Poupança de emissões de gases de efeito estufa no ciclo de vida do bioetanol de 1ºgeração em P o r tu g a l Francisco Avillez Ana Paiva Brandão Daniel Montes Março 2009 ÍNDICE 1Introdução...................................................................................................................................................................1 2Metodologia de análise das emissões de GEE ............................................................................6 2.1Fases do ciclo de vida do bioetanol e respectivas fronteiras................................6 2.2Limites do sistema ....................................................................................................................................7 2.3Método de cálculo das emissões dos GEE............................................................................9 3Procedimentos adoptados no cálculo das emissões de GEE no âmbito do ciclo de vida do bioetanol .............................................................................................................................. 12 3.1Fase de produção do milho grão .............................................................................................. 14 3.1.1 Pressupostos base.................................................................................................................. 14 3.1.2 Descrição e quantificação das emissões nas actividades de produção de milho grão........................................................................................................................ 17 3.2Fase do processo de produção de bioetanol ................................................................. 21 3.2.1 Pressupostos base.................................................................................................................. 21 3.2.2 Descrição e quantificação das emissões no processo de transformação do milho grão em bioetanol ...................................................................... 22 3.3Fase de transporte do bioetanol.............................................................................................. 26 3.3.1 Pressupostos base.................................................................................................................. 26 3.3.2 Descrição e quantificação no transporte do grão para a fábrica 26 3.3.3 Descrição e quantificação das emissões no transporte do bioetanol da fábrica ao local da incorporação na gasolina ................................... 27 3.4Fase do uso final do bioetanol...................................................................................................... 28 3.4.1 Pressupostos base.................................................................................................................. 28 3.4.2 Descrição e quantificação das emissões no uso no motor de combustão......................................................................................................................................................... 30 4Análise da balança de emissões de GEE no ciclo de vida do bioetanol ........... 30 4.1Cenários alternativos de produção de bioetanol ....................................................... 30 4.1.1 Itinerários tecnológicos alternativos...................................................................... 31 4.1.2 Diferentes variantes no uso dos solos................................................................. 31 4.2Poupança de emissões de GEE no ciclo de vida do bioetanol nos diferentes cenários alternativos ...................................................................................................... 39 4.2.1 Cenário I – Bioetanol “High Carbon”......................................................................... 41 4.2.2 Cenário II – Bioetanol “Medium Carbon” .............................................................. 42 4.2.3 Cenário III – Bioetanol “Low Carbon”....................................................................... 43 4.2.4 Cenário IV – Bioetanol “Very Low Carbon” ........................................................ 44 5Conclusões.............................................................................................................................................................. 45 Referências................................................................................................................................................................ 49 Curricula Vitae dos autores ..................................................................................................................... 51 Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt ii Índice de Figuras Figura Figura Figura Figura 1 – Fases do ciclo de vida do bioetanol............................................................................6 2. Fronteiras da etapa agrícola...............................................................................................8 3. Fronteiras da etapa de conversão industrial ......................................................9 4. Esquema geral da produção de etanol com a tecnologia dry milling .............................................................................................................................................................................. 22 Figura 5. Análise comparativa das emissões de GEE das diferentes fases do ciclo de vida e respectivos itinerários tecnológicos.................................................... 37 Figura 6. Análise comparativa das emissões de GEE das principais componentes da produção de milho grão nacional (PT) e de Países Terceiros (BR) e respectivos itinerários tecnológicos...................................................... 38 Índice de Quadros Quadro 1 Quantidade e origem do cereal.................................................................................... 14 Quadro 2. Factores, em Portugal de emissão e de conversão de energia primária........................................................................................................................................................................ 16 Quadro 3. Factores de emissão e conversão dos inputs agronómicos............ 18 Quadro 4. Produtividades das culturas.......................................................................................... 19 Quadro 5. Alocação energética............................................................................................................... 20 Quadro 6. Principais volumes de inputs e outputs da unidade de produção de bioetanol...................................................................................................................................... 23 Quadro 7. Consumos e rendimentos da unidade de co-geração............................ 25 Quadro 8. Alocação energética dos outputs da unidade de conversão ........... 26 Quadro 9. Origem e distância de abastecimento do milho nacional.................... 27 Quadro 10. Balanço de análise de inventário da fase de transporte de matéria-prima ........................................................................................................................................................ 28 Quadro 11. Balanço de análise de inventário da fase de transporte do bioetanol........................................................................................................................................................................ 28 Quadro 12 - Características dos combustíveis alternativos.................................... 29 Quadro 13. Valor das emissões de GEE no uso do motor de combustão ... 30 Quadro 14. Alterações a nível local e global do uso dos solos agrícolas em consequência da produção futura em Portugal de 100 milhões de L.ano-1 de bioetanol ............................................................................................................................................ 34 Quadro 15. Valor das emissões de GEE dos diferentes itinerários tecnológicos e variantes no uso dos solos no âmbito do ciclo de vida do bioetanol e respectivas reduções percentuais resultantes da correspondente substituição da gasolina..................................................................................... 35 Quadro 16 - Cenários de produção de bioetanol .................................................................. 40 Quadro 17. Valor das emissões de GEE para os diferentes cenários de produção do bioetanol e respectivas reduções percentuais resultantes da correspondente substituição da gasolina............................................................................. 41 Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt iii Quadro 18. Valor das emissões de GEE no Cenário “High carbon”....................... 42 Quadro 19. Valor das emissões de GEE no Cenário “Medium carbon”.............. 43 Quadro 20. Valor das emissões de GEE no Cenário “Low carbon”........................ 44 Quadro 21. Valores das emissões de GEE no Cenário “very low carbon” ...... 45 Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt iv 1 Introdução São fundamentalmente três os objectivos que se pretendem ver atingidos na UE com a utilização dos biocombustíveis líquidos como substitutos dos combustíveis convencionais: - a contribuição para o combate ao aquecimento global, através da redução das emissões de gases com efeitos de estufa (GEE); - o aumento da segurança energética, através da diversificação das fontes energéticas e da redução da respectiva dependência; - a promoção do desenvolvimento rural, através do reforço e diversificação do tecido económico e social das zonas rurais. Para assegurar a concretização dos objectivos a UE estabeleceu, há já alguns anos, uma meta para 2010 de incorporação de 5,75% (em conteúdo energético) de biocombustíveis líquidos e, mais recentemente, uma incorporação obrigatória de 10% em 2020. O Governo Português decidiu, no contexto das orientações consideradas necessárias para o cumprimento do protocolo de Quioto, uma antecipação para 2010 da taxa de incorporação de 10% em volume de biocombustíveis líquidos, para cujo enquadramento aprovou, para além da Portaria n.º 1554-A/2007 que regulamenta a utilização de biocombustíveis líquidos em Portugal até 2010, uma Resolução do Conselho de Ministros (n.º 21 de Janeiro de 2008) que serve de quadro orientador para a legislação futura a aprovar neste contexto. De acordo com as estimativas disponíveis do consumo de gasolina e gasóleo em Portugal, uma incorporação de 10% em volume de biocombustíveis corresponde a cerca de 770 milhões de litros, dos quais 200 milhões de litros dizem respeito ao bioetanol necessário para Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 1 substituir 10% da gasolina que se prevê vir a ser consumida em Portugal nos próximos anos. São numerosos os estudos que nestes últimos tempos têm vindo a ser divulgados sobre os impactos potenciais dos biocombustíveis em geral e do bioetanol em particular, cujos resultados obtidos: • põe em causa o contributo deste tipo de bioenergias para a redução dos GEE e, consequentemente, o seu papel no âmbito do combate ao processo de aquecimento global; • alertam para potenciais impactos negativos sobre a biodiversidade e a segurança alimentar. Importa, neste contexto, sublinhar que a maior ou menor relevância dos estudos em causa terá que ser analisada do ponto de vista, quer do tipo de tecnologias e de fontes de abastecimento energético levados em consideração nas diferentes fases do ciclo de vida da produção de biocombustíveis, quer do tipo de cenários de referência utilizados quanto ao uso alternativo dos solos agrícolas a nível local e global. De facto, grande parte dos estudos mais usualmente publicitados entre nós são totalmente irrelevantes do ponto de vista da análise da sustentabilidade futura de produção de bioetanol em Portugal, uma vez que: • baseiam-se em tecnologias “wet milling” e na utilização de aquecimento a carvão, quando hoje em dia todos os investimentos estão baseados na tecnologia “dry milling” e na utilização da cogeração a partir de gás natural e/ou biomassa agro-florestal; • propõe como cenários de referência áreas ocupadas ou por vegetação arbórea ou herbácea rica quer em stocks de carbono, quer em biodiversidade, quando o que se verifica actualmente na maioria dos casos e se prevê para o futuro será o uso alternativo de terras agrícolas hoje em dia ocupadas por culturas alimentares. Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 2 Mais recentemente, o debate sobre as vantagens e inconvenientes dos biocombustíveis tem sido centrado em torno da respectiva sustentabilidade ambiental e social e das suas relações com as políticas públicas necessárias para assegurar a sustentabilidade económica dos investimentos em causa. Ao nível da União Europeia este debate tem-se focalizado, no âmbito da discussão da proposta de Directiva para a promoção do uso de energias renováveis, na contestação da fixação de uma meta, para 2020, de incorporação obrigatória de 10% de bioetanol e de biodiesel, respectivamente, na gasolina e no gasóleo. Sugerem, no essencial, os críticos desta decisão que tal meta deveria ser meramente indicativa e que os volumes de biocombustíveis a incorporar deviam, antes de tudo, garantir o cumprimento de critérios de sustentabilidade ambiental e social previamente definidos que, uma vez verificados, assegurariam uma sua incorporação obrigatória até um volume máximo correspondente aos 10% previstos. Esta critica, com que estamos inteiramente de acordo, permitiria evitar decisões de produção de biocombustíveis de sustentabilidade duvidosa, incentivando os respectivos agentes económicos a adoptar opções técnicas ambiental e socialmente mais adequadas. É neste contexto que devem ser entendidas as recentes afirmações da Comissária Europeia Sra. Fischer Boel na cimeira da FAO: “Nós queremos ter a certeza que os biocombustíveis que viermos a produzir ou a importar contribuam de forma sustentável para os nossos objectivos sobre o clima. É esse o motivo pelo qual queremos estabelecer critérios rígidos de sustentabilidade, tanto em matéria de redução de emissões de CO2, como de gestão das terras”. Em Portugal, o debate sobre a problemática dos biocombustíveis cristalizou em torno de um conjunto de criticas, quase sempre de credibilidade bastante duvidosa, que têm conduzido à quase diabolização Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 3 dos projectos de produção de bioetanol e ao apoio de orientações que contribuam para que a totalidade da quota de isenção a adoptar venha a beneficiar exclusivamente a produção de biodiesel, que poderia, assim, vir a ser incorporado no gasóleo, a partir de 2012, no equivalente a 10% do consumo total previsto para o gasóleo e a gasolina. É, hoje em dia, consensual entre os agentes económicos interessados na realização de futuros investimentos na área do bioetanol, que o principal objectivo a atingir, ao longo da próxima década, é o da criação de condições para a produção de bioetanol de 2ª geração, através da realização de um conjunto diversificado de investimentos que se processarão ao longo de três fases distintas. Numa primeira fase, proceder-se-á à instalação de duas unidades de produção, cada uma delas, com uma capacidade de 100 milhões de L.ano1 de bioetanol de 1ª geração, a partir do milho grão. Numa segunda fase, irão ser realizados investimentos na instalação de unidades de extracção de óleo de milho e estabelecidas parcerias com empresas de produção de biodiesel de forma a permitir um aproveitamento integrado dos respectivos produtos e sub-produtos, dando origem à formação de futuras biorefinarias. Numa terceira fase, uma vez assegurada a nível mundial a viabilidade técnico-económica da produção de bioetanol a partir de materiais lenhocelulósicos, ir-se-á proceder à realização dos investimentos necessários para reconverter as unidades de produção de bioetanol de 1ª geração em 2ª geração. A análise de sustentabilidade da produção de bioetanol que é objecto deste estudo, diz, apenas, respeito à primeira fase dos investimentos em causa, ou seja, à instalação de unidades de produção de bioetanol de 1ª geração a partir do milho grão. Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 4 São três os principais motivos que justificam a realização, no curto prazo, de investimentos no bioetanol de 1ª geração, quando o objectivo último a atingir é o da produção de bioetanol de 2ª geração. Em primeiro lugar, porque é consensual que a viabilidade técnicoeconómica da produção de bioetanol a partir de materiais lenhocelulósicos só virá a ser assegurada daqui a, pelo menos, dez anos. Em segundo lugar, porque também é consensual que muito dificilmente investidores que não ocupem desde já uma posição na produção de bioetanol a partir de cereais, poderão aspirar vir a ocupá-la no âmbito da produção de 2ª geração. Em terceiro lugar, porque os investimentos necessários para reconverter uma unidade de produção de bioetanol de 1ª para 2ª geração, não só não põem em causa a maior parte do “lay-out” da fábrica, como correspondem a montantes relativamente reduzidos. É neste contexto que deverá ser entendida a afirmação da Comissária Europeia Sra. Fisher Boel na cimeira da FAO: “Nós queremos acelerar o nosso movimento em direcção aos biocombustíveis de 2ª geração, mas se não passarmos pela 1ª geração, corremos o risco de nunca chegar à 2ª geração”. Assim sendo, este estudo visa a análise da sustentabilidade da produção futura em Portugal de 200 milhões L.ano-1 de bioetanol a partir de milho grão. No ponto 2 deste texto identificar-se-ão as diferentes fases do ciclo de vida do bioetanol, proceder-se-á à delimitação das respectivas fronteiras e apresentar-se-á o método adoptado no cálculo das emissões de GEE. No ponto 3 proceder-se-á à descrição dos procedimentos adoptados no cálculo das emissões de GEE nas quatro diferentes fases do ciclo de vida do bioetanol. Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 5 No ponto 4 definir-se-ão diferentes cenários alternativos de produção de bioetanol a partir do milho grão e apresentar-se-ão os resultados obtidos no âmbito da análise da intensidade carbónica dos diferentes cenários em causa. Finalmente, no ponto 5, serão apresentadas as principais conclusões do estudo realizado. 2 Metodologia de análise das emissões de GEE 2.1 Fases do ciclo de vida do bioetanol e respectivas fronteiras A análise das emissões de GEE no contexto do ciclo de vida dos biocombustíveis em geral e do bioetanol em particular baseia-se no estabelecimento de um inventário das emissões de GEE ao longo de 5 fases distintas mas complementares (Figura 1). - fase da produção de milho grão; - fase do transporte do milho grão da produção até à transformação; - fase da transformação do milho grão em bioetanol; - fase de transporte do bioetanol até ao local de incorporação de gasolina; - fase do uso final do bioetanol nos motores de combustão. Produção de Transporte de Transformação Transporte do Uso final do milho grão milho grão de milho grão em Bioetanol Bioetanol bioetanol Figura 1 – Fases do ciclo de vida do bioetanol Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 6 A análise das emissões de GEE ao longo destas diferentes fases corresponde à análise usualmente designada na terminologia anglosaxónica “Well-to-Wheel” (do poço à roda) utilizada no âmbito dos balanços de carbono dos combustíveis. Um elemento fundamental deste tipo de análises consiste na delimitação prévia das fronteiras dentro das quais as emissões de GEE deverão ser quantificados. 2.2 Limites do sistema Os limites do sistema determinam que processos estão incluídos na análise de ciclo de vida, as correspondentes emissões e o nível de detalhe associado. Neste estudo, as emissões relativas à produção da maquinaria e infraestrutura necessária à extracção, transporte e refinação do crude foram excluídas, dado que o seu contributo é muito pequeno na globalidade das emissões (<1%) (CIEMAT, 2005). Na Figura 2 é representado o esquema das actividades agrícolas consideradas nos sistemas agrícolas estudados e a respectiva fronteira. Dentro dos limites do sistema foram incluídas todas as operações culturais que se realizam, assim como todos os processos de produção dos diferentes inputs agrícolas: gasóleo, fertilizantes, produtos fitofarmacêuticos, sementes e electricidade utilizada na irrigação das culturas de regadio. Dado que o processo tem um co-produto (palha do cereal), que pode ou não ser recolhido para uma das culturas consideradas, foram definidas duas hipóteses para analisar o impacte desta alternativa. Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 7 Maquinaria Agrícola Veículos de Transporte Instalações Agrícolas Fronteira do sistema Extracção Crude Refinação de Diesel Electricidade Mix Nacional Produção de Agro-químicos Unidades N,P,K Pesticidas Cultivo da Matéria-Prima Lavoura Gradagem Adubação Sementeira Monda Tratamentos Fitossanitários Sacha Colheita Produção semente Grão Secagem e Armazenamento Distribuição até à Unidade de Produção Palha Figura 2 - Fronteiras da etapa agrícola As emissões relativas ao fabrico da maquinaria agrícola e dos veículos de transporte foram excluídas deste estudo. É importante assinalar que estes factores têm relevância em termos de emissões e energia, no entanto, por uma questão de coerência optou-se por não inclui-los dentro dos limites do sistema. A Figura 3 apresenta esquematicamente o processo de conversão industrial, com os respectivos inputs e outputs e também o co-produto considerado - Distillers Dried Grain with Solubles (DDGS). Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 8 Limpeza do grão Moagem Grão Hidrólise, Fermentação, Destilação Etanol Hidratado Desidratação Bagaço Distribuição e Armazenamento Secagem DDGS Unidade de produção Energia Eléctrica Energia Térmica Extracção Gás Natural Unidade de Co-Geração Recolha e Produção Biomassa Fronteira do sistema Instalações da Unidade de Produção Enzimas Leveduras Reagentes Veículos de Transporte Figura 3 - Fronteiras da etapa de conversão industrial Não estão incluídas nesta análise as emissões, energia e materiais relativas ao fabrico da unidade industrial de produção. Não foram também contabilizadas as matérias-primas necessárias ao processo de conversão tais como as leveduras e enzimas e outros reagentes. Tal é justificado dado que o seu contributo não é significativo face à globalidade de emissões. 2.3 Método de cálculo das emissões dos GEE Para procedermos ao cálculo do valor líquido total (E) das emissões de GEE ao longo do ciclo de vida do bioetanol baseámo-nos na metodologia proposta pela Comissão Europeia (CE) no contexto da Directiva Europeia Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 9 para a promoção do uso da energia a partir de recursos renováveis (Anexo V). É a seguinte a expressão de cálculo por nós adoptada para o bioetanol a partir da proposta apresentada no âmbito da referida Directiva, cujas siglas foram por nós adaptadas para a língua portuguesa: E B = e p + ei + et + eu − (ecs + eua − esc ) − eee Aonde: ep, representa as emissões de GEE na fase da produção das matérias primas agrícolas; ei, representa as emissões de GEE na fase do processo industrial de transformação das matérias primas agrícolas para o bioetanol; et, representa as emissões de GEE nas fases de transporte quer das matérias primas agrícolas, quer do bioetanol; eu, representa as emissões de GEE na fase do uso final do bioetanol (considera-se zero para o bioetanol); ecs, representa as emissões de GEE poupadas em consequência do processo de captura e sequestro de carbono; eua, representa as emissões de GEE que deixam de ser emitidas pelo não uso dos solos com culturas alternativas; esc, representa o valor anualisado das emissões de GEE resultantes das alterações no stock de carbono provocados pela mudança no uso dos solos; eee, representa as emissões de GEE poupadas pela colocação na rede do excedente de energia eléctrica resultante do processo de co-geração. Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 10 Na expressão adoptada, comparativamente à original, não se considerou a poupança de emissões devida à acumulação de carbono no solo através da melhoria das práticas agrícolas e a poupança de emissões da captura e substituição de carbono. O valor de E irá ser expresso em gramas de CO2 equivalente por megajoule, ou seja, em g CO2eq/MJ. O cálculo das poupanças (P) de emissões de GEE resultantes da utilização de bioetanol em substituição da gasolina irá ser feito com base na seguinte expressão: P = (E G − E B ) / E G Em que, EB = valor total das emissões de GEE por parte do bioetanol EG = valor total das emissões de GEE por parte do correspondente volume de gasolina Importa, ainda, sublinhar que no âmbito das expressões de cálculo de EB e EG irão ser levadas em consideração, apenas, as emissões dos três seguintes gases: dióxido de carbono (CO2); óxido nitroso (N2O) e metano (CH4). Para o cálculo da equivalência destes gases com o CO2, adoptaram-se os seguintes valores: - o valor 1, no caso das emissões de dióxido de carbono (CO2); - o valor 296, no caso das emissões de óxido nitroso (N2O); - o valor 23, no caso das emissões de metano (CH4). Na medida em que, em diferentes fases do ciclo de vida do bioetanol, irão ser obtidos co-produtos como seja os casos das palhas de milho e dos DDGS, torna-se necessário fazer uma quantificação da importância relativa de cada uma delas de modo a poder efectuar-se a alocação de energia utilizada no processo, a qual pode ser feita com base, ou: Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 11 - na percentagem mássica; - no valor energético; - no valor económico; - utilizando o princípio da substituição. De acordo com as orientações metodológicas que constam do Anexo V da Directiva anteriormente referida, foi considerada a alocação dos coprodutos do milho grão e do bioetanol com base no valor energético. 3 Procedimentos adoptados no cálculo das emissões de GEE no âmbito do ciclo de vida do bioetanol A incorporação anual em Portugal de 10% de bioetanol na gasolina irá corresponder a uma produção de 200 milhões de L.ano-1 de bioetanol e cerca de 160 milhões de toneladas/ano de DDGS. Se, como se prevê, a totalidade deste bioetanol vier a ser produzido a partir do milho grão, o volume anual deste cereal destinado à produção deste tipo de biocombustível será da ordem dos 500 milhares de toneladas. Na medida em que o número de meses em que se poderá contar com uma disponibilidade de milho nacional obtido directamente a partir da colheita será de cerca de 2,5 meses a 3 meses e que, por razões de natureza económica, a sua armazenagem não deverá exceder igual período, poder-se-á afirmar, que apenas 55% do milho que virá a ser consumido anualmente na produção de bioetanol (275 milhares de ton/ano) será de origem nacional, sendo as restantes 45% obtidas através da importação (225 milhares de ton/ano). Partindo da hipótese que a procura interna de bioetanol venha a ser assegurada pela instalação de duas unidades de produção de bioetanol de 1ª geração de dimensão semelhante, poder-se-á admitir que o ciclo Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 12 de vida do bioetanol produzido por cada uma das unidades em causa, apresentará as seguintes principais características: - uma capacidade de produção industrial correspondente a 100 milhões de L.ano-1 de bioetanol e de 79 mil toneladas/ano de DDGS; - uma tecnologia “dry milling” de transformação do milho grão em bioetanol associado a uma unidade de co-geração cuja fonte energética poderá ser variável; - uma localização da unidade industrial que lhe permita, não só beneficiar de infra-estruturas adequadas, como também de uma grande proximidade quer às áreas de produção e secagem de milho grão (Lezíria do Tejo e Alqueva), quer aos locais aonde se poderá vir a processar o “blending” do bioetanol com a gasolina (Alcoentre ou Sines); - um consumo anual de milho grão de cerca de 246 milhares de toneladas que se prevê vir a corresponder a uma produção nacional de 135.300 toneladas (55% do total) e uma importação de 110.700 toneladas; - uma área de milho grão nacional destinada anualmente à produção de bioetanol de cerca de 11.300 hectares (produtividade média de 12 ton/ha), estimando-se entre os cerca de 33 e os 46 milhares de hectares a área de milho grão necessário, directa ou indirectamente, para cobrir as necessidades adicionais de importação futura deste cereal em Portugal. Foi com este enquadramento geral que se procedeu à identificação e quantificação das emissões de GEE ao longo do ciclo de vida do bioetanol em Portugal, tendo-se, para o efeito, tratado separadamente cada uma Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 13 das diferentes fases de produção, transformação, transporte e uso final anteriormente identificadas. 3.1 Fase de produção do milho grão 3.1.1 Pressupostos base Origem do cereal e respectivas quantidades Como referido anteriormente, a origem do cereal usado para a produção de bioetanol no projecto em análise é principalmente nacional, recorrendo-se igualmente à importação de milho. Segundo as mais recentes previsões dos promotores do projecto, o abastecimento será feito durante um total de 6 meses com cereal produzido em Portugal recorrendo-se ao mercado internacional para garantir o abastecimento nos restantes 5 meses do ano. As quantidades previstas, apresentadas no Quadro 1, contemplam a utilização de um total anual de 246 milhares de tonelada de milho grão, 55% de origem nacional e 45% importados. Quadro 1 - Quantidade e origem do cereal Cereal Origem Milho Milho PT BR Quantidade previsional (t.ha1 ) 135.300 110.700 Período abastecimento (meses) 6 5 de Fonte: AGRO.GES (2007a) Considerou-se que o cereal de origem nacional é produzido em zonas cerealíferas portuguesas representativas das áreas de regadio das regiões do Vale do Tejo e do Alentejo. Assumiu-se que as áreas dedicadas à produção de grão de milho (nos solos de maior nível de produtividade) para a transformação em bioetanol correspondem a áreas que nos últimos anos têm sido Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 14 cultivadas com estas culturas e no âmbito de explorações agrícolas já devidamente equipadas e estruturadas. Relativamente à importação, as quantidades e origem dos cereais poderão ser oscilantes, dependendo da disponibilidade, dos preços do produto no mercado interno e da taxa de câmbio. Neste estudo considerou--se a importação de cerca de 110 mil t.ano-1 de milho grão provenientes da Argentina/Brasil que são potencialmente os principais mercados abastecedores de Portugal no que diz respeito ao fornecimento deste cereal. Modelação da fixação de CO2 na biomassa O crescimento das culturas supõe sequestro de CO2 atmosférico devido à fixação deste gás durante o processo de fotossíntese das plantas na formação de compostos orgânicos que serão utilizados durante o seu crescimento. O CO2 fixado pela cultura tem dois destinos. Em primeiro lugar, na parte da cultura que se exporta do terreno, existe o grão e a palha. A parte fixada no grão será por sua vez transformada em etanol que irá ser utilizado no motor e emitirá CO2. Existe também o CO2 que irá ser libertado durante o processo de fermentação e por fim o carbono (C) presente no DDGS. Uma vez que este CO2 foi previamente fixado pela cultura, as quantidades emitidas durante a combustão no motor, na fermentação e do uso do DDGS não foram contabilizadas (CIEMAT, 2005). Por outro lado, a palha de milho pode ter utilização energética. A fixação de carbono nesta parte da cultura não foi considerada como sequestro, mas também não foi considerada como emissora de gases. Em segundo lugar, o CO2 é fixado também nas partes da cultura que permanecem no terreno, como é o caso dos restolhos e raízes. Após a colheita, grande parte dos resíduos das culturas são mineralizados e Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 15 voltam à forma de CO2, mas parte do carbono absorvido pela cultura transfere-se para o solo sob a forma de rizodepósitos. Estes depósitos são formas imobilizadas de carbono que não são mais do que a fracção que é incorporada no solo e absorvido nos minerais argilosos, na matéria orgânica ou nos microrganismos do solo, constituindo uma fixação efectiva de CO2 atmosférico. Segundo os dados do estudo CIEMAT (2005) em Espanha e, considerando os valores encontrados na revisão bibliográfica efectuada, foi assumida uma fixação permanente de 250 kg C.ha-1, como um valor médio teórico para os sistemas de produção considerados. Cálculo da energia primária As emissões dos sistemas estudados foram determinadas em função do uso de energia primária. A energia primária representa a energia total consumida ao longo do seu ciclo de vida global. Na determinação do valor total de energia primária utilizada no ciclo de vida de um combustível, consideraram-se de forma cumulativa todos os conteúdos energéticos dos recursos extraídos. Os valores utilizados neste estudo, nomeadamente o factor de conversão para transformação da energia primária em energia eléctrica são apresentados no Quadro 2. Quadro 2 - Factores, em Portugal de emissão e de conversão de energia primária Combustíveis fósseis Diesel Propano Gás Natural Electricidade Emissões GEE (kg.MJ-1) CO2 CH4 N 2O 1,43E-02 1,07E-01 6,16E-02 1,39E-01 0,00E+00 4,15E-07 3,11E-07 6,63E-06 0,00E+00 5,57E-05 1,27E-04 2,19E-04 Fonte: Adaptado de CONCAWE (2007) e OEKO (2007) Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 16 3.1.2 Descrição e quantificação das emissões nas actividades de produção de milho grão Definição dos sistemas de produção agrícola e fontes de dados Para a construção da fase agrícola relativa à produção nacional recorreu-se a dados relativos ao sistema de produção em regadio convencional, actualmente praticada no cultivo do milho grão no Alentejo e Ribatejo. Estas foram seleccionadas como as principais zonas cerealíferas com potencialidades para o fornecimento de grão. Para o estudo da produção de milho nacional foram utilizados os dados fornecidos pela AGRO.GES (AGRO.GES, 2007b). No que se refere ao cereal importado, foi considerada a produção de milho grão no sistema de sementeira directa, tipo de sistema produtivo que está em expansão na Argentina e no Brasil. A construção e análise dos dados do referido sistema de produção do milho fundamentaram-se no quadro de exigências físicas de factores de produção elaborados pelo Instituto de Economia Agrícola do Brasil (IEA) (Freitas et. al, 2006), para o Estado de São Paulo, região do Médio Paranapamena. Para a inventarização das emissões nos sistemas de produção agrícola em análise foram utilizados dados de coeficientes técnicos de aplicação de factores de produção e da utilização de máquinas nas operações culturais consideradas. Nos balanços foram contabilizados os seguintes rubricas referentes aos itinerários técnicos de produção considerados na produção de milho grão: • Inputs agronómicos – Inclui a produção e utilização de fertilizantes, produtos fitofarmacêuticos e a produção das sementes. Segundo os estudos mais relevantes consultados (Audsley et. al, 1997; CONCAWE 2007), a produção de fertilizantes, especialmente os azotados, é uma das etapas na actividade agrícola que mais peso tem na análise de Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 17 inventário de produção de cereais. Os dados usados relativos à energia e emissões do processo de fabrico destes compostos estão sintetizados no Quadro 3. Quadro 3 - Factores de emissão e conversão dos inputs agronómicos Fertilizantes e correctivos Unidade N Unidade P Unidade K Ureia CaO Fitofarmacêuticos Genérico Emissões GEE (kg.kgprod-1) CO2 CH4 N 2O 2,95E+00 1,19E+00 1,12E+00 8,40E-01 2,96E-01 6,90E-03 1,76E-03 2,70E-03 4,51E-03 2,73E-04 1,51E-02 5,85E-05 6,23E-05 2,60E-05 2,11E-05 1,11E+01 2,63E-02 1,73E-03 Fonte: Adaptado de CONCAWE (2007) • Maquinaria Agrícola – As operações culturais incluídas nos sistemas produtivos e as suas necessidades de tracção decorrem das contas de cultura utilizadas. Assumiu-se 0,1 L.cv-1.h-1 (AGRO.GES, 2007a) para o consumo de diesel para as máquinas motrizes; • Rega – Os sistemas de produção considerados para a produção de milho grão em Portugal são de regadio. A rega é feita por pivot alimentado na rede eléctrica e a dotação de rega assumida foi de 5000m3.ha-1. No caso do sistema de produção de milho no Brasil não foram contabilizados consumos de regadio, uma vez que se trata de uma cultura de sequeiro; • Secagem dos cereais – Considerou-se 25% de humidade para o grão de milho de ambas as proveniências. Esse teor de humidade vai ser reduzido para 10% no processo de secagem e para o processo industrial é contabilizado sem humidade. Para a secagem do grão dos cereais forma utilizados dados relativos ao consumo e emissões da utilização de gás propano no secador (Lagoalva Equipamentos, 2007). Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 18 As produtividades de grão e palha do cereal (resíduo ou co-produto agrícola) nos sistemas produtivos considerados neste estudo estão sintetizados no Quadro 4. Quadro 4 - Produtividades das culturas Cultura Produtividades Milho PT 14,12 12,00 8,40 27,13 6,25 5,31 3,72 2,41 Mix hortícola PT Milho BR Soja BR t t t t t t t t grão.ha-1 grão seco.ha-1 palha.ha-1 grão.ha-1 grão.ha-1 grão seco.ha-1 palha.ha-1 grão.ha-1 Fonte: Adaptado de AGROGES (2007b) No que diz respeito ao uso alternativo dos solos agrícolas optou-se por utilizar um “mix hortícola” como cultura alternativa do milho grão em Portugal e a soja como cultura alternativa do milho grão no Brasil/Argentina. Na análise da intensidade carbónica recorreu-se a dados semelhantes aos anteriormente referidos para os diferentes tipos de factores de emissão correspondentes aos diversos itinerários técnicos da produção agrícola. Os sistemas produtivos têm um co-produto com valor e uso potencial que é a palha. A palha e outros resíduos potencialmente aproveitáveis do milho não têm sido até à data sujeitos a qualquer tipo de aproveitamento. Neste estudo, contudo, considerou-se a possibilidade do seu aproveitamento energético, tendo-se considerado a sua recolha para utilização como biomassa na secagem do grão, em alguns dos itinerários tecnológicos utilizados. Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 19 Regras de alocação de co-produtos Os sistemas agrícolas considerados produzem, além do grão, a palha do milho que é um produto com potencial uso energético. Neste estudo e, para alocação da palha como co-produto da produção dos cereais, tal como foi referido considera-se a alocação com base no valor energético, de acordo com as orientações metodológicas que constam do Anexo V da Directiva dos Biocombustíveis anteriormente referida. O Quadro 5 apresenta os valores assumidos para as produtividades e os resultados da alocação considerada para as hipóteses previamente definidas, sem e com recolha de palha de milho grão. Quadro 5 - Alocação energética Cultura Milho PT Milho BR Produtividades 12,00 8,40 5,31 3,72 t t t t grão seco.ha-1 palha.ha-1 grão seco.ha-1 palha.ha-1 Alocação energética Sem recolha Com recolha de palha de palha 100,0% 58,5% 0,0% 41,5% 100,0% 100,0% 0,0% 0,0% Emissões de óxido nitroso (N2O) do solo As emissões de N2O são uma importante fonte de GEE. A sua quantificação gera controvérsia, existindo variadas metodologias para a quantificação no que respeita às emissões. A polémica é alimentada pelo facto de a quantificação das emissões estar muito dependente das condições concretas de humidade e temperatura do solo, das culturas precedentes e práticas culturais usadas. A metodologia por nós utilizada é a mais consensual e foi proposta no documento IPCC Guidelines for National GHG Inventories. Agriculture, Forestry and Other Land Use (2006). As perdas de N na forma de N20 foram estimadas segundo a seguinte equação: Perdas = 1,00 + 0,0125 * Aplicação de N (kg N.ha-1.ano-1) Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 20 3.2 Fase do processo de produção de bioetanol 3.2.1 Pressupostos base Foi considerado o processo de produção de bioetanol a partir da degradação do amido do grão do cereal pelo processo de hidrólise, seguindo-se as etapas de fermentação e destilação. A tecnologia considerada é o dry milling. Nos pressupostos para a construção deste inventário foram utilizados dados previsionais dos consumos energéticos de uma unidade industrial projectada para Portugal, fornecidos pelo fabricante da tecnologia. Para a produtividade da conversão do milho grão (407 litros de etanol por tonelada de milho grão) foi assumido o valor previsto no plano base de engenharia apresentado, o qual corresponde a um teor de amido de 16%. O processo de fermentação origina a libertação de CO2 durante a transformação da glucose em bioetanol. Na unidade de produção de bioetanol em causa não está prevista a recolha desse gás para posterior venda deste subproduto e, como tal, ao não existir uso para o CO2 este será emitido para a atmosfera. No entanto, estas emissões são consideradas nulas uma vez que o CO2 tinha sido previamente fixado no processo de formação do grão do cereal utilizado (CIEMAT, 2005). A unidade de produção é alimentada por uma sub-unidade de co-geração alimentada a gás natural e biomassa, com elevadas emissões de CO2 para a atmosfera. O CO2 proveniente da combustão do gás natural será contabilizado no inventário, ao invés do resultante da combustão da biomassa. A biomassa é um combustível neutro em emissões de CO2 uma vez que este foi previamente fixado durante a fase de crescimento do material vegetal que lhe dá origem. Como referido anteriormente, um dos objectivos específicos deste estudo foi a quantificação das emissões de CO2eq. evitadas pela utilização de biomassa em substituição da utilização de gás natural. As emissões Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 21 atmosféricas da unidade de co-geração foram inventariadas utilizando os factores de emissão propostos em GREET 1.7 (Argonne, 2007) para produção da estilha (pré-tratamento mecânico) de biomassa e sua utilização, e os factores de emissão para a utilização do gás natural utilizados foram propostos pelo WBCSD (2006). 3.2.2 Descrição e quantificação das emissões no processo de transformação do milho grão em bioetanol Na Figura 4 observa-se o esquema geral das actividades implicadas na produção de etanol com a tecnologia dry milling, assim como os respectivos inputs e outputs. Trituração do grão Mistura Cereal Cozedura Reagentes Liquefacção DDGS Energia Fermentação Bioetanol Destilação e desidratação Decantação Evaporação Figura 4 - Esquema geral da produção de etanol com a tecnologia dry milling Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 22 A unidade industrial está projectada para a produção de 100 milhões de L.ano-1 de bioetanol anidro a 99,75% e de, aproximadamente, 79 mil t. ano-1 de DDGS. O fornecimento do vapor e electricidade necessários ao processo industrial de conversão é assegurado por uma unidade de co-geração que se prevê que utilize gás natural (100%). Este pressuposto será posteriormente alterado em função dos diferentes itinerários tecnológicos que irão ser considerados. As matérias-primas como as leveduras (Saccharomices cerevisiae), mistura de enzimas (amyloglycosidase) e ácidos (fosfórico e sulfúrico) são essenciais ao processo de produção de bioetanol a partir do amido contido no grão. Contudo, segundo o estudo CIEMAT (2005) o seu impacte nos balanços não é significativo. Como tal, no inventário em análise não foi considerada a quantidade de energia despendida na sua produção nem as respectivas emissões. No Quadro 6 estão resumidos os volumes considerados para os principais inputs e outputs na respectiva unidade de produção. Quadro 6 - Principais volumes de inputs e outputs da unidade de produção de bioetanol Produção de etanol (t.ano-1) Produção de DDGS (t.ano-1) Consumo de cereal (t.ano-1) 78.940 79.392 246.000 Fonte: AGRO.GES (2007a) Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 23 A produção de DDGS Como co-produto do processo de produção de bioetanol utilizando a tecnologia dry milling obtêm-se DDGS (Distillers Dried Grain with Solubles). É um composto rico em fibras, proteínas e outros nutrientes, constituindo um produto com elevado valor nutritivo que é comercializado como ração animal. O processo produtivo engloba um tratamento térmico para a redução do teor de humidade para valores próximos dos 10%, seguindo de uma peletização que permite optimizar a utilização, transporte e conservação deste produto. A unidade de co-geração A unidade de co-geração garante as necessidades térmicas e eléctricas do processo produtivo do etanol. Grosso modo, esta unidade é composta por uma caldeira principal para biomassa, com pressão de funcionamento de 41 bar e com uma turbina em contra-pressão para a produção de energia eléctrica. Existe também a caldeira a gás natural, com pressão de funcionamento de 11 bar, e que pode fornecer energia eléctrica em caso de avaria ou nos períodos de manutenção da caldeira principal (M.D.T. S.r.L, 2007). No Quadro 7 estão sintetizados os valores para as hipóteses de consumo de biomassa e gás natural. São igualmente apresentados os pressupostos de rendimento de produção de energia eléctrica (25%) e da produção de vapor (55%), perfazendo um rendimento global de 80%. Os dados dos rendimentos utilizados foram disponibilizados por uma empresa fornecedora deste tipo de tecnologia (Forestech S.A. 2007). Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 24 Quadro 7 - Consumos e rendimentos da unidade de co-geração PCI Combustível Biomassa (MJ.kg-1) GN (MJ.m-3) Consumo Biomassa t.ano-1 kg.LEtOH-1 MJ.LEtOH-1 Ebiomassa/Etotal Consumo GN m3.ano-1 m3.LEtOH-1 MJ.LEtOH-1 EGN/Etotal Rendimento co-geração Electricidade Vapor Total 14,35 34,50 48.900 0,49 7,02 2/3 10.400.000 0,10 3,59 1/3 MJoutput/MJinput 25% 55% 80% Fonte: Adaptado de Forestech S.A. (2007) e AGRO.GES (2007a) Alocação de co-produtos A produção industrial de bioetanol com a tecnologia considerada produz DDGS que é, como referido anteriormente, um produto com valor comercial e com aplicação além das fronteiras consideradas no presente estudo. O DDGS apresenta um elevado valor nutritivo e é utilizado na alimentação animal. Neste estudo e, para alocação do DDGS como coproduto da produção do etanol, foi considerada a alocação com base no seu teor energético, que é um do métodos propostos em Shapouri et al (2002) e no Anexo V da Directiva da UE e que já foram resumidamente descritos na alocação da palha. Os valores usados estão resumidos no Quadro 8. Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 25 Quadro 8 - Alocação energética dos outputs da unidade de conversão Output Etanol DDGS Alocação 62,62% 37,38% 3.3 Fase de transporte do bioetanol 3.3.1 Pressupostos base Neste estudo foram consideradas as fases de transporte da matériaprima até à unidade de conversão e o transporte do bioetanol até à unidade de distribuição. A análise de inventário de emissões e de energia destas fases do ciclo de vida foram calculadas recorrendo à ferramenta computacional GEMIS 4.4 (OEKO, 2007). 3.3.2 Descrição e quantificação no transporte do grão para a fábrica Segundo as informações disponíveis o grão de origem nacional irá ser transportado até à unidade de produção por modo rodoviário, em veículos pesados de mercadorias. Os principais centros de abastecimento e respectivas distâncias estão representados no Quadro 9, o que não inclui as distâncias entre o campo e os secadores. Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 26 Quadro 9 - Origem e distância de abastecimento do milho nacional Origem Distância (km) 150 126 92 99 97 123 115 Beja Ferreira do Alentejo Coruche Fajarda Salvaterra de Magos Vale Figueira Média Fonte: AGRO.GES (2007a) Ao valor médio adicionou-se uma distância média de 45 km correspondente às deslocações das parcelas de milho aos secadores. Relativamente ao milho importado do Brasil foi assumida uma distância de 400 km de transporte rodoviário e posteriormente 8.000 km de transporte marítimo. Considerou-se o Porto de Santos, no estado de São Paulo, como o local de embarque e o Porto de Setúbal como destino de descarga do grão. 3.3.3 Descrição e quantificação das emissões no transporte do bioetanol da fábrica ao local da incorporação na gasolina No cenário considerado neste estudo, o bioetanol é na sua totalidade expedido para Sines onde é misturado com gasolina. Foi assumido o transporte por camiões cisterna e uma distância de 138 km entre as duas unidades industriais. A análise de ciclo de vida energética termina no portão da unidade de Sines. Com base nos dados disponíveis, obtiveram-se as emissões de GEE referentes ao processo de transporte do grão de origem nacional e importada para a unidade de produção de bioetanol que estão sintetizados no Quadro 10. Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 27 Quadro 10 - Balanço de análise de inventário da fase de transporte de matéria-prima Transporte matéria-prima Distância (km) Milho PT Rodoviário Milho BR Rodoviário Marítimo Sub-total Emissões kg CO2 eq.t-1 kg CO2 eq.MJ-1 160 2,54E+01 1,61E-03 400 8.000 5,48E+01 3,44E-02 5,48E+01 3,47E-03 2,17E-06 3,47E-03 Os valores correspondentes à fase de transporte do bioetanol da unidade industrial até ao complexo petroquímico de Sines. Os resultados podem ser observados no Quadro 11. Quadro 11 - Balanço de análise de inventário da fase de transporte do bioetanol Transporte matéria-prima Distância (km) ETOH Rodoviário 130 Emissões kg CO2 eq.l-1 1,44E-02 kg CO2 eq.MJ-1 6,76E-04 3.4 Fase do uso final do bioetanol 3.4.1 Pressupostos base O uso final do bioetanol no motor de combustão interna refere-se unicamente a emissões de GEE. Os dados das emissões referem-se a cada km percorrido com o veículo de referência com cada um dos combustíveis estudados. No cálculo das emissões de GEE, seguiram-se duas abordagens distintas. Para as emissões de CO2, no caso do bioetanol anidro (E100) e gasolina e, Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 28 considerou-se a combustão completa dos combustíveis e calculou-se o seu factor de emissão a partir do seu teor em carbono. Para as emissões das misturas analisadas, realizou-se uma média ponderada tendo em conta o teor de gasolina e de etanol em cada tipo de mistura. Note-se que esta abordagem não corresponde inteiramente à realidade, já que na prática a combustão não é completa, logo verifica-se a libertação de outros poluentes atmosféricos, designadamente de monóxido de carbono e partículas. Assim, a estimativa realizada sobrevaloriza a emissão de dióxido de carbono. É de realçar que as emissões de CO2 provenientes do bioetanol não foram contabilizadas por provirem de uma fonte renovável (CIEMAT, 2005 e Anexo V da Directiva). Para o caso dos restantes GEE analisados, CH4 e N2O, recorreu-se a dados bibliográficos (Delucchi, 2003; CIEMAT, 2005). Foram analisados a gasolina e o etanol anidro. As características principais de cada tipo de combustível podem ser observadas no Quadro 12. Quadro 12 - Características dos combustíveis alternativos Gasolina PCI (MJ.kg-1) 42,900 0,730 Densidade (kg.L-1) -1 Consumo (L.km ) 0,073 Factor de consumo Etanol 26,800 0,794 0,098 34,0% Fonte: Adaptado de CIEMAT (2005) e Delucchi (2003) Com o objectivo de comparar os diferentes combustíveis nas mesmas condições de uso, recorreu-se a dados relativos a um veículo flexi-fuelFord Focus 1.6i 16V Zetec Flexifuel de 5 portas. Usaram-se os valores dos testes oficiais segundo a directiva 93/116/CEE, que estipula um Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 29 consumo de 7,3 L.100km-1 para a gasolina (CE, 1993), sendo o valor corrigido para os restantes combustíveis através do factor de consumo que é apresentado no Quadro 12. Verifica-se um aumento de consumo de combustível, à medida que se aumenta a percentagem de etanol nas misturas. 3.4.2 Descrição e quantificação das emissões no uso no motor de combustão Foi realizado o balanço de emissão de GEE durante o processo de uso no motor. Este foi baseado na revisão bibliográfica de referência e foram assumidos e calculados os valores que estão representados no Quadro 13. Quadro 13 - Valor das emissões de GEE no uso do motor de combustão kgCO2.km-1 Gasolina Etanol 1,69E-01 0,00E+00 kgCH4.km- kgN2O.km- kgCO2eq.km1 1 1 3,20E-06 2,50E-05 1,76E-01 4,80E-06 2,50E-05 7,51E-03 gCO2eq.MJ-1 7,72E+01 3,60E+00 Fonte: Adaptado de CIEMAT (2005) e Delucchi (2003) 4 Análise da balança de emissões de GEE no ciclo de vida do bioetanol 4.1 Cenários alternativos de produção de bioetanol A análise das emissões de GEE ao longo do ciclo de vida da produção do bioetanol a partir do milho grão baseou-se na elaboração de diferentes cenários alternativos de produção do bioetanol, os quais resultaram de diferentes combinações entre: • itinerários tecnológicos distintos adoptados ao longo do ciclo de vida do bioetanol; • variantes de uso alternativo dos solos agrícolas. Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 30 4.1.1 Itinerários tecnológicos alternativos O itinerário tecnológico base assenta nas práticas agrícolas e nas opções energéticas actualmente mais representativas da produção e secagem do milho grão nas regiões do Ribatejo e do Alentejo e nas soluções técnicas (dry milling) propostas num plano de engenharia de base tipo das actuais fábricas de bioetanol, baseado no recurso a uma unidade de co-geração a partir de gás natural. O itinerário alternativo A que difere apenas em relação ao anterior por se admitir que a unidade de co-geração é baseada no recurso à biomassa agro-florestal complementada por gás natural. O itinerário alternativo B diferencia-se do cenário anterior, por se admitir que parte das palhas do milho grão serão recolhidas e utilizadas na secagem do respectivo grão a partir de uma unidade de co-geração com base em biomassa agro-florestal. O itinerário alternativo C diferencia-se do anterior por se admitir que todas as máquinas agrícolas serão utilizadoras de biocombustíveis e que a fábrica irá recorrer a tecnologias de co-geração a partir de biomassa que tornem desnecessário o recurso complementar ao gás natural. 4.1.2 Diferentes variantes no uso dos solos A cada um destes diferentes itinerários tecnológicos foram associadas uma variante base e três variantes alternativas no que respeita às possíveis alterações no uso dos solos agrícolas a nível local e global decorrentes directa e indirectamente da procura adicional do milho grão para a produção de bioetanol. Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 31 A variante base assume que não existe qualquer utilização alternativa a nível local e global para os solos, directa ou indirectamente, utilizados para abastecer a unidade de produção de bioetanol. A variante alternativa 1 que se baseia no pressuposto que os cerca de 11 mil hectares destinados à produção de milho grão nacional necessários para satisfazer 55% da matéria prima utilizada anualmente por uma unidade de bioetanol de 100 milhões de L.ano-1, seriam, também, ocupados pela cultura do milho destinado à industria de alimentos compostos para animais, numa situação de não instalação da fábrica de bioetanol. Neste contexto, será de esperar um aumento das áreas destinadas à cultura do milho grão em Países Terceiros (Argentina e/ou Brasil) para garantir a satisfação quer dos restantes 45% de matéria prima importada para a indústria do bioetanol, quer das necessidades adicionais da industria nacional de alimento compostos para animais. Simultaneamente, a oferta adicional de DDGS obtida como sub-produto do bioetanol irá permitir, ao ser utilizada como substituto de bagaços de soja importados, reduzir as áreas destinadas em Países Terceiros (Argentina e/ou Brasil) à cultura da soja. A variante alternativa 2 que se diferencia do anterior, apenas, por se basear no pressuposto de que, apenas, 2/3 dos cerca de 11 mil hectares destinados à cultura do milho grão para bioetanol serão dedicados a esta cultura se não houver fábrica de bioetanol, sendo destinada a culturas temporárias de regadio diversas a restante área e tendo implicações ligeiramente diferentes sobre as alterações no uso dos solos agrícolas na Argentina e/ou Brasil. A variante alternativa 3 que se baseia no pressuposto de que, apenas, 50% da área destinada ao milho grão para produção de bioetanol seria destinada à produção de milho para a indústria de alimentos compostos para animais na hipótese de não vir a existir uma fábrica de bioetanol, Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 32 sendo destinados os restantes cerca de 5.600 hectares a outras culturas temporárias de regadio e tendo implicações diferentes sobre o uso dos solos agrícolas na Argentina e/ou Brasil. No Quadro 14 vêm reunidos os dados referentes às áreas directa e indirectamente associadas com a satisfação das necessidades de milho grão para a produção de 100 milhões de L.ano-1 de bioetanol. Da sua análise pode-se concluir que as alterações no uso dos solos agrícolas decorrentes da instalação em Portugal de uma unidade fabril com a produção de 100 milhões de L.ano-1 são praticamente insignificantes uma vez que: √ não irá provocar nem aumentos nem decréscimos das áreas ocupadas em Portugal por culturas anuais de regadio; √ os acréscimos em Países Terceiros das áreas de milho grão a importar por Portugal para o bioetanol e para a indústria das rações, irão ser total (variantes 2 e 3) ou quase totalmente (variante 1) compensadas pelos decréscimos previstos nas áreas de soja que deixará de ser necessário importar em consequência da produção em Portugal de DDGS. Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 33 Quadro 14. Alterações a nível local e global do uso dos solos agrícolas em consequência da produção futura em Portugal de 100 milhões de L.ano-1 de bioetanol (milhares de hectares) Variante 1 Áreas em Portugal Milho grão para bioetanol Milho grão para a indústria de alimentos compostos para animais Outras culturas temporárias de regadio Total Áreas em Países Terceiros de produtos a importar para Portugal Milho grão para bioetanol Milho grão para indústria de alimentos compostos para animais Soja para a indústria de alimentos compostos para animais Total Variante 2 Variante 3 11,3 11,3 11,3 -11,3 -7,5 -5,6 0,0 0,0 -3,8 0,0 -5,6 0,0 20,8 20,8 20,8 25,5 17,0 12,7 -41,2 5,1 -41,2 -3,3 -41,2 -7,6 Baseando-nos na metodologia recentemente proposta pela Comissão Europeia para o cálculo das emissões de GEE (Anexo V da Directiva apresentada pela CE) procedeu-se à elaboração do Quadro 15, cujo conteúdo resume os resultados, não só quanto aos valores das emissões de GEE em g CO2eq.MJ-1 associados com os diferentes itinerários tecnológicos e variantes de uso alternativo dos solos resultantes a nível local e global da produção de bioetanol, como também dos valores percentuais das reduções das respectivas emissões de GEE obtidas por substituição da gasolina por bioetanol. Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 34 Quadro 15 - Valor das emissões de GEE dos diferentes itinerários tecnológicos e variantes no uso dos solos no âmbito do ciclo de vida do bioetanol e respectivas reduções percentuais resultantes da correspondente substituição da gasolina Variantes no uso dos solos agrícolas Itinerários tecnológicos Variante Base g CO2eq.MJ-1 % Itinerário Base - Milho grão convencional, sem utilização das palhas. "Dry milling" com co-geração a partir de 57,8 gás natural. Itinerário alternativo A - Milho grão convencional, sem utilização das palhas. "Dry milling" com co-geração a 45,2 partir de gás natural e biomassa. Itinerário alternativo B - Milho grão convencional, com utilização das palhas nos secadores. "Dry milling" com 31,2 co-geração a partir de gás natural e biomassa. Itinerário alternativo C - Milho grão "low carbon" com utilização das palhas nos secadores. "Dry milling" com 24,4 co-geração apenas a partir de biomassa. 1) Variante Alternativa Variante 1 Alternativa 2 -1 1) g CO2eq.MJ % g CO2eq.MJ-1 % 1) Variante Alternativa 3 g CO2eq.MJ-1 % 1) 31,0 32,7 61,0 26,0 69,0 22,6 73,0 46,1 20,0 76,1 13,3 84,1 9,9 88,1 62,8 6,0 92,8 -0,7 100,8 -4,1 104,8 70,9 -0,8 100,9 -7,5 108,9 -10,9 112,9 1) Por comparação com um valor de referência de 83,8 g CO2eq.MJ-1 para o ciclo de vida da gasolina Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 35 São muito significativas as diferenças entre os quatro itinerários tecnológicos analisados no que diz respeito ao valor das respectivas emissões de GEE, sendo o seu principal factor diferenciador o tipo de fonte de abastecimento energético quer na unidade fabril, quer na secagem do milho. De facto, enquanto que para o itinerário tecnológico base a análise de ciclo de vida da produção do bioetanol será responsável por 57,8 g CO2eq.MJ-1, para a variante base de uso dos solos agrícolas, este valor das emissões de GEE decresce, respectivamente, para 45,2, 31,2 e 24,4 g CO2eq.MJ-1 nos restantes três itinerários tecnológicos analisados, passando, assim de um nível de redução dos GEE de 31,0 para 70,9% entre os dois itinerários tecnológicos, respectivamente, menos e mais favoráveis do ponto de vista da respectiva eficiência energética e intensidade carbónica. Na Figura 5 procedeu-se à comparação dos diferentes itinerários tecnológicos do ponto de vista das emissões dos GEE (gCO2eq.MJ-1) associadas com cada uma das quatro fases do ciclo de vida do bioetanol. Da sua análise, pode-se concluir que: √ a fase de produção de milho grão é aquela que apresenta sempre maior intensidade carbónica (sempre mais de 50% do valor total), apresentando reduções nos itinerários B e C em consequência das alterações previstas no aproveitamento das palhas de milho de produção nacional para a secagem do grão; √ a fase de conversão do milho grão para o bioetanol é aquela que apresenta maiores variações na respectiva importância relativa no âmbito dos diferentes itinerários, o que resulta, no essencial, das alternativas consideradas para o tipo de fonte energética (gás natural no itinerário base, gás natural e biomassa nos itinerários A e B e, apenas, biomassa no itinerário C). Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 36 30,0 g CO 2 e q /MJ 25,0 Produção MP 20,0 Transporte MP 15,0 Conversão 10,0 Transporte EtOH 5,0 0,0 Itinerário Itinerário A Itinerário B Itinerário C Base Figura 5 - Análise comparativa das emissões de GEE das diferentes fases do ciclo de vida e respectivos itinerários tecnológicos Na Figura 6 faz-se uma análise comparativa das emissões de gases de efeito de estufa na fase de produção do ciclo de vida do bioetanol para os diferentes itinerários tecnológicos em causa, da qual se podem retirar as seguintes principais conclusões: √ os inputs agronómicos (sementes, fertilizantes e produtos fitofármacos) estão na origem da maior contribuição da produção de milho grão em Portugal para as emissões de GEE (gCO2eq.ha-1) atingindo sempre valores superiores a 50%; √ os consumos energéticos decorrentes do regadio atingem, também, um peso significativo (entre 18 e 21%) no contexto da fase de produção para as emissões de GEE; √ nos itinerários tecnológicos base e A, a secagem representa 16% das emissões de GEE resultantes da produção de milho grão nacional, anulando-se, no entanto, o seu valor nos restantes itinerários por se assumir que a biomassa agroflorestal passa a constituir a fonte energética utilizada pelos respectivos secadores. Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 37 100% 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% Secagem Rega Maquinaria agrícola Inputs agronómicos kgCO2eq/ha kgCO2eq/ha kgCO2eq/ha kgCO2eq/ha Milho PT Base eA Milho PT B Milho PT C Milho BR Figura 6 - Análise comparativa das emissões de GEE das principais componentes da produção de milho grão nacional (PT) e de Países Terceiros (BR) e respectivos itinerários tecnológicos Verificam-se, também, diferenças muito substanciais para as quatro variantes consideradas no âmbito do uso alternativo dos solos agrícolas, sendo as emissões de GEE tanto menores, quanto menor for a área que se prevê poder vir a ser ocupada em Portugal com milho grão na ausência da produção de bioetanol em Portugal. De facto, para cada itinerário tecnológico considerado verificam-se quebras muito significativas nos respectivos valores em gCO2eq.MJ-1, entre as variantes base e alternativas de uso dos solos agrícolas e, consequentemente, reduções muito substanciais nas correspondentes emissões de GEE. A concretização dos dois primeiros itinerários tecnológicos depende exclusivamente dos promotores dos projectos de investimento de produção de bioetanol em Portugal, dependendo a sua opção por um ou outro cenário da forma como avaliem diferentes custos de investimento inicial face a diferentes níveis de intensidade carbónica. Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 38 A concretização do terceiro e quarto itinerários em causa vai não só depender dos promotores dos projectos de bioetanol, mas também de decisões da responsabilidade dos produtores de milho grão e respectivas organizações, uma vez que envolvem opções “low carbon” quer ao nível da produção, quer ao nível da secagem de milho. A capacidade dos futuros investidores na produção de bioetanol em Portugal para influenciar a concretização deste tipo de opções “low carbon”, irá depender, no essencial, da margem de manobra que venham a ter para pagar aos produtores e respectivas organizações preços superiores aos praticados no mercado nacional, o que será tanto mais possível quanto menos elevados forem o níveis a que venham a formarse os preços futuros do milho grão no mercado mundial. A probabilidade de ocorrência futura das diferentes variantes de uso alternativo dos solos destinados à produção de milho grão para o bioetanol, também, dependerá, no essencial, do cenário de preços no produtor, uma vez que quanto menor for o nível futuro dos respectivos preços, menor será a área destinada a esta cultura numa situação de não produção de bioetanol em Portugal. 4.2 Poupança de emissões de GEE no ciclo de vida do bioetanol nos diferentes cenários alternativos Das 16 combinações possíveis entre os quatro itinerários tecnológicos e as quatro variantes de uso alternativo dos solos anteriormente definidos, seleccionámos quatro cenários que nos parecem melhor reflectir as diferentes decisões alternativas futuras dos agentes económicos em causa ( Quadro 16): Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 39 • um cenário I de produção de bioetanol “high carbon”, correspondente a uma combinação entre o itinerário tecnológico base e a variante alternativa 1; • um cenário II de produção de bioetanol “medium carbon”, correspondente a uma combinação entre o itinerário tecnológico alternativo A e a variante alternativa 1; • um cenário III de produção de bioetanol “low carbon”, correspondente a uma combinação entre o itinerário tecnológico alternativo B e a variante alternativa 2; • um cenário IV de produção de bioetanol “very low carbon”, correspondente a uma combinação entre o itinerário tecnológico alternativo C e a variante alternativa 3. Quadro 16 - Cenários de produção de bioetanol Itinerários Tecnológicos Itinerário Base Itinerário A Itinerário B Itinerário C Variantes de uso alternativo dos solos Variante base Variante 1 Variante 2 Variante 3 "High Carbon" "Medium Carbon" "Low carbon" "Very low carbon" No Quadro 16 vêm reunidos os resultados da análise da eficiência energética e intensidade carbónica do ciclo de vida de cada um dos quatro cenários em causa, tendo-se, para cada um dos casos, apresentado separadamente os valores em g CO2eq.MJ-1 e os valores percentuais das respectivas reduções de GEE para as correspondentes variantes base e variantes alternativas. Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 40 Quadro 17 - Valor das emissões de GEE para os diferentes cenários de produção do bioetanol e respectivas reduções percentuais resultantes da correspondente substituição da gasolina Cenários bioetanol Cenário Cenário Cenário Cenário de produção de I - "High carbon" II - "Medium carbon" III - "Low carbon" IV - "Very low carbon" Variante base g CO2eq.MJ-1 57,8 45,2 31,2 24,4 % 1) 31,0 46,1 62,8 70,9 Variantes escolhidas g CO2eq.MJ-1 32,7 20,0 -0,7 -10,9 % 1) 61,0 76,1 100,9 112,9 1) Por comparação com um valor de referência de 83,8 g CO2eq.MJ-1 para o ciclo de vida da gasolina 4.2.1 Cenário I – Bioetanol “High Carbon” A opção por este cenário poderá justificar-se do ponto de vista dos promotores do projecto industrial uma vez que a co-geração a partir de gás natural implica um investimento inicial cerca de 10 milhões de euros inferior ao da co-geração a biomassa. Do ponto de vista ambiental esta opção apresenta, no entanto, o inconveniente de o respectivo ciclo de vida ser responsável, numa situação líquida de alterações no uso dos solos (variante base), por uma emissão anual de GEE de 57,8 gCO2eq.MJ-1, o que corresponde, apenas, a uma redução de 31% nos GEE por substituição da gasolina por bioetanol, ou seja, inferior ao limiar de 35% que a UE propõe que deva ser alcançado até 2010, ao limiar de 50% proposto até 2017 e ao limiar de 60% após este ano. Importa, no entanto, sublinhar que o efeito sobre as emissões de GEE se reduz substancialmente, quando se leva em consideração o uso alternativo dos solos agrícolas que se prevê virem a verificar-se no contexto deste cenário (variante alternativa 1), redução esta que vem Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 41 bem expressa nos dados que constam do Quadro 18, quando se comparam os valores em gCO2eq.MJ-1 das variantes base e 1. Quadro 18 - Valor das emissões de GEE no Cenário “High carbon” Fases do ciclo de vida do bioetanol Produção do milho grão Transporte do milho grão Conversão para bioetanol Transporte do bioetanol TOTAL1) Variante base -1 g CO2eq.MJ 27,5 4,5 20,2 0,7 57,8 Variante 1 % g CO2eq.MJ-1 47,5 5,2 7,7 3,8 34,9 20,2 1,2 0,7 100 32,7 1) Valor que integra um ajustamento com base nos km.MJ-1 do bioetanol e da gasolina, razão pela qual o todo é superior à soma das parcelas 4.2.2 Cenário II – Bioetanol “Medium Carbon” Este cenário distingue-se do anterior, apenas, pelo facto de a unidade de co-geração adoptada basear-se, predominantemente, no uso de biomassa agro-florestal e só acessoriamente no uso do gás natural. No contexto desta opção energética, o ciclo de vida do bioetanol possa ser responsável, anualmente, por uma emissão de 45,2 gCO2eq.MJ-1, se não se levar em consideração no seu cálculo o uso alternativo dos solos (variante base), o que corresponde a uma redução de 46% na emissão de GEE por substituição da gasolina pelo bioetanol. Trata-se, portanto, de um cenário que já ultrapassa o limiar de 35% proposto para 2010, mas que fica, ainda, aquém do limiar de 50% previsto para 2015. Importa, também, neste caso realçar que o uso alternativo dos solos previsto para este cenário (variante alternativa 1), contribui para uma redução muito significativa na intensidade carbónica deste cenário (Quadro 19). Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 42 Quadro 19 - Valor das emissões de GEE no Cenário “Medium carbon” Fases do ciclo de vida do bioetanol Produção do milho grão Transporte do milho grão Conversão para bioetanol Transporte do bioetanol TOTAL1) Variante base -1 g CO2eq.MJ % 27,5 60,8 4,5 10,0 8,6 19,0 0,7 1,5 45,2 100,0 Variante 1 g CO2eq.MJ-1 5,2 3,8 8,6 0,7 20,0 1) Valor que integra um ajustamento com base nos km.MJ-1 do bioetanol e da gasolina, razão pela qual o todo é superior à soma das parcelas 4.2.3 Cenário III – Bioetanol “Low Carbon” A opção por este cenário já envolve um maior envolvimento dos produtores e suas organizações uma vez que o que o diferencia em relação aos anteriores é a recolha das palhas de milho da produção nacional e seu aproveitamento para fins energéticos no contexto da secagem do respectivo grão, o que implica custos adicionais nas operações de recolha e na instalação de secadores de biomassa. Uma opção deste tipo irá necessariamente implicar o pagamento adicional aos produtores de milho para bioetanol o que só terá viabilidade económica num contexto de preços para o milho grão menos elevado do que o necessário para os cenários anteriores, o qual se ajusta à variante 2 de uso alternativo dos solos agrícolas. O valor das emissões anuais de GEE atingirá no cenário “low carbon” os 31,2 gCO2eq.MJ -1 na variante base, o que corresponde a uma redução 63% nas emissões de GEE por substituição da gasolina pelo bioetanol, ou seja, um valor percentual muito superior ao limiar de intensidade carbónica proposto pela UE para 2015 (50%). Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 43 Também neste caso, o cálculo das emissões de GEE com base num uso alternativo dos solos do tipo do previsto na variante 2, contribui para uma redução substancial do respectivo valor, dando mesmo origem a um valor negativo das emissões em causa (-0,7g CO2eq.MJ-1), o qual corresponde a uma redução de 100,8% nas emissões anuais de GEE em consequência da substituição da gasolina pelo bioetanol (Quadro 20). Quadro 20 - Valor das emissões de GEE no Cenário “Low carbon” Fases do ciclo de vida do bioetanol Produção do milho grão Transporte do milho grão Conversão para bioetanol Transporte do bioetanol TOTAL1) Variante base Variante 2 % g CO2eq.MJ-1 14,7 47,1 4,5 14,3 8,6 27,5 0,7 2,2 31,2 100,0 g CO2eq.MJ-1 -11,8 1,9 8,6 0,7 -0,7 1) Valor que integra um ajustamento com base nos km.MJ-1 do bioetanol e da gasolina, razão pela qual o todo é superior à soma das parcelas 4.2.4 Cenário IV – Bioetanol “Very Low Carbon” A concretização deste último cenário obriga os agentes económicos a um empenhamento adicional em relação ao anterior uma vez que pressupõe: √ que os produtores de milho grão irão utilizar biocombustíveis nas suas máquinas agrícolas; √ que os industriais do bioetanol irão optar por uma unidade de co-geração que utilize exclusivamente biomassa agro-florestal. Em consequência destas opções o valor anual das emissões de GEE passaria a ser, apenas, de 24,4 gCO2eq.MJ-1 no âmbito da variante base, o que corresponde a uma redução de 71% das emissões em causa. No caso de se levar em consideração o uso alternativo dos solos previsto para a variante 3, este valor das emissões passaria a ser negativo (10,9 gCO2eq.MJ-1) o que corresponderia a uma redução das emissões de Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 44 GEE por substituição da gasolina pelo bioetanol de 113,0%. As reduções assim obtidas, são, no essencial, explicadas ao nível da produção do milho grão e da co-geração a partir da biomassa a nível fabril (Quadro 21). Quadro 21 - Valores das emissões de GEE no Cenário “very low carbon” Fases do ciclo de vida do bioetanol Produção do milho grão Transporte do milho grão Conversão para bioetanol Transporte do bioetanol TOTAL1) Variante base Variante 3 % g CO2eq.MJ-1 14,4 59,1 4,5 18,3 2,7 11,0 0,7 2,8 24,4 100,0 g CO2eq.MJ-1 -14,3 1,0 2,7 0,7 -10,9 1) Valor que integra um ajustamento com base nos km.MJ-1 do bioetanol e da gasolina, razão pela qual o todo é superior à soma das parcelas 5 Conclusões Da análise anteriormente realizada pode-se, no essencial, concluir que a intensidade carbónica do ciclo de vida da produção do bioetanol a partir do milho grão e com base numa tecnologia “dry milling”, irá depender dos seguintes principais factores: √ tipo de energia utilizada no processo de conversão de milho grão em bioetanol e na secagem dos DDGS (gás natural e/ou biomassa agro-florestal); √ forma de aproveitamento das palhas do milho (sem ou com aproveitamento para fins energéticos); √ tipo de energia utilizada no processo de secagem do milho grão (convencional ou biomassa agro-forestal); Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 45 √ uso alternativo dos solos agrícolas destinados à cultura do milho grão para bioetanol se não vier a existir procura nacional deste tipo de biocombustível. Para se proceder ao cálculo do impacto destes diferentes tipos de factores na intensidade carbónica do ciclo de vida da produção de bioetanol recorremos aos coeficientes técnicos que constam do Plano de Engenharia de Base utilizado da responsabilidade de uma empresa italiana da especialidade (MDT) e aos coeficientes técnicos das diferentes operações culturais do milho grão e dos produtos hortícolas característicos da agricultura de regadio do Vale do Tejo e do Alentejo e do milho grão e da soja representativos das agriculturas da Argentina/Brasil. Os factores de emissão dos GEE correspondentes aos diferentes itinerários técnicos e às quatro principais fases do ciclo de vida do bioetanol (produção de milho grão, transporte de milho grão, conversão do milho em bioetanol e transporte do bioetanol), foram obtidos a partir das diversas bases de dados existentes, tendo havido sempre a preocupação de escolher os parâmetros que melhor se adequassem às realidades em causa. Na análise dos resultados obtidos procedeu-se à definição de quatro cenários alternativos de produção de bioetanol, que resultam de diferentes combinações possíveis entre itinerários tecnológicos e variantes de uso dos solos bem diferenciados. O Cenário “High carbon” que se baseia numa unidade fabril exclusivamente abastecida por gás natural e num processo produtivo sem aproveitamento das palhas do milho e com uma secagem do grão à base de combustíveis convencionais e que se admite ocupar uma área que seria destinada na sua totalidade ao cultivo do milho grão mesmo que não se venha a produzir bioetanol em Portugal. Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 46 O Cenário “Medium carbon” que, apenas, se diferencia do anterior por se admitir que o abastecimento energético da unidade fabril se baseará predominantemente na co-geração a partir de biomassa agro-florestal, complementada pela utilização de gás natural. O Cenário “Low carbon” que se diferencia do anterior no que diz respeito ao aproveitamento das palhas de milho, cuja recolha foi considerada para a utilização na secagem do milho grão que se admite passar a ser baseada a partir da biomassa. Admite-se, ainda, um uso alternativo dos solos agrícolas em que, apenas, 2/3 da área utilizada seria ocupada com milho grão na ausência do projecto bioetanol. O Cenário “Very low carbon” que se distingue do anterior por se basear exclusivamente na utilização da co-geração a partir da biomassa agroflorestal no âmbito da unidade fabril e pressupor a utilização de biocombustíveis nas máquinas e equipamentos agrícolas utilizados. Admite-se, por outro lado, que o uso alternativo dos solos com milho grão corresponderia, apenas, a 50% da área total destinada ao bioetanol. O impacto destes diferentes cenários analisados no âmbito das emissões de GEE é significativamente diferente: √ variando entre reduções de 31%, 46%, 63% e 71% por substituição de gasolina por bioetanol, no caso de se não levar em consideração qualquer tipo de uso alternativo dos solos; √ variando entre reduções de 61%, 76%, 101% e 113% por substituição da gasolina por bioetanol, no caso de se levar em consideração na análise realizada, as diferentes variantes alternativas de uso do solo anteriormente referidas. É, nossa opinião, que o cenário que tem mais probabilidade de vir a ocorrer no médio prazo (até 2015) será o cenário “Medium carbon” cujas reduções de GEE sem e com usos alternativos do solo serão da Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 47 ordem, respectivamente, de 46% e 76%, valores estes muito superiores ao limiar de 35% proposto pela UE para o período 20102015. No longo prazo (após 2015), o cenário mais provável será, em nossa opinião, o “Low carbon” cujas reduções de GEE sem e com usos alternativos do solo serão da ordem, respectivamente, de 63% e 101%, muito superiores, portanto ao limiar de 50% proposto pela UE para depois de 2015. Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 48 Referências AGRO.GES (2007a), Comunicação Pessoal – Abril 2007 AGRO.GES (2007b), Contas de Culturas: Trigo mole regadio e Milho grão de regadio Argonne (2007), The Greenhouse Gases, Regulated Emissions, and Energy Use in Transportation (GREET) Model 1.7 Audsley, E., Alber, S., Clift, R., Cowell, S., Crettaz, P., Gaillard, G., Hausheer J., Jolliet, O., Kleijn, R., Mortensen, B., Pearce, D., Roger, E., Teulon, H., Weidema, B., Van Zeijts, H. (1997), Harmonisation of environmental life cycle assessment for agriculture, Final Report Concerted Action AIR3-CT94-2028 C.E. 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República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 49 IPCC (2006), Guidelines for National GHG Inventories, Forestry and Other Land Use Freitas, S.M., Oliveira, M., Fredo, C.E. (2006), Análise comparativo do balance energético do milho em diferentes sistemas de produção, IEA, XLIV congresso da Sober Questões agrárias, educação no campo e desenvolvimento, 23-27 Julho 2006, Brasil Lagoalva Equipamento (2007), Comunicação Pessoal – Abril 2007 M.D.T. S.r.L, Comunicação Pessoal – Junho 2007 OEKO (2007), Global Emission Model for Integrated Systems (GEMIS) Version 4.4 Shapouri, H., Duffield, J.A., Wang, M. (2002), The Energy Balance of Corn Ethanol: An Update, U.S. Department of Agriculture, Office of the Chief Economist, Office of Energy Policy and New Uses. Agricultural Economic Report No. 813 WBCSD (2006), Allocation of GHG emissions from a combined heat and power (CHP) plant Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 50 Curricula Vitae dos autores Francisco Avillez é licenciado em Engenharia Agronómica e doutorado na área da Economia Agrária pelo Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa. Foi professor catedrático do Departamento de Economia Agrária e Sociologia Rural até ao início de 2008, estando desde então aposentado do ISA/UTL. Coordenou e participou em numerosos projectos de investigação e trabalhos de consultoria na área da economia e política agrária, sendo actualmente coordenador científico da AGROGES, Sociedade de Estudos e Projectos de que é um dos sócios fundadores. Desde 2003 que tem coordenado diversos estudos no âmbito dos biocombustíveis líquidos em geral e do bioetanol em particular. Ana Paiva Brandão é licenciada e doutorada em Engenharia Agronómica pelo Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa. A investigação desenvolvida no seu doutoramento centrou-se nos impactos das alterações climáticas na agricultura portuguesa. De 1999 a 2006 foi colaboradora na Secção de Agricultura do Departamento de Produção Agrícola e Animal do Instituto Superior de Agronomia tendo durante esse período participado nos projectos de investigação SIAM I e II (Alterações Climáticas em Portugal. Cenários, Impactos e Medidas de Adaptação) e CLIVAR (Variabilidade e Mudança Climática: Padrões e Impactos à Escala Regional), e em trabalhos de planeamento de desenvolvimento agrícola regional. Actualmente trabalha na AGROGES na área de mitigação e de adaptação do sector agrícola às alterações climáticas, do mercado de carbono e dos biocombustíveis, nomeadamente do bioetanol em Portugal. Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 51 Daniel Montes é licenciado pelo Instituto Superior de Agronomia da Unicveridade Técnica de Lisboa, em Engenharia Agronómica, ramo de Economia Agrária e dos Recursos Naturais. Desde 2005 que desempenha funções relacionadas com a pesquisa e desenvolvimento de matérias primas sustentáveis em vários projectos relacionados com a produção de biocombustiveis. Actualmente desenvolve investigação na Arizona State Univesity no âmbito do programa curricular do Mestrado da FCT/UNL - International Master on Bioenergy and Environment. Av. República, 412, 2750-475 Cascais · Tel. 21 484 7440 · Fax 21 484 7441 Email: [email protected] · www.agroges.pt 52