SÍNDROME DO PÂNICO. UMA NOVA PATOLOGIA?[i] Roseane Freitas Nicolau[ii] . INTRODUÇÃO Este trabalho, gerado a partir da prática clínica e dos impasses que permeiam o diagnóstico de Síndrome do Pânico, propõe refletir sobre demandas de análise que chegam com um rótulo previamente aplicado – “sofro de pânico” – o que para o candidato a análise já diz tudo, dispensando maiores explicações. Em meio às perturbações próprias ao nosso tempo, o pânico está em destaque, ao lado da anorexia, da fobia social, dos distúrbios obsessivos compulsivos, das toxicomanias. É um fato a expansão atual dos casos de pânico. Seus sintomas recorrentes vêm sendo tratados pelos psiquiatras com antidepressivos e, ao que parece, com resultados ótimos e eficazes. Pode-se argumentar que esta é a intenção da indústria farmacêutica, buscando a difusão dos antidepressivos modernos, estratégia argumentativa usual no meio psicanalítico para refutar o surgimento de uma nova categoria clínica, diversa daquelas com as quais o psicanalista forjou sua prática ao longo dos anos. Mas, isso não resolve a questão principal que se coloca em análise a partir de um diagnóstico como este: calar o sujeito. Nos diferentes relatos das crises, a cena é sempre a mesma, e de indizível horror. Não há palavras que a traduzam, mas um desfiladeiro de sinais e sintomas físicos: sudorese, taquicardia, vertigem, sensação de morte iminente, etc. Subtraindo estes aspectos sintomáticos, o que resta é o caos. Uma angústia descrita. Mas o que vem a ser este quadro? O transtorno do pânico, de acordo com as classificações psiquiátricas da CID-10 e do DSM-IV, encontra-se definido dentro da categoria dos transtornos de ansiedade, com inúmeras subdivisões. A expressão síndrome do pânico não aparece na classificação, embora tenha sido esta a que ficou mais popularmente consagrada. Os transtornos de ansiedade incluem uma gama imensa de categorias (como as fobias e o transtorno obsessivo compulsivo, etc.), que circunscreve diagnósticos de acordo com certas particularidades fenomenológicas. Nesses manuais de classificação diagnóstica, os termos neurose, doença, etc. são substituídos por outros, como distúrbio e transtorno. Resta perguntarmos se existe alguma vantagem para a clínica neste procedimento de “recortar” as antigas neuroses em diversas síndromes, de acordo com a sintomatologia que lhes é predominante, como fizeram as sucessivas revisões dos manuais. Talvez esse procedimento sirva realmente para testar novos medicamentos. Mas o que isso nos ensina de novo sobre o sujeito realmente em questão? Todo paciente chega rotulado, de uma forma ou de outra, mesmo que não venha com um diagnóstico como esse. Chega sempre sem falar em nome próprio, falado pelo outro, fixado em uma história que lhe foi dada, em significantes recebidos. A análise será o trabalho de sair dessa fixação e escrever a própria história, fabricar a sua ficção, inventá-la. Se para a medicina o primeiro objetivo é restituir ao paciente um estado de saúde perdido, para a psicanálise trata-se de ajudá-lo a tentar construir para si o que é a sua saúde. O sintoma analítico não é o mesmo sintoma clínico com que lida o médico, não é um sintoma a ser calado e sim um sintoma a ser posto a falar. São ordens diferentes de saber que tratam de coisas diferentes. Se partirmos da classificação diagnóstica com o saber que lhe é inerente, só conseguiremos estancar a fala e evitar qualquer questionamento sobre seu sofrimento, pois o paciente já tem descritas as características de seu ataque formuladas pelo saber médico: medo ou desconforto intenso, no qual alguns sintomas se desenvolvem abruptamente, como palpitação, sudorese, tremores, falta de ar, dor no peito, náusea, sensação de cabeça oca ou desmaio, medo de perder o controle ou enlouquecer, medo de morrer, calafrios ou ondas de calor[iii]. O paciente, que já vem com um rótulo, com uma queixa específica, só quer se livrar do seu sofrimento. E como isso não é resolvido, continua a falar, até descobrir que não veio para resolver algo de objetivo, mas ter acesso a sua própria verdade. Nesse sentido, tanto faz ser a síndrome do pânico ou qualquer outra, o importante é o engajamento na análise a partir de uma fala endereçada ao analista. Para conduzir uma análise, este não parte de um diagnóstico sustentado por um saber, mas do desconhecimento daquilo que é próprio ao sujeito e que só será revelado pela sua fala. Entretanto, para conduzir uma analise, é preciso apreender a lógica que está em jogo no sintoma referido pelo paciente. Em relação aos casos rotulados como transtorno do pânico, procuro aqui apreender essa lógica no interior mesmo da tradição psicanalítica, através da articulação entre fobia e angústia. É pelo nome de neurose de angústia que chamarei o transtorno do pânico, mantendo-me fiel às teorizações de Freud sobre a angústia e as fobias. As formulações de Freud a respeito da angústia permitem circunscrever a relação da angústia com o pânico. Este não é uma fobia, mas um fenômeno de ordem semelhante e vem se instalar quando falha até mesmo a defesa constituída por esta, que é convocada para proteção do sujeito. O caso do pequeno Hans tem uma função paradigmática, pois aí Freud vincula a fobia a uma entidade nosográfica que denomina histeria de angústia, tomada como referência. Recorro também à escrita de Lacan que avança em sua discussão referente ao pai, significante fóbico que remete à própria constituição do sujeito. Este autor discute a fobia no seminário Relações de objeto (1995), à luz de seu paradigma RSI, avançando no esclarecimento dessa questão a partir de sua teoria da falta de objeto. Percorro essas duas formulações para responder ao desafio que se coloca para o analista da possibilidade de análise nesses casos. A NEUROSE DE ANGÚSTIA Muitos autores divergem quanto ao estatuto da fobia. Seria ela uma estrutura clínica como a histeria e a neurose obsessiva, ou um fenômeno sintomático da neurose? Já em 1894, no texto Obsessões e Fobias,Freud procura distinguir a fobia das obsessões verdadeiras. Em ambas seriam encontrados dois componentes essenciais: uma representação que se impõe ao paciente e um estado emocional a ela associado. No caso das fobias, este estado emocional é sempre a angústia, enquanto nas obsessões outros estados emocionais podem ocorrer. Nas obsessões é característico o fato de que o estado afetivo permanece inalterado, persistindo indefinidamente, enquanto a representação a ela associada varia, mudando a representação encontrada na gênese do sintoma obsessivo e sendo deslocada a representação patógena. Freud salienta que a substituição ocorre como um ato de defesa do eu contra a representação incompatível, sendo que a persistência do estado de angústia associado à representação obsessiva deve-se a própria substituição. Diversamente das obsessões, no caso das fobias a substituição não desempenha qualquer papel. Não se encontra nelas representação incompatível que tenha sofrido substituição. O que se encontra é apenas o estado afetivo de angústia. A partir daí Freud distingue a neurose de angústia, cujo principal sintoma é este estado afetivo e cuja origem é sexual. As fobias constituem, então, uma parte das neuroses de angústia. É no artigo Sobre os critérios para destacar da neurastenia uma síndrome particular intitulada neurose de angústia, (1895), que Freud propõe a separação da neurastenia de uma síndrome que denominou neurose de angústia, cujo mecanismo e etiologia são diferentes daquela, seus componentes podendo ser agrupados em torno da angústia, o sintoma principal. Este é chamado por ele de expectativa ansiosa, sendo que a angústia pode também irromper subitamente na consciência, sem necessariamente provir de um encadeamento de representações, sob a forma de um ataque de angústia. Freud deu grande destaque à neurose de angústia, dizendo ser esta a enfermidade psiconeurótica mais freqüente e, sobretudo, a de aparição mais precoce, sendo a neurose da época infantil. Seu caráter essencial consiste em evoluir cada vez mais para a fobia. Dada a ligação entre a fobia e a angústia, Freud vai nomeá-la posteriormente de histeria de angústia, a qual, juntamente com a histeria de conversão e a neurose obsessiva será chamada de neurose de transferência. E quando a fobia, ou qualquer outra sintoma não ocorre, restando somente a angústia? Se Freud diz que a histeria de angústia se desenvolve sempre em direção a uma fobia, resta a neurose de angústia, que se manifesta por uma excitabilidade geral, uma expectativa ansiosa e pelos ataques de angústia. Ou ainda por seus equivalentes físicos, como palpitações, sudorese, sensação de morte, vertigem e outros. Freud classifica então a neurose de angústia como uma neurose atual, um tipo específico de neurose onde a etiologia sexual aparece com particular evidência e com ausência de mecanismo psíquico. Empecilhos na atividade sexual do indivíduo que gerem satisfação incompleta – coito interrompido, impotência do marido, etc. – provocariam o acúmulo de grande quantidade de libido não elaborada, ou seja, não ligada a representações. A libido seria descarregada de forma não simbólica, transformada em angústia. Ao incluir a neurose de angústia na categoria de neurose atual, Freud cria um problema, pois esse tipo de neurose só poderia ser explicada através da primeira tópica, sendo incompatível com o segundo modelo de aparelho psíquico, onde o eu é a sede da angústia. Mas isso ele tenta resolver com a segunda teoria da angústia, como veremos posteriormente. Acompanho agora o desenvolvimento teórico de Freud a respeito desse afeto. A ANGÚSTIA EM FREUD Freud chama a atenção para o elemento de angústia na síndrome que ele nomeou e entre 1893 e 1926 elabora sua teoria sobre a angústia. Sabe-se que há pelo menos duas teorias da angústia, afeto que passa a ser nitidamente privilegiado a partir da segunda tópica. A primeira teoria, estruturada entre 1895-1900, é uma teoria econômica, onde a angústia é a energia sexual não elaborada à qual foi recusada a via de uma elaboração, e que se descarrega de maneira mais ou menos anárquica (descrita nas neuroses atuais). Ou ainda: é uma libido, desta vez não mais ”não elaborada”, mas desligada de suas representações, especialmente pelo processo de recalque, liberada, e que novamente se descarrega sobre a forma de angústia (neurose de transferência). A angústia corresponde, então, a um desejo recalcado, sendo uma transformação direta da libido a partir da incidência do recalque. Nos estudos sobre neuroses atuais (neurose de angústia, neurastenia) e sobre histeria, Freud distingue dois elementos: o afeto, por um lado (reação emocional ou sentimental) e por outro a representação (conteúdo ideativo), observando que estes dois elementos podem ser independentes um do outro, sendo possível se deslocar um em relação ao outro e que um afeto pode reproduzir-se sem representação. Mas um afeto também pode estar ligado a uma representação que não o justifica, identificado por Freud como uma falsa conexão. Esta idéia conduz a clínica para um trabalho de desvendar esta falsa conexão, procurando encontrar a representação que está verdadeiramente vinculada a esse afeto, justificando a reconstrução de cadeias de representações que expliquem o afeto. Chega assim ao princípio que rege o ponto de vista econômico: “Nas funções psíquicas é a representação que se deve distinguir, algo (quantum de afeto, soma de excitação) que possui toda a característica de uma quantidade - embora não disponha de qualquer meio para medi-la -, algo que pode ter aumento, diminuição, deslocamento e descarga, e que se estende sobre os vestígios mnésicos das representações um pouco como uma carga elétrica na superfície dos corpos”[iv]. Na clínica se pode constatar a capacidade de um afeto para aumentar ou diminuir, mas, sobretudo, para ser deslocado ou descarregado. Freud volta a tratar da angústia em Análise de uma fobia em um menino de cinco anos, de 1909. Aqui trata a angústia, inicialmente, nos marcos da sua primeira teoria, apresentando este afeto como algo da ordem de um equivalente geral afetivo, que absorve todas as outras sensações transformando-as em angústia. É no caso de Hans que Freud postula uma nova entidade clínica, a histeria de angústia, passando a considerar as fobias como síndromes que podem estar presentes nas diversas neuroses. A angústia de Hans corresponderia aos seus anseios eróticos recalcados em relação à mãe. Sua libido, transformada em angústia, liga-se à representação de um cavalo branco, dando expressão ao medo de ser mordido por um cavalo dessa cor. Ao contrário da histeria de conversão, em que essa libido liberada do material patogênico em virtude do recalque é desviada para a inervação somática, na histeria de angústia a libido permanece livre sob a forma de angústia. A fobia é o resultado desse processo. Já o mecanismo da neurose de angústia está ligado a um desvio do psiquismo da excitação sexual somática, que recebe um emprego anormal, transformando-se em angústia. Esta concepção apresenta os sintomas da neurose de angústia como substituto da ação específica, não realizada, que se segue à excitação sexual. Na Interpretação dos sonhos (1900), no trecho em que fala dos sonhos de angústia, Freud apresenta novamente esta concepção segundo a qual a angústia tem origem em fontes sexuais. Aqui, a fobia é tomada como um sintoma erguido como uma fortificação contra a angústia. Nas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (1917) Freud procura estabelecer uma diferenciação na angústia, distinguindo três tipos de angústia neurótica: a angústia livremente flutuante, pronta para se ligar a uma representação, ao que ele chama de expectativa ansiosa; outra que é vinculada a determinados objetos e situações. É a angústia das fobias; e, finalmente, um tipo de angústia que surge sob a forma de um ataque, na ausência de qualquer causa que possa ser tomada como um perigo. De qualquer modo, Freud retoma neste texto sua idéia de uma relação genética entre libido e angústia, a partir de uma dupla impressão: primeiro o que está em jogo é um acúmulo de libido impedida de ser normalmente utilizada e, segundo, aqui nos situamos no nível dos processos somáticos. Assim, o acesso de angústia pode ou não estar ligado a uma representação - idéia ou sensação somática. Este acesso pode ocorrer de duas maneiras: 1) desprovido de conteúdo representativo, ou com conteúdo vago (ameaça de loucura, acabrunhamento); 2) ligado a algum distúrbio sensível ou a um distúrbio de uma função corporal (distúrbio da respiração, da função cardíaca, vasomotora, glandular, etc.). Por vezes é este aspecto somático que se apresenta no primeiro plano, sendo a angústia vivida como simples mal-estar. Ou seja, a angústia, como afeto, passa para o segundo plano, sendo sentida no corpo. Neste caso ela está, na verdade, ligada a uma sensação somática. Isso se aproxima do que descrevemos como ataque de pânico, em que é central a idéia da presença de uma angústia livremente flutuante, podendo fixar-se de maneira puramente ocasional, seja em sintomas somáticos, seja em representações. No caso das representações acontecem as fobias. A partir daí, a angústia ocupará o foco central no problema das neuroses, já que o processo de recalque pode ser a geração de angústia pura e simples ou a formação de um sintoma, acompanhado ou não de angústia. A formação da angústia deve ser compreendida, então, a partir da oposição entre o eu e a libido. Note-se que aparece uma preocupação em situar a angústia, assim como os afetos em geral, em relação ao modelo de aparato psíquico da primeira tópica. Em Inibição, Sintoma e Angústia (1926), Freud revê sua teoria e a aprofunda. Aqui a angústia não provém da libido dos processos do Id, mas o eu é a sede desse afeto. A angústia não é mais a conseqüência do recalque, mas a sua causa. Ela passa a ser um sinal de desprazer enviado pelo eu, que é orientado pelo sistema prazer-desprazer. Aqui ressalta, por um lado, a noção de perigo: a angústia é colocada na perspectiva da reação ou da preparação para o perigo; por outro lado, a ênfase recai sobre o ego, indicado, não só como lugar da angústia, mas podendo ser causador desta, como podendo repetir a angústia por sua própria conta, pelo menos como sinal. Se a primeira é uma teoria econômica, a segunda é uma teoria funcional, pois Freud dedica-se a descobrir uma função para a angústia. Essa segunda teoria não aboliu a primeira, veio apenas limitá-la, mas é conciliável com ela. Freud articula os dois pontos de vista, onde a oposição entre uma teoria puramente psicológica ou puramente fisiológica é entendida como complementar, passando a reconhecer, na crise de angústia, a existência de elementos simbólicos. Refere-se, então, à elaboração psíquica, lançando luz sobre a teoria da angústia. Também aqui a libido, concebida não como uma excitação física, nem como um desejo sexual somático, mas como o elemento psíquico, ou as fantasias ligadas à atividade sexual, articula os dois campos. Surge a idéia de que a excitação sexual somática deve encontrar seu fiador no psiquismo, sendo ao nível de uma ausência de elaboração que se produz a derivação sob a forma de angústia. Assim, a angústia é o afeto menos elaborado e mais próximo da descarga energética pura, mas é também suscetível de elaboração. Ela não é algo a cujo respeito nada pode ser dito, ela pode ser transformada num elemento eminentemente significante: em sinal de que alguma coisa vai acontecer. Daí parte-se para os níveis de elaboração: a elaboração sob a forma de afeto que não implica a ligação à representação, mas, simplesmente, uma ligação significante a reações somáticas; e a ligação a representações, que implica um trabalho psíquico mais elaborado. A neurose seria uma falha ou uma recusa de elaboração. Na formação dos sintomas, pode ocorrer uma transformação direta da excitação em angústia, ou uma derivação da excitação para certos aparelhos corporais. Mas também, a formação dos sintomas faz-se por mediação simbólica como nas neuroses de transferência. Aqui, o sintoma tem um sentido preciso, refletindo o conflito que traduz sob a forma de um compromisso. É uma linguagem, uma neo-linguagem original criada por cada um. O importante a ressaltar é que existem níveis de elaboração fantasmática diferenciados. Nos casos em que a elaboração psíquica em seus diferentes níveis é insuficiente, assiste-se a uma recusa ou a um fracasso da elaboração psiconeurótica, levando a que a excitação tenha de encontrar vias pouco elaboradas (angústia, sintomas psicossomáticos). Conclui-se daí, que, na teoria freudiana, o acúmulo de excitação somática – o qual é, efetivamente, considerado causal na angústia, jamais é explicado diretamente pela ausência de descarga ou de orgasmo. É a ausência de psiquização, ou a ausência de simbolização ou fantasmatização da excitação somática. A libido, energia das pulsões sexuais, é um conceito quantitativo na fronteira do somático e do psíquico, como sempre se situou a pulsão em Freud. É a insuficiência da libido psíquica que acarreta uma derivação imediata de tensão no plano somático. Entenda-se aqui um conceito quantitativo, econômico, suscetível de troca, de equivalência, de transformação. Ao reexaminar o caso do pequeno Hans à luz da segunda tópica, Freud toma a angústia da fobia como modelo para reformular a sua teoria da angústia. Aqui aparece o eu como sede real da angústia. Ele renuncia a uma explicação da angústia através do ponto de vista econômico. Este não é capaz de explicar a angústia, se não tivermos a concepção de que somente um aumento do investimento pode fazer surgir desprazer ou angústia. Assim, a concepção econômica não é capaz de subsumir a causalidade em jogo na gênese da angústia, ou seja, não é o recalque que cria a angústia, como formulara anteriormente. No caso do sintoma fóbico presente em Hans, cuja investigação evidenciou tratar-se não de um medo vago de cavalos, mas de uma apreensão especifica em relação a ser mordido por um cavalo. Isto seria formado por um deslocamento. Mas o que é deslocado? A analise evidencia que o recalque incide sobre uma pulsão de caráter hostil contra seu pai, a partir da incidência do complexo de Édipo, que instala em Hans um conflito devido a esta ambivalência afetiva, sendo que a força motriz do recalque é o temor da castração. O deslocamento incide sobre a representação do pai de Hans, dando lugar a representação do cavalo. Seu pai é substituído por um cavalo. Surge daí uma concepção sobre a angústia que reformula, à luz das exigências teóricas criadas na segunda tópica, a relação entre afeto e representação recalcada. Freud generaliza as conseqüências da analise do caso de Hans para todas as fobias a animais, extraindo daí a significação essencial do afeto de angústia: trata-se do medo da castração sentido pelo eu. A angústia é angústia de castração. Resulta daí a segunda hipótese teórica sobre a angustia formulada por Freud: a libido investe representações recalcadas, surgindo a angústia de castração que cria o recalque. A conseqüência disso é que Freud vai afirmar que as três neuroses por ele isoladas – histeria de angústia (fobias), histeria de conversão e neurose obsessiva – têm como resultado a destruição do complexo de Édipo, sendo que nas três, a força motriz da oposição ao eu é o temor da castração. O que caracteriza a fobia é que somente nela esse temor aflora sob a forma de angústia, e é reconhecido. Nela, o temor da castração incide sobre o eu levando à angústia e, ao mesmo tempo, à inibição do investimento no isso, através da instância prazer-desprazer. Todo esse processo leva ao surgimento da fobia como formação substitutiva, onde a angústia comparece efetivamente apenas como sinal-afeto, sem que ocorra algo que possa alterar a situação econômica em questão. Vemos assim como Freud, ao passar da primeira para a segunda teoria da angústia, acaba por reintroduzir a hipótese vigente na primeira no seio da segunda, não simplesmente refutando-a, mas ultrapassando-a, em proveito de uma explicação mais completa da angústia, que atenda às exigências teóricas requeridas após a postulação da segunda tópica. ANGUSTIA E FOBIA EM LACAN Traçamos um percurso em Freud e vimos que ele vincula a angústia à perda do objeto no Édipo. Esta perda de objeto tem conseqüências estruturantes para o sujeito, e Lacan demonstra isso ao distinguir o objeto fóbico e o objeto da angústia. No Seminário A Relação de objeto (1995), Lacan marca que o objeto da fobia é um significante que tem uma função metafórica. Seguindo Freud, mostra que em função da carência paterna, isto é, da carência da função do pai real que faz operar a castração, um significante vem desempenhar esse papel. Em torno desse significante vão girar todos os tipos de significações que formarão um elemento de suplência ao que faltou, o que só é possível imaginariamente. O artifício metafórico criado pela fobia tem por função transformar a angústia em medo localizado. Freud já havia dito que a angústia precede a eclosão da fobia. O que provoca a angústia é justamente essa carência da operação da castração, ou seja, a simbolização da falta imaginária. Para discutir estas colocações, partimos do pressuposto de que a angústia é distinta da fobia, uma vez que a angústia é o elemento estrutural e a fobia é uma montagem, um posto avançado contra a angústia. Um sujeito em constituição vê surgir em um determinado tempo, na falta de pênis da mãe, o falo. Neste ponto o sujeito se divide no que diz respeito à realidade. O que o falo revela é que, enquanto sujeito, ele nada mais é que um ponto de falta. Tempo de uma primeira divisão subjetiva, aonde a angústia vem nomear o que ele é para o desejo do Outro. A fobia, portanto, nos mostra o que se passa na fronteira entre o imaginário e o simbólico. A castração instaura uma falta simbólica que é apreendida imaginariamente, ou seja, a operação da castração é justamente a simbolização dessa falta imaginária. Vejamos como se instaura a falta. Lacan, no Seminário IV, apresenta a teoria da falta de objeto, noção central em suas formulações. A falta de objeto é estruturada através das operações de frustração, privação e castração. Estas duas últimas acontecem sob o domínio do Édipo, pois são as operações onde o que está em jogo é o falo. A frustração ocorre antes do Édipo e consiste num dano imaginário que incide sobre um objeto real. É uma operação que implica na recusa de um dom, e não na recusa de um objeto de satisfação, visto que a satisfação é sempre de uma necessidade. Recusar o dom indica que se está num circuito de troca, ou seja, na ordem simbólica. Mas a ordem simbólica é decepcionante, na medida em que coloca o sujeito em relação ao par presença-ausência, a presença sobre o fundo da ausência e esta como constituindo a presença. A satisfação entra em jogo para anular essa decepção, essa “insaciedade fundamental” dessa relação. A mãe, que era o lugar dessa presença-ausência, de simbólica torna-se real. Antes da castração, no primeiro tempo do Édipo, a criança está como falo imaginário da mãe, representando para esta o objeto de seu desejo. O pai se introduz, então, como um elemento real, portador do falo, na ordem simbólica. A castração é uma operação que acontece no registro simbólico e que recai sobre o objeto fálico, provocando a perda definitiva deste, enquanto objeto imaginário. O objeto, estando para sempre perdido, é buscado incessantemente, repetidamente, numa tentativa de reencontro, repetição esta que instaura uma discordância permanente entre o que é buscado e o que é encontrado. Ao mesmo tempo em que a castração instaura a perda do objeto imaginário, ela introduz o falo em outra dimensão, a dimensão simbólica, dando a ele seu estatuto significante – falo simbólico. Na fobia, o objeto fóbico é que assume esse lugar. A operação de privação incide sobre a mãe. É uma falta real, um furo, uma vez que é algo que ela, por definição, não tem. Mas essa ausência de alguma coisa no real é puramente simbólica, diz Lacan, uma vez que ao real nada falta, ele é completo. É o simbólico que faz furo no real, ou seja, o falo é instaurado pela lei enquanto significante de algo que falta. O agente desta operação é o pai imaginário, assustador, que pode não ter a ver com o pai real. É a figura que intervém na fantasia da criança e com o qual ela lida o tempo todo. Partindo dessas formulações perguntamos: o que acontece na fobia? Tomemos o caso paradigmático de Hans. Para ele, diz Lacan, o pai está ausente, é bonzinho demais. Surge então a angústia em torno desse lugar vazio deixado pelo pai e isso é precipitado pela percepção do pênis, que se torna real. Hans se vê suspenso num tempo em que não sabe mais onde está. Como o pai não responde ao apelo colocando o pênis real fora do jogo para introduzir a ordem simbólica, o menino cria a fobia. A angústia, então, dá lugar à fobia. Ele passa a saber do que tem medo e, a partir daí, pode evitá-lo. Eis a relação entre fobia e angústia, que Freud insistentemente apontou, e que o levou a nomeá-la de histeria de angústia. A angústia é o afeto ligado diretamente às idéias fóbicas e que são tratadas por Freud (1933) como o modo infantil de transformar a angústia. Coloco então a questão: porque um sujeito produz uma fobia ao invés de um sintoma? Não estaríamos diante de diferentes momentos constitucionais em sua relação com o objeto? Entre o sintoma e a fobia, o que se vislumbra como o divisor de águas é a estrutura do Édipo. As primeiras respostas fóbicas das crianças dão-se exatamente nesse fundo, onde o enigma é a sexualidade. Frente à angústia sentida pelo eu no tocante às exigências da libido, o complexo edípico precisa sofrer uma substituição para ser abandonado. Por medo da castração acontece o recalque na fundação do inconsciente, como forma de eliminar essa relação com o primeiro objeto de amor e substituí-lo pela primeira identificação ao pai. Esse é o sentido do sintoma, uma metaforização das exigências pulsionais pelas normatividades culturais e geracionais. Segundo Freud, nas Novas Conferências Introdutórias, a fobia igualmente se estabelece como um substituto da idéia de ser castrado pelo pai numa suplência à cena edípica. Freud aproxima a fobia do sintoma atribuindo-lhes a mesma função: a evitação da angústia, mas com uma sutil diferença. A fobia, ao desviar as exigências libidinais do Édipo, executa uma substituição, através de uma montagem que coloca uma verdadeira limitação para o sujeito. Isso indica um tempo que vai do surgimento do Édipo até seu declínio pela ameaça de castração. Lacan, retomando a questão da angústia e da fobia, isola na teoria freudiana a noção de que, o objeto, enquanto fóbico, aparece no lugar da ausência de objeto da angústia, mascarando o fundo de angústia que caracteriza cada etapa da relação com o mundo. Sobre o fundo de angústia, o objeto fornece uma estruturação, delimita um espaço onde o sujeito pode se colocar ao abrigo dessa angústia, o medo contra o objeto funcionando como um remédio contra ela. Se para Freud a angústia é sinal de perigo – a castração – , para Lacan esta última transforma-se, de uma experiência perigosa, em operação organizadora da estrutura. “A fobia introduz no mundo da criança uma estrutura, a função de um interior e de um exterior” (Lacan, 1995, p. 252). Assim, a fobia revela a lógica da estruturação do sujeito enquanto sujeito do inconsciente atrelado ao sistema significante. Na lógica do sujeito, a introdução da falta é condição para a abertura do inconsciente, e a fobia ilustra o tempo do confronto do sujeito com a sexualidade que se presentifica como falta articulada ao falo. Lacan trabalha a noção de que a fobia é uma crise, um impasse que eclode em plena vivência do drama edípico, quando o sujeito se encontra às voltas com o falo. Trabalhando longamente com a fobia de Hans, ele apresenta a noção de uma suplência à metáfora paterna, à falta do significante do pai simbólico. Porém, a solução que a fobia de Hans instaura não é uma solução típica do complexo de Édipo, pois, para Lacan, ela se apresenta como uma placa giratória em direção à histeria e à neurose obsessiva. Isso nos permite pensar que a fobia se colocaria em um tempo logicamente anterior à organização dos sintomas como efeito do recalque, um tempo de espera, espera do pai como agente da castração, que, ao intervir, promove a perda do pênis enquanto órgão, para fazê-lo surgir como falo. A fobia teria a função de fazer surgir a dimensão paterna no imaginário, na medida em que, na falta do limite estrutural que é trazido pelo pai, impõe uma limitação para o sujeito. Pode-se dizer que a emergência da angústia é um momento de passagem. Tratase de se posicionar nas fórmulas da sexuação, para a qual é necessário um tempo. Há algo difícil que necessita de simbolização. Uma das funções da fobia é mediatizar essa solução. Diz Lacan: “O objeto fóbico vem preencher sua função sobre um fundo de angústia” (1995, p. 211). Essa angústia que precede a fobia está relacionada à presentificação do desejo do Outro. Mesmo que o objeto fóbico venha suprir a falta do outro, não é suficiente para encobrir o desejo do Outro que questiona o sujeito. Assim, diz Lacan, a fobia marca um primeiro passo nessa tentativa, que é neurótica, de resolver o problema do desejo do Outro. O objeto da fobia é o instrumento para mascarar, para barrar a angústia fundamental do sujeito, que é a de ser colocado fora do jogo. Surge como um significante para desempenhar uma função metafórica, numa crise temporal. A fobia é, então, um tempo de vacilação antes da saída para a neurose; um intervalo, onde o sujeito lança mão de um objeto tornado significante, com uma cadeia de variações para escapar da angustia, através do medo, ganhando tempo para se posicionar. A partir daí pode-se dizer que a fobia é uma doença do imaginário com precariedade do simbólico, o que certamente dificulta o engajamento numa análise. Tomando o ponto de vista de que a fobia é um tempo de posicionamento do sujeito, isso implica em reduzir a diferença entre neurose atual e psiconeurose ou, pelo menos, em reordená-las. Em ambas trata-se de um encontro traumático com o real do campo da sexualidade, sendo que, na primeira esse encontro se dá num ponto em que a elaboração psíquica desse real é impossível. É uma etiologia sexual que escapa à simbolização, como diz Lacan no Seminário 11 (1988), encontro sempre falho exatamente porque está fora do complexo da castração. Já nas psiconeuroses, um passo a mais é dado: o que as distingue é, como vimos, o que Freud chama de mecanismo psíquico, que consiste na ligação defensiva da angústia às representações, causando os sintomas. A principal diferença que Freud coloca entre as neuroses atuais e as neuroses de transferência é que, naquelas, os sintomas carecem de sentido. Em outras palavras, seus sintomas não se constituem num sintoma analítico, uma vez que não têm uma significação, não sendo, portanto, uma mensagem a ser lida, endereçada a alguém que possa decifrá-la. Na medida em que os casos diagnosticados como pânico trazem somente a angústia, sem sintoma, ou melhor, o sintoma em sua face real, irredutível, estrutural, perguntamos: a neurose de angústia é analisável? É possível fazer surgir, a partir da pura angústia, algo que tenha um valor de sentido, um enigma que possa ser endereçado ao analista, única possibilidade de uma análise acontecer? O sintoma existe como analítico se quer dizer algo e a clínica mostra a dificuldade desses neuróticos de estabelecer transferência. Esse endereçamento inicial necessário em busca de decifração parece não existir, colocando ao analista o desafio de fazê-lo acontecer. E esta é a única possibilidade de uma escuta nesses casos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FREUD, S. (1894) “As Neuropsicoses de Defesa”. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, Vol. III. Rio de Janeiro: Imago, 1987. ------(1894). ”Obsessões e Fobias: seu mecanismo psíquico e sua etiologia”. ESB, Vol. III. ------(1895) “Sobre os critérios para destacar da neurastenia uma síndrome particular intitulada neurose de angústia”. ESB, Vol. III. ------(1900) “A Interpretação dos sonhos”. ESB, Vol. III. ------(1905) “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”. ESB, Vol. VII. -----(1909) “Análise de uma fobia em um menino de cinco anos”. ESB, Vol. X. -----(1912) “Tipos de Desencadeamento da neurose”. ESB, Vol. XII. -----(1917) “Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”. ESB, Vol. XV. -----(1926) “Inibição, Sintoma e Angústia”. ESB, Vol. XX. ------(1933) “Novas conferências introdutórias sobre a psicanálise”. ESB, Vol. XXII. LACAN, Jacques. (1956-1957) O Seminário, livro 4: a relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995. -----(1964) O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1988. [i] Trabalho apresentado no II Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental e VIII Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental, Belém, 07 a 10 de setembro de 2006. [ii] Psicóloga, Psicanalista, Doutora em Sociologia, Profa. Adjunta do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (graduação e pós-graduação). [iii] DSM – IV Critérios diagnósticos, 1995. [iv] S. Freud, “As Neuropsicoses de Defesa”, Esboços de Psicanálise (1894).