Efeito de 10 semanas de treinamento com pesos sobre indicadores da composição corporal Effect of 10 weeks of weight training on body composition indicators Claudinei Ferreira dos Santos, Tony Anderson Crestan, Danielle Montemor Picheth, Guilherme Felix, Rodrigo Sabóia Mattanó, Denilson Braga Porto, Alexandre Queiroz Segantin, Edilson Serpeloni Cyrino Resumo Abstract [1] Santos, C.F., Crestan, T.A., Picheth, D.M., Felix, G., Mattanó, R.S., Porto, D.B., Segantin, A.Q., Cyrino, E.S. Efeito de 10 semanas de treinamento com pesos sobre indicadores da composição corporal. Rev. Bras. Ciên. e Mov. 10 (2): 79-84, 2002. O objetivo deste estudo foi avaliar o efeito de dez semanas de treinamento com pesos (TP) sobre indicadores da composição corporal. Dezesseis homens (23,0 ± 2,1 anos) sedentários, mas aparentemente saudáveis, foram aleatoriamente divididos em grupo-treinamento (GT, n = 8) e grupo controle (GC, n = 8). O GT realizou TP durante dez semanas consecutivas (três sessões semanais, em dias alternados), ao passo que o GC não se envolveu com a prática de nenhum programa sistematizado de atividades físicas, nesse período. Onze exercícios compuseram o programa de TP, cada qual realizado em três séries de 8-12 RM. Medidas de dobras cutâneas foram coletadas antes e após o período de intervenção. Incrementos significantes na massa corporal (4%) e na massa magra (3,8%) foram verificados somente no GT, o que acarretou diferenças (p<0,05) na comparação entre os grupos (GT>GC). Nenhuma alteração no componente adiposo foi observada durante o período analisado em ambos os grupos (p>0,05). Os resultados sugerem que o TP contribui para o aumento da massa magra. Por outro lado, o período de dez semanas de TP, de forma isolada, sem orientação nutricional, não parece ser suficiente para a redução dos depósitos de gordura corporal. [2] Santos, C.F., Crestan, T.A., Picheth, D.M., Felix, G., Mattanó, R.S., Porto, D.B., Segantin, A.Q., Cyrino, E.S. Effect of 10 weeks of weight training on body composition indicators. Rev. Bras. Ciên. e Mov. 10 (2): 79-84, 2002. The aim of this study was to evaluate the effect of ten weeks of weight training on body composition indicators. Sixteen sedentary men (23.0 ± 2.1 years), but apparently healthy, were randomly divided in training group (TG, n = 8) and control group (CG, n = 8). TG performed WT during ten consecutive weeks (three weekly sessions, on alternate days), while CG didn’t get involved in the practice of any systematized program of physical activities during the same period. Eleven exercises composed the program of WT, each one performed in three sets of 8-12 RM. Measures of skinfolds were collected before and after the intervention period. Significant increments in body mass (4%) and lean body mass (3.8%) were verified only in TG, what caused differences (p<0.05) in the comparison between the groups (TG>CG). No alteration in the fat component was observed during the analyzed period in either group (p>0.05). The results suggests that WT contributes to the increasing of lean body mass. On the other hand, the ten weeks period of WT, in an isolated way, without nutritional orientation doesn’t seem to be enough for the reduction of body fat stores. KEYWORDS: body composition, skinfolds, weight training. PALAVRAS-CHAVE: composição corporal, dobras cutâneas, treinamento com pesos. Centro de Educação Física e Desportos - Universidade Estadual de Londrina Endereço: Edilson Serpeloni Cyrino Rua Professor Samuel Moura, 328 Apto 1604 CEP 86061-060 Londrina/PR Fone: (43) 3275898 E-mail: [email protected] Rev. Bras. Ciên. e Mov. Brasília v. 10 n. 2 p. 79-84 abril 2002 79 Introdução Antropometria e composição corporal Estudos relacionados à composição corporal são de extrema importância, particularmente para a saúde, visto que o excesso de gordura corporal pode potencializar a incidência de disfunções crônico-degenerativas (13,17), ao passo que o baixo desenvolvimento muscular pode dificultar o melhor funcionamento do sistema músculoesquelético. Apesar da prática de programas regulares de exercícios com pesos vir sendo estudada mais criteriosamente somente nos últimos anos, muitos estudos, ao longo do tempo, têm buscado investigar o potencial desse tipo de treinamento para a melhoria de diferentes componentes da composição corporal (2,3,4,5,6,7,8,10,23,25,26,27,29,30). Aparentemente as modificações associadas à prática do treinamento com pesos, além de auxiliarem na melhoria da estética corporal, podem repercutir favoravelmente na qualidade de vida e saúde de indivíduos de diferentes faixas etárias e de ambos os sexos, uma vez que o treinamento com pesos pode contribuir, sobretudo, para o desenvolvimento ou manutenção da força e da massa muscular. Além disso, acredita-se que o treinamento com pesos possa auxiliar na preservação do componente mineral ósseo, bem como no controle dos depósitos de gordura corporal; contudo, essas modificações ainda merecem ser investigadas de modo mais consistente. Assim, o objetivo do presente estudo foi verificar as possíveis modificações na composição corporal, após 10 (dez) semanas de treinamento sistematizado com pesos, em adultos jovens não-treinados. A massa corporal foi obtida por meio de uma balança da marca Urano, modelo PS180, digital, com precisão de 0,1 kg, de acordo com os procedimentos descritos por GORDON et al. (11). Todos os indivíduos foram pesados descalços, vestindo apenas uma sunga. A composição corporal foi determinada pela técnica de espessura do tecido celular subcutâneo. Três medidas foram tomadas em cada ponto, em seqüência rotacional, do lado direito do corpo, sendo registrado o valor mediano. Para tanto, foram aferidas as seguintes dobras cutâneas: abdominal, suprailíaca, subescapular, tricipital, bicipital, axilar-média, perna-medial e coxa. Todas as medidas foram realizadas por um único avaliador, com um adipômetro científico Cescorf, com pressão constante de 10 g/mm2 na superfície de contato e precisão de 0,1 mm, de acordo com as técnicas descritas por HARRISON et al. (14), com exceção da dobra abdominal, que foi determinada paralelamente ao eixo longitudinal do corpo, aproximadamente dois centímetros à direita da borda lateral da cicatriz umbilical e da dobra de coxa, tomada no terço superior entre o ligamento inguinal e a borda superior da patela (12). O coeficiente teste-reteste excedeu 0,95 para cada um dos pontos anatômicos com erro de medida de, no máximo ± 1,0 mm. A gordura corporal relativa (% gordura) foi calculada pela fórmula de SIRI (28), a partir da estimativa da densidade corporal determinada pela equação proposta por GUEDES (12). Indivíduos e métodos Sujeitos Dezesseis homens (23,0 ± 2,13 anos) foram previamente selecionados para participar deste estudo. Nenhum dos participantes relatou ter-se envolvido com a prática regular de programas de exercícios físicos, nos últimos seis meses que antecederam o início do experimento. Além disso, mediante entrevista preliminar individual, não se constatou a existência de histórico de doenças metabólicas entre esses indivíduos. Os sujeitos foram divididos aleatoriamente em dois grupos. O primeiro grupo (n = 8) foi submetido exclusivamente à prática de um único programa sistematizado de treinamento com pesos, sendo denominado de grupo-treinamento (GT). O segundo grupo (n = 8), por sua vez, não realizou nenhum programa sistematizado de exercícios físicos durante o período de duração do estudo, sendo utilizado, portanto, como grupo-controle (GC). Todos os sujeitos, após serem convenientemente informados sobre a proposta do estudo e procedimentos aos quais seriam submetidos, assinaram consentimento esclarecido. 80 Programa de treinamento O programa de treinamento com pesos foi executado durante dez semanas consecutivas, compreendendo três sessões semanais em dias alternados. A freqüência às sessões de treinamento foi superior a 86% (26 a 30 sessões). Previamente ao início do estudo, os indivíduos do GT passaram por um período de duas semanas de adaptação ao programa de treinamento com pesos a ser executado, com o propósito de aprendizagem das tarefas motoras e familiarização com aspectos técnicos (velocidade de execução dos movimentos, contagem das repetições, controle dos intervalos de recuperação e da respiração, durante os exercícios), perfazendo assim um total de seis sessões de treinamento nesse período. O programa de treinamento com pesos constou de onze exercícios, realizados em três séries com intervalo de 30 (trinta) segundos a 1 (um) minuto de recuperação entre elas. O intervalo permitido entre os exercícios foi de dois a três minutos. Os exercícios que compuseram o programa foram os seguintes: desenvolvimento supino e crucifixo em banco horizontal (peitoral); puxada por trás do pescoço no pulley, flexão lombar e remada curvada (costas); flexão do joelho na mesa flexora e meio agachamento (coxas); desenvolvimento pela frente na máquina (ombros); rosca direta e extensão de cotovelos com barra em decúbito dorsal no Rev. Bras. Ciên. e Mov. Brasília v. 10 n. 2 p. 79-84 abril 2002 banco horizontal (bíceps e tríceps, respectivamente); ânteroflexão de tronco em decúbito dorsal com aparelho (abdômen). O sistema de treinamento empregado durante o período experimental foi o meia pirâmide crescente, com cargas variáveis, adaptado de RODRIGUES & ROCHA (24), com exceção do grupo abdominal, que seguiu o protocolo convencional de 3 (três) séries de 50 repetições. Assim, a carga era incrementada progressivamente a cada série, concomitantemente com redução do número de repetições (12/10/8 repetições máximas, nas três séries, respectivamente). Ao longo do experimento, as cargas foram ajustadas periodicamente, de acordo com os ganhos adicionais de força, de modo que a intensidade inicial pudesse ser preservada. dentes foi empregado. As variações percentuais observadas entre os dois períodos em cada grupo, foram contrastadas entre os grupos (treinamento e controle) pelo teste “t” de Student, para amostras independentes e pareadas. O nível de significância adotado para todas as comparações foi de p<0,05. Resultados Os resultados obtidos nos períodos pré e pós-experimento para ambos os grupos são apresentados nas Tabelas 1 e 2. As modificações ocorridas entre esses dois momentos são expressas em valores percentuais (∆%). O comportamento dos indicadores da composição corporal é apresentado na Tabela 1. Os resultados revelaram um aumento significante na massa corporal (4%) e na massa magra (3,8%) somente no GT (p<0,05). Esses incrementos provocaram diferenças significantes também na comparação entre os grupos, com o GC preservando os valores observados inicialmente. Por outro lado, ambos os grupos tiveram um discreto aumento na gordura corporal, tanto relativa quanto absoluta, contudo, sem significância estatística (p>0,05). Apesar disso, vale ressaltar que houve uma ligeira tendência de maior acúmulo adiposo no GC. Tratamento Estatístico A análise descritiva e a estatística inferencial de todos os dados foram conduzidas no pacote STATISTICATM. Para a avaliação das mudanças que ocorreram entre os períodos pré e pós-experimento, dentro de cada grupo, o teste “t” de Student para amostras depen- TABELA 1: Comportamento dos indicadores da composição corporal antes e após 10 semanas com e sem treinamento com pesos Grupo Tre iname nto Grupo Controle Pré Pós ∆ 1% Pré Pós ∆ 2% Massa corporal (kg) ** 69,33 ± 8,06 72,13 ± 8,32 4,07 ± 3,20* 66,61 ± 5,93 67,41 ± 5,97 1,22 ± 1,66 Gordura (%) 11,01 ± 4,35 11,22 ± 4,34 2,61 ± 9,37 16,43 ± 4,09 17,08 ± 3,80 5,66 ± 12,45 7,79 ± 3,75 8,23 ± 3,78 7 , 0 0 ± 12 , 6 8 11,12 ± 3,53 11,68 ± 3,57 7,08 ± 14,01 61,54 ± 6,34 63,90 ± 6,90 55,50 ± 3,14 55,73 ± 3,06 0,44 ± 1,50 Massa gorda (kg) Massa magra (kg) ** 3,80 ± 2,25* * Efeito significativo dentro do grupo do pré ao pós- experimento (p<0,05) ** Efeito significativo entre os grupos do pré ao pós- experimento (p<0,05) A Tabela 2 apresenta o comportamento da adiposidade subcutânea nos diferentes pontos anatômicos. Nenhuma modificação significante foi verificada após as dez semanas de treinamento no GT. Do mesmo modo, o GC não sofreu mudanças ao longo desse período. Os pontos de maior e menor acúmulo de gordura subcutânea também foram semelhantes em ambos os grupos (abdominal e bicipital, respectivamente), embora uma grande variação nos resultados tenha sido verificada nos dois grupos, após o período experimental. Rev. Bras. Ciên. e Mov. Brasília v. 10 n. 2 p. 79-84 abril 2002 81 TABELA 2: Comportamento dos depósitos de gordura subcutânea em diferentes pontos anatômicos antes e após 10 semanas com e sem treinamento com pesos Dobras Cutâne as Grupo Tre iname nto Grupo Controle Pré Pós ∆ 1% Pré Pós ∆ 2% Abdominal 13,11 ± 5,42 13,10 ± 5,27 0,76 ± 8,65 19,38 ± 5,49 19,70 ± 4,77 3 , 3 1 ± 10 , 9 9 Suprailíaca 8,98 ± 3,83 9,03 ± 3,71 1,56 ± 10,41 14,91 ± 4,84 16,83 ± 5,68 15,22 ± 22,17 Subescapular 10,81 ± 2,14 10,90 ± 2,12 1,15 ± 8,28 15,14 ± 5,16 14,70 ± 5,58 - 3,02 ± 10,89 Tricipital 8,00 ± 2,09 8,46 ± 2,40 6,05 ± 15,64 11,34 ± 4,37 11,33 ± 5,22 - 1,64 ± 12,18 Bicipital 3,99 ± 1,39 3,34 ± 0,70 - 12,73 ± 17,61 4,21 ± 1,76 3,58 ± 1,46 - 12,45 ± 15,22 Axilar- média 6,48 ± 2,66 6,66 ± 2,25 5,18 ± 15,80 10,86 ± 4,66 10,08 ± 4,29 - 5 , 5 1 ± 13 , 0 5 Perna medial 9,21 ± 2,68 9,90 ± 3,04 8,23 ± 17,23 9,08 ± 4,37 8,11 ± 3,38 - 6,84 ± 11,97 Coxa 12,49 ± 4,02 13,10 ± 4,41 5,44 ± 16,81 15,71 ± 5,32 14,93 ± 3,89 - 0 , 5 9 ± 17 , 8 3 (mm) Nota. Nenhuma diferença significante do pré- ao pós- experimento (p>0,05) Discussão Os incrementos na massa corporal e na massa magra, verificados neste estudo após dez semanas de treinamento com pesos, vão ao encontro dos achados da maioria das investigações sobre o impacto do treinamento com pesos sobre a composição corporal, todavia, o comportamento do componente adiposo ainda permanece sendo alvo de muitas controvérsias. GETTMAN et al. (10) encontraram um aumento significante da massa magra de 2,8% (1,8 kg) em sujeitos submetidos a um circuito de treinamento com pesos, quando comparados a um grupo controle, durante um período de 20 semanas de intervenção. Além disso, os autores verificaram uma redução estatisticamente significante na massa gorda de 1,3 kg (6,3%) no grupo-treinamento. Essa redução não foi observada neste estudo, onde o GT sofreu um incremento que, apesar de não ser significante, foi semelhante ao encontrado no GC (0,4 kg e 0,6 kg, respectivamente). Embora o fator tempo não possa ser desprezado na comparação entre esses dois estudos, outros fatores, como a falta de orientação nutricional, podem ter exercido influência negativa no comportamento da massa gorda no GT do presente estudo. WILMORE (30) não encontrou alterações na massa corporal em homens submetidos a 10 semanas de treinamento com pesos, todavia, modificações significantes foram verificadas na massa magra (+2,4%) e na massa gorda (7,5%). Embora nesse estudo não tenha existido um grupocontrole, um comportamento semelhante ao encontrado nos homens foi observado também nas mulheres estudadas. 82 HICKSON (15), após submeter sete homens e uma mulher a 10 semanas de treinamento com pesos, constatou aumento de 1,9 kg (2,5%) na massa corporal e 5,5% de redução na gordura corporal relativa. Contudo, a magnitude dessas modificações pode ter sido afetada pela utilização de uma única amostra composta por homens e mulheres. SANTOS et al. (26) verificaram modificações bastante positivas nos componentes da composição corporal, avaliada por DEXA, após 16 semanas de treinamento com pesos. Vinte e seis indivíduos do sexo masculino (23,0 ± 3,0 anos) foram separados aleatoriamente em dois grupos, grupo-treinamento (n=13) e grupo-controle (n=13). Modificações estatisticamente significantes foram verificadas na massa isenta de gordura (aumento de 2,9%) e na gordura corporal relativa e absoluta (redução de 10,2% e 13,4%, respectivamente), no grupo-treinamento, quando comparado ao grupo-controle. Os autores concluíram que o treinamento com pesos pode auxiliar na redução dos depósitos de gordura, pelo menos a médio ou longo prazo. Um estudo muito interessante, desenvolvido por ALEN et al. (1) comprovou a eficiência de 24 semanas de treinamento progressivo com pesos para o aumento da massa corporal (0,7%) e redução na gordura corporal relativa (7,8%). Nesse mesmo estudo, também foi controlado o período de destreinamento, e os resultados indicaram que as modificações verificadas após o período de treinamento com pesos foram preservadas após 12 semanas, sem qualquer tipo de treinamento. Um outro importante estudo foi realizado por NAKAO et al. (21). Nesse estudo, 19 sujeitos mantiveramse em treinamento com pesos sob alta intensidade por um Rev. Bras. Ciên. e Mov. Brasília v. 10 n. 2 p. 79-84 abril 2002 período de três anos consecutivos. As alterações anuais foram progressivamente significantes e, ao final do terceiro ano, constatou-se diminuição na gordura corporal relativa de 3,3 pontos percentuais (16,3%) e aumentos de 1,8 (2,6%) e 4 kg (7,4%) na massa corporal e na massa magra, respectivamente. Atualmente, acredita-se que a redução nos depósitos de gordura corporal, associada ao treinamento com pesos, possa ser produto da elevação do consumo de oxigênio pós-exercício, acarretada pela estimulação de alta intensidade, o que ao menos hipoteticamente poderia aumentar a oxidação lipídica após o esforço (22). HUNTER et al. (16) compararam dois grupos experimentais, um submetido a treinamento com pesos combinado com treinamento aeróbico (TPA), e outro submetido somente a treinamento com pesos (TP). De acordo com os resultados, não houve diferença significante entre os tratamentos, após o período experimental tanto na massa corporal quanto no percentual de gordura, embora reduções de 1,6% e 2,6% na gordura corporal relativa tenham sido encontradas nos grupos TP e TPA, respectivamente. Esses achados sugerem que a falta de exercícios aeróbios combinados com o treinamento com pesos pode ter influenciado o comportamento da adiposidade corporal dos sujeitos do GT no presente estudo. Ao submeter 10 homens jovens e 12 idosos a nove semanas de treinamento com pesos, LEMMER et al. (18) não constataram mudanças significativas nos componentes da composição corporal, avaliados por DEXA. Apesar disso, os autores observaram uma tendência de redução na gordura corporal relativa (4%), no grupo de jovens e de aumento de 1 kg (1,7%) na massa magra, no grupo de idosos. Um comportamento semelhante dos depósitos de gordura corporal foi verificado por MARCINIK et al. (19), ao acompanhar 10 adultos jovens, por um período de 12 semanas, durante um programa de treinamento com pesos. Todavia, nesse estudo, os autores encontraram um aumento significante na massa magra (1,3 kg ou 2%). Em estudo que procurou investigar a influência do emprego de supervisão direta (personal training) no treinamento com pesos, MAZZETTI et al. (20) encontraram aumentos de 4,0 kg (4,7%) na massa corporal, 1,4 kg (2%) na massa magra e 2,1 kg (10,7%) na gordura corporal relativa no grupo supervisionado, após 12 semanas de acompanhamento. Os autores ressaltaram que, apesar do aumento da adiposidade corporal, os ganhos de massa magra foram significantemente maiores do que os do grupo não-supervisionado. Embora o grupo supervisionado tenha apresentado aumento na massa magra bastante semelhante ao observado no presente estudo, o incremento relativo da adiposidade corporal foi muito superior ao encontrado nesta investigação. FIATARONE et al. (9) analisaram as modificações na composição corporal de 10 sujeitos, com média de idade de 90 anos, após oito semanas de treinamento com pesos, realizado com freqüência semanal de três sessões, sob alta intensidade (80% de 1RM). Os autores constataram, por meio de tomografia computadorizada, aumentos significantes na área muscular total da coxa não-dominante (9%) e na área muscular do quadríceps (10,9%), todavia sem alterações nas áreas de gordura subcutânea e intramuscular. Conclusões A magnitude das modificações na composição corporal aparentemente depende de muitos fatores, direta ou indiretamente, relacionados ao treinamento físico. Assim, muitas das diferenças observadas na comparação entre os estudos disponíveis na literatura, que têm investigado a prática de exercícios com pesos, podem estar atreladas ao período de duração do estudo; aos diferentes protocolos de treinamento empregados; à intensidade e ao volume aplicados; aos grupos amostrais utilizados; ao sexo e à faixa etária estudada; à existência ou não de controle nutricional, dentre outros. Apesar dessas limitações, as modificações observadas no presente estudo, sobretudo na massa corporal (+2,8 kg) e na massa magra (+2,4 kg) do GT, confirmaram a eficiência do treinamento com pesos para o desenvolvimento, particularmente do componente muscular. Finalizar, o período de dez semanas de treinamento com pesos, de forma isolada, sem orientação nutricional, não parece ser suficiente para a redução dos depósitos de gordura corporal. Bibliografia 1. ALEN, M. et al. Responses of serum androgenic-anabolic and catabolic hormones to prolonged strength training. International Journal of Sports Medicine, 9(3): 229-233, 1988. 2. BLOCK, J.E. et al. Determinants of bone density among athletes engaged in weight-bearing and non-weight-bearing activity. Journal of Applied Physiology, 67(3): 1100-1105, 1989. 3. CALMELS, P. et al. Cross-sectional study of muscle strength and bone mineral density in a population of 106 women between the ages of 44 and 87 years: relationship with age and menopause. European Journal of Applied Physiology and Occupational Physiology, 70(2): 180-186, 1995. 4. CAMPBELL, W.W. et al. Increased energy requirements and changes in body composition with resistance training in older adults. American Journal of Clinical Nutrition, 60(2): 167-175, 1994. 5. CONROY, B.P. et al. Bone mineral density in elite junior Olympic weightlifters. Medicine and Science in Sports and Exercise, 25(10): 1103-1109, 1993. 6. COSTILL, D.L. et al. Adaptations in skeletal muscle following strength training. Journal of Applied Physiology, 46(1): 96-99, 1979. Rev. Bras. Ciên. e Mov. Brasília v. 10 n. 2 p. 79-84 abril 2002 83 7. CYRINO, E.S. et al. A influência do treinamento de força sobre a composição corporal de atletas de culturismo submetidos a diferentes situações alimentares. Anais do XX Simpósio Internacional de Ciências do Esporte, São Paulo, 1996. p.124. 8. CYRINO, E.S.; MAESTÁ, N.; BURINI, R.C. Aumento de força e massa muscular em atletas de culturismo suplementados com proteína. Treinamento Desportivo, 5(1): 9-18, 2000. 9. FIATARONE, M.A. et al. High-intensity strength training in nonagenarians. Effects on skeletal muscle. Journal of the American Medical Association, 263(22): 3029-3034, 1990. 10. GETTMAN, L.R.; AYRES, J.J.; JACKSON, A. The effect of circuit weight training on strength, cardiorespiratory function, and body composition of adult men. Medicine and Science in Sports and Exercise, 10(3): 171-176, 1978. 11. GORDON, C.C.; CHUMLEA, W.C.; ROCHE, A.F. Stature, recumbent length, and weight. In: LOHMAN, T.G.; ROCHE, A.F.; MARTORELL, R. (eds.). Anthropometric standardization reference manual. Champaign, Illinois, Human Kinetics Books, 1988, p.3-8. 12. GUEDES, D.P. Composição corporal: princípios, técnicas e aplicações. 2.ed. Londrina, APEF, 1994. 20. MAZZETTI, S.A. et al. The influence of direct supervision of resistance training on strength performance. Medicine and Science in Sports and Exercise, 32(6): 11751184, 2000. 21. NAKAO, M.; INOUE, Y.; MURAKAMI, H. Longitudinal study of the effect of high intensity weight training on aerobic capacity. European Journal of Applied Physiology and Occupational Physiology, 70(1): 20-25, 1995. 22. POEHLMAN, E.T. & MELBY, C. Resistance training and energy balance. International Journal of Sport Nutrition, 8(2): 143-159, 1998. 23. PORTO, D. B. et al. Alterações na composição corporal associadas ao treinamento com pesos sistematizado em adultos jovens. Anais do IX Encontro Anual de Iniciação Científica CNPq-UEL-UEPG-UNIOESTE, Londrina, 2000, p.502-503. 24. RODRIGUES, C.E.C. & ROCHA, P.E.C.P. Musculação: teoria e prática. Rio de Janeiro, Sprint, 1985. 25. ROMANZINI, M. et al. Efeito do treinamento com pesos e do controle nutricional sobre indicadores da composição corporal. Motriz, 7(1): S122, 2001. 13. GUEDES, D.P. & GUEDES, J.E.R.P. Controle do peso corporal. Londrina, Midiograf, 1998. 26. SANTOS, C.F. et al. Modificações na composição corporal após 16 semanas de treinamento com pesos. Anais do III Congresso Brasileiro de Atividade Física e Saúde, Florianópolis, 2001, p.136. 14. HARRISON, G.G. et al. Skinfold thicknesses and measurements technique. In: LOHMAN, T.G.; ROCHE, A.F.; MARTORELL, R. (eds.). Anthropometric standardization reference manual. Champaign: Human Kinetics Books, 1988, p.55-80. 27. SANTOS, C.F.; CARVALHO, M.; CYRINO, E.S. Efeito do treinamento de sobrecarga sobre a composição corporal de adultos jovens ativos. Anais do II Congresso Paranaense de Educação Física, Recreação, Esporte e Dança, Londrina, 1999, p.20. 15. HICKSON, R.C. Interference of strength development by simultaneously training for strength and endurance. European Journal of Applied Physiology and Occupational Physiology, 45(2-3): 255-263, 1980. 28. SIRI, W.E. Body composition from fluid space and density. In: BROZEK, J. & HENSCHEL, A. (eds.). Techniques for measuring body composition. Washington, National Academy of Science, 1961, p.223-244. 16. HUNTER, G.; DEMMENT, R.; MILLER, D. Development of strength and maximum oxygen uptake during simultaneous training for strength and endurance. The Journal of Sports Medicine and Physical Fitness, 27(3): 269275, 1987. 29. VAN ETTEN, L.M.; VERSTAPPEN, F.T.; WESTERTERP, K.R. Effect of body build on weight-training-induced adaptations in body composition and muscular strength. Medicine and Science in Sports and Exercise, 26(4): 515521, 1994. 17. HURLEY, B.F. & ROTH, S.M. Strength training in the elderly: effects on risk factors for age-related diseases. Sports Medicine, 30(4): 249-268, 2000. 30. WILMORE, J.H. Alterations in strength, body composition and anthropometric measurements consequent to a 10-week weight training program. Medicine and Science in Sports and Exercise, 6(2): 133-138, 1974. 18. LEMMER, J.T. et al. Age and gender responses to strength training and detraining. Medicine and Science in Sports and Exercise, 32(8): 1505-1512, 2000. 19. MARCINIK, E.J. et al. Effects of strength training on lactate threshold and endurance performance. Medicine and Science in Sports and Exercise, 23(6): 739-743, 1991. 84 Rev. Bras. Ciên. e Mov. Brasília v. 10 n. 2 p. 79-84 abril 2002