ANOTAÇÕES
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Eu quero terra, fogo, pão, açúcar, farinha, mar, livros, pátria para todos, por isso ando
errante
Pablo Neruda
PRÓXIMO SÁBADO É DIA DE CINEMA:
PRECISAMOS DECIDIR
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Maiores Informações: [email protected]
Orkut – sabadoediadecinema
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Gabarito:
APRESENTAÇÃO
Sábado é Dia de Cinema é uma atividade cultural de complementação curricular que
1: [C] 2: [B] 3: [E] 4: [A] 5: [A] 6: [E] 7: [C] 8: [D] 9: [C]
exibe filmes, seguidos de debates, a alunos dos cursos Pré - vestibulares Comunitários e
de escolas públicas do município de São Gonçalo. É uma parceria entre A Faculdade de
Formação de Professores – UERJ e o SEPE – São Gonçalo, participe.
Cara Do Brasil - Ney Matogrosso - Composição: Celso Viáfora, Vicente Barreto
Eu estava esparramado na rede / jeca urbanóide de papo pro ar
me bateu a pergunta, meio à esmo: / na verdade, o Brasil o que será?
O Brasil é o homem que tem sede / ou quem vive da seca do sertão?
Ou será que o Brasil dos dois é o mesmo / o que vai é o que vem na contra-mão?
O Brasil é um caboclo sem dinheiro / procurando o doutor nalgum lugar
ou será o professor Darcy Ribeiro / que fugiu do hospital pra se tratar
A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho / Ninguém precisa consertar
Se não der certo a gente se virar sozinho / decerto então nunca vai dar
O Brasil é o que tem talher de prata / ou aquele que só come com a mão?
Ou será que o Brasil é o que não come / o Brasil gordo na contradição?
O Brasil que bate tambor de lata / ou que bate carteira na estação?
O Brasil é o lixo que consome / ou tem nele o maná da criação?
Brasil Mauro Silva, Dunga e Zinho / que é o Brasil zero a zero e campeão
ou o Brasil que parou pelo caminho: / Zico, Sócrates, Júnior e Falcão
A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho... O Brasil é uma foto do Betinho
ou um vídeo da Favela Naval? / São os Trens da Alegria de Brasília
ou os trens de subúrbio da Central? / Brasil-globo de Roberto Marinho?
Brasil-bairro: Carlinhos-Candeal? / Quem vê, do Vidigal, o mar e as ilhas
ou quem das ilhas vê o Vidigal? / O Brasil encharcado, palafita?
Seco açude sangrado, chapadão? / Ou será que é uma Avenida Paulista?
Qual a cara da cara da nação? A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho
...
SOBRE O FILME:
“Linha de Passe” narra o conturbado dia-a-dia de quatro irmãos e uma mãe que,
por conta dos limites da vida, tentam se reinventar a todo instante. Reginaldo (Kaique
Jesus Santos), o mais novo e único negro na família, se sente deslocado pela sua diferença racial e passa a procurar obsessivamente seu pai biológico; Dario (Vinícius de Oliveira)
sonha com uma carreira de jogador de futebol, mas, aos dezoito anos, não consegue de
forma alguma um espaço dentro de um clube esportivo; Dinho (José Geraldo Rodrigues),
que esconde um passado comprometedor, busca redenção na religião evangélica; Dênis
(João Baldasserini), o mais velho e o mais ousado dos outros irmãos, tenta correr atrás
de seus objetivos em cima de uma motocicleta. No centro desta família está Cleuza (Sandra Corveloni), 42 anos, grávida do quinto filho. Ela trabalha duro como empregada doméstica enquanto luta para manter os filhos na linha. Direção: Walter Salles / Daniela Thomas
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10: Na resposta da letra “a”, o candidato deveria dizer que a primeira imagem diz respeito à
conquista da Copa do Mundo de 1970 que ocorreu durante o governo Médici, momento de auge
da repressão política aos movimentos de contestação. Sobre a segunda imagem, uma resposta
possível seria que a Democracia Corinthiana ocorreu durante o governo Figueiredo, que deu
prosseguimento à abertura política iniciada no governo Geisel.
A alternativa “b” exigia muito cuidado para não errar o contexto geral existente em
cada um dos períodos. O vestibulando poderia dizer que a conquista da Copa de 1970 foi utilizada como instrumento de propaganda pelo regime militar. Procurava-se, com isso, associar o
feito futebolístico à política do governo, principalmente no que diz respeito ao “milagre” econômico. A Democracia Corinthiana, por sua vez, pode ser entendida como uma tentativa de maior
engajamento político por parte dos jogadores. Aproximando-a do movimento das Diretas-Já!, a
“democracia” defendia a eleição direta e contestava a ditadura militar. No aspecto profissional,
procurava uma maior transparência nas relações de trabalho entre clubes e jogadores.
11: Na alternativa “a”, o candidato deveria dizer que, supostamente, no decorrer da partida de
futebol, as hierarquias sociais desaparecem, são todos iguais, e as distinções se devem, no
limite, aos méritos dos jogadores.
Já na letra “b”, o candidato poderia utilizar, apenas para citar os casos mais conhecidos, o exemplo do fascismo de Mussolini nas Copas de 1930 e 1934; do nazismo de Hitler no
Mundial de 1934; da ditadura militar brasileira na conquista do tricampeonato do México de
1970 e da ditadura militar Argentina na Copa de 1978.
12: O candidato deve identificar a ocorrência, naquele período, 1942-1946, da Segunda Grande
Guerra (1939-1945). As dimensões desse conflito, em especial a partir de 1941, expandiram-se
naquilo que se referiu ao número de países diretamente envolvidos e à ampliação das áreas de
enfrentamento militar. Cabe, nesse sentido, destacar, a entrada dos EUA e da ex-URSS no
conflito e a formalização, em 1942, da criação do bloco dos Aliados, contando com a presença
dos governos soviético, norte-americano e inglês, entre outros. Tal conjuntura, marcada pela
decisão dos aliados de fortalecer a ofensiva contra os países do Eixo (Alemanha, Japão e Itália),
interferiu, de forma direta, na participação de outros países, americanos e asiáticos, nos enfrentamentos bélicos, no front europeu, no Pacífico e nas áreas coloniais africanas. Em um
quadro de expansão da guerra e no momento imediatamente posterior ao seu fim não houve
condições e recursos de organizar uma competição esportiva – Copa do Mundo de Futebol –
que se pautava no entendimento e na cooperação diplomático entre os países que dela viessem
a participar.
13: O candidato deve identificar a vigência na sociedade brasileira, em 1970, do governo militar, de natureza autoritária, implantado pelo golpe de 1964. Tal regime, em especial, a partir
de 1968, instaurou uma ordem pautada na ampliação do poder decisório do governo federal e,
em contrapartida, nos cerceamentos da liberdade de grupos, indivíduos e instituições. A conquista do tricampeonato pela seleção brasileira, na Copa do Mundo de Futebol, no México, foi
apropriada pela propaganda oficial do regime nos termos não só do ufanismo dos “noventa
milhões em ação”, como também, pela associação dessa vitória a mais uma das tantas realizações que o país então alcançara sob a direção dos que então presidiam a república. A Copa de
70, comemorada euforicamente nas ruas das capitais brasileiras, foi, na leitura daqueles dirigentes políticos, mais um símbolo da grandeza e do desenvolvimento nacional.
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12. (PUC RIO 2006)
Leia o texto abaixo e responda às questões propostas:
A história das Copas do Mundo de Futebol está, em diversos aspectos, associada às transformações que marcaram as relações internacionais contemporâneas.
Gestada, como projeto, pela FIFA, no decorrer das décadas de 1910 e 1920, a primeira Copa, ocorrida em 1930, no Uruguai, contou com a participação das seleções
de 13 países americanos e europeus. Realizadas, desde então, de quatro em quatro
anos, vieram a ser suspensas em 1942 e 1946, e reiniciadas, com regularidade, a
partir de 1950. Dessa data em diante, o número de países inscritos nas eliminatórias e de países participantes tendeu a crescer. Na Copa de 1958, na Suécia, 46
países estiveram presentes nas eliminatórias, tendo 16 disputado o campeonato. Na
Copa de 1970, no México, tais números passaram, respectivamente, para 68 e 16.
Em 1990, na Itália, foram 103 seleções nas eliminatórias e 24 participantes. Em
2002, na Coréia do Sul e no Japão, alcançaram-se os números de 193 países nas
eliminatórias e 32 participantes. Em paralelo a esse aumento, assistiu-se, na década
de 1990, à diversificação dos países inscritos. As seleções participantes foram não
somente americanas e européias, como em 1930, mas também, africanas e asiáticas. A Copa, em alguma medida, se globalizava.
Caracterize a conjuntura internacional entre 1942 e 1946, de modo a explicar a suspensão das Copas do Mundo de Futebol nesse período.
13. (PUC RIO 2006)
O tricampeonato da seleção brasileira na Copa de 1970, no México, foi bastante comemorado pelo governo da época. Identifique a natureza do regime político brasileiro naquele momento e explique de que forma a vitória na Copa foi utilizada na propaganda de suas realizações.
TEXTO 1
WALTER SALLES E DANIELA THOMAS
Angélica Bito
A parceria na direção de filmes de Walter Salles e Daniela
Thomas teve início há mais de dez anos, com Terra Estrangeira (1995). Três anos depois, em 1998, dirigiram o
segundo longa-metragem juntos, O Primeiro Dia, e hoje,
dez anos depois, apresentam o terceiro longa fruto desse
trabalho em conjunto da dupla: Linha de Passe, após
dirigirem um dos curtas da coletânea Paris, Te Amo
(2006). Linha de Passe marca mais uma inserção dos
diretores no universo do jovem brasileiro. A dupla conversou com o Cineclick sobre o filme, que teve sua primeira
exibição no prestigiado Festival de Cannes, onde Sandra
Corveloni levou o prêmio de Melhor Atriz pela atuação neste trabalho. Confira:
Alguns críticos que viram Linha de Passe no Festival de Cannes interpretaram o final como pessimista. É isso mesmo? A visão que vocês têm do país
mudou ao longo do tempo?
Walter Salles: Quando Central do Brasil foi feito, estávamos saindo de 20 anos de
regime militar, daqueles tempos extremamente difíceis do "desgoverno" Collor.
Então, o filme estava impregnado pelo desejo do reencontro com um país profundo,
a busca pelo pai se misturava com a busca pelo país. Talvez a impressão que eu
tivesse naquele momento é que, eliminados esses ciclos tão pouco virtuosos, encontraríamos uma capacidade de nos redefinirmos. Talvez tivesse a esperança que os
problemas culturais também fossem resolvidos. A verdade é que não foram e não é
nenhuma desesperança ligada a um governo A, B ou C. Inclusive, tenho uma visão
positiva do governo atual; finalmente, o país se volta ao mercado interno. Corremos
Da próxima vez que você jogar ou vir uma partida de futebol na TV, pense
o Brasil todo e percebemos que o Bolsa Família faz uma grande diferença para mi-
que por trás do esporte há um outro jogo ocorrendo, muitas vezes político e outras
lhões de pessoas. Entendo quem faça críticas ao programa afirmando que é assis-
vezes sociológico. Além disso, reflita que ele também pode ser extremamente im-
tencialista, mas tem repercussões inegavelmente positivas. Por um lado, estamos
portante para você passar no vestibular.
avançando; pelo outro, não podemos fechar os olhos pro acirramento da violência
nos centros urbanos que assola a maior parte do país; não podemos deixar de ver
Fique antenado!
que as mudanças nas estatísticas não se refletem na rua, ao mesmo tempo em que
chamar a polícia não é a solução, ela é mais complexa do que isso e tem a ver com
a capacidade de lidar com problemas estruturais que se perenizam há 508 anos. Do
momento de otimismo de Central do Brasil, estamos frente à nossa própria realida-
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de, não há mais em quem colocar a culpa e é preciso reinventar um país. No entan-
blicos, o Movimento do Custo de Vida e os metalúrgicos do ABC paulista só pude-
to, o filme (Linha de Passe) tem um desejo de reinvenção a movê-lo para frente e o
ram expressar sua insatisfação com a abertura, criada pela Nova República.
"anda, anda, anda" no final é a melhor tradução disso, a demonstração que acreditamos ser possível avançar. Essa relação entre irmãos transcende a questão puramente familiar, é a "fátria" que vai além da família, ela funciona numa horizontali-
d) As músicas “Eu te amo, meu Brasil” e “Você também… responsável (exaltando o
Mobral), da dupla Don e Ravel, contribuíam para o clima nacionalista-ufanista da
época.
e) A imprensa alternativa, representada pelos jornais Pasquim, Opinião e Movimen-
dade que transcende aquela família da qual o filme trata.
to, constituiu importante espaço de crítica à ditadura militar e de defesa das liber-
Terra Estrangeira, Central do Brasil e agora Linha de Passe - tratam da au-
dades democráticas.
sência da figura paterna. Explique melhor por que isso ocorre.
Daniela Thomas: Neste filme acho que até mais forte, né? A ausência paterna se
10. (Fuvest 2001)
repete no filho, o Denis sem perceber faz a mesma coisa com o filho dele, e também
na mãe, que está grávida de outro filho sem pai. Este tema data de Terra Estrangeira. A experiência foi curiosa porque o José Miguel Wisnik, que fez a música do filme,
nos alertou sobre o livro Hello Brasil, do Contado Calligaris, no qual ele fala que a
ausência do pai no Brasil é a condição primeira de ser brasileiro, aquele que é abandonado; ele vem aqui, pega tudo e larga o filho aqui. No caso de Linha de Passe,
além do fator histórico, como sociedade, a idéia de depositarmos nossas necessidades acima da gente é ausente, essa é a verdade. Não temos com quem contar no
dia-a-dia. Investigamos no filme como você faz para viver sabendo que não há isso,
só podendo contar consigo ou seu irmão, numa instância em que todos são iguais. A
mãe também não está acima, é mais uma entre eles. Essa foi a idéia ao trabalhar
com a "fátria". Nessa coisa de não amarrar o fim está nossa crença de que dentro
das pessoas há algo mais forte do que o asfalto, a sociedade; é essa capacidade de
As fotos acima evidenciam relações entre política e futebol. Observando-as,
a)
responda quais as diferenças políticas entre os dois momentos indicados;
b)
compare a forma de atuação política dos jogadores em ambos os casos.
recriar, de se dar mais uma oportunidade.
Este filme também é sobre jovens. Para entender o país, o jovem é o melhor caminho?
Walter Salles: Esta condição temos desde a largada, ela está em Terra Estrangeira, é um ponto de inflexão na história do país, deixamos de ser um país de imigração para ser de emigração e quem partem são os jovens, que deveriam ficar aqui.
Dez anos mais tarde, tivemos vontade de olhar essa mesma faixa etária que havia
partido no filme anterior. No entanto, agora eles confrontam problemas reais, concretos. A gente queria olhar para eles de uma forma diferente da qual são olhados
11. (Vunesp de 1999)
“(...) fiquei à janela vendo uns meninos maiores jogar bola com os pés (...). Nesse
momento não compreendi a arma política nascente, nem a revolução social que se
aproximava. Até hoje me é difícil compreender o fenômeno. Uma bola, um pé que
bate, outro que rebate. Várias xingações, um ‘juiz ladrão’, estará aí a política geral,
será este o destino do mundo?” (Jorge Americano. “São Paulo nesse tempo”)
Considere as rememorações de Jorge Americano sobre São Paulo dos anos
20 e responda:.
a) Por que o autor qualifica o futebol como uma “revolução social”?
no cinema brasileiro, que sempre tem pré-julgado jovens de periferia; na maioria
das vezes estão armados ou consumindo alguma coisa. Queríamos ir além disso.
Tem um desses irmãos que toma essa direção, mas volta, porque não dá pra tapar
b) Dê um exemplo de momento histórico no qual o futebol foi usado como “arma
política”.
o sol com a peneira, não dá pra virar um conto de fadas. Queríamos mostrar pesso-
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7. (Fuvest-SP-1997) A vitória do Brasil na Copa do Mundo de 1970:
as que tentam se reinventar dentro das saídas institucionais que existem. Nisso, os
a) não teve qualquer repercussão no campo político, por se tratar de um acontecimento estritamente esportivo.
b) alentou o trabalho das oposições que deram destaque à capacidade do povo
brasileiro de realizar grandes proezas.
c) propiciou uma operação de propaganda do governo Médici, tentando associar a
documentários do João foram muito importantes. Futebol, por exemplo, não fala da
espetacularização do futebol com "Ronaldinhos", "Robinhos" e outros que estão
vivendo a vida dos clubes europeus e traduzem muito bem o processo de globalização. De um lado você tem um número muito pequeno de pessoas que vivem aquela
irrealidade; do outro lado, você tem uma massa imensa de jovens - se fosse usar
conquista ao regime autoritário.
d) favoreceu o projeto de abertura do general Geisel, ao criar um clima de otimis-
um termo marxista, diria que é um "exército de reservas" - que tentam passar por
esse funil pra ser outorgado numa segunda chance. Esse universo interessava a
mo pelas realizações do governo.
e) alcançou repercussão muito limitada, pois os meios de comunicação não tinham
a eficácia que têm hoje.
gente, queríamos olhar o contra campo daquilo que você vê na televisão; a gente só
vê os poucos que conseguem chegar lá, mas o que acontece com as centenas de
milhares que não chegam?
8. (Unesp-SP-2001) Frases como “Ninguém segura este País”, “Ame-o ou deixe-o”,
“O Brasil é feito por nós”, veiculadas através de cartazes, adesivos e documentários
de televisão e cinema e o uso político da marchinha “Pra frente, Brasil”, que marcou
a conquista do tricampeonato mundial de futebol pelo Brasil, expressam:
a) euforia nacional pelas conquistas democráticas, asseguradas pela Constituição
Os evangélicos são vistos de uma forma bastante preconceituosa no cinema
brasileiro, o que não ocorre em Linha de Passe. Qual foi o cuidado para que
isso não ocorresse?
Daniela Thomas: Tivemos uma preocupação enorme. Tanto que isso está na gênese de Santa Cruz, que acompanha a criação de uma igreja evangélica num bairro de
de 1967.
b) incentivo à abertura política democrática, que levou à anistia de presos e exilados políticos.
periferia muito pobre no Rio de Janeiro. Esse olhar sem nenhum julgamento do João
(Moreira Salles, diretor do documentário citado) foi nossa baliza. Até fizemos um
c) comemoração nacionalista pela vitória dos países Aliados na Segunda Guerra
Mundial.
esforço ao contrário porque, hoje em dia, os evangélicos estão identificados com
uma vertente da igreja, chamada avivada, que está mais ligada ao dízimo, esta que
d) campanha de integração nacional da ditadura militar, no chamado “milagre econômico”.
e) mobilização dos meios de comunicação, para comemorar a inauguração de Brasília.
tratamos no filme é mais tradicional, que ainda tem normas de vestimenta, por
exemplo. Tratamos isso o mais próximo que pudéssemos colher com a pesquisa que
fizemos: quem são esses caras, como agem, o que pensam... Observei vários cultos, tive aulas com um pastor sobre a liturgia, os procedimentos nos cultos. Tivemos
9.(UFU-MG-1999) A respeito do panorama sociocultural no Brasil entre os anos
a resposta dessas pessoas. Fiquei impressionada com a quantidade de emoção rela-
1970 e 1979, assinale a alternativa incorreta:
cionada àquilo que estão vivendo ali. Na igreja evangélica, os hinos são universais,
a) Para encobrir sua face cruel, os governos militares gastavam milhões de cruzeiros
que são como mantras que os levam a um estado de transe. Nas filmagens, deixá-
em propaganda demagógica destinada a melhorar sua imagem junto à população,
vamos isso acontecer, todos nós cantávamos juntos - Waltinho sabe todas as músi-
divulgando slogans, tais como "Brasil – ame-o ou deixe-o", que, na prática, significava "apóie o regime militar ou abandone o país".
b) O tricampeonato mundial de futebol, conquistado pelo Brasil em 1970, no México,
foi exaustivamente explorado pelo sistema de propaganda do governo, para a cria-
cas.
Como os personagens foram construídos, uma vez que eles passam por
situações e angústias universais?
ção de um clima de euforia e ufanismo. A exploração desse clima procurava mas-
Por que você se identifica quando você vê um filme do Ken Loach - que se passa na
carar a repressão, a censura e a tortura, praticados pelo governo Médici.
Irlanda, uma realidade totalmente diferente da nossa -, ou do Abbas Kiarostami,
c) Nesse período não existiram movimentos de contestação ao regime militar, pois
que se passa na realidade iraniana? Porque, de uma certa forma, os personagens
as associações de bairros, os grupos de jovens, os clubes de mães, os círculos bí-
tem desejos e angustias muito semelhantes às nossas. Tem algo pertencente ao
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humano aí, ao mesmo tempo local e universal. A partir do momento que você entende que aquele personagem é complexo e apresenta as mesmas contradições que
nós temos, é possível a identificação. Esse nível de desenvolvimento de personagem
foi feito a partir de várias camadas. A primeira delas vem do roteiro, a capacidade
de Daniela, ajudada por George Moura e Bráulio Mantovani, num segundo momento, de pesquisá-los, de olhar para eles, de esculpi-los pouco a pouco. Daí, entra o
trabalho da Fátima Toledo de dar mais verticalidade aos personagens, além do talento dos atores, a capacidade de doação deles, que no caso foi total, todo mundo
estava fazendo o primeiro filme, com exceção do Vinícius (de Oliveira, de Central do
Brasil), e eles se jogaram sem pára-quedas nessa aventura. Ninguém tinha de sair
correndo para algum outro trabalho, estavam ali para os filmes e os personagens.
Por isso que a improvisação funciona porque eles estão ali tão envolvidos com a
lógica dos personagens que você consegue improvisar dentro daquela lógica. É uma
realidade interna, esculpida num outro tempo, teve muito suor para que a realidade
interna daqueles personagens fossem encontrados. A partir dali é possível inventar,
mas antes tem de trabalhar.
Houve alguma modificação específica no filme depois de sua exibição no
Festival de Cannes, já que ele foi finalizado pouco antes de ser exibido no
evento francês?
Walter Salles: Sim, no letreiro final. (risos) Este foi o primeiro filme feito no Brasil
que neutralizou as emissões de carbono durante a filmagem. A gente sempre acha
que, por ser um bem cultural, o cinema não polui, no entanto você usa transporte
para ir buscar os atores, equipamentos e outras atividades. Fizemos um cálculo de
acordo com a produção de quantas toneladas de carbono foram utilizadas pelo filme
e neutralizamos essas emissões por meio do plantio de 7.500 árvores, que ocupam
três hectares do maciço da Pedra Branca, no Rio de Janeiro, onde foi desenvolvido o
Parque do Carbono da Pedra Branca. Esta é a grande mudança em relação a Cannes. Resolvemos fazer isso por acreditar que a questão diz respeito a todos nós.
Antes existia uma escolha: você podia ou não se sensibilizar por questões ecológicas, hoje é uma necessidade. Todos os projetos da VideoFilmes (produtora e distribuidora da qual Salles é sócio) serão neutralizados.
http://cinema.cineclick.uol.com.br/entrevista/carregar/titulo/walter-salles-e-daniela-thomas/id/152
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5. (Uff 2007)
Na sexta-feira, Trindade amanhecera enfeitada de faixas, preparadas especialmente para festejar a atuação do time brasileiro no México, às vésperas
de conquistar o tricampeonato.
- Que beleza a rua enfeitada de faixas! É quase um domingo de Pentecostes, disse Virgílio em tom bajulador, não atinando com o motivo do visível mal-estar
do político.
- Vejam aquelas faixas: VIVA MÉDICI, O PRESIDENTE CAMPEÃO. A alegria
de mágico traía sua simpatia pelos militares. Desde o golpe de 1964 tranquilizara-se
quanto ao destino do Brasil.
As faixas, espalhadas pelas ruas, lembravam o mesmo espírito decorativo
das bandeirinhas juninas. Cada qual, com dizeres particulares, endeusava um jogador. Os atletas, egressos do Olimpo, faziam parte de uma configuração épica. Sob a
custódia do próprio Netuno, em meio às espumas da glória, sobressaía o nome de
Pelé.
- Mas o que é aquilo? Polidoro gaguejou, apontando a faixa espremida entre
a de Médici e a de Pelé.
Nélida Piñon, "A doce canção de Caetana"
Assinale o fragmento que desloca o leitor de uma atitude marcadamente
passiva, diante do relato, para uma atitude de reflexão crítica.
a) - Vejam aquelas faixas: VIVA MÉDICI, O PRESIDENTE CAMPEÃO.
b) Na sexta-feira, Trindade amanhecera enfeitada de faixas.
c) Desde o golpe de 1964 tranquilizara-se quanto ao destino do Brasil.
d) As faixas, espalhadas pelas ruas, lembravam o mesmo espírito decorativo das
bandeirinhas juninas.
e) Cada qual, com dizeres particulares, endeusava um jogador.
6. (Uff 2007) Nas opções a seguir, os fragmentos fazem parte de um artigo publicado na revista "Entrelivros" (março de 2006) sobre a Copa de 1934.
Assinale o fragmento que estabelece uma vinculação imediata do esporte com o
poder político.
a) Autor bissexto sobre futebol, Gilberto Freyre logo usaria expressões de conteúdos
opostos para definir e comparar os dois estilos: "dionisíaco" para o brasileiro, e
"apolíneo", para o inglês.
b) Assim daria sentido antropológico ao estilo brasileiro, o futebol-arte, que nos
distingue dos europeus desde então.
c) Isso, pasmem, duas décadas antes de o Brasil conquistar pela primeira vez uma
Copa do Mundo, e superar, como escreveria o dramaturgo e escritor Nélson Rodrigues, o nosso secular "complexo de vira-latas".
d) A perda do team brasileiro para o italiano causou uma grande decepção e tristeza
no espírito público, como se se tratasse de uma desgraça nacional.
e) É mesmo possível que, ali, Vargas tenha percebido o apelo popular do futebol e
pensado em usá-lo como ferramenta para construir a ideia de nação.
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3. (Uff 2007) Na última Copa do Mundo, nos surpreendemos com a declaração do
técnico da seleção alemã Jürgen Klinsmann, diante da possibilidade de a Alemanha
ganhar aquela Copa e ser tetracampeã. Na verdade, a Alemanha estaria ganhando o
seu primeiro título de Copa do Mundo, afirmou Jürgen Klinsmann.
Assinale a opção que explica corretamente a afirmação do técnico alemão.
a) A Alemanha Oriental, fruto dos tratados do pós-Segunda Guerra Mundial, foi
vitoriosa nas três copas disputadas no período de domínio nazista e esses títulos
não foram reconhecidos pela FIFA.
b) A Alemanha unificada, vencedora de três copas mundiais, não teve reconhecida a
sua condição de nação porque, na época das vitórias, estava ocupada pelas forças da OTAN.
c) Os títulos mundiais ganhos pela Alemanha, no período da Guerra Fria, foram
atribuídos apenas à parte oriental.
d) A Alemanha Ocidental ganhou apenas dois dos três títulos, o outro título foi ganho pela parte oriental, ocupada por forças soviéticas.
e) A Alemanha, derrotada na Segunda Guerra Mundial, teve o seu território dividido
em duas partes e apenas a Ocidental foi vitoriosa nas três copas mundiais.
4. (Uff 2007) A tabela a seguir mostra as estatísticas de três times num torneio de futebol.
TEXTO 2
ENTREVISTA/JUCA KFOURI “O Brasil não é o país do futebol”
É isso mesmo. Segundo Juca Kfouri, “o Brasil não é o país do futebol”. E para sustentar seu argumento, Juca lança mão de uma pesquisa do DataFolha “que
mostra que maior que a torcida do Flamengo são as pessoas que dizem não ter time
de coração: 25%!”. Conversamos sobre essas e muitas outras questões com o jornalista.
por Maíra Kubík Mano e Silvio Caccia Brava
DIPLOMATIQUE – Há uma citação bastante conhecida do historiador Eric Hobsbwam sobre o futebol carregar o conflito essencial da globalização. O que você acha disso?
JUCA KFOURI – É muito boa essa sacada dele. A globalização fez com que o mundo de futebol se conhecesse inteiramente, ao menos do ponto de vista tático do
jogo. Ninguém surpreende mais ninguém. Ao mesmo tempo, a globalização permitiu
aos países mais fortes tomarem daqueles periféricos os seus maiores talentos. Nós
somos prova disso, assim como os argentinos. A concentração de capital na Europa
e na Ásia permite a eles levarem os nossos talentos. Mas, paradoxalmente, esses
talentos têm de provar a sua capacidade lá fora para servir às seleções nacionais.
Não satisfeito com o resultado do torneio, João criou, para cada time, a função
quadrática:
P(x) = (1/2) [(x - GS)2 + 2FG + (x + GF)2], x ∈ IR
substituindo GS, FG e GF pelos valores correspondentes na tabela.
Segundo o critério de João, o desempenho de cada time é representado pelo valor mínimo de P(x), de modo que, quanto maior o valor mínimo de P(x), melhor será o
desempenho do time correspondente.
Considerando a função quadrática correspondente a cada time da tabela e o critério de
João, pode-se afirmar que:
a) PRAIANO obteve o melhor desempenho; b) SERRANO obteve o melhor desempenho;
c) CAMPRESTE obteve o melhor desempenho;
d) SERRANO e PRAIANO ficam com o segundo e terceiro lugares, respectivamente, em
termos de seus desempenhos;
e) PRAIANO e CAMPESTRE ficam com o segundo e terceiro lugares, respectivamente, em
termos de seus desempenhos.
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Acaba sendo um jogo dialético. Quer dizer, a chancela do nacional vem do globalizado, o que, de alguma maneira, permite retomar a ideia do Dostoievsky de que
não há nada mais universal do que a esquina da sua casa. Ou aquela do Fernando
Pessoa, quando diz que o Rio Tejo é mais bonito do que o rio que passa na minha
aldeia, mas o Rio Tejo não é mais bonito do que o rio que passa na minha aldeia
porque não é o rio que passa na minha aldeia. Acabamos de ver isso com a convocação do Dunga: tem dois jogadores de times brasileiros que vão jogar a Copa do
Mundo pelo Brasil. Dois. Esse fenômeno ocorre claramente a partir dos anos 1980.
DIPLOMATIQUE – Um dos grandes responsáveis para dar essa tônica ao
futebol, ao que tudo indica, foi João Havelange. É coincidência ter sido um
brasileiro?
KFOURI – Não. É aquilo de a pessoa estar no lugar certo, na hora certa. O João
Havelange assumiu a FIFA (Federação Internacional de Futebol) em 1974. A eleição
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dele ocorreu no Congresso anterior à Copa da Alemanha e, portanto, após a primei-
QUESTÕES DE VESTIBULAR
ra Copa do Mundo transmitida para o mundo inteiro pela televisão, a de 1970, no
1. (Uff 2007)
A final da Copa do Mundo este ano foi disputada entre as seleções da
Itália e da França. O placar do jogo manteve-se inalterado no período normal e na prorrogação, levando a decisão à disputa por pênaltis. No começo da segunda etapa do tempo extra, o atacante Henry, do time da França, sentiu o desgaste e mal podia caminhar
devido às câimbras, sendo assim substituído por Wiltord.
A linha tracejada nos gráficos representa a concentração normal de alguns metabólitos no sangue de atletas em repouso.
Assinale a opção que contém o gráfico com as concentrações dessas moléculas
no sangue de atletas, após serem submetidos a intenso esforço físico por um longo período de tempo.
México. Havelange assumiu a FIFA com um evento que já era globalizado e se deu
conta disso. Em seguida, montou um pequeno grupo com empresas como Adidas e
Coca-Cola e, aos poucos, foi gerando o império que a federação é hoje. É inegável
que ele teve esta visão de capitalismo selvagem. E esse modelo – perverso – montado pela FIFA é reproduzido aqui pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol). É o
modelo de seitas, de pequenos grupos.
DIPLOMATIQUE – É possível traçar um paralelo entre essa situação e a especulação desenfreada do sistema financeiro, que recentemente arrastou o
mundo para uma enorme crise? Não seria necessário algum tipo de regulamentação?
KFOURI – Sem dúvida. Hoje na Europa há muita gente boa preocupada com isso.
Veja o caso brasileiro: se fizermos um seminário para discutir o futebol aqui entre
dirigentes, comissões técnicas, atletas, jornalistas, governo e torcedores, todos
concordarão que do jeito que está não pode continuar. Haverá unanimidade, ninguém dirá diferente. Mas se todo o mundo está de acordo por que não mudar?
Quem ganha com isso? A quem interessa? Bem, o futebol é a maior das indústrias
do entretenimento e o esporte em si é uma das instituições mais favoráveis à lavagem de dinheiro. É uma grande lavanderia. Por quê? Porque lida com uma altíssima
dose de subjetividade. Quanto custa o Lionel Messi? Eu digo para você, 120 milhões
de euros. Você responde ‘barbaridade, é dinheiro pra chuchu’. Mas eu posso dizer
‘não, que 120 nada, são 150 milhões de euros’. O Manchester United estaria disposto a pagar ao Barcelona esse valor. Mas e aí, alguém vale 150 milhões de euros? E
diante disso, quanto valeria o Pelé? Ah, 300 milhões de euros. Mas só o dobro, o
Pelé? É, talvez, 500 milhões de euros. Ou seja, é um saco sem fundo.
2. (Uff 2007)
Nessa última Copa, os meios de comunicação utilizaram o auxílio de
deficientes auditivos para transcrever conversas e orientações em campo, a partir da
leitura labial.
No heredograma a seguir, os indivíduos representados por símbolos pretos são
afetados por uma deficiência auditiva hereditária.
DIPLOMATIQUE – Mas e como os jogadores ficam nessa situação de mercadoria valendo milhões? Penso, por exemplo, no Vagner Love e no Adriano:
quando eles voltaram para as comunidades deles foi um escândalo sem
tamanho, revelando essa discrepância entre os salários, o status e a origem
de cada um.
KFOURI – Aí há outra questão que, para mim, talvez seja a mais angustiante e que
dá o outro lado dessa moeda tão rica, tão aparentemente glamorosa. Sabe quantos
clubes brasileiros têm departamento de recursos humanos? Nenhum. Nenhum clube
se preocupa em encaminhar uma carreira junto ao seu trabalhador. Há um paternalismo, um dirigente mais jeitoso aqui e ali, mas não existe uma coisa mais estruturada. E embora já haja alguns clubes que trabalhem com psicólogos especializados
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Após a análise do heredograma, assinale a opção que indica características hereditárias dessa deficiência.
a) Dominante e autossômica
b) Recessiva e autossômica
c) Dominante e ligada ao cromossomo Y
d) Dominante e ligada ao cromossomo X
e) Recessiva e ligada ao cromossomo X
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para ser ouvida por todos que convivem com tais realidades: o vizinho e a molecada
em esporte, em regra se considera isso frescura. Será que não é preciso tratar a
de 10, 14 anos. "Mas se atingir outras “tribos” que entendam o que queremos dizer,
cabeça de um garoto desses que vem da favela, que ontem estava pensando se ia
é recompensador", diz Mc Leonardo.
conseguir almoçar e que hoje está comprando uma Mercedes-Benz último tipo blin-
A dupla completa mais de quinze anos de carreira e na década de 90 fez su-
dada? É de uma baita irresponsabilidade e de uma burrice ignorar isso. Em última
cesso nos bailes funks com o Rap do Centenário, sobre o time de futebol flamengo
análise, os clubes não querem pagar R$ 15 mil por mês para um terapeuta cuidar
“vai flamengo, balança a rede do adversário” e o Endereço dos Bailes: “ Peço paz
de quem ganha R$ 400 mil por mês e será vendido por R$ 80 milhões. E aí as pes-
para agitar, eu agora vou falar o que você quer escutar, se liga que eu quero ver, o
soas se horrorizam porque o Adriano foi até a favela e os caras que o receberam
endereço dos bailes eu vou falar para vocês”. O que pretendem continuar produzin-
estavam armados. O Vagner Love disse: ‘qual é a surpresa? Ou vocês já viram al-
do são músicas conscientes, que retratem os problemas das comunidades e a realidade que eles vivem.
"A gente não levanta a bandeira particular de ninguém. Nós estamos levantando a bandeira de todo mundo", afirmam os Mc´s. Para os leitores, colocamos a
letra na íntegra:
guém chegar lá em cima sem passar por ninguém armado? Isso já era assim quando eu era criança’. Mas a hipocrisia é de tal tamanho que as pessoas se horrorizam
com jogadores de futebol ao mesmo tempo em que parecem esquecer que o Michael
Jackson precisou comprar sua autorização para filmar no morro. E que para fazer os
Jogos Pan-americanos em paz o governador do Rio de Janeiro teve que estabelecer
um acordo com o tráfico.
Rio Chumbo Quente ( Mc Júnior e Mc Leonardo)
Infelizmente já morreu muito inocente
Nessa guerra deprimente
Onde reina a lei do cão
DIPLOMATIQUE – Qual é a força dos impérios da CBF e da FIFA?
KFOURI – É tão poderoso que nos próximos quatro anos vai haver uma discussão
aqui no Brasil sobre cedermos a nossa soberania para a FIFA. Veja o exemplo da
Copa da Alemanha: na terra da cerveja, só a Budweiser americana podia ser vendi-
A decisão para combater vagabundo
Prejudica todo mundo quando é o caveirão
Os Caveiras são treinados para deixar corpo no chão
Os Bandidos sabem disso e trocam tiro de montão
da dentro dos estádios. Os alemães ficaram enlouquecidos, mas é assim que funciona: a FIFA manda. Isto advém desse insuperável poder de sedução que o futebol
tem. Quando o Lula ganhou a eleição em 2002, me pediu que eu reunisse um grupo
de pessoas e apresentasse um projeto de política esportiva para o Brasil, porque
Dizem que a bala é perdida
Mas quem tá perdido é a gente
Salve-se quem puder
Porque no Rio o chumbo é quente
simplesmente não havia nenhum. Em 25 dias, a toque de caixa, fizemos um plano
E facilmente várias armas e vários pentes
De calibres diferentes vêm chegando no morrão
Vem munição de toda parte do mundo
Vários tiros por segundo
Lança míssel, granada e rojão
“Pros” menores despreparados cheios de disposição
Para enfrentrar a polícia e o bandido alemão
Traficantes, Governantes, por favor pensem na gente
Salve-se quem puder
Porque no Rio o chumbo é quente.
Por mim, esporte de alto rendimento ficaria por conta da iniciativa privada, o gover-
que era basicamente de inclusão social por meio do esporte. Partimos de um dado
da Organização Mundial da Saúde de que a cada dólar investido em esporte, poupam-se três dólares em saúde pública. Tratava-se de uma massificação da coisa.
no não precisava cuidar disso. Mas o projeto virou tábula rasa, ele até agradeceu
muito, mas não aconteceu nada. O Lula teve a generosidade de assinar, como as
duas primeiras leis de seu mandato, em 2002, o Estatuto do Torcedor e a chamada
Lei de Moralização do Esporte. Elas haviam sido gestadas e acordadas como as únicas duas leis aprovadas por unanimidade na gestão anterior do Fernando Henrique
Cardoso. Fui convidado para acompanhar a assinatura das leis. Eu cheguei ao palácio e, para a minha surpresa e o meu constrangimento, veio um cara do cerimonial,
e me levou para sentar à mesa, junto com os ministros. Eu não queria, disse que
iria lá para trás, mas não teve jeito. Sentei ali e o Lula começou o seu discurso e
http://www.funkderaiz.com.br/2009/05/mc-leonardo-um-reformador-social.html
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disse, literalmente: ‘Senhoras e senhores, nunca mais vamos ouvir o jornalista Juca
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TEXTO 7
Kfouri dizer que no Brasil o torcedor é tratado feito gado’. O auditório veio abaixo
com palmas. Eu não sabia onde enfiar a perna, o braço, a gravata. Ele encerrou 30
minutos depois dizendo que a minha presença lá era simbólica para todos aqueles
jornalistas que foram processados por essa cartolagem malsã. Eu saí dessa cerimônia esmurrando o ar – embora já sem o direito à ingenuidade, aos 52 anos. Muito
bem. Seis meses depois, o Lula estava de braço dado com o Ricardo Teixeira para o
jogo do Haiti. E seis anos depois deu a Timemania [loteria organizada pelo governo
federal] para os caras que deixaram os times brasileiros endividados, sem a exigên-
MCs Jr. e Leonardo "Realidade em Discussão".
“Dizem que a bala é perdida... Mas quem tá perdido é a gente,
Salve-se quem puder... Porque no Rio o chumbo é quente.”
Com a estrofe da música Rio Chumbo Quente, os irmãos e Mc´s, Júnior e
Leonardo - o primeiro morador da Rocinha - confirmam o medo, a insegurança e o
fogo cruzado, entre bandidos e policiais que vive toda a sociedade. A composição foi
feita especialmente para o filme “Bope – Tropa de Elite” que está em fase de edição.
cia de nenhuma contrapartida de modelo de gestão. O resultado? Os times já estão
Eles foram convidados para fazer a trilha sonora e atuar como os próprios Mc´s. A
falindo de novo e precisando de uma Timemania 2.
inspiração não poderia ser diferente, veio do local das gravações do longa-
DIPLOMATIQUE – E dá tempo de a Copa do Mundo aqui não ser uma farra,
metragem: "Assim que entrei no local da filmagem, eu já pensei na letra", diz Mc
essa desorganização?
Leonardo.
KFOURI – Não dá mais tempo. Corremos o mesmo risco que a África do Sul em
A música chama atenção para questões importantes e levantadas principal-
relação à Copa do Mundo: que ela seja um desastre. Tudo leva a crer que isso é
mente nas comunidades, como o veículo blindado do BOPE ( Batalhão de Operações
possível. Na África do Sul, por exemplo, não há nem torcida porque eles não têm
Policiais Especiais), conhecido como o Caveirão e os policiais militares, treinados
poder aquisitivo.
para deixar corpos no chão:
DIPLOMATIQUE – Sim, a princípio a venda de ingressos para a Copa de ago-
"É um absurdo dentro do Rio de Janeiro, a gente ter que concordar que ele
ra estava sendo via internet e por cartão de crédito, como os africanos iri-
(caveirão) se faz necessário. Ele se faz necessário para apaziguar no caso da polícia
am conseguir comprar?
ficar em situação de acuamento, de cerco, dentro das comunidades. Mas como não
KFOURI – A reação da economia informal está sendo armada. E não é apenas a
são treinados para esse tipo de combate, mostram que são treinados para deixar
questão dos ingressos. Com a Copa, construíram-se meios de transporte público em
corpo no chão. É um grupo de extermínio legalizado que sai com disposição para
Joannesburgo que quebraram o grande jeito de se locomover na cidade: as lotações
matar. Queremos fazer as autoridades entenderem que não pode combater crime
clandestinas. Você pode ter não só um fracasso do ponto de vista da presença de
com crime", diz Mc Leonardo.
público, como se teme que um jornalista seja morto, um membro de delegação seja
Os MCs não temem serem mal interpretados pelo tráfico nem pela corpora-
sequestrado, alguma coisa desse tipo aconteça. Os alemães já disseram que vão
ção militar, e deixam claro que a música retrata o que vivem no dia-a-dia: "Os pró-
desembarcar de colete à prova de balas. É uma coisa de maluco pensar que você
prios traficantes e policiais sabem do que estamos falando. A Secretaria de Segu-
vai fazer a Copa do Mundo num lugar que alguém chegue desse jeito, não é? Os
europeus são bem capazes, se acontecer alguma coisa, de dizerem que não dá para
fazer uma outra Copa seguida no Terceiro Mundo. E os americanos estão loucos
para tirar alguma coisa do Brasil, como as Olimpíadas. Claro, há que se considerar
que o Ricardo Teixeira articulou isso direito, ele tem lá a sua força.
DIPLOMATIQUE – E nós corremos riscos de os ingressos aqui também não
serem acessíveis para o grosso da população, como na África do Sul?
rança Pública trata a violência de uma forma que os policiais e os traficantes vêem
isso (se referindo a troca de tiros) como uma guerra particular”, afirma Mc Júnior.
Ao serem perguntados se é difícil falar de assuntos tão sérios nos bailes funks, os
Mc´s respondem que sabem o papel que lhes cabem: "O funk tem a responsabilidade triplicada de falar da realidade, principalmente por sair de onde sai. Nós temos
que colocar na hora do divertimento assuntos sérios, só no Rio somos 3 milhões de
funkeiros e na verdade tem muita gente esperando que ele (funk) fale sério. Porque
não usá-lo como meio de comunicação no Rio?", questiona Júnior.
KFOURI – Eu imagino ainda que o que vai acabar acontecendo é que eles vão abrir.
Vão vender a preço popular. De qualquer forma, o Brasil não é o país do futebol.
Acabou de sair uma pesquisa do DataFolha que mostra que maior do que a torcida
Os menores de idade retratados como os “despreparados” para enfrentar a
polícia e outras facções criminosas, além dos armamentos pesados, utilizados pelo
tráfico, são outros fatores citados na música. De acordo com os Mc´s ela foi feita
do Flamengo são as pessoas que dizem não ter time de coração: 25%! Depois vem
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TORCEDOR DO FLAMENGO É BALEADO EM SÃO GONÇALO
o Flamengo, com 17% e o Corinthians com 14%. Na Argentina, em uma pesquisa
igual, apenas 7% disseram não ter clube! E mais do que isso, nós somos absoluta-
Segundo testemunhas, foram torcedores do Vasco que atiraram no jovem
de 16 anos, ontem (28) à noite.
mente auto-suficientes em matéria de futebol. ‘Conosco ninguém podosco’, se diz
por aí. Somos cinco vezes campeões do mundo. Damos as cartas. O brasileiro não
O jovem Maicon Veríssimo Marins da Silva, de 16 anos, está internado em
vai ver Zaire e Noruega. O brasileiro não vai ver Costa Rica e Suécia. Pode ir ver
um hospital de Niterói, em estado grave. Segundo a família, de madrugada ele foi
Argentina e Inglaterra, França e Itália, Alemanha e Uruguai. Mas aqueles joguinhos
submetido a uma cirurgia de mais de quatro horas.
mais periféricos não. No primeiro mundo, vão. Até nos Estados Unidos foram. Não
Ontem (28), por volta de 21h30, o jovem estava com um grupo de amigos
tinha um estádio vazio nos Estados Unidos. Tinha, é claro, um pouco a coisa do
em um ponto de ônibus em São Gonçalo. Homens em uma moto passaram e fize-
inusitado, que eles queriam ver que esporte é esse. Agora, aqui, o que justifica,
ram disparos. Maicon foi atingido na nuca.
para nós, sediar a Copa é mexer na infraestrutura do país. Não faz sentido discutir a
Um adolescente de 14 anos estava no grupo de Maicon, ontem à noite, e
construção dos estádios para um evento de um mês. Em um país com as nossas
conta que os motoqueiros eram da torcida do Vasco e chegaram a gritar que ali
carências é preciso refazer os aeroportos, dar uma belíssima de uma investida na
flameguista não passava.
área hospitalar, no transporte coletivo etc. Um exemplo de país onde isso foi bem-
“A gente pensou que era brincadeira e continuamos andando. Foi quando
sucedido é a Espanha. Em 1982 eles fizeram uma Copa do Mundo, o primeiro gran-
ele começou a atirar. É uma região de torcida vascaína, a gente sabia, mas coloca-
de acontecimento lá pós-franquismo. A herança desse período ainda era muito pre-
mos a camisa na cintura, do lado avesso. Passamos quietos, mas aconteceu isso, o
sente, mas já se via ali um país novo nascendo. E dez anos depois, com as Olimpía-
cara deu tiro na gente”, diz ele.
das de Barcelona, isso estava sedimentado. A Espanha era um país moderno, não
O pai do jovem baleado afirmou que o filho é torcedor do Flamengo, mas
não faz parte de nenhuma torcida organizada: “Ele gosta de assistir aos jogos”.
Este é o segundo caso envolvendo torcedores do Flamengo e do Vasco em
mais a porta dos fundos da Europa. E os dois eventos foram e são cartões de visita
dessa mudança. Ao mesmo tempo, a loucura que se fez na Grécia em torno das
Olimpíadas de Atenas tem relação direta com a crise econômica atual lá. Outro dia
menos de um mês em São Gonçalo. No último dia 11, uma pessoa morreu e três
ouvi o Sócrates dizer que tem medo que tudo o que o Lula acumulou nesses oito
ficaram feridas em uma briga que também está sendo investigada pela polícia.
anos de boa imagem para o Brasil no exterior a gente jogue fora com dois eventos
Ontem o grupo também teria jogado uma ‘cabeça de nego’ na porta do
perdulários feitos sob escândalos. E faz sentido.
pronto-socorro. A polícia já sabe que os autores dos disparos fazem parte da Força
Veja só, eu fui cobrir o jogo Brasil e Noruega na Copa da França, em 1998,
Jovem do Vasco. A direção da torcida está sendo intimada a depor na Delegacia de
no mesmo estádio em que o Brasil tinha jogado em 1938, em Marselha. No mesmís-
São Gonçalo.
simo estádio. Deram uma ajeitada, claro, mas a estrutura era igual. O Morumbi não
“Esse fato de ontem pode ser um desdobramento de um anterior, há cerca
é um bom estádio, é frio, tem ponto cego... É um horror para o dia a dia. Mas está
de um mês, quando prendemos seis torcedores do Flamengo em flagrante, depois
aí há quase 50 anos. Dizer que não dá para fazer quatro ou cinco jogos de uma
de terem tentado matar um indivíduo dentro do pronto-socorro. Por isso, estamos
competição internacional lá é mentira. Também não dá para fazer de maneira ideal
intimando os que organizam a torcida. Podemos pedir a prisão dos suspeitos”, expli-
no Maracanã ou no Mineirão. Mas daí a jogar isso tudo no chão... Eu não estou nem
ca o delegado Adilson Palácio.
falando do Pan-americano, que custou dez vezes mais do que estava orçado – e que
http://rjtv.globo.com/Jornalismo/RJTV/0,,MUL1549328-9097,00.html
foi feito com dinheiro público, apesar de estar previsto para a iniciativa privada.
Aliás, você sabia que o Engenhão não vai servir para a Copa e que o parque aquático Maria Lenk não é adequado às Olimpíadas? Enfim, qual é a diferença entre você
reformar e fazer um novo?
*Leia a íntegra da entrevista na edição 35 de Le Monde Diplomatique Brasil, já nas bancas
Maíra Kubík Mano e Silvio Caccia Brava São os editores do Le Monde Diplomatique Brasil
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TEXTO 3
COPA DO MUNDO: OLHOS VOLTADOS PARA A ÁFRICA DO SUL
zado como reduto homossexual, ou time dos “bambis”, como resumem as torcidas
adversárias. A imprensa chegou a anunciar o dia em que Richarlyson iria assumir
Jeferson Choma - da redação do Opinião Socialista
sua homossexualidade, provavelmente numa entrada ao vivo, no programa Fantás-
A Copa da África do Sul começa no dia 11 de junho. Dessa vez todos torcem
tico, da TV Globo – o que, diga-se de passagem, nunca aconteceu. Desde então, no
para ver um grande espetáculo. Todos querem algo bem diferente do que foi a abor-
entanto, o volante nunca mais teve paz. No Maracanã lotado, qualquer lance que o
recida Copa de 2006, incluindo aí o desastre de Carlos Alberto Parreira e de sua
envolvesse era, imediatamente, louvado por um coro uníssono e ensurdecedor de
seleção. A expectativa é ver a arte fluir dos pés de craques como Kaká, Eto'o, Messi,
“veado, veado, veado!”. Homens, mulheres e crianças. O atacante Dagoberto entrou
Cristiano Ronaldo e...talvez Neymar (?). No momento em que fechávamos essa
edição, o técnico Dunga ainda não tinha anunciado inclusão do craque do Santos na
entre os 23 jogadores que irão para a Copa. Ousadia nunca foi o forte de Parreira.
Dunga vai pelo mesmo caminho?
de gaiato nessa história apenas porque, com Richarlyson, forma uma eficiente dupla
de ataque no São Paulo.
Agora, imaginem se, no Morumbi, a torcida do São Paulo saudasse o atacante Adriano, do Flamengo, aos berros de “macaco, macaco, macaco!”, apenas
A grande novidade
Dessa vez, porém, a grande novidade é que o maior evento do futebol mundial
acontecerá o na África do Sul. Será a primeira Copa realizada no continente negro.
De forma hipócrita, muitos representantes do capital, disseram que a Copa será
uma “oportunidade para mudar a imagem da África”. Contudo, bem longe de oferecer uma “oportunidade” para os povos do continente, particularmente para os trabalhadores da África do Sul, a Copa será bastante oportuna para um punhado de capi-
para ficarmos nas analogias retiradas do mundo animal. Ou, simplesmente, entoasse uma quadrinha do tipo criada para a dupla Dagoberto/Richarlyson, dizendo que
no Flamengo só tem crioulo, que Adriano enraba, sei lá, o Petkovic. O mundo iria
cair, e com razão, porque chegamos a um estágio civilizatório onde o racismo tornou-se motivo de repulsa, mesmo em suas nuances tão brasileiras, escondidas em
piadas de salão e ódios de cor mal disfarçados no elevador social. Usa-se, no caso
talistas faturarem alto. Um prova disso, é que dois dias antes, a Fifa pretende enca-
dos gays, o mesmo mecanismo perverso que perdurou na sociedade brasileira es-
beçar um encontro da cúpula dos dirigentes e patrocinadores para debater a trans-
cravagista e pós-escravagista com o qual foi possível transformar em insulto uma
formação do futebol em um negócio globalizado e bilionário (ver quadro).
condição humana que deveria, no fim das contas, ser tão somente aceita e respei-
Mas a realização da primeira Copa na África tem produzido uma enorme expec-
tada. Assim, torcedores brasileiros chamam de veados os são-paulinos em campo
tativa em torno do evento. Inclusive, e principalmente, por parte da maioria do
como, não faz muito tempo, nos chamavam, os argentinos, de “macaquitos”, em
sofrido povo sul-africano, os negros, que assim como grande parte dos brasileiros, é
pleno Monumental de Nuñes, em Buenos Aires, para revolta da nação.
apaixonada pelo esporte. Para 88% da população sul-africana, a realização da Copa
Quando – e se – a lei que criminaliza a homofobia no Brasil, a exemplo do
na África do Sul é motivo de orgulho. Isso tem todo um significado. Afinal, esse país
racismo, for aprovada no Congresso Nacional, será preciso educar gerações inteiras
tem uma bela história de luta contra o regime racista do Apartheid.
de brasileiros a respeitar a sexualidade alheia. Espero, a tempo de recebermos os
Se por um lado a luta do povo sul-africano sepultou esse odioso regime, por
atletas que virão às Olimpíadas de 2016, no Rio, provavelmente, no mesmo Mara-
outro, isso não significou uma melhoria das condições de vida da maioria da popula-
canã que hoje se compraz em xingar Richarlyson de veado. Por enquanto, a discus-
ção negra do país. Hoje não existe mais um regime que separava formalmente ne-
são sobre a lei está parada, no Brasil, porque o lobby das bancadas religiosas teme
gros e brancos. Mas há no país um novo tipo de “apartheid social” que manteve a
abrir mão de um filão explorado por fanáticos imbuídos da missão de “curar” ho-
maioria negra do país na mais absoluta miséria, enquanto poucos enriqueceram no
mossexuais, ou de outros, para quem os gays são uma aberração bíblica passível,
poder.
portanto, da ira de deus.
Nestes últimos 20 anos, todos os governo do CNA (Congresso Nacional Africa-
Nos jornais de domingo, nem uma mísera linha sobre o assunto. Das duas
no), inclusive o de Mandela, não fizeram outra coisa senão aplicar de forma rigorosa
uma: ou é fato banal e corriqueiro, logo, tornado invisível aos olhos das dezenas de
e obediente as políticas neoliberais recomendadas pelo FMI. O resultado é uma pro-
repórteres enfiados na tribuna da imprensa do Maracanã; ou é conivência mesmo.
funda crise social vivida no país. O desemprego atinge 40% da população da África
http://brasiliaeuvi.wordpress.com/2009/10/13/os-novos-negros/
do Sul – 28% segundo os dados oficiais. A desigualdade social também aumentou e
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TEXTO 5
a expectativa de vida caiu, puxada para baixo pela maior epidemia de Aids do mun-
OS NOVOS NEGROS
do e pela explosão da violência urbana.
Posted by Leandro Fortes under Homofobia & racismo
Uma prova dessa profunda divisão social aconteceu nos preparativos para a
Copa. Milhares de trabalhadores pobres foram expulsos de seus bairros para dar
"Bicharlyson! Bicharlyson!"
Não faz muito tempo, o mundo – e o Brasil, em particular –, se escandali-
lugar à construção de estádios enormes e luxuosos. Muitos destes moradores foram
zou com as manifestações racistas contra jogadores de futebol que foram hostiliza-
transferidos para lugares extremamente precários, como a “Blikkiesdorp”, que quer
dos por torcedores nos estádios europeus apenas porque eram negros. Na Itália e
dizer cidade de lata. Neste vilarejo as casas são feitas de zinco e cada família tem
na Espanha, diversos jogadores negros, inclusive brasileiros, foram chamados de
apenas 18 metros quadrados para morar.
“macacos”, “gorilas” e “pretos de merda” por torcidas organizadas dos maiores ti-
Por outro lado, a construção dos estádios para a Copa só foi possível devido a
mes daqueles países. As reações foram, felizmente, imediatas. Intelectuais, jornalis-
uma intensa superexploração dos trabalhadores. Segundo o sindicato, os operários
tas, políticos e autoridades esportivas de todo o planeta botaram a boca no trombone e reduziram, como era de se esperar, gente assim ao nível de delinqüentes comuns. Ainda há, eventualmente, exaltações racistas nos gramados, mas há um
consenso razoavelmente arraigado sobre esse tipo de atitude, tornada, universalmente, inaceitável. Você não irá ver, por exemplo, no Maracanã, torcidas inteiras –
homens, mulheres e crianças – gritando “crioulo safado” para o artilheiro Adriano,
do Flamengo, por conta de alguma mancada do Imperador. Com a PM circulando,
nem racistas emperdenidos se arriscam a tanto.
que trabalham na construção dos estádios para a Copa recebiam menos de 4,50
rands (R$ 1,10) por hora. Essa situação levou os trabalhadores a realizarem diversas paralisações e uma greve no ano passado. Cerca de 70 mil trabalhadores aderiram à greve e colocaram realização da Copa em xeque.
Como aqui no Brasil, muitos africanos irão ficar vidrados em cada lance emocionante dessa Copa. No entanto, a realização do evento na África do Sul provoca
uma “trégua social” no país. Passado a Copa, porém, a dolorosa realidade continuará batendo à porta de milhões de negros e negras todos os dias.
Negócio bilionário
Mas, ai de Adriano, se ele fosse gay.
Para além do talento dos craques no gramado, há muito tempo o futebol se
No sábado passado, espremido no Maracanã ao lado de meu filho mais ve-
tornou um negócio extremamente lucrativo. O que se passa com o futebol tem a ver
lho e outras 57 mil pessoas, fui ver um jogaço, Flamengo 2 x 1 São Paulo, de vira-
com o que ocorre em outros setores da vida social dominados pelo capitalismo, que
da, um espetáculo de futebol. Quando o time do São Paulo entrou em campo, as
se apropria de toda criatividade humana para preservar a exploração.
torcidas organizadas do Flamengo, além de milhares de outros torcedores avulsos,
O dinheiro movimentado pelo esporte representa, segundo a FIFA, 1% do PIB
entoaram, a todo pulmão: “Veados, veados, veados!”. Daí, o painel eletrônico pas-
mundial. Já a Comissão Europeia estima que o futebol movimente 2% do PIB do
sou a anunciar, com a ajuda do sistema de autofalantes, a escalação são-paulina,
continente, o que o transforma em um dos maiores setores da economia. Em 2006,
recebida com as tradicionais vaias da torcida da casa, até aí, nada demais. Mas o
os níveis anuais de renda eram três vezes o volume registrado em 1996. Fala-se
Maraca veio abaixo quando o nome do volante Richarlyson foi anunciado: “Bicha,
hoje até da existência de uma “folha financeira do futebol”.
bicha, bicha!”. E, em seguida: “Bicharlyson, bicharlyson!”. Ao longo da partida, bas-
Em países imperialistas, como a Inglaterra, há clubes que tem uma renda anual
tava que o são-paulino tocasse na bola para receber uma saraivada de insultos se-
superior à de países inteiros, como é o caso do Manchester United. O clube britânico
melhantes. No ápice da histeria homofóbica, a Raça Rubro Negra, maior e mais
movimenta por ano 1,4 bilhões de dólares, um valor que chega bem perto ao PIB de
importante torcida do Rio, e uma das maiores do Brasil, convocou o estádio a entoar
muitos países africanos, como Libéria, Cabo Verde ou Gâmbia.
uma quadrinha supostamente engraçada. Era assim:
Mudando a imagem
“O time do São Paulo/só tem veado/o Dagoberto/come o Richarlyson”.
A Copa do Mundo é uma grande oportunidade para que grandes empresas pos-
Richarlyson virou alvo da homofobia esportiva brasileira, com indisfarçável
sam mudar sua imagem perante os trabalhadores. A Volkswagen, por exemplo, uma
conivência de cronistas esportivos, jornalistas e colegas de vestiário, a partir de
das patrocinadoras da seleção brasileira, poderá usar a marca da CBF em sua co-
2005, quando fez uma espécie de “dança da bundinha” ao comemorar um gol do
municação, além de desenvolver atividades promocionais e figurar a marca em out-
São Paulo, time que por ser oriundo do elitista bairro do Morumbi acabou estigmati-
door.
26 de Junho de 2010
LINHA DE PASSE
Sábado é dia de Cinema
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26 de Junho de 2010
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Nas fábricas da montadora isso já está sendo feito. Junto com as Comissões de
nha (RDA) se enfrentaram em um campo de futebol. Foi no dia 22 de junho, em
Fábrica, a Volks está vendendo camisetas com o logo da empresa e da seleção, com
Hamburgo, na fase inicial da Copa organizada pela Alemanha Ocidental. Contra
o argumento de que “está ajudando” crianças carentes da África do Sul. Difícil é
todas as previsões, a RDA venceu por 1-0 com um gol de Jürgen Sparwasser aos 32
acreditar no suposto altruísmo de uma empresa que superexplora seus trabalhado-
minutos do segundo tempo. Para evitar uma saia justa política, os jogadores não
res e persegue dirigentes sindicais. [ 28/5/2010 21:55:00 ]
fizeram a troca de camisas no fim do jogo. Isso diante das cameras, claro, porque
depois, às escondidas, seguiram a tradição.
1978: Boicote à Argentina?
O Mundial aconteceu sob a sangrenta ditadura argentina. Várias seleções
TEXTO 4
ameaçaram não participar da Copa do Mundo, mas no fim das contas todas as clas-
QUANDO A POLÍTICA ENTRA EM CAMPO NA COPA DO MUNDO
Brasil Econômico
- Por AFP 01/06/10 14:03
Copa do Mundo e política sempre andaram lado a lado ao longo dos
anos, desde a edição de 1934, disputada na Itália tomada pelo fascismo de
sificadas resolveram ir. Só o holandês Johan Cruyff manteve a promessa de ficar
fora da Copa. A Laranja Mecânica perdeu a final contra os anfitriões.
1982: O xeque do Kuwait
No Mundial da Espanha, uma figura nada comum nos campos de futebol
Mussolini até a de 1978, que aconteceu sob a ditadura argentina.
Mais recentemente, no Mundial de 1998, houve a emblemática partida entre
Irã e Estados Unidos em solo francês.
marcou presença na partida entre a França e o Kuwait. Aos 35 minutos do segundo
tempo, Alain Giresse marcou o quarto gol dos Azuis, e os jogadores árabes reagiram
com espírito nada esportivo. De repente, um assovio veio da tribuna. Era do xeque
1934/1938: O fascismo
O ditador italiano Benito Mussolini transformou a organização da segunda Co-
Fahid Al Ahmad Al Sabbah, irmão do emir - em suma, o dono da bola - do Kuwait. A
pa do Mundo, em 1934, em um jogo propagandista. Os membros do partido fascista
ordem era simples: deixar o campo em retirada. Os jogadores, claro, porque ele
tinham presença italianamente exagerada nos estádios: "Itália! Duce!", gritavam.
entrou no tapete - o verde, não o persa - e começou a reclamar. Funcionou: o juiz
"Que Deus os proteja caso venham a perder", disse Mussolini ao técnico Vittorio Pozzo. Deus fez marcação cerrada, e os italianos levaram a taça.
reviu os conceitos na hora, anulou o gol da França e retomou o jogo. No fim da
contas, os Azuis venceram por 4-1.
Quatro anos depois, na França, chegou às mãos do capitão Giuseppe Meaz-
1986: As Malvinas
za um telegrama curto e grosso de Mussolini: "Vencer ou morrer". Venceram, ao
Quatro anos depois da Guerra das Malvinas, os argentinos mostraram no
contrário da seleção da Alemanha nazista de Hitler, que ficou com os melhores jo-
México que ainda não haviam digerido bem a novela que se tornou a luta que trava-
gadores da equipe austríaca depois da anexação de março do mesmo ano, mas nem
ram com a Inglaterra pela posse da ilha. Os torcedores da Albiceleste até morte aos
passou da fase inicial.
ingleses pediam.
Nas quartas de final, houve confronto entre torcedores das duas seleções.
1966: Coreia do Norte
O Reino Unido ainda não havia estabelecido relações diplomáticas com o re-
Vários ficaram feridos. "Para a gente era como uma final. Não se tratava de ganhar
gime de Pyongyang desde a Guerra da Coreia (1950-1953), e o Ministério das Rela-
o jogo, mas de eliminar os ingleses", diz Diego Maradona, autor de gol contra a
ções Exteriores primeiramente se negou a dar os vistos aos jogadores asiáticos. Sob
Inglaterra até hoje considerado um dos mais bonitos de todas as Copas.
a ameaça de a Fifa transferir a Copa do Mundo para outro país, chegou-se a um
1998: Irã x Estados Unidos
acordo: os norte-coreanos teriam autorização para pisar o solo do Reino Unido, mas
Os dois países não tinham relações diplomáticas, mas ficaram cara a cara
não haveria execução do hino nem o hasteamento da bandeira norte-coreana, com
na primeira fase da Copa do Mundo que a França sediou. As autoridades franceses
exceção do jogo de abertura e da final. Os norte-coreanos, de qualquer maneira,
montaram um forte esquema de segurança para a ocasião, e o jogo aconteceu na
não estavam nessas duas ocasiões.
santa paz. Os iranianos ganharam de 2-1, e os jogadores de ambas as equipes posaram juntos para a posteridade no final.
1974: As duas Alemanhas
Pela primeira e última vez nos 45 anos em que os alemães ficaram separa-
http://www.brasileconomico.com.br/noticias/quando-a-politica-entra-em-campo-na-copa-do-mundo_83945.html
dos, a República Federal da Alemanha (RFA) e a República Democrática da Alema26 de Junho de 2010
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