Bioenergia em Revista: Diálogos ano 2 | n. 2 | jul.2012 / dez.2012 | ISSN: 2236-9171 Bioenergia em Revista: Diálogos ISSN: 2236-9171 Bioenergia em Revista: Diálogos | publicação semestral | Piracicaba / Araçatuba ano 2 | n. 2 | jul. 2012 / dez. 2012 Governador do Estado de São Paulo Geraldo Alckmin Secretario de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia Paulo Alexandre Barbosa Diretora Superintendente do Centro “Paula Souza” Laura Laganá Diretor do CESU Angelo Luis Cortellazzo Diretor da Faculdade de Tecnologia de Piracicaba Dep. “Roque Trevisan” Hermas Amaral Germek Diretora da Faculdade de Tecnologia de Araçatuba Daniela Russo Leite Editoria Filomena Maria Formaggio Adriana Badioli – estagiária Editores de Seção Profª Drª Filomena Maria Formaggio – Fatec Piracicaba Prof. Dr. Luis Fernando Sanglade Marchiori – ESALQ-USP e Fatec Piracicaba Prof. Dr. Paulo Cesar Doimo Mendes – Fatecs de Piracicaba e Itapetininga, EEP Prof. Dr. Fernando de Lima Camargo – Fatec Piracicaba, EEP Prof. Dr. Christiano Franca da Cunha – Fatec Piracicaba e UNIMEP Prof. Msc. Fabio Augusto Pacano – Fatec Piracicaba, CNEC Capivari-SP Profa Msc. Luciana Fischer – Fatec Piracicaba e PUCCampinas-SP Bel. e Tecnólogo Mauricio D. C. Pinheiro – Fatec Piracicaba Comissão Editorial Filomena Maria Formaggio - Fatec Piracicaba Vanessa de Cillos Silva - Fatec Piracicaba Paulo Cesar Doimo Mendes - Fatec Piracicaba Carolina Ribeiro Germek - Fatec Araçatuba Marcia Nalesso Costa Harder - Fatec Piracicaba Fabio Augusto Pacano - Fatec Piracicaba Karenine Miracelly Rocha da Cunha – Fatec Araçatuba Maria Helena Bernardo Myczkowski Bioenergia em Revista: Diálogos ● Rua Diácono Jair de Oliveira, 651 ● Bairro Santa Rosa CEP: 13.414-155 ● Piracicaba / SP ● Telefone: [+55 19] 3413-1702 Conselho Editorial Hermas Amaral Germek – Fatec Piracicaba Daniela Russo Leite – Fatec Araçatuba Gisele Gonçalves Bortoleto - Fatec Piracicaba Eliana Maria G. Rodrigues de Siqueira – Fatec Piracicaba Daniela Defavari do Nascimento – Fatec Piracicaba Regina Movio de Lara – Secret. Educação SP Siu Mui Tsai Saito - Cena – USP Raffaella Rossetto - APTA - polo regional Centro-Sul Ada Camolesi - FIMI Mogi Mirim Marly T. Pereira - ESALQ-USP Tomas Caetano Ripoli - ESALQ-USP Vitor Machado – UNESP Bauru Adolfo Castillo Moran - Cordoba, Ver. Mexico Gregorio M. Katz - San Miguel de Tucuman Argentina Guilherme A. Malagolli - Fatec Taquaritinga Murilo Melo - ESALQ-USP Angelo Luis Bortolazzo – Centro Paula Souza Jorge Corbera Gorotiza - San Jose de Las Lajas - La Habana - Cuba Bioenergia em Revista: Diálogos (ISSN 2236-9171) é uma publicação eletrônica semestral vinculada a Faculdade de Tecnologia de Piracicaba “Dep. Roque Trevisan” e a Faculdade de Tecnologia de Araçatuba (Fatecs). Objetivo: publicar estudos inéditos, na forma de artigos e resenhas, nacionais e internacionais, que contribuam ao debate acadêmico-científico, alem de estimular a produção acadêmica nos níveis da graduação e pós-graduação. Os artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores. É permitida sua reprodução, total ou parcial, desde que seja citada a fonte. Bioenergia em Revista: Diálogos / Fatec - Faculdade de Tecnologia de Piracicaba / Faculdade de Tecnologia de Araçatuba. - - Piracicaba / Araçatuba, SP: a Instituição, 2011. v. Semestral - ISSN 2236-9171 1. Ciências Aplicadas / Tecnologia- periódico I. Bioenergia em Revista: Diálogos II. Fatec Faculdade de Tecnologia de Piracicaba “Dep. Roque Trevisan” / Faculdade de Tecnologia de Araçatuba Bioenergia em Revista: Diálogos ● Rua Diácono Jair de Oliveira, 651 ● Bairro Santa Rosa CEP: 13.414-155 ● Piracicaba / SP ● Telefone: [+55 19] 3413-1702 Sumário 6 8 9 Apresentação Chamada de Artigos Simulação do crescimento e desenvolvimento do trigo utilizando o modelo Ceres-Wheat na região de Campinas (SP)*: Outro olhar sobre o etanol SILVA, Fábio César da, SOLER, Cecília M. Tojo, BOARETTO, Antonio E., SPOLIDORIO, Eduardo S., FREITAS, José Guilherme de 26 Seleção de leveduras para a produção de lipídios como matéria-prima para biodiesel DELABIO, Aline da Silva, REMÉDIO, Raquel Ribeiro, CAZASSA, Sabrina, MONTEIRO, Regina Teresa Rossim, HARDER, Marcia Nalesso Costa 39 Uso de equipamento portátil de Fluorescência de Raios X para análise de cana de açúcar MELQUIADES, Fábio Luiz, BORTOLETO, Gisele G., NEME, Fernanda F., TON, Ariel, MARCHIORI, Luis Fernando Sanglade, MARETTI, Maria Izabel 56 Efeito de baixas doses de radiação gama em sementes de pinhão manso (Jatropha curca L) VICENTINI, Mariane, ARTHUR, Valter, HARDER, Marcia Nalesso Costa 66 Modernidade ou pós-modernidade: qual o período em que vivemos? (A ética tem lugar nesta discussão?) VIEIRA, Luciana Moreira Martins Apresentação O periódico Bioenergia em Revista: Diálogos, publicação das Faculdades de Tecnologia de Piracicaba Dep. “Roque Trevisan” e de Araçatuba oferecem à comunidade acadêmica o seu quarto número cuja proposta vai além da usualmente pensada a formação tecnológica, mas que considera a pesquisa, a inovação e a dialogicidade como elementos constituidores desta formação. Nesse sentido, o presente número traz a reflexão importantes temas que envolvem as áreas de abrangência deste periódico e inicia com uma discussão acerca da "Simulação do crescimento e desenvolvimento do trigo utilizando o modelo Ceres-Wheat na região de Campinas (SP)*: Outro olhar sobre o etanol”. Apontam os autores que o modelo simulou satisfatoriamente a fenologia, os componentes do rendimento e o rendimento do trigo, inclusive o efeito da adubação nitrogenada e, embora haja necessidade de refinamento na estimativa de alguns processos, os resultados indicam que o modelo CERES-Wheat é adequado para estimativas da fenologia e rendimento da cultivar de trigo IAC-24 para previsão de resposta à adubação N. Ainda no âmbito da energia, o artigo “Seleção de leveduras para a produção de lipídios como matéria-prima para biodiesel” pondera que a maior parte de toda a energia consumida no mundo provém do petróleo, do carvão e do gás natural. Assim, a proposta dos autores é avaliar a produção de biomassa e lipídios por diferentes tipos de leveduras a partir de resíduos da agroindústria (vinhaça e melaço), água residuária de esgoto e água da lavagem de serragem de bambu; tendo em vista o possível aproveitamento para geração de biodiesel. ‘Uso de equipamento portátil de Fluorescência de Raios X para análise de cana de açúcar” objetiva verificar a viabilidade do uso de fluorescência de raios X por dispersão em energia (EDXRF) com equipamento portátil para análise de cana de açúcar. Apontam os autores que foram realizados experimentos diretamente no colmo das variedades e ainda com o caldo antes e depois de armazenamento sob refrigeração. O tempo de irradiação foi de 60 s e os espectros foram avaliados através da Análise de Componentes Principais (PCA). Finalizam os pesquisadores informando que, de forma geral, a metodologia proposta apresentou resultados promissores para o setor sucroalcooleiro na avaliação de parâmetros de qualidade da cana de açúcar, com irradiação direta do colmo da cana. Na perspectiva da energia, igualmente, o artigo ‘Efeito de baixas doses de radiação gama em sementes de pinhão manso (Jatropha curca L) aponta que o Etanol é um biocombustível muito utilizado, principalmente no Brasil que é um dos maiores produtores mas, asseveram: o Brasil também apresenta investimento na produção de biodiesel, que é um produto parecido com o diesel, porém é feito com fontes renováveis, além de ser um combustível limpo. Lembram os autores que “o pinhão-manso é uma ótima matéria-prima para a produção de biodiesel, ele apresenta características muito desejáveis, como grande porcentagem de óleo nas suas sementes, é uma planta com grande período de produção e um fator muito importante é que se trata de uma alternativa para as áreas áridas semi-áridas do Brasil e propõem uma discussão sobre a possibilidade do aumento da produtividade do pinhão utilizando a irradiação gama. Como finalização, numa perspectiva multidisciplinar, o artigo Modernidade ou pósmodernidade: qual o período em que vivemos? (A ética tem lugar nesta discussão?) pretende discutir sobre o conceito de modernidade e sua vigência. Se ainda vivenciamos a modernidade ou a pós-modernidade. Se no contexto da sociedade moderna ainda existe um espaço para a discussão da ética. Para tanto, a autora propõe uma reflexão por meio dos trabalhos de Habermas, Beck e Giddens com o objetivo de mostrar a visão desses autores acerca da modernidade e as propostas de superação encaminhada por eles para os dilemas da modernidade. A Editora Chamada de artigos A Revista Bioenergia em Revista: Diálogos convida pesquisadores, docentes e demais interessados das áreas de Bioenergia, Gestão Empresarial, Agroindústria e áreas afins, a colaborarem com artigos científicos, de revisão e/ou resenhas para a próxima edição deste periódico. As normas de submissão e análise estão disponíveis em nosso site – www.fatecpiracicaba.edu.br/revista. Os trabalhos serão recebidos por via eletrônica até 30/05/2013, e os autores poderão acompanhar o progresso de sua submissão através do sistema eletrônico da revista. Os dados apresentados, bem como a organização do texto em termos de formulação e encadeamento dos enunciados, das regras de funcionamento da escrita, das versões em língua inglesa e espanhola dos respectivos resumos, bem como o respeito às Normas da ABNT são de inteira responsabilidade dos articulistas. Simulação do crescimento e desenvolvimento do trigo utilizando o modelo Ceres-Wheat na região de Campinas (SP)*: Outro olhar sobre o etanol SILVA, Fábio César da SOLER, Cecília M. Tojo BOARETTO, Antonio E. SPOLIDORIO, Eduardo S. FREITAS, José Guilherme de HEINEMANN, Alexandre Bryan Resumo Avaliou-se a eficácia do modelo Ceres-Wheat na estimativa da produtividade e datas de florescimento e de maturidade fisiológica de trigo, cultivar IAC 24. Para comparar os valores estimados pelo modelo Ceres, utilizou-se de dados observados em ensaio de campo com trigo irrigado e adubado com diversas doses de N-fertilizante: 0, 30, 60, 90 e 120 kg ha-1 de N no primeiro ano e 0, 45, 90, 135 e 180 kg ha-1 de N no 2o ano. O modelo simulou satisfatoriamente a fenologia, os componentes do rendimento e o rendimento do trigo, inclusive o efeito da adubação nitrogenada. As estimativas das datas de florescimento e maturidade fisiológica apresentaram pequenos desvios em relação às datas observadas a campo, que se deveu à ocorrência de temperaturas médias diárias maiores do que a media histórica e conseqüentemente um encurtamento do ciclo da cultivar. Embora haja necessidade de refinamento na estimativa de alguns processos, os resultados indicam que o modelo CERES-Wheat é adequado para estimativas da fenologia e rendimento da cultivar de trigo IAC-24 para previsão de resposta à adubação N. Palavras-chave: modelagem; agrometeorologia; cereais. Abstract The effectiveness of the Ceres-Wheat model was evaluated for estimation of productivity and dates of flowering and physiological maturity of the wheat, cultivar IAC 24. Simulation results were compared with observed data from field experiments of wheat under irrigation and fertilization with different doses of N: 0, 30, 60, 90 and 120 kg ha-1 of N in first year and 0, 45, 90, 135 and 180 kg ha-1 of N in 2nd year. The model simulated satisfactorily the fenology, yield components and productivity, including the effect of the N fertilization. The estimates of the dates of flowering and physiological maturity presented deviations from field data, which was attributed to occurrence of higher daily temperature during the crop cicle as compared with historical data, resulting shortening of the cycle of cultivating. Although there is necessity of refinement of some processes, the results indicate that the Ceres-Wheat model is adjusted for estimates of the fenology and yield of wheat and also its response to N fertilization. 9 Keywords: modeling; agro-meteorology; cereals. Resumen Se evaluó la efectividad del modelo Ceres-Trigo para estimar la productividad y las fechas de floración y madurez fisiológica del cultivo de trigo IAC 24. Para comparar los valores estimados por los modelos de Ceres, se utilizaron los datos observados en el ensayo de campo con trigo irrigado y fertilizado con diferentes dosis de N-fertilizante: 0, 30, 60, 90 y 120 kg N ha-1 en el primer año y 0, 45, 90, 135 y 180 kg N ha-1 en el segundo año. El modelo simulado satisfactoriamente la fenología, rendimiento y sus componentes de trigo, incluyendo los efectos de la fertilización con nitrógeno. Las estimaciones de las fechas de floración y madurez fisiológica mostraron pequeñas desviaciones de las fechas observadas en el campo, lo cual fue debido a la ocurrencia de temperaturas medias diarias superiores a la media histórica, por lo que un ciclo de vida más corto del cultivar. A pesar de que se necesitan para refinar la estimación de algunos procesos, los resultados indican que el CERES-El trigo es adecuado para las estimaciones de la fenología y el rendimiento de cultivar trigo IAC-24 para predecir la respuesta a la fertilización con N. Palabras-clave: modelización; agrometeorologia; cereales. 10 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 9-25, jul./dez. 2012. SILVA, Fábio César da; SOLER, Cecília M. Tojo; BOARETTO, Antonio E.; SPOLIDORIO, Eduardo S.; FREITAS, José Guilherme de; HEINEMANN, Alexandre Bryan Simulação do crescimento e desenvolvimento do trigo utilizando o modelo Ceres-Wheat na região de Campinas (SP)*: Outro olhar sobre o etanol INTRODUÇÃO O trigo (Triticum aestivum) é uma planta de ciclo anual, cultivada durante o inverno e a primavera. O grão é consumido na forma de pão, massa alimentícia, bolo e biscoito. É, usado também como ração animal, quando não atinge a qualidade exigida para consumo humano (Embrapa Trigo, 2012). Na Europa, os cereais têm emprego também como matéria prima para produção de etanol, a exemplo da França. A aceleração da produção de etanol no país ilustra a determinação européia de responder aos compromissos do Protocolo de Kyoto para limitar a emissão de gases de efeito estufa. O combustível deverá representar 10% do consumo total de carburantes no velho continente até 2015. No Brasil, o trigo ocupa o primeiro lugar em volume de produção mundial, a produção anual oscila entre 5 e 6 milhões de toneladas. É cultivado nas regiões Sul (RS, SC e PR), Sudeste (MG e SP) e Centro-oeste (MS, GO e DF). O consumo anual no país tem se mantido em torno de 10 milhões de toneladas (Embrapa Trigo, 2012). Cerca de 90% da produção de trigo está no Sul do Brasil. O cereal vem sendo introduzido paulatinamente na região do cerrado, sob irrigação ou sequeiro. A capacidade de prever as produtividade da cultura do trigo em face às condições edafo-climáticas e a oferta da matéria prima para multiusos é estratégica, sendo os modelos uma ferramenta importante. Nos últimos anos têm-se gerado vários tipos de modelos de simulação para uso em agricultura com diferentes níveis de complexidade. Pela sua importância, destacam-se os modelos do IBSNAT (International Benchmark Sites Network for Agrotechnology Transfer), que foi um projeto internacional com sede na Universidade de Havaí, criado para desenvolver um sistema para suporte à decisão e transferência de tecnologia agrícola. Esse sistema, nomeado DSSAT (Decision Support System for Agrotechnology Transfer) consta de grande base de dados, modelos de simulação de produção de cultivos como trigo, cevada, milho, arroz, girassol, sorgo, soja, feijão, amendoim e batata, além de ferramentas de análises biofísicas e econômicas (Baethgen, 1995). Os modelos de simulação do sistema DSSAT estão baseados no enfoque de sistemas, isto é, tratam de compreender as interações dos componentes do sistema agrícola sob estudo. No caso particular dos modelos de simulação de culturas, consiste em: a) simular as interações do genótipo com o ambiente e com o manejo e b) predizer o funcionamento de um sistema de produção em resposta aos fatores que influenciam, como o clima e práticas de manejo (Uehara & Tsuji, 1993). Além da estimativa do rendimento, o conjunto de programas do sistema DSSAT permite avaliar o uso do recurso natural e estimar o risco associado com diferentes práticas de manejo. Através de uma interface visual, o sistema possibilita: a) introduzir, organizar e armazenar dados das culturas, de solos e de clima b) recuperar, analisar e apresentar dados, c) calibrar e validar 11 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 9-25, jul./dez. 2012. SILVA, Fábio César da; SOLER, Cecília M. Tojo; BOARETTO, Antonio E.; SPOLIDORIO, Eduardo S.; FREITAS, José Guilherme de; HEINEMANN, Alexandre Bryan Simulação do crescimento e desenvolvimento do trigo utilizando o modelo Ceres-Wheat na região de Campinas (SP)*: Outro olhar sobre o etanol modelos de diferentes culturas e d) testar diferentes práticas de manejo num dado local (Jones, 1993). Logo que o usuário está seguro de que o modelo simula o crescimento e desenvolvimento de uma cultura numa localidade, análises mais complexas da resposta da cultura podem ser conduzidas para diferentes tipos de solo, cultivares, épocas de semeadura, população de plantas e estratégias de irrigação e adubação, com a finalidade de encontrar práticas que sejam mais favoráveis e que envolvam menor nível de risco (JONES et al., 1996; JAME & CURTFORTH , 1996). Utilização de modelo de simulação para a cultura de trigo nas condições brasileiras foi iniciada em 2001, foi modificando a partir do modelo CERES, pela equipe da Embrapa Trigo, em conjunto com a Universidade de Passo Fundo, em desenvolvimento foi denominado de SimTrigo e escrito na linguagem JAVA usando os princípios de programação orientada para objetos (POO). O modelo SimTrigo está sendo estruturado para simular o rendimento de trigo, a acumulação de biomassa, a duração da área foliar, a fenologia, a absorção de água em resposta a quantidade de água no solo e também os efeitos de pragas e doenças sob a planta, mas não introduziu-se a dinâmica de nitrogênio (FERNANDES et al., 1994 e 1999). Este trabalho tem como objetivos apresentar de forma sucinta o funcionamento do modelo CERES-Wheat inserido na plataforma do programa DSSAT3.5, assim como apresentar os resultados obtidos das simulações realizadas com o modelo e os observados em experimento de campo, em especial a sua capacidade de detectar os efeitos locais da aplicação de água, de N sob a fenologia e produtividade de grãos do trigo sob irrigação. METODOLOGIA Foram utilizados como inputs ou entradas do modelo CERES-Wheat dados obtidos de dois experimentos de campo com o genótipo IAC-24, considerando-se as práticas de manejo cultural, como a alteração da população de plantas, as fertilizações, as irrigações; as datas fenológicas como semeadura, emergência, florescimento, antese, maturidade fisiológica, colheita e os dados dos componentes de produção, número de grãos por metro quadrado e peso de mil grãos. Nesses experimentos, a cultivar IAC-24 foi submetida a diferentes doses de fertilizante: 0, 30, 60, 90 e 120 kg.ha-1 de N no primeiro ano e 0, 45, 90, 135 e 180 kg.ha-1 de N no segundo ano, parcelados em 1/3 na semeadura e 2/3 em cobertura (cultura em estágio Zadocks-30). A fonte de N utilizada em ambos os experimentos foi uréia. O regime hídrico foi mantido através do sistema de irrigação por aspersão. O modelo CERES-Wheat constitui um modelo mecanístico e determinístico que simula, entre vários parâmetros, a duração dos estágios vegetativos e reprodutivos, o acúmulo de biomassa e a produção de grãos em função de diferentes tipos de solo, condições climáticas e práticas de manejo da cultura. 12 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 9-25, jul./dez. 2012. SILVA, Fábio César da; SOLER, Cecília M. Tojo; BOARETTO, Antonio E.; SPOLIDORIO, Eduardo S.; FREITAS, José Guilherme de; HEINEMANN, Alexandre Bryan Simulação do crescimento e desenvolvimento do trigo utilizando o modelo Ceres-Wheat na região de Campinas (SP)*: Outro olhar sobre o etanol As entradas ou inputs do modelo incluem características do solo, parâmetros climáticos, coeficientes da cultivar e práticas de manejo da cultura, no formato específico do projeto IBSNAT. Na Figura 1 é apresentado um fluxograma do modelo CERES-Wheat. As principais características do solo consideradas como entradas para cada camada do perfil são: textura, conteúdo de matéria orgânica, densidade aparente, pH, índice de drenagem, número da curva de escoamento superficial (numero capa) e albedo do solo. DADOS DE ENTRADA Características Tratos culturais Químicas Planta Cultivar Clima do solo Ecótipo Físicas Espécie Hídricas Temp. Temp. máxima mínima Precipi- Insola- tação ção MODELO Simulação Dados de Saída Crescimento e Desenvolvimento Carbono Nitrogênio Água Figura 1. Fluxograma do modelo CERES-Wheat Um exemplo de arquivo padrão com dados de solo para uso nos modelos incluídos no DSSAT 3.5 é apresentado a seguir na Tabela 1 (UEHARA & TSUJI, 1993) . 13 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 9-25, jul./dez. 2012. SILVA, Fábio César da; SOLER, Cecília M. Tojo; BOARETTO, Antonio E.; SPOLIDORIO, Eduardo S.; FREITAS, José Guilherme de; HEINEMANN, Alexandre Bryan Simulação do crescimento e desenvolvimento do trigo utilizando o modelo Ceres-Wheat na região de Campinas (SP)*: Outro olhar sobre o etanol Tabela 1. Arquivo e tela padrão com dados de solo para uso nos modelos (UEHARA & TSUJI, 1993) incluídos no software DSSAT. *EBMZ850001 SCS 120 LATOSSOLO VERMELHO AMARELLO @SITE COUNTRY LAT LONG SCS FAMILY CPAC BRASIL -15.59 -47.70 CLAYEY, OXIDIC, ISOTHERMIC ANIONIC ACRUSTOX @ SCOM SALB SLU1 SLDR SLRO SLNF SLPF SMHB SMPX SMKE RY 0.14 7.1 0.50 76.0 1.00 1.00 IB001 IB001 IB001 @ SLB SLMH SLLL SDUL SSAT SRGF SSKS SBDM SLOC SLCL SLSI SLCF SLNI SLHW SLHB SCEC SADC 15 0.00 0.191 0.349 0.389 1.000 -9.0 0.93 1.81 -99 -99 -99 -99 5.9 -99 -99 0.00 30 0.00 0.237 0.339 0.367 0.200 -9.0 1.03 1.45 -99 -99 -99 -99 5.3 -99 -99 0.00 45 0.00 0.250 0.329 0.371 0.200 -9.0 1.01 1.20 -99 -99 -99 -99 5.2 -99 -99 0.00 60 0.40 0.256 0.329 0.385 0.200 -9.0 0.95 1.03 -99 -99 -99 -99 4.8 -99 -99 0.40 75 0.80 0.263 0.327 0.389 0.200 -9.0 0.93 0.81 -99 -99 -99 -99 4.5 -99 -99 0.80 90 1.00 0.266 0.320 0.394 0.200 -9.0 0.91 0.76 -99 -99 -99 -99 4.7 -99 -99 1.00 105 1.20 0.271 0.323 0.394 0.020 -9.0 0.91 0.69 -99 -99 -99 -99 4.8 -99 -99 1.20 120 1.60 0.275 0.328 0.394 0.010 -9.0 0.91 0.63 -99 -99 -99 99 4.9 -99 -99 1.60 Legenda: Linha 1 – nome do arquivo, classe de solo. Linha 2 – local, país, latitude, longitude, família do solo. SSITE = local; SCOUNT = país; LAT = latitude com sinal negativo para quem estiver no hemisfério sul, graus decimais; LONG = longitude, graus decimais; SCS FAMILY = classe de solo. Linha 3 – cor, albedo, evaporação, drenagem, escoamento superficial, mineralização, fotossíntese, pH, fósforo e potássio. 14 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 9-25, jul./dez. 2012. SILVA, Fábio César da; SOLER, Cecília M. Tojo; BOARETTO, Antonio E.; SPOLIDORIO, Eduardo S.; FREITAS, José Guilherme de; HEINEMANN, Alexandre Bryan Simulação do crescimento e desenvolvimento do trigo utilizando o modelo Ceres-Wheat na região de Campinas (SP)*: Outro olhar sobre o etanol SCOM = cor do solo úmido, matiz da escala da Munsell; SALB = albedo, fração; SLU1 = -1 limite de evaporação, mm; SLDR = taxa de drenagem, fração dia ; SLRO = curva número para escoamento superficial do Serviço de Conservação de Solo dos USA; SLNF = fator de mineralização, escala de 0 a 1; SLPF = fator de fotossíntese, fator de 0 a 1; SMHB = método de determinação do pH em solução tampão, código; SMPX = método de determinação de fósforo, código; SMKE = método de determinação de potássio, código; Linha 4 – profundidade da base da camada, horizonte, limite inferior, limite superior de água disponível, umidade de saturação, fator de crescimento de raiz, condutividade hidráulica saturada, densidade global úmida, carbono orgânico, argila, silte, fração grosseira, nitrogênio, pH em água, pH em solução tampão e capacidade de troca de cátions SLB = profundidade da base da camada, cm; SLMH = horizonte do solo; SLLL = limite inferior de água disponível ou ponto de murcha permanente, cm3 cm-3; SDUL = limite superior de água disponível ou capacidade de campo, cm3 cm-3; SSAT = umidade de saturação, cm3 cm-3; SRGF = fator de crescimento de raiz, 0.0 a 1.0; SSKS = condutividade hidráulica saturada, cm h1 ; SBDM = densidade global do solo úmido, g cm-3; SLOC = carbono orgânico, %; SLCL = argila, %; SLSI = silte, %; SLCF = cascalho, fração maior que 2 mm, %; SLNI = nitrogênio total, %; SLHW = pH em água; SLHB = pH em solução tampão; SCEC = capacidade de troca de cátions, CTC, cmol kg-1. O valor –99 é o padrão usado para um dado desconhecido ou perdido. Os dados diários das variáveis de clima considerados pelo modelo como inputs são temperatura máxima e mínima, precipitação e horas de sol. Um exemplo de arquivo de dados de clima é apresentado na Tabela 2. 15 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 9-25, jul./dez. 2012. SILVA, Fábio César da; SOLER, Cecília M. Tojo; BOARETTO, Antonio E.; SPOLIDORIO, Eduardo S.; FREITAS, José Guilherme de; HEINEMANN, Alexandre Bryan Simulação do crescimento e desenvolvimento do trigo utilizando o modelo Ceres-Wheat na região de Campinas (SP)*: Outro olhar sobre o etanol Tabela 2. Arquivo padrão com dados de clima para uso nos modelos incluídos no DSSAT (Visão de tela). Modificado de UEHARA & TSUJI, 1993. *WEATHER DATA : CPAC-EMBRAPA_CHAPADA_PLANALTINA @ INSI LAT LONG ELEV TAV AMP REFHT WNDHT EBCH -15.590 -47.700 1145 21.1 1.6 -99.0 -99.0 @DATE SRAD TMAX TMIN RAIN 84001 5.5 19.2 15.2 3.8 84002 15.9 24.5 15.0 0.0 84003 24.1 27.2 16.1 0.0 84004 26.8 28.0 16.8 0.0 84005 15.3 29.0 18.9 0.5 84006 23.6 30.8 17.9 0.2 Linha 1 – dados de localização da estação, nome do país. Linha 2 – código da instituição, local, latitude, longitude, altitude, temperaturas, altura do termômetro e do anemômetro. IN= código da instituição; SI = código do local; LAT = latitude com sinal negativo no hemisfério sul, graus decimal; LONG = longitude, graus decimal; ELEV = altitude, metros; TAV = temperatura média do ar, graus centígrados; AMP = amplitude de temperatura média, médias mensais, graus centígrados; TMHT = altura de instalação do termômetro, metro; WMHT = altura do anemômetro, metro; Todas as outras linhas se correspondem com: – ano, calendário juliano, radiação, temperaturas, precipitação, radiação. DATE= ano, dia calendário Juliano; SRAD = radiação solar, MJ m-2 dia-1; TMAX = temperatura máxima do ar, graus centígrados; TMIN = temperatura mínima do ar, graus centígrados; RAIN = precipitação, mm. A maior inovação deste modelo é o conceito de coeficiente genético, o qual significa que uma característica comum a todas as variedades de trigo pode variar quantitativamente, explicando as diferentes adaptações (Salvador, 1993). Os coeficientes genéticos são determinados na fase de calibração do modelo mediante comparação de resultados simulados e observados no campo. Com esses coeficientes, são descritas as características de um determinado genótipo (Tabela 3). O uso de características específicas para cada cultivar geralmente melhora a performance do modelo permitindo analisar a adaptação de uma variedade a diversos ambientes (JAME & CURTFORTH, 1996). 16 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 9-25, jul./dez. 2012. SILVA, Fábio César da; SOLER, Cecília M. Tojo; BOARETTO, Antonio E.; SPOLIDORIO, Eduardo S.; FREITAS, José Guilherme de; HEINEMANN, Alexandre Bryan Simulação do crescimento e desenvolvimento do trigo utilizando o modelo Ceres-Wheat na região de Campinas (SP)*: Outro olhar sobre o etanol Tabela 3. Coeficientes genéticos utilizados pelo modelo CERES-Wheat. Códig o Descrição P1V Atraso relativo do desenvolvimento diário pela vernalização, assumindo que 50 dias de vernalização são suficientes. P1D Atraso relativo do desenvolvimento devido a condições sub-ótimas de fotoperíodo. P5 Duração relativa do enchimento dos grãos baseado na soma térmica (graus dia acima da temperatura basal de 1o.C) em que cada unidade de incremento adiciona 20 graus dia a um valor inicial de 430 graus dia. G1 Número de grãos por unidade de massa da parte aérea da planta. G2 Taxa de enchimento dos grãos sob condições ótimas de crescimento. G3 Massa seca do caule e da espiga quando a elongação paralisa. PHIN T Intervalo de filocron, ou seja, soma térmica em graus dia entre o aparecimento de uma folha e a folha sucessiva. A ocorrência das diferentes fases fenológicas descritas no modelo CERES-Wheat representam intervalos de crescimento da planta delimitados por diferentes eventos fisiológicos. O sistema de numeração das fases é circular como se descreve na Tabela 4 (RITCHIE and GODWIN, 2002). 17 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 9-25, jul./dez. 2012. SILVA, Fábio César da; SOLER, Cecília M. Tojo; BOARETTO, Antonio E.; SPOLIDORIO, Eduardo S.; FREITAS, José Guilherme de; HEINEMANN, Alexandre Bryan Simulação do crescimento e desenvolvimento do trigo utilizando o modelo Ceres-Wheat na região de Campinas (SP)*: Outro olhar sobre o etanol Tabela 4. Descrição das fases fenológicas para a cultura de trigo usadas no modelo CERESWheat (RITCHIE and GODWIN, 2002). Fase nº. Descrição da fase Partes da planta em crescimento 7 Pré-semeadura. - 8 Semeadura até a germinação. - 9 Da germinação à emergência. Raiz, coleóptilo 1 Da emergência ao inicio da espiguilha terminal. Raiz, folhas 2 Da espigamento terminal ao final do crescimento das folhas e começo Raiz, folhas, caule do crescimento da espiga. 3 Fim do crescimento das folhas e começo do crescimento da Raiz, folhas, espiga espiga ao fim da pré-antese do crescimento da espiga. 4 Fim da pré-antese do crescimento da espiga ao começo do Raiz, caule enchimento de grãos 5 Enchimento de grãos. Raiz, caule, grão 6 Fim do enchimento de grãos à colheita - Dentre as práticas de manejo consideradas pelo modelo CERES-Wheat destacam-se, por exemplo, fertilizações realizadas (tipo de fertilizante, data de aplicação, quantidade aplicado), irrigações (quantidade de água aplicada, data de aplicação, tipo de equipamento de irrigação), incorporação de resíduos da cultura anterior (tipo e quantidade incorporado ao solo), população de plantas na semeadura, espaçamento entre fileiras e profundidade de semeadura. As entradas de clima requeridas para a implementação dos arquivos necessários para o funcionamento do modelo CERES-Wheat foram obtidas da micro-estação climatológica do IAC, Fazenda Santa Elisa e os dados de solo do local através de analise de solo classificado como Latossolo Vermelho Escuro mesotrófico, nos 2 anos em que foram realizados os experimentos. A partir dos resultados obtidos em ensaios de campo (Spolidorio, 1999), o modelo CERES-Wheat foi calibrado e testado. A calibração do modelo consistiu no ajuste dos coeficientes genéticos para a cultivar IAC-24, de tal forma que os valores simulados de produção de grãos e as datas de florescimento e maturidade fisiológica fossem próximas ou coincidissem com os valores experimentais observado no ano 1. Já o teste do modelo consistiu na comparação dos dados simulados com aqueles observados experimentalmente na cultivar IAC-24 no ano 2, que se houvesse um ajuste perfeito dessa reta entre os dados observados e simulados, formar-seia um angulo de 45o entre a reta e o eixo x. 18 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 9-25, jul./dez. 2012. SILVA, Fábio César da; SOLER, Cecília M. Tojo; BOARETTO, Antonio E.; SPOLIDORIO, Eduardo S.; FREITAS, José Guilherme de; HEINEMANN, Alexandre Bryan Simulação do crescimento e desenvolvimento do trigo utilizando o modelo Ceres-Wheat na região de Campinas (SP)*: Outro olhar sobre o etanol RESULTADOS E DISCUSSÃO Os resultados observados e simulados das datas de florescimento e de maturidade fisiológica são apresentados na Figura 2 para os anos 1 e 2. Os dados observados em dias após a semeadura (DAS) são representados no eixo das abscissas, enquanto que os resultados simulados são representados no eixo das ordenadas. Os DAS observados até o florescimento no ano 1 foram de 61 dias enquanto que o modelo simulou 64 dias. Para o ano 2, o modelo simulou 69 DAP e foram observados 70 DAS até a data de florescimento do trigo. Os DAS observados até a maturidade fisiológica no ano 1 foram 84, porem o modelo simulou 90 dias. Para o ano 2, o modelo simulou 95 DAS e foi observado 104 DAS até a data de maturidade fisiológica (Figura 2). A lógica do desenvolvimento do trigo foi parcialmente controlado principalmente pela temperatura. O uso do conceito de graus-dias permitiria integrar as unidades térmicas às quais as plantas estão expostas, a cada dia. Para tal, é necessário estabelecer relações quantitativas entre temperatura e desenvolvimento da planta de trigo. Essa soma térmica emergência até maturidade fisiológica apresentou diferenças evidentes nos dois anos estudados (184 graus dia), o que poderia explicar em parte as diferenças entre dados observados e simulados pelo modelo. Spolidorio, (1999) relatou que durante o período de desenvolvimento da cultura de trigo no ano 1, registrouse a ocorrência de temperaturas médias diárias maiores do que a media histórica e conseqüentemente um encurtamento do ciclo da cultivar. 120 Dias da semeadura até o evento(smulado) 100 80 60 40 Florescimento 20 x Maturidade Fisiológica 0 0 20 40 60 80 100 120 Dias da semeadura até o evento (observado) 19 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 9-25, jul./dez. 2012. SILVA, Fábio César da; SOLER, Cecília M. Tojo; BOARETTO, Antonio E.; SPOLIDORIO, Eduardo S.; FREITAS, José Guilherme de; HEINEMANN, Alexandre Bryan Simulação do crescimento e desenvolvimento do trigo utilizando o modelo Ceres-Wheat na região de Campinas (SP)*: Outro olhar sobre o etanol Figura 2. Comparação entre as datas de florescimento e de maturidade fisiologica (DAS) observada e estimada pelo modelo CERES-Wheat para os anos 1 e 2, , sendo o coeficiente de correlação entre as variáveis de 0,9965**. Outro aspecto que merece estudo durante o ciclo de desenvolvimento da planta de trigo, são as mudanças em sua morfologia externa, o que pode auxiliar na caracterização dos respectivos estádios de desenvolvimento da planta, considerados críticos na formação do rendimento de grãos (FERNANDES et al., 1999). Na Figura 3,são apresentados os resultados de rendimento de grãos para os tratamentos 0, 30, 60, 90 e 120 kg ha-1 de N no ano 1. Para o tratamento que não recebeu N na adubação, o valor estimado de rendimento de grão foi de 3.349 kg ha-1, e o observado experimentalmente foi de 3.150 kg.ha-1 (Tabela 5). No ano 1, observou-se que o tratamento que recebeu a dose de 90 kg ha-1 de N foi o que resultou em maior rendimento de grãos com 4.026 kg ha-1. Nesse ano, constatou-se uma redução do ciclo fenológico como conseqüência das altas temperaturas médias diárias, e isso afetou a produção final de grãos. O trigo, por ser uma planta C3 e originaria de regiões de clima temperado, intensifica a fotorespiração acima de 28o.C, principalmente no estádio de enchimento de grãos (no caso, foi no mês de Agosto), o que leva a este cereal a consumir mais do que armazenar fotoassimilados nos grãos (EVANS et al., 1975). Dessa forma, o conhecimento eventos fisiológicos, a exemplo de fotorespiração deve ter correspondência em mudanças morfológicas que estão sendo determinados em cada período, tornam-se imprescindíveis para melhor adequação no tempo e no espaço de práticas de manejo para potencializar o rendimento de grãos. Assim, a evolução da planta de trigo durante seu desenvolvimento (ontogênese) deve ser caracterizada mediante uso de dois critérios o da morfologia externa da planta e o grau de evolução do ponto de crescimento (FERNANDES et al., 1999). No ano 1, observou-se uma leve tendência do modelo a superestimar os rendimentos simulados, mas para ser conclusivo necessitaria de uma avaliação morfológica mais detalhada. 20 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 9-25, jul./dez. 2012. SILVA, Fábio César da; SOLER, Cecília M. Tojo; BOARETTO, Antonio E.; SPOLIDORIO, Eduardo S.; FREITAS, José Guilherme de; HEINEMANN, Alexandre Bryan Simulação do crescimento e desenvolvimento do trigo utilizando o modelo Ceres-Wheat na região de Campinas (SP)*: Outro olhar sobre o etanol Tabela 5. Rendimento simulado e observado para a cultivar IAC-24 nos anos 1 e 2 sob 5 doses de N. Dose de N Rendimento Simulado (kg.ha-1) Rendimento Observado (kg.ha-1) Ano 1 0N 3.349 3.150 30 N 3.862 3.769 60 N 4.026 3.748 90 N 4.061 4.026 120 N 4.081 3.915 0N 4.444 4.637 45 N 4.637 4.871 90 N 4.635 4.792 135 N 4.622 4.721 180 N 4.622 4.763 Ano 2 21 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 9-25, jul./dez. 2012. SILVA, Fábio César da; SOLER, Cecília M. Tojo; BOARETTO, Antonio E.; SPOLIDORIO, Eduardo S.; FREITAS, José Guilherme de; HEINEMANN, Alexandre Bryan Simulação do crescimento e desenvolvimento do trigo utilizando o modelo Ceres-Wheat na região de Campinas (SP)*: Outro olhar sobre o etanol Rendimento simulado (kg há-1) R2 = 0,9705R2 = 0,9705RR2 = 0,9705R2 = 0,9705 5000 4500 4000 Ano 1 Ano 1 Ano 2 3500 3000 3000 3500 4000 4500 5000 -1 Rendimento observado (kg ha ) Figura 3.Comparação do rendimento de grãos (kg ha-1) simulado pelo modelo CERES-Wheat e o observado experimentalmente para os 5 tratamentos com N, sendo o coeficiente de correlação entre as variáveis de 0,9705 **. No ano 2 o rendimento médio observado foi maior que no ano 1 (Figura 3) não foram registradas altas temperaturas médias diárias e conseqüentemente não foi evidenciado um encurtamento no ciclo fenológico da cultura, que foi evidenciado na altura e desenvolvimento da planta, o que poderia explicar os maiores rendimentos nesse ano. A dose de 45 kg ha-1 de N foi a que resultou no maior rendimento, sendo de 4.871 kg ha-1. Observou-se que os resultados simulados pelo modelo foram menores aos resultados observados experimentalmente, o que pode ser visualizado na Figura 3 As diferenças encontradas quando se comparam os valores simulados e os observados devem-se em parte aos processos não considerados pelo modelo, tais como a ocorrência de doenças e pragas. Outra fonte de erro pode ser atribuída à variabilidade nos dados experimentais. Os valores observados e simulados para o variável número de grãos por metro quadrado para o ano 1 apresentaram adequado ajuste, os mesmos se encontram representados na Figura 4. 22 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 9-25, jul./dez. 2012. SILVA, Fábio César da; SOLER, Cecília M. Tojo; BOARETTO, Antonio E.; SPOLIDORIO, Eduardo S.; FREITAS, José Guilherme de; HEINEMANN, Alexandre Bryan Simulação do crescimento e desenvolvimento do trigo utilizando o modelo Ceres-Wheat na região de Campinas (SP)*: Outro olhar sobre o etanol 20000 -2 No. grãos.m simulado 25000 15000 Ano 1 10000 10000 15000 20000 25000 -2 No. grãos.m observado Figura 4. Número de grãos por metro quadrado estimado pelo modelo CERES-Wheat e medido experimentalmente para os diferentes tratamentos de fertilização nitrogenada no ano 1, sendo o coeficiente de correlação entre as variáveis de 0,765 **. CONCLUSÕES O modelo CERES-Wheat simulou satisfatoriamente a fenologia, os componentes do rendimento e o rendimento do trigo, inclusive o efeito da adubação nitrogenada. As estimativas das datas de florescimento e maturidade fisiológica apresentaram pequenos desvios em relação às datas observadas a campo, que se deve a ocorrência de temperaturas médias diárias maiores do que a media histórica e conseqüentemente um encurtamento do ciclo da cultivar. Embora haja necessidade de refinamento na estimativa de alguns processos, os resultados indicam que o modelo CERES-Wheat é adequado para estimativas da fenologia e rendimento da cultivar de trigo IAC-24 para previsão de resposta à adubação N. A exemplo dos modelos CROPGRO para soja no Estado do Paraná ou do SimTrigo para Trigo no Rio Grande do Sul, esse calibração do modelo CERES possibilita no futuro a utilização deste modelo para outro tipo de estudos como por exemplo zoneamento do risco climático e viabilidade técnica e econômica da cultura do trigo. 23 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 9-25, jul./dez. 2012. SILVA, Fábio César da; SOLER, Cecília M. Tojo; BOARETTO, Antonio E.; SPOLIDORIO, Eduardo S.; FREITAS, José Guilherme de; HEINEMANN, Alexandre Bryan Simulação do crescimento e desenvolvimento do trigo utilizando o modelo Ceres-Wheat na região de Campinas (SP)*: Outro olhar sobre o etanol REFERÊNCIAS BAETHGEN, W. Uso de modelos de simulación en manejo y fertilidad de suelos. In. II Curso de actualización técnica manejo y fertilidad de suelos. INIA La Estanzuela. Uruguay. 1995. BOOTE, K.J. Concepts for calibration crop growth models-Crop Simulation. Course Basics of DSSAT: Montevideu, 1994. 30p. EVANS, L.T.; WARLAN, I.F.; FISCHER, R.A. Wheat. In: Evans, L.T. Crop physiology. London: Cambridge University Press, 1975. p. 101-149. EMBRAPA TRIGO. Estatísticas da produção de trigo. Disponível em: <www.cnpt.embrapa.br>. Acesso em 20/02/2012. FERNANDES, J. M. C., MAFFIA, L. A. Simulação de epidemias. Revisão Anual de Patologia de Plantas – RAPP, v.2, p.293-334, 1994. FERNANDES, J. M.C & PICININI, E. C. Sistema de auxílio à tomada de decisão para a otimização do uso de fungicidas na cultura do trigo. Fitopatologia Brasileira 24:9-17, 1999. JAME, Y. W & CURTFORTH, H.W. Crop growth models for decision support systems. Canadian Journal of Plant Science. p. 9-19.1996. JONES, J.W. Decision support systems for agricultural development. In: Penning de Vries F.W.T, Teng PS, Metselaar K (eds.). Systems approaches for agricultural development. Kluwer Academic Press, Boston. 459-471.1993. JONES, J; TSUJI, G; HOOGENBOOM, G; HUNT, L; THORNTON, P; WILKENS, P; IMAMURA, D; BOWEN, W; SINGH, U. Decision support system for agrotechnology tranfer: DSSAT v3. In: International Benchmark Sites Network for Agrotechnology Transfer: A system approach to research and decision making. Ed. Tsuji, G; Hoogenboom, G and Thornton, P. Submited for publication: Kluwer Academic Press, Systems approaches for sustainable development series. 1996. RITCHIE .J.T. AND GODWIN D. Development and Growth Without Water or Nutrient Deficiencies. Disponível em: < HTTP://nowlin.css.msu.edu/wheat_book/CHAPTER2.html> Acesso em julho de 2002. SALVADOR, R. J. Use of Computerized Simulation to Advance Agricultural Research in Developing Countries. Eighth International Congress on Research in Electrical Sciences. Instituto Tecnológico de la Laguna, 20 - 24 September 1993, Torreón, Coahuila, México. 1993. SPOLIDORIO, E. S. Balanço de nitrogênio(15N) na cultura de trigo irrigado. Tese Doutorado, Piracicaba, Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz". USP. 127p.1999. UEHARA, G & TSUJI, G. The IBSNAT project. In: Penning de Vries F.W.T, Teng PS, Metselaar K (eds.). Systems approaches for agricultural development. Kluwer Academic Press, Boston. 505-513. 1993. 24 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 9-25, jul./dez. 2012. SILVA, Fábio César da; SOLER, Cecília M. Tojo; BOARETTO, Antonio E.; SPOLIDORIO, Eduardo S.; FREITAS, José Guilherme de; HEINEMANN, Alexandre Bryan Simulação do crescimento e desenvolvimento do trigo utilizando o modelo Ceres-Wheat na região de Campinas (SP)*: Outro olhar sobre o etanol 1 Fábio Cesar SILVA é pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária, Professor da Fatec Piracicaba, Pós-doutorado na UPM-ETSIA, C. Postal = 6041, Cidade Universitária Zeferino Vaz, 13.083-970 Campinas SP, Brasil. E-mail: [email protected] 2 Cecília M. Trojo SPOLER é Engenheira Agronômica, Doutoranda em Irrigação e Drenagem – ESALQ/USP, Piracicaba/SP. 3 Antonio E. BOARETTO é Professor Dr. CENA/USP, Piracicaba/SP. 4 Eduardo S. SPOLIDORIO é Dr. Engenheiro Agrônomico, SN – Centro de Pesquisa e Promoção de Sulfato de Amônio, Piracicaba/SP. 5 José Guilherme de FREITAS é Dr. IAC – Centro de Plantas Graníferas, Campinas/SP. 6 Alexandre Bryan HEINEMANN é pesquisador da EMBRAPA Arroz e Feijão, Goiânia/Go. 25 Seleção de leveduras para a produção de lipídios como matéria-prima para biodiesel DELABIO, Aline da Silva REMÉDIO, Raquel Ribeiro CAZASSA, Sabrina MONTEIRO, Regina Teresa Rossim HARDER, Marcia Nalesso Costa Resumo A maior parte de toda a energia consumida no mundo provém do petróleo, do carvão e do gás natural. Essas fontes são limitadas e com previsão de esgotamento no futuro, portanto, a busca por fontes alternativas de energia é de suma importância. O uso de leveduras para produção de lipídios vem sendo fonte de estudos de muitos pesquisadores, já que esses lipídios podem ser uma boa alternativa para sua conversão em biodiesel. Este trabalho foi desenvolvido com a finalidade de avaliar a produção de biomassa e lipídios por diferentes tipos de leveduras a partir de resíduos da agroindústria (vinhaça e melaço), água residuária de esgoto e água da lavagem de serragem de bambu; tendo em vista o possível aproveitamento para geração de biodiesel. Palavras-Chave: Leveduras, Lipídios, Vinhaça, Biodiesel. Abstract Most of all energy consumed worldwide comes from oil; coal and natural gas. These sources are limited and estimated to be exhausted in the future. Therefore the search for alternative sources of energy is paramount. The use of yeasts for production of lipids has been a source of study for many researchers since these lipids may be a good alternative for conversion into biodiesel. This work was carried out to evaluate the production of biomass and lipids by different types of yeasts from agro-industrial residues (vinasse and molasses) wastewater sewer and bamboo water washing sawing with a view to possible utilization for generation of biodiesel. Keywords: Yeast, Lipids, Vinasse, Biodiesel. Resúmen La mayor parte de toda la energia consumida en el mundo proviene del petróleo, carbón y gas natural. Estas fuentes son limitadas y se estima que se agotarán en el futuro, por lo tanto, la búsqueda de fuentes alternativas de energia es de suma importancia. El uso de levaduras para la producción de lípidos hasido 26 una fuente de estúdio para muchos investigadores, ya que estos lípidos puede ser una buena alternativa para la conversión en biodiesel. Este trabajo se llevó a cabo para evaluar la producción de biomasa y los lípidos por diferentes tipos de levaduras de residuos agro-industriales (vinaza y melaza), alcantarillado de aguas residuales y agua de lavado de bambu aserrado, con vistas a La posible la utilización para la generación de biodiesel. Palabras clave: Levadura, Lípidos, Vinaza, Biodiesel. 27 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 26-38, jul./dez. 2012. DELABIO, Aline da Silva; REMÉDIO, Raquel Ribeiro; CAZASSA, Sabrina; MONTEIRO, Regina Teresa Rossim; HARDER, Marcia Nalesso Costa Seleção de leveduras para a produção de lipídios como matéria-prima para biodiesel INTRODUÇÃO O consumo de combustíveis fósseis derivados do petróleo apresenta um impacto significativo prejudicando a qualidade do meio ambiente (PORTAL DO BIODIESEL, 2011). Com isso, cientistas procuram desenvolver novos combustíveis derivados de fontes renováveis para substituir a energia fóssil vinda do petróleo (OLIVEIRA, 2008). Entre os combustíveis ecológicos, que possibilitam tal alternativa, está o biodiesel. O biodiesel produzido a partir de recursos biológicos renováveis tais como óleos vegetais e gorduras animais são biodegradáveis e não tóxico, tem baixa emissão de poluentes, sendo assim vantajoso ecologicamente (KRAWCZYK, 1996). Além disso, há uma diversidade enorme de microrganismos que armazenam lipídios, como microalgas, fungos, leveduras e bactérias, que são considerados uma boa alternativa para a conversão de lipídios em biodiesel. Para a produção dos lipídios as leveduras são cultivadas em meios que forneçam condições ideais para o seu crescimento e desenvolvimento. Resíduos da agroindústria como melaço e vinhaça são excelentes fontes nutricionais quando utilizados nos meios de cultura para a produção dos lipídios. Mediante o exposto, o presente trabalho visa o aproveitamento de resíduos agroindustriais (melaço, vinhaça) e outros resíduos disponíveis como esgoto e água da lavagem de serragem de bambu como substratos ao meio de crescimento de diferentes linhagens de leveduras, tendo por objetivo a produção de lipídios e se possível a aplicação para a produção de biodiesel. Objetivo Cultivar diferentes leveduras em meios líquidos de cultivo, sendo elas, Cryptococcus laurentii 11, Cryptococcus sp.nov3 52, Lipomyces starkey JAL 425, Lipomyces starkey JAL 572, Lipomyces starkey JAL 576, Lipomyces starkey JAL 581, Rhodotorula graminis CBS 2826, Tricosporon sp.nov.1 27b1 and Yarrowia (Candida) lipolytica. Utilizar resíduos da agroindústria canavieira, melaço e vinhaça, e outros resíduos disponíveis como, esgoto urbano e água da lavagem de serragem de bambu como substrato ao meio de cultivo. Produzir lipídios capazes de serem convertidos em biodiesel. 28 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 26-38, jul./dez. 2012. DELABIO, Aline da Silva; REMÉDIO, Raquel Ribeiro; CAZASSA, Sabrina; MONTEIRO, Regina Teresa Rossim; HARDER, Marcia Nalesso Costa Seleção de leveduras para a produção de lipídios como matéria-prima para biodiesel REVISÃO DE LITERATURA Leveduras A levedura está diretamente relacionada a diversos setores da agroindústria, dos quais se destaca o setor alcooleiro, com produções anuais de cerca de 15 bilhões de litros de álcool (UNICA, 2011). Atualmente existem muitas pesquisas com leveduras, envolvendo processos como fermentação etanólica e também produção de outros compostos de interesse comercial. Uma das variantes do metabolismo bioquímico realizado pelas leveduras é a produção de lipídios. Entre as leveduras capazes de produzir lipídios, a literatura destaca os gêneros Candida, Lipomyces, Rhodospiridium, Rhodotorula, Saccharomyces, Torulopsis e Trichosporon, capazes de produzir 60% ou mais de gordura (LIMA et al., 2001). Lipídios Componentes do suco celular, os lipídios podem ser sintetizados por microrganismos, sejam procariotos ou eucariotos. Os procariotos, organismos que não apresentam membrana ao redor do núcleo, englobam as bactérias. Os eucariotos possuem um núcleo definido, separado do citoplasma por uma carioteca. Fungos, leveduras e algas são componentes desse grupo (LIMA et al., 2001). São substâncias cuja característica é a pouca solubilidade em água e em solventes polares e solúveis em compostos orgânicos apolares como éter, benzeno, clorofórmio e álcool (PORTAL DE ESTUDOS EM QUÍMICA, 2011). Podem ser classificados em óleos (substancias insaturadas) e gorduras (substancia saturadas), encontrados nos alimentos, tanto de origem vegetal quanto animal, por exemplo: nas frutas (abacate e coco), na soja, na carne, no leite e seus derivados e também na gema de ovo (FONSECA, 2010). Lipídios em Leveduras A procura de fontes alternativas de energia tem levado a um crescente interesse na produção de triglicerídeos de origem vegetal ou animal. A produção de forma contínua e sem a necessidade de grande quantidade de terra ou água utilizando espaços que tornam a produção da indústria de biodiesel uma forma sustentável, com custo-benefício interessante para um empreendimento em escala industrial coloca os microrganismos oleaginosos como uma alternativa de processos não tradicionais de produção de triglicerídeos (RUPCIC; BLAGOVIC; MARIC, 1996; DYAL e NARINE, 2005). Segundo Ratledge (1996), as principais classes de microrganismos utilizados para a produção de lipídios e considerados microrganismos oleaginosos, são as leveduras e os fungos; estes podem produzir até 40% de sua biomassa em lipídios. Porém, bactérias e algas também são 29 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 26-38, jul./dez. 2012. DELABIO, Aline da Silva; REMÉDIO, Raquel Ribeiro; CAZASSA, Sabrina; MONTEIRO, Regina Teresa Rossim; HARDER, Marcia Nalesso Costa Seleção de leveduras para a produção de lipídios como matéria-prima para biodiesel potencialmente produtivas. Para que um microrganismo seja candidato favorável aos interesses comerciais, deve apresentar de 20-25% de lipídios em sua biomassa. O meio de cultivo e seus constituintes determinam a eficiência na produção de óleo. Os meios mais utilizados são glicose e glicerol (VICTORELLI, 2008). De maneira geral a produção de lipídios é maior em meio com alta taxa C:N, ou seja um meio pobre em nitrogênio. Também há influência na agitação e temperatura, que determinam a quantidade de cada ácido graxo insaturado a ser produzido. A oxigenação, o pH, temperatura e os nutrientes disponíveis no meio determinam a característica dos lipídios produzidos (VICTORELLI, 2008). Extração dos Lipídios Algumas amostras requerem cuidados especiais para obtenção de fração lipídica, pois alguns fatores podem influenciar a qualidade final da fração lipídica. O procedimento de Soxhlet, no qual o tecido é submetido à extração em um aparelho de vidro, com refluxo de solvente por muitas horas, devem ser evitados, já que favorecem as reações de peroxidação e de hidrolise, o que compromete a quantificação de componentes lipídicos ou não. Um dos procedimentos de extração que supera algumas dificuldades é a metodologia Bligh & Dyer (1959), uma versão simplificada do procedimento clássico usando clorofórmio-metanol proposto por Folch et al. (1957), modificado por BRUM et al. (2004). Vinhaça O subproduto caracteriza-se por um líquido escuro, viscoso e concentrado, de odor desagradável, sem oxigênio dissolvido, alta turbidez e baixo pH (FRANCISCO, 2008). Este efluente altamente colorido é um subproduto rico em nutrientes, principalmente matéria orgânica, tendo um alto potencial poluente quando disposto no ambiente (FERREIRA, 2009). A riqueza da vinhaça varia em nutrientes de acordo com o tipo de mosto utilizado na destilaria, sendo a quantidade alta de potássio uma das principais razões do seu uso como fertilizante (VOLL, 2005). O uso da vinhaça como substrato para microrganismos também vem sendo bastante estudada, em que os nutrientes disponíveis são aproveitados para a obtenção de biomassa de valor comercial, entre elas, a produção de lipídios. O principal motivo para o descarte das outras formas de uso da vinhaça foi o alto custo tecnológico (AZANIA, 2003). 30 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 26-38, jul./dez. 2012. DELABIO, Aline da Silva; REMÉDIO, Raquel Ribeiro; CAZASSA, Sabrina; MONTEIRO, Regina Teresa Rossim; HARDER, Marcia Nalesso Costa Seleção de leveduras para a produção de lipídios como matéria-prima para biodiesel Esgoto O crescimento populacional e a consequente demanda por bens de consumo, assim como os aumentos do desenvolvimento industrial geram, principalmente nas regiões metropolitanas, águas residuais e resíduos sólidos (lixos em geral) em quantidades vultosas (CÓ JUNIOR, 2007). Segundo a NBR 9648 (ABNT, 1986) esgoto sanitário é o despejo líquido constituído de esgotos doméstico e industrial, água de infiltração e a contribuição pluvial parasitária. A composição média do esgoto sanitário é de 99,9% de água e 0,1% de sólidos, dos quais 70% são orgânicos, incluindo proteínas, carboidratos e gorduras, e 30% são inorgânicos, contendo areia, sais e metais, entre outros (FRANÇA et al., 2004). Bambu O bambu é uma planta conhecida desde a Antiguidade e tem sido utilizada para os mais diversos fins, principalmente nos países asiáticos (LIESE, 1998). Entre as qualidades do bambu que têm atraído a atenção de pesquisadores e empresários, está a rápida propagação e o crescimento acelerado da planta (SILVA, 2007). O bambu é constituído pelo colmo (tipo de tronco, parte aérea da planta) e na parte subterrânea por rizomas (também tipo de caule) e raízes; os principais constituintes dos colmos são: a celulose, hemicelulose e lignina e os constituintes secundários baseiam-se em resinas, taninos, ceras, sais orgânicos e outros extrativos (SILVA, 2007). O amido presente no bambu pode ser considerado também uma importante fonte de carboidratos para produção de biocombustíveis e outros produtos de alto valor agregado como o furfural. Para tanto, faz-se necessário o desenvolvimento de técnicas que permitam a extração e/ou aproveitamento do amido presente no bambu (COVOLAM et al., 2011). Melaço Diversos subprodutos e matérias-primas da indústria de alimentos e/ou da agroindústria têm sido empregados para o crescimento de microrganismos, pela alta disponibilidade e baixo custo. Exemplificando-se, o soro de leite, água de maceração de milho, xarope de milho, levedura de destilaria e melaços (MORAES; CAPALBO; MORAES, 1991). Dentre estes, os melaços destacam-se como meio de cultivo nos processos fermentativos, em virtude do alto teor de açúcares, nitrogênio e vitaminas. Devido sua composição rica em açúcares fermentescíveis (LIMA; AQUARONE; BORZANI, 1975), seu baixo custo (R$ 0,15/Kg) e alta disponibilidade no território brasileiro, o melaço de cana-de-açúcar é sugerido como substrato para crescimento de culturas de microrganismos (HAULY et al., 2003). 31 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 26-38, jul./dez. 2012. DELABIO, Aline da Silva; REMÉDIO, Raquel Ribeiro; CAZASSA, Sabrina; MONTEIRO, Regina Teresa Rossim; HARDER, Marcia Nalesso Costa Seleção de leveduras para a produção de lipídios como matéria-prima para biodiesel METODOLOGIA Seleção das Leveduras Os experimentos foram realizados no Laboratório de Ecologia Aplicada, CENA-USP, Piracicaba e no Laboratório de Química da FATEC, Piracicaba-SP. Microrganismos As leveduras utilizadas foram doadas pelo Departamento de Bioquímica e Microbiologia da UNESP/Campus Rio Claro, sendo elas: Cryptococcus laurentii 11, Cryptococcus sp.nov3 52, Lipomyces starkey JAL 425, Lipomyces starkey JAL 572, Lipomyces starkey JAL 576, Lipomyces starkey JAL 581, Rhodotorula graminis CBS 2826, Tricosporon sp.nov.1 27b1 and Yarrowia (Candida) lipolytica, Foram mantidas em meio liquido YEDP, composto por g L-1: extrato de levedura 10 g; peptona 20 g; glicose 20 g; dissolvidos em água. Após acerto do pH para 6,5, o meio foi então autoclavado a 121ºC e 1 atm de pressão, durante 20 min (BARNETT et al., 1983). Meio de crescimento do inoculo Após a autoclavagem, os tubos foram colocados no fluxo laminar horizontal - Pachane, com a luz UV ligada, para a proteção contra agentes contaminantes durante a manipulação. Em seguida, com a luz desligada as leveduras foram inoculadas, sendo que cada uma em um tubo, e incubadas (BOD -Biochimical oxygen demand - Incubadora, modelo TE-381. Tecnal) a temperatura de 28ºC (± 2°C), durante três dias, quando foram utilizadas para inoculação em meios produtores de lipídios (BARNETT et al., 1983). Experimento: Meio de cultivo contendo água de lavagem de serragem de bambu, esgoto, vinhaça e extrato de levedura A vinhaça utilizada nos experimentos foi cedida pela RAÍZEN, Usina Costa Pinto, Piracicaba, SP. O bambu moído, Bambusa vulgaris, foi cedido pelo Instituto Agronômico de Campinas. O Esgoto foi coletado na ETE Piracicamirim, Piracicaba, SP. O meio foi preparado utilizando 20 g de bambu, 25 mL de vinhaça, 25 mL de esgoto e 0,5 g de extrato de levedura, para cada 100 mL -1 de água destilada. Após feita a mistura do bambu, da vinhaça, do esgoto e do extrato de levedura, ajustou-se o pH para 6,5. Foram feitas três repetições para cada uma das nove leveduras testadas, colocando aproximadamente 60 mL em cada frasco Erlenmeyer com capacidade de 125 mL, que foram esterilizados em autoclave por 20 minutos a 121°C, em 1atm, adaptado de Cazetta et al. (2005). 32 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 26-38, jul./dez. 2012. DELABIO, Aline da Silva; REMÉDIO, Raquel Ribeiro; CAZASSA, Sabrina; MONTEIRO, Regina Teresa Rossim; HARDER, Marcia Nalesso Costa Seleção de leveduras para a produção de lipídios como matéria-prima para biodiesel Desenvolvimento das leveduras As leveduras foram incubadas com agitação (mesa com agitação orbital 180 RPM. MARCONI), por sete dias quando foram centrifugadas (centrifuga Excelsa Baby II, modelo 206R. FANEM) e separada a biomassa para determinação da massa de matéria seca a 105ºC (estufa de secagem e esterilização, modelo 315 SE. FANEM) A biomassa seca foi avaliada por gravimetria e enviada para extração e quantificação de lipídios neutros e polares na empresa Algae, Ecogeo, São Paulo, conforme metodologia adaptada de Bligh & Dyer (1959). RESULTADOS E DISCUSSÃO De acordo com os resultados obtidos e apresentados na Tabela 1, as leveduras, Cryptococcus laurentii 11, Cryptococcus sp.nov3 52, Lipomyces starkey JAL 425, Lipomyces starkey JAL 572, Lipomyces starkey JAL 576, Lipomyces starkey JAL 581, Rhodotorula graminis CBS 2826, Tricosporon sp.nov.1 27b1 and Yarrowia (Candida) lipolytica apresentaram valores próximos quanto à produção de biomassa, entre 2,8 e 4,3 gL-1, apresentando um rendimento de produção de lipídios totais que variou entre 3 e 25%. Tabela 1 - Peso seco das leveduras selecionadas (g) cultivadas com agitação e sem agitação, meio de mistura de subprodutos. Média de três repetições Biomassa %Lipídios %Lipídios (g L-1) Neutros Polares R. Graminis CBS 2826 1 2,8044 0,55 25,14 L. starkeyi – JAL 572 1 3,1038 1,38 8,54 L. starkeyi – JAL 425 1 2,8911 0,85 9,11 L. starkeyi – JAL 581 1 3,300 0,19 8,28 C. sp.nov3 – 52 1 3,0972 2,01 5,47 L. starkeyi – JAL 576 1 3,0222 0,57 11,56 T. sp. nov.1 – 27b1 1 4,2827 1,25 6,50 Y. lipolytica 1 3,5511 0,94 15,28 Y. lipolytica 1* 3,4933 2,59 2,77 C. laurentii – 11 1 3,3844 0,59 9,21 Meio 1: Esgoto, vinhaça, caldo de bambu e extrato de levedura; com agitação. Levedura Meio Meio 1*: Esgoto, vinhaça, caldo de bambu e extrato de levedura; sem agitação. 33 %Lipídios Totais 25,69 9,92 9,96 8,47 7,48 12,13 7,75 16,22 5,36 9,80 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 26-38, jul./dez. 2012. DELABIO, Aline da Silva; REMÉDIO, Raquel Ribeiro; CAZASSA, Sabrina; MONTEIRO, Regina Teresa Rossim; HARDER, Marcia Nalesso Costa Seleção de leveduras para a produção de lipídios como matéria-prima para biodiesel Para que um microrganismo seja candidato favorável aos interesses comerciais, deve apresentar 20-25% de lipídios em sua biomassa Ratledge (1996), sendo assim, pode-se considerar como oleaginosa a levedura R. Graminis CBS 2826, que apresentou maior produção de lipídios totais, acima de 20%, respectivamente. A levedura Yarrowia lipolytica foi cultivada com agitação e sem agitação. O objetivo desse teste foi avaliar o desempenho da levedura em ambas as situações, para que fosse possível levar em consideração o custo-benefício do processo. Por meio dos resultados obtidos, percebe-se que os dois meios apresentaram valores relativamente iguais quanto à produção de biomassa. Os lipídios totais produzidos apresentaram valores muito diferentes, sendo gerado em maior quantidade no meio com agitação, 16,22%. Contudo, o objetivo do trabalho é produzir um lipídio com propriedades que forneçam condições ideais para a sua conversão em biodiesel. Dessa maneira, os lipídios polares não são interessantes, visto que apresentam solubilidade em água. Já os lipídios neutros se enquadram perfeitamente na proposta de trabalho. Assim sendo, quanto aos lipídios neutros, a levedura Yarrowia lipolytica (meio sem agitação) é a levedura ideal para a produção de biodiesel. CONCLUSÃO De acordo com os referenciais teóricos e com as pesquisas desenvolvidas, as leveduras apresentam potencial lipídico em sua biomassa, sendo que a espécie Yarrowia lipolytica (meio sem agitação) foi a levedura que mais produziu lipídios neutros. Contudo o meio deve ser ajustado para uma maior produção de biomassa e maior obtenção desses lipídios. A composição da biomassa e a síntese lipídica produzidas pelas leveduras podem ser melhoradas por meio dos estudos e adequações do meio de cultivo. 34 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 26-38, jul./dez. 2012. DELABIO, Aline da Silva; REMÉDIO, Raquel Ribeiro; CAZASSA, Sabrina; MONTEIRO, Regina Teresa Rossim; HARDER, Marcia Nalesso Costa Seleção de leveduras para a produção de lipídios como matéria-prima para biodiesel REFERÊNCIAS ABNT – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 9.648: Estudo de concepção de sistemas de esgoto sanitário. Rio de Janeiro: ABNT, 1986. AZANIA, A.A.P.M.. Influência de subprodutos da indústria alcooleira nos atributos químicos do solo e em plantas de cana-de-açúcar, guanxuma e capim-braquiária. Tese (Mestrado em Agronomia, área de concentração: Produção Vegetal). Apresentada à Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, UNESP, Campus de Jaboticabal, 2003. BLIGH, E.G., DYER, W.J. A rapid method of total lipid extraction and purification. Canadian, Journal Biochemical Physiology, v. 37, p. 911-917, 1959. BRUM, A. A. S., Métodos de extração e qualidade da fração lipídica, 2004, p.79. Tese (Mestrado em Ciências, na área de concentração: Ciência e Tecnologia de Alimentos) – Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” Universidade de São Paulo, 2004. CÓ JÚNIOR, C. Fertilização com lodo de esgoto e vinhaça e influência nas frações de nitrogênio do caldo e qualidade da cana-de-açúcar, 2007, p.82. Dissertação (Mestrado em agronomia na área de Produção Vegetal) Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, UNESP, Campus de Jaboticabal, 2007. COVOLAM, A. M.; SARTORI, S. B.; SOUZA, G.; POMPEU, G. B.; MONTEIRO, R. T. S. Biodegradação de bambu (Bambusa vulgaris) para obtenção de polpa celulósica e etanol. In: Simpósio Nacional de Biocombustíveis. 4. 2011, Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Maio 2011. FERREIRA, L. F. R., Biodegradação de vinhaça proveniente do processo industrial de cana-de-açúcar por fungos, 2009, p.135. Tese (Doutorado em Agronomia, na área de Microbiologia Agrícola) Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” Universidade de São Paulo, Piracicaba. 2009. FOLCH, J.; LEES, M.; STANLEY, G.H.S., A simple method for the isolation on the purification of total lipids from animal tissues. Journal of Biological Chemistry, v.226, n.1, p497-509, 1957. FONSECA, K., LIPIDIOS. Graduado em biologia. Equipe Brasil Escola. Disponível em: <http://www.brasilescola.com/biologia/lipidios.htm> Acesso em: 10 de junho de 2010. FRANÇA, R. G.; FIGUEIREDO, R. F.; CORAUCCI Fi., B. Remoção de Metais de Lodo de Esgoto por Biolixiviação. Engenharia Civil – UM, p. 10. Número 19, 2004. FRANCISCO, G. A., Biodegradação da vinhaça resíduo da produção de etanol, 2008, p. 47. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” Campus de Rio Claro, para obtenção do grau de Ecólogo, 2008. HAULY, M. C. de O.; OLIVEIRA, A. R. de; OLIVEIRA, A. S. Produção de ácido lático por Lactobacillus Curvatus em melaço de cana-de-açúcar. In: Seminário de Ciências Agrárias, jan./jun. 2003, Londrina, v. 24, p. 133-142, 2003. KRAWCZYK, T. International news on fats, oils and related materials. Champaign: American Oil Chemists Society Press, 801p, 1996. 35 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 26-38, jul./dez. 2012. DELABIO, Aline da Silva; REMÉDIO, Raquel Ribeiro; CAZASSA, Sabrina; MONTEIRO, Regina Teresa Rossim; HARDER, Marcia Nalesso Costa Seleção de leveduras para a produção de lipídios como matéria-prima para biodiesel LIESE, W. The anatomy of bamboo culms. Technical Report, International Network for Bamboo and Rattan, Beijing, Eindhoven, New Delhi, 1998, 208p. LIMA, U. A.; AQUARONE, E.; BORZANI, W. Biotecnologia: tecnologia das fermentações. São Paulo: Edgard Blücher, 1975. v. 4 LIMA, U. A.; SATO, S. Produção de lipídios por microrganismos. In: Biotecnologia Industrial. 2. Ed. São Paulo: Blucher, 2001. Cap. 16, pag. 447-463, 2001 MORAES, I. O.; CAPALBO, D. M. F.; MORAES, R. O. Multiplicação de agentes de controle biológico. In: BETTIOL, W. Controle biológico de doenças de plantas. Brasília: EMBRAPA, 1991. p. 253-272. OLIVEIRA, D.M. Biodegradação de biodiesel de origem animal, 2008, p.64. Dissertação (Mestrado em Microbiologia Aplicada) Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, campus de Rio Claro, 2008. PORTAL DE ESTUDOS EM QUÍMICA. A bioquímica das células. Disponível em: <http://www.profpc.com.br/> . Acesso em 25 de outubro de 2011. PORTAL DO BIODIESEL. Eco-Óleo. Disponível em: <http://www.biodieselecooleo.com.br/biodiesel/biodiesel.htm>. Acesso em 14 de junho de 2011. RATLEDGE, C. Microorganisms for lipids. In: MEESTERS, P. A.; HUIJBERTS, G. N. High-cell density cultivation of the lipid accumulating yeast Cryptococcus curvatus using glycerol as a carbon source. Applied Microbiology Biotechnology, v. 45, n. 5, p. 575-579, 1996. RUPCIC, J.; BLAGOVIC, B.; MARIC, V. Cell lipids of the Candida lipolytica yeast grown on methanol. Journal of Chromatography A., Amsterdam, v. 755, n. 1, p. 75-80, 1996. SILVA, O. F. Estudo sobre a substituição do aço liso pelo Bambusa Vulgaris, como reforço em vigas de concreto para o uso em construções rurais. 2007. 166p. Dissertação (Mestrado em Engenharia Civil) – Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2007. UNICA – União da Agroindústria Canavieira de São Paulo. Disponível em: <http://www.unica.com.br/>. Acesso em: 24 de setembro 2011. VICTORELLI, R. Seleção de leveduras produtoras de lipídios. Trabalho de Conclusão de Curso, 64p. Instituto de Biociências, Rio Claro, UNESP, 2008. VOLL, C. E., Aplicação de vinhaça e do extrato de palhiço de cana-de-açúcar no controle de plantas daninhas . Tese (Mestre em Agronomia, na área de concentração: Fitotecnia) Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” Universidade de São Paulo, Piracicaba, 2005. 36 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 26-38, jul./dez. 2012. DELABIO, Aline da Silva; REMÉDIO, Raquel Ribeiro; CAZASSA, Sabrina; MONTEIRO, Regina Teresa Rossim; HARDER, Marcia Nalesso Costa Seleção de leveduras para a produção de lipídios como matéria-prima para biodiesel 37 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 26-38, jul./dez. 2012. DELABIO, Aline da Silva; REMÉDIO, Raquel Ribeiro; CAZASSA, Sabrina; MONTEIRO, Regina Teresa Rossim; HARDER, Marcia Nalesso Costa Seleção de leveduras para a produção de lipídios como matéria-prima para biodiesel 1 Aline da Silva DELABIO é Tecnóloga em Biocombustíveis pela FATEC Piracicaba. E-mail [email protected] 2 Raquel Ribeiro REMÉDIO é Tecnóloga em Biocombustíveis pela FATEC Piracicaba. E-mail [email protected] 3 Sabrina CAZASSA é Tecnóloga em Biocombustíveis pela FATEC Piracicaba. E-mail [email protected] 4 Regina Teresa Rossim MONTEIRO é pesquisadora do CENA-USP. E-mail: [email protected] 5 Márcia Nalesso C. HARDER é doutora em Ciências (Centro de Energia Nuclear na Agricultura) pela Universidade de São Paulo (2009). Atualmente é coordenadora do curso de Tecnologia em Agroindústria da FATEC Piracicaba. Tem experiência na área de Ciência e Tecnologia de Alimentos, Aplicações Industriais de Radioisótopos, Biocombustíveis, atuando principalmente nos seguintes temas: biocombustíveis, bioetanol/açúcar, irradiação de alimentos, processamento e conservação de alimentos, plantas medicinais e alimentos funcionais, ecossustentabilidade. E-mail: [email protected] 38 Uso de equipamento portátil de Fluorescência de Raios X para análise de cana de açúcar MELQUIADES, Fábio Luiz BORTOLETO, Gisele G. NEME, Fernanda F. TON, Ariel MARCHIORI, Luis Fernando Sanglade MARETTI, Maria Izabel Resumo O objetivo deste estudo foi verificar a viabilidade do uso de fluorescência de raios X por dispersão em energia (EDXRF) com equipamento portátil para análise de cana de açúcar. Foram realizados experimentos diretamente no colmo das variedades e ainda com o caldo antes e depois de armazenamento sob refrigeração. O tempo de irradiação foi de 60 s e os espectros foram avaliados através da Análise de Componentes Principais (PCA). De forma geral, a metodologia proposta apresentou resultados promissores para o setor sucroalcooleiro na avaliação de parâmetros de qualidade da cana de açúcar, com irradiação direta do colmo da cana. Palavras chave: cana de açúcar, fluorescência de raios X, análise de componentes principais. Abstract The objective of this study was to verify the feasibility of using Energy Dispersive X-ray Fluorescence (EDXRF) with portable equipment for sugarcane analysis. Experiments were performed directly in the stem of the studied varieties, and also on the juice before and after freeze storage. Irradiation time was 60 s and the spectra were evaluated by Principal Component Analysis (PCA). Overall, the proposed methodology showed promising results for sugar and alcohol sector in the evaluation of quality parameters of sugarcane, with direct irradiation of the cane stem. Keywords: sugar cane, X-ray fluorescence, principal component analysis. 39 Resumen El objetivo de este estudio fue investigar la factibilidad de usar fluorescencia de rayos X por energía dispersiva (EDXRF) con un aparato portátil para el análisis de la caña de azúcar. Los experimentos se llevaron a cabo directamente sobre el tallo de las variedades y con el jugo antes y después del almacenamiento bajo refrigeración. El tiempo de irradiación fue de 60 s y los espectros fueron evaluados por el Análisis de Componentes Principales (PCA). En general, la metodología propuesta mostró resultados prometedores para la industria de la caña de azúcar en la evaluación de parámetros de calidad de la caña de azúcar, con la irradiación directa del tallo de la caña. Palabras clave: caña de azúcar, fluorescencia de rayos X, análisis de componentes principales. 40 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 39-55, jul./dez. 2012. MELQUIADES, Fábio Luiz; BORTOLETO, Gisele G.; NEME, Fernanda F.; TON, Ariel; MARCHIORI, Luis Fernando Sanglade; MARETTI, Maria Izabel Uso de equipamento portátil de Fluorescência de Raios X para análise de cana de açúcar INTRODUÇÃO A cana-de-açúcar (Saccharum spp.) é uma gramínea com capacidade de sintetizar açúcares, com destaque para a sacarose e com características relevantes que a situam como a planta comercial de maiores rendimentos em biomassa energética. É uma cultura bastante difundida no Brasil como recurso agrícola renovável na produção industrial de açúcar e biocombustível, além de fibra, fertilizantes e uma miríade de co-produtos com sustentabilidade ecológica (ITURRA, 2011). A maturação da cana-de-açúcar pode ser definida como o processo fisiológico que envolve a formação de açúcares nas folhas, seu deslocamento, armazenamento e concentração no colmo. Existem diferentes formas de determinação do ponto de maturação da cana-de-açúcar. A metodologia mais freqüentemente aplicada é utilizando um refratômetro de campo, complementado pela análise de laboratório. Com a adoção do sistema de pagamento pelo teor de sacarose, há necessidade de o produtor conciliar alta produtividade agrícola com elevado teor de sacarose na época da colheita. O refratômetro fornece diretamente a porcentagem de sólidos solúveis do caldo (Brix), o qual está estreitamente correlacionado com o teor de sacarose da cana. Métodos alternativos para análise do caldo da cana com vistas ao cálculo para pagamento dos fornecedores vêm sendo investigados e testados com a finalidade de aumentar a confiabilidade, uniformidade e também a precisão das medidas (SHREVE, 1980, LANE, 1993, JOHNSON, 2000, CONSECANA-PR, 2000). Atualmente, o Conselho dos Produtores de Canade-açúcar, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (CONSECANA-SP, 2006) regulamenta que o Brix, o Pol e o AR do caldo extraído podem ser determinados por espectroscopia no infravermelho próximo (NIR), após a definição de modelos de calibração, construídos com os resultados da metodologia padrão (CHANG, 1988, SALGO, 1998, TEWARI, 2003, LIMA, 2005, VALDERRAMA, 2007, SOROL, 2010). Contudo, a busca por métodos alternativos tem incentivado a pesquisa de novas técnicas e metodologias para análises mais rápidas e eficientes e menos custosas para o setor sucro-alcooleiro. A técnica de Fluorescência de Raios X (XRF) dispõe de um método bem estabelecido na área de pesquisas ambientais, sendo uma das técnicas de espectrometria atômica que podem ser adaptadas para uso em campo com equipamentos portáteis (IVANOVA, 1998, MELQUIADES, 2008). É uma técnica analítica multi-elementar, rápida, de baixo custo, de fácil operação e seus princípios físicos, vantagens e limitações são bem conhecidos (BERTIN, 1975, CESAREO, 2000). O objetivo deste estudo foi verificar a viabilidade do uso de fluorescência de raios X com equipamento portátil para análise de cana de açúcar. Os testes realizados visaram responder as seguintes questões: (a) A cana de açúcar pode ser analisada ainda plantada ou precisa ser cortada quando se pretende estimar a maturação da mesma? (b) No caso da análise do caldo, o mesmo pode ser congelado para analise posterior ou deve ser analisado logo após a prensagem da cana de açúcar? (c) É possível constatar diferenças de composição em relação à posição de irradiação 41 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 39-55, jul./dez. 2012. MELQUIADES, Fábio Luiz; BORTOLETO, Gisele G.; NEME, Fernanda F.; TON, Ariel; MARCHIORI, Luis Fernando Sanglade; MARETTI, Maria Izabel Uso de equipamento portátil de Fluorescência de Raios X para análise de cana de açúcar em um mesmo caule de cana de açúcar? (d) A XRF pode identificar diferenças entre caules, no caso de plantas com floração e sem floração? MATERIAIS E MÉTODOS Fluorescência de Raios X O fenômeno que antecede a XRF é o efeito fotoelétrico. Quando um átomo é submetido a um processo de irradiação utilizando-se de uma fonte de alta energia (tubos de raios X, indução por partícula, radioisótopos naturais, luz síncrotron, por exemplo), um elétron pode ser ejetado das camadas eletrônicas mais internas do átomo, chamado fotoelétron. Para estabilização deste estado de excitação, elétrons das camadas eletrônicas mais externas ocupam rapidamente as vacâncias geradas, liberando um raio X com a diferença de energia existente entre os dois níveis de energia. A radiação emitida para cada transição é característica para cada elemento presente na amostra e a quantidade destes raios X característicos é proporcional à concentração do elemento a ele relacionado (JENKINS, 1999). Porém, além do efeito fotoelétrico, efeitos de espalhamento do feixe incidente, conhecidos como espalhamentos Rayleigh, Compton e Raman de raios X, ocorrem simultaneamente. As intensidades relativas destes fenômenos dependem também da composição da matriz da amostra e aumentam proporcionalmente com o decréscimo da massa molar média da amostra. Portanto, amostras com grande quantidade de átomos leves apresentam espalhamento muito intenso. Variações muito tênues em espectros de amostras orgânicas podem ser avaliadas com o auxílio de análise multivariada e diversos trabalhos tem demonstrado sua eficácia na discriminação e quantificação de certas propriedades em amostras orgânicas utilizando-se espectros de XRF (VÁZQUEZ, 2002, BUENO, 2005, BORTOLETO, 2005, GORAIEB, 2007). Análise de Componentes Principais Métodos de análise multivariada ou quimiometria são empregados em análise de dados que requerem determinações simultâneas de diversas espécies em uma ou mais amostras. A análise exploratória não supervisionada baseada em métodos de reconhecimento de padrões visa evidenciar similaridades ou diferenças entre amostras de um determinado conjunto de dados (SILVA, 2002). A análise de componentes principais (PCA) é a base principal de diversos métodos de análise multivariada e seu grande objetivo é comprimir a quantidade de informação de um conjunto de dados iniciais para um novo sistema de eixos, denominados Componentes Principais (PC). Estas PCs representam as amostras, possibilitando visualizar características multivariadas dos dados em poucas dimensões, através de uma projeção de dados sobre um 42 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 39-55, jul./dez. 2012. MELQUIADES, Fábio Luiz; BORTOLETO, Gisele G.; NEME, Fernanda F.; TON, Ariel; MARCHIORI, Luis Fernando Sanglade; MARETTI, Maria Izabel Uso de equipamento portátil de Fluorescência de Raios X para análise de cana de açúcar subespaço dimensional menor, maximizando a variância, sem perda de informação relevante. A primeira componente principal, PC1, é a combinação linear de máxima variância (isto é, de máxima informação) das variáveis originais, ou seja, os auto vetores, num determinado eixo. A segunda componente, PC2, de segunda maior variância, é ortogonal a PC1, isto é, não correlacionada a ela, e assim por diante. Como esses eixos são calculados em ordem decrescente de importância, a informação relevante fica concentrada nas primeiras PCs, que podem ser então confrontadas com padrões de características conhecidas das amostras em avaliação (WOLD, 1997, SILVA, 2002, NETO, 2006). Amostragem As amostras de cana-de-açúcar foram obtidas na Fazenda Areão da ESALQ-USP. As análises dos parâmetros de qualidade da cana de açúcar pelo método convencional foram realizadas na FATEC Piracicaba - Centro Paulo Souza – SP, seguindo as normas do CONSECANA (Conselho dos Produtores de Cana-de-Açúcar ). Foram realizadas medidas em caules antes de cortar, ou seja, com a cana ainda no campo (in vivo) e depois de cortados os caules. As irradiações com o equipamento portátil de EDXRF foram feitas no colmo da região central. O mesmo colmo foi medido depois de cortar a cana de açúcar. Neste caso foram avaliadas as variedades: Saccharum officinarum (sac),SP 803280 (SP 80), IACSP95 5000 (iac95), RB 835486 (rb86), SP 711406 (sp06). Os termos entre parênteses se referem-se aos código utilizado nos gráficos ao longo do texto. Para verificar se existe diferença significativa nos espectros quando da análise do caldo, foram feitas medidas logo após sua prensagem e depois de armazenagem sob refrigeração e descongelamento dos mesmos. As variedades estudadas foram: SP 8642 (Sp 42), RB835089 (Rb 89), SP 813250 (sp 50) e SP 701143 (sp 43) Visto que uma das variedades estudadas apresentava caules com floração, foram retirados três caules da amostra SP 813250, um deles com floração na ponta. O intuito foi verificar se a diminuição do teor de sacarose no caule com floração é identificada por XRF. Por fim, em um dos caules de Saccharum officinarum, foram realizadas medidas nos três primeiros colmos, nos três colmos centrais e nos três últimos colmos, visando verificar variações nestas distintas regiões de um mesmo caule. Realizadas as medidas por EDXRF, os caules foram triturados e prensados para obtenção da fibra e do caldo para as análises laboratoriais dos parâmetros de qualidade da cana. O caldo foi congelado e posteriormente analisado por EDXRF, acondicionado em celas com filme de politeraftalato de etileno específicas para uso com XRF. 43 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 39-55, jul./dez. 2012. MELQUIADES, Fábio Luiz; BORTOLETO, Gisele G.; NEME, Fernanda F.; TON, Ariel; MARCHIORI, Luis Fernando Sanglade; MARETTI, Maria Izabel Uso de equipamento portátil de Fluorescência de Raios X para análise de cana de açúcar Instrumentação As medidas foram realizadas com um equipamento portátil de EDXRF, InnovX system, modelo AlphaCam, com tubo de raios X de Ta (Tântalo) e detector de diodo de SiPIN, resfriado por sistema Peltier. As condições de medida foram avaliadas e optou-se por usar 20 kV, 20 µA, filtro de Al de 100 µm no tubo de raios X e 60 s de medida para todas as amostras. RESULTADOS E DISCUSSÃO Medidas de caules no campo e depois de cortados Foram medidos 5 caules de diferentes variedades de cana de açúcar em campo, antes de cortar os caules. As mesmas amostras foram então submetidas ao corte e medidas por EDXRF, até 5 horas após o corte. (Figura 1). Os espectros de uma seqüência de medidas são apresentados na Figura 2, para alguns intervalos de tempo. Figura1: Foto das medidas no campo antes e depois de cortadas. 44 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 39-55, jul./dez. 2012. MELQUIADES, Fábio Luiz; BORTOLETO, Gisele G.; NEME, Fernanda F.; TON, Ariel; MARCHIORI, Luis Fernando Sanglade; MARETTI, Maria Izabel Uso de equipamento portátil de Fluorescência de Raios X para análise de cana de açúcar Figura 2: Espectros do colmo da cana de açúcar nos diferentes tempos de irradiação após o corte. O gráfico de scores e loadings para a amostra SP 803280 é apresentado na Figura 3, com a PC1 explicando 59,23% da variância dos dados e a PC2, 10,09%. Nesta figura, o gráfico de scores mostra que não existe diferença significativa entre as medidas, visto que a distância entre os pontos está relacionada com a variabilidade do equipamento na obtenção dos espectros. O gráfico de loadings mostra que o ferro influenciou a disposição destas amostras; contudo, a maioria dos pontos se distribui em torno da região central, indicando homogeneidade das amostras avaliadas. A Figura 4 apresenta os gráficos de scores para as demais amostras, mostrando que em todos os casos foi constatado que a medida do caule no campo é equivalente à medida do caule cortado. Os gráficos de loadings não foram apresentados, pois sua disposição é semelhante à Figura 3 para todas as amostras avaliadas. 45 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 39-55, jul./dez. 2012. MELQUIADES, Fábio Luiz; BORTOLETO, Gisele G.; NEME, Fernanda F.; TON, Ariel; MARCHIORI, Luis Fernando Sanglade; MARETTI, Maria Izabel Uso de equipamento portátil de Fluorescência de Raios X para análise de cana de açúcar Samples/Scores Plot Variables/Loadings Plot 0.15 Fe 0.1 50 Loadings on PC 2 (10.09%) Scores on PC 2 (10.09%) 100 sp80-2b sp80-1b 0 sp80-1a sp80-1c sp80-2c sp 803280 et 1 vivo sp80-2a -50 -100 0.05 0 -0.05 -0.1 6.41909 9.37379 6.43879 6.37969 6.3403 15.3423 9.09802 9.295 7.97523 6.45849 10.5951 11.7179 6.497888.42829 13.5301 6.3206 9.35409 14.9089 8.2904 12.8603 15.6181 9.11772 6.53728 18.0409 14.8498 6.51758 15.6772 7.10852 17.6273 15.77569.2753 18.7894 12.3285 9.41319 17.2727 6.26151 10.4178 16.0908 19.8531 18.4743 11.5209 16.4257 19.9516 18.1394 9.51168 14.3968 10.2208 19.9713 16.4454 10.9693 17.4894 9.78745 9.17681 19.6364 7.87674 17.8242 15.9135 9.3147 5.90694 13.6877 18.5137 17.2924 14.7316 15.2832 18.7303 12.8406 18.117.3909 16.6621 8.56617 16.7014 13.0967 11.2648 14.8301 9.21621 15.4014 14.7907 9.15711 13.8846 16.1499 13.1755 16.3272 11.1072 12.5649 Espalhamento -0.15 -300 -200 -100 0 100 Scores on PC 1 (59.23%) 200 -0.2 -0.2 300 -0.15 -0.1 Decluttered -0.05 0 0.05 0.1 Loadings on PC 1 (59.23%) 0.15 0.2 Figura 3: Gráfico de scores e loadingns da amostra SP 803280 das medidas no colmo, mostrando a equivalência entre as medidas antes e depois do corte. (▼) medida em campo com cana plantada (in vivo), (●) medida em campo após o corte. Samples/Scores Plot Samples/Scores Plot of rb86T 150 100 iac95-5000 vivo 50 iac95-2c iac95-1c 0 -50 iac95-1b 50 Scores on PC 2 (7.32%) Scores on PC 2 (22.02% ) 100 iac95-2b iac95-2a rb86-2b rb86-1c rb 835486 et 1 vivo rb86-1b 0 rb86-2a rb86-1a rb86-2c -50 -100 -150 -100 -250 -200 -150 Decluttered -100 -50 0 50 100 Scores on PC 1 (37.57%) 150 200 250 -400 -300 -200 150 100 100 50 sac ofic-vivoa sac ofic-vivob sac ofic-1b sac ofic-1c 0 sac ofic-2a sac ofic-2c -50 sac ofic-2b -150 -50 0 50 Scores on PC 1 (35.33%) 100 150 sp06-2a sp06-2b sp06-1a sp06-1b sp06-1c sp06-2c -50 -150 -100 400 sp1406 vivo 0 -100 -150 300 50 -100 -200 200 Samples/Scores Plot of sp06T 150 Scores on PC 2 (13.73%) S c ores on P C 2 (22.33% ) Samples/Scores Plot of SAc1T -100 0 100 Scores on PC 1 (69.21%) -300 200 46 -200 -100 0 100 Scores on PC 1 (56.15%) 200 300 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 39-55, jul./dez. 2012. MELQUIADES, Fábio Luiz; BORTOLETO, Gisele G.; NEME, Fernanda F.; TON, Ariel; MARCHIORI, Luis Fernando Sanglade; MARETTI, Maria Izabel Uso de equipamento portátil de Fluorescência de Raios X para análise de cana de açúcar Figura 4: Gráfico de scores de 4 variedades de cana de açúcar medidas no colmo. (▼) medida em campo com cana plantada (in vivo), (●) medida em campo até 5 horas após o corte. Análise do caldo em campo e em laboratório após descongelamento A diminuição da temperatura do produto vegetal, durante o processamento e armazenamento, é fundamental para reduzir a respiração, a produção de etileno e a transpiração, ou seja, as deteriorações fisiológicas, bem como colabora para a diminuição da microbiota. Apesar do uso da refrigeração ser indispensável, para cada tipo de produto, existe a faixa de temperatura adequada para conservação e prolongamento da vida útil do produto (WILEY, 1997). Andrade et al. 2008 avaliaram o congelamento dos caules minimamente processados como forma de conservação da cana e verificaram que os resultados foram positivos. No caso deste estudo, avaliando os resultados mostrados na Figura 5, percebe-se que não há diferença significativa entre as medidas feitas logo após a prensagem e com o caldo armazenado sob congelamento a -20oC e analisado posteriormente. Esta afirmação baseia-se na disposição dos pontos, ou seja, na distancia entre eles e o eixo de origem. Adicionalmente, o gráfico de loadings (Figura 6) apresenta as variáveis em torno do ponto central, confirmando a homogeneidade das medidas. Este comportamento se repetiu para todas as variedades. Samples/Scores Plot of rb89T 200 150 150 100 100 S c o re s on P C 2 (2 5.56% ) S c ores on P C 2 (25.19% ) Samples/Scores Plot of sp42T 200 Sp42-1b 50 Sp42-2a 0 Sp42-1a -50 sp42-1campo Sp42-2b -100 -150 50 Rb89-2a Rb89-2b Rb89-1a 0 -50 rb89-2campo -100 -150 -200 -200 -200 -150 -100 -50 0 50 100 Scores on PC 1 (28.27%) 150 200 -200 47 -150 -100 -50 0 50 100 Scores on PC 1 (27.62%) 150 200 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 39-55, jul./dez. 2012. MELQUIADES, Fábio Luiz; BORTOLETO, Gisele G.; NEME, Fernanda F.; TON, Ariel; MARCHIORI, Luis Fernando Sanglade; MARETTI, Maria Izabel Uso de equipamento portátil de Fluorescência de Raios X para análise de cana de açúcar Samples/Scores Plot Samples/Scores Plot of sp50T 200 200 150 100 50 S c o re s o n P C 2 (2 6 .0 7 % ) S c ores o n P C 2 (21 .0 2% ) 150 sp50-2campo Sp50-1b Sp50-2b Sp50-1a 0 -50 Sp50-2a 100 50 0 -100 -150 -150 -200 -200 -200 -100 0 100 Scores on PC 1 (41.03%) 200 Sp43-2b -200 300 sp43-1campo Sp43-2a -50 -100 -300 Sp43-1a Sp43-1b -150 -100 -50 0 50 100 Scores on PC 1 (28.10%) 150 200 Figura 5: Gráfico de scores de 4 variedades de caldo de cana, mostrando a equivalência entre as medidas realizadas logo após a prensagem (▼) e após armazenamento em freezer e descongelamento para análise (●). Variables/Loadings Plot for sp42T 0.2 9.03967 9.19721 Loadings on PC 2 (25.19%) 0.15 14.0414 9.55167 12.4464 11.1073 12.2692 10.9104 9.37444 14.9079 9.43351 9.15783 12.7615 13.7461 14.3762 13.8051 8.90183 17.1331 15.4396 14.2974 8.13384 11.5406 14.9867 13.0765 17.1528 7.996 7.89754 14.2187 16.4636 14.4353 16.3454 12.8599 8.1141515.6168 16.8377 9.23659 16.562 17.3103 15.794 17.4088 18.1571 10.6544 9.57136 17.6451 17.2709 18.4721 11.2846 15.9713 16.5423 16.818 17.9208 11.4618 19.634 13.3916 18.7281 12.3479 13.4901 18.9054 10.7923 19.8309 15.6562 17.6254 16.6014 16.6408 17.7829 19.9687 18.3146 16.6999 18.2161 19.0629 19.693 19.2598 15.02610.5953 16.6802 15.0457 18.6691 15.0851 18.0586 19.220418.2752 15.2427 18.9251 17.6845 15.3608 13.7264 8.232312.4858 8.15353 16.3848 17.3497 16.9755 16.6605 8.88214 17.5663 7.66123 15.9319 11.12715.1245 9.2169 10.7726 16.2469 16.3257 10.9892 16.7392 12.4267 8.27169 9.27598 14.7897 13.3719 15.1639 9.45321 13.8445 0.1 0.05 0 -0.05 -0.1 9.33505 -0.15 Decluttered -0.15 -0.1 -0.05 0 0.05 0.1 Loadings on PC 1 (28.27%) 0.15 0.2 0.25 Figura 6: Gráfico de loadings da amostra SP 8642, exemplificando a disposição das variáveis. 48 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 39-55, jul./dez. 2012. MELQUIADES, Fábio Luiz; BORTOLETO, Gisele G.; NEME, Fernanda F.; TON, Ariel; MARCHIORI, Luis Fernando Sanglade; MARETTI, Maria Izabel Uso de equipamento portátil de Fluorescência de Raios X para análise de cana de açúcar Medidas em três regiões diferentes do mesmo caule de Saccharum officinarum A maturação da cana de açúcar ocorre da base para o ápice do colmo. A cana imatura apresenta valores bastante distintos nesses seguimentos, os quais vão se aproximando no processo de maturação. Assim, o critério mais racional de estimar a maturação pelo refratômetro de campo é pelo índice de maturação (IM), que fornece o quociente da relação entre o Brix da ponta do colmo e o Brix da base do colmo. Foram feitas medidas em colmos de 3 regiões de um mesmo caule: próximo da raiz, na região central e no topo, totalizando 12 espectros. A análise de PCA com os valores médios de cada região estão na Figura 7, mostrando que a XRF não foi capaz de identificar diferenças entre os distintos pontos do caule na época estudada, devendo ser repetida para início de safra quando os valores podem estar com maior amplitude. Contudo, pode ser notada uma tênue tendência a um maior teor de ferro nos colmos mais próximas da raiz. A explicação para isso é a migração de ferro do solo para a planta (MALAVOLTA, 2006). Samples/Scores Plot Variables/Loadings Plot 200 0.2 150 9.4126 Loadings on PC 2 (28.83%) Scores on PC 2 (28.83%) 0.15 9.07784 100 50 meio 0 topo meio raiz -50 -100 15.655 8.01447 14.5128 17.1516 7.95539 9.15661 15.2217 10.5547 16.3245 7.87663 10.6335 13.7448 15.7337 13.4101 3.32778 15.97 11.9529 17.3879 3.268715.7928 14.631 16.8956 14.7098 15.399 12.484611.5393 10.535 15.8519 17.1122 13.0753 13.33139.19599 17.5257 18.7072 14.3159 17.8999 9.33383 16.3048 19.0223 3.3474710.6532 18.037715.6747 17.4666 16.482 17.5454 19.7706 18.53 15.0051 14.6704 8.09324 17.821112.4452 14.3553 19.9084 17.9983 17.328814.5325 19.9675 18.1362 18.7269 13.0359 14.296219.3571 16.738 9.43229 18.018 19.0617 19.0814 9.13692 14.4538 9.64891 18.5103 3.74131 17.2894 11.322710.1806 12.8587 6.51788 16.7577 17.60456.28158 9.09753 13.351 16.679 12.9769 13.8827 6.4785 16.0685 11.756 9.39291 6.30127 6.43911 6.39973 9.05815 6.4588 6.41942 6.38003 6.36034 0.1 0.05 0 Fe -0.05 -150 -0.1 -200 -250 -200 -150 -100 -50 0 50 100 Scores on PC 1 (48.49%) 150 200 -0.15 250 Decluttered -0.15 -0.1 -0.05 0 0.05 0.1 0.15 Loadings on PC 1 (48.49%) 0.2 0.25 Figura 7: Gráficos de scores e loadings da raiz (▼), meio (●) e topo (*) de um caule de Saccharum officinarum, coletado em setembro de 2011. 49 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 39-55, jul./dez. 2012. MELQUIADES, Fábio Luiz; BORTOLETO, Gisele G.; NEME, Fernanda F.; TON, Ariel; MARCHIORI, Luis Fernando Sanglade; MARETTI, Maria Izabel Uso de equipamento portátil de Fluorescência de Raios X para análise de cana de açúcar Amostra com floração Um problema que ainda não foi totalmente resolvido nas plantações de cana de açúcar é o florescimento, que apresenta, basicamente, os seguintes prejuízos : (i) no florescimento, o crescimento vegetativo do colmo é paralisado, com evidente perda do rendimento de áçucar; (ii) os colmos florescidos diminuem seu rendimento em açúcar, devido à formação da folha bandeira ou flecha; (iii) completado seu ciclo vital, o colmo florescido entra em senescência, permitindo brotações das gemas laterais; (iv) os prejuízos do florescimento são maiores, quando o colmo ainda se encontra em fase de crescimento; (v) colmos florescidos não podem ser armazenados no campo por muitos meses (RODRIGUES, 1995). O florescimento tem sido encarado como prejudicial no processo de acúmulo de sacarose, pois é comumente aceito que a formação da flor drena considerável quantidade de sacarose. Outro aspecto refere-se ao fenômeno do chochamento ou “isoporização”, relacionado com o florescimento e maturação da cana, o qual ocorre em algumas variedades e caracteriza-se pelo secamento do interior do colmo, a partir da parte superior. A intensidade do processo de florescimento e as conseqüências na qualidade da matéria-prima variam com a variedade e com o clima. A redução do volume de caldo é o principal fator no qual o florescimento interfere (SALATA , 1977, CAPUTO, 2007). Foi realizado um PCA com 3 caules da amostra SP813250, totalizando 9 espectros (medidas em triplicata em cada caule). Os dados dos parâmetros de qualidade destas amostras (Tabela 1) e os gráficos de scores (Figura 8) mostram que a amostra com floração se agrupou com a amostra 1, enquanto a amostra 2 se diferenciou das demais. Neste caso, a XRF não apresentou diferença significativa entre as amostras. Tabela 1: Parâmetros de qualidade da amostra SP 813250. As amostras 1 e 2 são duplicatas e a amostra 3 refere-se a um caule com floração. Amostra PBU (g) % Umidade % Sacarose % Brix TC SP 813250 1 135±5 31.2±0.1 23.09±0.01 23.5±0.1 SP 813250 2 140±5 23.4±0.1 23.54±0.01 24.4±0.1 SP 813250 3 145±5 33.0±0.1 22.78±0.01 23.4±0.1 50 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 39-55, jul./dez. 2012. MELQUIADES, Fábio Luiz; BORTOLETO, Gisele G.; NEME, Fernanda F.; TON, Ariel; MARCHIORI, Luis Fernando Sanglade; MARETTI, Maria Izabel Uso de equipamento portátil de Fluorescência de Raios X para análise de cana de açúcar Variables/Loadings Plot for sp50T Samples/Scores Plot of sp50T 0.25 100 0.2 3.34837 Loadings on P C 2 (16.20% ) Scores on PC 2 (16.20%) 50 sp50-2a sp50-1b sp50-1c sp50-3a sp50-3c sp50-2b 0 sp50-3b -50 sp50-1a 0.15 0.05 0 -0.05 -0.1 -100 -50 0 50 Scores on PC 1 (30.82%) 100 150 Espalhamento 8.15492 3.40746 13.0009 7.99733 3.42716 9.57325 3.21047 3.23017 13.1979 14.5177 15.8178 3.1907715.0496 14.3404 3.44686 15.5617 17.0786 8.17462 16.527 14.6556 3.4665617.4135 14.8329 17.1574 18.2408 15.2466 9.39596 3.48626 17.3938 17.6104 13.8676 17.2362 9.08077 16.0739 18.6939 8.608 14.4783 17.5119 9.33686 14.97089.23837 13.71 18.5954 17.2165 16.724 12.1144 18.2605 19.7773 15.6405 16.8816 9.41566 14.9117 19.954617.5316 12.4887 19.9743 16.4482 9.43536 19.1273 14.3798 12.3902 14.0252 17.1771 13.76919.31716 18.4772 15.6011 18.6545 16.6255 8.86409 16.4088 15.30579.19897 9.10047 11.4644 15.207213.9858 14.0843 11.0901 11.0113 9.75054 0.1 -100 -150 Fe 3.26957 3.32867 3.38776 3.36806 sp50-2c -0.2 -0.15 -0.1 Decluttered -0.05 0 0.05 0.1 Loadings on PC 1 (30.82% ) 0.15 0.2 Variables/Loadings Plot for sp50T Samples/Scores Plot of sp50T 0.15 9.04138 9.27776 11.3265 12.469 9.218677.93823 6.44111 8.03673 15.5026 6.46081 15.6996 9.08077 13.4146 8.92318 13.5721 14.301 16.4679 16.0542 9.39596 3.32867 16.4482 18.1226 18.0044 14.3404 11.0113 3.26957 17.768 9.33686 9.31716 17.2165 14.3207 17.2362 3.34837 15.8178 9.19897 18.9517.1771 3.36806 18.3787 15.6405 3.46656 19.8364 16.8225 3.44686 13.4343 3.308973.38776 13.5524 19.9546 17.6104 3.40746 17.5907 13.7691 15.6011 18.4378 19.9743 3.15138 17.5316 9.43536 19.5606 17.9453 13.9661 3.17107 11.9962 12.2326 18.8712 18.7727 14.8329 11.7007 18.1423 15.4042 13.0009 8.15492 17.9847 15.7981 15.2663 15.3057 9.35656 7.64275 16.5664 14.1828 9.41566 14.9117 15.8572 17.4331 14.0843 7.97763 15.739 15.2466 9.55355 9.23837 14.1237 7.95793 100 K 0.1 80 Loadings on PC 3 (11.28% ) Scores on PC 3 (11.28%) 60 40 20 sp50-2a sp50-1c sp50-3c sp50-1a sp50-2c sp50-3a 0 sp50-2b sp50-3b -20 -40 -60 sp50-1b 0.05 0 -0.05 -0.1 Espalhamento -0.15 -80 -100 -0.2 -150 -100 -50 0 50 Scores on PC 1 (30.82%) 100 150 Decluttered -0.2 -0.15 -0.1 -0.05 0 0.05 Loadings on PC 1 (30.82%) 0.1 0.15 0.2 Figura 8: Gráfico de scores comparando a amostra SP813250 sem floração e com floração no caule. CONCLUSÕES A análise de PCA mostrou que não existe diferença significativa entre as medidas de XRF de caule no campo e até 5 horas após o corte. Sendo assim, esta metodologia tem potencial para previsão do índice de maturação da cana de açúcar sem retirada da planta, ou análise direta do colmo quando da chegada do mesmo nas refinarias. Não há distinção entre as medidas feitas logo após a prensagem e com o caldo armazenado sob congelamento a -20oC e analisado posteriormente, o que evidencia uma baixa atividade da invertase sob baixas temperaturas. A análise de PCA com as medidas em colmos próximos da raiz, no meio e no topo de um caule de cana de açúcar não foi capaz de identificar diferenças entre os pontos de um mesmo caule na época estudada, indicando a possibilidade de se realizar a medida em qualquer colmo. 51 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 39-55, jul./dez. 2012. MELQUIADES, Fábio Luiz; BORTOLETO, Gisele G.; NEME, Fernanda F.; TON, Ariel; MARCHIORI, Luis Fernando Sanglade; MARETTI, Maria Izabel Uso de equipamento portátil de Fluorescência de Raios X para análise de cana de açúcar A XRF não identificou diferença significativa entre as amostras com e sem floração desta forma a metodologia não tem sensibilidade suficiente para descriminar diferenças nos teores de sacarose para este caso. . De forma geral, a metodologia analítica de Fluorescência de Raios X com equipamento portátil apresentou resultados promissores para avaliação de parâmetros de qualidade da cana de açúcar, colocando-se como uma técnica alternativa para o setor sucroalcooleiro. Agradecimentos À FAPESP (projeto 2011_05860-2) e ao CNPq pelo apoio financeiro. REFERÊNCIAS ANDRADE S.R.R., PORTO E., SPOTO M.H.F. Avaliação da qualidade do caldo extraído de toletes de cana-de-açúcar minimamente processada, armazenados sob diferentes temperaturas. Ciênc. Tecnol. Aliment., 28(Supl.): 51-55, dez. 2008. BERTIN, E. P. Principles and practice of X-ray spectrometric analysis. London: Plenum Press, 1975. 1079 p. BORTOLETO G.G, PATACA L.C.M., BUENO M.I.M.S., A new application of X-ray scattering using principal component analysis – classification of vegetable oils. Anal. Chim. Acta, v. 539, p. 283-287, 2005. BUENO MIMS ; CASTRO, M. T. P. ; SOUZA, A.M.; OLIVEIRA, E.B.S.; TEIXEIRA, A.P. Xray scattering processes and chemometrics for differentiating complex samples using conventional EDXRF equipment. Chemom. Intell. Lab. Syst., v. 78, p. 96-102, 2005. CAPUTO M.M. et. al.., Acúmulo De Sacarose, Produtividade E Florescimento De Cana-DeAçúcar Sob Reguladores Vegetais. Interciencia v. 32, p. 834-870, 2007. CESAREO, R. X-ray physics: Interaction with matter, production, detection. La Revista des Nuovo Cimento della Società Italiana di Fisica, Editrice Compositori, Bologna, v. 23, n.76, p. 1-231, 2000. CHANG W.H., Chen S., Tsai C.C. Development of a universal algorithm for uso NIR. in estimation of soluble solids in fruit juices. Trans. ASAE v. 41 p.1739–1745, 1988. 52 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 39-55, jul./dez. 2012. MELQUIADES, Fábio Luiz; BORTOLETO, Gisele G.; NEME, Fernanda F.; TON, Ariel; MARCHIORI, Luis Fernando Sanglade; MARETTI, Maria Izabel Uso de equipamento portátil de Fluorescência de Raios X para análise de cana de açúcar CONSELHO DOS PRODUTORES DE CANA-DE-AÇÚCAR, AÇÚCAR E ÁLCOOL DO ESTADO DO PARANÁ, CONSECANA-PR. Normas operacionais de avaliação da qualidade da canade-açúcar. 1. ed. Curitiba: FAEP, 2000. CONSELHO DOS PRODUTORES DE CANA-DE-AÇÚCAR, AÇÚCAR E ÁLCOOL DO ESTADO DE SÃO PAULO, CONSECANA-SP. Manual de Instruções / Edição /, PiracicabaSP, 2006. 112 p. GORAIEB, K., ALEXANDRE T.L., BUENO M.I.M.S., X-ray spectrometry and chemometrics in sugar classification, correlation with degree of sweetness and specific rotation of polarized light. Anal. Chim. Acta , v.595, p. 170–175, 2007. ITURRA, A. R.; SILVA, F. C.; DIAZ-AMBRONA, C. G. H. Análisis de evolución de la producción de caña de azúcar y de etanol en Brasil. Bioenergia em revista: diálogos, v. 1, n. 2, p.31-50, jul./dez. 2011. IVANOVA, J. U.; DJINGOVA, R.; KULEFF, I. Determination of some heavy and toxic elements in plants and soils with ED-XRF using 241Am excitation sources. Journal of Radioanalytical and Nuclear Chemistry, Lousanne, v. 28, n. 1/2, p. 29-32, 1998. JENKINS R., X-ray Fluorescence Spectrometry, 2nd ed., Wiley-Interscience, New York, 1999. JOHNSON, T. P. Cane juice analysis by near infrared (NIR) to determine grower payment, International Sugar Journal. 2000, 102, 1223, 603-609. LANE, H.; EYNON, L. Determination of reducing sugar by means of Fehling’s solution with methylene blue as internal indicator. Journal of the Society of Chemistry Industry. v. 42, p. 32T-37T, 1993. LIMA S.L.T., MELLO C., POPPI R.J. PLS pruning: a new approach to variable selection for multivariate calibration based on Hessian matrix of errors. Chemometr. Intell. Lab. Syst. v.76, p73– 78, 2005. MALAVOLTA E., Manual de nutrição mineral de plantas, Agronômica Ceres, São Paulo, 2006. MELQUIADES F.L. et al. Monitoramento de metais nos lagos igapó em Londrina, PR, usando a metodologia de EDXRF. Semina: Ciências Exatas e Tecnológicas, v. 29, n. 2, p. 129-138, jul./dez. 2008. 53 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 39-55, jul./dez. 2012. MELQUIADES, Fábio Luiz; BORTOLETO, Gisele G.; NEME, Fernanda F.; TON, Ariel; MARCHIORI, Luis Fernando Sanglade; MARETTI, Maria Izabel Uso de equipamento portátil de Fluorescência de Raios X para análise de cana de açúcar NETO, B.B.; SCARMINIO, I.S.; BRUNS, R.E. 25 anos de quimiometria no Brasil. Química Nova, v. 29, n. 6, p. 1401-1406, 2006. RODRIGUES, J.D. Fisiologia da cana-de-açúcar. Botucatu: Instituto de Biociências – Universidade Estadual Paulista, 1995. 99p. (Apostila) SALATA JC, FERREIRA LJ (1977) Estudo da interferência do florescimento nas qualidades agroindustriais de algumas variedades de cana-deaçúcar. Brasil Açuc. v. 88, p. 19-24, 1977. SALGO A., NAGY J., MIKÓ É. Application of near infrared spectroscopy in the sugar industry. J. Near Infrared Spectrosc. v. 6, p;A101–106, 1998. SHREVE, R. N.; BRINK Jr, J. A. Indústria de processos químicos. Rio de Janeiro: Guanabara Dois, 1980. SILVA, F.V. et al. A discriminação geográfica de águas minerais do Estado de São Paulo através da análise exploratória. Eclética Química, v. 27, p. 91-102, 2002. SOROL N. et al. Visible/near infrared-partial least-squares analysis of Brix in sugar cane juice A test field for variable selection methods. Chemometr. Intell. Lab. Syst. v. 102, p. 100–109, 2010. TEWARI J., MEHROTRA R., IRUDAYARAJ J. Direct near infrared analysis of sugar cane clear juice using a fibre-optic transmittance probe. J. Near Infrared Spectrosc. v. 11, p. 351–356, 2003. VALDERRAMA P., BRAGA J.W.B., POPPI R.J. Validation of multivariate calibration models in the determination of sugar cane quality parameters by near infrared spectroscopy. J. Braz. Chem. Soc. v.18, p. 259–266, 2007. VALDERRAMA P., BRAGA J.W.B., POPPI R.J. Variable Selection, Outlier Detection, and Figures of Merit Estimation in a Partial Least-Squares Regression Multivariate Calibration Model. A Case Study for the Determination of Quality Parameters in the Alcohol Industry by NearInfrared Spectroscopy. Agric. Food Chem. v. 55, p 8331–8338, 2007. VÁZQUEZ C., BOCYKENS S., BONADCO H., Talanta, 2002, 57,1113 WILEY, R. C. Frutas y hortalizas minimamente processadas y refrigeradas. Zaragoza: Acribia, 1997. 362 p. WOLD, S.; ESBENSEN, K.; GELADI, P. Principal component analysis. Chemometrics and Intelligent Laboratory Systems, v. 2, p. 37-52, 1987. 54 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 39-55, jul./dez. 2012. MELQUIADES, Fábio Luiz; BORTOLETO, Gisele G.; NEME, Fernanda F.; TON, Ariel; MARCHIORI, Luis Fernando Sanglade; MARETTI, Maria Izabel Uso de equipamento portátil de Fluorescência de Raios X para análise de cana de açúcar 1 Fábio Luiz MELQUIADES é doutor em Física pela Universidade Estadual de Londrina (2007), Pós-doutorado no Instituto de Química da UNICAMP (2012). Desde 2000 é professor do Departamento de Física da Universidade Estadual do Centro-Oeste. Tem experiência na área de Física Nuclear Aplicada e Métodos não destrutivos de análise, atuando principalmente nos seguintes temas: espectrometria de raios gama e fluorescência de raios X, com ênfase em amostras ambientais. 2 Gisele G. BORTOLETO é Doutora em Ciências pelo IQ-UNICAMP (2007). Realizou pósdoutoramento no Centro de Energia Nuclear na Agricultura CENA-USP (2007-2008). Atualmente é professora e coordenadora do curso Biocombustíveis da Faculdade de Tecnologia de Piracicaba – Centro Paula Souza, atuando nas seguintes áreas: controle analítico da produção de bioetanol, biodiesel e cachaça. 3. Fernanda F. NEME é Tecnóloga em Biocombustíveis pela FATEC Piracicaba. 4 Ariel TON é Tecnólogo em Biocombustíveis pela FATEC Piracicaba. 5 Luis Fernando S. MARCHIORI é engenheiro agrônomo. Doutor em Agronomia, área de concentração Fitotecnia pela Universidade de São Paulo (2004). Atualmente é Diretor Técnico da Estação Experimental Fazenda Areão da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Agronomia, com ênfase em Manejo e Tratos Culturais. 5 Maria Izabel MARETTI é doutora em Ciências (1990) e livre-docente (2005). Todos estes títulos foram conferidos pela Universidade Estadual de Campinas, onde, desde 1984, é professora atuante em tempo integral. Atua principalmente nos seguintes temas: espectrometria de raios-X e quimiometria. 55 Efeito de baixas doses de radiação gama em sementes de pinhão manso (Jatropha curca L) VICENTINI, Mariane ARTHUR, Valter HARDER, Marcia Nalesso Costa Resumo Com o aumento do consumo de energia e de combustíveis no mundo, os biocombustíveis entram como uma ótima alternativa de, principalmente porque o petróleo, que é uma fonte limitada é a utilizada no mundo. O Etanol é um biocombustível muito utilizado, principalmente no Brasil que é um dos maiores produtores, mas o Brasil também apresenta investimento na produção de biodiesel, que é um produto parecido com o diesel, porém é feito com fontes renováveis, além de ser um combustível limpo. O pinhão-manso é uma ótima matéria-prima para a produção de biodiesel, ele apresenta características muito desejáveis, como grande porcentagem de óleo nas suas sementes, é uma planta com grande período de produção e um fator muito importante é que se trata de uma alternativa para as áreas áridas semi-áridas do Brasil. Este trabalho foi desenvolvido com o objetivo de aumentar a produtividade e acelerar o crescimento do pinhão-manso utilizando a irradiação gama. Foram utilizadas as seguintes doses: 0(Controle), 0,25Gy; 0,50Gy; 0,75Gy; 1,0Gy e 1,5Gy. Palavras-Chave: Pinhão-manso, oleaginosa, irradiação, crescimento, biodiesel, radiohormese. Abstract With the increased consumption of energy and fuels in the world the biofuels come as a great alternative, especially because oil, which is a limited supply is used in the world. Ethanol is a biofuel widely used mainly in Brazil which is a major producer but Brazil also has investments in the production of biodiesel which is a product similar to diesel but is made from renewable sources besides being a fuel clean. The jatropha is an excellent feedstock for biodiesel production it has very desirable characteristics therefore has a large percentage of oil in its seeds and is a plant that has a great period of productivity and a very important factor is that this is an alternative to the arid semiarid Brazil. This work was developed in order to increase productivity and accelerate the growth of jatropha using gamma irradiation. We used the following doses: 0 (control); 0.25 Gy; 0.50 Gy; 0.75 Gy; 1.0 Gy and 1.5 Gy Key Words: Jatropha, oilseed, irradiation, growth, biodiesel, radiohormesis. 56 Resúmen Con el aumento del consumo de energía y combustibles en el mundo, los biocombustibles vienen como una gran alternativa, sobre todo porque el petróleo, que es una oferta limitada se utiliza en el mundo. El etanol es un biocombustible utilizado, principalmente en Brasil, que es un gran productor, pero Brasil también tiene inversiones en la producción de biodiesel, que es un producto similar al diesel, pero se hace a partir de fuentes renovables, además de ser un combustible limpiar. La Jatropha es una materia prima excelente para la producción de biodiesel, que tiene características muy deseables, por lo tanto, tiene un gran porcentaje de aceite en sus semillas, es una planta que tiene un gran período de la productividad y un factor muy importante es que esta es una alternativa al árido Brasil semiárido. Este trabajo fue desarrollado con el fin de aumentar la productividad y acelerar el crecimiento de la jatrofa mediante irradiación gamma. Se utilizaron las siguientes dosis: 0 (control), 0,25, 0,50 Gy Gy, 0,75 Gy, 1,0 Gy 1,5. Palabras clave: Jatropha, semillas oleaginosas, la irradiación, el crecimiento, el biodiesel, radiohormese. 57 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 56-65, jul./dez. 2012. VICENTINI, Mariane; ARTHUR, Valter; HARDER, Marcia Nalesso Costa Efeito de baixas doses de radiação gama em sementes de pinhão manso (Jatropha curca L) INTRODUÇÃO O alto custo do petróleo no mercado internacional e questões relacionadas com o meio ambiente apontam à necessidade de buscar alternativas viáveis de suprimento de energia em contrapartida, a agricultura está cada vez mais mostrando ser uma alternativa viável do ponto de vista econômico, social e ambiental, para geração de energia renovável. O desenvolvimento e o aperfeiçoamento das tecnologias de produção agrícola, de sistemas de produção eficientes e a definição de regiões com potencial para a produção são pontos que merecem atenção especial para tornar sustentável e competitivo o agronegócio de geração de energia no Brasil. Após a crise do petróleo, na década de 1970, estudos com combustíveis alternativos como o álcool que acabou ganhando força nessa década com o programa Proálcool e também o biodiesel, foram intensificados. A extração de óleo da semente do pinhão-manso surgiu como boa alternativa, por se tratar de uma planta que se adapta bem em regiões de seca, e resistente a altas temperaturas ambientais, no entanto não tolera geada, o que compromete sua produção. Além de apresentar um alto teor de óleo, as variedades que são melhoradas podem chegar a um rendimento mínimo 3,0 à 4,0t de óleo por hectare, e as não melhoradas, duas toneladas por hectare, de acordo com a região de plantio, método de cultivo, tratos culturais, idade da cultura, quantidade de chuva e fertilidade do solo (ARRUDA, 2004 p. 794). Quando plantado no princípio da estação chuvosa, o pinhão-manso inicia a produção de frutos já no primeiro ano de cultivo, embora atinja o seu ponto máximo de produção a partir do quarto ano, com capacidade produtiva potencial por mais de 40 anos (LAVIOLA, 2008, p. 1970). O pinhão é considerado uma boa opção agrícola para áreas áridas e semi-áridas e na recuperação de áreas degradadas, sua produção promove geração de lucro pela venda das sementes; é um suprimento de energia, pois o óleo pode ser utilizado em motores e maquinas para a geração de eletricidade, além de contribuir para o desenvolvimento rural, com o empenho da mão de obra familiar (SILVA, 2010p. 32). A produtividade também esta relacionada com a qualidade do solo e por uma adubação bem conduzida. OBJETIVO O objetivo deste trabalho foi irradiar sementes de pinhão manso com baixas doses de cobalto-60, para estimular a germinação e aumentar a produção. 58 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 56-65, jul./dez. 2012. VICENTINI, Mariane; ARTHUR, Valter; HARDER, Marcia Nalesso Costa Efeito de baixas doses de radiação gama em sementes de pinhão manso (Jatropha curca L) REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Origem e Características do Pinhão Manso O pinhão manso, também conhecido como pinhão do Paraguai, purgueira, pinha-depurga, grão-de-maluco, pinhão-de-cerca, turba, tartago, medicineira, tapete, siclité, pinhão-doinferno, pinhão bravo, figo-do-inferno, pião, pinhão-das-barbadas, sassi, dentre outros, é uma espécie nativa do Brasil, da família das Euforbiáceas, exigente em insolação, com grande resistência à seca e com altas potencialidades para uso como fonte energética. (ARRUDA, 2004, p. 790) A origem do pinhão manso é bastante controversa, no entanto a maior parte dos relatos de estudos dita a América do Sul e Central como centro de origem provável, mas é uma planta encontrada de forma espontânea na faixa intertropical. Segundo SILVA, (2010, p. 26) é uma espécie distribuída principalmente nas Américas, África e parte da Ásia, sendo largamente cultivada no México, Nicarágua, Tailândia e partes da Índia. atualmente cultivos tem sido promovidos por organizações governamentais e não-governamentais no sul da África, Brasil, Mali, Nepal, entre outros países através da iniciativa privada. No Brasil sua distribuição geográfica é bastante vasta, devido à rusticidade e resistência a longas estiagens, sendo adaptável a varias condições edafoclimáticas. O pinhão manso (Jatropha curcas L.) é um arbusto perene da família das Euforbiáceas (Figura 1), a mesma da mamona e da mandioca que geralmente tem 2 à 3 metros de altura, mas pode chegar a 5m de altura, e ser utilizado para recuperação de áreas degradadas em função de suas raízes profundas, crescendo em solos de baixa fertilidade. O diâmetro do tronco é de aproximadamente 20cm; possui caule liso, folhas verdes, esparsas e brilhantes, largas e alternas e salientes na face inferior. Planta de floração monoica apresenta na mesma planta flores masculinas e femininas, sendo as flores masculinas possuidoras de pedúnculo articulado e presentes nas extremidades das ramificações e, as femininas se apresentam ao longo das ramificações, possuindo coloração amarelo-esverdeadas e largamente pedunculadas. (ARRUDA, 2004, p 791) O fruto é capsular ovóide (Figura 2) com diâmetro de 1,5 à 3,0cm pesando 1,53 à 2,85g. A semente é relativamente grande, quando secas medem de 1,5 à 2cm de comprimento e 1,0 à 1,3cm de largura, pesam de 0,551 a 0,797 g e contém em torno de 35 à 40% de óleo (PAULINO, 2009, p. 23). O fruto do pinhão apresenta deiscência e geralmente tem três sementes por cápsula. Utilizações do Pinhão Manso No Brasil o interesse na produção de pinhão manso surgiu com a implantação do Plano Nacional de Produção ao Uso do Biodiesel (PNPB), pois essa cultura pode atender esse programa porque apresenta um grande potencial de rendimento de grãos e óleos, além disso, é 59 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 56-65, jul./dez. 2012. VICENTINI, Mariane; ARTHUR, Valter; HARDER, Marcia Nalesso Costa Efeito de baixas doses de radiação gama em sementes de pinhão manso (Jatropha curca L) uma espécie não alimentar e possui características compatíveis com o perfil da agricultura familiar. Outro fator importante é que a mistura de biodiesel e diesel, objetivando diminuir a emissão de gases, como o dióxido de carbono, pode chegar a 50% de redução, e a emissão de material particulado pode ser reduzida em 30%, além disso, a planta captura CO2 da atmosfera reduzindo os impactos causados pelo efeito estufa (PAULINO, 2009, p. 26). Outro fator é a casca do pinhão que não é utilizada na obtenção de óleo combustível, mas que hoje já esta sendo estudada sua possível utilização na formação de compostos orgânicos. Segundo Silva, (2010, p. 31) as vantagens para a utilização do pinhão manso como fonte de matéria-prima para a produção de biodiesel são: • É fonte de energia renovável, • Promove o balanço de dióxido de carbono no ambiente • Emite menos poluentes do que os combustíveis fósseis, • Sua tecnologia é simples para a obtenção de combustível (processo de extração e transesterificação) • Possui conteúdo de óleo elevado nas sementes comparado a outras sementes com potencial para produção de biodiesel • Sobrevive a várias condições ambientais, • Pode se desenvolver em regiões semi-áridas e áridas, • Tem um curto período para o inicio da produção, • Possui múltiplos usos, como: os resíduos obtidos da produção de biodiesel podem ser usados como fertilizantes orgânicos e os restos dos frutos depois da remoção das sementes podem substituir a lenha como combustível para cozinhar ajudando assim a preservar as árvores. Alem disso o óleo residual da torta quando diluído em água pode ser utilizado como biopesticida para pomares e jardins O pinhão manso tem outras finalidades além da obtenção do óleo incluindo sua utilização como cerca-viva e quebra-vento, em candeeiros domésticos e iluminação pública e como matéria prima para a fabricação de sabões para uso doméstico. Na medicina e veterinária é usado como purgante, além de ser útil na indústria de produtos químicos derivados do seu óleo (FREITAS et al, 2010, p. 1859) Irradiação A radiação gama proveniente da fonte de 60Co é bastante utilizada para esterilização, visando à prevenção da decomposição e a toxidez de origem microbiana em diversos produtos. O grau de radiossensibilidade de um embrião vegetal depende da espécie, do estágio de seu desenvolvimento durante a radiação, da dose empregada e do critério usado para medir o efeito biológico, sendo comumente utilizado o teste de germinação (SANTOS, 2010, p. 1075). 60 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 56-65, jul./dez. 2012. VICENTINI, Mariane; ARTHUR, Valter; HARDER, Marcia Nalesso Costa Efeito de baixas doses de radiação gama em sementes de pinhão manso (Jatropha curca L) A utilização da radiação gama nos alimentos é feita para os mais diversos fins, tais como: tempo de vida útil, desinfecção de agentes inibidores de brotamento (germinação) e inativação de organismos que os degradam, entre outros. Os efeitos da radiação são influenciados por diversos fatores, dentre os quais entram a dose de radiação, as condições de armazenamento depois da irradiação, o teor de água do material a ser submetido e nível de oxigênio (SANTOS, 2010, p. 1075). Para este trabalho o objetivo da irradiação foi estimular a germinação do pinhão manso visando um maior crescimento e uma maior produtividade. MATERIAIS E MÉTODOS O experimento foi conduzido no Laboratório de Radiobiologia e Ambiente, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA) – USP, Piracicaba – SP. As sementes de pinhão manso foram obtidas na cidade de Ribeirão Preto, no interior do estado de São Paulo, e foram irradiadas no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA/USP), com raios gama proveniente de uma fonte cobalto60, sendo submetidas às seguintes doses: 0 (controle), 0,25Gy; 0,50Gy; 0,75Gy; 1,0Gy e 1,5Gy. Após esse procedimento as sementes foram plantadas em potes de plásticos com vermiculita, este termo “Vermiculita” também é utilizado para designar comercialmente um grupo de minerais micáceos constituído por cerca de dezenove variedades de silicatos hidratados de magnésio e alumínio, com ferro e outros elementos. A vermiculita sofre expansão quando lhe é aplicado calor. Possui alta capacidade de troca catiônica e é utilizada comercialmente, principalmente em sua forma expandida na construção civil e na agricultura (PERALTA, 2009, p. 5). Para cada tratamento (dose) foram plantadas sete repetições, e em cada com duas sementes, em um total de 14 sementes por tratamento. O plantio foi realizado logo apões a irradiação. As avaliações da germinação e altura das plantas foram efetuadas durante cinco semanas. RESULTADOS E DISCUSSÃO As amostras foram analisadas com o objetivo de verificar se a irradiação apresentou algum estimulo. Como em cada amostra foram colocadas duas sementes, uma amostra apresentava duas hastes, assim elas foram denominadas haste 1 e haste 2, sendo que o critério para numeração foi que a maior haste fosse a haste 1. A Tabela 1 demonstra os resultados obtidos do crescimento médio dos tratamentos das sementes de pinhão manso irradiadas e a análise estatística. 61 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 56-65, jul./dez. 2012. VICENTINI, Mariane; ARTHUR, Valter; HARDER, Marcia Nalesso Costa Efeito de baixas doses de radiação gama em sementes de pinhão manso (Jatropha curca L) Tabela 1. Medidas obtidas na analise de crescimento do Pinhão Manso com doses baixas de cobalto-60. Amostras Aste 1 Aste 2 ___________________________________________________________________ Testemunha 4,600 a* 0,8857 a 0,25 Gy 3,943 a 1,5286 a 0,50 Gy 5,314 a 2,5714 a 0,75 Gy 2,757 a 0,6429 a 1,0 Gy 3,571 a 1,4143 a 1,5Gy 4,400 a 1,5714 a * Médias com mesma letra não diferem estatisticamente entre si ao nível de significância de 5% pelo teste de Tukey Pelos resultados apresentados pela tabela acima, pode-se observar que a análise estatística realizada com as amostras de pinhão manso não apresentou diferença estatística significativa entre os tratamentos. Mesmo assim, o melhor resultado foi obtido com a dose de 0,50Gy. Estes resultados se apresentaram semelhantes aos encontrados por Fereira (1980, p. 72), que trabalhou com a irradiação de sementes de pinhão e também não obteve diferença na germinação das sementes. CONCLUSÃO Com os dados obtidos e expressos podemos concluir que a radiação não influenciou na germinação das sementes de pinhão manso, uma vez que a analise estatística não apresentou diferença. 62 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 56-65, jul./dez. 2012. VICENTINI, Mariane; ARTHUR, Valter; HARDER, Marcia Nalesso Costa Efeito de baixas doses de radiação gama em sementes de pinhão manso (Jatropha curca L) REFERÊNCIAS ABREU, F. B. et al. Variabilidade genética entre acessos de pinhão-manso na fase juvenil. Embrapa Florestas Artigo em periódico indexado (ALICE). Cruz das Almas-BA, V. 21, n.1, p. 0,36-0,40. Disponível em: http://www.alice.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/578276/1/VARIABILIDADEGENETICAENTRE ACESSOSDEPINHAOMANSO.pdf. Acesso em: 04 dez 2011. ARRUDA, F. P. et. al. Cultivo de pinhão-manso (Jatropha curca L.) como alternativa para o cenário nordestino. Revista Brasileira de engenharia agrícola e ambiental. Campina Grande. v. 8, n.1, p.789-799,v 8. 2004. Disponível em: http://pt.scribd.com/doc/20112469/pinhao-manso-geral-oleolubrificante. Acesso em: 25 set. 11. FERREIRA, C. A. et al. Efeito de baixas doses de radiação gama na conservação do poder germinativo de sementes de Araucaria angustifolia (Bert) O. Kuntze. IPEF n.21, p.67-82, dez.1980. Disponível em: http://www.ipef.br/publicacoes/scientia/nr21/cap05.pdf. Acesso em: 04 dez. 2011. FREITAS, R. F. S. et al. Contribuição ao estudo da extração do óleo do pinhão manso. IV Congresso Brasileiro de mamona e I Simpósio Internacional de Oleaginosas Energéticas, João Pessoa, PB, 2010, p. 1859 – 1865. Disponivel em: http://www.cbmamona.com.br/pdfs/OLE-30.pdf. Acesso em: 29 mai 2012. LAVIOLA, B. G.; DIAS, L. A. S. Teor e acúmulo de nutrientes em folhas e frutos de pinhão-manso. Brasília, 32:1969-1975, 2008. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbcs/v32n5/18.pdf. Acesso em 17 nov. 2011. PAULINO, J.. Crescimento e qualidade de mudas de pinhão manso (jatropha curcas L.) produzidas em ambiente protegido. Dissertação de Mestrado. Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”-SP, 2009, p.98. Disponível em: www.teses.usp.br. Acesso em: 25 set. 2011 PERALTA, M. M. C. Tratamento químico de uma vermiculita visando seu uso em compósitos de polipropileno. Dissertação de Mestrado. Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. São Paulo - SP, 2009. 77p. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/3/3133/tde-13102009161509/pt-br.php. Acesso em: 02 nov. 2011. SANTOS, T. S. et al. Resposta de sementes de amendoim a diferentes doses de radiação gama (60Co). Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental, Campina Grande, v. 14, n. 10, p.1074-1078, 14 jun. 2010. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbeaa/v14n10/v14n10a08.pdf. Acesso em 01 nov. 2011. SILVA, A. N. Produção e pinhão manso (Jatropha curcas L.) em função da adubação, de níveis de água e da seletividade de herbicidas. Dissertação de Mestrado. Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”-SP. 2010, p. 88. Disponível em: www.teses.usp.br. Acesso em 25 set. 2011. 63 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 56-65, jul./dez. 2012. VICENTINI, Mariane; ARTHUR, Valter; HARDER, Marcia Nalesso Costa Efeito de baixas doses de radiação gama em sementes de pinhão manso (Jatropha curca L) VISÃO GLOBAL. Pinhão Manso. Disponível em: http://visaoglobal.org/2007/10/02/moambique-destina-60-mil-hectares-para-projeto-debiodiesel/. Acesso em 01 nov. 2011. YAMADA, E. S. M. Zoneamento agroclimático da Jatrapha curcas L. como subsídio ao desenvolvimento da cultura no Brasil visando á produção de biodiesel. 2011. 135 f. Mestrado (Mestrado) - Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz - Universidade de São Paulo, Piracicaba, 2011. 64 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 56-65, jul./dez. 2012. VICENTINI, Mariane; ARTHUR, Valter; HARDER, Marcia Nalesso Costa Efeito de baixas doses de radiação gama em sementes de pinhão manso (Jatropha curca L) 1 Mariane VICENTINI é Tecnóloga em Biocombustíveis pela FATEC Piracicaba. E-Mail: [email protected] 2 Valter ARTHUR é doutor em Agronomia (Entomologia) (Esalq) Universidade de São Paulo (1985). Atualmente é professor Associado no Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Agronomia, com ênfase em Radioentomologia (tratamento quarentenário de pragas de importância agrícola) e Irradiação de alimentos (conservação e desinfecção de produtos agropecuários). E-mail: [email protected]> 3 Marcia Nalesso Costa HARDER é doutora em Ciências (Centro de Energia Nuclear na Agricultura) pela Universidade de São Paulo (2009). Atualmente é coordenadora do curso de Tecnologia em Agroindústria da FATEC Piracicaba. Tem experiência na área de Ciência e Tecnologia de Alimentos, Aplicações Industriais de Radioisótopos, Biocombustíveis, atuando principalmente nos seguintes temas: biocombustíveis, bioetanol/açúcar, irradiação de alimentos, processamento e conservação de alimentos, plantas medicinais e alimentos funcionais, ecossustentabilidade. E-mail: [email protected] 65 Modernidade ou pós-modernidade: qual o período em que vivemos? (A ética tem lugar nesta discussão?) VIEIRA, Luciana Moreira Martins Resumo Este artigo pretende discutir sobre o conceito de modernidade e sua vigência. Se ainda vivenciamos a modernidade ou a pós-modernidade. Se no contexto da sociedade moderna ainda existe um espaço para a discussão da ética. Para tanto, far-se-á uma discussão por meio dos trabalhos Habermas, Beck e Giddens. Pretende-se mostrar a visão desses autores acerca da modernidade e as propostas de superação encaminhada por eles para os dilemas da modernidade. Palavras chaves: teoria social, sociedade moderna, políticas alternativas. Abstract This article discusses the concept of modernity and it's validity. If we still experience modernity or post modernity. If in the context of modern society there is still room for ethics discussion. For that, will be done a discussion through Habermas, Beck's and Giddens works. Intended to show the point of view of these authors about modernity and the proposals to overcome forwarded by they to the modernity dilemmas. Keywords: social theory, modern society, alternative policies. Resumen Ese artículo desea discutir el concepto de modernidad y su vigor. Si en el contexto de sociedad moderna todavía existe un espacio para la discusión de la ética. Para eso, se hará una discusión por intermedio de los trabajos Habermas, Beck y Giddens. Con la intención de mostrar la visión de estos autores sobre la modernidad y las propuestas presentadas por ellos para superar los dilemas de la modernidad. Palabras clave: teoría social, sociedad moderna, políticas alternativas 66 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 66-78, jul./dez. 2012. VIEIRA, Luciana Moreira Martins Modernidade ou pós-modernidade: qual o período em que vivemos? (A ética tem lugar nesta discussão?) O objetivo deste artigo é refletir de forma breve sobre algumas concepções do conceito de modernidade e as implicações deste conceito nas discussões sobre modernidade, pós-modernidade e se ainda existe um espaço para ética em tais discussões. Qual o período em que vivemos? Já superamos a modernidade? O mundo ao qual estamos inseridos é pós-moderno? Reflexões sobre ética ainda têm espaço ou estão anacrônicas? A fim de proceder com essas reflexões e tentar indicar alguns caminhos farse-á uma releitura de autores relevantes1 como Habermas, Beck e Giddens que discutem esta questão. Para responder tais questionamentos é preciso relembrar alguns pontos acerca do surgimento da modernidade e sua relevância para as Ciências Sociais. A modernidade é para as Ciências Sociais um fenômeno inquietante sendo objeto de vários estudos realizados por diversos autores de formas distintas. Embora a modernidade seja trabalhada de forma distinta, concorda-se que ela possua três marcos que inicialmente a definem, os quais são a Revolução Francesa, a Revolução Industrial e o Iluminismo (HALL, 1996). A modernidade é um fenômeno impactante para o nosso mundo. Ela interfere no desenvolvimento de toda a sociedade modificando formas de pensar e viver.2 A modernidade é tão fundamental que as Ciências Sociais surgem a partir das modificações que ela proporciona em toda sociedade. É importante lembrar que a Sociologia, enquanto ciência, surge no século XIX mediante as reflexões de Auguste Comte e tem como seus fundadores Èmile Durkheim, Max Weber e Karl Marx. Estes autores tentam explicar os fenômenos sociais que se alteraram profundamente após a modernidade (COHN, 1997). Nesse sentido pode-se enquadrar a visão de diversos autores acerca da percepção da modernidade em três grupos distintos: 1) o primeiro grupo constitui-se daqueles autores com uma visão pessimista sobre a modernidade como Weber e Adorno. Tal concepção é reforçada porque embora estes autores identifiquem e analisem bem a modernidade e seus desdobramentos, eles não apontam alternativas para os efeitos perversos que identificam. Por isso, podem ser enquadrados como pessimistas; 2) o segundo grupo de autores é aquele que percebe a modernidade de forma otimista como os primeiros iluministas como Condorcet, Durkheim e Parsons. Estes autores acreditavam que a modernidade abria vários caminhos interessantes para a sociedade e que a Sociologia seria a ciência capaz de conduzir a sociedade rumo à felicidade para os mais otimistas como Condorcet e Durkheim ou no mínimo ao equilíbrio como refletia Parsons; 3) o terceiro grupo de autores, embora tenha uma percepção negativa acerca da modernidade, acredita numa ponderação entre os seus efeitos positivos e negativos. Neste grupo pode-se destacar Marx3, Habermas, Beck e Giddens. Para uma melhor compreensão da modernidade é necessário falar sobre alguns autores contemporâneos que trabalham o tema como Jürgen Habermas, Ulrick Beck e Anthony Giddens. 1 A escolha por esses autores dá-se por sua importância nos recentes debates das Ciências Sociais e sua grande influência no pensamento ocidental. Tais autores são relevantes, mas não são os únicos a abordar ou discutir o tema em questão. A escolha deles dá-se devido à robustez e consistência de suas obras. 2 Muitos autores discutem estes fenômenos como Habermas em seu artigo Modernidade: um projeto inacabado, Beck em seu livro Sociedade de risco e Giddens em seu livro As conseqüências da modernidade. 3 Marx enxerga a modernidade de forma positiva na medida em que ela traz consigo o capitalismo e este traz em si o germe de sua destruição, o proletariado. Entretanto, esse autor é enquadrado nesse grupo porque ele acredita que mesmo com os efeitos negativos advindos com a modernidade há a possibilidade da superação desses. Ou seja, a humanidade pode domar o monstro que criou (MARX, 1996). 67 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 66-78, jul./dez. 2012. VIEIRA, Luciana Moreira Martins Modernidade ou pós-modernidade: qual o período em que vivemos? (A ética tem lugar nesta discussão?) Na visão de Habermas o projeto da modernidade foi formulado no século XVIII por filósofos iluministas e tinha por escopo promover os fundamentos universalistas da moral, do direito e da arte autônoma. No entanto, no bojo desses ideais também foram libertos os potenciais cognitivos voltados para a prática. Ou seja, houve uma configuração racional da vida liberando a razão instrumental em todos os campos da vida (VIEIRA, 2002). Nesse sentido, a modernidade não cumpriu suas promessas como o controle das forças naturais, a interpretação de si mesmo e do mundo, o progresso da moral, a justiça das instituições sociais e mesmo a felicidade dos homens (HABERMAS, 1984). Houve uma implementação da modernidade por meio de uma modernização unilateral. Tal modernização deu-se mediante a pressão dos imperativos do crescimento econômico e das metas de organização estatal. Essa modernização unilateral foi orientada segundo padrões de racionalidade econômica e administrativa. Nessas esferas prevalece o uso da razão instrumental. A grande questão é que áreas em que a razão instrumental não deveria ter lugar como as esferas da vida que estão concentradas na tradição cultural, integração social e educação passam a sofrer interferência em seus modos de organização. As esferas da vida são ou pelo menos deveriam ser regidas pela racionalidade comunicativa (HABERMAS, 1984). Ao contrário do que a modernidade prometeu, houve uma penetração de valores econômicos e administrativos em esferas que antes não lhes pertenciam. Isso conduz o mundo da vida a se desvalorizar em sua substância tradicional, ameaçando empobrecê-lo (HABERMAS, 1984). É necessário ressaltar que para Habermas as sociedades contemporâneas estruturam-se em dois princípios: o mundo sistêmico e o mundo da vida. O mundo sistêmico é aquele no qual há o domínio da ação instrumental organizando o mercado e o Estado. O mundo da vida é dominado pela racionalidade comunicativa e é ela que o organiza (VIEIRA, 2002). A racionalidade instrumental e a racionalidade comunicativa são princípios que definem mundos que se interpenetram, disputando entre si o espaço social existente. Assim, quando o mundo da vida passa a ser colonizado pelo mundo sistêmico existe o que Habermas chama de patologia da modernidade. Para superação de tal patologia, como uma medida de terapia, propõe políticas que instituam uma normatividade que viabilize a racionalidade comunicativa (HABERMAS, 1984). Não obstante, tal análise das patologias da modernidade, Habermas é critica por não apontar aqueles que serão portadores sociais desta missão. Não há atores reais que possam defender o mundo da vida de tal colonização. Um desses críticos é Leis (1999). Para Habermas a modernidade inicia-se com um processo de desencantamento do mundo4, trazendo a diferenciação entre ciência, moral e arte. Tal diferenciação da ciência traria luz aos problemas da humanidade por meio da razão. Entretanto, a modernidade escapou de seu caminho original e dirigiu para uma modernização econômica e administrativa, deixando de forma incompleta as promessas da modernidade social, a qual conduziria a uma total emancipação humana. É neste sentido que Habermas considera a modernidade um projeto inacabado. Em relação à discussão sobre se vivemos ou não a modernidade? Se existe um novo período que se pode denominar de pós-modernidade? Habermas responde estas questões afirmando que ainda não 4 A expressão desencantamento do mundo é utilizada por Max Weber para explicar o surgimento da ciência e sua contraposição com o senso comum e com razões religiosas. Tal expressão e explanações sobre ela podem ser encontradas em seu livro A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. 68 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 66-78, jul./dez. 2012. VIEIRA, Luciana Moreira Martins Modernidade ou pós-modernidade: qual o período em que vivemos? (A ética tem lugar nesta discussão?) ultrapassamos as fronteiras do mundo moderno. O que acontece é que o debate sobre a pós-modernidade advém ou deve vir de uma dissociação entre modernização e modernidade. O termo modernização referese a uma abstração do conceito de modernidade (VIEIRA, 2002). O termo modernização não remete as origens européias e que dão toda conformação ao que a modernidade é de fato. Tal abstração acaba por desfazer as conexões internas entre o conceito de modernidade e autocompreensão da modernidade adquirida dentro do horizonte da razão ocidental. Essa dissociação entre o conceito de modernidade e modernização promove no conceito de modernidade um certo padrão de neutralização espaço-temporal de desenvolvimento social em geral. É como se os processos advindos com a modernidade fossem autônomos, fossem conseqüências naturais e não decisões políticas. Nesse sentido, torna-se então possível relativizar os processos de modernização no seu curso, por assim dizer automático, adotando a posição de distanciamento de um observador pós-moderno (HABERMAS, 1984). Outro autor importante que discute a modernidade e seus efeitos é Beck. Para ele, a modernidade trazia inicialmente consigo a crença no progresso. Só que tal crença foi abalada. Cria-se que as pessoas foram libertas das certezas feudais e religiosas para o mundo da sociedade industrial, o qual lhes garantia uma certa segurança. Não obstante, as pessoas estão passando da sociedade industrial para a turbulência da sociedade de risco e posteriormente para a sociedade mundial do risco (BECK, 1992, 2000). Para uma efetiva compreensão da modernidade é fundamental a compreensão do conceito de sociedade de risco que Beck propõe para explicar o período vivenciado por todos nós. Para se entender o conceito de sociedade de risco é fundamental a distinção em primeira e segunda modernidade. A primeira modernidade seria a modernização simples onde existe a presença do Estado-nação e as relações sociais são entendidas no âmbito territorial (BECK, 1992, 1997, 2000). A primeira modernidade liga-se ao uso exclusivo da razão. Ou seja, qualquer problema ou distúrbio tinha que ser solucionado no interior da sociedade industrial com o uso eficaz da razão (VIEIRA, 2002). A segunda modernidade é a modernidade reflexiva, a qual segundo Beck consiste no período que vivenciamos. A modernidade reflexiva caracteriza-se por cinco processos interligados: a globalização5, a individualização6, a revolução de gênero7, os subempregos8 e os riscos globais9. A modernização reflexiva altera também a forma como a ciência trabalha. Pode-se distinguir neste contexto dois tipos de ciência. A primeira ciência é aquela extremamente técnica, seu compromisso é o mito da precisão. A segunda é aquela ciência aberta a discursividade pública da experiência. Ou seja, objetivos e meios, restrições e métodos são constantemente discutidos e revisados. Com a nova forma de 5 Por globalização entende-se a interligação do mundo por meio das várias revoluções industriais. Ou seja, a globalização consiste na interligação do mundo via os meios de comunicação e uma certa padronização dos costumes e desejos das sociedades contemporâneas. 6 A individualização pode ser compreendida como o culto ao indivíduo e suas necessidades particulares. A busca por uma reflexão sobre os anseios e a constituição do self. 7 A revolução de gênero consiste na discussão dos papéis exercidos por homens e mulheres na sociedade. A mudança da matriz social devido à alteração das relações entre homens e mulheres. Tais relações ainda continuam em discussão. 8 Por subempregos entende-se os atuais empregos que tem seus salários cada vez mais achatados pela própria dinâmica do capitalismo que acaba por prescindir de sua categoria central que é o trabalho. 9 Por riscos globais entende-se as crises ecológicas e a quebra dos mercados financeiros globais. 69 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 66-78, jul./dez. 2012. VIEIRA, Luciana Moreira Martins Modernidade ou pós-modernidade: qual o período em que vivemos? (A ética tem lugar nesta discussão?) se perceber a ciência e de vivenciá-la faz-se necessário formas e fóruns de cooperação entre a indústria, a política e o povo (BECK, 1995). As verdades não são mais absolutas e não duram para sempre. Existe uma tendência nesta modernização reflexiva na desmonopolização da especialização. A modernidade parte dos princípios da precaução e da reversibilidade, nos quais a dúvida é necessária não só a ciência, mas deve ser aplicada a qualquer forma de reflexão (VIEIRA, 2002). “A modernização reflexiva também – e essencialmente – significa uma ‘reforma da racionalidade’ que faz justiça à ambivalência histórica a priori em uma modernidade que está abolindo suas próprias categorias de ordenação” (BECK, 1995, p. 47). Portanto, para Beck ainda vivenciamos a modernidade. Uma modernidade alterada, na qual a razão não é garantia de sucesso e que conduz a uma sociedade de risco. Esta consiste numa fase do desenvolvimento da sociedade moderna onde os riscos sociais, políticos, econômicos e individuais tendem cada vez mais a escapar das instituições para o controle da sociedade industrial. A sociedade de risco não é uma escolha, mas uma conseqüência do desenvolvimento da humanidade. Ela é o tomar corpo de todas as ameaças produzidas pelo desenvolvimento da sociedade industrial (BECK, 1992, 1995). Para Beck não existe a pós-modernidade, mas sim a sociedade de risco. Ainda não se ultrapassou os efeitos trazidos pela sociedade industrial, não se superou a modernidade apenas houve um aprofundamento em seus efeitos mediante a sociedade de risco. A modernidade também é discutida por Giddens. Este também acredita que ainda não se superou a modernidade como Beck e Habermas. Não obstante, a percepção acerca da modernidade de Giddens é bem diferente. Giddens percebe a modernidade mediante quatro dimensões institucionais o capitalismo10, a vigilância11, o poder militar12 e o industrialismo13 (GIDDENS, 1991a, b). É fundamental a compreensão de que tais dimensões são aspectos da modernidade que não se reduzem uns aos outros. Tais dimensões constituem-se em um framework para o entendimento das sociedades modernas. Só é possível compreender a modernidade exposta por Giddens mediante a percepção das quatro dimensões da modernidade e suas conseqüências (VIEIRA, 2002). Por modernidade entende-se como sendo um estilo, costume de vida ou organização social que emergiu na Europa a partir do século XVII e posteriormente tornou-se mais ou menos mundial em sua influência. Isso associa de começo a modernidade a um período de tempo e uma localização geográfica, mas deixa suas características principais ainda guardadas em segurança numa caixa preta (GIDDENS, 1991a, p.11). Uma característica fundamental para o desenvolvimento da modernidade é a natureza das descontinuidades. Ter esta compreensão é indispensável para entender a análise de Giddens sobre a modernidade. Ao se aceitar que a história humana é marcada por descontinuidades, admite-se que ela não tem uma forma totalizada, não podendo refletir certos princípios unificadores de organização e 10 O capitalismo é a dimensão na qual há acumulação de capital no contexto de trabalho e mercados de produtos competitivos. 11 A vigilância consiste no controle da informação, supervisão social e monitoramento das atividades pelos estados e por outras organizações. 12 O poder militar liga-se ao controle dos meios de violência nas mãos do Estado no contexto da industrialização da guerra. 13 O industrialismo é a transformação da natureza do desenvolvimento do “ambiente criado”, ou seja, a transformação da natureza por meio de técnicas produtivas. 70 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 66-78, jul./dez. 2012. VIEIRA, Luciana Moreira Martins Modernidade ou pós-modernidade: qual o período em que vivemos? (A ética tem lugar nesta discussão?) transformação. Isso não significa que não haja episódios precisos de transição histórica, cujo caráter histórico pode ser identificado e sobre os quais possam ser feitas generalizações. O interesse desse artigo sobre a percepção da modernidade dá-se pelos modos de vida produzidos pela modernidade, os quais nos desvencilharam de todos os tipos tradicionais de ordem social. Portanto, para uma compreensão efetiva do pensamento de Giddens acerca da modernidade é precípuo a apreensão de certas categorias fundamentais como a separação do tempo e do espaço, o desencaixe, a confiança e a reflexividade (VIEIRA, 2002). A modernidade arranca crescentemente o tempo do espaço. Isso ocorre porque a modernidade fomenta a relação entre ausentes. Ou seja, as relações não se dão mais com a interação face a face. A separação do tempo e do espaço dá-se pela recombinação entre o tempo e o espaço em relação à atividade social. Dispositivos de ordenação tempo-espaço coordenam atividades sociais sem a obrigatória referência às particularidades do local. O esvaziamento do tempo funciona como pré-condição para o esvaziamento do espaço e conseqüentemente separou também o espaço do lugar. A invenção e a disseminação do relógio mecânico produziram uma forma de mensuração do tempo que acabou por corresponder à uniformidade na organização social do tempo. Criou-se uma dimensão de tempo vazia capaz de promover mudanças em toda forma de organização da vida social. Assim, quando se tem um dispositivo como o relógio mecânico, este permite a coordenação de encontros, conferências e atividades de forma global independente das culturas ou locais aos quais originalmente se esteja (GIDDENS, 1987a, 1991a). Com efeito, a separação tempo e espaço é crucial para o extremo dinamismo da modernidade por três razões: é condição principal para o processo de desencaixe; permite e proporciona a organização racionalizada, nas quais as organizações modernas são capazes de conectar o local e o global de formas impensáveis em sociedades tradicionais; possibilita um sistema de datação padronizado, universalmente reconhecido. Tal procedimento permite a apropriação de um passado unitário. Com o tempo e espaço recombinados forma-se uma estrutura histórico-mundial universal como se existisse um passado comum e um futuro universalmente aplicado (GIDDENS, 1989a, 1991). Outra categoria importantíssima para a compreensão da modernidade é o desencaixe. Este é o processo de esvaziamento do tempo e do espaço. O desencaixe é o esvaziamento das relações sociais de suas circunstâncias locais e sua rearticulação em regiões espaço-temporais indefinidas. O desencaixe só possível por dois mecanismos: as fichas simbólicas e os sistemas peritos. Fichas simbólicas são os meios de intercâmbio que circulam sem as características específicas dos indivíduos. Um exemplo de ficha simbólica é o dinheiro. O dinheiro possibilita do desencaixe na medida em deixa suspenso o tempo porque é um meio de crédito e o espaço na medida em que tal valor permite as transações entre muitos indivíduos que nunca se encontraram fisicamente. O dinheiro possibilita a realização de transações entre agentes amplamente separados no tempo e no espaço (VIEIRA, 2002). Os sistemas peritos são sistemas de excelência técnica ou competência profissional que organizam grandes áreas dos ambientes material e social do mundo moderno. Tais sistemas deixam em suspenso o tempo e o espaço porque empregam modos de conhecimento técnico cuja validade não depende dos que as praticam e nem dos clientes que os utilizam. Um exemplo de sistema perito pode ser o funcionamento dos aviões em relação ao emprego da tecnologia presente em seus equipamentos de monitoramento e manutenção das aeronaves em vôos (VIEIRA, 2002). 71 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 66-78, jul./dez. 2012. VIEIRA, Luciana Moreira Martins Modernidade ou pós-modernidade: qual o período em que vivemos? (A ética tem lugar nesta discussão?) Os sistemas peritos e as fichas simbólicas são denominados sistemas abstratos. Estes são mecanismos de desencaixe porque removem as relações sociais das imediações do contexto fornecendo garantias de expectativas por meio do tempo e do espaço distanciados. Nesse sentido, os sistemas abstratos dependem e muito da confiança porque tais sistemas sempre oferecem garantias e as garantias só tem validade se houver confiança. Só aceito um papel moeda porque acredito em seu valor, só entro num avião porque acredito que existe tecnologia suficiente para o avião saia de um lugar e chegue a outro, no local e horário estabelecido, em segurança (GIDDENS, 1991a, b). Nos sistemas abstratos a confiança assume a forma de compromissos sem rosto. É mantida a fé no funcionamento do conhecimento em relação ao qual a pessoa leiga é amplamente ignorante. A confiança em pessoas envolve o compromisso com rosto, nos quais são solicitados indicadores da integridade de outros. Os sistemas abstratos deveriam, em tese, funcionaram sem a presença do rosto. Entretanto, mediante a reflexividade ocorre o reencaixe. Locais de excelência técnica nos quais deveria se confiar apenas no desenvolvimento tecnológico como no caso do funcionamento dos equipamentos do avião. Existe uma reinserção do rosto mediante as aeromoças. Ou seja, onde a confiança deveria estar alicerçada na fé nos sistemas peritos, nos compromissos sem rosto, como os aparelhos que monitoram o vôo cujo funcionamento o passageiro desconhece, tem-se a transformação da confiança, mediante a atuação da tripulação como as aeromoças que passam harmonia como se a presença delas pudesse garantir um vôo perfeito. A presença da tripulação e sua atuação consiste numa forma de humanização dos sistemas peritos e é neste momento que se percebe o reencaixe. Essa alteração consiste num ponto de acesso. Uma conexão entre indivíduos ou coletividades, leigos e representantes de sistemas abstratos. São lugares de vulnerabilidade para os sistemas abstratos, mas também junções nas quais a confiança pode ser mantida ou reforçada (GIDDENS, 1991a, b). Ao se falar em confiança é necessário abordar o conceito de segurança ontológica14. Sem este conceito é impossível a compreensão das relações mantidas pelos compromissos com e sem rosto. Não obstante, não se desenvolve a segurança ontológica sem a confiança básica15 desenvolvida na primeira infância. A confiança, na modernidade, liga-se a noção de risco. O risco advém da ausência no tempo e no espaço. Se fosse possível ter conhecimento pleno de tudo, dos atos das pessoas e de como funcionam todos os sistemas não haveria risco. O risco ainda é aumentado na modernidade pelos sistemas abstratos que cada vez mais separam tempo e espaço. Confiar significa quer na credibilidade da pessoa ou sistema. É uma fé nas pessoas ou nos princípios técnicos empregados (GIDDENS, 1991a,b, 1993). A decisão de confiar nem sempre é calculada, já que muitas vezes são tantos dados e eventos a serem considerados que fica quase impossível socialmente chegar a um cálculo, a uma probabilidade ou a 14 Por segurança ontológica entende-se a crença que a maioria dos seres humanos tem na continuidade de sua autoidentidade e na constância dos ambientes de ação social e material circundante. Ou seja, a crença que a humanidade possui e que lhe permite pensar e agir em relação ao futuro de que o mundo não vai acabar amanhã (GIDDENS, 1991a, b). 15 A confiança básica é aquela desenvolvida na criança mediante o uso freqüente da rotina. A garantia de que após tal horário os pais voltam. A garantia de que após o almoço se vai à escola, por exemplo. O pleno emprego da rotina desenvolve a segurança nas crianças e os permite posteriormente ingressar no mundo adulto. 72 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 66-78, jul./dez. 2012. VIEIRA, Luciana Moreira Martins Modernidade ou pós-modernidade: qual o período em que vivemos? (A ética tem lugar nesta discussão?) percepção de um cenário. Portanto, confiar pressupõe uma preparação interior do indivíduo, quase uma predisposição. Tal predisposição vem da personalidade que é desenvolvida juntamente com a confiança básica. Assim, confiar tem um componente interior dos indivíduos, mas também um componente advindo com a própria modernidade: a reflexividade. Afinal, o que seria este componente? A reflexividade da modernidade refere-se ao fato da maioria dos aspectos da atividade social e das relações materiais com a natureza estarem submetidos à revisão continua a luz de novas informações ou conhecimentos. Tudo pode ser revisado e alterado mediante uma nova descoberta. As práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas por meio de novas informações. Tudo é possível de ser alterado. Quando houve a substituição da tradição pela razão pensou-se que esta poderia oferecer uma sensação maior de segurança. Com a constante reflexividade presente e intrínseca a modernidade a razão é subvertida. Pelo menos se a razão for compreendida como conhecimento certo, o qual foi pregado pelo pensamento iluminista. Na modernidade qualquer conhecimento pode ser revisado e perder sua validade (GIDDENS, 1991a). É interessante pensar que Weber de certa forma indicava este caminho quando afirmava que o destino de um bom cientista é ser superado, pois só assim a ciência caminha (WEBER, 1967). Ao se abordar a visão de diferentes autores como Habermas, Beck e Giddens percebe-se que nenhum deles acredita que a modernidade foi superada. Cada um deles, a sua maneira e com categorias analíticas distintas, crê que houve uma radicalização da modernidade, uma intensificação de seus efeitos, talvez até um desvio em seu percurso. Tais conseqüências fazem com que não haja a superação da modernidade, mas sim um aprofundamento maior em suas instituições. Por isso, tais autores não crêem e nem aceitam a pós-modernidade como a superação da modernidade. Esta continua tão intensa que não se consegue nem nomear um novo período mantendo-se o nome para aqueles que acreditam na superação como Lyotard de pós-modernidade. Faz-se necessário discutir então quais seriam as alternativas para os efeitos da modernidade. Se ela prometeu igualdade de condições entre os homens, superação de mazelas como fome e desequilíbrios sociais fazendo uso da razão e não cumpriu: o que pode ser feito? Tal busca por esta resposta pode ser percebida como tentativa de restabelecimento de um equilíbrio social. O que seria isso senão a busca pela ética proposta por Aristóteles na Grécia antiga. Por ética entende-se o conjunto de virtudes que conduz o ser humano para o bem. As principais virtudes que compõem a ética seriam a coragem, a sabedoria, a prudência e a justiça. As primeiras três virtudes precisam encontrar um equilíbrio porque elas oscilam entre um mínimo e um máximo. No caso da virtude coragem a falta desta virtude faz com o indivíduo seja covarde e seu excesso faz com que o indivíduo seja açodado. Os dois extremos são perigosos e não são considerados virtudes (ARISTÓTELES, 2002). Portanto, é preciso haver um equilíbrio. Entretanto, existe uma virtude que não precisa encontrar o equilíbrio em relação à intensidade para ser uma virtude. Tal virtude é a justiça que em si mesma reúne todas as demais virtudes. A justiça não se regula: ou se é justo ou não é. A justiça possui essas características por ela dizer respeito ao outro, a convivência em sociedade. A justiça é atribuir a cada um, o que lhe é seu de acordo com suas necessidades. Por isso, a justiça pode ser considerada a própria ética (ARISTÓTELES, 2002). Se a modernidade desvirtuou-se dos caminhos da ética é preciso reconduzí-la. Parece-me que ao propor alternativas para superar os dilemas da modernidade Habermas, Beck e Giddens visam uma 73 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 66-78, jul./dez. 2012. VIEIRA, Luciana Moreira Martins Modernidade ou pós-modernidade: qual o período em que vivemos? (A ética tem lugar nesta discussão?) recuperação das promessas não cumpridas pela modernidade. É fundamental ressaltar que estes autores têm uma obra muito complexa que é impossível de ser abordada da forma como merece em apenas um artigo. Além disso, tais autores têm pensamentos e usam categorias analíticas muito distintas. O que se tentou com este artigo é mostrar de forma sucinta que não vivenciamos a pós-modernidade, que a modernidade não cumpriu o que prometeu e que mesmo assim ainda há saída e um esforço para a busca de alternativas para nossos dilemas pautados por uma retomada de posturas éticas. Nesse sentido, Habermas propõe uma descolonização do mundo da vida mediante o retorno à razão que lhe é própria: a racionalidade comunicativa. Esta busca colocar em prática a teoria da ação comunicativa. Ou seja, a razão instrumental não pode e nem deve ser empregada em áreas que não lhe é própria. A teoria da ação comunicativa pode ser entendida como um esforço para dar bases sólidas ao projeto da modernidade. Para tanto, Habermas insiste no caráter universal da razão frente às muitas vozes existentes. Por isso, a busca por uma comunicação efetiva é fundamental em sua obra (LEIS, 1999). A discussão da ação comunicativa liga-se à reconstrução de novos valores visando um equilíbrio social. Tal postura é e pode ser percebida como uma busca de novos valores, ou seja, um retorno à discussão sobre ética (HABERMAS, 1994, 2000). Na visão de Beck vivemos numa sociedade de risco e o risco liga-se ao conhecimento perito (expert). O posicionamento da racionalidade científica é constantemente questionado por novos conhecimentos que alteram sempre os possíveis cenários (BECK, 1992). Como alternativa à sociedade de risco de Beck e a superação dos problemas advindos com a modernidade é preciso contar com a forte atuação da sociedade civil como um agente de questionamento da ciência e do posicionamento dos governos frente aos riscos globais. A resolução dos dilemas dá-se via abertura política e neste contexto discussões sobre direitos e individualidades tornam-se mais freqüentes, ou seja, renasce a discussão sobre ética. Como uma possibilidade de ultrapassar os limites da modernidade é fundamental na obra de Giddens a alteração de suas dimensões por outras formas alternativas. Assim, as dimensões da modernidade como industrialismo, capitalismo, vigilância e poder militar podem ser modificadas a fim de se ultrapassar os dilemas advindos com a modernidade. Como forma alternativa para as dimensões da modernidade Giddens propõe ao industrialismo e os meios de violência a mudança para a natureza humanizada e o poder negociado. Ao capitalismo sugere-se uma economia pós-escassez. A vigilância sugere-se a democracia dialógica. É importante ressaltar que tais dimensões só relacionam-se no pensamento de Giddens mediante a transformação da intimidade16. Esta não é uma dimensão da modernidade no pensamento de Giddens, mas é fundamental para que as alterações proposta por sua política radical evidenciem-se. A transformação da intimidade proporciona um modelo de relacionamento, o relacionamento puro. Este deve se expandir para todas as relações sociais para o desenvolvimento de uma política radical como a democracia dialógica. 16 Por transformação da intimidade entende-se a mudança nos padrões de relações entre os indivíduos via relações afetivas que alteram os papéis clássicos entre a divisão sexual de tarefas. Devido aos relacionamentos homoafetivos há uma discussão dos papéis entre os pares e essa discussão não passa pela divisão de tarefas mediante a distinção entre o gênero (GIDDENS, 1993). Tal tema é muito abordado por Giddens e fundamental para as saídas alternativas às dimensões da modernidade. Discuto tais implicações em minha dissertação de mestrado no terceiro capítulo. 74 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 66-78, jul./dez. 2012. VIEIRA, Luciana Moreira Martins Modernidade ou pós-modernidade: qual o período em que vivemos? (A ética tem lugar nesta discussão?) A democracia dialógica incentiva a democratização em todas as esferas do Estado e da sociedade. Ela cria formas de intercâmbio social que podem contribuir substancialmente para a reconstrução da solidariedade social. A democracia dialógica é uma situação na qual existe uma autonomia desenvolvida na comunicação sendo que esta forma um diálogo por meio do qual as políticas e atividade são moldadas. Nesse sentido, a democracia dialógica avança sobre as quatro áreas que compõem a modernidade. Nesse sentido, a política radical é uma alternativa para se trilhar o mundo novo trazido pela sociedade pós-tradicional. Essa política radical constitui-se numa saída para os dilemas da sociedade moderna. Para cada dimensão da modernidade existe uma alternativa e todas as alternativas somadas produzem a política radical assim como a soma das dimensões institucionais configura a modernidade. Portanto, a resolução dos dilemas da modernidade é algo em construção. Não é algo dado. O caminho a ser trilhado possui várias direções e cabe aos indivíduos enquanto sociedade escolher seu destino. Nesse sentido, é imprescindível o debate e o resgate da ética nas relações como uma tentativa de encaminhar soluções mais justas para os problemas sociais. Com efeito, é nessa tentativa de superar os dilemas da modernidade (GIDDENS, 1991a) ou cumprir as promessas da modernidade enquanto projeto inacabado (HABERMAS, 1992) ou alterar os efeitos da sociedade de risco (BECK, 1994) que este artigo pretende trazer alguma luz a discussão sobre modernidade ou pós-modernidade e explicitar as ligações entre as promessas da modernidade e a ética segundo Aristóteles. É uma breve reconstrução teórica do pensamento de autores relevantes para as Ciências Sociais e a tentativa de dar ao leitor a possibilidade de construir seus próprios cenários futuros e decidir qual mundo deseja e qual sociedade quer. 75 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 66-78, jul./dez. 2012. VIEIRA, Luciana Moreira Martins Modernidade ou pós-modernidade: qual o período em que vivemos? (A ética tem lugar nesta discussão?) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARISTÓTELES. Ética a Nicômono. São Paulo: Vozes, 2002. BECK, Ulrick. Risk Society: towards a new modernity. London, Inglaterra: Sage Publications Ltd., 1992. COHN, Gabriel (org.). Weber. São Paulo: Ática, 1997. COHEN, Ira J. Structuration Theory: Anthony Giddens and the constitution of social life. London, Inglaterra: Macmillan, 1989. GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: UNESP, 1991a. ______ . Modernity and Self Identity: self and society in the late modern age. Standford, California, EUA: Standford University Press, 1991b. ______ . A transformação da intimidade: sexualidade, amor & erotismo nas sociedades modernas. São Paulo: UNESP, 1993. _______ . Para além da esquerda e da direita: o futuro da política radical. São Paulo: UNESP, 1996. GIDDENS, Anthony; BECK, Ulrick; LASH, Scott. Modernização reflexiva: política, tradição estética na ordem social. São Paulo: UNESP, 1995. HABERMAS, Jurgen. The theory of communicative action. Cambridge, Inglaterra: Polity Press, 1984. 1v. ______ . Modernidade – um projeto inacabado. In: ARANTES, O. B. F.; ARANTES, P. E. Um ponto cego no projeto moderno de Jurgen Habermas. São Paulo: Brasiliense, 1992. p. 99-123. HALL, S. et al. Modernity: an introduction to modern societies. Massachussets: Blackwell Publishers, 1996. HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Edições Loyola, 1993. LEIS, Hector Ricardo. A modernidade insustentável: as críticas do ambientalismo à sociedade contemporânea. São Paulo: UNESP, 1999. LYOTARD, Jean F. A condição pós-moderna. Lisboa, Portugal: Gradiva, [s.d]. MARX, Karl. O manifesto comunista. Campinas: Paz e Terra, 1996. 76 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 66-78, jul./dez. 2012. VIEIRA, Luciana Moreira Martins Modernidade ou pós-modernidade: qual o período em que vivemos? (A ética tem lugar nesta discussão?) VIEIRA, Luciana Moreira Martins. Modernidade: a contribuição de Anthony Giddens ao debate contemporâneo. 2002. 158f. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. WEBER, Max. Ciência e Política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, [1967, 1968]. 77 bioenergia em revista: diálogos, ano 2, n. 2, p. 66-78, jul./dez. 2012. VIEIRA, Luciana Moreira Martins Modernidade ou pós-modernidade: qual o período em que vivemos? (A ética tem lugar nesta discussão?) 1 Luciana Moreira Martins VIEIRA é Docente da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Metodista de Piracicaba / UNIMEP, Piracicaba, São Paulo, Brasil e da Faculdade de Tecnologia de Piracicaba Dep. “Roque Trevisan” - FATEC, São Paulo, Brasil. 78