. Na sequência, apresentamos e discutimos os dados referentes às características gerais dos participantes e, num terceiro momento, identificamos a percepção das necessidades linguísticas dos alunos de secretariado executivo trilíngue com relação ao uso da língua inglesa no ambiente de trabalho. 2.1 Levantamento geral: contexto; instrumento de coleta de dados; referencial teórico O processo de coleta de dados desta pesquisa foi realizado nos anos de 2012 (agosto) e 2013 (março e agosto), com 78 alunos de 3o e 4o semestres do curso de bacharelado em secretariado executivo trilíngue de uma faculdade particular de São Paulo, na qual a professora-pesquisadora leciona. Dos 78 alunos, 46 utilizam o inglês na execução de tarefas no ambiente de trabalho, e 32, ainda, não utilizam o idioma para execução de suas tarefas corporativas. Por se tratar de um curso de secretariado executivo trilíngue (modalidade: bacharelado) com Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) já preestabelecidas pelo MEC, tem-se a abordagem do inglês para negócios como principal referencial na ementa a ser seguida. A coleta de dados é essencial para nosso estudo, uma vez que, consoante Ellis e Johnson (1994), o curso de inglês para negócios envolve, por parte do docente, a seleção de um corpo linguístico específico a ser trabalhado em uma determinada área do conhecimento, opinião compartilhada por Dudley-Evans e St. John (1998), para os quais a análise de dados está entre os principais pontos a serem levantados para o delineamento de um curso de inglês para propósitos específicos. Segundo Hutchinson e Waters, “designing a course is fundamentally a matter of asking questions in order to provide a reasoned basis for the subsequent 59 processes of syllabus design, materials writing, classroom teaching and evaluation.”46 (1987, p. 21). Porém, tão importantes quanto às questões acima descritas, fatores como local e duração do curso, possíveis limitações impostas e nível de proficiência a ser atingido (KIPLING apud HUTCHINSON; WATERS, 1987) são pontos igualmente relevantes a serem considerados quando da elaboração e desenvolvimento da ementa e conteúdo programático. Assim, concordamos com os argumentos de Brown (2011) quando expõe que a análise de dados é o primeiro passo para o desenvolvimento de uma ementa que atenda às necessidades dos alunos e da instituição na qual o curso está sendo ministrado. Para o autor, Needs analysis (NA) is the systematic collection and analysis of all information necessary for defining a defensible curriculum. A defensible curriculum is one that satisfies the language learning and teaching requirements of the students and teachers within the context of particular 47 institution(s) involved. (BROWN, 2011, p. 269). Deste modo, para que pudéssemos obter as respostas necessárias ao nosso estudo, escolhemos, dentre os vários instrumentos de coleta de dados possíveis, o questionário, com 3 perguntas abertas e 4 perguntas fechadas de múltipla escolha (Anexo I), por meio do qual mapeamos os dados relacionados a fatores extrínsecos (tarefas realizadas no dia a dia no escritório) e intrínsecos de aprendizagem (motivação, tipo de atividade e material de que mais gosta em um curso de inglês etc.), informações relevantes para o processo de formulação de ementa e desenvolvimento de atividades. Segundo Long (2005), as questões abertas permitem a coleta de um maior número de informações detalhadas, sendo adequada para situações complexas; entretanto, são mais difíceis para a padronização, consumindo mais tempo para interpretação de seus dados. 46 “o desenho de um curso é baseado, principalmente, na formulação de perguntas que forneçam base para o processo subsequente de ementa, desenvolvimento de material, desenvolvimento de aula e avaliação.” (tradução nossa). 47 “a análise das necessidades (NA) é a coleta e análise sistemática de toda a informação necessária para o desenvolvimento de um currículo defensável. Um currículo defensável é aquele que satisfaz a aprendizagem da língua e as necessidades didáticas de alunos e professores, dentro do contexto da instituição(ões) envolvida(s).” (tradução nossa). 60 Com relação às questões fechadas, o pesquisador argumenta que, embora padronizadas, fornecendo dados que permitem maior facilidade de quantificação, elas podem limitar as respostas conduzindo a uma análise simplificada de tópicos complexos. Entretanto, é importante lembrar que “the results of a needs analysis are not unique. Even with the same raw data different interpretations are possible.”48 (DUDLEY-EVANS; ST. JOHN, 1998, p. 137). Deste modo, a fim de evitar tais mal-entendidos, buscamos, nos pressupostos teóricos de Brown (2011), um conceito cada vez mais presente nos estudos sobre a análise das necessidades: a utilização da “triangulação” de dados. Segundo o autor, a triangulação não é um procedimento específico, mas uma estratégia de pesquisa que vem sendo aplicada por vários pesquisadores, como Gilbert (2005); JassoAguilar (1999) etc., em suas análises das necessidades. Segundo Long, Triangulation is a procedure used by researchers... to increase the credibility of their data and thereby, eventually, to increase the credibility of their interpretations of those data. [...] it involves the researchers comparing 49 different sets and sources of data with one another [...] (apud BROWN, 2011, p. 283). Assim, concordamos com a posição de Fielding e Fielding (apud BROWN, 2011) de que, ao usarmos diferentes métodos, devemos ter em mente que a abordagem multioperacional não implicará o empilhamento de instrumentos de coleta de dados, mas a combinação de diferentes fontes – cuidadosamente pensadas e planejadas – que fornecerão suporte entre si. Conforme Huberman e Miles (apud BROWN, 2011), o ideal é ter a triangulação com fontes de diferentes vieses, a fim de que se complementem, conduzindo a um fechamento de dados mais preciso. Desta maneira, como instrumento extra de triangulação de métodos e fontes, incluímos em nossa pesquisa a percepção do mercado de trabalho com relação às 48 “os resultados de uma análise de dados não são únicos. Podem-se obter diferentes interpretações dos mesmos dados.” (tradução nossa). 49 “A triangulação é um procedimento usado pelos pesquisadores... para aumentar a credibilidade de seus dados e, assim, eventualmente, aumentar a credibilidade de suas interpretações daqueles dados. [...] consiste na comparação, pelos pesquisadores, de diferentes conjuntos e fontes de dados entre si.” (tradução nossa). 61 habilidades requeridas do profissional de secretariado em início de carreira, com base na entrevista (Anexo II) concedida pela Diretora/Presidente da SEC Talentos Humanos, Sra. Stefi Maerker, assessora de executivos do primeiro escalão organizacional de empresas multinacionais, bem como em anúncios online de emprego capturados durante os meses de julho e agosto/2014 dos seguintes sites: Grupo AGP-São Paulo (http://www.indeed.com.br/viewjob), Catho (http://emprego.catho.com.br/) e Manager (http://www.manager.com.br/). Temos, portanto, o questionário; a entrevista e anúncios online; as produções textuais de estudantes como diferentes procedimentos para a obtenção de dados para análise de nossa pesquisa, os quais se complementam e dão suporte entre si. A discussão encontra-se no capítulo 3 deste estudo. 2.2 Apresentação e discussão das características gerais dos participantes A apresentação e discussão dos dados relacionados ao questionário aplicado aos alunos do curso de secretariado executivo trilíngue é fator relevante para o embasamento de nosso estudo, já que – conforme atestado por vários pesquisadores mencionados em nossa pesquisa – a análise de dados relacionada ao campo de atuação do aluno é fator crucial no desenvolvimento da ementa do curso de inglês para propósitos específicos. Conforme coleta de dados50, a grande maioria do público do curso de secretariado executivo trilíngue é composta por mulheres, na faixa etária de 18 a 25 anos (51 respondentes – 65,39%). Num total de 78 participantes, tivemos como respondentes 77 mulheres e 1 homem, dos quais mais da metade ocupa cargos administrativos afins com a área acadêmica escolhida na faculdade, isto é, 37 alunos (47,43%) ocupam o cargo de secretário(a) ou estagiário(a) da área de sua formação acadêmica, enquanto que 20 alunos (25,64%) ocupam cargos na área administrativa, conforme itens 1 e 2 das tabelas abaixo. 50 Modelo do questionário completo de coleta de dados: vide anexo A. 62 Item 1: Faixa etária Faixa etária 18 a 25 anos 26 a 30 anos 31 a 35 anos 36 a 40 anos 41 a 50 anos Acima de 51 anos Respondentes 51 19 3 3 1 1 % 65,39 24,35 3,85 3,85 1,28 1,28 Item 2: Cargo ocupado na empresa Cargo Analista Administrativo Analista de Dados Analista de Qualidade Analista de Sinistros Assistente de Professor Auxiliar Administrativo Bancária Coordenadora Administrativo Estagiário: assuntos institucionais Estagiária: eventos/outros Estagiária: secretariado Garçonete Promotora de Eventos Recepcionista Revisora de Cadastro Secretária Júnior Secretária Não trabalha atualmente Respondentes 2 1 1 1 1 17 2 1 1 2 22 1 1 7 1 1 14 2 % 2,56 1,28 1,28 1,28 1,28 21,79 2,56 1,28 1,28 2,56 28,20 1,28 1,28 8,97 1,28 1,28 17,95 2,56 Os dados resultantes no item 4 revelam que a grande maioria dos 78 respondentes (54 alunos – 69,23%) já estudou inglês em algum instituto de línguas e/ou com professor particular, tendo conhecimento prévio do idioma, o que reforça a ideia descrita na introdução desta pesquisa, ou seja, a de reinício do aprendizado da língua. O item 5 nos revela que, atualmente, 36 dos 78 respondentes (46,15%) não estudam inglês fora da instituição acadêmica, tendo a faculdade como principal provedor de conhecimento linguístico referente à disciplina. Vide tabelas a seguir. 63 Item 4: Estudo da língua inglesa anteriormente Você já estudou inglês antes? sim não Respondentes 54 24 % 69,23 30,77 Respondentes 42 36 % 53,85 46,15 Item 5: Estudo atual Estuda inglês atualmente? sim não Os dados resultantes no item 6 são de grande importância para o desenho da ementa, pois revelam que grande parte dos alunos (22 respondentes – 28,21%) espera um curso que possibilite o desenvolvimento de tarefas relacionadas ao dia a dia do profissional de secretariado, tendo o desenvolvimento das 4 macro habilidades linguísticas necessárias para a aquisição da língua (21 respondentes – 26,92%) e a prática de conversação (19 respondentes – 24,36%) como principais meios de atingir suas metas. Item 6: Expectativas dos alunos com relação ao curso de inglês na instituição O que você espera de um curso que atenda às suas necessidades? Colocar em prática o conhecimento gramatical Desenvolva atividades relacionadas ao profissional de secretariado Desenvolvimento das 4 macro habilidades Pratique a conversação Não especificaram Respondentes % 4 5,13 22 28,21 21 19 12 26,92 24,36 15,38 Ainda com relação ao item 6, no que se refere ao tipo de material a ser utilizado no curso – ver continuação da tabela a seguir –, grande parte dos alunos (26 respondentes – 33,33%) optou por materiais que estimulem os sentidos da audição e visão para o processo de ensino-aprendizagem da língua, recursos comuns na atualidade, em que o vídeo e o áudio imperam no mundo digital. Podemos também notar a influência da metodologia aplicada ao ensinoaprendizagem do inglês regular, na visão do que seja um curso de línguas para tais alunos, ao requisitarem a apostila ou o livro didático como base a ser seguida, bem como a realização de jogos em sala de aula: dinâmica fortemente presente no ensino-aprendizagem dos cursos de inglês regular. 64 Conforme já citado anteriormente, o curso de inglês para negócios requer a seleção de material que priorize a comunicação na área de trabalho do aluno, envolvendo, desta maneira, diferentes fontes como base a serem seguidas. No que tange às dinâmicas de grupo, concordamos que, quando adaptadas ao contexto de negócios, estimulam o aluno no processo de aprendizagem. Com relação à utilização de textos como material a ser utilizado no curso, 7 respondentes (8,97%) apoiam o uso pelo docente não só de textos didáticos, como também de textos com propósitos não pedagógicos (authentic material), uma vez que trazem traços ou jargões não apresentados em textos pedagógicos (ELLIS; JOHNSON, 1994), características importantes para o ensino-aprendizagem do contexto de negócios. Item 6 – Expectativas dos alunos com relação ao curso de inglês na instituição (continuação) Qual o tipo de material gostaria que fosse utilizado? Apostilas/Livros CDs, Música, Vídeo Jogos Material online Seminários Textos Não opinaram Respondentes 4 26 3 1 2 7 35 % 5,12 33,33 3,85 1,28 2,56 8,97 44,87 Um dado preocupante, ainda com relação ao item 6, é que 35 dos respondentes (44,87%, de um total de 78 alunos), ou seja, quase a metade não se manifestou a respeito da escolha do material didático que possa atender às expectativas de ensino-aprendizagem da língua, posição de construção de conhecimento extremamente passiva, aumentando a responsabilidade do docente com relação à escolha do material a ser utilizado no curso. De acordo com o item 7, classificação das habilidades necessárias para o aprendizado da língua, a grande maioria dos alunos (55 respondentes – 70,51%) considera ter nível bom/razoável referente à leitura, considerando seu desempenho como razoável/fraco referente às habilidades de fala (60 respondentes – 76,92%), audição (53 respondentes – 67,95%) e escrita (58 respondentes – 74,36%). 65 Assim, observamos que os dados obtidos nos itens 6 e 7 são de extrema importância na escolha de material e no desenvolvimento de atividades a serem exploradas pelo docente, ao fornecerem informações sobre as reais expectativas dos alunos quanto ao curso, bem como a percepção das deficiências relacionadas às habilidades requeridas para a obtenção da proficiência linguística. 2.2.1 Percepção das necessidades linguísticas dos alunos com relação ao uso da língua inglesa no ambiente de trabalho Dos 78 respondentes de nossa pesquisa, 46 alunos (58,97%), utilizam a língua inglesa para execução de tarefas comunicativas no ambiente de trabalho. De acordo com os dados coletados desses 46 alunos, independentemente do cargo ocupado na empresa, as principais tarefas comunicativas envolvendo a língua inglesa são: envio/recebimento de e-mails (21 alunos – 45,65%); atendimento telefônico (19 alunos – 41,31%); recepção de clientes (16 alunos – 34,78%). Item 3 – Descrição das atividades comunicativas realizadas no ambiente de trabalho, envolvendo o uso da língua inglesa Descrição da atividade Atendimento telefônico Agendamento de reuniões Agendamento de viagens Conferência Criação de apresentações Envio/recebimento de e-mail Leitura de manual técnico Leitura de sistemas Recepção de clientes Redação de Contrato Reserva de restaurantes/hotel Respondentes 19 1 1 2 1 21 1 2 16 1 1 % 41,31 2,17 2,17 4,35 2,17 45,65 2,17 4,35 34,78 2,17 2,17 Com relação às dificuldades descritas por esses alunos para a execução das tarefas comunicativas, obtivemos as seguintes observações: pronúncia incorreta; desenvolvimento da conversação; redação de e-mails. 66 Ao observar as principais dificuldades linguísticas relatadas pelos alunos, verificamos que estão diretamente ligadas ao desempenho das principais tarefas realizadas no dia a dia empresarial: pronúncia incorreta (fonética) e desenvolvimento da conversação (ligadas ao atendimento telefônico e recepção de clientes), redação de e-mails (ligada ao envio/recebimento de e-mails). Dessa maneira, concordamos com os argumentos de Dudley-Evans e St. John quando dizem que “in planning a course, ESP teachers should first be aware of the options and of the limitations arising from institutional and learner expectations”51 (1998, p. 154, grifos nossos), para o desenvolvimento de uma ementa que atenda às reais necessidades dos alunos e os objetivos propostos pelo curso. Assim, diante das opções e limitações percebidas a partir da coleta de dados, e do contexto em que a pesquisa está inserida, direcionamos a próxima etapa de nossos estudos com o propósito de indicar – por meio da análise de textos dos alunos – se e quais elementos de nossa proposta de trabalho auxiliariam na construção de conhecimento sobre o gênero e-mail corporativo, podendo ser estendidos a outros gêneros quando necessários na atuação desses alunos. 51 “Ao planejar o curso, os professores de ESP devem ter consciência das opções e das limitações decorrentes das expectativas institucional e dos alunos.” (tradução nossa). 67 CAPÍTULO 3: TRIANGULAÇÃO DE DADOS Objetivamos apresentar e discutir neste capítulo os resultados obtidos em nossa pesquisa, baseados na fundamentação teórica e procedimentos de análise apresentados na metodologia. Como estratégia de análise dos resultados, seguimos orientações de Brown (2011) para a triangulação de dados, que sugere aos pesquisadores lidar com fontes de vieses diferentes, a fim de que os dados obtidos possam fornecer suporte entre si. Desta maneira, como instrumentos de triangulação de dados, temos os seguintes indicadores: o questionário realizado com 78 (setenta e oito) alunos do curso de secretariado executivo trilíngue, dos quais 46 (quarenta e seis) utilizam inglês no ambiente corporativo; análise de corpus: e-mails ↔ produções textuais autênticas de estudantes que utilizam o inglês no ambiente de trabalho; entrevista semiestruturada com a Sra. Stefi Maerker, Diretora/Presidente da SEC Talentos Humanos, bem como anúncios online requisitando profissionais de secretariado em início de carreira. Com relação ao questionário, devemos ressaltar que, dentre os 46 (quarenta e seis) participantes de nossa pesquisa que utilizam o inglês no ambiente corporativo, 6 (seis) participantes dispuseram-se a participar do estudo relacionado ao gênero e-mail corporativo – percebido como atividade mais executada no ambiente de trabalho –, fornecendo produções textuais autênticas realizadas por eles no dia a dia corporativo. O critério de escolha das produções textuais analisadas em nossa pesquisa contemplou os seguintes fatores: 68 diferentes níveis linguísticos: básico, intermediário e avançado52; experiência profissional: estagiário, experiência de até 1 ano, experiência de 2 anos ou mais; troca de correspondência envolvendo somente o enunciador; troca de correspondência envolvendo os interlocutores. A opção em contemplar as trocas de correspondências envolvendo interlocutores, em detrimento das correspondências que envolviam somente o enunciador, deveu-se ao fato de uma possibilidade mais ampla de análise de enunciados em situação de interação de discurso, trazendo marcas linguísticas peculiares a falantes nativos, bem como falantes de língua inglesa como segundo idioma. Estendendo nossa pesquisa – durante o curso de Business Writing do curso de secretariado executivo trilíngue – ao estudo de outros gêneros pertencentes ao discurso corporativo, tais como recado telefônico e memorando, percebemos o não entendimento dos alunos com relação ao tipo textual53 presente na redação de diferentes enunciados e, em particular, do enunciado do gênero memorando. Assim, em março de 2014, aplicamos um exercício para os alunos que já utilizavam o inglês no ambiente corporativo, com o objetivo de averiguar se a hipótese levantada durante semestres anteriores, do não entendimento – por parte dos alunos – do tipo textual a ser utilizado em diferentes gêneros era verdadeira ou não. Deste modo, estendemos nossa análise a produções textuais pertencentes ao gênero memorando, a fim de averiguar se e quais elementos de nossa proposta de 52 Níveis linguísticos de proficiência segundo padrões do CEF (Common European Framework of Reference for Languages). 53 Segundo Marcuschi, o conhecimento sobre os tipos textuais é fator de grande relevância para o enunciador na ocasião da produção textual. Conforme o pesquisador, “usamos a expressão tipo textual para designar uma espécie de sequência teoricamente definida pela natureza linguística de sua composição (aspectos lexicais, sintáticos, tempos verbais, relações lógicas). Em geral, os tipos textuais abrangem cerca de meia dúzia de categorias conhecidas como: narração, argumentação, exposição, descrição, injunção.” (2010, p. 23). 69 trabalho auxiliariam no entendimento, por parte do aluno, dos diferentes tipos textuais a serem utilizados nos gêneros discursivos. Uma vez que tais alunos estão se preparando para atuarem no mundo corporativo, buscamos, no mercado de trabalho, informações que contribuíssem para uma melhor elaboração de nossa proposta de trabalho, fornecendo suporte para o reforço na triangulação de dados. Conseguimos tais informações, sob a ótica do mercado de trabalho, por meio de entrevista realizada com a Diretora/Presidente da empresa de consultoria SEC Talentos Humanos, bem como por anúncios online de empregos capturados dos sites Grupo AGP-São Paulo, Catho e Manager. A entrevista semiestruturada (LONG, 2005) com a Sra. Stefi Maerker da SEC Talentos Humanos teve como eixos balizadores (1) o percentual de vagas que exige o idioma inglês para o cargo de secretário(a) júnior e posição de estagiário(a); (2) o nível linguístico exigido para profissionais em início de carreira; (3) as funções executadas por tais profissionais em início de carreira. Desta maneira, finalizamos o capítulo discutindo as habilidades e competências necessárias ao profissional de secretariado sob a perspectiva do mercado de trabalho. 3.1 Análise de corpus Iniciamos o subitem analisando nove (9) produções textuais54 geradas na troca de correspondências de estudantes que utilizam o inglês no ambiente de trabalho, trazendo os elementos presentes em nossa proposta de trabalho como subsídios para análise dessas produções. Conforme exposto anteriormente, o impacto da tecnologia digital ocorrida no mundo pós-moderno trouxe grandes transformações na área da comunicação, propiciando o aparecimento de novos gêneros da mídia virtual. 54 Informamos que os nomes descritos nas produções textuais analisadas nessa pesquisa são fictícios, sendo os nomes verdadeiros preservados, a fim de manter suas identidades sob sigilo. 70 Com características inovadoras e altamente centrado na escrita, vemos, dentre esses novos gêneros, o surgimento do e-mail, com presença marcante no contexto pessoal e corporativo. E é sob o ponto de vista do e-mail como meio de comunicação largamente utilizado no contexto corporativo que analisaremos as produções a seguir. Para a análise do corpus, relacionamos o e-mail a seus gêneros preexistentes, isto é, carta, bilhete e correio. Análise 1: e-mail como carta O excerto do corpus a ser analisado abaixo, textos 1 e 2, baseia-se na troca de e-mails corporativos entre uma assistente com mais de 2 anos de experiência profissional (nível linguístico de inglês: avançado) e um cliente externo. O tema principal da interação é o agendamento de uma reunião. A correspondência comercial, como gênero antecessor do e-mail, nos traz diversas normas que a regulam, as quais, conhecidas pelo enunciador, propiciam a adequação do enunciado às expectativas da comunidade discursiva à qual o novo gênero pertence. Cientes de que as diferenças de poder no mundo dos negócios, traduzidas no discurso, impactam diretamente nas negociações, apresentamos o e-mail abaixo (texto 1) como modelo de e-mail corporativo formal, trazendo, em seu enunciado, particularidades do gênero antecessor – carta comercial – como a escrita formal (não contração de palavras “It was”, “I am copying”), vocativo epistolar (“Dear Susan”), termos de cortesia (“Please find below”, “Thanks”) e termo de fechamento (“Regards”), apresentando, ao mesmo tempo, características inovadoras relacionadas ao gênero e-mail, como enunciado mais curto – propiciando uma escrita mais amigável –, tendendo a uma certa informalidade, demonstrada pelo enunciador ao utilizar os termos “catch up” e “see you”. 71 (texto 1) Dear Susan, It was very nice to catch up with you last afternoon. Please find below availability for a meeting with Ms. Sue in Dallas. th Thursday – November 10 at 10:00 a.m. I am copying Marsha, her assistant, so you can coordinate schedule directly with her. Thanks. See you. Regards, George ........................................... Prezada Susan, Foi muito bom estar com você ontem à tarde. Envio abaixo a disponibilidade para uma reunião com Srta. Sue, em Dallas. Quinta – 10 de novembro às 10:00h. Estou copiando Marsha, assistente da Srta. Sue, para que você possa coordenar o cronograma diretamente com ela. Grato. Saudações, George O gênero, como entidade comunicativa de ação social, traduz, em seu enunciado, estruturas de autoridade e relações de poder, estabelecendo uma espécie de “contrato” entre os sujeitos do discurso. O enunciador, por sua vez, como ator social, deve identificar as “condições” requeridas para a realização de tal “contrato”, adequando sua produção textual à situação discursiva proposta. Ao enviar o e-mail com cópia para a assistente Marsha, o enunciador George atribui ao outro (o não EU) uma competência linguística semelhante a sua, esperando dele uma contrapartida de conivência. Ao utilizar em sua resposta (texto 2, a seguir) traços ligados ao gênero carta comercial, tais como layout com espaçamento, grafia não contraída “I am doing”, “It will” e termos de cortesia “Please” e “Thanks in advance”, o enunciador Marsha corresponde à competência de linguagem análoga atribuída por George, adequando sua produção discursiva às expectativas geradas pela comunidade discursiva do gênero em questão. 72 (texto 2) Dear Susan, I am doing the final arrangements in Ms. Sue’s schedule and would like to check if it will be possible for her to meet you when she is in Dallas. Please let me know what works best for you and I will provide the adjustments as required. Thanks in advance, Marsha ............................................. Prezada Susan, Estou fazendo os últimos arranjos no cronograma da Srta. Sue e gostaria de saber se é possível para ela encontrá-la quando estiver em Dallas. Favor avisar-me a melhor data e providenciarei os ajustes necessários. Antecipadamente grata, Marsha Ponto igualmente importante a ser considerado na ocasião da produção textual, a interação entre um sujeito discursivo e um receptor, ou de um sujeito discursivo e vários receptores – traço comumente encontrado na postagem cruzada de e-mails –, é fator relevante para a escolha linguística a ser utilizada pelo enunciador, a fim de obter êxito em sua prática discursiva. Assim sendo, observamos que, ao enviar cópia do e-mail para a assistente Marsha (texto 1, anteriormente descrito), o sujeito discursivo George não só expõe o padrão de sua comunicação, como também traduz, ao dirigir-se ao seu interlocutor utilizando o vocativo “Dear Susan”, as relações sociais de relacionamento existentes entre ambos. Cientes de que o aspecto social é fator relevante nas negociações e que as saudações, como uma das formas de traduzirmos esse aspecto, denotam o nível de relacionamento e intimidade dos interlocutores, a não utilização do pronome de tratamento “Ms” ou “Mrs” na sentença de saudação do enunciado de Marsha à Susan (texto 2) denota um grau de intimidade entre enunciador e coenunciador, podendo causar desconforto entre os parceiros e consequente prejuízo às negociações. 73 Como ator social, responsável pela intermediação de negociações, o profissional de secretariado deve ter entendimento das reproduções de estratégias da língua falada presentes na postagem cruzada de e-mails, adequando seu enunciado às exigências da situação discursiva proposta, a fim de evitar possíveis mal-entendidos. (texto 2) Dear Susan, I am doing the final arrangements in Ms. Sue’s schedule and would like to check if it will be possible for her to meet you when she is in Dallas. Please let me know what works best for you and I will provide the adjustments as required. Thanks in advance, Marsha Cientes de que o e-mail formal, direcionado aos colaboradores externos, ou colaboradores com o qual o enunciador tem pouca intimidade social, possui características pertences ao gênero antecessor (como sentença de fechamento), consideramos a não utilização de um fecho, como o vocábulo “Regards”, por parte do enunciador Marsha, como um provável fator de “não monitoramento” da produção textual, motivado pela rapidez exigida do meio, característica citada pelos autores relacionados em nossa pesquisa como traço pertencente ao gênero e-mail. Portanto, classificado como aluno experiente (job-experienced learner)55, embora possua um bom nível linguístico, depreendemos que – como profissional de secretariado, atuando como interface entre os colaboradores – há a necessidade de uma maior conscientização, por parte do enunciador Marsha, com relação ao aspecto social de sua prática discursiva, fator que facilitará a condução de futuras negociações e ascensão profissional. 55 Classificação segundo Ellis e Johnson (1994, p. 17). 74 Análise 2: e-mail como carta O excerto do corpus a ser analisado a seguir, textos 3, 4, 5 e 6, baseia-se na troca de e-mails corporativos entre uma secretária com experiência profissional de mais de 2 anos, porém com pouca experiência no que se refere à escrita empresarial em inglês (nível linguístico de inglês: básico), e um colaborador estrangeiro (pertencente a uma empresa-parceira no exterior). O tema principal da interação é a reserva de hotel no Brasil. Visto que o domínio dos recursos de comunicação e expressão é uma das competências necessárias ao profissional de secretariado nas comunicações interpessoais ou intergrupais, o reconhecimento das características do gênero e-mail corporativo, independentemente do idioma a ser utilizado, é condição primordial para o desenvolvimento e ascensão do profissional de secretariado.56 Conforme exposto anteriormente em nossa pesquisa, o campo do discurso digital se encontra ainda em fase de “transição”, e o hibridismo existente entre “fala” e “escrita” presente nos enunciados dos e-mails desencadeia incertezas, levando, muitas vezes, o enunciador ao não entendimento de tal interação, fazendo, assim, com que utilize escolhas linguísticas inapropriadas ao propósito discursivo. Conforme apresentado abaixo, a limitação linguística, ou seja, a não inversão do auxiliar “will” x sujeito “you” prevista na gramática normativa da língua inglesa para formulação de perguntas, bem como a escolha sintática indevida (utilização do verbo “reserve” sem o infinitivo, no lugar do substantivo “reservation”) e o não entendimento do propósito discursivo, colaboram para o processo de desconstrução da imagem esperada do sujeito discursivo para tal situação, levando à quebra das expectativas geradas pela comunidade discursiva com relação ao gênero e-mail corporativo. 56 As informações desse parágrafo foram coletadas 1) como sendo uma das competências requisitadas do profissional do secretariado, descrita no item VI das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) promulgada pela resolução CNE/CES no. 3 de 23 jun. 2005, e 2) por meio das respostas ao questionário enviado à consultora da área de secretariado, Stefi Maerker, e de anúncios online referentes ao cargo de secretária jr., expostos nos capítulos Introdução e Triangulação de Dados, respectivamente. 75 (texto 3) Paul, You will need reserve too? Maria .................................................... Paul, Você precisará reservar também? Maria Cientes de que os novos gêneros não são criações totalmente originais, mas ancoram-se em outros já existentes, ressaltamos a importância do entendimento – pelo enunciador – dos traços trazidos do gênero antecessor, na ocasião da produção textual. Tendo a carta comercial como um dos gêneros antecessores, o enunciado do novo gênero deve contemplar e adequar-se aos aspectos relacionados à estrutura, coesão e coerência relacionados à carta comercial, a fim de atingir o objetivo da situação discursiva. A não utilização do vocativo “Dear” e do termo de fechamento “Regards”, previstos para a correspondência comercial, demonstra o desconhecimento – por parte do enunciador – de seu lugar de enunciação, isto é, de seus deveres e saberes necessários para que seu enunciado atenda às normas de saudação e cortesia previstas para o gênero e-mail corporativo. Concebendo o gênero como fato social cuja identificação reside na ação social praticada dentro da esfera de atividade em que circula, verificamos, no texto abaixo descrito, que, mesmo diante de um enunciado que apresenta desvios, o coenunciador Paul – que assume agora a posição de enunciador –, a fim de manter a comunicação, utiliza o gênero como algo constitutivo destinado a um propósito discursivo e não como um enunciado livre de coerções. Para tanto, utiliza-se de traços apropriados à correspondência comercial, tais como o uso de vocativo epistolar “Maria” e formas de polidez “Please” e “Thank you”, previstas para o gênero e-mail corporativo. (texto 4) Maria: 76 Please reserve a room for me and a room for Peter (XYZ company) from Tuesday night through Thursday night. Thank you, Paul Smith ........................................................ Maria: Favor reservar um quarto para mim e um quarto para o Peter (empresa XYZ) de terça à noite, até quinta à noite. Grato, Paul Smith Cientes de que a língua não serve apenas como instrumento de transmissão de informações, mas algo constitutivo que, ao mesmo tempo em que torna o enunciador sujeito de seu discurso, o submete a regras, verificamos que a não utilização – no texto 5 – de formas de polidez previstas para o gênero e-mail corporativo, tais como “Could you please inform”, “Is it possible to inform”, ou “I am not allowed to reserve”, desencadeia uma mudança no tom da comunicação (texto 6), até então amigável, causando desconforto entre os interlocutores. (texto 5) Paul, You’ll stay in a double room with Michael or with Sérgio? Because i can’t reserve 2 single rooms. Maria ......................................................................... Paul, Você ficará num quarto duplo com Michael ou com o Sérgio? Porque eu não posso reservar 2 quartos individuais. Maria (texto 6) 77 Maria: To begin with, Michael will stay in a single room. Michael is the President of a USA company, our most important partner and the guest of XXXX. Second of all, as Sérgio will attest through personal experience, no one can sleep in a room with me. If I need to, I will speak with XXX personally about the issue. Regards, Paul Smith .................................................................. Maria: Para começo de conversa, Michael ficará num quarto individual. Michael é presidente de uma empresa americana, que é nossa parceira mais importante e convidado do XXXX. Em segundo lugar, como Sérgio pode comprovar através de experiência pessoal, ninguém dorme no quarto comigo. Caso seja necessário, falarei com o XXXX pessoalmente a respeito desse assunto. Saudações, Paul Smith Diante de tais desvios, o coenunciador Paul – que agora assume o lugar de enunciador – muda sua conduta e, ao lançar mão da elocução de caráter expressivo “to begin with”, o “ator social” Paul faz uso do poder atribuído a sua posição corporativa para mudar o tom da interação entre os interlocutores. Igualmente, a fim de que a mensagem apresente fluidez, ao utilizar o conectivo “second of all” na junção de parágrafos, o enunciador não só faz uso correto da sintaxe, proferindo seu discurso de maneira clara e objetiva, como também reajusta, propositadamente, seu enunciado em função de coerções imediatas à situação. Para ter seu pedido efetivado, ou seja, ao utilizar o verbo de função apelativa “falar com” ↔ “speak with”, o enunciador constrói seu discurso final de maneira que as palavras mudam de sentido, deixando claras as posições dos que as empregam, isto é, revelando a diferença “na relação de forças” existente entre Paul e Maria. 78 Classificada como funcionário iniciante (junior company members)57, Maria é profissional em início de carreira. Conforme dados obtidos em nosso estudo, é importante ressaltar que tais profissionais estão aprendendo a maneira que a empresa opera e podem não estar familiarizados com o que acontece fora de seus departamentos. Deste modo, podem ter menos consciência das necessidades linguísticas em termos de comunicação em situações reais no ambiente de trabalho, sendo suas expectativas, com relação ao aprendizado da linguagem corporativa, moldadas mediante suas experiências na escola.58 Deste modo, tendo a escola como base do conhecimento sociolinguístico relacionado a situações corporativas, a escolha de atividades59 – por parte do docente – a serem utilizadas com tais alunos é fator primordial para o desenvolvimento de sua prática discursiva no ambiente de trabalho. Ao obter uma melhor compreensão das situações discursivas apresentadas no ambiente corporativo, o aluno terá maior chance de êxito na comunicação, evitando situações embaraçosas, que podem acarretar prejuízos às negociações, bem como ao desenvolvimento profissional do enunciador e à imagem corporativa da empresa para a qual trabalha. Análise 3: e-mail como bilhete Essa análise refere-se à troca de correspondências entre uma estagiária, que trabalha na divisão brasileira de uma empresa multinacional, cuja experiência profissional é de 1 ano (nível linguístico de inglês: intermediário), e um membro da empresa pertencente à matriz (localizada no exterior). O tema principal é a tiragem de cópias. 57 Classificação segundo Ellis e Johnson (1994, p. 16). As informações contidas neste parágrafo são baseadas em argumentos de Ellis e Johnson (1994, p. 5). 59 Ellis e Johnson apontam algumas atividades a serem realizadas com alunos com pouca ou nenhuma experiência (pré-serviço): leitura de textos, escrita de artigos em inglês, escrita de correspondência comercial e desenvolvimento de situações corporativas, como reuniões, interações sociais etc. 58 79 Conforme exposto anteriormente em nosso estudo, o bilhete é apontado por pesquisadores60 como um dos gêneros antecessores do e-mail. Quando utilizado neste contexto, o e-mail, em termos gerais, apresenta linguagem não monitorada, tamanho não ultrapassando 5-10 linhas, sem paragrafação, podendo trazer arquivos agregados (attachments). Tendo sua interação discursiva realizada entre colaboradores internos, verificamos, no texto abaixo, traços pertencentes ao gênero e-mail como bilhete, tais como o tamanho de seu enunciado, formato livre de paragrafação (sem espaçamento de uma linha entre eles, comum no sistema bloco utilizado para a língua inglesa) e arquivo agregado. (texto 7) Ana, Thanks for all your help with making these copies. Attached is the scoring guide – it is a pdf of the entire packet. All you need to copy is the second page, with that grid. It is the fourth page of the pdf, and it says page 2 on the bottom of the page. Let me know if this works any better. Regards, Clair .......................................... Ana, Grata por toda sua ajuda ao fazer as cópias. Envio, em anexo, o guia de pontuação – é um pdf do pacote inteiro. A cópia que você precisa fazer é da segunda página, com a tabela. É a quarta página do pdf e está numerada como 2 no final da página. Avise-me se dessa maneira está melhor. Saudações, Clair O gênero, como forma cultural e cognitiva de ação social numa situação comunicativa corrente, estrutura a comunicação, atenuando a pressão entre os membros da comunidade discursiva, promovendo maior chance de êxito na comunicação. 60 Marcuschi (2002, p. 23). 80 Ao manter as expectativas com relação à forma e ao conteúdo da interação esperados para o gênero “e-mail” corporativo como bilhete, ou seja, ao utilizar o vocativo “Ana”, forma de polidez “Thanks” e sentença de fechamento “Regards”, o enunciador Clair expõe os padrões de cortesia peculiares ao enunciado do e-mail corporativo, propiciando maior conforto entre os interlocutores. Sabemos que o enunciador, em seu discurso, presume uma espécie de ritual linguístico implícito entre os interlocutores, escolhendo para si, e impondo ao coenunciador “papéis”, cujas informações devem ser inferidas através do texto. Desta maneira, ao mesclar o vocabulário informal “Let me know” às formas não contraídas “It is” e “Attached is” (a não utilização de formas de contração é peculiar à linguagem formal em inglês), o enunciador Clair impõe um tom um pouco mais formal a sua comunicação, criando expectativas com relação à forma de interação a ser utilizada por seu coenunciador. Entretanto, o coenunciador Ana (que assume agora o papel de enunciador no texto 8, descrito a seguir) quebra as expectativas partilhadas acerca do tom um pouco mais formal utilizado no e-mail anterior, não atendendo à forma de interação “proposta” por Clair ao utilizar marcas de oralidade, como “Hi”, formas contraídas, como “You’re” e “I’ve”, abreviações, como “BR”, e pontos de exclamação. (texto 8) Hi Clair, You’re welcome! I’ve already done all the copies and the scoring guide are clear now. I’ve left all on Peters desk. Have a nice event! BR, Ana ................................................. Olá Clair, Estou à sua disposição! Já fiz as cópias e o guia de pontuação está claro agora. Os deixei na mesa do Peter. Tenha um bom evento! Sds, Ana 81 Sabedores de que os gêneros do discurso, como entidades dinâmicas de ação social, constroem o tempo-espaço de sua legitimação, presenciamos nos novos gêneros da mídia virtual, dentre eles, o e-mail, um forte hibridismo entre “fala” e “escrita”, fazendo-nos rever antigos conceitos ligados à produção textual de seus enunciados. Desta forma, conforme excerto abaixo, mesmo com a ocorrência de desvios gramaticais como “are” e “Peters” e a falta de pronomes de tratamento como “Ms” ou “Mrs” (denotando um grau de intimidade social maior entre os interlocutores), a clareza, objetividade e polidez do enunciado, expressas através de termos como “You’re welcome” e “Have a nice event” propiciam ao discurso (texto 8) o tom amigável necessário às negociações, gerando uma resposta positiva de Clair; conforme texto 9, também mencionado a seguir. (texto 8) Hi Clair, You’re welcome! I’ve already done all the copies and the scoring guide are clear now. I’ve left all on Peters desk. Have a nice event! BR, Ana Resposta de Clair: (texto 9) Obrigado! Thank you so much. I am glad the e-mail version worked out. Clair ............................................ Obrigado! Muitíssimo obrigada. Fico feliz pela versão do e-mail ter funcionado. Clair 82 Tal qual o enunciador Maria (análise 2 de nossa pesquisa), o enunciador Ana (análise 3) é igualmente classificado como funcionários iniciantes (junior company members), isto é, profissionais que estão aprendendo a maneira que a empresa opera. Embora apresentando níveis linguísticos diferentes (Maria: nível linguístico básico e Ana: nível linguístico intermediário), observamos que a principal diferença entre as duas comunicações reside não na limitação de vocabulário, uma vez que o enunciado de Ana também apresenta desvios gramaticais, mas na falta de conhecimento das características apresentadas em enunciados do gênero em questão. O enunciador Ana obtém êxito em sua comunicação validando seus argumentos por meio de layout claro – o que facilita a interpretação do enunciado com maior rapidez – e de utilização de formas de polidez, essenciais para o bom andamento das negociações, seja entre membros internos da empresa ou clientes externos, traço, muitas vezes, negligenciado por enunciadores em início de carreira. Por outro lado, o enunciador Maria, ao ignorar a identidade e o propósito do gênero, negligencia o uso de formas de polidez – necessário na condução de negociações, em qualquer idioma – e utiliza, também, um grau de informalidade na escolha linguística e layout de forma livre, quebrando as expectativas geradas pelos membros da comunidade discursiva com relação ao gênero e-mail corporativo. Assim sendo, devemos ressaltar que, mesmo com limitações linguísticas, ao conscientizar-se sobre o aspecto sociocomunicativo de sua produção textual no ambiente corporativo, o enunciador em início de carreira poderá evitar possíveis mal-entendidos na condução das negociações, alcançando maior chance de êxito na comunicação. Análise 4: e-mail como correio eletrônico Durante a disciplina de Business Writing do curso de secretariado executivo trilíngue, foi possível verificar que, mesmo distinguindo gêneros diversos, os 83 estudantes não conseguiam adequar seu enunciado ao propósito discursivo proposto. Deste modo, estendendo nossa pesquisa ao estudo de outros gêneros igualmente importantes no discurso corporativo, tomando por invariante o lugar institucional empresa, requisitamos aos estudantes que já utilizam o inglês no dia a dia corporativo discorrerem sobre o tema “aquisição de um sistema de vendas” sob a perspectiva de dois gêneros: e-mail formal (carta requisitando informações sobre o produto) e memorando (informando aos funcionários sobre a aquisição de tal produto). Partindo do princípio de que já trabalham como profissional de secretariado utilizando o idioma inglês no dia a dia corporativo, ou seja, utilizam gêneros pertinentes ao discurso corporativo, como o relatório, carta, memorando etc., essa análise tem como objetivo averiguar o conhecimento sociolinguístico que tais estudantes possuem com relação aos diferentes tipos textuais presentes nos gêneros da esfera corporativa, e, em particular, nos gêneros carta e memorando, possibilitando-nos identificar as dificuldades que os levam à não adequação da produção textual aos diferentes gêneros discursivos. Portanto, é sob o ponto de vista do e-mail como um lócus virtual, servindo de base ou ambiente de fixação tanto para o gênero carta, quanto para o gênero memorando, que analisaremos as produções textuais a seguir. Texto 10: e-mail formal (carta requisitando informações sobre o produto) (texto 10) Dear Sir/Madam, I would like to have further details about the new sales system. Could you please tell me what is the biggest advantage in acquiring it? I would also like to know how long the process of implementing it in my company would take. Yours faithly, Margareth Smith Sales Manager ....................................... Prezado Senhor(a), 84 Gostaria de obter maiores informações a respeito do sistema de vendas. Poderia informar-me quais vantagens teríamos em adquirir tal sistema? Gostaria igualmente de ser informada sobre o tempo de implantação do sistema em minha empresa. Atenciosamente, Margareth Smith Gerente de Vendas Conforme texto 10, acima descrito, observamos que o enunciador Margareth adéqua sua produção textual à situação discursiva proposta, utilizando sentenças de abertura “Dear Sir/Madam”61 e fechamento “Yours faithly”62 (apesar da grafia incorreta), formas de polidez “I would like” e “Could you please”, layout e estrutura esperados para o gênero em questão, demonstrando – assim – o conhecimento sociolinguístico requerido para o gênero e-mail corporativo formal. Entretanto, tal adequação não é apresentada no texto 11, descrito a seguir, cujo discurso apresenta desvios que, apesar de não causarem ruídos à comunicação, sugerem o conhecimento parcial do enunciador Pat com relação ao gênero e-mail corporativo formal. Texto 11: e-mail formal (carta requisitando informações sobre o produto) (texto 11) Dear Sir As you may know we are about to change our internal Sales System. This is going to happen because the employees that used to manage it are no longer with us. For that reason I need you to provide us a new one similar as this one so this way the change will not be so dramatic for the sales department. From now on I put my self on your disposal for any doubts you may have. Thank you very much and kind regards, Pat Parker Sales Manager ........................................ Prezados Senhores 61 Quando o destinatário não é conhecido, usa-se “Dear Sir/Madam” na sentença de abertura (COTTON; FALVEY; KENT, 2006, p. 138). 62 Quando o destinatário não é conhecido, usa-se “Yours faithfully” no fechamento (COTTON; FALVEY; KENT, 2006, p. 138). 85 Como os senhores devem saber estamos para trocar nosso sistema de vendas interno. Isto irá acontecer uma vez que os funcionários que lidavam com ele não estão mais conosco. Por essa razão necessito que vocês providenciem um novo sistema semelhante a esse para que a troca não seja tão dramática para o departamento de vendas. Coloco-me à disposição para quaisquer dúvidas que vocês tenham. Muito obrigada e saudações, Pat Parker Gerente de Vendas Cientes de que a correspondência comercial serve como instrumento para o fechamento de negócios, ao não utilizar o espaçamento adequado entre os parágrafos, o enunciador dificulta a legibilidade e consequente interpretação do enunciado, fator de grande importância no momento das negociações, podendo criar uma imagem pessoal e corporativa menos positiva da organização emitente. No mundo atual, em que mulheres e homens ocupam o mesmo nível hierárquico no ambiente corporativo, ao fazer uso somente do vocativo “Sir” na saudação, o enunciador demonstra o desconhecimento sociolinguístico necessário com relação às formas de tratamento esperadas para o gênero e-mail formal quando o destinatário é desconhecido63, ou seja, a utilização de uma saudação que esteja endereçada a ambos os sexos: Sir/Madam. Outro ponto relevante a ser destacado no texto 11 é a falta de pontuação. Segundo estudos realizados em nossa pesquisa64, a pontuação inadequada nos emails deve-se a omissões do enunciador, cuja atitude traz, indubitavelmente, consequências para o contexto da comunicação empresarial, no qual as atitudes prescritivas têm presença marcante, seja de maneira consciente ou inconsciente. Verificamos que, da mesma forma, os erros de ortografia como “my self”, ou o uso inadequado do vocábulo “doubts”, no lugar de “questions”, apesar de não causarem prejuízo à comunicação, expõem o desconhecimento linguístico do enunciador, podendo trazer desconforto às negociações, uma vez que poderá gerar questionamentos quanto à credibilidade do enunciador. 63 64 Argumentos apresentados por Cotton, Falvey e Kent (2006, p. 138). Argumentos apresentados por Crystal (2001, p. 112). 86 Deste modo, ao não considerar a esfera de atividade da ação humana em que o gênero circula, isto é, o lugar institucional empresa, o enunciador coloca sua imagem e credibilidade profissional em risco, bem como a imagem e credibilidade da empresa da qual faz parte, podendo enfraquecer as relações nas negociações entre parceiros. Texto 12: memorando Concebendo os gêneros como “fatos sociais” e não somente como fatos linguísticos, cuja identificação reside na ação social praticada dentro da esfera de atividade em que circula, vemos o quão importante é para o enunciador o conhecimento sobre gêneros diversos, a fim de ter seu texto adequado à situação discursiva em questão. Partilhada entre membros de uma coletividade, a competência genérica atenua a pressão da comunicação existente entre os interlocutores, propiciando maior êxito à comunicação. Ao adequar sua produção textual ao gênero memorando, o enunciador deve ter em mente que, como instrumento de comunicação interna veiculada entre as unidades administrativas da empresa, o memorando tem como traço principal a objetividade, apresentando uma linguagem breve, precisa e direta.65 Cientes de que na mídia virtual o e-mail, como plataforma eletrônica, é igualmente utilizado na forma tradicional do memorando, é importante que o enunciador tenha conhecimento dos traços pertencentes ao gênero antecessor, adequando sua produção textual à finalidade discursiva proposta. Conforme excerto do corpus a seguir, ao utilizar estruturas sintáticas como “the best way to make the best use of it” e “so”, tempos verbais como “I would like to inform” e “I would like to invite” e sentença de fechamento “kind regards” (não utilizada em memorandos na língua inglesa)66, o enunciador Margareth mantém, 65 Argumentos apresentados por Cotton, Falvey e Kent (2006, p. 140). Para Bosco e Hernandes, no gênero memorando são dispensáveis saudação de abertura, repetição de cargo abaixo da assinatura e saudação final, como “atenciosamente” (2010, p. 69). A mesma opinião é compartilhada por Cotton, Falvey e Kent, para os quais o memorando, em inglês, é finalizado somente com as iniciais do nome do enunciador (2006, p. 140). 66 87 para o memorando, o mesmo tipo textual, narrativo utilizado em seu e-mail (carta formal), ou seja, a mesma sequência de aspectos lexicais, sintáticos, tempos verbais, relações lógicas, descaracterizando o gênero memorando e sua finalidade discursiva: objetividade e concisão do enunciado. (texto 12) Dear all, I would like to inform you that we have implanted a new sales system which will be on by the 14th of the current month. I would really appreciate ideas about the best way to make the best use of it, so I would like to invite all of you to participate of the meeting that will take place on th February 5 . I am looking forward to seeing you at the meeting. Kind regards, Margareth Smith Sales Manager ........................................ Prezados, Gostaria de informá-los que implantaremos um novo sistema de vendas que estará em funcionamento a partir do dia 14 do mês corrente. Gostaria muitíssimo de ideias sobre a melhor maneira de fazer um bom uso dele, então gostaria de convidá-los para participar de uma reunião que será realizada em 05 de fevereiro. Aguardando vê-los na reunião. Saudações, Margareth Smith Ao dominar vários gêneros de discurso, ou seja, ao considerar os aspectos lexicais, sintáticos, tempos verbais e relações lógicas do gênero, o enunciador terá uma considerável economia cognitiva, atendendo à finalidade discursiva e tendo maior probabilidade de êxito na comunicação e de resultado satisfatório às negociações. Conforme exposto anteriormente em nosso estudo, por não considerar a escrita como parte de suas funções, muitos profissionais não concedem o tempo e disciplina exigidos para o desenvolvimento de tal habilidade. Desta maneira, ao não conceder a disciplina necessária à produção textual, o enunciador Margareth descaracteriza o gênero memorando, dando um aspecto 88 narrativo e não expositivo ao seu enunciado, portanto não atingindo o propósito requisitado pela situação corporativa e demonstrando – assim – desconhecimento sociolinguístico com relação à prática discursiva proposta para a situação. Outro ponto importante a ser considerado na ocasião da produção textual é o entendimento – por parte do enunciador – da diferença entre “texto” e “discurso”. Concebendo o texto como entidade concreta materializada em um gênero discursivo e tendo o gênero como ação social manifestada em uma esfera discursiva institucional, é primordial que o enunciador contemple sua produção textual em interação com o meio no qual está inserida, fazendo com que o discurso se realize por meio do texto. Assim, o uso da sentença de fechamento “best regards” e de estrutura sintática como “to find a new one to replace that one you were used to deal with” – no texto 13, a seguir – indica a quebra, pelo enunciador Pat, dos padrões de objetividade e concisão esperados para o gênero memorando, não adequando seu enunciado à situação discursiva proposta. Tal qual o enunciador Margareth (texto 12), o enunciador Pat (texto 13), ao apresentar desconhecimento sociolinguístico do que seja texto e discurso, faz igualmente uso da narração para o gênero memorando, quebrando, desta maneira, as expectativas geradas pela comunidade discursiva para o gênero em questão. Texto 13: memorando (texto 13) Dear all, Since yesterday we have a new sales system for our department. All the IT group was very kind to help us to find a new one to replace that one you were used to deal with. In order to have a peaceful transition and to prevent any kind of problems I would like to hear from you the first impression about this new system. Next Monday on 3:00 p.m. is already placed a meeting for this proposal. Please, bring your comments, complaints and ideas to help us to improve it. Thank you and best regards, Pat Parker Sales Manager ......................................... Prezados, 89 Desde ontem temos um novo sistema para nosso departamento. Todo o grupo de T.I. foi muito gentil em ajudar-nos a encontrar um novo para substituir àquele com que estávamos acostumados a lidar. A fim de termos uma transição pacífica e prevenir quaisquer tipos de problemas, gostaria de obter de vocês as primeiras impressões sobre o sistema. Na próxima segunda, às 15:00 h, teremos uma reunião para esse propósito. Favor trazer seus comentários, reclamações e ideias para ajudar-nos a melhorá-lo. Grata e saudações, Pat Parker Gerente de Vendas Assim sendo, ao não assumirem o papel para o qual foram legitimados, os enunciadores Margareth e Pat utilizam, para gêneros distintos – carta e memorando –, os mesmos aspectos lexicais, sintáticos e de tempos verbais, negligenciando as diferentes finalidades discursivas do gênero como forma de ação social. 3.2 As habilidades e competências necessárias ao profissional de secretariado sob a perspectiva do mercado de trabalho Tendo como base de nossa proposta de trabalho o ensino da língua inglesa para propósitos específicos em um curso de secretariado, identificamos, conforme já exposto anteriormente em nosso estudo, as principais atividades linguísticas67 requeridas do profissional de secretariado para a execução das tarefas no ambiente de trabalho, por meio das quais abordamos o estudo dos gêneros. Deste modo, buscamos entender, sob a ótica do mercado de trabalho, como tais funções são requeridas do profissional de secretariado; informações que, ao trazerem elementos ligados à execução das tarefas, contribuirão para o aprimoramento de nossa proposta de trabalho. Assim sendo, apresentamos, a seguir, anúncios online capturados dos sites Grupo AGP-São Paulo, Catho e Manager – referentes aos meses de julho e agosto/2014 – requisitando profissionais de secretariado bilíngue em início de carreira, bem como entrevista concedida pela Sra. Stefi Maerker (Diretora/Presidente da SEC Talentos Humanos) em 08/06/2014, cuja íntegra encontra-se no Anexo II. 67 Envio/recebimento de e-mails; atendimento telefônico; recepção de clientes; leitura de sistemas; agendamento de reuniões e viagens; criações de apresentações; leitura de manual técnico; redação de contrato; reserva de hotel e restaurantes. 90 Catho: Anúncio 1 Secretária / Assistente Júnior Bilíngue – 10/07/2014 Atividades: Responsável, majoritariamente, por atividades administrativas de contas a pagar e receber como: administração de pagamentos, suporte à contabilidade terceirizada, relacionamento com fornecedores etc. Trabalhar com atividades pertinentes ao secretariado, como cotações de viagens, renovação de seguros, administração da telefonia móvel, oferecendo suporte administrativo a 2 diretores. Experiência: Necessário experiência como secretária ou assistente administrativa, principalmente nas funções inerentes a contas a pagar e receber. Escolaridade: Ensino Superior completo em Secretariado, Administração de Empresas ou áreas relacionadas. Ter inglês avançado ou fluente, uma vez que o trabalho será desenvolvido no idioma. Possuir registro na SRTE. Regime de contratação: Temporário Anúncio 2 Secretária Bilíngue Júnior – 11/07/2014 Responsabilidades: Programar a agenda de reuniões e itinerários de viagens e coordenar as providências necessárias (contato com agências, reserva de hotel e compra de passagens). Preparar, executar e manter atualizada e organizada as correspondências da diretoria. Organizar e manter os arquivos e documentos da diretoria. Controlar e filtrar contatos telefônicos e pessoais, resolvendo questões de rotina. Receber e encaminhar visitantes nacionais e 91 internacionais. Dar apoio à equipe de staff (gerentes). Desenvolver serviços de tradução (e-mails, comunicados e folders). Realizar atas formais. Experiência na área. Escolaridade: Ensino Superior completo. Inglês: intermediário. Competência: Boa desenvoltura. Grupo AGP-São Paulo: Anúncio 3 Secretária Bilíngue JR – 07/08/2014 Responsabilidades: Irá assessorar o Presidente de uma grande associação, cuidando de agendas, reservas de viagens, hotéis, salas, preparar apresentações das reuniões/atas/ memorandos. Experiência: Redação própria para preparar palestras e reuniões e envio de e-mails; No assessoramento de nível gerencial/diretoria; Em Excel, Power Point. Habilidade em: Atendimento a Clientes; Comunicação; Relacionamento Interpessoal. Competências: Discreta; Proatividade; Flexibilidade; Humildade; Atitude; Iniciativa. Indispensável: Formação: Superior Completa; Inglês Fluente; Disponibilidade de horários. Manager Anúncio 4 Secretaria Bilíngue Júnior – 07/08/2014 Nível: Secretária(o) Área: Administrativa Descrição das atividades: Cuidar de agendas; Reservas de viagens, hotéis, salas; Preparar apresentações das reuniões/ atas/ memorandos. 92 Redação própria para preparar palestras e Experiência: reuniões e envio de e-mails. Ao compararmos as informações contidas nos anúncios online com as informações expostas anteriormente em nosso estudo com relação às competências requeridas para o profissional de secretariado, podemos constatar que as competências estabelecidas pelo MEC68, no tocante à formação de profissionais de secretariado, não diferem das competências requeridas por tais consultorias, para as quais o conhecimento cognitivo que o profissional precisa ter, no que se refere às funções a serem executadas no ambiente corporativo, é de fundamental importância. Por recrutarem profissionais bilíngues, observamos que a necessidade do uso do inglês é mencionada em três dos quatro anúncios capturados, dentre os quais dois mencionam a necessidade de inglês de nível avançado ou fluente, e o outro menciona a necessidade do inglês de nível intermediário para traduções. Esta necessidade – inglês de nível avançado – é também apontada pela Sra. Stefi Maerker, da consultoria SEC Talentos Humanos, como pré-requisito para profissionais em início de carreira, demonstrando, conforme mencionado anteriormente em nossa pesquisa, a relevância na escolha de atividades que propiciem a prática discursiva relacionada à área de atuação do aluno. Observamos, também, que três dos quatro anúncios trazem a redação própria para o envio de e-mails como pré-requisito para a contratação, reafirmando a importância do ensino-aprendizagem do novo gênero da mídia virtual em cursos de inglês para fins específicos. Com relação ao aspecto social da prática discursiva, pode-se observar que as competências requeridas dos candidatos com relação à comunicação interpessoal ou intergrupal é fator marcante em todos os anúncios. Esta posição corrobora o argumento da Sra. Stefi Maerker, ao afirmar que o profissional de secretariado deve 68 Segundo competência descrita no item VI das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) promulgada pela resolução CNE/CES no. 3 de 23 jun. 2005, o profissional de secretariado executivo deverá ter “domínio dos recursos de expressão e de comunicação compatíveis com o exercício profissional, inclusive nos processos de negociação e nas comunicações interpessoais ou intergrupais”. 93 “atuar como interface entre os colaboradores”, posição igualmente defendida em nossa pesquisa, ao abordar o papel que a representação social exerce no mundo corporativo. Mediante tais dados, e cientes de que o percentual de vagas que exige o idioma inglês para profissionais em início de carreira ultrapassa 70%69, reiteramos a importância de atividades que propiciem o desenvolvimento do conhecimento sociolinguístico necessário ao aluno no ambiente corporativo, auxiliando-os em sua entrada e permanência no mercado de trabalho. 69 Dados relacionados à entrevista concedida pela Sra. Stefi Maerker. 94 CONSIDERAÇÕES FINAIS Nosso estudo baseia-se em pressupostos teóricos que se fundam nas relações entre ESP e gênero textual, tendo como metodologia o relato de experiência de alunos do curso de secretariado executivo trilíngue de uma universidade privada. Como instrumento de coleta de dados, iniciamos nossa pesquisa mapeando informações relacionadas a fatores extrínsecos e intrínsecos de aprendizagem desses alunos, identificando, também, a percepção das necessidades linguísticas no tocante ao uso da língua inglesa no ambiente de trabalho e os gêneros com os quais trabalham, por meio dos quais nossa proposta de trabalho é elaborada. Concebendo os gêneros como formas culturais e cognitivas de ação social corporificada por meio da linguagem, buscamos no conceito de representação social subsídios que auxiliem o aluno a refletir sobre a importância deste conceito para a construção de sua prática discursiva. Segundo Moscovici (2011), as representações sociais possibilitam a comunicação entre os membros de uma comunidade em diferentes situações discursivas, ocasião em que nossas ações são moldadas de acordo com o contexto em questão, utilizando-se – para tanto – do emprego de gêneros diversos. Ao trabalharmos com gêneros dentro da abordagem do ESP, trouxemos, para nossa pesquisa, as características que dão suporte a esta abordagem. Para tanto, discorremos sobre a origem e trajetória do ESP, o que nos propiciou, entre vários aspectos, conhecer as diferentes correntes linguísticas que ajudaram na construção de sua concepção atual, a qual, seguindo tendências da linguística textual, muda seu foco da abordagem estruturalista para a funcionalista, aproximando-se do campo do discurso ao dar ênfase ao enunciado em interação com o meio no qual está inserido. Assim sendo, a partir da década de 1980, vemos a utilização de atividades envolvendo situações discursivas, como confirmação de planos, apresentações, almoços de negócios etc., altamente recomendadas por pesquisadores para o ensino-aprendizagem do inglês para fins específicos e, em particular, do inglês para 95 negócios, abordagem utilizada com os alunos do curso de secretariado executivo trilíngue. Considerado por pesquisadores como uma linguagem intermediária entre o inglês geral e o inglês para propósitos específicos, o inglês para negócios apresenta traços relacionados tanto ao inglês geral (ao envolver situações discursivas relacionadas a negociações, como reuniões, telefonemas etc.), quanto ao inglês para propósitos específicos (análise de dados dos alunos, escolha de material específico da área etc.), atendendo às necessidades acadêmicas ou profissionais de alunos de áreas específicas. Deste modo, como elemento facilitador para a escolha e desenvolvimento de atividades que atendam às necessidades dos alunos de secretariado, temos, como demonstrado em nosso estudo, as diferenças e semelhanças presentes em ambas as abordagens (inglês para negócios x inglês regular), pontos muitas vezes não compreendidos na ocasião da formulação da ementa de um curso. Outro ponto trazido por nossa proposta de trabalho e igualmente importante na ocasião da confecção da ementa do curso de inglês para negócios é o reconhecimento – por parte do docente – das necessidades linguísticas de alunos sem ou com pouca experiência (pré-serviço) e alunos experientes. Diante das limitações apresentadas nas instituições, nas quais alunos de diferentes níveis e com experiências diversas são colocados em um mesmo grupo, o consenso na escolha de atividades que atendam às necessidades de ambas as partes (alunos pré-serviço e alunos experientes), bem como a abordagem dos gêneros dentro dessas atividades – por parte do docente –, é de crucial importância para o desenvolvimento do curso, uma vez que a diversidade de níveis apresentase, muitas vezes, como obstáculo à obtenção do objetivo estabelecido. Para minimizar tal problema, apresentamos em nossa proposta de trabalho sugestões de pesquisadores, entre os quais Ellis e Johnson, que indicam, ao curso destinado a profissionais de secretariado, atividades que envolvam competências linguísticas comuns a todos os níveis do profissional, tais como atendimento telefônico, redação de cartas, memorandos, e-mails, recepção de visitantes etc. 96 Igualmente exposto em nossa pesquisa, sabemos que antes da elaboração de qualquer instrumento de coleta de dados precisamos ter consciência do que queremos descobrir, bem como o que faremos com as respostas obtidas. Assim sendo, tendo o envio e recebimento de e-mails apontado na coleta de dados de nosso estudo como principal atividade realizada no ambiente corporativo, e sua redação vista como uma das dificuldades apresentadas pelos alunos para a execução de tarefas no ambiente de trabalho, buscamos trazer subsídios teóricos que nos auxiliassem para um melhor entendimento da ocorrência de tais problemas. Segundo dados de nossa análise, o e-mail encontra-se em um campo em “estado de transição”, trazendo consigo traços inovadores e, como os demais gêneros da mídia virtual, apresentando um hibridismo entre “fala” e “escrita” que nos obriga a rever antigos conceitos presentes nas produções textuais. Entretanto, devemos ressaltar que, como em todo processo de transição, tanto os aspectos antigos como os novos devem ser respeitados pelo enunciador. Cientes de que os gêneros possuem contrapartes preexistentes em outros gêneros, é importante que o enunciador, na ocasião de sua produção textual, tenha bom entendimento de ambos os aspectos, a fim de adequar seu enunciado à prática discursiva em andamento. Tendo a carta, o bilhete e o correio como gêneros preexistentes, o e-mail, em particular o e-mail corporativo, traz, em seu enunciado, traços pertencentes aos gêneros antecessores, gerando expectativas da comunidade discursiva ao qual o gênero pertence. Assim sendo, considerando o papel de destaque que o gênero e-mail exerce na comunicação empresarial, buscamos, mediante a análise do corpus, formado por produções textuais autênticas de alunos que já utilizam o inglês no mercado de trabalho, verificar como tal “transição” se dá no ambiente corporativo e como é compreendida pela comunidade discursiva à qual o gênero pertence. Tendo como base o corpus, pudemos analisar traços presentes nos enunciados relacionados a aspectos sociais, relação de poder, legibilidade, hibridismo “fala” x “escrita”, polidez etc., os quais podem promover êxito ou fracasso à produção discursiva e consequente condução nas negociações. 97 Outrossim, estando nosso objeto de estudo inserido no ensino superior e, uma vez que “o ensino superior insere-se no contexto social global que determina e é determinado também pela ação dos sujeitos que aí atuam” (PIMENTA; ANASTASIOU, 2008, p. 161), buscamos saber – sob a ótica dos que contratam – qual conhecimento sociolinguístico é requerido dos profissionais de secretariado em início de carreira para a execução de tarefas utilizando a língua inglesa e, em particular, a importância do conhecimento relacionado a gêneros para execução de tais tarefas. Conforme observado, no que se refere aos anúncios online, o aspecto social da prática discursiva é fortemente destacado nas tarefas a serem executadas por profissionais de secretariado, inclusive em início de carreira, corroborando a posição defendida em nosso estudo, ao salientarmos a importância do entendimento – por parte do aluno – de sua prática discursiva e do gênero como fenômeno histórico, vinculado à vida cultural e social do enunciador. Desta forma, a presente pesquisa demonstra a existência de uma estrutura de caráter geral, que proporciona o desenvolvimento produtivo de uma ementa e atividades voltadas para o ESP, tendo como base os seguintes pontos: 1. diagnóstico das estruturas linguísticas utilizadas pelos alunos (gêneros e sua estrutura); 2. estabelecimento de estratégias para apresentação desses gêneros como prática discursiva (áreas de produção textual e leitura); 3. avaliação da produção textual sob o ponto de vista do docente e do aluno. Como conclusão, verificamos que a estrutura de caráter geral, apresentada em nossa proposta de trabalho para alunos do ESP na área de secretariado, pode ser estendida a cursos de outras áreas acadêmicas ou profissionais que exijam conhecimento específico do inglês. 98 REFERÊNCIAS BAUMAN, Z. Modernidade líquida.Tradução de Plinio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. BLAKE, G.; BLY, R. W. The elements of business writing. New York: Longman, 1991. BRANCHER, N.; SANTOS, M. E. M. O domínio das línguas estrangeiras e o profissional de secretariado executivo bilíngue. Secretariado Executivo em Revist@, Passo Fundo, v. 3, 2007. Disponível em: <http://www.upf.br/seer/index.php/ser/article/view/1757>. Acesso em: 03 fev. 2013. BROWN, J. D. Foreign and second language needs analysis. In: LONG, M. H. (Ed.) The handbook of language teaching. Oxford: Blackwell Publishing Ltd., 2011. p. 269-293. COSTA, H. R. O Discurso historiográfico da linguística aplicada brasileira. 2011. 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( ) 18 a 25 anos ( ) 26 a 30 anos ( ) 31 a 35 anos ( ) 36 a 40 anos ( ) 41 a 50 anos ( ) acima de 51 anos. 2) Que cargo você ocupa na empresa em que trabalha? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 3) Descreva as tarefas que você realiza utilizando a língua inglesa em seu ambiente de trabalho. Caso tenha dificuldade na execução de alguma das tarefas, especifique-a. ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 103 ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 4) Você já estudou inglês antes? ( ) Não ( ) Sim. Há quanto tempo? _________/ Onde? ___________________ Qual o tipo de material utilizado em seu curso? ________________ Por que parou? ________________________________________ 5) Você estuda inglês atualmente? ( ) Não ( ) Sim. Há quanto tempo? _____________________ / Onde? _______ Qual o tipo de material utilizado em seu curso atual? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 6) O que você espera de um curso de inglês que atenda às suas necessidades? Qual o tipo de material gostaria que fosse utilizado? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 104 7) Com relação às competências necessárias para o aprendizado da língua inglesa, como você classifica seu nível de inglês: Bom Razoável Fraco Falar Ouvir Ler Escrever Obrigada por participar de nossa pesquisa. Sua informação será de grande valia! 105 ANEXO B – ENTREVISTA ONLINE CONCEDIDA PELA SRA. STEFI MAERKER (DIRETORA/ PRESIDENTE DA SEC TALENTOS HUMANOS) EM 08/06/2014 ROTEIRO DE ENTREVISTA PARA PESQUISA DE DISSERTAÇÃO DE MESTRADO: necessidades linguísticas com relação à Língua Inglesa para o profissional de secretariado 1) Qual o percentual de vagas que exige o idioma inglês para o cargo de secretário(a), incluindo posição de estagiário(a): ( ) 0% ( ) de 10 a 30% ( ) de 31 a 50% ( ) de 51 a 70% ( x ) mais de 70% 2) Qual o nível linguístico de inglês requerido para tais profissionais (início de carreira): Básico Intermediário Avançado Falar x Ouvir x Ler x Escrever x 106 3) Quais as funções executadas por esses profissionais: favor assinalar com um X ao lado da atividade executada Atividades Atendimento telefônico x Agendamento de reuniões x Agendamento de viagens x Conferência x Criação de apresentações x Envio/recebimento de e-mail x Recepção de clientes x Reserva de restaurantes/hotel x Outros (favor especificar abaixo) x Outras atividades: Dar suporte a todo trabalho administrativo e atuar como interface entre os colaboradores Observações: Obrigada por participar de nossa pesquisa. Sua informação será de grande valia!