O SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA Podemos entender a Sociologia como uma das manifestações do pensamento moderno. O seu surgimento ocorre num contexto histórico específico, que coincide com os derradeiros momentos da desagregação da sociedade feudal e da consolidação da civilização capitalista. O século XVIII constitui um marco importante para a história do pensamento ocidental e para o surgimento da Sociologia. A dupla revolução que este século testemunha. – A industrial e a francesa – constituía os dois lados de um mesmo processo, qual seja a instalação definitiva da sociedade capitalista. Na Revolução industrial significou algo mais do que a introdução da máquina a vapor e dos sucessivos aperfeiçoamentos dos métodos produtivos. Ela representou o triunfo da indústria capitalista, convertendo grandes massas humanas em simples trabalhadores despossuídos. � A cada avanço com relação á consolidação da sociedade capitalista representava a desintegração, o solapamento de costumes e instituições até então existentes e a introdução de novas formas de organizar a vida social. � A utilização da máquina na produção não apenas destruiu o artesão independente. Este foi também submetido a uma severa disciplina, a novas formas de conduta e de relações de trabalho, completamente diferentes das vividas anteriormente por ele. A formação de uma sociedade que se industrializava e urbanizava em ritmo crescente implicava a reordenação da sociedade rural, a destruição da servidão, o desmantelamento da família patriarcal, etc. A transformação da atividade artesanal em manufatureira e, por último, em atividade fabril, desencadeou uma maciça emigração do campo para a cidade, assim como engajou mulheres e crianças em jornadas de trabalho de pelo menos doze horas. A desaparição dos pequenos proprietários rurais, dos artesões independentes, a imposição de prolongadas horas de trabalho, teve um efeito traumático sobre milhões de seres humanos ao modificar radicalmente suas formas habituais de vida. As desaparições dos pequenos proprietários rurais, dos artesãos independentes, a imposição de prolongadas horas de trabalho, tiveram um efeito traumático sobre milhões de seres humanos ao modificar radicalmente suas formas habituais de vida. Estas transformações, incluindo as cidades, passavam por um vertiginoso crescimento demográfico, sem possuir, no entanto, uma estrutura de moradias, deserviços sanitários, de saúde. As conseqüências da rápida industrialização e urbanização levadas a cabo pelo sistema capitalista foram tão visíveis quanto trágicas: aumento da prostituição, do suicídio, de surtos de epidemia de tifo e cólera. Um dos fatos de maior importância relacionados com a revolução industrial é sem dúvida o aparecimento do proletariado e o papel histórico que ele desempenharia. Os efeitos catastróficos que esta revolução acarretava para a classe trabalhadora levaram na a negar suas condições e vida. As manifestações atravessam várias fases: destruição as máquinas, atos de sabotagem, roubos e crimes, evoluindo para a criação de associações livres, etc. A conseqüência desta crescente organização foi a de que os “pobres” deixaram de se confrontar com os “ricos”; mas uma classe específica, a classe operária, começava a organizar-se. Qual a importância desses acontecimentos para a sociologia? O que merece ser salientado é que a profundidade das transformações em curso colocava a sociedade num plano de análise, ou seja, Visto que na nascente sociedade industrial produziria fenômenos inteiramente novos que mereciam serem analisados. A sociologia constitui em certa medida uma resposta intelectual ás novas situações colocadas pela revolução industrial. É a formação de uma estrutura social muito específica – a sociedade capitalista – que impulsiona uma reflexão sobre a sociedade. O pensamento paulatinamente vai renunciando a uma visão sobrenatural para explicar os fatos e substituindo-a por uma indagação racional. A aplicação da observação e da experimentação, ou seja, do método científico para a explicação da natureza, conhecia uma fase grandes avanços. O emprego sistemático da observação e da experimentação como fonte para a exploração dos fenômenos da natureza estava possibilitando uma grande acumulação de tatos. Possibilitando controlar e dominar. Outro fator para o surgimento da sociologia foi dada pelas modificações que vinham ocorrendo nas formas de pensamento. Assim como abriu um espaço para a constituição de um saber sobre os fenômenos históricos sociais. Nesse caso, o “homem comum” também deixava, cada vez mais, de encarar as instituições sociais, as normas, como fenômenos sagrados e passando a percebê-las como produtos da atividade humana. Nesse período segue-se a tomada do poder pela burguesia, 1789, a tarefa que esses pensadores se propõem é a de racionalizar a nova ordem, encontrando soluções para o estado de “desorganização” então existente. Mas para restabelecer a “ordem e a paz”, pois é a esta missão que esses pensadores se entregam, para encontrar um estado de equilíbrio na nova sociedade, seria necessário, segundo eles, conhecer as leis que regem os fatos sociais, instituindo, portanto uma ciência da sociedade. A verdade é que a burguesia, uma vez instalada no poder, se assusta com a própria revolução (por exemplo, os jacobinos).Seria necessário controlar e neutralizar novos levantes revolucionários. Assim, o projeto revolucionário da burguesia, deveria de agora em diante ser “superada”por uma outra que conduzisse não mais à revolução, mas à “organização”, ao “aperfeiçoamento” da sociedade. Determinados pensados da época estavam imbuídos da crença de que para introduzir uma “higiene” na sociedade, para “reorganizá-la”, seria necessário fundar uma nova ciência. Enquanto resposta intelectual à “crise social” de seu tempo, os primeiros sociólogos irão revalorizar determinadas instituições que segundo eles desempenham papéis fundamentais na integração e na coesão da vida social. Durkheim em uma de suas obras fundamentais, as regras do método sociológico, publicada em 1895, Durkheim definiu com clareza o objeto da sociologia – os fatos sociais. Distingue três características dos fatos sociais. A primeira delas é a coerção social, ou seja, ou a força que os fatos exercem sobre os individuos, levando os a conformar-se às regras da sociedade em que vivem, independentemente de sua vontade e escolha. Essa força se manifesta quando o indivíduo adota um determinado idioma, quando se submete a um determinado tipo de formação familiar ou quando está subordinado a determinado a determinado código de leis. FRENTE 01 FICHA 02 Se sou industrial, nada me proíbe de trabalhar utilizado processos e técnicas do século passado; mas se o fizer, terei a ruína como resultado..inevitável. Desde o século XVIII os filósofos naturais já apontavam para algumas questões metodológicas relativas à construção do conhecimento científico. A negação de explicações baseadas em causas ocultas, não detectáveis pela experiência, era um dos aspectos desses debates. Diversos filósofos naturais denunciavam que essas práticas, consideradas metafísicas, deveriam ser expurgadas da ciência. Isaac Newton (1642 – 1727) foi um dos primeiros filósofos naturais a negar o uso de hipóteses não comprovadas experimentalmente na construção das teorias. Os filósofos iluministas, herdeiros do pensamento newtoniano, tomaram essa questão como bandeira e passaram a condenar a presença de explicações metafísicas na prática científica, mesmo quando essas hipóteses resolviam alguns problemas básicos da ciência. No início do século XIX, a questão já ganhava ares de fundamento epistemológico na prática científica. Entretanto, faltava uma reflexão mais elaborada sob o ponto de vista filosófico. Na França um ex-aluno da Escola Politécnica de Paris se propôs a tratar do tema. Augusto Comte (1798 – 1857) nasceu em Montpellier, no sul da França. Aos 16 anos, ingressou na Escola Politécnica, criada pelos revolucionários franceses para ministrar uma educação científica básica aos futuros engenheiros. Comte sentiu-se atraído pelo clima da escola, onde, segundo ele, a comunidade respirava a verdadeira ciência, livre das especulações metafísicas ou teológicas presentes nas universidades francesas. Como autodidata, leu diversos autores da época, tornando-se amigo e auxiliar do filósofo SaintSimon (1760-1825), uma das referências do socialismo utópico. Mais tarde rompeu com o amigo e passou a desenvolver sua reflexão filosófica de forma isolada. Comte construiu uma importante obra que pode ser dividida em duas fases. • A primeira fase teve seu ponto alto nos anos em que escreveu os sei volumes do Curso de filosofia positiva , editada entre 1830 e 1842, uma vasta obra na qual expunha sua epistemologia, que pode ser considerada continuação e aprofundamento da herança iluminista francesa. • A segunda fase situa-se entre 1851 e 1854, quando escreveu e editou os quatro volumes do Sistema da política positiva, obra em que Comte apresentava uma análise da sociedade e propunha a criação de uma religião ateísta da humanidade. A categorização positivista das ciências O pensamento de Comte fazia uma análise da evolução da humanidade a partir de um estado primitivo de desenvolvimento até o atual. Numa época em que as classificações estavam na moda, o filósofo procurou ordenar o progresso da humanidade em três estados: teológico, metafísico e positivo . O estado teológico: seria aquele em que os homens atribuíam aos deuses as causas dos diversos fenômenos vivenciados no dia-a-dia. Na busca da causa última para tudo, chegou-se à elaboração do monoteísmo, unificando as diversas divindades num só Deus. A seguir veio o estado metafísico ou abstrato. Nele, os homens buscavam explicações racionais para os fenômenos, mas, de forma ingênua, ainda procuravam essências na natureza. O terceiro estado é o positivo: que leva os cientistas a não fazer aquelas inferências sobre a realidade última da natureza. A única realidade existente seria fornecida pelos fatos. A ciência deveria restringir-se a criar leis que os correlacionassem. Num momento em que as ciências passavam por um processo de especialização, com o surgimento de novas fronteiras de investigação, o filósofo apontou a existência de seis ciências apenas: matemática, astronomia, física, química, biologia e sociologia. Essa seqüência representava uma ordem de complexidade, de acordo com o positivismo, daquela que tinha seu objeto mais simples, a matemática, até a de objeto mais complexo, a sociologia. Para Comte as seis ciências fundamentais estavam sujeitas aos três estados de evolução por que passou a humanidade, já que eram construções de homens inseridos na história. Dessa forma a astrologia, a magia e a alquimia foram expressões do estado teológico da astronomia, da física e da química. As correntes de pensamento positivistas já existentes na ciência ganharam sistematização filosófica com a obra desse pensador. Além de indicar que o estudo de uma ciência deveria acontecer segundo a seqüência de complexidade, ele discutia dois possíveis métodos de abordagem das ciências. • O primeiro deles era o histórico, pelo qual se poderiam aprender os fundamentos de uma ciência a partir de sua própria evolução. •O segundo, em oposição ao primeiro, apresentava o método dogmático, em que a ordem dos conteúdos da ciência rompiam com a seqüência histórica e se articulavam a partir de uma lógica didática. O segundo método foi apresentado como o melhor caminho a ser seguido, dado o caráter de complexidade que as ciências vinham atingindo naquela época. Comte chegou a dizer que um Geômetra da Antiguidade aprendia sua ciência lendo os autores do passado, mas que, em pleno século XIX, isso não era mais possível. Essa linha de pensamento influenciou de forma intensa a nascente formação científica, pois incentivou a deixar-se de lado a leitura dos fundadores da ciência, que muitas vezes utilizavam conceitos metafísicos, em prol da utilização de livros didáticos. Essa é uma herança legada pelos positivistas às gerações seguintes. COMTE Foi o próprio Comte quem sintetizou em poucas e eficazes palavras o seu percurso intelectual inteiro: “Havia completado 14 anos e já sentia a necessidade fundamental de uma regeneração universal, ao mesmo tempo política e filosófica, sob o impulso ativo da crise salutar produzida pela revolução francesa, cuja fase principal precedera o meu nascimento. A influência luminosa de uma iniciação matemática recebida em família, felizmente desenvolvida na Escola Politécnica de Paris, fez-me instintivamente pressentir a única via intelectual que podia realmente levar a essa grande renovação: a lei dos três estágios”. Comte dedicou toda sua existência à elucidação do significado dessa lei, desenvolvendo uma doutrina filosófica – que foi também uma nova visão de mundo, uma verdadeira religião – à qual deu o nome de Positivismo. A sua vida não foi fácil nem feliz: em 1826, uma violenta crise nervosa levou-o ao manicômio e a hostilidade desencadeada no ambiente acadêmico contra seu Curso de Filosofia Positiva impediu-o de obter a ansiada cátedra de matemática na Escola Politécnica. Tendo renunciado também aos proventos das suas obras, limitou-se a viver pobremente, contando somente como subsídio de amigos e discípulos. Nos seus últimos anos de vida, aprofundou seus interesses religiosos, fundando uma nova igreja (um culto à Humanidade e à Ciência), da qual se proclamou pontífice máximo, definindo-a com minuciosos detalhes litúrgicos. Problema Existe uma lei que explique o desenvolvimento do pensamento? A Tese A lei dos três estágios atravessados pelo pensamento humano é o coração do Positivismo. O estágio teológico representa a infância da humanidade; o metafísico, a juventude; e o positivo, a maturidade. A humanidade na sua origem vivia numa condição espiritual teológica ou fictícia: todo evento natural era explicado pela intervenção de potências sobrenaturais mais ou menos numerosas. O nascimento da filosofia na Antiga Grécia sugeriu explicações igualmente abstratas, mesmo se não mais de origem mítica, tais como a essência, a causa final e outras noções elaboradas pela metafísica. São todos os conceitos que não significam nada, pois tentam somente explicar a natureza com palavras apropriadas: como dizer que o fogo aquece porque contém a virtude calorífica ou porque possui a essência calor. O terceiro estágio, científico ou positivo, renuncia a colocar-se perguntas sobre a íntima natureza das coisas, limitando-se, com maior modéstia , mas resultados fecundos, a individuar as leis que regem o mundo físico. Tendo início com a revolução copernicana do século XVI, ainda não envolvia todos os setores do saber. Astronomia, física, biologia e química já figuravam como verdadeiras ciências, enquanto a sociologia só agora se apresta a sê-lo. REDUCIONISMO A convicção, típica do Positivismo, de que todos os fenômenos – tanto os naturais quanto as da vida e do espírito – são produtos de sistemas complexos, mas sempre decomponíveis nas suas partes simples, mecânicas e materiais. Como a operação reducionista não se desenvolve com a mesma facilidade em todos os ambientes do saber, o Positivismo acabou por propor uma ordem hierárquica das várias disciplinas, a partir da física, considerada modelo insuperável e perfeito, ao qual todas as ciências deveriam adaptar-se. POSITIVISMO O Positivismo foi um vasto e heterogêneo movimento de pensamento que surgiu em meados do século XIX na França e depois se difundiu por todo o Ocidente até tornar-se a tendência hegemônica do fim do século. Suas características foram a confiança otimista na ciência e no progresso tecnológico, ao lado de uma forte polêmica contra a filosofia tradicional, acusada de abstracionismo e dogmatismo. O método positivista afirma o determinismo, o materialismo eo reducionismo. Durkheim O grau de coerção dos fatos sociais se toma evidente pelas sanções a que o indivíduo estará sujeito quando tenta se rebelar contra elas. As sanções podem ser legais ou espontâneas. Legais: São as sanções prescritas pela sociedade, sob a forma de leis , nas quais se estabelece a infração e a penalidade subsequente. Espontâneas: seriam as que aflorariam como decorrência de uma conduta não adaptada à estrutura do grupo ou da sociedade à qual o indivíduo pertence. Diz Durkheim, exemplificando este último tipo de sanção : “Se sou industrial, nada me proíbe de trabalhar utilizando processos e técnicas do século passado; mas, se o fizer, terei a ruína como resultado inevitável.”(p.3) Do mesmo modo, uma ofensa num grupo social pode não ter penalidade prevista por lei, mais o grupo pode espontaneamente reagir penalizado o agressor. A reação negativa a certa forma de comportamento é, muitas vezes, mais intimidadora do que lei. Jogar lixo no chão ou fumar em espaços particulares – mesmo quando não proibidos por lei nem reprimidos por penalidade espontânea dos grupos que a isso se opuserem. A educação - entendida de forma geral, ou seja a educação formal e informal – desempenha, ou seja a educação formal e a informal – desempenha, segundo Durkheim, uma importante tarefa nessa conformação dos indivíduos à sociedade em que vivem, a ponto de, após algum tempo, as regras estarem internalizadas e transformadas em hábitos. O uso de uma determinada lingua ou o predomínio no uso da mão direita são internalizados no indíviduo que passa a agir assim sem se quer pensar a respeito. A segunda características dos fatos sociais é que eles existem e atuam sobre os indivíduos independentemente de sua vontade ou de sua adesão consciente, ou seja, são exteriores aos indivíduos. As regras sociais, os costumes, as leis, já existem antes do nascimento das pessoas, são a elas impostos por mecanismos de coerção social, como a educação. Portanto, os fatos sociais são ao mesmo tempo coercitivos e dotados de existência exterior às consciência individuais. A terceira característica apontada por Durkheim éa generalidade. É social todo fato que é geral, que se repete em todos os indivíduos ou, pelo menos, na maioria deles. Por essa generalidade, os fatos sociais manifestam sua natureza coletiva ou um grupo, como as formas de habitação, de comunicação, os sentimentos e a moral. A OBJETIVIDADE DO FATO SOCIAL Uma vez identificados e caracterizados os fatos sociais, Durkheim procurou definir o método de conhecimento da sociologia. Para ele, como para os positivistas de maneira geral, a explicação cientifica exige que maneira geral, a explicação cientifica exige que o pesquisador mantenha certa distância e neutralidade em relação aos fatos, resguardando a objetividade de sua análise. Além disso, é preciso, segundo Durkheim, que o sociólogo deixe de lado suas pré-noções, isto é, seus valores e sentimentos pessoais em relação ao acontecimento a ser estudado, pois nada têm de cientifico e podem distorcer a realidade dos fatos. Dessa postura exige o não envolvimento afetivo ou de qualquer outra espécie entre o cientista e seu objeto. A neutralidade exige também a nãointerferência do cientista no fato observado. Assim Durkheim imaginava que, ao estudar, por exemplo, uma briga entre gangues, o cientifica não deveria envolver-se nem permitir que seus valores interferissem na objetividade de sua análise. Para ele, o trabalho cientifica exigia, portanto, a eliminação de quaisquer traços de subjetividade, além de uma atitude de distanciamento. Procurando garantir á sociologia um método tão eficiente quanto o desenvolvido pelas ciências naturais, Durkheim concitava o sociólogo objetos que, lhe sendo exteriores, deveriam ser medidos, observados e comparados independentemente do que os indivíduos envolvidos pensassem ou declarassem a seu respeito. Tais formulações seriam apenas opiniões, juízos de valor individuais que podem servir de indicadores os fatos sociais, cuja racionalidade só é acessível ao cientista. Durkheim queria com esse rigor, à maneira do método que garantia o sucesso das ciências exatas, definir a sociologia como ciência, rompendo com as idéias e o senso comum – “achismos”- que interpretavam de maneira vulgar à realidade social.Para apoderar-se dos fatos sociais, o cientistas deve identificar, dentre os conhecimentos gerais e repetitivos, aquele que apresentam características exteriores comuns. Assim, por exemplo, o conjunto de atos que suscitam na sociedade reações concretas classificadas como “penalidades” constituem os fatos sociais identificáveis como “crime”. Vemos que os fenômenos devem ser sempre considerados em suas manifestações coletivas, destituindo dos acontecimentos individuais ou ocidentais. A generalidade distingue o essencial do fortuito especifica a natureza sociológica dos fenômenos. O suicídio, amplamente estudado por Durkheim, constituia-se, nesse sentido, em fato social por corresponder a todas essas características: é geral, existindo em todas as sociedades; e, embora sendo fortuito e resultando de razões particulares; e apresenta em todas elas certa regularidade, recrudesce ou diminui de intensidade em certas condições históricas, expressando assim sua natureza social. SOCIEDADE: UM ORGANISMO EM ADAPTAÇÃO Para Durkheim, a sociologia tinha por finalidade não só explicar a sociedade como também encontrar soluções para a vida social. A sociedade, como todo organismo, apresentaria estados normais e patológicos, isto é, saudáveis e doentios. Durkheim considera um fato social como normal quando se encontra generalizado pela sociedade ou quando se encontra generalizado pela sociedade ou quando se encontra generalizado pela sociedade ou quando desempenha alguma função importante para sua adaptação ou sua evolução. Assim, afirma que o crime, por exemplo, é normal não apenas por ser encontrado em toda e qualquer sociedade e em todos os tempos, mas também por representar um fato social que integra as pessoas em torno de uma conduta valorativa, que pune o comportamento considerado nocivo. Émile Durkheim “ A generalidade de um fato social, isto é, sua unanimidade, é garantia de normalidade na medida em que representa o consenso social, a vontade coletiva, ou o acordo de um grupo a respeito de determinada questão. Diz Durkheim Partindo, pois do princípio de que o objetivo Maximo da vida social é promover a harmonia da sociedade consigo mesmo e com as demais sociedades, e que essa harmonia é conseguida por meio do consenso social, a “saúde” do organismo social se confunde com a generalidade dos acontecimentos. Quando um fato põe em risco a harmonia, o acordo, o consenso e, portanto, a adaptação e a evolução da sociedade estão diante de um acontecimento de caráter mórbido e de uma sociedade doente. Portanto, normal é aquele fato que não extrapola os limites dos acontecimentos mais gerais de uma determinada sociedade e que reflete os valores e as condutas aceitas pela maior parte da população. Patologicamente é naquele que se encontra fora dos limites permitidos pela ordem social e pela moral vigente. Os fatos patológicos, como as doenças são considerados transitórios e excepcionais. A consciência coletiva Toda a teoria sociológica de Durkheim pretende demonstrar que os fatos sociais têm existência própria e independe daquilo que pensa e faz cada indivíduo em particular. Embora todos possuam sua “consciência individual”, seu modo próprio de se comportar e interpretar a vida podem-se notar, no interior de qualquer grupo ou sociedade, formas padronizadas de conduta e pensamento. Essa constatação está na base do que Durkheim chamou de consciência coletiva. A definição de consciência coletiva aparece pela primeira vez na obra da divisão do trabalho social : trata-se do “conjunto das crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade” que forma um sistema determinado com vida própria” (p.342) … para saber se o estado econômico atual dos povos europeus, com sua características ausência de organização, é normal ou não, procurar-se á passado o que lhe deu origem. Se estas condições são ainda aquelas em que atualmente se encontra nossa sociedade, é porque a situação é normal, a despeito dos protestos que desencadeia. A consciência coletiva não se baseia na consciência de indivíduos singulares ou de grupos específicos, mas está espalhada por toda a sociedade. Ela revelaria, segundo Durkheim, o “tipo psíquico da sociedade”, que não seria apenas o produto das consciência indivíduos e perduraria através das gerações. A consciência coletiva é, em certo sentido, a forma moral vigente na sociedade. Ela aparece como um conjunto de regras fortes e estabelecidas que atribuam valor e delimitam os atos individuais. E a consciência coletiva que define o que, numa sociedade, é considerado “imoral”, “reprovável” ou “criminoso” SOLIDARIEDADE MECÂNICA E ORGÂNICA Para Durkheim, o trabalho de classificação das sociedades como apurada observação experimental. Cuidado por esse procedimento, estabeleceu a passagem da solidariedade mecânica para a solidariedade orgânica como o motor de transformação de toda e qualquer sociedade. Dado o fato de que as sociedades variam de estágio, apresentando formas diferentes de organização social que tornam possível defini-las como “inferiores” ou “superiores”, como o cientistas classifica os fatos normais e os anormais em cada sociedade? Para Durkheim a normalidade só pode ser entendida em função do estágio social da sociedade em questão: “… do ponto de vista puramente biológico, o que é normal para o selvagem não o é sempre para o civilizado, e vice-versa” (As regras do método sociológico,p.52) E continua : “um fato social não pode se acoimado de normal para uma espécie social determinada se não em relação com uma fase, igualmente determinada, de seu desenvolvimento.”(p.52) Solidariedade mecânica: para Durkheim, era aquela que predominava nas sociedades pré capitalistas, onde os indivíduos se identifi cam por meio da família, da religião, de tradição e dos costumes, permanecendo em geral independentes e autônomos em relação à divisão do trabalho social. A consciência coletiva exerce aqui todo seu poder de coerção sobre os indivíduos. Solidariedade orgânica: é aquela típica das sociedades capitalistas, onde, pela acelerada divisão do trabalho social, os indivíduos se tornavam interdependentes. Essa interdependência garante a união social, em lugar dos costumes, das tradições ou das relações sociais estreitas. Nas sociedades capitalistas, a consciência coletiva se afrouxa. Assim ao mesmo tempo em que os indivíduos são mutuamente dependentes, cada qual se especializa numa atividade e tende a desenvolver maior autonomia pessoal. “O SUICÍDIO”- UM FATO SOCIAL. Essa interdependência garante a união social, em lugar dos costumes, das tradições ou das relações sociais estreitas. Nas sociedades capitalistas, a consciência coletiva se afrouxa. Assim, ao mesmo tempo que os indivíduos são mutuamente dependentes, cada qual se especializa numa atividade e tende a desenvolver maior autonomia pessoal. Durkheim mostrou umas características do bom cientistas. Ele ampliou sua teoria, demonstrando que a solidariedade social tem uma relação muito mais complexa com a taxa de suicídios. Onde há pouquíssima solidariedade social, ocorre uma taxa elevada de suicídios egoístas. Porém, Durkheim acreditava ainda que níveis demasiadamente elevados de solidariedade social também levavam a taxas de suicídios altas, o que ele denominava suicídios altruístas. O suicídio altruísta refletiu Durkheim, resulta do fato de que o indivíduo acaba por sentir seu valor pessoal apenas por intermédio do grupo, adquirindo um sentido pessoal apenas a partir de algo maior do que o eu. O ego torna-se nada; abrir mão da própria vida pelo grupo passa a ser louvável. O fracasso pessoal significa que a pessoa falhou com o grupo, o que resulta em desonra e vergonha, levando a uma grande probabilidade de suicídio. Durkheim testou novamente sua teoria. O exército apresenta uma solidariedade social muito elevada – e também uma taxa de suicídios alta. No exército, oficiais de carreira, voluntários e veteranos (os mais bem integrados) apresentam taxas de suicídios mais elevadas do que os demais. Se Durkheim fosse vivo na época da segunda guerra Mundial, teria apontado como exemplos de suicídio altruísta os pilotos japoneses Kamikazes os oficiais japoneses que perderam batalhas importantes. Durkheim foi além. Tentou isolar outro fato social: o grau de mudança na sociedade, também isso, afirmou afeta a taxa de suicídios. As sociedades que passam por mudanças rápidas perturbam os mundos sociais do indivíduo, o qual descobrirá que os grupos dos quais faz parte já não oferecem orientações apropriadas para a ação. Os velhos padrões não funcionam mais; o indivíduo terá de tomar cada vez mais decisões por conta própria, com cada vez menos alicerce na vida social. Aqui Durkheim não está descrevendo a solidariedade social, e sim mostrando se a sociedade é ou não um guia adequado para o presente. (Em épocas de rápida mudança, o indivíduo chega a um estado de anomía, termo que Durkheim empregava para designar ausência de regras e de guias) um “estado de inexistência de normas” . MAX WEBER: A AÇÃO SOCIAL Enquanto para Durkeim a ênfase na análise recai sobre a sociedade; para o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) a análise estará centrada nos atos e ações dos indivíduos. A sociedade não seria algo superior e exterior aos indivíduos, como afirma Durkeim, mas deve ser entendida a partir do conjunto de ações individuais reciprocamente referidas, por isso, define como objetivo da sociologia descobrir o sentido da ação social. AÇÃO SOCIAL: UMA AÇÃO COM SENTIDO: Cada sociedade para Weber possui sua especificidade e importância. Mas o ponto de partida de seus estudos não estava nas entidades coletivas, grupos ou instituições. Seu objeto de investigação é a ação social, a conduta humana dotada de sentido, isto é, de uma justificativa subjetivamente elaborada. Assim, o homem passou a ter, enquanto indivíduo, na teoria weberiana, significado e especificidade dando sentido à sua ação social. As normas sociais só se tornam concretas quando se manifestam em cada indivíduo sob a forma de motivação. Cada sujeito age levado por um motivo que é dado pela tradição, por interesses racionais ou pela emotividade. O motivo que transparece na ação social permite desvendar o seu sentido, que é social na medida em que cada indivíduo age levando em conta a resposta ou a reação de outros indivíduos. Vejamos o exemplo do eleitor: Ele define seu voto orientando-se pela ação dos demais eleitores. Ou seja, temos a ação de um indivíduo, mas essa ação só é compreensível se percebemos que a escola feita por ele tem como referência o conjunto dos demais eleitores. A tarefa dos cientistas é descobrir os possíveis sentidos das ações humanas presentes na realidade social que lhe interesse estudar. O sentido é a expressão da motivação individual, formulado expressamente pela pessoa, implícito na conduta. O caráter social da ação individual decorre, segundo Weber, da interdependência dos indivíduos. Um ator age sempre em função de sua motivação e da consciência de agir em relação a outros atores. Por outro lado, a ação social gera efeitos sobre a realidade em que ocorre. Tais efeitos escapam ao controle e à previsão do agente. Ao cientista compete captar, pois, o sentido produzido pelas ações sociais dos indivíduos, deve estabelecer as conexões entre os motivos que levam a determinadas ações, sejam elas políticas, econômicas ou religiosas. O cientista pode, portanto, descobrir o nexo entre as várias etapas em que se decompõe a ação social. Por exemplo, o simples ato de enviar uma carta se decompõe em uma série de ações sócias com sentido – escrever, selar, enviar e receber -, que terminam por realizar um objetivo. Por outro lado, muitos agentes ou atores estão relacionados a essa ação social – patendente, o carteiro etc. essa interdependência entre os sentidos das diversas ações – mesmo que orientadas por motivos diversos – é que dá a esse conjunto de ações seu caráter social. Define diferentes tipos de ação social, agrupando-as de acordo com o modo pelo qual os indivíduos orientam suas ações. Assim ele estabelece quatro tipos de ação social: AÇÃO TRADICIONAL: aquele determinado por um costume ou por um hábito arraigado. AÇÃO EFETIVA: aquela determinada por afetos ou estada sentimentais. RACIONAL EM RELAÇÃO A VALORES: determinada pela crença consciente num valor considerado importante, independentemente do êxito desse valor na realidade. RACIONAL COM RELAÇÃO SOA FINS: determinada pelo cálculo racional que coloca fins e organiza os meios necessários. Weber considera a pesquisa histórica como sendo essencial para a compreensão das sociedades. Essa pesquisa, baseada na coleta de documentos e no esforço interpretativo das fontes, permite o entendimento das diferenças sociais, que seriam, para weber, de gênese e formação, e não de estágios de evolução. Portanto, segundo a perspectiva de Weber, o caráter particular e específico de cada formação social e histórica contemporânea deve ser respeitado. O conhecimento histórico, entendido como a busca de evidências, torna-se um poderoso instrumento para o cientista social. Weber consegue combinar duas perspectivas: a histórica, que respeita as particularidades de cada sociedade, e a sociológica, que ressalta os elementos mais gerais de cada fase do processo histórico. Analisou, com base em textos e documentos, as transformações da sociedade romana em função da utilização da mão-de-obra escrava e do servo de gleba, mostrando a passagem da Antiguidade para a sociedade medieval. Weber, afirmava que todo historiador trabalha com dados esparsos e fragmentários. Por isso, propunha para esse trabalho o método compreensivo, isto é, um esforço interpretativo do passado e de sua repercussão nas características peculiares das sociedades contemporâneas. O TIPO DE IDEAL: Para atingir a explicação dos fatos sociais, Weber propôs um instrumento de análise que chamou de tipo ideal. Um tipo de ação que é característica num determinado personagem construído histórica e socialmente. O tipo do grande proprietário de terra romano não é o do agricultor que dirige pessoalmente a empresa, mas é o homem que vive na cidade, pratica a política e quer, antes de tudo, perceber rendas em dinheiro. A gestão de suas terras está nas mãos dos servos inspetores” VILLICI É uma construção teórica abstrata a partir dos caos particulares analisados. O cientista, pelo estudo sistemático das diversas manifestações particulares, constrói um modelo acentuado, aquilo que lhe pareça característico e original. Nenhum dos exemplos representara de forma perfeita e acabada o tipo ideal, mas manterá com ele uma grande semelhança e afinidade, permitindo comparações e a percepção de semelhanças e diferenças. Constitui-se em um trabalho teórico indutivo que tem por objetivo sintetizar aquilo que é essencial na diversidade das manifestações da vida social, permitindo a identificação de diferentes ações sociais, tanto no tempo quanto no espaço. O tipo ideal não é um modelo perfeito a ser buscado pelas formações sociais históricas nem mesmo qualquer realidade observável. É um instrumento de análise científica, numa construção do pensamento que permite conceituar fenômenos e formações sociais e identificar na realidade observada suas manifestações. Permite ainda comprar tais manifestações. A ÉTICA PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO: Weber em: A ética protestante e o espírito do capitalismo, relaciona o papel do protestantismo na formação do comportamento típico do capitalismo ocidental moderno. Parte de dados estatísticos que lhe mostraram a proeminência de adeptos da Reforma Protestante entre os grandes homens de negócios, empresários nem sucedidos e mão-de-obra qualificada. A partir daí, procura estabelecer conexões entre a doutrina e a pregação protestante, seus efeitos no comportamento dos indivíduos e sobre o desenvolvimento capitalista. Weber descobre que os valores do protestantismo –como as práticas de devoção e penitência, a poupança, a severidade, a rigidez, a vocação, o dever e a propensão ao trabalho – atuavam de maneira decisiva sobre os indivíduos. No seio das famílias protestantes, os filhos eram criados para o ensino especializado e para o trabalho fabril, optando sempre por atividades mais adequadas à obtenção do humanístico. Weber mostra a formação de uma nova mentalidade, dos novos valores éticos instituídos com o capitalismo, em oposição ao despojamento da vida material e à atitude contemplativa do catolicismo, voltados para a oração, sacrifício e renúncia da vida prática. Um dos aspectos importantes desse trabalho no seu sentido teórico, está em expor as relações entre religião e sociedade e desvendar particularidades do capitalismo. O ESTADO: Com base numa racionalidade política do tipo ideal e social capitalista weber define seu conceito de Estado e poder político. Para ele, o poder político situa-se na oportunidade que uma pessoa ou um grupo de pessoas tem de realizar sua vontade numa ação comum, mesmo contra a resistência de outras pessoas que participam da ação, formando um governo. Já o Estado é a instituição máxima legitimada para o exercício do poder político e possui o monopólio exclusivo da força. Weber também define o papel da burocracia para a constituição do Estado moderno, ou seja, de uma estrutura racional, um corpo técnico, jurídico e político capaz de agir a administração do Estado, sem o qual seria impossível sua administração. KARL MARX: E A HISTÓRIA DA EXPLORAÇÃO DO HOMEM. Trataremos neste ponto de Karl Marx e do materialismo histórico, a corrente mais revolucionária do pensamento social, suas consequências teóricas e práticas. As idéias de Marx se desdobraram em várias correntes e foram incorporadas por inúmeros teóricos. Com o objetivo de entender o capitalismo, Marx produziu obras de filosofia, economia e sociologia. Sua intenção, porém, não era apenas contribuir para o desenvolvimento da ciência, mas propor uma ampla transformação. Para Karl Marx, a sociedade dividida em classes era prejudicial para a maioria da população, pois é representada pela maioria, o povo, a massa. Neste caso, Marx definiu a sociedade dividida em classe Burguesa e classe Proletária. Sendo que a primeira domina a segunda em vários aspectos. Marx percebeu algumas regras (práxis) na ideologia capitalista como mais-valia, valor de uso, valor de troca, Etc. MATERIALISMO HISTÓRICO. Na teoria marxista, o materialismo histórico pretende a explicação da história das sociedades humanas, em todas as épocas, através dos fatos materiais, essencialmente econômicos e técnicos. A sociedade é comparada a um edifício no qual as fundações, a infra-estrutura, seriam representadas pelas forças econômicas, enquanto o edifício em si, a superestrutura, representaria as idéias, costumes, instituições (políticas, religiosas, jurídicas, etc). A propósito, Marx escreveu, na obra A Miséria da filosofia (1847) na qual estabelece polêmica com Proudhon: As relações sociais são inteiramente interligadas às forças produtivas. Adquirindo novas forças produtivas, os homens modificam o seu modo de produção, a maneira de ganhar a vida, modificam todas as relações sociais. O moinho a braço vos dará a sociedade com o suserano; o moinho a vapor, a sociedade com o capitalismo industrial. Tal afirmação, defendendo rigoroso determinismo econômico em todas as sociedades humanas, foi estabelecida por Marx e Engels dentro do permanente clima de polêmica que mantiveram com seus opositores, e atenuada com a afirmativa de que existe constante interação e interdependência entre os dois níveis que compõe a estrutura social: da mesma maneira pela qual a infra-estrutura atua sobre a superestrutura, sobre os reflexos desta, embora, em última instância, sejam os fatores econômicos as condições finalmente determinantes. EXISTENCIALISMO. "O que Marx mais critica é a questão de como compreender o que é o homem. Não é o ter consciência (ser racional), nem tampouco ser um animal político, que confere ao homem sua singularidade, mas ser capaz de produzir suas condições de existência, tanto material quanto ideal, que diferencia o homem." Numa leitura existencialista do marxismo, segundo Jean-Paul Sartre, a essência do homem é não ter essência, a essência do homem é algo que ele próprio constrói, ou seja, a História. "A existência precede a essência"; nenhum ser humano nasce pronto, mas o homem é, em sua essência, produto do meio em que vive, que é construído a partir de suas relações sociais em que cada pessoa se encontra. Assim como o homem produz o seu próprio ambiente, por outro lado, esta produção da condição de existência não é livremente escolhida, mas sim, previamente determinada. O homem pode fazer a sua História mas não pode fazer nas condições por ele escolhidas. O homem é historicamente determinado pelas condições, logo é responsável por todos os seus atos, pois ele é livre para escolher. Logo todas as teorias de Marx estão fundamentadas naquilo que é o homem, ou seja, o que é a sua existência. O Homem é condenado a ser livre. As relações sociais do homem são tidas pelas relações que o homem mantém com a natureza, onde desenvolve suas práticas, ou seja, o homem se constitui a partir de seu próprio trabalho, e sua sociedade se constitui a partir de suas condições materiais de produção, que dependem de fatores naturais (clima, biologia, geografia...) ou seja, relação homem-Natureza, assim como da divisão social do trabalho, sua cultura. Logo, também há a relação homem-Natureza-Cultura. POLÍTICA E ECONOMIA. Se analisarmos o contexto histórico do homem, nos primórdios, perceberemos que havia um espírito de coletivismo: todos compartilhavam da mesma terra, não havia propriedade privada; até a caça era compartilhada por todos. As pessoas que estavam inseridas nesta comunidade sempre se preocupavam umas com as outras, em prover as necessidades uns dos outros. Mas com o passar do tempo, o homem, com suas descobertas territoriais, acabou tornando inevitável as colonizações e, portanto, o escravismo, por causa de sua ambição. O escravo servia exclusivamente ao seu senhor, produzia para ele e o seu viver era em função dele. O coletivismo dos índios acabou; e o escravismo se transformou numa nova relação: agora o escravo trabalhava menos para seu senhor, e por seu trabalho conquistava um pedaço de terra para sua subsistência, ou seja, o servo trabalhava alguns dias da semana para seu senhor e outros para si. O feudalismo, então, começava a ser implantado e difundido em todo o território europeu. Esta relação servosenhor feudal funcionou durante um certo período na história da humanidade, mas, por causa de uma série de fatores e acontecimentos, entre eles o aumento populacional, as condições de comércio (surgia a chance do servo obter capital através de sua produção excessiva), o capitalismo mercantilista, o feudalismo decaiu; e assim, deu espaço a um novo sistema econômico: o capitalismo industrial (que teve seu desenvolvimento por culminar durante a revolução industrial, com o surgimento da classe proletária). Assim, deve-se citar a economia inglesa como ponto de partida para as teorias marxistas. Como todo sistema tem seu período de crise, ocasionando uma necessidade de mudança, Adam Smith (o primeiro a incorporar ao trabalho a idéia de riqueza) desenvolve o liberalismo econômico. Do latim liberalis, que significa benfeitor, generoso, tem seu sentido político em oposição ao absolutismo monárquico. Os seus principais ideais eram: o Estado devia obedecer ao princípio da separação de poderes (executivo, legislativo e judiciário); o regime seria representativo e parlamentar; o Estado se submeteria ao direito, que garantiria ao indivíduo direitos e liberdades inalienáveis, especialmente o direito de propriedades. E foi isto que fez com que cada sistema fosse modificado. Sobretudo também deve-se mencionar David Ricardo, que, mais interessado no estudo da distribuição do que produção das riquezas, estabeleceu, com base em Malthus, a lei da renda fundiária(agrária), segundo a qual os produtos das terras férteis são produzidos a custo menor mas vendidos ao mesmo preço dos demais, propiciando a seus proprietários uma renda fundiária igual à diferença dos custos de produção. A partir da teoria da renda fundiária, Ricardo elaborou a lei do preço natural dos salários, sempre regulada pelo preço da alimentação, vestuário e outros itens indispensáveis à manutenção do operário e seus dependentes. Pois, como foi dito anteriormente, com a Revolução Industrial surgiu a classe do proletariado. A LUTA DE CLASSES. Pretendendo caracterizar não apenas uma visão econômica da história, mas também uma visão histórica da economia, a teoria marxista também procura explicar a evolução das relações econômicas nas sociedades humanas ao longo do processo histórico. Haveria, segundo a concepção marxista, uma permanente dialética das forças entre poderosos e fracos, opressores e oprimidos, a história da humanidade seria constituída por uma permanente luta de classes, como deixa bem claro a primeira frase do primeiro capítulo d’O Manifesto Comunista: A história de toda sociedade passado é a história da luta de classes. Classes essas que, para Engels são "os produtos das relações econômicas de sua época". Assim apesar das diversidades aparentes, escravidão, servidão e capitalismo seriam essencialmente etapas sucessivas de um processo único. A base da sociedade é a produção econômica. Sobre esta base econômica se ergue uma superestrutura, um estado e as idéias econômicas, sociais, políticas, morais, filosóficas e artísticas. Marx queria a inversão da pirâmide social, ou seja, pondo no poder a maioria, os proletários, que seria a única força capaz de destruir a sociedade capitalista e construir uma nova sociedade, socialista. Para Marx os trabalhadores estariam dominados pela ideologia da classe dominante, ou seja, as idéias que eles têm do mundo e da sociedade seriam as mesmas idéias que a burguesia espalha. O capitalismo seria atingido por crises econômicas porque ele se tornou o impedimento para o desenvolvimento das forças produtivas. Seria um absurdo que a humanidade inteira se dedica-se a trabalhar e a produzir subordinada a um punhado de grandes empresários. A economia do futuro que associaria todos os homens e povos do planeta, só poderia ser uma produção controlada por todos os homens e povos. Para Marx, quanto mais o mundo se unifica economicamente mais ele necessita de socialismo. Não basta existir uma crise econômica para que haja uma revolução. O que é decisivo são as ações das classes sociais que, para Marx e Engels, em todas as sociedades em que a propriedade é privada existem lutas de classes (senhores x escravos, nobres feudais x servos, burgueses x proletariados). A luta do proletariado do capitalismo não deveria se limitar à luta dos sindicatos por melhores salários e condições de vida. Ela deveria também ser a luta ideológica para que o socialismo fosse conhecido pelos trabalhadores e assumido como luta política pela tomada do poder. Neste campo, o proletariado deveria contar com uma arma fundamental, o partido político, o partido político revolucionário que tivesse uma estrutura democrática e que buscasse educar os trabalhadores e levá-los a se organizar para tomar o poder por meio de uma revolução socialista. Marx tentou demonstrar que no capitalismo sempre haveria injustiça social, e que o único jeito de uma pessoa ficar rica e ampliar sua fortuna seria explorando os trabalhadores, ou seja, o capitalismo, de acordo com Marx é selvagem, pois o operário produz mais para o seu patrão do que o seu próprio custo para a sociedade, e o capitalismo se apresenta necessariamente como um regime econômico de exploração, sendo a mais-valia a lei fundamental do sistema. A força vendida pelo operário ao patrão vai ser utilizada não durante 6 horas, mas durante 8, 10, 12 ou mais horas. A mais-valia é constituída pela diferença entre o preço pelo qual o empresário compra a força de trabalho (6 horas) e o preço pelo qual ele vende o resultado (10 horas por exemplo). Desse modo, quanto menor o preço pago ao operário e quanto maior a duração da jornada de trabalho, tanto maior o lucro empresarial. No capitalismo moderno, com a redução progressiva da jornada de trabalho, o lucro empresarial seria sustentado através do que se denomina mais-valia relativa (em oposição à primeira forma, chamada mais-valia absoluta), que consiste em aumentar a produtividade do trabalho, através da racionalização e aperfeiçoamento tecnológico, mas ainda assim não deixa de ser o sistema semiescravista, pois "o operário cada vez se empobrece mais quando produz mais riquezas", o que faz com que ele "se torne uma mercadoria mais vil do que as mercadorias por ele criadas". Assim, quanto mais o mundo das coisas aumenta de valor, mais o mundo dos homens se desvaloriza. Ocorre então a alienação, já que todo trabalho é alienado, na medida em que se manifesta como produção de um objeto que é alheio ao sujeito criador. O raciocínio de Marx é muito simples: ao criar algo fora de si, o operário se nega no objeto criado. É o processo de objetificação. Por isso, o trabalho que é alienado (porque cria algo alheio ao sujeito criador) permanece alienado até que o valor nele incorporado pela força de trabalho seja apropriado integralmente pelo trabalhador. Em outras palavras, a produção representa uma negação, já que o objeto se opõe ao sujeito e o nega na medida em que o pressupõe e até o define. A apropriação do valor incorporado ao objeto graças à força de trabalho do sujeitoprodutor, promove a negação da negação. Ora, se a negação é alienação, a negação da negação é a desalienação. Ou seja, a partir do momento que o sujeito-produtor dá valor ao que produziu, ele já não está mais alienado. Modos de produção Ao longo da história da humanidade existiram vários formas de produção, esse processo de transformação de recursos naturais em bens produtivos e produzidos foram se desenvolvendo com o passar do tempo. Isso prova que o homem sempre necessitou da natureza para sua sobrevivência, porém não valoriza a mesma. Neste tópico iremos compreender as formas de trabalho que predominou ou predomina entre os seres humanos, vejamos: 1. MODO DE PRODUÇÃO PRIMITIVO: Inicialmente, os humanos viviam em tribos nômades e dependiam exclusivamente dos recursos da região em que a tribo se encontrava. Sobreviviam graças á coleta e ao extrativismo: caçavam animais para se alimentar e para usar as peles como roupas, pescavam e colhiam frutos silvestres. Não dominavam a natureza. Passavam privações quando acontecia alguma alteração climática brusca e a caça, a pesca e os frutos silvestres rareavam. Aos poucos a espécie humana começou a cultivar a terra, produzindo verduras, legumes, frutas, e cereais, passou a criar alguns tipos de animais. Quando isso aconteceu, as pessoas deixaram de ser nômades e passaram a ser sedentárias, isto é, tiveram condições de se fixar num lugar. Durante toda a história, o ser humano sempre transformou a natureza para produzir bens que satisfizessem suas necessidades básicas e também que lhe proporcionassem suas necessidades básicas e também que lhe proporcionassem uma vida mais confortável. A comunidade primitiva forma de organização humana. Ela existiu em diversas partes da terra há dezenas de milhares de anos. Ainda hoje, na áfrica, na Austrália, na Nova Zelândia e na região Amazônica, encontramos tribos com esse tipo de organização: alimentam – se de frutos e raízes, da pesca e da caça, e não praticam agricultura nem o pastoreio. O modo de produção primitivo designa uma formação econômica e social que abrange um período muito longo, desde o aparecimento da sociedade humana. A comunidade primitiva existiu durante centenas de milhares de anos, enquanto o período compreendido pelo escravismo, feudalismo e capitalismo mal ultrapassa cinco milênios.Na comunidade primitiva os homens trabalham em conjuntos. Os meios de produção e os frutos do trabalho eram propriedades coletivas, isto é, de todos. Não existia ainda a ideia de propriedade privada dos meios de produção, nem havia a oposição proprietários X não proprietários. As relações de produção eram relações de ajuda entre todos: eram baseadas na propriedade coletiva dos meios entre todos; eram baseadas na propriedade coletiva dos meios de produção, as terras em primeiro lugar. Nas comunidades primitivas – onde tudo era de todos – não havia o estado. Este só a existir quando alguns homens começaram a dominar os outros. O estado surgiu como um instrumento de organização social e de dominação. 2. MODO DE PRODUÇÃO ESCRAVISTA: É um modo de produção que na antiguidade, mas que também existiu no Brasil durante a Colônia e o Império. Na sociedade escravista os meios de produção (terras e instrumentos de produção) e os escravos eram propriedades do senhor. O escravo era considerado um instrumento, um objeto, como um animal ou uma ferramenta. Assim, no modo de produção escravista, as relações de produção eram relações de domínio e de sujeição: senhores X escravos, que não tinha nenhum direito. Os senhores eram proprietários da força de trabalho (os escravos), dos meios de produção (terras, gado, minas, instrumentos de produção) e do produto do trabalho. Nesse modo de produção já existia o estado, pois grupos de indivíduos dominavam outros grupos. O estado surgiu para garantir o interesse dos senhores. 3. MODO DE PRODUÇÃO SERVIL OU FEUDAL: O modo de produção servil predominou na Europa ocidental durante toda a Idade Média, permanecendo até o século XVI. No Japão, a sociedade feudal foi consolidada pelo xogunato (século XVIII). A sociedade feudal estruturava-se basicamente em senhores X servos. As relações de produção no feudalismo (relações servis) baseavam-se na propriedade do senhor sobre a terra e um grande poder sobre o servo. Os servos não eram como os escravos: eles cultivaram um pedaço de terra cedido pelo senhor, sendo obrigados a pagar a ele impostos, rendas, e ainda a trabalhar as terras que o senhor conservava para si. O servo tinha o usufruto da terra, ou seja, uma parte que a terra produzia era dele. Assim, trabalhava uma parte do tempo para si e outra para o senhor. Outra diferença importante entre o servo e o escravo é que o senhor de escravos era dono do escravo, podendo vendê-lo, aluga-lo, etc. Com o senhor de servo isso não ocorria: o servo, enquanto pessoa, não era proprietário de seu senhor. Os senhores feudais tinham o poder econômico (eram os proprietários das terras) e o poder político (faziam as leis do feudo e obrigavam os servos a cumpri-las). Num determinado momento, as relações de produção feudais começaram a dificultar o desenvolvimento das forças produtivas. Ao mesmo tempo em que a exploração dos servos no campo aumentava, o rendimento da agricultura era cada vez mais baixo.Na cidade, o crescimento da produtividade dos artesões era freado pelos regulamentos existentes, e o próprio crescimento das cidades era impedido pela ordem feudal. As relações feudais de produção deixaram de responder ás necessidades da época, pois o processo de desenvolvimento exigia novas relações de produção. Dentro da própria sociedade feudal já começavam a aparecer ás relações capitalistas de produção. 4. MODO DE PRODUÇÃO ASSALARIADO OU CAPITALISTA: O modo de produção feudal começou a desmoronar a partir do século XI. Com a sua desagregação surgiu o capitalismo. A desagregação do feudalismo e as origens do capitalismo tiveram como principais causas: - O crescimento da população da Europa; - O desenvolvimento das técnicas agrícolas de produção: - O renascimento comercial e urbano; O que caracteriza o modo de produção capitalista são as relações assalariadas de produção (trabalho assalariado). As relações de produção capitalistas baseiam-se na propriedade privada dos meios de produção pela burguesia – que substitui a propriedade feudal – e no trabalho assalariado – que substitui o trabalho servil do feudalismo. A burguesia possui as fábricas, os meios de transporte, as terras, os bancos, etc. O trabalhador não é obrigado a ficar sempre na mesma terra ou mesma fábrica; ele é livre para se empregar na propriedade do capitalista que o aceitar para trabalhar. Os trabalhadores são obrigados a trabalhar para os proprietários dos meios de produção, que são donos do capital. I – O TRABALHO NA SOCIEDADE CAPITALISTA: Podemos afirmar que na sociedade capitalista o trabalhador é detentor de sua força de trabalho, que é vendida ao capitalista, dono dos meios de produção, em troca de uma remuneração que é suficiente para garantir a sobrevivência do mesmo e sua consequente reprodução, garantindo desta forma a multiplicação do contingente de trabalhadores. É importante ressaltar que no sistema capitalista existe uma exploração funcional do trabalhador, que garante a composição do lucro do capitalista, qual seja, a mais-valia. A mais-valia deve ser entendida como tudo aquilo que é subtraído do trabalhador pelo capitalista durante o cotidiano na exploração de sua força de trabalho e na remuneração desse trabalhador, ou também : "(...) é a forma específica que assume a exploração sob o capitalismo, a diferença específica do modo de produção capitalista, em que o excedente toma a forma de lucro e a exploração resulta do fato da classe trabalhadora produzir um produto líquido que pode ser vendido por mais do que ele recebe como salário." Dicionário do Pensamento Marxista, Tom Bottomore, p. 227 "São as horas trabalhadas e não pagas que, acumuladas e reaplicadas no processo produtivo, vão fazer com que o capitalista enriqueça rapidamente. E assim, todos os dias, isso acontece nos mais variados pontos do mundo: uma parcela significativa do valor-trabalho produzido pelos trabalhadores é apropriada pelos capitalistas. Esse processo denomina-se acumulação de capital. Em outros termos, portanto, capital nada mais é do que o trabalho não pago, isto é, aquela parte que o trabalhador produz e que não lhe é paga (mais-valia) vai para os bolsos do patrão" Iniciação à Sociologia, Dácio Tomazi, p 50 II – AS TRANSFORMAÇÕES RECENTES NO MUNDO DO TRABALHO. 1. FORDISMO: No início do século XX, a partir da I Guerra Mundial (1914-1919) o processo de industrialização norte-americana alcança a sua consolidação, devido principalmente a necessidade de suprir o mercado consumidor europeu. É nesse contexto, que Henry Ford passa a implementar em suas fábricas de automóveis uma série de modificações que iriam predominar na organização produtiva e na organização do trabalho em quase todo o mundo capitalista até aproximadamente a década de 70. Dentre as características que marcaram o fordismo, podemos identificar: a extrema divisão das tarefas (leia-se a especialização); a subordinação do trabalhador à linha de montagem; o desconhecimento da produção final (a alienação); e a produção em massa para um consumo em massa. A partir da década da 70, principalmente após as sucessivas crises do petróleo (1973 e 1979) a organização da produção e do trabalho nas sociedades capitalistas passaram por uma série de transformações que ficaram conhecidas como pós -fordismo ou acumulação flexível. Neste novo modelo podemos destacar: a massiva automação, com o advento da robótica; o trabalhador passa a limitar a sua atuação ao controle e supervisão; a flexibilização do mercado de trabalho, com o surgimento do trabalho temporário, subcontratação, a terceirização, etc; além disso, passamos a ter a flexibilização da produção e do consumo, com o aumento do marketing e da propaganda o consumo passa a criar novas exigências e conseqüentemente surge uma nova forma de se produzir, nada mais em massa, sendo assim a produção passa a ser segmentada. I - O Surgimento do Estado Moderno De maneira geral podemos afirmar que os Estados Nações na Europa formaram-se entre os séculos XV e XVIII, em alguns casos esse processo de integração da ordem feudal e formatação do modelo estrutural do Estado pode ser percebido mesmo antes do século XV (como no caso português). O desenvolvimento das atividades econômicas relacionadas ao comércio, com o surgimento da burguesia e as grandes mudanças no cenário social da Europa medieval, exigia uma mudança drástica no cenário político. Em alguns casos, a própria burguesia buscou o apoio de um grande nobre (Rei) a fi m de construir um modelo de governo que benefi cie tal categoria, em outros casos os próprios nobres buscaram construir essa aliança política entre si, para manter seus privilégios políticos e o suporte tributário por parte da burguesia. É neste contexto que a estrutura feudal passa por um processo de integração, desencadeando o aparecimento dos primeiros países, tal qual conhecemos hoje, com suas fronteiras definidas, com uma simbologia própria, uma moeda única, um único padrão de pesos e medidas, um exército profissional, etc. II - O Desenvolvimento do Estado 1. O Estado Absolutista (XV-XVIII) Primeiro modelo de Estado, onde o Rei (monarca) concentrava todos os poderes em suas mãos, subordinando o parlamento e o judiciário. Nesse modelo político, o executivo controla todas as atividades da economia, estabelecendo suas regras (mercantilismo). Geralmente nesse modelo, existe uma forte presença da religião, a igreja justificava a poder do Rei pela sua pretensa origem divina. 2. O Estado liberal - democrático (XVIII-XX) Fruto da ascensão burguesa com as revoluções do século XVIII, onde o monarca tem o seu poder limitado, geralmente por um parlamento (representante dos ideais burgueses). Neste momento o Estado é fortemente influenciado pelos pressupostos do Iluminismo e do liberalismo (não intervenção do estado na economia), destacando as bases políticas lançada por Montesquieu, em seu O Espírito das Leis (Poder descentralizado: executivo, legislativa e judiciário). Texto complementar A consolidação das monarquias na Europa moderna A Organização dos Estados Nacionais, entre os séculos XV e XVIII, foi desencadeadas por diversos acontecimentos importantes, que fizeram parte do contexto histórico europeu na transição do sistema feudal para uma sociedade de ordem burguesa. Cabe ressaltar, porém, que nem toda Europa participou igualmente dessas transformações. A partir dessas reestruturação, muitos Estados tornaram-se capazes de demarcar, cada vez mais, a área e a população sob seu controle; passaram também a acumular um volume crescente de informações relativas a sua soberania e aprimoraram sua eficiência administrativa. Em outras palavras: as monarquias acumularam conhecimento, conquistaram poder, ampliaram suas ambições e o aspecto de suas intervenções e assumiram mais responsabilidades. Os reis tomaram para si o monopólio da lei. A política nacional e todas as atividades de caráter político e econômico foram subordinadas a eles, ou deles passaram a depender. Desde o século XVII, o Estado dilatou seu campo de atividade, a começar pelo controle de seu próprio exército até o gerenciamento direto de suas indústrias. Na prática, o Estado planejou economias inteiras, até o ponto de não deixar praticamente nada fora de seu controle. Neste início de milênio, podemos constatar que as antigas estruturas político-organizativas não estão conseguindo sobreviver aos efeitos da Nova Ordem internacional. O mundo posterior à fragmentação da União Soviética vê-se diante do desmoronamento, na Europa, dos modelos de Estados nacionais construídos ao longo dos séculos. Hoje, em várias regiões do planeta, consolidam-se entidades político-econômicas como a União Européia, o Mercosul e o Nafta. O fracasso não foi exclusivo dos regimes socialistas. Em toda parte renascem choques religiosos, tribais, separatistas e nacionalistas. A irracionalidade e o caos tomam as rédeas da Nova Ordem. A ausência de centros hegemônicos de poder no mundo pós-Guerra Fria trouxe realidades inesperadas. A supremacia norte-americana passou a ser ameaçada pelo desenvolvimento de nações como o Japão e Alemanha. Paradoxalmente, o Afeganistão, onde não há, na prática, nenhum Estado - apenas disputas políticas entre grupos -, tornou-se, a partir de setembro de 200 1, uma ameaça à preponderância dos Estados Unidos. Segundo Hobsbawm, “é prematuro afirmar que o mundo irá se tornar um local ainda mais difícil de ser administrado, ou que estamos diante do fim da obediência das populações a seus governos. Durante a maior parte da história, sempre houve uma suposição generalizada de que os cidadãos obedeceriam a um governo efetivo, qualquer que fosse ele, e contasse ou não com a aprovação geral. Em alguns casos, o governo era respeita o por ser forte, mas, em outros, esse respeito baseava-se em idéia expressa por Hobbes, a de que qualquer governo eficaz é melhor que nenhum governo”. Entretanto, acontecimentos recentes demonstram manifestações contrárias às idéias do pensador Thomas Hobbes. As populações de muitos países não aceitam mais o princípio de que não vale a pena lutar contra seus governos. Em diversos pontos, surgem dramáticas hostilidades nacionalistas que forçam a existência de novos limites territoriais. Alguns desses movimentos já alcançaram êxito, como no Leste Europeu, enquanto outros - por exemplo, os existentes na Palestina, na Irlanda e nos Países Bascos - ainda sustentam guerras seculares. Estado e Nação Até o final da Idade Média não existiam ainda Estados constituídos, como Portugal, Espanha, França e Inglaterra. O poder político era instituído a partir de relações pessoais, de laços estabelecidos dentro da sociedade de ordens (nobres clero e setores burgueses e populares). Na Europa Ocidental, os primeiros embriões de Estado germinaram ao longo da Modernidade. O governante, que poderia ser um rei ou um cidadão eleito pelo povo, administrava a Nação independentemente das relações de compromisso. O longo processo da construção da identidade nacional coube ao governo e às elites, ambos interessados nas vantagens que a centralização do poder poderia proporcionar. A ideia de Nação não se consolidou do dia para a noite, mas resultou de um período de grandes mudanças, tais como a gradativa perda de força dos senhores feudais, o desenvolvimento do comércio e das cidades e a retomada da autoridade dos reis. Nesse contexto, os antigos interesses regionais, baseados nos laços de fidelidade característicos da sociedade medieval, foram lentamente substituídos por necessidades maiores e mais amplas. A autonomia dos feudos cedeu lugar à centralização do poder nas mãos de um monarca - o que firmou a noção de que todos os habitantes de um determinado território, incluindo nobres, burgueses, camponeses e clero, deviam obediência ao rei. Unidade II – Poder, Política e Estado Moderno. I – Noção Geral Definir o conceito de Globalização é no mínimo uma tarefa contraditória e penosa. Mesmo assim vamos a ela: existem pensadores que afirmam ser a globalização é um processo que o capitalismo inaugura desde o seu surgimento no século XV, com o fim da estrutura feudal, com o Renascimentos, a Expansão marítima e o Capitalismo comercial, que veio se formatando em todas as fase do mesmo modo de produção e que hoje chega na sua fase mais consolidada. Para outros, já podemos falar em globalização ainda no expansionismo romano do século III a.C. Na Sociologia existe um debate mais delimitado. Os Sociólogos reconhecem o fenômeno global do capitalismo desde a sua gênese, mas, no entanto, trabalham a Globalização como um fenômeno que caracteriza a fase atual do capitalismo, a partir dos anos 80 - 90, como afirma Octávio Lanni em Sociedade Global ou como prefere Alex Fiúza de Meto (Sociólogo, Cientista Político e atual reitor da UFPA) em seu “Mundialização e Processo Civilizatório em Marx”. Dessa forma, a Globalização deve ser entendida como um processo amplo que permeia a economia, a economia do Estado e até mesmo a cultura e que comprimi o binômio espaçotempo, consolidando-se com o fim da Guerra-fria, as crises do capitalismo e o avanço tecnológico. II. Papel do Estado na Era Global A questão que nos interessa neste tópico do programa é esta: Qual o papel do Estado na atual conjuntura global? Para fazermos essa avaliação é preciso que tenhamos em mente o modelo de Estado que marcou o mundo capitalista da década de 30 até os anos 80, qual seja, o Estado Keynesiano (Welfar State), que garantia liberdade na economia, mas que, no entanto, intervia para evitar as crises e que também gastou grandes montantes de recursos públicos na construção de grandes obras e na criação de empresas estatais. Na década de 80, após as grandes crises do capitalismo (relacionadas ao petróleo em 73 e 79), este modelo de Estado que se apresentava robusto passou por reformulações. Era necessário diminuir o Estado, reformá-lo, fazer com que ele passasse a ser mais ágil e preocupado apenas com as questões sociais e estratégias, como a educação, saúde e segurança pública. Portanto, a partir daí os Estados passaram por uma crescente onda de privatizações, programas de demissão voluntária e reformulações em sua estrutura, com o discurso de que era necessário “emagrecer” o Estado para tornálo mais ágil. Esse é o Estado Neoliberal, preconizado por Milton Friedmam e Hayek, onde o Estado não regulará a economia deixando-a livre aos controles do próprio mercado, retomando em sua essência a Liberalismo Clássico. Podemos afirmar, então, que o Estado na Era da Globalização é o Estado Neoliberal, que podemos identificar pela primeira vez nos Estados Unidos com Ronald Reagan e na Inglaterra com Margareth Tatcher. Bibliografi a Fundamental • LAKATOS. Eva Maria & MARCONI, Marina Sociologia Geral. São Paulo: Atlas, 7ª Edição, 1999 TOMAZI, Nelson Dácio. Iniciação à Sociologia. São Paulo. Atual Editora, Edição, 2000 Globalização A Aldeia Global, uma metáfora que indica o desenvolvimento de uma “Comunidade Mundial”. Afirmada com as realizações e as possibilidades de comunicação e informação aberta pela eletrônica, com o desenvolvimento tecnológico no campo das comunicações, uma informação pode correr o mundo em minutos, tomando o fato relatado, em uma discussão generalizada como um comentário de vizinhos. Todos os locais do planeta, que estejam ligados a essa rede de telecomunicações, estarão comentando o ocorrido, não importa a distância do fato. Na aldeia global a informação é uma moeda de extremo valor, e uma consciência coletiva e fabricada, conforme determinados interesses, é esse fato que reside o perigo da aldeia global, ou seja, a manipulação “ON LINE”. A “Fábrica Global” é uma mudança quantitativa e indica uma quantitativa e qualitativa do sistema capitalista. As fronteiras da produção capitalista são derrubadas segundo a lógica da melhor condição de produção? Mãode-obra barata, matéria prima fácil, leis ambientais incompletas e tributos estatais reduzidos. O mundo vira uma grande fábrica e o povo pobre, um operário de um patrão que não tem rosto. Criase uma relação extremamente impessoal. Toda economia de um país torna-se dependente de uma economia global. Para Otávio Lanni, metáfora Aldeia Global relaciona a velocidade da informação necessária para sustentar a fabrica global, ou seja, a produção sem pátria. Em sua crítica o autor percebe o discurso ideológico que permeia a globalização. O Tecnolucrocentrismo é a mentalidade trabalhada na globalização é uma verdade absoluta. Supera o homem e o próprio criador (Deus). Se fizermos uma breve viagem no tempo e observamos a mentalidade medieval européia, iremos identificar o projeto teocêntrico globalizador da igreja católica através das cruzadas. Porém frustrado, mediante a barreira Islâmica. Hoje o capitalismo supostamente vencedor, elabora um projeto globalizador, que nem Deus nem o homem é o centro. Mas sim o dinheiro e a tecnologia. As relações sociais são reduzidas a essa nova lógica de mundo, onde passa a ser normal a universalização de vestimentas e padrões de serviços. Podemos citar como exemplo: a rede Mac DONALD’S que globalizou o serviço e o gosto por HOTDOG. Entrar em uma lanchonete, em qualquer parte do mundo globalizado, é um desafi o para a linguagem local visto que só matarei minha fome se conseguir pronunciar o MENU em INGLÊS, Os dialetos e as línguas tornam-se secundárias, mediante a necessidade da língua global. A crise da razão, do indivíduo, estão relacionadas. Aquilo que o renascimento deu início no século XIV e foi concretizado pelo iluminismo no século XVIII. Está sendo negligenciado hoje na globalização, o ser humano passa a ser treinado e não educado. O universalismo da razão ocidental mudou radicalmente de proposta em 500 anos. Podemos perceber três momentos da razão ocidental: 1. A proposta de revigoramento do Humanismo, no Renascimento. 2. O homem e a razão acima de tudo, no Iluminismo. 3. A globalização, que cria a razão do lucro, do merecido, da qualidade total, da massificação. Toda essa “razão” acaba afastando do homem. Esse é o ponto fraco do sistema: o ser humano vazio, robotizado. Dentro de uma cultura que esquece de valores seculares, como: Deus – emoção e o homem - razão. Essa intertextualização acaba sendo rompida com a proposta da razão acidental da globalização. Para finalizar devemos lembrar da proposta artística do renascimento de Miguel Ângelo, com sua obra A Criação de Adão (Afresco da Capela Sistina), onde Deus e o homem estão se tocando, celebrando algo que começa a ser passado, dentro da nova ordem. O homem é o principal projeto, nada existe sem ele. Pois ele tem razão para nomear todo que existe. Sem o homem e a sua razão, nem Deus existiria – A razão é o homem, como ser, e não como um mero consumidor do HOT-DOG da mac DONALD’S. A razão da globalização atropela o homem, na medida em que tenta globalizar nossa emoção e atitudes. O homem é indivíduo, e como tal não pode ser generalizado. Ele pertence primeiramente a si, a uma família, a um Município, a uma Região, a uma Nação, a uma Cultura e só depois ao Planeta e ao Universo. “O Homem está condenado a ser livre” (Sartre) Reflexões Sobre o Poder A manipulação do imaginário social, para a construção a imagem daquele que irá ocupar o poder é particularmente importante. Na maioria das vezes, não basta mostrar apenas a verdade. Os responsáveis pela Representação “gráfica” dos candidatos, ou seja, os marketeiros políticos têm de convencer o eleitor. Em certa medida, funções semelhantes às dos marketeiros contemporâneos foram exercidas pelos teóricos do absolutismo. Para justificar o poder dos reis, eles morriam a teorias filosóficas que decerto refletiam o das camadas sociais interessadas em manter a autoridade centralizada. Mas esses pensadores fi zeram mais do que simplesmente “vender” a imagem da realeza. Eles empreenderam uma profunda reflexão sobre o Estado e a política, em busca de uma conclusão a respeito dos modelos ideais de Nação e de poder. O florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527) introduziu dois conceitos importantes para o pensamento político moderno: Virtú (Virtude) e Fortuna. Para Maquiavel, Virtude era a capacidade de o governante escolher a melhor estratégia para a ação de seu governo, enquanto Fortuna remetia às contingências às quais os homens estão submetidos. Um bom governante seria aquele que, com sabedoria, soubesse combinar Virtude e Fortuna, sem priorizar uma ação em detrimento da outra. Para alcançar a plenitude na política, os reis precisariam de autonomia e não poderiam estar submetidos a nenhuma instituição nem mesmo à Igreja Católica. Sobre o governo dos príncipes, Maquiavel afirmou: “O príncipe não precisa ser piedoso, fiel, humano, íntegro e religioso, bastando que aparente possuir tais qualidades. [...] Um príncipe não pode observar todas as coisas a que são obrigados os homens considerados bons, sendo freqüentemente forçado, para manter o governo, a agir contra a caridade, a fé, a humanidade, a religião [...]. O príncipe não deve se desviar do bem, se possível, mas deve estar pronto a fazer o mal, se necessário.” (MAQUIAVEL, Nicolau. O Principe. ln: Maquiavel; Os Pensadores.São Paulo, Nova Cultural, 1986.) Juntamente com Maquiavel, o inglês Thomas Hobbes (1588-1679) ‚ um dos principais representantes da Teoria do Contrato Social. A partir da expressão “o homem ‚ o lobo do homem” (homo homini lupus), Hobbes justificou a necessidade de a sociedade civil organizar-se politicamente para sair do estado de natureza, que, para ele, era sinônimo de caos. O estado de natureza, segundo Hobbes, era uma situação em que os homens viviam em sociedade apenas por uma questão de sobrevivência, para atender a suas necessidades vitais, e não por se sentirem seres sociais. Hobbes sustentava que, sem um governo forte e capacitado, os homens não respeitariam os limites necessários a uma boa convivência social. O caos estaria sempre presente no cotidiano das pessoas. Sendo assim, a sociedade abdicaria de seus direitos em nome do rei, capaz de manter a ordem social e como consequência a segurança nacional. Para Hobbes, autor de Leviata, o Estado seria então um mal necessário, porém capacitado a assegurar um comportamento social mais pacífico dos membros da sociedade. Ele considerava o Estado um monstruoso aparato administrativo, que, por meio de um Contrato Social firmado com a população, poderia absorver o direito de resolver por ela, soberanamente, as questões do bem comum. Portanto, para escapar ao caos e ter assegurada a sobrevivência, o homem perderia a liberdade política. Segundo Thomas Hobbes “O fim último, causa final e desígnio dos homens (que amam naturalmente a liberdade e o domínio sobre os outros), ao introduzir aquela restrição sobre si mesmos sob a qual os vemos viver nos Estados, o cuidado com sua própria conservação e com uma vida mais satisfeita. Quer dizer, o desejo de sair daquela mísera condição de guerra que‚ a conseqüência necessária (conforme se mostrou) das paixões naturais dos homens, quando não há um poder visível capaz de os manter em respeito, forçando-os por medo do castigo, ao cumprimento de seus pactos e ao respeito àquelas leis de natureza [... ].” (HOBBES, Thomas. ln: Hobbes; Os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1979.) Poder e Representação Os Modelos de Democracia I - Noção Geral É importante ressaltar que a Democracia deve ser percebida como “ (...) sistema social e político que sustenta que o indivíduo, apenas pela sua qualidade de pessoa humana, e sem conciderações às suas qualidades, posição, status, raça religião, ideologia ou patrimônio, deve participar dos assuntos da comunidade e exercer nela a direção que proporcionalmente lhe corresponde”. (Lakatos & Marconi, pág.347) II - Modelos de Democracia A Democracia como modelo de organização política está relacionada diretamente aos Gregos, seus criadores. Coube à Clístenes, em Atenas, a introdução do modelo democrático com características específicas, onde apenas os cidadãos atenienses participariam das decisões desse novo governo. As mulheres, os escravos, os estrangeiros e aqueles que não desfrutassem da cidadania não poderiam participar das decisões mais importantes nas instituições políticas existentes na pólis grega. É importante ressaltar que esse modelo de democracia é direta onde todos participariam com suas próprias decisões nas assembléias. Além de direta, a democracia grega era escravista, sendo este aspecto o seu fundamento mais significativo. Graças a existência do escravo, o seu proprietário poderia se dedicar intensivamente a vida política da cidade-estado, poderia portanto dedicar-se ao ócio, ou seja, o tempo que o cidadão tem para dedicar-se àquilo que lhe dá prazer (política, filosofia, artes, música, etc). No mundo contemporâneo a organização democrática da sociedade adquiriu outras características peculiares. Temos portanto, a partir do século XVII-XVIII a ascensão política da burguesia. Essa mesma classe social apresentou características revolucionárias e rompeu as tradições feudais e, ao implementar um regime político mais aberto, acabou por criar o Estado Liberaldemocrático. Nem todas as sociedades capitalistas estabeleceram imediatamente a democracia Liberal. Somente naquelas em que a burguesia entrou em choque direto com a nobreza resistente, sendo obrigada a buscar apoio entre os camponeses e operários, é que a democracia foi possível. Por isso, a burguesia teve de adaptar seu programa revolucionário para atender os interesses da maioria da população. Esse foi o único caminho que encontrou para assumir o poder: se autoproclamando representante dos interesses da sociedade em geral. Após a Revolução Burguesa, o Parlamento ganha um novo papel no interior do Estado: o de representante legítimo da sociedade civil. Não era a sociedade civil composta por classes e segmentos sociais diferentes e conflitantes entre si? Essa diferenças sociais tinham de ser consideradas. Na sua luta contra a Nobreza, a burguesia conseguiu unificar esses diferentes segmentos sociais sob o seu comando. Nada mais natural que o parlamento abrigasse essas diferenças sociais e fosse, portanto, o mais importante setor desse novo Estado. É importante ressaltar, que nesse novo contexto democrático a participação dos indivíduos ocorre através do voto, do sufrágio. Ainda, a democracia liberal burguesa é representativa, ou seja, os indivíduos escolhem seus representantes através do voto, que por sua vez defenderão nas assembléias (leia-se nos parlamentos) os princípios do segmento populacional que o escolheu. Podemos compreender a globalização como uma intensa competição envolvente. Porém, injusta, pois os países centrais do capitalismo largam na frente devido o processo dominante que há séculos predomina (Imperialismo) que fora chamado em outros tempos de Política Mercantilista. É diante disso que o neoliberalismo impõe nos dias atuais uma realidade não tão diferente. No entanto, o que vale ressaltar é que o mundo virou um gigantesco balcão comercial. Diante dessa realidade iremos analisar o papel do Estado na era globalizante e entender cautelosamente a política dominante. Observe: Globalização e Estado-Nação não se Contradizem; Globalização e o Estágio Atual do Desenvolvimento Capitalista, e Estado Nação é a Unidade Política Territorial que Organiza o Espaço e a População no Sistema Capitalista. Desde os Anos 1980, o Capitalismo Global Constitui o Sistema Econômico Caracterizado Pela Abertura de Todos os Mercados Nacionais e a Violenta Competição entre os Estados-Nação. A globalização tornou-se uma espécie de palavra da moda. Muitas vezes dita, mas raramente com o mesmo significado. Trata-se, na verdade, de um daqueles conceitos tão amplos, que é empregado por diferentes pessoas para explicar fatos de natureza completamente diversa. Mesmo quando qualificada como “econômica”, a globalização ainda pode ser associada a uma grande variedade de fenômenos. Outro aspecto é a globalização da produção e a conseqüente ampliação das correntes internacionais de comércio. No passado, a regra geral era de que todas as fases da produção de uma determinada mercadoria fossem realizadas num mesmo país, e esta mercadoria era então consumida localmente ou exportada. Isso já não corresponde à verdade. Diminuiu o conteúdo nacional da maioria das mercadorias, e fases intermediárias na produção de um bem agora ocorrem em diferentes países. Os produtos finais, especialmente aqueles mais intensivos em tecnologia, dificilmente podem receber o rótulo de serem integralmente feitos (made in) num só país. Isto é o resultado da interação de várias novas tendências, entre as quais a redução nos custos da mobilidade dos fatores de produção e as economias de escala exigidas por processos produtivos crescentemente sofisticados. O comércio internacional de bens intermediários se faz sobretudo entre unidades industriais da mesma empresa. As corporações freqüentemente estruturam suas atividades de modo a atender estratégias de marketing e produção destinadas a reforçar sua posição competitiva regional ou global. Os países são selecionados para receber investimentos destas corporações com base no quadro geral das vantagens comparativas que oferecem. Isto tem levado a uma acirrada competição entre países - em particular aqueles em desenvolvimento - por investimentos externos. Em contraste com as décadas de 60 e 70, quando julgavam necessário introduzir controles e restrições para disciplinar, em seus mercados, as atividades das transnacionais, os países em desenvolvimento têm reformulado suas políticas comerciais e econômicas, em parte para oferecer um ambiente doméstico atraente para os investimentos externos, os quais se fazem necessários para complementar as suas taxas internas de poupança geralmente insuficientes. Finalmente, a globalização econômica está associada a uma revolução nos métodos de produção que resultou numa mudança significativa nas vantagens comparativas das nações. A posição competitiva de um país em relação aos demais é, cada vez mais, determinada pela qualidade de seus recursos humanos, pelo conhecimento, pela ciência e tecnologia aplicadas à produção. Abundância de mão-de-obra e matérias-primas é vantagem comparativa de importância cada vez menor, na medida em que aqueles dois fatores de produção representam parcelas declinantes do valor agregado em praticamente todos os bens. Esta tendência irreversível torna improvável que o êxito dos países do Sul derive exclusivamente da mão-de-obra barata e dos recursos naturais. A globalização significa competição com base em maiores níveis de produtividade, ou seja, maior produção por unidade de trabalho. O desemprego resulta assim dos mesmos motivos que levam uma economia a ser competitiva. A situação é particularmente grave na Europa. Os que são demitidos nos países ricos podem recorrer a mecanismos de proteção social de diferentes tipos; alguns poderão ser treinados para um trabalho substituto. Mas pouco poderá fazerse para aliviar a frustração dos jovens que querem ingressar no mercado de trabalho e não conseguem. A falta de esperança, o consumo de drogas e álcool, o desmembramento da família são alguns dos problemas trazidos pelo desemprego e pela consequente marginalização. Há um sentimento de exclusão, de malestar em vastos segmentos das sociedades ricas integradas na economia global, alimentando a violência e, em alguns casos, atitudes de xenofobia. Como lidar com a complexa questão do desemprego é um desafio com o qual se defrontam praticamente todos os países que participam da economia global. A resposta a ele certamente não deve ser encontrada numa reação à globalização, seja mediante um fechamento da economia ao comércio com parceiros externos, o que apenas agrava a marginalização de um país, seja mediante o estabelecimento de regras muito rígidas nas relações de trabalho, passo que corre o risco de, em vez de estimular, dificultar a criação de empregos. Permitam-me agora concluir com alguns breves comentários sobre o que pode ser feito pela comunidade internacional para lidar com os efeitos negativos da globalização econômica, fenômeno que está aqui para ficar e que influenciará nossas opções nacionais no futuro previsível. Como disse, a globalização gerou a exclusão dos países pobre que ainda não compartilham os benefícios do processo. Criou também marginalização nos países ricos e naqueles em desenvolvimento que se encontram integrados na economia mundial. Mas a globalização também multiplicou a riqueza, desencadeando forças produtivas numa escala sem precedentes. Devemos renunciar aos elementos positivos da globalização, às possibilidades de maior riqueza por ela oferecidas, e reverter o relógio da História, supondo que seja possível fazê-lo? A resposta a esta indagação é seguramente negativa. (trechos retirados da Conferência sobre globalização no Indian Internacional Centre em 27|01|97 e reiterado ao texto do Professor Moisés Jr.) Vamos interpretar a Música 3ª do Plural da Banda ENGENHEIROS DO HAWAÍI. Compositor: Humberto Gessinger Corrida pra vender cigarro, Cigarro pra vender remédio Remédio pra curar a tosse, tossir, cuspir, jogar pra fora Corrida pra vender os carros Pneu, cerveja e gasolina Cabeça pra usar boné E professar a fé de quem patrocina Eles querem te vender, eles querem te comprar Querem te comprar, querem te matar (a sede)... Eles querem te sedar Quem são eles? Quem eles pensam que são? Corrida contra o relógio, silicone contra a gravidade Dedo no gatilho velocidade Quem mente antes diz a verdade Satisfação garantida, obsolescência programada Eles ganham a corrida, antes mesmo da largada. Eles querem te vender, eles querem te comprar, Querem te matar de (de rir)... querem te fazer chorar Quem são eles? Quem eles pensam que são? Vender, comprar, vedar os olhos, jogar a rede... Contra a parede... querem te deixar com sede Não querem te deixar pensar, quem são eles? Quem eles pensam que são? ESTADO E A GLOBALIZAÇÃO. A REFORMA DO ESTADO A crítica ao Estado do Bem-Estar Social atingiu certos países de economia capitalista avançada. Em princípio, deve-se considerar o fato da inexistência dessa forma de Estado nos países periféricos ao centro do capitalismo. Entretanto, se no Estado do Bem-Estar Social os argumentos consolidaram mudanças no sistema de previdência, alterações nos direitos dos trabalhadores, na saúde e na educação, com a privatização de vários setores desses ramos, muitas atividades estatais foram preservadas. Mesmo contrariando o credo liberal de nãointervenção na economia, o Estado nos países dominantes não se afastou da produção de armamentos bélicos e estratégicos e não ignorou os reclamos do grande capital, quer fossem do setor produtivo, quer do financeiro. Com isso, os gastos estatais permaneceram altos, fazendo perdurar os déficits públicos. As principais mu- danças atingiram as instituições que melhor atendiam os trabalhadores. No Estado dos países periféricos mais atrasados economicamente, não se construiu uma rede de órgãos assistenciais para atender às necessidades básicas da população. A educação e a saúde públicas são insatisfatórias, o seguro social, quando existe, não contempla a maioria dos trabalhadores desempregados, as aposentadorias são parcas. E, mesmo sendo assim, essa estrutura estatal não deixa de ser criticada pelos neoliberais, que reclamam por reformas no Estado. Com o Consenso de Washington, em 1989, uma espécie de agenda preparada por técnicos do governo norte-americano, economistas de organismos internacionais — Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial (BIRD), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) — e economistas latinoamericanos, reunidos para reformar o Estado, tornando-o mais enxuto, mais limitado ao exercício da segurança interna, a ponto de o chamarem Estado Mínimo, viu-se a exposição da retirada do Estado da economia. Para o Estado promover uma integração da economia do seu país à globalização, deve privatizar as empresas estatais e abrir o mercado com uma desregulamentação das relações comerciais, ou seja, derrubar barreiras que impeçam o livre comércio das economias mais poderosas com as mais fracas. Essas barreiras podem ser as taxas cobradas de produtos estrangeiros que entram no país, ou proibições de circulação de mercadorias que afetam diretamente a produção nacional, etc. O Estado deve ainda: desregulamentar as relações com os bancos, permitindo-lhes a livre atuação e o movimento de capitais no mercado interno; desregulamentar as relações de trabalho, derrubando os direitos dos trabalhadores, a começar pelo contrato de trabalho, o limite de horas na jornada de trabalho, as férias remuneradas, o décimo terceiro salário, etc; renunciar ao controle da moeda nacional e da política cambial, de preferência atrelando a moeda nacional ao dólar, para facilitar as transações no mercado financeiro. Completando o quadro reformista, ao Estado caberá uma mudança no sistema de aposentadorias, privatizando quando este for estatal, ou incentivando a iniciativa privada na sua criação. Para a educação e a saúde serve o mesmo encaminhamento. Assim, com certeza, haverá uma redução nas estruturas do Estado, e milhares de funcionários serão despedidos. A isso se dá o nome de enxugamento da máquina estatal, ou introdução de racionalidade e modernidade na gestão pública. Para os neoliberais, a reforma do Estado conduzirá a um maior controle do poder público pela sociedade civil, já que a burocracia estatal que sempre o teve será duramente afetada. A rigor, até o presente, nos países em que o neoliberalismo encerrou uma reforma radical do Estado, fosse ele do Bem-Estar Social ou não, não se constatou melhora nas suas contas, e muito menos uma contribuição positiva para a construção de uma sociedade socialmente mais justa. Vale dizer, enfim, que as reformas neoliberais avançaram sobre os direitos dos trabalhadores, pois estes se encontram em condições desfavoráveis para uma resistência, em razão da ameaça de desemprego, e ainda se acham desorganizados politicamente, em grande medida devido a uma crise das ideologias. Após o desaparecimento da União Soviética, nunca se falou tanto no fim do socialismo. Porém, as reformas neoliberais não conseguiram, ou não pretenderam efetivamente, retirar o Estado da economia. TEXTOS PARA DISCUSSÃO TEXTO 1 UM ESTADO CO-RESPONSÁVEL PELO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO. Como foi salientado recentemente por um autor: “Existem grandes diferenças entre as instituições-chave e os métodos econômicos de um país para outro. As diferenças são muitas vezes objeto de aguda clivagem ideológica. Mas quando se examina todo o quadro, existe uma certa uniformidade na textura de suas sociedades. Em termos daquilo que fazem, mais do que daquilo que dizem a respeito e mais nitidamente, ainda, em termos de seu comportamento por um período de vários anos, as semelhanças são surpreendentes”. As semelhanças mais importantes, em termos econômicos, já foram observadas: trata-se de sociedades que possuem uma base econômica ampla, complexa, altamente integrada e tecnologicamente avançada, em que à produção industrial corresponde de longe a maior parte do produto nacional bruto e cuja agricultura constitui uma área relativamente pequena da atividade econômica. São ainda sociedades em que a parte principal da atividade econômica é realiza da à base da propriedade e do controle privados sobre os meios de tal atividade. No que se refere ao último aspecto, é verdade que os países capitalistas avançados possuem hoje um “setor público” às vezes substancial, por meio do qual o Estado possui e administra uma ampla rede de indústrias e serviços, em geral, mas não exclusivamente, de tipo “infraestrutural” e que é de enorme importância para a sua vida econômica. Além disso, o Estado desempenha em todas as economias capitalistas um crescente papel econômico através de regulamentação, controle, coordenação, “planejamento”, e assim por diante. Simultaneamente o Estado é de longe o maior consumidor do “setor privado” e algumas das maiores indústrias não poderiam sobreviver no setor privado sem o consumo estatal e sem os créditos, subsídios e benefícios por ele dispensados. Tal intervenção do Estado em todos os aspectos da vida econômica não constitui nada de novo na história do capitalismo. Ao contrário, a intervenção estatal presidiu o seu nascimento ou pelo menos guiou e ajudou os seus primeiros passos, não apenas em casos tão óbvios como Alemanha e Japão, mas também em todos os outros países capitalistas, e jamais deixou de ser de importância vital nas atividades do capitalismo, mesmo no país mais apegado ao laissez-faire e a um rígido individualismo. Não obstante, a escala e a difusão da intervenção do Estado no capitalismo contemporâneo são hoje incomensuravelmente maiores do que em qualquer outra época e sem dúvida alguma continuarão a crescer. E o mesmo se aplica para a ampla rede de serviços sociais, em relação aos quais o Estado assumiu responsabilidade direta ou indireta naquelas sociedades. (Ralph Miliband. O Estado na sociedade capitalista. Rio de Janeiro: Zahar, 1972. p. 19-20.) TEXTO 2 A VISÃO ECONOMICISTA DO PROBLEMA POLÍTICO Embora se reconheça no Consenso de Washington a democracia e a economia de mercado como objetivos que se complementam e se reforçam, nele mal se esconde a clara preferência do segundo sobre o primeiro objetivo. Ou seja, revela-se implicitamente a inclinação a subordinar, se necessário, o político ao econômico. Para não tornar muito explícita essa tendência, passa- se, na avaliação dos resultados, por cima do fato notório de que dois dos mais celebrados exemplos de reforma neoliberal na área, Chile e México, se realizaram mediante regimes fortes e que, neste último caso, mal se iniciou a transição para um regime político efetivamente mais aberto. O pleno funcionamento das instituições democráticas parece até mesmo ser visto como um “excesso de democracia”, algo capaz de se converter em empecilho às reformas liberalizantes da economia, na medida em que enseje a emergência, tanto no Executivo quanto no Legislativo, de lideranças não comprometidas com as propostas neoliberais. A modernização da América Latina deve se fazer assim, prioritariamente, por um processo de reformas econômicas. As de ordem política, de aprofundamento e consolidação da democracia na região não seriam, nessa visão, indesejáveis; mas certamente não constituem, como por vezes o discurso poderia fazer supor, pré-condição para obtenção de cooperação internacional para o apregoado modelo de modernização. A democracia não seria, pois, um meio para se chegar ao desenvolvimento econômico e social, mas um subproduto do neoliberalismo econômico. Para o Consenso de Washington, a sequência preferível pareceria ser, em última análise, capitalismo liberal primeiro, democracia depois. (Paulo Nogueira Batista. O Consenso de Washington. In: 0 despertar do interesse nacional. Rio de Janeiro; São Paulo: Paz e Terra, 1994.) ELEMENTOS E PROCESSOS CULTURAIS: ELEMENTOS CULTURAIS A CULTURA MATERIAL consiste em todo o tipo de utensílios, ferramentas, instrumentos, máquinas etc. utilizados por um grupo social. Por exemplo, no interior do Nordeste a farinha de mandioca é alimento básico, grande parte das pessoas dorme em redes e casas são construídas com barro folhas de palmeira. A CULTURA NÃO-MATERIAL abrange todos os aspectos não materiais da sociedade, tais como: regras morais religião, costumes, ideologia, a ciência, artes etc. Por exemplo, a maioria da população brasileira segue religião católica não há pena de morte na legislação do Brasil e, embora proibido por lei, o preconceito racial é bastante claro no pais. Existem, porém, uma independência entre a cultura material e cultura não-material. Quando, por exemplo, assistimos à apresentação de uma orquestra, sabemos que as músicas apresentadas são de produtos da criatividade de um ou mais músicos. OS ELEMENTOS DA CULTURA. A cultura é um sistema, um todo, um conjunto de elementos ligados estreitamente uns aos outros. Para efeito de estudo, no entanto, pode ser decomposta em partes. As mais simples são os traços culturais, as unidades de uma cultura. Por exemplo, uma ideia, uma: crença representa traços culturais. Um carro, um lápis, uma capa, uma pulseira também são exemplos de traços culturais, É necessário ressaltar, porém, que os traços culturais só tem significado quando considerados dentro de uma cultura específica. Um colar pode ser um simples adorno para determinado grupo e para outro ter um significado mágico ou religioso. Para os fiéis das religiões afro-brasileiras, por exemplo, os colares usados têm cores especiais, dependendo da divindade cultuada pela pessoa e, de acordo com a crença, dão proteção a quem os usa. Portanto, só no conjunto da cultura é que se pode entender um determinado traço. A combinação de traços culturais em torno de uma atividade básica forma um complexo cultural. Por exemplo, o carnaval no Brasil é um complexo cultural que reúne um grupo de traços culturais relacionados uns com outros: carros alegóricos, música, dança, instrumentos musicais, desfi le etc. da mesma forma o futebol é um complexo cultural que pode ser composto em vários traços culturais: o campo, a bola, o juiz, os jogadores. A torcida, as regras do jogo etc. PADRÃO CULTURAL é uma norma de comportamento estabelecida pela sociedade. Os indivíduos normalmente agem de acordo com os padrões estabelecidos pela sociedade em que vivem. Quando os membros de uma sociedade agem de uma mesma forma estão expressando os padrões culturais do grupo. No Brasil, por exemplo, o casamento monogâmico é um padrão de nossa cultura. A região em que predominam determinados complexos culturais formam uma área cultural. Esta é, portanto, a área geográfica por onde se constitui uma certa cultura. Assim, os grupos humanos localizam-se em determinada área cultural e apresentam grandes semelhanças quanto aos traços e complexos culturais. PROCESSOS CULTURAIS PROCESSOS CULTURAIS. ACULTURAÇÃO. Durante a colonização do Brasil, ocorrem intensos contatos entre a cultura do colonizador português e as culturas dos povos indígenas e dos africanos trazidos como escravos. Como consequência desse contato, ocorreram modificações na cultura dos brancos que assimilaram muitos costumes das outras - e também nas culturas indígenas e africanas - que foram dominadas e perderam grande parte de suas características. Desse processo de contato e mudança cultural – conhecido como aculturação- resultou a cultura brasileira. MARGINALIDADE CULTURAL. Quando duas culturas entram em contatos, podem ocorrer - além da aculturação - umas séries de conflitos mentais nos indivíduos pertencentes a essas culturas. Esses conflitos têm origem na insegurança que as pessoas sentem diante de uma cultura diferente da sua. Aqueles que não conseguem se integrar completamente em nenhuma das culturas que os rodeiam ficam às margens da sociedade. A esse fenómeno dá-se o nome de marginalidade cultural. CONTRACULTURA. Nas sociedades contemporâneas encontramos pessoas que contestam certos valores culturais vigentes, opondo-se radicalmente a eles, num movimento chamado de contracultura. O trabalho, o patriotismo, a acumulação de riquezas, a ascensão social são valores culturais considerados importantes em nossa sociedade. O movimento hippie da década de 60, que iniciou nos EUA, foi um movimento de contracultura, porque se opunha radicalmente aos valores daquele momento, tais como: (capitalistas e a Guerra do Vietnã). ETNOCENTRISMO. Todos os sistemas culturais fazem com que as pessoas vivam numa sociedade etnocêntrica Isto é, os indivíduos tendem a ver seu sistema de valores, crenças e normas como melhores do que os dos outros. Esse etnocentrismo leva à intolerância, e a intolerância leva, por sua vez, ao conflito e às tensões. O ETNOCENTRISMO é um subproduto inevitável das diferenças culturais, com indivíduos que vêem como inferiores àqueles símbolos culturais, distintos dos seus. O etnocentrismo produz preconceitos que geralmente vêm à tona em conflitos declarados. O fato de que o homem vê o mundo através de sua cultura tem como consequência à propensão em considerar o seu modo de vida como o mais correto e o mais natural. Tal tendência, denominada de etnocentrismo, é responsável em seus casos extremos pela ocorrência de numerosos conflitos sociais. O etnocentrismo, de fato, é um fato universal. É comum a crença de que a própria sociedade é o centro da humanidade, ou mesma a sua única expressão. As autodenominações de diferentes grupos refletem este ponto de vista. A dicotomia “nós e os outros” expressa em níveis diferentes esse tendência. Dentro de uma mesma sociedade, a divisão ocorre sob a forma de parentes e não-parentes. Os primeiros são melhores por definição e recebem um tratamento diferenciado. A projeção desta dicotomia para o plano extragrupal resulta nas manifestações nacionalistas ou formas mais extremadas de xenofobia. O ponto fundamental de referência não é a humanidade, mas o grupo. Comportamentos etnocêntricos resultam também em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes. Práticas de outros sistemas culturais são catalogadas como absurdas, deprimentes e imorais. O DOUTOR E O CABOCLO. Era um doutor, deste metidos a sebo, que por ser doutor, pensa que tem o rei na barriga e gosta de pisar nos mais humildes. Estava na margem de um rio paraense, desejando passar para a outra margem. Acercou-se de um caboclo e falou: - Caboclo, eu quero passar para a outra margem. Qual é a tua canoa? Nem ao menos perguntou se o caboclo podia ou não atravessá-lo. Falou imperativamente e o pobre caboclo indicou com um; trejeito na boca a direção onde estava sua montaria, onde o doutor embarcou. A bem da verdade, não sei se o doutor era de curar, de leis ou de construir. Sei apenas que era um doutor metido a besta e que gostava de humilhar os outros. Mal a pequena embarcação desatracou, começou a espicaçar o pobre caboclo. Ele, o doutor, sabia muito bem que o caboclo não tinha instrução. Mesmo assim, falou: - Caboclo, tu és formado em que? - Cumantão, doto? Formado? O que é isto? - Que faculdade tu cursaste? - Ara, mas, doto* Eu não cursei ‘facurdade’ nenhuma. Mas, ara... - Então perdeste dez anos de tua vida. Mas fizeste o segundo grau, não? - Mas, quar, doto. Num fiz não, isto nem tem prós meus lados... - Perdeste mais dez anos de tua vida. Pelo menos cursastes o primeiro grau? - Não, seu doto. Mas quando, antão? - Perdeste mais dez anos de tua vida... O caboclo fez as contas - isto ele sabia fazer - e viu que já tinha perdido trinta anos da vida dele. Olhava o doutor com admiração, mas ao mesmo tempo já chateado de tanto estar perdendo anos de sua vida por não ter estudado... E o doutor, implacável, fez ainda mais uma pergunta: - Mas, caboclo, pelo menos tu sabes ler e escrever? - Sei, não, doto. Eu ‘su anarfabeto’ de pai e mãe... - Pois perdeste mais dez anos de tua vida... Já eram quarenta anos que o caboclo perdia. Estavam bem no meio do rio. Neste momento a canoa começou a fazer água rapidamente e mais rapidamente a afundar. Ai o caboclo perguntou para o doutor: - ‘doto, o senho sabe nada?’ - Não... Não... Disse o doutor apavorado. - Pois antão, doto, o senhor perdeu a sua vida toda...! E saiu nadando em direção à margem, enquanto o doutor morria afogado, com toda a sua soberba. 1. Cultura e Diversidade Cultural Tudo é cultura? Sim e não, dependendo de usarmos o conceito amplo de cultura ou o conceito restrito. Considerando, em primeiro lugar, o conceito amplo ou antropológico, cultura é o modo como indivíduos ou comunidades respondem as suas próprias necessidades e desejos simbólicos. O ser humano, ao contrário dos animais, não vive de acordo com seus instintos, isto é, regido por leis biológicas, invariáveis para toda a espécie, mas a partir da sua capacidade de pensar a realidade que o circunda e de construir significados para a natureza, que vão além daqueles percebidos imediatamente. A essa construção simbólica, que vai guiar toda ação humana, dáse o nome de cultura. A cultura, nesse sentido amplo, engloba a língua que falamos, as ideias de um grupo, as crenças, os costumes, os códigos, as instituições, as ferramentas, a arte, a religião, a ciência, enfim, toda as esferas da atividade humana. Mesmo as atívidades básicas de qualquer espécie, como a reprodução e a alimentação, são realizadas de acordo com regras, usos e costumes de cada cultura particular. Os rituais de namoro e casamento, os usos referentes à alimentação (o que se come, como se come), o preparo dos alimentos, o tipo de roupa que vestimos, a língua que falamos, as palavras de nosso vocabulário, tudo isso é regulado pela cultura à qual pertencemos. A função da cultura é tornar a vida segura e contínua para a sociedade humana. Ela é o “cimento” que dá unidade a um certo grupo de pessoas que divide os mesmos usos e costumes, os mesmos valores. Deste ponto de vista, portanto, podemos dizer que tudo o que faz parte do mundo humano é cultura. A dança dos guerreiros 1.1. A unidade Humana e a iversidade Cultural: O que é a diversidade cultural? Indissociável da dignidade humana, a diversidade cultural constitui a condição primeira para o diálogo entre as ulturas. Seja do ponto de vista dos indivíduos, dos grupos u dos Estados, ela integra de fato uma dupla dimensão: Remete primeiramente às diferentes expressões culturais, sejam elas passadas (o património) ou presentes (a criação); A Questão da Diversidade e do Direito e Diferença Paralelamente, lança passarelas entre as culturas favorecendo sua compreensão mútua e a criatividade, garantias de enriquecimento comum. Ela compreende o direito dos países de dar apoio à criação nacional e, ao mesmo tempo, ao acesso do público à pluralidade das culturas do mundo. Etnocentrismo É uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é a existência; No plano intelectual, pode ser visto como a dificuldade de pensarmos a diferença; No plano afetivo, como sentimentos de estranheza, medo, hostilidade, etc. Como uma espécie de pano de fundo da questão etnocêntrica temos a experiência de um choque cultural. De um lado, conhecemos um grupo do “eu”, o “nosso” grupo, que come igual, veste igual, gosta de coisas parecidas, conhece problemas do mesmo tipo, acredita nos mesmos deuses, casa igual, mora no mesmo estilo, distribui o poder da mesma forma empresta à vida significados em comum e procede, por muitas maneiras, semelhantemente. Aí então de repente, nos deparamos com um “outro”, o grupo cio “diferente” que, às vezes, nem sequer faz coisas como as nossas ou quando as faz é de forma tal que não reconhecemos como possíveis. E, mais grave ainda, este “outro” também sobrevive à sua maneira, gosta dela, também está no mundo e, ainda que diferente, também existe. Este choque gerador do etnocentrismo nasce, talvez, na constatação das diferenças. Grosso modo, um mal-entendido sociológico. A diferença é ameaçadora porque fere nossa própria identidade cultural. O monólogo etnocêntrico pode, pois, seguir um caminho lógico mais ou menos assim: Como aquele mundo de doidos pode funcionar? Espanto! Como é que eles fazem? Curiosidade perplexa? Eles só podem estar errados ou tudo o que eu sei está errado! Dúvida ameaçadora?! Não, a vida deles não presta, é selvagem, bárbara, primitiva! Decisão hostil! O grupo do “eu” faz, então, da sua visão a única possível ou, mais discretamente se for o caso, a melhor, a natural, a superior, a certa. O grupo do “outro” fica, nessa lógica, como sendo engraçado, absurdo, anormal ou ininteligível. Este processo resulta num considerável reforço da identidade do “nosso” grupo. 1.2. A Questão da Diversidade e o Direito à Diferença A Conferência Geral da “UNESCO” realizada em 2 de novembro de 2001 produziu um documento intitulado “Declaração Universal da UNESCO sobre a diversidade cultural” e traduz essa defesa em relação ao papel transformador da cultura na sociedade. Identidade, Diversidade e Pluralismo Artigo 1 - A diversidade cultural, patrimônio comum da humanidade. A cultura adquire formas diversas através do tempo e do espaço. Esta diversidade se manifesta na originalidade e na pluralidade das identidades que caracterizam os grupos e as sociedades que compõem a humanidade. Fonte de intercâmbios, de inovação e de criatividade, a diversidade cultural é, para o gênero humano, tão necessário como a diversidade biológica para os organismos vivos. Neste sentido, constitui o patrimônio comum da humanidade e deve ser reconhecida e consolidada em benefício das gerações presentes e futuras. Artigo 2 - Da diversidade cultural ao pluralismo cultural. Em nossas sociedades cada vez mais diversificadas, tornas indispensável garantir uma interação harmoniosa e uma vontade de pessoas e grupos com identidades culturais conviverem ao mesmo tempo plurais, variadas e dinâmicas. As políticas que favorecem a inclusão e a participação de todos os cidadãos garantem a coesão social, a vitalidade da sociedade civil e a paz. Definido dessa maneira o pluralismo cultural constitui a resposta política ao eixo da diversidade cultural. Inseparável de um contexto democrático, o pluralismo cultural é propício aos intercâmbios culturais e ao desenvolvimento das capacidades criadoras que alimentam a vida pública. Artigo 3 - A diversidade cultural, fator de desenvolvimento. A diversidade cultural amplia o leque de opções disponíveis a todos; é uma das fontes de desenvolvimento, entendido não somente em termos de crescimento econômico, mas também como meio de acesso a uma existência intelectual, afetiva, moral e espiritual satisfatória. Diversidade Cultural e Direitos Humanos Artigo 4 - Os direitos humanos, garantia da diversidade cultural. A defesa da diversidade cultural é um imperativo ético, inseparável do respeito à dignidade da pessoa humana. Ela pressupõe o compromisso de respeitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais, em particular os direitos das minorias e os povos autóctones. Ninguém pode invocar a diversidade cultural para violar os direitos humanos garantidos pelo direito internacional, nem para limitar o seu alcance. Porem, pesar de toda legislação que visa garantir a Diversidade Cultural, têm-se inúmeras notícias sobre o verdadeiro extermínio de determinadas culturas, a exemplos dos índios. A Relação entre a estrutura social e a estratificação: as Castas, os Estamentos e as Classes oda a percepção de uma determinada sociedade implica na analise das diferenças que existem entre os seus membros. A Estratificação Social, pode ser relacionada não só ao aspecto político, mas também a valores de cultura, hábitos, costumes e padrões morais específicos. Podemos afirmar, portanto, que mesmo antes do surgimento da propriedade privada já existiam diferenças sociais e grupos poderiam ser identificados, não por seu destacamento econômico, mas por seus valores culturais mais amplos. Dessa forma, vamos analisar as três mais importantes formas de desigualdade que uma determinada sociedade pode apresentar. Da esquerda para a direita, um nobre, um burguês e um representante do clero, pertencentes, respectivamente, ao segundo, terceiro e primeiro Estado, que, juntos, formavam o Estado Gerais. Seus trajes identificavam o grupo a que pertenciam. 1. Castas: A sociedade de castas está diretamente relacionado à Antiguidade Oriental, é verdade que temos exemplos históricos dessa modalidade de desigualdades em alguns pontos da Grécia Antiga, mas no entanto foi na Índia que essa organização consolidou-se. A sociedade dividia em castas é aquela em que os grupos sociais são definidos pelo papel que o indivíduo desempenha na sociedade. A hierarquia entre as castas e definida pela separação entre trabalho manual e trabalho intelectual, sempre valorizando a última em relação à primeira. Em outras palavras, o que definia posição de um indivíduo em uma sociedade é a casta ao qual ele pertence. Dessa forma, podemos afirmar que existiam castas de burocratas, de médicos, de sacerdotes, de lavradores, de comerciantes, e assim por diante. Esse processo segue uma rígida hierarquia e hereditariedade, ou seja, se você nascer membro de uma família de sacerdotes, naturalmente você vai ser um sacerdote. Os indivíduos nesse modelo são identificados diretamente com a casta ao qual pertencem apresentando sempre um mesmo nome, usando sempre um mesmo tipo de roupa, ou uma cor específica. Esses indivíduos, obrigatoriamente seguem um modelo de casamento endogâmico (com membros da própria casta) 2. Estamentos: A sociedade estamental pode ser relacionada diretamente ao mundo feudal, na Idade Média. É verdade que conseguimos identificar o mundo estamental em algumas pólis da Grécia Antiga (leia-se em Esparta). É importante ressaltar o que define o estamento, ou seja, o origem das diferenças estarem relacionadas ao nascimento e a inexistência (ou existência em pouca escala) de mobilidade social. De maneira geral, se você nascer servo você irá morrer como tal e assim por diante. É importante ressaltar que existe um código jurídico que é aceito e legitimado no contexto dessa sociedade: “A nobreza era constituída para defender a todos, o clero para rezar por todos, e os comuns para proporcionar comida a todos”, que era incorporado e aceito pelos indivíduos que compunham esse corpo social. 3. Classes: A noção de classe social está diretamente ligada ao mundo capitalista, e foi dimensionada conceitualmente na Sociologia, pela primeira vez, por Karl Marx. Para ele a classe social é a forma de organização da sociedade que expressa a exploração econômica de um determinado grupo social por outro. É, portanto uma diferenciação essencialmente econômica e aberta, ou seja, que aceita mobilidade em todos os níveis, seja horizontal ou vertical. Para Marx, servos, vilões (deveres e obrigações em troca da proteção dos senhores) CAMADA PRODUTIVA (Dominada pelos senhores) Clero, nobreza (decisões, direção e direitos) CAMADA DOMINANTE podemos considerar a existência de dois grandes grupos sociais no capitalismo (leia-se classes sociais) a Burguesia (os donos dos meios de produção) e o proletariado (aquele que tem apenas a sua força de trabalho). Para Max Weber, a caracterização de uma classe social deve ser econômica, mas também deve ser percebido seus aspectos sociais, baseada no status. Na abordagem multidimensional deste autor a analise das classes sociais devem levar em conta que os indivíduos podem se situar na escala de estratificação de modo diferente, nessas duas dimensões. Por exemplo, um indivíduo pode possuir riqueza suficiente para colocá-lo no topo da escala social no âmbito da ordem econômica, mas não possuir honra e prestígio suficiente para o situar no patamar mais elevado no âmbito a dimensão social. Sua riqueza pode não ser considerada fonte de riqueza e honraria. Conceito de ideologia É difícil encontrar na ciência social um conceito tão complexo, tão cheio de significados, quando ao conceito de ideologia. Nele se dá uma acumulação fantástica de contradições, de paradoxos, de arbitrariedades, de ambiguidades, de equívocos e de malentendidos, o que torna exatamente difícil encontrar o seu caminho nesse labirinto. O conceito de ideologia vem de Marx: ele simplesmente o retomou. Ele foi literalmente inventado (no pleno sentido da palavra: inventar, tirar de cabeça, do nada) por um filósofo francês conhecido, Destutt deTracy, discípulo de terceira categoria dos enciclopedistas, que publicou em 1801 um livro chamado Elements d' Ideologie. É um vasto tratado que, hoje em dia, ninguém tem paciência de ler. Para se ter uma idéia do pouco interesse que representa esse livro, basta dizer que, para ele, ideologia é um sub-capítuio da zoologia. A ideologia, segundo Destutt de Tracy, é o estudo científico das idéias e as idéias são o resultado da interaçao entre o organismo vivo e a natureza, o meio ambiente. É portanto, um sub-capítulo da zoologia – que estuda o comportamento dos organismos vivos - no que se refere ao estudo do relacionamento dos organismo vivos com o meio ambiente, onde trata da questão dos sentidos, da percepção sensórial, através da qual se chegaria as idéias. É por esse caminho que segue a análise, de um cientificismo materialista vulgar, bastante estrito, que caracteriza essa obra de Destutt de Tracy. Alguns anos mais tarde, em 1812, Destutt e seu grupo, discípulos de todos do enciclopedismo francês, entraram em conflito com Napoleão que, em um discurso em que atacava Destutt de Tracy e seus amigos, os chamou de ideólogos. No entanto, para Napoleão, essa palavra já tem um sentido diferente; os ideólogos são metafísicos, que fazem abstraçâo da realidade, que vivem em um mundo especulativo. Deste modo, paradoxalmente, Destutt e seus amigos, que queriam fazer uma análise científica materialista das ideologias, fora, chamados de ideólogos por Napoleão, no sentido de especuladores metafísicos e, como Napoleão tinha mais peso, digamos, ideológico, que eles, foi a sua maneira de utilizar o termo que teve sucesso na época e que entrou para o linguajar corrente. Quando Marx, na primeira metade do século XIX, encontra o termo em jornais, revistas e debates, ele está sendo utilizado em seu sentido napoleônico, isto é, considerando ideólogos aqueles metafísicos especuladores, que ignoram a realidade. É nesse sentido que Marx vai utilizá-lo a partir de 1846 em seu livro chamado A Ideologia Alemã. É esse o caminho tortuoso do termo: começa com um sentido atribuído por Destutt, que depois é modificado por Napoleão e, em seguida, é retomado por Marx que, por sua vez, lhe da um outro sentido. Em A Ideologia Alemã, o conceito de ideologia aparece como equivalente à ilusão, falsa consciência, concepção idealista na qual a realidade é invertida e as idéias aparecem como motor da vida real. Mais tarde Marx amplia o conceito e fala das formas ideológicas através das quais os indivíduos tomam consciência da vida real, ou melhor, a sociedade toma consciência da vida real. Ele as enumera como sendo a religião, a filosofia, a moral, o direito, as doutrinas políticas, etc. Para Marx, claramente, ideologia é um conceito pejorativo, um conceito crítico que implica ilusão, ou se refere a consciência deformada da realidade que se dá através da ideologia dominante: as idéias das classes dominantes são as ideologias dominantes na sociedade. Mas o conceito de ideologia continua sua trajetória no marxismo posterior a Marx, sobretudo na obra de Lênin, onde ganha um outro sentido, bastante diferente: a ideologia como qualquer concepção da realidade social ou política, vinculada aos interesses de certas classes sociais. Para Lênin, existe uma ideologia burguesa e uma ideologia proletária. Aparece, então, a utilização do termo no movimento comunista, que fala de luta ideológica, de trabalho ideológico, de reforço ideológico, etc. Ideologia deixa de ter o sentido crítico, pejorativo, negativo, que tem em Marx, e passa a designar simplesmente qualquer doutrina sobre a realidade social que tenha vinculo com uma posição de classe. Assim a palavra vai mudando de sentido, não só quando passa de uma corrente para outras, mas também no seio de uma mesma corrente de idéias: o marxismo. Há uma mudança considerável de significado entre, por exemplo. Marx e Lênin. Finalmente, há uma tentativa sociológica de por um pouco de ordem nessa confusão. Essa tentativa é realizada pelo famoso sociólogo KarI Mannheim em seu livro Ideologia e Utopia, onde procura distinguir os conceitos de ideologia e de utopia. Para ele, ideologia é um conjunto das concepções, idéias, representações, teorias, que se orientam para a estabilização, ou legitimação, ou reprodução, da ordem estabelecida. São todas aquelas doutrinas que tem um certo caráter conservador no sentido amplo da palavra, isto é, consciente ou inconsciente, voluntária ou involuntariamente, servem a manutenção da ordem estabelecida, utopias, ao contrário, são aquelas idéias, representações e teorias que aspiram outra realidade, uma realidade ainda inexistente. Tem, portanto, uma dimensão crítica ou de negação da ordem social existente e se orienta para sua ruptura. Deste modo, as utopias tem uma função subversiva, uma função crítica e, em alguns casos, uma função revolucionaria. Percebe-se imediatamente que ideologia e utopia são duas formas de um mesmo fenômeno, que se manifesta de duas maneiras distintas. Esse fenômeno é a existência de um conjunto estrutural e orgânico de idéias, de representações, teorias e doutrinas, que são expressões de interesse sociais vinculados às posições sociais de grupos ou classes, podendo ser, segundo o caso, ideológico ou utópico. Mannheim utiliza para esses fenômenos, para esse conjunto vinculado a posição das classes sociais, otermo "ideologia total". Deste modo, o conceito de ideologia, na obra de Mannheim, aparece com dois sentidos diferentes: ideologia total, que é o conjunto daquelas formas total, que é o conjunto daquelas formas de pensar, estilos de pensamento, pontos de vista, que são vinculados aos interesses, às posições sociais de grupos ou classes; ideologia em seu sentido restrito, que é a forma conservadora que essa ideologia total pode tomar, em oposição a forma crítica, que ele chama de utopia. Para se tentar evitar essa terminológica e conceitual, eu acho que é útil tomar a distinção feita por Mannheim entre ideologia e utopia, mas se deve procurar outro termo que defina o que há de comum a esses dois fenômenos. O termo que me parece mais adequado para isso, e que proponho como hipótese neste momento é "visão social de mundo". Visões sociais de mundo seriam, portanto, todos aqueles conjuntos estruturados de valores, representações, idéias e orientações conjuntivas. Conjuntos esses unificados por uma perspectivas determinada, por um ponto de vista social, de classes sociais determinadas. As visões sociais de mundo poderiam ser de dois tipos: visões ideológicas, quando servissem para legitimar, justificar, defender ou manter a ordem social do mundo; visões sociais utópicas, quando tivessem uma função crítica, negativa, subversiva, quando apontassem para uma realidade ainda não existente. Vamos ver agora o que seria uma análise dialética de uma visão de mundo, de uma ideologia ou de uma utopia. Obviamente não vamos ver o que é o método dialético, vamos apenas dar algumas pinceladas bem sumarias. Começaremos por uma definição do método dialético que pessoalmente me parece muito agradável: "Eu sou o espírito que sempre nega, e isso com razão porque tudo que existe merece acabar". Quem utiliza esta expressão é o diabo de Goethe, quando se apresenta pela primeira vez a fausto. Para Goethe, ela não se refere apenas ao diabo, é uma forma de manifestação do espírito humano. Essa é uma boa definição, não só porque Goethe foi seu precursor, mas também porque o Fausto de Goethe pode ser considerado a primeira grande obra da dialética, anterior a Hegel. Isto porque, em sua formulação, encontramos pelo menos um elemento essencial do método dialético, que a categoria do movimento perpétuo, da transformação permanente de todas as coisas. A hipótese fundamental da dialética é de que não existe nada eterno, nada fixo, nada absoluto. Não existem idéias, princípios, categorias, entidades absolutas, estabelecidas de uma vez por todas. Tudo o que existe na vida humana e social está em perpétua transformação, tudo é perecível, tudo está sujeito ao fluxo da história. Pode-se dizer também que esse princípio dialético se amplia à natureza onde existe uma diferença entre a história natural e a história humana que está muito bem resumida numa fórmula do filósofo italiano Vico, que diz o seguinte: "A diferença entre a história natural e a história humana é que fomos nós que fizemos a história humana, mas não a história natural". Isso quer dizer que a história natural, por exemplo, a história do sistema solar, do desenvolvimento dos planetas, não foi obra humana, mas a história social, o desenvolvimento das civilizações, foi produto social da ação dos homens. Essa é uma particularidade da dialética histórica, e uma distinção fundamental da dialética que poderia existir na natureza. Marx retoma essa idéia de Viço e da tradição historicista, inclusive essa sua passagem em O Capital. Isso não ocorre por acaso. Para Marx, esse elemento é um dos aspectos metodológicos essenciais na distinção de seu método e a economia política burguesa ou o positivismo (ambos tem uma perspectiva metodológica comum). Para Marx, aplicando o método dialético, todos os fenômenos económicos ou sociais, todas as chamadas leis da economia e da sociedade, são produto da ação humana e, portanto, podem ser transformados por essa ação. Não são leis eternas absolutas ou naturais. São leis que resultam da ação e da interação, da produção e da reprodução da sociedade pelos indivíduos e, portanto, podem ser transformadas pelos próprios indivíduos num processo que pode ser, por exemplo, revolucionário. Esta é uma idéia da dialética e um seu princípio que, aplicado no terreno social, toma forma de historicismo, isto é, de afirmação da historicidade de todas as instituições, estruturas, leis e formas de vida social. É por isso que Gramsci, um dos principais marxistas do século XX, dizia que o marxismo é um historicismo radical, uma concepção para a qual todos os produtos da vida social são historicamente limitados. Obviamente, esse princípio também se amplia às ideologias, ou as utopias, ou as visões sociais de mundo, Todas elas são produtos sociais. Todas elas têm que ser analisadas em sua historicidade, no seu desenvolvimento histórico, na sua transformação histórica. Portanto, essas ideologias ou Utopias, ou visões de mundo tem que ser desmistificadas na sua pretensão e uma validade absoluta. Uma vez que não existem princípios eternos, nem verdades absolutas, todas as teorias, doutrinas e interpretações de realidade, tem que ser vistas na sua limitação histórica. Esse é o coração mesmo do método dialético, é o primeiro elemento do método e da análise dialética. Nessa consideração radical da historicidade, da transitoriedade de todos os fenômenos sociais, o próprio marxismo tem que aplicar a si próprio esse princípio, tem que considerar a si mesmo em sua transitoriedade.