1 ELIANA MARIA DE OLIVEIRA SÁ QUANDO O CURRÍCULO FAZ A DIFERENÇA.... O CURRÍCULO INTEGRADO NA FORMAÇÃO EM SERVIÇO DO TÉCNICO EM HIGIENE DENTAL / THD Mestrado PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS OUTUBRO DE 2000 2 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS Eliana Maria de Oliveira Sá Dissertação apresentada ao Curso de Pós-graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Educação. Área de concentração: Sociologia e História da Profissão Docente e da Educação Escolar Orientadora: Prof. Dra. Rita Amélia Teixeira Vilela Belo Horizonte, outubro de 2000 3 617.37 S11q 2000 617.37 S11q 2000 Sá, Eliana Maria de Oliveira Quando o currículo faz a diferença... O currículo integrado na formação em serviço do Técnico em Higiene Dental / THD Belo Horizonte: PUCMG, 2000 167 p. Dissertação (Mestrado) PUCMG 1- Currículo- Higiene Dental 2- Saúde bucal - Currículo I.Título CDD: 617.37 NWL: WV21 4 Dissertação defendida e aprovada em 26 de outubro de 2000, pela banca examinadora constituída pelos professores: 5 Dedico esta pesquisa aos trabalhadores do SUS, que, no dia a dia, constroem os sistemas locais de saúde bucal. 6 AGRADECIMENTOS Ao meu querido Altair, companheiro e cúmplice dos meus sonhos. Aos meus amados filhos, Paula, André e Guilherme, inspiração maior para que eu siga os caminhos da "educação para a liberdade". À professora Rita Amélia Teixeira Vilela, orientadora desta pesquisa, pela sabedoria, pelo estímulo e sobretudo pela confiança na minha busca, no meu achado. À professora Ana Maria Casasanta e ao reitor da PUCMG, Padre Geraldo Magela, pelo apoio que me deram durante o Curso de Mestrado. À Cláudia Maria Silva Marques, com quem primeiro troquei idéias e sentimentos acerca dessa pesquisa. Aos colegas do SUS, que, de várias formas, contribuíram para que eu ousasse falar da utopia educacional da formação em serviço. Obrigada a Diana, Nora Nei, Carlos Tenório, Marly Moysés, Anna Lúcia e Marlene pela prévia leitura deste trabalho e por todas as sugestões. Obrigada Sandra, Marília, Artur e Lucy pelas preciosas ajudas na montagem desta pesquisa. À Mariana Lúcia Ferreira Tavares, atual diretora da ESMIG, e seus antecessores, Cláudio Romano, Lêda Costa e Eunice Godoi, pelo crédito que deram ao meu trabalho. À Cida e Alcione, pela disponibilidade e confiança em repassar todo o material referente ao curso de formação de THD, de Carmo do Paranaíba. À Roseli, Lourdes e Alicinha, que cuidaram para que eu pudesse ficar mais disponível para estudar. À Iara Rosa pela ajuda na construção gráfica. Aos meus queridos pais, Zezinho e Alice, pelas suas histórias de vida. À Deus, por mais este trabalho concluído. 7 SUMÁRIO LISTA DE ILUSTRAÇÕES............................................................................................. I RESUMO .......................................................................................................................II ABSTRACT ..................................................................................................................III INTRODUÇÃO ..............................................................................................................1 CAPÍTULO 1: CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS .............................................20 CAPÍTULO 2: OS PRESSUPOSTOS TEÓRICOS DE BASIL BERNSTEIN ...............32 2.1 Tipos de currículo ............................................................................35 2.2 Classificação e Enquadramento do conhecimento educacional.......37 2.3 Códigos de conhecimento educacional ............................................39 2.4 Socialização gerada pelos códigos educacionais ............................40 CAPÍTULO 3: O CURRÍCULO INTEGRADO DO THD ...............................................46 3.1 A formação em serviço .....................................................................46 3.2 O sistema de avaliação ....................................................................52 CAPÍTULO 4: INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS .............................................55 4.1 As questões relacionadas à Classificação .......................................56 4.2 As questões relacionadas ao Enquadramento .................................58 4.3 Tipologia geral do código integrado do THD ....................................67 4.4 As relações pedagógicas: 4.4.1 Relação ensino-serviço .......................71 4.4.2 Relação aluno-conhecimento .............79 4.4.3 Relação professor-aluno .....................96 4.4.4 Relações afetivas .............................101 CONCLUSÕES .........................................................................................................108 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..........................................................................117 ANEXOS ....................................................................................................................126 8 LISTA DE ILUSTRAÇÕES FIGURA 1 - A formação em serviço do THD .............................................................. 11 FIGURA 2 – Mapa dos municípios autorizados pelo C.E.E. para a formação do Técnico em Higiene Dental ..................................................................... 13 FIGURA 3 – Quadro com a distribuição dos alunos nos cursos de THD’s por municípios, número de matrículas e concluintes - 1997 a 2000 ..............14 FIGURA 4 - Estrutura Básica do Sistema de Mensagem “Currículo” ..........................37 FIGURA 5 - Estrutura Básica do Sistema de Mensagem “Pedagogia”........................38 FIGURA 6 - A Metodologia da Problematização .........................................................51 FIGURA 7 - Tratamento de Conteúdo Curricular ........................................................57 FIGURA 8 - Ficha de avaliação no processo..............................................................63 FIGURA 9 - Os trabalhos escolares e sua ligação com os serviços de saúde ..........77 FIGURA 10 – Foto do THD supervisionando procedimentos coletivos .......................84 FIGURA 11 – Foto do THD executando procedimentos individuais ...........................85 FIGURA 12 – Foto da formatura da turma de THD de Carmo do Paranaíba .............95 FIGURA 13 – O círculo virtuoso na área de Saúde Bucal ........................................107 FIGURA 14 - Os conceitos de Bernstein aplicados nas relações pedagógicas do Curso do THD .......................................................................................112 9 RESUMO Foi objetivo deste trabalho analisar as relações pedagógicas estabelecidas no Curso de Formação em Serviço do Técnico em Higiene Dental (THD), no município de Carmo do Paranaíba, Minas Gerais, no período de 1998 a 1999. A opção metodológica escolhida foi o Estudo de Caso qualitativo, utilizando o discurso dos trabalhadores – educandos, expressos nos registros de avaliação, elaborados ao longo do curso. Buscou-se o entendimento da gramática interna do Currículo Integrado utilizado na formação do THD, aplicando o conceito dos Códigos Educacionais de Basil Bernstein. Os resultados encontrados indicaram que a proposta do Currículo Integrado do THD favorece uma formação profissional ampliada, qualificando-o, possibilitando uma visão crítica da realidade sócio cultural do trabalho e estimulando-o a interferir na organização local dos serviços de saúde bucal. As conclusões desta investigação apontam para a aproximação entre os pressupostos teóricos da integração ensino-serviço e a aplicação prática dessa proposta. Identificam-se os avanços já alcançados na parceria dos setores de saúde e educação na formação em serviço e a necessidade de ampliação institucional destes resultados. Palavras-chave: Basil Bernstein, currículo integrado, formação em serviço, qualificação profissional, relações pedagógicas, Técnico em Higiene Dental. 10 ABSTRACT The purpose of this study was to analyse the pedagogical relations established on the Dental Hygene Tecnician course in Carmo do Paranaíba, Minas Gerais state, from 1998 to 1999. The method chosen was to analyse qualitatively, using the workers speech-writen on the evaluation sheets elaborated as the couse went on. The curriculum grammar was also studied based on Basil Bernstein’s educational codes. The results of the study have indicated that the curriculum of the Hygenist course helps with a wide professional formation, qualfying them and giving them the possibility of a critic view of the cultural and social situation of this profession and estimulating them to work at the local organization of the bucal health services. We have concluded with this study that the ideas of the teaching-service integration and the pratic al aplication are very close. We could identify a well done work between the health services and the teaching programs and the necessity of an institutional ampliation of this results. Key words: Basil Bernstein, curriculum, in service formation, professional qualifying, pedagogical relations, Hygenist 11 ANEXO I Dados de identificação dos THD’s, municípios envolvidos e demandas de novas turmas 12 SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE - SESMG FUNDAÇÃO EZEQUIEL DIAS - FUNED ESCOLA DE SAÚDE DE MINAS GERAIS - ESMIG CENTRO FORMADOR DE RECURSOS HUMANOS PARA A SAÚDE - CFRHS OFICINA DE AVALIAÇÃO DA FORMAÇÃO EM SERVIÇO DO THD EM MINAS GERAIS FUNDAÇÃO EZEQUIEL DIAS / FUNED ESCOLA DE SAÚDE DE MINAS GERAIS / ESMIG SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE / SES/MG CENTRO FORMADOR DE RECURSOS HUMANOS PARA A SAÚDE / CFRHS CURSO DE FORMAÇÃO DO TÉCNICO EM HIGIENE DENTAL Número de municípios envolvidos Número de alunos matriculados Número de alunos concluintes Bom Despacho 6 12 12 Brasília de Minas 11 16 14 Carmo do Paranaíba 11 24 23 Juiz de Fora 20 84 Município sede 77 Em andamento Nazareno 11 15 Paracatu 12 29 26 Patrocínio 1 6 6 Pouso Alegre 20 28 Em andamento Santo Antônio do Monte 4 7 7 TOTAL 96 221 165 13 FORMAÇÃO DO TÉCNICO EM HIGIENE DENTAL MUNICÍPIO SEDE BOM DESPACHO BRASÍLIA DE MINAS CARMO DO PARANAÍBA MUNICÍPIOS ENVOLVIDOS BOM DESPACHO ESTRELA DO INDAIÁ LUZ NOVA SERRANA ONÇA DO PITANGUI PITANGUI CAMPO AZUL CHAPADA GAÚCHA IBIRACATÚ ICARAÍ DE MINAS LONTRA LUISLÂNDIA PATÍS SÃO JOÃO DA PONTE UBAÍ VARZELÂNDIA SÃO GOTARDO CARMO DO PARANAÍBA CRUZEIRO DA FORTALEZA GUIMARÂNIA LAGAMAR MATUTINA PRESIDENTE OLEGÁRIO RIO PARANAÍBA SANTA ROSA DA SERRA TIROS VAZANTE FORMAÇÃO DO TÉCNICO EM HIGIENE DENTAL (Cont.) Cont.) MUNICÍPIO SEDE JUÍZ DE FORA MUNICÍPIOS ENVOLVIDOS BELMIRO BRAGA CORONEL PACHECO DESCOBERTO GOIANÁ JUÍZ DE FORA LIMA DUARTE MARIPÁ DE MINAS MATIAS BARBOSA PASSA VINTE PEDRO TEIXEIRA PEQUERI PIAU RIO NOVO RIO PRETO SANTA RITA DO JACUTINGA SANTANA DO DESTERRO SANTOS DUMONT SÃO JOÃO NEPOMUCENO SENADOR CORTÊS SIMÃO PEREIRA 14 FORMAÇÃO DO TÉCNICO EM HIGIENE DENTAL (Cont.) Cont.) MUNICÍPIO SEDE NAZARENO PARACATU PATROCÍNIO MUNICÍPIOS ENVOLVIDOS NAZARENO BARROSO CONCEIÇÃO DA BARRA DE MINAS CORONEL XAVIER CHAVES DESTERRO DE ENTRE-RIOS ENTRE RIOS DE MINAS IBITURUNA LAGOA DOURADA MADRE DE DEUS DE MINAS RESENDE COSTA SÃO TIAGO UNAÍ ARINOS BONFINÓPOLIS DE MINAS BURITIS CABECEIRA GRANDE DOM BOSCO FORMOSO GUARDA MOR JOÃO PINHEIRO NATALÂNDIA PARACATU URUANA DE MINAS PATROCÍNIO FORMAÇÃO DO TÉCNICO EM HIGIENE DENTAL (Cont.) Cont.) MUNICÍPIO SEDE POUSO ALEGRE SANTO ANTÔNIO DO MONTE MUNICÍPIOS ENVOLVIDOS SANTA RITA DO SAPUCAÍ BOM REPOUSO BUENO BRANDÃO CACHOEIRA DE MINAS CAMANDUCAIAS CAMBUÍ CONCEIÇÃO DOS OUROS ESPÍRITO SANTO DO DOURADO HELIODORA INCONFIDENTES IPUIUNA NATÉRCIA OURO FINO POUSO ALEGRE SÃO JOÃO DA MATA SÃO SEBASTIÃO DA BELA VISTA SENADOR AMARAL SILVIANÓPOLIS TOCOS DO MOJI TURVOLÂNDIA CLÁUDIO CARMO DO CAJURU SANTO ANTÔNIO DO MONTE 15 Levantamento de dados de matrícula - THD - 97/98 Sexo Idade Município FEM MASC Bom Despacho Escolaridade -18 anos 18 à 20 anos 21 à 30 anos 31 à 40 anos 41 à 50 anos +50 anos II Grau Completo II Grau Incompleto I Grau Completo 12 – – 11 1 – – 8 3 1 – 15 1 1 4 10 1 – – 24 – – 3 16 4 1 – 24 – – Juiz de Fora 68 16 – 3 37 27 16 1 71 3 10 Paracatu 24 5 – 1 20 8 – – 27 – 2 Patrocínio 6 – – – 2 2 2 – 5 1 – Santo Antônio do Monte 7 – – – 3 3 1 – 6 – 1 155 23 1 11 96 48 21 1 145 4 13 Brasília de Minas Carmo do Paranaíba TOTAL Levantamento de dados de matrícula - THD - 97/98 Id a d e Sexo M e n o s d e 18 anos 18 à 2 0 a n o s 21à 30 anos Feminino 31à 40 anos Masculino 4 1à 50 anos Mais de 50 anos Escolaridade II Grau Co m p le t o II Grau Incompleto I Grau Co m p le t o 16 DEMANDA POR MUNICÍPIO MUNICÍPIOS 1. Abaeté 2. Araçuaí 3. Belo Horizonte 4. Bom Despacho 5. Brasília de Minas 6. Carmo do Paranaíba 7. Coromandel 8. Curvelo 9. Divinópolis 10. Francisco Sá 11. Itabira 12. Juiz de Fora 13. Manhumirim 14. Minas Novas 15. Nazareno 16. Ribeirão das Neves 17. Pará de Minas 18. Paracatu 19. Patos de Minas 20. Patrocínio 21. Ponte Nova 22. Pouso Alegre 23. Santo Antônio do Monte 24. São João Del Rei 25. Teófilo Otoni 26. Várzea da Palma Total ALUNOS 15 15 30 (02 turmas) 15 15 15 15 15 15 15 30 (02 turmas) 15 15 15 15 15 15 15 15 15 15 15 15 15 30 (02 turmas) 15 435 17 ANEXO II Relatório final da Oficina de Avaliação da Formação em Serviço do THD em Minas Gerais 18 A FORMAÇÃO EM SERVIÇO DO THD EM MINAS GERAIS O Centro Formador de Recursos Humanos para a Saúde (CFRHS), responsável direto pela profissionalização do Técnico em Higiene Dental em Minas Gerais, iniciou no I semestre de 1999 um processo de avaliação dos cursos de formação em serviço. Num primeiro momento, foram relacionados os municípios que participam da “Concentração” e “Dispersão” dos cursos, totalizando 100 (cem) Secretarias Municipais de Saúde envolvidas na formação do THD. Em seguida, a partir de dados coletados na matrícula, foi estabelecido um quadro descritivo (sexo, idade, escolaridade) dos alunos dos 7 (sete) municípios-sede que já haviam concluído o curso e de 2 (dois) que estavam com o curso em andamento. Foi estabelecido o total de alunos matriculados e o número de alunos concluintes. Esse levantamento de dados permitiu um primeiro delineamento panorâmico estadual da formação do THD. Em abril/99, através de uma reunião realizada na Secretaria de Estado da Saúde, com a participação de técnicos do Ministério da Saúde, Superintendência de Epidemiologia, Coordenadoria de Saúde Bucal, Superintendência de Recursos Humanos e Escola de Saúde de Minas Gerais, constatou-se o cumprimento de metas em relação à formação do THD, discutiram-se as dificuldades encontradas, bem como algumas estratégias para a abertura de novas turmas. Definiu-se o repasse de recurso financeiro de R$ 3.360,00 (três mil, trezentos e sessenta reais) da Secretaria de Estado para a FUNED, no sentido de garantir o pagamento de apoio técnico para a continuidade do curso em Nazareno. Em maio/99, foi realizada, na ESMIG, uma oficina de trabalho envolvendo a Superintendência de Recursos Humanos e de Epidemiologia da SESMG, o CFRHS, Diretorias Regionais de Saúde de Juiz de Fora, São Jõao del Rei, Divinópolis, Pouso Alegre e municípios ( Bom Despacho, Brasília de Minas, Carmo do Paranaíba, Juiz de Fora, Nazareno, Paracatu, Patrocínio, Pouso Alegre e Santo Antônio do Monte). Nessa oficina, foram analisados vários aspectos relacionados ao ensino-aprendizagem, bem como outros relacionados à integração da formação e o serviço. Foram levantados pontos positivos e negativos referentes a aspectos pedagógicos, administrativos e à assistência . As conclusões das discussões foram registradas em forma de relatórios. Uma síntese dos relatórios pode assim ser apresentada: 19 1. Aspectos relacionados à preparação do docente do curso de THD: o curso ministrado na ESMIG tanto preparou o dentista para a sua nova função de instrutor, como possibilitou um maior envolvimento desse profissional com os serviços de saúde do município. O material didático e a bibliografia foram de excelente qualidade. Os apoios técnicos foram de alto nível e o curso foi um estímulo ao crescimento pessoal. Coordenação atuante e presente. Foi sugerido que algumas questões de ordem pedagógica sejam mais exploradas no curso (sistema de avaliação, recuperação paralela, como lidar com comportamentos indesejáveis, etc). 2. Participação do CD enquanto instrutor e coordenador da formação do T.H.D.: houve um crescimento pessoal e profissional muito grande. Constata-se uma valorização do profissional dentista dentro do serviço, bem como sua maior integração com outros setores da administração pública. Foi rico o relacionamento com os T.H.D.’s, com os outros dentistas da região. De uma maneira geral os dentistas avaliam que ficaram sobrecarregados com o processo assumido no município e região. Houve desgaste em relação a aspectos burocráticos. Foram unânimes em afirmar que faltaram apoio e supervisão durante o curso. Identificam aqui um nó crítico e sugerem uma participação mais atuante da ESMIG. Alguns cursos municipais não foram apoiados ou pouco apoiados pelas DRS. 3. A sensibilização pedagógica dos dentistas instrutores da dispersão: Serviu para que tivessem uma pequena noção da metodologia usada no curso, criando uma maior responsabilidade em relação à formação do THD. Provocou uma maior aproximação entre os dentistas. Há também avaliações pouco positivas; registro de profissionais que não se envolveram no processo. Dentistas que tiveram seus contratos suspensos foram substituídos por outros dentistas-instrutores, que acompanharam THD’s sem terem participado da sensibilização pedagógica. 4. Apoio técnico oferecido ao dentista da dispersão: Em alguns municípios o processo de educação continuada dos dentistas da dispersão aconteceu paralelamente ou logo após ao Curso de Especialização da ESMIG. Na maioria dos municípios-sede, o apoio técnico aos dentistas se dava na mesma semana em que os THD’s estavam em concentração. Essa parece ser a forma mais adequada. De uma maneira geral a avaliação é bastante positiva (em relação a conteúdo, material científico usado). Foi sugerido que a ESMIG forme um Banco de Apoio Técnico em Saúde Bucal. 20 5. Concentração dos THD’s: Ótimos índices de freqüência, baixíssima evasão, notória evolução da maioria dos alunos em relação ao envolvimento e compromisso com o serviço. As avaliações dos THD’s feitas ao final de cada Unidade são, de uma maneira geral, bastante positivas. Registro de que as discussões foram mais ricas em turmas onde estavam envolvidos mais municípios (diversidade de situações). As maiores dificuldades registradas referem-se a questões relacionadas à dispersão (serviço não organizado para a adequada inserção do THD) que refletiam no momento de concentração. 6. Dispersão dos THD’s: Reconhecimento do profissional THD pela comunidade, introdução de melhorias na qualidade do serviço. Aplicação e relação imediata da teoria com a prática. Na maioria dos municípios envolvidos falta uma maior organização dos serviços para que o THD desempenhe todas as suas funções. 7. Participação das instituições envolvidas (SMS, ESMIG, CFRHS, DRS’s): Ausência de representantes da ESMIG / CFRHS nas solenidades de abertura oficial e formatura. Não houve acompanhamento, orientação e supervisão sistematizada do curso por parte da instituição formadora. Envolvimento de DRS’s variável (presente em alguns municípios e ausente em outros). Competências e responsabilidades pouco definidas ao longo dos cursos. Conclusões e recomendações: • A maioria dos municípios envolvidos na formação do THD não está organizada para uma prática de controle das doenças bucais. Esse desajuste dificulta e, às vezes, impede que o THD que está sendo formado teste os seus novos conhecimentos na prática. De uma maneira geral, o serviço está se preparando para funcionar como uma “sala de aula”, mas há que se buscar uma maior sincronia entre sua reorganização e a formação do THD. Essa situação remete para a necessidade de um maior ajuste entre o processo de formação em serviço (ESMIG/CFRHS/SRHSES) e o modelo de assistência em saúde bucal (Coordenadoria de Saúde Bucal e Auditoria Odontológica / SES). • Uma nova postura institucional que foi repetidas vezes levantada pelos participantes da Oficina de Trabalho, refere-se a um acompanhamento mais sistemático da ESMIG/CFRHS em relação aos cursos descentralizados. Foi sugerida supervisão técnico-pedagógica mais definida. Nesse sentido, já estão sendo agendados 21 encontros de supervisão com os municípios que estão com cursos de formação em andamento (Curvelo, Nazareno, Pouso Alegre e Várzea da Palma). • Uma pesquisa qualitativa relacionada ao tema da Qualificação Profissional e da formação em serviço do THD está em andamento na ESMIG, e será um instrumento a mais nesse processo de avaliação de cursos. • Atualmente, a ESMIG participa de atividades junto ao Conselho Regional de Odontologia através de uma Comissão de Equipe de Saúde Bucal. Essa Comissão pretende, entre outras questões discutir e propor novas atribuições ao Técnico de Higiene Bucal. Esta é uma discussão necessária e imprescindível para se dar continuidade à profissionalização do THD em Minas Gerais. Recomenda-se a manutenção dessa parceria. Belo horizonte, 20 de setembro de 1999 ______________________________ Eliana Maria de Oliveira Sá 22 ANEXO III Mapa com a distribuição dos cursos de formação de THD 23 Cursos de formação do THD Julho 2000 Brasília de Minas Várzea da Palma Paracatu Curvelo Carmo do Paranaíba Patrocínio Bom Despacho Santo Antônio do Monte Belo Horizonte Ponte Nova Nazareno Pouso Alegre Juiz de Fora Municípios Sede Municípios Envolvidos 24 ANEXO IV Instrumento preliminar para coleta de dados 25 ENTREVISTAS Dentista da Concentração: A seqüência de perguntas segue uma ordem temporal dos acontecimentos 1. Identificação: nome, data de nascimento, naturalidade, formação, pós-graduação. 2. Quando iniciou o Curso de Especialização em B.H., você conhecia a proposta de articulação regional e formação descentralizada de THD’s? 3. Como o curso a preparou para ser instrutora? 4. Quando planejaram o Curso de THD de Carmo do Paranaíba, que profissionais desejavam formar? 5. De que forma os dentistas da dispersão foram envolvidos e sensibilizados para acompanharem as THD’s? 6. Como era feito o planejamento da semana de concentração? 7. O “Guia Curricular” do Ministério era seguido o tempo todo ou eram introduzidas alterações? Porque? 8. Como você constatava o desenvolvimento dos alunos em relação aos novos conhecimentos? 9. Como agia quando percebia que os novos conhecimentos não estavam sendo dominados pelos alunos? 10. Como eram avaliados os THD’s? 11. Descreva situações que você entende como ricas/fortes do ponto de vista do ensinoaprendizagem. (Seguir seqüência de concentrações) 12. Como eram tratados os conflitos do dia-a-dia que o THD trazia do seu local de trabalho? 13. Caracterize as relações estabelecidas entre os alunos, entre vocês instrutoras e as relações entre os alunos e vocês. 14. Que modificações no local de trabalho foram realizadas pelos THD’s através do curso? 15. E no curso, que modificações foram feitas no sentido de adequar a demanda apresentada pelos THD’s e pelo município? 16. Como foram realizados e quais os objetivos dos trabalhos de dispersão? 26 17. Como os THD’s se comportavam diante desta atividade? 18. Você sabe como estão os THD’s, como trabalham depois de terminado o curso de formação? C.Dentista da dispersão: 1. Como foi sua preparação para ser instrutor de THD na dispersão? 2. Que elementos novos esta prática exigiu de você? 3. Como você identificava o desenvolvimento do THD ao longo do curso? 4. Na trajetória do curso e após a formatura, que características você nota que foram incorporadas pelo THD? 5. Que aspectos do comportamento do THD na prática de saúde bucal mais lhe chama a atenção? Secretário Municipal de Saúde 1. Por que o município Carmo do Paranaíba fez a opção de formar THD? 2. Descreva como aconteceu o Curso de Formação de THD em Carmo do Paranaíba 3. Há diferenças entre o curso de THD e outros cursos profissionalizantes? Quais? 4. Que relatos ou registros foram feitos acerca da organização dos serviços de saúde bucal, durante ou após o curso de THD? 27 ANEXO V Roteiro para elaboração de um Memorial 28 ROTEIRO PARA ELABORAÇÃO DE UM MEMORIAL Caro aluno (a) Este roteiro tem por finalidade organizar algumas informações de sua trajetória pessoal e profissional antes e durante o curso realizado. 1. Fale de você, dos seus hábitos, da sua família, do seu lazer, da sua cidade, de outros lugares que morou, de outros cursos que já fez, etc... 2. Fale de sua trajetória profissional. Que outros trabalhos já realizou? Como e por que resolveu fazer este curso e se tornar um(a) THD? 3. Fale de sua trajetória neste curso. Relembre do início ao fim: as dificuldades, os desejos, as frustrações, as descobertas, as conquistas, os momentos tristes e alegres, enfim, os sentimentos que de uma forma ou de outra te impulsionaram a várias realizações e te fizeram amadurecer e crescer pessoalmente e profissionalmente. 4. Fale dos resultados que você obteve nos seus períodos de dispersão e que acredita ter sido positivo para o seu município. 5. Fale o que pretende fazer daqui para frente, o que gostaria de mudar na sua prática para melhorar o seu trabalho. Quais os seus projetos a curto, médio e longo prazo? 6. Por último, faça um paralelo da sua vida antes e depois do curso. O que mudou? Alcione Elisa Ribeiro Garcia Maria Aparecida de Mendonça Carneiro Instrutoras do Curso de THD Comemore! Você chegou ao final do curso, mas não ao final do aprendizado. Continue estudando, analisando e se aprimorando, pois aprender é rejuvenescer. PARABÉNS! 29 ANEXO VI Seqüência de atividades da 1a unidade didática da área I do Guia para a formação do THD 30 PRIMEIRA UNIDADE PROPÓSITO Iniciar, a partir de sua visão de mundo, uma reflexão sobre os problemas de saúde da população e desenvolver a capacidade de observação e comunicação com pessoas e grupos. Ao mesmo tempo, pretende estimular a percepção da relação existente entre os modos de vida e de trabalho e os problemas de saúde da população, com destaque para as questões de saúde bucal. OBJETIVOS 1. Identificar os modos de viver do homem e sua relação com os problemas de saúde geral e bucal. 2. Perceber formas de comunicação com o seu grupo, com a população e entre profissionais de saúde e usuários. 3. Identificar como as características individuais interferem com os problemas de saúde das pessoas. 31 PRIMEIRA UNIDADE CONCENTRAÇÃO SEQÜÊNCIA DE ATIVIDADES I 1. Discutir as seguintes questões: Como são as condições de vida e de trabalho das pessoas de sua comunidade? Como elas resolvem seus problemas de saúde geral e bucal? De que adoecem e morrem estas pessoas e porque isto ocorre? 2· Sintetizar os resultados das discussões dos grupos, registrando-as em cartaz ou outro material visual. 3. Discutir as seguintes questões: ORIENTAÇÃO PARA O INSTRUTOR I 1.Dividir em pequenos grupos. Apoiar as discussões dos grupos, estimulando o relato das vivências e o registro das conclusões. Enfatizar, ainda, durante as discussões, os aspectos referentes à habitação, alimentação, diversão, transporte, uso dos serviços de saúde, práticas populares, tipo de trabalho e duração, salário ou outras formas de remuneração. 2. Trabalhar com todo o grupo, orientando-o quanto à classificação das doenças, de acordo com as categorias transmissível e não transmissível e quanto às suas causas segundo alimentação, condições de trabalho, microorganismos, mística, moradia e outras. Classificar as práticas de saúde segundo a natureza: mágicas e/ou religiosas (benzeduras, rezas, despachos, etc.); medicamentos (chás, ervas, remédios em geral, etc.); privação, restrição ou recomendação de alimentos e condições ambientais; busca de ajuda especializada formal (médicos, enfermeiros, outros) e informal (curandeiros, padres, benzedeiras, parteiras, etc.). Classificar o tipo de trabalho de acordo com a atividade econômica: agropecuária, industrial, mineração, comércio, serviços (educação, saúde, transporte, etc) e informal (bóia-fria, biscateiro, vendedor ambulante, doméstico e outros). Destacar dentro de cada setor as ocupações mais significativas na sua região. 3. Dividir os participantes em dois 32 "A população conhece os seus problemas de saúde (de quê e porquê adoece) e busca formas de resolvêlos". "A população não identifica seus problemas de saúde (de quê e porquê adoece) e não busca formas de resolvê-los". 4. Apresentar as conclusões parciais de cada grupo. grupos e encarregar a cada um a discussão de uma das questões e apresentar as conclusões. 4. Trabalhar com todo o grupo. Ajudar a sistematizar os resultados, buscando extrair as alternativas apresentadas e a importância de testá-las junto à população. 5. Discutir como as conclusões do grupo podem ser comprovadas. 5. Ainda com o grande grupo, levantar sugestões das diferentes formas de ouvir a população e orientar na escolha dos instrumentos mais adequados para a obtenção das informações (observação, entrevista, questionário, etc.). Discutir quais e quantas pessoas serão abordadas, o conteúdo e a técnica que serão adotadas. 6. Dramatizar a forma mais adequada de levantamento de opinião junto à população. 6. Dividir em pequenos grupos orientando para que cada um dramatize a forma levantada. A partir de cada apresentação, registrar elementos a elas relativos (técnica de abordagem e cumprimentos dos objetivos). Conduzir a discussão, ainda em grupo, para a identificação de questões inadequadas relativas ao processo de comunicação e cumprimento do conteúdo proposto. 7. Realizar o levantamento de opinião junto à população. 7. Organizar a atividade, de preferência em duplas. 8. Apresentar os resultados obtidos no levantamento. 8. Observar e registrar pontos importantes referentes à comunicação e aos objetivos da atividade, destacando situações que possam merecer uma nova dramatização que facilite a elucidação e análise dos fatos encontrados. Trabalhar com todo o grupo na 33 montagem de um quadro, agrupando as doenças levantadas segundo as suas causas e as formas de resolução apontadas pela população. 9. Comparar os quadros obtidos nos itens 2 e 8. 9. Estimular a discussão, refletindo soe bre o porquê das diferenças encon10 tradas no perceber e enfrentar os problemas de saúde, associando-os com os modos de vida da população (moradia, trabalho, questões religiosas e culturais, educação, lazer, etc.). 10. Sistematizar o resultado da discussão. 11. Refletir em torno das seguintes situações: Numa favela, sem infra-estrutura básica, muitos de seus moradores (adultos e crianças) desenvolveram um quadro de diarréia de origem infecciosa. Ao procurarem um posto de saúde mais próximo, algumas pessoas foram atendidas e obtiveram o diagnóstico e tratamento para a doença. Entretanto, nem todos puderam seguir as orientações do médico. Os vizinhos e amigos, acometidos do mesmo mal, foram trocando idéias e informações obtidas sobre o que estava acontecendo e as formas de resolver o problema. Quando as autoridades sanitárias detectaram a origem da doença, medidas de controle foram tomadas. Mas, para uma parcela da população, a enfermidade gerou conseqüências irreversíveis. 11. Dividir os treinandos em dois grupos. Cada grupo deve refletir sobre uma das situações, de acordo com o roteiro apresentado. Roteiro para reflexão: Estimular a discussão, buscando levantar pontos que evidenciem a ligação do modo de vida da população com a doença manifestada. Enfatizar questões ligadas a: condições de vida referentes ao trabalho, renda, consumo (moradia, alimentação, vestuário, educação, lazer, saneamento); fatores ligados ao aparecimento e propagação da doença; abrangência individual e coletiva do problema e busca de ajuda formal e informal; persistência ou não do problema e formas possíveis de controle e cura. A caixa d'água de um prédio localizado numa área nobre da cidade foi contaminada. Este prédio possui uma estrutura física de grande porte (parque 34 infantil, sauna, salão de jogos, áreas ajardinadas, etc.). Alguns dos moradores, adultos e crianças, iniciaram um processo de cólica intestinal e diarréia de origem infecciosa que os fez imediatamente procurar um médico para diagnosticar e tratar a doença. Embora essas medidas tenham sido tomadas, o foco de infecção persistiu. O porteiro, observando o movimento e ouvindo parte das conversas, comentou com o responsável pela administração que muitas pessoas do prédio estavam tendo o mesmo problema de saúde. Foi buscada ajuda especializada e, através de uma rápida investigação foi reconhecida a origem do problema e tomadas atitudes adequadas para solucioná-lo. Roteiro para reflexões: * Quem adoeceu e como estas pessoas vivem? * Quais os fatores que levaram essa população a adoecer? * Quais as formas buscadas para resolver o problema e como a questão foi resolvida? *Quais as conseqüências desse problema para a população? Registrar as respostas. 12 Apresentar os resultados das discussões. 13 - Leitura e discussão do texto "Processo Saúde-Doença". 12. Registrar em forma de quadro comparativo as principais questões levantadas em cada grupo. 13.Realizar a atividade de leitura em pequenos grupos e solicitar aos grupos que façam o resumo do texto estudado. 35 14 Discussão referente à leitura do texto. 15 - Assistir e discutir ao filme "Ilha das Flores". 14 - Acompanhar a atividade, esclarecendo dúvidas. 15 - Apresentar o filme e estimular a discussão, posteriormente. SEQUENCIA DE ATIVIDADES ORIENTAÇÃO PARA O INSTRUTOR II II 1. Discutir o seguinte caso: Num porão de uma casa antiga funciona uma pequena fábrica onde trabalham oito costureiras com uma jornada de 10 a 12 horas/dia, recebendo salário mínimo e o referente às horas-extras. D. Rita, uma das costureiras, casada, mãe de seis filhos, mora numa favela e apresentou sintomas de tuberculose (febre, tosse, cansaço), posteriormente confirmado com o exame de escarro. Passados alguns dias, um de seus filhos, alcoólatra, apresentou a mesma doença, embora o restante da família não tenha manifestado o problema. 1.Trabalhar em pequenos grupos. Estimular a discussão no sentido de refletir: condições de vida, jornada e ambiente de trabalho, salário, moradia, alimentação, transporte, lazer, educação, etc.; os fatores que interferem na resistência das pessoas: sexo, enfermidade, estado nutricional, idade, fatores genéticos, condições de imunidade, uso de drogas, álcool etc.. Roteiro para reflexão: Identificar as condições que levaram D. Rita a adoecer. Por que nem todos de seu convívio adoeceram? Registrar as respostas. 2. Apresentar os resultados das discussões. 2. Trabalhar com todo o grupo ajudando a estabelecer o conceito de resistência, relacionado o com condições de vida. 3 Leitura e discussão do texto: “Mecanismos de Defesa (Noções Básicas)”. 3 4. Discussão referente a leitura do texto. 4. Acompanhar a atividade, esclarecendo dúvidas. Realizar a atividade em pequenos grupos e solicitar o resumo do texto estudado. 2 SEQÜÊNCIA DE ATIVIDADES III 1. Discutir as seguintes questões: Quais são os problemas que aparecem na boca? ORIENTAÇÃO PARA O INSTRUTOR III 1 Dividir a turma em pequenos grupos, estimulando o relato das vivências e o registro das conclusões. Por que as pessoas perdem os dentes? Como as pessoas resolvem seus problemas de saúde bucal? 2. Sintetizar os resultados das discussões do item anterior, registrando-os em cartazes ou outro material visual. 3. Debater a seguinte questão: Os problemas de saúde bucal interferem nas condições de vida das 2.Trabalhar com todo o grupo, orientando a listagem das doenças de acordo com a localização: nos dentes, gengivas, língua, lábios, bochechas, etc. e relacionando as causas, segundo: microorganismos, traumas, hábitos de higiene, alimentação, sistêmicas, condições de vida, trabalho, fatores culturais, acesso ou não à assistência odontológica, às políticas de fluoretação e à informação, prática profissional. Classificar as práticas para resolver os problemas de saúde bucal segundo. a natureza: mágicas e/ou religiosas (benzeduras, simpatias, rezas, despachos, etc.); medicamentos (chás, bochechas, pastas dentárias, antissépticos bucais, remédios em geral, etc.); busca de ajuda especializada (dentistas, médicos, farmacêuticos e outros) e informal (práticos etc.); restrição de alimentos (doces, gelados, etc.); aplicação, de calor e frio; demandas de ajuda institucional (fluoretação das águas etc.). 3. Trabalhar com todo o grupo, estimulando a discussão livremente. Sistematizar os resultados 3 pessoas? Registrar o resultado do debate. 4. Debater: O usuário percebe as questões discutidas no item anterior da mesma forma que o grupo? 5. Realizar um levantamento de opiniões junto aos usuários sobre seus problemas de saúde bucal. 4.Estimular a discussão, o relato de experiências e a importância de testar os dados junto ao usuário. Registrar as conclusões. 5.Orientar o levantamento de opinião com o usuário, com base, entre outros, nos seguintes aspectos: a) Quando sente sua boca doente? b) Quais fatores levam ao aparecimento de doenças na boca? c) Quais as conseqüências dos problemas e como são resolvidos? Discutir como e quando abordar o usuário. Orientar a tabulação das respostas obtidas (agrupamento segundo suas semelhanças e quantificação). 6. Relatar algumas situações vividas na abordagem ao usuário. 7. Apresentar o resultado dos dados levantados e tabulados. 6. 7. Destacar pontos importantes referentes à comunicação e ao conteúdo da atividade desenvolvida. Analisar e sistematizar as respostas, ressaltando os seguintes aspectos: o valor da doença bucal como impedimento para exercer atividades, as dificuldades nas relações pessoais, etc.; fatores relacionados às questões individuais (cuidado pessoal, resistência, alimentação, consumo de açúcar, etc.), às questões sociais (condições de vida e de trabalho, remuneração, consumo, acesso e qualidade dos benefícios sociais; água fluoretada; questões do ser4 viço (acesso e qualidade do tratamento, etc); acesso à informação; conseqüências para a saúde geral e bucal (dor; halitose; processos infecciosos e sua repercussão sistêmica; perda dentária, alteração da fala; estética; hábitos e mastigação; aspectos relativos ao trabalho, às relações pessoais, lazer, etc.); formas de resolução (busca de ajuda formal e informal etc.). 8. Comparar os resultados da discussão do item 4 com as conclusões referentes ao levantamento junto ao usuário. 9. Refletir sobre as seguintes questões: Como você se sente diante da situação vivida pelos usuários? 8. Estimular a discussão, refletindo sobre o porquê das possíveis diferenças encontradas, ressaltando a percepção do usuário sobre os problemas de saúde bucal. Relacionar com a questão de saúde geral. 9.Trabalhar com todo o grupo, solicitando a cada aluno que expresse sua opinião. Qual é o seu papel, enquanto profissional de saúde e cidadão, diante das questões levantadas pelos usuários? 10. Assistir ao filme "TV - Memória Popular'. 10. Apresentar o filme e estimular a discussão, posteriormente. 5 PRIMEIRA UNIDADE DISPERSÃO SEQÜÊNCIA DE ATIVIDADES 1 No seu local de trabalho, realizar um levantamento de opinião junto à sua comunidade, a cerca de seus problemas de saúde, incluindo a saúde bucal. 2 Registrar suas novas observações sobre a relação entre modos de viver e problemas de saúde. ORIENTAÇÃO PARA O INSTRUTOR 1 Apoiar o trabalho, se possível e tendo contato direto com a situação 2 observada . Discutir com os alunos as diferenças de contextos sociais no levantamento, estimulando para que sejam feitos os necessários ajustes metodológicos. Observação: Esta atividade só deve ser aplicada quando os alunos são procedentes de outras localidades. 6 ANEXO VII Fichas de avaliação 7 8 9 10 AVALIAÇAO DO DESEMPENHO FINAL ÁREA CURRICULAR 1 "PREVENINDO E CONTROLANDO O PROCESSO SAÚDE-DOENÇA BUCAL" Escola Nome do aluno Local/Unidade de Saúde Período: Data de início da Área Data de término da Área DESEMPENHOS FINAIS CONCEITO . Desenvolve ações de prevenção e controle das doenças ocupacionais, das doenças transmissíveis de interesse odontológico e das doenças cárie e periodontal, através de: · Identificação dos riscos ocupacionais ligados ao trabalho odontológico. . Aplicação de medidas para controle dos agentes físicos, mecânicos, químicos, biológicos e psicológicos que provocam doenças ocupacionais. . Lavagem, preparação, desinfecção, esterilização e manuseio de materiais e instrumental segundo normas estabelecidos. · Identificação dos problemas de saúde geral e bucal mais comuns da população, estabelecendo relações entre eles e condições de vida. . Trabalho educativo com a população considerando suas necessidades e condições de vida. · Execução de ações específicas de prevenção e controle da cárie e da doença periodontal, a nível coletivo e individual. . Orientação e acompanhamento dos pacientes e controle de comparecimento. . Conhecimento e aplicação dos índices mais utilizados em odontologia para a medida da cárie dentária e doença periodontal nas populações. ...................................... de ..................................................... de 19 ................. ___________________________________________________ Assinatura do lnstrutor/Supervisor Observação: a) Esta ficha é o resultado globalizante de todas as avaliações de processo realizadas durante as Unidades Didáticas da Área Curricular 1 e representa a competência final expressa em conhecimentos, habilidades e atitudes. b) Esta ficha é a que deverá ser encaminhada à Secretaria Escolar da Escola Técnica de Saúde e/ou Centro Formador para fins de composição do histórico escolar do aluno. 11 INTRODUÇÃO Este trabalho tem como objeto de análise as relações pedagógicas do Curso de Formação em Serviço do Técnico em Higiene Dental (THD), programa institucionalmente desenvolvido pela Escola de Saúde de Minas Gerais / Centro Formador de Recursos Humanos para a Saúde (ESMIG/CFRHS), para a qualificação profissional dos trabalhadores do setor. Essa análise se faz necessária no contexto atual da implementação, tanto da Reforma Sanitária no setor de saúde, quanto da Reforma do Ensino Médio e Profissional no Setor Educacional. A Reforma Sanitária1, enquanto um projeto de ação política que interessa ao processo de construção da cidadania no país, traz na atualidade uma reflexão sobre a agudeza e magnitude da abordagem do tema da formação de recursos humanos para o setor de saúde. Contudo, as preocupações com essas questões de recursos humanos nos serviços de saúde e especificamente em saúde bucal, já vêm de longa data. Análises e recomendações a esse respeito podem ser encontradas em inúmeros registros na história dessas instituições. O crescimento da demanda por serviços e a incapacidade de resposta do sistema de saúde são fatores básicos na acumulação do problema. Existe hoje um grande contingente de trabalhadores que prestam serviços de saúde sem a necessária qualificação profissional. Essa situação assinala os limites para a implantação de uma política sanitária com possibilidade de êxito e exige ações para superar esse quadro, dentre elas, um programa coerente de capacitação e formação profissional para o setor, que tem sido responsabilidade das Escolas Técnicas de Saúde. 1 A Reforma Sanitária é entendida como um movimento social resultado de muitos anos de luta, que, no final da década de 80, foi apresentado à sociedade brasileira, pelas organizações de ensino, entidades de classe e serviços da área de saúde como o caminho possível para a transformação das condições sanitárias do país. As Escolas Técnicas de Saúde do SUS – Sistema Único de Saúde - no Brasil são entidades governamentais que atuam no âmbito do setor de saúde e têm como função principal promover a profissionalização dos trabalhadores nele inseridos, ou em vias de inserção. Criadas em sua maioria na década de 80, essas escolas surgiram como alternativa para o enfrentamento do problema já identificado na época, da não qualificação da força de trabalho empregada nos serviços de saúde, colocando em risco a saúde da população usuária. Considerando a inserção e o contexto da prática real desses trabalhadores, as Escolas Técnicas foram reconhecidas e autorizadas pelo sistema educacional para funcionarem de forma descentralizada e atenderem às necessidades do setor2. Dentro da atual política sanitária, considerando o processo de descentralização e municipalização dos serviços de saúde, as Escolas Técnicas tornam-se imprescindíveis e estratégicas para responder às demandas de profissionalização dos trabalhadores de saúde de nível médio. Atualmente o país conta com 27 Escolas Técnicas/Centros Formadores em 18 Estados da federação. Em Minas Gerais, existem três Escolas de Formação Técnica (Norte de Minas, Vale do Aço e FHEMIG/Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais) e um Centro Formador de Recursos Humanos para a Saúde/CFRHS que funciona na Escola de Saúde de Minas Gerais, em Belo Horizonte (TORREZ, 1994). De acordo com seu regimento escolar, o CFRHS é concebido como um estabelecimento de ensino oficial do Sistema Único de Saúde, destinado a preparar profissionalmente, por meio de cursos supletivos e de qualificação profissional, pessoal de nível fundamental e médio para o desempenho de atividades específicas 2 Cada Conselho Estadual de Educação se pronuncia, através de “Parecer”, sobre a criação da Escola Técnica. A autorização de funcionamento da Escola é emitida através da Secretaria Estadual de Educação. 2 do setor de saúde. Foi criado na década de 70 com a denominação de Centro Interescolar de Saúde de Minas Gerais/CISAMI, mantido pela Fundação Ezequiel Dias/FUNED. Em 1980 mudou sua denominação (CFRHS) e seu funcionamento foi autorizado pela Portaria 012/84 de 10/01/84, da Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais. Sua sede é na Escola de Saúde de Minas Gerais, em Belo Horizonte (SES/MG, 1996). O corpo docente da ESMIG/CFRHS é constituído de pessoal legalmente habilitado, segundo as normas do Sistema Estadual de Ensino. Prioritariamente, os docentes do curso são profissionais que atuam na rede de serviço do SUS, observada a legislação vigente. O corpo discente é constituído, prioritariamente, por pessoal já engajado na força de trabalho do SUS (MINAS GERAIS, 1996). Os recursos humanos atuantes na área de saúde, denominados de pessoal auxiliar, compreendem, de uma maneira geral, os servidores de nível educacional não superior. Esse contingente é constituído de pessoas que, na maioria das vezes, não tiveram acesso à escola ou dela foram excluídas, seja da parte da educação geral, seja da parte profissionalizante. Esses profissionais prestam serviços de saúde à população em atividades e tarefas consideradas adjacentes, mas realizam ações que demandam capacidade de observação, juízo crítico e decisão, para as quais uma formação mínima seria desejável, senão indispensável. Estima-se que existam no Brasil cerca de 400 mil trabalhadores atuando na área de saúde sem qualificação específica. Exercem funções diversas, desde administração de serviços gerais até função assistencial nas áreas de enfermagem, odontologia, nutrição, fisioterapia, meios diagnósticos e vigilância sanitária, e que, devido à falta de qualificação, não recebem a devida valorização social e institucional. Representam em torno de 50% dos trabalhadores empregados no setor (PEZZATO, 1999). Várias alternativas já foram implementadas para tentar sanar a situação, que continua preocupante. 3 Desde 1975, por meio do Parecer 460/75, o atual Ministério da Educação e Desporto / Conselho Nacional de Educação estabeleceu o perfil, currículos mínimos e critérios para a formação de pessoal auxiliar odontológico, o Técnico em Higiene Dental/THD e o Atendente de Consultório Dentário/ACD. Além dessa regulamentação educacional, os profissionais da área de saúde bucal se submetem ainda a normas específicas dos procedimentos profissionais regulamentados pelo Conselho Federal de Odontologia/ CFO. O Técnico em Higiene Dental é reconhecido pelo CFO que aprovou o exercício dessa profissão com a Resolução 155/84, e alterada pela Resolução 157/87 (BRASIL, 1994). Uma discussão que se coloca hoje em relação ao pessoal auxiliar odontológico é a questão da redefinição do seu perfil profissional, bem como a necessidade de se utilizar uma nomenclatura mais apropriada ao trabalho que envolve essas ocupações (CARVALHO, 1999), em função das reformas educacionais e da demanda do sistema por serviços de saúde bucal. A reforma em curso, conduzida pelo Ministério da Educação e do Desporto, ao aplicar a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação - LDB - (BRASIL, 1996) e ao propor a edição do Decreto 2.208/97 (BRASIL, 1997), a Resolução 04/99 (CNE/CEB, 1999) e o Parecer 16/99 (CNE,1999), regulamentando a educação profissional, favorece esse debate, e exige novas posturas e ações educacionais direcionadas para a qualificação profissional no setor (BRASIL, 1999). Aos concluintes de curso de nível técnico, portadores de certificado de conclusão do ensino fundamental, será expedido pela ESMIG/CFRHS o certificado de habilitação profissional e, aos portadores de certificado de conclusão do ensino médio (II grau), será expedido o diploma de habilitação profissional. De acordo com a LDB, existem duas modalidades de educação formal: a escolar e a profissional. A educação escolar se divide em dois níveis: a educação 4 básica, formada pela educação infantil, ensino fundamental e ensino médio; e a educação superior. A educação profissional recebeu, na LDB, tratamento particularizado (BRASIL, 1997). Ela pode ser desenvolvida em articulação com o ensino regular ou em modalidades que completem estratégias de educação continuada, podendo ser realizada em escolas do ensino regular, em instituições especializadas ou nos ambientes de trabalho. No setor de saúde as Escolas Técnicas já assumem este papel, mas a atual legislação fortalece sua missão de formadora de trabalhadores qualificados. As Escolas Técnicas e Centros Formadores são as instituições formais para qualificar, a nível técnico os profissionais da área, ao mesmo tempo em que se responsabilizam pela formação das outras modalidades previstas. A educação profissional compreende três níveis. O primeiro nível, básico, é destinado à qualificação, requalificação e reprofissionalização de trabalhadores, independentemente de escolaridade prévia. É uma modalidade educacional não formal, de duração variável e não dependente de regulamentação do sistema educacional. As instituições que ministram a educação profissional, apoiadas financeiramente pelo Poder Público, deverão, obrigatoriamente, oferecer os cursos profissionais de nível básico em sua programação. Nesta categoria enquadram-se, por exemplo, os treinamentos e qualificação de Agentes Comunitários de Saúde. O segundo nível de educação profissional é destinado a proporcionar habilitação de nível técnico profissional a alunos matriculados ou egressos do ensino médio. Possui uma organização curricular própria e independente do ensino médio, podendo ser oferecida de forma simultânea ou em seqüência a este. Para obter o diploma de técnico de nível médio o interessado deve possuir o certificado de conclusão do ensino médio. Nesse segundo nível, encaixa-se o Técnico em Higiene Dental. 5 O terceiro nível, o tecnológico, corresponde a cursos de nível superior na área tecnológica, destinados a egressos do ensino médio e técnico. Os cursos de nível superior, correspondentes à educação profissional de nível tecnológico, deverão ser estruturados para atender aos diversos setores da economia, abrangendo áreas especializadas e conferindo diploma de tecnólogo. A Resolução 04/99 (CNE/CEB, 1999), institui as diretrizes curriculares nacionais para a educação profissional de nível técnico. Define as áreas profissionais, suas características, as competências profissionais gerais e as cargas horárias. Para a área da saúde, a carga horária mínima de cada habilitação é de 1.200 horas. Nessa conformação do ensino profissional, as Escolas Técnicas de Saúde, os Centros Formadores de Recursos Humanos para a Saúde e os cursos tradicionalmente por eles oferecidos, assumem uma nova dimensão na política e nas estratégias de formação profissional no país. Reformulações e novas propostas têm sido experimentadas nos últimos anos, procurando enquadrar-se à legislação vigente e tentando dar respostas adequadas ao setor. Foi com a carga horária de 1200 horas que a ESMIG/CFRHS formou nos últimos anos os Técnicos em Higiene Dental. Esse curso foi aprovado em 8/10/96 pelo Parecer 913/96 e Resolução 406/96 do Conselho Estadual de Educação/CEE. O pedido de autorização para a implantação como experiência pedagógica do Curso de Técnico em Higiene Dental apresentado ao CEE tem base legal facultada pelo Art. 52 da Resolução CEE 386/91 e disciplinada pela Resolução / CEE 398/95 (CEE, 1996). Os requisitos referentes à matrícula na ESMIG/CFRHS para esses cursos foram: idade mínima de 18 anos, conclusão do ensino de II grau e estar inserido (ou em vias de inserção) na rede do SUS. No documento apresentado ao Conselho Estadual de Educação (MINAS GERAIS, 1996), justifica-se a opção pelo curso de THD devido à política do SUS no sentido de canalizar esforços para melhorar os níveis de saúde bucal no país. Em 6 Minas Gerais, estima-se uma necessidade de 1866 THD’s para garantir a universalização de procedimentos coletivos de controle da incidência da doença cárie dentária em crianças e adolescentes de 5 a 14 anos. Tal necessidade aumenta se considerado o grupo de gestantes, adultos, velhos e crianças de 0 a 4 anos. As razões epidemiológicas, bem como as necessidades de racionalização da assistência em saúde bucais à população também respaldam o investimento na formação destes profissionais. O Centro Formador de Recursos Humanos para a Saúde (CFRHS) fez a opção pela formação em serviço do Técnico em Higiene Dental (THD) por meio da adoção do Currículo Integrado. Essa escolha aponta para uma concepção educacional que busca resgatar, para os trabalhadores de saúde, o conceito e a prática da cidadania e permite a reflexão, a crítica e o domínio do conhecimento indispensáveis à reformulação de sua prática profissional (BRASIL, 1994). A proposta de profissionalização por meio do Currículo Integrado é anterior à legislação atual. “A LDB legitimou e consagrou o trabalho de construção e implantação dos Currículos Integrados” 3. Em 1994, essa concepção educacional foi analisada em uma dissertação de mestrado na Faculdade de Educação do Rio de Janeiro. Com seu trabalho intitulado “Qualificação e trabalho em saúde: o desafio de ir além na formação dos trabalhadores de nível médio” , a autora explicitou a estratégia político-pedagógica da formação em serviço dos auxiliares de enfermagem, e os avanços possíveis para a relação entre qualificação e trabalho em saúde (TORREZ, 1994). O Parecer 16/99 (CNE, 1999), que estabelece os princípios e a organização da educação profissional, assinala a necessidade de atualização permanente dos cursos e currículos. Analisar os currículos orientadores dos cursos em andamento, além de ser pertinente e necessário para a compreensão das práticas de formação dos 3 Ena Galvão, técnica do Ministério da Saúde. Comunicação pessoal em 17/08/00 7 profissionais da área de saúde, poderá oferecer subsídios para o aperfeiçoamento constante dos programas de formação profissional do setor de saúde, e em geral. Autores como MICHAEL YOUNG (1989) afirmam que há necessidade de se compreenderem as questões curriculares, considerando-as num contexto sóciohistórico e sugerem a exploração de novas estruturas para o currículo, viabilizando as possibilidades educacionais no ambiente do trabalho. MOREIRA (1992), um estudioso das principais tendências do pensamento curricular no Brasil, defende a idéia de se planejarem currículos que dêem aos estudantes voz ativa e crítica e que lhes forneçam o conhecimento e as habilidades necessárias para a sobrevivência e o crescimento no mundo moderno. Essa concepção está associada à ênfase na necessidade de se trabalhar no sentido de levar o aluno a desenvolver força de vontade, disciplina, respeito ao trabalho, constância nos esforços e propósitos. Mas também se pretende formar cidadãos críticos, autônomos, participantes, ativos e possuidores de conhecimentos e habilidades que o levem a contribuir para a promoção de melhores e mais justas condições de vida para todos. Nessa perspectiva, o que procuramos foi analisar o Currículo Integrado praticado na formação em serviço do Técnico em Higiene Dental. Algumas instituições governamentais do setor de saúde vêm promovendo esforços no sentido de favorecer o processo de educação continuada para o nível superior e a profissionalização do nível médio por meio dos Currículos Integrados. Assim, já estão publicados pelo Ministério da Saúde, os seguintes documentos: Guia curricular para a formação do Auxiliar de Enfermagem para atuar na rede básica do SUS (BRASIL, 1994), Guia curricular para a formação do Auxiliar de Enfermagem: área hospitalar (SANTOS, 1995), Guia curricular para a formação de Técnico em Higiene Dental para atuar na rede básica do SUS (BRASIL, 1994), Guia curricular para a formação do Atendente de Consultório Dentário para atuar na rede básica do SUS (BRASIL, 1998). 8 Ainda não publicados, mas já construídos, estão os Currículos Integrados do Técnico de Patologia Clínica e Técnico de Farmácia . 4 Para o nível superior, já estão publicados os seguintes documentos: Desenvolvimento gerencial de unidades de saúde do distrito sanitário - Projeto GERUS (BRASIL, 1995), Capacitação em desenvolvimento de recursos humanos de saúde - CADRHU (SANTANA, 1993), Capacitação de enfermeiros em saúde pública para o SUS (BRASIL, 1994), Capacitação técnica para o cirurgião-dentista atuar na rede básica do SUS (BRASIL, 1994). Atrelada às capacitações técnicas, há também a Capacitação pedagógica para instrutor/supervisor da área da saúde (BRASIL, 1994). O Currículo Integrado para a formação do THD é um plano pedagógico que articula dinamicamente trabalho e ensino, prática e teoria, serviço e comunidade. Nesse plano, os problemas e suas hipóteses de solução devem ter sempre, como pano de fundo, as características socio-culturais do meio em que esse processo se desenvolve. Tal processo de formação se caracteriza pela concepção pedagógica de integração ensino-serviço, onde a realidade se torna a referência problematizadora e as ações educativas consistentes com a proposta da Reforma Sanitária, no sentido de reorientar e qualificar a prática profissional (BRASIL, 1994). As avaliações e regulações necessárias a esse processo não se processarão apenas no espaço interno do curso, mas pelos efeitos que se prolongarem, para além da ação pedagógica (TORREZ, 1994). O Currículo Integrado atende aos conteúdos mínimos profissionalizantes estabelecidos pelo Parecer CFE 460/75 e Resolução CEE 362/87 (BRASIL, 1994). Os cursos são organizados alternando períodos de Concentração e Dispersão, observada a metodologia de integração ensino-serviço. 4 Isabel Santos, técnica do Ministério da Saúde. Comunicação pessoal em 17/08/00 9 A Concentração refere-se ao momento do curso destinado ao desenvolvimento de conteúdos. Todos os alunos encontram-se juntos (concentrados) no “Centro Formador” que foi descentralizado para um município-sede. Os períodos de Concentração são caracterizados como momentos de reflexão/teorização da prática profissional. São considerados como momentos de reconstrução teórica de formas, princípios mais elaborados e científicos que buscam instrumentalizar e explicitar a prática profissional. Sob a orientação direta do Instrutor, um cirurgião-dentista da rede básica do SUS, capacitado técnica e pedagogicamente, os alunos desenvolvem atividades programadas no Guia Curricular (BRASIL, 1994). São discutidas as questões referentes a sua prática cotidiana, bem como desenvolvidos novos conhecimentos e habilidades que objetivam instrumentalizar os alunos para uma ação profissional diferente. A Dispersão é o momento do curso destinado ao desenvolvimento das habilidades práticas. Os alunos estão distribuídos (dispersos) em diferentes unidades de atendimento do SUS; num posto de saúde ou policlínica dos seus municípios de origem, onde já trabalham integrados formalmente ao sistema de saúde, normalmente próximos do município sede onde ocorre a Concentração. Na Dispersão há orientação, acompanhamento e registro sistemático do desenvolvimento do educando. Este momento visa a favorecer a reflexão de cada aluno no universo das funções para as quais está se habilitando. É na Dispersão que ocorre uma nova sistematização dos conhecimentos e a sua consolidação. Esse momento acontece após cada período de Concentração ou paralelamente a ele. O instrutor da Dispersão é o dentista que trabalha na unidade de saúde, na mesma equipe do aluno. Esse profissional docente (instrutor) também participou de uma atualização técnica e sensibilização pedagógica, oferecida pelas instituições de saúde (Secretarias Municipais). A Figura 1 mostra o esquema de funcionamento dos municípios da Dispersão, Concentração e destes municípios-sede com o CFRHS em Belo Horizonte. 10 MUNICÍPIO SEDE MUNICÍPIO SEDE CFRHS BH MUNICÍPIO SEDE = Dispersão do THD CFRHS = MUNICÍPIO SEDE = Concentração do THD Centro Formador de Recursos Humanos para a Saúde FIGURA 1: A formação em serviço do THD Não se distingue um momento específico de “Estágio Supervisionado”. Na estrutura proposta, a prática é avaliativa e acontece durante todo o processo. Uma prática contínua, relacionada com a formação teórica e técnica. O processo não separa a teoria da prática. O processo de avaliação considera o desempenho do aluno na Concentração e na Dispersão, fundamentando-se no domínio dos componentes teóricos e das habilidades técnicas. Preponderam os aspectos qualitativos sobre os quantitativos. 11 Participam da avaliação todos os dentistas envolvidos no processo ensinoaprendizagem. Utiliza-se o conceito apto e não-apto para fins de aprovação, bem como percentual mínimo de 75% de freqüência. O curso tem duração de 30 semanas, sendo 12 semanas de concentração e 18 de dispersão. Nos municípios a serem beneficiados pelo projeto, a Superintendência Regional de Ensino envolvida confirma a existência de instalações, equipamento, material didático e acervo bibliográfico adequados e disponível para o desenvolvimento do curso. Nos locais escolhidos, acha-se confirmada essa situação em relatórios de verificação in loco, elaborados por equipe de inspeção da jurisdição de ensino regional. Os cursos estão autorizados a funcionar com sedes descentralizadas em 18 Secretarias Municipais de Saúde. São elas: Araçuaí, Belo Horizonte, Bom Despacho, Brasília de Minas, Carmo do Paranaíba, Coromandel, Curvelo, Francisco Sá, Itabira, Juiz de Fora, Minas Novas, Nazareno, Paracatu, Patrocínio, Ponte Nova, Pouso Alegre, Santo Antônio do Monte e Várzea da Palma. Na página seguinte, o mapa da Figura 2 permite uma visualização da distribuição destes municípios no Estado de Minas Gerais. Desses municípios autorizados pelo CEE a oferecer o curso de formação em serviço do THD, 11 já abriram turmas e concluíram o processo e 1 município está com o curso em andamento. O quadro da Figura 3 foi montado a partir dos dados disponíveis na ESMIG/CFRHS e mostra a abrangência em Minas Gerais do processo de formação em serviço por meio do Currículo Integrado. A formação em serviço do THD é uma estratégia que, ao mesmo tempo em que possibilita ao aluno aprender a partir dos problemas demandados pela realidade, utiliza-se deles e os transforma, contribuindo assim para a melhoria da qualidade desses serviços. O ambiente de trabalho, entendido como a “sala de aula”, é um local para se aprender, mas também para se aprimorar. 12 Brasília de Minas Francisco Sá Várzea da Palma Araçuaí Paracatu Carmo do Paranaíba Coromandel Minas Novas Patrocínio Curvelo Itabira Bom Despacho Santo Antônio do Monte Nazareno Belo Horizonte Ponte Nova Juiz de Fora Pouso Alegre FIGURA 2: Mapa dos municípios autorizados pelo CEE para a formação do THD 13 MUNICÍPIO SEDE NÚMERO DE MUNICÍPIOS NÚMERO DE ALUNOS NÚMERO DE ALUNOS ENVOLVIDOS MATRICULADOS CONCLUINTES Belo Horizonte 3 56 Em andamento Bom Despacho 6 12 12 Brasília de Minas 11 14 14 Carmo do Paranaíba 11 25 24 Curvelo 11 14 13 Juiz de Fora 20 84 79 Nazareno 11 14 14 Paracatu 12 30 26 Patrocínio 1 6 6 Pouso Alegre 22 28 28 Santo Antônio do Monte 3 7 7 Várzea da Palma 4 13 13 115 303 236 TOTAL Fonte: Secretaria de Ensino do CFRHS FIGURA 3: Quadro com a distribuição dos alunos nos cursos de THD’s por municípios, número de matrículas e concluintes - 1997 a 2000 A oportunidade do aluno de participar do cotidiano do serviço, de suas dificuldades, seus mecanismos políticos e de poder, representa um aporte pedagógico inesgotável. Pressupõe-se que a formação precede e ultrapassa o âmbito escolar. Ela continua no mundo do trabalho, mediada pelas instituições de saúde (BARBOSA, 1998). A preparação dos docentes que atuam nesse processo é de responsabilidade da Escola de Saúde. Todo dentista graduado em Faculdades de Odontologia pode ser o instrutor do THD. Entretanto, na rotina dos serviços do SUS, observa-se que o dentista que entra ou faz parte do sistema, de uma maneira geral, não está preparado tecnicamente para assumir os desafios da prática coletiva, muito menos sensibilizado para o seu papel docente. As contradições colocadas pela realidade dos serviços de saúde são muito grandes. Na maioria das vezes, apesar de estarem relacionados 14 administrativamente com o SUS, os serviços de saúde e de saúde bucal não se encontram organizados sob os princípios da Reforma Sanitária. Além de ser chamado, em equipe, a repensar e reorganizar esses serviços, o dentista é também desafiado a um novo papel, que na sua graduação não foi priorizado: o de formar pessoal auxiliar. Para essa grande demanda, a operacionalização de cursos de capacitação técnica e pedagógica para dentistas é também uma estratégia para a reorganização de serviços de saúde bucal e a formação em serviço do THD. É dentro de um contexto de repensar a realidade e redefinir o modelo de assistência que se insere também a capacitação de dentistas e a formação de THD. O preparo pedagógico do profissional de nível superior é, de certa forma, condição preliminar para a viabilização dos cursos de qualificação do pessoal auxiliar ao qual nos referimos neste trabalho. Em 1996, aconteceu na ESMIG o I Curso de Especialização em Atenção Básica de Saúde / Odontologia Coletiva que capacitou 24 dentistas de municípios mineiros para reorganizarem os serviços de saúde bucal e também exercerem a função de docentes na composição da equipe. Em 1997, os dentistas que participaram do curso iniciaram no seu município de origem a formação em serviço do THD por meio do Currículo Integrado. Esses dentistas são os responsáveis pela Concentração dos THD’s. Eles também são responsáveis por deflagrar, na sua região, com apoio da Escola de Saúde de Minas Gerais, um processo de capacitação e sensibilização pedagógica dos dentistas que atuarão como instrutores do THD na Dispersão. Ao elegermos a análise do processo de formação do THD como eixo deste trabalho, demarcamos também sua abrangência. Interessou-nos estudar a construção de ordens curriculares alternativas, as visões sociais transmitidas e a prática como ponto de partida e de chegada. 15 Este trabalho tem significação especial para os trabalhadores que atuam nos processos educativos no setor de saúde e saúde bucal, e para os educadores que se ocupam de estudos de currículo de formação em serviço, em diversos setores. “O objeto desse estudo se vincula ao campo das utopias por justiça social, democracia e libertação. Não podia ser diferente, em razão do currículo estar no centro da relação educativa, e estar ligado ao saber, poder e identidade” (Cit. Pág. 121 ROMANO, 1999). Suas implicações estão no cenário municipal, estadual e nacional. Sua contribuição se localiza no campo da estruturação dos cursos profissionalizantes, bem como nos cursos de formação dos docentes de profissionais de nível médio na área de saúde bucal. Nossa prática profissional sempre trouxe como desafio a forte ligação da saúde e educação. Na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais / PUC-MG, desenvolvendo atividades docentes no Curso de Atendente de Consultório Dentário (ACD), questionávamos o nosso trabalho como professores, ao mesmo tempo em que identificávamos os limites daquela formação que estava sendo oferecida. Perguntávamos: como, a partir dos conhecimentos transmitidos aquelas alunas responderiam às demandas do mundo profissional? Enquanto docentes da disciplina de Odontologia Social, também na PUC-MG, o desafio era sermos educadores dentro de uma estrutura curricular que enfatizava ações tecnicistas, onde a repetição era o foco maior. Como estabelecer relações pedagógicas que contribuíssem para que o aluno se tornasse mais crítico e questionador? Como sensibilizá-lo para o seu papel de ator social? Mas a motivação maior para este estudo é oriunda da nossa atuação na área de recursos humanos, como integrante da equipe formadora de 16 profissionais de nível básico e técnico da ESMIG/CFRHS e como instrutora e coordenadora de cursos de pós-graduação do SUS. Inquietavam-nos as propostas de inserção do “nível médio” na equipe de saúde bucal. No final da década de 80, quando fomos convidadas pela Organização Pan Americana de Saúde para construirmos o “Guia curricular para a formação do Técnico em Higiene Dental para atuar na rede básica do SUS”, iniciamos um caminho de tateios e sucessivas aproximações do que viria a ser um Currículo Integrado. Esse material foi publicado pelo Ministério da Saúde nos anos 90, enquanto proposta nacional e utilizado em vários estados, inclusive em Minas Gerais. Construir esse plano pedagógico foi um grande desafio em relação à organização do seu conteúdo e à compreensão da sua dimensão político-pedagógica. Mas na época, nosso conhecimento pedagógico não nos permitiu compreender o poder de regulação dos currículos escolares. Foi a partir da consolidação da nossa formação pedagógica, através do Curso de Mestrado em Educação, ao entender as dimensões sociais e práticas do currículo, é que foi possível perceber a importância de analisar e avaliar a proposta do currículo em questão. Esse estudo sobre a formação em serviço do THD, representou uma possibilidade de resgate da reflexão sobre a dimensão pedagógica e os efeitos do controle social do Currículo Integrado por nós implementado. Representou também a desmistificação do conceito de pesquisa, apontando os múltiplos horizontes que a formação em serviço abre, reforçando a idéia de investigação enquanto descoberta, criação, diálogo. Especialistas em educação exaltam a importância da tarefa política de estabelecer arranjos curriculares que sejam transgressivos da ordem curricular existente. A construção de ordens curriculares alternativas considera a 17 disciplinariedade como um núcleo a ser atacado em uma estratégia de desconstrução da organização curricular existente (MOREIRA, 1995). Que visões sociais estariam sendo transmitidas aos profissionais da saúde envolvidos nesse plano pedagógico? Que identidades individuais esse currículo estaria produzindo? Entendendo o currículo não apenas como implicado na produção das relações de poder no interior da escola e da sociedade, mas também como histórica e socialmente contingente, sua área de atuação é vista como uma arena política. Usando a antiga metáfora, o currículo não será mais uma pista de corrida, mas a própria jornada (DOLL, 1997). Sabe-se que a corrida começa antes do ponto de largada da pista (grade curricular) e continua o seu longo caminho após a placa de chegada. A pista, por si só, não define a corrida. É preciso saber quem corre, como corre, o que vislumbra a frente. Quem é o técnico dessa corrida? Como é essa pessoa que também definirá o ritmo a ser impresso? A corrida é uma ação isolada ou os corredores estão envolvidos em uma atividade coletiva? No correr (apropriação do conhecimento) predominam as ações de competição ou de cooperação? Enquanto correm transformam a realidade que os cerca? São estimulados a fazê-lo? Qual é o “clima” da corrida? Como se comportam as autoridades políticas que optaram por essa jornada? Depois da linha de chegada, qual é a postura dos corredores? Qual a dimensão política da ação pedagógica que foi desenvolvida? O conhecimento não é algo estático, acabado e definitivo, Sua renovação precisa estar constantemente penetrando a prática, e vice-versa, num movimento dialético, incessante de realimentação das idéias pelos fatos e dos fatos pelas idéias (KRAMER, 1989). Foi com esta concepção que o Currículo Integrado para a formação do THD foi construído. No entanto, queríamos investigar quais eram os pressupostos da arquitetura interna do Currículo Integrado. O curso havia contribuído, como se 18 propunha, para possibilitar no processo de qualificação, além de conhecimentos, atitudes comprometidas com a mudança da situação de saúde da população? Desde o início do Curso de Mestrado, havia o desafio de definir o objeto de estudo e, em seguida, enxergar sutilezas, relações ligadas a esse objeto que permitissem identificar as teorias que o suportavam. Tratava-se de um grande investimento em, a partir de uma dada realidade, buscar explicações teóricas (ou construí-las) que possibilitassem uma melhor leitura e entendimento dessa realidade (BOURDIEU, 1989). Este foi o nosso desafio. Organizamos esta exposição da seguinte maneira: • Introdução: exposição do objeto, objetivos da pesquisa, problemática, o envolvimento com o trabalho, seus limites, importância e a quem se dirige o estudo. • Capítulo 1 – Considerações metodológicas: apresentação das condições em que se deram os trabalhos, os caminhos escolhidos para a efetivação do estudo, os atores, as questões inquietadoras. • Capítulo 2 – Os pressupostos teóricos de Basil Bernstein. • Capítulo 3 - O Currículo Integrado do THD • Capítulo 4 – Interpretação dos resultados. O caráter educativo da formação em serviço: discussão acerca do tema Currículo Integrado. • Conclusões: síntese dos impactos, dificuldades e possibilidades da alternativa pedagógica de formação em serviço por meio dos Currículos Integrados. • Referência Bibliográfica • Anexos 19 CAPÍTULO 1 CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS Coerente com o processo que deu forma ao trabalho proposto, a opção metodológica para analisar e avaliar o Currículo Integrado do THD foi a abordagem qualitativa, onde o ambiente natural funcionaria como a fonte direta de dados. O interesse maior era verificar como a situação se manifestava, ou seja, a preocupação com o processo de realização do curso ou de concretização da proposta do Currículo Integrado era muito maior do que com o produto, ou seja, com os próprios resultados do(s) curso(s) desenvolvido(s). Nossa preferência também se baseava no fato de querermos estudar questões difíceis de quantificar, como postura, sentimentos, motivações e atitudes (GOLDENBERG, 1998). O Estudo de Caso foi o recurso metodológico assumido. Esse tipo de abordagem nos permitiu partir inicialmente de algumas questões ou pontos críticos que foram sendo explicitados, reformulados ou abandonados à medida que se mostraram mais ou menos relevantes. Não partimos de uma visão pré-determinada da realidade, mas procuramos apreender os aspectos ricos e imprevistos que envolveram uma determinada situação (LÜDKE, 1986). Nosso propósito era retratar uma unidade em ação: o caso da formação do THD por meio do Currículo Integrado. Nessa pesquisa, o desafio foi colocar em jogo a teorização de questões ligadas a uma prática escolar (as relações pedagógicas no curso de formação do THD) aparentemente irrisória, sem significado. A experiência de utilização do Currículo Integrado para a formação em serviço do THD parecia-nos uma alternativa pedagógica viável e que produzia resultados interessantes e necessários. Ainda que essa idéia fosse partilhada pelos atores envolvidos e se consolidasse numa avaliação institucional positiva, o nosso movimento durante todo o tempo foi no sentido de romper com essa representação e buscar respaldo científico para esse conjunto de constatações. 20 À medida que foi possível estabelecer uma trama teórica que permitiu um olhar sobre o objeto com mais clareza e distância, foi identificada também a necessidade de alterações no caminho que inicialmente havia sido traçado. Ainda que seja comum encontrar nos trabalhos acadêmicos os relatórios finais descrevendo de forma acabada os caminhos que foram seguidos, é sedutora a idéia de registrar as primeiras formas, as propostas iniciais de como foi concebida a pesquisa. No projeto apresentado ao Colegiado do Curso de Mestrado, sobre a abordagem metodológica, no item: “dados a serem coletados, os instrumentos e procedimentos de coleta”, havia a proposta de uma análise preliminar de dados disponíveis para depois procedermos à coleta de outros dados, por meio da observação e entrevistas com docentes e autoridades envolvidas. A aplicação de questionários destinados aos THD’s formados em um município sede escolhido, era uma tentativa de certificação do que pensavam e refletiam esses atores sobre o seu processo de formação em serviço. Entretanto, o tratamento oferecido aos dados que nos serviriam como preliminares, acabaram elevando-os à qualidade de material empírico para essa dissertação. Adiante falaremos mais detalhadamente sobre esse material. Talvez, por já estarmos submetidas a um meio com alto nível de “contaminação” pela busca de integração entre teoria e prática, seja tão difícil falar do caminho seguido, sem descrever como foi o caminhar. A ESMIG/CFRHS, através da equipe coordenadora dos cursos de qualificação profissional, realizou uma ação diagnóstica para verificar como os instrutores da Concentração dos cursos de formação de THD avaliavam esse processo em Minas Gerais. Assim, foram realizadas Oficinas de Trabalho com a participação dos C.Dentistas de diferentes regiões do estado onde o curso já havia sido concluído, totalizando, àquela época 7 municípios (Bom Despacho, Brasília de Minas, Carmo do 21 Paranaíba, Juiz de Fora, Paracatu, Patrocínio e Santo Antônio do Monte). Para essa Oficina de trabalho foram levantados dados de matrícula e identificados os THD’s (sexo, idade e escolaridade), total de alunos que iniciaram e concluíram o curso e demanda de formação de novas turmas por município. As informações agrupadas no Anexo I nos permitiram um primeiro traçado do perfil dos alunos e dos municípios já envolvidos no processo. Não havia dados disponíveis para um delineamento sócioeconômico desses profissionais, o que nos possibilitaria um maior conhecimento do grupo e possíveis integrações com outros trabalhos. Ainda na Oficina de Trabalho que foi realizada na Escola de Saúde de Minas Gerais, os Dentistas-Instrutores da Concentração do curso de THD responderam a um questionário auto-aplicável. A partir da tabulação dos dados colhidos nos questionários e da Oficina em si, foi elaborado um relatório final. O relatório final dessa Oficina (Anexo II) foi encaminhado às autoridades setoriais. Também foram definidas estratégias de condução da política de formação do THD em Minas Gerais. Esses dados que nos foram disponibilizados permitiu-nos inicialmente identificar um “Panorama da Profissionalização do THD em Minas Gerais”. Identificamos o total de municípios envolvidos nesse processo de formação de THD por meio do Currículo Integrado e projetamos o resultado em um mapa (Anexo III). Esse mapa revelou-nos uma grande contradição da proposta de formação de trabalhadores de nível médio para os serviços de saúde bucal no Estado de Minas Gerais: as regiões mais carentes e necessitadas (Vale do Jequitinhonha e Norte de Minas), ainda que tivessem instrutores capacitados para iniciar a formação do THD, não dispuseram de recursos financeiros suficientes para dar continuidade a esse processo. No plano pedagógico, foi instituído como rotina, na ESMIG, o acompanhamento dos coordenadores de cursos de formação de THD, por meio dos Encontros Pedagógicos. Trata-se de um espaço aberto para a discussão e encaminhamento de 22 questões técnicas e pedagógicas, onde são abordados temas levantados pelos cirurgiões-dentistas responsáveis pela Concentração do curso. Esses encontros possuem caráter regular, em regime trimestral, e estão sendo alvo de avaliação constante pelos atores envolvidos. Acompanhamos o cotidiano da ESMIG/CFRHS como funcionária da instituição e, ao mesmo tempo, como pesquisadora. Tentamos olhar para dentro da Escola, perceber seus problemas, suas precariedades, seus avanços, suas contradições. Observamos detalhes administrativos e pedagógicos, conversamos informalmente com técnicos e diretores. “É um mergulho no empírico, mas não um mergulho desprovido de proteção. Levo comigo um equipamento rudimentar, mas o suficiente para não me afogar no mar de fatos aparentemente desarticulados que é a vida diária de uma escola” (cit. Pág. 62 MELLO, 1998). Pretendíamos, a partir dessa etapa, fazer uma primeira ordenação do material que estava nos municípios e foi disponibilizado para esse estudo. Pretendíamos, ao mesmo tempo, verificar alguns pressupostos teóricos, definir o município onde centraríamos os estudos de campo, bem como os destaques pedagógicos levantados pelos docentes e que mereceriam maior atenção ao longo das outras etapas da pesquisa. Após essa primeira sistematização é que definiríamos os roteiros de entrevistas e as guias de observação. Como a atenção estava concentrada em fazer uma análise qualitativa do curso, fizemos uma leitura minuciosa dos registros disponíveis. Deparamo-nos com os relatórios das inspetoras regionais de ensino e investigamos todos as questões levantadas. Agrupando todo o material referente à formação do THD em Minas Gerais, encontramos um número enorme de registros feitos pelo corpo discente durante o andamento dos cursos. Eram avaliações feitas ao final de cada semana de 23 Concentração (uma média de registros que variava de acordo com o número de alunos no município), onde os alunos expressavam opiniões e pontos de vista sobre a prática pedagógica desenvolvida. Foi feita uma primeira leitura desse material e constatada a riqueza no teor dos depoimentos. Percebemos que tínhamos em mãos registros suficientes para avaliar as relações pedagógicas impressas aos cursos descentralizados. Isso se tornou essencialmente o material de análise. Por uma questão de tempo e de método, decidimos focar toda a atenção num só município que houvesse concluído o curso. Já fora constatado, por meio dos cirurgiões-dentistas instrutores, que, quanto mais heterogêneo o grupo de alunos e de experiências que traziam, mais ricas as discussões em grupo. Assim, Carmo do Paranaíba foi o município selecionado. Sua escolha não foi no sentido de eleger um subgrupo retirado do universo populacional a ser estudado e que permitisse fazer uma generalização para todos os outros municípios. A indagação que poderia ocorrer a partir desse estudo seria a de tentar conhecer o que se podia aplicar (ou não) desse caso em outras situações de cursos que seguiam a mesma concepção pedagógica. A escolha desse município foi baseada em critérios estabelecidos a partir dos Encontros Pedagógicos (que começaram a acontecer na ESMIG de uma maneira sistematizada) de avaliação do processo de formação do THD. Dos problemas do serviço que eram levados para o curso, o mais comum referia-se aos diferentes estágios em que se encontrava a organização dos serviços de saúde bucal do SUS. A questão mais polêmica que surgia era o fato da “sala de aula” (serviços locais de saúde bucal) não estar organizada o suficiente para garantir ao THD uma prática ajustada à aplicação dos novos conhecimentos adquiridos. Havia uma grande contradição no processo de formação do THD. A maioria dos municípios possuía um modelo de atenção à saúde centrado no profissional de nível superior (cirurgião- 24 dentista), de enfoque individual, de caráter curativo e Equipamento/Dependente, ou seja, com o pressuposto de que a ausência de equipamento odontológico inviabilizava as ações assistenciais. Ao mesmo tempo estavam investindo na formação de um profissional que tem como ação primeira o controle da incidência das doenças bucais (prevenção), e que discutia com freqüência a importância da inversão da lógica de atenção. No curso, esses profissionais eram formados para o trabalho em equipe e para a execução de ações coletivas universalizadas. Se, por um lado, a estrutura do serviço dificultava a inserção do THD, sem dúvida o fato desse profissional estar em formação e buscar no dia-a-dia a definição do seu espaço de ação, provocavam conflitos e abria espaços para uma reflexão local sobre o trabalho em equipe na construção de um novo modelo assistencial. Outro ponto de estrangulamento referia-se à inexistência, em alguns municípios, de consultórios disponíveis para o THD trabalhar. É comum encontrar municípios de pequeno porte equipados com apenas um consultório. Nesse caso, ou o THD, ou o cirurgião-dentista fazia o atendimento individual. Considerando que durante a formação profissional do THD necessariamente o cirurgião-dentista tem de estar presente no local do atendimento, ou um ou outro estaria com atividades profissionais reduzidas. Essa contradição, relacionada à produção final de serviços prestados, era motivo de grandes discussões locais. Essas eram questões que, embora ligadas à assistência, possuíam sérias implicações pedagógicas. O critério definidor para a escolha de Carmo do Paranaíba foi então o fato de, num mesmo curso, conviverem situações de municípios com graus diferenciados de organização dos serviços de saúde bucal. A heterogeneidade das práticas de saúde bucal e, conseqüentemente, as concepções diferentes que cada trabalhador envolvido trazia, faziam com que Carmo do Paranaíba fosse o município eleito. 25 Na nossa hipótese inicial, quanto mais diversas e contraditórias as realidades, mais polêmicas e ricas as relações de ensino-aprendizagem. Existia uma intenção explicitada anteriormente no projeto de pesquisa de, a partir de dados a serem colhidos em campo, identificar as relações pedagógicas que foram estabelecidas (relação professor/aluno, teoria/prática, ensino/serviço, do processo de avaliação, dentre outras). Ao longo da análise das informações já disponíveis, fomos nos deparando com registros em forma bruta que, se lapidados, aproximar-se-iam das categorias procuradas. Como NETO (2000), entendemos categoria como o conjunto de elementos ou aspectos com características comuns ou que se relacionam entre si. As informações do questionário que pretendíamos coletar dos THD’s, de como avaliavam os recursos utilizados, a atuação dos docentes, o apoio técnico, a infraestrutura do serviço, etc, encontravam-se suficientemente disponibilizadas nesse material. As percepções dos envolvidos já haviam sido colhidas durante as semanas de Concentração. Os cursos de formação de THD desenvolvidos na ESMIG traziam todos essa característica: a de registros sistemáticos de avaliações dos alunos acerca de questões relacionadas ao processo de ensino-aprendizagem. Além disso, os registros nos ofereciam a avaliação temporal do processo. Consideramos isso mais rico do que uma avaliação a posteriori, o que pretendíamos captar com nosso instrumento formal de coleta de dados. O roteiro de entrevistas com dentistas da Concentração e Dispersão que inicialmente seria utilizado foi anexado ao final (Anexo IV). Com essa escolha, a de utilizarmos os depoimentos dos educandos já colhidos ao longo do curso, julgamos inclusive que a avaliação dos envolvidos era mais verídica, mais real, sem contaminações de uma avaliação feita depois de concluído o curso. Além disso, a quantidade de depoimentos disponíveis oferecia um material farto e rico, bem maior do que obteríamos através da aplicação dos questionários anteriormente previstos. 26 Durante o Curso de Especialização dos cirurgiões-dentistas, em Belo Horizonte, vários instrumentos de avaliação do processo pedagógico foram apresentados e utilizados. Muitos desses instrumentos foram reutilizados nos municípios e recriadas novas formas de avaliação durante o Curso de Formação de THD. Assim, ao final de cada Concentração, era pedido aos THD’s que avaliassem, sob diferentes aspectos, a semana de trabalho. Em Carmo do Paranaíba, exceto na primeira unidade, quando os depoimentos foram orais e o registro feito pelo docente, essas avaliações foram escritas pelos próprios alunos. Os comandos para a avaliação variavam ao longo das unidades didáticas. A maioria dos depoimentos estava em folha de papel ofício, com a orientação de que fossem avaliados os conteúdos trabalhados, a metodologia, o material bibliográfico utilizado, o desempenho dos instrutores e do apoio técnico. Esses itens a serem avaliados se repetiam a cada mês. O que variava era a forma de apreciá-los: uma reta graduada de zero a cinco, seguida de comentários; sinais para cada tópico (verde: está bom, pode continuar; amarelo: repense e melhore ou vermelho: pare, está ruim, tem que melhorar) e a justificativa do porquê da sinalização. Foi também pedido que apontassem pontos positivos e negativos. Numa das últimas unidades didáticas, havia um comando de que avaliassem dizendo como se sentiram, o que precisava ser mudado e do que gostaram; e em outra unidade havia uma pergunta: “Como me sinto diante da perspectiva de me formar?”. Em algumas Concentrações foi pedida uma auto-avaliação. Questionava-se o desempenho individual nos trabalhos em pequenos grupos e também no grande grupo. O conjunto das avaliações, colhido ao final de cada Concentração, retratava um período marcante na vida dos educandos dos onze municípios da região de Carmo do Paranaíba. Os comentários referiam-se a inquietações no plano pessoal, profissional, emocional e sobretudo relacionado ao processo pedagógico. Embora não tivéssemos gravações que evidenciassem o tom da voz, os silêncios na fala, as expressões carregadas de emoção, as expressões escritas eram muito ricas: 27 minuciosas e diversificadas. Encontramos textos revestidos de denúncias, de sentimentos de abandono e também muitos reforços positivos e críticas sobre o processo de formação. Frases fortes, às vezes curtas, muitos questionamentos, mas sempre envolvidos por um caráter de profunda crença de que estavam fazendo sua história. Os registros foram utilizados como material empírico da dissertação. Referia-se a depoimentos de 24 alunos do curso, totalizando 275 registros escritos manualmente entre fevereiro de 1998 a fevereiro de 1999. A maioria dessas avaliações não estava identificada, o que impossibilitou nominar cada declaração utilizada ao longo da pesquisa. Quando os comentários se referiam à ação docente, normalmente o nome do instrutor estava explicitado. Consultados sobre o fato de serem citados, nenhum instrutor se opôs ou manifestou preferência de uso do anonimato. Como os documentos-fonte foram produzidos independentemente da pesquisa, procedemos a uma seleção qualitativa do material. Para a constituição desse corpus, não foi usada qualquer técnica estatística de amostragem. Todo o material foi lido e interpretado segundo os objetivos desta pesquisa. Procuramos ordená-los em relação às informações que registravam possíveis respostas às nossas questões. “Pode-se quase afirmar que é neste ponto – ao desenvolver as categorias, ao definir e delimitar os tipos de comportamentos anotados – que o estudo de caso exige a mais cerrada crítica. É nesse estágio que a sistematização da maior parte dos dados começa, isto é, condensação, cortes, reinterpretações, etc. Os passos nessa transformação, portanto, devem ser cuidadosamente marcados se o pesquisador espera que suas conclusões sejam aceitas” (Cit. Pág. 429, GOODE, 1975). A partir do ajustamento desses depoimentos, foram encontradas novas categorias relacionadas às relações pedagógicas e agrupadas da seguinte forma: Relação Ensino/Serviço, Relação Aluno/Conhecimento, Relação Professor/Aluno, Relações Afetivas. 28 “Se os documentos-fonte susceptíveis de permitir o estudo do problema foram produzidos independentemente da pesquisa, o analista procede habitualmente a uma escolha, e dentro do tipo de documentos escolhidos terá ainda muitas vezes que proceder a alguma seleção, com base em critérios que explicitará. Estes critérios podem ser de ordem qualitativa ou quantitativa” (cit. Pág. 109 VALA, 1987) Assim, as referências teóricas de que dispúnhamos orientaram uma primeira exploração do material. Essa primeira leitura contribuiu para o alargamento da problemática a estudar. Parecia-nos através dos depoimentos, que o plano pedagógico seguido na formação em serviço do THD fora adequado. Mas estava ? Qual a gramática interna e quais princípios regem o Currículo Integrado? Por quais motivos estaríamos chegando a esses resultados? Embora fosse confortador perceber que a proposta pedagógica oficialmente instituída na ESMIG/CFRHS, na habilitação do THD, estava dando certo, tornou-se inquietador saber explicar tal fato. Descobrir o que estava escondido nessa aparência de curso bem sucedido passou a ser o grande interesse deste estudo. Mas para isto, fez-se necessário um esforço maior no sentido de ir além das aparências dos depoimentos e buscar explicações para os acertos explicitados. Buscamos então dar ênfase à análise de conteúdos das comunicações escritas pelos alunos durante o período do curso de formação; procuramos captar suas falas, o sentido que deram ao curso. Sabemos dos problemas de enviesamentos de respostas, pelo menos potencialmente, decorrentes da consciência que os sujeitos têm de que estão a ser observados ou testados, dos constrangimentos associados ao papel do entrevistado, da interação entrevistador-entrevistado, etc. 29 “A análise de conteúdo tem exatamente como uma das suas vantagens o fato de poder exercer-se sobre material que não foi produzido com o fim de servir a investigação empírica” (Cit. Pág. 107 VALA, 1987) Ainda que a ênfase maior nesse estudo tenha sido dada à análise dos conteúdos das comunicações escritas dos alunos THD’s, analisamos também o Guia curricular para a formação do Técnico em Higiene Dental para atuar na rede básica do SUS (BRASIL, 1994), os documentos de Capacitação pedagógica para instrutor supervisor da área de saúde (BRASIL, 1994) e a Capacitação técnica para o cirurgião-dentista atuar na rede básica do SUS (BRASIL, 1994). Através desses documentos oficiais do Ministério da Saúde, foi possível confrontar e complementar os referidos conteúdos escritos pelos THD’s. Assistimos à fita de vídeo da formatura dos THD’s. Tivemos acesso aos discursos proferidos pelos instrutores na cerimônia de encerramento. Foi-nos também disponibilizado o álbum de fotografia de atividades desenvolvidas ao longo do curso. Esses registros visuais ampliaram o conhecimento do nosso estudo porque nos proporcionaram documentar momentos que ilustraram o cotidiano vivenciado. Essas técnicas de documentação, ao lidar com os planos da imagem e da comunicação, assumiram um papel complementar ao estudo como um todo (NETO, 2000). As fichas de avaliação das atividades de Dispersão (totalizando cerca de 700 folhas de registros), também nos serviram de consulta para algumas constatações acerca do processo de acompanhamento dos educandos. Os trabalhos escritos pelos THD’s ao final de cada período de Dispersão já haviam sido conferidos pela inspetora de ensino regional e devolvidos aos alunos. Isso impediu uma leitura e análise desse material. Também um “Memorial” foi elaborado pelas THD’s ao final do curso. Tivemos acesso restrito a ele, o que nos impediu uma exploração maior do seu conteúdo, que, sem dúvida, muito enriqueceria nossa discussão (vide roteiro em Anexo V). O “Memorial” foi um instrumento usado 30 para organizar informações da trajetória pessoal e profissional do educando. Por meio dele reforçava-se a idéia de um processo de formação amplo, integral, que contemplava os vários aspectos da vida do educando. A escolha de um referencial teórico para embasar nosso estudo recaiu sobre as teorias de Basil Bernstein sobre Códigos de Colecção e de Integração; o que nos possibilitou a análise da gramática interna do Currículo Integrado. A literatura específica sobre Bernstein nos foi disponibilizada, na sua maior parte, em edições de Portugal, o que nos trouxe alguns problemas com terminologia. Os “Códigos de Colecção” são, na verdade, no Brasil, traduzidos como “Códigos Seriados”. A partir do entendimento da organização curricular integrada do Curso de Formação do THD, foi possível uma reflexão sobre os desdobramentos e desafios dessa solução encontrada pelos serviços de saúde bucal do Estado de Minas Gerais e pela ESMIG/CFRHS. Salientamos que o termo Currículo Integrado, quando aplicado à formação do THD, não é, na sua concepção, o mesmo cunhado por Basil Bernstein. 31 CAPÍTULO 2: OS PRESSUPOSTOS TEÓRICOS DE BASIL BERNSTEIN O currículo constitui um instrumento utilizado, ao longo dos tempos, por instituições educacionais de diferentes sociedades. É usado tanto para desenvolver processos de conservação, como para a transformação e renovação dos conhecimentos historicamente acumulados. O currículo contribui para socializar as pessoas segundo valores tidos como desejáveis, como também para criar as condições necessárias tanto para manter a estrutura social quanto para formatar mudanças na ordem social e material. As relações entre currículo e a ordem social, conformam um campo que tem merecido, já faz algumas décadas, considerável investimento de análise. Ainda que seja crescente a valorização em torno dessa temática, não há consenso em relação ao que se deva entender pela palavra currículo. As divergências ocorrem por ser esse um conceito resultante de uma construção cultural, histórica e socialmente determinada (MOREIRA, 1997). A análise histórica sobre a temática currículo, mesmo tendo sido alvo de nossos estudos, não foi aqui abordada. Não foi objetivo desta pesquisa, discutir o desenvolvimento de abordagens e de dimensões do campo de currículo, mas, sim, a partir de uma dimensão apropriada desse campo, analisar a experiência curricular do Curso de Formação do Técnico em Higiene Dental. A dimensão escolhida nos orientou para entender as relações entre a estratificação do conhecimento e a estratificação social, os pressupostos subjacentes aos processos de seleção e de organização do conhecimento escolar, bem como as relações entre as formas de organização do currículo e do ensino e as formas dominantes de poder e de controle social presentes na sociedade. Enfim, entender a educação como lugar de exercício e jogo de poder. 32 O foco teórico escolhido foi produzido na Inglaterra dos anos 60/70, quando se abriram novas perspectivas para os estudiosos do campo do currículo. Foram superadas as análises de caráter limitadamente técnico, até então dominantes, e surgiram abordagens mais críticas das questões curriculares, conformando assim um movimento de reforma de pensamento e de práticas no meio educacional. O postulado de base dessa corrente de reforma considerava o conhecimento como uma construção social hierarquizada que intervém nas relações de poder ao contribuir, por sua parte, para a manutenção das relações sociais dominantes. A publicação de uma coleção de textos (Knowledge and Control) de Michael Young, Pierre Bourdieu e Basil Bernstein demarcou um movimento conhecido como a “Nova Sociologia da Educação” (DANDURAND, 1991). Devido à ênfase que foi colocada na análise dos conteúdos do ensino, esse período demarcou também a ampliação de perspectiva no campo de currículo, possibilitando a configuração de uma “Sociologia do Currículo”. (FORQUIN, 1993). Baseamos nossa análise nos estudos produzidos nesse período por Basil Bernstein. Esse autor desenvolveu uma teoria buscando entender como o currículo está estruturalmente organizado. Sua pergunta básica é: como os diferentes tipos de organização do currículo estão ligados a princípios diferentes de poder e de controle? “Bernstein não está preocupado com o “conteúdo” propriamente dito do currículo. Ele não pergunta por que se ensina esse tipo específico de conhecimento e não outro, nem tampouco por que esse conhecimento particular é considerado válido e aquele outro não. Ele está mais preocupado com as relações estruturais entre os diferentes tipos de conhecimento que constituem o currículo”. (Cit. Pág. 71, SILVA, 1999) Sua teoria aborda a complexidade que existe em torno das relações de classe no nível da política e da prática educacional e da forma como elas estabelecem limites sobre aquilo que é possível fazer nas escolas, possibilitando entender melhor 33 as relações de dominação e subordinação predominantes hoje no ambiente escolar, assim como agir melhor sobre elas. Partindo do pressuposto que existe uma conexão entre o que é ensinado nas escolas e a “sociedade mais ampla”, a tarefa é saber quais são essas conexões determinadas e como elas realmente funcionam na vida cotidiana das escolas. O desafio da teoria de Bernstein consiste em integrar os níveis micro e macro de análise (APPLE, 1992). “O modo como uma sociedade seleciona, classifica, distribui, transmite e avalia os saberes destinados ao ensino reflete a distribuição do poder em seu interior e a maneira pela qual aí se encontra assegurado o controle social dos comportamentos individuais”, escreve Bernstein (Cit. Pág. 85 FORQUIN, 1993). Dada a extensão da sua obra e a gama de tópicos sobre os quais Bernstein trabalhou, escolhemos um conjunto limitado de questões diretamente relacionadas ao nosso objeto de trabalho. Para um melhor entendimento dessas questões, selecionamos certos pontos importantes da sua teoria . Os conceitos aqui abordados referem-se aos seus trabalhos originais, escritos no final dos anos 60 e início da década de 70 e que foram referenciados e discutidos nas obras “A teoria de Bernstein em Sociologia da Educação” (DOMINGOS,1985), “Reinventando o poder na e pela educação: utopia e realidade” (COELHO, 1988), “Educação, cultura e poder de classe: Basil Bernstein e a sociologia da educação neomarxista” (APPLE, 1992), “Escola e Cultura” (FORQUIN, 1993) e “A estrutura do discurso pedagógico” (BERNSTEIN, 1996). Algumas obras sobre currículo, especialmente aquelas que dialogaram com a teoria de Bernstein ou que, com base em sua teoria também favoreceram o entendimento do currículo e suas dimensões sócio-político-culturais foram por nós estudadas. Gostaríamos de ressaltar as seguintes: “Globalização e Interdisciplinariedade: O Currículo Integrado” (SANTOMÉ, 1998) e “Documentos de identidade; uma introdução às teorias do Currículo” (SILVA, 1999). 34 Os estudos de Bernstein sobre currículo escolar remetem para três dimensões analíticas da organização do conhecimento e que estão relacionadas à sua teoria de linguagem. Na primeira dimensão, a estratificação do conhecimento refere-se a como as diferentes áreas de conhecimento obtêm diferentes avaliações e prestígios sociais. Na segunda dimensão, define-se a área do conhecimento que se espera seja dominada por alunos. Na terceira dimensão, refere-se às relações entre os conteúdos e áreas de conhecimento, caracterizando-se o currículo aberto com disciplinas fracamente classificadas ou o currículo fechado com disciplinas bem definidas e separadas pela especificidade. É nessa terceira dimensão que centraremos nossa discussão. Adiante detalharemos esses tipos de currículo. Para Bernstein, o conhecimento formal - aquele que as instituições escolares assumem como sua tarefa produzir e cultuar - é realizado através de três sistemas de mensagens: Currículo, Pedagogia e Avaliação. O Currículo define o conhecimento válido, a Pedagogia define a transmissão válida do conhecimento e a Avaliação define a validação do conhecimento por parte do aluno. 2.1 TIPOS DE CURRÍCULO: Na instituição educacional, existe uma organização do tempo em “unidades” (divisão formal do tempo) que são preenchidas por um determinado “conteúdo” (forma como o período do tempo é usado, ou seja, aquilo que preenche esse tempo). Analisar a delimitação dos diferentes conteúdos significa considerar a força da fronteira entre eles. Esta força de fronteira pode ser aberta (fronteiras atenuadas) ou fechada (fronteiras bem definidas). A partir da forma de relação que os conteúdos mantêm entre si, podem definir-se dois tipos fundamentais de Currículo – Currículo de Colecção (compartimentados - conteúdos mantêm entre si uma relação fechada) e Currículo de Integração (não existem limites bem definidos, mantendo os conteúdos uma relação aberta entre si). 35 No Currículo de Colecção pode haver uma redução de tipos de conteúdos no decurso da vida educacional, promovendo um ensino em profundidade. A especialização vai sendo cada vez maior. Os temas mantêm uma relação fechada e envolvem uma hierarquia na qual “o último mistério” é revelado muito tardiamente na vida educacional. O conhecimento é encarado como algo “sagrado”, a que nem todos têm acesso. Como se fosse propriedade privada, com vários tipos de fronteiras simbólicas, as pessoas que possuem esse conhecimento aparecem como detentoras de um monopólio. Cada professor pode (já que o conhecimento está organizado em conteúdos isolados), dentro de certos limites prescritos, seguir seu próprio caminho. A teoria pedagógica subjacente é didática (aprendizagem dirigida). Os critérios de avaliação são independentes, definidos por cada professor. A avaliação repousa sobre um leque bem definido de conhecimentos e de competências. Sabe-se antecipadamente o que são boas e más respostas. No Currículo de Integração, os vários conteúdos estão subordinados a uma idéia central que, reduzindo o isolamento entre eles, os agrega num todo mais amplo. Cada conteúdo deixa de ter importância por si só para assumir um significado relativo. A função de cada conteúdo é determinada e explicitada dentro do todo de que faz parte. Os conteúdos abertos se inter-relacionam em torno de uma idéia central, integradora. Os professores encontram-se envolvidos numa tarefa partilhada, o que conduz a um entrosamento e um estilo de avaliação comum. A prática pedagógica deve estar centrada no modo como o conhecimento é adquirido e não nos estados do conhecimento. A teoria pedagógica tende a ser auto-reguladora. Os critérios de avaliação são comuns. Um Currículo de Integração conduz a um ensino em extensão. Segundo Bernstein, na década de 70, esse tipo de Currículo apenas existia ao nível da ideologia e da teoria, havendo um pequeno número de escolas que tinha tentado institucionalizá-lo. 36 2.2 CLASSIFICAÇÃO E ENQUADRAMENTO DO CONHECIMENTO EDUCACIONAL Bernstein faz uma análise dos princípios subjacentes à estruturação de um currículo dado. Para essa análise, ele se apóia em Marx, que havia demonstrado que a estrutura das classificações e enquadramentos da sociedade confirmava a distribuição de poder, e, em Durkheim, que demonstrara os princípios que regem o controle social. Classificação e Enquadramento do conhecimento educacional são definidos em função da força de fronteira. Fronteiras são arranjos sociais, pelos quais domínios de conhecimento e de experiência são mantidos separados. São utilizadas para demarcar esferas respectivas do “sagrado” e do “profano” no conhecimento elaborado. A Classificação se refere às relações entre os conteúdos, isto é, a natureza da diferenciação entre conteúdos e entre o conhecimento puro e aplicado. Quando a Classificação é forte, os conteúdos estão bem isolados uns dos outros por fronteiras nítidas, assim como são nítidas as fronteiras que separam o conhecimento puro do aplicado. Quando a Classificação é fraca, os isolamentos entre os conteúdos e a forma pura e aplicada dos conhecimentos são reduzidos; as fronteiras são atenuadas. A estrutura básica do sistema de mensagem Currículo está baseado nas variações da força de Classificação (Figura 4). Característica Disposição dos conteúdos Classificação forte Isolados por fronteiras nítidas Classificação fraca Isolamento reduzido, fronteiras atenuadas FIGURA 4: Estrutura Básica do Sistema de Mensagem Currículo 37 Uma forte Classificação pressupõe fortes defensores de fronteiras entre conteúdos e cria um forte sentido de pertencer a uma classe particular (dominante), ou seja, leva à criação de uma identidade específica. O Enquadramento refere-se à forma do contexto no qual é feita a transmissãoaquisição do conhecimento, ou seja, está relacionado à força da fronteira entre o que pode e o que não pode ser transmitido numa relação pedagógica. O Enquadramento refere-se ao controle que o professor e o aluno possuem sobre a seleção, ritmo e organização do tempo do conhecimento a ser transmitido-adquirido na relação pedagógica. A estrutura básica do sistema de mensagem Pedagogia é dada pelas variações na força de Enquadramento (Figura 5). Características Controle sobre o que Enquadramento forte Enquadramento fraco é Fronteira nítida demarcando o Fronteira atenuada transmitido que pode e o que não pode ser transmitido Opções disponíveis ao professor Opções reduzidas Gama de opções e aluno para o controle do que é transmitido e adquirido Relação entre conhecimento Isolamento entre conhecimento Fronteira atenuada extra-escolar do professor e do educacional aluno e o e conhecimento conhecimento comunitário do dia-a-dia educacional FIGURA 5: Estrutura Básica do Sistema de Mensagem Pedagogia Os Enquadramentos fortes reduzem o poder do aluno sobre o que adquire, como adquire e quando adquire e aumentam o poder do professor na relação pedagógica. 38 A relação entre conhecimento escolar e não escolar evidencia o controle da comunidade sobre a escola. 2.3 CÓDIGOS DE CONHECIMENTO EDUCACIONAL Os sistemas de mensagens (Currículo, Pedagogia e Avaliação), aqui considerados em conjunto, são modelados por princípios subjacentes que constituem o Código do Conhecimento Educacional. Código é um conjunto de regras implícitas. A forma que este código assume depende dos princípios que regulam a Classificação e o Enquadramento do Currículo, Pedagogia e Avaliação. Sendo um código de conhecimento educacional um princípio que modela um dado Currículo, a tipologia dos códigos partirá da distinção entre os tipos de Currículos. Desse modo, consideram-se dois códigos gerais subjacentes aos dois tipos de Currículo: Código de Colecção e Código de Integração. . Código de Colecção: Surge em qualquer organização do conhecimento educacional que envolva forte Classificação, variando os seus sub-tipos conforme a força da Classificação e do Enquadramento. O Código de Colecção especializado diz respeito a um Currículo de Colecção onde o número de conteúdos fechados é reduzido. O Código de Colecção não especializado refere-se a um Currículo de Colecção em que existe um número relativamente elevado de conteúdos fechados. . Código de Integração: Surge em qualquer organização do conhecimento educacional onde haja uma marcada tentativa de reduzir a força de Classificação, variando os seus sub-tipos quanto à força dos Enquadramentos relativos ao controle do professor e do aluno sobre o conhecimento transmitido. Existe a subordinação de disciplinas ou cursos previamente isolados a qualquer idéia relacional que atenue as fronteiras entre as disciplinas. O Código de Integração pode estar baseado num professor que dispõe de um extenso período de tempo com o mesmo grupo de alunos, ou baseado num grupo de professores que atuam subordinados a uma idéia relacional que atenue as fronteiras entre os conteúdos. 39 A natureza da Classificação e do Enquadramento afeta a estrutura de autoridade/ poder que controla a seleção e a organização do conhecimento educacional e, por seu intermédio, entram na consciência e modelam-na. A questão crucial para Bernstein é entender como se aprendem as posições de classe. Interessa-lhe conhecer como as estruturas de classe se traduzem em estruturas de consciência. O código é precisamente a gramática da classe. É o código que faz a ligação entre as estruturas macrossociológicas da classe social, a consciência individual e as interações sociais do nível microssocial. Para Bernstein, classe social é a posição que as pessoas ocupam na divisão social do trabalho (mais especializada, menos especializada; mais ligada à produção material ou à produção simbólica). A classe social não é uma categoria apenas econômica, mas também cultural. Assim, as frações de classe agem não apenas no interior da economia, mas também nas instituições políticas e culturais. A posição ocupada na divisão social (entendida como tendo uma base econômica e cultural) determina o tipo de código aprendido. O tipo de código determina, por sua vez, a consciência da pessoa, o que ela pensa, os significados que realiza ou produz na interação social. Os códigos são aprendidos de forma implícita. Na educação, os códigos se expressam através do Currículo, da Pedagogia e da Avaliação. 2.4 SOCIALIZAÇÃO GERADA PELOS CÓDIGOS EDUCACIONAIS Num Código de Colecção, os alunos são socializados desde muito cedo na convicção de que o conhecimento é privado, mediante o encorajamento ao trabalho isolado, sem troca de informações ou partilha de tarefas com os colegas. A estrutura profunda do código especializado manifesta-se numa forte Classificação entre pessoas através da criação de identidades específicas e de proprietários do conhecimento. O forte Enquadramento entre os conhecimentos escolar e não escolar 40 socializa muito cedo o aluno num quadro pedagógico que desencoraja conexões com as realizações da vida do dia-a-dia ou que, pelo menos, filtra cuidadosamente essas ligações. Quanto mais fortes forem a Classificação e o Enquadramento, mais hierarquizado e ritualizadas serão as relações sociais, o aluno visto como ignorante, com baixo estatuto e poucos direitos. Neste contexto, o professor tem o controle ou vigilância máxima. À medida que decorre a vida escolar e que vai se dando a especialização, os alunos vão sendo selecionados de modo a serem eliminados aqueles que não são capazes de atingir a última etapa da caminhada em que inicialmente todos estavam envolvidos. Os que avançam adquirem uma identidade educacional que dificilmente será alterada, enquanto aqueles que não conseguem sentem o conhecimento como algo doloroso e sem significado. Com a progressão da vida escolar, surge então uma relação muito estreita entre os membros que possuem o mesmo tipo de identidade. Essa relação, aliada ao sistema hierárquico do Código de Colecção, irá reforçar o controle criado pela própria hierarquia. Essa combinação assume o papel de um poderoso agente de controle. A especialização promove diferenças que reforçam a identidade educacional criando categorias puras. O conhecimento, enquanto algo “sagrado” e “misterioso”, engrandece não só o seu significado, mas também o daqueles que o dominam. O poder está então nas mãos de quem detém o conhecimento, assumindo-se esse conhecimento como um poderoso meio de controle. A “separação das coisas” permite a repetição do passado. A socialização dentro dessa separação torna essas “coisas” acontecimentos ou práticas tomadas como certas, não encorajando a busca de uma nova ordem. Quando o conhecimento é regulado por Códigos de Colecção, a ordem social emerge da natureza hierárquica das relações de autoridade, da organização sistemática do conhecimento diferenciado e de práticas de exame explícitas, geralmente previsíveis. 41 A rigidez das Classificações, bem como a dos Enquadramentos, favorece um exercício autoritário do poder docente, ao mesmo tempo em que estabelece uma margem de escolha pedagógica limitada. Ao professor não é permitida muita iniciativa tanto na escolha dos conteúdos a transmitir quanto nas modalidades da ação pedagógica. A autoridade do professor sobre o aluno não significa autonomia, já que esta é de qualquer forma delegada pela instituição para ensinar o que a instituição quer e como quer. Os discentes são subordinados aos docentes e estes são subordinados aos diretores ou aos seus chefes de departamento disciplinares, sem ter muitas relações de trabalho com os colegas do mesmo nível que eles. Num sistema como esse, de poder oligárquico e compartimentado, a transparência é muito frágil, o que favorece o descontentamento, a discórdia e o desenvolvimento de uma concepção conspiratória do funcionamento das organizações. O isolamento dos conteúdos curriculares e sua falta de relação são reflexos de outras separações e hierarquizações no mundo da produção, especialmente a que separa trabalho manual e intelectual. A realidade cotidiana aparece desfigurada, baseada em saberes aparentemente sem ideologia e descontextualizados da realidade. O conhecimento não é considerado um requisito e um instrumento para entender, analisar, refletir e agir nessa realidade cotidiana e problemática na qual os educandos vivem. Não são incentivadas atividades que evidenciem que todo conhecimento é produzido por um contexto social, econômico e político específico, que o mediatiza e condiciona. O currículo disciplinar favorece mais a propagação de uma ideologia de neutralidade. As dimensões conflituosas da realidade e da cultura são ignoradas. Nesse tipo de currículo corre-se o risco de gerar um modelo de “educação bancária”, segundo a terminologia do educador brasileiro Paulo Freire, onde o mais importante é a acumulação somatória dos conhecimentos, não favorecendo a autonomia e impedindo a possibilidade de uma educação libertadora. 42 Num Código de Integração, a sua fraca Classificação e conseqüente subordinação dos conteúdos a uma idéia relacional implica numa redução da autoridade de cada conteúdo. Haverá perturbações nas estruturas de autoridades existentes, nas identidades educacionais específicas e nos conceitos de propriedade. A redução do isolamento entre os conteúdos reduz o poder de decisão dos professores. A integração aumenta o poder de decisão dos alunos promovendo um maior equilíbrio de poder entre professor e aluno na relação pedagógica. Há um encorajamento para uma prática de uma pedagogia e avaliação comuns. A orientação da pedagogia será alterada enfatizando a forma como o conhecimento é criado e não na aquisição dos estados do conhecimento. Os pormenores de cada assunto tendem a ser minimizados, enquanto a sua estrutura profunda é valorizada. A via de conhecimento da relação pedagógica faz-se de uma estrutura de profundidade para uma estrutura de superfície. As teorias de aprendizagem assumem um caráter autoregulador, correspondendo a uma mudança nas relações de autoridade, não só pelo aumento dos direitos do aluno, como também pelo enfraquecimento da fronteira entre o que pode e não pode ser ensinado. O conceito de manutenção de fronteira reflete-se não só na manutenção do conhecimento educacional como na organização das relações sociais. Como conseqüência da socialização criada pelo Código de Integração, haverá um enfraquecimento das fronteiras entre os diferentes membros da instituição. Os professores estabelecerão relações horizontais de trabalho, resultantes de uma tarefa educacional partilhada e de cooperação. Entre os alunos, haverá também fortes lealdades e relações horizontais de trabalho baseadas na cooperação e interajuda (receber e dar conhecimentos). Há um encorajamento a comportamentos espontâneos e efervescentes a manifestação das relações sociais e o seu questionamento. 43 Quando o conhecimento é regulado por Códigos de Integração, a ordem social será planejada e construída como uma matriz de mudança potencial. Para que essa ordem criada não se torne problemática, considera Bernstein que é necessário satisfazer às seguintes condições: • Haver um consenso relativo à idéia integradora, que deverá estar bem explícita. • Ser clara e coerente a ligação entre a idéia integradora e o conhecimento que ela coordena. Os Códigos de Integração exigem dos professores um elevado poder de síntese e de analogia e grande capacidade para aceitar e explorar a ambigüidade ao nível do conhecimento e das relações sociais. • Haver uma definição muito clara de critérios de avaliação. É necessário explicitar o que vai ser avaliado, a forma como vai ser avaliado e qual o lugar das competências nessa avaliação. O Enquadramento fraco possibilita que maior número de comportamentos do aluno seja divulgado, sendo assim possível, em princípio, um certo grau de diversidade entre os alunos. É possível que os critérios de avaliação sejam fracos relativamente aos atributos cognitivos, mas fortes no que se refere às atitudes afetivas (atributos de caráter, conduta e maneira de ser). A Classificação e Enquadramento fracos criam possibilidades de tornar visível o interior do aluno. Como resultado, a socialização poderá tornar-se mais intensiva e penetrante. É porém previsível que ele reaja a estas intrusões no seu íntimo, pela criação de mecanismos de defesa. • Haver uma comissão de professores e alunos que constitua um sistema de retroação sensível e que funcione como outro agente de socialização no Código de Integração. É possível que os Códigos de Integração tenham sua origem em significados profundos. Seu movimento pode significar uma crise nas estruturas de poder e nos princípios de controle. Assim, o movimento na direção de um Código de Integração 44 representaria uma tentativa de desclassificar e alterar as estruturas de poder e os princípios de controle e, desta forma, descongelar a estrutura do conhecimento e mudar as fronteiras da consciência. Deste ponto de vista, os Códigos de Integração serão sintomas de uma crise moral. Estudiosos do campo de currículo têm assinalado que os estudos de Bernstein possibilitam interpretar relações pedagógicas no interior das instituições escolares e entendê-las como favorecedoras ou não de mudanças das relações sociais de poder. Dialogando com as implicações sociais da compartimentalização dos saberes escolares e as formas institucionalizadas de processamento desses saberes, Bernstein demonstra que “toda espécie de delimitação, quer ela seja material ou simbólica, supõe e induz, com efeito, relações de poder” (Cit. Pág. 38, FORQUIN, 1992). Portanto, consideramos que o campo conceitual da teoria de Bernstein é um referencial adequado para orientar a leitura de experiências curriculares, como demonstram estudos desenvolvidos anteriormente na Inglaterra, no contexto de consolidação da Nova Sociologia da Educação (FORQUIN, 1995). 45 CAPÍTULO 3 O CURRÍCULO INTEGRADO DO THD Uma das questões iniciais deste estudo foi a necessidade de entender o porquê de uma experiência de qualificação profissional no setor saúde ter sido desenvolvida por meio da opção por um Currículo Integrado. No Brasil, dentro do movimento da Reforma Sanitária, diante do caos instalado nos serviços de saúde, uma das tarefas a ser cumprida era a de denunciar e atuar contra as propostas educacionais existentes no setor, de reprodução da ideologia dominante. O currículo por disciplinas poderia ceder lugar ao sonho político a favor de uma prática pedagógica libertadora? O sonho da reinvenção da sociedade poderia ocupar o espaço escolar, o espaço institucional para desvendar a realidade que estava sendo ocultada pelo currículo dominante (disciplinar)? O sistema educacional, exatamente por causa de sua localização no interior de uma trama mais ampla de relações sociais, constituiria para o setor da Saúde um importante terreno, no qual ações significativas poderiam ser desenvolvidas (APPLE, 1989). 3.1 A FORMAÇÃO EM SERVIÇO A qualificação dos profissionais de saúde, no Brasil, apresentava distorções relacionadas ao perfil do trabalhador da área, muitas vezes ele mesmo excluído do processo educacional (sujeito sem escolaridade), inadequação de suas propostas, além de currículos completamente desvinculados do processo de trabalho e das características do trabalhador. Adotava metodologias condicionadoras e inculcadoras, subestimando a capacidade reflexiva do aluno, preparando-o para um exercício profissional servil e repetitivo. Aplicava procedimentos de avaliação que objetivavam predominantemente a reprovação, seguindo rigidamente a carga horária, com critérios de aprovação pré-determinados, sem vinculação com o aluno, seu ritmo de 46 aprendizagem ou a relevância dos conhecimentos frente a sua prática social (TORREZ, 1994). Segundo OLIVEIRA (1996), a busca de modalidades que superassem os limites do utilitarismo, imediatismo e assistencialismo na formação de trabalhadores da saúde, impulsionou o desenvolvimento de um processo alternativo de qualificação profissional. Assim, em 1981, foi firmado um acordo entre o Ministério da Saúde (MS), Ministério da Educação e Cultura (MEC), Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS) e a Organização Pan-Americana de Saúde (OPS), denominado Projeto Larga Escala (PLE). Os pressupostos pedagógicos do PLE contemplavam: uma metodologia de ensino na qual o educando é visto como participante ativo do ato da aprendizagem e da elaboração do conhecimento; um processo educativo estreitamente ligado aos processos sociais e às transformações políticas e o fato de que professor e aluno constroem o saber, mediatizados pelas condições concretas de sua prática profissional. O PLE evidencia a não neutralidade do conhecimento. Implantado em alguns estados do Nordeste do Brasil em 1982, o PLE passou a ser difundido nacionalmente em 1984. Em 1996, 1004 municípios já executavam o PLE (SANTOS, 1996). Seu funcionamento foi autorizado pelo setor educacional como experiência pedagógica para habilitar e qualificar a força de trabalho existente nos serviços de saúde. O PLE assinalava como aspectos relevantes para a qualificação profissional: • Integração ensino-serviço • Flexibilização e descentralização na organização dos cursos • Desenvolvimento de uma percepção crítica em relação ao conteúdo técnico e ao contexto sócio-cultural do trabalho • Abrangência da formação • Construção e execução da proposta do Currículo Integrado • Avaliação progressiva e constante • Percepção do aluno como sujeito do processo 47 • Concepção da prática profissional integral (dimensão técnica e política) • Possibilidade de formação para 25 categorias diferentes, abrangendo os trabalhadores de nível médio da enfermagem, odontologia, farmácia, apoio diagnóstico e administrativo (OLIVEIRA, 1996). Ao longo da década de 80, começaram a ser construídos os Currículos Integrados para a formação em serviço dos trabalhadores de nível médio da saúde. Em 1987, três dentistas da rede básica do SUSMG, incluindo a autora deste estudo, foram indicadas para elaborar o Currículo Integrado para o THD. Sob orientação de um consultor da OPS, fomos desafiados a construir um instrumento de formação prevendo que o educando não deveria ser retirado da sua prática de serviço, mas estimulado a refletir sobre ela e transformá-la à luz de novos conhecimentos científicos e sociais. Esse trabalho foi concluído em três anos e sua publicação pelo Ministério da Saúde se deu no início dos anos 90 (BRASIL, 1994). Dentro do PLE, a apresentação dos Currículos Integrados estava ancorada na problematização, um método de ensino/aprendizagem no qual o eixo do processo pedagógico é o movimento ação/reflexão/ação. O educando é visto como participante ativo do ato da aprendizagem e da elaboração do conhecimento. Tratava-se de um processo educativo estreitamente ligado aos processos sociais e às transformações políticas. Ao valorizar as experiências entre os sujeitos, tanto a nível consciente dos seus conhecimentos como na afetividade do grupo, a problematização adequava-se à formação de trabalhadores dos serviços de saúde, permitindo os questionamentos necessários à prática cotidiana. Segundo OLIVEIRA (1996), ao propiciar a conexão entre educação e estrutura social, essa proposta encaixava-se na corrente de pensamento didático-pedagógica conhecida como histórico-crítica. A partir da IX Conferência Nacional de Saúde, realizada em agosto de 1992, quando existiram grandes esforços no sentido de concretizar o processo de municipalização da saúde e de se propor caminhos para a efetiva implantação do SUS, o Projeto Larga Escala adquiriu maior relevância. Essa alternativa político- 48 pedagógica deveria atuar como cunha de contradição necessária, de modo a transformar a realidade anterior, tanto no plano do conhecimento, quanto no plano histórico-social. Contribuiria, assim, com as mudanças inadiáveis requeridas pelas relações sociais existentes, reproduzidas no setor saúde (TORREZ, 1994). Na formação do THD para atuar na rede básica do SUS, as situações de aprendizagem eram colocadas de maneira gradual, encadeadas e sucessivas, formando uma rede de conhecimentos articulados – o Currículo Integrado. Essa proposta pedagógica apresentava uma combinação entre dois elementos: de um lado, a realidade dos serviços de saúde, calcada em condições concretas de trabalho, e de outro a legitimidade do processo, por tratar-se de uma qualificação oficial efetivada através de centros de formação vinculados às Secretarias de Saúde e com características da escola aberta. A dinâmica dessa concepção de ensino-aprendizagem considera prioritariamente a relação entre um sujeito que aprende e um objeto que é apreendido. Três categorias conceituais sustentam essa prática pedagógica: os esquemas de assimilação; padrões culturais e sucessivas aproximações ao objeto (BRASIL, 1994). Os esquemas de assimilação são formas progressivas de ação mental ou material que um sujeito desenvolve para conhecer alguma coisa e fazem parte dos princípios piagetianos. Os padrões culturais dizem respeito à visão de mundo, mitos, tradições, estrutura familiar e trajetória profissional. As sucessivas aproximações ao objeto referem-se ao fato de que a relação sujeito-objeto não se processa de forma linear, mas através de um movimento de idas e vindas (OLIVEIRA, 1996). A discussão de como é a montagem de um Currículo Integrado, publicada na “Capacitação Pedagógica Para Instrutor/Supervisor da Área de Saúde”, editada em 1989 e reimpressa em 1994 pelo Ministério da Saúde/DF (BRASIL, 1984), será aqui 49 abordada com o intuito de esclarecer o processo de construção do Currículo Integrado para o THD. A construção do Currículo Integrado para a formação do THD iniciou-se com a definição de um perfil profissional. As atribuições dessa categoria incluíam, além das já regulamentadas, outras que deveriam ser absorvidas, no sentido de se ajustar o trabalho do THD às necessidades dos serviços de saúde bucal. Essas atribuições foram reunidas em áreas, de acordo com o tipo genérico de atividades. Nessas áreas, foram identificadas as competências necessárias e os conceitos, processos, princípios e técnicas para o desenvolvimento dessas competências. Os conhecimentos comuns a cada competência foram relacionados e hierarquizados. Desse processo de síntese e classificação dos conhecimentos, resultou uma rede de estrutura de conteúdos. Os conteúdos, processos ou princípios mais gerais ou englobadores foram identificados como assuntos ou conceitos-chave. Cada conceito-chave e sua correspondente rede de conhecimentos teóricos e práticos deu lugar a uma unidade de ensino-aprendizagem. Cada unidade possuía uma estrutura pedagógica dinâmica, orientada por determinados objetivos de aprendizagem, em função de um conjunto articulado de conteúdos e sistematizada por uma metodologia didática. As unidades guardavam autonomia entre si, ao mesmo tempo em que se articulavam umas com as outras com vistas à totalização das áreas de atribuições e do perfil profissional. Como se pretendia que o aluno construísse o seu próprio conhecimento, a aprendizagem se daria como resultado da assimilação ativa a partir da própria prática do sujeito e das sucessivas mudanças provocadas pela informação gradativamente assimilada. 50 Os objetivos de cada unidade refletiam, então, esta atividade assimiladora do aluno no processo de sucessivas aproximações ao conhecimento, uma forte relação prática-teoria-prática. O Currículo Integrado, pela própria concepção de integração trabalho-ensino, haveria que ser operado numa profunda mudança no processo pedagógico. Assim, era planejada uma série encadeada de atividades de aprendizagem que surgiam das situações do próprio serviço. A partir delas, incentivava-se a reflexão e busca de conhecimentos que reverteriam em novas formas de ação. Cada unidade de ensinoaprendizagem percorria o mesmo processo, variando os materiais e estratégias, integrando o ensino individual e grupal, mas sempre no mesmo sentido. A Figura 6 mostra o esquema de como funciona essa metodologia. É de autoria de Maria Cristina Davini, apresentado no texto Currículo Integrado, que está na publicação da Capacitação Pedagógica para o Instrutor/Supervisor Área da Saúde (DAVINI, 1994): TEORIA REFLEXÃO SELEÇÃO DE PRINCÍPIOS E MÉTODOS PARA A AÇÃO FUTURA PRÁTICA / REALIDADE NOVA PRÁTICA TRANSFORMAÇÃO DA REALIDADE FIGURA 6: A metodologia da problematização 51 As orientações para o supervisor, assim como as seqüências de atividades dos educandos, foram explicitadas ao longo de todas as unidades didáticas. Ao supervisor cabia orientar a reflexão, ouvindo as percepções iniciais dos educandos, estimulando a observação, a indagação e a busca de respostas. Corrigiria desvios e, junto com os alunos, avaliaria seus avanços e dificuldades; respeitaria o ritmo de aprendizagem e os padrões culturais do grupo para que eles produzissem seus próprios conhecimentos e mudanças necessárias no seu local de trabalho. Estimularia a busca ativa de conhecimentos e técnicas apropriadas a cada situação. 3.2 O SISTEMA DE AVALIAÇÃO A avaliação desse processo se iniciava com o acompanhamento sistemático da evolução do educando na construção do seu conhecimento. Enquanto atividade permanente e indissociável da dinâmica de ensino-aprendizagem, permitia acompanhar o avanço dos educandos, detectar a tempo suas dificuldades, ajustar e reajustar o ensino e suas características aos diferentes contextos, corrigir e reforçar o processo de ensino. Não se avaliaria para eliminar, mas sim para acompanhar e recuperar. A avaliação estaria dirigida não somente ao educando, mas ao processo como um todo, visando a subsidiar a tomada de decisão no sentido de superar dificuldades de operacionalização e assegurar uma apropriada utilização e combinação de tempo, recursos humanos e materiais para o alcance dos objetivos desejados. O processo era avaliado no próprio momento em que acontecia e, assim, o educando, como parte fundamental desse processo, também estaria sendo avaliado. No Currículo Integrado do THD não se preconizava uma avaliação quantitativa de aprendizado. Deveriam ser usados instrumentos de avaliação que permitiam resultados cumulativos, com a finalidade de auxiliar o educador no acompanhamento sistemático do educando-trabalhador, do processo de aprendizagem atrelado à sua atuação na prática concreta do trabalho. A perspectiva básica seria a possibilidade 52 de acompanhar, analisar e compreender os efeitos do processo prática-teoriaprática. Os instrumentos de avaliação utilizados pelo Currículo Integrado são os seguintes: • Registro de fato: O instrutor interpreta a evolução do educando por meio de situações significativas e valiosas. Usado para detectar o grau de avanço ou de dificuldade do educando em relação ao que aprendeu, em situações que se apresentam de forma espontânea, sem previsão de padronização. Com base nesse instrumento de diálogo, o instrutor programa outras situações de aprendizagem, quando necessário. O registro deve ser sintético, mas claro, de modo a retratar a situação, o comportamento significativo e o resultado da entrevista-diálogo. • Avaliações mediante atividade de papel e lápis: Realizadas mediante desenhos, croquis, preenchimento de listas, finalizando quadros, etc. Confirmam a aprendizagem na medida em que através dela se evidenciam progressos ou dificuldades. Após o diálogo sobre esses progressos e dificuldades, o instrutor deverá anotar no verso da folha de trabalho do educando sua avaliação do rendimento observado. Servem de fonte de informação para reajustar as estratégias de ensino e de acompanhar a evolução do educando. • Lista de observação: Usada para acompanhar a evolução de tarefas ou processos que podem ser desdobrados em ações muito específicas, em procedimentos que podem ser padronizados a priori. Consiste em uma lista de operações que decompõem o processo de trabalho segundo diferentes técnicas. O instrutor, observando o comportamento do educando, marcará sua presença ou ausência de domínio. É fundamental o diálogo educativo sobre cada um dos pontos de operações, de modo a corrigir, refletir e aprofundar a aprendizagem. 53 • Auto-avaliação: Instrumento usado pelo educando, através do qual são feitos registros a partir de sua própria compreensão acerca do processo de ensinoaprendizagem. O educando revela aquilo que aprendeu, de forma original, pessoal, além de apreciar seu próprio comportamento no processo. • Avaliação de produtos finais ou desempenhos: Apreciação efetuada pelo instrutor a partir da análise de todo o material acumulado. A ficha de desempenho final é o instrumento básico que legitima o aproveitamento do educando. Dessa forma, na formação do THD havia duas dimensões complementares na avaliação: uma avaliação de processo, proporcionando informações para acompanhar e corrigir a ação pedagógica durante cada passo da seqüência, e outra avaliação de produtos parciais ou desempenhos. Essa avaliação de desempenhos procuraria determinar o resultado do processo cumulativamente, verificando o desempenho profissional alcançado na área. A avaliação do produto consistiria no somatório das avaliações de processo e seria essencialmente legitimadora. Optamos por apresentar no capítulo seguinte, junto com a discussão sobre Classificação e Enquadramento os conteúdos do Currículo Integrado e as atividades desenvolvidas nos serviços de saúde. 54 CAPÍTULO 4 INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS Como já explicitado anteriormente, o termo Currículo Integrado, quando aplicado à formação do THD não é, na sua concepção, o mesmo empregado por Basil Bernstein. O Currículo Integrado de Bernstein refere-se a uma concepção situada no campo teórico, favorável a um processo não conformador, mas não implantado plenamente em ambientes escolares. Só pode ser entendido na totalidade de sua elaboração conceitual ocorrida na década de 70, na Inglaterra. “Apresenta-se menos como uma descrição de situações ou de mudanças realmente observáveis do que como uma análise conceitual e “ideal-típica”, onde o autor interroga-se sobre as implicações possíveis (no plano pedagógico, organizacional, cultural) de diversos modos de organização do saber escolar definidos a priori” (Cit. Pág. 87, FORQUIN, 1993). O Currículo Integrado do THD foi uma proposta construída nos serviços de saúde e para os serviços de saúde, regulamentada pelo setor educacional e implementada em vários estados do Brasil, inclusive em Minas Gerais. No seu modelo é claramente enunciada a proposta de ser favorável à educação de profissionais comprometidos com uma prática libertadora e traduzida concretamente nas mudanças a serem operadas no setor de saúde. Sua base de construção não se apoiou nos trabalhos de Bernstein. Interessava-nos identificar, na proposta curricular do THD, e no seu desenvolvimento real, no município de Carmo do Paranaíba, qual seria sua Classificação, seu Enquadramento, como estas categorias poderiam explicar os resultados do curso. Esperávamos que o referencial da teoria construída por Bernstein pudesse confirmar ou não se o modelo de currículo por nós elaborado 55 poderia ser apontado como elemento fundamental para se romper com uma concepção tradicional de formação profissional do trabalhador na área de saúde. O Currículo Integrado favoreceria uma formação mais abrangente e mais coerente com a proposta à qual se vincula a Reforma Sanitária? “.... Uma concepção educacional que busca resgatar, para os trabalhadores de saúde, o conceito e a prática da cidadania e permite a reflexão, a crítica e o domínio do conhecimento indispensáveis à reformulação da prática profissional.......” (BRASIL, 1994)5 O que fizemos foi um exercício, um primeiro olhar de aproximação entre a teoria de Bernstein e a formação em serviço do THD por meio do Currículo Integrado. Descreveremos a seguir nossa busca de interlocução entre essas propostas. 4.1 AS QUESTÕES RELACIONADAS À CLASSIFICAÇÃO Na formação em saúde, os currículos adotados são, normalmente, organizados com base em disciplinas. Tais disciplinas apresentam-se isoladas, estanques, justapostas de forma arbitrária e classificadas em científicas e aplicadas (ROMANO, 1999). O Currículo Integrado do THD prevê um conjunto de atividades pedagógicas estruturadas em unidades didáticas seqüenciais. A programação apresentada nos “Guias Curriculares para a formação de Técnico em Higiene Dental para atuar na rede básica do SUS” (BRASIL, 1994), se agrupa em três áreas distintas, a saber: Área I: Prevenindo e controlando o processo saúde-doença bucal Área II: Participando do processo de recuperação da saúde bucal Área III: Participando do planejamento e administração dos serviços de saúde. 5 Cópia de texto usado na página 7 desta dissertação 56 Conforme o quadro abaixo (Figura 7), essas áreas curriculares, com seus conteúdos programáticos e respectiva carga horária correspondem às disciplinas obrigatórias estabelecidas pelo setor educacional e pela regulamentação profissional do THD. Currículo Formal Relação de regiões Currículo Integrado Disciplina Área I Área II Biologia X X Química X Higiene Dentária X X X Técnica Auxiliar de Odontologia X X X Odontologia Social X X Material/Equipamento/Instrumental X X X Fundamentos de Enfermagem X X X Área III X X X X FIGURA 7: Tratamento de conteúdo curricular A dimensão do currículo que reduz o isolamento entre os conteúdos são os conceitos-chave e a relação ensino-serviço. Trata-se de uma idéia relacional, um conceito que vai além dos conteúdos, enfocando princípios gerais em alto nível de abstração. A idéia da integração ensino-serviço age seletivamente sobre o conhecimento de cada matéria a ser ensinada. As particularidades de cada matéria passam a ter reduzido significação, enfatizando-se os princípios gerais e conceitos através dos quais esses princípios são obtidos. Isso remete para uma preocupação menor em adquirir estados de conhecimento, e maior em enfatizar como o conhecimento é criado. Em síntese, enfatizam-se as várias maneiras de conhecer. Os conteúdos correspondentes a cada disciplina, e que se desenvolvem ao longo de cada área curricular, apresentam força de fronteiras atenuadas, ou 57 seja, não existem limites bem definidos. Os conteúdos estabelecem uma relação aberta entre si, isto é, sua Classificação é fraca. Ao analisar minuciosamente cada unidade didática do Guia Curricular (BRASIL, 1994), constatamos tal fato. Por exemplo, nas seqüências de atividades relacionadas à doença cárie dentária, encontramos quatro disciplinas envolvidas e em torno de dez conteúdos programáticos diferentes. Não identificamos o conteúdo “puro” das matérias, por mais técnica que fosse a atividade desenvolvida. A título de confirmação, anexamos a seqüência da primeira unidade didática da Área I, onde os conteúdos da disciplina Odontologia Social, relacionados ao Processo saúde-doença (conceito de saúde-doença, histórico social da doença, manifestações individuais e coletivas) e Comunicação em Saúde (relação ensinoaprendizagem, desmonopolização da informação) aparecem diluídos ao longo do roteiro de discussão (Anexo VI). A unidade didática também abre espaços para outros assuntos (resistência imunológica, a coleta de dados como instrumento organizante dos serviços de saúde), que serão retomados ao longo do curso. 4.2 AS QUESTÕES RELACIONADAS AO ENQUADRAMENTO: O contexto da transmissão do conhecimento: seleção, tempo, ritmo e espaço Na teoria de Bernstein, o princípio do Enquadramento está relacionado com o controle social, que regula o processo de comunicação, seja no processo de produção, seja nos processos de socialização e comunicação pedagógica. Na comunicação pedagógica esse princípio delimita o que se pode comunicar, quando, em que contexto, e como se deve comunicar (ETGES, 1979). A estrutura do Currículo Integrado para o THD é fraca, ou seja, há fronteiras obscuras entre o que pode ou não ser transmitido. A seleção do conteúdo, ainda que seguindo o mínimo profissionalizante exigido pela legislação educacional e expresso 58 no Guia Curricular (BRASIL, 1994), pode ser rearranjada de acordo com interesses e necessidades levantadas a nível local. Assim, é comum a inserção de seqüências e estudos complementares, ajustando-se as demandas do grupo de educandos, educadores e as necessidades do próprio serviço ao material básico inicial oferecido pelo Centro Formador. Há um tempo demarcado para a formação profissional (cerca de um ano), mas que é ampliado, de acordo com as necessidades individuais. O ritmo da aprendizagem dos conteúdos é previamente calculado pelos instrutores locais e traduzido em forma de um cronograma. As alterações nesse cronograma são freqüentes e determinadas pelo compasso dos alunos. A organização do tempo segue a proposta que, ao ser apresentada pelo instrutor, sofre as alterações sugeridas pelos alunos, ou modificadas pelo próprio instrutor à luz dos acontecimentos em sala de aula. Essa dimensão do trabalho foi confirmada nos registros de avaliação do curso, onde os THD’s oferecem sugestões de rearranjo: “Deveria ter um tempo determinado para cada trabalho”. “Às vezes a organização sai um pouco do controle de vocês”. “Nos grupos, às vezes há muita discussão fora dos assuntos em pauta e no grupão, acho que não precisa de tantas experiências pessoais”. Para Bernstein, existe uma evolução nos princípios de integração social em ação no contexto da educação escolar que se manifesta através de uma “abertura” maior em matéria pedagógica, cultural, social, organizacional, bem como espacial e arquitetural. O uso do tempo e do espaço torna-se mais maleável, a organização do trabalho mais flexível. (FORQUIN, 1993). O “confinamento” da sala de aula e a definição puramente racional do espaço, com filas de cadeiras geometricamente dispostas e muitas vezes com lugares determinados é tido como uma expressão de algo mecanicamente organizado. 59 Referindo-se ainda a uma organização do trabalho mais elástica, Bernstein identifica mudanças na forma de “sala de aula” , com número de alunos constante, para a forma de “grupos de trabalho”, com números variáveis de alunos segundo as atividades (FORQUIN, 1993). Durante todo o período de formação, o THD se depara com opções diferentes relacionadas ao espaço físico da sala de aula. De uma maneira geral, trabalha-se com a disposição interna em círculo, que facilita a comunicação (professor-aluno e entre alunos). Há o pressuposto de que todos têm o que aprender e ensinar. É comum uma certa “transgressão de espaço”. Sempre que necessário, cadeiras mudam de lugar. São amontoadas num dos cantos quando se utilizam dinâmicas mais movimentadas e que exigem espaços maiores. ESPÍRITO SANTO (1996) afirma que a idéia de um “universo estático”, “certinho”, é um obstáculo ao desenvolvimento do aluno e seguramente também a disposição da classe acaba por influir nesse ponto. Na formação do THD por meio do Currículo Integrado, o espaço na sala de aula era fracamente marcado; as regras que regulam os movimentos de objetos, pessoas, práticas e comunicações menos restritas. A grade espacial estava baseada na regra “as coisas devem ser reunidas”. Segundo BERNSTEIN ( 1996), isso encoraja as representações individuais. No Guia Curricular, nas seqüências de atividades e na orientação para o instrutor, essa característica aparece explícita: “Fazer dramatização de uma situação de atendimento no caso de uma extração dentária, enfocando o processo de esterilização” (Cit. Pág. 164 BRASIL, 1994). 60 No Currículo Integrado do THD, os conteúdos do saber escolar foram explorados, em primeiro lugar, através da experiência que os educandos adquiriram em seu meio social e no trabalho. Nas seqüências de atividades, foram convidados a expressarem o que pensavam e sabiam sobre aquele tema em questão. Era solicitado aos THD’s que observassem / descrevessem / registrassem as condições concretas da realidade. Havia o pressuposto de que existiam diferenças na maneira de compreender o que aparentemente era o mesmo contexto. Essas discussões aconteceram em pequenos grupos, onde a construção do conhecimento se iniciava. “É uma metodologia que dá oportunidade de todos colocarem suas experiências e isto enriquece muito o conteúdo trabalhado”. “Foi muito organizado, porque em pequenos grupos é mais fácil trabalhar e se um tem uma dúvida o outro colega pode ajudar”. “Aprendo muito, trocamos o que sabemos nos trabalhos de grupos”. Todas as opiniões eram discutidas e muitas vezes o grupo chegava a um consenso. Sempre era solicitado pelo instrutor um registro das conclusões do grupo (consensuais ou não). Essa síntese era apresentada pelo integrante do grupo para toda a turma e confrontada com as conclusões de outros grupos. As contradições que surgiam, quando não identificadas pelo grande grupo, eram então destacadas pelo instrutor. A partir dessa produção o conhecimento científico já produzido e sistematizado era apresentado em forma de textos de apoio. Aprofundando-se no tema em questão, os educandos confrontavam sua produção inicial com as novas questões introduzidas. Uma síntese final era feita e, para uma maior fixação do conteúdo, um professor (apoio técnico) fazia uma exposição teórica. O novo conhecimento seria então discutido no sentido de aplicá-lo no cotidiano, através das atividades de Dispersão. Nessa dinâmica de trabalho reconhecemos o que Bernstein chama de um conjunto de relações que são as condições para a aquisição da voz pelo sujeito. Trata-se de uma parte de sua teoria sobre os códigos, suas modalidades e o processo de reprodução cultural. O que é reproduzido e o processo de sua aquisição 61 sofrem variações, resistências, contestações, oposições e lutas. Segundo o autor, essas alterações surgem das relações estruturais entre grupos sociais. “Também argumentamos em favor de um conjunto adicional de relações, que são as condições para a aquisição da “voz” pelo sujeito. Essas são representadas aqui em forma de diagrama:” (Cit. Pág. 49, BERNSTEIN, 1996) Classificação Regras de reconhecimento O que pode ser colocado junto Sintaxe de geração Transpondo essa teoria para a estrutura curricular integrada do THD, ocorre primeiramente a apresentação do problema. Em seguida a expressão das percepções individuais e coletivas. No passo seguinte, o acréscimo do conhecimento já produzido; e por fim, o novo conhecimento a ser aplicado. “Para Bernstein há no processo de transmissão/aquisição não apenas vozes dominantes e dominadas, mas também a possibilidade de mudança nessas vozes, considerando-se a presença de uma dimensão oposicional, ainda a se constituir como voz” (Cit. Pág. 236 COELHO, 1988). No Currículo Integrado do THD era oferecida uma base para os desequilíbrios, os questionamentos necessários à ordem estabelecida. Essa tensão entre ordem e mudança favorecia o desejo e a necessidade de imprimir alterações significativas na organização local dos serviços de saúde bucal. A Figura 8 mostra o modelo da ficha de avaliação no processo transcrita do Guia Curricular (Pág. 184 BRASIL, 1994). A atividade é um convite de ruptura com a ordem estabelecida. Essa ficha era preenchida no momento de Dispersão do curso. 62 “Prevenindo e controlando o processo saúde-doença bucal” Contaminação no ambiente de trabalho Área I – Quarta Unidade Situação relacionada com Possíveis conseqüências Como resolver contaminação Orientação: Comece a observar em sua Unidade as condições de trabalho que se relacionam com o problema de contaminação. Verifique, por exemplo: • Como é eliminado o lixo da Unidade • Condições de limpeza, inclusive o banheiro • Fornecimento de água e destino dos dejetos • Presença de animais, insetos e roedores • Existência de animais, criadouros de insetos e roedores • Existência e condições de conservação de material de limpeza, desinfecção e instrumentos de esterilizar • Outras condições Para cada situação observada, procure indicar conseqüências e maneiras de resolvê-la. FIGURA 8: Ficha de avaliação no processo 63 Nas Concentrações, onde as discussões em pequenos grupos favoreciam a expressão dos próprios saberes sobre um determinado assunto, ou após a leitura de um texto de apoio, a dinâmica interna do grupo nem sempre era tranqüila, como observamos nos registros de avaliação dos THD’s: “O trabalho em grupo não está sendo realizado como proposto, pois alguns membros do grupo não querem discutir o assunto para depois registrar a síntese geral, ficando prevalecendo a opinião do membro que domina o grupo. É uma pressa de ler, não podendo trocar idéias, contar a experiência vivida. Para a apresentação é um jogo de empurra, ninguém quer ir à frente enfrentar as próprias dificuldades”. “Nem todos participam, pois existem os que falam muito e não dão oportunidade para os demais participantes”. “Sinal amarelo: os participantes do grupo estão só lendo e não comentando. Um ou dois fazem a conclusão e apresentam depois no grupão. O grupo não está sendo fiel à metodologia”. Esses comentários demonstram, por um lado, o fato de que os trabalhos em pequenos grupos já estavam incorporados à rotina educacional e, por outro, a crítica feita aos colegas por não estarem seguindo o que foi preconizado. Há um pedido para que os docentes se posicionem no sentido de ajudar o grupo a se auto-regular. “É uma pena que alguns de nossos colegas não respeitem a fala do outro, a experiência ou até mesmo o problema que o atormenta e que faz deixar muitas de nós sem coragem de dizer nada por medo de críticas. Gostaria que vocês olhassem mais pra esse lado e agissem com mais rigidez; que abordassem esse ponto de modo a consentir cada um se expressar. Obrigada.” Numa recente entrevista, quando questionado sobre a prática pedagógica, Bernstein afirmou que “uma ação pedagógica ideal seria uma ação através da qual os estudantes estão conscientes desde o princípio de sua própria pedagogia” (ESPANYA, 1998). 64 No Currículo Integrado do THD, os contextos de aprendizagem – as seqüências de atividades, os textos de leitura, as dinâmicas – serviram como desencadeadores para os educandos projetarem sua imaginação, para exercitarem sua curiosidade e favorecer suas explorações no meio comunitário e no trabalho. “Sinto que serei importante para a promoção de saúde em meu município. Já consigo ver com clareza a importância do nosso trabalho se realizado dentro das normas e técnicas que nos foram passadas. Ao contrário do que vinha acontecendo há alguns meses (meu desânimo diante das grandes dificuldades que enfrentamos), hoje sei que as mudanças e acertos só acontecem quando realmente queremos. E eu sei que conseguirei mudar muitas coisas (mesmo que seja apenas no local de trabalho), que farão significativas diferenças”. “Sinto que vai ser muito difícil ser THD no meu município, por não termos estrutura nem apoio; mas me sinto feliz por saber que agora já tenho preparo para lutar por algo de concreto que realmente poderá ser útil a alguém”. Segue-se o princípio educacional de trabalhar com o que o educando pode oferecer. A partir daí, ele é introduzido através de sucessivas aproximações nas significações universalistas das formas de pensamento utilizadas pelos profissionais já formados do setor de saúde. Segundo a terminologia de Bernstein, chama-se Pedagogia Invisível o tipo de prática usada quando as regras de ordem regulativa e discursiva utilizam critérios implícitos para hierarquizar, seqüênciar e cadenciar o conhecimento. O adquirente parece preencher o espaço pedagógico. O foco está em procedimentos internos do adquirente (cognitivo, lingüístico, afetivo, motivacional). Considera-se que esses procedimentos são compartilhados por todos os adquirentes, embora sua realização como texto irá criar diferenças entre eles. Tais diferenças não são usadas como base para comparação entre eles, mas uma indicação de singularidade. “As pedagogias invisíveis colocam o foco nos procedimentos ou competências que todos os adquirentes devem trazer para o contexto pedagógico. As pedagogias 65 invisíveis estão preocupadas em organizar o contexto para possibilitar que as competências compartilhadas desenvolvam realizações adequadas aos adquirentes. Assim, no caso das pedagogias invisíveis, são produzidas, através de comunalidades internas (isto é, competências compartilhadas), diferenças externas não-comparáveis” (Cit. Pág. 104-105 BERNSTEIN, 1996). Importante destacar que, o conceito de código pressupõe competências (lingüísticas/cognitivas) que todos adquirem e compartilham. Não é possível discutir código com referência às deficiências cognitivas localizadas no nível da competência. O código refere-se a um processo de regulação cultural específico da realização das competências compartilhadas. Entendemos que o Currículo Integrado para a formação do THD usou da prática de uma Pedagogia Invisível. Adiante retomaremos essa questão. Os contextos das escolas copiam (muitas vezes) aspectos que estão excluídos do mundo do trabalho. Quando os educandos se dirigem à escola, entram num sistema simbólico que não lhes traz ligação alguma com a vida profissional que levam fora dela (BERNSTEIN, 1985). Rompendo com a dicotomia teoria/prática, o curso é conduzido no sentido de refletir sobre a realidade dos serviços de saúde e transformá-la. “Eu achei bastante interessante, pois o aluno tem mais liberdade de expressar suas idéias, opiniões e sugestões. Também neste método é colocada a realidade desse serviço em cada município, podendo cada aluno ou instrutor fazer suas críticas e sugestões sobre o assunto”. “Foi um bom módulo, esclareceu dúvidas que tínhamos em relação a nosso trabalho”. “Aprendemos muitas coisas que irão nos ajudar muito em nossos serviços”. No plano pedagógico do Currículo Integrado do THD, há o pressuposto de que a experiência social que o educando possui é válida e significativa e que, essa 66 imagem deve ser devolvida a ele. Para devolvê-la é preciso que ela faça parte da trama da experiência educativa que criamos. A escola torna-se assim local de encontro interessante e apaixonante para os educandos e educadores. “Os assuntos estavam muito interessantes, onde pude expor o que sabia, pude participar mais e aprender muita coisa nova”. “Metodologia é inovadora, proporcionando assim melhor entendimento e assimilação. Trabalho em grupo nos dá chance para tirar dúvidas entre nós e de conhecer novas realidades”. “Acho muito interessante esta metodologia, nos dá liberdade de questionar mais e aprendemos muito com os outros”. “A metodologia faz com que possamos nos soltar e participar”. Essa organização do conhecimento educacional para a formação do THD, envolvendo uma marcante tentativa de redução da força de Classificação e de Enquadramento, dá lugar ao chamado Código Integrado. O Código Integrado favorece relações do tipo “horizontal” (concordância, cooperação e participação) em todos os níveis, tanto entre os alunos quanto entre os professores. Há um contínuo trabalho de equipe com ajustamento de objetivos, conteúdos, métodos, modos de avaliação, enfim, um consenso. A explicitação e a homogeneização da base ideológica dos cursos tornam-se uma necessidade. A avaliação leva em consideração níveis mais profundos da personalidade, aptidões e atitudes gerais. A informação circula, a visibilidade social é muito grande, todo mundo tem o direito de saber e o poder de comunicar (FORQUIN, 1992). 4.3 TIPOLOGIA GERAL DO CÓDIGO INTEGRADO / THD Segundo Bernstein, podemos encontrar duas modalidades do Código tipo Integrado: a primeira envolvendo um professor que tem uma extensa quantidade de 67 tempo para estar quase sempre com o mesmo grupo de alunos. Esse professor opera com vários conteúdos distintos, obscurecendo as fronteiras entre eles. A outra modalidade envolve mais de um professor. Nesse caso, a integração é mais difícil em relação à primeira (que envolve somente um professor), por implicar em uma inter-relação entre eles. O grupo de professores pode ser de uma matéria comum ou de diferentes matérias (SANTAROSA, 1979). A tipologia do Currículo Integrado para o THD refere-se a um modelo intermediário: um professor, que conta com a participação de um apoio técnico. O apoio técnico é um outro professor (normalmente um especialista na temática estudada), que é convidado ao final de cada unidade didática a auxiliar a turma a fazer a síntese final. Não se trata de um docente que chega com a “aula pronta” e expõe para a turma, mas de alguém que se situa em relação ao grupo, às discussões que aconteceram ao longo da semana e contribui aprofundando itens que sejam de interesse do grupo e reforcem a relação ensino-serviço. A relação estabelecida pelo CFRHS para as atividades de Concentração é de um instrutor para o máximo de 15 alunos. No curso de Carmo do Paranaíba, foi feita a opção de abertura de duas turmas (num total de 24 alunos) e a presença constante de dois instrutores. Isso permitiu um maior número de municípios envolvidos, já que existia uma demanda acumulada de formação de profissionais de nível médio na área de saúde bucal. Para as duas turmas, um único apoio técnico (professor especialista) era convidado a participar do encerramento da unidade didática. Para os municípios envolvidos na formação do THD por meio da integração ensino-serviço, o número de alunos por turma é sempre uma questão polêmica. É comum o reconhecimento do alto custo financeiro da proposta. BERNSTEIN (1984), ao estabelecer os pressupostos de uma Pedagogia Invisível (em essência, centrada no aluno e frouxamente controlada), identifica nas 68 questões relacionadas ao espaço um limite de ordem econômica. Um número reduzido de alunos para que a pedagogia realize seu potencial aumenta necessariamente o custo do espaço. De acordo com SANTAROSA (1979), a pedagogia dos Códigos Integrados tende a enfatizar as várias maneiras de conhecer. Há uma preocupação menor na necessidade de adquirir estados de conhecimento, e maior em enfatizar como o conhecimento é criado. Como uma das condições para satisfazer o desenvolvimento de um Currículo Integrado (segundo a concepção de Bernstein) é a homogeneidade nos critérios de avaliação, essa autora se dedicou a essa busca. Seu trabalho sobre integração curricular é uma análise com relação à homogeneidade nos critérios de avaliação. Para o curso de formação do THD, esse exercício não pôde ser feito. Os ajustes e movimentos feitos pelos docentes em direção a uma pedagogia comum, assim como a tendência a um sistema comum de avaliação não foram objeto deste estudo. O material necessário a esse tipo de análise teria de ser colhido ao longo do curso, quando se procuraria identificar os níveis de concordância dos instrutores acerca do desempenho de cada educando. O fato das fichas de avaliação das atividades de Dispersão ficarem arquivadas nos onze municípios envolvidos, do curso já ter sido concluído, dos municípios não terem atualmente um contato sistematizado com o CFRHS, tudo isso dificultou o agrupamento desse material. Como já citado anteriormente, as avaliações individuais só foram disponibilizadas ao final deste estudo. Ainda que os THD’s tenham, em vários momentos, se referido à participação dos docentes, não dispúnhamos de material apropriado para focar o índice de concordância que atingiram na avaliação dos alunos; o que sem dúvida geraria um indicador de aproximação ao Currículo Integrado proposto por Bernstein. 69 “Todas as modalidades pedagógicas são geradas pelo mesmo conjunto de regras internas, regras cujas realizações variam de acordo com seus valores de classificação e de enquadramento” (Cit. Pág 11, BERNSTEIN, 1996). Pesquisas com o referencial teórico de Bernstein permitem diferentes tipos de aplicação, que podem variar desde uma análise da escola, do currículo, bem como dos discursos pedagógicos. Em seu estudo sobre o discurso de sala de aula, CUNHA (1997) analisa os contextos instrucional e regulador segundo Bernstein. No estudo desenvolvido em Carmo do Paranaíba, a não disponibilidade de um conjunto de falas seqüenciais de sala de aula também impossibilitou uma análise de contextos do discurso pedagógico. Como nosso objeto de estudo foi a análise das relações pedagógicas estabelecidas no curso de formação do THD, identificamos nessas relações o modo como o poder se manifestava (através dos princípios de Classificação) e o modo como o controle se manifestava (através dos princípios de Enquadramento). Como já descrito anteriormente, a Classificação (poder) diz o que é legítimo ou ilegítimo incluir no currículo, o que pode e o que não pode ser falado. O Enquadramento (controle) diz respeito à forma de transmissão, ou seja, ao ritmo, ao tempo, ao espaço da transmissão. 4.4 AS RELAÇÕES PEDAGÓGICAS: A definição geral de códigos, que tinha sido utilizada por Bernstein desde os seus primeiros trabalhos, enfatiza a relação entre significados, realizações e contexto. Assim, “Um código é um princípio regulativo, tacitamente adquirido, que seleciona e integra significados relevantes, formas de realização e contextos evocadores” (Cit. Pág 143, BERNSTEIN, 1996). 70 Segue-se dessa definição, que a unidade para a análise de códigos é a relação entre contextos. O código é um regulador das relações entre contextos. A relação entre estes cria marcadores de fronteiras. Um contexto é definido por seus valores de Classificação e de Enquadramento. Discutiremos a seguir, as relações pedagógicas estabelecidas ao longo do processo de formação do THD e suas tendências para estabelecerem fronteiras atenuadas e isolamentos reduzidos. 4.4.1 RELAÇÃO ENSINO-SERVIÇO Agrupamos nessa categoria as expressões e comentários sobre os serviços de saúde bucal, os efeitos do trabalho no processo de ensino-aprendizagem e viceversa. Identificamos no conjunto dos registros dos THD’s a utilidade do curso para o cotidiano profissional. São evidentes as melhorias nos processos individuais de conhecimento do conteúdo e a aplicabilidade local dos procedimentos, técnicas e novas posturas frente ao trabalho. Bernstein acentua que um enfraquecimento das compartimentações entre os saberes pode favorecer a invenção, a criatividade intelectual. Há um convite para o aluno descobrir e fazer funcionar certas estruturas lógicas profundas dos saberes, por oposição às divisões e especificações superficiais inscritas na configuração tradicional das matérias escolares (FORQUIN, 1993). “Estou saindo daqui com a cabeça cheia de idéias, isto é muito bom para nosso futuro que nos espera. Fez-nos sentir mais motivados com nossas criatividades”. “Não tenho palavras para expressar o quanto foi importante para nós esta aula de hoje, despertou em mim grandes idéias para fazer em meu município”. 71 “Foi ótima a aula expositiva e muito jóia a confecção de brinquedos. São coisas simples que às vezes não imaginamos que possam ajudar em nosso trabalho. Excelente idéia”. “Sinto-me muito feliz, com muitas novas idéias”. “Criei muitas idéias de como programar a saúde bucal de meu município”. O Currículo Integrado para o THD considera as peculiaridades sócio-culturais do trabalho e do trabalhador. O pressuposto é que na unidade educação-trabalho o educando participe da construção da sociedade e da cultura. É esperado desta prática pedagógica que o THD seja o protagonista da construção do saber, consciente do seu papel na transformação da realidade dos serviços de saúde. Assim, enquanto sujeito histórico e crítico, produz a avaliação do seu desenvolvimento individual e coletivo através de dois movimentos: do processo do conhecimento e do produto do trabalho (OLIVEIRA, 1996). O fazer cotidiano, carregado com suas contradições e limites, é a base do movimento de ação-reflexão-ação. “Foi um dos melhores módulos, não sabia nem a metade do que foi dito, aprendi muitas coisas e espero mudar muito em meu município” “Aprendi muita coisa nova e também mexeu comigo na criatividade, não acomodar. Identifiquei, em vários aspectos, situações que já experimentei, veio me confirmar que estou no caminho certo e novo”. • O CONTEÚDO E SUA ADEQUAÇÃO ÀS NECESSIDADES DOS SERVIÇOS “O conteúdo é muito importante para o trabalho” “É um conteúdo muito rico e amplo que nos possibilitou descobertas importantíssimas sobre o nosso trabalho” “Foi muito legal porque nos aproximamos mais da realidade que iremos viver” “Assunto interessante e de muita validade no dia-a-dia de nossos serviços” 72 “Assunto interessante e de muita importância para a rede pública. Aliás, é imprescindível”. “O conteúdo foi ótimo, muita coisinha simples que poderia estar sendo aplicada no nosso dia a dia; às vezes fazemos errado por falta de esclarecimento”. “Este módulo como um todo veio resolver todos os meus problemas, pois é o mês que vamos começar o levantamento epidemiológico” (Grifo nosso). No último registro, chamou-nos a atenção o fato da aplicação do pronome pessoal possessivo (meus) para se referir aos problemas relacionados ao levantamento epidemiológico. Como essa é uma atividade de responsabilidade do cirurgião-dentista, sendo formalmente definido (pelas atribuições profissionais) o papel do THD como monitor ou anotador de dados, pode parecer inadequada sua postura. Teoricamente o planejamento, organização, execução e análise dos resultados dos levantamentos são feitos pelo profissional de nível superior. Esse tipo de estudo transversal, muitas vezes não é desenvolvido nos municípios. Tal fato ocorre por vários motivos; um deles é o fato do cirurgião-dentista desconhecer ou não valorizar essa atividade. O THD, ao descobrir a importância do diagnóstico coletivo na organização dos serviços de saúde, assume o desafio de programar o levantamento epidemiológico e executar grande parte dele. O exame clínico, como requer conhecimentos de domínio do cirurgião-dentista, justifica o uso do verbo no plural (vamos), evidenciando a participação desse outro profissional. O educando, ao conhecer melhor o seu processo de trabalho, reinventa os fatos e faz mudanças onde trabalha. Para analisar a natureza da relação entre o código que regula a forma de educação e o código que regula a forma de produção, Bernstein utiliza os mesmos conceitos de Classificação e Enquadramento. “Se a Classificação é fraca, as relações entre os agentes são menos nítidas, existe um reduzido isolamento entre as suas funções e os agentes são mais intermutáveis entre as diferentes categorias. .... O Enquadramento será fraco se a unidade primária de produção for um acto relativamente cooperativo, baseado no grupo, em que há 73 oportunidade de variar as condições e, talvez, a seqüência e a ritmagem de trabalho, e em que o produto, mantendo uma relação mais direta com o objeto total de produção (está mais próximo desse objeto), é menos uma fracção desse objeto” (Cit. Pág. 224 DOMINGOS, 1985). Quanto mais fragmentado ou dividido for o ato, mais forte será o Enquadramento. Quanto menos fragmentado ou dividido for o ato, mais fraco será o Enquadramento (BERNSTEIN, 1996). Levantamos a hipótese de que, no processo de formação do THD, existe uma tendência de gerar alterações no Enquadramento do processo e na relação de trabalho em saúde bucal. O mesmo se aplica nas questões de Classificação, já que há possibilidades do ato primário (da prática da produção) ser resultado de agentes integrados, de qualificações variadas. O THD, ao ser formado por meio do Currículo Integrado, torna-se mais preparado para o trabalho em equipe e assume papéis mais amplos, anteriormente destinados a profissionais de nível superior. Ao desenvolver atos de produção (ações) mais integrados, mais o produto final é sua realização, sua conseqüência. TORREZ (1994), em seu estudo relacionado à qualificação e trabalho em saúde, afirma ser possível desenvolver nos trabalhadores seu potencial para ações inteiras, desempenhos completos, e não para fragmentos soltos. A recuperação do saber integral sobre o processo de trabalho aponta para o resgate da capacidade de ser ator, tanto da realidade social insatisfatória, quanto daquela que julga mais justa e necessária. Ainda que esta seja uma temática que tangencia nossos estudos, não houve a pretensão de teorizar ou aprofundar nessa análise. Não foi objetivo desta pesquisa discutir as conexões entre a prática pedagógica e o campo produtivo. Bernstein vem 74 estudando essas questões, analisando as relações presentes entre o campo da produção, o do controle simbólico e a educação (SANTOS, 1999). • TRABALHO EM EQUIPE Várias atividades desempenharem papéis foram mais propostas ativos: aos educandos pesquisas, no exposições, sentido de observações, entrevistas, participação de simulações, etc. Ao partilharem experiências por meio da discussão, do debate, eram-lhes ensinadas a cooperação, a importância do trabalho em equipe. Aprendiam a ser reflexivos e críticos praticando tais destrezas no dia-adia. Sabiam que tinham voz e que era importante compartilhar o que pensavam e comparar com os demais colegas. Aprendiam a compartilhar o pensamento valorizando e respeitando as contribuições que qualquer um pudesse oferecer. Segundo SANTOMÉ (1998), os conceitos adquiridos através da experiência vivencial estabelecem fortes elos nos campos emocional e intelectual. “A metodologia continua muito boa, visto que nos ajuda a trabalhar em equipe, o que é tão necessário nessa área da Odontologia”. “Procuro sempre aprender mais e mais, gosto de questionar e esclarecer todas as dúvidas. As colegas me ajudam muito”. • COMPROMISSO COM A POPULAÇÃO Na formação em serviço, a ligação da instituição escolar ao ambiente comunitário, inspiração histórica no campo educacional, ajudou os educandos a melhorarem a compreensão de suas realidades e comprometerem-se com os usuários dos serviços de saúde bucal. “Sinto-me muito alegre e otimista em poder prestar minha contribuição para a saúde da população que tanto necessita”. 75 “Me sinto também muito feliz por saber que nós vamos mudar a educação (em saúde) bucal nos nossos municípios”. “Aprender coisas novas é sempre muito bom. Principalmente quando através deste aprendizado se pode ajudar as pessoas que precisam. Espero poder transmitir aos outros o que aprendi aqui. Foi muito bom!" “Foi ótimo; abriu a visão para que possamos fazer alguma coisa para a comunidade, principalmente a mais carente”. “A calma e dedicação das instrutoras muito me ajuda, me encoraja para continuar confiante que posso ajudar a minha comunidade; servir bem”. A proposta do Currículo Integrado atingiu o que SANTOMÉ (1998) coloca como uma meta educacional: provocar uma preocupação pela condição humana, seja ela qual for sua raça ou cultura. • OS TRABALHOS DE “DISPERSÃO” Ao final de cada Concentração, os educandos eram orientados a desenvolverem atividades de Dispersão. Eram atividades relacionadas aos conteúdos trabalhados durante a semana e que seriam repensados no cotidiano das ações dos serviços de saúde bucal. O educando registrava as situações observadas no local de trabalho, sua adequação (ou não), as possíveis conseqüências e como resolver os problemas identificados. Na unidade didática seguinte, a primeira atividade sempre se referia às dificuldades e facilidades encontradas na rotina do serviço e no desenvolvimento da atividade de Dispersão. Assim, a Concentração do curso começava com os THD’s explicitando os avanços (ou estagnações) do serviço. No Guia Curricular (BRASIL, 1994), as orientações para os trabalhos de Dispersão sempre eram no sentido de estreitar as relações entre a teoria e a prática, o ensino e as necessidades do serviço. O quadro a seguir refere-se a uma síntese dos trabalhos propostos em algumas unidades das áreas curriculares (Figura 9). 76 Área/ Atividade de Dispersão Orientação para o instrutor Unidade Área I No seu local Unidade I levantamento de de trabalho, opinião realizar junto à um Discutir com os alunos as diferenças sua de contextos sociais no levantamento, comunidade, acerca de seus problemas de estimulando para que sejam feitos os saúde, incluindo a saúde bucal. ajustes metodológicos. Área I Observar e registrar as condições de trabalho na Acompanhar o trabalho dos alunos, Unidade III unidade de saúde na qual você trabalha e propor retomando as discussões sobre alternativas para corrigir as situações que ergonomia e ajudando-os a encontrar possam dificultar a aplicação dos princípios de soluções ergonomia estudados. observações para os problemas detectados. Área I Realizar sobre as condições Supervisionar a rotina de trabalho dos Unidade IV relativas ao processo de contaminação em sua alunos, complementando com unidade de origem, apresentando sugestões informações. para mudar a situação. Área I Discutir formas de aplicação das medidas de Orientar Unidade V controle de cárie estudadas (controle de placa e encaminhamento tártaro, uso do flúor, selante e cariostático). na elaboração das e propostas, avaliando o grau de assimilação dos Discutir e propor meios de operacionalizar alunos com relação ao conteúdo atividade de educação em saúde bucal. estudado. Área III Observar na Unidade de saúde como está Orientar os alunos na observação Unidade II distribuído o espaço físico em relação às quanto à adequação dos ambientes atividades a que está destinado, incluindo as (conforto do paciente, condições de medidas de biossegurança. trabalho dos profissionais) em relação às atividades que desenvolvem. Área III Realizar, juntamente com outros profissionais Promover esta prática em momento Unidade IIII envolvidos, a programação das atividades de oportuno. atenção em saúde bucal, em seu local de trabalho. FIGURA 9: Os trabalhos escolares e sua ligação com os serviços de saúde Essa “mudança da prática” era observada através dos depoimentos de secretários de saúde, coordenadores de saúde bucal, cirurgiões-dentistas da Dispersão, e também através dos registros das avaliações escritas que o THD fazia 77 do curso. À medida que novos questionamentos eram feitos, as contradições da realidade ficavam mais explícitas, exigindo-se atitudes concretas para problemas reais. Quando um conteúdo técnico era introduzido, sempre era colocado sob a ótica de que esse novo conhecimento seria aplicado em uma situação específica, e que os seus efeitos não seriam “neutros”. “Foi muito bom, pois participamos mais dos trabalhos em grupo e dentro da sala. E a forma como foram passados os nossos trabalhos de dispersão também será de grande proveito.” “Positiva a apresentação dos problemas dos municípios, procurando soluções viáveis.” “Não gostei da participação de algumas colegas ao expormos a”dispersão” de nossos municípios, pois falar dos nossos problemas não é motivo de riso e críticas. Se não colocarmos aqui os nossos problemas, quem vai nos ajudar?” “Às vezes, quando são falados os problemas do município, algumas (pessoas) fazem cara ruim, outras até mandam calar; acham que falamos demais. Se não for possível colocarmos os nossos problemas aqui, o que está acontecendo de errado em nosso município, como vamos tentar achar soluções? Onde teremos idéias? Não está sendo fácil.” “Notamos a crítica dos colegas quando apresentamos os problemas do município. Sabemos que muitas vezes pode se tornar cansativo, mas o respeito é essencial, pois o local onde podemos buscar possíveis soluções é aqui. Se não procurarmos isso aqui, onde procuraremos?” O curso de formação foi visto pelos educandos como o espaço legítimo para as discussões dos problemas da prática dos serviços de saúde bucal. A busca de soluções criativas e adequadas à realidade local foi o grande desafio colocado. Enquanto em processo de formação, os THD’s, ao apresentarem a realidade local e serem convidados a transformá-la, aprendiam as exigências do Sistema Único de Saúde. Os desafios da construção de um sistema local de saúde bucal tornavam-se uma meta, que certamente ultrapassaria o limite temporal do curso. A meta educacional de preparar as pessoas para compreender e intervir no 78 seu meio sócio-cultural, implicava também em torná-las capazes para utilizar a mesma variedade de recursos à sua disposição nesse meio. A integração entre ensino e serviço permitiu que, nas avaliações do curso, os ganhos ficassem atrelados: “Foi um dos melhores módulos, também nós conseguimos muitas vitórias em nosso município”. Numa ficha de avaliação no processo, onde o cirurgião-dentista da Dispersão comenta o envolvimento da THD no planejamento das ações locais de saúde bucal, encontramos o seguinte “Registro de Fato”: “A aluna procurou o Secretário de Saúde para fazer o trabalho sobre”Políticas de Saúde” e conhecer melhor a política de saúde do município. O Secretário de Saúde ficou impressionado com o interesse da aluna sobre o assunto”. 4.4.2 RELAÇÃO ALUNO-CONHECIMENTO Não utilizamos nenhuma unidade de enumeração que nos permitisse contar a freqüência de uma categoria ou o número de imagens consagradas a um determinado conteúdo. No entanto, ficou evidente o maior número de registros relacionando o aluno ao processo de se apropriar do conhecimento. Os educandos fazem uma avaliação extremamente positiva do curso. Mostram-se revestidos de uma nova identidade social. • AS ATIVIDADES EM PEQUENOS GRUPOS JOYCE (1980) enfatiza que, em relação a assuntos mais sérios, questões controvertidas, drama e o aperfeiçoamento de habilidades sociais e sócio-intelectuais exigem atividades de grupo. 79 Na formação do THD, eram freqüentes os trabalhos em pequenos grupos. Os educandos analisavam os problemas, colocavam em prática idéias e exploravam valores sociais. O comprometimento do grupo e seus processos interpessoais eram incluídos como elementos para estudo. O conhecimento dos resultados era coletivo e emergente. O confronto de idéias criava condições para o desenvolvimento do talento pessoal e propiciava os efeitos humanizantes da pesquisa cooperativa. “Se não fosse em grupo eu não teria aprendido nada, teria ido embora no primeiro dia”. “É muito bom, porque às vezes uma pessoa não sabe uma coisa e a outra sabe, então uma tira a dúvida da outra”. “O trabalho em grupo dá oportunidade a todas de falarem”. “Todos participam no que são capazes, e no que tem mais facilidade”. “Gosto dos trabalhos em grupo, apesar dos desencontros, é um meio eficaz onde todos têm interesse em aprender”. “Muito bom trabalhar em grupo, enriquece mais o conhecimento de cada um, a gente tem mais liberdade para perguntar. Nós aprendemos muito mais trabalhando em grupo”. • AS SUCESSIVAS APROXIMAÇÕES AO OBJETO Nos registros dos THD’s, a categoria conceitual sucessivas aproximações ao objeto, com seu movimento de tateios sistemáticos em direção à apropriação do conhecimento, aparece registrada, na maioria das vezes, como uma “repetição”. “Apesar de ser meu primeiro contato com a teoria, achei um pouco repetitivo, o conteúdo sempre voltava em alguma parte do assunto estudado; porém, para mim foi positivo”. “Foi muito esclarecedor, apesar de repetir tantas vezes as mesmas coisas”. “Gostei, aprendi muito; tive muitas dúvidas esclarecidas, apesar de muito repetitivo”. “Quanto aos métodos aplicados fica um pouco a desejar, ficaram um pouco repetitivos”. 80 “O conteúdo: a gente já ouviu falar em tudo isso, mas quando a gente vê e ouve uma pessoa que entende mais do assunto falar, a gente fica mais responsável ou tenta ser”. Ao mesmo tempo em que pontuam sobre a “repetição” como algo negativo, cansativo, às vezes, (principalmente para aqueles que provavelmente já apresentam um maior domínio do conteúdo) reconhecem que “repetir” é algo bom, proveitoso. A relação dinâmica entre o sujeito concreto e o objeto a ser assimilado ocorre a partir das sucessivas aproximações, alcançadas pela aplicação ativa dos esquemas de assimilação de que o sujeito dispõe e a partir de sua percepção social inicial. A aprendizagem requer um tempo no qual o sujeito investigue ativamente, aplicando suas formas de conhecer e aproximando-se cada vez mais da matriz interna do assunto, em um processo de idas e vindas de reflexão e ação (BRASIL, 1994). • AS DIFICULDADES INDIVIDUAIS Na inovação metodológica do Currículo Integrado, levava-se em conta o fato dos educandos não possuírem o hábito de discussão, devido ao peso de muitas experiências anteriores. A timidez e o mutismo de alguns educandos, a incapacidade de atrever-se a pensar e a comunicar-se com outras pessoas era algo a ser rompido individualmente, mas com o apoio da estrutura curricular e da construção coletiva. O curso parece ter conseguido aumentar a confiança dos educandos em suas próprias habilidades. As dificuldades iniciais, expressas nos registros de avaliações, foram sendo superadas ao longo do processo de formação. “Foi bom, mas achei um pouco difícil no início, mas ouvindo o conhecimento de todos ficou mais fácil de entender”. “Participei o máximo que podia, só que às vezes não sabia bem o assunto, então não dava muitas opiniões”. 81 “Tenho dificuldades. Espero estar vencendo essas dificuldades nos próximos módulos”. “Enquanto estamos sintetizando, discutindo, participo. Mas a apresentação, tenho muita dificuldade de expressão”. “Estou adorando o curso, não participo muito, mas estou entendendo com facilidade os estudos”. “Em pequenos grupos todos participam, mas quando chega no grande grupo as mais espontâneas e que têm facilidade em se expressar é que vão lá na frente”. “Tenho que melhorar mais, vou procurar ler, fazer resumos e tentar falar um pouco mais, porque tenho muita dificuldade em falar com tantas pessoas me olhando”. “Participo muito dos grupos pequenos, mas quando chega no grande eu fico muito tímida e não falo nada, ou quase nada”. “Neste módulo tive a oportunidade de explicar um trabalho do nosso grupo, mesmo tendo dificuldades aprendi muito, tenho que me desinibir mais”. “Tive oportunidade de apresentar uma parte de um trabalho em grupo; fiquei nervosa mas tenho que acostumar, foi muito importante”. “Estou me desinibindo mais e com o apoio da Cida e da Alcione fica mais fácil”. “Mais pessoas participaram nas apresentações e deram mais comentários enriquecendo os trabalhos”. SANTOMÉ (1998) enuncia essa questão, chamando a atenção para o silenciamento progressivo dos alunos ao longo dos anos escolares. • RECONHECIMENTO PROFISSIONAL As principais doenças que acometem a cavidade bucal (cárie e doença periodontal) são controláveis. No Brasil, ainda que esteja confirmado um declínio na prevalência da doença cárie, o quadro ainda se apresenta bastante crítico. Tal fato é observado particularmente nas populações menos favorecidas, onde se pressupõe existir uma maior dificuldade de acesso a bens essenciais para a sobrevivência, entre os quais, incluem-se a educação e os serviços básicos de saúde (COSTA, 1999). 82 No Sistema Único de Saúde, o THD tem o papel central de executar um conjunto de atividades de controle coletivo da incidência das doenças bucais. São ações descentralizadas e de periodicidade definida. Executam também Levantamentos de Necessidades em Saúde Bucal, favorecendo a organização do atendimento clínico individual, que é feito pelo cirurgião-dentista e pelo próprio THD . A prática cotidiana do THD permite a universalização das ações coletivas de saúde bucal . Estudos recentes revelam indicadores de serviço monitorados para verificar o impacto causado pelas mudanças do comportamento das doenças bucais nas populações expostas a um programa de “inversão da atenção” (LOUREIRO, 1998). Em tais programas, o trabalho do THD é de grande importância. Entretanto, existem obstáculos para o avanço desse modelo de atenção. As corporações, os profissionais de nível superior, e às vezes até o gestor local não estão plenamente convencidos da importância da inversão do modelo assistencial e do papel do THD. “Sinto-me desmotivada e sem força pois o mais importante na conclusão de um curso é ser reconhecida pelo menos a existência de sua profissão como algo de grande importância pelas autoridades. Apesar de estar sem força, vou trabalhar no sentido de fazer-me ser reconhecida, não só pelas autoridades mas também pela sociedade, a quem realmente serei importante” (grifo nosso). “Dentro de tantas dificuldades encontradas no município, não me sinto tão entusiasmada quanto deveria estar. Sei da grande importância que represento para o meu município, e do grande trabalho que irei desempenhar se me derem oportunidade de fazê-lo”. A Figura 10 permite visualizar como uma ação simples (higienização bucal supervisionada) e de grande impacto na redução da doença cárie pode ser desenvolvida simultaneamente em um grupo de até 10 pessoas. 83 FIGURA 10: Foto do THD supervisionando procedimentos coletivos • DOMÍNIO DA QUESTÃO TÉCNICA Usando dos princípios do método de pesquisa, os alunos buscavam informações para responder as perguntas propostas e usavam a estrutura conceitual desenvolvida para assimilar novos conteúdos e se apropriarem daquele conhecimento. Cada unidade didática, ao promover processos de aprendizagem que favoreceram os educandos a assumirem de maneira reflexiva um sistema de valores, também motivou e desenvolveu todo um conjunto de destrezas que lhes permitiam estabelecer novas relações e interações com os conteúdos. “Sinto-me capaz, segura de realizar procedimentos que me sejam enviados”. “Sinto-me satisfeita e feliz. Eu achava que sabia muito, mas o que eu aprendi é muito mais do que eu imaginava. Me sinto segura e otimista quanto ao meu trabalho e espero ter excelentes resultados nos próximos anos”. 84 “Através de todos estes critérios que vimos e aprendemos com certeza podemos agora enxergar com mais clareza os recursos que dispomos e as formas e planos que regem em nosso município”. “Aprendemos sobre os riscos que estamos correndo em nosso trabalho” “Foi ótimo conhecer como é feita a programação em saúde e como funciona o SUS”. “O exercício feito de Epidemiologia foi muito válido. No início estava muito por fora, depois gostei e achei fácil”. “Positivo aprender a ter calma diante dos problemas. Aprendemos como podemos através das ações modificar um sistema deficiente e ineficaz”. A análise de todos os registros demonstrou o crescente domínio dos educandos com as questões técnicas. Termos técnicos eram usados gradativamente com domínio e propriedade. A Figura 11 ilustra o ambiente clínico onde o THD desenvolve ações individuais de controle das doenças bucais. FIGURA 11: Foto do THD executando procedimentos individuais FIGURA 11: Foto do THD executando procedimentos individuais 85 • PERFIL PROFISSIONAL O perfil profissional do THD, definido pelo Conselho Federal de Odontologia, conserva uma forte estrutura “fordista”, no sentido de que, atrás dela há uma concepção de prática semelhante a uma linha de montagem de uma fábrica. Algumas atribuições profissionais são fragmentadas e voltadas para um modelo de atenção de cunho cirúrgico-restaurador. Por fazerem parte de uma lógica assistencial diferente da preconizada pelos serviços de saúde bucal do SUS (MINAS GERAIS, 1999), algumas atividades não são reforçadas no Guia Curricular para a formação do THD (BRASIL, 1994). Fazem parte da seqüência de atividades somente para compor o mínimo exigido pelo setor educacional e pelos órgãos de classe, mas não são enfatizadas no curso. Essa contradição é identificada e registrada pelos educandos: “Não gostei deste conteúdo, achei muito difícil, muito cansativo”. “Não gostei do conteúdo, pois acho que tem coisa mais importante para fazermos que ficarmos manipulando material. É claro que é importante conhecer, mas, não me despertou interesse”. “O assunto do módulo foi cansativo, os textos não me prendiam a atenção”. “Seqüência I, não gostei. Acho que é de interesse só do C.Dentista”. • A AVALIAÇÃO Uma questão polêmica que surgiu ao longo do curso referiu-se à aplicação de provas, enquanto um instrumento para aferir a aquisição de conhecimento. Ainda que tal instrumento não faça parte do processo de avaliação do Currículo Integrado para o THD, os registros mostram que provas foram aplicadas ao longo de algumas Concentrações. O primeiro depoimento sugerindo uma avaliação do tipo “teste” foi encontrado na unidade didática IV, da primeira área curricular. Tratava-se da “Biossegurança e o 86 Controle da Infecção na prática Odontológica”, um tema amplo, complexo, polêmico e cujas atividades práticas no consultório eram de responsabilidade direta dos profissionais de nível médio. “Não estou acostumado com este método, onde praticamente são os alunos que dão a aula. Prefiro o método mais tradicional, com um instrutor dando a aula (explicação e ensinamento) e os alunos sendo submetidos a uma avaliação para teste de conhecimentos. ... Trabalho em grupo: todo curso deveria adotar este meio. É através deste trabalho que as pessoas aprendem a se relacionar e é o meio mais fácil de todos se auto-ajudarem para que possamos fazer um trabalho mais qualificado e profissional”. A opinião do educando sobre a metodologia de trabalho mostra claramente a dúvida, o sentimento dividido entre dois caminhos. No primeiro, o professor ensina, o aluno aprende e mostra que aprendeu através de testes. No segundo, o desafio da construção coletiva do conhecimento. Razões para essa situação poderiam ser um nível elevado de ansiedade ou experiências de fracassos crônicos no tema. Para SANTOMÉ (1998), a alternativa da aprendizagem por repetição, tradicionalmente conhecida, gera, de início, “mais confiança” no meio escolar. Bernstein sugeria que a evolução em direção a uma escola “mais aberta” “poderia muito bem provocar uma espécie de sentimento de vertigem tanto entre os professores como entre os alunos, entre os quais alguns poderiam ser tentados a se desviar de uma instituição que não lhes ofereceria mais pontos de apoio simbólicos sólidos, para se voltarem para outras fontes de certeza e de identificação emblemática” (Cit. Pág. 88 FORQUIN, 1993). A aplicação de provas era um exemplo. 87 Na unidade didática seguinte, a estratégia de uma gincana parece ter sido a forma encontrada pelas instrutoras para checar o domínio do conteúdo por parte do grupo. Esse caminho escolhido teve uma repercussão positiva sobre o grupo. “Gostei muito, principalmente dos questionários e da gincana realizada, com certeza não ficou ninguém sem participar”. “Foi ótima: exige mais concentração, grava melhor principalmente na gincana, deu para entender bem as dúvidas que não tinham ficado bem esclarecidas, respondendo os questionários e discutindo foi uma boa idéia”. “Gosto da metodologia e foi interessante a diversificação de atividade”. “A metodologia utilizada é muito boa porque está sempre variando as maneiras de estudo e isso faz com que fixemos as coisas sem nos esforçar muito”. Nos registros da unidade seguinte encontramos somente um comentário que se referia ao processo de avaliação, e chamava a atenção a forma objetiva e direta de expressão. “Não gosto de fazer avaliação”. Como esse comentário aparece da mesma forma na unidade seguinte, com a mesma letra e se referindo às provas, deduzimos que a crítica não se referia ao processo de avaliação como um todo proposto no Currículo Integrado, mas à aplicação de provas. Na Concentração seguinte, unidade didática VI, encontramos o maior número de críticas e comentários negativos relacionados à prova. “Negativo: muita tensão com avaliação”. “Negativo a expectativa para a prova”. “Não gostei da avaliação, não porque estava difícil, mas porque não gosto”. “Negativo a ansiedade antes da avaliação”. “Muita ansiedade no momento antes da prova”. 88 O grupo continuava inconformado no momento seguinte de Concentração. A prova, um símbolo deixado pelo racionalismo na educação, refere-se a uma visão fragmentada e não a uma avaliação que diz respeito ao conhecimento do ser humano integral. A prova carrega (ainda que de forma velada) um ato de julgamento que desconsidera o corpo emocional do aluno. O grupo sabia disto e usava dos instrumentos que tinha em mãos ( as avaliações por escrito) para tentar reverter a relação de força junto às instrutoras. “Foi muito cansativo, não sei se era eu que estava muito triste por não ter feito uma prova boa”. “Questões da prova de difícil compreensão”. “Confesso que estou muito cansada; e a dispersão está se tornando muito cansativa com as avaliações. Não sei o que estudo primeiro”. “Negativo as provas, por causa do nervosismo que a gente fica, eu sabia tudo. Na hora que as outras estudavam, eu respondia tudo, mas na hora H não fiz nada. Foi horrível. A dispersão está muito pesada pelos compromissos que já temos e apenas 03 semanas para tudo. As questões da prova estão de difícil interpretação e esse negócio de exceto faz a gente misturar o que sabe”. “As questões da prova estão muito difíceis de interpretar”. “Não gosto da avaliação final, está dando muito trabalho para a dispersão, já temos muito trabalho para fazer nos consultórios e o tempo está muito pouco para estudar tanta coisa. Sabemos que é para o nosso bem, só queremos menos trabalho”. “Cida e Alcione: contrariou demais com essas provas, diziam no início que não havia prova e agora no entanto furaram a palavra”. A figura do professor, marcada por um papel de autoridade, ao seguir programas sem criticá-los, ou ao adotar as posturas de avaliação que se traduziam em provas e notas, estava, aos olhos do aluno, contradizendo a dimensão daquele currículo em prática. Ainda que houvesse comentários positivos sobre a prova, principalmente ao fato das questões serem discutidas em sala, não percebemos um apoio explícito à técnica. 89 A “prova” do mês seguinte parecia ter sido mais fácil, o que talvez justificasse um número menor de comentários. “Não gosto das avaliações”. “Não gosto das avaliações, não gosto de provas. Não vejo nesta conduta nada que me ajude a crescer”. O último comentário sobre provas aparece na unidade didática II, da Área II. “Me senti bem, só achei a avaliação difícil e cansativa”. Segundo Bernstein, “as regras de avaliação asseguram a reprodução do princípio de classificação básica da sociedade, ou seja, a distribuição de poder. É pela avaliação que a transmissão e a aquisição de saber e de habilidades se interrelacionam e que se configura, realmente, o conteúdo legítimo da prática pedagógica, ou seja, os conhecimentos e competências em relação aos quais os educandos são posicionados” (Cit. Pág. 254 COELHO, 1988). Ao optar pela utilização das provas, as docentes mudavam o referencial em relação à aceitação ou não das respostas dos alunos. Essa forma de medir o rendimento era diferente do preconizado, onde o que interessava era o esforço real que o aluno fez (ou não) para alcançar tal resultado, seu comportamento, seu espírito social. A avaliação acompanha o processo de aprendizagem e não só um momento privilegiado (o da prova). Em termos de sala de aula, a avaliação envolve o desempenho do aluno, do docente, e da adequação da proposta como um todo (MASETTO, 1997). No Currículo Integrado, a atmosfera social do modelo de avaliação proposto enfatiza a independência e a diligência. Os alunos são estimulados a 90 julgar seu próprio progresso e a sentir-se recompensados com ele. Provas não são adequadas para identificar esse processo. Os registros dos THD’s e as informações a que tivemos acesso nos levaram a crer que os instrumentos de avaliação preconizados (registro de fato, lista de observação, avaliação mediante atividades de papel e lápis) foram subutilizados em Carmo do Paranaíba. Já as avaliações de desempenho final, por área, foram adequadamente utilizadas. No sentido de ir além do fato em si (aplicação de provas), refletimos sobre o papel da instituição formadora (no caso a Escola de Saúde e o Centro Formador) que, de acordo com registros institucionais, não acompanhou o trabalho dos docentes que atuaram nessa experiência de formação do THD. A ausência, naquela época, de um sistema regular de supervisão deixava os docentes expostos a desvios. Mas também podemos entender o não acompanhamento dos docentes pela ESMIG/CFRHS, como uma forma (implícita) da instituição não apoiar o curso. Identificamos aqui uma negligência interna da escola, já que havia profissionais (cirurgião-dentista e pedagogo) preparados para assumirem esse papel e não o fizeram. Outro contraponto à questão da aplicação de provas, refere-se ao fato de que a nossa leitura das fichas de avaliação no processo (Modelos em Anexo VII), onde os THD’s eram avaliados pelos C.Dentistas, indicou a falta de compreensão dos instrutores da Dispersão quanto aos instrumentos preconizados. As listas de observação, onde aparecem as operações que decompõem o processo de trabalho segundo diferentes técnicas, estavam muitas vezes preenchidas parcialmente. As fichas de registro de fatos, instrumento com inúmeras possibilidades de interação entre aluno-professor, foram subutilizadas no curso como um todo. Nesse instrumento de avaliação, poderiam ter sido descritas as situações bem sucedidas, os acontecimentos, incidentes e fatos significativos da vida diária da sala de aula. 91 Identificamos a importância de um processo de Educação Continuada para os profissionais de nível superior, onde as questões técnicas e pedagógicas podem ser retomadas e ajustadas ao movimento de reorganização dos serviços. Outras pequenas irregularidades foram constatadas nas avaliações mediante atividades de papel e lápis. Embora as falhas não comprometessem a avaliação como um todo, entendemos que concorreram para gerar nas instrutoras da Concentração dúvidas acerca da legitimidade do processo e a busca da alternativa da “prova”. Dito de outra forma, as dificuldades operacionais dos momentos de Dispersão, influíram na seqüência de atividades da Concentração, gerando desvios metodológicos. Por meio de um sistema regular de supervisão, a opção pelo processo de recuperação paralela (se necessário) poderia ter sido utilizado. Os professores criariam situações adequadas de acompanhamento paralelo, gerando as experiências necessárias para que o educando superasse suas dúvidas e dificuldades. Os instrumentos de avaliação disponíveis no Currículo Integrado ofereciam indícios de retratação do educando acerca do seu envolvimento no seu campo de investigação e trabalho. Havia espaço para registro de suas inquietações e perguntas que permitiam a busca de alternativas adequadas aos problemas reais. As dificuldades encontradas para se avaliar o que realmente importava, a imaginação criadora, não deveria ser motivo suficiente para remeter a um rigor com questões que não são essenciais. ALVES (1991) defende a importância de se avaliar as inquietações, as perguntas do cotidiano que fazem a mente vagar muito além das apostilas; a imaginação que investiga as alternativas dadas, as dúvidas, que serão muito mais reveladoras do fervilhar do amor e da paixão, pré-requisitos para os vôos da imaginação criadora. Destacamos a importância dos ajustes institucionais realizados posteriormente, no sentido de garantir aos instrutores dos cursos descentralizados o acompanhamento de supervisão, os Encontros Pedagógicos. 92 • OS CÓDIGOS EDUCACIONAIS Bernstein distingue os significados realizados pelas pessoas por meio do Código Restrito (“textos”, falas, dependentes do contexto) e Códigos Elaborados (“textos”, falas, independentes do contexto). A escola, de uma maneira geral, expressa os valores da classe dominante. Ela utiliza um Código Elaborado (linguagem falada pelos grupos que têm acesso às posições sociais mais elevadas). Os grupos da classe média são capazes de distinguir e responder aos dois Códigos, enquanto os grupos operários têm, em geral, acesso a apenas um deles, o Código Restrito. Um grupo sem prévia orientação para um Código Elaborado terá de traduzir a linguagem formal da escola, a fim de que esta adquira algum significado. Se a aprendizagem se der de maneira mecânica, traduzida num acréscimo de vocabulário, as novas palavras, vazias de significado social, serão imediatamente esquecidas uma vez que o grupo abandone a escola. Para que a aprendizagem de um grupo que praticamente só tenha acesso a um Código Restrito, se dê em termos efetivos, todo o sistema básico de percepção deve ser alterado. Em outros termos, seria uma ressocialização. (OLIVEN, 1979). O trabalho de RASCHE (1979) mostra que crianças da classe média produzem Códigos mais Elaborados e crianças operárias produzem Códigos Restritos. Demonstra também que a escola está mais bem preparada para acompanhar crianças de classe média. STEFFEN (1980) afirma que é dentro destes Códigos que se processam todos os dados de relacionamento dos indivíduos. Com base nos dados do Código Restrito, ou do Código Elaborado, vai se observando, ou mesmo predizendo, uma vasta gama de atitudes entre grupos e classes sociais. 93 No Currículo Integrado do THD, em que pesem os atropelos da avaliação realizada, houve respeito em relação aos diferentes “Códigos” inicialmente expressos pelos alunos. De acordo com Bernstein, houve uma ressocialização. “Gostei muito do espaço dado para a fala de cada componente do curso, respeitando a individualidade de cada um de nós em nossos relatos. A preocupação de vocês nas nossas dificuldades nos ajudando e apoiando é de fundamental importância, o que me deixou mais segura a partir deste módulo”. “A metodologia deixa a pessoa à vontade para responder”. “Gosto da forma como são abordados todos os assuntos; nos trabalhos em grupo, todos tiveram uma maior participação, inclusive os mais calados, estão aprendendo a dar a sua opinião. A respeito da forma como vocês instrutoras nos ajudam a entender melhor todos os temas debatidos, de uma forma bem mais clara e nítida, só temos a ganhar e agradecer”. “Metodologia muito boa, com oportunidade de fala para todos”. “Sempre dinâmico, de modo que force a participação de todos os alunos”. “É muito boa esta maneira de vocês usarem deixando nós alunas muito à vontade para aprender”. “Foi boa a colocação dos problemas e todos chegaram à conclusão que temos que respeitar a fala do outro”. Ao final do curso, todos os THD’s freqüentes receberam, dentro do prazo estabelecido, o conceito APTO para o desempenho das atividades previstas nas três áreas curriculares. Isso sugeriu que os alunos demonstraram um potencial disponível para elaborações mais complexas. No curso houve a presença de estímulos que favoreceram e possibilitaram a expressão de outros códigos. O acesso a um Código Elaborado não dependeu de características psicológicas dos educandos, mas de um acesso a posições sociais dentro da estrutura formalmente reconhecida, a escola. “Estou chegando à reta final de mais uma batalha na minha vida. Estou me sentindo vitoriosa, estou feliz por ter chegado bem, por ter conquistado novas amizades e novos conhecimentos”. 94 “Pudemos ampliar nossos conhecimentos e entender melhor pontos que nos foram colocados ao longo deste ano”. Um papel extremamente importante que coube ao curso referiu-se ao desenvolvimento da consciência crítica, da mente aberta, do pensamento flexível e da possibilidade de apresentar princípios mais universais e códigos mais integrados. A Figura 12 mostra o momento da formatura de THD’s e docentes. FIGURA 12: Foto da formatura da turma de THD de Carmo do Paranaíba FIGURA12: Foto da formatura da turma de THD de Carmo do Paranaíba MEDEIROS (1979), ao discutir o papel da escola no processo de socialização, enfatiza o seu complexo propósito relacionado ao desenvolvimento da imaginação em um contexto livre e da tentativa de emparelhar escola e trabalho. 95 “Espero conseguir realizar todos os meus objetivos, que além de promover a saúde bucal, ajudarão também a promover a saúde geral. Esta é a meta que pretendo alcançar com os conhecimentos que adquiri durante esses 11 módulos”. Os instrutores foram partícipes dessa construção, e seu trabalho inúmeras vezes, reconhecido pelos alunos. “Vocês foram brilhantes. Conseguiram prender a atenção de todas, de forma que todas falassem a mesma língua”. “Falaram em uma linguagem simples, facilitando que todas entendam o assunto. Apoiavam bem o grupo sempre que necessário”. 4.4.3 RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO De acordo com FORQUIN (1993), em um texto de 1967, “Open Schools – Open Society?”, Bernstein analisava as transformações pedagógicas, culturais e organizacionais que têm lugar efetivamente no interior dos sistemas escolares. Na visão de Bernstein, a ênfase à resolução de problemas, à descoberta autônoma e menos às aprendizagens operatórias estritas modificava as relações de autoridade entre professores e alunos. O Código Integrado gerava entre os THD’s um encorajamento para uma prática de avaliações comuns, onde o professor também era alvo a ser avaliado pelo aluno. “Sinal amarelo para Cida e Alcione em relação à pontualidade. Sinal verde nos demais itens”. “As instrutoras estavam muito sem paciência”. “Poderiam mudar um pouco, dar algumas atividades diferentes”. Pelas avaliações, percebe-se uma grande admiração dos THD’s pelos docentes da Concentração. De uma maneira geral, esses profissionais se mostraram 96 próximos, pacientes com os alunos em formação. São muitos os elogios e mensagens de agradecimento ao instrutor. Ainda que não tenha sido objetivo desta pesquisa uma análise avaliativa com cálculos de freqüência e intensidade das referências positivas e negativas acerca dos professores, chamou-nos a atenção o número de palavras idiossincráticas (VALA, 1987). Os textos estão carregados de significações incontestáveis relacionadas aos docentes: “dedicada, amiga, capacitada, disponível, esforçada, clara nas idéias, interessada, transmite segurança, prestativa, compreensiva, muita disponibilidade em todos os aspectos, atenciosa, competente”, etc. A disposição do temperamento do grupo fez com que se sentissem, de um modo muito especial, as marcas desses professores. “Alcione é sem dúvida uma pessoa maravilhosa em todos os sentidos. É amiga de todas nós e está pronta a esclarecer todas as dúvidas que aparecem”. “Cida: visão muito abrangente de todos os assuntos facilitando a explanação da matéria”. “Achei muito importante o respeito dos professores com os alunos, respeitando suas dificuldades; porque se não tivesse havido esse respeito eu não estaria aqui, e não teria a chance de aprender o que estou aprendendo”. “As instrutoras nos passam boa vontade e carisma de ensinar, com um potencial forte do que é ser um profissional com praticidade e segurança”. Se a cultura do professor deve fazer parte da cultura do educando, é preciso primeiro que a cultura do educando esteja na consciência do educador. O educador se esforça para compreender os pontos de vista que são expostos em lugar de tentar deliberadamente mudar as opiniões expressadas (BERNSTEIN, 1985). “Ela se mostra uma instrutora muito capacitada e consciente, procurando buscar o conhecimento em nós mesmos e não encucar outros em nossas mentes”. ”Uma profissional que nos induz a procurar o conhecimento”. 97 Quando o professor se aventura numa permissão maior de que o aluno se mostre por inteiro, a emoção corre solta, afloram-se as emoções menos suspeitadas, a linguagem se organiza (ESPIÍRITO SANTO, 1996). “Gostaria primeiramente de parabenizá-las (Cida e Alcione) por terem nos ajudado com tanto mérito, o que fez de nós profissionais capacitados a irmos agora em busca de nossos ideais” “Poder ter vocês, Cida e Alcione, ao nosso lado tantos módulos foi muito bom; adquiri muita experiência, aprendi e cresci muito (a minha personalidade e o caráter)”. “Fico grata pelo empenho e preocupação de vocês, Cida e Alcione, em nos ajudar a conseguirmos nos realizar em nossos locais de trabalho”. “Maravilhosa foi a convivência com vocês Cida e Alcione. Que Deus esteja com vocês hoje e sempre”. Segundo Bernstein, os papéis do professor são também mais variados, mais diversificados e ao mesmo tempo menos prescritos antecipadamente. De preferência são construídos e realizados dia a dia, no curso das múltiplas interações que têm lugar no interior da instituição (FORQUIN, 1993). “Cida: esforço em estar buscando novos caminhos, novas idéias e recursos para enriquecer o nosso aprendizado”. “Cida batalhou muito, parabéns pelo seu desempenho, você é um profissional capaz”. “Cida soube desempenhar muito bem o seu papel e teve facilidade em superar os obstáculos impostos pelos imprevistos”. “Cida conseguiu vencer mais esse módulo”. “Instrutora foi de grande habilidade pois estava com vários problemas, mas mesmo assim deu muita atenção a todos”. A busca da integração entre ensino e serviço remetia a vários desdobramentos de ordem político/pedagógica, e o instrutor assumia variados papéis. Viabilizar o curso parece ter sido uma luta, e os alunos reconheciam o esforço do instrutor no sentido de dar continuidade ao processo. 98 Bernstein notava que essa evolução em direção a uma escola “mais aberta” inscrita no espírito do tempo, ia encontrar fortes resistências em razão da ameaça que toda educação aberta parece exercer sobre a ordem estabelecida (FORQUIN,1993). O Código Integrado favorecia a relação do tipo “horizontal” (a concordância, cooperação, participação) em todos os níveis, tanto entre os alunos quanto entre os professores. A democracia parecia se opor ao autoritarismo, a flexibilidade à rigidez, a participação social à segmentação burocrática, os valores modernos de abertura e convívio pareciam confrontar os antigos hábitos de isolamento e de manutenção das distâncias (FORQUIN, 1993). No curso houve um contínuo trabalho de equipe, um constante ajustamento dos objetivos, dos conteúdos e dos métodos. “Houve uma união entre Cida e Alcione e todos do grupo para que houvesse um desempenho maior de todos”. “Positivo a integração das instrutoras Cida e Alcione com a turma”. Os THD’s, ao identificarem nas instrutoras pessoas comprometidas com a prática de ensino e serviço, também nos permitiram indicar que esse processo de formação em serviço por meio do Currículo Integrado é contra-hegemônico e está ainda apoiado em instrutores e outros agentes de parceria. Não se trata de um projeto consolidado como prática e política institucional. “Tenho receio de que forças externas venham inviabilizar o curso de THD” A figura do professor inspira apoio e coragem para o enfrentamento dos desafios dos serviços. “A calma e dedicação das instrutoras muito me ajuda, me encoraja para continuar confiante que posso ajudar a minha comunidade” 99 • A EQUIPE DOCENTE A participação dos professores da equipe de apoio técnico, ao longo das Concentrações, parece ter sido motivo de grande investimento por parte das instrutoras. A forma como esses profissionais participaram e foram referenciados pelos alunos demonstrou um ajustamento entre toda a equipe docente. “Os apoios técnicos são pessoas muito comunicativas e prestativas, aceitando nos ajudar de uma maneira tão espontânea e amiga”. “O apoio técnico reforçou o que vimos durante a semana, foi muito válido”. “Eleonor é uma excelente profissional e mostrou competência ao passar para a gente o compromisso que temos como ser humano de saber entender e estar prontas a ter iniciativas quando deparamos com um imprevisto na nossa área de saúde”. “A aula da Lilian foi ótima, reforçou os trabalhos feitos durante a semana e valorizou o trabalho do THD”. “Dora: com seu jeito extrovertido e animado nos tocou, nos mostrando a importância do trabalho em equipe e do respeito mútuo”. “Marisa: Maravilhosa, com ela eu não me canso, nem parece ser professora da UFMG, por ser muito simples, o que a torna além de muito competente, muito amiga”. “Carlos: gostei muito de sua forma de explicar a matéria, de uma maneira descontraída e simples. Uma pessoa que já passou e ainda passa pelos problemas que enfrentamos. Admiro muito pessoas com força e garra como ele; realmente não teria pessoa melhor para nos dar apoio”. O entusiasmo do corpo docente comunicava-se por meio da linguagem verbal. Uma equipe convencida do que realizava favorecia a que os educandos captassem se o que estava acontecendo valia a pena ou não, e se posicionassem diante dos problemas a serem enfrentados. • A AULA EXPOSITIVA Para que a aprendizagem aconteça, ela precisa ser significativa para o aluno. Deve permitir ao aluno relacionar o que está aprendendo com os conhecimentos e 100 experiências que já possui. O que está sendo apresentado deve entrar em contato com situações concretas de sua vida (MASETTO,1997). “Uma aula expositiva após leitura dos textos é muito valiosa”. “A aula foi boa, os slides foram muito úteis para a visualização do que foi visto durante a semana”. “A aula foi muito esclarecedora, pois às vezes, quando fazemos a leitura dos textos, alguns pontos importantes passam desapercebidos. E hoje foi a oportunidade para se fixar e esclarecer (entender) estes pontos”. “É sempre bom ter alguém que trabalha na área que estamos estudando para falar no final do módulo. Esclarece as dúvidas e complementa os textos. Foi muito bom”. Na formação em serviço do THD, a aula expositiva acontecia de uma maneira contextualizada, sendo referendada de forma positiva pelo conjunto de educandos. 4.4.4 RELAÇÕES AFETIVAS As afirmações dos discentes que foram agrupadas sob a categoria “Relações afetivas”, constituíram um texto forte, onde os conflitos gerados pelas relações humanas foram muitas vezes explicitados. Os registros mostram que o curso ajudou o educando a tomar consciência da sua maneira de ser em relação ao outro, como suas palavras repercutiam nas outras pessoas, quais as barreiras nas comunicações. “Sinto-me feliz por saber que o curso superou as minhas expectativas, sinto-me realizada por notar que foi muito engrandecedor. Passei por novas experiências, amadureci por enfrentar certas barreiras, aprendi a não ser tão dona da verdade, e não cobrar tanto de mim mesma, aprendi a errar. Sinto-me triste porém em saber que dificilmente as nossas vidas se cruzarão novamente, em grupo, como aconteceu durante este ano, mês após mês. Fica aqui um emaranhado de felicidade e tristeza”. 101 Entendemos essa tomada de consciência como um elemento para iniciar uma mudança de comportamento. Os esforços gerados nesse movimento de, em grupo discutir, refletir sobre a própria prática profissional favoreceu o trabalho de construção do conhecimento. Assim, “trabalho em equipe” deixou de ser um referencial teórico e consubstanciou-se na prática do curso. “Apesar de haver alguns desentendimentos entre algumas pessoas do grupo, deu para perceber que existe muita amizade entre o restante da turma e isto facilita demais o aprendizado. A gente se sente bem à vontade para expressar, principalmente o que pensamos”. Por meio desse registro observamos que o educando reconhece o pressuposto pedagógico de que os trabalhos em grupo favorecem maior interesse dos alunos e, por conseguinte, maior rendimento na aprendizagem. Os problemas de relações humanas que surgiram foram motivos de discussão nos pequenos e no grande grupo. O empenho das instrutoras de obter e conservar a cooperação e a confiança dos educandos aparece explícito. “Achei muito boa a interferência das instrutoras no relacionamento da turma”. “O relacionamento entre os colegas como sempre foi bom, neste aspecto o que mais chamou a atenção foi a abordagem de nos reintegrarmos com a colega Margarida”. A utilização de recursos didáticos não convencionais (filmes Holliwoodianos, notícias de jornais, letras de músicas, reportagens de revistas, textos de reflexão, dinâmicas) criou possibilidades para aflorarem preconceitos, resistências, moralismos. Considerava-se importante transgredir o universo fechado e restrito dos chamados conteúdos técnicos. Havia uma busca de caminhos não-oficiais, sem desprezar, é claro, os conhecimentos científicos sistematizados. 102 O uso de uma linguagem poética cria oportunidades para que a intuição se manifeste e, conseqüentemente, seja liberada a emoção retida pelo pensamento estritamente racional (ESPÍRITO SANTO, 1996). “As brincadeiras foram maravilhosas, descobrimos talentos que nem a gente mesmo sabia que tínhamos”. “Foi ótimo, muito bom, me mostrou muitas coisas, cada dia aprendo mais”. “Dinâmicas: ajudaram-nos a conhecer um pouco mais as colegas através de suas experiências; valeu”. O Guia Curricular para a formação do THD, por meio da sua seqüência de atividades, favorecia um percurso mais descontraído em direção ao domínio do conhecimento. “Dramatizar situações de atendimento onde o usuário é informado dos cuidados a serem tomados para o controle da cárie dentária” (cit. Pág 259, BRASIL, 1994). O uso de dramatizações relacionadas à realidade dos serviços de saúde permitia que os educandos percebessem suas próprias emoções, favorecendo o seu autoconhecimento, sua própria identidade. Diante da constatação de sentimentos de raiva, ciúme, inveja, colocava-se sua mudança para emoções mais ajustadas a um equilíbrio pessoal. A passagem de situações de dramatizações para a vida real permitia importante reflexão avaliativa da transformação no comportamento do aluno. Uma gama de questões rotineiras em sala de aula podia ser trabalhada com largo proveito para os educandos. “O que acontece aqui no curso é que quando vamos colocar nossos problemas, muitas das meninas ficam fazendo cara ruim, mandando a gente calar, não dão a mínima para o que falamos, se não pudermos falar aqui nossos problemas o que vamos fazer para encontrarmos uma solução para as nossas dificuldades em nossos municípios? Fiquei bastante triste e magoada, já viemos tristes por causa dos 103 problemas, agora estamos voltando pior ainda. Mas tem uma solução a partir de hoje, não apresentaremos nossos problemas para não causar atritos entre o grupo”. Ao longo de cada unidade didática foi possível identificar as diferenças encontradas em cada local de trabalho e expressas nas falas dos THD’s. No fórum educacional da formação em serviço, o propósito foi o de estabelecer um diálogo voltado, não para a conformidade e o acordo, mas sim para a compreensão, a tolerância e o respeito das diferenças. Um diálogo voltado para manter a diferença, não para eliminá-la (MOREIRA, 1997). • O ALUNO FRENTE AOS DESAFIOS DO TRABALHO São polêmicas as relações entre o mundo do trabalho e o campo educacional. FRIGOTTO (1999) defende o papel fundamental da educação de gerar valores éticos, políticos; o papel de preparar cidadãos para a vida social, cultural, a vida humana. No processo de construção do conhecimento, há que se relacionar os saberes com a história e os acontecimentos do dia-a-dia. Numa Pedagogia Invisível, o controle está quase inteiramente na comunicação interpessoal. Os educandos são encorajados a tornar públicos aspectos do seu interior: sentimentos, fantasias, temores (BERNSTEIN, 1996). “Iniciei o curso com dificuldades que superei. Encontrei limitações no trabalho mas me senti uma profissional que colaborava para melhoras e imaginava poder fazê-las melhor após a formatura. Agora, véspera do acontecimento, não sei como me sinto, pois há muitas decisões que me deixam sem saber como vou trabalhar quando tudo for decidido. Não contava com tantas mudanças”. • AS QUESTÕES DE HIERARQUIA 104 Pelos depoimentos dos THD’s, percebemos uma certa “resistência” dos cirurgiões-dentistas a essa “nova” categoria profissional. Não se tratava de algo explícito, mas de posturas, de atitudes veladas de controle e rejeição. A prática odontológica hegemônica do cirurgião-dentista é presa a uma estrutura racionalista, onde os “conhecimentos científicos” são ajustados a uma lógica formal. Essa lógica se opõe ao empirismo, que vê no domínio sensorial as fontes do conhecimento. Como os THD’s são formados numa concepção dialética, situando-os num universo real, permitindo uma ampla e irrestrita busca e pesquisa do conhecimento, também no cotidiano, sem restrições culturais ou de outra ordem, os conflitos tornam-se inevitáveis. “Sinto vontade de trabalhar e muito frustrada por saber que o THD não é aceito pelo C.Dentista, e eu dependo dele para exercer, para promover saúde. Que minha posição é de luta em todos os sentidos. Temo continuar como antes, sem apoio por parte dos gestores e secretários de saúde. Dependo do querer dos outros. Não vou me acomodar, porém terei paciência”. “Me sinto realmente uma THD, compromissada com o paciente, com a saúde bucal. Quero me dedicar ainda mais a cada dia.”Não ter medo de perguntar o porquê ao dentista, ir atrás”. Legal”. Alguns educandos demonstraram ter sido estimulados a enfrentar o abuso do poder local do cirurgião-dentista. Deixaram transparecer um desejo de mudanças nas relações onde há uso excessivo da autoridade, ao mesmo tempo em que se mostraram cuidadosos, conhecedores de que lidam em um campo onde se requer ousadia e cautela ao mesmo tempo. Sabedores da importância do equilíbrio nas situações de mudança, já que a radicalização não contribui para o diálogo. Podemos afirmar que o curso de formação do THD em Carmo do Paranaíba, abriu amplas possibilidades aos alunos de, após cada unidade didática, fazerem a crítica da própria instituição em que estudam, do conteúdo estudado, do método, do papel do docente e dos serviços de saúde onde trabalham. A mensagem que se tem é a de que, ao criticarem e construírem 105 novas relações pedagógicas estarão, por extensão, comprometidos com a construção da sociedade como um todo. O conflito, a inquietação e a dúvida fizeram parte do cotidiano escolar. O desafio de uma formação ligada aos interesses e necessidades da população (e dos serviços de saúde) foi assumido na rotina da prática pedagógica. O Currículo Integrado configurou um avanço na proposta de formação e na organização dos serviços de saúde. Houve um ganho real para a população na medida em que as inovações tecnológicas chegaram mais rápido a ela. Houve a profissionalização do THD. Ele foi formado com o objetivo claro de responder, junto com a equipe de saúde bucal, as necessidades de uma determinada população. O cirurgião-dentista instrutor da Concentração, além de capacitar-se técnica e pedagogicamente (na ESMIG) também assumiu na prática o novo papel de formador e coordenador da equipe. Regionalmente foi deflagrado um movimento de atualização técnica e pedagógica para os profissionais da rede de serviços SUS. Com isso a população também se beneficiou. Estabeleceu-se na Saúde Bucal um Círculo Virtuoso (Figura 13). 106 SUS THD CD / INSTRUTOR CONCENTRAÇÃO POPULAÇÃO CD / INSTRUTOR DISPERSÃO FIGURA 13: O círculo virtuoso na área de Saúde Bucal Acreditamos que nesse espaço de reflexão e questionamento das contradições do real vislumbraram-se, ainda que tênues, as perspectivas de transformação. 107 CONCLUSÕES TIPO DE CURRÍCULO E RELAÇÕES PEDAGÓGICAS Na concepção de Bernstein, um currículo com fraca Classificação, no qual as fronteiras entre os diferentes campos são pouco nítidas, não significa ausência de poder (SILVA, 1999). No Currículo Integrado para o THD, ficou evidenciado que o plano pedagógico estava organizado de acordo com princípios diferentes de poder. As relações de poder (status quo) nesse modelo de formação demonstraram ser igualitárias, buscando as contribuições de todos os atores para a construção de um modelo assistencial em saúde bucal inserido no SUS. Do mesmo modo, a forma didática de realização do curso, na qual os estudantes apresentavam um poder maior de decisão sobre as diversas dimensões da pedagogia (ritmo, tempo, espaço) não significava que o controle estivesse ausente. Estavam em ação outros princípios de controle, mais sutis, mas nem por isso menos eficazes. A instituição formadora (ESMIG/CFRHS) dispunha de outras formas de controle: exigência de limite de freqüência, horários definidos, tarefas a serem cumpridas, padrão de qualidade técnica e outras exigências locais. Acerca das relações pedagógicas estabelecidas na formação do THD por meio do Currículo Integrado, baseando-nos em SANTOMÉ (1998), podemos concluir: RELAÇÃO ENSINO-SERVIÇO A sala de aula converteu-se em um espaço em que os serviços de saúde (e a sociedade) puderam ser submetidos a revisão e crítica. Os educandos puderam desenvolver habilidades imprescindíveis para participar e contribuir para o aprimoramento da comunidade concreta e específica da qual faziam parte. 108 Houve um esforço educacional para envolver os educandos em debates sobre a construção do conhecimento, sobre os conflitos do dia-a-dia de trabalho, para que se sentissem obrigados a identificar suas posições, interesses, ideologias. Os registros indicaram que os educandos tornaram-se, ao longo do processo de formação, mais capazes de duvidar, interrogar, aventurar-se a estabelecer novas e originais hipóteses para as várias situações colocadas. A formação do THD por meio do Currículo Integrado, ao eleger a prática dos serviços de saúde bucal como “ponto de partida e de chegada”, aproximou os interesses, desejos e as preocupações dos educandos à apropriação do conhecimento necessário e urgente para transformar o cotidiano. Usando novamente a metáfora do currículo enquanto jornada (DOLL, 1997), tornou-se possível definir a arena política da formação do THD. A corrida (o processo de formação) começou antes do ponto de largada (o início do curso) da pista (a grade curricular), e continua o seu longo caminho após a placa de chegada (formatura). Correm os trabalhadores do SUS, aqueles já engajados ou em via de inserção no sistema. Correm como atletas que trocam o bastão, ou seja, sabem que correm em grupo, numa atividade coletiva. Sabem que o seu bom desempenho é importante, mas que também dependem do desempenho da equipe. Foram cooperativos. Vislumbraram a frente o reconhecimento profissional (habilitação), mas também os benefícios que a prática em saúde bucal iria reverter aos usuários do SUS. O técnico da jornada (o cirurgião-dentista instrutor) foi alguém da equipe, que se distanciou às vezes do movimento de correr para assumir o papel de facilitador da jornada. O cirurgião-dentista desdobrou-se, assumiu novos papéis, tornou-se referência local e regional. Durante a corrida, todos foram estimulados a transformar a realidade que os cercava. Foram convidados a assumirem o papel, além de trabalhadores do SUS, de cidadãos. Durante a corrida, existiram diferentes climas, de acordo com os diferentes espaços políticos conquistados. 109 O uso da metodologia da problematização serviu para identificar e procurar soluções para os problemas da vida real. Propiciou visões da realidade nas quais os educandos apareceram como atores sociais, pessoas criativas e inovadoras . Abriulhes perspectiva de formação de uma consciência crítica, mais aguda em relação à realidade social. RELAÇÃO ALUNO-CONHECIMENTO: Foram criadas situações de ensino e aprendizagem nas quais, por sua relevância, os conteúdos culturais selecionados no projeto curricular interagiram e propiciaram processos de reconstrução, junto com o que já existia nas estruturas cognitivas dos alunos. A partir dos conceitos espontâneos dos educandos, foram gerados contradições ou conflitos capazes de obrigá-los a substituir ou reconstruir suas idéias para enfrentar os novos desafios. Os educandos mostraram estar atentos para detectar, analisar e buscar soluções para os problemas. Por meio da instituição escolar puderam compreender melhor o mundo no qual vivem, comparando com outras pessoas suas opiniões e julgamentos, em um clima de cooperação e liberdade. RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO: Os professores aproveitaram os conceitos que os alunos traziam e estimularam o seu desenvolvimento para que se aproximassem de outros referenciais. Como havia uma fraca compartimentação de conteúdos, foi mais fácil a compreensão dos educandos, pois a realidade era mais precisa, melhor observada. Os professores parecem ter assumido o compromisso de não expressar de início suas opiniões, mas de centrar-se em escutar, resumir, controlar as interrupções, introduzir novos dados, incentivar os grupos a interpretarem as várias situações, impedindo um consenso prematuro em torno das questões levantadas. Aproveitaram os erros dos educandos para revisar o trabalho realizado; criaram as condições para que os educandos 110 identificassem os próprios erros e aprendessem a corrigi-los. Pediram opiniões sobre suas próprias atuações, abrindo assim melhores condições para o diálogo. A formação oferecida aos professores (Curso de Especialização em Atenção Básica de Saúde / Odontologia Coletiva), indicou ter contribuído para que aprendessem a não interferir e a respeitar as respostas e pontos de vista divergentes dos diferentes alunos THD’s. RELAÇÕES AFETIVAS O Currículo Integrado, ao possibilitar a apresentação do conteúdo sem fragmentação, possibilitou a inseparabilidade entre o sensível e o intelectual, entre a memória, a percepção, o conceito, a imagem e a palavra. As dinâmicas, os jogos educacionais funcionaram como auxiliares para incentivar o aparecimento de outras atividades que exigiam maior esforço e perseverança. OS CÓDIGOS DE INTEGRAÇÃO E O CURRÍCULO INTEGRADO DO THD Bernstein define as condições para que o conhecimento seja regulado por códigos de integração (DOMINGOS, 1985). Aplicando essas condições à formação em serviço do THD, podemos afirmar: • Havia um consenso quanto à idéia integradora do curso (relação ensinoserviço), explícita no Guia Curricular e confirmada nos registros dos educandos. • A relação ensino-serviço coordenou o conhecimento gerado e apropriado no curso. 111 • Existiu um sistema de retroação sensível entre professores e alunos que funcionou como outro agente de socialização no Código de Integração. • Existia (a priori) uma definição muito clara de critérios de avaliação. Entretanto, num determinado momento do curso, dificuldades operacionais geraram uma busca forte de atributos cognitivos. Essa foi a condição que, talvez, menos tenha aproximado as duas experiências: a teórica, descrita por Bernstein e a prática, vivenciada no curso de formação de THD em Carmo do Paranaíba. O quadro da Figura 14 mostra as categorias de Classificação e Enquadramento aplicadas nas relações pedagógicas do Curso de THD. Relações pedagógicas Classificação (isolamento de fronteiras) Enquadramento (o que pode e como é transmitido) Ensino – Serviço __ (fraco) __ (fraco) Aluno – Conhecimento __ (fraco) __ (fraco) + (forte) Professor – Aluno __ (fraco) __ (fraco) Afetivas – Grupo __ (fraco) __ (fraco) FIGURA 14: Os conceitos de Bernstein aplicados nas relações pedagógicas do Curso do THD Em síntese, o Currículo Integrado do THD aproximou-se do modelo curricular integrado de Bernstein , gerando Códigos de Integração e confirmando as hipóteses desse autor. O Currículo Integrado do THD demonstrou promover diferenças qualitativas no profissional formado. Em 1999, um outro Currículo Integrado foi analisado em uma dissertação de Mestrado do Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde. Com seu trabalho intitulado “Da reforma curricular à construção de uma nova práxis pedagógica: A 112 experiência da construção coletiva de um Currículo Integrado” , a autora analisa as possibilidades e limites que o Currículo Integrado traz para a transformação da práxis pedagógica. Também averigua se a práxis pedagógica está em transformação, na direção de uma práxis crítica, a partir da construção coletiva do Currículo Integrado da Faculdade de Enfermagem da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Utilizando-se inclusive de categorias de análise defendidas por Bernstein (Classificação e Enquadramento), a autora demonstra as diferenças que o Currículo Integrado promoveu no corpo docente e discente (ROMANO, 1999). A articulação entre a concepção pedagógica e a dimensão política da prática integrada foi confirmada na formação do THD. Além de formar trabalhadores para a área da saúde, o Currículo Integrado viabilizou inserir, nos serviços locais, profissionais comprometidos com práticas democráticas. A partir dessa constatação, uma nova questão que se abre, refere-se ao trabalho que o THD vem desenvolvendo na sua pós-formação. Continua ele com o mesmo compromisso social demonstrado ao longo do seu processo de formação? Como responde hoje aos desafios colocados pelo mundo do trabalho? TIPO DE AÇÃO PEDAGÓGICA AS LIMITAÇÕES ENCONTRADAS Nesta pesquisa, a análise dos códigos à luz dos conceitos de Classificação e Enquadramento fez surgir novos questionamentos. Os Códigos de Integração podem ser considerados como matrizes potenciais de mudança destinados a efetuar uma alteração na distribuição do poder e nos princípios de controle no desenvolvimento de currículo. Diante da constatação da socialização de Códigos Integrados, quais seriam hoje as condições para a continuidade do processo de formação de trabalhadores de nível médio em saúde bucal? Quais seriam as condições de resistência às mudanças ainda necessárias? 113 Coexistem na ESMIG/CFRHS propostas pedagógicas de diferentes concepções. “É preciso ter presente que um bom ensino integrado é muito mais do que a aplicação de uma determinada metodologia. Pelo contrário, implica em não perder de vista as razões pelas quais se está optando por essa modalidade curricular, seus princípios filosóficos. Reconhecer e assumir que educar é uma ação política, não um trabalho meramente técnico. Implica em repensar a instituição como um todo (...). Implica também que a Instituição de ensino se constitua realmente em uma totalidade a partir de uma mesma e clara filosofia” (Cit. Pág. 118 ROMANO, 1999). Se a instituição escolar não é entendida apenas como o lugar onde é realizada a reconstrução do conhecimento, mas também como um espaço no qual se reflete criticamente sobre as suas implicações políticas, qual é a atenção que os setores envolvidos (Saúde e Educação) conferem a esse processo ? Outra questão que merece ser melhor refletida é a situação tendenciosa de regiões e municípios mais desenvolvidos formarem THD’s com recursos próprios, enquanto regiões menos desenvolvidas continuam sem qualificar seus profissionais de nível médio em saúde bucal (Ver mapa em Anexo 3). Identificamos a necessidade de uma política mais definida de financiamento para a profissionalização do THD em Minas Gerais no sentido de interferir no “Mapa da desigualdade”. Ao concluir esta pesquisa, constatamos que seguimos caminhos que se aproximam dos preconizados por estudiosos do campo dos currículos: “Sugiro, então, em um primeiro momento, que os curriculistas atuem nas diferentes instâncias da prática curricular, participando da elaboração de políticas públicas de currículo, acompanhando a implementação das propostas e realizando estudos nas escolas que avaliem essa implementação. Proponho também que desenvolvam investigações da prática curricular, com os que nela atuam, de modo a subsidiar a 114 formulação de políticas de currículo, favorecer a renovação da prática e promover o avanço da teoria” (Cit. Pág. 30-31 MOREIRA, 1998). Num primeiro momento, atuamos participando da elaboração de instrumentos públicos de currículo na área de saúde bucal. Acompanhamos a implementação das propostas em Minas Gerais, avaliando-as. Ao desenvolvermos essa investigação, acreditamos estar subsidiando a formulação de políticas de currículo, favorecendo a renovação da prática e promovendo o avanço da teoria. Apostar nesse profissional significa defender a formação de um novo tipo de pessoa, mais aberta, mais flexível, solidária, democrática e crítica. Alguém preparado para a celeridade das mudanças. 115 VERDADE A porta da verdade estava aberta, Mas só deixava passar Meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade, Porque a meia pessoa que entrava Só trazia o perfil da meia verdade. E a segunda metade Voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam. Arrebentaram a porta, derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso Onde a verdade esplendia seus fogos. Era dividida em metades Diferentes uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela, Nenhuma das duas era totalmente bela. E carecia optar. Cada um optou conforme Seu capricho, sua ilusão, sua miopia. Carlos Drumond de Andrade 116 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 1. ALVES, Rubem. Filosofia da Ciência: Introdução ao jogo e suas regras. 14a edição, SP, Editora Brasiliense, 1991. 2. APPLE, Michael W. Reprodução, Contestação e Currículo. In: do autor: Educação e Poder. PA, Artes Médicas, 1989. Cap. 1, Pág. 19-54 3. _______ Educação, cultura e poder de classe: Basil Bernstein e a sociologia da educação neomarxista. Teoria e Educação, 1992, 5 Pág.107-132 4. BARBOSA, Helena Facury, Formação médica e Internato rural – em busca da Identidade pedagógica de uma experiência. Belo Horizonte, FAE, 1998 (Dissertação de Mestrado) 5. BERNSTEIN, Basil: Classes e pedagogia: visível e invisível. Tradução de Marlene Domingos Oth e Dagmar M. L. Zibas. Cadernos de Pesquisa, (49): 26-42, maio de 1984. 6. __________: Uma crítica ao conceito de “educação compensatória”. In: BRANDÃO, Zaia. Democratização do ensino: meta ou mito? Segunda edição, RJ, Coleção Educação em questão, 1985. Cap.III, pág. 43 – 57. 7. __________: A Estruturação do Discurso Pedagógico: Classe, Códigos e Controle. Volume IV da edição inglesa. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva e Luis Fernando Gonçalves Pereira. Petrópolis, Editora Vozes, 1996 8. BOURDIEU, Pierre: Introdução a uma sociologia reflexiva. Cap. II, p: 17-58. In: O poder simbólico. Trad. Fernando Torrez, Lisboa, Difel, RJ; Bertrand Brasil SA 1989 117 9. BRASIL, Ministério da Saúde, Guia Curricular para formação do Técnico em Higiene Dental para atuar na rede básica do SUS. Área Curricular I,II e III Brasília, Ministério da Saúde, 1994. 10. ________, Ministério da Saúde. Coordenação Geral de Desenvolvimento de Recursos Humanos para o SUS. Capacitação Pedagógica para Instrutor / Supervisor – Área da Saúde. Reimpr. da 1. Ed. – Brasília, M. Saúde1994 11. ________, Ministério da Saúde. CGDRH SUS. Guia Curricular para formação de Auxiliar de Enfermagem para atuar na rede Básica do SUS. Brasília, MS, 1994 12. ________, Ministério da Saúde. CGDRHSUS. Capacitação de Enfermeiros em Saúde Pública para o SUS. 2a edição. Brasília, Min. Saúde, 1994 13. ________, Ministério da Saúde. CGDRH para o SUS. Capacitação técnica para o Cirurgião-dentista atuar na rede básica do SUS: área I, II e III. Brasília: Ministério da Saúde, 1994, 160p. 14. ________, Ministério da Saúde / FNS /OPAS. Desenvolvimento gerencial de Unidades básicas de saúde do distrito sanitário: Projeto GERUS. Brasília Editora FNS. 1995. 325p. 15. ________ “Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional” Número 9.394/96, Diário Oficial, seção 1, pág.27.833, de 23/12/96 16. ________, Decreto N: 2.208 de 17/4/97, Diário Oficial, seção 1, de 18/4/97 17. ________, Ministério da Saúde. Guia curricular para a formação de atendente de consultório dentário para atuar na rede básica do SUS. Área I, II, III e IV Brasília. M. Saúde, 1998 118 18. ________, www.mec.gov.br, Ensino e Pesquisa, Educação profissional, Pág.2 /5, 1999 19. ________, Ministério da Educação. Diretrizes curriculares nacionais para o ensino técnico / Área da Saúde, Brasília, abril de 1999.mimeog. 19 pág. 20. CARVALHO, C. L. Trabalho e profissionalização das categorias auxiliares em odontologia. Ação Coletiva, Brasília, Vol.II (1), p. 25-33 jan/mar 1999 21. COELHO, Maria Inês de Matos. Reinventando o poder na e pela educação: utopia e realidade. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1988. 618 pág. (Tese de doutorado em Educação) 22. CONSELHO ESTADUAL DE EDUCAÇÀO / CEE. Parecer 913/96. Aprovado em 8/10/96 e publicado no Minas Gerais em 15/11/96. 23. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÀO / CEB. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a educação de nível técnico. Diário Oficial. Brasília Resolução N. 04, de novembro de 1999 24. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Diretrizes Curriculares Nacionais para a educação profissional. Parecer 16/99. Câmara de Educação Básica, Diário Oficial da União, Brasília, 26/11/99 25. COSTA, Hervânia Santana. Um primeiro olhar: a saúde bucal observada através do SIA/SUS Bahia. Universidade Estadual de Feira de Santana, 2000. 53 p (Monografia, Especialização de Odontologia em Saúde Coletiva) 26. CUNHA, Antônio Silveira da. Os contextos instrucional e regulador no discurso de sala de aula segundo Basil Bernstein. Colet. Programa Pós-Grad. Educ., Porto Alegre, vol.5, n. 13, p. 087-093, Jul/Ago 1997 119 27. DANDURAND,Pierre e Ollivier, Emile: Os paradigmas perdidos. Ensaio sobre a sociologia da educação e seu objeto. Teoria & Educação, Porto Alegre, v.3, p. p. 120-142, 1991 28. DAVINI, Maria C. Currículo Integrado. In: BRASIL, M. Saúde. Capacitação Pedagógica para instrutor/supervisor - área da saúde. Brasília, MS, 1984 p. 41-55 29. DOLL, William E.Jr. Currículo: uma perspectiva pós-moderna, Tradução Maria Adriana Veríssimo Veronese. Porto Alegre, Artes Médicas, 1997 30. DOMINGOS, Ana Maria; Barradas, Helena; Rainha, Helena; Neves, Isabel Pestana: A teoria de Bernstein em Sociologia da Educação. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1985 31. ESPANYA, Mercé e Flecha, Ramon: Novas contribuições de Basil Bernstein. Espaço Aberto, Revista Brasileira de Educação, Número 7, p. 82-88 Jan/Fev/Mar/Abr 1998 32. ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar do: Pedagogia da trangressão: Um caminho para o auto-conhecimento. SP, Editora Papirus, 1996. 33. ETGES, Norberto J., Ferrari, Alceu R.: Algumas reflexões sobre a obra de Bernstein. Educação e Realidade, Porto Alegre, 4 (3): 361-5, out/dez 1979. 34. FORQUIN, Jean-Claude: Saberes escolares, Imperativos didáticos e dinâmicas sociais. Teoria e Educação,5, p. 28-49, 1992 35. ________. Escola e Cultura – as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar. Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 1993. 120 36. ________. Sociologia da Educação: dez anos de pesquisa / Jean Claude Forquin (org); tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1995 37. FRIGOTTO, Gaudêncio. No Brasil falta trabalho e não trabalhadores capacitados. Presença Pedagógica,V.5 n.27 p. 5-13 mai / jun 1999 38. GOLDENBERG, Mirian. A arte de pesquisar: como fazer pesquisa qualitativa em ciências sociais, 2 ed. Rio de Janeiro, Record, 1998 39. GOODE, WILLIAM JOSIAH, Métodos em pesquisa social [por] William J. Goode e Paul K.Hatt; tradução de Carolina Martuscelli Bori. 5a edição, São Paulo, Editora Nacional, 1975. 40. JOYCE, Bruce R. Os especialistas em currículo no futuro. In: MASSICK, R., PAIXÃO, L., BASTOS, L.R. Currículo, Análise e Debate. Rio de Janeiro Zahar, 1980 p. 133-159 41. KRAMER, Sônia. Melhoria da qualidade do ensino: O desafio da formação de professores. Brasília, DF. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, n. 165 p. 189-207, 1989 42. LOUREIRO, C.A.Sales A inversão da atenção em saúde bucal. In: MENDES, Eugênio Vilaça (org). A organização da saúde no nível local. SP, Editora Hucitec, 1998. Capítulo 9. Pág. 213-266 43. LÜDKE, Menga e André, Marli Elisa D.A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU, 1986 44. MASETTO, Marcos Tarciso, 1937 – Didática: a aula como centro. 4a edição. São Paulo: FTD, 1997. Coleção Aprender e Ensinar 121 45. MEDEIROS, Marilú Fontoura: O papel da educação no processo de socialização: conflito entre a escola e o trabalho. Educação e Realidade, Porto Alegre, 4(3):353-9, out/dez 1979 46. MELLO, Guiomar Namo, Magistério de I grau: da competência técnica ao compromisso político – 12 edição, São Paulo: Cortez, 1998. 47. MINAS GERAIS, Secretaria de Estado da Saúde, Funed, Esmig, Cfrhs, Curso de Técnico em Higiene Dental, Belo Horizonte, mimeog. 107 pág. 1996 48. ____________, SES/MG, Funed, Esmig, Centro Formador de Recursos Humanos para a Saúde – Regimento Escolar, mimeog. 20 pág., 1996 49. ____________Secretaria de Estado da Saúde. Coordenadoria de Saúde Bucal Ações de saúde bucal para o SUSMG. mimeog. 5 pág. 1999 50. MOREIRA, Antônio Fávio Barbosa. Currículo e Controle Social, Teoria & Educação, 5:3-1, p. 13-27, 1992 51. ________Sociologia e teoria crítica do currículo: uma introdução. In: do autor: Currículo, Cultura e Sociedade. SP ,Cortez, 1995 52. _________.Currículo, utopia e pós-modernidade. In: Currículo: Questões atuais. Ed. Papirus Campinas, 1997.Cap. 1, p.9-29 53. _________. A crise da teoria curricular crítica. In: COSTA, Marisa Vorraber (org) O currículo nos limiares do contemporâneo. RJ Editora DP&A, 1998 Cap. 1, p 11-36. 122 54. NETO, Otávio Cruz. O trabalho de campo como descoberta e criação. In: DESLANDES, Suely F., NETO, O. C., MINAYO, M. Cecília de Souza (org) Pesquisa Social: Teoria, Método e Criatividade. Petrópolis, RJ, Editora Vozes, 15a Edição, 2000. Cap. III, p.51-66 55. OLIVEIRA, Lavínia Santos S. A profissionalização dos trabalhadores de enfermagem nos serviços de saúde: uma experiência de construção do projeto larga escala na cidade de São Paulo. Dissertação de Mestrado, USP, São Paulo, 1996, 83 pág. 56. OLIVEN, Arabela Campos: Linguagem, condicionamento social e processos cognitivos. Educação e Realidade, Porto Alegre, 4(3):347-51 out/dez 1979 57. PEZZATO, Luciane Maria, A formação para o pessoal auxiliar em Odontologia no Brasil: contribuição ao tema. Ação Coletiva: Vol.II(1),Brasília, p. 35-40 jan/mar 1999 58. RASCHE, Vânia Maria Moreira . A influência dos trabalhos iniciais de Basil Bernstein na prática educacional. Educação e Realidade, Porto Alegre, 4 (3): 333-46, out/dez 1979 59. ROMANO, Regina Aurora Trino. Da reforma curricular à construção de uma nova práxis pedagógica: a experiência da construção coletiva de um currículo integrado. Rio de Janeiro. Editora UFRJ,1999. 197 pág. (Tese de Mestrado do Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde) 60. SANTANA, José Paranagua de. Capacitação em desenvolvimento de recursos Humanos de Saúde: CADRHU. Brasília, OPAS / OMS 1993, 81p 123 61. SANTAROSA, Lucila M, Costi: Integração curricular: uma análise da 6a série no 1o Grau; com base na homogeneidade dos critérios de avaliação dos professores. Educação e Realidade, Porto Alegre, 4 (3): 333-46, out/dez 1979 62. SANTOMÉ, Jurjo Torres. Globalização e Interdisciplinariedade: O Currículo Integrado. Tradução Cláudia Schilling. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998 63. SANTOS, I., Cristófaro, M.A.C. A formação do trabalhador da área de saúde. Divulgação em Saúde para debate, n. 14, Londrina, p. 48-52 ago/1996 64. SANTOS, Lucíola Licínio C.P. Saberes escolares e o mundo do trabalho. IN: FERRETTI, Celos Jõao, JÚNIOR, Jõao dos Reis Silva, OLIVEIRA, Maria Rita N. Sales. Trabalho, formação e currículo: para onde vai a escola? São Paulo: Xamã, 1999, p. 63-74 65. SILVA, Tomaz Tadeu da. Códigos e reprodução cultural: Basil Bernstein. In: do autor: Documentos de identidade: uma introdução às teorias do Currículo, Ed. Autêntica, Belo Horizonte, 1999, p. 71-76 66. STEFFEN, Delmar. Bernstein e a sociolingüística: Tentativa de análise Crítica dos Pressupostos de uma Sociolingüística de Tendência Socialista. Letras de Hoje, N. 41 p. 71-100 set/1980 67. TORREZ, Milta N.F.B., Qualificação e trabalho em saúde, o desafio de “ir além” na formação dos “trabalhadores” de nível médio. Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1994, 148 p. (Dissertação de Mestrado em Educação) 68. VALA, Jorge. A análise de conteúdo. IN: SILVA, Augusto Santos e PINTO, José Madureira. Metodologia das Ciências Sociais.Ed. Afrontamento, Segunda edição, 1987, Cap. IV, p. 101-128 124 69. YOUNG, Michael. Currículo e democracia: lições de uma crítica à “nova sociologia da educação”, Educação e realidade, Porto Alegre, 14 (1): 29-40, jan/jun 1989 125 ANEXO I Dados de identificação dos THD’s, municípios envolvidos e demandas de novas turmas 126 ANEXO II Relatório final da Oficina de Avaliação da Formação em Serviço do THD em Minas Gerais 127 ANEXO III Mapa com a distribuição dos cursos de formação de THD 128 ANEXO IV Instrumento preliminar para coleta de dados 129 ANEXO V Roteiro para elaboração de um Memorial 130 ANEXO VI Seqüência de atividades da 1a unidade didática da área I do Guia para a formação do THD 131 ANEXO VII Fichas de avaliação 132