UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA Maristela Azevedo de França Oliveira Bastos QUANDO A CABEÇA NÃO PENSA, O CORPO PADECE Rio de Janeiro 2008 MARISTELA AZEVEDO DE FRANÇA OLIVEIRA BASTOS QUANDO A CABEÇA NÃO PENSA, O CORPO PADECE Dissertação apresentada ao curso de Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade da Universidade Veiga de Almeida como requisito parcial para obtenção do Grau de Mestre. Área de concentração: Psicanálise e Saúde. Orientadora: Prof. Maria Anita Carneiro Ribeiro- Pós-doutora Rio de Janeiro 2008 MARISTELA AZEVEDO DE FRANÇA OLIVEIRA BASTOS QUANDO A CABEÇA NÃO PENSA, O CORPO PADECE Dissertação apresentada à Faculdade de Psicologia da Universidade Veiga de Almeida, como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Psicanálise, Saúde e Sociedade. Área de concentração: Psicanálise e Saúde. Aprovada em 24 de outubro de 2008. BANCA EXAMINADORA ____________________________________________________________ Prof. Antonio Quinet – Doutor Universidade Veiga de Almeida – UVA ____________________________________________________________ Prof. Marco Antonio Coutinho Jorge - Doutor Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ Aos meus amores Hugo, Victor e Erik. À minha mãe (in memoriam), por sua incansável confiança e investimento. Àquelas que elegi como irmãs: Jane, Júlia, Anna Lúcia, Bárbara e Mônica. Agradeço a Luiz Augusto Bittencourt Fabriani, testemunha e incentivador de meu percurso em psicanálise. À minha orientadora, Prof. Maria Anita Carneiro Ribeiro, pelo incentivo na produção de trabalhos o que possibilitou a emergência do meu desejo por este material de pesquisa. A todos os professores do mestrado que direta ou indiretamente contribuíram com este trabalho. Aos meus familiares e amigos pelo estímulo e perseverança. “Toda forma de amor é um descanso para a loucura”. Guimarães Rosa RESUMO Esta pesquisa visou analisar o “efeito sujeito” excluído pelo discurso rigoroso da racionalidade científica sob os ditames do discurso do capitalista. Foi realizada uma revisão bibliográfica do conceito de sujeito do inconsciente formulado especialmente por Freud e Lacan onde se evidenciou o rechaço à singularidade seja através do discurso totalitário da religião, seja pelo viés do racionalismo não menos totalitário representado na atualidade pelas neurociências, que remete a um corpo despossuído de sujeito cujas patologias psíquicas são consideradas frutos de uma desregulação neuro-hormonal, com um tratamento pautado prioritariamente na utilização de psicofármacos. Ao desconsiderar o sujeito como efeito simbólico e em sua vertente real, pulsional portanto, a ciência recusa a formulação freudiana de pulsão como “conceito limítrofe entre o anímico e o somático” o que implica, necessariamente, o sujeito e sua modalidade de gozo. Foi discutido ainda, o conceito de pulsão de morte manifestando-se sob a forma de compulsões diversas e/ou fenômenos como efeito desta exclusão que, ao contrário das formações sintomáticas, apresentam-se fora da representação significante. Gozo acéfalo não circunscrito falicamente, desconhecido pelo sujeito. Acompanhou também a teorização lacaniana dos discursos como laços sociais mediadores das relações entre os falantes onde evidenciou-se, neste nosso momento século XXI, um predomínio na tecnociência do “saber todo” do discurso do universitário a serviço do discurso do capitalista promovedor de um empuxo ao consumo ao reduzir o objeto causa de desejo a “objeto qualquer”, a gadgets que se oferecem à adição subvertendo a operação característica do desejo e sua conseqüente perda, acenando assim, com uma proposta de possível completude ao preço da singularidade. Em suma, esta pesquisa objetivou analisar as conseqüências no sujeito do horror à diferença como marca do singular, que vem se perpetuando nos diversos laços sociais da contemporaneidade. ABSTRACT This research aimed to analyzes the “subject effect” excluded by the strong speech of scientific rationality under the capitalism direct speech. A bibliographical revision was done of the unconscious subject concept formulated especially by Freud and Lacan where was pointed the repulse to the singularity, by the general religion speech or being by the rationalism, not less generalist represented nowadays by the neuro – sciences, that brings us to a body without a subject that his psycho pathologies are considered a creation from a neuro – hormonal malfunction, with a main treatment lined in the utilization of psycho – medicines. Not considering a person as a symbolic effect of his real side, pulsating, so, the science refuses Freud formulation of pulsating as a “ limit concept between the aminic and the somatic” what brings, necessarily, the subject and his pleasure genre. We discussed about the concept of death pulsating manifesting under many different compulsions or phenomena as an effect of this exclusion that, differently from the symptomatic formations, show themselves out of the main representation. Acephalous pleasure doesn’t limited by the brain, unknown by the subject. Also discussed the Lacan theorization of the speeches as a social bound between the speakers where was pointed, in this our century of XXI, a predomination of the techno – science of “to know all” of the university student speech working to the capitalism speech that promotes consumption when it reduces the wish object to “any object”, to gadgets that are offered to addition subverting the typical operation of wish and in consequence of that its lost, looking in this way, with a complete proposal to the price of singularity. Generally, this research aimed to analyze the consequences in the person of the fear to the difference as a trade of singularity, that lasts in many different society bounds of the contemporaneity. SUMÁRIO RESUMO ABSTRACT 1. INTRODUÇÃO, p. 12 2. CAPÍTULO I DO ESPÍRITO OBSESSOR AO NEUROTRANSMISSOR, p. 21 2.1 SOB O DOMÍNIO DO MAL: O ESPÍRITO OBSESSOR, p. 22 2.2 GUIADO PELA RAZÃO, p. 25 2.3 GUIADO PELA RAZÃO MÉDICA, p. 31 2.3.1 37 As especialidades médicas e o corpo compartimentado, p. 2. 4 TODA WELTANSCHAUUNG É RELIGIOSA, p. 43 3. CAPÍTULO II O SUJEITO E O GOZO, p. 49 3.1 INSTINTO X PULSÃO, p. 53 3.1.1 Do orangotango ao humano, p. 55 3.1.2 p. 59 A pulsão de morte está para além do princípio de prazer, 3.2 CULTURA E GOZO, p. 67 3.2.1 A Lei Paterna: Possibilidade de sujeito Totem e Tabu: Possibilidade de civilização, p. 67 3.2.2 Civilização → sujeito → mal-estar, p. 70 3.2.3 O DUALISMO PULSIONAL: BOM X MAU?, p. 73 4. CAPÍTULO III OS DISCURSOS E A INSTITUIÇÃO, p. 77 4.1 OS MATEMAS: LETRAS E LUGARES, p. 79 4.2 OS DISCURSOS, p. 83 4.3 A INSTITUIÇÃO DE SAÚDE, p. 95 4.3.1 Os discursos na instituição de saúde, p. 95 4.3.2 A Psicologia e os discursos, p. 97 4.3.3 Saúde pública a serviço do discurso do capitalista, p. 101 4.4 A ESCUTA DA SINGULARIDADE: A SAÍDA DO DISCURSO DO CAPITALISTA, p. 105 5. CONCLUSÃO, p. 110 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS, p. 118 7. APÊNDICE, p. 122 INTRODUÇÃO 1. INTRODUÇÃO A estrutura da dissertação consiste em três capítulos. O capítulo I – “Do espírito obsessor ao neurotransmissor” – dedicamos à analisar a “despossessão” do sujeito promovida ora pela religião, ora pela ciência. No subtítulo “Sob o domínio do mal: o espírito obsessor”, fazemos um breve apanhado do texto freudiano “Uma neurose demoníaca do século XVII” (1923) no qual Freud afirma que as chamadas possessões demoníacas seriam, na verdade, formas de manifestação do sofrer psíquico reconhecendo, ainda, um saber no cerne das “doenças da alma”. O exemplo freudiano demonstra também o caráter demoníaco que adquire o acossamento do desejo cujas manifestações causam horror, porque marcam o humano indelevelmente como sujeito responsabilizando-o em suas escolhas. Tal como no conto de Cazotte “O Diabo Enamorado” - utilizado por Lacan para falar do desejo - o demônio ao ser invocado pelo sujeito e, ao surgir das profundezas do inferno, não o abocanha com sua bocarra, não se apropria do seu corpo. O demônio interroga: “Che vuoi?” (O que queres?). O que o sujeito (Hanold, João, Maria) quer? O que lhe causa? O significado do encontro com o Outro do desejo exige a interpretação do sujeito e, portanto, diz respeito à sua singularidade. Desejar significa ser interrogado pelo nome próprio e, a partir daí, o demônio/desejo assumirá a forma do objeto eleito pelo sujeito; por cada um. Continuando neste primeiro capítulo, no subtítulo “Guiado pela razão”, abordamos a primeira cisão entre corpo e mente promovida pela conceituação teórica de René Descartes que, ao pretender alicerçar o conhecimento humano em bases sólidas e seguras, inaugura a ciência moderna e promove uma ruptura com o pensamento teológico do obscurantismo medieval. O cogito cartesiano “Penso, logo sou” propõe a emergência do sujeito a partir do pensamento que, para Descartes, trata-se de um pensamento qualquer sem atribuições de valor, não importando erros ou acertos quanto ao conteúdo do pensar, mas a certeza de que o pensamento funda o sujeito. O sujeito da ciência (cartesiano), neste momento, é o mesmo da psicanálise, pois a teorização freudiana também propõe o esvaziamento do conteúdo do pensamento priorizando assim, o sem sentido, os tropeços cotidianos, os desvios como vias de acesso ao pensamento inconsciente. Mais adiante, Descartes se separará desta conceituação ao propor provar a existência de Deus e o primado da alma sobre o corpo. Assim, a filosofia cartesiana, vai fundar-se como razão. O pensamento cartesiano institui e desaloja o sujeito na medida em o convoca a aparecer sob a forma de um pensamento qualquer para depois rechaçá-lo sem sobre ele incidir, no momento em que objetiva um ideal de racionalidade: “Nem sequer sou homem corporal, mas só razão”. Com sua divisão substância pensante e substância extensa, o corpo é apropriado pela ciência enquanto objeto de investigação. Corpo, portanto, esvaziado de sujeito. Ainda neste mesmo subcapítulo abordamos o conceito de sujeito para a psicanálise. No subtítulo seguinte, “Guiado pela razão médica” percorremos o livro “Nascimento da Clínica” de Michel Foucault para melhor compreender a apropriação do corpo pela medicina a partir do discurso da racionalidade científica. Permeamos a “análise descontinuísta da medicina” proposta por Foucault à contribuição de Clavreul e seu livro “A ordem Médica”, onde verificamos que o objeto da medicina é a doença e não o doente, o que exclui totalmente o sujeito e o seu possível saber sobre os males que o acometem. Clavreul acrescenta perspicazmente, que a medicina dessubjetiva não só o doente, mas também o médico na medida em que seu discurso supõe a normatização de uma Ordem referida à instituição médica pela qual seu representante, o médico, encontra-se também submetido, levando o autor a concluir que o desenvolvimento das diversas modalidades de clínica interessam menos que a permanência do discurso, sua imobilidade. Discurso que retém apenas os aspectos que estão em conformidade, que possam ser inscritos no próprio discurso e que o protejam do erro. Assim o doente, o médico e suas singularidades são facetas não utilizáveis pela ordem, pois podem induzir ao engano, entendendo-se este engano não enquanto erro médico e, portanto, localizável no discurso, mas do engano possível ao se focar o doente – com suas particularidades e ambigüidades – e, assim, atribuir outras causas e soluções fora do discurso médico. Ultrapassando a divisão corpo/mente proposta por Descartes, a medicina na contemporaneidade compartimentou-se em subdivisões – as especialidades médicas – cabendo à psiquiatria as chamadas “doenças da alma”. O próximo subitem “As especialidades médicas e o corpo compartimentado” propõe discorrer sobre o atual rumo tomado pela psiquiatria em sua aproximação com as neurociências. Com a escalada do mapeamento cerebral e o conhecimento neuroquímico a psiquiatria rejeita seu passado de articulação com a psicanálise desconsiderando, assim, a existência de um sujeito na causação do adoecimento psíquico. Então, se as enfermidades psíquicas eram atribuídas às possessões demoníacas, com os avanços crescentes da ciência, os transtornos mentais passam a ser considerados disfunções e, por este viés, devem ser regulados pela ação dos psicofármacos. Desta forma, a história particular de cada sujeito é irrelevante para o conhecimento de seus males psíquicos que são apropriados pelo saber todo da tecnociência. No próximo subcapítulo “Toda Weltanschauung é religiosa”, retomamos a aproximação freudiana com a ciência e sua conceituação de Weltanschauung definida como uma tentativa de fechamento, de totalização, a partir de uma ideologia dominante que supostamente conteria todas as explicações de maneira integral, o que na conclusão de Freud situa-se entre os desejos ideais dos humanos (poder dizer não à castração), concluindo que só há uma única e verdadeira Weltanschauung; a religiosa. Assim, qualquer formulação, conceituação, teorização que pretenda promover um fechamento, um saber todo, absoluto, torna-se uma Weltanschauung religiosa, ainda que seus conteúdos sejam diametralmente opostos à religião. Terminamos o capítulo questionando se quando a ciência apropria-se do corpo foracluindo o sujeito de seu discurso e, ao tentar compreendê-lo com sua proposta exclusivamente organicista, não estaria se transformando numa Weltanschauung e, portanto, numa religião. Observamos que a psicanálise nasce da ciência, mas promove uma subversão ao reintroduzir o elemento excluído da ciência – o sujeito – e sobre ele incidindo. Assim, a psicanálise encontra-se num mais além da ciência numa relação de extimidade podendo ser exemplificada topologicamente pela figura do toro, situando-se, assim, num “para além” da ciência, mas derivada dela e faz alusão a um ponto inapreensível - de real – que, a partir da subversão efetuada pela psicanálise – de sujeito da ciência a sujeito do inconsciente – instaura um novo discurso. Então, em continuidade à questão do sujeito, o segundo capítulo tem como título “O sujeito e o gozo” e inicia-se interrogando de como seria uma ciência que incluísse o sujeito e, portanto, suas vertentes simbólica e real de gozo. No subcapítulo “Instinto X pulsão” discorremos brevemente sobre o conceito de pulsão e o inapropriado do programa instintual no mundo humano. Lacan chama a pulsão de montagem em oposição à programação instintual onde ocorre sincronia entre o mundo exterior e a necessidade interna como numa correspondência biunívoca por não haver o atravessamento da linguagem e seu deslizamento de sentidos. Na pulsão, ao contrário, não há coerência, há desencontro e, como numa constante operação de subtração, sempre resta um resíduo que faz relançar o circuito levando Lacan a nomeá-las de pulsões parciais justamente por não se aterem à finalidade biológica da sexualidade, mas por se apresentarem no processo da realidade psíquica (da fantasia). Prosseguindo na conceituação de pulsão, no subitem “Do orangotango ao humano”, buscamos elucidar a entrada da linguagem (cultura) no mundo humano separando-nos definitivamente do mundo harmônico e indiferenciado exemplificado pelo paraíso perdido da metáfora da criação bíblica do universo e para o qual desejamos sempre retornar. O subcapítulo “A pulsão de morte está para além do princípio de prazer” faz um apanhado do conceito de pulsão de morte na obra freudiana permeado por exemplos clínicos deste gozo fora da representação significante que sobredetermina o sujeito em um empuxo à compulsão e que ultrapassa a repetição característica do circuito pulsional. No próximo subcapítulo intitulado “Cultura e gozo”, buscamos elucidar a entrada na cultura como causa do sujeito evidenciando que ao falante só é possível o acesso a um gozo interditado (inter- dito) pela palavra: “Aquilo a que é preciso nos atermos é que o gozo está vetado a quem fala como tal, ou ainda, que ele só pode ser dito nas entrelinhas por quem quer que seja o sujeito da Lei, já que a lei se funda justamente nessa proibição.” (LACAN, 1960, p. 836). Em continuidade a este mesmo tema, o subitem “Lei paterna: possibilidade de sujeito – Totem e Tabu: possibilidade de civilização”, buscamos evidenciar o rompimento freudiano do dualismo entre psicologia individual e social a partir de suas formulações de que a dimensão psíquica encontra-se presente nas organizações e fenômenos sociais, não se reduzindo, entretanto, à mera transposição de um conceito a outro, mas de uma realidade psíquica que se faz presente em ambos lugares, evidenciando assim, uma relação entre a constituição subjetiva e o surgimento da civilização. Ainda sobre a forma de contenção do gozo, trabalhamos no próximo subtítulo “Civilização → sujeito → mal-estar”, a entrada da cultura como reguladora das relações entre os humanos cujo objetivo é domar o gozo mortífero que nos aproxima de nossos ancestrais primitivos em seu impulso à destruição e à morte. Porém a entrada da cultura deixa um resto, o mal-estar, uma espécie de lembrança nostálgica deste momento mítico de indiferenciação, de encontro com a Coisa. Acompanhamos o texto freudiano “Mal-estar na civilização” (1930) e evidenciamos a postura não maniqueísta do cientista Freud cujas teorizações permitem a coexistência entre os opostos onde os conceitos não se excluem mutuamente, mas se ligam de uma forma peculiar. O pensamento freudiano é construído de tal forma que possibilita abrigar formulações que seriam, numa visada ingênua, incompatíveis, mas em sua perspectiva própria promove uma articulação em contigüidade, tal como a banda de Moebius, aproximando-nos assim, ao próprio conceito de inconsciente e seu princípio de não contradição. Então, o subtítulo “O dualismo pulsional = Bom X Mau?”, se propõe a questionar os movimentos de grupo cuja característica principal é a formação de uma ideologia de massa tendo como conseqüências a produção de uma indiscriminação entre seus membros e o rechaço ao diferente como paradigmas do “narcisismo das pequenas diferenças”. A identificação entre os iguais promovida por Eros – pulsão sexual - possibilita a unidade do grupo, porém indica, parodoxalmente, o caminho para a destruição, pois o amor narcísico (especular) das identificações é mortífero na medida em que fomenta a formação e divisão de grupos alicerçados em uma relação inerentemente mimética que não comporta a diferença, voltando-se, inclusive, contra o próprio sujeito e o horror ao inconsciente como marca da singularidade, logo, da diferença. No último capítulo intitulado “Os discursos e a instituição” nos propomos a acompanhar a teorização dos discursos como laços sociais proposta por Lacan e a incidência e circularidade destes discursos em uma instituição de saúde pública onde evidenciamos a propagada foraclusão do sujeito pela ciência quando a serviço do capital e o “efeito sujeito excluído” manifestado em compulsões e fenômenos (toxicomaníacos, psicossomáticos...). No primeiro subcapítulo “Os matemas: letras e lugares” , tentamos esclarecer a disposição das letras da álgebra lacaniana e sua tentativa de transmissibilidade da psicanálise, indicando ainda, a possibilidade de inúmeras leituras – “desde que o falado continue preso à sua álgebra” (LACAN, 1960, p. 830) – na circunscrição desse núcleo real inapreensível pelo simbólico. A utilização das letras se dá, justamente, por representar esta insubstância característica do real e sua impossibilidade de simbolização. Na tentativa de apreensão do real algo resta: a letra. A teoria dos discursos retira das designadas por Freud, profissões impossíveis – governar (Discurso do Mestre), educar (Discurso do Universitário) e analisar (Discurso do Analista) – sua origem, acrescentando a elas outro liame da ordem da impossibilidade – fazer desejar – nomeado por Lacan como “Discurso da Histérica”. Lacan conceitua também o Discurso do capitalista, porém sem considerá-lo um quinto discurso justamente por não prestar-se à conceituação elementar de discurso como aparelho regulador de gozo (aliás, este discurso não modera, ao contrário, força-a-gozar). Assim, no próximo subcapítulo “Os discursos”, nos propomos a seguir a teorização lacaniana dos discursos apresentadas em seu seminário, livro 17: “O avesso da psicanálise” (1969-70) Em “Os discursos na instituição de saúde”, buscamos demonstrar a circularidade destes discursos na instituição, em outras palavras, dar visibilidade à teoria evidenciando uma dinâmica e não uma estagnação neste ou naquele discurso, cujas variações ocorrem como modalidades distintas de ato a partir do dominante de cada discurso: o agente. Em “A Psicologia e os discursos” fizemos um breve apanhado do texto de Canguilhem “O que é a psicologia” para evidenciar uma prática clínica que vem se perpetuando nas instituições de saúde pautada prioritariamente no modelo médico de atendimento e, portanto, tornando-se cada vez mais próxima das neurociências e do rechaço ao inconsciente. Neste mesmo subitem, contextualizamos a psicologia na unidade de saúde e os discursos nos quais encontra-se submetida. No subitem “Saúde pública a serviço do discurso do capitalista”, analisamos a gestão de uma unidade de saúde pública onde as especialidades médicas são oferecidas à população como moedas de troca dos políticos locais. Supomos assim, uma aproximação com o discurso do capitalista em sua oferta de objetos a serem vorazmente consumidos, neste caso, consultas, exames, insumos, onde observamos, novamente, o uso indiscriminado de psicofármacos prescritos pelas diversas especialidades médicas em um empuxo à drogadição legal. Discutimos ainda um movimento tomado pela gestão local de saúde rumo à desarticulação do dispositivo “ambulatório de psicologia” da rede de cuidados de saúde mental. Entendemos que este movimento de mudança no atendimento do sofrer psíquico elimina não só o sujeito - desresponsabilizado por seus males - mas também o lugar de escuta da singularidade representado pelos ambulatórios de psicologia. Lacan indica como saída do discurso do capitalista, o discurso do analista que reinaugura o lugar da falta, da divisão do sujeito. Onde a clínica médica se detém – nas manifestações transferenciais, a psicanálise instaura um novo discurso e, conseqüentemente uma outra clínica. Se a partir do discurso do mestre, próprio da medicina, o saber encontra-se do lado do médico o qual responde deste lugar, a psicanálise, ao dirigir-se ao outro como sujeito, possibilita a retificação subjetiva e o saber inconsciente. Assim, no próximo subtítulo “A escuta da singularidade: A saída do discurso do capitalista” discutimos esta proposição lacaniana (discurso do analista como saída ao discurso do capitalista) e a hipótese do aumento progressivo na atualidade da incidência de um gozo fora da representação que vem se manifestando sob a forma de compulsões diversas e fenômenos como efeitos da exclusão do sujeito promovidas pelas tecnociências sob os ditames do discurso do capitalista. Se, aquilo que é foracluído no simbólico retorna no real, o sujeito, foracluído do discurso da ciência, retorna sob a forma deste gozo acéfalo? Apimentamos mais ainda a discussão ao questionar se estas compulsões e fenômenos podem ser considerados “novos sintomas da contemporaneidade”. Para tal, recorremos ao texto de Slavoj ŽižeK “Como Marx inventou o sintoma?” que elucida a máxima lacaniana que atribui a descoberta do sintoma à Marx: “Há que se buscar as origens do sintoma, não em Hipócrates, mas em Marx, na ligação que ele foi o primeiro a estabelecer entre o capitalismo e... o quê? Os bons velhos tempos, daquilo que chamamos os tempos feudais.” (LACAN, 1975, p. 106, apud ŽIŽEK, op. cit., p. 308) Verificamos com esta afirmação de Lacan, que o conceito de sintoma em psicanálise não é o mesmo da medicina e, por isso, não é localizável no discurso médico, ao contrário, figura como sintoma ao conceito universalizante de patologia localizável no organismo tão em voga nos nossos tempos de psiquiatria biológica. Acompanhando o texto de ŽižeK percebemos que para a psicanálise o sintoma é aquilo que deflagra o que estava recalcado e representa a negação interna do discurso totalizante, funcionando como um ponto de exceção. A partir desta conclusão, terminamos o capítulo com as seguintes questões: Diante do discurso todo das neurociências, o que irrompe como sintoma e vem fazer exceção a este discurso? Poderia ser o sujeito? Aquele que apesar de excluído, subsumido no discurso, teima, insiste e persiste e “não cessa de não se escrever”? Se na atualidade, a exigência é pela formação de grupos de iguais e exclusão à diferença, poderíamos dizer que o mal-estar da nossa civilização é a singularidade? CAPÍTULO I DO ESPÍRITO OBSESSOR AO NEUROTRANSMISSOR “Gary [...] tinha cada vez mais dificuldade de acreditar que seu problema não era neuroquímico, mas pessoal”. Les Corrections, Jonathan Franzen 2. CAPÍTULO I DO ESPÍRITO OBSESSOR AO NEUROTRANSMISSOR O título deste capítulo refere-se a um pequeno fragmento de uma das reuniões de equipe de um CAPS do qual fazíamos parte há, aproximadamente, sete anos. Um dos psiquiatras da equipe, amante das neurociências e profundo conhecedor dos psicofármacos e seus resultados, costumava fazer “manipulações” com tais drogas na tentativa, para ele certeza, de extinguir os fenômenos elementares da psicose. Quando, apesar de toda a “alquimia”, os pacientes permaneciam com suas queixas costumava responder tratar-se, então, de algo espiritual, desconhecendo assim, que nenhuma droga por mais eficaz que seja é capaz de fazer calar os efeitos sofridos pelo psicótico do gozo do Outro. Nós, os demais técnicos da equipe, costumávamos brincar dizendo que ele – o psiquiatra – “ia do espírito obsessor ao neurotransmissor”. Esta “lembrança” – nosso pequeno chiste, uma das formações do inconsciente – nos veio ao iniciar esta dissertação, pois, ao contrário do psiquiatra em questão, acreditamos no inconsciente e, portanto, podemos nos utilizar dele e, assim, acrescentar à frase “Do espírito obsessor ao neurotransmissor”, a questão: “Onde está o sujeito?”, pois em ambas as situações este se encontra ausente. Suas “aparições”, ou são fruto da possessão de um espírito maligno ou de uma desregulação neuro-hormonal. 2.1 Sob o domínio do mal: O espírito obsessor Em seu texto “Uma neurose demoníaca do século XVII” (1923[1922]), Freud afirma que as chamadas possessões dos séculos anteriores seriam, na verdade, formas de manifestação do sofrer psíquico: Não precisamos ficar surpresos em descobrir que, ao passo que as neuroses de nossos poucos psicológicos dias de hoje assumem um aspecto hipocondríaco e aparecem disfarçadas como enfermidades orgânicas, as neuroses daqueles antigos tempos surgem em trajes demoníacos. (FREUD, 1923, p. 97) Freud estuda um caso de possessão demoníaca a partir de um “manuscrito do santuário de Mariazell e no qual havia uma descrição pormenorizada da redenção miraculosa de um pacto com o Demônio, mediante a graça da Santa Virgem Maria” (FREUD, Ibid, p. 93). Trata-se de um pintor que estabelece um compromisso com o Demônio devendo pertencer-lhe de corpo e alma por um período de nove anos. Freud atribui este pacto ao estado melancólico do pintor após a morte de seu pai, colocando o Demônio, através desse compromisso, como “substituto paterno”. Diante da morte do pai e o desamparo sofrido, o pintor não reconhece em si meios, inclusive de subsistência, para dar continuidade à sua vida necessitando que um Outro o fizesse por ele. Ao não autorizar-se em suas próprias escolhas sente-se ameaçado pelo acossamento do desejo e confere à fé e à Igreja a possibilidade de conforto e cuidados. Entre Deus e o Diabo, o pintor sofre todo tipo de tentações e culpas. A manifestação demoníaca aparece sob a oferta de mulheres, dinheiro e poder: “desejam tê-lo como rei para honrá-lo para sempre!” (Ibid, p. 128) Após um período de “tentações mundanas”, o pintor agora é assediado pelo próprio Cristo fazendo-lhe ameaças e exigências severas: “As fantasias de tentação de nosso desafortunado pintor foram sucedidas por outras acéticas e, finalmente, por fantasias de punição”. (Ibid, p. 129) Apesar de contraditórias, o pintor reconhece nas atividades obsedantes o mesmo agente : o Espírito Mau. Ao longo do texto, Freud revela encontrar-se no próprio sujeito a fonte de seu sofrimento havendo um conflito - entre as exigências pulsionais e a renúncia à esta satisfação, apontando assim, para a divisão do sujeito – e um saber no cerne de toda neurose: Ainda teve que enfrentar a luta entre sua fruição libidinal da vida e sua compreensão de que os interesses de autopreservação exigiam imperativamente renúncia e ascetismo. É interessante ver que o pintor estava bem ciente da unidade das duas partes de sua moléstia, pois atribui ambas aos compromissos firmados com o Demônio. (Ibid, p. 133) A psicanálise atribui ao desejo um caráter demoníaco em sua imposição pela obtenção de uma satisfação (pulsional) almejada a partir de uma primeira experiência mítica, porém jamais alcançada. Em outras palavras, há uma perda inevitável entre a satisfação buscada e a obtida. Numa operação de subtração permanente onde não há como zerar; a diferença – o que sobra da operação – relança a busca. Desta forma o desejo adquire sua face de insatisfação ou impossibilidade e, justamente por isso, força motriz, indicando um lugar de perda como fundamento ou como causa. Retornando à Freud e ao seu caso de neurose demoníaca: a partir da morte do pai – a última castração – o pintor pactua com o demônio/desejo que “tem muitas coisa a oferecer, que são altamente prezadas pelo homem: riqueza, segurança quanto ao perigo, [...] e, acima de tudo o mais, o gozo – o gozo de mulheres belas”. (FREUD, Ibid, p. 101) Mas desejar causa horror, pois marca o humano indelevelmente como sujeito e, portanto, responsabiliza-o em suas escolhas. Há um preço a ser pago por aquilo que o torna único: a assunção do seu próprio desejo e a particularidade que ele lhe confere. Uma breve digressão. É curioso notar que nos relatos de possessão demoníaca retirados da literatura ou no caso de Freud, o recurso utilizado pelo sujeito quando no enfrentamento do “seu demônio” – o horror ao desejo - é recorrer à mãe. No conto de Cazotte, “O Diabo Enamorado”, por exemplo, o conselho recebido do Doutor Quebracuernos (leia-se, o exorcista) é o seguinte: Ouça o que lhe digo: crie laços legítimos com alguém do outro sexo; que sua respeitável mãe presida sua escolha; e embora aquela por suas mãos possa ter graças e talentos celestes, o senhor jamais será tentado a tomá-la pelo Diabo! (CAZOTTE, 1982, p. 106) Em outras palavras, a escolha feita pelo sujeito e todas as conseqüências advindas desta eleição diz respeito ao seu desejo (diabo). Já aquelas “presididas pela mãe”, dizem respeito ao desejo da mãe. O sujeito, nestes casos, apela à mãe contra a mulher, dividida por excelência, desconsiderando assim, a mulher que há por trás da mãe, cujo enigma – O que quer uma mulher? – indica o impossível de responder. Já o desejo da mãe... É capital. O desejo da mãe não é algo que se possa agüentar assim, que lhes seja indiferente. [...] Um grande crocodilo em cuja boca vocês estão – a mãe é isso. Não se sabe o que pode lhe dar na telha, de estalo, fechar sua bocarra. O desejo da mãe é isso. (LACAN 1970, p. 105) E o quer a mãe? Fechar sua bocarra, ou seja, reintegrar o seu produto, fazer um com o filho. Alienar-se ao desejo da mãe significa abolir-se como sujeito. No exemplo de Freud, o pintor, além de recorrer à intercessão da Virgem Maria para libertar-se dos assédios demoníacos, ingressa em uma Ordem Religiosa da “Santa Madre Igreja”, torna-se padre onde, no anonimato da Irmandade, entre iguais, encontra a “paz almejada”. 2.2 Guiado pela razão Em sua produção teórica, Freud atribui ao sujeito um saber sobre as “enfermidades do espírito”, saber este recusado tanto no pensamento medieval quanto na racionalidade do discurso científico. Ao afirmar a existência de pensamento no sintoma, confere ao pensamento um para além da consciência e, portanto, a existência de um lugar Outro, denominado inconsciente, sede não só da modalidade de pensamento inscrita no sintoma, mas em todas as formações que ultrapassam o eu – caracterizadas como formações do inconsciente. Em sua interpretação sobre a obra GRADIVA de Jensen, aborda o distanciamento da racionalidade científica e o pensamento inconsciente que recebe da ciência o caráter de uma negatividade, algo que se deve desprezar: A ciência e a maioria das pessoas cultas sorriem quando se lhes propõe a interpretação de um sonho. Só as pessoas simples, que se apegam às superstições e assim perpetuam as convicções da antigüidade, continuam a insistir que eles são passíveis de interpretação. [...] Entretanto, não é capaz de refutar de todo a relação entre os sonhos e o futuro, pois o sonho, ao fim de laboriosa tarefa de traduzi-lo, revelou-se [...] como sendo a representação de um desejo do sonhador; e quem poderia negar que os desejos se orientam predominantemente para o futuro? [...] A ciência [...] explica o sonhar como sendo um processo puramente fisiológico, por trás do qual não há, conseqüentemente, necessidade de procurar um sentido, um significado ou um propósito. (FREUD, 1907 [1906], p. 17-8) Freud revela no exemplo literário, a determinação do inconsciente mascarada pela lógica da ciência: o arqueólogo ao acreditar-se cético e devotado à sua pesquisa busca, na verdade, não seu objeto da ciência nas escavações de Pompéia, mas persegue incessantemente seu objeto de desejo há muito esquecido/recalcado: “A motivação científica servia de pretexto para a motivação erótica inconsciente, estando a ciência inteiramente a serviço do delírio.” (Ibid, p. 58) Assim, podemos notar que tanto a religião quanto a ciência promovem uma despossessão sim, mas uma desposssessão do sujeito na medida em que ignoram a existência e o efeito sujeito no adoecer psíquico. Veremos como se dá a despossessão do sujeito no campo da ciência. Descartes ao tentar solidificar o conhecimento humano para além das explicações teológicas do obscurantismo medieval, cuja questão norteadora era a harmonização de duas vertentes: a “fé” e a “razão”; inaugura a ciência moderna. O cogito cartesiano, a um mesmo tempo, institui e desaloja o sujeito porque propõe como verdade a razão consciente desconsiderando, assim, as determinações do inconsciente – a maior das feridas narcísicas da humanidade. A filosofia em sua época era dominada pelo método conhecido por escolástica com acentos notadamente cristãos surgidos da necessidade em responder às exigências da fé: “os problemas da escolástica são, antes de mais nada, problemas teológicos e mesmo simplesmente dogmáticos de formulação e interpretação do dogma às vezes de explicação racional ou mesmo demonstração”. (MARÍAS, 1980, p. 141). Descartes assim, ao pretender alicerçar o saber sobre bases sólidas e seguras, possibilitou, com suas obras, construir as fundamentações da ciência contemporânea. Em seu “Discurso sobre o Método”, inspirado na matemática, Descartes propõe provar a existência de Deus e o primado da alma sobre o corpo. Desta forma, seu cogito “Penso, logo sou” institui paralelamente, segundo Lacan, “um momento do sujeito, historicamente definido e correlato essencial da ciência”. (LACAN, 1965, p. 870) Assim, existe um sujeito para a psicanálise que é correlato – o mesmo – do sujeito cartesiano. Em quê? Lacan afirma no mesmo texto - “A ciência e a verdade” - mais adiante, que “o sujeito sobre quem operamos em psicanálise só pode ser o sujeito da ciência” (Ibid, p. 873). Milner explicita que esta “equação dos sujeitos” proposta por Lacan concentra na verdade três afirmações: que a psicanálise opera sobre um sujeito não circunscrito aos efeitos imaginarizantes de um eu – está para além do eu – (1); que há um sujeito na ciência (2); sendo este o mesmo da psicanálise (3). Cabe ressaltar que a psicanálise entende por sujeito não aquele das ciências humanas dotado de características psicológicas, sociais, políticas, afetivas, etc.: “Há um sujeito distinto de toda forma de individualidade empírica” (MILNER, 1996, p. 280), não podendo, portanto, ser reduzido à atribuições empiricamente qualificáveis. Diferente do indivíduo cuja palavra, em sua etimologia, é não dividido, indiviso – ou seja, todo – o sujeito da psicanálise é essencialmente dividido, efeito de significantes e, portanto, impossível de ser representado por atribuições sociais (religiosas, culturais, sexuais...) na qualidade de signos cujo lugar encontra-se fixado. A representação significante (reprodução, aparência, em outras palavras, semblante) supõe similitude, onde nenhum representante pode representar o sujeito suficientemente. Como já o diz, trata-se de um representante e não do próprio sujeito, que é sempre fugaz, evanescente. Diferente do eu, que para Lacan é constituído especularmente desde a imagem do outro, o sujeito constitui-se a partir do Outro, em referência à linguagem enquanto efeito da ordem simbólica. Nas palavras de Luciano Elia: O sujeito do inconsciente não é, em si mesmo, pobre ou rico, branco ou negro, tampouco – e aí se situa talvez o ponto mais escandaloso da descoberta freudiana, homem ou mulher. É em sua relação com a alteridade em que para ele consistem a linguagem, a família, a sociedade, enfim, todos os elementos do que Lacan denominou o Outro, que o sujeito vai sexuar-se, definir-se homem ou mulher, e definir também seus demais atributos. (ELIA, 1999, p. 19) Trata-se da cultura atravessando o sujeito, porém não sobredeterminando-o rigidamente como acreditavam os behavioristas ao apostar exclusivamente nas práticas educacionais. Apesar de permeado pela linguagem, o inconsciente é antes disso, lugar de furo através do qual o sujeito pode emergir como pulsional (do desejo e do gozo) e, assim, para além da determinação significante. Retomando Descartes, seu sujeito emerge do Cogito: o ato de pensar funda o ser: Cogito, ergo sum. Não há também para o pensamento julgamento, atribuições: “O próprio pensamento mediante o qual o definimos é estritamente qualquer, ele é o mínimo comum de todo pensamento possível, visto que todo pensamento, seja qual for [...] pode dar-me ensejo para concluir que existo.” (MILNER, op. cit., p. 33) Ainda em seu “Discurso do Método”, 4ª. Parte, Descartes elevou a dúvida a um método filosófico chamado “Dúvida hiperbólica”. Desta forma, nada lhe merece confiança. A natureza que se revelava ao homem pelos sentidos é algo totalmente inseguro. O engano dos sentidos, os erros, fazem com que se tenha que duvidar de tudo. Há, porém, uma coisa que não pode ser falsa – a sua existência; provada a partir do pensamento: Enquanto queria pensar que tudo era falso, era preciso, necessariamente, que eu, que era quem pensava, fosse algo; e observando que esta verdade: penso, logo existo, era tão firme e tão segura que mesmo as mais extravagantes suposições dos cépticos não seriam capazes de abalar, julguei que poderia admiti-la sem escrúpulos, como constituindo, o primeiro princípio da filosofia que procurava. (DESCARTES, 1637, apud MARÍAS, op. cit., p. 217) Assim, para Descartes, não há certo, a não ser eu. Ainda que eu duvide, que me engane sou o enganado ou o duvidoso. Posso duvidar de tudo, meu pensamento pode estar equivocado, mas ainda assim, penso. Disto não posso duvidar: do pensamento independente de qualquer julgamento quanto a correção ou não do conteúdo do pensar. Lacan salienta que o procedimento freudiano é análogo ao de Descartes, na medida em que “Freud, onde duvida [...] está seguro de que em pensamento está lá, pensamento que é inconsciente, o que quer dizer que se revela como ausente”. (LACAN, 1964, p. 39) No mesmo texto, acima, Lacan destaca tratar-se de “pensamento ausente... da consciência”. O pensamento sem qualidades, destituído de atribuições de valor não é prerrogativa da ciência, ele também é necessário para fundar o inconsciente freudiano. Assim como em Descartes, para a psicanálise, o sujeito também é sujeito do pensamento, surge dele, porém, neste caso, trata-se de pensamento inconsciente que não é fruto de uma irracionalidade, mas possui razão e lógica peculiares ao inconsciente. Milner esclarece: Se existe pensamento no sonho (no chiste, nos tropeços da vida cotidiana, etc.), então o pensamento não é o que dele diz a tradição filosófica; principalmente ele não é o corolário da consciência de si. [...] Se admitimos que a proposição negativa ‘a consciência de si não é uma propriedade constitutiva do pensamento’ se estenografa pelo nome de inconsciente, obteremos o teorema: ‘se existe pensamento no sonho, existe inconsciente.’ Obtemos ao mesmo tempo o lema: ‘o sonho é a via real do inconsciente’. E a definição que se reduz do teorema e do lema: ‘afirmar que existe inconsciente equivale a afirmar isso pensa’. Lacan acrescenta somente a proposição retirada de Descartes e estendida a Freud: ‘se existe pensar, existe algum sujeito.’ (MILNER, op. cit., p.34) Evidencia-se na proposição acima duas condições para a fundação do inconsciente: a existência de um sujeito, que não é produto de uma consciência de si – não se trata de um eu – e que os pensamentos constitutivos de suas formações (do inconsciente) sejam destituídos de qualquer qualidade, sejam um pensamento qualquer. Então, a via de acesso ao inconsciente se dá a partir de suas formações; os tropeços do eu, suas “bobagens”. E não é esta a regra fundamental da psicanálise: “fale o que vier à cabeça”? Não se trata aí de avaliar o que vai ser dito, reconsiderar, mas, ao contrário, de despir-se de qualquer julgamento; dos valores pessoais e de todo e qualquer atributo que possa consistir a individualidade fenomenológica. Nas palavras de Luciano Elia: Freud estabelecia as condições de acesso a um sujeito sem qualidades, exatamente como o da ciência, só que desta vez acessível [...] e tornado agente da operação. [...] Freud qualifica o sujeito do inconsciente, o sujeito que, ele próprio, é sem qualidades. E o convocava a aparecer. (ELIA, op. cit., p. 9) Do lado do analista, a indicação freudiana é a de manter uma “atenção flutuante”, uniformemente distribuída, vetando-o assim, a atribuir valoração à sua escuta, abstendo-se de um lugar de gozo, de uma posição de mestria na qual haveria uma “seleção prévia de material a ser trabalhado na análise”. Como em “Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen, Freud atribuía Zoe esta escuta privilegiada do analista: no lugar de Gradiva (objeto a – objeto causa de desejo do sujeito Hanold), Zoe não despreza as formações do inconsciente do arqueólogo, não as julga como irracionalidades, fruto de uma mente insana, mas com suas respostas (interpretações) de “uma ambigüidade intencional”, aponta para uma Outra via, a via do inconsciente, interrogando-o quanto ao seu desejo. Ao instaurar um outro discurso – do analista - a psicanálise instaura também, uma clínica diferente da clínica médica sustentada na mestria: Um dos sentidos dessas palavras ajusta-se ao delírio de Hanold, dirigindo-se à sua compreensão consciente, mas o outro sentido ultrapassa o delírio e em geral fornece-nos sua tradução para a verdade inconsciente que ele representa. Essa capacidade de dar expressão ao delírio e à verdade numa mesma frase é o triunfo do engenho e do espírito. (FREUD, op. cit., p. 87) Porém há uma ruptura entre o sujeito do inconsciente e o sujeito cartesiano. Ao propor “não sou mais que uma coisa que pensa. Nem sequer sou portanto homem corporal, mas só razão”, a filosofia cartesiana vai fundar-se como consciência, como razão. Neste momento, o sujeito (do inconsciente), apesar de suposto pelo cogito, é excluído diante de um ideal de racionalidade científica que, portanto, o ejeta de seu campo operatório. Em outras palavras, apesar de supor um sujeito não o coloca em cena sobre ele incidindo em seu campo de saber, ao contrário, ao fundar-se como (cons)ciência decreta sua exclusão e renega, ainda, sua origem, ao desconsiderar que o pensamento presume um sujeito e não uma consciência com atributos, valores, (pre)conceitos. Milner acrescenta: O freudismo, segundo Lacan, repousa sobre a tripla afirmação de que existe inconsciente, que este não é estranho ao pensar e que, portanto, ele não é estranho ao sujeito de um pensar. [...] O inconsciente, na medida em que a psicanálise lida com ele, não é portanto estranho nem ao sujeito nem ao pensamento. Em contrapartida nem o sujeito nem o pensamento exigem a consciência. (MILNER, op. cit. ,p. 35) Descartes em sua sexta meditação, explicita a primazia do pensamento sobre o corpo propondo, neste momento, o dualismo Res cogitans e Res extensa: De um lado tenho uma idéia clara e distinta de mim mesmo, na medida de que sou apenas uma coisa que pensa e não extensa, e que, do outro, tenho uma idéia distinta do corpo, na medida em que ele é apenas uma coisa extensa e que não pensa, é certo que esse eu, ou seja, a minha alma, pela qual sou o que sou, é inteira e verdadeiramente distinta do meu corpo e pode ser ou existir sem ele. (DESCARTES, apud MARÍAS, op. cit., p. 218) Com a divisão substância pensante (Res cogitans) e substância extensa (Res extensa), o corpo é apropriado pela ciência como objeto de investigação, inaugurando a idéia de corpo-máquina. Corpo, portanto, destituído de sujeito, excluído de sua dimensão simbólica e, mais ainda, de sua vertente real de gozo. A divisão corpo/mente do discurso da ciência, cujo conteúdo foi apropriado pela medicina, acaba por modificar a figura tradicional do “grande médico, o médico padrão, um homem de prestígio e autoridade” (LACAN, 1966, p. 8), transformando-o no cientista que a partir da observação, da percepção, inaugura a medicina moderna como ciência empírica acabando assim, por rejeitar “a atitude predominantemente teórica, sistemática, filosófica própria do seu passado.” (MACHADO, 2006, p. 87) 2.3 Guiado pela razão médica Assim, para além da conceituação, quantificação e rigor científicos, a mudança ocorrida na medicina moderna foi ainda mais radical. As transformações aconteceram, em especial, no nível das relações entre aquele que fala e aquilo de que se fala, quando, a partir das modificações entre o visível e o invisível e sua relação com o enunciável, operou-se uma mudança no próprio saber, apresentando um novo discurso médico que passa a falar uma nova linguagem, sobre um outro domínio de sua experiência: a passagem de um espaço de representação ideal taxonômico, superficial, para um espaço objetivo, real, profundo. Mais explicitamente, a passagem de um espaço de configuração da doença considerada como espécie nosográfica, para um espaço de localização da doença, o espaço corpóreo individual. (MACHADO, Ibid, p. 88) “O Nascimento da Clínica” de Michel Foucault faz uma análise “descontinuísta” da medicina, pois não há continuidade entre o conhecimento da medicina clássica e a medicina clínica, porém a medicina moderna e seu campo de saber a partir da anatomoclínica, reafirma, em última instância, que o objeto da medicina, desde sua origem, é a doença e não o doente. Faremos um breve percurso na obra de Foucault permeada pelas contribuições do psicanalista Jean Clavreul em seu livro “A ordem Médica”. Para o psicanalista, a constituição do discurso médico ocorre desde Hipócrates onde se inicia um projeto “objetivo e objetivante, bem antes de ter alcançado seus frutos de maneira apreciável”. (CLAVREUL, 1983, p. 34) Assim, mais importante que a correção ou incorreção de Hipócrates a respeito da causalidade, diagnóstico e terapêutica da moléstia, o que prevalece é a instauração de um método; um discurso sobre a doença: “um discurso que permite constituir como fatos elementos que, sem ele, permaneceriam puramente contingentes, inessenciais”. (Ibid, p. 79) Retomando a análise de Foucault, a medicina da época clássica é uma medicina classificatória, tendo como referência o modelo da botânica, o estudo das espécies, cuja regra de classificação domina a teoria e prática médicas: “antes de ser tomada na espessura do corpo, recebe uma organização hierarquizadas em famílias, gêneros e espécies”. (FOUCAULT, 2006, p. 2) Esta classificação desloca secundariamente a localização da doença no organismo, tendo como sujeito o “olhar de superfície” do médico e objeto o “espaço plano da classificação das doenças”. Evidencia-se que a produção do saber médico retira da cena o doente. O médico deve abstrair as queixas, as particularidades do indivíduo portador da moléstia: É preciso que quem descreve uma doença tenha cuidado de distribuir os sintomas que a acompanham necessariamente, e que lhe são próprios, dos que são acidentais e fortuitos, como os que dependem do temperamento e da idade do doente. (SYDENHAM, 1784, apud FOUCAULT, Ibid, p. 7) Desta forma, tal como em um “quadro” a doença é retratada – “apenas em um plano, em um instante” – a partir do conhecimento classificatório cuja realidade não se encontra no corpo, mas no espaço ideal nosográfico. Então, segundo Machado: “Se a doença sempre se apresenta em um corpo a habilidade do médico é justamente, saber considerá-la, sem privilegiar essa dimensão factual. “...” A razão é não haver coincidência entre a doença e o corpo que adoece”. (MACHADO, op. cit., p. 90) A figura do médico, assim como a do doente, também é tolerada como “confusões difíceis de evitar, já que não estão formalmente implicados no “espaço racional da doença”. Foucault aponta para a função paradoxal da medicina que consiste, principalmente, em neutralizá-los, em manter entre eles o máximo de distância para que a configuração ideal da doença, no vazio que se abre entre um e outro, tome forma concreta, livre, totalizada enfim, em um quadro simultâneo, sem espessura nem segredo, em que o reconhecimento se abra por si mesmo à ordem das essências. (FOUCAULT, op. cit., p. 8) Clavreul acrescenta que esta dessubjetivação não se dá apenas do lado do doente, mas também ocorre no lado do médico cujo discurso supõe a normatização de uma Ordem referida à instituição médica pela qual seu representante, o médico, encontra-se também submetido, levando o autor a concluir que o desenvolvimento das diversas modalidades de clínica interessam menos que a permanência do discurso, sua imobilidade. Discurso que retém apenas os aspectos que condizem, que possam ser inscritos no próprio discurso e que o protejam do erro. Assim o doente, o médico e suas singularidades são facetas não utilizáveis pela ordem, pois podem induzir ao engano, entendendo-se este engano não enquanto erro médico e, portanto, localizável no discurso, mas do engano possível ao se focar o doente – com suas particularidades e ambigüidades – e, assim, atribuir outras causas e soluções fora deste discurso: É inexato dizer apenas que a medicina despossui o doente de sua doença, de seu sofrimento de sua posição subjetiva. Ela despossui do mesmo modo o médico, chamado a calar seus sentimentos porque o discurso médico exige. Ao mesmo tempo que o doente, como indivíduo, se apaga diante da doença, o médico enquanto pessoa também se apaga diante das exigências de seu saber. A relação “médico-doente”, é substituída pela relação “instituição médica-doença”. (CLAVREUL, op. cit., p. 49) A partir da medicina classificatória, representante da medicina clássica (séculos XVII e XVIII), Foucault analisa as mudanças ocorridas e as rupturas impostas com o nascimento da clínica, entre esta passagem, como sendo: a “protoclínica” (século XVIII), a “clínica” (final do século XVIII) e a “anatomoclínica” (século XIX). A clínica do século XVIII não representa grandes modificações na experiência da medicina classificatória, pois não contradiz seus princípios. O doente é incluído novamente como acidental; o lugar continente da doença cujas particularidades, mais uma vez, não devem obstar a essência da patologia: “o que está presente é a doença no corpo que lhe é próprio, que não é o doente, mas o da sua verdade [...] o doente é apenas aquilo por intermédio de que o texto é apresentado à leitura”. (FOUCAULT, Ibid, p. 64) Assim, o corpo doente não é examinado, mas utilizado como um lugar onde se apresenta algo a ser decifrado: a doença. Prioritariamente pedagógica, a protoclínica não representa uma ruptura importante no saber médico pautado na medicina clássica. Não tem a função de produzir, mas de reproduzir um conhecimento ainda que a presença do corpo contradiga os ensinamentos do professor. Reprodutora de uma teorização anterior cuja clínica objetiva ilustrar, não é um instrumento para descobrir uma verdade ainda desconhecida; é uma determinada maneira de dispor a verdade já adquirida e de representá-la sistematicamente. A clínica é uma espécie de teatro nosológico de que o aluno desconhece, de início, o desfecho. (Ibid, p. 64) Se na medicina classificatória seu objeto era a área racional de classificação das entidades patológicas pouco espaço sendo dado à percepção sobre a manifestação da doença no corpo; na medicina clínica do final do século XVIII, o olhar que observa produz conhecimento. Observação como produção numa relação entre o olhar e a enunciação, entre percepção e linguagem: “ser visto e ser falado se comunicam na verdade manifesta da doença, de que é precisamente todo o ser. Só existe doença no elemento visível e, conseqüentemente, enunciável”. (Ibid, p. 104) Neste momento, a clínica inaugura seu desligamento da medicina classificatória ao estabelecer uma relação do saber médico a dois saberes fora do campo da medicina: a análise filosófica de Candillac – a relação entre o ato perceptivo e a linguagem – e, ainda, o cálculo de probabilidades. Desta forma, estabelece a um só tempo, um modelo gramatical e matemático: “A clínica abre um campo que se tornou ‘visível’ pela introdução no domínio patológico de estruturas gramaticais e probabilísticas”. (FOUCAULT, Ibid, p. 115) É importante ressaltar que ao falar de linguagem trata-se, na verdade, da “estrutura falada do percebido”, ou seja, da articulação entre o ver e o dizer numa tentativa de alçada ao modelo clássico do cientificismo: poder provar racionalmente o observável. Machado esclarece que “é através da correlação entre a linguagem médica e seu objeto que Foucault pretende analisar como diferentes tipos históricos de medicina se exercem, assinalando rupturas arqueológicas a partir das transformações do olhar médico”. (MACHADO, op. cit., p. 115). Porém, podemos conferir na análise de Foucault (como verificou Clavreul), uma continuidade no discurso da Ordem Médica: o saber médico sobre a doença e o apagamento da subjetividade. “O discurso médico é outra coisa que prossegue segundo suas leis próprias, que impõem sua coerção ao doente e também ao médico”, (CLAVREUL, op. cit., p. 29) Então, se na medicina classificatória, a visão da doença manifestada no corpo era secundária à linguagem descrita na nosografia, com a clínica se estabelece uma simetria entre olhar e linguagem: Um olhar que escuta e um olhar que fala: a experiência clínica representa um momento de equilíbrio entre a palavra e o espetáculo. Equilíbrio precário, pois repousa sobre um formidável postulado: que todo visível é enunciável e que é inteiramente visível, porque integralmente enunciável. (FOUCAULT, op. cit., p. 127) Desta forma, a clínica não é um conhecimento empírico, não se dá a partir do corpo do doente, mas na articulação entre o olhar médico (do cientista) e a manifestação dos sintomas. Esse espaço e linguagem serão radicalmente modificados com a entrada da anatomoclínica, no início do século XIX, sendo constituída a partir da relação estabelecida entre a clínica e a anatomia patológica: “O grande corte na história da medicina ocidental data precisamente do momento em que a experiência clínica tornou-se o olhar anatomoclínico”. (Ibid, p. 152) A principal característica dessa ruptura é a mudança nas formas de visibilidade. Trata-se do olhar em profundidade tornando perceptível o oculto na medida em que situa a doença na densidade do corpo, identificando, desse modo, o espaço de configuração com seu espaço de localização. O olhar médico percorre verticalmente o corpo, seguindo um caminho que se estende da superfície sintomática à superfície tissular, deslizando do manifesto ao oculto. A possibilidade de variação individual está relacionada à própria estrutura da doença que se encontra agora ancorada em um corpo doente: “Não é mais uma espécie patológica inserindo-se no corpo, onde é possível; é o próprio corpo tornando-se doente”. (Ibid, p. 150) O “invisível das modulações individuais” encontra visibilidade no descortino anatômico que, com a morte acabará por revelar, modificando assim, a linguagem médica que passa a fazer ver. Foucault considera a linguagem e a morte decisivas como possibilitadoras de um saber sobre o indivíduo enquanto corpo doente: Definiu-se, então, um uso absolutamente novo do discurso científico: uso de fidelidade e obediência incondicional ao conteúdo colorido da experiência [...] – fazer ver, dizendo o que se vê; foi, portanto, necessário situar a linguagem médica nesse nível aparentemente superficial, mas para dizer a verdade, profundamente escondido, em que a fórmula da descrição é ao mesmo tempo gesto de desvelamento. E esse desvelamento, por sua vez, implicava, como campo de origem e de manifestação da verdade, o espaço discursivo do cadáver: o interior desvelado. (FOUCAULT, Ibid, p. 216) O olhar que perscruta, ilumina, dá objetividade. Não é mais redutor subsumido às descrições patológicas, mas autoriza de em torno dele, organizar-se uma linguagem racional legitimada pelo fundo estável e visível da morte viabilizando assim, o ideal da ciência. Clavreul acrescenta que a anatomia patológica também se encontra inscrita na ordem médica, não apenas pelo rigor de seu procedimento, mas porque se limita àquilo que o “olhar médico retém”, ou seja, àquilo que é próprio ao discurso. Com a possibilidade de ser sujeito e objeto de seu conhecimento, a medicina, a partir da morte, decreta a exclusão última do sujeito. O espetáculo emudecido dos corpos sem vida confirma no real – a morte – sua ejeção da cena. A ampliação de seu campo de saber a partir da dissecação de cadáveres cala, efetivamente, o inconveniente das queixas do mal-estar inerente aos falantes, bem como o possível mal-estar do médico frente ao doente agonizante. Clavreul afirma que a medicina apoiada nas pesquisas biológicas encontra seu lugar na ciência além de enaltecer-se ao circular por entre os fatores dito humanos em sua aplicabilidade clínica . Configura-se em um espaço entre o plano de uma pesquisa biológica purista e imparcial – no rigor científico - e o plano de aplicação deste saber, respaldando, assim, a investigação científica cujo produto alcança o caráter de Bem maior para a humanidade onde os fins justificam os meios, tendo como base um ideal de cura: há aí o estabelecimento de um verdadeiro estatuto da medicina que se inscreve no estatuto da ciência, isto é o estabelecimento de uma diferença radical entre pesquisa pura e desinteressada [...] e pesquisa aplicada, ligada às utilizações técnicas e pragmáticas do saber. Isto é, o primado concedido à biologia sobre a medicina faz parte da ideologia da ciência e contribui para reforçá-la. (CLAVREUL, op. cit., p. 51) No momento em que as descobertas científicas aproximam-se da medicina, tais conhecimentos adquirem outra valoração já que o discurso apregoado pela medicina é de um lugar humanitário. Clavreul por um longo capítulo, discorre a respeito do “instinto de curar” – como algo natural – que se desenvolveu como inerente ao discurso e práticas médicas. A partir deste mito, justificam-se os atos médicos, mesmo os mais horrendos em nome de um “bem maior” para a humanidade em uma inversão da ética no momento em que se associam ciência e aplicação médica: “A medicina é a caução moral da ciência.” (CLAVREUL, Ibid. p., 53). Não pretendemos com esta avaliação promover um bombardeio à ciência e em especial à medicina, mas demonstrar que suas descobertas e práticas não existem em um meio inócuo e desinteressado, descontextualizado do imperativo do capital. Percebemos aí que a investigação cientifica encontra-se no discurso do universitário – assunto ampliado no terceiro capítulo desta dissertação - onde o mestre foi substituído pelo saber que agora está no comando. Estando no comando, ocorre um imperativo de saber que exige o cumprimento ininterrupto do mandamento: “Produza saber!” “Saiba mais!” Nas palavras de Lacan: ”Não pensem que o mestre está sempre aí. O que permanece é o mandamento, o imperativo categórico Continua a saber. Não há necessidade de que ali haja alguém. Estamos todos embarcados “...” no discurso da ciência”. (LACAN, 1970, p. 99) O mestre é o saber e nada pode detê-lo, sendo tudo considerado como objeto – objetivável para alcançar a objetividade científica. 2.3.1. As especialidades médicas e o corpo compartimentado Ultrapassando a divisão Res cogitans/Res extensa cartesiana encontramos na medicina da contemporaneidade, a compartimentação do corpo em “Especialidades Médicas”. À psiquiatria coube as “enfermidades da alma” – embora seu objeto de pesquisa não tenha correspondido à localização no corpo, pois a anatomoclínica não respondeu a estas questões no campo da medicina mental inscreve-se como especialidade médica a partir do desenvolvimento farmacológico em especial com a descoberta da clorpromazina nos anos de 1950 nascendo, assim, a classe dos antipsicóticos e a psicofarmacologia moderna. Somando-se à clorpromazina diversas outras substâncias foram descobertas, muitas das vezes casualmente, tendo a explicação teórica de seus efeitos só posteriormente. Apenas no final da década de 1960 surgiram os modelos de neurotransmissão cerebral e da ação farmacológica neurotransmissores e/ou sugerindo que neuroreceptores. os Ao psicofármacos formular o agiam nos modelo da neurotransmissão a psiquiatria pôde finalmente compartilhar com as demais especialidades os mesmos esquemas referenciais – da biologia – e ascender a um estatuto científico. Desta forma, ao atingir o ideal almejado e identificada aos instrumentos da ciência passa a privilegiar o modo medicamentoso de tratamento, supostamente infalível, rejeitando os modelos centrados na palavra. Na atualidade permanecendo com uma direção acentuadamente biológica e completamente seduzida pelas neurociências, a psiquiatria desconsidera a existência de um sujeito na causação do adoecimento psíquico. Procura encontrar uma causa neurobiológica na tentativa de espacializar, desta vez, os humores do homem. Então, a partir dos avanços ocorridos no conhecimento cerebral afirma que a conduta humana pode ser explicada totalmente em termos biológicos o que acarretaria uma fusão entre neurologia e psiquiatria cujos transtornos psíquicos passam a ser tratados neuropatologicamente. Na verdade, objetiva-se a construção de uma “neurobiologia da personalidade”, onde as nomeadas “doenças da alma” possam ser classificadas aos moldes de uma biologia do indivíduo, aproximando conhecimento do cérebro a conhecimento de si mesmo, pois em sua perspectiva teórica, as neurociências têm para explicação do espírito uma base exclusivamente materialista ao nortear-se pelo princípio de que as funções cerebrais causam o psiquismo. Com essa abordagem materialista atribui às representações mentais a arquitetura neuronal: os estados mentais são estados físicos do cérebro. Procura localizar a subjetividade utilizando para isso de vocabulário fisiológico que seria, aos moldes da ciência racionalista mais preciso e rigoroso. Assim, a história particular de cada sujeito deixa de ter relevância para o conhecimento de seus males psíquicos que, na leitura atual, são provenientes de uma disfunção. Como já citado anteriormente, o projeto de naturalização do psiquismo vem de longa data sendo, inclusive, anterior ao advento da psicofarmacologia moderna. O desenvolvimento das biotecnologias norteadas pelo modelo de neurotransmissão – incluindo aí os psicofármacos – possibilitou a investigação do Sistema Nervoso em seus vários aspectos debruçando-se sobre a descoberta de substâncias que pudessem mimetizar o funcionamento dos neurotransmissores. Sob esta ótica prioritariamente funcional, os transtornos decorrentes deste desequilíbrio necessitam ser regulados pela ação dos psicofármacos. À química desregulada do organismo o único tratamento oferecido é um outro produto químico, desta vez artificial. Em “Mal-Estar na Civilização” (1930), Freud destaca o sofrimento do homem na sua relação com o semelhante e a pontualidade de prazer que possa ser extraído em suas satisfações pulsionais diante de um ideal de felicidade impossível. A civilização impõe renúncia à satisfação pulsional, pois há um antagonismo irremediável entre as exigências pulsionais e as restrições impostas pela cultura. Então, há um sofrimento inerente ao processo civilizatório acarretando uma limitação à vida cujo propósito que é “simplesmente o programa do princípio de prazer [...] encontra-se em desacordo como mundo inteiro. Não há possibilidade de ser executado”. (FREUD, 1930, p. 95) Diante deste mal-estar, o sujeito pode utilizar-se de meios para a evitação do sofrimento e conquista da felicidade. Tais meios comportam uma variedade de métodos classificados por Freud de “técnica vital” que são as construções substitutivas oferecidas pela própria cultura no apaziguamento da dor. Dentre elas cita o recurso químico como uma forma de tornar-se insensível diante do impossível de suportar: O mais grosseiro, embora o mais eficaz, desses métodos de influência é o químico: a intoxicação [...] que provoca em nós, diretamente, sensações prazerosas, alterando, também, tanto as condições que dirigem nossa sensibilidade, que nos tornam incapazes de receber impulsos desagradáveis. (FREUD, Ibid, p. 96) Desta forma, diante da dor de existir - vicissitude do falante – a ciência, através da farmacologia, oferece sua solução química na tentativa de amortecimento do sofrimento já que produz a sensação de aniquilamento das tensões internas. Basta observarmos o número cada vez mais crescente de deprimidos e panicados e suas “pílulas da felicidade” como próteses psíquicas em um movimento atual chamado de “remedicalização da psiquiatria” (PASNAU, 1987, apud SERPA Jr. 2001, p. 32) que coincidiu com o avanço progressivo do conhecimento das funções cerebrais e do mapeamento genético: Técnicas de reprodução de imagens, eletroneurofisiologia, neuroquímica, psicofarmacoterapia, neurobiologia do desenvolvimento, genética, psiconeuroendocrinologia, epidemiologia, enfim, uma série de campos de pesquisa nos quais os resultados podem ser quantificáveis e oferecer a sustentação biologizante procurada por essa versão fin-de-siècle da psiquiatria. (SERPA Jr.,2001, p. 32) Na busca incessante pelo rigor científico e ao reduzir os fenômenos psicopatológicos a transtornos relacionados a uma desregulação neuro-hormonal, a psiquiatria colocou-se não como produtora de um saber a partir de sua incidência operatória, mas como subsidiária de um saber fornecido pela pesquisa farmacológica; mais um meio de produção do capital. Então, a nosografia psiquiátrica na atualidade constituiu-se através de uma psicopatologia pautada nos psicofármacos ao se criarem “novas” síndromes e transtornos adornando antigos sintomas para que possam, enfim, ser medicados. Segundo Roudinesco, após ter servido de cimento, durante trinta anos, à elaboração da nosologia psiquiátrica, a psicanálise foi finalmente rejeitada em prol dos psicotrópicos e de outros modelos explicativos do psiquismo fundados no DSM-IV ou em novas mitologias cerebrais. (ROUDINESCO, 1999, p. 105, apud QUINET, 2001, p. 8) Um exemplo disto encontra-se na neurose obsessiva que pela atual classificação é nomeada por TOC (transtorno obsessivo-compulsivo, ou podemos fazer um chiste ao aludir à onomatopéia do ritual de “isolar” na madeira da prática obsessiva: toc-toc-toc) que, a partir de uma série de pesquisas desencontradas quanto ser uma disfunção ou não, ou seja, apesar da falta de localização cerebral, os neurocientistas se aferram ao conceito da origem biológica das obsessões e, portanto, à necessidade de medicação. Assim, a tênue linha indicada por Freud entre normal e patológico deixa de existir e, sob este viés, passam todos à categoria de consumidores no momento em que a psiquiatria encontra-se a serviço do discurso do capitalista, “não só produzindo novas drogas (novos gadgets) mas também novas categorias diagnósticas que justificam “médica-mente” a utilização dos psicofármacos”. (QUINNET, ibid, p. 19) Em seu livro “História da loucura” Foucault apresenta a trajetória do conceito de loucura a partir da contextualização social, econômica e institucional propiciando um ambiente fecundo para a atual conceituação de patologia. Da experiência trágica da desrazão portadora de um saber secreto revelado na manifestação delirante, à classificação como doença (mental), a loucura torna-se alienação: “O louco não é mais o insensato no espaço do desatino clássico; ele é o alienado na forma moderna da doença”. (FOUCAULT, 1987, p. 520). O dicionário define alienação como alheamento, transferir ao outro, ceder. Cabe lembrar que estamos nos referindo à alienação no sentido estrito do termo e não ao conceito de alienação formulado por Lacan. Por este viés, ao ser conceituado como alienado, o louco, “alheio” à sua experiência torna-se objeto de uma medicina especial com conceitos e técnicas próprios. Nessa versão o saber encontra-se, exclusivamente, do lado da ciência e seu representante médico. Para Clavreul a psiquiatria em sua institucionalização da loucura é, antes, fruto da Ordem Médica como medida de um domínio sobre o corpo ao “impor o que é mais favorável ao bem de alguém, que não é considerado capaz de opor um julgamento admissível” (CLAVREUL, op. cit., p. 43), porém o corpo é essencialmente lugar de gozo, donde conclui o autor: “O saber que o corpo tem sobre os caminhos do gozo não é um saber menos imperativo que o do discurso médico. Ele constitui seu intransponível limite. Ele se afirma até à morte e à loucura” (Ibid, p. 37), destacando assim, que este limite de liberdade é marcado pela morte na medicina e pela loucura na psiquiatria estando a psicanálise autônoma em referência ao campo de saber do discurso médico: Juntando com um primeiro nó a loucura e a liberdade, Lacan constituía o ponto de partida de sua própria liberdade com relação à Ordem médica e psiquiátrica. Ele segue nisto a via indicada por Freud, reconhecendo na loucura das histéricas outra coisa que não um desafio à medicina, bastando apenas que a reduzam . (CLAVREUL, Ibid, p. 33) Conforme observamos, a psiquiatria nunca considerou o sujeito do inconsciente reconhecendo nele um lugar de saber e verdade sendo a figura representativa do louco a do alienado. Entretanto, durante sua história, ocorreram interlocuções com discursos não-médicos ligados à psicanálise e às ciências humanas. Ao se efetuar uma ruptura com esses saberes a partir de um discurso predominantemente pautado nas neurociências transformando-se em psiquiatria biológica, retira qualquer possibilidade de subjetividade na vivência do sofrer psíquico. Essa desarticulação entre os sintomas e subjetividade impossibilita definitivamente a apropriação pelo sujeito do seu sofrimento, em outras palavras impossibilita a retificação subjetiva, sua responsabilidade pelos males de que padece e se queixa, transformando-se assim, em doente despossuído de sua subjetividade. Clavreul salienta que o doente já tem seu lugar designado antecipadamente pelo discurso médico, lugar de não saber, sendo um indicador de signos e não um demandante. As poli-queixosas histéricas furam este saber todo da mestria médica ao demonstrar que o seu corpo não é o mesmo da anatomoclínica. Como o significante, o sintoma histérico desliza, é migratório, representa todas as doenças sem sê-las, faz semblante de doença. Logro de doença, logro de objeto, a histérica recusa a submissão exigida ao doente. O sintoma histérico perturba o saber instituído ao escapar da versão totalizante e manifestar-se em suas (con)versões: É da visada totalitária do discurso médico [...] nada querer nem poder saber do que não lhe pertence, porque é inarticulável em seu sistema conceitual. [...] Esses elementos, estranhos ao discurso médico, e no entanto singularmente insistentes, uma vez que é continuamente que os doentes os apresentam ao médico, são verdadeiramente “não fatos” em relação à medicina. (CLAVREUL, Ibid, p. 84) Os sintomas histéricos não são alusivos ao discurso médico, mas se destinam a um Outro lugar, uma Outra cena nas palavras de Freud, apontando para o próprio sujeito. Por não ter um lugar no discurso médico, já que potencialmente demandante, a histérica só pode obter como resposta: “Você não tem nada”. Podemos brincar um pouco com o significante nada: nada que possa ser localizável no registro anatômico do corpo em sua relação com a doença e, portanto, nada que possa ser incluído no discurso médico, pois, como vimos, este discurso só incorpora aquilo que pode afirmar o próprio discurso o que, portanto, exclui o nada como elemento vazio, buraco no conjunto do saber. O nada como lugar vazio pode também ser o do furo indicativo do desejo, levando-nos, mais uma vez, à causa do sujeito que se encontra subsumido no discurso médico. É importante destacar que é justamente o furo no saber que possibilita o avanço da ciência. Lacan nos ensina que o discurso da ciência tem quase a mesma estrutura do discurso da histérica em virtude de sua estrutura como produção de saber, sendo justamente este ponto inassimilável, ponto de nãosaber, que se estabelece como causa de incremento. São zonas de sombra criadas pelo discurso para seu próprio desenvolvimento o que coloca o saber totalitário científico em um impasse, apontando para um lugar de contradição no seio da ciência: O modo como resiste aos novos paradigmas demonstra a tentativa de aferramento aos conceitos constituídos, o que faz objeção à sua suposição de “desejo de saber”. 2.4 Toda Weltanschauung é religiosa Em seu texto “A questão de uma Weltanschauung” (Conferência XXXV, 1933[1932]), Freud nos explica o sentido deste conceito, especificamente alemão, o que suscita dificuldades na tradução para outros idiomas e nos dá uma definição própria já adiantando ser incompleta: É uma construção intelectual que soluciona todos os problemas de nossa existência, uniformemente com base em uma hipótese superior dominante, a qual, por conseguinte, não deixa nenhuma pergunta sem resposta e na qual tudo o que nos interessa encontra seu lugar fixo. (FREUD, 1933, p. 193) Entende-se com este conceito que uma Weltanschauung é uma tentativa de fechamento, de totalização a partir de uma ideologia dominante que supostamente conteria todas as explicações de maneira integral o que na conclusão de Freud situa-se entre os desejos ideais dos humanos (poder dizer não à castração), concluindo que há uma única e verdadeira Weltanschauung; a religiosa. Neste texto apresenta as diversas Weltanschauung surgidas em momentos históricos anteriores, mas ainda presentes, como a arte, a filosofia, a magia e a religião, sendo esta última a única que poderia fazer frente a uma Weltanschauung científica, embora reconheça que uma Weltanschauung da ciência “dificilmente merece um nome tão grandiloqüente, pois não é capaz de abranger tudo é muito incompleta e não pretende ser auto-suficiente e construir sistemas”. (FREUD, Ibid, p. 220). Com isso Freud demonstra a relativização da construção de uma Weltanschauung científica ao rigor da conceituação. Por estas incompletudes, por ser uma Weltanschauung “muito pobre e sem esperança e de que ela despreza as reivindicações do intelecto humano e as necessidades da mente humana” (FREUD, Ibid, p. 194) é que o cientista Freud vai fazer aproximar a psicanálise, pois as Weltanschauung grandes e poderosas como a religião e seu saber todo não há espaço para investigação e descobertas, já se encontram completas. Sustenta a psicanálise a partir da ciência, pois considera o psiquismo objeto de pesquisa científica tal como os demais objetos não-humanos, ou seja, não negligencia “aquilo que é mental no universo. Sua contribuição consiste justamente em ter estendido a pesquisa à área mental”. (FREUD, Ibid, p. 194). Assim, somente uma Weltanschauung “tão pobre” como a da ciência poderia fazer emergir o sujeito de que trata a psicanálise, sendo ele, em última instância, o resto, o dejeto desta Weltanschaunung e sobre o qual a psicanálise vai operar. A religião em sua certeza sobre a origem e destino humanos e seu conceito de transcendência ao vencer a morte, vem de encontro ao grande ideal da humanidade de sobrepor-se à castração. Então, somente uma Weltanschauung completa e apaziguadora da fundamental angústia do falante, poderia persistir e insistir apesar do incremento do discurso racional da ciência. Ao observar no discurso de seus pacientes neuróticos o mesmo conteúdo destas Weltanschauung antigas (supervalorização das operações intelectuais, crença na onipotência dos pensamentos, devaneios, fantasias), Freud conclui que a religião, por exemplo, “é um equivalente da neurose pela qual o homem civilizado, individualmente, teve de passar, em sua transição da infância à maturidade” (FREUD, Ibid, p. 204) Poderíamos inferir então , que há algo que não é respondido pela ciência e retorna na forma destas Weltanschauung (religião, filosofia, magia, arte) e por isso, não podem ser negligenciadas pela psicanálise (como o faz a ciência) e nem a elas aderir. Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, Freud já adiantava o perigo dos conceitos totalizantes e massificadores nas formações dos grupos a partir das identificações promovidas por laços libidinais. Aponta a igreja (religião) como um dos modelos princeps de laços grupais onde os indivíduos se transformam numa unidade devendo o grupo “ser duro e inclemente com aqueles que a ele não pertencem” (FREUD, 1921, p. 125), como percebemos no discurso médico e o rechaço daquilo que não pode ser apreendido pelo discurso: “ A censura que exerce o discurso médico provém de que ele não deixa nenhum lugar para o que não entra na coerência que lhe é própria.” (CLAVREUL, op. cit., 38) Assim, mesmo a ciência quando corresponde inteiramente a uma Weltanschauung no sentido estrito tal como definido por Freud, pode tornar-se um laço grupal religioso. Nas palavras freudianas do texto de 1921: Se outro laço grupal tomar o lugar do religioso [...], haverá então a mesma intolerância para com os profanos que ocorreu na época das Guerras de Religião, e, se diferenças entre opiniões científicas chegassem um dia a atingir uma significação semelhante para grupos, o mesmo resultado se repetiria uma vez com essa nova motivação. (FREUD, Ibid, p. 125) Na perspectiva freudiana a ciência pode tornar-se uma Weltanschauung religiosa ainda que seus conteúdos sejam diametralmente opostos, porque não são os conteúdos em si que fazem uma Weltanschauung religiosa, mas seu aspecto de completude não havendo espaço para perdas, precariedades. Sob este viés, somente a incompletude de uma Weltanschauung como a da ciência, torna possível a aproximação com a psicanálise. Ao tornar-se absoluta transforma-se em uma Weltanschauung religiosa. Resumidamente, podemos concluir que só existe uma única Weltanschauung no sentido estrito dado por Freud, a religiosa, em outras palavras, uma “Weltanschauung é uma Weltanschauung religiosa”. Curioso perceber algumas aproximações entre religião e ciência ainda em que pese o surgimento desta última a partir do rompimento com o pensamento medieval, logo, com o determinismo religioso. As explicações a partir da fé encontram-se, na atualidade, sob o domínio da razão (apesar da religião encontrarse cada vez mais poderosa) donde poderemos questionar se não saímos do escrutínio do deus judaico cristão e não estamos hoje sob a reges do mito do “saber tudo” da ciência. Ao posicionar-se no discurso do universitário e seu mandato categórico - “Saiba mais!” “Continua a saber!” - a serviço do discurso do capitalista na produção de insumos a serem consumidos, a ciência tenta abarcar o todo e, assim, obturar a falta da qual todo discurso é portador, podendo transformar-se em uma Weltanschauung religiosa. As versões biologicistas, como vimos, apresentam o cérebro, a mente, o corpo, o psiquismo, enfim, em uma dimensão estritamente biológica, direcionando para uma naturalização, tal como outros fenômenos naturais. Bogochvol argumenta que este reducionismo faz evocação ao mito bíblico do paraíso primordial, onde haveria uma harmonização entre homem e natureza. Antes do pecado original, o homem era um ser natural co-habitante deste paraíso sem qualquer diferença ou conflito. Desejamos o retorno ao Éden perdido, o que seria o retorno ao inanimado. Se a religião não conseguiu trazer a igualdade aos homens, aplacar o mal-estar frente à singularidade, à diferença, a tecnociência nos acena com sua proposta de padronização. Ao restringir fenômenos psíquicos ao materialismo cerebral, alcançamos finalmente uma igualdade e uniformidade e se, por defeito genético, o biológico encontra-se comprometido, podemos usar a química substitutiva e, assim, atingir a sonhada paridade. Os transtornos psíquicos concebidos como produtos de um distúrbio neurofisiológico tratável farmacologicamente nos dirige para uma “psiquiatria sem psiquismo” (BOGOCHVOL, op. cit., p. 7), esvaziada de sujeito. Ao afirmar que os transtornos psíquicos são decorrentes de uma disfunção parte de um pressuposto causal onde um acontecimento biológico tem como efeito uma condição psíquica. Assim, o sintoma expressaria no psiquismo aquilo que é, em sua essência, uma disfunção biológica (genética, neurotransmissora), manifestando num registro (psíquico) aquilo que é da ordem do outro (fisiológico). Ocorre aí uma aproximação entre psíquico e somático – aparentemente desfaz-se o dualismo corpo/mente para imediatamente o biológico anular o psíquico ao compreendê-lo sob sua conceituação. Voltamos à velha questão da ciência: afirmar e rechaçar a um só tempo o sujeito, estando a diferença entre o psíquico e o somático e, portanto, da ordem do pulsional, foracluído do seu discurso. A ciência moderna ao reduzir o corpo a objeto a ser perscrutado, examinado, negando assim sua dimensão simbólica e também real enquanto pulsão, desconsidera-o como habitado por um sujeito – do inconsciente – pulsional por excelência. Segundo Vera Pollo, para Lacan “o hiato entre saber e soma se expandiria proporcionalmente ao progresso da ciência como testemunha de que nenhuma biologia, por mais sofisticada que seja, pode apreender inteiramente o corpo dos seres falantes”. (POLLO, 2004, p. 15) Assim, a ciência pode até fazer desaparecer a doença mental – ao reduzir o sujeito a disfunções moleculares, genéticas, neurotransmissoras obscurecido por psicofármacos - mas não há como nos redimir do nosso destino trágico de falantes submetidos à cultura e do malestar inerente a esta condição. Não põe fim à nossa incontornável incompletude, à nossa experiência trágica da castração, nossa marca como sujeitos. Disto não há como curar-se. Para concluir, as palavras de Foucault: É que o homem ocidental só pôde se constituir a seus próprios olhos como objeto da ciência, só se colocou no interior de sua linguagem e só se deu nela e por ela, uma existência discursiva por referência a sua própria destruição: da experiência da Desrazão nasceram todas as psicologias e a possibilidade mesma da psicologia, da colocação da morte no pensamento médico nasceu uma medicina que se dá como ciência do indivíduo. (FOUCAULT, op. cit., p. 217) Ciência do indivíduo e não do sujeito. CAPÍTULO II O SUJEITO E O GOZO “Toda formação humana tem, por essência, e não por acaso de refrear o gozo [...] porque o princípio de prazer é o freio do gozo”. Alocução sobre as psicoses da criança Lacan,1968 3. CAPÍTULO II O SUJEITO E O GOZO O que seria então uma ciência que incluísse o sujeito? Como desenvolvido no capítulo anterior, a psicanálise nasceu na ciência, porém promove uma subversão ao reintegrar o sujeito suposto e excluído. Freud não só desejava aproximar a psicanálise da ciência como também reconhecia apenas nela e em sua incompletude esta possibilidade. Ao evidenciar ainda que o tratamento do real na clínica se faz pelo simbólico da teorização psicanalítica, sustenta mais ainda a proximidade com a ciência, por ser exatamente este o procedimento científico por natureza: “tratar o real pelo simbólico”. Desta forma visava afastar a psicanálise não só da religião, como também da filosofia considerada por ele mais uma Weltanschauug antiga e, portanto, portadora de um saber globalizante a respeito do homem em sua qualidade imaginária, evitando assim, qualquer conceito do sujeito que se assemelhasse ao indivíduo e que fornecesse a possibilidade de compreensão (com-preensão do sujeito pelo outro no lugar de mestria) aos moldes de uma psicologia metafísica e adaptativa do comportamento. Luciano Elia propõe “conceber as relações recíprocas entre esses três campos – Ciência, Filosofia e Psicanálise – de modo borromeano” (ELIA, op. cit., p. 22) Psicanálise R $ Ciência S I Filosofia O diagrama representa os três registros propostos por Lacan tendo as seguintes designações: a Ciência pelo anel do Simbólico, a Filosofia (ou religião, ou...) pelo anel do Imaginário e a Psicanálise como lugar do Real. Ousamos acrescentar à representação de Elia, o sujeito do inconsciente na articulação entre os três anéis, como lugar de dispersão – como vimos, o sujeito é sempre pontual e evanescente - e por não suportar a apreensão por uma única vertente/registro, mas como efeito desta intersecção. Como já mencionado anteriormente, o sujeito da psicanálise é o mesmo da ciência sem no entanto terem o mesmo procedimento, isto é, não operarem da mesma forma em referência ao sujeito: o sujeito é para ambas destituído de qualidades, porém enquanto a ciência o exclui, a partir do seu projeto de uma lógica exclusivamente racional, a psicanálise, ao não eliminá-lo de sua incidência operatória, permite a emergência do sujeito do inconsciente. Por considerar o pensamento inconsciente - suas formações - sobre ele incide e opera possibilitando, ainda, que este sujeito seja o agente da operação. Assim, ocorre uma subversão do sujeito da ciência pela psicanálise. Como? Luciano Elia afirma que a psicanálise encontra-se num mais além da ciência numa relação de extimidade podendo ser exemplificada topologicamente pela figura do toro. Este mais além em relação à ciência quer dizer “êxtimo em relação a seu referente” (ELIA, Ibid, p. 24), em outras palavras, situa-se além da ciência, mas derivada dela e faz alusão a um ponto inapreensível - de real – que, a partir da subversão efetuada pela psicanálise – de sujeito da ciência a sujeito do inconsciente – instaura um novo discurso. Nas palavras de Elia: E isto ocorre porque a ciência é um discurso constituído pela invenção de um sujeito, o sujeito cartesiano, que no entanto deve ser extraído de seu campo para que ela opere. A psicanálise começa por confrontar-se com um determinado real, exatamente à maneira da ciência, mas diante dele faz outra coisa, opera uma lógica metodológica inédita, que consiste em captar nesse real, o efeito sujeito excluído da ciência, operação pela qual ela volta-se para a própria ciência e reduplica a mesma operação: capta, na ciência, o elemento excluído – o sujeito – situando-o como seu referente real absoluto. (ELIA, Ibid, p. 26) Ao excluir o sujeito de seu campo de saber, a ciência situa outros referentes como seu objeto - de acordo com cada ciência em particular - que, ao defini-lo, torna-se invariável e submetido ao discurso daquela ciência específica. Ao recuperar o elemento excluído pela ciência e trazê-lo para seu discurso como referente absoluto, a psicanálise promove um furo, um rompimento com o discurso da lógica científica inaugurando um novo discurso. Discurso furado, pois nesta duplicação de operação e ao reintroduzir o elemento excluído – o sujeito – não o traz enquanto consistência – mais uma vez não se trata de um eu - mas incluído como real absoluto, aquele que não cessa de não se escrever, insiste e persiste em retornar, impossível de ser apreendido, porque essencialmente pulsional, do desejo e do gozo. A recuperação do sujeito excluído pela ciência inscreve-se na psicanálise como vazio, o furo real permanentemente contornado pela pulsão. Luciano Elia representa graficamente (Ibid, p. 33) a relação do sujeito na ciência e na psicanálise. CIÊNCIA PSICANÁLISE furo sujeito A psicanálise não é uma ciência humana, pois considera que o sujeito não está limitado à gestalt imaginária, ainda em que pese o conceito de gestalt como “mais do que a soma das partes”, indicando uma organização. O sujeito ultrapassa tal definição, sendo mais do que um conjunto organizado de atribuições ditas humanas por, para além disto, portar a falta, o furo indicativo do desejo. Assim, a psicanálise o reconhece como efeito da linguagem e, mais ainda, como pulsional e, portanto, em referência à orientação freudiana de pulsão como “conceito limítrofe entre o psíquico e o somático” o que implica necessariamente, o sujeito e sua modalidade de gozo. Lacan se utiliza de um neologismo para designar a relação do sujeito com o gozo, relação êxtima ao sujeito, na medida em que o gozo é aquilo que há de mais estranho e mais íntimo ao sujeito, estando fora do significante, no real. Seu conceito de objeto a, introduz o real na realidade psíquica, onde o objeto como falta, surge sem o véu da demanda do Outro. O processo analítico ultrapassa o sentido do sintoma em sua vertente significante, uma vez que na fantasia - $ ◊ a – o sujeito encontra-se alienado/separado de seu objeto causa de desejo, estando ora no lugar de sujeito dividido ($), ora no lugar de objeto (a) e, portanto, em sua face real de furo, vazio de sentido. Sujeito dividido – do enunciado e da enunciação, mas sobretudo em sua dupla relação: com a cadeia significante (simbólica) e com o objeto – que é sempre falta de objeto e, portanto, real – ao qual encontra-se ligado na fantasia. 3.1 Instinto X Pulsão Freud chamou de Trieb a imposição por satisfação característica do humano que, ao contrário dos animais, não corresponde a um conjunto de respostas inatas a serviço da necessidade biológica e, portanto, da ordem do instinto cuja definição do dicionário é: Substantivo masculino. Impulso natural. O instinto é o impulso, o estímulo interior que leva os animais a uma ação dirigida à conservação ou reprodução da espécie. O instinto permanece invariável através dos tempos. O instinto de conservação é o que impulsiona os seres vivos a se protegerem, cada um a seu modo de tudo que possa causar dano. (ROCHA, 2000) Apesar da conceituação reducionista de instinto, percebe-se o inapropriado de seu uso em relação ao falante visto que este não possui um arcabouço de resposta prontas para satisfazer e conservar a vida. No humano a satisfação pulsional está pautada na inexistência da relação sexual não havendo, portanto, o encontro entre pulsão e objeto, entre “a linha e a agulha, a moça e o rapaz”. (LACAN, 1965, p. 48) Lacan nomeia de pulsões parciais justamente por não se aterem à finalidade biológica da sexualidade, mas por se apresentarem no processo da realidade psíquica (da fantasia). Assim, no humano, aquilo que é da ordem da sexualidade passa para as redes da constituição subjetiva, para as redes do significante – que a sexualidade só se realiza pela operação das pulsões, no que elas são pulsões parciais, parciais em relação à finalidade biológica da sexualidade. (LACAN, 1964, p. 167) Lacan chama a pulsão de montagem em oposição à programação instintual onde ocorre sincronia entre o mundo exterior e a necessidade interna como numa correspondência biunívoca, por não haver o atravessamento da linguagem e seu deslizamento de sentidos. Representaremos graficamente instinto e pulsão. Para tal, utilizaremos das palavras do artista e seu acesso ao saber inconsciente: Bebida é água. Comida é pasto. Você tem sede de quê? Você tem fome de quê? Comida, Titãs INSTINKT (Instinto) A B Bebida água Comida pasto TRIEB (Pulsão) A B C D Você tem de vinho Você tem de caviar sede de justiça fome de alguém de quê? de.... de quê? de... Um instinto é momentâneo, pontual, ao ser satisfeito é eliminado até o aparecimento de uma nova necessidade. Como a “fera daí da sua cova querens quem devoret, e quando ela encontrou o que ela tem para morder, ela está satisfeita, ela digere”. (LACAN, Ibid, p. 157) Com a pulsão nenhum objeto é capaz de saciá-la, de fazê-la calar, pois “não tem dia nem noite, não tem primavera nem outono, que ela não tem subida nem descida. É força constante”. (Idem) O corpo da pulsão corresponde ao corpo da necessidade na medida em que a pulsão tem seu apoio no corpo, sua fonte de excitação é o corpo. Enquanto nos instintos os órgãos envolvidos são os internos, a pulsão envolve a superfície do corpo, suas bordas orificiais. A pulsão cria bordas nas aberturas corporais, bordas erógenas que promovem uma conexão entre o interno e externo , donde podemos fazer alusão às palavras de Freud de que “ a pulsão é um conceito limítrofe entre o psíquico e o somático”. A formação das bordas orificiais supõe investimento libidinal e, portanto, em referência ao campo do Outro, campo das representações que, a partir daí, transforma o pedaço de carne pulsante em corpo erotizado, um corpo delimitado por palavras que contam sua história. Lacan representa topologicamente esta conexão por 8 interior, uma banda de Moebius, onde dentro e fora, avesso e direito se correlacionam. Este 8 interior desenha esta superposição do corpo do instinto pelo corpo da pulsão: “Essa imagem nos permite figurar o desejo como lugar de junção do campo da demanda, onde se presentificam as síncopes do inconsciente com a realidade sexual.” (LACAN, Ibid, p. 149) 3.1.2. Do orangotango ao humano Devemos lembrar que o tempo puramente instintual é mítico. O humano não habita, inicialmente, um estado de selvageria primária. Habitamos o mundo da linguagem mesmo antes de nascermos, através de nossa pré-história antecipada pelo Outro. Desta forma, o programa instintual já se encontra cunhado pela exigência da linguagem. Podemos observar esta marca da linguagem sobre o instinto, quando domesticamos um animal. Ocorre uma certa perda de suas resposta inatas; seu programa passa por modificações como efeito da linguagem humana. Como se dá essa ruptura com a natureza? Como este animal que fazia parte do todo indiscriminado do universo, ao fazer-se falante, separa-se deste todo, mas a ele quer sempre retornar? A metáfora da Criação do universo da tradição judaicocristã, conta que Deus, após criar o céu e a terra a partir do nada, habitar o mundo com as mais diversas formas e cores, criou o homem à Sua imagem e semelhança, dando a ele o poder de nomear Sua obra. Neste momento, o homem, ao criar um representante (significante) para a coisa, separa-se do real da natureza, diferencia-se das demais criaturas. Ao se humanizar, perdeu seu programa instintual passando a possuir uma montagem com caminhos incertos e errantes: a pulsão. A passagem da necessidade para a pulsão se dá a partir da demanda do Outro em seu jogo de demarcação do corpo do bebê. Assim, à fome temos leite, mas não há objeto que corresponda à pulsão oral. A linguagem barra a necessidade e produz a pulsão definida como resultado dos significantes da demanda do Outro sobre a necessidade: “$ ◊ D”. O conceito de pulsão a partir da demanda do Outro, retira o sujeito do campo da biologia e sua esfera desenvolvimentista; retira da natureza o que é da ordem do humano. Como cita Lacan: “A passagem da pulsão oral à pulsão anal não se produz por um processo de maturação, mas pela intervenção de algo que não é do campo da pulsão – pela intervenção, o reviramento da demanda do Outro”. (LACAN, Ibid, p. 171) Nesta operação não há uma correlação direta entre necessidade e demanda, se produz um resto que é o desejo. Há uma suposição em Freud de que a pulsão busca uma satisfação que já foi obtida um dia, antes do interdito que nos tornou humanos. Desde então, ao ser domada pela linguagem, foi limitada a percorrer as bordas orificiais libidinizadas pelo Outro. Diante da ameaça que trazia consigo, já que portadora da morte, viu-se obrigada a se fazer representar por seus representantes. Então, é com a entrada do significante, o enlaçamento do real pelo simbólico, que se constrói a possibilidade de (de)limitações dessa pulsação de gozo. O real é, assim, tecido, matizado pela linguagem e o corpo, ao ser afetado pelo significante, é desvitalizado de gozo reduzido agora às zonas erógenas. A marca significante forma pequenos territórios no oceano indiscriminado do gozo que solapava o corpo. Esta territorialização separa o corpo do gozo; seus enlaçamentos libidinais criam bordas para satisfação – sempre parcial – de uma pulsão. Em termos freudianos o alvo da pulsão é a satisfação que, como já mencionado, teria ocorrido a partir de uma primeira experiência mítica. A busca por satisfação procura reeditar essa satisfação primeira, infindavelmente, através de objetos que se oferecem como pretendentes a ocupar o lugar da Coisa (Ding), irremediavelmente perdida porque nunca foi tida. Cada “objetinho” escolhido vela e revela que não é através dele que a satisfação desejada será alcançada, porém alguma será obtida, há satisfação parcial, a única possível. Esta satisfação parcial obedece à regulação do princípio de prazer e, portanto, diz respeito a uma moderação de gozo. A pulsão é imperiosa, é uma força constante (konstante Kraft), nas palavras de Lacan “tensão estacionária” (Ibid, p. 171) exigente de satisfação, porém impossibilitada de obtê-la porque não há objeto capaz de realizá-la plenamente: “no mundo humano, a estrutura como ponto de partida na organização objetal é a falta de objeto”. (LACAN, 1956, p. 53) Esta falta de objeto, este objeto indiferente da pulsão, não significa, em contrapartida, qualquer um objeto, mas aquele que se liga a ela por sua peculiar aptidão como possibilitador de satisfação, ou seja, objetos eleitos pelo sujeito os quais, supostamente, conteriam atributos da Coisa: sache com semblante de Ding. Esses atributos estão ligados à história, ao desejo e à fantasia do sujeito, sendo esta última uma espécie de filtro em relação ao gozo. É aquilo que dá acesso ao gozo pontualmente. Uma matriz simbólica que permite mediatizar o encontro com o real do gozo utilizando-se, como já dito, da multiplicidade de objetos, não sendo estes, porém, plenamente suficientes. É importante ressaltar que o neurótico aproxima o objeto da fantasia – objeto pequeno a, objeto causa de desejo – em objeto que acredita que o Outro demanda para ele, fusionando assim, fantasia e pulsão: $ ◊ D = $ ◊ a. A demanda do Outro não é suficiente para produzir o objeto causa de desejo, pois a criança pode colarse como objeto da demanda materna, nas palavras de Lacan, permanecer “presa ao serviço sexual da mãe”. Assim, para aceder ao desejo é preciso separar-se da demanda do Outro: $ ◊ D → $ ◊ a , desta forma, se o objeto da demanda do Outro tem face, contorno, o objeto pequeno a é inconsistente, um engodo, puro furo, necessitando que o sujeito o mascare na medida do seu desejo: A fantasia é a sustentação do desejo, não é o objeto que é a sustentação do desejo. O sujeito se sustenta como desejante em relação a um conjunto de significante cada vez mais complexo. Isto se vê bem na forma de enredo que esse conjunto toma, onde o sujeito mais ou menos reconhecível, está em algum lugar, esquizado, dividido, habitualmente duplo, em sua relação a esse objeto que o mais freqüentemente não mostra mais seu verdadeiro rosto. (LACAN op. cit.,p. 175) Nessa busca desenfreada pela Coisa transparece a natureza paradoxal da satisfação pulsional que, por possuir um teor mortífero, inerente a esse “encontro”, produz a inacessibilidade do sujeito à plenitude do gozo, exigindo, exatamente, uma interdição. Nas palavras de Freud: “algo na natureza mesma da própria pulsão sexual é desfavorável à realização da satisfação completa.” (FREUD, 1912, p. 171) Então, marcada pela fantasia e sob a regência do princípio de prazer que propõe gozo parcial, sustentado pelo objeto a, objeto faltoso – opera-se aí uma separação entre o gozo da Coisa e o desejo que vem do Outro. Esta separação, ou a entrada da Lei, produz uma perda de gozo com a qual o sujeito deve consentir para aceder como desejante. A busca da pulsão é de, no encontro com o objeto, fechar o circuito, no dizer do poeta “encontrar a mais justa adequação”. Neste encontro suturaria o furo. Porém por sua satisfação ser parcial “o seu alvo não é outra coisa senão o retorno ao circuito” (LACAN, op. cit., p. 170). Como não há adequação entre falta e objeto, sobra um resíduo, algo que não é consumido, o objeto a, objeto perdido, parte da substância corporal perdida pelo sujeito. Perdas narcísicas que apontam para o corpo-a-corpo com a Coisa: E é disso daí que são os representantes, os equivalentes, todas as formas que se podem enumerar, do objeto a. Os objetos a são apenas meus representante, suas figurações. O seio – como equívoco, como elemento característico da organização mamífera, a placenta, por exemplo – bem representa essa parte de si mesmo que o indivíduo perde ao nascer, e que pode servir para simbolizar o mais profundo objeto perdido. (LACAN, Ibid, p. 187) Com esses objetos perdidos, caídos, temos as mais íntimas relações narcísicas, por isso a tentativa de recuperação cujo modelo ideal de auto-erotismo “é o de uma boca que beijaria a si mesma. [...] Será que na pulsão, essa boca não é o que se poderia chamar de uma boca flechada? – boca cosida “...” a instância pura da pulsão oral, fechando-se sobre sua própria satisfação.” (Ibid, p. 170) Assim, a pulsão tenta fechar, reintroduzir o objeto perdido e satisfazer-se em si mesma com este objeto que não tem imagens, nem palavras, permanece nãorepresentado, não-identificado, é um abjeto. E em sua tentativa de fechamento, de retornar ao inanimado, Lacan resume que “toda pulsão é pulsão de morte”. Mesmo o corpo mapeado pelo significante, traz em seu bojo a morte, pois a representação mata a coisa: O sujeito falante tem o privilégio de revelar o sentido mortífero desse órgão e, através disso, sua relação com a sexualidade. Isso porque o significante como tal, barrando por intenção primeira o sujeito , nele faz penetrar o sentido da morte. (A letra mata, mas só ficamos sabendo disso pela própria letra.) Por isso é que toda pulsão é virtualmente pulsão de morte. (LACAN, 1960, p. 862-3) Essa força constante, tensão estacionária, sem dia nem noite, sem primavera nem outono, sem subida nem descida, nos faz pensar que a pulsão encontra em uma região de indiscriminação sem alternâncias, necessitando justamente dos enlaçamentos de Eros para promover alguma distinção. GarciaRoza utiliza-se de uma metáfora para designar o campo das pulsões sexual (de vida) e de morte: figura e fundo que, porém, não correspondem a duas realidades com existências independentes, mas uma realidade sob dois modos. No fundo, a pulsão de morte, indiscriminada; sendo a figura, a pulsão sexual, com suas delimitações libidinais, marcações que, devido à significação simbólica, são organizadoras deste fundo opaco. Nas palavras do autor: “O sexual é uma ordem (ou uma pluralidade de ordens) instituído sobre um fundo pulsional anárquico”. (GARCIA-ROZA, 2003, p. 70) 3.1.3. A pulsão de morte está para além do princípio de prazer Freud desenvolve seu conceito de pulsão de morte a partir de duas questões que se impõem como contraditórias ao funcionamento do aparelho psíquico e sua tendência ao princípio de prazer: à compulsão à repetição e as atividades oníricas nas neuroses traumáticas cujo conteúdo – reprodução do trauma – desviaria do propósito do sonho como guardião do sono e realização de desejo. Já em seu caso modelo de neurose obsessiva – “Homem dos Ratos” (1909) – quando seu paciente traz à análise “o suplício da penetração de um rato no ânus”, observa uma expressão em seu rosto “muito estranha e variada. Eu só podia observá-la como uma face de horror ao prazer todo seu do qual ele mesmo não estava ciente.” (FREUD, 1909, p. 171) Patrick Valas (2001) aponta que quando Freud quer sublinhar o caráter excessivo de um prazer, em vez da palavra Lust (que traduz como prazer, apetite, desejo) utiliza o termo Genuss (gozo), conotando-o, em certas situações, com o horror ou o júbilo mórbido. Apesar de não haver conceituado o gozo, Freud definiu este campo onde se manifestam o prazer na dor e as repetições indicativas de sofrimento num mais além do princípio do prazer. Em seu texto “O Problema Econômico do Masoquismo” (1924), conclui que para além de um certo limiar, desprazer transforma-se em prazer: No caso de um grande número de processos internos a excitação sexual surge como um efeito concomitante tão logo a intensidade desses processos passe para além de certos limites quantitativos [...] De acordo com isso, a excitação do sofrimento e desprazer estaria fadada a ter o mesmo resultado. (FREUD, 1924, p. 203) Seu texto inicial para a construção do conceito de pulsão de morte, “Além do Princípio de Prazer” (1920) vai gradativamente conduzindo o leitor a este campo brumoso do gozo que se encontra num mais além, ultrapassa o princípio de prazer. E o que seria isto? Como já mencionado, o funcionamento do aparelho psíquico é governado por um princípio regulador cuja função é garantir prazer e evitar desprazer. Prazer e desprazer estão relacionados com a quantidade de excitação presente na vida psíquica. Aumento de excitação é realizado como desprazer, enquanto diminuição está relacionada ao prazer. Em nota do tradutor (nota 2, p. 183), o termo alemão Lutstprinz, princípio de prazer, tem dois sentidos: um sensorial (1) e outro motivacional (2), sendo: 1. sensações prazerosas que ocorrem nos e a partir dos órgãos excitados e; 2. pique, ânimo. Tem uma conotação semelhante a “tesão” em português que, retirando o teor chulo, compreende ambas definições. Assim, por estes dois sentidos, princípio de prazer seria um “princípio de vontade de obter satisfação”. Na definição freudiana: “o princípio de prazer é uma tendência que esta a serviço de uma função, a de tornar o aparelho psíquico inteiramente livre da excitação constante, ou ainda, de mantê-la tão baixa quanto possível”. (FREUD, 1920, p. 180) Este princípio de constância é constituído pelo par princípio de prazer/princípio de realidade que diz respeito a uma renúncia, uma postergação da satisfação pulsional: “um prazer momentâneo, incerto quanto aos seus resultados, é abandonado, mas apenas a fim de ganhar mais tarde, ao longo do novo caminho, um prazer seguro.” (FREUD, 1911, p. 283 ) Ressaltamos que esta substituição pelo princípio de realidade não contradiz o princípio de prazer, mas opera a serviço dele cuja meta é obter satisfação. Trata-se também de aproximações a esta satisfação pontual regida pelo princípio de prazer/princípio de realidade cuja alternância – aumento/diminuição da excitação – permite atingi-la parcialmente. A pulsão de vida (sexual) promove o enlaçamento simbólico das pulsões. Este enlaçamento é libidinizado, são os representantes da representação do sujeito. A energia fixada pelas representações é aquela organizada pelo aparelho psíquico que mediatiza as relações do sujeito com o gozo, neste caso, fálico: “a tarefa das camadas superiores do aparelho psíquico seria justamente enlaçar e atar (binden) a excitação das pulsões.” (FREUD, op. cit., p. 158) Desta forma, o sexual se encontra sobre a regência do princípio de prazer e, assim, referido ao psíquico no espaço da representação. A pulsão de morte é energia desligada, não representada: energia livre e móvel, não atada pelo sexual. Invisível e silenciosa, em outras palavras, para além do visível e do dizível, inexistente como representação-objeto e representaçãopalavra, se encontrando, portanto, numa região fora do aparato psíquico e sua ação reguladora e, por isso, num espaço para além do princípio de prazer. Mais além do princípio de prazer encontra-se a pulsão de morte. Este é o novo dualismo pulsional: Pulsão de vida (Eros) X Pulsão de morte (Tanatos). Ao longo do texto de 1920, Freud se interroga sobre as formas de satisfação que o sujeito experimenta nas quais deveria sentir desprazer. Fenômenos recorrentes ligados à dor, lembranças penosas, pesadelos, neuroses de guerra e traumáticas. Sabemos que há uma repetição própria ao circuito pulsional. Como a satisfação é não toda por não haver objeto específico da pulsão, este se encontra perdido (esta é, por sinal, a condição para a repetição: o objeto haver sido perdido) sempre há um resto, fruto desta inadequação, que faz o aparelho funcionar, porém Freud observa, que existe no psiquismo uma tendência irresistível à compulsão situada num campo para além do princípio de prazer, cujo imperativo de gozo impõe uma satisfação mórbida desconhecida pelo sujeito. O termo Wiederholungszwang (compulsão à repetição) é utilizada por Freud e “expressa o aspecto contraditório que obriga o sujeito a repetir algo que afinal lhe traz sofrimento, [...] algo que o próprio sujeito se vê obrigado a fazer embora ele mesmo estranhe”. (Nota do tradutor, 36, Ibid, p. 188). Destaca também esta tendência nas brincadeiras repetitivas da criança, cuja observação de uma delas, em seu neto, traduzida por Freud como Fort da, representa a tentativa de simbolização do traumático, em outras palavras, do real. Neste caso, trata-se de um processo de simbolização, de um jogo metafórico que requer que a criança seja conduzida a colocar-se como sujeito: a saída da passividade – de objeto à mercê dos caprichos do Outro – a um papel ativo, torna-se “senhora da situação”. Freud já antecipava esta característica de impulso em direção ao sofrimento em seu texto “O ‘Estranho’” de 1919, onde observa esta compulsão como inerente à própria pulsão e portadora de um paradoxo: íntimo e ao mesmo tempo estranho ao sujeito. O impulso pulsional força-a-gozar e faz referência ao empuxo-ao-gozo, onde o sujeito “ausenta-se” à mercê da pulsão, daí o caráter demoníaco indicado por Freud por lembrar uma possessão: Uma compulsão poderosa o bastante para prevalecer sobre o princípio de prazer, emprestando a determinados aspectos da mente o seu caráter demoníaco. [...] Todas essas considerações preparam-nos para a descoberta de que o que quer que nos lembre esta íntima compulsão à repetição é percebido como estranho. (FREUD, 1919, p. 297-8) Com os avanços teóricos em “O Problema Econômico do Masoquismo”, de 1924, Freud discorre sobre essa “tendência masoquista na vida pulsional” e sua conseqüente contradição ao princípio de prazer e, desta forma, indicativa de um mais além relacionando-a, assim, à pulsão de morte. Conceitua três tipos de masoquismo, dentre eles o masoquismo erógeno – que “jaz ao fundo também das outras duas formas” (FREUD, op. cit., p. 201) – no cerne da própria constituição humana como uma espécie de dor erotizada que permanece no sujeito como um resíduo a-significante e, portanto, fora do simbólico, alusivo à uma exigência na repetição de algo que faz sofrer, mas do qual o sujeito não abre mão. Trata-se de uma fusão das pulsões (sexual e de morte) que, por estar vinculada à libido, promove a chamada satisfação na dor – prazer gozoso. Freud nos esclarece como ocorre esta fusão: A pulsão de morte operante no organismo é idêntico ao masoquismo. [...] Após sua parte principal ter sido transportada para fora, para os objetos, dentro resta como um resíduo seu o masoquismo erógeno, propriamente dito que, por um lado tornou-se componente da libido e, por outro, ainda tem o eu (self) como seu objeto. [...] Esse masoquismo seria assim prova remanescente da fase de desenvolvimento em que a coalescência [...] entre a pulsão de morte e Eros se efetuou. (FREUD, Ibid, p. 205) As três formas de masoquismo conceituadas por Freud dizem respeito a este fusionamento pulsional, sendo: 1. masoquismo erógeno ligado à condição exposta à excitação sexual; 2. masoquismo feminino como expressão da natureza feminina e diz respeito às fantasias infantis de espancamento, de castração, ou de ser copulado e; 3. masoquismo moral como uma norma de comportamento. Deteremo-nos na terceira forma de masoquismo – masoquismo moral – definido por Freud como “o próprio sofrimento é o que importa” não havendo necessidade de um outro para infringi-lo. Um sentimento de culpa subjacente retornando como fúria sobre si mesmo, que Freud denomina como necessidade de punição e atribui esta função a um Supereu absolutamente severo e exigente de reparação, ao qual o sujeito submete-se passivamente sem se dar conta da satisfação obtida também nessa exigência de punição. Situado entre a lei e o gozo, o supereu porta um paradoxo: Como herdeiro do Complexo de Édipo há uma identificação com a lei paterna e diz respeito à proibição do incesto, porém sob a forma de ideal do eu, para Lacan desejo da mãe, traz resquícios do gozo do Um da fusão universal e, portanto, anterior à lei. Daí seu imperativo categórico : “Goza!” e nas palavras freudianas: “seu caráter de severidade e crueldade “... seu ditatorial: farás!” (FREUD, 1923, p. 171) Como herdeiro do complexo de Édipo, traz em seu cerne proibição e os “mais poderosos impulsos e das mais importantes vicissitudes libidinais do isso”. (Ibid, p. 51). Freud exemplifica de maneira brilhante esta dupla imposição superegóica: A sua relação com o eu não se exaure com o preceito: ‘Você deveria ser assim (como seu pai)’. Ela também compreende a proibição ‘Você não pode ser assim (como seu pai)’, isto é você não pode fazer tudo o que ele faz; certas coisas são prerrogativas dele. (FREUD, Ibid, p. 49) Esta dupla face do supereu compreende a lei e sua própria transgressão, incitando o sujeito a violá-la dissolvendo-se num gozo que ultrapassa o prazer sob o domínio da pulsão de morte. Esta é sua contradição básica: se por um lado freia o gozo, por outro, incita o gozo e goza ao exercer a interdição em um domínio destrutivo. Para ilustrar utilizaremos um recorte clínico: Analisando aproximadamente 30 anos cuja queixa principal é o vício em pornografia. acessar de Relata sites pornográficos várias vezes ao dia, levando-o, assim, à masturbações recorrentes, hábitos que, segundo ele, põem em risco sua vida conjugal considerada seu maior bem pessoal – “a formação de uma família”. O uso da pornografia é pernicioso por percebê-la como uma espécie de traição onde coloca outras mulheres em sua vida. Utiliza como significantes para o ato: “É uma compulsão, não consigo parar, é mais forte do que eu. Apesar de ser eu quem assiste e se masturba, não me reconheço, é estranho, não combina comigo. Na hora em que estou fazendo sinto prazer, mas depois quando acaba é uma devastação”. Este caso nos surpreende ao ilustrar com pertinência a teoria freudiana da pulsão de morte: a compulsão à repetição como uma impulsão em direção ao gozo; a fusão das pulsões (sexual e morte) onde se coadunam prazer e dor; além da presença de um supereu que força-a-gozar e pune ferozmente. Apesar do prazer alcançado, o sujeito o recebe com estranhamento, desconhecendo-se em sua autoria. A culpa instalada após o ato compulsivo é sentida como uma força de ordem destrutiva (devastadora). Curioso o uso do significante devastação, porque o gozo da devastação - gozo Outro (J A) – encontra-se fora da representação significante, entre o imaginário e o real sem o recurso do simbólico, registro possibilitador de domesticação do gozo, ficando o sujeito portanto, submetido a um gozo acéfalo. O que se destaca neste texto de 1924 é a fusão das pulsões, dando ao sofrimento característica de satisfação e nos fazendo observar que a pulsão não pode ser reduzida a uma reciprocidade (para um masoquista, um sádico), não está relacionada ao par atividade/passividade, sua voz é reflexiva, por isso nos diz Freud: “o masoquismo cria uma tentação a efetuar situações pecaminosas que devem então ser expiadas pela consciência sádica.” (FREUD, op. cit., p. 211) E em Lacan: “o exercício de uma pulsão masoquista, por exemplo, exige que o masoquista [...] trabalhe feito burro” (LACAN, op. cit., p. 189), demonstrando com isso a implicação do sujeito no seu sofrimento, seu trabalho em direção ao sofrimento. Para exemplificar utilizaremos da genialidade de Nelson Rodrigues e sua peculiar aptidão em evidenciar este lado sombrio do humano; em “olhar pelo buraco da fechadura”, segundo ele. Em uma de suas peças teatrais cujo título sugestivo é “Perdoa-me por me traíres” (1957), coloca em cena as artimanhas do sujeito para receber do Outro a traição, para “fazer-se trair”. Esta peça, cinegrafada anos mais tarde, cuja música tema foi composta pelo não menos genial Chico Buarque e intitulada “Mil Perdões”, retrata a versão da traidora e observamos na letra o mesmo conteúdo da peça de Nelson: o trabalho do traído, seu gozo no “empuxo-à-traição” da esposa. Te perdôo Por fazeres mil perguntas Que em vida que andam juntas Ninguém faz Te perdôo Por pedires perdão Por me amares demais Te perdôo Te perdôo por ligares Pra todos os lugares De onde eu vim Te perdôo Por ergueres a mão Por bateres em mim Te perdôo Quando anseio pelo instante de sair E rodar exuberante E me perder de ti Te perdôo Por quereres me ver Aprendendo a mentir (te mentir) Te perdôo Por contares minhas horas Nas minhas demoras pó aí Te perdôo porque choras Quando eu choro de rir Te perdôo Por te trair Mil perdões, Chico Buarque Ainda em referência à compulsão à repetição, em seu texto “Inibição Sintoma e Angústia” (1926[1925]), Freud observa a presença de angústia como “reação original ao desamparo” e que surge como antecipação ao traumático, reafirmando assim a repetição como tentativa de tratamento do trauma: A angústia é a reação original ao desamparo no trauma, sendo reproduzida depois da situação de perigo como um sinal em busca de ajuda. O eu que experimentou o trauma passivamente, agora o repete ativamente em versão enfraquecida, na esperança de ser ele próprio capaz de dirigir seu curso. [...] Ao passarem assim da passividade para a atividade tentam dominar suas experiências psiquicamente. (FREUD, 1925, p. 192) Neste caso, ao contrário da brincadeira do neto de Freud, não permite a saída necessária para a subjetivação, repete em angústia, cuja interseção se dá entre o real e o imaginário, sem o recurso do simbólico. O sujeito não se utiliza dos meios simbólicos de enlaçamento do real, ao contrário, a passagem da passividade para atividade se dá imaginariamente como reprodução, repetição em ato por identificação e não como mudança subjetiva. Talvez por isso e a partir exclusivamente da “compreensão do comportamento”, seja amplamente veiculado que o “abusado torna-se abusador” sem que o “abusado” se dê conta de sua implicação ao submeter-se a objeto de gozo do Outro o que, por sinal, é sua única saída para tratar o trauma: a retificação subjetiva (o recurso ao simbólico) apontada por Freud, pois no lugar de vítima – que compreende o par de opostos: para uma vítima, um algoz - só resta a saída de passivo para ativo, de abusado para abusador. Então, para além da busca por satisfação, há uma insistência de material traumático, trazendo como conseqüência sofrimento e exercendo uma sobredeterminação no sujeito. Fica evidente no texto freudiano o caráter de uma força, de um empuxo ao sofrimento, onde o sujeito torna-se escravo do circuito, para além de sua vontade, fazendo-o repetir o mesmo. É para além do princípio de prazer o excesso, o gozo em suas relações ambíguas entre prazer e dor, ou seja, impressões dolorosas como fonte de um gozo intenso. Coutinho Jorge (2003) ilustra a pulsão de morte por um vetor que indica a impulsão rumo ao encontro com o objeto perdido (a Coisa), o empuxo-ao-gozo característico da pulsão de morte: Somos movidos por este vetor e ele é mortífero. Podemos considerar que a denominação de empuxo-ao-gozo de Lacan é precisamente o sentido desse vetor na direção da morte concebida com Freud enquanto anulação radical das tensões internas vividas pelo organismo vivo e pelo psiquismo. (COUTINHO JORGE, 2003, p. 33) Morte (Freud) -------------------------------------------------> Ding Gozo (Lacan) 3.2 Cultura e gozo Como vimos não há como permanecer dissolvido num gozo absoluto, há que se ter pelo menos uma parte envolvida pela linguagem em sua promoção de barreiras de contenção ao gozo. Nas relações do sujeito com o gozo estão polarizados o gozo do lado da Coisa (o empuxo-à-Coisa, ao retorno à fusão narcísica com a mãe) e o desejo, que para o sujeito é o desejo do Outro. O Outro, o tesouro dos significantes, lugar da linguagem, e também da falta, já que o significante é um representante e não a coisa em si. Desta forma, o sujeito é essencialmente dividido (entre gozo e desejo) fruto das suas representações que, como representações, são sempre parciais. Podemos aferir então, que a entrada da linguagem (ou da cultura) promove a separação do sujeito do corpo-a-corpo com a mãe, “retira-o” da natureza, sendo, portanto, sua causa (a causação do sujeito). A condição do falante é ter acesso a um gozo interditado (inter- dito) pela palavra: “Aquilo a que é preciso nos atermos é que o gozo está vetado a quem fala como tal, ou ainda, que ele só pode ser dito nas entrelinhas por quem quer que seja o sujeito da Lei, já que a lei se funda justamente nessa proibição.” (LACAN, 1960, p. 836) 3.2.1 A Lei paterna: Possibilidade de sujeito Totem e Tabu: Possibilidade da civilização “ Evidencia-se na formulação freudiana o rompimento com o dualismo entre psicologia individual e social por constatar que a dimensão psíquica encontra-se presente em todas as organizações e fenômenos sociais: “A psicologia individual [...] é ao mesmo tempo, também psicologia social.” (FREUD, 1921, p. 91) Assim entendemos porque para elaborar conceitos elementares da psicanálise, Freud ousou utilizar-se dos mitos, da magia, da arte, da ciência que também são moduladores das relações do sujeito com a natureza e o seu semelhante. Não se trata, com isso, da simples transposição de um conceito a outro (do individual para o social e vice-versa), mas da confirmação de uma realidade psíquica que se faz presente em ambos os lugares. Para Fuks, Freud demonstrava que a cultura humana surge da intersecção entre a interioridade de uma situação individual – manifesta nos impulsos que vêm de dentro do sujeito – e a exterioridade de um código universal, subjascente aos processos de subjetivação e aos regulamentos das ações do sujeito com o outro. (FUKS, 2003, p. 10) Como se dá esta relação entre constituição subjetiva e momento inaugural da civilização? Para o infans – in-fans, etimologicamente, aquele que não é falante – não há como estar só, sua autonomia é mortal necessitando do investimento de um Outro, nas palavras freudianas de uma ajuda “estrangeira”, para circunscrever no corpo alguma organização. Lacan nos ensina que isto acontece por uma discórdia primordial que é traída pelos sinais de mal-estar e falta de coordenação motora dos meses neonatais. A noção de inacabamento anatômico do sistema piramidal “...” confirma a visão que formulamos como dado de uma verdadeira prematuração específica do nascimento do homem. (LACAN, 1949, p. 100) Esta condição de prematuração do filhote de homem em sua insuficiência adaptativa, constitui o seu drama. É a carne pulsante do corpo não demarcado, puro gozo, que só através da circunscrição simbólica organiza o caos inicial. Este é um estado de desamparo primordial diante do excesso de estímulos sem que se tenham meios eficazes para fazê-los calar, cuja descarga não chega a aliviar, pois o imperativo pulsional exerce força constante que, nas palavras de Freud Terá como resultado uma propensão à descarga, uma urgência que é liberada pela via motora. [...] Mas, [...] nenhuma descarga pode produzir resultado aliviante, visto que o estímulo endógeno continua a ser recebido e se restabelece a tensão em . (FREUD, 1895, p. 336) O grito do bebê ultrapassa a expressão de uma necessidade corporal, representa um apelo que dê sentido, que organize o desamparo original no qual se encontra. Assim, é introduzido no reino da linguagem – a partir de um Outro como uma primeira mediação entre os estímulos internos que o assolam e a possibilidade de organização do caos pulsional. Outro da linguagem, que ao interpretar seus gritos e esperneios, o introduz no universo dos sentidos. A entrada do agente materno é a responsável pela emergência da condição humana, que se instala neste primeiro vínculo social com um Outro que não só acolhe seu grito, satisfazendo-lhe a necessidade, mas também possibilita sua inserção no mundo simbólico da linguagem. É necessário ressaltar a existência de um paradoxo na entrada da linguagem sobre o sujeito: O Outro, ao mapear o corpo do bebê com significantes retira-o das experiências precoces – míticas - de satisfação de um gozo ilimitado e erotiza seu corpo criando bordas de excitação. Assim, possibilita e limita a um só tempo o acesso ao gozo. O termo “ajuda estrangeira” utilizado por Freud é elucidativo ao indicar a existência de um conflito estrutural entre o sujeito e a cultura (próximo e estrangeiro; íntimo e estranho), pois acolhe o desejo, mas também o limita ao impor-lhe o acesso a um gozo pontual de uma satisfação parcial. Com seu mito de “Totem e Tabu”, sobre a primeira forma de organização grupal que marca o homem indelevelmente na cultura, Freud pôde evidenciar, no social, as mesmas características encontradas no sujeito quando na entrada da linguagem no pequeno humano: A limitação do gozo irrestrito com a entrada de um terceiro separando-o do fusionamento com a mãe e o erguimento do Totem como figura representativa do pai morto e símbolo da Lei máxima da civilização: a proibição do parricídio e do incesto. O assassinato do pai e a culpa subjacente ao ato, levam à identificação com o pai morto e a internalização da Lei que impede que um outro venha ocupar o seu lugar. É preciso ultrapassar esse imperativo de gozo localizado no pai da horda, cujo capricho é lei para o grupo que, fazendo-se exceção, tem acesso ao absoluto do gozo. Há que se ter uma lei na qual todos aqueles que habitam a linguagem se submetem: Lei do desejo, lei simbólica onde todos, sem exceção, pagam a dívida com sua libra de carne: a castração. Desta forma, a legitimação do desejo do sujeito se inscreve como uma dívida simbólica, um pacto com o pai. Dívida que, apesar de honrada quando no assentimento do limite ao gozo absoluto, nunca é quitada permanecendo, ao contrário, registrada como uma espécie de nostalgia dolorosa quando na renúncia da satisfação pulsional. O pacto com o pai permite o ingresso na cadeia do desejo, estabelecendo uma espécie de “contrato com o falo”, onde ser fiel a este gozo (fálico) seria justamente consentir com uma satisfação parcial que satisfaz (pontualmente) um sujeito e não um organismo. Assim, podemos articular o Outro do desejo – há uma falta de significante no Outro, este também é barrado - e o Outro da lei que, pela operação da separação, convergem na medida em que simbolizam um limite. Esta lei é encarnada no drama edípico com a entrada de um terceiro – o Nome do Pai - cuja função é romper esta harmonia de “paraíso perfeito”, de gozo irrestrito, representada pela dupla mãe/bebê. 3.2.2. Civilização → sujeito → mal-estar A civilização não é causa do adoecimento psíquico como acreditava Freud em “Moral sexual Civilizada“ em outras palavras, não é a causadora da doença entendida como patologia - mas, como apresenta em “Mal-estar na civilização”, a cultura é a condição do sujeito , da doença e da loucura, ocorrendo aí, uma dialetização entre o advento do sujeito a partir do processo de aculturamento e sua conseqüente sintomatologia – o mal-estar, sua fatídica divisão - vicissitude do humano. O mal-estar próprio do falante advém da impossibilidade do retorno ao idílico paraíso para sempre perdido demonstrando com isso, o impossível do todo indiferenciado, do “sentimento oceânico” apontado por Freud, onde, como nas vivências nostálgicas, um dia fomos felizes. Ao contrário, o texto freudiano nos remete à uma experiência de prazer evanescente, diante de um ideal de felicidade inatingível. Desta forma, a busca pelo retorno ao inanimado, a completude do gozo próprio à pulsão de morte, encontra-se num para além do princípio de prazer e, portanto, fora do aparato psíquico e suas determinações, como um resíduo inassimilável indicando um impossível no enlaçamento libidinal, em outras palavras, da relação sexual. Em seu texto “Mal-estar na Civilização” (1930), Freud descreve as relações com o semelhante como uma das maiores causas do sofrimento experimentado pelo homem. Reproduzimo-lo: O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, “...” do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens. O sofrimento que provém desta última fonte talvez nos seja mais penosos do que qualquer outro. (FREUD, 1930, p. 95) Ao longo do texto Freud evidencia que a civilização, em sua produção de enlaçamentos sociais, impõe renúncia à satisfação pulsional. É necessário que renunciemos à inclinação de tratar o outro como objeto a ser devorado; à superar a sede de gozo irrestrito localizado no pai da horda. O processo civilizatório promove assim, A substituição do poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade. [...] O resultado final seria um estatuto legal para o qual todos [...] contribuiriam com um sacrifício de suas pulsões, e que não deixa ninguém [...] à mercê da força bruta. (FREUD, Ibid, p. 115-6) O objetivo da civilização é domar o gozo mortífero que nos aproxima de nossos ancestrais primitivos em seu impulso à destruição e à morte. Nas palavras de Freud, é a forma de regular os homens em seus relacionamentos mútuos, pois como verificou, a inclinação do homem é de sobrepujar, aniquilar: “O homem é o lobo do homem”. Textualmente: O seu próximo é para eles, não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade, [...] a utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, a apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo. Homo hominis lupus. (Ibid, p. 113) Como já mencionado, em seu texto de 1920 – “Além do Princípio de Prazer”, Freud nos ensina que a tarefa do aparelho psíquico é enlaçar e atar a excitação pulsional. Neste mesmo texto, Freud nos alerta que “o objetivo de toda vida é a morte”, o que em termo lacanianos significa dizer que “ a pulsão é [...] fundamentalmente pulsão de morte (LACAN, 1964, p 195). Então podemos aferir que a pulsão sexual promove o enlaçamento simbólico da pulsão (de morte) dando um sentido, uma organização a esta energia desligada, não representada: energia livre e móvel, “invisível e silenciosa”, fora da rede significante. A energia fixada pelas representações é aquela organizada pelo aparelho psíquico que regula, mediatiza as relações do sujeito com o gozo. Ainda em “Mal-estar na Civilização”, Freud nos conduz a relacionar a regulação da pulsão no psiquismo com a restrição de satisfação pulsional na relação com o semelhante: “O desenvolvimento cultural do grupo e o desenvolvimento cultural do indivíduo se acham, por assim dizer, interligados.” (FREUD, op. cit., p. 167) Tentaremos esclarecer: assim como os enlaçamentos libidinais promovidos pelo aparelho psíquico em sua ação reguladora produzem uma satisfação não-toda conduzindo, necessariamente a uma perda; do mesmo modo a civilização modera o gozo já que não podemos “comer” literalmente o outro, havendo novamente um enquadre da pulsão, o que resulta mais uma vez em perda de gozo. Para Freud “a civilização constitui um processo a serviço de Eros” (Ibid, p. 145) em seu persistente trabalho de ligação, regulação e manutenção da vida. A civilização impõe renúncia à satisfação pulsional pois há um antagonismo irremediável entre as exigências pulsionais e as restrições impostas pela cultura: ”Uma satisfação irrestrita de todas as necessidades apresenta-nos como o método mais tentador de conduzir nossas vidas; isso porém, significa colocar o gozo antes da cautela, acarretando logo o seu próprio castigo.” (FREUD, Ibid, p. 95) Então, há um sofrimento inerente ao processo civilizatório acarretando uma limitação à vida cujo propósito “é simplesmente o programa do princípio de prazer” (Idem), é atingir a felicidade – lembrando que trata-se do retorno ao paraíso perdido – que encontra-se em desacordo com o objetivo da civilização. Com o mito de Totem e Tabu concluímos que a civilização nasceu de um crime, tem como pilares o interdito de três poderosas exigências pulsionais parricídio, canibalismo e incesto - não se tratando de um tempo ultrapassado e esquecido, mas de um ato estruturante, comum a todos os falantes, fundador, apontando para uma violência no cerne do sujeito. Descendemos destes antepassados sanguinários e se renunciamos a esta nossa propensão, foi porque fomos forçados pela civilização. Assim, os valores morais não apagam a nossa verdadeira natureza, nem nos coloca como exclusivamente bons ou maus, mas divididos, portadores de uma ambigüidade onde coadunam amor e ódio. Devemos lembrar que o pai morto é o pai temido e odiado, mas também amado. O mal-estar é proveniente do resultado da ambivalência do falante em relação àquilo que o humaniza, havendo agressividade no cerne de sua constituição como instrumento e causa de seu gozo: A existência da inclinação para a agressão, que podemos detectar em nós mesmos e supor com justiça que ela está presente nos outros, constitui o fator que perturba nossos relacionamentos com o nosso próximo e força a civilização a um tão elevado dispêndio [de energia]. (FREUD, op. cit. p. 134) 3.2.3. O dualismo pulsional = Bom X Mau? É importante considerar que Freud não era adepto de posturas maniqueístas, ao contrário, suas formulações permitem a coexistência entre os opostos onde os conceitos não se excluem mutuamente, mas se ligam de uma forma peculiar. O pensamento freudiano é construído de tal forma que possibilita abrigar formulações que seriam, numa visada ingênua, incompatíveis, mas em sua perspectiva própria promove uma articulação em contigüidade, tal como a banda de Moebius. Desta forma o dualismo pulsional não nos remete a opostos como manifestações essencialmente boas ou ruins (pulsão sexual= bom X pulsão de morte= mau) e, partindo deste pressuposto, as ligações libidinais nos contextos sociais, não podem ser reduzidas a uma positividade natural. Neste mesmo texto de 1930, explicita que o que une os indivíduos nos movimentos de massa é justamente, a pulsão sexual, pulsão que liga e forma os pares amorosos nomeados por Freud de “indivíduos duplos”. Porém, o enlaçamento do casal não permite a entrada de um terceiro o que desfavorece o processo civilizatório, já que se bastam, fechando-se em si. O uso do termo “indíviduo duplo”, já fomenta o conceito de unificação, indiferenciação especular. Este mesmo tipo de ligação é promovido pela civilização que visa a vinculação dos membros da comunidade também de maneira libidinal. Observamos mais uma vez a interligação de opostos: A vinculação em pares é contrária à civilização porque impossibilita a entrada de outros membros, porém este mesmo tipo de vínculo é usado pela própria civilização para promover os grupos, cuja característica principal é a formação de uma ideologia de massa tendo como conseqüências a produção de uma indiscriminação entre seus membros e o rechaço ao diferente como paradigmas do “narcisismo das pequenas diferenças”. Em resumo, a formação de um grupo é pautado na homogeneização e, portanto, só temos a vivência de um grupo quando promovemos a exclusão do outro. Portadores de uma ambivalência estruturante, como é possível a união dos homens pelo amor , como determina o mandamento cristão: “Ama a teu próximo como a ti mesmo”? Freud responde que a obediência ao mandamento só é possível sob a condição de que outros fiquem de fora para receber as manifestações de ódio. Assim, o conceito de amor fraterno, está pautado na segregação, onde o amor ao semelhante corresponde ao ódio ao diferente, confirmando assim que não há harmonia na relação do sujeito com o outro, entre o desejo e o gozo. A identificação entre os iguais sob o domínio das ligações de Eros promovem a unidade do grupo, porém indicam, parodoxalmente, o caminho para a destruição, pois como vimos o amor narcísico (especular) das identificações, é mortífero na medida em que promove a formação e divisão de grupos que não suportam a diferença. Ao idêntico (sua própria imagem no espelho) o amor, para o estranho (o outro) o ódio, o isolamento. Os idênticos se amam, porém sobra um resto – o ódio – e o que faremos com isso? Jogamos no outro, no diferente. Estes movimentos de iguais são abastecidos por um líder que, como figura de identificação maciça, tenta elidir a falta fundante do pacto civilizatório. Ao encarnar o objeto imaculado no comando do grupo de iguais, condena à segregação os “outros” - a alteridade - que não fazem parte do grupo do “nós”, demonstrando mais uma vez o paradoxo da pulsão: Aquilo que une, a pulsão sexual, aquela que encontra-se no bojo da civilização, pode destruir, pode levar ao sentimento oceânico do todo indiscriminado quando numa relação essencialmente mimética impossibilitando assim, a subjetivação e fazendo necessária a entrada de Tanatos para “desligar”. Sabendo que a pulsão de morte é energia livre e móvel, não atada, desligada; sob este viés propicia o corte marcando, portanto, a diferença e a possibilidade do novo. Devemos relembrar com Freud que as outras duas fontes de sofrimento encontram-se no real do corpo pulsional e nas forças da natureza que, mesmo com toda tecnologia humana para controlá-las, teimam em escapar ao controle e ao saber. Se para o humano submetido à linguagem não há meios de satisfação completa, de encaixe perfeito; é justamente neste lugar de falta, indicativo do desejo, que se promovem os laços sociais atravessados por uma impossibilidade estrutural. Desta forma, nossa relação com o mundo é sempre de borda, mediada pela linguagem que, a partir da ação dos significantes, contornam o “i-mundo” do real acedendo assim, ao “mundo humano simbólico”. No desenvolvimento deste capítulo observamos que o conceito de gozo formulado por Lacan corresponde ao que Freud descreveu na segunda tópica como o mais além do princípio de prazer. O campo do gozo é, essencialmente, um campo operatório “aparelhado” pela linguagem, no sentido de reguladora das relações humanas. Os aparelhos para mediar o gozo são os laços sociais – em termos freudianos laços libidinais – nomeados por Lacan de discursos. Sem nos atermos a estes conceitos, que serão desenvolvidos no próximo capítulo, as relações entre os falantes se estabelecem nos discursos cujas modalidades de gozo e regulações se manifestam distintamente. Lacan conceitua o campo do gozo e seus discursos como respostas ao mal-estar. A teoria dos discursos nos mostra que o sujeito ocupa um lugar determinado pelo discurso, exercendo funções específicas e obedece às regras características do laço. Assim, o sujeito é uma função variável, em conseqüência de cada discurso, inserido em uma cultura na qual estes discursos circulam. O sujeito é antecedido pela linguagem, previsto em sua pré-história individual ocorrendo assim, simultaneidade e continuidade do humano e a cultura. Se a psicanálise não exclui o sujeito e, portanto, não exclui o gozo, o sujeito do inconsciente - e sobre o qual a psicanálise opera - é o sujeito do gozo em sua mediação com a linguagem, pois não há um sujeito do puro gozo pois, como vimos, no gozo absoluto o sujeito também se ausenta. Assim, a civilização é um processo ininterrupto que atravessa e é atravessada por cada sujeito na perpetuação da lei. Então, a psicanálise tem como princípio ético, parafraseando Lacan, de não recuar frente à cultura e seu conseqüente mal-estar – ou formas de gozo – que se apresentam perpassados pelo social em determinado tempo na história. CAPÍTULO III OS DISCURSOS E A INSTITUIÇÃO “Chegamos ao ponto em que o especialista se reduz àquele que, à custa de saber cada vez mais sobre cada vez menos, termina por saber tudo sobre nada. Torna-se uma ilha de saber cercada por um oceano de ignorâncias”. Hilton Japiassu 4. CAPÍTULO III OS DISCURSOS E A INSTITUIÇÃO Como já exposto no capítulo anterior, o mal-estar na civilização é o malestar tecido nos laços sociais denominados por Lacan de discursos, entendidos como aparelhos de gozo por estarem, assim como o sujeito, estruturados pela linguagem. Os discursos como laços sociais faz referência a uma moderação de gozo na medida em que, para o estabelecimento de relações civilizadas, torna-se necessário certo enquadramento da pulsão, o que resulta em uma perda real de gozo. Coutinho Jorge esclarece: Os discursos introduzidos por Lacan correspondem às estruturas mínimas de todo e qualquer liame social, sempre concebido como fundado exclusivamente na linguagem,. Mais essencialmente ainda, os discursos levam às últimas conseqüências a tese lacaniana de que o inconsciente é um saber. (COUTINHO JORGE, 2002, p. 19) Em um momento histórico singular no qual se acoplaram situações diversas como a ida do homem a lua e o agravamento dos conflitos sociais em governos ditadores culminando com movimentos estudantis – em especial a manifestação do universitários ocorrido na França em 1968 - Lacan formula a teorização dos discursos retomando a máxima freudiana de que a maior fonte de sofrimento para o homem encontra-se na relação com o semelhante. O mal-estar apresenta-se no discurso na forma de seu elemento excluído – o objeto a – como representante da exigência da civilização à renúncia pulsional. Doris Rinaldi acrescenta que a partir de sua teorização dos discursos como laços sociais, Lacan inclui o objeto a na relação entre o sujeito e o campo do Outro inferindo uma dupla vertente: “Se é na ordem da linguagem que esta relação se estabelece, o objeto a é ao mesmo tempo o que causa e o que revela a impossibilidade radical dessa relação. [...] a impossibilidade radical de dizer o real.” (RINALDI, 2002, p. 100) A teoria dos discursos retira das designadas por Freud, profissões impossíveis – governar (Discurso do Mestre), educar (Discurso do Universitário) e analisar (Discurso do Analista) – sua origem acrescentando a elas outro liame da ordem da impossibilidade – fazer desejar – nomeado por Lacan como “Discurso da Histérica”. Utiliza-se para isso de letras: S1, S2, $ e a , denominadas de álgebra lacaniana, na tentativa de transmissibilidade da psicanálise, indicando ainda, a possibilidade de inúmeras leituras – “desde que o falado continue preso à sua álgebra” (LACAN, 1960, p. 830) – na circunscrição desse núcleo real inapreensível pelo simbólico. Em resumo, a álgebra propõe um ponto de convergência na pluralidade de situações da experiência analítica. Talvez possamos dizer que dentro do particular de cada caso, o universal da teoria possa enfim ser transmitido. 4.1. Os matemas: letras e lugares Os matemas dos discursos consistem na disposição ordenada das letras S1, S2, $ e a, em quatro lugares fixos, chamados por Lacan de quadrípodes, que são: verdade, agente, outro e produção. É a disposição das letras nestes lugares fixos que ordenam e dominam o discurso. LUGARES SUJEITO OUTRO Resumidamente, pela indicação das setas, podemos concluir a existência no campo do sujeito de um agente que, impulsionado pela verdade, ordena o discurso, dirigindo-se a um outro que, a partir da enunciação do primeiro, produz algo como resultado entre o dito do agente e o trabalho do segundo. O termo agente tem o sentido de agenciador que, tal como um agente de viagens, agencia o discurso: Um agente, movido por uma verdade, agencia um outro, deixando um resto, aquilo que cai do discurso: sua produção. O agente é o lugar ativo, nomeado por Lacan de dominante, pois é de onde se ordena o discurso que, a depender de qual letra ocupa este lugar, teremos agentes e, conseqüentemente, discursos diferentes. O lugar do Outro é a quem o agente se dirige, pois se o discurso estabelece um laço social, logo, de cultura, há que se ter um Outro. A verdade diz respeito à verdade sobre o agente dada pelo discurso. Lacan explicita que a verdade sobre o sujeito é velada, não toda, porque não se pode dizer tudo sobre o sujeito. Trata-se sempre de um semi-dizer - entre os ditos - que faz referência a algo de não simbolizável em todo discurso e, portanto, de real: “Sempre digo a verdade: não toda, porque ao dizê-la toda não se consegue. Dizê-la toda é impossível, materialmente faltam palavras. É por esse impossível, inclusive, que a verdade tem a ver com o real.” (LACAN, 1973, p. 508) E quanto às “letrinhas”? Lembramos que o matema consiste na possibilidade de transmissão da psicanálise em sua possível relação com o real, relação que é sempre de borda. Lacan explicita o real como o sem sentido e a utilização das letras se dá, justamente, por representar esta insubstância, uma ausência de significação, demonstrando com isso a impossibilidade de apreensão do real. Na tentativa de enlaçamento do real pelo simbólico, algo resta – a letra: Nós pensamos que apenas a ciência tem a ver com o real. Mas o real, tal como falamos dele, é completamente desprovido de sentido. Podemos ficar satisfeitos, estar seguros de que tratamos de algo real somente quando ele não tem mais qualquer sentido que seja. Ele não tem sentido porque não é com palavras que escrevemos o real. É com letrinhas. (LACAN, 1975, p. 26 apud, COUTINHO JORGE, 2002, p. 22) Então vamos às letrinhas: 1. S1: Não se trata de um significante, mas de um enxame de significantes – essaim (palavra francesa homófona de S1) – já que nenhum significante é capaz de representar o todo do sujeito. Apesar de qualquer significante poder ocupar o lugar de S1, este é um significante de valor privilegiado pelo sujeito, por ter a função de marca fundadora, ponto de origem – mítica – do inconsciente: “Aí tomo o texto de Freud, para dar-lhe um sentido que lá não está apontado, a função do traço unário – quer dizer, a forma mais simples de marca, que é, falando propriamente, a origem do significante.” (LACAN, 1970, p. 44) 2. S2: Representa o conjunto dos significantes do campo do Outro. Conjunto faltoso por designar os demais significantes à exceção dos S1s do sujeito. Esta falta representa a falta de pelo menos um significante do campo do Outro – S(A) que possa compreender o sujeito, uma falta de significante que possa representar a totalidade do sujeito, em outras palavras, a inexistência da relação sexual. S2 é o significante que dialetiza com S1 (par S1─ S2). É usado na álgebra lacaniana para designar o saber de um modo geral e quando se escreve S1 ─ S2, trata-se de toda cadeia significante. 3. $: Sujeito dividido - do inconsciente - que de acordo com o discurso é dividido por razões variadas. 4. a: Neste seminário de Lacan (seminário 17) o objeto a ganha a função de maisde-gozar em referência ao conceito de mais-valia proposto por Karl Marx. Este conceito implica em algo que não pode ser contabilizado na relação de trabalho porque é subjetivo. Como valorar o cansaço, a saudade do trabalhador? A maisvalia é aquilo que não pode ser medido no cômputo geral. Entendemos o mais-degozar como um plus, um resto de gozo que se produz como perda e que movimenta o circuito que comanda o desejo. Assim, articula-se desejo e gozo a partir da perda do gozo mítico – absoluto- com a entrada do significante, deixando um resto que instaura a função do desejo: “E é no lugar dessa perda, introduzida pela repetição, que vemos aparecer a função do objeto perdido, disso que eu chamo a.” (LACAN, Ibid, p. 46). Como vimos, o sujeito é “pontual e evanescente surgindo no intervalo entre os significantes, cuja operação simbólica tem como resultado uma perda, um resto de real inassimilável pela rede simbólica. Lacan situa o objeto a na região central do nó borromeano, na intersecção dos três registros, sendo sua vertente real predominante sobre as demais. Então, este objeto real como falta, como furo, esburaca as vertentes simbólica e imaginária e encontra-se identificado ao objeto para sempre perdido - das Ding. Esse objeto (a) em diferentes lugares dos “quadrípodes” indica as variações na distribuição e manejo do gozo em cada discurso. A teoria dos quatro discursos se instaura a partir da tese lacaniana de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem em sua articulação com o gozo. Como já vimos o significante domestica o gozo na medida em que une libido e pulsão de morte – fusão das pulsões. Porém, por se tratar de uma representação, essa operação significante não é radicalmente totalitária, deixando um resto que é o gozo. Nas palavras de Lacan: O significante diversamente do signo, é aquilo que representa um sujeito para outro significante. Como nada diz que o outro significante saiba alguma coisa sobre o assunto, fica claro que não se trata de representação, mas de representante. (LACAN, Ibid, p. 27) Então, os discursos se apresentam como estrutura necessária nas relações fundamentais estabelecidas entre os falantes uma vez que estes se encontram imersos na linguagem. Assim, à formula fundamental da linguagem de que o sujeito é efeito do significante, ou seja, a emergência de um sujeito ($) se dá entre os significantes na medida em que um significante (S1) o representa para outro significante (S2), disto restando um resto (a), Lacan apresenta quatro modos de ordenação desse elementos pelos quatro lugares fixos e que obedecem às questões, já melhor explicitadas acima, e que resumidamente são as seguintes: a) Quem ocupa o lugar de agente no discurso? b) A que outro ele se dirige? c) Qual verdade o impulsiona? d) O que esse laço produz? Estes lugares em relação às possibilidades de ocupação dos quatro elementos (S1, S2 $ e a) institui os quatro discursos concebidos por Lacan como os liames basais entre os falantes. São eles: do mestre, da histérica, do analista e da universidade. Cada um dos discursos tem relação com os demais e a passagem de um discurso ao outro se dá a partir do movimento de um quarto de volta de seus elementos entre os lugares, salientando assim, o aspecto dinâmico do inconsciente cuja movimentação é efeito significante. Desta forma, com uma estrutura caracteristicamente circular ocorre o predomínio de um ou de outro discurso, mas não a cristalização, a fixidez permanente em um único, havendo deslizamento tal como a linguagem e suas estruturas mínimas. 4.2 Os discursos Lacan parte da dialética do Amo e do Servo de Hegel para estruturar o primeiro discurso – Discurso do Mestre – como primeira inscrição possível da subjetividade. Marx também se utiliza da “Fenomenologia do espírito” de Hegel e seu mito das origens das relações de servidão (mito do senhor e do escravo) para explicitar a necessidade do reconhecimento de um outro para atestar-se como sujeito e posicionar-se frente a este reconhecimento e ao outro. Nas palavras de Marx: Tais expressões das relações em geral, chamadas por Hegel de categorias reflexas, compõem uma classe muito curiosa. Por exemplo, um homem só é rei porque outros homens colocam-se numa relação de súditos com ele. E eles, ao contrário, imaginam ser súditos, por ele ser rei. (MARX, 1974, p. 63 apud ŽIŽEK, 1996, p. 309) Aquilo que deveria ser um efeito das relações sociais – um rei e seus súditos – para os membros deste vínculo é representado de forma inversa como se o significante – rei – fosse natural e não inerente ao vínculo. O que nos remete à identificação e ,assim, o surgimento do eu e seus atributos - servo, rei, operário... - a partir do Outro. Para Hegel o sujeito só tem consciência de si a partir do outro, produzindo uma alienação ao outro como possibilidade de vir-a-ser. Lacan utilizase desta mesma dialética para teorizar o Estádio do Espelho, no qual o sujeito se constitui a partir do Outro, numa especularidade alienante que promove uma identificação à completude narcísica da imagem. Vamos ao mito: No princípio dos tempos existiram dois homens que se confrontaram. Cada um desejava que o outro o reconhecesse como uma consciência-de-si, como consciência autônoma. Eles se enfrentaram em uma luta mortal. Um deles, com medo de ser morto, cede e perde a liberdade tornando-se escravo. O outro que não tem medo de morrer perde o gosto pela vida e se torna um senhor, tem poder e mando, mas não sabe gozar precisando do escravo para isso. O escravo, embora tenha perdido a liberdade, sabe gozar e fazer o senhor gozar. Interessante perceber que no mito de Hegel o senhor – assim como o rei – é produto do escravo, como uma necessidade lógica. Lacan argumenta que o saber do escravo é saber sobre a morte, de como manter a vida. O senhor vence a morte – o gozo - porque o escravo produziu um saber capaz de vencê-la, mas do qual não faz uso já que escolheu ser escravo a morrer, portanto ele mantém a vida fazendo o amo gozar com sua aparência de completude ao crer-se senhor e, portanto, acreditando vencer a morte – a castração. Assim, no Discurso do Mestre, temos: No lugar do agente, temos o S1 encarnado em um mestre que se apresenta como todo já que sua divisão ($) está sob a barra (recalcada) e é esta verdade (da castração) que o impulsiona a dirigir-se ao escravo, aquele que detém o saber (S2), a fim de obter como produção o mais-de-gozar (a) e, assim, completar-se, pois o saber que o escravo possui faz o mestre gozar. O discurso do mestre representa a entrada do sujeito da linguagem como um primeiro significante que ordena e sob o qual o sujeito vai alienar-se, demonstrando assim que é por meio do poder imperativo do significante que o sujeito ingressa na ordem simbólica: “O discurso do inconsciente é o discurso do mestre como um primeiro imperativo do significante.” (LACAN, 1973, p. 522) Mais explicitamente nos diz Lacan: Tomem apenas um significante como insígnia dessa onipotência, ou seja, desse poder todo em potência, desse nascimento da possibilidade, e vocês verão o traço unário, que, por preencher a marca invisível que o sujeito recebe do significante, aliena esse sujeito na identificação primeira. (LACAN, 1960, p. 822) O discurso do mestre é o discurso fundamental, na medida em que se há linguagem, há mestre, sendo, portanto, o discurso do inconsciente pois, como vimos, o significante (S1) funda o inconsciente. Se os discursos representam uma impossibilidade, no discurso do mestre onde estão implicadas as relações de poder, o S1 faz semblante de poder e o outro é escravizado e reduzido a um gerador de objeto de gozo. Ressalta-se também neste discurso a elisão da realidade psíquica que se encontra recalcada estando o sujeito em disjunção com o objeto ($ // a) o que nos remete a um discurso alicerçado numa suposição de completude e racionalidade do eu. Um quarto de giro no discurso do mestre e obtemos o discurso da histérica, que traz à cena o sujeito ($) no lugar do agente e o objeto (a) no lugar da verdade. No campo do Outro da histérica encontramos o S1, que surge como mestre e é a ele que a histérica dirige o enigma do seu sintoma: “é claro que essa dominante, nós a vemos aparecer sob a forma de sintoma. É em torno do sintoma que se situa e se ordena tudo que é do discurso da histérica.” (LACAN, op. cit. ,p. 41) O agente do discurso é o sujeito dividido que, instigado por seu objeto causa de desejo (a) – recalcado - evidencia sua divisão representada pelo enigma do sintoma ($) e solicita ao mestre (S1) sua decifração. É requerido ao mestre a produção de um saber (S2) sobre seu sintoma. Trata-se de instigar o mestre a trabalhar, por isso o discurso da histérica é fazer desejar, mas como todo discurso é, na verdade, um engodo, um semblante de demanda por mestria, pois a histérica deflagra o furo, expõe a castração. Ao responder a histérica na posição do saber, o mestre a eterniza no lugar da insatisfação e, portanto, de permanente solicitação levando Lacan a indagar se não seria o mestre uma criação da histérica. Textualmente Lacan a respeito da histérica e o mestre: O que a histérica quer [...] é um mestre. [...] Ela quer um mestre. [...] Ela quer que o outro seja um mestre, que saiba muitas e muitas coisas, mas, mesmo assim, que não saiba demais, para que não acredite que ela é o prêmio máximo de todo o seu saber. Em outras palavras, quer um mestre sobre o qual ela reine. Ela reina e ele não governa. (LACAN, Ibid, p. 122) Um quarto de giro do discurso da histérica e produzimos o discurso do analista. É interessante esta passagem do discurso da histérica para o discurso do analista, pois nos remete a duas questões: 1. Ao abandonar a hipnose, essencialmente pautada no discurso do mestre, Freud cria uma nova posição discursiva para fazer frente à demanda histérica. Se o hipnotizador, em uma posição de saber, ordena a partir da sugestão hipnótica logo, no “apagamento” do sujeito, o analista Freud situava-se na transferência a partir de um lugar de não saber (lugar de objeto), ou melhor, lugar de saber suposto pelo analisando (aquele que na verdade sabe, sem saber). Desta forma, trata-se de uma suposição de saber que mantém a transferência, porém o analista não responde no lugar do mestre (aquele que sabe), mas no lugar de objeto causa de desejo para seu analisando. O discurso do analista é o único em que no campo do Outro se encontra o sujeito e mais, se no discurso do mestre a realidade psíquica (fantasia) encontra-se obliterada pela mestria, o discurso do psicanalista, por considerar o sujeito do inconsciente, o convoca a aparecer e bem dizer o seu sintoma, além de promover o atravessamento da fantasia: “O valor da psicanálise está em operar sobre a fantasia. O grau de seu sucesso demonstrou que aí se julga a forma que assujeita como neurose, perversão ou psicose” (LACAN, 1968, p. 364) Resumidamente: o analista no lugar de objeto do analisante que, neste caso é sujeito, promove o atravessamento da fantasia inconsciente. O discurso do analista também é movido pelo desejo do analista que, na proposta lacaniana, trata-se de desejo de obter a diferença absoluta do sujeito dividido, a radicalidade da marca da singularidade. Assim, nesse sentido, o discurso do mestre é o avesso do discurso da psicanálise, pois enquanto o mestre aponta para o UM que comanda o saber objetivando o sujeito na alienação ao Outro, o discurso do analista objetiva a singularidade, separando o sujeito da posição de gozo do Outro ascendendo à particularidade de seu desejo e modalidade de gozo. Vamos observar este “avesso” nos matemas dos discursos: Discurso do Mestre S1 → S2 ↓ a ↑ $ Discurso do Analista a → $ ↓ ↑ S2 S1 A sugestão hipnótica funciona no “apagamento” do sujeito que se submete como um autômato. O hipnotizador, dirigindo-se ao saber, ordena a remissão dos sintomas e é obedecido pelo escravo (histérica) para gozo do mestre. Devemos lembrar também que, nas sessões abertas de hipnose, a histérica reproduzia os fenômenos – os sintomas, neste caso, são compreendidos como puramente fenomenológicos – para gozo do mestre e delírio dos presentes. 2. Uma segunda questão que se impõe na passagem do discurso da histérica para o discurso do analista, é a passagem de analisando a analista, nomeado por Lacan de passe. A possibilidade do sujeito, após o atravessamento de sua fantasia, seu processo de análise, colocar-se como objeto para um analisando. Freud salienta que a formação do analista está alicerçada sobre um tripé composto pela formação teórica entre os pares – analistas – supervisão e análise pessoal o que reforça a tese de que o analista é produto de sua própria análise, de sua experiência “na pele” pela passagem no divã, daí o aforismo lacaniano de que “o analista só se autoriza por si mesmo... e alguns outros”. No lugar do agente, temos o objeto a, movido pelo enigma do saber inconsciente dirigindo-se ao outro tomando-o como sujeito para que produza seus significantes primordiais fundantes de sua história. O saber (S2) encontra-se sob a barra, mas , como nos diz Lacan, não é o mesmo saber do discurso do mestre pois no lugar da verdade, S2 é um enigma. Se é próprio da verdade nunca poder dizê-la toda, o saber também é não-todo: “Um saber como verdade isto define como deve ser a estrutura do que se chama uma interpretação.” (LACAN, op. cit., p. 34) Assim, percebemos que a interpretação não pode ser um aconselhamento, uma sugestão diretiva, deve ser enigmática – tal como vimos no texto de Freud sobre a Gradiva de Jensen - apontando para a via do inconsciente, do não senso e, portanto do real: Se insisti longamente na diferença de nível entre a enunciação e o enunciado, foi justamente para que a função do enigma ganhe sentido. O enigma é provavelmente isso, uma enunciação. Encarrego vocês de convertê-lo em enunciado. Virem-se como puderem – como fez Édipo - , vocês sofrerão suas conseqüências. Eis do que se trata o enigma. (LACAN, Ibid, p. 34) Frente ao enigma da esfinge, Édipo pôde responder - “O homem!” ou na visada de Quinet, em seu “Oidipous”, poderia ter respondido: “Édipo!” É importante destacar a função enigmática que a interpretação do analista deve conter, caso contrário, se diretiva, apaga o sujeito perdendo seu valor de apontamento para a Outra cena. Relataremos brevemente um episódio surpreendente no CAPS que pode elucidar esta questão: Ao não receber o aconselhamento solicitado, o paciente fica muito bravo e acusa o técnico de não lhe dar ajuda. O terapeuta responde que eles podem conversar, discutir o assunto, mas que não entendia o lugar do terapeuta como aquele que aconselha, que isto ele pode obter com seus amigos e familiares. O paciente tranqüiliza-se e responde:“Entendi. A terapia é um aconselhamento indireto.” Podemos fazer a seguinte leitura: A interpretação passa pelo sujeito. A psicanálise se situa na saída do lugar do mestre, para o lugar de objeto, lugar, portanto, do silêncio, ou podemos dizer do morto, já que, como diz Lacan, o analista deve ocupar o lugar do santo que, para tal, precisa estar morto. O santo é aquele, como propõe Lacan, que não considera-se cheio de méritos, mas colocase como dejeto, um abjeto: O santo para que me compreendam, não faz caridade. Antes, presta-se a bancar o dejeto: faz descaridade. Isso para realizar o que a estrutura impõe, ou seja, permitir ao sujeito, ao sujeito do inconsciente, tomá-lo como causa do seu desejo. (LACAN, op. cit., p. 518) Freud em sua “Conferência XXVIII – Terapia analítica” (1917) apresenta a distinção entre a psicanálise e as demais técnicas sugestivas no tratamento das enfermidades psíquicas. Alerta que a sugestão direta vai contra a manifestação dos sintomas cujas razões inconscientes são ignoradas. Conceitua como procedimento “cosmético” de camuflagem da expressão sintomática que retorna, pois os processos que conduziram sua formação permanecem intactos. O paciente neste caso é passivo, não reconhecido como sujeito responsável pelo seu sofrimento ficando à “mercê” das investidas educativas do terapeuta no encobrimento dos sintomas reforçando, deste modo, o recalque. A psicanálise, ao contrário, busca chegar às razões inconscientes da formação sintomática, tendo a transferência como principal instrumento, porém não no lugar de mestre, daquele que sabe sobre o sujeito, mas abstendo-se de transformá-lo em objeto de gozo (sexual ou não). O analista deve abster-se de exercer o poder conferido pelo analisante além de não pretender encaminhar-lhe o destino, impondo-lhe seus ideais. Aliás como vimos, se o analista “cai” no lugar do mestre, a resposta do analisando (histérica) é derrubá-lo, deflagrar sua castração. Para ilustrar uma breve vinheta clínica: Analisanda histérica, queixando-se do namorado, solicita à analista para que responda se o namorado a ama ou não. Ao ser questionada sobre o porquê da pergunta, argumenta que ela faz o mesmo com seus amigos e eles respondem (mas ela não acredita). Ao ser novamente interpelada pela analista sobre o porquê de querer colocá-la como mais um de seus amigos, responde veementemente: “Não! Se isso acontecer, acabou tudo.” Retornando ao texto freudiano, Freud argumenta que “na psicanálise, agimos sobre a própria transferência, deslindamos o que nela se opõe ao tratamento, ajustamos o instrumento com o qual desejamos causar nosso impacto.” (FREUD, 1917, p. 527) Trata-se assim, de um lugar de suposição de saber, onde o analista faz semblante, sem, no entanto, incorporar o mestre e sua crença no saber. Desta forma, os efeitos de sugestão que possam permear a transferência devem ser enquadrados pelo desejo do analista não se tratando, no entanto, dos desejos de educar ou de curar – o “furor sanandi” apontado por Freud – porque o processo analítico ultrapassa a ambição terapêutica por visar o que resta de incurável: o real da pulsão. É o real que permite desatar aquilo em que consiste o sintoma, ou seja, um nó de significantes. Atar e desatar que aqui não são apenas metáforas, mas a serem apreendidos como os nós que realmente se constroem ao formarem uma cadeia com a matéria significante. (LACAN, op. cit., p. 515) Psicanálise e as demais técnicas psicoterápicas agem por meio de palavras, mas se opõem, porque a segunda busca o sentido dos sintomas e a psicanálise, por visar o real, aponta para o sem sentido: “Na confissão o pecador conta o que sabe; na análise o neurótico tem mais a dizer”. (FREUD, 1926, p. 215) Lacan nos diz que a busca por sentido, leva-nos às “chamadas à razão”, ao bom senso que representa a sugestão. Ao propor a regra da associação livre, o analista permite a manifestação do sujeito atribuindo valor à “desordem” das racionalidades do eu como via de acesso ao inconsciente portador de um saber: Na medida em que o inconsciente está implicado, há duas vertentes fornecidas pela estrutura, ou seja, pela linguagem. A vertente do sentido, daquele que se acreditaria ser o da análise, que nos despeja o sentido aos borbotões para o barco sexual. É surpreendente que esse sentido se reduza ao não-sentido: ao não sentido da relação sexual. “...” Há ainda o sentido (sens) que se faz passar por bom senso ( bom sens) e que, ainda por cima, é tido como senso comum (sens commun). “...” O bom senso representa a sugestão “...” É aí que a psicoterapia, “...” estanca, não porque não exerça um certo bem, mas por ser um bem que leva ao pior. (LACAN, op. cit., p. 512-13) A psicanálise incide sobre o recalque no qual, a partir dos seus retornos (do recalcado) o sujeito emerge, pontualmente. Assim, poderíamos dizer que a psicanálise opera sobre o senso incomum? O sintoma, os chiste, os lapsos possuem uma mensagem cifrada para além do sentido, para além do deciframento referindo-se, portanto, à “lalingua” - significante cunhado por Lacan para representar a cifra – como pura letra, nons sense - da ordem do real, opondo-se à vertente do signo: Falar de código não convém, justamente por pressupor um sentido. A bateria significante de lalíngua aponta apenas para a cifra do sentido. Cada palavra assume nela, conforme o contexto, uma gama enorme e disparatada de sentidos. (LACAN, Ibid, p. 515) Voltando aos discursos, um quarto de volta do discurso do analista e estamos no discurso do universitário onde o saber ocupa a posição dominante com um imperativo categórico de “Tudo saber!” “Continua a saber!” que Lacan aproxima ao discurso à ciência: É impossível deixar de obedecer ao mandamento que está aí, no lugar do que é a verdade da ciência – Vai continua. Não pára. Continua a saber sempre mais. [...] Não pensem que o mestre está sempre aí. O que permanece é o mandamento, o imperativo categórico Continua a saber. Não há mais necessidade de que ali haja alguém. Estamos todos embarcados [...] no discurso da ciência. (LACAN, op. cit., p. 98 e 99) O saber do professor ocupa o lugar do agente que veiculará o ensino. No lugar do Outro encontramos o objeto a representado pelo estudante – ou “a”estudante, como nomeia Lacan – que, causado pelo desejo, realiza os trabalhos acadêmicos cuja produção é um sujeito dividido, incompleto – porém alienado ao imperativo comandado pelo agente de “Tudo pelo saber!”! - desejando saber mais. No discurso do universitário ocorre uma modificação na relação com o saber. Se no discurso do mestre o escravo tinha um saber, no discurso do universitário o saber se encontra apenas no próprio mestre (S1) no lugar da verdade e, portanto, velado, mas impulsionando o imperativo de acúmulo de saber. Neste discurso um saber equivale ao outro representado nas titulações acadêmicas que não oferecem sustentação ao sujeito, pois tem como resto - sua produção - o próprio sujeito para gozo do Outro do saber. Lacan considera neste seminário o discurso do universitário, próximo ao discurso da ciência por seu comando rumo ao tudo saber. Porém mais tarde, em “Televisão” (1973) diz que a ciência “tem quase a mesma estrutura” do discurso da histérica, indicando certa convergência entre estes discursos. Qual seria? O sujeito histérico bem como o sujeito da ciência é aquele que, supostamente, não sabe – a histérica questiona o mestre e a ciência ordena o saber. Ao interrogar o mestre a histérica aproxima-se do sujeito da ciência – sujeito cartesiano, portanto que, como vimos, duvida do saber constituído. Na resposta à questão histérica o que surge são novas perguntas bem como na ciência o saber produzido exige mais saber. Assim, neste sentido ciência e discurso histérico convergem. Porém Lacan nos diz que as duas têm quase a mesma estrutura, o que nos remete à alguma diferença. Qual seria? Em seu texto “A ciência e a verdade” (1966) Lacan afirma que a ciência nada quer saber da verdade como causa, pois é indicativa da falta como causa do desejo e faz referência, obviamente, à incompletude do sujeito: Abordá-la-ei através da estranha observação de que a prodigiosa fecundidade de nossa ciência deve ser interrogada em sua relação com o seguinte aspecto, no qual a ciência se sustentaria: que, da verdade como causa, ela não quersaber-nada. (LACAN, op. cit., p. 889) No discurso da histérica encontramos o objeto a indicando a verdade recalcada do seu sintoma. Assim, aquilo que neste discurso representa a verdade recalcada, o motivo de suas queixas, logo, de sua divisão singular, é banido pela ciência, pois aquilo que é da ordem do sujeito é foracluído do discurso científico. Como já mencionamos anteriormente, o sintoma da histérica difere do sintoma médico que são essencialmente fenomênicos, signos da doença e, portanto, com pretensão a uma verdade toda. Assim, a partir do modelo de sintoma da medicina ocorre uma generalização do doente que recebe por tratamento também um produto com fabricação em série – a química da substância. Se a questão do sujeito está excluída, o objeto não faz semblante – não é uma ventosa como nos diz Lacan – mas adquire consistência e são justamente estes objetos ofertados pela ciência , as latusas, que o sujeito acredita ser o Objeto. A ciência aproxima o objeto a aos objetinhos que nos seduzem com a promessa de encontro amoroso, de encaixe perfeito, em outras palavras, nos acenam com a possibilidade de relação sexual. E quanto aos pequenos objetos a que vão encontrar ao sair, no pavimento de todas as esquinas, atrás de todas as vitrines, na proliferação desses objetos feitos para causar o desejo de vocês, na medida em que agora é a ciência que o governa, pensem neles como latusas. (LACAN, op. cit. P. 153) As histéricas não acreditam no objeto, assim como não acreditam no saber do mestre, elas os destituem, aí a divergência com o discurso da ciência. Neste discurso – da ciência - sob o efeito do brilho reluzente das latusas o sujeito tornase opaco. Tais objetos não são eleitos pelo sujeito, portanto não dizem respeito ao seu desejo, mas ao mandato superegóico Goza! cuja resposta dada é uma assertiva: Gozo! numa obediência cega. Lacan acrescentou aos matemas dos quatros discursos um matema para o discurso do capitalista que fornece um sujeito com um empuxo-ao-consumo de objetos produzidos pela tecnociência financiada pelo capital. Os imperativos do consumo não permitem o espaço da falta, tentando foracluir a castração que indica nossa falta-a-ser , nossa fundamental incompletude que, no entanto, marca nossa singularidade. O discurso do capitalista é um discurso sem lei, que ao contrário da regulação entre os homens – inscrita nos demais discursos – promove a segregação exigida pelo mercado agrupando os que têm ou não acesso às latusas. Este discurso não produz sujeito, mas consumidores insaciáveis que acreditam no brilho dos objetos cujas relações se dão citando Marx – entre mercadorias e não entre os homens. Discurso do Capitalista ↓$ S1 S2 ↓ a O discurso do capitalista é na atualidade uma nova modalidade do discurso do mestre, porém que rompe com a permutação cíclica que organiza os demais discursos e opera uma inversão dos termos que ocupam o lado do sujeito no discurso do mestre. A tentativa de foracluir a castração, promove uma subversão do sujeito transformando sua relação com o objeto modificando, portanto, sua relação com o desejo. Neste discurso o sujeito ocupa o lugar do agente, porém não representado pelo seu sintoma, por sua falta e, portanto, por sua causa de desejo, mas é representado como consumidor e terá disponibilizados meios para consumir ferozmente objetos fast food com uma promessa de satisfação possível. É fundamental considerar as setas que são indicativas da dinâmica do discurso, que fechando-se em si mesmo, estabelece um círculo vicioso. A ciência inventa, cria algo onde não havia nada antes, produzindo assim, efeitos no real. Na articulação com a técnica, transformando-se em tecnociência se produz o mestre contemporâneo, ou seja, a ciência em copulação com o capitalismo. O discurso da ciência a serviço do capital transforma o saber em mais um bem de consumo e, portanto, como mais uma mercadoria, vigorando sob uma moral utilitária – sob a vigência da moda - podendo ser compartilhada pelos semelhantes consumidores na regência da lei do mercado. No entanto, estes objetos da modernidade, tão logo adquiridos, perdem seu valor de uso e são rejeitados para serem rapidamente substituídos por outro mais potente, mais bonito, mais eficaz, mais... Observamos assim, que ao contrário da subtração própria ao desejo, tendo um resto para impulsionar a busca pelo objeto para sempre perdido, as latusas se oferecem como adição, um a mais com efeito cumulativo, como se pudesse recuperar o excedente de gozo -mais-de-gozar – num discurso que não supõe a perda, ao contrário, sua proposta é a maximização do lucro, no vale-tudo do mercado financeiro. O sujeito, ao tomar a demanda do Outro (capitalismo) como desejo, transforma-se em usuário de produtos e serviços onde se acredita agente, mas na verdade obedece passivamente ao imperativo do mercado: “Consuma!” Então, a renúncia à pulsão exigida pela cultura parece não ocorrer neste discurso, ao contrário, promove a compulsão ao impor uma relação com a demanda indicativa da pulsão de morte e seu empuxo-ao-gozo. É um discurso que não faz laço social e, portanto, não é um aparelho de regulação do gozo, mas a manifestação do mestre corrompido transformado em capitalista. Assim, por esse viés, o discurso do capitalista pode ser considerado um quinto discurso? Estes discursos, como já mencionado, permeiam a relação do sujeito com a cultura. Verificaremos agora, sua incidência em uma instituição de saúde pública. 4.3 A instituição de saúde Localizada em um município do interior do Estado do Rio de Janeiro, com aproximadamente 150 mil habitantes, esta instituição é a referência para o atendimento, a nível central, das especialidades médicas, consideradas aquelas que ultrapassam a assistência de atenção básica de saúde (clínica médica, pediatria e ginecologia) que são as clínicas das Unidades de Saúde dos Distritos Sanitários e dos módulos das Estratégias de Saúde da Família (ESF). Então, o Centro de Especialidade Médicas foi projetado, idealmente, para funcionar com as demais especialidades sendo um atendimento, portanto, referenciado. Em outras palavras, aquilo que não foi resolvido na atenção básica é dirigido ao especialista. Dizemos idealmente, pois a instituição tem a clínica de atenção básica no seu corpo de “especialidades” e a própria psicologia também faz parte do quadro dos Postos de Saúde e ESFs o que precipita uma série de confusões e indefinições a respeito de qual seria o papel do psicólogo e, ainda, se a Psicologia é atenção básica ou referenciada nestes locais de assistência. O que seriam atenção básica e referenciada para a psicologia? Que profissionais da área comporiam o Centro de Especialidades Médicas e quais seriam suas funções? Nos postos de saúde e ESFs, os psicólogos trabalhariam prioritariamente com “prevenção” e educação e saúde, no apoio às comunidades, ficando a psicoterapia individual destinada aos psicólogos do Centro de Especialidades Médicas? 4.3.1. Os discursos na instituição de saúde Como vimos a própria teoria dos discursos evidencia uma dinâmica e não uma estagnação neste ou naquele discurso, cujas variações ocorrem como modalidades distintas do ato a partir do agente que domina o discurso. Assim, a psicologia, ao responder no lugar daquele que sabe com interpretações diretivas, encontra-se no discurso do mestre. Devemos lembrar ainda que por tratar-se de uma instituição de saúde, há uma hegemonia do saber médico, ocorrendo com as demais profissões uma tentativa de reconhecimento aos moldes da medicina e mais, como vimos com Clavreul, “o corpo médico é o garante do saber médico” (CLAVREUL, op. cit., p. 91), assim os profissionais das demais áreas tentam incluir-se na Ordem médica. Continuando com Clavreul: “uma leitura psicanalítica do discurso médico permite extrair um certo número de fatos que permanecem na sombra quando o discurso médico constitui a única referência teórica reconhecida” (Ibid, p. 164) Ampliaremos a questão para os demais discursos estabelecidos por Lacan e suas incidências na instituição. Podemos dizer que o paciente chega à instituição pelo discurso da histérica que, com seu sintoma ($), procura um mestre/doutor (S1) que produza um saber todo (S2) sobre o seu sofrimento. Em sua tentativa de resposta ao enigma do seu sintoma, demanda trabalho ao médico/psicólogo/assistente social... em uma espera passiva por solução. Ao responder deste lugar de mestria, o profissional obtém, nas palavras de Freud, “um paciente inerte e imodificado”. (FREUD, op. cit., p. 526) Discurso da Histérica Sujeito ↑ $ a Outro → S1 ↓ S2 O sujeito encontra-se possuído por uma doença na qual não está engajado pessoalmente – está, como já dito, sob a posse da doença – sendo-lhe indicado que desprenda-se de qualquer interpretação pessoal sobre o que lhe ocorre, devendo ser eliminada a subjetividade, pois o que encontra-se em questão é a manifestação fenomenológica da doença. Deve olhar-se como um outro, desconfiando do que sente pois, possuído por este Outro (a doença), encontram-se comprometidos os sentidos que só o discurso médico pode restituir. Definido como “homem + doença”, sua entrada no discurso médico, segundo Clavreul, se dá a partir do diagnóstico (que é um ato de mestria). Assim, como dito acima, para um mestre é necessário pelo menos um servo. Ao médico (mestre), um doente submetido a ele. Clavreul acrescenta que o diagnóstico retira o doente não só da responsabilização daquilo que padece, mas retira-o também da angústia do não sentido que a doença porta obliterando sua participação no processo de cura. Os fenômenos, os enigmas da doença são retomados e decifrados pelo discurso médico portador de um sentido alheio ao sujeito, assim como sua doença. Quando o médico impactado pelo enigma do sujeito, não consegue responder, ainda em que pese todo seu saber e arsenal técnicos, o paciente é encaminhado ao profissional do ambulatório de psicologia, como último caso após esgotadas todas as outras tentativas. O que à primeira impressão poderia ser crédito à cura pela palavra, mostra-se, na maioria das vezes, como uma tentativa de livrar-se da “batata-quente”, passar adiante este sujeito que só faz lamuriar-se. Como uma histérica, o paciente “derruba” o douto saber médico. Assim, o discurso histérico faz apelo ao mestre, mas este é castrado e, assim, o paciente é encaminhado ao psicólogo o que evidencia uma demanda ao discurso do analista o avesso do discurso do mestre. 4.3.2 A Psicologia e os discursos Acreditamos que para delinear estas questões precisaremos fazer uma digressão sobre qual é o lugar da psicologia e seu campo de saber a partir de sua insistente tentativa de habitar o corpo científico. Em seu texto “O que é a Psicologia?” (1958), Canguilhem já antecipava o atual rumo tomado pela psicologia em abarcar diversas áreas de saber e em sua aproximação com as neurociências ao colocar-se como psicologia biológica – tal como a psiquiatria – acreditando-se assim, mais próxima dos rigores científicos: Para a psicologia, a questão de sua essência, ou mais modestamente de seu conceito, coloca em questão também a própria existência do psicólogo, na medida em que, por não poder responder exatamente o que é, tornou-se bastante difícil para ele responder o que faz. “...” A unidade da psicologia é aqui procurada na sua definição possível como teoria geral da conduta, síntese da psicologia experimental, da psicologia clínica, da psicanálise, da psicologia social e da etnologia. (CANGUILHEM, 1973, p. 1-2) Apesar da influência freudiana - e a proposição de talking cure - ocorreu uma separação substancial entre psicologia e psicanálise no século XIX. Neste século vai fundar-se como uma biologia do comportamento humano, além da sua constituição como patologia nervosa e mental, como física do sentido externo, como ciência do sentido interno e do sentido íntimo. Canguilhem sugere que este desfecho se deu não só pelo apego à cientificidade, mas também por razões econômicas e políticas que determinaram a uniformização do comportamento humano em detrimento da particularidade subjetiva. Em outras palavras, o acento recaiu sobre as semelhanças e não sobre as diferenças. Recusando seu passado filosófico que o “estudo da alma” faz aludir, a psicologia torna-se instrumento do “instrumentalismo” cujo conceito de homem é o de ferramenta. Para o autor, o psicólogo do século XX é um “prático profissional cuja ciência é totalmente inspirada na pesquisa das leis da adaptação a um meio sócio-técnico” (CANGUILHEM, Ibid, p. 9) Podemos entender que a busca por cientificidade leva a psicologia a colocar-se a serviço de um estatuto social que tenta normatizar, uniformizar a conduta humana. Canguilhem acrescenta ainda que ao colocar-se como “psicólogo do comportamento humano” assume uma posição de superioridade, o que em termos lacanianos significa um lugar de mestria sustentado pelo discurso do mestre. Com o objetivo de ilustração, uma vinheta clínica: Jovem rapaz de 16 anos, portador de vitiligo é encaminhado ao serviço de psicologia pelo dermatologista que após duas sessões, abandona o tratamento. Ao ser interrogado pelo médico que o encaminhou a respeito da sua desistência, responde que o psicólogo disselhe que ele deveria falar sobre os motivos de sua irritação, pois acreditava que era a raiva que o havia feito adoecer. Ao responder desconhecer as razões, o psicólogo determinou: “Então, volte quando souber.” Como ainda não descobriu, não retornou. Discurso do Mestre Sujeito ↑ S1 $ Outro → S2 ↓ a Apesar de haver um reconhecimento na “cura pela palavra”, ocorre uma direção rumo ao sentido previamente dado pelo profissional que, na posição de mestre sentencia: “Eu sei que você padece da sua raiva. Fale-me disso”. De outra maneira: Conheço aquele que, do rol dos significantes do campo do Outro (S2) o representa – irritação (S1). Produza-me sentidos (a), faça-me gozar ao confirmar meu saber. Esta sentença impede o surgimento do sujeito e seu saber inconsciente, que se encontra sob a barra do recalque ($) e desconsidera também o gozo Outro do fenômeno psicossomático que está para além do sentido e, portanto, fora do significante, no real. Antes de continuar, gostaríamos de contextualizar a psicologia nesta instituição. Por razões políticas, esta unidade passou por uma reforma, não apenas física, mas de um conceito de saúde onde deixa de ser mais um posto de saúde referenciada para aceder a Centro de Especialidades Médicas cujos “especialismos” ganham ares de ciência sob o domínio do saber todo da especialidade. Na antiga unidade de saúde, os psicólogos atendiam à demanda de psicoterapia fosse o paciente portador de HIV, usuário de álcool, idoso ou criança, pois visava o sujeito do inconsciente. Com a mudança ocorrida na instituição – e também pelas diretrizes do ministério da saúde - os diversos “Programas de Saúde” – DST/AIDS, Dependência química, Saúde do trabalhador, Saúde do idoso, etc. – solicitaram um profissional psicólogo na composição da equipe que, a partir de capacitações e especializações transformou-se em “especialista na área” Assim, qualquer coisa que escape do enquadre das especializações não é tratado pelo psicólogo do programa. Para ilustrar, relataremos dois casos recentes: Ao ser solicitada a atender uma criança “vítima de abuso sexual”, a psicóloga de um determinado programa nega o atendimento por “não ter especialização na área”. Uma outra psicóloga, de outro programa, faz uma primeira avaliação de um caso de depressão severa, mas como o sujeito em questão não possui as atribuições requeridas para o atendimento no programa, “repassa” o caso para a psicologia ambulatorial. Entendemos esta busca por titulação não como uma tentativa em romper com o paradigma médico, mas como uma espécie de insígnia fálica acenando como ingresso – sempre fracassado – ao grupo de doutores (à Ordem médica) Então, temos os psicólogos dos programas e os psicólogos que atendem deste lugar genérico denominado “Ambulatório de Psicologia” no qual recebem tudo o que resta das demais “psicologias” que se encontram protegidas pelos “Programas Específicos”. Desta forma, colocamos a “Psicologia Especial” aos moldes do discurso do universitário onde, sob o domínio do saber (S2) do especialismo, o psicólogo movido pela verdade da “ciência” (a completude fálica de S1) sobre seu objeto de estudo (a) obtém como produção um sujeito ($) em conformidade com este saber. Em busca por cientificidade e por um espaço no meio médico, o psicólogo resiste em ocupar o lugar da transferência e, portanto, vazio, pois de objeto a; para situar-se no lugar do saber (S2). Coutinho Jorge acrescenta que “o campo do sujeito do universitário está desabitado pelo sujeito e preenchido pela articulação significante do saber sustentado pelo falo, o que faz com que ele pareça sem furo”, (COUTINHO JORGE, op. cit., p. 31) Discurso do Universitário Sujeito Outro ↑ S2 → a ↓ S1 $ Desta forma, diante do intratável, daquilo que se encontra como resíduo ao tratamento convencional, o psicólogo é solicitado a dar conta deste resto de gozo numa clara demanda à posição do analista que, nas palavras de Lacan ocupa o lugar de santo enquanto dejeto a ser desprezado: “O santo “...” não faz caridade. Antes, presta-se a bancar o dejeto: faz descaridade. “...” O santo é o rebotalho (rebut) do gozo”. (LACAN, op. cit., p. 518-9) Sustentado pela transferência, mas sem responder deste lugar, o analista faz semblante ao ocupar o lugar do objeto, do dejeto. Como uma analisanda exemplificou: “Eu sei que você sabe porque eu gosto de você, mas não responde porque não quer.” No lugar da transferência, de suposição de saber sobre o sujeito (S2) - pois como sabemos o inconsciente é um saber e sendo a transferência a atualização da realidade do inconsciente, podemos concluir com Coutinho Jorge que a “transferência, é essencialmente, transferência de saber inconsciente” (op. cit., p. 30) - o analista responde como objeto a, ou seja, com silêncio, cabendo a resposta ao sujeito dividido ($) com a produção de seus significantes primordiais (S1). Discurso do analista Sujeito ↑ a S2 Outro → $ ↓ S1 Evidenciamos nesta instituição de saúde um excesso de encaminhamentos ao ambulatório de psicologia, indiscriminadamente, por demandas diversas. Observamos que a qualquer queixa onde se vislumbre o apontamento para o sujeito, o paciente é encaminhado ao “profissional psi”. Ressaltamos que tais encaminhamentos vão desde o “choro fácil” a casos de patologias complexas que causam enigma ao saber médico. Ao que parece a divisão entre o corpo-máquina e o sofrimento inerente ao humano no seu mal-estar crônico da civilização, produz um hiato dentro da própria instituição de saúde provocando um compartimento e isolamento de atuações. Quando provocado a responder qual o lugar da psicanálise na medicina, Lacan diz ser um lugar marginal. “Ele é marginal por conta da medicina com relação à psicanálise – ela admite-a como uma espécie de ajuda exterior”. (LACAN, 1966, p. 8) Lugar do rebotalho, à margem, por bordear o real ao considerar o sujeito do inconsciente inerentemente pulsional. 4.3.3. Saúde pública a serviço do discurso do capitalista Esta instituição, apesar de funcionar sob as determinações do Sistema Único de Saúde (SUS) com sua proposta de assistência integral e universal, é atravessada por questões políticas onde o acesso à saúde é utilizado como meio de barganha, como moeda de troca entre os pacientes (eleitores) e o candidato a vereador, numa clara adesão ao discurso do capitalista. As consultas (objetos), são oferecidas aos “usuários” pelo vereador que utiliza-se da máquina pública, que recebe pela produção do profissional, que atende o usuário, que elege um capitalista/vereador sem perdas que, ao utilizar-se deste circuito, mantém seu eleitorado e custeia sua permanência no poder. Para ilustrar: O diretor da unidade possui o hábito de receber a população que solicita atendimento de “encaixe”, numa espécie de central de vagas paralela. Nomeamos este seu costume de “furar a fila” de “A porta da esperança”. Cabe ressaltar que os encaixes servem para fazer calar a demanda da população, se esgotando neste primeiro atendimento, não sendo exigida a continuidade do tratamento. Em um desses episódios em que recebe a população, uma colega psicóloga vai procurá-lo e o encontra com um paciente que foi encaminhado à psicologia. Ao vê-la o diretor a interroga a respeito de vagas na sua agenda. A colega responde que se encontra, como sempre, lotada. Diante desta resposta, ele se volta para o paciente e responde que ao verificar melhor o seu pedido por consulta, percebeu tratar-se de caso para a psiquiatria e não para psicologia. Este episódio demonstra com pertinência o uso do saber como objeto a ser consumido e, portanto, passível de trocas. Interrogamos então se, tal como na atual escalada à medicalização da angústia, onde a divisão do sujeito – contingência do falante – adquire estatuto de doença, as várias especialidades não entram como mais um objeto a ser vorazmente devorado. O sujeito ($) ao acreditar-se desejante encontra-se na verdade sob o comando dos objetos (a) a serem consumidos, sem se dar conta que sob o imperativo do gozo é ele o insumo do capitalista/vereador. Devemos lembrar que a máxima do capitalismo é criar necessidades, fazer precisar. Discurso do capitalista $ S1 S2 a Além do lugar de objeto a ser consumido enfrentamos a exigência por produtividade, havendo uma pressão na quantificação dos atendimentos e padronização do tempo das sessões a partir do modelo médico. Em resumo, devemos maximizar os lucros atendendo a um número maior de pessoas em um menor tempo (número de sessões). É esta a exigência do mercado: prontidão e cura rápida. Ainda para ilustrar, utilizaremos de pequenos episódios da assistência pautados no discurso do capitalista que vem ganhando cada vez mais força nos serviços de saúde: a medicalização como recurso de aplacamento do mal-estar. Paciente é encaminhada para psicologia, pela psiquiatria, por ter “fobia a cachorros” – os animais dos quais a paciente diz ter “horror” são “poodles e animais fofinhos como pintinhos” – mas, apesar do medo, mantém suas atividades de trabalho e relacionamentos sociais. O curioso deste caso é que apesar do relato da paciente de que a tal “fobia” não limita sua vida, a psiquiatra receitou um “calmante”. Conclusão: ninguém sai da sala do médico, sem uma receita mesmo que não precise, ocorrendo um empuxo à drogadição (legal) – os benzodiazepínicos são potenciais causadores de dependência - onde o objeto mais-de-gozar não é perdido, ao contrário, é recuperado numa adição. Um colega de trabalho, a partir de um episódio de hipertensão procura um médico que, após a consulta, lhe receita, é claro, uma série de medicações, entre elas, a de um benzodiazepínico para “ajudar no sono”. Ao argumentar não ter dificuldades para dormir, recebe como resposta que o outro remédio receitado causa insônia. Parece anedótico, mas nos são ministrados o remédio do remédio cujas substâncias fecham-se em si mesmas numa circularidade sem fim. Gostaríamos de abordar também, um fato ocorrido recentemente no Centro de Especialidades como exemplo de exclusão da singularidade em suas variadas formas de manifestação. Há alguns meses, o gestor municipal de saúde resolveu retirar da unidade aqui mencionada as clínicas não consideradas como especialidades, dentre elas o ambulatório de psicologia que, na visão dele, deveria integrar a ESF (Estratégia de Saúde da Família). Ora, na proposta do ministério da saúde, a inserção do profissional de saúde mental na ESF, se dá como suplementar, como apoio, ao nível de supervisão, sob a forma de núcleos matriciais responsáveis por cada grupo de onze a vinte ESFs. Entendemos com isso a tentativa de acabar com o ambulatório de psicologia, pois esta proposta não contempla as psicoterapias individuais na medida em que, como atenção básica à saúde, a ESF prioriza as ações em prevenção articulando educação e saúde, não existindo, inclusive, espaço físico para atendimento individual com um mínimo de enquadre. Desta forma, o programa de saúde mental reduziu-se por um lado, à prevenção – restando imaginar como fazer prevenção psíquica (ou prevenir-se do psiquismo?) e por outro, à assistência nos CAPS. Entendemos como uma tentativa de submetimento à Ordem (médica) pois, caso não se previna a doença (mental) aos moldes de uma medicina sanitarista o sujeito é alçado pela psiquiatria, no sistema de patologização do sofrimento psíquico o que é bastante preocupante, na medida em que pode transformar fenômenos sociais e momentos da vida que exigem elaboração do luto em doença mental exigindo, portanto, medicação. Em resumo, um movimento higienista como se coincidissem pobreza e doença mental - pois na medida em que somos medidos pelo potencial de consumo, se não temos, não somos - cabendo ao Estado restituir esta função seja na forma de assistência técnica, seja na forma de insumos medicamentosos. Há pouco tempo uma psicóloga da Secretaria de Ação Social do município resumiu o morador de rua sob a qualificação de doente mental: “O morador de rua se não é psicótico, na rua, acabará sendo.” Como se a psicose fosse uma evolução, uma doença progressiva ou conseqüência exclusivamente do meio, retornando à proposta behaviorista de Watson: “o que somos é o que fazemos e o que fazemos é o que o ambiente nos faz fazer”. Corremos o risco assim, como profissionais de saúde mental, de trabalharmos psiquiatrização da população. a serviço da segregação numa escalada de 4.4 A escuta da singularidade: A saída do discurso do capitalista Entendemos que este movimento de mudança no atendimento do sofrer psíquico proposto pela gerência de saúde municipal (eliminação da clínica “psi”), elimina não só o sujeito - desresponsabilizado por seus males - mas também o lugar de escuta de sua singularidade representado pelos ambulatórios de psicologia. Acreditamos que foi uma forma encontrada para “enquadrar” também as psicólogas do ambulatório que se opunham aos “encaixes” propostos pela chefia. Acrescentamos também a conquista de terem suas agendas sob suas responsabilidades o que impõe controle sobre o número de pacientes atendidos, o tempo de duração das sessões e o tempo de duração do tratamento não submetidos assim, às regras capitalistas de maximização dos lucros, mas à economia da libido do sujeito que, por sua constituição, está sempre no negativo. Esta decisão do gestor foi abandonada, mas decidimos estruturar um Serviço de Psicologia Clínica – aliás é o produto desta dissertação, o apêndice – na forma de um trabalho a ser apresentado aos gestores de saúde intitulado “Por uma clínica do sujeito”, objetivando uma clínica respaldada sobre um tripé: (1) formação clínica do psicólogo – que, no nosso caso, é causada pela psicanálise - ; (2) as normas do Ministério da Saúde (política do SUS) em conformidade com (3) as diretrizes da Reforma Psiquiátrica e sua proposta de “rede de assistência” à saúde mental na qual o ambulatório de psicologia é mais um dispositivo: o lugar de escuta da singularidade. Trata-se da tentativa de garantir a prática de fazer circular a fala que tem como princípio ético a escuta do sujeito causado pela falta, este “estranho objeto chamado desejo”. Lacan indica como saída do discurso do capitalista, o discurso do analista que reinaugura o lugar da falta, da divisão do sujeito. Onde a clínica médica se detém – nas manifestações transferenciais, a psicanálise instaura discurso e, conseqüentemente uma outra clínica. um novo Se a partir do discurso do mestre, próprio da medicina, o saber encontra-se do lado do médico o qual responde deste lugar, a psicanálise, ao dirigir-se ao outro como sujeito possibilita a retificação subjetiva e o saber inconsciente. O discurso da ciência, o mestre contemporâneo, em seu imperativo de saber reitera a exclusão do sujeito. Em sua promoção ininterrupta de objetos prontos para consumo a serviço do capital, conduz à massificação e não às escolhas provenientes da subjetividade. Ao ser reduzido a feixes neuronais em suas funções sinápticas o sujeito pôde, enfim, ser padronizado. A impossibilidade do enquadre imaginário a partir de explicações sócio-ambientais vem sendo acrescida pela vertente do real do corpo e o registro simbólico sistematicamente rechaçado. Como fazer frente a(o) isso? São inúmeros os exemplos, mas optamos por um muito em voga na atualidade que vem lotando os consultórios médicos e aumentando o lucro da indústria farmacêutica, o TDAH (transtorno do déficit de atenção e hiperatividade). O que faz o “transtorno” interessante para o nosso estudo, são suas inúmeras comorbidades (cerca de dez) que surgem a cada nova tentativa de totalização do sujeito. Se a medicação por um tempo faz calar, o sujeito, que não cessa de não se escrever, teima em retornar, voltar à cena. Diante do impossível de educar – uma das comorbidades é o “transtorno opositor desafiador” (TOD) – surgem novas comorbidades que exigem mais drogas e mais enquadre pedagógico sob a forma de terapia comportamental. Então, o que observamos na atualidade são fenômenos que, ao contrário do sintoma não contam uma história de amor – não se trata assim, de um gozo fálico - e causam estranhamento ao sujeito. Patologias ligadas ao ato manifestando-se em compulsões diversas onde mais uma vez o aforismo lacaniano parece se confirmar e “aquilo que é foracluído no simbólico, retorna no real” na forma de um gozo fora da representação que se presentifica como modo de irrupção do sujeito excluído. Maria Anita Carneiro Ribeiro acrescenta que para Lacan Se a ciência moderna continuasse a ignorar o ‘efeito sujeito’, cada vez mais se abriria a falha epistemo-somática entre o saber científico sobre o corpo e o que seria possível a este corpo, habitado por um sujeito do desejo e do gozo e ignorado pela ciência apresentar como fenômeno. (CARNEIRO RIBEIRO, 2004, p. 49) São estes fenômenos – psicossomáticos, compulsões, toxicomanias, transtornos e síndromes diversas – sintomas da contemporaneidade? Esta questão vem permeando o meio psicanalítico cujas respostas não cessam com o debate, ao contrário, como histéricas relançam as interrogações e põem o mestre para trabalhar. Então vamos recorrer a eles. Lacan atribui a descoberta do sintoma à Marx: “Há que se buscar as origens do sintoma, não em Hipócrates, mas em Marx, na ligação que ele foi o primeiro a estabelecer entre o capitalismo e... o quê? Os bons velhos tempos, daquilo que chamamos os tempos feudais.” (LACAN, 1975, p. 106, apud ŽIŽEK, op. cit., p. 308) Verificamos com esta afirmação que o conceito de sintoma em psicanálise, não é o mesmo da medicina e, por isso, não é localizável no discurso médico, ao contrário, figura como sintoma ao conceito universalizante de patologia localizável no organismo tão em voga nos nossos tempos de psiquiatria biológica. Žižek nos apresenta um texto primoroso e elucidativo desta afirmação de Lacan. Sem nos estendermos na teoria de Marx e a partir do texto de Žižek, sintetizaremos um pouco do conceito. A passagem do feudalismo para o capitalismo se dá a partir de princípios supostamente universais de igualdade, fraternidade e liberdade. As relações estabelecidas entre o senhor e o servo se apresentam agora sob a forma de relações entre as coisas. Saímos do campo das relações entre os homens – dominação e servidão - para relação entre as coisas que se estabelecem entre a mercadoria e a força de trabalho, transformada também em mercadoria. Esta nova mercadoria – força de trabalho – em sua relação com as outras mercadorias aponta para a impossibilidade de equivalência, porque entre o trabalho e o salário, algo resta como impossível de ser computado – saudade, cansaço (representantes da mais-valia) - escapando assim, do conceito universal de igualdade, ao provar que não há correspondência nas relações de troca. As relações de dominação e servidão recalcadas emergem com um sintoma – força de trabalho como mercadoria – e que subverte a aparência de igualdade e liberdade. Em outras palavras, surge algo – sintoma - para Marx o próprio proletariado, que se encontra em desacordo com a razão vigente e que desmente o princípio universal dos direitos e deveres burgueses. O sintoma assim, tem um valor de verdade, de uma verdade que se encontrava obscurecida pelo discurso dominante. Então, o sintoma para a psicanálise é aquilo que deflagra o que estava recalcado e representa a negação interna do discurso totalizante funcionando como um ponto de exceção. Assim, surge a questão: Diante do discurso todo das neurociências, o que irrompe como sintoma e vem fazer exceção a este discurso? Poderia ser o sujeito? Aquele que apesar de excluído, subsumido no discurso, teima, insiste e persiste e “não cessa de não se escrever”? Se na atualidade, a exigência é pela formação de grupos de iguais e exclusão à diferença, poderíamos dizer que o mal-estar da nossa civilização é a singularidade? A partir do exposto, poderíamos dizer que estas manifestações de gozo têm relação com o discurso do capitalista? E sendo o discurso do psicanalista aquele que pode fazer frente a este discurso, qual é a direção da cura para tais fenômenos? Como já mencionado, o discurso do analista instaura um novo lugar – da transferência - que ultrapassa o desvelamento do sintoma em sua vertente simbólica, apontando para o real como algo de incurável indicativo de nossa divisão fundamental logo, estrutural, e que nos remete à nossa peculiar condição de falantes: É o real que permite desatar efetivamente aquilo em que consiste o sintoma, ou seja, um nó de significantes. Atar e desatar que aqui não são apenas metáforas, mas a serem apreendidos como os nós que realmente se constroem ao formar sua cadeia com a matéria significante. (LACAN, op. cit., p. 515) A psicanálise deve assegurar uma nova ordem para o sujeito, em oposição à ordem da ciência, da magia, da religião ou da filosofia, que propõem a totalização, o impossível encontro sexual. A psicanálise tem a oferecer , ao contrário, o resto, furo real cujo acesso possível é pelas bordas, sob o véu da fantasia. No lugar de objeto causa de desejo para o sujeito - único sujeito do discurso - movido pelo desejo do analista, cujo desejo é pela emergência do singular implicado com lalíngua (a letra). Desta forma, não há como prometer a felicidade, a cura, o paraíso perdido, nem mesmo de fazer caridade, mas nas palavras de Lacan: É ao analista, e a ele somente que se endereça essa fórmula que tantas vezes comentei, Wo es war, soll Ich werden. Se o analista trata de ocupar esse lugar no alto e à esquerda que determina seu discurso, é justamente porque de modo algum está lá por si mesmo. É lá onde estava o mais-de-gozar, o gozar do outro, que eu, na medida em que profiro o ato analítico, devo advir. (LACAN, op. cit., p. 50) CONCLUSÃO 5. CONCLUSÃO Desenvolvemos nesse trabalho a exclusão do sujeito na ciência e, conseqüentemente, nas relações sociais permeadas pelo discurso do capitalista cuja manifestação na contemporaneidade se dá através de um fenômeno chamado globalização exigente por normatização e massificação mundial. Estamos sob a vigência da hegemonia da cultura ocidental em detrimento da alteridade simbolizada nas variações culturais o que, como sabemos, tem como efeito movimentos de grupos baseados na exclusão ao diferente. O totalitarismo vigente fruto da ciência moderna e sua busca por padronização tem como mecanismo principal a dessubjetivação que serve de motor ao ódio, não só ao outro excluído, mas ao próprio sujeito – do inconsciente. Em sua vertente puramente imaginária, reduzido às atribuições e, assim, transformado em indivíduo ao rechaçar sua divisão estruturante, o sujeito passa à consumidor onde se é medido pelo potencial de consumo onde ter corresponde a ser, cujos objetos parecem possuir consistência e, portanto, com poderes de completude. Ao contrário da operação de subtração cujo resto move o desejo, a atual sociedade de consumo parece usar a operação de adição, numa tentativa de recuperação de gozo, de sempre um a mais: adição à drogas, aos gadgets da ciência , a... O que só faz aumentar o grupo de consumidores e o grupo dos excluídos. Visionário deste movimento crescente de segregação cujo exemplo máximo são os campos de extermínio, Lacan em sua “Proposição de 09/10/1967” nos diz: o que vimos emergir deles, para nosso horror, representou a reação de precursores em relação ao que se irá desenvolvendo como conseqüência do remanejamento dos grupos sociais pela ciência, e, nominalmente, da universalização que ela ali introduz. Nosso futuro de mercados comuns encontrará seu equilíbrio numa ampliação cada vez mais dura dos processos de segregação. (LACAN, 1967, p. 263) As exigências do mercado atingem também a saúde que passa a mais uma mercadoria – moeda de troca – seja na forma de acesso ao serviço, seja no uso de medicação com forte apelo midiático e o imperativo determinante da indústria farmacológica que, não por acaso, encontra-se ao lado da indústria bélica (lembremos, o horror ao diferente gera extermínio) como aquelas que movimentam bilhões de dólares e, portanto, não podem parar. Destacamos também a respeito da função normatizante/moralizante da medicina em sua associação com o discurso da tecnociência. A forma que o manual nosográfico da psicopatologia vem tomando se encontra fundamentada no reducionismo biologizante a partir de uma adequação às ofertas da psicofarmacologia. Os sofrimentos psíquicos – transformados em transtornos passam a ser reordenados a partir da observação fenomenológica do comportamento e sobre o qual as novas drogas podem ter alguma eficácia. Qualquer acento que poderia recair sobre a subjetividade é anulado não havendo espaço para os processos psicodinâmicos considerados na psiquiatria tradicional. Na atualidade o tratamento possível para as doenças mentais são medicamentosos (aliás, os psiquiatras destes novos tempos biológicos, são nomeados de psicofarmacologistas) acompanhados, no máximo, de terapia cognitivo-comportamental, os neuropsicólogos, também sob o domínio do biológico como determinante do comportamento humano aos moldes da neurologia e sua tentativa de espacialização do psiquismo. Entendemos que o sujeito do inconsciente ao ser excluído do discurso da ciência – sob a regência do capital– vai de alguma forma retornar. Mas de que forma? Sabemos com Lacan que aquilo que é foracluído no simbólico, retorna no real. O sujeito, desconsiderado, rechaçado, como retornará? Será que podemos dizer que a exclusão do sujeito apresenta como conseqüência patologias ligadas ao ato que, ao contrário do sintoma, são pouco abordáveis pela palavra logo, retornam como gozo – real – em detrimento do simbólico? Será que poderíamos dizer que os fenômenos que se apresentam no sujeito são o efeito sujeito à exclusão? Por que temos na atualidade um recrudescimento das modalidades de gozo manifestadas em compulsões diversas? Estas questões vêm ganhando força no meio psicanalítico neste momento de acirramento do discurso do capitalista e vem como resposta a elas o declínio da função paterna apresentando assim, os chamados “novos sintomas da contemporaneidade”. Gostaríamos também de levantar um pouco mais de polêmica ao assunto sem a pretensão de esgotá-lo e/ou responder, caso que não cabe neste espaço de conclusão. Atrevemo-nos apenas somar ao grupo de discussão levantando mais interrogações. Em seu texto “Totem e Tabu” de 1913, Freud utiliza-se de um mito para elucidar o surgimento da civilização através da criação de uma lei que, como tal, pacifica, modula as relações com o semelhante, além de aludir à renúncia à satisfação pulsional como inerente à constituição do sujeito e ao processo civilizatório. Ao final do texto conclui: “os neuróticos são, acima de tudo inibidos em suas ações: neles, o pensamento constitui um substituto completo ao ato. Os homens primitivos, por outro lado, são desinibidos: o pensamento transforma-se diretamente em ação.” (FREUD, 1912, p. 190-1) Retiramos este pequeno fragmento da teorização freudiana para propor algumas questões que surgem na atualidade. Podemos entender com Freud que a lei – Nome-do-Pai – possibilita um modo de estruturação psíquica que é a neurose e, portanto o sujeito abdicaria da satisfação pulsional de sobrepujar o outro, substituindo o ato pelo pensamento: a postergação da satisfação a serviço do princípio de realidade, sublimação ou qualquer outro recurso em que o “pensamento” surja como forma de mediação ao ato, substituto da com-pulsão acéfala. Retornaremos neste ponto. No momento, recorreremos à teoria para tentar circunscrever algumas questões que se apresentam como rusgas entre o sujeito e a civilização na contemporaneidade. Ao opor-se à distinção entre individual e social e ao considerar o inconsciente e suas formações, a psicanálise define o sujeito como efeito da cultura – linguagem – porém não cristalizado a este ou aquele significante, mas entre eles, em seus deslizamentos, pois o próprio campo da linguagem nos remete ao mal-entendido, às ambigüidades características do significante. Se o inconsciente é estruturado como uma linguagem, inclui, em sua essência, a cultura na qual o sujeito vai constituir-se e, assim, esta primeira marca significante que se encontra no campo do Outro perpassa e é perpassado pelo social. O sujeito do inconsciente é efeito da linguagem, referido ao “social”, porém nem a linguagem, nem o social são passíveis de “criar” o sujeito, que será constituído a partir das determinações do campo do Outro, mas não lhe é essencialmente idêntico, algo escapa promovendo “furo” nessas determinações. Opondo-se à conceituação de indivíduo, em sua etimologia não-dividido, a psicanálise considera o sujeito - do gozo e do desejo - dividido em relação ao que o causa. Assim, a civilização não é causa do sofrimento psíquico, mas é a condição do sujeito , da doença e da loucura, ocorrendo aí, uma dialetização entre o advento do sujeito a partir do processo de aculturamento e sua conseqüente sintomatologia, vicissitude característica dos falantes, pois como vimos o atravessamento da cultura promove a passagem do homem primitivo ao neurótico. Sabemos que o objetivo da civilização é domar o gozo mortífero que nos aproxima de nossos ancestrais primitivos em seu impulso à destruição e à morte. Nas palavras de Freud é a forma de regular os homens em seus relacionamentos mútuos, pois como verificou, a inclinação do homem é de aniquilar: “O homem é o lobo do homem”. Na atualidade observamos a disseminação de conceitos e valores onde, ao contrário do objetivo acima, há um imperativo de gozo, o que nos faz questionar a respeito deste nosso momento civilizatório. Há um declínio da lei do Édipo? Existiram sociedades anteriores onde o processo de aculturamento foi mais bem empregado? Há um retorno à barbárie, à horda primitiva? Estamos todos fora da lei e, portanto, estamos na psicose ou surgiram novas estruturas psíquicas? Sabemos da lei, mas mesmo assim... então, somos todos perversos? Vamos então pensar na lei – na castração. O assassinato do pai e a culpa subjacente ao ato, levam à identificação com o pai morto e a internalização da Lei que proíbe o parricídio e o incesto impedindo assim, que um outro venha ocupar o lugar do pai primevo. É preciso ultrapassar esse imperativo de gozo localizado no pai da horda, cujo capricho é lei para o grupo que, fazendo-se exceção, tem acesso ao absoluto do gozo. Há que se ter uma lei na qual todos aqueles que habitam a linguagem se submetem: Lei do desejo, lei simbólica onde todos, sem exceção, pagam a dívida com sua libra de carne: a castração. Desta forma, a legitimação do desejo do sujeito se inscreve como uma dívida simbólica, um pacto com o pai. Dívida que, apesar de honrada quando no assentimento do limite ao gozo absoluto, nunca é quitada permanecendo, ao contrário, registrada como uma espécie de nostalgia dolorosa quando na renúncia da satisfação pulsional. O pacto com o pai permite o ingresso na cadeia do desejo, estabelecendo uma espécie de “contrato com o falo”, onde ser fiel a este gozo (fálico) seria justamente consentir com uma satisfação parcial que satisfaz (pontualmente) um sujeito e não um organismo. A castração limita o gozo, é essencialmente perda. Há uma falta na lei da castração e isto tem um duplo sentido: A castração impõe uma falta no sujeito, pois o objeto que supostamente o completaria está para sempre perdido; e o sujeito encontra-se em falta para com a lei porque dela nada quer saber e por isso a tendência ao retorno ao inanimado, em outras palavras, o sujeito se submete e tenta burlar a lei. Freud, em seu texto “A divisão do eu no processo de defesa” (1940) nos fala deste conflito entre as exigências da cultura e a satisfação pulsional ao qual o sujeito responde permitindo a satisfação de ambas as partes, porém isso se dá “ao preço de uma fenda no eu”. “As duas reações contrárias ao conflito persistem como ponto central de uma divisão do eu.” (FREUD, 1940, p. 309-0) Podemos entender então que a lei da castração não é integralmente operante. Por originar-se do crime, a lei funda o pecado e o pecador trazendo em seu bojo um empuxo à tentação. A lei que serve para mediar nossa relação com o outro não impede totalmente o pecado, pelo menos não o desejo de pecar, indicando com isso uma falha na ordem simbólica, um furo real como resto não simbolizável. Como vimos, não devemos esquecer a presença do supereu como herdeiro do complexo de Édipo e portador também de um paradoxo: representante da lei e, ao mesmo tempo remanescente da fusão narcísica, o supereu compreende a lei e sua própria transgressão. Então, a partir do exposto, surgem as questões: Se, conforme o exposto, a lei encontra-se no cerne da constituição do sujeito, ao supor o declínio da função paterna não estamos afirmando que as condições para o surgimento do sujeito estão também em dissolução? Ao afirmar o declínio da lei na atualidade, não estamos considerando que em algum momento, no passado e em outras civilizações, ela já foi mais bem sucedida? Não estamos recusando o princípio de parcialidade da operação da lei? E, portanto, não estamos confrontando a teorização da lei e o mal-estar inerente à civilização? Lacan nos diz que “a gulodice pela qual Freud denotou o supereu é estrutural – não é um efeito da civilização, mas um ‘mal estar (sintoma) na civilização”. (LACAN, op. cit., p. 528) Como o supereu seria um sintoma na civilização? O supereu em sua vertente de ideal do eu traz o imperativo do gozo, o empuxo-ao-gozo como resto não simbolizado pela lei, acarretando um sintoma no processo civilizatório por apontar, justamente, a incompletude no Édipo, a existência de um furo na lei indicativo de nossa fundamental divisão: somos lobos em peles de cordeiro. Somos civilizados, mas o primitivo nos habita. Então quanto à questão se há declínio ou não da função paterna, talvez devêssemos formular se não há, na verdade, em momentos históricos e sociais diversos, formas diferentes de fazer frente à castração. Será que poderíamos entender com isso, que os sintomas apareceriam revestindo o sujeito aos moldes do figurino da época e, sendo assim, não teríamos “novos sintomas”, mas novas formas de recobrimento do mal-estar? Se respondemos que sim, como se dá isso hoje? Também é lugar comum a afirmação de que estamos vivendo num mundo de violência e segregação, onde é possível passar ao lado da multidão de pedintes abandonados à própria sorte, em uma total indiferença a tais fenômenos sociais conduzindo todos à máxima “do cada um por si”. O que vem se instalando na contemporaneidade é uma normatização dos sujeitos, onde temos que ter – ou parecer ter – para fazer parte da uniformização do grupo. Assim, projetos pessoais perpassados pelo desejo que apontam para singularidade são abandonados e o que se observa é um individualismo extremado. O eu, na sociedade do espetáculo, está em alta. Como podemos entender isto? Os psicanalistas respondem que estamos sob a regência do discurso do capitalista e assim presos a um discurso fechado em si mesmo e que não faz laço social: Discurso do Capitalista ↓$ S1 S2 ↓ a Assim, embora o sujeito se encontre no lugar do agente e acreditando estar no domínio, na verdade está submetido ao excesso de objetos prontos para o consumo ofertados pelo mercado. Tais objetos não são eleitos pelo sujeito, portanto não dizem respeito ao seu desejo, mas ao mandato superegóico Goza! cuja resposta dada é uma assertiva: Gozo! em uma obediência cega. Talvez daí possamos entender também o tal individualismo, porque subsumido no discurso, o sujeito só pode ser representado imaginariamente, necessitando sempre de mais objetos para se completar e adquirir alguma consistência, crendo-se inteiro, indiviso. Então, diante da maior fonte de sofrimento apontada por Freud - a relação com o semelhante que é sempre de desencontro, problemática, dividida, faltosa – a solução encontrada seja não partilhar com os demais humanos ficando todos presos a um gozo solitário, num mundo do eu. Ao que parece, estamos diante de um recrudescimento de rejeição à alteridade, onde para fazer frente à castração - à falta indicativa do desejo, logo à singularidade - há uma imposição por uma normatização, uma massificação a partir de um discurso onde o sujeito está elidido. A partir do aforismo lacaniano “ o que foi foracluído no simbólico, retorna no real” tentamos explicitar que o sujeito foracluído nos discursos da contemporaneidade retorna, não sob a forma de retorno do recalcado em sua manifestação simbólica, mas sob a forma de gozo em sua vertente de morte e, portanto, sem os sentidos norteadores do gozo fálico. Em outras palavras, o rechaço à singularidade retorna sob o aspecto de patologias ligadas ao ato, cujas manifestações atuais são compulsões diversas em alusão à pulsão de morte e que fazem objeção ao saber todo da ciência. Sob o imperativo de “Tudo Saber!” do discurso do universitário e a serviço do discurso do capitalista, a ciência busca a produção de um saber globalizante e alienante desconsiderando aquilo que resta - pois todo discurso deixa um resto - que neste caso é o sujeito do inconsciente. Observamos na clínica a incidência deste gozo irrepresentável, indizível, apresentando-se no corpo como fenômenos – psicossomático, toxicomanias, compulsões diversas – que, ao contrário do sintoma, não são historicizáveis, mas aparecem dissociados do sujeito, como uma espécie de possessão. De forma recorrente, o sujeito quando incitado a falar sobre sua compulsão ou sobre seu fenômeno psicossomático faz uma descrição do ato em si, sem fazer nenhum tipo de associação, ao contrário, o que ouvimos de maneira geral é não sei, não entendo, não me reconheço, indicativo de sua localização na região brumosa da pulsão de morte e, portanto, invisível e silenciosa, não representada pelos enlaçamentos significantes, logo, sem palavras, muda. Freud indicou, ao final do texto do mal-estar que só Eros pode fazer frente a Tanatos: “ Agora só nos resta esperar que o outro dos dois ‘Poderes Celestes’, o eterno Eros, desdobre suas forças para se afirmar na luta contra o seu não menos imortal adversário”. (FREUD, op. cit., p. 170-14), então podemos entender que a via para o tratamento de patologias ligadas à pulsão de morte é a libido. Devemos fazer falar, qualquer coisa que vier à cabeça – as histórias, contos e mitos individuais do neurótico, estes sim passíveis de intervenção - e assim, através da associação livre, produzir amarrações a esta energia livre e desligada que é a pulsão de morte. Freud encerra sua Conferência XXXI indicando o trabalho do psicanalista frente à compulsão à repetição e ao mandamento do supereu. Em suas palavras: “Seu propósito, é na verdade, fortalecer o eu, fazê-lo mais independente do supereu, ampliar seu campo de percepção e expandir sua organização , de maneira a poder assenhorar-se de novas partes do isso. Onde estava o isso, ali estará o eu.” (FREUD, 1933, p. 102) Podemos compreender assim, que o ato analítico favorece na elaboração psíquica ao promover a retificação subjetiva na qual o sujeito não fica tão à mercê do determinismo do isso. Ao permitir a palavra ao sujeito na associação livre – que já nos remete à ligação - em sua constante indicação do desejo, o analista favorece a perspectiva do lado do pensamento, da elaboração psíquica, e assim, quem sabe, o sujeito possa inibir o ato, possibilitando menos padecimento – de gozo – no corpo, porque a cabeça pensa, pensamento que é inconsciente. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BIRMAN, J. Despossessão, saber e loucura: sobre as relações entre psicanálise e psiquiatria hoje. In QUINET, A. (org). Psicanálise e Psiquiatria – controvérsias e convergências, Rio de Janeiro, Rios Ambiciosos, 2001, BOGOCHVOL, A. Sobre a Psicofarmacologia. Disponível em: <http://www.geocities.com/HotSprings/Villa/3170/ArielBogochvol.htm>. Acesso em: 28/06/2008. CANGUILHEM, G. O que é a psicologia? <http://br.geocities.com/materiapensante/oqepsicologia.html>. 16/06/2007. Disponível Acesso em em: CARNEIRO RIBEIRO, M.A. O traço que fere o corpo. In ALBERTI, S. e CARNEIRO RIBEIRO, M.A. (orgs). 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AUTORA: Maristela Azevedo de França Oliveira Bastos JUSTIFICATIVA: Ao verificar uma série de equívocos nos serviços públicos em relação ao lugar da psicologia na rede de atenção à saúde, decidimos estabelecer medidas que objetivassem a promoção de saúde mental na observância de critérios mínimos para a formalização de um tratamento a nível ambulatorial. Para tal, devemos priorizar a escuta do sujeito do inconsciente obliterado pelo tratamento convencional psiquiátrico ou, atualmente, pela exigência de consumo e produção característicos deste nosso momento social. Embora conhecedores de que a psicanálise não se encontra inserida formalmente na rede de cuidados em saúde mental, acreditamos encontrar em seu escopo teórico o referencial por excelência de uma clínica que privilegia a emergência do sujeito. Desta forma, utilizaremos dos conceitos básicos da psicanálise como norteadores de um serviço ambulatorial de saúde mental (casos não absorvidos pelos CAPS, ou seja, estruturas neuróticas), conceitos fundamentais para um atendimento pautado na emergência do sujeito - do inconsciente - ainda em que pese as múltiplas abordagens teórico/clínicas inerentes às escolhas de cada profissional “psi”. Evidenciamos ainda, um leque de mal-entendidos de qual seja o papel da psicologia na medida em que, ao focar a multidisciplinaridade proposta na Reforma Psiquiátrica em torno de seu objetivo fundamental de reinserção social, acaba-se, muitas das vezes, por negligenciar as especificidades de cada campo de saber. Em outras palavras, podemos compartilhar deste objetivo, porém atendendo as particularidades de cada área técnica porque é justamente da pluralidade de atuações logo, da diferença, que se compõe um trabalho de equipe. Pensamos então na elaboração deste material, na tentativa de levantar questionamentos nos profissionais da área, demarcar e garantir este lugar – psicologia clínica - não só como mais um dispositivo no território de atenção à saúde mental, mas como lugar continente que privilegia a emergência do sujeito e seu desejo. OBJETIVO GERAL: Possibilitar informações e acesso a um serviço de psicologia clínica como mais um equipamento integrante do território de atenção à saúde mental tendo como norteadores os conceitos básicos da psicanálise. OBJETIVOS ESPECÍFICOS: Levantar discussões e questionamentos nos profissionais de saúde mental quanto: 1. a qualidade do serviço oferecido à população; 2. a necessidade de formação e qualificação profissional; 3. a necessidade de estudo e supervisão de casos; 4. aos equipamentos que compõem o território de atenção à saúde mental, suas especificidades e atribuições. . Por uma clínica do sujeito Em que a Psicanálise pode contribuir com o ambulatório de psicologia na rede pública de atenção à saúde mental? APRESENTAÇÃO . Iniciaremos com a proposta de promoção à saúde veiculada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) tendo como norteadores as diretrizes da Reforma Psiquiátrica Brasileira e seu modelo de Rede de Atenção à Saúde Mental. O movimento da reforma redimensiona a questão da hegemonia do saber médico/psiquiátrico quanto ao tratamento das chamadas doenças mentais, constituindo-se como um campo de saúde mental, um campo multidisciplinar e, portanto, sob a perspectiva de articulação entre múltiplos saberes. Sob este enfoque, e entendendo o serviço de psicologia clínica como dispositivo integrante na rede de atenção à saúde mental, propomos pensar a forma de inclusão deste campo de saber preservando seu corpo teórico/técnico. Nossa proposta, portanto, não é evidenciar a hegemonia de um saber sobre o outro, mas priorizar as diferenças entendendo serem estas que compõem um trabalho de equipe rico e eficazmente interdisciplinar, palavra que nos remete à interlocução entre saberes. Então, as questões que permearam este trabalho foram: E a Psicologia? Qual é sua forma de inclusão e contribuição nesta rede de atenção? Sabemos que o foco da Reforma Psiquiátrica é a restituição da cidadania do paciente psiquiátrico, dado realmente necessário para um mínimo de humanização de uma assistência secularmente segregadora. Porém, tornou-se pano de fundo o reconhecimento da existência de um sujeito que ultrapassa as atribuições sociais de louco, são, pobre rico, branco, preto... (e todas as demais características recebidas em sua existência). Acrescentamos ainda o fato de uma camada da população apresentar sofrimento psíquico e necessitar de tratamento, porém não indicativo para os CAPS. Desta forma, acreditamos necessária a formalização de um espaço de escuta da singularidade e reconhecemos no ambulatório este lugar privilegiado para a emergência do sujeito: a marca singular de cada um ao fazer uso de sua palavra. Ao se tentar fortalecer um lugar de escuta, tentamos sair do senso comum que a palavra “escuta” parece ter adquirido. Um sentido próximo a uma compreensão complacente com uma oferta de atendimento que infantiliza o sujeito na medida em que se torna premente a presença de um técnico para resolver seus infortúnios e não é convocado a trabalhar, numa proposta de passividade que impede mais que possibilita a emergência da singularidade e, portanto, do desejo e sua conseqüente responsabilidade. Este trabalho não pretende esgotar as questões inerentes à clinica que, por se dar caso-a-caso – apesar de sustentada num escopo teórico – é um processo dinâmico e, portanto, atualizada a cada paciente que inicia uma psicoterapia. Nossa proposta, desta forma, é de levantar pontos de discussão e espaço para novos estudos teórico-clínicos. 1. O SUS e a Reforma Psiquiátrica A proposta do SUS - estruturado pela Constituição Federal de 1988, Titulo VIII, Da Ordem Social, Capítulo II - para atenção à saúde se dá a partir dos conceitos de universalidade e integralidade. Sobre estes princípios entendemos um modelo de assistência que visa atingir todas as camadas da população com estratégias que prevêem uma escala de intervenções de menor a maior complexidade objetivando obviamente, as intervenções em prevenção e promoção à saúde em sua amplitude. A saúde mental encontra-se inserida neste contexto e tem como base as diretrizes propostas pelo movimento de Reforma Psiquiátrica Brasileira, movimento que coincidiu com a reforma sanitária nos anos de 1970. Inicialmente, o movimento de reforma centrou-se na dimensão política do “tratamento” oferecido ao louco, denunciando o caráter segregador e desumano do modelo manicomial e priorizando a restituição dos direitos de cidadania que a prática de instituição total destitui de seus asilados. A dimensão clínica do tratamento – clínica psiquiátrica tradicional – acompanhou as mesmas críticas na medida em que respaldava, em nome da ciência, a prática da exclusão. Sob este viés, e em referência ao modelo italiano, a reforma brasileira valorizou o dispositivo de atenção psicossocial -reabilitação psicossocial - que visa restituir a autonomia e os direitos de cidadania objetivando a reinserção social. A proposta da reforma tem um modelo de organização em rede e que ultrapassa o conceito de serviço especializado em uma tentativa de responder às diversas demandas de tratamento de pessoas com sofrimento psíquico. É a articulação dos múltiplos dispositivos formais de assistência, acrescidos daqueles inerentes à própria comunidade que se estabelece um modelo de tratamento viabilizado por parcerias formadoras de uma rede, na qual se organiza um território não subsumido a um espaço geográfico ou físico, mas a todo um conjunto de ações cujo objetivo é a promoção de saúde mental. Para isso se faz necessário o pensamento abrangente da reforma quanto à contextualização e discriminação dos meios próprios ao sujeito e comunidade considerando estes atores portadores de recursos para o abrandamento do sofrer psíquico: O território é a designação não apenas de uma área geográfica, mas das pessoas, das instituições, das redes e dos cenários nos quais se dão a vida comunitária. Assim, trabalhar no território não equivale a trabalhar na comunidade, mas a trabalhar com os componentes, saberes e forças concretas da comunidade que propõem soluções, apresentam demandas e que podem construir objetivos comuns. Trabalhar no território significa assim resgatar todos os saberes e potencialidades dos recursos da comunidade, construindo coletivamente as soluções, a multiplicidade de trocas entre as pessoas e os cuidados em saúde mental. É a idéia do território como organizador da rede de atenção à saúde mental, que deve orientar as ações de todos os seus equipamentos. (REFORMA PSIQUIÁTRICA E POLÍTICA DE SAÚDE MENTAL DO BRASIL, 2005, p. 26) REDE DE ATENÇÃO À SAÚDE MENTAL ESF * ESF SF * CAPS Centro de Atenção Psicossocial ESF * Escola Família CAPSad CAPSi Vizinhos Trabalho Unidades de Atenção à Saúde Lazer ESF * Hospital Geral ESF * Pronto Socorro Municipal CRAS Conselhos Esporte ESF * Residências Terapêuticas ESF * Fonte: Reforma Psiquiátrica Brasileira e Política de Saúde Mental, 2005. *ESF – Equipe de Saúde da Família Verificamos com isso, que o território de atenção à saúde mental perpassa e é perpassado por toda comunidade. Entendemos que apesar dos objetivos comuns, os diversos serviços devem preservar sua especificidade na articulação com os demais. Segundo material elaborado pelas Coordenação Geral de Saúde Mental e Coordenação de Gestão de Atenção Básica (Ministério da Saúde), o CAPS é o ordenador da rede de atenção à saúde mental, o dispositivo estratégico para a organização desta rede, porém: Apesar de estratégico, o CAPS não é o único tipo de serviço de atenção à saúde mental. Aliás, a atenção em saúde mental deve ser feita dentro de uma rede de cuidados. Estão incluídos nesta rede: a atenção básica, as residências terapêuticas, os ambulatórios, os centros de convivência, os clubes de lazer, entre outros. (SAÚDE MENTAL E ATENÇÃO BÁSICA, número 01/03, p. 2) O trabalho é multidisciplinar, o que não pode ser entendido como atuações idênticas, mas nos seus entrecruzamentos e nas demarcações de cada campo de saber. É importante ressaltar estes aspectos, porque ocorrem certas confusões quanto a manutenção e preservação de cada lugar posicionando-se o profissional ora de forma estanque fixado no seu campo de saber, ou, ao contrário - sob a ótica exclusiva de reinserção (e podemos cair para um enfoque puramente assistencialista) - todos os profissionais atuando do mesmo modo, indistintamente e, portanto, contrário ao modelo de interdisciplinaridade, que prevê a intersecção, a articulação das disciplinas a partir de um objetivo comum: promoção de saúde mental. Uma equipe interdisciplinar propõe a assistência ao indivíduo na medida de suas necessidades preservando as peculiaridades de cada disciplina. Psicologia Serviço Social Saúde Mental Psiquiatria n... Vejamos o modelo de atenção à saúde em sua abrangência territorial em conformidade com o SUS: ATENÇÃO EM SAÚDE Referência e Contra-referência ATENÇÃO ESPECIALIZADA B A C ATENÇÃO BÁSICA SAÚDE MENTAL D TRANSTORNO NEURÓTICO DEPENDÊNCIA QUÍMICA PACS ESFs PSICOSE NASFs CAPS CAPSad Supervisão CAPSi ASSISTÊNCIA AMBULATORIAL ASSISTÊNCIA HOSPITALAR HOSPITAL GERAL UNIDADES DE ATENÇÃO À SAÚDE 2º. Dist, Sanitário Unidade de Saúde 1º. Dist. Sanitário CEM A M B U L A T Ó R I O S Apoio às eSFs Referencia se necessário. AMBULATÓRIO PSICOLOGIA 3º. Dist. Sanitário Unidade de Saúde NEUROLOGIA GINECOLOGIA PEDIATRIA CARDIOLOGIA ENFERMARIAS CL. MÉDICA 4º. Dist. Sanitário Unidade de Saúde OUTRAS ESP. n... PRONTO SOCORRO PSICOLOGIA CRIANÇA 5º. Dist. Sanitário Unidade de Saúde ADULTO ADOLESCENTE LEGENDA: ESF PACS ESTRATÉGIA DE SAÚDE DA FAMÍLIA PROGRAMA DE AGENTES COMUNITÁRIOS (Considerado parte da ESF) NASF NÚCLEO DE APOIO À SAÚDE DA FAMÍLIA CAPS CENTRO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL CAPSad CENTRO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL ÁLCOOL E DROGAS CAPSi CENTRO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL INFANTO-JUVENIL Observações: * Não é preconizado pelo SUS profissionais de saúde mental nas equipes de SF. O modelo de clínica (psiquiatria e psicologia) é inerente ao dispositivo ambulatório na rede de cuidados. * A inserção da saúde mental na atenção básica se dá através de uma Equipe Matricial (Saúde Mental e Atenção Básica, 2005) ligada aos CAPS, onde houver. * A portaria no. 154 de 24/01/2008, cria o NASF que institui a formação de uma equipe multidisciplinar para dar suporte às equipes de SFs. A equipe dos NASFs é formada por cinco profissionais de nível superior não coincidentes com aqueles das equipes de SFs. Cada NASF atenderá o mínimo de 08 (oito) e o máximo de 20 (vinte) equipes de SF. Os NASFs funcionam sob a forma de referência e contrareferência e sua função é apoiar, supervisionar e orientar as equipes promovendo o ingresso de novos atores na rede de cuidados. * § 2º. Tendo em vista a magnitude epidemiológica dos transtornos mentais, recomenda-se que cada Núcleo de Apoio à Saúde da Família conte com pelo menos 1 (um) profissional de saúde mental. (PORTARIA 154, 24/01/2008) * Cada dispositivo da rede tem seus atores e o grau de alcance de suas intervenções, acontecendo a entrada (referência) gradativa de novos elementos na medida em que se esgotam os recursos dos primeiros. Partimos da visão ampla de rede de atenção, seus diversos equipamentos e o grau de alcance e inserção de cada um deles. O psicólogo pode atuar nos NASFs, nos CAPS, no Hospital, Pronto Socorro, nos ambulatórios e outros. Priorizaremos agora, a modalidade de inserção do psicólogo no equipamento Ambulatório de Psicologia. Como vimos, a Reforma prioriza a reinserção social com o resgate dos direitos contratuais de cidadania. Propomos interrogar se damos lugar para o sujeito quando visamos apenas a restituição dos direitos civis. Sujeito e cidadão convergem? O conceito de sujeito, como sabemos, ultrapassa as atribuições apontando para a diferença, logo, para a particularidade e, sendo assim, não pode ser reduzido à universalidade dos direitos do cidadão. Cabe ressaltar que a proposta de atenção à saúde mental tem como modelo uma rede de cuidados que deve contemplar toda a população na medida de suas necessidades, não reduzindo seu campo de ação à prevenção ou aos CAPS. Se por um lado, como profissionais de saúde mental, devemos promover a reinserção social, devemos também promover a emergência do sujeito em um lugar continente de escuta da singularidade. E assim, talvez, a organização de sua vida possa passar por ele e seu desejo e não exclusivamente por aquilo que o técnico – mais uma vez aquele que possui a técnica, em outras palavras; sabe - a partir de um saber apriorístico acredita ser bom para ele. Com esta visão de sujeito propomos pensar no lugar do Ambulatório de Psicologia no contexto da Reforma e da política do SUS. 2. Psicologia: Um pouco da sua história Para delinear a questão da clínica, precisaremos fazer uma digressão sobre qual é o lugar da Psicologia e seu campo de saber a partir de sua insistente tentativa em habitar o corpo científico que tem como paradigma o modelo cartesiano. Em seu texto “O que é a Psicologia?” de 1958, Canguilhem já antecipava o atual rumo tomado pela psicologia em abarcar diversas áreas de saber e em sua aproximação com as neurociências acreditando-se assim, mais próxima aos rigores da ciência: Para a psicologia, a questão de sua essência, ou mais modestamente de seu conceito, coloca em questão também a própria existência do psicólogo, na medida em que, por não poder responder exatamente o que é, tornou-se bastante difícil para ele responder o que faz. [...] A unidade da psicologia é aqui procurada na sua definição possível como teoria geral da conduta, síntese da psicologia experimental, da psicologia clínica, da psicanálise, da psicologia social e da etnologia. (CANGUILHEM, 1973, p. 1-2) A psicologia a partir da física aristotélica é considerada como “parafísica”, como ciência natural. Em sua etimologia Psicologia deriva da junção de duas palavras gregas, psyché (alma) e logos (tratado, estudo), assim, resumidamente, psicologia em sua origem e em tradução literal seria estudo da alma, sendo esta entendida como ser natural. À alma consistem a metafísica, a lógica e a física. O objeto da física é o corpo natural e organizado, a vida, essencialmente; reconhecendo a alma como parte do vivo e não como matéria separada. Desta forma, estudar o funcionamento do aparelho respiratório e digestivo ou estudar os sentidos exteriores e interiores é da mesma ordem e provenientes da mesma matéria. “A ciência da alma é uma província da filosofia no sentido originário e universal da teoria da natureza” (CANGUILHEM, Ibid, p. 3) O sujeito é apresentado como organismo pulsional com sua unificação imaginária, desconsiderando a vertente simbólica na constituição da subjetividade. Canguilhem atenta ainda para o fato de que esta concepção antiga é originária de um aspecto da psicologia na contemporaneidade: A psicofisiologia – considerada por muito tempo como psiconeurologia exclusivamente (mas, atualmente, além disso, como psico-endocrinologia) e apsicopatologia como uma disciplina médica. [...] Não parece supérfluo lembrar que [...] uma revolução de não menos importância que a teoria da circulação ou da respiração é devida a Galeno de Pérgamo, quando ele estabeleceu que é o cérebro e não o coração, que é o órgão da sensação e do movimento, e a sede da alma. (Ibid) Com o declínio da física aristotélica, no século XVII, a psicologia encerra o período de para-física, abandonando o lugar de ciência de um objeto natural e surgindo como “ciência do sujeito pensante” a partir das formulações dos físicos mecanicistas. A realidade do mundo não é mais confundida com o conteúdo da percepção, que pode ser ilusória, pois se trata do resultado da experiência sensível do homem que percebe. Há uma depreciação progressiva da experiência pois dáse como “falsificação do real” e assim, a psicologia surge para tentar explicar os enganos dos sentidos, para desculpar o espírito que é estruturalmente falseador em suas interpretações da realidade. O objetivo da psicologia é, a partir da física, explicar o porquê deste ardil do espírito. Como ciência da subjetividade tem sua origem na “psicofísica”, pois necessitava aproximar-se do pensamento vigente de ciência para ser considerada como tal. Necessitava ainda encerrar seu objeto de pesquisa “na estrutura do corpo humano, a razão de existência dos resíduos irreais da experiência humana” (Ibid, p. 4), não se tratando, contudo, de um retorno à ciência da alma. A física deste momento é um cálculo, cabendo à psicologia para alçar à condição de ciência, imitá-la. Canguilhem destaca a influência de Descartes neste rigor quantitativo e a tentativa de vários pesquisadores para aproximar a psicologia da física, culminando com os trabalhos de psicologia experimental de Wilhelm Wundt na “esperança de fazer aparecer, nas leis dos ‘fatos de consciência’, um determinismo analítico do mesmo tipo, aquele do qual a mecânica e a física deixam esperar de toda ciência a universal validade.” (idem) Ainda ao longo de sua história, recebeu influências de alienistas como Pinel e Esquirol, além das conceituações psicanalíticas do inconsciente, adquirindo estatuto de ciência do sentido íntimo, pois agora o psíquico não se limita à consciência, não se reduz à ciência da intimidade, mas à ciência do que é mais profundo e misterioso: a alma. “Não é mais somente o que está escondido, mas o que se esconde”. (Ibid, p. 7) Apesar da influência freudiana ocorre uma separação substancial entre psicologia e psicanálise no século XIX. Neste século vai fundar-se como uma biologia do comportamento humano, além da sua constituição como patologia nervosa e mental, como física do sentido externo, como ciência do sentido interno e do sentido íntimo. Canguilhem sugere que este desfecho se deu não só pelo apego à cientificidade, mas também por razões econômicas e políticas que determinaram a uniformização do comportamento humano em detrimento da particularidade. Em outras palavras, o acento recaiu sobre as semelhanças e não sobre as diferenças. Recusando seu passado que o estudo da alma faz aludir, a psicologia tornase instrumento do instrumentalismo cujo conceito de homem é o de ferramenta. Para o autor o psicólogo do século XX é um “prático profissional cuja ciência é totalmente inspirada na pesquisa das leis da adaptação a um meio sócio-técnico”. (Ibid, p. 9) Acrescenta ainda, que ao colocar-se como psicólogo do comportamento humano assume uma posição de superioridade, o que poderíamos acrescentar; característica da mestria próxima ao discurso médico. Observamos por este breve apanhado histórico a ampliação gradativa do campo da psicologia o que se reflete, obviamente, nas atribuições do profissional psicólogo. Segundo o Catálogo Brasileiro de Ocupações* – a partir de informações prestadas pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP): “O Psicólogo, dentro de suas especificidades profissionais, atua no âmbito da educação, saúde, lazer, trabalho, segurança, justiça, comunidades e comunicação com o objetivo de promover, em seu trabalho, o respeito à dignidade e integridade do ser humano.” (CBO, 17/10/1992) Assim, podemos entender que o curso de Psicologia nos dá uma formação generalista que nos permite atuar em múltiplas atividades. A questão que se impõe é: A graduação nos habilita, mas será que nos capacita? Nada impede que, em posse do diploma e do registro no conselho, atuemos em qualquer das áreas mencionadas, mas será que nosso dever ético com uma proposta de prestação de um serviço de qualidade, não exige uma formação específica? Caso respondamos afirmativamente, a mesma exigência pessoal se faz para a atuação na Psicologia Clínica. Como vimos, a psicologia sofreu influências também da psicanálise que estabelece a formação do analista – proposta por Freud - alicerçada em um tripé: estudo teórico junto aos pares – demais analistas - análise pessoal e supervisão de caso clínico. Apesar das inúmeras abordagens teórico/clínico no campo da psicologia, ao que parece, todas as formações têm como base este modelo. Acreditamos com isso, que precisamos estudar mais, passar pela vivência do processo terapêutico (para superar, inclusive, preconceitos nossos que nos impedem de aceitar as diferenças e, conseqüentemente, de sermos bons clínicos) e acreditar que um outro (supervisor) possa contribuir na nossa clínica, supondo neste outro um saber. Este modelo de formação impõe um limite à pretensão do saber todo, completo, veiculado na universidade e, muitas das vezes, pelo próprio psicólogo que, ao não reconhecer-se em falta, faz valer este discurso. Talvez daí a disseminação no imaginário popular de que sabemos aquilo que o sujeito tenta esconder, lemos nas entrelinhas, como se vivêssemos no dia-a-dia sob os ditames da profissão sem vida pessoal e, portanto, sem os entraves e dificuldades cotidianos. Obviamente que o sujeito que demanda tratamento, busca o psicólogo acreditando nele um saber que não reconhece em si, esta é a base da transferência, porém não podemos fixar-nos nisso, porque nós não sabemos sobre a vida, a história, o pensamento, vivências e o desejo do sujeito. Devemos permitir a transferência, porém não cristalizados a este lugar crendo-se mestre e/ou doutor. O lugar da transferência é um lugar vazio de sujeito, o que significa que o psicólogo clínico não está lá como pessoa com atribuições, valores, ideais, ideologias e que tem como objetivo fazer o “bem” ao paciente, dirigindo-lhe a vida. O lugar da transferência como lugar vazio possibilita a emergência do único sujeito em foco – o paciente – dotado de um saber e recursos próprios para o aplacamento de seu sofrimento. O sujeito possui um saber de uma outra ordem, saber não sabido, desconhecido por ele. Seu saber não é educável, não é acadêmico, por isso o título de mestre, especialista, doutor não responde aos impasses inerentes à condição humana e por isso, também, não temos as chamadas “receitas de bolo”. E, caso a tivéssemos, uma receita exige a “mão” do sujeito, um bolo não sai bom somente pela receita, é necessária a habilidade do “boleiro”. Já que estamos falando sobre a transferência, gostaríamos de ampliar a discussão e abordar um outro grande conceito da clínica : a interpretação. Se não podemos ocupar o lugar de mestre na transferência, nos são vetados, também, seus efeitos diretivos. Então a interpretação não é uma sugestão, um aconselhamento, uma direção de vida. Deve, ao contrário, portar um enigma e, portanto, é muito mais indicativa de interrogações, do que respostas. Em um primosoro texto intitulado “Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen” (1907), Freud explicita questões da técnica, em especial, a interpretação, atribuindo a Zoe, personagem do livro de Jensen, esta escuta privilegiada do analista. No lugar de Gradiva (objeto causa de desejo do sujeito Hanold), Zoe não despreza as formações do inconsciente do arqueólogo, não as julga como irracionalidades, fruto de uma mente insana, mas com suas respostas (interpretações) de “uma ambigüidade intencional”, aponta para uma Outra via, a via do inconsciente, interrogando-o quanto ao seu desejo: Um dos sentidos dessas palavras ajusta-se ao delírio de Hanold, dirigindo-se à sua compreensão consciente, mas o outro sentido ultrapassa o delírio e em geral fornece-nos sua tradução para a verdade inconsciente que ele representa. Essa capacidade de dar expressão ao delírio e à verdade numa mesma frase é o triunfo do engenho e do espírito. (FREUD, 1907, p. 87) De que forma a interpretação deve ser enigmática? Primeiro devemos esclarecer: se uma sugestão ou aconselhamento resolvesse a questão do sujeito, seria perfeito, porém o que observamos na clínica é justamente o oposto. Apesar de solicitar insistentemente por uma resposta, se o psicólogo (psicoterapeuta, psicanalista) responde, invariavelmente o sujeito rompe com o tratamento, se não imediatamente, logo depois. Em um outro texto seu, “Psicanálise selvagem” (1910), Freud expõe um caso bastante pitoresco a respeito das interpretações “selvagens” e seus efeitos negativos não só sobre o paciente, mas principalmente sobre a própria clínica. Em outras palavras, a má utilização da técnica depõe contra a clínica “psi”. Retornando ao texto, Freud relata que foi procurado por uma mulher que após ter se consultado com um outro médico a respeito de seus “estados ansiosos” e recebido sua orientação, percebe em si o recrudescimento de seus sintomas ( cabe lembrar que a paciente não retornou a este médico). Textualmente a interpretação e a direção (prescrição) dada pelo médico: [...] ele a havia informado de que a causa de sua ansiedade era a sua falta de satisfação sexual. Disse-lhe que ela não poderia tolerar a falta de relações sexuais com o marido e, assim, havia apenas três maneiras pelas quais ela poderia recuperar a saúde – ela devia ou voltar para o marido, ou ter um amante, ou obter satisfação consigo mesma. (FREUD, 1910, p. 207) O leitor pode argumentar: “Mas isso foi no início do século XX e Freud era meio exagerado!”. Então vamos atualizar: Início do século XXI, jovem moça portadora de fenômeno psicossomático, é encaminhada ao psicólogo e após duas sessões, abandona o tratamento. Ao ser interrogada pelo médico que a encaminhou a respeito da sua desistência, responde que o psicólogo disse-lhe que ela deveria falar sobre os motivos de sua irritação, pois acreditava que era a raiva contida que a havia feito adoecer. Ao responder desconhecer as razões, o psicólogo determinou: “Então, volte quando souber.” Como ainda não descobriu, não retornou. O psicólogo crê conhecer os motivos da patologia do sujeito e prescreve para a cura buscar em algum lugar do seu passado situações que confirmem a causa de sua doença , que já foi dada de saída: raiva. Pode até ter razão, o sujeito padece de sua raiva, assim como no caso de Freud, a moça poderia padecer de insatisfação sexual, mas o mais importante e esquecido pelo profissional é que o saber que precisa ser posto em cena é o do próprio sujeito, pois só se colocando em questão, reconhecendo-se como autor daquilo de que se queixa, poderá vir a “curar-se”, não lhe servindo, portanto, um saber teórico, conceitual, fruto de estudos científicos ou de livros de auto-ajuda. Nas palavras de Freud: Se o conhecimento acerca do inconsciente fosse tão importante para o paciente [...] ouvir conferências ou ler livros seria suficiente para curá-lo. Tais medidas, porém, têm tanta influência sobre os sintomas da doença, como a distribuição de cardápios numa época de escassez de víveres tem sobre a fome. A analogia vai mesmo além de sua aplicação imediata; pois, informar o paciente sobre seu inconsciente redunda, em regra, numa intensificação do conflito nele e numa exacerbação de seus distúrbios. (Ibid, p. 211) Em resumo, a interpretação não pode ser uma resposta pronta que oblitera o sujeito, ao contrário deve possibilitar a chamada retificação subjetiva, ou seja, o sujeito tem que estar implicado. Como um paciente percebeu perspicazmente: “A terapia é um aconselhamento indireto”, em outras palavras, a interpretação passa pelo sujeito. Outra grande influência da psicanálise é a aposta na palavra, a talking cure - em tradução literal “falando cura” - nomeação dada por uma analisanda de Freud que sintetiza o tratamento analítico com pertinência; método utilizado também pelas psicoterapias. Então, devemos acreditar no nosso meio de tratamento do sofrimento psíquico e permitir a fala, dar escuta àquilo que é singular ao paciente que nos procura. Para tal, mais uma vez reafirmamos, se necessária a preservação deste lugar de escuta privilegiada que convoca faz o sujeito a implicar-se com a sua dor e, conseqüentemente tornar-se autor de sua vida e possíveis modificações. Convém ressaltar que esta é a única forma de cura possível, porque na posição de vítima - característica de suas queixas - o sujeito não consegue nada a não ser lamuriar-se. Optamos em escrever sobre um pouco da técnica, obviamente sem a pretensão de esgotá-la neste espaço, por acreditarmos serem estes conceitos – transferência e interpretação - fundamentais para clínica, seja ela em quaisquer das formações que o psicólogo aderir. Tal escolha vem como uma tentativa também de desmistificar o papel do psicólogo no imaginário popular causado pelo próprio profissional e seus impasses teórico/técnicos. 3. Psicologia Clínica e Saúde Pública Como a psicologia integra o programa de saúde mental sob a perspectiva da reforma psiquiátrica? Como vimos, a proposta da reforma é de construção de uma rede comunitária de cuidados: “A articulação em rede dos variados serviços substitutivos ao hospital psiquiátrico é crucial para a constituição de um conjunto vivo e concreto de referências capazes de acolher a pessoa em sofrimento mental” (Op. cit., p. 25) Os dispositivos substitutivos ao Hospital Psiquiátrico compõem a rede de atenção à saúde mental. Vimos como se organiza esta rede – da atenção básica aos CAPS – e agora iniciaremos a delineação de um serviço de psicologia clínica (ambulatório) como mais um equipamento integrante na promoção de cuidados à saúde mental. Existe uma série de mitos em relação ao tratamento psicológico alicerçados em um pensamento elitista que reforçam a idéia de uma não adequação das camadas populares à psicoterapia: preço alto, tempo de duração, exigência de certo nível intelectual para a elaboração psíquica (como se psiquismo estivesse atrelado à intelectualidade - e vimos que não), criando impasses quanto à criação de tal serviço voltado para a população. A exigência do mercado de que tempo é dinheiro dificulta ainda mais o fortalecimento de um ambulatório que se opõe à proposta de saúde publica pautada no modelo médico de atendimento: consultas rápidas, prescrições, encaminhamentos, em suma, resolutividade. Acrescenta-se a isso, a hegemonia do saber médico, reduzindo a participação dos demais profissionais, a uma espécie de ajuda complementar. Onde o saber médico encontrou um limite, o profissional psi é solicitado. Assim, aos psicólogos são exigidos atendimentos rápidos, preferencialmente em grupo, porque a fila de espera cresce... e muito. Agora, porque será que a fila tem crescido tanto? Ampliaremos a discussão. As pessoas são conduzidas à psicologia por motivos diversos: 1. patologias que causam enigma ao saber médico; 2. transtornos neuróticos ou psicóticos visíveis; 3. atitudes do paciente não passíveis de apropriação pelo discurso médico que dizem respeito à subjetividade; 4. outros em que o fato ou acontecimento em si não levariam à necessidade de ajuda profissional. Focaremos quanto ao último motivo apresentado (4). Percebemos encaminhamentos à área psi, ou mesmo prescrição de psicofármacos feita pelas mais diversas especialidades médicas para “tratar” fatos ou acontecimentos inerentes à vida, às relações humanas. Ao que parece, há uma exigência na atualidade por uma regulação dos humores do homem com uma tendência à massificação, havendo, é claro, pouco espaço reservado para a singularidade. Então, temos como conseqüência, fenômenos sociais e momentos da vida que necessitam elaboração do luto, transformados em doença (mental) exigindo, portanto, medicação e “tratamento com psicólogo”. Os exemplos são inúmeros: casos de tristeza por separações ou lutos convertidos em depressão; fases da vida naturalmente conflitantes – como adolescência, por exemplo, onde as exigências peculiares de uma pessoa em processo de individuação e que exigem maior atuação dos familiares, se mostram um grande problema necessitando da intervenção do psicólogo, assistente social, Conselho Tutelar,... – tratadas como distúrbios, transtornos; dificuldades pedagógicas e das relações no ambiente familiar e/ou escolar como TDAH e suas comorbidades. Como fazer frente a isso? O modelo da reforma propõe, para além do tratamento da doença, a promoção de saúde mental. De que modo? Primeiro acreditando nos recursos que secularmente foram usados pela humanidade no tratamento de suas dores: os próprios meios internos do sujeito e suas relações (familiares, de trabalho, de amigos, do seu meio, enfim). Aliás, como vimos, são estes os primeiros atores previstos na proposta de território. Ademais, devemos dar lugar à palavra, apostar no sujeito. Por exemplo, se após a morte de um ente querido, um técnico é solicitado para “cuidar” do enlutado, não estamos reconhecendo, nem permitindo que o sujeito reconheça em si meios próprios para lidar com a sua dor que, de modo geral, é falando exaustivamente dela. O sujeito deve falar, chorar, sofrer aquilo que precisa junto aos seus entes queridos. A admissão de uma ajuda “especializada exterior”, seja na forma de assistência, seja na forma de medicação, só serve para fazer calar com um efeito entorpecente sobre a dor. Porque se após uma morte – fato inerente à vida - um psicólogo é solicitado, ou uma medicação é prescrita, a única interpretação possível é a que a pessoa e sua família não podem cuidar de si. Agora, quando estes recursos se mostraram insuficientes, quando a tristeza (ou qualquer outro sintoma) permanece e passa à foco na vida do sujeito afetando a si e suas relações, se faz necessária a entrada de um técnico da área. Podemos resumidamente propor assim: FLUXOGRAMA DO SERVIÇO DE SAÚDE Não apresentando fator orgânico que justifique as queixas e/ou quando os sintomas se tornam um problema para o indivíduo, família e/ou ambiente, encaminhar para o Serviço de Psicologia Clínica. INDIVÍDUO e/ou FAMÍLIA ATENÇÃO BÁSICA À SAÚDE ESPECIALIDADES COMUNIDADE A Escola, Conselho Tutelar, Casa Abrigo, CRAS, etc. Descartados e/ou afastados os fatores pedagógicos, sociais, etc.., encaminhar os casos para o Serviço de Saúde para avaliação clínica. B C P S I C O L O G I A GRUPO DE ESCUTA SERVIÇO DE PSICOLOGIA TRIAGEM COLETIVA ORIENTAÇÃO FAMILIAR ANAMNESE PSICOTERAPIA INDIVIDUAL ORIENTAÇÃO FAMILIAR PSICOTERAPIA GRUPO CRIANÇA ADOLESC. ADULTO No momento em que chegam as referências para o serviço, o psicólogo responsável tem como primeira medida o dispositivo de “Triagem coletiva”. Medida utilizada para tentar agilizar e “enxugar” a fila de espera, pois, como vimos, as referências para a psicologia são múltiplas e na maioria das vezes os critérios estabelecidos para o tratamento psicoterápico - mencionados acima - não são seguidos. A partir de enquadres mínimos de dinâmica de grupo, a proposta é fazer uma primeira avaliação a fim de verificar a existência ou não de demanda para psicoterapia. Caso não seja possível estabelecer neste primeiro contato – normalmente a triagem serve para eliminar casos mal referenciados em que o sujeito, às vezes, nem sabe o porquê de estar ali ( “o doutor mandou”) – são agendados novos encontros, as chamadas entrevistas preliminares, que servem para dissipar a idéia de que a entrada no serviço corresponde à necessidade de tratamento. Para todo tratamento , seja ele qual for, se faz indispensável a existência de um sintoma (sofrimento no sujeito), para não cairmos na história já mencionada de patologização de fenômenos e acontecimentos sociais. Um exemplo bastante pueril disto é de uma catástrofe da natureza. As pessoas precisarão de ajuda para recompor o que perderam, mas o fato em si não gera necessariamente “traumas” que conseqüentemente levarão à psicoterapia. De igual modo, crianças abrigadas, formações familiares não-tradicionais, pobreza, não são sinônimos de doença mental necessitando, portanto, de intervenção profissional. Estamos impedidos, como profissionais de saúde mental, de trabalharmos a serviço da segregação numa escalada de psiquiatrização da população. Nosso objetivo com este trabalho foi acima de tudo levantar a possibilidade de questionamento dos profissionais de saúde mental, em especial os psicólogos, da necessidade de estruturação de um serviço de qualidade que prioriza a clínica cujo enfoque é o sujeito que transcende as qualificações e atribuições que possa receber do social: órfão, doente, louco, pobre, rico, trabalhador ou desempregado. Nosso foco no sujeito nos impede de nos apropriarmos de sua vida, nos obriga a abandonar nosso narcisismo que nos faz acreditar que sabemos o que é melhor para ele e podemos encaminhar-lhe o destino como espelho do nosso. Estamos impedidos, sob este viés, de impor nosso modo de vida, nosso desejo, pois esta é uma forma de considerar o outro como incapaz. Trata-se assim, de uma psicologia que prioriza a escuta da singularidade fazendo-se presente nos NASF nos ambulatórios, nos CAPS e, desta forma, o psicólogo da saúde – clínico, portanto – pode circular nos diversos equipamentos, na observância de seu grau de inserção em cada dispositivo, e em conformidade com sua formação. REFERÊNCIAS: BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF. Senado, 1988. ______ Portaria (2008). Portaria No. 154 de 24 de janeiro de 2008. Brasília, DF. Ministério da Saúde, 2008. CANGUILHEM, G., O que é a Psicologia? (1973) Conferência dada no College Philosophique em 18 de dezembro de 1956. Disponível em: http://br.geocities.com. Acesso em 16 de junho de 2007. FREUD, S. Delírios e sonhos na ‘Gradiva’ de Jensen (1907[1906]). In ESB das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, volume IX, Rio de Janeiro, Imago, 1980. _________ Psicanálise ‘Selvagem’ (1910). In ESB das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Volume XI, Rio de Janeiro, Imago, 1980. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Saúde Mental e Atenção Básica: Vínculo e diálogo necessários. Disponível em http://www.portal.saude.gov.br. Acesso em: 28 de julho de 2008. MINISTÉRIO DO TRABALHO. Catálogo Brasileiro de Ocupações (CBO, 1992). Disponível em http://www.pol.org.br. Acesso em: 10 de julho de 2008. __________ Reforma Psiquiátrica e Saúde Mental no Brasil. Disponível em http://www.portal.saude.gov.br. Acesso em: 28 de julho de 2008. UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA SISTEMA DE BIBLIOTECAS Rua Ibituruna, 108 – Maracanã 20271-020 – Rio de Janeiro – RJ Tel.: (21) 2574-8845 Fax.: (21) 2574-8891 FICHA CATALOGRÁFICA B327q Bastos, Maristela Azevedo de França Oliveira FICHA CATALOGRÁFICA Quando a cabeça não pensa, o corpo padece / Maristela Azevedo de França Oliveira Bastos, 2008. 145 p. ; 30 cm. Dissertação (Mestrado) – Universidade Veiga de Almeida, Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade, Rio de Janeiro, 2008. Orientação: Maria Anita Carneiro Ribeiro 1. Filosofia e teoria. 2. Psicanálise. I. Ribeiro, Maria Anita Carneiro (orientador). II. Universidade Veiga de Almeida, Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade. III. Título. CDD – 150.1 Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Setorial Tijucal/UVA