UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA
Maristela Azevedo de França Oliveira Bastos
QUANDO A CABEÇA NÃO PENSA,
O CORPO PADECE
Rio de Janeiro
2008
MARISTELA AZEVEDO DE FRANÇA OLIVEIRA BASTOS
QUANDO A CABEÇA NÃO PENSA,
O CORPO PADECE
Dissertação apresentada ao curso de
Mestrado Profissional em Psicanálise,
Saúde e Sociedade da Universidade
Veiga de Almeida como requisito parcial
para obtenção do Grau de Mestre. Área
de concentração: Psicanálise e Saúde.
Orientadora: Prof. Maria Anita Carneiro Ribeiro- Pós-doutora
Rio de Janeiro
2008
MARISTELA AZEVEDO DE FRANÇA OLIVEIRA BASTOS
QUANDO A CABEÇA NÃO PENSA,
O CORPO PADECE
Dissertação
apresentada
à
Faculdade
de
Psicologia
da
Universidade Veiga de Almeida,
como parte dos requisitos para
obtenção do título de Mestre em
Psicanálise, Saúde e Sociedade.
Área de concentração: Psicanálise
e Saúde.
Aprovada em 24 de outubro de 2008.
BANCA EXAMINADORA
____________________________________________________________
Prof. Antonio Quinet – Doutor
Universidade Veiga de Almeida – UVA
____________________________________________________________
Prof. Marco Antonio Coutinho Jorge - Doutor
Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ
Aos meus amores Hugo, Victor e
Erik.
À minha mãe (in memoriam), por
sua
incansável
confiança
e
investimento.
Àquelas que elegi como irmãs:
Jane, Júlia, Anna Lúcia, Bárbara e
Mônica.
Agradeço a Luiz Augusto Bittencourt Fabriani, testemunha e incentivador de
meu percurso em psicanálise.
À minha orientadora, Prof. Maria Anita Carneiro Ribeiro, pelo incentivo na
produção de trabalhos o que possibilitou a emergência do meu desejo por este
material de pesquisa.
A todos os professores do mestrado que direta ou indiretamente contribuíram
com este trabalho.
Aos meus familiares e amigos pelo estímulo e perseverança.
“Toda forma de amor é um descanso
para a loucura”.
Guimarães Rosa
RESUMO
Esta pesquisa visou analisar o “efeito sujeito” excluído pelo discurso rigoroso
da racionalidade científica sob os ditames do discurso do capitalista. Foi realizada
uma revisão bibliográfica do conceito de sujeito do inconsciente formulado
especialmente por Freud e Lacan onde se evidenciou o rechaço à singularidade
seja através do discurso totalitário da religião, seja pelo viés do racionalismo não
menos totalitário representado na atualidade pelas neurociências, que remete a um
corpo despossuído de sujeito cujas patologias psíquicas são consideradas frutos
de uma desregulação neuro-hormonal, com um tratamento pautado
prioritariamente na utilização de psicofármacos. Ao desconsiderar o sujeito como
efeito simbólico e em sua vertente real, pulsional portanto, a ciência recusa a
formulação freudiana de pulsão como “conceito limítrofe entre o anímico e o
somático” o que implica, necessariamente, o sujeito e sua modalidade de gozo. Foi
discutido ainda, o conceito de pulsão de morte manifestando-se sob a forma de
compulsões diversas e/ou fenômenos como efeito desta exclusão que, ao contrário
das formações sintomáticas, apresentam-se fora da representação significante.
Gozo acéfalo não circunscrito falicamente, desconhecido pelo sujeito. Acompanhou
também a teorização lacaniana dos discursos como laços sociais mediadores das
relações entre os falantes onde evidenciou-se, neste nosso momento século XXI,
um predomínio na tecnociência do “saber todo” do discurso do universitário a
serviço do discurso do capitalista promovedor de um empuxo ao consumo ao
reduzir o objeto causa de desejo a “objeto qualquer”, a gadgets que se oferecem à
adição subvertendo a operação característica do desejo e sua conseqüente perda,
acenando assim, com uma proposta de possível completude ao preço da
singularidade. Em suma, esta pesquisa objetivou analisar as conseqüências no
sujeito do horror à diferença como marca do singular, que vem se perpetuando nos
diversos laços sociais da contemporaneidade.
ABSTRACT
This research aimed to analyzes the “subject effect” excluded by the
strong speech of scientific rationality under the capitalism direct speech. A
bibliographical revision was done of the unconscious subject concept formulated
especially by Freud and Lacan where was pointed the repulse to the singularity, by
the general religion speech or being by the rationalism, not less generalist
represented nowadays by the neuro – sciences, that brings us to a body without a
subject that his psycho pathologies are considered a creation from a neuro –
hormonal malfunction, with a main treatment lined in the utilization of psycho –
medicines. Not considering a person as a symbolic effect of his real side, pulsating,
so, the science refuses Freud formulation of pulsating as a “ limit concept between
the aminic and the somatic” what brings, necessarily, the subject and his pleasure
genre. We discussed about the concept of death pulsating manifesting under many
different compulsions or phenomena as an effect of this exclusion that, differently
from the symptomatic formations, show themselves out of the main representation.
Acephalous pleasure doesn’t limited by the brain, unknown by the subject. Also
discussed the Lacan theorization of the speeches as a social bound between the
speakers where was pointed, in this our century of XXI, a predomination of the
techno – science of “to know all” of the university student speech working to the
capitalism speech that promotes consumption when it reduces the wish object to
“any object”, to gadgets that are offered to addition subverting the typical operation
of wish and in consequence of that its lost, looking in this way, with a complete
proposal to the price of singularity. Generally, this research aimed to analyze the
consequences in the person of the fear to the difference as a trade of singularity,
that lasts in many different society bounds of the contemporaneity.
SUMÁRIO
RESUMO
ABSTRACT
1. INTRODUÇÃO, p. 12
2. CAPÍTULO I
DO ESPÍRITO OBSESSOR AO NEUROTRANSMISSOR, p. 21
2.1 SOB O DOMÍNIO DO MAL: O ESPÍRITO OBSESSOR, p. 22
2.2 GUIADO PELA RAZÃO, p. 25
2.3 GUIADO PELA RAZÃO MÉDICA, p. 31
2.3.1
37
As especialidades médicas e o corpo compartimentado, p.
2. 4 TODA WELTANSCHAUUNG É RELIGIOSA, p. 43
3. CAPÍTULO II
O SUJEITO E O GOZO, p. 49
3.1 INSTINTO X PULSÃO, p. 53
3.1.1
Do orangotango ao humano, p. 55
3.1.2
p. 59
A pulsão de morte está para além do princípio de prazer,
3.2 CULTURA E GOZO, p. 67
3.2.1
A Lei Paterna: Possibilidade de sujeito
Totem e Tabu: Possibilidade de civilização, p. 67
3.2.2
Civilização → sujeito → mal-estar, p. 70
3.2.3 O DUALISMO PULSIONAL: BOM X MAU?, p. 73
4. CAPÍTULO III
OS DISCURSOS E A INSTITUIÇÃO, p. 77
4.1 OS MATEMAS: LETRAS E LUGARES, p. 79
4.2 OS DISCURSOS, p. 83
4.3 A INSTITUIÇÃO DE SAÚDE, p. 95
4.3.1
Os discursos na instituição de saúde, p. 95
4.3.2
A Psicologia e os discursos, p. 97
4.3.3
Saúde pública a serviço do discurso do capitalista, p. 101
4.4 A ESCUTA DA SINGULARIDADE: A SAÍDA DO DISCURSO DO
CAPITALISTA, p. 105
5. CONCLUSÃO, p. 110
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS, p. 118
7. APÊNDICE, p. 122
INTRODUÇÃO
1. INTRODUÇÃO
A estrutura da dissertação consiste em três capítulos. O capítulo I – “Do
espírito obsessor ao neurotransmissor” – dedicamos à analisar a “despossessão”
do sujeito promovida ora pela religião, ora pela ciência. No subtítulo “Sob o domínio
do mal: o espírito obsessor”, fazemos um breve apanhado do texto freudiano “Uma
neurose demoníaca do século XVII” (1923) no qual Freud afirma que as chamadas
possessões demoníacas seriam, na verdade, formas de manifestação do sofrer
psíquico reconhecendo, ainda, um saber no cerne das “doenças da alma”. O
exemplo freudiano demonstra também o caráter demoníaco que adquire o
acossamento do desejo cujas manifestações causam horror, porque marcam o
humano indelevelmente como sujeito responsabilizando-o em suas escolhas. Tal
como no conto de Cazotte “O Diabo Enamorado” - utilizado por Lacan para falar do
desejo - o demônio ao ser invocado pelo sujeito e, ao surgir das profundezas do
inferno, não o abocanha com sua bocarra, não se apropria do seu corpo. O
demônio interroga: “Che vuoi?” (O que queres?). O que o sujeito (Hanold, João,
Maria) quer? O que lhe causa? O significado do encontro com o Outro do desejo
exige a interpretação do sujeito e, portanto, diz respeito à sua singularidade.
Desejar significa ser interrogado pelo nome próprio e, a partir daí, o
demônio/desejo assumirá a forma do objeto eleito pelo sujeito; por cada um.
Continuando neste primeiro capítulo, no subtítulo “Guiado pela razão”,
abordamos a primeira cisão entre corpo e mente promovida pela conceituação
teórica de René Descartes que, ao pretender alicerçar o conhecimento humano em
bases sólidas e seguras, inaugura a ciência moderna e promove uma ruptura com
o pensamento teológico do obscurantismo medieval. O cogito cartesiano “Penso,
logo sou” propõe a emergência do sujeito a partir do pensamento que, para
Descartes, trata-se de um pensamento qualquer sem atribuições de valor, não
importando erros ou acertos quanto ao conteúdo do pensar, mas a certeza de que
o pensamento funda o sujeito. O sujeito da ciência (cartesiano), neste momento, é
o mesmo da psicanálise, pois a teorização freudiana também propõe o
esvaziamento do conteúdo do pensamento priorizando assim, o sem sentido, os
tropeços cotidianos, os desvios como vias de acesso ao pensamento inconsciente.
Mais adiante, Descartes se separará desta conceituação ao propor provar a
existência de Deus e o primado da alma sobre o corpo. Assim, a filosofia
cartesiana, vai fundar-se como razão. O pensamento cartesiano institui e desaloja
o sujeito na medida em o convoca a aparecer sob a forma de um pensamento
qualquer para depois rechaçá-lo sem sobre ele incidir, no momento em que
objetiva um ideal de racionalidade: “Nem sequer sou homem corporal, mas só
razão”. Com sua divisão substância pensante e substância extensa, o corpo é
apropriado pela ciência enquanto objeto de investigação. Corpo, portanto,
esvaziado de sujeito. Ainda neste mesmo subcapítulo abordamos o conceito de
sujeito para a psicanálise.
No subtítulo seguinte, “Guiado pela razão médica” percorremos o livro
“Nascimento da Clínica” de Michel Foucault para melhor compreender a
apropriação do corpo pela medicina a partir do discurso da racionalidade científica.
Permeamos a “análise descontinuísta da medicina”
proposta por Foucault à
contribuição de Clavreul e seu livro “A ordem Médica”, onde verificamos que o
objeto da medicina é a doença e não o doente, o que exclui totalmente o sujeito e o
seu possível saber sobre os males que o acometem. Clavreul acrescenta
perspicazmente, que a medicina dessubjetiva não só o doente, mas também o
médico na medida em que seu discurso supõe a normatização de uma Ordem
referida à instituição médica pela qual seu representante, o médico, encontra-se
também submetido, levando o autor a concluir que o desenvolvimento das diversas
modalidades de clínica interessam menos que a permanência do discurso, sua
imobilidade. Discurso que retém apenas os aspectos que estão em conformidade,
que possam ser inscritos no próprio discurso e que o protejam do erro. Assim o
doente, o médico e suas singularidades são facetas não utilizáveis pela ordem,
pois podem induzir ao engano, entendendo-se este engano não enquanto erro
médico e, portanto, localizável no discurso, mas do engano possível ao se focar o
doente – com suas particularidades e ambigüidades – e, assim, atribuir outras
causas e soluções fora do discurso médico.
Ultrapassando a divisão corpo/mente proposta por Descartes, a medicina na
contemporaneidade compartimentou-se em subdivisões – as especialidades
médicas – cabendo à psiquiatria as chamadas “doenças da alma”. O próximo
subitem “As especialidades médicas e o corpo compartimentado” propõe discorrer
sobre o atual rumo tomado pela psiquiatria em sua aproximação com as
neurociências. Com a escalada do mapeamento cerebral e o conhecimento
neuroquímico a psiquiatria rejeita seu passado de articulação com a psicanálise
desconsiderando, assim, a existência de um sujeito na causação do adoecimento
psíquico. Então, se as enfermidades psíquicas eram atribuídas às possessões
demoníacas, com os avanços crescentes da ciência, os transtornos mentais
passam a ser considerados disfunções e, por este viés, devem ser regulados pela
ação dos psicofármacos. Desta forma, a história particular de cada sujeito é
irrelevante para o conhecimento de seus males psíquicos que são apropriados pelo
saber todo da tecnociência.
No próximo subcapítulo “Toda Weltanschauung é religiosa”, retomamos a
aproximação freudiana com a ciência e sua conceituação de Weltanschauung
definida como uma tentativa de fechamento, de totalização, a partir de uma
ideologia dominante que supostamente conteria todas as explicações de maneira
integral, o que na conclusão de Freud situa-se entre os desejos ideais dos
humanos (poder dizer não à castração), concluindo que só há uma única e
verdadeira
Weltanschauung;
a
religiosa.
Assim,
qualquer
formulação,
conceituação, teorização que pretenda promover um fechamento, um saber todo,
absoluto, torna-se uma Weltanschauung religiosa, ainda que seus conteúdos
sejam diametralmente opostos à religião. Terminamos o capítulo questionando se
quando a ciência apropria-se do corpo foracluindo o sujeito de seu discurso e, ao
tentar compreendê-lo com sua proposta exclusivamente organicista, não estaria se
transformando numa Weltanschauung e, portanto, numa religião.
Observamos que a psicanálise nasce da ciência, mas promove uma
subversão ao reintroduzir o elemento excluído da ciência – o sujeito – e sobre ele
incidindo. Assim, a psicanálise encontra-se num mais além da ciência numa
relação de extimidade podendo ser exemplificada topologicamente pela figura do
toro, situando-se, assim, num “para além” da ciência, mas derivada dela e faz
alusão a um ponto inapreensível - de real – que, a partir da subversão efetuada
pela psicanálise – de sujeito da ciência a sujeito do inconsciente – instaura um
novo discurso. Então, em continuidade à questão do sujeito, o segundo capítulo
tem como título “O sujeito e o gozo” e inicia-se interrogando de como seria uma
ciência que incluísse o sujeito e, portanto, suas vertentes simbólica e real de gozo.
No subcapítulo “Instinto X pulsão” discorremos brevemente sobre o conceito de
pulsão e o inapropriado do programa instintual no mundo humano. Lacan chama a
pulsão de montagem em oposição à programação instintual onde ocorre sincronia
entre o mundo exterior e a necessidade interna como numa correspondência
biunívoca por não haver o atravessamento da linguagem e seu deslizamento de
sentidos. Na pulsão, ao contrário, não há coerência, há desencontro e, como numa
constante operação de subtração, sempre resta um resíduo que faz relançar o
circuito levando Lacan a nomeá-las de pulsões parciais justamente por não se
aterem à finalidade biológica da sexualidade, mas por se apresentarem no
processo da realidade psíquica (da fantasia). Prosseguindo na conceituação de
pulsão, no subitem “Do orangotango ao humano”, buscamos elucidar a entrada da
linguagem (cultura) no mundo humano separando-nos definitivamente do mundo
harmônico e indiferenciado exemplificado pelo paraíso perdido da metáfora da
criação bíblica do universo e para o qual desejamos sempre retornar. O
subcapítulo “A pulsão de morte está para além do princípio de prazer” faz um
apanhado do conceito de pulsão de morte na obra freudiana permeado por
exemplos
clínicos
deste
gozo
fora
da
representação
significante
que
sobredetermina o sujeito em um empuxo à compulsão e que ultrapassa a repetição
característica do circuito pulsional.
No próximo subcapítulo intitulado “Cultura e gozo”, buscamos elucidar a
entrada na cultura como causa do sujeito evidenciando que ao falante só é
possível o acesso a um gozo interditado (inter- dito) pela palavra: “Aquilo a que é
preciso nos atermos é que o gozo está vetado a quem fala como tal, ou ainda, que
ele só pode ser dito nas entrelinhas por quem quer que seja o sujeito da Lei, já que
a lei se funda justamente nessa proibição.” (LACAN, 1960, p. 836). Em
continuidade a este mesmo tema, o subitem “Lei paterna: possibilidade de sujeito –
Totem e Tabu: possibilidade de civilização”, buscamos evidenciar o rompimento
freudiano do dualismo entre psicologia individual e social a partir de suas
formulações de que a dimensão psíquica encontra-se presente nas organizações e
fenômenos sociais, não se reduzindo, entretanto, à mera transposição de um
conceito a outro, mas de uma realidade psíquica que se faz presente em ambos
lugares, evidenciando assim, uma relação entre a constituição subjetiva e o
surgimento da civilização. Ainda sobre a forma de contenção do gozo, trabalhamos
no próximo subtítulo “Civilização → sujeito → mal-estar”, a entrada da cultura como
reguladora das relações entre os humanos cujo objetivo é domar o gozo mortífero
que nos aproxima de nossos ancestrais primitivos em seu impulso à destruição e à
morte. Porém a entrada da cultura deixa um resto, o mal-estar, uma espécie de
lembrança nostálgica deste momento mítico de indiferenciação, de encontro com a
Coisa.
Acompanhamos o texto freudiano “Mal-estar na civilização” (1930) e
evidenciamos a postura não maniqueísta do cientista Freud cujas teorizações
permitem a coexistência entre os opostos onde os conceitos não se excluem
mutuamente, mas se ligam de uma forma peculiar. O pensamento freudiano é
construído de tal forma que possibilita abrigar formulações que seriam, numa
visada ingênua, incompatíveis, mas em sua perspectiva própria promove uma
articulação
em contigüidade, tal como a banda de Moebius, aproximando-nos
assim, ao próprio conceito de inconsciente e seu princípio de não contradição.
Então, o subtítulo “O dualismo pulsional = Bom X Mau?”, se propõe a questionar
os movimentos de grupo
cuja característica principal é a formação de uma
ideologia de massa tendo como conseqüências a produção
de uma
indiscriminação entre seus membros e o rechaço ao diferente como paradigmas do
“narcisismo das pequenas diferenças”. A identificação entre os iguais promovida
por Eros – pulsão sexual -
possibilita a unidade do grupo, porém indica,
parodoxalmente, o caminho para a destruição, pois o amor narcísico (especular)
das identificações é mortífero na medida em que fomenta a formação e divisão de
grupos alicerçados em uma relação inerentemente mimética que não comporta a
diferença, voltando-se, inclusive, contra o próprio sujeito e o horror ao inconsciente
como marca da singularidade, logo, da diferença.
No último capítulo intitulado “Os discursos e a instituição” nos propomos a
acompanhar a teorização dos discursos como laços sociais proposta por Lacan e a
incidência e circularidade destes discursos em uma instituição de saúde pública
onde evidenciamos a propagada foraclusão do sujeito pela ciência quando a
serviço do capital e o “efeito sujeito excluído”
manifestado em compulsões e
fenômenos (toxicomaníacos, psicossomáticos...).
No primeiro subcapítulo “Os matemas: letras e lugares” , tentamos
esclarecer a disposição das letras da álgebra lacaniana e sua tentativa de
transmissibilidade da psicanálise, indicando ainda, a possibilidade de inúmeras
leituras – “desde que o falado continue preso à sua álgebra” (LACAN, 1960, p. 830)
– na circunscrição desse núcleo real inapreensível pelo simbólico. A utilização das
letras se dá, justamente, por representar esta insubstância característica do real e
sua impossibilidade de simbolização. Na tentativa de apreensão do real algo resta:
a letra.
A teoria dos discursos retira das designadas por Freud, profissões
impossíveis – governar (Discurso do Mestre), educar (Discurso do Universitário) e
analisar (Discurso do Analista) – sua origem, acrescentando a elas outro liame da
ordem da impossibilidade – fazer desejar – nomeado por Lacan como “Discurso da
Histérica”. Lacan conceitua também o Discurso do capitalista, porém sem
considerá-lo um quinto discurso justamente por não prestar-se à conceituação
elementar de discurso como aparelho regulador de gozo (aliás, este discurso não
modera, ao contrário, força-a-gozar). Assim, no próximo subcapítulo “Os
discursos”, nos propomos a seguir a teorização lacaniana dos discursos
apresentadas em seu seminário, livro 17: “O avesso da psicanálise” (1969-70)
Em “Os discursos na instituição de saúde”, buscamos demonstrar a
circularidade destes discursos na instituição, em outras palavras, dar visibilidade à
teoria evidenciando uma dinâmica e não uma estagnação neste ou naquele
discurso, cujas variações ocorrem como modalidades distintas de ato a partir do
dominante de cada discurso: o agente. Em “A Psicologia e os discursos” fizemos
um breve apanhado do texto de Canguilhem “O que é a psicologia” para evidenciar
uma prática clínica que vem se perpetuando nas instituições de saúde pautada
prioritariamente no modelo médico de atendimento e, portanto, tornando-se cada
vez mais próxima das neurociências e do rechaço ao inconsciente. Neste mesmo
subitem, contextualizamos a psicologia na unidade de saúde e os discursos nos
quais encontra-se submetida.
No subitem “Saúde pública a serviço do discurso do capitalista”, analisamos
a gestão de uma unidade de saúde pública onde as especialidades médicas são
oferecidas à população como moedas de troca dos políticos locais. Supomos
assim, uma aproximação com o discurso do capitalista em sua oferta de objetos a
serem vorazmente consumidos, neste caso, consultas, exames, insumos, onde
observamos, novamente, o uso indiscriminado de psicofármacos prescritos pelas
diversas especialidades médicas em um empuxo à drogadição legal. Discutimos
ainda um movimento tomado pela gestão local de saúde rumo à desarticulação do
dispositivo “ambulatório de psicologia” da rede de cuidados de saúde mental.
Entendemos que este movimento de mudança no atendimento do sofrer psíquico
elimina não só o sujeito - desresponsabilizado por seus males - mas também o
lugar de escuta da singularidade representado pelos ambulatórios de psicologia.
Lacan indica como saída do discurso do capitalista, o discurso do analista
que reinaugura o lugar da falta, da divisão do sujeito. Onde a clínica médica se
detém – nas manifestações transferenciais, a psicanálise instaura um novo
discurso e, conseqüentemente uma outra clínica.
Se a partir do discurso do
mestre, próprio da medicina, o saber encontra-se do lado do médico o qual
responde deste lugar, a psicanálise, ao dirigir-se ao outro como sujeito, possibilita a
retificação subjetiva e o saber inconsciente. Assim, no próximo subtítulo “A escuta
da singularidade: A saída do discurso do capitalista” discutimos esta proposição
lacaniana (discurso do analista como saída ao discurso do capitalista) e a hipótese
do aumento progressivo na atualidade da incidência de um gozo fora da
representação que vem se manifestando sob a forma de compulsões diversas e
fenômenos como efeitos da exclusão do sujeito promovidas pelas tecnociências
sob os ditames do discurso do capitalista. Se, aquilo que é foracluído no simbólico
retorna no real, o sujeito, foracluído do discurso da ciência, retorna sob a forma
deste gozo acéfalo?
Apimentamos mais ainda a discussão ao questionar se estas compulsões e
fenômenos podem ser considerados “novos sintomas da contemporaneidade”.
Para tal, recorremos ao texto de Slavoj ŽižeK “Como Marx inventou o sintoma?”
que elucida a máxima lacaniana que atribui a descoberta do sintoma à Marx: “Há
que se buscar as origens do sintoma, não em Hipócrates, mas em Marx, na ligação
que ele foi o primeiro a estabelecer entre o capitalismo e... o quê? Os bons velhos
tempos, daquilo que chamamos os tempos feudais.” (LACAN, 1975, p. 106, apud
ŽIŽEK, op. cit., p. 308) Verificamos com esta afirmação de Lacan, que o conceito
de sintoma em psicanálise não é o mesmo da medicina e, por isso, não é
localizável no discurso médico, ao contrário, figura como sintoma ao conceito
universalizante de patologia localizável no organismo tão em voga nos nossos
tempos de psiquiatria biológica.
Acompanhando o texto de ŽižeK percebemos que
para a psicanálise o
sintoma é aquilo que deflagra o que estava recalcado e representa a negação
interna do discurso totalizante, funcionando como um ponto de exceção. A partir
desta conclusão, terminamos o capítulo com as seguintes questões: Diante do
discurso todo das neurociências, o que irrompe como sintoma e vem fazer exceção
a este discurso? Poderia ser o sujeito? Aquele que apesar de excluído, subsumido
no discurso, teima, insiste e persiste e “não cessa de não se escrever”? Se na
atualidade, a exigência é pela formação de grupos de iguais e exclusão à
diferença, poderíamos dizer que o mal-estar da nossa civilização é a
singularidade?
CAPÍTULO I
DO ESPÍRITO OBSESSOR AO NEUROTRANSMISSOR
“Gary [...] tinha cada vez mais
dificuldade de acreditar que seu
problema não era neuroquímico,
mas pessoal”.
Les Corrections, Jonathan Franzen
2. CAPÍTULO I
DO ESPÍRITO OBSESSOR AO NEUROTRANSMISSOR
O título deste capítulo refere-se a um pequeno fragmento de uma das
reuniões de equipe de um CAPS do qual fazíamos parte há, aproximadamente,
sete anos. Um dos psiquiatras da equipe, amante das neurociências e profundo
conhecedor dos psicofármacos e seus resultados, costumava fazer “manipulações”
com tais drogas na tentativa, para ele certeza, de extinguir os fenômenos
elementares da psicose. Quando, apesar de toda a “alquimia”, os pacientes
permaneciam com suas queixas costumava responder tratar-se, então, de algo
espiritual, desconhecendo assim, que nenhuma droga por mais eficaz que seja é
capaz de fazer calar os efeitos sofridos pelo psicótico do gozo do Outro. Nós, os
demais técnicos da equipe, costumávamos brincar dizendo que ele – o psiquiatra –
“ia do espírito obsessor ao neurotransmissor”.
Esta “lembrança” – nosso pequeno chiste, uma das formações do
inconsciente – nos veio ao iniciar esta dissertação, pois, ao contrário do psiquiatra
em questão, acreditamos no inconsciente e, portanto, podemos nos utilizar dele e,
assim, acrescentar à frase “Do espírito obsessor ao neurotransmissor”, a questão:
“Onde está o sujeito?”, pois em ambas as situações este se encontra ausente.
Suas “aparições”, ou são fruto da possessão de um espírito maligno ou de uma
desregulação neuro-hormonal.
2.1 Sob o domínio do mal: O espírito obsessor
Em seu texto “Uma neurose demoníaca do século XVII” (1923[1922]), Freud
afirma que as chamadas possessões dos séculos anteriores seriam, na verdade,
formas de manifestação do sofrer psíquico:
Não precisamos ficar surpresos em descobrir que, ao passo que as neuroses
de nossos poucos psicológicos dias de hoje assumem um aspecto
hipocondríaco e aparecem disfarçadas como enfermidades orgânicas, as
neuroses daqueles antigos tempos surgem em trajes demoníacos. (FREUD,
1923, p. 97)
Freud estuda um caso de possessão demoníaca a partir de um “manuscrito
do santuário de Mariazell e no qual havia uma descrição pormenorizada da
redenção miraculosa de um pacto com o Demônio, mediante a graça da Santa
Virgem Maria” (FREUD, Ibid, p. 93). Trata-se de um pintor que estabelece um
compromisso com o Demônio devendo pertencer-lhe de corpo e alma por um
período de nove anos. Freud atribui este pacto ao estado melancólico do pintor
após a morte de seu pai, colocando o Demônio, através desse compromisso, como
“substituto paterno”.
Diante da morte do pai e o desamparo sofrido, o pintor não reconhece em si
meios, inclusive de subsistência, para dar continuidade à sua vida necessitando
que um Outro o fizesse por ele. Ao não autorizar-se em suas próprias escolhas
sente-se ameaçado pelo acossamento do desejo e confere à fé e à Igreja a
possibilidade de conforto e cuidados. Entre Deus e o Diabo, o pintor sofre todo tipo
de tentações e culpas. A manifestação demoníaca aparece sob a oferta de
mulheres, dinheiro e poder: “desejam tê-lo como rei para honrá-lo para sempre!”
(Ibid, p. 128)
Após um período de “tentações mundanas”, o pintor agora é assediado pelo
próprio Cristo fazendo-lhe ameaças e exigências severas: “As fantasias de
tentação de nosso desafortunado pintor foram sucedidas por outras acéticas e,
finalmente, por fantasias de punição”. (Ibid, p. 129) Apesar de contraditórias, o
pintor reconhece nas atividades obsedantes o mesmo agente : o Espírito Mau. Ao
longo do texto, Freud revela encontrar-se no próprio sujeito a fonte de seu
sofrimento havendo um conflito - entre as exigências pulsionais e a renúncia à
esta satisfação, apontando assim, para a divisão do sujeito – e um saber no cerne
de toda neurose:
Ainda teve que enfrentar a luta entre sua fruição libidinal da vida e sua
compreensão de que os interesses de autopreservação exigiam
imperativamente renúncia e ascetismo. É interessante ver que o pintor estava
bem ciente da unidade das duas partes de sua moléstia, pois atribui ambas aos
compromissos firmados com o Demônio. (Ibid, p. 133)
A psicanálise atribui ao desejo um caráter demoníaco em sua imposição pela
obtenção de uma satisfação (pulsional) almejada a partir de uma primeira
experiência mítica, porém jamais alcançada. Em outras palavras, há uma perda
inevitável entre a satisfação buscada e a obtida. Numa operação de subtração
permanente onde não há como zerar; a diferença – o que sobra da operação –
relança a busca. Desta forma o desejo adquire sua face de insatisfação ou
impossibilidade e, justamente por isso, força motriz, indicando um lugar de perda
como fundamento ou como causa.
Retornando à Freud e ao seu caso de neurose demoníaca: a partir da morte
do pai – a última castração – o pintor pactua com o demônio/desejo que “tem
muitas coisa a oferecer, que são altamente prezadas pelo homem: riqueza,
segurança quanto ao perigo, [...] e, acima de tudo o mais, o gozo – o gozo de
mulheres belas”. (FREUD, Ibid, p. 101) Mas desejar causa horror, pois marca o
humano indelevelmente como sujeito e, portanto, responsabiliza-o em suas
escolhas. Há um preço a ser pago por aquilo que o torna único: a assunção do seu
próprio desejo e a particularidade que ele lhe confere.
Uma breve digressão. É curioso notar que nos relatos de possessão
demoníaca retirados da literatura ou no caso de Freud, o recurso utilizado pelo
sujeito quando no enfrentamento do “seu demônio” – o horror ao desejo - é recorrer
à mãe. No conto de Cazotte, “O Diabo Enamorado”, por exemplo, o conselho
recebido do Doutor Quebracuernos (leia-se, o exorcista) é o seguinte:
Ouça o que lhe digo: crie laços legítimos com alguém do outro sexo; que sua
respeitável mãe presida sua escolha; e embora aquela por suas mãos possa
ter graças e talentos celestes, o senhor jamais será tentado a tomá-la pelo
Diabo! (CAZOTTE, 1982, p. 106)
Em outras palavras, a escolha feita pelo sujeito e todas as conseqüências advindas
desta eleição diz respeito ao seu desejo (diabo). Já aquelas “presididas pela mãe”,
dizem respeito ao desejo da mãe. O sujeito, nestes casos, apela à mãe contra a
mulher, dividida por excelência, desconsiderando assim, a mulher que há por trás
da mãe, cujo enigma – O que quer uma mulher? – indica o impossível de
responder. Já o desejo da mãe...
É capital. O desejo da mãe não é algo que se possa agüentar assim, que lhes
seja indiferente. [...] Um grande crocodilo em cuja boca vocês estão – a mãe é
isso. Não se sabe o que pode lhe dar na telha, de estalo, fechar sua bocarra. O
desejo da mãe é isso. (LACAN 1970, p. 105)
E o quer a mãe? Fechar sua bocarra, ou seja, reintegrar o seu produto, fazer um
com o filho. Alienar-se ao desejo da mãe significa abolir-se como sujeito. No
exemplo de Freud, o pintor, além de recorrer à intercessão da Virgem Maria para
libertar-se dos assédios demoníacos, ingressa em uma Ordem Religiosa da “Santa
Madre Igreja”, torna-se padre onde, no anonimato da Irmandade, entre iguais,
encontra a “paz almejada”.
2.2 Guiado pela razão
Em sua produção teórica, Freud atribui ao sujeito um saber sobre as
“enfermidades do espírito”, saber este recusado tanto no pensamento medieval
quanto na racionalidade do discurso científico. Ao afirmar a existência de
pensamento no sintoma, confere ao pensamento um para além da consciência e,
portanto, a existência de um lugar Outro, denominado inconsciente, sede não só da
modalidade de pensamento inscrita no sintoma, mas em todas as formações que
ultrapassam o eu – caracterizadas como formações do inconsciente.
Em sua interpretação sobre a obra GRADIVA de Jensen, aborda o
distanciamento da racionalidade científica e o pensamento inconsciente que recebe
da ciência o caráter de uma negatividade, algo que se deve desprezar:
A ciência e a maioria das pessoas cultas sorriem quando se lhes propõe a
interpretação de um sonho. Só as pessoas simples, que se apegam às
superstições e assim perpetuam as convicções da antigüidade, continuam a
insistir que eles são passíveis de interpretação. [...] Entretanto, não é capaz de
refutar de todo a relação entre os sonhos e o futuro, pois o sonho, ao fim de
laboriosa tarefa de traduzi-lo, revelou-se [...] como sendo a representação de
um desejo do sonhador; e quem poderia negar que os desejos se orientam
predominantemente para o futuro?
[...] A ciência [...] explica o sonhar como sendo um processo puramente
fisiológico, por trás do qual não há, conseqüentemente, necessidade de
procurar um sentido, um significado ou um propósito. (FREUD, 1907 [1906], p.
17-8)
Freud revela no exemplo literário, a determinação do inconsciente
mascarada pela lógica da ciência: o arqueólogo ao acreditar-se cético e devotado à
sua pesquisa busca, na verdade, não seu objeto da ciência nas escavações de
Pompéia, mas persegue incessantemente seu objeto de desejo há muito
esquecido/recalcado: “A motivação científica servia de pretexto para a motivação
erótica inconsciente, estando a ciência inteiramente a serviço do delírio.” (Ibid, p.
58)
Assim, podemos notar que tanto a religião quanto a ciência promovem uma
despossessão sim, mas uma desposssessão do sujeito na medida em que ignoram
a existência e o efeito sujeito no adoecer psíquico. Veremos como se dá a
despossessão do sujeito no campo da ciência.
Descartes ao tentar solidificar o conhecimento humano para além das
explicações teológicas do obscurantismo medieval, cuja questão norteadora era a
harmonização de duas vertentes: a “fé” e a “razão”; inaugura a ciência moderna. O
cogito cartesiano, a um mesmo tempo, institui e desaloja o sujeito porque propõe
como verdade a razão consciente desconsiderando, assim, as determinações do
inconsciente – a maior das feridas narcísicas da humanidade.
A filosofia em sua época era dominada pelo método conhecido por
escolástica com acentos notadamente cristãos surgidos da necessidade em
responder às exigências da fé: “os problemas da escolástica são, antes de mais
nada, problemas teológicos e mesmo simplesmente dogmáticos de formulação e
interpretação do dogma às vezes de explicação racional ou mesmo demonstração”.
(MARÍAS, 1980, p. 141). Descartes assim, ao pretender alicerçar o saber sobre
bases
sólidas
e
seguras,
possibilitou,
com
suas
obras,
construir
as
fundamentações da ciência contemporânea.
Em seu “Discurso sobre o Método”, inspirado na matemática, Descartes
propõe provar a existência de Deus e o primado da alma sobre o corpo. Desta
forma, seu cogito “Penso, logo sou” institui paralelamente, segundo Lacan, “um
momento do sujeito, historicamente definido e correlato essencial da ciência”.
(LACAN, 1965, p. 870) Assim, existe um sujeito para a psicanálise que é correlato
– o mesmo – do sujeito cartesiano. Em quê?
Lacan afirma no mesmo texto - “A ciência e a verdade” - mais adiante, que “o
sujeito sobre quem operamos em psicanálise só pode ser o sujeito da ciência”
(Ibid, p. 873). Milner explicita que esta “equação dos sujeitos” proposta por Lacan
concentra na verdade três afirmações: que a psicanálise opera sobre um sujeito
não circunscrito aos efeitos imaginarizantes de um eu – está para além do eu – (1);
que há um sujeito na ciência (2); sendo este o mesmo da psicanálise (3).
Cabe ressaltar que a psicanálise entende por sujeito não aquele das ciências
humanas dotado de características psicológicas, sociais, políticas, afetivas, etc.:
“Há um sujeito distinto de toda forma de individualidade empírica” (MILNER, 1996,
p. 280), não podendo, portanto, ser reduzido à atribuições empiricamente
qualificáveis. Diferente do indivíduo cuja palavra,
em sua etimologia, é não
dividido, indiviso – ou seja, todo – o sujeito da psicanálise é essencialmente
dividido, efeito de significantes e, portanto, impossível de ser representado por
atribuições sociais (religiosas, culturais, sexuais...) na qualidade de signos cujo
lugar encontra-se fixado. A representação significante (reprodução, aparência, em
outras palavras, semblante) supõe similitude, onde nenhum representante pode
representar o sujeito suficientemente. Como já o diz, trata-se de um representante
e não do próprio sujeito, que é sempre fugaz, evanescente.
Diferente do eu, que para Lacan é constituído especularmente desde a
imagem do outro, o sujeito constitui-se a partir do Outro, em referência à linguagem
enquanto efeito da ordem simbólica. Nas palavras de Luciano Elia:
O sujeito do inconsciente não é, em si mesmo, pobre ou rico, branco ou negro,
tampouco – e aí se situa talvez o ponto mais escandaloso da descoberta
freudiana, homem ou mulher. É em sua relação com a alteridade em que para
ele consistem a linguagem, a família, a sociedade, enfim, todos os elementos
do que Lacan denominou o Outro, que o sujeito vai sexuar-se, definir-se
homem ou mulher, e definir também seus demais atributos. (ELIA, 1999, p. 19)
Trata-se da cultura atravessando o sujeito, porém não sobredeterminando-o
rigidamente como acreditavam os behavioristas ao apostar exclusivamente nas
práticas educacionais. Apesar de permeado pela linguagem, o inconsciente é antes
disso, lugar de furo através do qual o sujeito pode emergir como pulsional (do
desejo e do gozo) e, assim, para além da determinação significante.
Retomando Descartes, seu sujeito emerge do Cogito: o ato de pensar funda
o ser: Cogito, ergo sum. Não há também para o pensamento julgamento,
atribuições: “O próprio pensamento mediante o qual o definimos é estritamente
qualquer, ele é o mínimo comum de todo pensamento possível, visto que todo
pensamento, seja qual for [...] pode dar-me ensejo para concluir que existo.”
(MILNER, op. cit., p. 33)
Ainda em seu “Discurso do Método”, 4ª. Parte, Descartes elevou a dúvida a
um método filosófico chamado “Dúvida hiperbólica”. Desta forma, nada lhe merece
confiança. A natureza que se revelava ao homem pelos sentidos é algo totalmente
inseguro. O engano dos sentidos, os erros, fazem com que se tenha que duvidar
de tudo. Há, porém, uma coisa que não pode ser falsa – a sua existência; provada
a partir do pensamento:
Enquanto queria pensar que tudo era falso, era preciso, necessariamente, que
eu, que era quem pensava, fosse algo; e observando que esta verdade: penso,
logo existo, era tão firme e tão segura que mesmo as mais extravagantes
suposições dos cépticos não seriam capazes de abalar, julguei que poderia
admiti-la sem escrúpulos, como constituindo, o primeiro princípio da filosofia
que procurava. (DESCARTES, 1637, apud MARÍAS, op. cit., p. 217)
Assim, para Descartes, não há certo, a não ser eu. Ainda que eu duvide, que
me engane sou o enganado ou o duvidoso. Posso duvidar de tudo, meu
pensamento pode estar equivocado, mas ainda assim, penso. Disto não posso
duvidar: do pensamento independente de qualquer julgamento quanto a correção
ou não do conteúdo do pensar. Lacan salienta que o procedimento freudiano é
análogo ao de Descartes, na medida em que “Freud, onde duvida [...] está seguro
de que em pensamento está lá, pensamento que é inconsciente, o que quer dizer
que se revela como ausente”. (LACAN, 1964, p. 39) No mesmo texto, acima, Lacan
destaca tratar-se de “pensamento ausente... da consciência”.
O pensamento sem qualidades, destituído de atribuições de valor não é
prerrogativa da ciência, ele também é necessário para fundar o inconsciente
freudiano. Assim como em Descartes, para a psicanálise, o sujeito também é
sujeito do pensamento, surge dele, porém, neste caso, trata-se de pensamento
inconsciente que não é fruto de uma irracionalidade, mas possui razão e lógica
peculiares ao inconsciente. Milner esclarece:
Se existe pensamento no sonho (no chiste, nos tropeços da vida cotidiana,
etc.), então o pensamento não é o que dele diz a tradição filosófica;
principalmente ele não é o corolário da consciência de si. [...] Se admitimos que
a proposição negativa ‘a consciência de si não é uma propriedade constitutiva
do pensamento’ se estenografa pelo nome de inconsciente, obteremos o
teorema:
‘se existe pensamento no sonho, existe inconsciente.’
Obtemos ao mesmo tempo o lema:
‘o sonho é a via real do inconsciente’.
E a definição que se reduz do teorema e do lema:
‘afirmar que existe inconsciente equivale a afirmar isso pensa’.
Lacan acrescenta somente a proposição retirada de Descartes e estendida a
Freud:
‘se existe pensar, existe algum sujeito.’ (MILNER, op. cit., p.34)
Evidencia-se na proposição acima duas condições para a fundação do
inconsciente: a existência de um sujeito, que não é produto de uma consciência de
si – não se trata de um eu – e que os pensamentos constitutivos de suas
formações (do inconsciente) sejam destituídos de qualquer qualidade, sejam um
pensamento qualquer. Então, a via de acesso ao inconsciente se dá a partir de
suas formações; os tropeços do eu, suas “bobagens”. E não é esta a regra
fundamental da psicanálise: “fale o que vier à cabeça”? Não se trata aí de avaliar o
que vai ser dito, reconsiderar, mas, ao contrário, de despir-se de qualquer
julgamento; dos valores pessoais e de todo e qualquer atributo que possa consistir
a individualidade fenomenológica. Nas palavras de Luciano Elia:
Freud estabelecia as condições de acesso a um sujeito sem qualidades,
exatamente como o da ciência, só que desta vez acessível [...] e tornado
agente da operação. [...] Freud qualifica o sujeito do inconsciente, o sujeito que,
ele próprio, é sem qualidades. E o convocava a aparecer. (ELIA, op. cit., p. 9)
Do lado do analista, a indicação freudiana é a de manter uma “atenção
flutuante”, uniformemente distribuída, vetando-o assim, a atribuir valoração à sua
escuta, abstendo-se de um lugar de gozo, de uma posição de mestria na qual
haveria uma “seleção prévia de material a ser trabalhado na análise”. Como em
“Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen, Freud atribuía Zoe esta escuta
privilegiada do analista: no lugar de Gradiva (objeto a – objeto causa de desejo do
sujeito Hanold), Zoe não despreza as formações do inconsciente do arqueólogo,
não as julga como irracionalidades, fruto de uma mente insana, mas com suas
respostas (interpretações) de “uma ambigüidade intencional”, aponta para uma
Outra via, a via do inconsciente, interrogando-o quanto ao seu desejo. Ao instaurar
um outro discurso – do analista - a psicanálise instaura também, uma
clínica
diferente da clínica médica sustentada na mestria:
Um dos sentidos dessas palavras ajusta-se ao delírio de Hanold, dirigindo-se
à sua compreensão consciente, mas o outro sentido ultrapassa o delírio e em
geral fornece-nos sua tradução para a verdade inconsciente que ele
representa. Essa capacidade de dar expressão ao delírio e à verdade numa
mesma frase é o triunfo do engenho e do espírito. (FREUD, op. cit., p. 87)
Porém há uma ruptura entre o sujeito do inconsciente e o sujeito cartesiano.
Ao propor “não sou mais que uma coisa que pensa. Nem sequer sou portanto
homem corporal, mas só razão”, a filosofia cartesiana vai fundar-se como
consciência, como razão. Neste momento, o sujeito (do inconsciente), apesar de
suposto pelo cogito, é excluído diante de um ideal de racionalidade científica que,
portanto, o ejeta de seu campo operatório. Em outras palavras, apesar de supor
um sujeito não o coloca em cena sobre ele incidindo em seu campo de saber, ao
contrário, ao fundar-se como (cons)ciência decreta sua exclusão e renega, ainda,
sua origem, ao desconsiderar que o pensamento presume um sujeito e não uma
consciência com atributos, valores, (pre)conceitos. Milner acrescenta:
O freudismo, segundo Lacan, repousa sobre a tripla afirmação de que existe
inconsciente, que este não é estranho ao pensar e que, portanto, ele não é
estranho ao sujeito de um pensar. [...] O inconsciente, na medida em que a
psicanálise lida com ele, não é portanto estranho nem ao sujeito nem ao
pensamento. Em contrapartida nem o sujeito nem o pensamento exigem a
consciência. (MILNER, op. cit. ,p. 35)
Descartes em sua sexta meditação, explicita a primazia do pensamento
sobre o corpo propondo, neste momento, o dualismo Res cogitans e Res extensa:
De um lado tenho uma idéia clara e distinta de mim mesmo, na medida de que
sou apenas uma coisa que pensa e não extensa, e que, do outro, tenho uma
idéia distinta do corpo, na medida em que ele é apenas uma coisa extensa e
que não pensa, é certo que esse eu, ou seja, a minha alma, pela qual sou o que
sou, é inteira e verdadeiramente distinta do meu corpo e pode ser ou existir
sem ele. (DESCARTES, apud MARÍAS, op. cit., p. 218)
Com a divisão substância pensante (Res cogitans) e substância extensa
(Res extensa), o corpo é apropriado pela ciência como objeto de investigação,
inaugurando a idéia de corpo-máquina. Corpo, portanto, destituído de sujeito,
excluído de sua dimensão simbólica e, mais ainda, de sua vertente real de gozo.
A divisão corpo/mente do discurso da ciência, cujo conteúdo foi apropriado
pela medicina, acaba por modificar a figura tradicional do “grande médico, o
médico padrão, um homem de prestígio e autoridade” (LACAN, 1966, p. 8),
transformando-o no cientista que a partir da observação, da percepção, inaugura a
medicina moderna como ciência empírica acabando assim, por rejeitar “a atitude
predominantemente teórica, sistemática, filosófica própria do seu passado.”
(MACHADO, 2006, p. 87)
2.3 Guiado pela razão médica
Assim, para além da conceituação, quantificação e rigor científicos, a
mudança ocorrida na medicina moderna foi ainda mais radical. As transformações
aconteceram, em especial, no nível das relações entre aquele que fala e aquilo de
que se fala, quando, a partir das modificações entre o visível e o invisível e sua
relação com o enunciável, operou-se uma mudança no próprio saber,
apresentando um novo discurso médico que passa a falar uma nova linguagem,
sobre um outro domínio de sua experiência:
a passagem de um espaço de representação ideal taxonômico, superficial, para
um espaço objetivo, real, profundo. Mais explicitamente, a passagem de um
espaço de configuração da doença considerada como espécie nosográfica,
para um espaço de localização da doença, o espaço corpóreo individual.
(MACHADO, Ibid, p. 88)
“O
Nascimento
da
Clínica”
de
Michel
Foucault
faz
uma
análise
“descontinuísta” da medicina, pois não há continuidade entre o conhecimento da
medicina clássica e a medicina clínica, porém a medicina moderna e seu campo de
saber a partir da anatomoclínica, reafirma, em última instância, que o objeto da
medicina, desde sua origem, é a doença e não o doente. Faremos um breve
percurso na obra de Foucault permeada pelas contribuições do psicanalista Jean
Clavreul em seu livro “A ordem Médica”. Para o psicanalista, a constituição do
discurso médico ocorre desde Hipócrates onde se inicia um projeto “objetivo e
objetivante, bem antes de ter alcançado seus frutos de maneira apreciável”.
(CLAVREUL, 1983, p. 34) Assim, mais importante que a correção ou incorreção de
Hipócrates a respeito da causalidade, diagnóstico e terapêutica da moléstia, o que
prevalece é a instauração de um método; um discurso sobre a doença: “um
discurso
que
permite
constituir como fatos elementos que, sem ele,
permaneceriam puramente contingentes, inessenciais”. (Ibid, p. 79)
Retomando a análise de Foucault, a medicina da época clássica é uma
medicina classificatória, tendo como referência o modelo da botânica, o estudo das
espécies, cuja regra de classificação domina a teoria e prática médicas: “antes de
ser tomada na espessura do corpo, recebe uma organização hierarquizadas em
famílias, gêneros e espécies”. (FOUCAULT, 2006, p. 2) Esta classificação desloca
secundariamente a localização da doença no organismo, tendo como sujeito o
“olhar de superfície” do médico e objeto o “espaço plano da classificação das
doenças”. Evidencia-se que a produção do saber médico retira da cena o doente.
O médico deve abstrair as queixas, as particularidades do indivíduo portador da
moléstia:
É preciso que quem descreve uma doença tenha cuidado de distribuir os
sintomas que a acompanham necessariamente, e que lhe são próprios, dos que
são acidentais e fortuitos, como os que dependem do temperamento e da idade
do doente. (SYDENHAM, 1784, apud FOUCAULT, Ibid, p. 7)
Desta forma, tal como em um “quadro” a doença é retratada – “apenas em
um plano, em um instante” – a partir do conhecimento classificatório cuja realidade
não se encontra no corpo, mas no espaço ideal nosográfico. Então, segundo
Machado: “Se a doença sempre se apresenta em um corpo a habilidade do médico
é justamente, saber considerá-la, sem privilegiar essa dimensão factual. “...” A
razão é não haver coincidência entre a doença e o corpo que adoece”.
(MACHADO, op. cit., p. 90)
A figura do médico, assim como a do doente, também é tolerada como
“confusões difíceis de evitar, já que não estão formalmente implicados no “espaço
racional da doença”. Foucault aponta para a função paradoxal da medicina que
consiste, principalmente,
em neutralizá-los, em manter entre eles o máximo de distância para que a
configuração ideal da doença, no vazio que se abre entre um e outro, tome
forma concreta, livre, totalizada enfim, em um quadro simultâneo, sem
espessura nem segredo, em que o reconhecimento se abra por si mesmo à
ordem das essências. (FOUCAULT, op. cit., p. 8)
Clavreul acrescenta que esta dessubjetivação
não se dá apenas do lado do
doente, mas também ocorre no lado do médico cujo discurso supõe a
normatização de uma Ordem referida à instituição médica pela qual seu
representante, o médico, encontra-se também submetido, levando o autor a
concluir que o desenvolvimento das diversas modalidades de clínica interessam
menos que a permanência do discurso, sua imobilidade. Discurso que retém
apenas os aspectos que condizem, que possam ser inscritos no próprio discurso e
que o protejam do erro. Assim o doente, o médico e suas singularidades são
facetas não utilizáveis pela ordem, pois podem induzir ao engano, entendendo-se
este engano não enquanto erro médico e, portanto, localizável no discurso, mas do
engano possível ao se focar o doente – com suas particularidades e ambigüidades
– e, assim, atribuir outras causas e soluções fora deste discurso:
É inexato dizer apenas que a medicina despossui o doente de sua doença, de
seu sofrimento de sua posição subjetiva. Ela despossui do mesmo modo o
médico, chamado a calar seus sentimentos porque o discurso médico exige. Ao
mesmo tempo que o doente, como indivíduo, se apaga diante da doença, o
médico enquanto pessoa também se apaga diante das exigências de seu
saber. A relação “médico-doente”, é substituída pela relação “instituição
médica-doença”. (CLAVREUL, op. cit., p. 49)
A partir da medicina classificatória, representante da medicina clássica
(séculos XVII e XVIII), Foucault analisa as mudanças ocorridas e as rupturas
impostas com o nascimento da clínica, entre esta passagem, como sendo: a
“protoclínica” (século XVIII), a “clínica” (final do século XVIII) e a “anatomoclínica”
(século XIX).
A clínica do século XVIII não representa grandes modificações na
experiência da medicina classificatória, pois não contradiz seus princípios. O
doente é incluído novamente como acidental; o lugar continente da doença cujas
particularidades, mais uma vez, não devem obstar a essência da patologia: “o que
está presente é a doença no corpo que lhe é próprio, que não é o doente, mas o da
sua verdade [...] o doente é apenas aquilo por intermédio de que o texto é
apresentado à leitura”. (FOUCAULT, Ibid, p. 64) Assim, o corpo doente não é
examinado, mas utilizado como um lugar onde se apresenta algo a ser decifrado: a
doença.
Prioritariamente pedagógica, a protoclínica não representa uma ruptura
importante no saber médico pautado na medicina clássica. Não tem a função de
produzir, mas de reproduzir um conhecimento ainda que a presença do corpo
contradiga os ensinamentos do professor. Reprodutora de uma teorização anterior
cuja clínica objetiva ilustrar,
não é um instrumento para descobrir uma verdade ainda desconhecida; é uma
determinada maneira de dispor a verdade já adquirida e de representá-la
sistematicamente. A clínica é uma espécie de teatro nosológico de que o aluno
desconhece, de início, o desfecho. (Ibid, p. 64)
Se na medicina classificatória seu objeto era a área racional de classificação
das entidades patológicas pouco espaço sendo dado à percepção sobre a
manifestação da doença no corpo; na medicina clínica do final do século XVIII, o
olhar que observa produz conhecimento. Observação como produção numa
relação entre o olhar e a enunciação, entre percepção e linguagem: “ser visto e ser
falado se comunicam na verdade manifesta da doença, de que é precisamente
todo o ser. Só existe doença no elemento visível e, conseqüentemente,
enunciável”. (Ibid, p. 104)
Neste momento, a clínica inaugura seu desligamento da medicina
classificatória ao estabelecer uma relação do saber médico a dois saberes fora do
campo da medicina: a análise filosófica de Candillac – a relação entre o ato
perceptivo e a linguagem – e, ainda, o cálculo de probabilidades. Desta forma,
estabelece a um só tempo, um modelo gramatical e matemático: “A clínica abre um
campo que se tornou ‘visível’ pela introdução no domínio patológico de estruturas
gramaticais e probabilísticas”. (FOUCAULT, Ibid, p. 115) É importante ressaltar que
ao falar de linguagem trata-se, na verdade, da “estrutura falada do percebido”, ou
seja, da articulação entre o ver e o dizer numa tentativa de alçada ao modelo
clássico do cientificismo: poder provar racionalmente o observável.
Machado esclarece que “é através da correlação entre a linguagem médica e
seu objeto que Foucault pretende analisar como diferentes tipos históricos de
medicina
se
exercem,
assinalando
rupturas
arqueológicas
a
partir
das
transformações do olhar médico”. (MACHADO, op. cit., p. 115). Porém, podemos
conferir na análise de Foucault (como verificou Clavreul), uma continuidade no
discurso da Ordem Médica: o saber médico sobre a doença e o apagamento da
subjetividade. “O discurso médico é outra coisa que prossegue segundo suas leis
próprias, que impõem sua coerção ao doente e também ao médico”, (CLAVREUL,
op. cit., p. 29)
Então, se na medicina classificatória, a visão da doença manifestada no
corpo era secundária à linguagem descrita na nosografia, com a clínica se
estabelece uma simetria entre olhar e linguagem:
Um olhar que escuta e um olhar que fala: a experiência clínica representa um
momento de equilíbrio entre a palavra e o espetáculo. Equilíbrio precário, pois
repousa sobre um formidável postulado: que todo visível é enunciável e que é
inteiramente visível, porque integralmente enunciável. (FOUCAULT, op. cit., p.
127)
Desta forma, a clínica não é um conhecimento empírico, não se dá a partir
do corpo do doente, mas na articulação entre o olhar médico (do cientista) e a
manifestação dos sintomas. Esse espaço e linguagem serão radicalmente
modificados com a entrada da anatomoclínica, no início do século XIX, sendo
constituída a partir da relação estabelecida entre a clínica e a anatomia patológica:
“O grande corte na história da medicina ocidental data precisamente do momento
em que a experiência clínica tornou-se o olhar anatomoclínico”. (Ibid, p. 152)
A principal característica dessa ruptura é a mudança nas formas de
visibilidade. Trata-se do olhar em profundidade tornando perceptível o oculto na
medida em que situa a doença na densidade do corpo, identificando, desse modo,
o espaço de configuração com seu espaço de localização. O olhar médico percorre
verticalmente o corpo, seguindo um caminho que se estende da superfície
sintomática à superfície tissular, deslizando do manifesto ao oculto.
A possibilidade de variação individual está relacionada à própria estrutura da
doença que se encontra agora ancorada em um corpo doente: “Não é mais uma
espécie patológica inserindo-se no corpo, onde é possível; é o próprio corpo
tornando-se doente”. (Ibid, p. 150) O “invisível das modulações individuais”
encontra visibilidade no descortino anatômico que, com a morte acabará por
revelar, modificando assim, a linguagem médica que passa a fazer ver. Foucault
considera a linguagem e a morte decisivas como possibilitadoras de um saber
sobre o indivíduo enquanto corpo doente:
Definiu-se, então, um uso absolutamente novo do discurso científico: uso de
fidelidade e obediência incondicional ao conteúdo colorido da experiência [...]
– fazer ver, dizendo o que se vê; foi, portanto, necessário situar a linguagem
médica nesse nível aparentemente superficial, mas para dizer a verdade,
profundamente escondido, em que a fórmula da descrição é ao mesmo tempo
gesto de desvelamento. E esse desvelamento, por sua vez, implicava, como
campo de origem e de manifestação da verdade, o espaço discursivo do
cadáver: o interior desvelado. (FOUCAULT, Ibid, p. 216)
O olhar que perscruta, ilumina, dá objetividade. Não é mais redutor subsumido às
descrições patológicas, mas autoriza de em torno dele, organizar-se uma
linguagem racional legitimada pelo fundo estável e visível da morte viabilizando
assim, o ideal da ciência. Clavreul acrescenta que a anatomia patológica também
se encontra inscrita na ordem médica, não apenas pelo rigor de seu procedimento,
mas porque se limita àquilo que o “olhar médico retém”, ou seja, àquilo que é
próprio ao discurso.
Com a possibilidade de ser sujeito e objeto de seu conhecimento, a
medicina, a partir da morte, decreta a exclusão última do sujeito. O espetáculo
emudecido dos corpos sem vida confirma no real – a morte – sua ejeção da cena.
A ampliação de seu campo de saber a partir da dissecação de cadáveres cala,
efetivamente, o inconveniente das queixas do mal-estar inerente aos falantes, bem
como o possível mal-estar do médico frente ao doente agonizante.
Clavreul afirma que a medicina apoiada nas pesquisas biológicas encontra
seu lugar na ciência além de enaltecer-se ao circular por entre os fatores dito
humanos em sua aplicabilidade clínica . Configura-se em um espaço entre o plano
de uma pesquisa biológica purista e imparcial – no rigor científico - e o plano de
aplicação deste saber, respaldando, assim, a investigação científica cujo produto
alcança o caráter de Bem maior para a humanidade onde os fins justificam os
meios, tendo como base um ideal de cura:
há aí o estabelecimento de um verdadeiro estatuto da medicina que se inscreve
no estatuto da ciência, isto é o estabelecimento de uma diferença radical entre
pesquisa pura e desinteressada [...] e pesquisa aplicada, ligada às utilizações
técnicas e pragmáticas do saber. Isto é, o primado concedido à biologia sobre a
medicina faz parte da ideologia da ciência e contribui para reforçá-la.
(CLAVREUL, op. cit., p. 51)
No momento em que as descobertas científicas aproximam-se da medicina,
tais conhecimentos adquirem outra valoração já que o discurso apregoado pela
medicina é de um lugar humanitário. Clavreul por um longo capítulo, discorre a
respeito do “instinto de curar” – como algo natural – que se desenvolveu como
inerente ao discurso e práticas médicas. A partir deste mito, justificam-se os atos
médicos, mesmo os mais horrendos em nome de um “bem maior” para a
humanidade em uma inversão da ética no momento em que se associam ciência e
aplicação médica: “A medicina é a caução moral da ciência.” (CLAVREUL, Ibid. p.,
53). Não pretendemos com esta avaliação promover um bombardeio à ciência e
em especial à medicina, mas demonstrar que suas descobertas e práticas não
existem em um meio inócuo e desinteressado, descontextualizado do imperativo do
capital.
Percebemos aí que a investigação cientifica encontra-se no discurso do
universitário – assunto ampliado no terceiro capítulo desta dissertação - onde o
mestre foi substituído pelo saber que agora está no comando. Estando no
comando, ocorre um imperativo de saber que exige o cumprimento ininterrupto do
mandamento: “Produza saber!” “Saiba mais!” Nas palavras de Lacan: ”Não pensem
que o mestre está sempre aí. O que permanece é o mandamento, o imperativo
categórico Continua a saber. Não há necessidade de que ali haja alguém.
Estamos todos embarcados “...” no discurso da ciência”. (LACAN, 1970, p. 99) O
mestre é o saber e nada pode detê-lo, sendo tudo considerado como objeto –
objetivável para alcançar a objetividade científica.
2.3.1. As especialidades médicas e o corpo compartimentado
Ultrapassando a divisão Res cogitans/Res extensa cartesiana encontramos
na
medicina
da
contemporaneidade,
a
compartimentação
do
corpo
em
“Especialidades Médicas”. À psiquiatria coube as “enfermidades da alma” – embora
seu objeto de pesquisa não tenha correspondido à localização no corpo, pois a
anatomoclínica não respondeu a estas questões no campo da medicina mental inscreve-se como especialidade médica a partir do desenvolvimento farmacológico
em especial com a descoberta da clorpromazina nos anos de 1950 nascendo,
assim, a classe dos antipsicóticos e a psicofarmacologia moderna. Somando-se à
clorpromazina diversas outras substâncias foram descobertas, muitas das vezes
casualmente, tendo a explicação teórica de seus efeitos só posteriormente. Apenas
no final da década de 1960 surgiram os modelos de neurotransmissão cerebral e
da
ação
farmacológica
neurotransmissores
e/ou
sugerindo
que
neuroreceptores.
os
Ao
psicofármacos
formular
o
agiam
nos
modelo
da
neurotransmissão a psiquiatria pôde finalmente compartilhar com as demais
especialidades os mesmos esquemas referenciais – da biologia – e ascender a um
estatuto científico. Desta forma, ao atingir o ideal almejado e identificada aos
instrumentos da ciência passa a privilegiar o modo medicamentoso de tratamento,
supostamente infalível, rejeitando os modelos centrados na palavra.
Na atualidade permanecendo com uma direção acentuadamente biológica e
completamente seduzida pelas neurociências, a psiquiatria desconsidera a
existência de um sujeito na causação do adoecimento psíquico. Procura encontrar
uma causa neurobiológica na tentativa de espacializar, desta vez, os humores do
homem. Então, a partir dos avanços ocorridos no conhecimento cerebral afirma
que a conduta humana pode ser explicada totalmente em termos biológicos o que
acarretaria uma fusão entre neurologia e psiquiatria cujos transtornos psíquicos
passam a ser
tratados neuropatologicamente. Na verdade, objetiva-se a
construção de uma “neurobiologia da personalidade”, onde as nomeadas “doenças
da alma” possam ser classificadas aos moldes de uma biologia do indivíduo,
aproximando conhecimento do cérebro a conhecimento de si mesmo, pois em sua
perspectiva teórica, as neurociências têm para explicação do espírito uma base
exclusivamente materialista
ao nortear-se pelo princípio de que as funções
cerebrais causam o psiquismo.
Com essa abordagem materialista atribui às representações mentais a
arquitetura neuronal: os estados mentais são estados físicos do cérebro. Procura
localizar a subjetividade utilizando para isso de vocabulário fisiológico que seria,
aos moldes da ciência racionalista mais preciso e rigoroso. Assim, a história
particular de cada sujeito deixa de ter relevância para o conhecimento de seus
males psíquicos que, na leitura atual, são provenientes de uma disfunção. Como já
citado anteriormente, o projeto de naturalização do psiquismo vem de longa data
sendo, inclusive, anterior ao advento da psicofarmacologia moderna. O
desenvolvimento das biotecnologias norteadas pelo modelo de neurotransmissão –
incluindo aí os psicofármacos – possibilitou a investigação do Sistema Nervoso em
seus vários aspectos debruçando-se sobre a descoberta de substâncias que
pudessem mimetizar o funcionamento dos neurotransmissores. Sob esta ótica
prioritariamente
funcional,
os
transtornos
decorrentes
deste
desequilíbrio
necessitam ser regulados pela ação dos psicofármacos. À química desregulada do
organismo o único tratamento oferecido é um outro produto químico, desta vez
artificial.
Em “Mal-Estar na Civilização” (1930), Freud destaca o sofrimento do homem
na sua relação com o semelhante e a
pontualidade de prazer que possa ser
extraído em suas satisfações pulsionais diante de um ideal de felicidade
impossível. A civilização impõe renúncia à satisfação pulsional, pois há um
antagonismo irremediável entre as exigências pulsionais e as restrições impostas
pela cultura. Então, há um sofrimento inerente ao processo civilizatório acarretando
uma limitação à vida cujo propósito que é “simplesmente o programa do princípio
de prazer [...] encontra-se em desacordo como mundo inteiro. Não há possibilidade
de ser executado”. (FREUD, 1930, p. 95)
Diante deste mal-estar, o sujeito pode utilizar-se de meios para a evitação do
sofrimento e conquista da felicidade. Tais meios comportam uma variedade de
métodos classificados por Freud de “técnica vital” que são as construções
substitutivas oferecidas pela própria cultura no apaziguamento da dor. Dentre elas
cita o recurso químico como uma forma de tornar-se insensível diante do
impossível de suportar:
O mais grosseiro, embora o mais eficaz, desses métodos de influência é o
químico: a intoxicação [...] que provoca em nós, diretamente, sensações
prazerosas, alterando, também, tanto as condições que dirigem nossa
sensibilidade, que nos tornam incapazes de receber impulsos desagradáveis.
(FREUD, Ibid, p. 96)
Desta forma, diante da dor de existir - vicissitude do falante – a ciência,
através da farmacologia, oferece sua solução química na tentativa de
amortecimento do sofrimento já que produz a sensação de aniquilamento das
tensões internas. Basta observarmos o número cada vez mais crescente de
deprimidos e panicados e suas “pílulas da felicidade” como próteses psíquicas em
um movimento atual chamado de “remedicalização da psiquiatria” (PASNAU, 1987,
apud SERPA Jr. 2001, p. 32) que coincidiu com o avanço progressivo do
conhecimento das funções cerebrais e do mapeamento genético:
Técnicas de reprodução de imagens, eletroneurofisiologia, neuroquímica,
psicofarmacoterapia,
neurobiologia
do
desenvolvimento,
genética,
psiconeuroendocrinologia, epidemiologia, enfim, uma série de campos de
pesquisa nos quais os resultados podem ser quantificáveis e oferecer a
sustentação biologizante procurada por essa versão fin-de-siècle da psiquiatria.
(SERPA Jr.,2001, p. 32)
Na busca incessante pelo rigor científico e ao reduzir os fenômenos
psicopatológicos a transtornos relacionados a uma desregulação neuro-hormonal,
a psiquiatria colocou-se não como produtora de um saber a partir de sua incidência
operatória, mas como subsidiária de um saber fornecido pela pesquisa
farmacológica; mais um meio de produção do capital. Então, a nosografia
psiquiátrica na atualidade constituiu-se através de uma psicopatologia pautada nos
psicofármacos ao se criarem “novas” síndromes e transtornos adornando antigos
sintomas para que possam, enfim, ser medicados. Segundo Roudinesco,
após ter servido de cimento, durante trinta anos, à elaboração da nosologia
psiquiátrica, a psicanálise foi finalmente rejeitada em prol dos psicotrópicos e de
outros modelos explicativos do psiquismo fundados no DSM-IV ou em novas
mitologias cerebrais. (ROUDINESCO, 1999, p. 105, apud QUINET, 2001, p. 8)
Um exemplo disto encontra-se na neurose obsessiva que pela atual classificação
é nomeada por TOC (transtorno obsessivo-compulsivo, ou podemos fazer um
chiste ao aludir à onomatopéia do ritual de “isolar” na madeira da prática obsessiva:
toc-toc-toc) que, a partir de uma série de pesquisas desencontradas quanto ser
uma disfunção ou não, ou seja, apesar da falta de localização cerebral, os
neurocientistas se aferram ao conceito da origem biológica das obsessões e,
portanto, à necessidade de medicação. Assim, a tênue linha indicada por Freud
entre normal e patológico deixa de existir e, sob este viés, passam todos à
categoria de consumidores no momento em que a psiquiatria encontra-se a serviço
do discurso do capitalista, “não só produzindo novas drogas (novos gadgets) mas
também novas categorias diagnósticas que justificam “médica-mente” a utilização
dos psicofármacos”. (QUINNET, ibid, p. 19)
Em seu livro “História da loucura” Foucault apresenta a trajetória do conceito
de loucura a partir da contextualização social, econômica e institucional
propiciando um ambiente fecundo para a atual conceituação de patologia. Da
experiência trágica da desrazão portadora de um saber secreto revelado na
manifestação delirante, à classificação como doença (mental), a loucura torna-se
alienação: “O louco não é mais o insensato no espaço do desatino clássico; ele é o
alienado na forma moderna da doença”. (FOUCAULT, 1987, p. 520). O dicionário
define alienação como alheamento, transferir ao outro, ceder. Cabe lembrar que
estamos nos referindo à alienação no sentido estrito do termo e não ao conceito de
alienação formulado por Lacan. Por este viés, ao ser conceituado como alienado, o
louco, “alheio” à sua experiência torna-se objeto de uma medicina especial com
conceitos e técnicas próprios. Nessa versão o saber encontra-se, exclusivamente,
do lado da ciência e seu representante médico. Para Clavreul a psiquiatria em sua
institucionalização da loucura é, antes, fruto da Ordem Médica como medida de um
domínio sobre o corpo ao “impor o que é mais favorável ao bem de alguém, que
não é considerado capaz de opor um julgamento admissível” (CLAVREUL, op. cit.,
p. 43), porém o corpo é essencialmente lugar de gozo, donde conclui o autor: “O
saber que o corpo tem sobre os caminhos do gozo não é um saber menos
imperativo que o do discurso médico. Ele constitui seu intransponível limite. Ele se
afirma até à morte e à loucura” (Ibid, p. 37), destacando assim, que este limite de
liberdade é marcado pela morte na medicina e pela loucura na psiquiatria estando
a psicanálise autônoma em referência ao campo de saber do discurso médico:
Juntando com um primeiro nó a loucura e a liberdade, Lacan constituía o ponto
de partida de sua própria liberdade com relação à Ordem médica e psiquiátrica.
Ele segue nisto a via indicada por Freud, reconhecendo na loucura das
histéricas outra coisa que não um desafio à medicina, bastando apenas que a
reduzam . (CLAVREUL, Ibid, p. 33)
Conforme observamos, a psiquiatria nunca considerou o sujeito do
inconsciente reconhecendo nele um lugar de saber e verdade sendo a figura
representativa do louco a do alienado. Entretanto, durante sua história, ocorreram
interlocuções com discursos não-médicos ligados à psicanálise e às ciências
humanas. Ao se efetuar uma ruptura com esses saberes a partir de um discurso
predominantemente pautado nas neurociências transformando-se em psiquiatria
biológica, retira qualquer possibilidade de subjetividade na vivência do sofrer
psíquico. Essa desarticulação entre os sintomas e subjetividade impossibilita
definitivamente a apropriação pelo sujeito do seu sofrimento, em outras palavras
impossibilita a retificação subjetiva, sua responsabilidade pelos males de que
padece e se queixa, transformando-se assim, em doente despossuído de sua
subjetividade.
Clavreul salienta que o doente já tem seu lugar designado antecipadamente
pelo discurso médico, lugar de não saber, sendo um indicador de signos e não um
demandante. As poli-queixosas histéricas furam este saber todo da mestria médica
ao demonstrar que o seu corpo não é o mesmo da anatomoclínica. Como o
significante, o sintoma histérico desliza, é migratório, representa todas as doenças
sem sê-las, faz semblante de doença. Logro de doença, logro de objeto, a histérica
recusa a submissão exigida ao doente. O sintoma histérico perturba o saber
instituído ao escapar da versão totalizante e manifestar-se em suas (con)versões:
É da visada totalitária do discurso médico [...] nada querer nem poder saber do
que não lhe pertence, porque é inarticulável em seu sistema conceitual. [...] Esses
elementos, estranhos ao discurso médico, e no entanto singularmente insistentes,
uma vez que é continuamente que os doentes os apresentam ao médico, são
verdadeiramente “não fatos” em relação à medicina. (CLAVREUL, Ibid, p. 84)
Os sintomas histéricos não são alusivos
ao discurso médico, mas se
destinam a um Outro lugar, uma Outra cena nas palavras de Freud, apontando
para o próprio sujeito. Por não ter um lugar no discurso médico, já que
potencialmente demandante, a histérica só pode obter como resposta: “Você não
tem nada”. Podemos brincar um pouco com o significante nada: nada que possa
ser localizável no registro anatômico do corpo em sua relação com a doença e,
portanto, nada que possa ser incluído no discurso médico, pois, como vimos, este
discurso só incorpora aquilo que pode afirmar o próprio discurso o que, portanto,
exclui o nada como elemento vazio, buraco no conjunto do saber. O nada como
lugar vazio pode também ser o do furo indicativo do desejo, levando-nos, mais uma
vez, à causa do sujeito que se encontra subsumido no discurso médico.
É importante destacar que é justamente o furo no saber que possibilita o
avanço da ciência. Lacan nos ensina que o discurso da ciência tem quase a
mesma estrutura do discurso da histérica em virtude de sua estrutura como
produção de saber, sendo justamente este ponto inassimilável, ponto de nãosaber, que se estabelece como causa de incremento. São zonas de sombra
criadas pelo discurso para seu próprio desenvolvimento o que coloca o saber
totalitário científico em um impasse, apontando para um lugar de contradição no
seio da ciência: O modo como resiste aos novos paradigmas demonstra a tentativa
de aferramento aos conceitos constituídos, o que faz objeção à sua suposição de
“desejo de saber”.
2.4 Toda Weltanschauung é religiosa
Em seu texto “A questão de uma Weltanschauung” (Conferência XXXV,
1933[1932]), Freud nos explica o sentido deste conceito, especificamente alemão,
o que suscita dificuldades na tradução para outros idiomas e nos dá uma definição
própria já adiantando ser incompleta:
É uma construção intelectual que soluciona todos os problemas de nossa
existência, uniformemente com base em uma hipótese superior dominante, a
qual, por conseguinte, não deixa nenhuma pergunta sem resposta e na qual
tudo o que nos interessa encontra seu lugar fixo. (FREUD, 1933, p. 193)
Entende-se com este conceito que uma Weltanschauung é uma tentativa de
fechamento, de totalização a partir de uma ideologia dominante que supostamente
conteria todas as explicações de maneira integral o que na conclusão de Freud
situa-se entre os desejos ideais dos humanos (poder dizer não à castração),
concluindo que há uma única e verdadeira Weltanschauung; a religiosa. Neste
texto apresenta as diversas Weltanschauung surgidas em momentos históricos
anteriores, mas ainda presentes, como a arte, a filosofia, a magia e a religião,
sendo esta última a única que poderia fazer frente a uma Weltanschauung
científica, embora reconheça que uma Weltanschauung da ciência “dificilmente
merece um nome tão grandiloqüente, pois não é capaz de abranger tudo é muito
incompleta e não pretende ser auto-suficiente e construir sistemas”. (FREUD, Ibid,
p. 220). Com isso Freud demonstra a relativização da construção de uma
Weltanschauung científica ao rigor da conceituação. Por estas incompletudes, por
ser uma Weltanschauung “muito pobre e sem esperança e de que ela despreza as
reivindicações do intelecto humano e as necessidades da mente humana”
(FREUD, Ibid, p. 194) é que o cientista Freud vai fazer aproximar a psicanálise,
pois as Weltanschauung grandes e poderosas como a religião e seu saber todo
não há espaço para investigação e descobertas, já se encontram completas.
Sustenta a psicanálise a partir da ciência, pois considera o psiquismo objeto de
pesquisa científica tal como os demais objetos não-humanos, ou seja, não
negligencia “aquilo que é mental no universo. Sua contribuição consiste justamente
em ter estendido a pesquisa à área mental”. (FREUD, Ibid, p. 194). Assim, somente
uma Weltanschauung “tão pobre” como a da ciência poderia fazer emergir o
sujeito de que trata a psicanálise, sendo ele, em última instância, o resto, o dejeto
desta Weltanschaunung e sobre o qual a psicanálise vai operar.
A religião em sua certeza sobre a origem e destino humanos e seu conceito
de transcendência ao vencer a morte, vem de encontro ao grande ideal da
humanidade de sobrepor-se à castração. Então, somente uma Weltanschauung
completa e apaziguadora da fundamental angústia do falante, poderia persistir e
insistir apesar do
incremento do discurso racional da ciência. Ao observar no
discurso de seus pacientes neuróticos o mesmo conteúdo destas Weltanschauung
antigas (supervalorização das operações intelectuais, crença na onipotência dos
pensamentos, devaneios, fantasias), Freud conclui que a religião, por exemplo, “é
um equivalente da neurose pela qual o homem civilizado, individualmente, teve de
passar, em sua transição da infância à maturidade” (FREUD, Ibid, p. 204)
Poderíamos inferir então , que há algo que não é respondido pela ciência e retorna
na forma destas Weltanschauung (religião, filosofia, magia, arte) e por isso, não
podem ser negligenciadas pela psicanálise (como o faz a ciência) e nem a elas
aderir.
Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, Freud já adiantava o perigo dos
conceitos totalizantes e massificadores nas formações dos grupos a partir das
identificações promovidas por laços libidinais. Aponta a igreja (religião) como um
dos modelos princeps de laços grupais onde os indivíduos se transformam numa
unidade devendo o grupo “ser duro e inclemente com aqueles que a ele não
pertencem” (FREUD, 1921, p. 125), como percebemos no discurso médico e o
rechaço daquilo que não pode ser apreendido pelo discurso: “ A censura que
exerce o discurso médico provém de que ele não deixa nenhum lugar para o que
não entra na coerência que lhe é própria.” (CLAVREUL, op. cit., 38) Assim, mesmo
a ciência quando corresponde inteiramente a uma Weltanschauung no sentido
estrito tal como definido por Freud, pode tornar-se um laço grupal religioso. Nas
palavras freudianas do texto de 1921:
Se outro laço grupal tomar o lugar do religioso [...], haverá então a mesma
intolerância para com os profanos que ocorreu na época das Guerras de
Religião, e, se diferenças entre opiniões científicas chegassem um dia a atingir
uma significação semelhante para grupos, o mesmo resultado se repetiria uma
vez com essa nova motivação. (FREUD, Ibid, p. 125)
Na perspectiva freudiana a ciência pode tornar-se uma Weltanschauung
religiosa ainda que seus conteúdos sejam diametralmente opostos, porque não são
os conteúdos em si que fazem uma Weltanschauung religiosa, mas seu aspecto
de completude não havendo espaço para perdas, precariedades. Sob este viés,
somente a incompletude de uma Weltanschauung como a da ciência, torna
possível a aproximação com a psicanálise. Ao tornar-se absoluta transforma-se em
uma Weltanschauung religiosa. Resumidamente, podemos concluir que só existe
uma única Weltanschauung no sentido estrito dado por Freud, a religiosa, em
outras palavras, uma “Weltanschauung é uma
Weltanschauung religiosa”.
Curioso perceber algumas aproximações entre religião e ciência ainda em
que pese o surgimento desta última a partir do rompimento com o pensamento
medieval, logo, com o determinismo religioso. As explicações a partir da fé
encontram-se, na atualidade, sob o domínio da razão (apesar da religião encontrarse cada vez mais poderosa) donde poderemos questionar se não saímos do
escrutínio do deus judaico cristão e não estamos hoje sob a reges do mito do
“saber tudo”
da ciência. Ao posicionar-se no discurso do universitário e seu
mandato categórico - “Saiba mais!” “Continua a saber!” - a serviço do discurso do
capitalista na produção de insumos a serem consumidos, a ciência tenta abarcar
o todo e, assim, obturar a falta da qual todo discurso é portador, podendo
transformar-se em uma Weltanschauung religiosa.
As versões biologicistas, como vimos, apresentam o cérebro, a mente, o
corpo, o psiquismo, enfim, em uma dimensão estritamente biológica, direcionando
para uma naturalização, tal como outros fenômenos naturais. Bogochvol
argumenta que este reducionismo faz evocação ao mito bíblico do paraíso
primordial, onde haveria uma harmonização entre homem e natureza. Antes do
pecado original, o homem era um ser natural co-habitante deste paraíso sem
qualquer diferença ou conflito. Desejamos o retorno ao Éden perdido, o que seria o
retorno ao inanimado. Se a religião não conseguiu trazer a igualdade aos homens,
aplacar o mal-estar frente à singularidade, à diferença, a tecnociência nos acena
com sua proposta de padronização. Ao restringir fenômenos psíquicos ao
materialismo cerebral, alcançamos finalmente uma igualdade e uniformidade e se,
por defeito genético, o biológico encontra-se comprometido, podemos usar a
química substitutiva e, assim, atingir a sonhada paridade.
Os transtornos psíquicos concebidos como produtos de um distúrbio
neurofisiológico tratável farmacologicamente nos dirige para uma “psiquiatria sem
psiquismo” (BOGOCHVOL, op. cit., p. 7), esvaziada de sujeito. Ao afirmar que os
transtornos psíquicos são decorrentes de uma disfunção parte de um pressuposto
causal onde um acontecimento biológico tem como efeito uma condição psíquica.
Assim, o sintoma expressaria no psiquismo aquilo que é, em sua essência, uma
disfunção biológica (genética, neurotransmissora), manifestando num registro
(psíquico) aquilo que é da ordem do outro (fisiológico). Ocorre aí uma aproximação
entre psíquico e somático – aparentemente desfaz-se o dualismo corpo/mente para imediatamente o biológico anular o psíquico ao compreendê-lo sob sua
conceituação. Voltamos à velha questão da ciência: afirmar e rechaçar a um só
tempo o sujeito, estando a diferença entre o psíquico e o somático e, portanto, da
ordem do pulsional, foracluído do seu discurso.
A ciência moderna ao reduzir o corpo a objeto a ser perscrutado, examinado,
negando assim sua dimensão simbólica e também real enquanto pulsão,
desconsidera-o como habitado por um sujeito – do inconsciente – pulsional por
excelência. Segundo Vera Pollo, para Lacan “o hiato entre saber e soma se
expandiria proporcionalmente ao progresso da ciência como testemunha de que
nenhuma biologia, por mais sofisticada que seja, pode apreender inteiramente o
corpo dos seres falantes”. (POLLO, 2004, p. 15) Assim, a ciência pode até fazer
desaparecer a doença mental – ao reduzir o sujeito a disfunções moleculares,
genéticas, neurotransmissoras obscurecido por psicofármacos - mas não há como
nos redimir do nosso destino trágico de falantes submetidos à cultura e do malestar inerente a esta condição. Não põe fim à nossa incontornável incompletude, à
nossa experiência trágica da castração, nossa marca como sujeitos. Disto não há
como curar-se.
Para concluir, as palavras de Foucault:
É que o homem ocidental só pôde se constituir a seus próprios olhos como
objeto da ciência, só se colocou no interior de sua linguagem e só se deu nela e
por ela, uma existência discursiva por referência a sua própria destruição: da
experiência da Desrazão nasceram todas as psicologias e a possibilidade
mesma da psicologia, da colocação da morte no pensamento médico nasceu
uma medicina que se dá como ciência do indivíduo. (FOUCAULT, op. cit., p.
217)
Ciência do indivíduo e não do sujeito.
CAPÍTULO II
O SUJEITO E O GOZO
“Toda formação humana tem, por
essência, e não por acaso de
refrear o gozo [...] porque o
princípio de prazer é o freio do
gozo”.
Alocução sobre as psicoses da criança
Lacan,1968
3. CAPÍTULO II
O SUJEITO E O GOZO
O que seria então uma ciência que incluísse o sujeito?
Como desenvolvido no capítulo anterior, a psicanálise nasceu na ciência,
porém promove uma subversão ao reintegrar o sujeito suposto e excluído. Freud
não só desejava aproximar a psicanálise da ciência como também reconhecia
apenas nela e em sua incompletude esta possibilidade. Ao evidenciar ainda que o
tratamento do real na clínica se faz pelo simbólico da teorização psicanalítica,
sustenta mais ainda a proximidade com a ciência, por ser exatamente este o
procedimento científico por natureza: “tratar o real pelo simbólico”. Desta forma
visava afastar a psicanálise não só da religião, como também da filosofia
considerada por ele mais uma Weltanschauug antiga e, portanto, portadora de um
saber globalizante a respeito do homem em sua qualidade imaginária, evitando
assim, qualquer conceito do sujeito que se assemelhasse ao indivíduo e que
fornecesse a possibilidade de compreensão (com-preensão do sujeito pelo outro
no lugar de mestria) aos moldes de uma psicologia metafísica e adaptativa do
comportamento. Luciano Elia propõe “conceber as relações recíprocas entre esses
três campos – Ciência, Filosofia e Psicanálise – de modo borromeano” (ELIA, op.
cit., p. 22)
Psicanálise
R
$
Ciência
S
I
Filosofia
O diagrama representa os três registros propostos por Lacan tendo as
seguintes designações: a Ciência pelo anel do Simbólico, a Filosofia (ou religião,
ou...) pelo anel do Imaginário e a Psicanálise como lugar do Real. Ousamos
acrescentar à representação de Elia, o sujeito do inconsciente na articulação entre
os três anéis, como lugar de dispersão – como vimos, o sujeito é sempre pontual e
evanescente - e por não suportar a apreensão por uma única vertente/registro,
mas como efeito desta intersecção.
Como já mencionado anteriormente, o sujeito da psicanálise é o mesmo da
ciência sem no entanto terem o mesmo procedimento, isto é, não operarem da
mesma forma em referência ao sujeito: o sujeito é para ambas destituído de
qualidades, porém enquanto a ciência o exclui, a partir do seu projeto de uma
lógica exclusivamente racional, a psicanálise, ao não eliminá-lo de sua incidência
operatória, permite a emergência do sujeito do inconsciente. Por considerar o
pensamento
inconsciente - suas formações -
sobre ele incide e opera
possibilitando, ainda, que este sujeito seja o agente da operação. Assim, ocorre
uma subversão do sujeito da ciência pela psicanálise. Como? Luciano Elia afirma
que a psicanálise encontra-se num mais além da ciência numa relação de
extimidade podendo ser exemplificada topologicamente pela figura do toro. Este
mais além em relação à ciência quer dizer “êxtimo em relação a seu referente”
(ELIA, Ibid, p. 24), em outras palavras, situa-se além da ciência, mas derivada dela
e faz alusão a um ponto inapreensível - de real – que, a partir da subversão
efetuada pela psicanálise – de sujeito da ciência a sujeito do inconsciente –
instaura um novo discurso. Nas palavras de Elia:
E isto ocorre porque a ciência é um discurso constituído pela invenção de um
sujeito, o sujeito cartesiano, que no entanto deve ser extraído de seu campo
para que ela opere. A psicanálise começa por confrontar-se com um
determinado real, exatamente à maneira da ciência, mas diante dele faz outra
coisa, opera uma lógica metodológica inédita, que consiste em captar nesse
real, o efeito sujeito excluído da ciência, operação pela qual ela volta-se para a
própria ciência e reduplica a mesma operação: capta, na ciência, o elemento
excluído – o sujeito – situando-o como seu referente real absoluto. (ELIA, Ibid,
p. 26)
Ao excluir o sujeito de seu campo de saber, a ciência situa outros referentes
como seu objeto - de acordo com cada ciência em particular - que, ao defini-lo,
torna-se invariável e submetido ao discurso daquela ciência específica. Ao
recuperar o elemento excluído pela ciência e trazê-lo para seu discurso como
referente absoluto, a psicanálise promove um furo, um rompimento com o discurso
da lógica científica inaugurando um novo discurso. Discurso furado, pois nesta
duplicação de operação e ao reintroduzir o elemento excluído – o sujeito – não o
traz enquanto consistência – mais uma vez não se trata de um eu - mas incluído
como real absoluto, aquele que não cessa de não se escrever, insiste e persiste
em retornar, impossível de ser apreendido, porque essencialmente pulsional, do
desejo e do gozo. A recuperação do sujeito excluído pela ciência inscreve-se na
psicanálise como vazio, o furo real permanentemente contornado pela pulsão.
Luciano Elia representa graficamente (Ibid, p. 33) a relação do sujeito na
ciência e na psicanálise.
CIÊNCIA
PSICANÁLISE
furo
sujeito
A psicanálise não é uma ciência humana, pois considera que o sujeito não
está limitado à gestalt imaginária, ainda em que pese o conceito de gestalt como
“mais do que a soma das partes”, indicando uma organização. O sujeito ultrapassa
tal definição, sendo mais do que um conjunto organizado de
atribuições ditas
humanas por, para além disto, portar a falta, o furo indicativo do desejo. Assim, a
psicanálise o reconhece como efeito da linguagem e, mais ainda, como pulsional e,
portanto, em referência à orientação freudiana de pulsão como “conceito limítrofe
entre o psíquico e o somático” o que implica necessariamente, o sujeito e sua
modalidade de gozo.
Lacan se utiliza de um neologismo para designar a relação do sujeito com o
gozo, relação êxtima ao sujeito, na medida em que o gozo é aquilo que há de mais
estranho e mais íntimo ao sujeito, estando fora do significante, no real. Seu
conceito de objeto a, introduz o real na realidade psíquica, onde o objeto como
falta, surge sem o véu da demanda do Outro. O processo analítico ultrapassa o
sentido do sintoma em sua vertente significante, uma vez que na fantasia - $ ◊ a –
o sujeito encontra-se alienado/separado de seu objeto causa de desejo, estando
ora no lugar de sujeito dividido ($), ora no lugar de objeto (a) e, portanto, em sua
face real de furo, vazio de sentido. Sujeito dividido – do enunciado e da
enunciação, mas sobretudo em sua dupla relação: com a cadeia significante
(simbólica) e com o objeto – que é sempre falta de objeto e, portanto, real – ao
qual encontra-se ligado na fantasia.
3.1 Instinto X Pulsão
Freud chamou de Trieb a
imposição por satisfação característica do
humano que, ao contrário dos animais, não corresponde a um conjunto de
respostas inatas a serviço da necessidade biológica e, portanto, da ordem do
instinto cuja definição do dicionário é:
Substantivo masculino. Impulso natural. O instinto é o impulso, o estímulo
interior que leva os animais a uma ação dirigida à conservação ou reprodução
da espécie. O instinto permanece invariável através dos tempos. O instinto de
conservação é o que impulsiona os seres vivos a se protegerem, cada um a
seu modo de tudo que possa causar dano. (ROCHA, 2000)
Apesar da conceituação reducionista de instinto, percebe-se o inapropriado
de seu uso em relação ao falante visto que este não possui um arcabouço de
resposta prontas para satisfazer e conservar a vida. No humano a satisfação
pulsional está pautada na inexistência da relação sexual não havendo, portanto, o
encontro entre pulsão e objeto, entre “a linha e a agulha, a moça e o rapaz”.
(LACAN, 1965, p. 48) Lacan nomeia de pulsões parciais justamente por não se
aterem à finalidade biológica da sexualidade, mas por se apresentarem no
processo da realidade psíquica (da fantasia). Assim, no humano, aquilo que é da
ordem da sexualidade
passa para as redes da constituição subjetiva, para as redes do significante –
que a sexualidade só se realiza pela operação das pulsões, no que elas são
pulsões parciais, parciais em relação à finalidade biológica da sexualidade.
(LACAN, 1964, p. 167)
Lacan chama a pulsão de montagem em oposição à programação instintual
onde ocorre sincronia entre o mundo exterior e a necessidade interna como numa
correspondência biunívoca, por não haver o atravessamento da linguagem e seu
deslizamento de sentidos.
Representaremos graficamente instinto e pulsão. Para tal, utilizaremos das
palavras do artista e seu acesso ao saber inconsciente:
Bebida é água.
Comida é pasto.
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?
Comida, Titãs
INSTINKT
(Instinto)
A
B
Bebida
água
Comida
pasto
TRIEB
(Pulsão)
A
B
C
D
Você tem
de vinho
Você tem
de caviar
sede
de justiça
fome
de alguém
de quê?
de....
de quê?
de...
Um instinto é momentâneo, pontual, ao ser satisfeito é eliminado até o
aparecimento de uma nova necessidade. Como a “fera daí da sua cova querens
quem devoret, e quando ela encontrou o que ela tem para morder, ela está
satisfeita, ela digere”. (LACAN, Ibid, p. 157) Com a pulsão nenhum objeto é capaz
de saciá-la, de fazê-la calar, pois “não tem dia nem noite, não tem primavera nem
outono, que ela não tem subida nem descida. É força constante”. (Idem)
O corpo da pulsão corresponde ao corpo da necessidade na medida em que
a pulsão tem seu apoio no corpo, sua fonte de excitação é o corpo. Enquanto nos
instintos os órgãos envolvidos são os internos, a pulsão envolve a superfície do
corpo, suas bordas orificiais. A pulsão cria bordas nas aberturas corporais, bordas
erógenas que promovem uma conexão entre o interno e externo , donde podemos
fazer alusão às palavras de Freud de que “ a pulsão é um conceito limítrofe entre o
psíquico e o somático”. A formação das bordas orificiais supõe investimento
libidinal e, portanto, em referência ao campo do Outro, campo das representações
que, a partir daí, transforma o pedaço de carne pulsante em corpo erotizado, um
corpo delimitado por palavras que contam sua história. Lacan representa
topologicamente esta conexão por 8 interior, uma banda de Moebius, onde dentro
e fora, avesso e direito se correlacionam. Este 8 interior desenha esta
superposição do corpo do instinto pelo corpo da pulsão: “Essa imagem nos permite
figurar o desejo como lugar de junção do campo da demanda, onde se
presentificam as síncopes do inconsciente com a realidade sexual.” (LACAN, Ibid,
p. 149)
3.1.2. Do orangotango ao humano
Devemos lembrar que o tempo puramente instintual é mítico. O humano
não habita, inicialmente, um estado de selvageria primária. Habitamos o mundo da
linguagem mesmo antes de nascermos, através de nossa pré-história antecipada
pelo Outro. Desta forma, o programa instintual já se encontra cunhado pela
exigência da linguagem. Podemos observar esta marca da linguagem sobre o
instinto, quando domesticamos um animal. Ocorre uma certa perda de suas
resposta inatas; seu programa passa por modificações como efeito da linguagem
humana.
Como se dá essa ruptura com a natureza? Como este animal que fazia parte
do todo indiscriminado do universo, ao fazer-se falante, separa-se deste todo, mas
a ele quer sempre retornar? A metáfora da Criação do universo da tradição judaicocristã, conta que Deus, após criar o céu e a terra a partir do nada, habitar o mundo
com as mais diversas formas e cores, criou o homem à Sua imagem e
semelhança, dando a ele o poder de nomear Sua obra. Neste momento, o homem,
ao criar um representante (significante) para a coisa, separa-se do real da
natureza, diferencia-se das demais criaturas. Ao se humanizar, perdeu seu
programa instintual passando a possuir uma montagem com caminhos incertos e
errantes: a pulsão.
A passagem da necessidade para a pulsão se dá a partir da demanda do
Outro em seu jogo de demarcação do corpo do bebê. Assim, à fome temos leite,
mas não há objeto que corresponda à pulsão oral. A linguagem barra a
necessidade e produz a pulsão definida como resultado dos significantes da
demanda do Outro sobre a necessidade: “$ ◊ D”. O conceito de pulsão a partir da
demanda do Outro, retira o sujeito do campo da biologia e sua esfera
desenvolvimentista; retira da natureza o que é da ordem do humano. Como cita
Lacan: “A passagem da pulsão oral à pulsão anal não se produz por um processo
de maturação, mas pela intervenção de algo que não é do campo da pulsão – pela
intervenção, o reviramento da demanda do Outro”. (LACAN, Ibid, p. 171) Nesta
operação não há uma correlação direta entre necessidade e demanda, se produz
um resto que é o desejo.
Há uma suposição em Freud de que a pulsão busca uma satisfação que já
foi obtida um dia, antes do interdito que nos tornou humanos. Desde então, ao ser
domada pela linguagem, foi limitada a percorrer as bordas orificiais libidinizadas
pelo Outro. Diante da ameaça que trazia consigo, já que portadora da morte, viu-se
obrigada a se fazer representar por seus representantes. Então, é com a entrada
do significante, o enlaçamento do real pelo simbólico, que se constrói a
possibilidade de (de)limitações dessa pulsação de gozo. O real é, assim, tecido,
matizado pela linguagem e o corpo, ao ser afetado pelo significante, é desvitalizado
de gozo reduzido agora às zonas erógenas. A marca significante forma pequenos
territórios no oceano indiscriminado do gozo que solapava o corpo. Esta
territorialização separa o corpo do gozo; seus enlaçamentos libidinais criam bordas
para satisfação – sempre parcial – de uma pulsão.
Em termos freudianos o alvo da pulsão é a satisfação que, como já
mencionado, teria ocorrido a partir de uma primeira experiência mítica. A busca por
satisfação procura reeditar essa satisfação primeira, infindavelmente, através de
objetos que se oferecem como pretendentes a ocupar o lugar da Coisa (Ding),
irremediavelmente perdida porque nunca foi tida. Cada “objetinho” escolhido vela e
revela que não é através dele que a satisfação desejada será alcançada, porém
alguma será obtida, há satisfação parcial, a única possível. Esta satisfação parcial
obedece à regulação do princípio de prazer e, portanto, diz respeito a uma
moderação de gozo.
A pulsão é imperiosa, é uma força constante (konstante Kraft), nas palavras
de Lacan “tensão estacionária” (Ibid, p. 171) exigente de satisfação, porém
impossibilitada de obtê-la porque não há objeto capaz de realizá-la plenamente:
“no mundo humano, a estrutura como ponto de partida na organização objetal é a
falta de objeto”. (LACAN, 1956, p. 53) Esta falta de objeto, este objeto indiferente
da pulsão, não significa, em contrapartida, qualquer um objeto, mas aquele que se
liga a ela por sua peculiar aptidão como possibilitador de satisfação, ou seja,
objetos eleitos pelo sujeito os quais, supostamente, conteriam atributos da Coisa:
sache com semblante de Ding. Esses atributos estão ligados à história, ao desejo
e à fantasia do sujeito, sendo esta última uma espécie de filtro em relação ao gozo.
É aquilo que dá acesso ao gozo pontualmente. Uma matriz simbólica que permite
mediatizar o encontro com o real do gozo utilizando-se, como já dito, da
multiplicidade de objetos, não sendo estes, porém, plenamente suficientes.
É importante ressaltar que o neurótico aproxima o objeto da fantasia – objeto
pequeno a, objeto causa de desejo – em objeto que acredita que o Outro demanda
para ele, fusionando assim, fantasia e pulsão: $ ◊ D = $ ◊ a. A demanda do Outro
não é suficiente para produzir o objeto causa de desejo, pois a criança pode colarse como objeto da demanda materna, nas palavras de Lacan, permanecer “presa
ao serviço sexual da mãe”. Assim, para aceder ao desejo é preciso separar-se da
demanda do Outro: $ ◊ D → $ ◊ a , desta forma, se o objeto da demanda do Outro
tem face, contorno, o objeto pequeno a é inconsistente, um engodo, puro furo,
necessitando que o sujeito o mascare na medida do seu desejo:
A fantasia é a sustentação do desejo, não é o objeto que é a sustentação do
desejo. O sujeito se sustenta como desejante em relação a um conjunto de
significante cada vez mais complexo. Isto se vê bem na forma de enredo que
esse conjunto toma, onde o sujeito mais ou menos reconhecível, está em algum
lugar, esquizado, dividido, habitualmente duplo, em sua relação a esse objeto
que o mais freqüentemente não mostra mais seu verdadeiro rosto. (LACAN op.
cit.,p. 175)
Nessa busca desenfreada pela Coisa transparece a natureza paradoxal da
satisfação pulsional que, por possuir um teor mortífero, inerente a esse “encontro”,
produz a inacessibilidade do sujeito à plenitude do gozo, exigindo, exatamente,
uma interdição. Nas palavras de Freud: “algo na natureza mesma da própria pulsão
sexual é desfavorável à realização da satisfação completa.” (FREUD, 1912, p. 171)
Então, marcada pela fantasia e sob a regência do princípio de prazer que propõe
gozo parcial, sustentado pelo objeto a, objeto faltoso – opera-se aí uma separação
entre o gozo da Coisa e o desejo que vem do Outro. Esta separação, ou a entrada
da Lei, produz uma perda de gozo com a qual o sujeito deve consentir para aceder
como desejante.
A busca da pulsão é de, no encontro com o objeto, fechar o circuito, no dizer
do poeta “encontrar a mais justa adequação”. Neste encontro suturaria o furo.
Porém por sua satisfação ser parcial “o seu alvo não é outra coisa senão o retorno
ao circuito” (LACAN, op. cit., p. 170). Como não há adequação entre falta e objeto,
sobra um resíduo, algo que não é consumido, o objeto a, objeto perdido, parte da
substância corporal perdida pelo sujeito. Perdas narcísicas que apontam para o
corpo-a-corpo com a Coisa:
E é disso daí que são os representantes, os equivalentes, todas as formas que
se podem enumerar, do objeto a. Os objetos a são apenas meus representante,
suas figurações. O seio – como equívoco, como elemento característico da
organização mamífera, a placenta, por exemplo – bem representa essa parte
de si mesmo que o indivíduo perde ao nascer, e que pode servir para simbolizar
o mais profundo objeto perdido. (LACAN, Ibid, p. 187)
Com esses objetos perdidos, caídos, temos as mais íntimas relações
narcísicas, por isso a tentativa de recuperação cujo modelo ideal de auto-erotismo
“é o de uma boca que beijaria a si mesma. [...] Será que na pulsão, essa boca não
é o que se poderia chamar de uma boca flechada? – boca cosida “...” a instância
pura da pulsão oral, fechando-se sobre sua própria satisfação.” (Ibid, p. 170)
Assim, a pulsão tenta fechar, reintroduzir o objeto perdido e satisfazer-se em si
mesma com este objeto que não tem imagens, nem palavras, permanece nãorepresentado, não-identificado, é um abjeto. E em sua tentativa de fechamento, de
retornar ao inanimado, Lacan resume que “toda pulsão é pulsão de morte”. Mesmo
o corpo mapeado pelo significante, traz em seu bojo a morte, pois a representação
mata a coisa:
O sujeito falante tem o privilégio de revelar o sentido mortífero desse órgão e,
através disso, sua relação com a sexualidade. Isso porque o significante como
tal, barrando por intenção primeira o sujeito , nele faz penetrar o sentido da
morte. (A letra mata, mas só ficamos sabendo disso pela própria letra.) Por isso
é que toda pulsão é virtualmente pulsão de morte. (LACAN, 1960, p. 862-3)
Essa força constante, tensão estacionária, sem dia nem noite, sem
primavera nem outono, sem subida nem descida, nos faz pensar que a pulsão
encontra em uma região de indiscriminação sem alternâncias, necessitando
justamente dos enlaçamentos de Eros para promover alguma distinção. GarciaRoza utiliza-se de uma metáfora para designar o campo das pulsões sexual (de
vida) e de morte: figura e fundo que, porém, não correspondem a duas realidades
com existências independentes, mas uma realidade sob dois modos. No fundo, a
pulsão de morte, indiscriminada; sendo a figura, a pulsão sexual, com suas
delimitações libidinais, marcações que, devido à significação simbólica, são
organizadoras deste fundo opaco. Nas palavras do autor: “O sexual é uma ordem
(ou uma pluralidade de ordens) instituído sobre um fundo pulsional anárquico”.
(GARCIA-ROZA, 2003, p. 70)
3.1.3. A pulsão de morte está para além do princípio de prazer
Freud desenvolve seu conceito de pulsão de morte a partir de duas questões
que se impõem como contraditórias ao funcionamento do aparelho psíquico e sua
tendência ao princípio de prazer: à compulsão à repetição e as atividades oníricas
nas neuroses traumáticas cujo conteúdo – reprodução do trauma – desviaria do
propósito do sonho como guardião do sono e realização de desejo.
Já em seu caso modelo de neurose obsessiva – “Homem dos Ratos” (1909)
– quando seu paciente traz à análise “o suplício da penetração de um rato no
ânus”, observa uma expressão em seu rosto “muito estranha e variada. Eu só
podia observá-la como uma face de horror ao prazer todo seu do qual ele mesmo
não estava ciente.” (FREUD, 1909, p. 171) Patrick Valas (2001) aponta que quando
Freud quer sublinhar o caráter excessivo de um prazer, em vez da palavra Lust
(que traduz como prazer, apetite, desejo) utiliza o termo Genuss (gozo),
conotando-o, em certas situações, com o horror ou o júbilo mórbido.
Apesar de não haver conceituado o gozo, Freud definiu este campo onde se
manifestam o prazer na dor e as repetições indicativas de sofrimento num mais
além do princípio do prazer. Em seu texto “O Problema Econômico do
Masoquismo” (1924), conclui que para além de um certo limiar, desprazer
transforma-se em prazer:
No caso de um grande número de processos internos a excitação sexual surge
como um efeito concomitante tão logo a intensidade desses processos passe
para além de certos limites quantitativos [...] De acordo com isso, a excitação
do sofrimento e desprazer estaria fadada a ter o mesmo resultado. (FREUD,
1924, p. 203)
Seu texto inicial para a construção do conceito de pulsão de morte, “Além do
Princípio de Prazer” (1920) vai gradativamente conduzindo o leitor a este campo
brumoso do gozo que se encontra num mais além, ultrapassa o princípio de prazer.
E o que seria isto?
Como já mencionado, o funcionamento do aparelho psíquico é governado
por um princípio regulador cuja função é garantir prazer e evitar desprazer. Prazer
e desprazer estão relacionados com a quantidade de excitação presente na vida
psíquica. Aumento de excitação é realizado como desprazer, enquanto diminuição
está relacionada ao prazer. Em nota do tradutor (nota 2, p. 183), o termo alemão
Lutstprinz, princípio de prazer, tem dois sentidos: um sensorial (1) e outro
motivacional (2), sendo: 1. sensações prazerosas que ocorrem nos e a partir dos
órgãos excitados e; 2. pique, ânimo. Tem uma conotação semelhante a “tesão” em
português que, retirando o teor chulo, compreende ambas definições. Assim, por
estes dois sentidos, princípio de prazer seria um “princípio de vontade de obter
satisfação”. Na definição freudiana: “o princípio de prazer é uma tendência que
esta a serviço de uma função, a de tornar o aparelho psíquico inteiramente livre da
excitação constante, ou ainda, de mantê-la tão baixa quanto possível”. (FREUD,
1920, p. 180)
Este
princípio
de
constância
é
constituído
pelo
par
princípio
de
prazer/princípio de realidade que diz respeito a uma renúncia, uma postergação da
satisfação pulsional: “um prazer momentâneo, incerto quanto aos seus resultados,
é abandonado, mas apenas a fim de ganhar mais tarde, ao longo do novo caminho,
um prazer seguro.” (FREUD, 1911, p. 283 ) Ressaltamos que esta substituição pelo
princípio de realidade não contradiz o princípio de prazer, mas opera a serviço dele
cuja meta é obter satisfação. Trata-se também de aproximações a esta satisfação
pontual regida pelo princípio de prazer/princípio de realidade cuja alternância –
aumento/diminuição da excitação – permite atingi-la parcialmente.
A pulsão de vida (sexual) promove o enlaçamento simbólico das pulsões.
Este enlaçamento é libidinizado, são os representantes da representação do
sujeito. A energia fixada pelas representações é aquela organizada pelo aparelho
psíquico que mediatiza as relações do sujeito com o gozo, neste caso, fálico: “a
tarefa das camadas superiores do aparelho psíquico seria justamente enlaçar e
atar (binden) a excitação das pulsões.” (FREUD, op. cit., p. 158) Desta forma, o
sexual se encontra sobre a regência do princípio de prazer e, assim, referido ao
psíquico no espaço da representação.
A pulsão de morte é energia desligada, não representada: energia livre e
móvel, não atada pelo sexual. Invisível e silenciosa, em outras palavras, para além
do visível e do dizível, inexistente como representação-objeto e representaçãopalavra, se encontrando, portanto, numa região fora do aparato psíquico e sua
ação reguladora e, por isso, num espaço para além do princípio de prazer. Mais
além do princípio de prazer encontra-se a pulsão de morte. Este é o novo dualismo
pulsional: Pulsão de vida (Eros) X Pulsão de morte (Tanatos). Ao longo do texto de
1920, Freud se interroga sobre as formas de satisfação que o sujeito experimenta
nas quais deveria sentir desprazer. Fenômenos recorrentes ligados à dor,
lembranças penosas, pesadelos, neuroses de guerra e traumáticas.
Sabemos que há uma repetição própria ao circuito pulsional. Como a
satisfação é não toda por não haver objeto específico da pulsão, este se encontra
perdido (esta é, por sinal, a condição para a repetição: o objeto haver sido perdido)
sempre há um resto, fruto desta inadequação, que faz o aparelho funcionar, porém
Freud observa, que existe no psiquismo uma tendência irresistível à compulsão
situada num campo para além do princípio de prazer, cujo imperativo de gozo
impõe
uma
satisfação
mórbida
desconhecida
pelo
sujeito.
O
termo
Wiederholungszwang (compulsão à repetição) é utilizada por Freud e “expressa o
aspecto contraditório que obriga o sujeito a repetir algo que afinal lhe traz
sofrimento, [...] algo que o próprio sujeito se vê obrigado a fazer embora ele mesmo
estranhe”. (Nota do tradutor, 36, Ibid, p. 188). Destaca também esta tendência nas
brincadeiras repetitivas da criança, cuja observação de uma delas, em seu neto,
traduzida por Freud como Fort da, representa a tentativa de simbolização do
traumático, em outras palavras, do real. Neste caso, trata-se de um processo de
simbolização, de um jogo metafórico que requer que a criança seja conduzida a
colocar-se como sujeito: a saída da passividade – de objeto à mercê dos caprichos
do Outro – a um papel ativo, torna-se “senhora da situação”.
Freud já antecipava esta característica de impulso em direção ao sofrimento
em seu texto “O ‘Estranho’” de 1919, onde observa esta compulsão como inerente
à própria pulsão e portadora de um paradoxo: íntimo e ao mesmo tempo estranho
ao sujeito. O impulso pulsional força-a-gozar e faz referência ao empuxo-ao-gozo,
onde o sujeito “ausenta-se” à mercê da pulsão, daí o caráter demoníaco indicado
por Freud por lembrar uma possessão:
Uma compulsão poderosa o bastante para prevalecer sobre o princípio de
prazer, emprestando a determinados aspectos da mente o seu caráter
demoníaco. [...] Todas essas considerações preparam-nos para a descoberta
de que o que quer que nos lembre esta íntima compulsão à repetição é
percebido como estranho. (FREUD, 1919, p. 297-8)
Com os avanços teóricos em “O Problema Econômico do Masoquismo”, de
1924, Freud discorre sobre essa “tendência masoquista na vida pulsional” e sua
conseqüente contradição ao princípio de prazer e, desta forma, indicativa de um
mais além relacionando-a, assim, à pulsão de morte. Conceitua três tipos de
masoquismo, dentre eles o masoquismo erógeno – que “jaz ao fundo também das
outras duas formas” (FREUD, op. cit., p. 201) – no cerne da própria constituição
humana como uma espécie de dor erotizada que permanece no sujeito como um
resíduo a-significante e, portanto, fora do simbólico, alusivo à uma exigência na
repetição de algo que faz sofrer, mas do qual o sujeito não abre mão. Trata-se de
uma fusão das pulsões (sexual e de morte) que, por estar vinculada à libido,
promove a chamada satisfação na dor – prazer gozoso. Freud nos esclarece como
ocorre esta fusão:
A pulsão de morte operante no organismo é idêntico ao masoquismo. [...] Após
sua parte principal ter sido transportada para fora, para os objetos, dentro resta
como um resíduo seu o masoquismo erógeno, propriamente dito que, por um
lado tornou-se componente da libido e, por outro, ainda tem o eu (self) como
seu objeto. [...] Esse masoquismo seria assim prova remanescente da fase de
desenvolvimento em que a coalescência [...] entre a pulsão de morte e Eros se
efetuou. (FREUD, Ibid, p. 205)
As três formas de masoquismo conceituadas por Freud dizem respeito a este
fusionamento pulsional, sendo: 1. masoquismo erógeno ligado à condição exposta
à excitação sexual; 2. masoquismo feminino como expressão da natureza feminina
e diz respeito às fantasias infantis de espancamento, de castração, ou de ser
copulado e; 3. masoquismo moral como uma norma de comportamento.
Deteremo-nos na terceira forma de masoquismo – masoquismo moral –
definido por Freud como “o próprio sofrimento é o que importa” não havendo
necessidade de um outro para infringi-lo. Um sentimento de culpa subjacente
retornando como fúria sobre si mesmo, que Freud denomina como necessidade de
punição e atribui esta função a um Supereu absolutamente severo e exigente de
reparação, ao qual o sujeito submete-se passivamente sem se dar conta da
satisfação obtida também nessa exigência de punição. Situado entre a lei e o gozo,
o supereu porta um paradoxo: Como herdeiro do Complexo de Édipo há uma
identificação com a lei paterna e diz respeito à proibição do incesto, porém sob a
forma de ideal do eu, para Lacan desejo da mãe, traz resquícios do gozo do Um da
fusão universal e, portanto, anterior à lei. Daí seu imperativo categórico : “Goza!” e
nas palavras freudianas: “seu caráter de severidade e crueldade “... seu ditatorial:
farás!” (FREUD, 1923, p. 171) Como herdeiro do complexo de Édipo, traz em seu
cerne proibição e os “mais poderosos impulsos e das mais importantes vicissitudes
libidinais do isso”. (Ibid, p. 51). Freud exemplifica de maneira brilhante esta dupla
imposição superegóica:
A sua relação com o eu não se exaure com o preceito: ‘Você deveria ser assim
(como seu pai)’. Ela também compreende a proibição ‘Você não pode ser assim
(como seu pai)’, isto é você não pode fazer tudo o que ele faz; certas coisas
são prerrogativas dele. (FREUD, Ibid, p. 49)
Esta dupla face do supereu compreende a lei e sua própria transgressão,
incitando o sujeito a violá-la dissolvendo-se num gozo que ultrapassa o prazer sob
o domínio da pulsão de morte. Esta é sua contradição básica: se por um lado freia
o gozo, por outro, incita o gozo e goza ao exercer a interdição em um domínio
destrutivo.
Para
ilustrar
utilizaremos
um
recorte
clínico:
Analisando
aproximadamente 30 anos cuja queixa principal é o vício em pornografia.
acessar
de
Relata
sites pornográficos várias vezes ao dia, levando-o, assim,
à
masturbações recorrentes, hábitos que, segundo ele, põem em risco sua vida
conjugal considerada seu maior bem pessoal – “a formação de uma família”. O uso
da pornografia é pernicioso por percebê-la como uma espécie de traição onde
coloca outras mulheres em sua vida. Utiliza como significantes para o ato: “É uma
compulsão, não consigo parar, é mais forte do que eu. Apesar de ser eu quem
assiste e se masturba, não me reconheço, é estranho, não combina comigo. Na
hora em que estou fazendo sinto prazer, mas depois quando acaba é uma
devastação”. Este caso nos surpreende ao ilustrar com pertinência a teoria
freudiana da pulsão de morte: a compulsão à repetição como uma impulsão em
direção ao gozo; a fusão das pulsões (sexual e morte) onde se coadunam prazer e
dor; além da presença de um supereu que força-a-gozar e pune ferozmente.
Apesar
do
prazer
alcançado,
o
sujeito
o
recebe
com
estranhamento,
desconhecendo-se em sua autoria. A culpa instalada após o ato compulsivo é
sentida como uma força de ordem destrutiva (devastadora). Curioso o uso do
significante devastação, porque o gozo da devastação - gozo Outro (J A) –
encontra-se fora da representação significante, entre o imaginário e o real sem o
recurso do simbólico, registro possibilitador de domesticação do gozo, ficando o
sujeito portanto, submetido a um gozo acéfalo.
O que se destaca neste texto de 1924 é a fusão das pulsões, dando ao
sofrimento característica de satisfação e nos fazendo observar que a pulsão não
pode ser reduzida a uma reciprocidade (para um masoquista, um sádico), não está
relacionada ao par atividade/passividade, sua voz é reflexiva, por isso nos diz
Freud: “o masoquismo cria uma tentação a efetuar situações pecaminosas que
devem então ser expiadas pela consciência sádica.” (FREUD, op. cit., p. 211) E em
Lacan: “o exercício de uma pulsão masoquista, por exemplo, exige que o
masoquista [...] trabalhe feito burro” (LACAN, op. cit., p. 189), demonstrando com
isso a implicação do sujeito no seu sofrimento, seu trabalho em direção ao
sofrimento.
Para exemplificar utilizaremos da genialidade de Nelson Rodrigues e sua
peculiar aptidão em evidenciar este lado sombrio do humano; em “olhar pelo
buraco da fechadura”, segundo ele. Em uma de suas peças teatrais cujo título
sugestivo é “Perdoa-me por me traíres” (1957), coloca em cena as artimanhas do
sujeito para receber do Outro a traição, para “fazer-se trair”. Esta peça, cinegrafada
anos mais tarde, cuja música tema foi composta pelo não menos genial Chico
Buarque e intitulada “Mil Perdões”, retrata a versão da traidora e observamos na
letra o mesmo conteúdo da peça de Nelson: o trabalho do traído, seu gozo no
“empuxo-à-traição” da esposa.
Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vida que andam juntas
Ninguém faz
Te perdôo
Por pedires perdão
Por me amares demais
Te perdôo
Te perdôo por ligares
Pra todos os lugares
De onde eu vim
Te perdôo
Por ergueres a mão
Por bateres em mim
Te perdôo
Quando anseio pelo instante de sair
E rodar exuberante
E me perder de ti
Te perdôo
Por quereres me ver
Aprendendo a mentir (te mentir)
Te perdôo
Por contares minhas horas
Nas minhas demoras pó aí
Te perdôo porque choras
Quando eu choro de rir
Te perdôo
Por te trair
Mil perdões, Chico Buarque
Ainda em referência à compulsão à repetição, em seu texto “Inibição
Sintoma e Angústia” (1926[1925]), Freud observa a presença de angústia como
“reação original ao desamparo” e que surge como antecipação ao traumático,
reafirmando assim a repetição como tentativa de tratamento do trauma:
A angústia é a reação original ao desamparo no trauma, sendo reproduzida
depois da situação de perigo como um sinal em busca de ajuda. O eu que
experimentou o trauma passivamente, agora o repete ativamente em versão
enfraquecida, na esperança de ser ele próprio capaz de dirigir seu curso. [...] Ao
passarem assim da passividade para a atividade tentam dominar suas
experiências psiquicamente. (FREUD, 1925, p. 192)
Neste caso, ao contrário da brincadeira do neto de Freud, não permite a
saída necessária para a subjetivação, repete em angústia, cuja interseção se dá
entre o real e o imaginário, sem o recurso do simbólico. O sujeito não se utiliza dos
meios simbólicos de enlaçamento do real, ao contrário, a passagem da passividade
para atividade se dá imaginariamente como reprodução, repetição em ato por
identificação e não como mudança subjetiva. Talvez por isso e a partir
exclusivamente da “compreensão do comportamento”, seja amplamente veiculado
que o “abusado torna-se abusador” sem que o “abusado” se dê conta de sua
implicação ao submeter-se a objeto de gozo do Outro o que, por sinal, é sua única
saída para tratar o trauma: a retificação subjetiva (o recurso ao simbólico) apontada
por Freud, pois no lugar de vítima – que compreende o par de opostos: para uma
vítima, um algoz - só resta a saída de passivo para ativo, de abusado para
abusador.
Então, para além da busca por satisfação, há uma insistência de material
traumático,
trazendo
como
conseqüência
sofrimento
e
exercendo
uma
sobredeterminação no sujeito. Fica evidente no texto freudiano o caráter de uma
força, de um empuxo ao sofrimento, onde o sujeito torna-se escravo do circuito,
para além de sua vontade, fazendo-o repetir o mesmo. É para além do princípio de
prazer o excesso, o gozo em suas relações ambíguas entre prazer e dor, ou seja,
impressões dolorosas como fonte de um gozo intenso.
Coutinho Jorge (2003) ilustra a pulsão de morte por um vetor que indica a
impulsão rumo ao encontro com o objeto perdido (a Coisa), o empuxo-ao-gozo
característico da pulsão de morte:
Somos movidos por este vetor e ele é mortífero. Podemos considerar que a
denominação de empuxo-ao-gozo de Lacan é precisamente o sentido desse
vetor na direção da morte concebida com Freud enquanto anulação radical das
tensões internas vividas pelo organismo vivo e pelo psiquismo. (COUTINHO
JORGE, 2003, p. 33)
Morte (Freud)
-------------------------------------------------> Ding
Gozo (Lacan)
3.2 Cultura e gozo
Como vimos não há como permanecer dissolvido num gozo absoluto, há que
se ter pelo menos uma parte envolvida pela linguagem em sua promoção de
barreiras de contenção ao gozo. Nas relações do sujeito com o gozo estão
polarizados o gozo do lado da Coisa (o empuxo-à-Coisa, ao retorno à fusão
narcísica com a mãe) e o desejo, que para o sujeito é o desejo do Outro. O Outro,
o
tesouro dos significantes, lugar da linguagem, e também da falta, já que o
significante é um representante e não a coisa em si. Desta forma, o sujeito é
essencialmente dividido (entre gozo e desejo) fruto das suas representações que,
como representações, são sempre parciais. Podemos aferir então, que a entrada
da linguagem (ou da cultura) promove a separação do sujeito do corpo-a-corpo
com a mãe, “retira-o” da natureza, sendo, portanto, sua causa (a causação do
sujeito). A condição do falante é ter acesso a um gozo interditado (inter- dito) pela
palavra: “Aquilo a que é preciso nos atermos é que o gozo está vetado a quem fala
como tal, ou ainda, que ele só pode ser dito nas entrelinhas por quem quer que
seja o sujeito da Lei, já que a lei se funda justamente nessa proibição.” (LACAN,
1960, p. 836)
3.2.1 A Lei paterna: Possibilidade de sujeito
Totem e Tabu: Possibilidade da civilização
“
Evidencia-se na formulação freudiana o rompimento com o dualismo entre
psicologia individual e social por constatar que a dimensão psíquica encontra-se
presente em todas as organizações e fenômenos sociais: “A psicologia individual
[...] é ao mesmo tempo, também psicologia social.” (FREUD, 1921, p. 91) Assim
entendemos porque para elaborar conceitos elementares da psicanálise, Freud
ousou utilizar-se dos mitos, da magia, da arte, da ciência
que também são
moduladores das relações do sujeito com a natureza e o seu semelhante. Não se
trata, com isso, da simples transposição de um conceito a outro (do individual para
o social e vice-versa), mas da confirmação de uma realidade psíquica que se faz
presente em ambos os lugares. Para Fuks, Freud demonstrava que a cultura
humana surge da intersecção entre
a interioridade de uma situação individual – manifesta nos impulsos que vêm de
dentro do sujeito – e a exterioridade de um código universal, subjascente aos
processos de subjetivação e aos regulamentos das ações do sujeito com o
outro. (FUKS, 2003, p. 10)
Como se dá esta relação entre constituição subjetiva e momento inaugural
da civilização?
Para o infans – in-fans, etimologicamente, aquele que não é falante – não
há como estar só, sua autonomia é mortal necessitando do investimento de um
Outro, nas palavras freudianas de uma ajuda “estrangeira”, para circunscrever no
corpo alguma organização. Lacan nos ensina que isto acontece
por uma discórdia primordial que é traída pelos sinais de mal-estar e falta de
coordenação motora dos meses neonatais. A noção de inacabamento
anatômico do sistema piramidal “...” confirma a visão que formulamos como
dado de uma verdadeira prematuração específica do nascimento do homem.
(LACAN, 1949, p. 100)
Esta condição de prematuração do filhote de homem em sua insuficiência
adaptativa, constitui o seu drama. É a carne pulsante do corpo não demarcado,
puro gozo, que só através da circunscrição simbólica organiza o caos inicial. Este é
um estado de desamparo primordial diante do excesso de estímulos sem que se
tenham meios eficazes para fazê-los calar, cuja descarga não chega a aliviar, pois
o imperativo pulsional exerce força constante que, nas palavras de Freud
Terá como resultado uma propensão à descarga, uma urgência que é liberada
pela via motora. [...] Mas, [...] nenhuma descarga pode produzir resultado
aliviante, visto que o estímulo endógeno continua a ser recebido e se
restabelece a tensão em . (FREUD, 1895, p. 336)
O grito do bebê
ultrapassa a expressão de uma necessidade corporal,
representa um apelo que dê sentido, que organize o desamparo original no qual se
encontra. Assim, é introduzido no reino da linguagem – a partir de um Outro como uma primeira mediação entre os estímulos internos que o assolam e a
possibilidade de organização do caos pulsional. Outro da linguagem, que ao
interpretar seus gritos e esperneios, o introduz no universo dos sentidos. A entrada
do agente materno é a responsável pela emergência da condição humana, que se
instala neste primeiro vínculo social com um Outro que não só acolhe seu grito,
satisfazendo-lhe a necessidade, mas também possibilita sua inserção no mundo
simbólico da linguagem.
É necessário ressaltar a existência de um paradoxo na entrada da linguagem
sobre o sujeito: O Outro, ao mapear o corpo do bebê com significantes retira-o das
experiências precoces – míticas - de satisfação de um gozo ilimitado e erotiza seu
corpo criando bordas de excitação. Assim, possibilita e limita a um só tempo o
acesso ao gozo. O termo “ajuda estrangeira” utilizado por Freud é elucidativo ao
indicar a existência de um conflito estrutural entre o sujeito e a cultura (próximo e
estrangeiro; íntimo e estranho), pois acolhe o desejo, mas também o limita ao
impor-lhe o acesso a um gozo pontual de uma satisfação parcial.
Com seu mito de “Totem e Tabu”, sobre a primeira forma de organização
grupal que marca o homem indelevelmente na cultura, Freud pôde evidenciar, no
social, as mesmas características encontradas no sujeito quando na entrada da
linguagem no pequeno humano: A limitação do gozo irrestrito com a entrada de um
terceiro separando-o do fusionamento com a mãe e o erguimento do Totem como
figura representativa do pai morto e símbolo
da Lei máxima da civilização: a
proibição do parricídio e do incesto. O assassinato do pai e a culpa subjacente ao
ato, levam à identificação com o pai morto e a internalização da Lei que impede
que um outro venha ocupar o seu lugar. É preciso ultrapassar esse imperativo de
gozo localizado no pai da horda, cujo capricho é lei para o grupo que, fazendo-se
exceção, tem acesso ao absoluto do gozo. Há que se ter uma lei na qual todos
aqueles que habitam a linguagem se submetem: Lei do desejo, lei simbólica onde
todos, sem exceção, pagam a dívida com sua libra de carne: a castração.
Desta forma, a legitimação do desejo do sujeito se inscreve como uma dívida
simbólica, um pacto com o pai. Dívida que, apesar de honrada quando no
assentimento do limite ao gozo absoluto, nunca é quitada permanecendo, ao
contrário, registrada como uma espécie de nostalgia dolorosa quando na renúncia
da satisfação pulsional. O pacto com o pai permite o ingresso na cadeia do desejo,
estabelecendo uma espécie de “contrato com o falo”, onde ser fiel a este gozo
(fálico) seria justamente consentir com uma satisfação parcial que satisfaz
(pontualmente) um sujeito e não um organismo.
Assim, podemos articular o Outro do desejo – há uma falta de significante no
Outro, este também é barrado - e o Outro da lei que, pela operação da separação,
convergem na medida em que simbolizam um limite. Esta lei é encarnada no
drama edípico com a entrada de um terceiro – o Nome do Pai - cuja função é
romper esta harmonia de “paraíso perfeito”, de gozo irrestrito, representada pela
dupla mãe/bebê.
3.2.2. Civilização → sujeito → mal-estar
A civilização não é causa do adoecimento psíquico como acreditava Freud
em “Moral sexual Civilizada“ em outras palavras, não é a causadora da doença entendida como patologia - mas, como apresenta em “Mal-estar na civilização”, a
cultura é a condição do sujeito , da doença e da loucura, ocorrendo aí, uma
dialetização entre o advento do sujeito a partir do processo de aculturamento e sua
conseqüente sintomatologia – o mal-estar, sua fatídica divisão - vicissitude do
humano.
O mal-estar próprio do falante advém da impossibilidade do retorno ao idílico
paraíso para sempre perdido demonstrando com isso, o impossível do todo
indiferenciado, do “sentimento oceânico” apontado por Freud, onde, como nas
vivências nostálgicas, um dia fomos felizes. Ao contrário, o texto freudiano nos
remete à uma experiência de prazer evanescente, diante de um ideal de felicidade
inatingível. Desta forma, a busca pelo retorno ao inanimado, a completude do gozo
próprio à pulsão de morte, encontra-se num para além do princípio de prazer e,
portanto, fora do aparato psíquico e suas determinações, como um resíduo
inassimilável indicando um impossível no enlaçamento libidinal, em outras
palavras, da relação sexual.
Em seu texto “Mal-estar na Civilização” (1930), Freud descreve as relações
com o semelhante como uma das maiores causas do sofrimento experimentado
pelo homem. Reproduzimo-lo:
O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo,
condenado à decadência e à dissolução, “...” do mundo externo, que pode
voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e
finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens. O sofrimento
que provém desta última fonte talvez nos seja mais penosos do que qualquer
outro. (FREUD, 1930, p. 95)
Ao longo do texto Freud evidencia que a civilização, em sua produção de
enlaçamentos sociais, impõe renúncia à satisfação pulsional. É necessário que
renunciemos à inclinação de tratar o outro como objeto a ser devorado; à superar a
sede de gozo irrestrito localizado no pai da horda. O processo civilizatório promove
assim,
A substituição do poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade. [...] O
resultado final seria um estatuto legal para o qual todos [...] contribuiriam com
um sacrifício de suas pulsões, e que não deixa ninguém [...] à mercê da força
bruta. (FREUD, Ibid, p. 115-6)
O objetivo da civilização é domar o gozo mortífero que nos aproxima de
nossos ancestrais primitivos em seu impulso à destruição e à morte. Nas palavras
de Freud, é a forma de regular os homens em seus relacionamentos mútuos, pois
como verificou, a inclinação do homem é de sobrepujar, aniquilar: “O homem é o
lobo do homem”. Textualmente:
O seu próximo é para eles, não apenas um ajudante potencial ou um objeto
sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele a sua
agressividade, [...] a utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, a
apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e
matá-lo. Homo hominis lupus. (Ibid, p. 113)
Como já mencionado, em seu texto de 1920 – “Além do Princípio de Prazer”,
Freud nos ensina que a tarefa do aparelho psíquico é enlaçar e atar a excitação
pulsional. Neste mesmo texto, Freud nos alerta que “o objetivo de toda vida é a
morte”, o que em termo lacanianos significa dizer que “ a pulsão é [...]
fundamentalmente pulsão de morte (LACAN, 1964, p 195). Então podemos aferir
que a pulsão sexual promove o enlaçamento simbólico da pulsão (de morte) dando
um sentido, uma organização a esta energia desligada, não representada: energia
livre e móvel, “invisível e silenciosa”, fora da rede significante. A energia fixada
pelas representações é aquela organizada pelo aparelho psíquico que regula,
mediatiza as relações do sujeito com o gozo.
Ainda em “Mal-estar na Civilização”, Freud nos conduz a relacionar a
regulação da pulsão no psiquismo com a restrição de satisfação pulsional na
relação com o semelhante: “O desenvolvimento cultural do grupo e o
desenvolvimento cultural do indivíduo se acham, por assim dizer, interligados.”
(FREUD, op. cit., p. 167) Tentaremos esclarecer: assim como os enlaçamentos
libidinais promovidos pelo aparelho psíquico em sua ação reguladora produzem
uma satisfação não-toda conduzindo, necessariamente a uma perda; do mesmo
modo a civilização modera o gozo já que não podemos “comer” literalmente o
outro, havendo novamente um enquadre da pulsão, o que resulta mais uma vez em
perda de gozo. Para Freud “a civilização constitui um processo a serviço de Eros”
(Ibid, p. 145) em seu persistente trabalho de ligação, regulação e manutenção da
vida.
A civilização impõe renúncia à satisfação pulsional pois há um
antagonismo irremediável entre as exigências pulsionais e as restrições impostas
pela cultura: ”Uma satisfação irrestrita de todas as necessidades apresenta-nos
como o método mais tentador de conduzir nossas vidas; isso porém, significa
colocar o gozo antes da cautela, acarretando logo o seu próprio castigo.” (FREUD,
Ibid, p. 95) Então, há um sofrimento inerente ao processo civilizatório acarretando
uma limitação à vida cujo propósito “é simplesmente o programa do princípio de
prazer” (Idem), é atingir a felicidade – lembrando que trata-se do retorno ao paraíso
perdido – que encontra-se em desacordo com o objetivo da civilização.
Com o mito de Totem e Tabu concluímos que a civilização nasceu de um
crime, tem como pilares o interdito de três poderosas exigências pulsionais parricídio, canibalismo e incesto - não se tratando de um tempo ultrapassado e
esquecido, mas de um ato estruturante, comum a todos os falantes, fundador,
apontando para uma violência no cerne do sujeito. Descendemos destes
antepassados sanguinários e se renunciamos a esta nossa propensão, foi porque
fomos forçados pela civilização. Assim, os valores morais não apagam a nossa
verdadeira natureza, nem nos coloca como exclusivamente bons ou maus, mas
divididos, portadores de uma ambigüidade onde coadunam amor e ódio. Devemos
lembrar que o pai morto é o pai temido e odiado, mas também amado. O mal-estar
é proveniente do resultado da ambivalência do falante em relação àquilo que o
humaniza, havendo agressividade no cerne de sua constituição como instrumento
e causa de seu gozo:
A existência da inclinação para a agressão, que podemos detectar em nós
mesmos e supor com justiça que ela está presente nos outros, constitui o fator
que perturba nossos relacionamentos com o nosso próximo e força a civilização
a um tão elevado dispêndio [de energia]. (FREUD, op. cit. p. 134)
3.2.3. O dualismo pulsional = Bom X Mau?
É importante considerar
que Freud não era adepto de posturas
maniqueístas, ao contrário, suas formulações permitem a coexistência entre os
opostos onde os conceitos não se excluem mutuamente, mas se ligam de uma
forma peculiar. O pensamento freudiano é construído de tal forma que possibilita
abrigar formulações que seriam, numa visada ingênua, incompatíveis, mas em sua
perspectiva própria promove uma articulação em contigüidade, tal como a banda
de Moebius. Desta forma o dualismo pulsional não nos remete a opostos como
manifestações essencialmente boas ou ruins (pulsão sexual= bom X pulsão de
morte= mau) e, partindo deste pressuposto, as ligações libidinais nos contextos
sociais, não podem ser reduzidas a uma positividade natural. Neste mesmo texto
de 1930, explicita que o que une os indivíduos nos movimentos de massa é
justamente, a pulsão sexual, pulsão que liga e forma os pares amorosos nomeados
por Freud de “indivíduos duplos”. Porém, o enlaçamento do casal não permite a
entrada de um terceiro o que desfavorece o processo civilizatório, já que se
bastam, fechando-se em si. O uso do termo “indíviduo duplo”, já fomenta o
conceito de unificação, indiferenciação especular. Este mesmo tipo de ligação é
promovido pela civilização que visa a vinculação dos membros da comunidade
também de maneira libidinal. Observamos mais uma vez a interligação de opostos:
A vinculação em pares é contrária à civilização porque impossibilita a entrada de
outros membros, porém este mesmo tipo de vínculo é usado pela própria
civilização para promover os grupos, cuja característica principal é a formação de
uma ideologia de massa tendo como conseqüências a produção
de uma
indiscriminação entre seus membros e o rechaço ao diferente como paradigmas do
“narcisismo das pequenas diferenças”. Em resumo, a formação de um grupo é
pautado na homogeneização e, portanto, só temos a vivência de um grupo quando
promovemos a exclusão do outro.
Portadores de uma ambivalência estruturante, como é possível a união dos
homens pelo amor , como determina o mandamento cristão: “Ama a teu próximo
como a ti mesmo”? Freud responde que a obediência ao mandamento só é
possível sob a condição de que outros fiquem de fora para receber as
manifestações de ódio. Assim, o conceito de amor fraterno, está pautado na
segregação, onde o amor ao semelhante corresponde ao ódio ao diferente,
confirmando assim que não há harmonia na relação do sujeito com o outro, entre o
desejo e o gozo. A identificação entre os iguais sob o domínio das ligações de Eros
promovem a unidade do grupo, porém indicam, parodoxalmente, o caminho para a
destruição, pois como vimos o amor narcísico (especular) das identificações, é
mortífero na medida em que promove a formação e divisão de grupos que não
suportam a diferença. Ao idêntico (sua própria imagem no espelho) o amor, para o
estranho (o outro) o ódio, o isolamento. Os idênticos se amam, porém sobra um
resto – o ódio – e o que faremos com isso? Jogamos no outro, no diferente.
Estes movimentos de iguais são abastecidos por um líder que, como figura
de identificação maciça, tenta elidir a falta fundante do pacto civilizatório. Ao
encarnar o objeto imaculado no comando do grupo de iguais, condena à
segregação os “outros” - a alteridade - que não fazem parte do grupo do “nós”,
demonstrando mais uma vez o paradoxo da pulsão: Aquilo que une, a pulsão
sexual, aquela que encontra-se no bojo da civilização, pode destruir, pode levar ao
sentimento oceânico do todo indiscriminado quando numa relação essencialmente
mimética impossibilitando assim, a subjetivação e fazendo necessária a entrada de
Tanatos para “desligar”. Sabendo que a pulsão de morte é energia livre e móvel,
não atada, desligada; sob este viés propicia o corte marcando, portanto, a
diferença e a possibilidade do novo.
Devemos relembrar com Freud que as outras duas fontes de sofrimento
encontram-se no real do corpo pulsional e nas forças da natureza que, mesmo com
toda tecnologia humana para controlá-las, teimam em escapar ao controle e ao
saber. Se para o humano submetido à linguagem não há meios de satisfação
completa, de encaixe perfeito; é justamente neste lugar de falta, indicativo do
desejo, que se promovem os laços sociais atravessados por uma impossibilidade
estrutural. Desta forma, nossa relação com o mundo é sempre de borda, mediada
pela linguagem que, a partir da ação dos significantes, contornam o “i-mundo” do
real acedendo assim, ao “mundo humano simbólico”.
No desenvolvimento deste capítulo observamos que o conceito de gozo
formulado por Lacan corresponde ao que Freud descreveu na segunda tópica
como o mais além do princípio de prazer. O campo do gozo é, essencialmente, um
campo operatório “aparelhado” pela linguagem,
no sentido de reguladora das
relações humanas. Os aparelhos para mediar o gozo são os laços sociais – em
termos freudianos laços libidinais – nomeados por Lacan de discursos. Sem nos
atermos a estes conceitos, que serão desenvolvidos no próximo capítulo, as
relações entre os falantes se estabelecem nos discursos cujas modalidades de
gozo e regulações se manifestam distintamente. Lacan conceitua o campo do
gozo e seus discursos como respostas ao mal-estar. A teoria dos discursos nos
mostra que o sujeito ocupa um lugar determinado pelo discurso, exercendo
funções específicas e obedece às regras características do laço. Assim, o sujeito é
uma função variável, em conseqüência de cada discurso, inserido em uma cultura
na qual estes discursos circulam.
O sujeito é antecedido pela linguagem, previsto em sua pré-história individual
ocorrendo assim, simultaneidade e continuidade do humano e a cultura. Se a
psicanálise não exclui o sujeito e, portanto, não exclui o gozo, o sujeito do
inconsciente - e sobre o qual a psicanálise opera - é o sujeito do gozo em sua
mediação com a linguagem, pois não há um sujeito do puro gozo pois, como
vimos, no gozo absoluto o sujeito também se ausenta. Assim, a civilização é um
processo ininterrupto que atravessa e é atravessada por cada sujeito na
perpetuação da lei. Então, a psicanálise tem como princípio ético, parafraseando
Lacan, de não recuar frente à cultura e seu conseqüente mal-estar – ou formas de
gozo – que se apresentam perpassados pelo social em determinado tempo na
história.
CAPÍTULO III
OS DISCURSOS E A INSTITUIÇÃO
“Chegamos ao ponto em que o
especialista se reduz àquele que, à
custa de saber cada vez mais
sobre cada vez menos, termina por
saber tudo sobre nada. Torna-se
uma ilha de saber cercada por um
oceano de ignorâncias”.
Hilton Japiassu
4. CAPÍTULO III
OS DISCURSOS E A INSTITUIÇÃO
Como já exposto no capítulo anterior, o mal-estar na civilização é o malestar tecido nos laços sociais denominados por Lacan de discursos, entendidos
como aparelhos de gozo por estarem, assim como o sujeito, estruturados pela
linguagem. Os discursos como laços sociais faz referência a uma moderação de
gozo na medida em que, para o estabelecimento de relações civilizadas, torna-se
necessário certo enquadramento da pulsão, o que resulta em uma perda real de
gozo. Coutinho Jorge esclarece:
Os discursos introduzidos por Lacan correspondem às estruturas mínimas de
todo e qualquer liame social, sempre concebido como fundado exclusivamente
na linguagem,. Mais essencialmente ainda, os discursos levam às últimas
conseqüências a tese lacaniana de que o inconsciente é um saber.
(COUTINHO JORGE, 2002, p. 19)
Em um momento histórico singular no qual se acoplaram situações diversas
como a ida do homem a lua e o agravamento dos conflitos sociais em governos
ditadores culminando com movimentos estudantis – em especial a manifestação
do universitários ocorrido na França em 1968 - Lacan formula a teorização dos
discursos retomando a máxima freudiana de que a maior fonte de sofrimento para
o homem encontra-se na relação com o semelhante. O mal-estar apresenta-se no
discurso na forma de seu elemento excluído – o objeto a – como representante da
exigência da civilização à renúncia pulsional. Doris Rinaldi acrescenta que a partir
de sua teorização dos discursos como laços sociais, Lacan inclui o objeto a na
relação entre o sujeito e o campo do Outro inferindo uma dupla vertente: “Se é na
ordem da linguagem que esta relação se estabelece, o objeto a é ao mesmo tempo
o que causa e o que revela a impossibilidade radical dessa relação. [...] a
impossibilidade radical de dizer o real.” (RINALDI, 2002, p. 100)
A teoria dos discursos retira das designadas por Freud, profissões
impossíveis – governar (Discurso do Mestre), educar (Discurso do Universitário) e
analisar (Discurso do Analista) – sua origem acrescentando a elas outro liame da
ordem da impossibilidade – fazer desejar – nomeado por Lacan como “Discurso da
Histérica”. Utiliza-se para isso de letras: S1, S2, $ e a , denominadas de álgebra
lacaniana, na tentativa de transmissibilidade da psicanálise, indicando ainda, a
possibilidade de inúmeras leituras – “desde que o falado continue preso à sua
álgebra” (LACAN, 1960, p. 830) – na circunscrição desse núcleo real inapreensível
pelo simbólico. Em resumo, a álgebra propõe um ponto de convergência na
pluralidade de situações da experiência analítica. Talvez possamos dizer que
dentro do particular de cada caso, o universal da teoria possa enfim ser
transmitido.
4.1. Os matemas: letras e lugares
Os matemas dos discursos consistem na disposição ordenada das letras S1,
S2, $ e a, em quatro lugares fixos, chamados por Lacan de quadrípodes, que são:
verdade, agente, outro e produção. É a disposição das letras nestes lugares fixos
que ordenam e dominam o discurso.
LUGARES
SUJEITO
OUTRO
Resumidamente, pela indicação das setas, podemos concluir a existência no
campo do sujeito de um agente que, impulsionado pela verdade, ordena o
discurso, dirigindo-se a um outro que, a partir da enunciação do primeiro, produz
algo como resultado entre o dito do agente e o trabalho do segundo. O termo
agente tem o sentido de agenciador que, tal como um agente de viagens, agencia
o discurso: Um agente, movido por uma verdade, agencia um outro, deixando um
resto, aquilo que cai do discurso: sua produção. O agente é o lugar ativo, nomeado
por Lacan de dominante, pois é de onde se ordena o discurso que, a depender de
qual letra ocupa este lugar, teremos agentes e, conseqüentemente, discursos
diferentes. O lugar do Outro é a quem o agente se dirige, pois se o discurso
estabelece um laço social, logo, de cultura, há que se ter um Outro. A verdade diz
respeito à verdade sobre o agente dada pelo discurso. Lacan explicita que a
verdade sobre o sujeito é velada, não toda, porque não se pode dizer tudo sobre o
sujeito. Trata-se sempre de um semi-dizer - entre os ditos - que faz referência a
algo de não simbolizável em todo discurso e, portanto, de real: “Sempre digo a
verdade: não toda, porque ao dizê-la toda não se consegue. Dizê-la toda é
impossível, materialmente faltam palavras. É por esse impossível, inclusive, que a
verdade tem a ver com o real.” (LACAN, 1973, p. 508)
E quanto às “letrinhas”? Lembramos que o matema consiste na possibilidade
de transmissão da psicanálise em sua possível relação com o real, relação que é
sempre de borda. Lacan explicita o real como o sem sentido e a utilização das
letras se dá, justamente, por representar esta insubstância, uma ausência de
significação, demonstrando com isso a impossibilidade de apreensão do real. Na
tentativa de enlaçamento do real pelo simbólico, algo resta – a letra:
Nós pensamos que apenas a ciência tem a ver com o real. Mas o real, tal como
falamos dele, é completamente desprovido de sentido. Podemos ficar
satisfeitos, estar seguros de que tratamos de algo real somente quando ele não
tem mais qualquer sentido que seja. Ele não tem sentido porque não é com
palavras que escrevemos o real. É com letrinhas. (LACAN, 1975, p. 26 apud,
COUTINHO JORGE, 2002, p. 22)
Então vamos às letrinhas:
1. S1: Não se trata de um significante, mas de um enxame de significantes –
essaim (palavra francesa homófona de S1) – já que nenhum significante é capaz
de representar o todo do sujeito. Apesar de qualquer significante poder ocupar o
lugar de S1, este é um significante de valor privilegiado pelo sujeito, por ter a
função de marca fundadora, ponto de origem – mítica – do inconsciente: “Aí tomo o
texto de Freud, para dar-lhe um sentido que lá não está apontado, a função do
traço unário – quer dizer, a forma mais simples de marca, que é, falando
propriamente, a origem do significante.” (LACAN, 1970, p. 44)
2. S2: Representa o conjunto dos significantes do campo do Outro. Conjunto
faltoso por designar os demais significantes à exceção dos S1s do sujeito. Esta
falta representa a falta de pelo menos um significante do campo do Outro – S(A) que possa compreender o sujeito, uma falta de significante que possa representar
a totalidade do sujeito, em outras palavras, a inexistência da relação sexual. S2 é o
significante que dialetiza com S1 (par S1─ S2). É usado na álgebra lacaniana para
designar o saber de um modo geral e quando se escreve S1 ─ S2, trata-se de toda
cadeia significante.
3. $: Sujeito dividido - do inconsciente - que de acordo com o discurso é dividido
por razões variadas.
4. a: Neste seminário de Lacan (seminário 17) o objeto a ganha a função de maisde-gozar em referência ao conceito de mais-valia proposto por Karl Marx. Este
conceito implica em algo que não pode ser contabilizado na relação de trabalho
porque é subjetivo. Como valorar o cansaço, a saudade do trabalhador? A maisvalia é aquilo que não pode ser medido no cômputo geral. Entendemos o mais-degozar como um plus, um resto de gozo que se produz como perda e que
movimenta o circuito que comanda o desejo. Assim, articula-se desejo e gozo a
partir da perda do gozo mítico – absoluto- com a entrada do significante, deixando
um resto que instaura a função do desejo: “E é no lugar dessa perda, introduzida
pela repetição, que vemos aparecer a função do objeto perdido, disso que eu
chamo a.” (LACAN, Ibid, p. 46). Como vimos, o sujeito é “pontual e evanescente
surgindo no intervalo entre os significantes, cuja operação simbólica tem como
resultado uma perda, um resto de real inassimilável pela rede simbólica. Lacan
situa o objeto a na região central do nó borromeano, na intersecção dos três
registros, sendo sua vertente real predominante sobre as demais. Então, este
objeto real como falta, como furo, esburaca as vertentes simbólica e imaginária e
encontra-se identificado ao objeto para sempre perdido - das Ding. Esse objeto (a)
em diferentes lugares dos “quadrípodes” indica as variações na distribuição e
manejo do gozo em cada discurso.
A teoria dos quatro discursos se instaura a partir da tese lacaniana de que o
inconsciente é estruturado como uma linguagem em sua articulação com o gozo.
Como já vimos o significante domestica o gozo na medida em que une libido e
pulsão de morte – fusão das pulsões. Porém, por se tratar de uma representação,
essa operação significante não é radicalmente totalitária, deixando um resto que é
o gozo. Nas palavras de Lacan:
O significante diversamente do signo, é aquilo que representa um sujeito para
outro significante. Como nada diz que o outro significante saiba alguma coisa
sobre o assunto, fica claro que não se trata de representação, mas de
representante. (LACAN, Ibid, p. 27)
Então, os discursos se apresentam como estrutura necessária nas relações
fundamentais estabelecidas entre os falantes uma vez que estes se encontram
imersos na linguagem. Assim, à formula fundamental da linguagem de que o
sujeito é efeito do significante, ou seja, a emergência de um sujeito ($) se dá entre
os significantes na medida em que um significante (S1) o representa para outro
significante (S2), disto restando um resto (a), Lacan apresenta quatro modos de
ordenação desse elementos pelos quatro lugares fixos e que obedecem às
questões, já melhor explicitadas acima, e que resumidamente são as seguintes:
a) Quem ocupa o lugar de agente no discurso?
b) A que outro ele se dirige?
c) Qual verdade o impulsiona?
d) O que esse laço produz?
Estes lugares em relação às possibilidades de ocupação dos quatro elementos
(S1, S2 $ e a) institui os quatro discursos concebidos por Lacan como os liames
basais entre os falantes. São eles: do mestre, da histérica, do analista e da
universidade.
Cada um dos discursos tem relação com os demais e a passagem de um
discurso ao outro se dá a partir do movimento de um quarto de volta de seus
elementos entre os lugares, salientando assim, o aspecto dinâmico do inconsciente
cuja movimentação é efeito significante. Desta forma, com uma estrutura
caracteristicamente circular ocorre o predomínio de um ou de outro discurso, mas
não a cristalização, a fixidez permanente em um único, havendo deslizamento tal
como a linguagem e suas estruturas mínimas.
4.2 Os discursos
Lacan parte da dialética do Amo e do Servo de Hegel para estruturar o
primeiro discurso – Discurso do Mestre – como primeira inscrição possível da
subjetividade. Marx também se utiliza da “Fenomenologia do espírito” de Hegel e
seu mito das origens das relações de servidão (mito do senhor e do escravo) para
explicitar a necessidade do reconhecimento de um outro para atestar-se como
sujeito e posicionar-se frente a este reconhecimento e ao outro. Nas palavras de
Marx:
Tais expressões das relações em geral, chamadas por Hegel de categorias
reflexas, compõem uma classe muito curiosa. Por exemplo, um homem só é rei
porque outros homens colocam-se numa relação de súditos com ele. E eles, ao
contrário, imaginam ser súditos, por ele ser rei. (MARX, 1974, p. 63 apud
ŽIŽEK, 1996, p. 309)
Aquilo que deveria ser um efeito das relações sociais – um rei e seus súditos –
para os membros deste vínculo é representado de forma inversa como se o
significante – rei – fosse natural e não inerente ao vínculo. O que nos remete à
identificação e ,assim, o surgimento do eu e seus atributos - servo, rei, operário...
- a partir do Outro. Para Hegel o sujeito só tem consciência de si a partir do outro,
produzindo uma alienação ao outro como possibilidade de vir-a-ser. Lacan utilizase desta mesma dialética para teorizar o Estádio do Espelho, no qual o sujeito se
constitui a partir do Outro, numa especularidade alienante que promove uma
identificação à completude narcísica da imagem.
Vamos ao mito:
No princípio dos tempos existiram dois homens que se confrontaram.
Cada um desejava que o outro o reconhecesse como uma consciência-de-si,
como consciência autônoma. Eles se enfrentaram em uma luta mortal. Um
deles, com medo de ser morto, cede e perde a liberdade tornando-se escravo.
O outro que não tem medo de morrer perde o gosto pela vida e se torna um
senhor, tem poder e mando, mas não sabe gozar precisando do escravo para
isso. O escravo, embora tenha perdido a liberdade, sabe gozar e fazer o
senhor gozar.
Interessante perceber que no mito de Hegel o senhor – assim como o rei – é
produto do escravo, como uma necessidade lógica. Lacan argumenta que o saber
do escravo é saber sobre a morte, de como manter a vida. O senhor vence a
morte – o gozo - porque o escravo produziu um saber capaz de vencê-la, mas do
qual não faz uso já que escolheu ser escravo a morrer, portanto ele mantém a vida
fazendo o amo gozar com sua aparência de completude ao crer-se senhor e,
portanto, acreditando vencer a morte – a castração.
Assim, no Discurso do Mestre, temos:
No lugar do agente, temos o S1 encarnado em um mestre que se apresenta como
todo já que sua divisão ($) está sob a barra (recalcada) e é esta verdade (da
castração) que o impulsiona a dirigir-se ao escravo, aquele que detém o saber
(S2), a fim de obter como produção o mais-de-gozar (a) e, assim, completar-se,
pois o saber que o escravo possui faz o mestre gozar. O discurso do mestre
representa a entrada do sujeito da linguagem como um primeiro significante que
ordena e sob o qual o sujeito vai alienar-se, demonstrando assim que é por meio
do poder imperativo do significante que o sujeito ingressa na ordem simbólica: “O
discurso do inconsciente é o discurso do mestre como um primeiro imperativo do
significante.” (LACAN, 1973, p. 522) Mais explicitamente nos diz Lacan:
Tomem apenas um significante como insígnia dessa onipotência, ou seja,
desse poder todo em potência, desse nascimento da possibilidade, e vocês
verão o traço unário, que, por preencher a marca invisível que o sujeito
recebe do significante, aliena esse sujeito na identificação primeira. (LACAN,
1960, p. 822)
O discurso do mestre é o discurso fundamental, na medida em que se há
linguagem, há mestre, sendo, portanto, o discurso do inconsciente pois, como
vimos, o significante (S1) funda o inconsciente.
Se os discursos representam uma impossibilidade, no discurso do mestre
onde estão implicadas as relações de poder, o S1 faz semblante de poder e o
outro é escravizado e reduzido a um gerador de objeto de gozo. Ressalta-se
também neste discurso a elisão da realidade psíquica que se encontra recalcada
estando o sujeito em disjunção com o objeto ($ // a) o que nos remete a um
discurso alicerçado numa suposição de completude e racionalidade do eu.
Um quarto de giro no discurso do mestre e obtemos o discurso da histérica,
que traz à cena o sujeito ($) no lugar do agente e o objeto (a) no lugar da verdade.
No campo do Outro da histérica encontramos o S1, que surge como mestre e é a
ele que a histérica dirige o enigma do seu sintoma: “é claro que essa dominante,
nós a vemos aparecer sob a forma de sintoma. É em torno do sintoma que se situa
e se ordena tudo que é do discurso da histérica.” (LACAN, op. cit. ,p. 41)
O agente do discurso é o sujeito dividido que, instigado por seu objeto causa
de desejo (a) – recalcado - evidencia sua divisão representada pelo enigma do
sintoma ($) e solicita ao mestre (S1) sua decifração. É requerido ao mestre a
produção de um saber (S2) sobre seu sintoma. Trata-se de instigar o mestre a
trabalhar, por isso o discurso da histérica é fazer desejar, mas como todo discurso
é, na verdade, um engodo, um semblante de demanda por mestria, pois a histérica
deflagra o furo, expõe a castração. Ao responder a histérica na posição do saber,
o mestre a eterniza no lugar da insatisfação e, portanto, de permanente solicitação
levando Lacan a indagar se
não seria o mestre uma criação da histérica.
Textualmente Lacan a respeito da histérica e o mestre:
O que a histérica quer [...] é um mestre. [...]
Ela quer um mestre. [...] Ela quer que o outro seja um mestre, que saiba muitas
e muitas coisas, mas, mesmo assim, que não saiba demais, para que não
acredite que ela é o prêmio máximo de todo o seu saber. Em outras palavras,
quer um mestre sobre o qual ela reine. Ela reina e ele não governa. (LACAN,
Ibid, p. 122)
Um quarto de giro do discurso da histérica e produzimos o discurso do
analista. É interessante esta passagem do discurso da histérica para o discurso do
analista, pois nos remete a duas questões:
1. Ao abandonar a hipnose, essencialmente pautada no discurso do mestre, Freud
cria uma nova posição discursiva para fazer frente à demanda histérica. Se o
hipnotizador, em uma posição de saber, ordena a partir da sugestão hipnótica logo,
no “apagamento” do sujeito, o analista Freud situava-se na transferência a partir de
um lugar de não saber (lugar de objeto), ou melhor, lugar de saber suposto pelo
analisando (aquele que na verdade sabe, sem saber). Desta forma, trata-se de
uma suposição de saber que mantém a transferência, porém o analista não
responde no lugar do mestre (aquele que sabe), mas no lugar de objeto causa de
desejo para seu analisando. O discurso do analista é o único em que no campo do
Outro se encontra o sujeito e mais, se no discurso do mestre a realidade psíquica
(fantasia) encontra-se obliterada pela mestria, o discurso do psicanalista, por
considerar o sujeito do inconsciente, o convoca a aparecer e bem dizer o seu
sintoma, além de promover o atravessamento da fantasia: “O valor da psicanálise
está em operar sobre a fantasia. O grau de seu sucesso demonstrou que aí se
julga a forma que assujeita como neurose, perversão ou psicose” (LACAN, 1968, p.
364) Resumidamente: o analista no lugar de objeto do analisante que, neste caso é
sujeito, promove o atravessamento da fantasia inconsciente. O discurso do analista
também é movido pelo desejo do analista que, na proposta lacaniana, trata-se de
desejo de obter a diferença absoluta do sujeito dividido, a radicalidade da marca da
singularidade. Assim, nesse sentido, o discurso do mestre é o avesso do discurso
da psicanálise, pois enquanto o mestre aponta para o UM que comanda o saber
objetivando o sujeito na alienação ao Outro, o discurso do analista objetiva a
singularidade, separando o sujeito da posição de gozo do Outro ascendendo à
particularidade de seu desejo e modalidade de gozo. Vamos observar este
“avesso” nos matemas dos discursos:
Discurso do Mestre
S1 → S2 ↓
a
↑ $
Discurso do Analista
a → $ ↓
↑ S2
S1
A sugestão hipnótica funciona no “apagamento” do sujeito que se submete
como um autômato. O hipnotizador, dirigindo-se ao saber, ordena a remissão dos
sintomas e é obedecido pelo escravo (histérica) para gozo do mestre. Devemos
lembrar também que, nas sessões abertas de hipnose, a histérica reproduzia os
fenômenos – os sintomas, neste caso, são compreendidos como puramente
fenomenológicos – para gozo do mestre e delírio dos presentes.
2. Uma segunda questão que se impõe na passagem do discurso da histérica para
o discurso do analista, é a passagem de analisando a analista, nomeado por Lacan
de passe. A possibilidade do sujeito, após o atravessamento de sua fantasia, seu
processo de análise, colocar-se como objeto para um analisando. Freud salienta
que a formação do analista está alicerçada sobre um tripé composto pela formação
teórica entre os pares – analistas – supervisão e análise pessoal o que reforça a
tese de que o analista é produto de sua própria análise, de sua experiência “na
pele” pela passagem no divã, daí o aforismo lacaniano de que “o analista só se
autoriza por si mesmo... e alguns outros”.
No lugar do agente, temos o objeto a, movido pelo enigma do saber
inconsciente dirigindo-se ao outro tomando-o como sujeito para que produza seus
significantes primordiais fundantes de sua história. O saber (S2) encontra-se sob a
barra, mas , como nos diz Lacan, não é o mesmo saber do discurso do mestre pois
no lugar da verdade, S2 é um enigma. Se é próprio da verdade nunca poder dizê-la
toda, o saber também é não-todo: “Um saber como verdade isto define como deve
ser a estrutura do que se chama uma interpretação.” (LACAN, op. cit., p. 34)
Assim, percebemos que a interpretação não pode ser um aconselhamento, uma
sugestão diretiva, deve ser enigmática – tal como vimos no texto de Freud sobre a
Gradiva de Jensen - apontando para a via do inconsciente, do não senso e,
portanto do real:
Se insisti longamente na diferença de nível entre a enunciação e o enunciado,
foi justamente para que a função do enigma ganhe sentido. O enigma é
provavelmente isso, uma enunciação. Encarrego vocês de convertê-lo em
enunciado. Virem-se como puderem – como fez Édipo - , vocês sofrerão suas
conseqüências. Eis do que se trata o enigma. (LACAN, Ibid, p. 34)
Frente ao enigma da esfinge, Édipo pôde responder - “O homem!” ou na visada de
Quinet, em seu “Oidipous”, poderia ter respondido: “Édipo!” É importante destacar
a função enigmática que a interpretação do analista deve conter, caso contrário, se
diretiva, apaga o sujeito perdendo seu valor de apontamento para a Outra cena.
Relataremos brevemente um episódio surpreendente no CAPS que pode elucidar
esta questão: Ao não receber o aconselhamento solicitado, o paciente fica muito
bravo e acusa o técnico de não lhe dar ajuda. O terapeuta responde que eles
podem conversar, discutir o assunto, mas que não entendia o lugar do terapeuta
como aquele que aconselha, que isto ele pode obter com seus amigos e familiares.
O paciente tranqüiliza-se e responde:“Entendi. A terapia é um aconselhamento
indireto.” Podemos fazer a seguinte leitura: A interpretação passa pelo sujeito.
A psicanálise se situa na saída do lugar do mestre, para o lugar de objeto,
lugar, portanto, do silêncio, ou podemos dizer do morto, já que, como diz Lacan, o
analista deve ocupar o lugar do santo que, para tal, precisa estar morto. O santo é
aquele, como propõe Lacan, que não considera-se cheio de méritos, mas colocase como dejeto, um abjeto:
O santo para que me compreendam, não faz caridade. Antes, presta-se a
bancar o dejeto: faz descaridade. Isso para realizar o que a estrutura impõe, ou
seja, permitir ao sujeito, ao sujeito do inconsciente, tomá-lo como causa do seu
desejo. (LACAN, op. cit., p. 518)
Freud em sua “Conferência XXVIII – Terapia analítica” (1917) apresenta a
distinção entre a psicanálise e as demais técnicas sugestivas no tratamento das
enfermidades psíquicas. Alerta que a sugestão direta vai contra a manifestação
dos sintomas cujas razões inconscientes são ignoradas. Conceitua como
procedimento “cosmético” de camuflagem da expressão sintomática que retorna,
pois os processos que conduziram sua formação
permanecem intactos. O
paciente neste caso é passivo, não reconhecido como sujeito responsável pelo seu
sofrimento ficando à “mercê” das investidas educativas do terapeuta no
encobrimento dos sintomas reforçando, deste modo, o recalque. A psicanálise, ao
contrário, busca chegar às razões inconscientes da formação sintomática, tendo a
transferência como principal instrumento, porém não no lugar de mestre, daquele
que sabe sobre o sujeito, mas abstendo-se de transformá-lo em objeto de gozo
(sexual ou não). O analista deve abster-se de exercer o poder conferido pelo
analisante além de não pretender encaminhar-lhe o destino, impondo-lhe seus
ideais. Aliás como vimos, se o analista “cai” no lugar do mestre, a resposta do
analisando (histérica) é derrubá-lo, deflagrar sua castração. Para ilustrar uma breve
vinheta clínica:
Analisanda histérica, queixando-se do namorado, solicita à analista para que
responda se o namorado a ama ou não. Ao ser questionada sobre o porquê da
pergunta, argumenta que ela faz o mesmo com seus amigos e eles respondem
(mas ela não acredita). Ao ser novamente interpelada pela analista sobre o porquê
de querer colocá-la como mais um de seus amigos, responde veementemente:
“Não! Se isso acontecer, acabou tudo.”
Retornando ao texto freudiano, Freud argumenta que “na psicanálise,
agimos sobre a própria transferência, deslindamos o que nela se opõe ao
tratamento, ajustamos o instrumento com o qual desejamos causar nosso impacto.”
(FREUD, 1917, p. 527) Trata-se assim, de um lugar de suposição de saber, onde o
analista faz semblante, sem, no entanto, incorporar o mestre e sua crença no
saber. Desta forma, os efeitos de sugestão que possam permear a transferência
devem ser enquadrados pelo desejo do analista não se tratando, no entanto, dos
desejos de educar ou de curar – o “furor sanandi” apontado por Freud – porque o
processo analítico ultrapassa a ambição terapêutica por visar o que resta de
incurável: o real da pulsão.
É o real que permite desatar aquilo em que consiste o sintoma, ou seja, um nó
de significantes. Atar e desatar que aqui não são apenas metáforas, mas a
serem apreendidos como os nós que realmente se constroem ao formarem
uma cadeia com a matéria significante. (LACAN, op. cit., p. 515)
Psicanálise e as demais técnicas psicoterápicas agem por meio de palavras,
mas se opõem, porque a segunda busca o sentido dos sintomas e a psicanálise,
por visar o real, aponta para o sem sentido: “Na confissão o pecador conta o que
sabe; na análise o neurótico tem mais a dizer”. (FREUD, 1926, p. 215) Lacan nos
diz que a busca por sentido, leva-nos às “chamadas à razão”, ao bom senso que
representa a sugestão. Ao propor a regra da associação livre, o analista permite a
manifestação do sujeito atribuindo valor à “desordem” das racionalidades do eu
como via de acesso ao inconsciente portador de um saber:
Na medida em que o inconsciente está implicado, há duas vertentes
fornecidas pela estrutura, ou seja, pela linguagem.
A vertente do sentido, daquele que se acreditaria ser o da análise, que nos
despeja o sentido aos borbotões para o barco sexual.
É surpreendente que esse sentido se reduza ao não-sentido: ao não sentido
da relação sexual. “...”
Há ainda o sentido (sens) que se faz passar por bom senso ( bom sens) e que,
ainda por cima, é tido como senso comum (sens commun). “...”
O bom senso representa a sugestão “...” É aí que a psicoterapia, “...” estanca,
não porque não exerça um certo bem, mas por ser um bem que leva ao pior.
(LACAN, op. cit., p. 512-13)
A psicanálise incide sobre o recalque no qual, a partir dos seus retornos (do
recalcado) o sujeito emerge, pontualmente. Assim, poderíamos dizer que a
psicanálise opera sobre o senso incomum?
O sintoma, os chiste, os lapsos
possuem uma mensagem cifrada para além do sentido, para além do deciframento
referindo-se, portanto, à “lalingua” - significante cunhado por Lacan para
representar a cifra – como pura letra, nons sense - da ordem do real, opondo-se à
vertente do signo:
Falar de código não convém, justamente por pressupor um sentido. A bateria
significante de lalíngua aponta apenas para a cifra do sentido. Cada palavra
assume nela, conforme o contexto, uma gama enorme e disparatada de
sentidos. (LACAN, Ibid, p. 515)
Voltando aos discursos, um quarto de volta do discurso do analista e
estamos no discurso do universitário onde o saber ocupa a posição dominante com
um imperativo categórico de “Tudo saber!” “Continua a saber!” que Lacan aproxima
ao discurso à ciência:
É impossível deixar de obedecer ao mandamento que está aí, no lugar do que é
a verdade da ciência – Vai continua. Não pára. Continua a saber sempre mais.
[...] Não pensem que o mestre está sempre aí. O que permanece é o
mandamento, o imperativo categórico Continua a saber. Não há mais
necessidade de que ali haja alguém. Estamos todos embarcados [...] no
discurso da ciência. (LACAN, op. cit., p. 98 e 99)
O saber do professor ocupa o lugar do agente que veiculará o ensino. No
lugar do Outro encontramos o objeto a representado pelo estudante – ou “a”estudante, como nomeia Lacan – que, causado pelo desejo, realiza os trabalhos
acadêmicos cuja produção é um sujeito dividido, incompleto – porém alienado ao
imperativo comandado pelo agente de “Tudo pelo saber!”! - desejando saber mais.
No discurso do universitário ocorre uma modificação na relação com o
saber. Se no discurso do mestre o escravo tinha um saber, no discurso do
universitário o saber se encontra apenas no próprio mestre (S1) no lugar da
verdade e, portanto, velado, mas impulsionando o imperativo de acúmulo de saber.
Neste discurso um saber equivale ao outro representado nas titulações
acadêmicas que não oferecem sustentação ao sujeito, pois tem como resto - sua
produção - o próprio sujeito para gozo do Outro do saber.
Lacan considera neste seminário o discurso do universitário, próximo ao
discurso da ciência por seu comando rumo ao tudo saber. Porém mais tarde, em
“Televisão” (1973) diz que a ciência “tem quase a mesma estrutura” do discurso da
histérica, indicando
certa convergência entre estes discursos. Qual seria? O
sujeito histérico bem como o sujeito da ciência é aquele que, supostamente, não
sabe – a histérica questiona o mestre e a ciência ordena o saber. Ao interrogar o
mestre a histérica aproxima-se do sujeito da ciência – sujeito cartesiano, portanto que, como vimos, duvida do saber constituído. Na resposta à questão histérica o
que surge são novas perguntas bem como na ciência o saber produzido exige mais
saber. Assim, neste sentido ciência e discurso histérico convergem. Porém Lacan
nos diz que as duas têm quase a mesma estrutura, o que nos remete à alguma
diferença. Qual seria?
Em seu texto “A ciência e a verdade” (1966) Lacan afirma que a ciência
nada quer saber da verdade como causa, pois é indicativa da falta como causa do
desejo e faz referência, obviamente, à incompletude do sujeito:
Abordá-la-ei através da estranha observação de que a prodigiosa fecundidade
de nossa ciência deve ser interrogada em sua relação com o seguinte aspecto,
no qual a ciência se sustentaria: que, da verdade como causa, ela não quersaber-nada. (LACAN, op. cit., p. 889)
No discurso da histérica encontramos o objeto a indicando a verdade
recalcada do seu sintoma. Assim, aquilo que neste discurso representa a verdade
recalcada, o motivo de suas queixas, logo, de sua divisão singular, é banido pela
ciência, pois aquilo que é da ordem do sujeito é foracluído do discurso científico.
Como já mencionamos anteriormente, o sintoma da histérica difere do sintoma
médico que são essencialmente fenomênicos, signos da doença e, portanto, com
pretensão a uma verdade toda. Assim, a partir do modelo de sintoma da medicina
ocorre uma generalização do doente que recebe por tratamento também um
produto com fabricação em série – a química da substância. Se a questão do
sujeito está excluída, o objeto não faz semblante – não é uma ventosa como nos
diz Lacan – mas adquire consistência e são justamente estes objetos ofertados
pela ciência , as latusas, que o sujeito acredita ser o Objeto. A ciência aproxima o
objeto a aos objetinhos que nos seduzem com a promessa de encontro amoroso,
de encaixe perfeito, em outras palavras, nos acenam com a possibilidade de
relação sexual.
E quanto aos pequenos objetos a que vão encontrar ao sair, no pavimento de
todas as esquinas, atrás de todas as vitrines, na proliferação desses objetos
feitos para causar o desejo de vocês, na medida em que agora é a ciência que
o governa, pensem neles como latusas. (LACAN, op. cit. P. 153)
As histéricas não acreditam no objeto, assim como não acreditam no saber
do mestre, elas os destituem, aí a divergência com o discurso da ciência. Neste
discurso – da ciência - sob o efeito do brilho reluzente das latusas o sujeito tornase opaco. Tais objetos não são eleitos pelo sujeito, portanto não dizem respeito ao
seu desejo, mas ao mandato superegóico Goza! cuja
resposta dada é uma
assertiva: Gozo! numa obediência cega.
Lacan acrescentou aos matemas dos quatros discursos um matema para o
discurso do capitalista que fornece um sujeito com um empuxo-ao-consumo de
objetos produzidos pela tecnociência financiada pelo capital. Os imperativos do
consumo não permitem o espaço da falta, tentando foracluir a castração que indica
nossa falta-a-ser , nossa fundamental incompletude que, no entanto, marca nossa
singularidade. O discurso do capitalista é um discurso sem lei, que ao contrário da
regulação entre os homens – inscrita nos demais discursos – promove a
segregação exigida pelo mercado agrupando os que têm ou não acesso às latusas.
Este discurso não produz sujeito, mas consumidores insaciáveis que acreditam no
brilho dos objetos cujas relações se dão citando Marx – entre mercadorias e não
entre os homens.
Discurso do Capitalista
↓$
S1
S2 ↓
a
O discurso do capitalista é na atualidade uma nova modalidade do discurso
do mestre, porém que rompe com a permutação cíclica que organiza os demais
discursos e opera uma inversão dos termos que ocupam o lado do sujeito no
discurso do mestre. A tentativa de foracluir a castração, promove uma subversão
do sujeito transformando sua relação com o objeto modificando, portanto, sua
relação com o desejo. Neste discurso o sujeito ocupa o lugar do agente, porém
não representado pelo seu sintoma, por sua falta e, portanto, por sua causa de
desejo, mas é representado como consumidor e terá disponibilizados meios para
consumir ferozmente objetos fast food com uma promessa de satisfação possível.
É fundamental considerar as setas que são indicativas da dinâmica do discurso,
que fechando-se em si mesmo, estabelece um círculo vicioso.
A ciência inventa, cria algo onde não havia nada antes, produzindo assim,
efeitos no real. Na articulação com a técnica, transformando-se em tecnociência se
produz o mestre contemporâneo, ou seja, a ciência em copulação com o
capitalismo. O discurso da ciência a serviço do capital transforma o saber em mais
um bem de consumo e, portanto, como mais uma mercadoria, vigorando sob uma
moral utilitária – sob a vigência da moda -
podendo ser compartilhada pelos
semelhantes consumidores na regência da lei do mercado. No entanto, estes
objetos da modernidade, tão logo adquiridos, perdem seu valor de uso e são
rejeitados para serem rapidamente substituídos por outro mais potente, mais
bonito, mais eficaz, mais... Observamos assim, que ao contrário da subtração
própria ao desejo, tendo um resto para impulsionar a busca pelo objeto para
sempre perdido, as latusas se oferecem como adição, um a mais com efeito
cumulativo, como se pudesse recuperar o excedente de gozo -mais-de-gozar –
num discurso que não supõe a perda, ao contrário, sua proposta é a maximização
do lucro, no vale-tudo do mercado financeiro. O sujeito, ao tomar a demanda do
Outro (capitalismo) como desejo, transforma-se em usuário de produtos e serviços
onde se acredita agente, mas na verdade obedece passivamente ao imperativo do
mercado: “Consuma!” Então, a renúncia à pulsão exigida pela cultura parece não
ocorrer neste discurso, ao contrário, promove a compulsão ao impor uma relação
com a demanda indicativa da pulsão de morte e seu empuxo-ao-gozo. É um
discurso que não faz laço social e, portanto, não é um aparelho de regulação do
gozo, mas a manifestação do mestre corrompido transformado em capitalista.
Assim, por esse viés, o discurso do capitalista pode ser considerado um quinto
discurso?
Estes discursos, como já mencionado, permeiam a relação do sujeito com a
cultura. Verificaremos agora, sua incidência em uma instituição de saúde pública.
4.3 A instituição de saúde
Localizada em um município do interior do Estado do Rio de Janeiro, com
aproximadamente 150 mil habitantes, esta instituição é a referência para o
atendimento, a nível central, das especialidades médicas, consideradas aquelas
que ultrapassam a assistência de atenção básica de saúde (clínica médica,
pediatria e ginecologia) que são as clínicas das Unidades de Saúde dos Distritos
Sanitários e dos módulos das Estratégias de Saúde da Família (ESF). Então, o
Centro de Especialidade Médicas foi projetado, idealmente, para funcionar com as
demais especialidades sendo um atendimento, portanto, referenciado. Em outras
palavras, aquilo que não foi resolvido na atenção básica é dirigido ao especialista.
Dizemos idealmente, pois a instituição tem a clínica de atenção básica no seu
corpo de “especialidades” e a própria psicologia também faz parte do quadro dos
Postos de Saúde e ESFs o que precipita uma série de confusões e indefinições a
respeito de qual seria o papel do psicólogo e, ainda, se a Psicologia é atenção
básica ou referenciada nestes locais de assistência. O que seriam atenção básica
e referenciada para a psicologia? Que profissionais da área comporiam o Centro
de Especialidades Médicas e quais seriam suas funções? Nos postos de saúde e
ESFs, os psicólogos trabalhariam prioritariamente com “prevenção” e educação e
saúde, no apoio às comunidades, ficando a psicoterapia individual destinada aos
psicólogos do Centro de Especialidades Médicas?
4.3.1. Os discursos na instituição de saúde
Como vimos a própria teoria dos discursos evidencia uma dinâmica e não
uma estagnação neste ou naquele discurso, cujas variações ocorrem como
modalidades distintas do ato a partir do agente que domina o discurso. Assim, a
psicologia, ao responder no lugar daquele que sabe com interpretações diretivas,
encontra-se no discurso do mestre. Devemos lembrar ainda que por tratar-se de
uma instituição de saúde, há uma hegemonia do saber médico, ocorrendo com as
demais profissões uma tentativa de reconhecimento aos moldes da medicina e
mais, como vimos com Clavreul, “o corpo médico é o garante do saber médico”
(CLAVREUL, op. cit., p. 91), assim os profissionais das demais áreas tentam
incluir-se na Ordem médica. Continuando com Clavreul: “uma leitura psicanalítica
do discurso médico permite extrair um certo número de fatos que permanecem na
sombra quando o discurso médico constitui a única referência teórica reconhecida”
(Ibid, p. 164)
Ampliaremos a questão para os demais discursos estabelecidos por Lacan e
suas incidências na instituição.
Podemos dizer que o paciente chega à instituição pelo discurso da histérica
que, com seu sintoma ($), procura um mestre/doutor (S1) que produza um saber
todo (S2) sobre o seu sofrimento. Em sua tentativa de resposta ao enigma do seu
sintoma, demanda trabalho ao médico/psicólogo/assistente social... em uma
espera passiva por solução. Ao responder deste lugar de mestria, o profissional
obtém, nas palavras de Freud, “um paciente inerte e imodificado”. (FREUD, op. cit.,
p. 526)
Discurso da Histérica
Sujeito
↑ $
a
Outro
→
S1 ↓
S2
O sujeito encontra-se possuído por uma doença na qual não está engajado
pessoalmente – está, como já dito, sob a posse da doença – sendo-lhe indicado
que desprenda-se de qualquer interpretação pessoal sobre o que lhe ocorre,
devendo ser eliminada a subjetividade, pois o que encontra-se em questão é a
manifestação fenomenológica da doença. Deve olhar-se como um outro,
desconfiando do que sente pois, possuído por este Outro (a doença), encontram-se
comprometidos os sentidos que só o discurso médico pode restituir. Definido como
“homem + doença”, sua entrada no discurso médico, segundo Clavreul, se dá a
partir do diagnóstico (que é um ato de mestria). Assim, como dito acima, para um
mestre é necessário pelo menos um servo. Ao médico
(mestre), um doente
submetido a ele. Clavreul acrescenta que o diagnóstico retira o doente não só da
responsabilização daquilo que padece, mas retira-o também da angústia do não
sentido que a doença porta obliterando sua participação no processo de cura. Os
fenômenos, os enigmas da doença são retomados e decifrados pelo discurso
médico portador de um sentido alheio ao sujeito, assim como sua doença.
Quando o médico impactado pelo enigma do sujeito, não consegue
responder, ainda em que pese todo seu saber e arsenal técnicos, o paciente é
encaminhado ao profissional do ambulatório de psicologia, como último caso após
esgotadas todas as outras tentativas. O que à primeira impressão poderia ser
crédito à cura pela palavra, mostra-se, na maioria das vezes, como uma tentativa
de livrar-se da “batata-quente”, passar adiante este sujeito que só faz lamuriar-se.
Como uma histérica, o paciente “derruba” o douto saber médico. Assim, o discurso
histérico faz apelo ao mestre, mas este é castrado e, assim, o paciente é
encaminhado ao psicólogo o que evidencia uma demanda ao discurso do analista
o avesso do discurso do mestre.
4.3.2 A Psicologia e os discursos
Acreditamos que para delinear estas questões precisaremos fazer uma
digressão sobre qual é o lugar da psicologia e seu campo de saber a partir de sua
insistente tentativa de habitar o corpo científico. Em seu texto “O que é a
Psicologia?” (1958), Canguilhem já antecipava o atual rumo tomado pela psicologia
em abarcar diversas áreas de saber e em sua aproximação com as neurociências
ao colocar-se como psicologia biológica – tal como a psiquiatria – acreditando-se
assim, mais próxima dos rigores científicos:
Para a psicologia, a questão de sua essência, ou mais modestamente de seu
conceito, coloca em questão também a própria existência do psicólogo, na
medida em que, por não poder responder exatamente o que é, tornou-se
bastante difícil para ele responder o que faz.
“...” A unidade da psicologia é aqui procurada na sua definição possível como
teoria geral da conduta, síntese da psicologia experimental, da psicologia
clínica, da psicanálise, da psicologia social e da etnologia. (CANGUILHEM,
1973, p. 1-2)
Apesar da influência freudiana - e a proposição de talking cure - ocorreu
uma separação substancial entre psicologia e psicanálise no século XIX. Neste
século vai fundar-se como uma biologia do comportamento humano, além da sua
constituição como patologia nervosa e mental, como física do sentido externo,
como ciência do sentido interno e do sentido íntimo. Canguilhem sugere que este
desfecho se deu não só pelo apego à cientificidade, mas também por razões
econômicas e políticas que determinaram a uniformização do comportamento
humano em detrimento da particularidade subjetiva. Em outras palavras, o acento
recaiu sobre as semelhanças e não sobre as diferenças.
Recusando seu passado filosófico que o “estudo da alma” faz aludir, a
psicologia torna-se instrumento do “instrumentalismo” cujo conceito de homem é o
de ferramenta. Para o autor, o psicólogo do século XX é um “prático profissional
cuja ciência é totalmente inspirada na pesquisa das leis da adaptação a um meio
sócio-técnico” (CANGUILHEM, Ibid, p. 9) Podemos entender que a busca por
cientificidade leva a psicologia a colocar-se a serviço de um estatuto social que
tenta normatizar, uniformizar a conduta humana. Canguilhem acrescenta ainda que
ao colocar-se como “psicólogo do comportamento humano” assume uma posição
de superioridade, o que em termos lacanianos significa um lugar de mestria
sustentado pelo discurso do mestre.
Com o objetivo de ilustração, uma vinheta clínica: Jovem rapaz de 16 anos,
portador de vitiligo é encaminhado ao serviço de psicologia pelo dermatologista
que após duas sessões, abandona o tratamento. Ao ser interrogado pelo médico
que o encaminhou a respeito da sua desistência, responde que o psicólogo disselhe que ele deveria falar sobre os motivos de sua irritação, pois acreditava que era
a raiva que o havia feito adoecer. Ao responder desconhecer as razões, o
psicólogo determinou: “Então, volte quando souber.” Como ainda não descobriu,
não retornou.
Discurso do Mestre
Sujeito
↑ S1
$
Outro
→
S2
↓
a
Apesar de haver um reconhecimento na “cura pela palavra”, ocorre uma
direção rumo ao sentido previamente dado pelo profissional que, na posição de
mestre sentencia: “Eu sei que você padece da sua raiva. Fale-me disso”. De outra
maneira: Conheço aquele que, do rol dos significantes do campo do Outro (S2) o
representa – irritação (S1). Produza-me sentidos (a), faça-me gozar ao confirmar
meu saber. Esta sentença impede o surgimento do sujeito e seu saber
inconsciente, que se encontra sob a barra do recalque ($) e desconsidera também
o gozo Outro do fenômeno psicossomático que está para além do sentido e,
portanto, fora do significante, no real.
Antes de continuar, gostaríamos de contextualizar a psicologia nesta
instituição. Por razões políticas, esta unidade passou por uma reforma, não apenas
física, mas de um conceito de saúde onde deixa de ser mais um posto de saúde
referenciada
para
aceder
a
Centro
de
Especialidades
Médicas
cujos
“especialismos” ganham ares de ciência sob o domínio do saber todo da
especialidade. Na antiga unidade de saúde, os psicólogos atendiam à demanda de
psicoterapia fosse o paciente portador de HIV, usuário de álcool, idoso ou criança,
pois visava o sujeito do inconsciente. Com a mudança ocorrida na instituição – e
também pelas diretrizes do ministério da saúde -
os diversos “Programas de
Saúde” – DST/AIDS, Dependência química, Saúde do trabalhador, Saúde do idoso,
etc. – solicitaram um profissional psicólogo na composição da equipe que, a partir
de capacitações e especializações transformou-se em “especialista na área”
Assim, qualquer coisa que escape do enquadre das especializações não é tratado
pelo psicólogo do programa. Para ilustrar, relataremos dois casos recentes: Ao ser
solicitada a atender uma criança “vítima de abuso sexual”, a psicóloga de um
determinado programa nega o atendimento por “não ter especialização na área”.
Uma outra psicóloga, de outro programa, faz uma primeira avaliação de um caso
de depressão severa, mas como o sujeito em questão não possui as atribuições
requeridas para o atendimento no programa, “repassa” o caso para a psicologia
ambulatorial. Entendemos esta busca por titulação não como uma tentativa em
romper com o paradigma médico, mas como uma espécie de insígnia fálica
acenando como ingresso – sempre fracassado – ao grupo de doutores (à Ordem
médica)
Então, temos os psicólogos dos programas e os psicólogos que atendem
deste lugar genérico denominado “Ambulatório de Psicologia” no qual recebem
tudo o que resta das demais “psicologias” que se encontram protegidas pelos
“Programas Específicos”. Desta forma, colocamos a “Psicologia Especial” aos
moldes do discurso do universitário onde, sob o domínio do saber (S2) do
especialismo, o psicólogo movido pela verdade da “ciência” (a completude fálica de
S1) sobre seu objeto de estudo (a) obtém como produção um sujeito ($) em
conformidade com este saber. Em busca por cientificidade e por um espaço no
meio médico, o psicólogo resiste em ocupar o lugar da transferência e, portanto,
vazio, pois de objeto a; para situar-se no lugar do saber (S2). Coutinho Jorge
acrescenta que “o campo do sujeito do universitário está desabitado pelo sujeito e
preenchido pela articulação significante do saber sustentado pelo falo, o que faz
com que ele pareça sem furo”, (COUTINHO JORGE, op. cit., p. 31)
Discurso do Universitário
Sujeito
Outro
↑ S2
→
a ↓
S1
$
Desta forma, diante do intratável, daquilo que se encontra como resíduo ao
tratamento convencional, o psicólogo é solicitado a dar conta deste resto de gozo
numa clara demanda à posição do analista que, nas palavras de Lacan ocupa o
lugar de santo enquanto dejeto a ser desprezado: “O santo “...” não faz caridade.
Antes, presta-se a bancar o dejeto: faz descaridade. “...” O santo é o rebotalho
(rebut) do gozo”. (LACAN, op. cit., p. 518-9) Sustentado pela transferência, mas
sem responder deste lugar, o analista faz semblante ao ocupar o lugar do objeto,
do dejeto. Como uma analisanda exemplificou: “Eu sei que você sabe porque eu
gosto de você, mas não responde porque não quer.”
No lugar da transferência, de suposição de saber sobre o sujeito (S2) - pois
como sabemos o inconsciente é um saber e sendo a transferência a atualização da
realidade do inconsciente, podemos concluir com Coutinho Jorge que a
“transferência, é essencialmente, transferência de saber inconsciente” (op. cit., p.
30) - o analista responde como objeto a, ou seja, com silêncio, cabendo a resposta
ao sujeito dividido ($) com a produção de seus significantes primordiais (S1).
Discurso do analista
Sujeito
↑ a
S2
Outro
→
$ ↓
S1
Evidenciamos nesta instituição de saúde um excesso de encaminhamentos
ao ambulatório de psicologia, indiscriminadamente, por demandas diversas.
Observamos que a qualquer queixa onde se vislumbre o apontamento para o
sujeito, o paciente é encaminhado ao “profissional psi”. Ressaltamos que tais
encaminhamentos vão desde o “choro fácil” a casos de patologias complexas que
causam enigma ao saber médico. Ao que parece a divisão entre o corpo-máquina
e o sofrimento inerente ao humano no seu mal-estar crônico da civilização, produz
um hiato dentro da própria instituição de saúde provocando um compartimento e
isolamento de atuações. Quando provocado a responder qual o lugar da
psicanálise na medicina, Lacan diz ser um lugar marginal. “Ele é marginal por conta
da medicina com relação à psicanálise – ela admite-a como uma espécie de ajuda
exterior”. (LACAN, 1966, p. 8) Lugar do rebotalho, à margem, por bordear o real ao
considerar o sujeito do inconsciente inerentemente pulsional.
4.3.3. Saúde pública a serviço do discurso do capitalista
Esta instituição, apesar de funcionar sob as determinações do Sistema Único
de Saúde (SUS) com sua proposta de assistência integral e universal, é
atravessada por questões políticas onde o acesso à saúde é utilizado como meio
de barganha, como moeda de troca entre os pacientes (eleitores) e o candidato a
vereador, numa clara adesão ao discurso do capitalista. As consultas (objetos),
são oferecidas aos “usuários” pelo vereador que utiliza-se da máquina pública, que
recebe pela produção do profissional, que atende o usuário, que elege um
capitalista/vereador sem perdas que, ao utilizar-se deste circuito, mantém seu
eleitorado e custeia sua permanência no poder. Para ilustrar:
O diretor da unidade possui o hábito de receber a população que solicita
atendimento de “encaixe”, numa espécie de central de vagas paralela. Nomeamos
este seu costume de “furar a fila” de “A porta da esperança”. Cabe ressaltar que os
encaixes servem para fazer calar a demanda da população, se esgotando neste
primeiro atendimento, não sendo exigida a continuidade do tratamento. Em um
desses episódios em que recebe a população, uma colega psicóloga vai procurá-lo
e o encontra com um paciente que foi encaminhado à psicologia. Ao vê-la o diretor
a interroga a respeito de vagas na sua agenda. A colega responde que se
encontra, como sempre, lotada. Diante desta resposta, ele se volta para o paciente
e responde que ao verificar melhor o seu pedido por consulta, percebeu tratar-se
de caso para a psiquiatria e não para psicologia. Este episódio demonstra com
pertinência o uso do saber como objeto a ser consumido e, portanto, passível de
trocas. Interrogamos então se, tal como na atual escalada à medicalização da
angústia, onde a divisão do sujeito – contingência do falante – adquire estatuto de
doença, as várias especialidades não entram como mais um objeto a ser
vorazmente devorado. O sujeito ($) ao acreditar-se desejante
encontra-se na
verdade sob o comando dos objetos (a) a serem consumidos, sem se dar conta
que sob o imperativo do gozo é ele o insumo do capitalista/vereador. Devemos
lembrar que a máxima do capitalismo é criar necessidades, fazer precisar.
Discurso do capitalista
$
S1
S2
a
Além do lugar de objeto a ser consumido enfrentamos a exigência por
produtividade, havendo uma pressão na quantificação dos atendimentos e
padronização do tempo das sessões
a partir do modelo médico. Em resumo,
devemos maximizar os lucros atendendo a um número maior de pessoas em um
menor tempo (número de sessões). É esta a exigência do mercado: prontidão e
cura rápida.
Ainda para ilustrar, utilizaremos de pequenos episódios da assistência
pautados no discurso do capitalista que vem ganhando cada vez mais força nos
serviços de saúde: a medicalização como recurso de aplacamento do mal-estar.
Paciente é encaminhada para psicologia, pela psiquiatria, por ter “fobia a
cachorros” – os animais dos quais a paciente diz ter “horror” são “poodles e
animais fofinhos como pintinhos” – mas, apesar do medo, mantém suas atividades
de trabalho e relacionamentos sociais. O curioso deste caso é que apesar do relato
da paciente de que a tal “fobia” não limita sua vida, a psiquiatra receitou um
“calmante”. Conclusão: ninguém sai da sala do médico, sem uma receita mesmo
que
não
precise,
ocorrendo
um
empuxo
à
drogadição
(legal)
–
os
benzodiazepínicos são potenciais causadores de dependência - onde o objeto
mais-de-gozar não é perdido, ao contrário, é recuperado numa adição.
Um colega de trabalho, a partir de um episódio de hipertensão procura um
médico que, após a consulta, lhe receita, é claro, uma série de medicações, entre
elas, a de um benzodiazepínico para “ajudar no sono”. Ao argumentar não ter
dificuldades para dormir, recebe como resposta que o outro remédio receitado
causa insônia. Parece anedótico, mas nos são ministrados o remédio do remédio
cujas substâncias fecham-se em si mesmas numa circularidade sem fim.
Gostaríamos de abordar também, um fato ocorrido recentemente no Centro
de Especialidades como exemplo de exclusão da singularidade em suas variadas
formas de manifestação. Há alguns meses, o gestor municipal de saúde resolveu
retirar da unidade aqui mencionada as clínicas não consideradas como
especialidades, dentre elas o ambulatório de psicologia que, na visão dele, deveria
integrar a ESF (Estratégia de Saúde da Família). Ora, na proposta do ministério da
saúde, a inserção do profissional de saúde mental na ESF, se dá como
suplementar, como apoio, ao nível de supervisão, sob a forma de núcleos
matriciais responsáveis por cada grupo de onze a vinte ESFs. Entendemos com
isso a tentativa de acabar com o ambulatório de psicologia, pois esta proposta não
contempla as psicoterapias individuais na medida em que, como atenção básica à
saúde, a ESF prioriza as ações em prevenção articulando educação e saúde, não
existindo, inclusive, espaço físico para atendimento individual com um mínimo de
enquadre.
Desta forma, o programa de saúde mental reduziu-se por um lado, à
prevenção – restando imaginar como fazer prevenção psíquica (ou prevenir-se do
psiquismo?) e por outro, à assistência nos CAPS. Entendemos como uma tentativa
de submetimento à Ordem (médica) pois, caso não se previna a doença (mental)
aos moldes de uma medicina sanitarista o sujeito é alçado pela psiquiatria, no
sistema de patologização do sofrimento psíquico o que é bastante preocupante, na
medida em que pode transformar fenômenos sociais e momentos da vida que
exigem elaboração do luto em doença mental exigindo, portanto, medicação. Em
resumo, um movimento higienista como se coincidissem pobreza e doença mental
- pois na medida em que somos medidos pelo potencial de consumo, se não
temos, não somos - cabendo ao Estado restituir esta função seja na forma de
assistência técnica, seja na forma de insumos medicamentosos. Há pouco tempo
uma psicóloga da Secretaria de Ação Social do município resumiu o morador de
rua sob a qualificação de doente mental: “O morador de rua se não é psicótico,
na rua, acabará sendo.” Como se a psicose fosse uma evolução, uma doença
progressiva ou conseqüência exclusivamente do meio, retornando à proposta
behaviorista de Watson: “o que somos é o que fazemos e o que fazemos é o que o
ambiente nos faz fazer”. Corremos o risco assim, como profissionais de saúde
mental,
de
trabalharmos
psiquiatrização da população.
a
serviço
da
segregação
numa
escalada
de
4.4 A escuta da singularidade: A saída do discurso do capitalista
Entendemos que este movimento de mudança no atendimento do sofrer
psíquico proposto pela gerência de saúde municipal (eliminação da clínica “psi”),
elimina não só o sujeito - desresponsabilizado por seus males - mas também o
lugar de escuta de sua singularidade representado pelos ambulatórios de
psicologia. Acreditamos que foi uma forma encontrada para “enquadrar” também
as psicólogas do ambulatório que se opunham aos “encaixes” propostos pela
chefia. Acrescentamos também a conquista de terem suas agendas sob suas
responsabilidades o que impõe controle sobre o número de pacientes atendidos, o
tempo de duração das sessões e o tempo de duração do tratamento não
submetidos assim, às regras capitalistas de maximização dos lucros, mas à
economia da libido do sujeito que, por sua constituição, está sempre no negativo.
Esta decisão do gestor foi abandonada, mas decidimos estruturar um
Serviço de Psicologia Clínica – aliás é o produto desta dissertação, o apêndice –
na forma de um trabalho a ser apresentado aos gestores de saúde intitulado “Por
uma clínica do sujeito”, objetivando uma clínica respaldada sobre um tripé: (1)
formação clínica do psicólogo – que, no nosso caso, é causada pela psicanálise - ;
(2) as normas do Ministério da Saúde (política do SUS) em conformidade com (3)
as diretrizes da Reforma Psiquiátrica e sua proposta de “rede de assistência” à
saúde mental na qual o ambulatório de psicologia é mais um dispositivo: o lugar
de escuta da singularidade. Trata-se da tentativa de garantir a prática de fazer
circular a fala que tem como princípio ético a escuta do sujeito causado pela falta,
este “estranho objeto chamado desejo”.
Lacan indica como saída do discurso do capitalista, o discurso do analista
que reinaugura o lugar da falta, da divisão do sujeito. Onde a clínica médica se
detém – nas manifestações transferenciais, a psicanálise instaura
discurso e, conseqüentemente uma outra clínica.
um novo
Se a partir do discurso do
mestre, próprio da medicina, o saber encontra-se do lado do médico o qual
responde deste lugar, a psicanálise, ao dirigir-se ao outro como sujeito possibilita a
retificação subjetiva e o saber inconsciente.
O discurso da ciência, o mestre contemporâneo, em seu imperativo de saber
reitera a exclusão do sujeito. Em sua promoção ininterrupta de objetos prontos
para consumo a serviço do capital, conduz à massificação e não às escolhas
provenientes da subjetividade. Ao ser reduzido a feixes neuronais em suas funções
sinápticas o sujeito pôde, enfim, ser padronizado. A impossibilidade do enquadre
imaginário a partir de explicações sócio-ambientais vem sendo acrescida pela
vertente do real do corpo e o registro simbólico sistematicamente rechaçado. Como
fazer frente a(o) isso? São inúmeros os exemplos, mas optamos por um muito em
voga na atualidade que vem lotando os consultórios médicos e aumentando o
lucro da indústria farmacêutica, o TDAH (transtorno do déficit de atenção e
hiperatividade). O que faz o “transtorno” interessante para o nosso estudo, são
suas inúmeras comorbidades (cerca de dez) que surgem a cada nova tentativa de
totalização do sujeito. Se a medicação por um tempo faz calar, o sujeito, que não
cessa de não se escrever, teima em retornar, voltar à cena. Diante do impossível
de educar – uma das comorbidades é o “transtorno opositor desafiador” (TOD) –
surgem novas comorbidades que exigem mais
drogas e mais enquadre
pedagógico sob a forma de terapia comportamental. Então, o que observamos na
atualidade são fenômenos que, ao contrário do sintoma não contam uma história
de amor – não se trata assim, de um gozo fálico - e causam estranhamento ao
sujeito. Patologias ligadas ao ato manifestando-se em compulsões diversas onde
mais uma vez o aforismo lacaniano parece se confirmar e “aquilo que é
foracluído no simbólico, retorna no real” na forma de um gozo fora da
representação que se presentifica como modo de irrupção do sujeito excluído.
Maria Anita Carneiro Ribeiro acrescenta que para Lacan
Se a ciência moderna continuasse a ignorar o ‘efeito sujeito’, cada vez mais se
abriria a falha epistemo-somática entre o saber científico sobre o corpo e o que
seria possível a este corpo, habitado por um sujeito do desejo e do gozo e
ignorado pela ciência apresentar como fenômeno. (CARNEIRO RIBEIRO, 2004,
p. 49)
São estes fenômenos
– psicossomáticos, compulsões, toxicomanias,
transtornos e síndromes diversas – sintomas da contemporaneidade? Esta questão
vem permeando o meio psicanalítico cujas respostas não cessam com o debate,
ao contrário, como histéricas relançam as interrogações e põem o mestre para
trabalhar. Então vamos recorrer a eles.
Lacan atribui a descoberta do sintoma à Marx: “Há que se buscar as origens
do sintoma, não em Hipócrates, mas em Marx, na ligação que ele foi o primeiro a
estabelecer entre o capitalismo e... o quê? Os bons velhos tempos, daquilo que
chamamos os tempos feudais.” (LACAN, 1975, p. 106, apud ŽIŽEK, op. cit., p. 308)
Verificamos com esta afirmação que o conceito de sintoma em psicanálise, não é
o mesmo da medicina e, por isso, não é localizável no discurso médico, ao
contrário, figura como sintoma ao conceito universalizante de patologia localizável
no organismo tão em voga nos nossos tempos de psiquiatria biológica.
Žižek nos apresenta um texto primoroso e elucidativo desta afirmação de
Lacan. Sem nos estendermos na teoria de Marx e a partir do texto de Žižek,
sintetizaremos um pouco do conceito. A passagem do feudalismo para o
capitalismo se dá a partir de princípios supostamente universais de igualdade,
fraternidade e liberdade. As relações estabelecidas entre o senhor e o servo se
apresentam agora sob a forma de relações entre as coisas. Saímos do campo das
relações entre os homens – dominação e servidão - para relação entre as coisas
que se estabelecem entre a mercadoria e a força de trabalho, transformada
também em mercadoria. Esta nova mercadoria – força de trabalho – em sua
relação com as outras mercadorias aponta para a impossibilidade de equivalência,
porque entre o trabalho e o salário, algo resta como impossível de ser computado
– saudade, cansaço (representantes da mais-valia) - escapando assim, do conceito
universal de igualdade, ao provar que não há correspondência nas relações de
troca. As relações de dominação e servidão recalcadas emergem com um sintoma
– força de trabalho como mercadoria – e que subverte a aparência de igualdade e
liberdade. Em outras palavras, surge algo – sintoma - para Marx o próprio
proletariado, que se encontra em desacordo com a razão vigente e que desmente
o princípio universal dos direitos e deveres burgueses. O sintoma assim, tem um
valor de verdade, de uma verdade que se encontrava obscurecida pelo discurso
dominante.
Então, o sintoma para a psicanálise é aquilo que deflagra o que estava
recalcado e representa a negação interna do discurso totalizante funcionando
como um ponto de exceção. Assim, surge a questão: Diante do discurso todo das
neurociências, o que irrompe como sintoma e vem fazer exceção a este discurso?
Poderia ser o sujeito? Aquele que apesar de excluído, subsumido no discurso,
teima, insiste e persiste e “não cessa de não se escrever”? Se na atualidade, a
exigência é pela formação de grupos de iguais e exclusão à diferença, poderíamos
dizer que o mal-estar da nossa civilização é a singularidade?
A partir do exposto, poderíamos dizer que estas manifestações de gozo têm
relação com o discurso do capitalista? E sendo o discurso do psicanalista aquele
que pode fazer frente a este discurso, qual é a direção da cura para tais
fenômenos?
Como já mencionado, o discurso do analista instaura um novo lugar – da
transferência - que ultrapassa o desvelamento do sintoma em sua vertente
simbólica, apontando para o real como algo de incurável indicativo de nossa
divisão fundamental logo, estrutural, e que nos remete à nossa peculiar condição
de falantes:
É o real que permite desatar efetivamente aquilo em que consiste o sintoma, ou
seja, um nó de significantes. Atar e desatar que aqui não são apenas
metáforas, mas a serem apreendidos como os nós que realmente se constroem
ao formar sua cadeia com a matéria significante. (LACAN, op. cit., p. 515)
A psicanálise deve assegurar uma nova ordem para o sujeito, em oposição à
ordem da ciência, da magia, da religião ou da filosofia, que propõem a totalização,
o impossível encontro sexual. A psicanálise tem a oferecer , ao contrário, o resto,
furo real cujo acesso possível é pelas bordas, sob o véu da fantasia. No lugar de
objeto causa de desejo para o sujeito - único sujeito do discurso - movido pelo
desejo do analista, cujo desejo é pela
emergência do singular implicado com
lalíngua (a letra). Desta forma, não há como prometer a felicidade, a cura, o
paraíso perdido, nem mesmo de fazer caridade, mas nas palavras de Lacan:
É ao analista, e a ele somente que se endereça essa fórmula que tantas vezes
comentei, Wo es war, soll Ich werden. Se o analista trata de ocupar esse lugar
no alto e à esquerda que determina seu discurso, é justamente porque de modo
algum está lá por si mesmo. É lá onde estava o mais-de-gozar, o gozar do
outro, que eu, na medida em que profiro o ato analítico, devo advir. (LACAN,
op. cit., p. 50)
CONCLUSÃO
5. CONCLUSÃO
Desenvolvemos nesse trabalho a exclusão do sujeito na ciência e,
conseqüentemente, nas relações sociais permeadas pelo discurso do capitalista
cuja
manifestação na contemporaneidade se dá através de um fenômeno
chamado globalização exigente por normatização e massificação mundial. Estamos
sob a vigência da hegemonia da cultura ocidental em detrimento da alteridade
simbolizada nas variações culturais o que, como sabemos, tem como efeito
movimentos de grupos baseados na exclusão ao diferente. O totalitarismo vigente
fruto da ciência moderna e sua busca por padronização tem como mecanismo
principal a dessubjetivação que serve de motor ao ódio, não só ao outro excluído,
mas ao próprio sujeito – do inconsciente.
Em sua vertente puramente imaginária, reduzido às atribuições e, assim,
transformado em indivíduo ao rechaçar sua divisão estruturante, o sujeito passa à
consumidor onde se é medido pelo potencial de consumo onde ter corresponde a
ser, cujos objetos parecem possuir consistência e, portanto, com poderes de
completude. Ao contrário da operação de subtração cujo resto move o desejo, a
atual sociedade de consumo parece usar a operação de adição, numa tentativa de
recuperação de gozo, de sempre um a mais: adição à drogas, aos gadgets da
ciência , a... O que só faz aumentar o grupo de consumidores e o grupo dos
excluídos. Visionário deste movimento crescente de segregação cujo exemplo
máximo são os campos de extermínio, Lacan em sua “Proposição de 09/10/1967”
nos diz:
o que vimos emergir deles, para nosso horror, representou a reação de
precursores em relação ao que se irá desenvolvendo como conseqüência do
remanejamento dos grupos sociais pela ciência, e, nominalmente, da
universalização que ela ali introduz.
Nosso futuro de mercados comuns encontrará seu equilíbrio numa ampliação
cada vez mais dura dos processos de segregação. (LACAN, 1967, p. 263)
As exigências do mercado atingem também a saúde que passa a mais uma
mercadoria – moeda de troca – seja na forma de acesso ao serviço, seja no uso de
medicação com forte apelo midiático e o imperativo determinante da indústria
farmacológica que, não por acaso, encontra-se ao lado da indústria bélica
(lembremos, o horror ao diferente gera extermínio) como aquelas que movimentam
bilhões de dólares e, portanto, não podem parar.
Destacamos também a respeito da função normatizante/moralizante da
medicina em sua associação com o discurso da tecnociência. A forma que o
manual nosográfico da psicopatologia vem tomando se encontra fundamentada no
reducionismo
biologizante
a
partir
de
uma
adequação
às
ofertas
da
psicofarmacologia. Os sofrimentos psíquicos – transformados em transtornos passam a ser reordenados a partir da observação fenomenológica do
comportamento e sobre o qual as novas drogas podem ter alguma eficácia.
Qualquer acento que poderia recair sobre a subjetividade é anulado não havendo
espaço para os processos psicodinâmicos considerados na psiquiatria tradicional.
Na
atualidade
o
tratamento
possível
para
as
doenças
mentais
são
medicamentosos (aliás, os psiquiatras destes novos tempos biológicos, são
nomeados de psicofarmacologistas) acompanhados, no máximo, de terapia
cognitivo-comportamental, os neuropsicólogos, também sob o domínio do biológico
como determinante do comportamento humano aos moldes da neurologia e sua
tentativa de espacialização do psiquismo.
Entendemos que o sujeito do inconsciente ao ser excluído do discurso da
ciência – sob a regência do capital– vai de alguma forma retornar. Mas de que
forma? Sabemos com Lacan que aquilo que é foracluído no simbólico, retorna no
real. O sujeito, desconsiderado, rechaçado, como retornará? Será que podemos
dizer que a exclusão do sujeito apresenta como conseqüência patologias ligadas
ao ato que, ao contrário do sintoma, são pouco abordáveis pela palavra logo,
retornam como gozo – real – em detrimento do simbólico? Será que poderíamos
dizer que os fenômenos que se apresentam no sujeito são o efeito sujeito à
exclusão? Por que temos na atualidade um recrudescimento das modalidades de
gozo manifestadas em compulsões diversas? Estas questões vêm ganhando força
no meio psicanalítico neste momento de acirramento do discurso do capitalista e
vem como resposta a elas o declínio da função paterna apresentando assim, os
chamados “novos sintomas da contemporaneidade”.
Gostaríamos também de
levantar um pouco mais de polêmica ao assunto sem a pretensão de esgotá-lo
e/ou responder, caso que não cabe neste espaço de conclusão. Atrevemo-nos
apenas somar ao grupo de discussão levantando mais interrogações.
Em seu texto “Totem e Tabu” de 1913, Freud utiliza-se de um mito para
elucidar o surgimento da civilização através da criação de uma lei que, como tal,
pacifica, modula as relações
com o semelhante, além de aludir à renúncia à
satisfação pulsional como inerente à constituição do sujeito e ao processo
civilizatório. Ao final do texto conclui: “os neuróticos são, acima de tudo inibidos em
suas ações: neles, o pensamento constitui um substituto completo ao ato. Os
homens primitivos, por outro lado, são desinibidos: o pensamento transforma-se
diretamente em ação.” (FREUD, 1912, p. 190-1) Retiramos este pequeno
fragmento da teorização freudiana para propor algumas questões que surgem na
atualidade. Podemos entender com Freud que a lei – Nome-do-Pai – possibilita um
modo de estruturação psíquica que é a neurose e, portanto o sujeito abdicaria da
satisfação pulsional de sobrepujar o outro, substituindo o ato pelo pensamento: a
postergação da satisfação a serviço do princípio de realidade, sublimação ou
qualquer outro recurso em que o “pensamento” surja como forma de mediação ao
ato, substituto da com-pulsão acéfala. Retornaremos neste ponto. No momento,
recorreremos à teoria para tentar circunscrever algumas questões que se
apresentam como rusgas entre o sujeito e a civilização na contemporaneidade.
Ao opor-se à distinção entre individual e social e ao considerar o
inconsciente e suas formações, a psicanálise define o sujeito como efeito da
cultura – linguagem – porém não cristalizado a este ou aquele significante, mas
entre eles, em seus deslizamentos, pois o próprio campo da linguagem nos remete
ao mal-entendido, às ambigüidades características do significante. Se o
inconsciente é estruturado como uma linguagem, inclui, em sua essência, a cultura
na qual o sujeito vai constituir-se e, assim, esta primeira marca significante que se
encontra no campo do Outro perpassa e é perpassado pelo social. O sujeito do
inconsciente é efeito da linguagem, referido ao “social”, porém nem a linguagem,
nem o social são passíveis de “criar” o sujeito, que será constituído a partir das
determinações do campo do Outro, mas não lhe é essencialmente idêntico, algo
escapa promovendo “furo” nessas determinações. Opondo-se à conceituação de
indivíduo, em sua etimologia não-dividido, a psicanálise considera o sujeito - do
gozo e do desejo - dividido em relação ao que o causa. Assim, a civilização não é
causa do sofrimento psíquico, mas é a condição do sujeito , da doença e da
loucura, ocorrendo aí, uma dialetização entre o advento do sujeito a partir do
processo de aculturamento e sua conseqüente sintomatologia, vicissitude
característica dos falantes, pois como vimos o atravessamento da cultura promove
a passagem do homem primitivo ao neurótico.
Sabemos que o objetivo da civilização é domar o gozo mortífero que nos
aproxima de nossos ancestrais primitivos em seu impulso à destruição e à morte.
Nas palavras de Freud é a forma de regular os homens em seus relacionamentos
mútuos, pois como verificou, a inclinação do homem é de aniquilar: “O homem é o
lobo do homem”. Na atualidade observamos a disseminação de conceitos e valores
onde, ao contrário do objetivo acima, há um imperativo de gozo, o que nos faz
questionar a respeito deste nosso momento civilizatório. Há um declínio da lei do
Édipo? Existiram sociedades anteriores onde o processo de aculturamento foi mais
bem empregado? Há um retorno à barbárie, à horda primitiva? Estamos todos fora
da lei e, portanto, estamos na psicose ou surgiram novas estruturas psíquicas?
Sabemos da lei, mas mesmo assim... então, somos todos perversos?
Vamos então pensar na lei – na castração. O assassinato do pai e a culpa
subjacente ao ato, levam à identificação com o pai morto e a internalização da Lei
que proíbe o parricídio e o incesto impedindo assim, que um outro venha ocupar o
lugar do pai primevo. É preciso ultrapassar esse imperativo de gozo localizado no
pai da horda, cujo capricho é lei para o grupo que, fazendo-se exceção, tem
acesso ao absoluto do gozo. Há que se ter uma lei na qual todos aqueles que
habitam a linguagem se submetem: Lei do desejo, lei simbólica onde todos, sem
exceção, pagam a dívida com sua libra de carne: a castração.
Desta forma, a legitimação do desejo do sujeito se inscreve como uma dívida
simbólica, um pacto com o pai. Dívida que, apesar de honrada quando no
assentimento do limite ao gozo absoluto, nunca é quitada permanecendo, ao
contrário, registrada como uma espécie de nostalgia dolorosa quando na renúncia
da satisfação pulsional. O pacto com o pai permite o ingresso na cadeia do desejo,
estabelecendo uma espécie de “contrato com o falo”, onde ser fiel a este gozo
(fálico) seria justamente consentir com uma satisfação parcial que satisfaz
(pontualmente) um sujeito e não um organismo.
A castração limita o gozo, é essencialmente perda. Há uma falta na lei da
castração e isto tem um duplo sentido: A castração impõe uma falta no sujeito, pois
o objeto que supostamente o completaria está para sempre perdido; e o sujeito
encontra-se em falta para com a lei porque dela nada quer saber e por isso a
tendência ao retorno ao inanimado, em outras palavras, o sujeito se submete e
tenta burlar a lei. Freud, em seu texto “A divisão do eu no processo de defesa”
(1940) nos fala deste conflito entre as exigências da cultura e a satisfação pulsional
ao qual o sujeito responde permitindo a satisfação de ambas as partes, porém isso
se dá “ao preço de uma fenda no eu”. “As duas reações contrárias ao conflito
persistem como ponto central de uma divisão do eu.” (FREUD, 1940, p. 309-0)
Podemos entender então que a lei da castração não é integralmente operante. Por
originar-se do crime, a lei funda o pecado e o pecador trazendo em seu bojo um
empuxo à tentação. A lei que serve para mediar nossa relação com o outro não
impede totalmente o pecado, pelo menos não o desejo de pecar, indicando com
isso uma falha na ordem simbólica, um furo real como resto não simbolizável.
Como vimos, não devemos esquecer a presença do supereu como herdeiro
do complexo de Édipo e portador também de um paradoxo: representante da lei e,
ao mesmo tempo remanescente da fusão narcísica, o supereu compreende a lei e
sua própria transgressão. Então, a partir do exposto, surgem as questões: Se,
conforme o exposto, a lei encontra-se no cerne da constituição do sujeito, ao supor
o declínio da função paterna não estamos afirmando que as condições para o
surgimento do sujeito estão também em dissolução? Ao afirmar o declínio da lei na
atualidade, não estamos considerando que em algum momento, no passado e em
outras civilizações, ela já foi mais bem sucedida? Não estamos recusando o
princípio de parcialidade da operação da lei? E, portanto, não estamos
confrontando a teorização da lei e o mal-estar inerente à civilização?
Lacan nos diz que “a gulodice pela qual Freud denotou o supereu é
estrutural – não é um efeito da civilização, mas um ‘mal estar (sintoma) na
civilização”. (LACAN, op. cit., p. 528) Como o supereu seria um sintoma na
civilização? O supereu em sua vertente de ideal do eu traz o imperativo do gozo, o
empuxo-ao-gozo como resto não simbolizado pela lei, acarretando um sintoma no
processo civilizatório por apontar, justamente, a incompletude no Édipo, a
existência de um furo na lei indicativo de nossa fundamental divisão: somos lobos
em peles de cordeiro. Somos civilizados, mas o primitivo nos habita.
Então quanto à questão se há declínio ou não da função paterna, talvez
devêssemos formular se não há, na verdade, em momentos históricos e sociais
diversos, formas diferentes de fazer frente à castração. Será que poderíamos
entender com isso, que os sintomas apareceriam revestindo o sujeito aos moldes
do figurino da época e, sendo assim, não teríamos “novos sintomas”, mas novas
formas de recobrimento do mal-estar?
Se respondemos que sim, como se dá isso hoje? Também é lugar comum a
afirmação de que estamos vivendo num mundo de violência e segregação, onde é
possível passar ao lado da multidão de pedintes abandonados à própria sorte, em
uma total indiferença a tais fenômenos sociais conduzindo todos à máxima “do
cada um por si”. O que vem se instalando na contemporaneidade é uma
normatização dos sujeitos, onde temos que ter – ou parecer ter – para fazer parte
da uniformização do grupo. Assim, projetos pessoais perpassados pelo desejo que
apontam para singularidade são abandonados e o que se observa é um
individualismo extremado. O eu, na sociedade do espetáculo, está em alta. Como
podemos entender isto? Os psicanalistas respondem que estamos sob a regência
do discurso do capitalista e assim presos a um discurso fechado em si mesmo e
que não faz laço social:
Discurso do Capitalista
↓$
S1
S2 ↓
a
Assim, embora o sujeito se encontre no lugar do agente e acreditando estar
no domínio, na verdade está submetido ao excesso de objetos prontos para o
consumo ofertados pelo mercado. Tais objetos não são eleitos pelo sujeito,
portanto não dizem respeito ao seu desejo, mas ao mandato superegóico Goza!
cuja resposta dada é uma assertiva: Gozo! em uma obediência cega. Talvez daí
possamos entender também o tal individualismo, porque subsumido no discurso, o
sujeito só pode ser representado imaginariamente, necessitando sempre de mais
objetos para se completar e adquirir alguma consistência, crendo-se inteiro, indiviso. Então, diante da maior fonte de sofrimento apontada por Freud - a relação
com o semelhante que é sempre de desencontro, problemática, dividida, faltosa – a
solução encontrada seja não partilhar com os demais humanos ficando todos
presos a um gozo solitário, num mundo do eu.
Ao que parece, estamos diante de um recrudescimento de rejeição à
alteridade, onde para fazer frente à castração - à falta indicativa do desejo, logo à
singularidade - há uma imposição por uma normatização, uma massificação a partir
de um discurso onde o sujeito está elidido. A partir do aforismo lacaniano “ o que
foi foracluído no simbólico, retorna no real” tentamos explicitar que o sujeito
foracluído nos discursos da contemporaneidade retorna, não sob a forma de
retorno do recalcado em sua manifestação simbólica, mas sob a forma de gozo em
sua vertente de morte e, portanto, sem os sentidos norteadores do gozo fálico. Em
outras palavras, o rechaço à singularidade retorna sob o aspecto de patologias
ligadas ao ato, cujas manifestações atuais são compulsões diversas em alusão à
pulsão de morte e que fazem objeção ao saber todo da ciência. Sob o imperativo
de “Tudo Saber!” do discurso do universitário e a serviço do discurso do capitalista,
a ciência busca a produção de um saber globalizante e alienante desconsiderando
aquilo que resta - pois todo discurso deixa um resto - que neste caso é o sujeito do
inconsciente.
Observamos na clínica a incidência deste gozo irrepresentável, indizível,
apresentando-se no corpo como fenômenos – psicossomático, toxicomanias,
compulsões diversas – que, ao contrário do sintoma, não são historicizáveis, mas
aparecem dissociados do sujeito, como uma espécie de possessão. De forma
recorrente, o sujeito quando incitado a falar sobre sua compulsão ou sobre seu
fenômeno psicossomático faz uma descrição do ato em si, sem fazer nenhum tipo
de associação, ao contrário, o que ouvimos de maneira geral é não sei, não
entendo, não me reconheço, indicativo de sua localização na região brumosa da
pulsão de morte e, portanto, invisível e silenciosa, não representada pelos
enlaçamentos significantes, logo, sem palavras, muda.
Freud indicou, ao final do texto do mal-estar que só Eros pode fazer frente a
Tanatos: “ Agora só nos resta esperar que o outro dos dois ‘Poderes Celestes’, o
eterno Eros, desdobre suas forças para se afirmar na luta contra o seu não menos
imortal adversário”. (FREUD, op. cit., p. 170-14), então podemos entender que a
via para o tratamento de patologias ligadas à pulsão de morte é a libido. Devemos
fazer falar, qualquer coisa que vier à cabeça – as histórias, contos e mitos
individuais do neurótico, estes sim passíveis de intervenção - e assim, através da
associação livre, produzir amarrações a esta energia livre e desligada que é a
pulsão de morte.
Freud encerra sua Conferência XXXI indicando o trabalho do psicanalista
frente à compulsão à repetição e ao mandamento do supereu. Em suas palavras:
“Seu propósito, é na verdade, fortalecer o eu, fazê-lo mais independente do
supereu, ampliar seu campo de percepção e expandir sua organização , de
maneira a poder assenhorar-se de novas partes do isso. Onde estava o isso, ali
estará o eu.” (FREUD, 1933, p. 102) Podemos compreender assim, que o ato
analítico favorece na elaboração psíquica ao promover a retificação subjetiva na
qual o sujeito não fica tão à mercê do determinismo do isso. Ao permitir a palavra
ao sujeito na associação livre – que já nos remete à ligação - em sua constante
indicação do desejo, o analista favorece a perspectiva do lado do pensamento, da
elaboração psíquica, e assim, quem sabe, o sujeito possa inibir o ato,
possibilitando menos padecimento – de gozo – no corpo, porque a cabeça pensa,
pensamento que é inconsciente.
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APÊNDICE - PRODUTO
Contribuição da psicanálise na estruturação de um Serviço de Psicologia Clínica
(em conformidade com as diretrizes do Sistema Único de Saúde – SUS – e
vinculado à proposta de Reforma Psiquiátrica Brasileira) a ser apresentada aos
gestores e demais profissionais que compõem a rede pública de atenção à saúde
mental. Apresentação em PowerPoint (CD em anexo) e material impresso.
TÍTULO: “POR UMA CLÍNICA DO SUJEITO”
Em que a Psicanálise pode contribuir com o ambulatório de psicologia na
rede pública de atenção à saúde mental?
AUTORA: Maristela Azevedo de França Oliveira Bastos
JUSTIFICATIVA: Ao verificar uma série de equívocos nos serviços públicos em
relação ao lugar da psicologia na rede de atenção à saúde, decidimos estabelecer
medidas que objetivassem a promoção de saúde mental na observância de
critérios mínimos para a formalização de um tratamento a nível ambulatorial. Para
tal, devemos priorizar a escuta do sujeito do inconsciente obliterado pelo
tratamento convencional psiquiátrico ou, atualmente, pela exigência de consumo e
produção característicos deste nosso momento social.
Embora conhecedores de que a psicanálise não se encontra inserida
formalmente na rede de cuidados em saúde mental, acreditamos encontrar em seu
escopo teórico o referencial por excelência de uma clínica que privilegia a
emergência do sujeito. Desta forma, utilizaremos dos conceitos básicos da
psicanálise como norteadores de um serviço ambulatorial de saúde mental (casos
não
absorvidos
pelos
CAPS,
ou
seja,
estruturas
neuróticas),
conceitos
fundamentais para um atendimento pautado na emergência do sujeito - do
inconsciente - ainda em que pese as múltiplas abordagens teórico/clínicas
inerentes às escolhas de cada profissional “psi”.
Evidenciamos ainda, um leque de mal-entendidos de qual seja o papel da
psicologia na medida em que, ao
focar a multidisciplinaridade
proposta na
Reforma Psiquiátrica em torno de seu objetivo fundamental de reinserção social,
acaba-se, muitas das vezes, por negligenciar as especificidades de cada campo de
saber. Em outras palavras, podemos compartilhar deste objetivo, porém atendendo
as particularidades de cada área técnica porque é justamente da pluralidade de
atuações logo, da diferença, que se compõe um trabalho de equipe.
Pensamos então na elaboração deste material, na tentativa de levantar
questionamentos nos profissionais da área, demarcar e garantir este lugar –
psicologia clínica - não só como mais um dispositivo no território de atenção à
saúde mental, mas como lugar continente que privilegia a emergência do sujeito e
seu desejo.
OBJETIVO GERAL: Possibilitar informações e acesso a um serviço de psicologia
clínica como mais um equipamento integrante do território de atenção à saúde
mental tendo como norteadores os conceitos básicos da psicanálise.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS: Levantar discussões e questionamentos nos
profissionais de saúde mental quanto:
1. a qualidade do serviço oferecido à população;
2. a necessidade de formação e qualificação profissional;
3. a necessidade de estudo e supervisão de casos;
4. aos equipamentos que compõem o território de atenção à saúde mental, suas
especificidades e atribuições.
.
Por uma clínica do sujeito
Em que a Psicanálise pode contribuir com o
ambulatório de psicologia na rede pública de atenção à
saúde mental?
APRESENTAÇÃO
.
Iniciaremos com a proposta de promoção à saúde veiculada pelo Sistema
Único de Saúde (SUS) tendo como norteadores as diretrizes da Reforma
Psiquiátrica Brasileira e seu modelo de Rede de Atenção à Saúde Mental. O
movimento da reforma redimensiona a questão da hegemonia do saber
médico/psiquiátrico quanto ao tratamento das chamadas doenças mentais,
constituindo-se como um campo de saúde mental, um campo multidisciplinar e,
portanto, sob a perspectiva de articulação entre múltiplos saberes.
Sob este enfoque, e entendendo o serviço de psicologia clínica
como
dispositivo integrante na rede de atenção à saúde mental, propomos pensar a
forma de inclusão deste campo de saber preservando seu corpo teórico/técnico.
Nossa proposta, portanto, não é evidenciar a hegemonia de um saber sobre o
outro, mas priorizar as diferenças entendendo serem estas que compõem um
trabalho de equipe rico e eficazmente interdisciplinar, palavra que nos remete à
interlocução entre saberes. Então, as questões que permearam este trabalho
foram: E a Psicologia? Qual é sua forma de inclusão e contribuição nesta rede de
atenção?
Sabemos que o foco da Reforma Psiquiátrica é a restituição da cidadania
do paciente psiquiátrico, dado realmente necessário para um mínimo de
humanização de uma assistência secularmente segregadora. Porém, tornou-se
pano de fundo o reconhecimento da existência de um sujeito que ultrapassa as
atribuições sociais de louco, são, pobre rico, branco, preto... (e todas as demais
características recebidas em sua existência). Acrescentamos ainda o fato de uma
camada da população apresentar sofrimento psíquico e necessitar de tratamento,
porém não indicativo para os CAPS. Desta forma, acreditamos necessária a
formalização de um espaço
de escuta da singularidade e reconhecemos no
ambulatório este lugar privilegiado para a emergência do sujeito: a marca singular
de cada um ao fazer uso de sua palavra.
Ao se tentar fortalecer um lugar de escuta, tentamos sair do senso comum
que a palavra “escuta” parece ter adquirido. Um sentido próximo a uma
compreensão complacente com uma oferta de atendimento que infantiliza o sujeito
na medida em que se torna premente a presença
de um técnico para resolver
seus infortúnios e não é convocado a trabalhar, numa proposta de passividade que
impede mais que possibilita a emergência da singularidade e, portanto, do desejo
e sua conseqüente responsabilidade.
Este trabalho não pretende esgotar as questões inerentes à clinica que, por
se dar caso-a-caso – apesar de sustentada num escopo teórico – é um processo
dinâmico e, portanto, atualizada a cada paciente que inicia uma psicoterapia.
Nossa proposta, desta forma, é de levantar pontos de discussão e espaço para
novos estudos teórico-clínicos.
1. O SUS e a Reforma Psiquiátrica
A proposta do SUS - estruturado pela Constituição Federal de 1988, Titulo
VIII, Da Ordem Social, Capítulo II - para atenção à saúde se dá a partir dos
conceitos de universalidade e integralidade. Sobre estes princípios entendemos um
modelo de assistência que visa atingir todas as camadas da população com
estratégias que prevêem uma escala de intervenções de menor a maior
complexidade objetivando obviamente, as intervenções em prevenção e promoção
à saúde em sua amplitude. A saúde mental encontra-se inserida neste contexto e
tem como base as diretrizes propostas pelo movimento de Reforma Psiquiátrica
Brasileira, movimento que coincidiu com a reforma sanitária nos anos de 1970.
Inicialmente, o movimento de reforma centrou-se na dimensão política do
“tratamento” oferecido ao louco, denunciando o caráter segregador e desumano do
modelo manicomial e priorizando a restituição dos direitos de cidadania que a
prática de instituição total destitui de seus asilados. A dimensão clínica do
tratamento – clínica psiquiátrica tradicional – acompanhou as mesmas críticas na
medida em que respaldava, em nome da ciência, a prática da exclusão. Sob este
viés, e em referência ao modelo italiano, a reforma brasileira valorizou o dispositivo
de atenção psicossocial -reabilitação psicossocial - que visa restituir a autonomia
e os direitos de cidadania objetivando a reinserção social.
A proposta da reforma tem um modelo de organização em rede e que
ultrapassa o conceito de serviço especializado em uma tentativa de responder às
diversas demandas de tratamento de pessoas com sofrimento psíquico. É a
articulação dos múltiplos dispositivos formais de assistência, acrescidos daqueles
inerentes à própria comunidade que se estabelece um modelo de tratamento
viabilizado por parcerias formadoras de uma rede, na qual se organiza um território
não subsumido a um espaço geográfico ou físico, mas a todo um conjunto de
ações cujo objetivo é a promoção de saúde mental. Para isso se faz necessário o
pensamento abrangente da reforma quanto à contextualização e discriminação dos
meios próprios ao sujeito e comunidade considerando estes atores portadores de
recursos para o abrandamento do sofrer psíquico:
O território é a designação não apenas de uma área geográfica, mas das
pessoas, das instituições, das redes e dos cenários nos quais se dão a vida
comunitária. Assim, trabalhar no território não equivale a trabalhar na
comunidade, mas a trabalhar com os componentes, saberes e forças concretas
da comunidade que propõem soluções, apresentam demandas e que podem
construir objetivos comuns. Trabalhar no território significa assim resgatar todos
os saberes e potencialidades dos recursos da comunidade, construindo
coletivamente as soluções, a multiplicidade de trocas entre as pessoas e os
cuidados em saúde mental. É a idéia do território como organizador da rede de
atenção à saúde mental, que deve orientar as ações de todos os seus
equipamentos. (REFORMA PSIQUIÁTRICA E POLÍTICA DE SAÚDE MENTAL
DO BRASIL, 2005, p. 26)
REDE DE ATENÇÃO À SAÚDE MENTAL
ESF
*
ESF
SF
*
CAPS
Centro de Atenção
Psicossocial
ESF
*
Escola
Família
CAPSad
CAPSi
Vizinhos
Trabalho
Unidades
de
Atenção à Saúde
Lazer
ESF
*
Hospital
Geral
ESF
*
Pronto
Socorro
Municipal
CRAS
Conselhos
Esporte
ESF
*
Residências
Terapêuticas
ESF
*
Fonte: Reforma Psiquiátrica Brasileira e Política de Saúde Mental, 2005.
*ESF – Equipe de Saúde da Família
Verificamos com isso, que o território de atenção à saúde mental perpassa e
é perpassado por toda comunidade. Entendemos que apesar dos objetivos
comuns, os diversos serviços devem preservar sua especificidade na articulação
com os demais. Segundo material elaborado pelas Coordenação Geral de Saúde
Mental e Coordenação de Gestão de Atenção Básica (Ministério da Saúde), o
CAPS é o ordenador da rede de atenção à saúde mental, o dispositivo estratégico
para a organização desta rede, porém:
Apesar de estratégico, o CAPS não é o único tipo de serviço de atenção à
saúde mental. Aliás, a atenção em saúde mental deve ser feita dentro de uma
rede de cuidados. Estão incluídos nesta rede: a atenção básica, as residências
terapêuticas, os ambulatórios, os centros de convivência, os clubes de lazer,
entre outros. (SAÚDE MENTAL E ATENÇÃO BÁSICA, número 01/03, p. 2)
O trabalho é multidisciplinar, o que não pode ser entendido como atuações
idênticas, mas nos seus entrecruzamentos e nas demarcações de cada campo de
saber. É importante ressaltar estes aspectos, porque ocorrem certas confusões
quanto a manutenção e preservação de cada lugar posicionando-se o profissional
ora de forma estanque fixado no seu campo de saber, ou, ao contrário - sob a
ótica exclusiva de reinserção (e podemos cair para um enfoque puramente
assistencialista) - todos os profissionais atuando do mesmo modo, indistintamente
e, portanto, contrário ao modelo de interdisciplinaridade, que prevê a intersecção, a
articulação das disciplinas a partir de um objetivo comum: promoção de saúde
mental. Uma equipe interdisciplinar propõe a assistência ao indivíduo na medida
de suas necessidades preservando as peculiaridades de cada disciplina.
Psicologia
Serviço
Social
Saúde
Mental
Psiquiatria
n...
Vejamos o modelo de atenção à saúde em sua abrangência territorial em
conformidade com o SUS:
ATENÇÃO EM
SAÚDE
Referência e
Contra-referência
ATENÇÃO ESPECIALIZADA
B
A
C
ATENÇÃO BÁSICA
SAÚDE
MENTAL
D
TRANSTORNO
NEURÓTICO
DEPENDÊNCIA
QUÍMICA
PACS
ESFs
PSICOSE
NASFs
CAPS
CAPSad
Supervisão
CAPSi
ASSISTÊNCIA
AMBULATORIAL
ASSISTÊNCIA
HOSPITALAR
HOSPITAL
GERAL
UNIDADES DE
ATENÇÃO À SAÚDE
2º. Dist, Sanitário
Unidade de Saúde
1º. Dist. Sanitário
CEM
A
M
B
U
L
A
T
Ó
R
I
O
S
Apoio às eSFs
Referencia se
necessário.
AMBULATÓRIO
PSICOLOGIA
3º. Dist. Sanitário
Unidade de Saúde
NEUROLOGIA
GINECOLOGIA
PEDIATRIA
CARDIOLOGIA
ENFERMARIAS
CL. MÉDICA
4º. Dist. Sanitário
Unidade de Saúde
OUTRAS ESP.
n...
PRONTO SOCORRO
PSICOLOGIA
CRIANÇA
5º. Dist. Sanitário
Unidade de Saúde
ADULTO
ADOLESCENTE
LEGENDA:
ESF
PACS
ESTRATÉGIA DE SAÚDE DA FAMÍLIA
PROGRAMA DE AGENTES COMUNITÁRIOS (Considerado parte da ESF)
NASF
NÚCLEO DE APOIO À SAÚDE DA FAMÍLIA
CAPS
CENTRO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL
CAPSad
CENTRO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL ÁLCOOL E DROGAS
CAPSi
CENTRO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL INFANTO-JUVENIL
Observações:
* Não é preconizado pelo SUS profissionais de saúde mental nas equipes de SF. O
modelo de clínica (psiquiatria e psicologia) é inerente ao dispositivo ambulatório
na rede de cuidados.
* A inserção da saúde mental na atenção básica se dá através de uma Equipe
Matricial (Saúde Mental e Atenção Básica, 2005) ligada aos CAPS, onde houver.
* A portaria no. 154 de 24/01/2008, cria o NASF que institui a formação de uma
equipe multidisciplinar para dar suporte às equipes de SFs. A equipe dos NASFs é
formada por cinco profissionais de nível superior não coincidentes com aqueles das
equipes de SFs. Cada NASF atenderá o mínimo de 08 (oito) e o máximo de 20
(vinte) equipes de SF. Os NASFs funcionam sob a forma de referência e contrareferência e sua função é apoiar, supervisionar e orientar as equipes promovendo o
ingresso de novos atores na rede de cuidados.
* § 2º. Tendo em vista a magnitude epidemiológica dos transtornos mentais,
recomenda-se que cada Núcleo de Apoio à Saúde da Família conte com pelo
menos 1 (um) profissional de saúde mental. (PORTARIA 154, 24/01/2008)
* Cada dispositivo da rede tem seus atores e o grau de alcance de suas
intervenções, acontecendo a entrada (referência) gradativa de novos elementos na
medida em que se esgotam os recursos dos primeiros.
Partimos da visão ampla de rede de atenção, seus diversos equipamentos e
o grau de alcance e inserção de cada um deles. O psicólogo pode atuar nos
NASFs, nos CAPS, no Hospital, Pronto Socorro, nos ambulatórios e outros.
Priorizaremos agora, a modalidade de inserção do psicólogo no equipamento
Ambulatório de Psicologia.
Como vimos, a Reforma prioriza a reinserção social com o resgate dos
direitos contratuais de cidadania. Propomos interrogar se damos lugar para o
sujeito quando visamos apenas a restituição dos direitos civis. Sujeito e cidadão
convergem? O conceito de
sujeito, como sabemos, ultrapassa as atribuições
apontando para a diferença, logo, para a particularidade e, sendo assim, não pode
ser reduzido à universalidade dos direitos do cidadão. Cabe ressaltar que a
proposta de atenção à saúde mental tem como modelo uma rede de cuidados que
deve contemplar toda a população na medida de suas necessidades, não
reduzindo seu campo de ação à prevenção ou aos CAPS. Se por um lado, como
profissionais de saúde mental, devemos promover a reinserção social, devemos
também promover a emergência do sujeito em um lugar continente de escuta da
singularidade. E assim, talvez, a organização de sua vida possa passar por ele e
seu desejo e não exclusivamente por aquilo que o técnico – mais uma vez aquele
que possui a técnica, em outras palavras; sabe - a partir de um saber apriorístico
acredita ser bom para ele. Com esta visão de sujeito propomos pensar no lugar
do Ambulatório de Psicologia no contexto da Reforma e da política do SUS.
2. Psicologia: Um pouco da sua história
Para delinear a questão da clínica, precisaremos fazer uma digressão sobre
qual é o lugar da Psicologia e seu campo de saber a partir de sua insistente
tentativa em habitar o corpo científico que tem como paradigma o modelo
cartesiano.
Em seu texto “O que é a Psicologia?” de 1958, Canguilhem já
antecipava o atual rumo tomado pela psicologia em abarcar diversas áreas de
saber e em sua aproximação com as neurociências acreditando-se assim, mais
próxima aos rigores da ciência:
Para a psicologia, a questão de sua essência, ou mais modestamente de seu
conceito, coloca em questão também a própria existência do psicólogo, na
medida em que, por não poder responder exatamente o que é, tornou-se
bastante difícil para ele responder o que faz.
[...] A unidade da psicologia é aqui procurada na sua definição possível como
teoria geral da conduta, síntese da psicologia experimental, da psicologia
clínica, da psicanálise, da psicologia social e da etnologia. (CANGUILHEM,
1973, p. 1-2)
A psicologia a partir da física aristotélica é considerada como “parafísica”,
como ciência natural. Em sua etimologia Psicologia deriva da junção de duas
palavras gregas, psyché (alma) e logos (tratado, estudo), assim, resumidamente,
psicologia em sua origem e em tradução literal seria estudo da alma, sendo esta
entendida como ser natural. À alma consistem a metafísica, a lógica e a física. O
objeto da física é o corpo natural e organizado, a vida, essencialmente;
reconhecendo a alma como parte do vivo e não como matéria separada. Desta
forma, estudar o funcionamento do aparelho respiratório e digestivo ou estudar os
sentidos exteriores e interiores é da mesma ordem e provenientes da mesma
matéria. “A ciência da alma é uma província da filosofia no sentido originário e
universal da teoria da natureza” (CANGUILHEM, Ibid, p. 3) O sujeito é apresentado
como organismo pulsional com sua unificação imaginária, desconsiderando a
vertente simbólica na constituição da subjetividade. Canguilhem atenta ainda para
o fato de que esta concepção antiga é originária de um aspecto da psicologia na
contemporaneidade:
A psicofisiologia – considerada por muito tempo como psiconeurologia
exclusivamente (mas, atualmente, além disso, como psico-endocrinologia) e
apsicopatologia como uma disciplina médica. [...] Não parece supérfluo lembrar
que [...] uma revolução de não menos importância que a teoria da circulação ou
da respiração é devida a Galeno de Pérgamo, quando ele estabeleceu que é o
cérebro e não o coração, que é o órgão da sensação e do movimento, e a sede
da alma. (Ibid)
Com o declínio da física aristotélica, no século XVII, a psicologia encerra o
período de para-física, abandonando o lugar de ciência de um objeto natural e
surgindo como “ciência do sujeito pensante” a partir das formulações dos físicos
mecanicistas. A realidade do mundo não é mais confundida com o conteúdo da
percepção, que pode ser ilusória, pois se trata do resultado da experiência sensível
do homem que percebe. Há uma depreciação progressiva da experiência pois dáse como “falsificação do real” e assim, a psicologia surge para tentar explicar os
enganos
dos
sentidos,
para
desculpar
o espírito
que é estruturalmente
falseador em suas interpretações da realidade. O objetivo da psicologia é, a partir
da física, explicar o porquê deste ardil do espírito.
Como ciência da subjetividade tem sua origem na “psicofísica”, pois
necessitava aproximar-se do pensamento vigente de ciência para ser considerada
como tal. Necessitava ainda encerrar seu objeto de pesquisa “na estrutura do
corpo humano, a razão de existência dos resíduos irreais da experiência humana”
(Ibid, p. 4), não se tratando, contudo, de um retorno à ciência da alma. A física
deste momento é um cálculo, cabendo à psicologia para alçar à condição de
ciência, imitá-la. Canguilhem destaca a influência de Descartes neste rigor
quantitativo e a tentativa de vários pesquisadores para aproximar a psicologia da
física, culminando com os trabalhos de psicologia experimental de Wilhelm Wundt
na “esperança de fazer aparecer, nas leis dos ‘fatos de consciência’, um
determinismo analítico do mesmo tipo, aquele do qual a mecânica e a física deixam
esperar de toda ciência a universal validade.” (idem)
Ainda ao longo de sua história, recebeu influências de alienistas como Pinel
e Esquirol, além das conceituações psicanalíticas do inconsciente, adquirindo
estatuto de ciência do sentido íntimo, pois agora o psíquico não se limita à
consciência, não se reduz à ciência da intimidade, mas à ciência do que é mais
profundo e misterioso: a alma. “Não é mais somente o que está escondido, mas o
que se esconde”. (Ibid, p. 7)
Apesar da influência freudiana ocorre uma separação substancial entre
psicologia e psicanálise no século XIX. Neste século vai fundar-se como uma
biologia do comportamento humano, além da sua constituição como patologia
nervosa e mental, como física do sentido externo, como ciência do sentido interno
e do sentido íntimo. Canguilhem sugere que este desfecho se deu não só pelo
apego à cientificidade, mas também por razões econômicas e políticas que
determinaram a uniformização do comportamento humano em detrimento da
particularidade. Em outras palavras, o acento recaiu sobre as semelhanças e não
sobre as diferenças.
Recusando seu passado que o estudo da alma faz aludir, a psicologia tornase instrumento do instrumentalismo cujo conceito de homem é o de ferramenta.
Para o autor o psicólogo do século XX é um “prático profissional cuja ciência é
totalmente inspirada na pesquisa das leis da adaptação a um meio sócio-técnico”.
(Ibid, p. 9) Acrescenta ainda, que ao colocar-se como psicólogo do comportamento
humano assume uma posição de superioridade, o que poderíamos acrescentar;
característica da mestria próxima ao discurso médico.
Observamos por este breve apanhado histórico a ampliação gradativa do
campo da psicologia o que se reflete, obviamente, nas atribuições do profissional
psicólogo. Segundo o Catálogo Brasileiro de Ocupações* – a partir de informações
prestadas pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP): “O Psicólogo, dentro de
suas especificidades profissionais, atua no âmbito da educação, saúde, lazer,
trabalho, segurança, justiça, comunidades e comunicação com o objetivo de
promover, em seu trabalho, o respeito à dignidade e integridade do ser humano.”
(CBO, 17/10/1992) Assim, podemos entender que o curso de Psicologia nos dá
uma formação generalista que nos permite atuar em múltiplas atividades. A
questão que se impõe é: A graduação nos habilita, mas será que nos capacita?
Nada impede que, em posse do diploma e do registro no conselho, atuemos em
qualquer das áreas mencionadas, mas será que nosso dever ético
com uma
proposta de prestação de um serviço de qualidade, não exige uma formação
específica? Caso respondamos afirmativamente, a mesma exigência pessoal se
faz para a atuação na Psicologia Clínica.
Como vimos, a psicologia sofreu influências também da psicanálise que
estabelece a formação do analista – proposta por Freud - alicerçada em um tripé:
estudo teórico junto aos pares – demais analistas - análise pessoal e supervisão de
caso clínico. Apesar das inúmeras abordagens teórico/clínico no campo da
psicologia, ao que parece, todas as formações têm como base este modelo.
Acreditamos com isso, que precisamos estudar mais, passar pela vivência do
processo terapêutico (para superar, inclusive, preconceitos nossos que nos
impedem de aceitar as diferenças e, conseqüentemente, de sermos bons clínicos)
e acreditar que um outro (supervisor) possa contribuir na nossa clínica, supondo
neste outro um saber.
Este modelo de formação impõe um limite à pretensão do saber todo,
completo, veiculado na universidade e, muitas das vezes, pelo próprio psicólogo
que, ao não reconhecer-se em falta, faz valer este discurso. Talvez daí a
disseminação no imaginário popular de que sabemos aquilo que o sujeito tenta
esconder, lemos nas entrelinhas, como se vivêssemos no dia-a-dia sob os ditames
da profissão sem vida pessoal e, portanto, sem os entraves e dificuldades
cotidianos.
Obviamente que o sujeito que demanda tratamento, busca o psicólogo
acreditando nele um saber que não reconhece em si, esta é a base da
transferência, porém não podemos fixar-nos nisso, porque nós não sabemos sobre
a vida, a história, o pensamento, vivências e o desejo do sujeito. Devemos permitir
a transferência, porém não cristalizados a este lugar crendo-se mestre e/ou doutor.
O lugar da transferência é um lugar vazio de sujeito, o que significa que o psicólogo
clínico não está lá como pessoa com atribuições, valores, ideais, ideologias e que
tem como objetivo fazer o “bem” ao paciente, dirigindo-lhe a vida. O lugar da
transferência como lugar vazio possibilita a emergência do único sujeito em foco –
o paciente – dotado de um saber e recursos próprios para o aplacamento de seu
sofrimento. O sujeito possui um saber de uma outra ordem, saber não sabido,
desconhecido por ele. Seu saber não é educável, não é acadêmico, por isso o
título de mestre, especialista, doutor não responde aos impasses inerentes à
condição humana e por isso, também, não temos as chamadas “receitas de
bolo”. E, caso a tivéssemos, uma receita exige a “mão” do sujeito, um bolo não
sai bom somente pela receita, é necessária a habilidade do “boleiro”.
Já que estamos falando sobre a transferência, gostaríamos de ampliar a
discussão e abordar um outro grande conceito da clínica : a interpretação. Se não
podemos ocupar o lugar de mestre na transferência, nos são vetados, também,
seus efeitos diretivos. Então a interpretação não é uma sugestão, um
aconselhamento, uma direção de vida. Deve, ao contrário, portar um enigma e,
portanto, é muito mais indicativa de interrogações, do que respostas.
Em um primosoro texto intitulado “Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen”
(1907), Freud explicita questões da técnica, em especial, a interpretação,
atribuindo a Zoe, personagem do livro de Jensen, esta escuta privilegiada do
analista. No lugar de Gradiva (objeto causa de desejo do sujeito Hanold), Zoe não
despreza as formações do inconsciente do arqueólogo, não as julga como
irracionalidades, fruto de uma mente insana, mas com suas respostas
(interpretações) de “uma ambigüidade intencional”, aponta para uma Outra via,
a via do inconsciente, interrogando-o quanto ao seu desejo:
Um dos sentidos dessas palavras ajusta-se ao delírio de Hanold, dirigindo-se
à sua compreensão consciente, mas o outro sentido ultrapassa o delírio e em
geral fornece-nos sua tradução para a verdade inconsciente que ele
representa. Essa capacidade de dar expressão ao delírio e à verdade numa
mesma frase é o triunfo do engenho e do espírito. (FREUD, 1907, p. 87)
De que forma a interpretação deve ser enigmática? Primeiro devemos
esclarecer: se uma sugestão ou aconselhamento resolvesse a questão do sujeito,
seria perfeito, porém o que observamos na clínica é justamente o oposto. Apesar
de solicitar insistentemente por uma resposta, se o psicólogo (psicoterapeuta,
psicanalista) responde, invariavelmente o sujeito rompe com o tratamento, se não
imediatamente, logo depois. Em um outro texto seu, “Psicanálise selvagem” (1910),
Freud expõe um caso bastante pitoresco a respeito das interpretações “selvagens”
e seus efeitos negativos não só sobre o paciente, mas principalmente sobre a
própria clínica. Em outras palavras, a má utilização da técnica depõe contra a
clínica “psi”. Retornando ao texto, Freud relata que foi procurado por uma mulher
que após ter se consultado com um outro médico a respeito de seus “estados
ansiosos” e recebido sua orientação, percebe em si o recrudescimento de seus
sintomas ( cabe lembrar que a paciente não retornou a este médico). Textualmente
a interpretação e a direção (prescrição) dada pelo médico:
[...] ele a havia informado de que a causa de sua ansiedade era a sua falta de
satisfação sexual. Disse-lhe que ela não poderia tolerar a falta de relações
sexuais com o marido e, assim, havia apenas três maneiras pelas quais ela
poderia recuperar a saúde – ela devia ou voltar para o marido, ou ter um
amante, ou obter satisfação consigo mesma. (FREUD, 1910, p. 207)
O leitor pode argumentar: “Mas isso foi no início do século XX e Freud era
meio exagerado!”. Então vamos atualizar: Início do século XXI, jovem moça
portadora de fenômeno psicossomático, é encaminhada ao psicólogo e após duas
sessões, abandona o tratamento. Ao ser interrogada
pelo
médico que a
encaminhou a respeito da sua desistência, responde que o psicólogo disse-lhe que
ela deveria falar sobre os motivos de sua irritação, pois acreditava que era a raiva
contida que a havia feito adoecer. Ao responder desconhecer as razões, o
psicólogo determinou: “Então, volte quando souber.” Como ainda não descobriu,
não retornou.
O psicólogo crê conhecer os motivos da patologia do sujeito e prescreve
para a cura buscar em algum lugar do seu passado situações que confirmem a
causa de sua doença , que já foi dada de saída: raiva. Pode até ter razão, o sujeito
padece de sua raiva, assim como no caso de Freud, a moça poderia padecer de
insatisfação sexual, mas o mais importante e esquecido pelo profissional é que o
saber que precisa ser posto em cena é o do próprio sujeito, pois só se colocando
em questão, reconhecendo-se como autor daquilo de que se queixa, poderá vir a
“curar-se”, não lhe servindo, portanto, um saber teórico, conceitual, fruto de
estudos científicos ou de livros de auto-ajuda. Nas palavras de Freud:
Se o conhecimento acerca do inconsciente fosse tão importante para o paciente
[...] ouvir conferências ou ler livros seria suficiente para curá-lo. Tais medidas,
porém, têm tanta influência sobre os sintomas da doença, como a distribuição
de cardápios numa época de escassez de víveres tem sobre a fome. A analogia
vai mesmo além de sua aplicação imediata; pois, informar o paciente sobre seu
inconsciente redunda, em regra, numa intensificação do conflito nele e numa
exacerbação de seus distúrbios. (Ibid, p. 211)
Em resumo, a interpretação não pode ser uma resposta pronta que oblitera o
sujeito, ao contrário deve possibilitar a chamada retificação subjetiva, ou seja, o
sujeito tem que estar implicado. Como um paciente percebeu perspicazmente: “A
terapia é um aconselhamento indireto”, em outras palavras, a interpretação
passa pelo sujeito.
Outra grande influência da psicanálise é a aposta na palavra, a talking cure
- em tradução literal “falando cura” - nomeação dada por uma analisanda de
Freud que sintetiza o tratamento analítico com pertinência; método utilizado
também pelas psicoterapias. Então, devemos acreditar no nosso meio de
tratamento do sofrimento psíquico e permitir a fala, dar escuta àquilo que é singular
ao paciente que nos procura. Para tal, mais uma vez reafirmamos, se
necessária a preservação deste lugar de escuta privilegiada que
convoca
faz
o
sujeito a implicar-se com a sua dor e, conseqüentemente tornar-se autor de
sua vida e possíveis modificações. Convém ressaltar que esta é a única forma de
cura possível, porque na posição de vítima - característica de suas queixas - o
sujeito não consegue nada a não ser lamuriar-se.
Optamos em escrever sobre um pouco da técnica, obviamente sem a
pretensão de esgotá-la neste espaço, por acreditarmos serem estes conceitos –
transferência e interpretação - fundamentais para clínica, seja ela em quaisquer
das formações que o psicólogo aderir. Tal escolha vem como uma
tentativa
também de desmistificar o papel do psicólogo no imaginário popular causado pelo
próprio profissional e seus impasses teórico/técnicos.
3. Psicologia Clínica e Saúde Pública
Como a psicologia integra o programa de saúde mental sob a perspectiva da
reforma psiquiátrica? Como vimos, a proposta da reforma é de construção de uma
rede comunitária de cuidados: “A articulação em rede dos variados serviços
substitutivos ao hospital psiquiátrico é crucial para a constituição de um
conjunto vivo e concreto de referências capazes de acolher a pessoa em
sofrimento mental” (Op. cit., p. 25) Os dispositivos substitutivos ao Hospital
Psiquiátrico compõem a rede de atenção à saúde mental. Vimos como se organiza
esta rede – da atenção básica aos CAPS – e agora iniciaremos a delineação de um
serviço de psicologia clínica (ambulatório) como mais um equipamento integrante
na promoção de cuidados à saúde mental.
Existe uma série de mitos em relação ao tratamento psicológico alicerçados
em um pensamento elitista que reforçam a idéia de uma não adequação das
camadas populares à psicoterapia: preço alto, tempo de duração, exigência de
certo nível intelectual para a elaboração psíquica (como se psiquismo estivesse
atrelado à intelectualidade - e vimos que não), criando impasses quanto à criação
de tal serviço voltado para a população. A exigência do mercado de que tempo é
dinheiro dificulta ainda mais o fortalecimento de um ambulatório que se opõe à
proposta de saúde publica pautada no modelo médico de atendimento: consultas
rápidas, prescrições, encaminhamentos, em suma, resolutividade. Acrescenta-se a
isso, a hegemonia do saber médico, reduzindo a participação dos demais
profissionais, a uma espécie de ajuda complementar. Onde o saber médico
encontrou um limite, o profissional psi é solicitado. Assim, aos psicólogos são
exigidos atendimentos rápidos, preferencialmente em grupo, porque a fila de
espera cresce... e muito.
Agora, porque será que a fila tem crescido tanto? Ampliaremos a discussão.
As pessoas são conduzidas à psicologia por motivos diversos:
1. patologias que causam enigma ao saber médico;
2. transtornos neuróticos ou psicóticos visíveis;
3. atitudes do paciente não passíveis de apropriação pelo discurso médico que
dizem respeito à subjetividade;
4. outros em que o fato ou acontecimento em si não levariam à necessidade de
ajuda profissional.
Focaremos
quanto
ao
último
motivo
apresentado
(4).
Percebemos
encaminhamentos à área psi, ou mesmo prescrição de psicofármacos feita pelas
mais diversas especialidades médicas para “tratar” fatos ou acontecimentos
inerentes à vida, às relações humanas. Ao que parece, há uma exigência na
atualidade por uma regulação dos humores do homem com uma tendência à
massificação, havendo, é claro, pouco espaço reservado para a singularidade.
Então, temos como conseqüência, fenômenos sociais e momentos da vida que
necessitam elaboração do luto, transformados em doença (mental) exigindo,
portanto, medicação e “tratamento com psicólogo”. Os exemplos são inúmeros:
casos de tristeza por separações ou lutos convertidos em depressão; fases da vida
naturalmente conflitantes – como adolescência, por exemplo, onde as exigências
peculiares de uma pessoa em processo de individuação e que exigem maior
atuação dos familiares, se mostram um grande problema necessitando da
intervenção do psicólogo, assistente social, Conselho Tutelar,... – tratadas como
distúrbios, transtornos; dificuldades pedagógicas e das relações no ambiente
familiar e/ou escolar como TDAH e suas comorbidades.
Como fazer frente a isso? O modelo da reforma propõe, para além do
tratamento da doença, a promoção de saúde mental. De que modo? Primeiro
acreditando nos recursos que secularmente foram usados pela humanidade no
tratamento de suas dores: os próprios meios internos do sujeito e suas relações
(familiares, de trabalho, de amigos, do seu meio, enfim). Aliás, como vimos, são
estes os primeiros atores previstos na proposta de território. Ademais, devemos dar
lugar à palavra, apostar no sujeito. Por exemplo, se após a morte de um ente
querido, um técnico é solicitado para “cuidar” do enlutado, não estamos
reconhecendo, nem permitindo que o sujeito reconheça em si meios próprios para
lidar com a sua dor que, de modo geral, é falando exaustivamente dela. O sujeito
deve falar, chorar, sofrer aquilo que precisa junto aos seus entes queridos. A
admissão de uma ajuda “especializada exterior”, seja na forma de assistência, seja
na forma de medicação, só serve para fazer calar com um efeito entorpecente
sobre a dor. Porque se após uma morte – fato inerente à vida - um psicólogo é
solicitado, ou uma medicação é prescrita, a única interpretação possível é a que a
pessoa e sua família não podem cuidar de si. Agora, quando estes recursos se
mostraram insuficientes, quando a tristeza (ou qualquer outro sintoma) permanece
e passa à foco na vida do sujeito afetando a si e suas relações, se faz necessária a
entrada de um técnico da área.
Podemos resumidamente propor assim:
FLUXOGRAMA DO SERVIÇO DE SAÚDE
Não apresentando fator orgânico que justifique as queixas
e/ou quando os sintomas se tornam um problema para o
indivíduo, família e/ou ambiente, encaminhar para o
Serviço de Psicologia Clínica.
INDIVÍDUO e/ou FAMÍLIA
ATENÇÃO
BÁSICA À
SAÚDE
ESPECIALIDADES
COMUNIDADE
A
Escola, Conselho Tutelar, Casa Abrigo,
CRAS, etc.
Descartados e/ou afastados os fatores
pedagógicos, sociais, etc.., encaminhar os casos
para o Serviço de Saúde para avaliação clínica.
B
C
P
S
I
C
O
L
O
G
I
A
GRUPO
DE
ESCUTA
SERVIÇO DE
PSICOLOGIA
TRIAGEM
COLETIVA
ORIENTAÇÃO
FAMILIAR
ANAMNESE
PSICOTERAPIA
INDIVIDUAL
ORIENTAÇÃO
FAMILIAR
PSICOTERAPIA
GRUPO
CRIANÇA
ADOLESC.
ADULTO
No momento em que chegam as referências para o serviço, o psicólogo
responsável tem como primeira medida o dispositivo de “Triagem coletiva”. Medida
utilizada para tentar agilizar e “enxugar” a fila de espera, pois, como vimos, as
referências para a psicologia são múltiplas e na maioria das vezes os critérios
estabelecidos para o tratamento psicoterápico - mencionados acima - não são
seguidos. A partir de enquadres mínimos de dinâmica de grupo, a proposta é fazer
uma primeira avaliação a fim de verificar a existência ou não de demanda para
psicoterapia. Caso não seja possível estabelecer neste primeiro contato –
normalmente a triagem serve para eliminar casos mal referenciados em que o
sujeito, às vezes, nem sabe o porquê de estar ali ( “o doutor mandou”) – são
agendados novos encontros, as chamadas entrevistas preliminares, que servem
para dissipar a idéia de que a entrada no serviço corresponde à necessidade de
tratamento. Para todo tratamento , seja ele qual for, se faz indispensável a
existência de um sintoma (sofrimento no sujeito), para não cairmos na história já
mencionada de patologização de fenômenos e acontecimentos sociais. Um
exemplo bastante pueril disto é de uma catástrofe da natureza. As pessoas
precisarão de ajuda para recompor o que perderam, mas o fato em si não gera
necessariamente “traumas” que conseqüentemente levarão à psicoterapia. De
igual modo, crianças abrigadas, formações familiares não-tradicionais, pobreza,
não são sinônimos de doença mental necessitando, portanto, de intervenção
profissional. Estamos impedidos, como profissionais de saúde mental, de
trabalharmos a serviço da segregação numa escalada de psiquiatrização da
população.
Nosso objetivo com este trabalho foi acima de tudo levantar a possibilidade
de questionamento dos profissionais de saúde mental, em especial os psicólogos,
da necessidade de estruturação de um serviço de qualidade que prioriza a clínica
cujo enfoque é o sujeito que transcende as qualificações e atribuições que possa
receber do social: órfão, doente, louco, pobre, rico, trabalhador ou desempregado.
Nosso foco no sujeito nos impede de nos apropriarmos de sua vida, nos obriga a
abandonar nosso narcisismo que nos faz acreditar que sabemos o que é melhor
para ele e podemos encaminhar-lhe o destino como espelho do nosso. Estamos
impedidos, sob este viés, de impor nosso modo de vida, nosso desejo, pois esta é
uma forma
de considerar o outro como incapaz.
Trata-se assim, de uma
psicologia que prioriza a escuta da singularidade fazendo-se presente nos NASF
nos ambulatórios, nos CAPS e, desta forma, o psicólogo da saúde – clínico,
portanto – pode circular nos diversos equipamentos, na observância de seu grau
de inserção em cada dispositivo, e em conformidade com sua formação.
REFERÊNCIAS:
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil.
Brasília, DF. Senado, 1988.
______ Portaria (2008). Portaria No. 154 de 24 de janeiro de 2008. Brasília, DF.
Ministério da Saúde, 2008.
CANGUILHEM, G., O que é a Psicologia? (1973) Conferência dada no College
Philosophique
em
18
de
dezembro
de
1956.
Disponível
em:
http://br.geocities.com. Acesso em 16 de junho de 2007.
FREUD, S. Delírios e sonhos na ‘Gradiva’ de Jensen (1907[1906]). In ESB das
Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, volume IX, Rio de Janeiro,
Imago, 1980.
_________ Psicanálise ‘Selvagem’ (1910). In ESB das Obras Psicológicas
Completas de Sigmund Freud, Volume XI, Rio de Janeiro, Imago, 1980.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Saúde Mental e Atenção Básica: Vínculo e diálogo
necessários. Disponível em http://www.portal.saude.gov.br. Acesso em: 28 de julho
de 2008.
MINISTÉRIO DO TRABALHO. Catálogo Brasileiro de Ocupações (CBO, 1992).
Disponível em http://www.pol.org.br. Acesso em: 10 de julho de 2008.
__________ Reforma Psiquiátrica e Saúde Mental no Brasil. Disponível em
http://www.portal.saude.gov.br. Acesso em: 28 de julho de 2008.
UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA
SISTEMA DE BIBLIOTECAS
Rua Ibituruna, 108 – Maracanã
20271-020 – Rio de Janeiro – RJ
Tel.: (21) 2574-8845 Fax.: (21) 2574-8891
FICHA CATALOGRÁFICA
B327q
Bastos,
Maristela Azevedo de França Oliveira
FICHA CATALOGRÁFICA
Quando a cabeça não pensa, o corpo padece /
Maristela Azevedo de França Oliveira Bastos, 2008.
145 p. ; 30 cm.
Dissertação (Mestrado) – Universidade Veiga
de Almeida, Mestrado Profissional em Psicanálise,
Saúde e Sociedade, Rio de Janeiro, 2008.
Orientação: Maria Anita Carneiro Ribeiro
1. Filosofia e teoria. 2. Psicanálise. I. Ribeiro,
Maria Anita Carneiro (orientador). II. Universidade Veiga
de Almeida, Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde
e Sociedade. III. Título.
CDD – 150.1
Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Setorial Tijucal/UVA
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Quando a cabeça não pensa, o corpo padece