ANÁLISE DO POTENCIAL DE REDUÇÃO DAS EMISSÕES DE CO2 NA REGIÃO METROPOLITANA DO RIO DE JANEIRO Jorge Luiz Oliveira Fernandes - UFF e PEC/COPPE/UFRJ Jeferson Borghetti Soares - PPE/COPPE/UFRJ ABSTRACT The aim of this article is analyzing the substitution of diesel oil for natural gas, used by urban buses in the city of Rio de Janeiro, RJ-Brazil as an alternative in order to reduce and control urban atmospheric pollution. This substitution seemed feasible in technological and economical point of view, according to Cost Abatment Assessment, since there is net negative cost as results. I - INTRODUÇÃO A atmosfera é um sistema dinâmico com capacidade assimilativa limitada. Por esse motivo, alterações na sua composição química, além da perda da qualidade do ar para os seres que habitam o planeta, podem provocar também, mudanças no clima em escala local, regional e global (Oliveira,1997). Apesar dos esforços das autoridades ambientais para evitar a intensificação do efeito estufa, o problema é extremamente complexo e não existem receitas fáceis para abordá-lo na sua plenitude. De acordo com Correia & Berni (1994), o setor de transportes é responsável por uma parcela expressiva da poluição atmosférica, principalmente nas metrópoles, onde as atividades desse setor da economia, contribuem com mais de 70% de todo o monóxido de carbono e 50% de todos os óxidos de nitrogênio emitidos no mundo. O transporte urbano da cidade do Rio de Janeiro, fortemente dependente do modo rodoviário, contribui com quantidades consideráveis de poluentes para a atmosfera. Tendo em vista as vantagens ambientais associadas ao uso do gás natural na tração veicular, este trabalho analisa a viabilidade da redução das emissões de CO2 provenientes do setor de transportes através da substituição do óleo diesel por gás natural na frota de ônibus urbanos da Região Metropolitana da cidade do Rio de Janeiro (RMRJ). II - O SETOR DE TRANSPORTE Aproximadamente 50% dos hidrocarbonetos emitidos em áreas urbanas e aproximadamente 25% do total das emissões antrópicas de todo CO2 gerado no mundo resultam das atividades desenvolvidas com os sistemas de transportes (Gabel & Roller* apud Correia & Berni, 1994). No conjunto dos modos de transporte, o rodoviário é o mais intensivo no volume de emissões (Correia & Berni, 1994). O gás natural, por apresentar coeficiente de emissão de carbono inferior ao óleo diesel e à gasolina, emite menor quantidade de carbono por unidade de energia fornecida, como mostra a tabela 1, constituindo o seu uso, portanto, numa alternativa conveniente para o abatimento da poluicão de CO2. Tabela 1 - Coeficientes de emissão de carbono Combustível Óleo Diesel * Coeficiente de Emissão (tC/TJ) 20,2 GABEL, H. K., ROLLER, L. H. Trade Liberalization, Transportation, and the Environment. The Energy Journal, v. 13, n. 3, 1992. Gasolina Gás Natural Fonte: IPCC, 1995. 18,9 15,3 Os coeficientes de emissão acima deixam claro a vantagem do gás natural em relação ao óleo diesel e a gasolina para a redução de gases de efeito estufa. Segundo Borges et al (1996), a utilização de motores a gás natural, em aplicações veiculares de serviço pesado, tem sido objeto de crescente interesse como uma alternativa viável para a redução dos níveis de poluição em centros urbanos, onde atualmente predominam os veículos a Diesel. III - METODOLOGIA DE CÁLCULO DA REDUÇÃO DAS EMISSÕES DE TRANSPORTE URBANO DA RMRJ CO2 PARA O SETOR DE Para a avaliação da redução das emissões CO2 da RMRJ utiliza-se a metodologia de cálculo dos custos de abatimento. Segundo a UNEP, define-se custos de abatimento Cabat como aqueles de longo prazo para a redução das emissões em relação a um cenário de base, conforme: Cabat= (C2 - C1)/ (E1 - E2) (eq. 1) Onde (C2 - C1) corresponde aos custos incorridos para reduzir as emissões da quantidade (E1 E2) em relação a um cenário base. Hipóteses assumidas: • cenário base - no período de estudo não haverá penetração da tecnologia dos motores a gás natural. Assim, o consumo da frota será exclusivamente de óleo diesel. • cenários alternativos - são desenvolvidos em função de taxas diferenciadas de penetração do motor a gás natural no setor de transporte coletivos da RMRJ. As mesmas são estimadas a partir da taxa de renovação anual da frota, situada em torno de 9-10% do total anual. Desta forma, os ônibus a diesel serão substituídos por coletivos novos movidos a gás natural de acordo com a taxa de penetração adotada para cada cenário, sendo aqui assumidos os valores de 5% e 10%, implicando em substituir metade ou total da frota desativada, respectivamente. Além disso, assume-se que o preço do ônibus movido a gás natural atinge o mesmo valor do ônibus movido a diesel a partir de 2005, devido a maior demanda por ônibus menos poluentes em grandes centros e ao conseqüente aproveitamento das economias de escala. • Hipóteses comuns aos cenários - redução da frota de ônibus urbanos da RMRJ no período 199820101. Tal estudo considera a redução da frota em torno de 16% da frota atual, sendo 9.86% em 1999, e 0.66% a.a. no período 1999-2010. Para efeito deste trabalho, prolongou-se a redução da frota até 2020 adotando-se esta última taxa. A tabela 2 apresenta as principais hipóteses comuns aos cenários base e alternativo. Tabela 2 - Hipóteses básicas comuns aos cenários base e alternativos. Variável Taxas de desconto Valor Residual do ônibus desativado Receita gerada Evolução dos preços relativos óleo-gás Coeficientes de emissão Rendimento energético de conversão Propriedades físicas dos combustíveis Ano Base Consideração 8% e 12% a.a. Igual para ambos os casos Igual para ambos os casos Constantes De acordo com IPCC (1995) 20% superior para gás natural Dados do BEN (1997) 1998 1 Segundo cenário adotado pela FETRANSPOR. 2 Fonte: Elaboração própria. Assume-se para todos os cenários de abatimento que os custos de manutenção são iguais tanto para ônibus a óleo diesel quanto a gás natural. O preço do gás natural corresponde a 79.16% do valor do óleo diesel2. Adota-se ainda, que o valor residual do ônibus ao ser desativado a diesel e a gás natural são iguais. Tal hipótese anula o termo referente ao valor residual, devido à equação (1). IV.- CENÁRIOS DE CONSUMO DE ENERGIA E EMISSÕES DE CO2 PARA O SETOR ATÉ 2020 Os cenários foram denominados I08F10, I12F10, I08F05 e I12F05, onde o número após as letras I e F correspondem às taxas de desconto e de penetração do ônibus a gás natural, respectivamente. Desta forma, o cenário I08F10 corresponde àquele com penetração do motor a gás natural a 10% da frota anualmente com os custos calculados usando a taxa de desconto de 8% a.a. De acordo com a taxa de substituição de 5% e 10% do total anual, para os diferentes cenários alternativos, a frota convencional de ônibus é inteiramente deslocada nos anos de 2007 e 2016, respectivamente. Na figura 1 observa-se que as curvas de demanda de energia e emissões de CO 2 apresentam caráter descendente devido à diminuição da frota assumida nos cenários definidos anteriormente. Exatamente no ponto onde se observa a substituição total da frota ocorre a desaceleração das taxas de redução das emissões e consumo de energia. Para taxas maiores de substituição da frota, são observados maiores possibilidades de redução das emissões e demanda de energia pelo fato do motor a gás natural desenvolvido segundo o conceito de combustão de mistura pobre apresentar rendimento superior ao motor utilizado para o óleo diesel além, é claro, do menor fator de emissão de carbono devido ao gás natural. A tabela 3 sumariza os resultados obtidos para os cenários estudados. 200000 180000 160000 Energia (tEP) I12F10 e I08F10 140000 Energia (tEP) I12F05 e I08F05 120000 Emissão de CO2 (ton) I12F10 e I08F10 100000 Emissões de CO2 (ton) I12F05 e I08F05 80000 2020 2018 2016 2014 2012 2010 2008 2006 2004 2002 2000 1998 60000 Ano Figura 1- Evolução da demanda de energia e emissões de CO2 pela frota de ônibus da RMRJ nos cenários alternativos. 2 De acordo com a Portaria CNP/DIPRE no 69 de 21/10/89. 3 Tabela 3- Redução de demanda de energia e emissões de CO2 para os cenários alternativos. 3 Demanda acumulada (tEP ) Economia de energia1 (%) Emissões acumuladas (ton) Redução das emissões1 (%) 1- Em relação ao cenário de base. I12F10 e I08F10 3.642.171 12.64 2.549.540 29.42 I12F05 e I08F05 3.779.723 9.34 2.826.841 21.74 Na figura 2 observa-se que os resultados obtidos para os custos de abatimento dos cenários alternativos mostraram-se negativos, o que indica a existência de potencial no-regret no caso da substituição da frota em operação pela tecnologia ambientalmente melhor, utilizando gás natural como combustível. Em cenários de substituição acelerada tais como I12F10 e I08F10 obtém-se maior redução percentual e absoluta das emissões de CO2, o que todavia ocorre a custos ligeiramente maiores do que aqueles cenários com penetração mais moderada da nova tecnologia (I12F05 e I08F05), mas ainda assim, bastante atraentes. Demonstra-se então a existência de grande potencial econômico para a promoção da substituição gradual da frota. R$80,00 R$/ton CO2 R$30,00 -R$20,00 -R$70,00 -R$120,00 I12F10 I08F10 I12F05 I08F05 Cenário Figura 2 - Custos de abatimento de emissão de CO2 para os cenários alternativos. V- CONCLUSÃO A substituição do óleo diesel por gás natural, além da menor emissão de dióxido de carbono, melhora a qualidade de vida nos centros urbanos com a redução do risco de doenças do aparelho respiratório e deterioração de obras civis e monumentos. Os motores desenvolvidos para uso exclusivo de gás natural, além de atenderem aos mais rígidos limites de emissões existentes atendem aos parâmetros de durabilidade e confiabilidade, sendo portanto, equivalentes aos motores Diesel. A existência de custos de abatimento negativos significa que a substituição tecnológica e energética, de acordo com os cenários desenvolvidos, é viável economicamente. 3 1 tonelada equivalente de petróleo= 10.800 Mcal. 4 A existência de uma legislação ambiental mais rigorosa quanto ao nível de poluição em centros urbanos pode tornar esta opção ainda mais atraente, já que seriam necessários investimentos para a melhoria da qualidade do óleo diesel, tornando o gás natural competitivo em relação ao óleo diesel. VI - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BORGES, Luiz Henrique; HOLLNAGEL, Carlos; MURARO, Wilson. Desenvolvimento do motor Mercedes-Benz, a gás natural, com tecnologia de mistura pobre. In: CONGRESSO E EXPOSIÇÃO INTERNACIONAIS DE TECNOLOGIA DA MOBILIDADE, 5, São Paulo, 7 a 9 de outubro de 1996. Anais... São Paulo: SAE Brasil, 1996. (SAE TECHNICAL PAPER SERIES, 962378 P). CORREIA, Paulo Barros; BERNI, Mauro Donizeti. Transportes e emissões de CO2 : uma análise com enfoque multiobjetivo. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE PLANEJAMENTO ENERGÉTICO, 2, São Paulo, 12 a 14 de dezembro de 1994. Anais... São Paulo: UNICAMP, 1994. p.474-480. FEDERAÇÃO DAS EMPRESAS DE TRANSPORTES RODOVIÁRIOS DO LESTE MERIDIONAL DO BRASIL. Comunicação pessoal. 1996. IPCC, HOUGHTON, J. T., ed. Climate change 1995: the science of climate change. New Cambridge University Press, 1996. 2v. York: OLIVEIRA, Jorge Luiz Fernandes de. Poluição atmosférica e o transporte rodoviário: perspectivas de uso do gás natural na frota de ônibus urbanos da cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1997. 172p. Dissertação (Mestrado em Planejamento Energético - COPPE) - Universidade Federal do Rio de Janeiro. SOARES, J. B.; OLIVEIRA, J. L. F. Custo de abatimento da substituição de óleo diesel por gás natural na frota de ônibus urbano da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Relatório final da disciplina de doutorado “Mudanças Climáticas e Gases de Efeito Estufa. PPE/COPPE/UFRJ. Rio de Janeiro. 1998. UNEP. UNEP greenhouse gas abatement costing studies. Phase One Report. UNEP Collaborating Centre on Energy and Environment, Riso National Laboratory, Denmark. 1993. 5