Como um cão me inspirou
a planejar menos e a fazer mais.
ALLYSSON LUCCA
Como um cão me inspirou
a planejar menos e a fazer mais.
ALLYSSON LUCCA
Sem Plano de Negócios
por Allysson Lucca
www.lucca.co
Esse livro foi escrito durante minhas idas e vindas
entre Manhattan e White Plains, em um MacBook Pro
utilizando o aplicativo iA Writer e InDesign
Todos os direitos reservados 2013 por Allysson Lucca.
Nomes e marcas mencionados nessa obra pertencem
ao seus respectivos titulares.
Agradecimentos
A todos aqueles que fazem parte da minha vida,
no bem e no mal, porque aprendemos com todas
as situações.
A minha esposa em especial, que sempre
me acompanhou e compartilhou sucessos e
frustrações, e a minha filha que mesmo sem
entender adaptou-se as nossas ausências.
Às conversas com meu irmão sobre negócios e
ideias que me fizeram perceber que a próxima
oportunidade pode estar bem na sua frente e na
maioria das vezes a gente simplesmente passa
por ela despercebida.
ÍNDICE
Mais Instinto, Menos Planejamento Empreender Noção do Mundo Uma bandana que mudaria tudo Validar uma idéia Portas abertas Filhos peludos Colaboradores Passo de gigante Mais novidades
Uma revista no meio disso tudo Decisões difíceis Hora de virar a página Conclusão 06
09
14
19
21
24
26
33
35
41
43
45
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MAIS INSTINTO, MENOS PLANEJAMENTO
Um cão pode nos ensinar muitas coisas, compaixão,
honestidade, sinceridade, fidelidade, amizade, gratidão,
somente para listar algumas das suas qualidades, mas
como poderiam esses seres magníficos nos ensinar algo
sobre negócios? No meu caso aconteceu, e vou contar para
vocês como um Jack Russell (a raça do cachorro do filme O
Máscara) conseguiu botar para fora a vontade que eu tinha
de empreender, que até então se manifestava somente por
meio de experiências, como dizer… amadoras.
Você não vai encontrar aqui a fórmula mágica do
sucesso, até porque o significado de sucesso pode ser visto
de forma diferente entre as pessoas. Porém, alguns pontos
devem sim fazer parte dessa matemática, por exemplo:
fazer algo porque gosta, com pessoas que compartilham
os mesmos objetivos e não focar somente no retorno
financeiro de um projeto. Outro item que abordo nesse livro
é a questão do planejamento. Perdi a conta das ideias que
gostaria de tirar do papel e que por colocar tanto tempo em
definições, pesquisa de mercado, investimento, retorno,
ponto de equilíbrio, etc… simplesmente desisti. Não estou
dizendo que planejar não serve a nada, mas cuidado para
não limitar o seu impulso de fazer algo acontecer somente
com base em dados e informações exatas.
Em um estudo de mais de 10 anos, o consultor de
marcas e autor Martin Lindstrom publicou um livro
intitulado BUYOLOGY, em que ele mostra a ciência por
trás das decisões de compra. É incrível saber que, por
exemplo, pesquisas de opinião simplesmente não dizem
a verdade. Ficou comprovado por testes em laboratório
que nós respondemos a algo e o nosso cérebro pensa
em outro. Caímos na velha frase de Henry Ford “Se eu
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perguntasse aos meus clientes o que eles gostariam de ter,
responderiam um cavalo mais rápido”. Deixar de realizar
um projeto porque o tal do manual do empreendedor diz
para não fazer nada sem antes ter um plano de negócios é,
usando um termo diferente, triste.
Empreender significa tomar riscos, todavia gostaria
de ir além disso, significa também quebrar modelos de
negócios, buscar alternativas, errar e consertar.
A história que conto aqui só virou livro porque tive
a oportunidade de parar um pouco e fazer uma espécie
de inventário das coisas ao meu redor, das minhas
experiências como empreendedor. Caí e levantei, tive
extratos bancários gordos e momentos de desespero sem
saber como pagar o próximo fornecedor, mas com a pessoa
mais importante da minha vida ao meu lado, minha esposa,
conseguimos passar por isso, juntos nós rimos e choramos,
e hoje olhando para trás vejo que vale a pena compartilhar
essa história.
Nossas vidas se dividem em duas etapas, que não é
antes e depois do casamento, mas antes e depois do Jack,
um cão de personalidade forte, pequeno, sem noção do
seu tamanho; falam que faz parte do DNA terrier da raça,
cães caçadores, desbravadores. Ele entrou para a família 5
anos atrás e desde então tudo virou uma aventura, cheguei
a me jogar em dois rios diferentes para salvá-lo de dois
afogamentos. Os Jacks Russells têm as pernas curtas e
nos dois casos ele acabou se enroscado em plantas e não
conseguia manter a cabeça para fora da água; também já
participou de ensaios de moda, mas a maior façanha foi
fazer a Mariana largar seu emprego em uma multinacional
alemã para montarmos uma loja como ninguém ainda
nunca tinha visto aqui no Brasil. Foi essa experiência que
nos mostrou o que realmente empreender significava,
a qual fizemos seguindo nossos instintos, com menos
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conversa e mais ação.
No final de cada capítulo, procurei elencar algumas
dicas, espero sejam úteis para você colocar suas ideias em
prática. A troca de ideias continua pelo meu blog www.
lucca.co e pelo meu twitter @all_lucca
Boa leitura!
Jack, o culpado :)
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EMPREENDER
Durante os meses de verão e férias escolares,
geralmente no meu tempo de escola isso acontecia entre
novembro e fevereiro, nós praticamente fazíamos uma
mudança para a casa que meu pai tinha recém - comprado
no litoral paranaense. Eles chegavam a alugar uma kombi
para levar roupa, comida, pranchas, etc… e mesmo sendo
uma viagem curta, 1h30min de Curitiba, eu, meu irmão,
minha irmã e minha mãe ficávamos na praia por 3 meses
sem voltar para Curitiba. Durante todo esse tempo, o único
que voltava era meu pai por compromissos de trabalho.
Foi um período fantástico, cheio de amigos, aventuras,
às vezes pirraças e encrencas; eram, com certeza, os
melhores meses do ano.
Foi em um desses verões que tive minha primeira
experiência com o empreendedorismo, éramos ainda
dois “guris” como se diz aqui no sul, e nem sabíamos da
existência desse termo, empreender.
Nós ficávamos em um balneário, era um complexo
de casas, todas parecidas, com muros baixos, hoje
completamente mudado por causa da insegurança. O
balneário era dividido em dois por uma rodovia estadual,
não muito movimentada, era comum cruzar a estrada para
ir à casa de amigos, para a praia, ou ao bar do Cecon, que
ficava lá nos fundos de todas as casas. Não podia existir
lugar pior para construir um bar, mas na época era o que
tinha e por ser o único bar nas vizinhanças toda a molecada
do balneário ia se encontrar lá depois do almoço. Ficávamos
jogando sinuca, bola, tomando sorvete e refrigerante no
grande terreno que circundava o local.
O sr. Cecon, dono do bar, era conhecido por todos,
homem simples e honesto e no seu pequeno mundo
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reparou que nós ficávamos ali matando tempo e que esse
tempo poderia render algo se focado em outras tarefas.
Um dia ele chegou para nós e perguntou: “Querem ir
vender sorvete na praia? Para cada sorvete vendido vocês
ganham uma comissão.” Praticamente ninguém ia até
o bar, imagine se alguém na praia ia andar quase 1km,
cruzar uma rodovia para comprar um sorvete.
Aceitamos a proposta, lá fomos nós armados de
caixinhas de isopor, aquelas que parecem uma bolsa de
carteiro, para as areias da praia vender sorvete. Depois de
muito sol na cabeça e dor no ombro pelo peso do isopor
conseguíamos vender alguns, mas nada que mudasse
nossas vidas e muito menos a do Sr. Cecon, dono do bar.
Na verdade, foi ele quem mais ganhou com toda essa
história, simplesmente porque o dinheiro da comissão que
eles nos dava era gasto ali mesmo, comprando adivinha o
quê? Sorvetes.
Nos anos que seguiram tive outras experiências que
também nunca renderam algo duradouro em termos de
negócios, mas que ajudaram a moldar ideias e aprender
sempre mais sobre como levar um negócio. Na primeira
bolha da internet, lá pelo ano 2000, eu e meu irmão
pensamos em um site para estudantes, um lugar onde achar
conteúdo de estudos, fórum para discussões, eventos, etc…
o nome era “student” que por si só já virou um problema.
No pouco tempo que ficou online recebíamos vários
emails reclamando do nome, o pior é que não aprendemos
a lição e repetimos o mesmo erro com o nome alguns anos
depois. De qualquer maneira, a titulo de curiosidade, o site
“student“ foi o primeiro site de IP fixo hospedado na NET
aqui no Brasil.
Alguns anos mais tarde, já falo de 2004/2005, novamente
me associei com meu irmão na criação de um quiosque para
conversão de fitas VHS para DVD. Escolhemos o nome de
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“uCan” que se lido por um americano faria todo sentido
“você pode”, mas ninguém no Brasil se ligou na ideia do
nome e ficou no mínimo estranho, difícil de entender e
associar com os serviços.
Deixando o nome de lado, o negócio em si foi um
sucesso, naquele período eu ainda morava fora do Brasil,
então não participava do dia a dia da empresa. Eu cuidava
da parte de comunicação do projeto, mas também com
certos limites devido a distância.
O quiosque estava localizado na entrada de pedestres
de um grande shopping no centro de Curitiba, o produto
chefe era a conversão de fitas VHS para DVD, em poucas
semanas tínhamos uma fila de espera de 3 meses. Aos
poucos ainda fomos adicionando outros serviços como
xerox, impressões, scanner…. Os problemas porém não
demoraram a acontecer. Mais adiante você vai encontrar
um capítulo à parte somente sobre funcionários, esse foi o
ponto que mais tarde nos levaria a fechar o negócio.
Nós éramos 6 sócios e com todo mundo trabalhando
em paralelo sobrou para o meu irmão tocar o negócio
sozinho praticamente. Como ele também tinha seu trabalho
durante o dia, ficou difícil tocar o projeto, tomamos, então,
a decisão de fechar.
Ter uma loja em shopping sem poder bancar gerente de
loja e vendedores é para poucos, ou seja, esteja preparado
para trabalhar, trabalhar e trabalhar, sem fim de semana,
sem feriados, é muito puxado. Se você somar o investimento
de tempo com a falta de pessoas comprometidas, e nesse
caso ainda a ocorrência de furtos, fica complicado achar
forças para fazer acontecer.
Outra experiência que ficou marcada para mim foi
uma brincadeira lucrativa, que mais tarde se revelou útil
por me explicar o conceito de tribos. Ainda nos tempos
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de faculdade, íamos em quase todos os shows que
aconteciam na famosa pedreira em Curitiba. O lugar era
uma antiga pedreira mesmo, que a prefeitura transformou
em um espaço para eventos, mas esqueceram um
pequeno detalhe, estacionamento. Fato que se tornou uma
oportunidade para os comerciantes e moradores da região
que transformavam seus espaços em estacionamentos
durante os shows.
Nós deixávamos o carro estacionado sempre no
mesmo lugar, uma oficina mecânica e junto com nós dois
isopores grandes cheios de cerveja, era muita latinha para
pouca gente, nosso grupo não passava de 4 pessoas. Então
pensamos, que tal vender cerveja para as pessoas que iriam
para o show por um preço um pouco menor que os outros
vendedores? Na época ninguém tinha licença, permissão,
nada disso para poder vender, quem chegasse ali com um
isopor poderia vender o que quisesse.
Começamos a falar com as pessoas que passavam
que estávamos vendendo cerveja por um preço especial,
não lembro o valor exato, mas era algo em torno de
R$0,20 centavos a menos em relação aos outros. A voz
rapidamente se espalhou e vendemos tudo em questão
de minutos. Nós nem pensamos em analisar os motivos
do sucesso das vendas, nosso interesse era outro. Hoje,
porém, eu tenho certeza de que não foi o preço que vendeu
o “nosso produto”, foi um outro detalhe. Não colocamos
nenhum cartaz, nada ali na nossa rodinha remetia a
alguém que estivesse vendendo algo. A voz de “uns caras”
vendendo cerveja mais barata se espalhou. Nós criamos,
sem querer, uma sensação de exclusividade. Você só
compraria a cerveja mais barata se fizesse parte de um
grupo que sabia disso, você precisava fazer parte da nossa
tribo, um conceito de mercado que hoje rende produtos de
sucesso mais conhecidos como “invite only”, ou seja, você
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só tem acesso se consegue um convite para se inscrever.
Muitos produtos de sucesso que vemos hoje nasceram
com esse modelo de acesso, Gmail, por exemplo, foi um. O
produto pode ser o mesmo que tantos outros, mas o fato
de pertencer a um grupo exclusivo muda tudo, geralmente
esse fator é somado a um preço maior porque justifica o
limite de acesso, no nosso caso ficou melhor ainda porque
o produto era mais barato.
Foi ao mesmo tempo divertido e lucrativo, afinal
pagamos as cervejas vendidas, as que bebemos, o
estacionamento e os ingressos do show. Repetimos a dose
por mais dois shows, sempre com o mesmo sucesso, no
terceiro tivemos uma surpresa. O dono da oficina tinha
colocado um quiosque de uma marca famosa de cerveja,
em poucas palavras, perdemos o ponto.
DICAS
• Faça um levantamento dos seus conhecimentos, o que você
sabe fazer? Do que você gosta? Você pode trabalhar como
gerente de banco, mas o que você realmente gosta de fazer
é pintura.
• Colete informações, escreva, faça um caderno de ideias, seu
passado é a sua história.
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Noção do mundo
Comecei a trabalhar com 17 anos, desenhava rótulos
de embalagens de farinha, carvão, arroz, feijão em uma
grande fábrica de papel. Meu projeto na época era terminar
a faculdade e ir para a Itália, tinha um fascínio por esse
país, muito provavelmente por ser de origem italiana.
Essa viagem acabou acontecendo uns 5 meses depois de
formado, vendi meu carro para viajar por 1 mês na Europa
e parar na Itália para tentar um emprego e ficar por lá por
um tempo.
Essa viagem valeu por outras 10 faculdades, nenhuma
escola iria me ensinar o que aprendi nesse tempo fora do
Brasil. Eu acredito muito no fato de as pessoas nascerem
ou não empreendedoras, mas experiências como essas
são capazes de transformar qualquer um. Saber lidar
com situações inesperadas, novas, sem a possibilidade de
recorrer a conhecidos para pedir ajuda, aqueles momentos
em que seu olhar fica vazio e você se pergunta, e agora? o
que faço? Essa foi sem dúvida alguma a minha primeira
experiência séria de empreendedorismo, o produto nesse
caso era eu mesmo, o investimento meu carro, o lucro
minha vida.
Acabei morando na Itália por 7 anos, momentos
marcados também por outros dois fatos importantes, meu
casamento com a Mariana e a fundação da Luccaco *be
digital, empresa que ainda faz parte do meu dia-a-dia.
A própria Luccaco nasceu sem planejamento algum,
na época eu trabalhava como ilustrador em uma agência
que fazia sites e guias turísticos impressos. Em um dia
normal de trabalho eu recebi do meu pai um daqueles
famosos power-points com mensagens interessantes, esse
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em específico era baseado em um texto escrito por Donella
Meadows, em 1992. Ela teve uma idéia muito boa, diminuir
a população da terra para somente 1000 pessoas e a partir
desse número dividir a população em raça, religião, poder
aquisitivo, entre outros dados. O grande trunfo é que tudo
fica mais fácil de entender quando falamos de centenas e
não milhões, e a disparidade social e econômica do mundo
que em vivemos fica explícita para quem lê o texto.
Pois bem, eu peguei aquele power-point e transformei
em uma animação, coloquei fotos, animei os textos e
adicionei uma música, publiquei o video na internet, nada
de YouTube ou Vimeo, estamos falando de 2001, e mandei
o link para meu pai obviamente e para alguns amigos.
Lembre-se também que nessa época não existia redesocial, para algo ser chamado de viral, precisava entrar
em um ciclo de emails, um passando para o outro. E foi
exatamente isso que aconteceu, o video em dois meses
teve 500 mil visitas que na época era muito, o provider
cortou o servidor que o site estava hospedado e queria me
cobrar alguns mil dólares de hospedagem porque era tudo
baseado em banda consumida, entramos em um acordo e
tudo se resolveu. Passaram mais alguns meses e o video já
entrava na lista dos sites mais acessados do mundo, isso
mesmo, do mundo. Lembro muito bem de um relatório
em que o video aparecia junto com sites como Geocities
e Yahoo. O video agora já tinha sido visto por milhões de
pessoas, fizeram uma matéria na TV do Japão com uma
entrevista minha por telefone, foi horrível porque na época
mal falava inglês.
Foi quando alguém dentro da Organização
Internacional do Trabalho (sigla ILO em inglês) viu o
video e resolveu me contatar, eles queriam algo similar
mas com números referentes ao trabalho da organização
na luta contra o trabalho infantil.
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Na época eu ainda trabalhava nessa agência em Milão,
inventei uma desculpa para o chefe e junto com um amigo
pegamos o carro e partimos em direção a Genebra, onde
fica a sede da ILO. Sem experiência alguma de como fechar
um negócio, fui lá com uma proposta de uma folha, escrito
em inglês abaixo do nível básico, e mesmo assim escutei
de uma das pessoas na sala, “uau… essa é a proposta mais
clara que já vi nada vida”. Pronto, tinha conseguido fechar
o primeiro trabalho da futura Luccaco.
Os frutos do video foram ainda além, empresas e
escolas me procuravam porque queriam mostrar o video
em eventos, etc… pensei então em vender CDROMs com
projeto, o CD teria o video para exibir normalmente, um
screensaver que a pessoa poderia instalar no seu PC e
algumas imagens para desktop.
Vendia cada cópia por 10 euros, sem sistema de
e-commerce, nada, era comum eu ir no banco com
cheques de toda a parte do mundo para depositar, era
pura confiança, o cliente me mandava cheque ou dinheiro
por correio e quando eu recebia, mandava o CD. Além
desse método usei muito o PayPal que na verdade foi o
que movimentou tudo, consegui juntar alguns mil dólares
na venda dos CDs, algumas cópias foram para empresas
como Nokia, Nike e também grandes universidades.
Algum tempo mais tarde produzi camisetas, não foi
somente comprar camisetas e mandar serigrafar, procurei
uma confecção em Curitiba (já tinha voltado ao Brasil)
e fizemos tudo do jeito que eu queria, produzimos 300
camisetas, devo ter umas 20 comigo ainda, o resto foi
vendido pelos 4 cantos do planeta.
O projeto existe até hoje, mas não vendo mais nada
relacionado ao tema, existem várias versões que foram
adaptadas no YouTube, a original é “The Miniature Earth
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- Oficial Version” o vídeo pode ser visto no link www.
miniature-earth.com
Ou seja, a Luccaco é fruto de um experimento, a
vontade de fazer algo diferente. Depois de todos esses anos
nos especializamos em produtos digitais, leia-se websites,
aplicativos para celulares, tablets, revistas digitais, etc…
trabalhamos com grandes organizações na Europa, nos
EUA e aqui no Brasil também.
Espero já tenho ficado claro do porque do nome do
livro, sem planejamento algum me envolvi em histórias
magníficas, mas nenhuma delas foi tão desafiadora e
divertida como um projeto relacionado ao mundo dos
cães, esses seres fascinantes que nos dão tudo e não
esperam nada em troca, somente respeito. Eu cresci com
cães na família, e depois de alguns anos morando com a
minha esposa resolvemos que era hora de um membro
peludo entrar para a nossa matilha, esse foi um marco que
digamos moldou as nossas escolhas de vida desde então.
Apresento Jack, o terrorista, odeia outros cães, já
tentamos adestrar com dois profissionais diferentes, nada,
tentei a medicina normal e nada, testamos a medicina floral
e nada, li uns 10 livros diferentes sobre comportamento
canino, e nada, o Jack não muda. A sorte, entretanto, é que
ele é um figura, não tem quem olhe pra ele e não dê uma
risadinha. Com dois anos de idade já foi pai e a Apple,
sua filha, também acabou encontrando seu lugar na nossa
família, são nossos dois filhos peludos.
Foi com o Jack, que vimos nascer uma oportunidade,
assim que começamos a frequentar o mundo das petshops,
consultórios veterinários, parques, etc… fomos reparando
que existia um mercado carente de inovação, parecia
que tudo era feito como há 20 anos, mesmos produtos,
mesmos procedimentos, mesmos conceitos. Nem eu, nem
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a Mariana temos formação em veterinária, também nunca
tivemos nenhuma experiência com comércio, mas quase
que inconscientemente fomos filtrando essas informações,
até que um dia resolvemos nos jogar de cabeça em um
projeto cheio de riscos, mas que nos daria uma imensa
satisfação de fazer acontecer.
DICAS
• Abra sua mente para novas experiências.
• Procure aprender outras línguas, é uma porta aberta para
conhecer outros mundos.
• Adote um cão, são seres magníficos que só nos ensinam
coisas boas. :)
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Uma bandana QUE MUDARIA TUDO
Na época em que pegamos o Jack, a Mariana trabalhava
em uma multinacional alemã, gastava uma hora no transito
para ir até o trabalho e mais uma ou até uma hora e meia
para voltar para casa, eu tive mais sorte, trabalhava perto
de casa, ia caminhando para o escritório. Pensei então que
poderia levá-lo comigo, assim não precisaria ficar o dia
todo sozinho em casa, era eu e o Jack para cima e para baixo,
hoje todo mundo ali no bairro nos conhecem. O tempo foi
passando e ele cada dia mais fazendo parte do meu dia a
dia, acho que foi por isso que comecei a procurar algum
elemento que o deixasse mais humano, acabei pensando
em uma bandana, dessas estilo motoqueiro. Começamos
então a visitar algumas petshops em busca do acessório.
Não demorou muito para constatar o fato de que
já tínhamos notado meses atrás. As petshops tinham
sempre os mesmos produtos, na grande maioria feios,
mal acabados, sem criatividade alguma, o único fator de
escolha entre elas era proximidade de casa e preço porque
as opções eram sempre as mesmas.
Desistimos da procura e acabei parando na Amazon.com
(site de compras online), foi como se um novo mundo
aparecesse na nossa frente. Bandanas dos mais variados
tipos, cores e tamanhos e quando começamos a ver os
produtos relacionados ficamos mais impressionados ainda,
eram produtos que nem imaginávamos que existissem,
roupas de grife, fantasias, perfumes e até biscoitos que
não perdem em nada se comparado às opções para nós
humanos.
Ficamos literalmente bobos com a quantidade de
opções, mas toda essa informação ainda estava sendo
analisada por nós como consumidores somente, não
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tínhamos ainda pensado que um dia isso poderia virar um
negócio.
Em uma das tantas caminhadas com o Jack, sempre
perto de onde moramos, passei na frente de uma casa
antiga com dois senhores fazendo a reforma desse lugar.
A construção era dos anos 60, típica casa de família,
antiga, muito simpática, mas ficou anos abandonada e
acabou virando ponto de lixo. O imóvel estava na área
mais nobre da cidade, o bairro do Batel em Curitiba, então
não demorou muito para a prefeitura notar o abandono e
multar o proprietário com a ordem de revitalizar o local,
era isso que estavam fazendo quando passei ali na frente.
O imóvel estava sendo dividido em 3 unidades, todas com
a frente para a rua, e mesmo não sendo na avenida principal
o lugar tinha um charme todo particular. Parei, troquei
umas palavrinhas com os dois senhores, peguei o número
do proprietário e liguei para saber detalhes sobre aluguel,
disponibilidade, etc… Um detalhe importante, é que fiz isso
sem ainda ter algum projeto na cabeça, foi pura curiosidade.
A estrutura do local ainda iria precisar de muito
trabalho, mas como o ponto era bom, tinha certeza de que
não ficaria muito tempo no mercado. Mostrei o imóvel
para a Mariana e ficamos somente imaginando que tipo
de negócio poderia funcionar ali. Passaram-se algumas
semanas e nada que nos levasse a encarar o desafio de
montar alguma coisa ali.
DICAS
• Procure não forçar uma ideia, ela um dia vai aparecer na sua
frente.
• Não deixe de lado um projeto simplesmente porque você não
tem experiência alguma na área.
• Faça, se precisar ligar, ligue, se precisar parar e perguntar,
pare, não dependa dos outros, vá atrás você mesmo.
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VALIDAR UMA IDEIA
Considero-me um homem de sorte por ter minha
esposa ao meu lado, a Mariana me acompanhou em todas
as aventuras sejam viagens, negócios, sempre discutimos
tudo, do que vamos jantar até planos de largar um emprego
para apostar em um novo projeto.
Foram essas conversas que ajudaram a moldar nossos
objetivos e aspirações, sabíamos que de um lado ela tinha
um bom trabalho, em uma grande empresa, mas qualidade
de vida quase zero, horas no trânsito para passar o dia
inteiro dentro de um escritório, voltar para casa de noite
e repetir o ritual todo santo dia, não queríamos isso para
nossas vidas.
Do outro lado, nós dois com muita vontade de
empreender, eu particularmente gostaria de experimentar
o mundo do comércio, sempre estive no meio de serviços,
tinha muita curiosidade de vender produtos, montar um
layout de loja, marketing de varejo, campanhas, ofertas….
Não demorou muito para processarmos todas aquelas
informações que tinham ficado guardadas nas nossas
cabeças, a equação foi bem simples:
Adoramos cães + Não achamos nada legal para eles aqui +
Sabemos que existe uma variedade enorme de produtos no
exterior + Temos vontade de criar algo relacionado ao comércio
+ Conhecemos um ponto disponível no bairro nobre da cidade =
Pet Boutique
Não está escrito errado, é Pet Boutique mesmo, o
conceito de PetShop não traduzia a ideia que tínhamos
para o nosso negócio, e mesmo tendo uma boa ideia do
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que gostaríamos de fazer, tínhamos a nossa frente uma
série de “nãos”:
• Não conhecíamos o mercado pet;
• Não tínhamos experiência alguma com comércio;
• Não tínhamos um plano de negócios;
• Não tínhamos um plano de saída;
• Não tínhamos capital;
Mesmo assim, tomamos nossa decisão e dessa vez
não iríamos seguir os passos que nos fizeram desistir de
outras ideias. Você sempre escuta pessoas de sucesso
dizendo que precisa antes de tudo montar um plano de
negócios, era o que fazíamos, mas no meio do caminho
sempre acabavámos desistindo. Dessa vez ia ser diferente,
nosso plano era um só, correr atrás de uma ideia e fazê-la
acontecer.
Era hora, então, de sair de cima do muro. Decidimos
que eu iria tomar conta da obra enquanto a Mariana
mantinha seu emprego e assim que toda a estrutura
estivesse pronta ela pediria demissão. Nesse meio tempo
procuramos fazer alguns cursos no Sebrae, fluxo de caixa
foi um deles, importantíssimo para qualquer negócio, o
qual recomendo a todos.
Dois meses depois da decisão estava tudo pronto,
durante o dia tocava meu estúdio e cuidava da obra, à noite
depois que ela chegava em casa, procurávamos produtos
online e fazíamos os pedidos, também preparávamos
todo o resto, sacolas, aventais, papelaria, até os cabides
mandamos fazer, eram todos em formato de osso, fomos
até uma feira de artesanato local e achamos um artesão
que conseguiu fazer o que queríamos. Nosso apartamento
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ficou cheio de caixas de produtos que importamos da
China e dos Estados Unidos, somente produtos exclusivos
que você não encontraria em nenhuma outra pet do Brasil.
Nascia a Woof! Que hoje em dia opera sob outro nome,
mais para frente explicarei o porquê.
Fachada da loja em 2009
DICAS
• Procure diferenciais.
• Quebre paradigmas, o cliente nem sempre sabe o que quer.
• Saia da sua zona de conforto.
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Portas Abertas
Sobreviver à reforma de um imóvel e montagem de
uma loja garante a você imunização a muitas pragas que
podem atingi-lo durante todo o processo de abertura de
um negócio. A lista de tarefas é longa, inclui: documentos,
financiamentos, licenças, alvarás e um dos pontos mais
importantes, a escolha de um nome.
Tínhamos várias opções, mas queríamos de algum
modo manter simples, pensamos então como poderia
ser “Au!” em outras línguas, acabamos com Woof! que
é tradução do au para o inglês, e mesmo esquentando a
cabeça com isso ainda acho que não se compara ao estresse
da reforma em si, falta de mão de obra séria, o pessoal
aparece um dia para trabalhar e no outro simplesmente
some, serviços mal feitos, preços absurdamente caros,
prazos, correção de projeto e por aí vai.
No nosso caso, foi especialmente doloroso porque o
proprietário nos deu o imóvel completamente cru, nem
fiação tinha, tivemos que montar tudo, patente, torneiras,
piso, alinhar paredes, encanamento…, foram 2 meses
que serviram como um curso intensivo de reforma. Não
bastassem esses problemas, todo dia chegava uma nova
conta para pagar, nosso orçamento para montar a loja era
de R$60.000,00 - no fim acabamos gastando R$80.000,00.
Posso pelo menos afirmar sem medo nenhum que ficou
espetacular, tínhamos criado algo sem comparação no
Brasil, quem teve a oportunidade de nos visitar em Curitiba
sabe do que estou falando.
A Woof! era diferente, a arquitetura do local lembrava
uma boutique de moda, 90% dos produtos à venda eram
importados, desde coleiras da Harley Davidson até
camisas polo da Raulph Lauren. Outro item exclusivo era
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o fato de não termos banho&tosa, isso fazia parte da nossa
estratégia, não queríamos que a loja tivesse aquele cheiro
característico de PetShop.
Passamos o último dia organizando a loja, não
conseguimos nem colocar os preços para a festa de
inauguração que estava marcada para acontecer no
dia seguinte, ou seja, abrimos a loja sem preços nas
mercadorias.
A festa foi somente para amigos e familiares, mas não
pelo fato de que quiséssemos assim, é que na verdade não
tínhamos mais dinheiro para contratar uma assessoria de
imprensa, ou seja, nada de gente famosa ou artigos em
jornais, teríamos que escalar a montanha pelo lado mais
difícil. E assim, no dia 1 de fevereiro de 2009, abrimos as
portas! Mas praticamente ninguém ficou sabendo.
DICAS
• Não siga um caminho, faça o seu e deixe seu rastro.
• Em todos os mercados ainda existe espaço para inovar.
• A sua vontade de fazer acontecer deve ser inversamente
proporcional ao tamanho dos problemas que você vai
enfrentar.
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Filhos peludos
Nosso público-alvo estava bem definido, pela
localização, estilo e produtos, pessoas de classe média alta
para cima, que tratam seus cães como se fossem filhos. É
uma tendência em países mais desenvolvidos e emergentes
ver pessoas casando mais tarde, tendo filhos mais tarde ou
até optando por não ter filhos. Muitas vezes, esses casais
preenchem esse espaço com bichinhos de estimação que
na grande maioria dos casos são cães.
Essa prática leva ao que chamamos de humanização,
ou seja, a tendência de espelhar no cão comportamentos
que são específicos dos humanos. Isso acontece de diversas
formas, comprar roupinhas, coleiras com brilhantes,
uma caminha superconfortável, banho de ofurô, cremes
hidratantes e por aí vai. Na minha opinião, existe exagero
por parte de alguns, tínhamos um cliente que só dava água
mineral para o seu cãozinho, mas mesmo assim eu prefiro
ver um cão mimado do que maltratado.
Sem dinheiro para campanhas de marketing,
começamos a fazer pequenas ações. A primeira foi o
“Blocão de Carnaval”, fizemos um esforço enorme para
conseguir reunir uns 20 cachorros na praça que ficava atrás
da loja, contratamos uma banda de marchinhas de carnaval
e ficamos ali curtindo com o pessoal. Nossa intenção era
de comunicar a loja obviamente e tentar vender algumas
fantasias, coisa que não aconteceu.
Porém, algo ainda melhor aconteceria naquele evento,
uma emissora de TV local ficou sabendo da festa e veio
correndo para fazer uma entrevista, a matéria foi ao ar
na mesma noite, não temos ideia de quanta gente viu o
jornal, mas para nós foi uma grande conquista, foi a partir
desse momento que começamos a criar uma imagem que
26
acompanha a loja até hoje - Quer algo diferente? Vai na
Woof! que você acha.
A falta de um plano de negócios nos levou a descobrir
fatos que muito provavelmente poderíamos ter resolvido
antes de montar o negócio, mas tenho a convicção de que
o tempo que perderíamos para levantar esses dados seria
muito maior se comparado ao tempo que levamos para
buscar soluções e buscar soluções.
Por exemplo, o fluxo de pessoas na frente da loja
era praticamente zero, não estávamos em uma área de
comércio, mas simplesmente em uma região rica e bonita
da cidade, que tenta se tornar um centro de comércio de
rua, entretanto enfrenta muitos obstáculos para fazer
isso acontecer. A solução foi comunicar direto com os
moradores da região, de preferência com aqueles que têm
um cão em casa. Fizemos isso com panfletos, eu pegava
o Jack e ia andar pelo bairro pedindo aos porteiros para
deixar uns panfletos nos apartamentos e nas recepções. Eu
e a Mariana também fomos algumas vezes no chamado
“parcão” em Curitiba, um lugar onde as pessoas levam
seus cães para brincar, íamos de um a um entregando
panfletos.
Além da falta de movimento, para entrar na loja você
precisava subir 5 degraus, se você consultar um arquiteto
ele vai dizer que cada degrau representa 5% a menos de
pessoas que entram na sua loja. Não tinha muito o que
podíamos fazer nessa questão, procurei então diminuir o
problema tentando chamar a atenção das pessoas, fizemos
isso montando um display de um Dálmata sentado
em tamanho real segurando na boca um quadro negro
pequeno em que escrevíamos promoções, etc… Quem
passava de carro ou até mesmo a pé às vezes confundia
o display com um cão de verdade. Não posso afirmar que
percebemos grandes mudanças, mas pelo menos sabia que
27
os poucos que passavam por ali saberiam que aquela loja
depois dos degraus era uma pet.
O resultado dessas ações de comunicação foi aparecendo
devagarinho, o boca a boca foi na verdade a nossa melhor
publicidade e com isso fomos conseguindo espaço na mídia
também. Todos queriam saber um pouco mais sobre aquele
produto de marca, o qual ninguém imaginava que existisse
para cães. O maior jornal da cidade, praticamente toda
semana, passava na loja para fotografar algum acessório e
colocar no caderno animal que é publicado todo sábado.
Esse mesmo jornal, todo ano faz um concurso chamado
“cachorro do ano”, fomos convidados para organizar um
desfile no evento de premiação, foi uma loucura completa
conseguir coordenar o evento, mas no fim saiu tudo certo e
o desfile foi um sucesso.
Tentamos algumas vezes anúncios em revistas
locais, essas que pipocam por aí em consultórios, salões
de beleza…. Os vendedores de anúncios dessas revistas
são bem insistentes para não usar outro termo e nós
comerciantes, ingênuos, geralmente entramos na história
espetacular da revista e investimos nesses produtos que,
pelo menos no nosso caso, não deram retorno algum. Pelo
simples fato de que essas revistas não têm um target bem
definido, eles disparam para todos os lados, montam algo
para classe AA, porém distribuem a revista em qualquer
lugar, colocam matéria de culinária do lado de uma de
carro, e geralmente essas matérias são pagas. Repare que
se você está lendo sobre uma matéria de alta cozinha
francesa, nas páginas seguintes vai ter o anúncio de um
restaurante francês, é tudo assim, combinado, pago,
ineficiente, na verdade, sua marca está ali para fazer parte
de uma bolha, status não significa vendas.
É diferente se você analisar pelo lado de conceito de
marca, se o seu objetivo é criar um produto que se encaixe
28
em um específico nicho de luxo, por exemplo, esse é um
investimento que deve ser considerado sim, você está
criando uma marca nesse caso, é um longo caminho, ao
contrário da imediatez de uma venda.
Na medida em que fomos aumentando nossa clientela,
começamos a perceber que a falta de banho&tosa era mais
danosa para o negócio que o fato de a loja não ter cheiro
característico de petshop. As pessoas estão acostumadas
a resolver todas as necessidades de seus cães no mesmo
lugar, acessórios, alimentação, banho&tosa e veterinário,
esse último um ponto que iríamos incluir no nosso projeto
mais tarde.
Precisávamos corrigir a nossa rota mais uma vez,
felizmente já tínhamos um espaço reservado para o
banho&tosa, resolvemos então construir uma banheira e
compramos todos os materiais necessários.
Abrir o banho&tosa significava mudar a estrutura
do nosso negócio, a maior delas era a inclusão de um
serviço, item que eu preferia deixar de lado, eu queria
lidar com comércio somente, já tenho meu estúdio que
vende serviços. Além disso, também precisaríamos de
funcionários, pelo menos um no início, assim a Mariana
continuaria na loja atendendo e essa pessoa ficaria
responsável pelo banho&tosa. O último fator era o
investimento, já estávamos muito apertados pela recente
inauguração, ter que comprar equipamentos, reformar o
espaço de banho e ainda contratar um profissional seria
bem complicado.
Mesmo assim, evitamos a calculadora e novamente
fomos lá e fizemos, tínhamos que antes de qualquer coisa
oferecer algo que nenhuma outra pet oferecia. Começamos
a analisar o passo a passo de um banho&tosa completo,
o percurso é mais ou menos assim: o cão chega à loja,
29
o cliente pede o serviço, o cão é então levado até a área
de banho onde espera sua vez, entra no banho, água,
shampoo, hidratante, escova os dentes, limpa orelha, seca,
se for preciso é tosado, corta as unhas, passa perfume e
está pronto para voltar pra casa.
Nós tínhamos que individualizar esses passos e aplicar
diferenciais para o nosso serviço. Quem tem um cão, sabe
que a hora do banho é geralmente muito estressante, eles
ficam às vezes por horas fechados em gaiolas em um
ambiente barulhento e quente. Eu tinha consciência que
resolver por completo o estresse do banho era uma tarefa
quase impossível, mas como poderíamos pelo menos
diminuir essa experiência infeliz? Definimos alguns
itens que teriam o nosso toque e que se tornariam nossos
diferenciais:
• Ambiente livre de gaiolas, mandamos construir
berços em PVC, se com a gaiola padrão poderíamos
ter 15 cachorros, com os berços teríamos 5 somente.
Ofereceríamos qualidade não quantidade;
• Chamar o cão pelo seu nome, sempre;
• Ar-condicionado na área de banho também;
• Montamos essa área em uma espécie de mezanino,
facilitando a saída do cheiro, por mais que em dias
muito movimentados podíamos sentir, era bem mais
suave que qualquer outra pet que você fosse visitar;
• Só trabalharíamos com produtos de qualidade;
• E a cerejinha no bolo, cães machos sairiam do banho
com bandanas superlegais enquanto as fêmeas saíam
com colarzinhos e lacinhos exclusivamente feitos para
nossos clientes.
Não queríamos simplesmente oferecer aquelas
gravatinhas indecentes que vemos nas pets, buscávamos
30
algo diferente e mais uma vez o mercado não oferecia
isso. A Mariana foi atrás e fazia os acessórios ela mesma.
Mais pra frente achamos alguns fornecedores que nos
ajudariam, mas volta e meia precisávamos de algo novo e
lá ia a Mariana inventar novos acessórios. Os mais famosos
foram da Festa Junina e da Páscoa. Lembro muito bem de
clientes que apareciam de longe porque tinham ouvido
falar dos nossos “mimos“, em datas específicas como festa
junina e páscoa a procura era ainda maior.
O início do banho&tosa foi bastante difícil, resolvemos
que ao invés de contratar alguém iríamos pagar um curso
para a minha irmã, nos sentíamos mais tranquilo em saber
que alguém da família ia cuidar de seres tão preciosos para
nós e para nossos clientes.
Depois de poucos meses entre curso e reforma, chegou
a hora de testar nosso novo serviço e não queria fazer
isso com qualquer um, precisava ser com alguém que eu
pudesse depois perguntar, e aí, como foi? Alguém sem
medo para me dizer se foi um serviço bem feito ou precisava
melhorar. Peguei o telefone e liguei para um casal de
grandes amigos, não precisei pedir duas vezes, lá estava o
Lupi Lupan com seu problema sério de coluna pronto para
testar nosso banho&tosa, eu não ficava toda hora na loja,
mas fiz questão de estar presente nesse momento, ajudei
minha irmã e tentando manter a calma pedi o veredicto
aos “pais” do Lupi. O serviço foi bom, mas tinha espaço
para melhorar e muito, era hora de começar a espalhar a
voz e fazer todo esse investimento trabalhar para nós.
Focamos na qualidade e no bem-estar dos cães, o preço
tanto do banho como da tosa era sempre um pouco mais
alto que nos outros lugares, mas o boca a boca anulou
o fator “mais caro”, e foi mais uma vez a nossa melhor
ferramenta de marketing. Tínhamos clientes que vinham
do outro lado da cidade e casos que por comodidade o
31
cliente levava seu cão em outra pet, mas voltava correndo
dizendo que ninguém dava o banho que nós dávamos.
Agora, um dos pontos que me deixa mais orgulhoso é o
fato de ter visto 3 acidentes pequenos em 4 anos de loja, era
a prova que procurávamos fazer um serviço de qualidade
e não de quantidade.
DICAS
• Não invista todo seu tempo em planejamento, faça e se
preciso for, corrija a rota;
• Avalie bem onde e como comunicar seu produto/serviço,
existem muitas armadilhas por aí, mídias caríssimas sem
retorno algum;
• Peça sugestões, conselhos a amigos, familiares, clientes
mais próximos, não pense que você é o dono da razão, eles
podem ajudar no sucesso do seu negócio;
• O preço também é um diferencial que pode ser explorado.
32
COLABORADORES
Esse assunto merece um capítulo a parte, você não
consegue escalar seu negócio se não existirem pessoas
preparadas e honestas ao seu lado. Nós tentamos atrasar
o possível a contratação de mais gente, mas chega uma
hora que se torna necessidade e é aqui que você começa a
pensar duas vezes sobre crescer ou não.
Lidar com gente é difícil, não se iluda, as poucas
vezes que pensei em desistir de tudo foi por problemas
com empregados. Falta de compromisso, honestidade,
seriedade, empenho, a lista é grande… gente que você tenta
ajudar, mas em troca recebe um puxão de tapete. Nunca
espere das pessoas aquilo que você faria em determinadas
situações, a queda nesses casos é sempre maior.
Como contornar essa situação? Não sei. Procuro sempre
me informar, aprender métodos que conectem mais os
funcionários à empresa e mesmo tentando entender essa
relação, vejo que realmente é um casamento complicado.
Felizmente, claro, ainda existem pessoas boas; graças a
esses poucos iluminados que buscam uma oportunidade
é que conseguimos forças para tocar o barco para frente.
A loja tinha acabado de completar 1 ano quando a
Mariana ficou grávida, começamos a buscar alguém para
substituí-la, não foi fácil, ela parou de ir na loja no 9º mês
de gravidez, praticamente parou para ir para o hospital.
Nesse período tínhamos a Rose que cuidava da parte
de banho&tosa, minha irmã mudou de cidade e teve
que nos deixar. Contratamos a Gisele para inicialmente
substituir a Mariana nos primeiros meses de vida da nossa
filha, mas ela acabou nos acompanhando por anos, foi,
mesmo assim um período complicado. Eu não podia ficar
na loja, e as vendas caíam sem nenhum aparente motivo a
33
não ser simplesmente o fato de a Mariana não estar lá. A
loja conseguia com muito esforço pagar suas contas. Eu e a
Mariana até então não tínhamos pego salário algum, nem
um centavo.
Sei muito bem que em todo planejamento os
especialistas dizem “o dono precisa ganhar um salário”,
mas eu iria deixar de pagar contas e salários para nos
pagar e correr o risco de fechar? Não! nós acreditávamos
no projeto e sabíamos que um dia tudo entraria nos eixos,
tivemos que esperar mais do que pensamos por causa da
pausa da gravidez, mas continuamos focados em fazer a
coisa acontecer.
DICAS
• Tenha paciência, lidar com gente é uma das tarefas mais
difíceis em qualquer negócio;
• Pessoas mais velhas tendem a ser mais empenhadas, as
responsabilidades são maiores;
• Mantenha o foco, você montou um novo negócio para ganhar
um salário ou para criar algo novo? O dinheiro deve ser
consequência.
34
Passo de gigante
No segundo ano da loja recebemos alguns contatos
de empresas que montam projetos de franquias, chamou
a atenção deles o fato de ser uma pet diferente em um
mercado que não para de crescer no Brasil. Montar um
projeto de franquia não é muito simples, requer tempo,
organização e dinheiro.
Você precisa normalizar tudo, desde o fluxo dos clientes,
os equipamentos usados, o layout da loja, a comunicação,
os uniformes, o treinamento dos funcionários, os sistemas
de venda, fornecedores… A sugestão da franquia apareceu
quase na mesma hora de outro convite inusitado, que nos
fez tomar outro rumo e mais uma vez virou nossas vidas
de cabeça para baixo.
Uma grande empresa no ramo de administração de
shopping centers tinha acabado de comprar o shopping
mais elitizado de Curitiba, que estava na verdade falido.
Essa empresa já tinha feito vários desses “extreme
makeovers”, eles compram um shopping meio mal das
pernas, reformam tudo, colocam novas lojas, fazem uma
nova campanha de comunicação e voilà, o shopping é
de novo um sucesso. A pessoa encarregada pela venda
dos espaços do shopping nos ligou e explicou a ideia,
praticamente era de pegar o espaço de uma antiga pet, que
já tinha fechado, no piso da garagem e abrir a loja ali. A
nossa primeira reação foi de conquista, ficamos sabendo que
duas petshops já tinham contatado a nova administração
querendo alugar o espaço, mas eles queriam algo diferente
e acharam esse conceito na nossa loja somente.
Agora, porque sairíamos de um lugar charmoso,
já conhecido pelos nossos clientes para se meter em um
shopping com seus horários malucos e custos exorbitantes?
35
Foi uma pergunta que precisou de alguma reflexão,
analisamos alguns pontos.
Pontos Negativos de ter uma loja em shopping
• Horários, shopping praticamente nunca fecha e se você
não abrir prepara-se para uma multa bem salgada. Ou
seja, seu funcionário faltou? Corra para abrir a loja;
• O custo do aluguel é bem maior se comparado a uma
loja de rua;
• Você paga o 13º aluguel, isso mesmo, e aluguel de
shopping não é barato;
• Existe um outro custo que é o condomínio, que também
não é baixo.
Pontos Positivos
• O fluxo de pessoas no nosso caso seria aproximadamente
20 vezes maior;
• O espaço disponível também seria maior;
• Estacionamento (que por sinal era bem complicado na
loja de rua);
• Segurança (sofremos um assalto a mão armada em plena
tarde na rua);
• Custo, o fato do shopping ter nos procurado nos ajudou
muito na negociação dos valores.
Entre os itens da lista, o que mais pesou na nossa
escolha foi com certeza o fluxo de pessoas, teríamos a
chance de crescer a base de clientes facilmente. Com mais
espaço disponível também iríamos conseguir adicionar
mais dois serviços, o DayCare, uma espécie de creche
36
para as pessoas deixarem seus cães ali por algumas horas
e um consultório veterinário que até então também não
tínhamos.
E dinheiro? Não tínhamos nem conseguido pagar o
investimento da primeira loja, como iríamos conseguir
mais R$150.000,00 para montar a nova? Dessa vez tivemos
que gastar algumas horas em planejamento, fizemos
alguns cálculos baseados no fluxo e ticket médio dos nossos
clientes e mesmo sabendo dos riscos (shopping falido, má
reputação da pet que estava instalada ali antes e falta de
dinheiro) resolvemos de novo mergulhar de cabeça.
O dinheiro necessário viria de 3 fontes: cartão BNDES
para pagar o que desse da obra, móveis, sistema de ar,
iluminação, etc… não deu para pagar tudo porque existem
limitações no uso do cartão e nem todas as empresas
aceitam. Conseguimos vender as instalações da loja de rua
por R$ 80.000,00 e tivemos ainda que emprestar mais R$
14.000,00 para cobrir o que faltou, lá se foi o nosso carro.
Montar uma loja em shopping é completamente
diferente de uma loja na rua, existem regras e horários
específicos, tudo acontece das 22h até as 9h do dia seguinte,
sem negociação, o contrato estipula também um dia certo
de abertura, se você não conseguir abrir na data, leva
multa aplicada por dia. Você precisa ter um arquiteto e um
engenheiro responsável, algumas papeladas e burocracia.
Precisa montar um tapume em volta de toda a loja para
as pessoas não verem o que acontece lá dentro, e só aí já
foram R$4.000,00 - jogados no lixo, porque depois da obra
pronta os tapumes são reutilizados pelo fornecedor, não
por você.
O estado do local era lamentável, sujo, fedorento, na
reforma tiramos tudo, até a fiação foi direto para o lixo,
refizemos a loja inteira, a única coisa que ficou foram os
37
vidros da vitrine. Instalamos um sistema de ventilação
na área do banho para que o cheiro não ficasse forte,
fizemos as banheiras para banho de uma maneira que não
maltratasse as costas dos tosadores, e mantivemos o nosso
conceito de sem gaiolas instalando bercinhos, dessa vez,
feitos em vidro que ficaram superbacanas.
Foram meses de loucura total, eu costumo dizer que
se não tive um infarto nessa época, não vou mais ter.
Tínhamos uma loja funcionando na rua, meu escritório
e seus projetos, uma filha recém-nascida e uma obra de
100M² em shopping com prazo definido de abertura.
Foi um período turbulento. Tivemos que rever, refazer,
cancelar, adaptar, brigar, dar risada, sair de casa às 23h e
voltar às 3h como zumbis, acordar de noite para controlar
nossa pequena, e às 7h estar em pé porque o dia lá fora
continuava normalmente.
Deparamo-nos ainda com a total falta de
profissionalismo de uma empresa que até então era nossa
fornecedora, acabou que tivemos que mudar o nome da
loja por causa disso, o que no fim revelou-se como um
fator positivo, o novo nome era ainda mais direto, claro e
de fácil pronúncia.
Na noite anterior à inauguração, lembro-me de chegar
à loja e vê-la cheia de entulhos e gente, aquilo parecia
uma casa de loucos, era gente para todos os lados, quem
dava o último retoque na pintura, quem ajeitava as luzes
da vitrine, quem consertava as portas, os móveis… e eu
ainda indo pra cima e pra baixo pegando as coisas da
nossa loja da rua e levando para o shopping, detalhe que
fiz isso sozinho, ou seja, quer empreender, prepare-se para
arregaçar as mangas e não espere ajuda de ninguém, ela
raramente aparece.
O último item que colocamos na nova loja foi um quadro,
38
uma pintura a óleo do Jack, e esse quadro tem uma história
que vale a pena ser contada. Nos anos de loja na rua, uma
pintora de outra cidade mandava emails para a Mariana
dizendo que ela fazia retratos de cães a óleo e sempre
mandava alguns exemplos por fotografia. Nossa reação
sempre foi a mesma - ok, se alguém um dia pedir, sabemos
quem indicar - mas nosso contato nunca foi além disso.
Como recebemos a loja (esq.) e depois da reforma (dir.)
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Exatos 3 dias antes de inaugurarmos a loja no shopping,
a pintora envia um outro email, dessa vez com uma pintura
do Jack, não lembro agora, onde ela conseguiu a foto dele,
mas a pintura ficou espetacular, um retrato a óleo do Jack,
o cão que mudou nossas vidas, isso merecia destaque,
precisava daquela pintura no nosso novo espaço. Liguei
para ela na hora e por sorte ela se encontrava a 3 horas
de carro de Curitiba, não pensei duas vezes, fui até Santa
Catarina buscar o quadro que já tinha lugar marcado na
loja, já na entrada, com um pequeno detalhe, logo abaixo
colocamos uma placa escrita “Fundador”, foi um sucesso.
DICAS
• Procure ter uma válvula de escape, seja praticando esporte,
caminhando com seus cães… ninguém é de ferro.
• Avalie o impacto das suas decisões no seu dia a dia, o
quanto isso afeta a sua família. Vale a pena?
• Seja coerente, não abra uma loja de luxo em um shopping
popular.
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Mais novidades
Na nova loja, era obrigação manter o nosso já tradicional
histórico de inovação. Dessa vez seria com o consultório
veterinário, minha ideia era a seguinte, porque ter uma
sala escura nos fundos da loja e alugar esse espaço para
um recém-formado em veterinária se temos um espaço
super- moderno para explorar? Foi então que decidi entrar
em contato com os dois maiores hospitais veterinários
de Curitiba, o primeiro me pediu para deixar recado e
não retornou, o segundo gostou da ideia e começamos a
conversar sobre como colocar em prática o projeto.
Basicamente, iríamos abrir uma filial express daquele
que é o maior hospital veterinário do Sul do Brasil, a
ideia era aconselhar os clientes do hospital a usarem o
ponto express para rápidas consultas, exemplo: vacinas,
antipulgas, consultas rápidas. Tivemos que trabalhar
um pouco na questão de contrato, etc… mas no fim deu
tudo certo, éramos a primeira pet com uma filial do maior
hospital veterinário do Sul do Brasil no mesmo espaço.
Essa foi, porém, uma ideia que não funcionou, no
decorrer do tempo começamos a notar alguns problemas,
que acabaram no cancelamento dessa parceria. O
consultório acabou ficando esquecido, não tinha
medicamentos, a veterinária trabalhava poucas horas por
dia, não eram feitas campanhas, nada. Tentamos ajustar
a rota umas três vezes, mas não teve jeito, tivemos que
aceitar a realidade que aquilo não estava funcionando.
Tive a sorte, entretanto, de conhecer um empreendedor
como poucos, o dono do hospital que me ajudou a analisar
a situação e decidimos por encerrar a parceria.
Tínhamos de qualquer maneira uma loja impecável,
banho e tosa elogiado por todos, produtos exclusivos e
41
artigos em jornais e revistas. Não demorou muito para
começarmos a incomodar o mercado pet da região, esse
incômodo da concorrência começou a aparecer na forma
de cópia, começaram a vender produtos que até pouco
tempo só nós tínhamos, mas isso faz parte, o que mais me
incomodava na época era o assédio aos nossos profissionais
e as visitas “secretas”, lojistas que vinham sondar a loja.
O cúmulo foi quando uma senhora começou a filmar a
loja do lado de fora, mas ela não percebeu que a máquina
acende a luz vermelha quando está gravando, o pior é que
ela procurava disfarçar, como se estivesse falando com
uma amiga sua, a Mariana foi até ela e perguntou se ela
estava filmando, toda sem jeito disse obviamente que não.
De um lado isso era chato, claro, mas de outro nos dava
a certeza de que tínhamos acertado na fórmula, afinal, se
estavam procurando nos copiar é porque algo interessante
existia ali.
Os números da loja também mudaram muito,
tínhamos passado de uma média de 40 cachorros por mês
no banho&tosa para aproximadamente 400, o faturamento
da loja quadruplicou, claro que o nosso custo também
aumentou, mas víamos um futuro promissor para o
negócio, ao ponto de retomar as conversas com o pessoal
da franquia.
Foi então, um ano depois de estarmos com a loja aberta
no shopping, que mais uma vez nos vimos de fronte a
escolhas nada fáceis.
42
UMA REVISTA NO MEIO DISSO TUDO
Antes de continuar, abro um capítulo à parte porque
mesmo não sendo projeto da loja, a revista Au. foi
consequência disso tudo, do Jack, da Apple, da loja, dos
eventos, dos clientes…. Quem gosta de cães do jeito que eu
gosto molda sua rotina para que eles se lembrem que são
animais, isso inclui ir ao parque, ir à praia, procurar um
bosque… eu chamo isso de estilo de vida. Eles dão uma
trabalheira, sem dúvida alguma, mas deixam a casa de
qualquer um mais alegre e feliz.
Até então, não existia no Brasil uma publicação que
tratasse desse relacionamento cão/homem de uma forma
mais simples, natural; as publicações disponíveis eram
todas técnicas, para criadores, expositores… ou aquelas
que entram no esquema, faça para vender anúncio, mas
ninguém lê. Eram anos que tinha o desejo de criar uma
revista, mas o alto custo de impressão, logística, edição,
etc… me forçou a deixar o projeto na gaveta.
Foi quando em 2010 a Apple lança o iPad, no momento
fiquei somente maravilhado por ser uma pessoa que gosta
de tecnologia, mas com o tempo e o sucesso do produto
começaram aparecer revistas para essa plataforma.
Informei-me sobre o processo de converter revistas para
tablet e decidi que era hora de a Revista Au. ganhar vida.
Foi o primeiro projeto brasileiro de revista 100%
dedicado ao iPad, esse fato ajudou muito na divulgação da
publicação porque chamou a atenção da mídia, a revista
apareceu no O Globo, no Gizmodo Brasil, na MacMagazine
entre outros, ganhou também um prêmio do fabricante do
software que usei, a Adobe.
Contudo, como todo projeto, não foram somente boas
notícias, eu montava a revista sozinho, a Ana Corina do
43
Revista Au. para iPad
site Mãe de Cachorro me ajudou muito escrevendo alguns
artigos e falando com pessoas da área para contribuir
com conteúdo. Mas não tinha nenhuma equipe comercial
e eu simplesmente não tinha mais como disponibilizar
tempo para o projeto. Fui levando enquanto pude, o custo
mensal do software que usava era pago pela Luccaco, mas
sem retorno algum, o projeto teve que voltar pra gaveta,
tivemos 06 edições e um retorno incrível dos leitores. A
Revista Au. Estilo de Vida e Cultura Canina hoje vive
como uma comunidade no Facebook (www.facebook.
com/Au.Revista), esperando uma opção viável para voltar
a ser publicada.
DICAS
• Não se limite a uma opção, avalie alternativas.
• Use a tecnologia para diminuir custos.
• Dê um “curtir” na página da Au. www.facebook.com/Au.Revista
44
DECISÕES, DIFÍCEIS..
A Luccaco é um estúdio digital, onde desenvolvemos
websites, aplicativos, etc… temos as Nações Unidas como
um dos nossos maiores clientes. É uma longa história,
mas resumindo, já são 7 anos que prestamos serviços para
diversas agências do sistema ONU, por isso eu costumo
visitar os Estados Unidos umas 2 vezes ao ano para ter
reuniões e prospectar novos projetos. Em uma dessas
viagens percebi que estava perdendo negócios importantes
pelo simples fato de não estar nos EUA, comecei então
avaliar a ideia de abrir uma filial da Luccaco em Nova
Iorque, assim ficaria mais perto dos meus potenciais
clientes. Mas essa decisão além de ser bem complicada
traria questões como, o que fazer com a loja? Estamos
dispostos a deixar tudo? Simplesmente passar o timão do
navio para outra pessoa e subir em outro barco?
Eu costumo dizer que na nossa vida as coisas se
encaixam, é por isso que planejar tudo nos mínimos
detalhes é algo que não faço. Nossa vida não tem um
caminho pré-definido é acerto e erro, cabe a nós ajustar a
rota e seguir em frente ou simplesmente parar e voltar pra
trás, o resultado vai ser ou sucesso ou fracasso, ponto.
Os meses foram passando e começamos a analisar
os pontos positivos e negativos de investir na ideia da
mudança. Abaixo, elenco os itens que praticamente
decidiram a nossa escolha.
Cenário brasileiro
Todo empreendedor no Brasil deveria ganhar o título de
super-herói, por algum motivo que vai muito além do
meu conhecimento eu acredito que o governo brasileiro
45
não quer que sua empresa funcione, cresça, dê lucro…
mas o contrário, o estado está presente para acabar com
você, ele vai te sugando, seja por impostos altíssimos ou
pela burocracia infinita, isso pra não falar no QI, o famoso
quem indica, se você não conhece alguém que conhece o
tal fiscal, esqueça, você vai ficar na fila por anos até ter o
documento de que precisa.
É uma série de incompetências acumuladas, seja na
Receita Federal, nos Correios, na Prefeitura, nos órgãos de
controle, simplesmente nada funciona e se não bastasse
toda essa ineficiência você pode apostar que se tiver algo
que eles possam fazer para complicar a sua vida, eles farão.
Custo de vida
“Você precisa ser muito rico pra morar no Brasil”, ouvi
isso de um amigo Italiano, ele visitou nosso país e ficou
simplesmente abismado com os preços de tudo, do almoço
ao carro popular, de roupas ao preço de um smartphone, é
tudo no mínimo duas vezes mais caro que no exterior, falo
dos Estados Unidos e posso incluir boa parte da Europa
também.
Ter que pagar 3, 4, 5 vezes mais pelo mesmo produto
que vemos lá fora, ter que pagar uma carga tributária no
mesmo nível que se paga na Suíça, mas sem ver nenhum
retorno desse dinheiro em forma de segurança, saúde,
infraestrutura, educação, não é fácil.
Cansaço
Depois de 4 anos em um ritmo alucinado, a canseira bateu,
não era difícil a Mariana ter que fazer turnos de 12 horas
seguidas almoçando uma coxinha, também não era raro
eu ter que sair do meu escritório às 18h e ir para a loja ficar
46
até fechar. Sem falar no tempo precioso que estávamos
perdendo com a nossa filha.
A equação no fim era muito simples, os ganhos não
estão pagando as perdas, sejam elas físicas, emocionais
e ou financeiras. Nesse período de proprietários de loja,
tivemos a oportunidade de conhecer donos de grandes
marcas, gente com 5, 6 ou mais lojas em diferentes
shoppings e setores, faturamentos altos, mas todos eles
com alguns pontos em comum, famílias desestruturadas e
colapsos físicos, não era isso que queríamos.
Aceitamos a ideia de ter criado algo diferente, de ter
mudado alguns conceitos de mercado, mas pagamos um
preço por ter feito isso, era hora de diminuir a marcha e
dar um tempo para nós.
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HORA DE VIRAR A PÁGINA
Na época da decisão, a loja estava com 5 funcionários,
contando a Mariana. Foi difícil explicar para todos,
principalmente para a Rose e para a Gisele, os motivos da
decisão, que a canseira bateu, mas explicamos diretinho os
pontos que nos levaram a optar por esse caminho. Ainda
sem ter ideia de como e por onde começar, ficamos sabendo
que uma cliente da loja ouviu os boatos e se interessou pela
compra do negócio. Isso seria fantástico porque teríamos
certeza de que essa pessoa trataria os cães tão bem quanto
nós tratávamos. Abrimos um canal de contato e depois de
uns 2 meses de negociações, fechamos a venda.
Era mais um capítulo que terminava, uma etapa
da nossa vida que nunca iremos esquecer. O valor que
recebemos não nos deixou rico, longe disso eu diria, mas
foi suficiente para pagar os financiamentos que ainda
tínhamos em aberto e cobrir nosso investimento, nossa
riqueza ficou no conhecimento, nenhuma escola pode te
ensinar o que aprendemos nesse período e isso realmente
não tem preço.
A loja está lá, vai fazer um ano que fechamos a venda,
no começo eu queria saber o que estava acontecendo, como
a nova proprietária estava indo, mas com o tempo fomos
vendo que cada um teu seu jeito de fazer as coisas, era
melhor então se desligar completamente e deixar o filho
enfrentar os desafios do mundo.
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Conclusão
O empreendedorismo nunca me foi ensinado, tivemos
em família alguns exemplos, minha mãe, por exemplo,
teve um jardim de infância e uma loja de roupas há uns 25
anos, meu pai tem seu próprio negócio também, mas não
posso saber se minha vontade de criar, fazer, arriscar…
vem desse passado, só espero que nunca acabe, pois é o
que nos faz sentir produtivo, útil.
Nessas aventuras aprendi que precisamos ficar atentos
aos falsos gurus empreendedores, eu adoro ler blogs,
revistas, artigos que falem de técnicas de gerenciamento de
projeto, de como organizar ideias, de como fazer acontecer,
mas é importante separar o joio do trigo. É muito comum
você ver por aí palestras, workshops, cursos, artigos,
livros, etc… de pessoas que vendem fórmulas mágicas
de administração e marketing, mas essas pessoas nunca
tiveram uma experiência sequer na vida. Escrevi no meu
blog um post sobre o assunto que coloco aqui em seguida:
-----------Os novos “gurus”
Faz tempo que venho percebendo essa “tendência”, então
achei interessante aprofundar o assunto e seria legal, ouvir
opiniões.
Hoje, adotamos novos meios para avaliar as pessoas, não
basta seu caráter, sua índole, sua experiência profissional,
sua contribuição para uma determinada área, para muitos
é suficiente que tenha alguns seguidores no Twitter, ou
que entre para alguma lista de “experts” ou ainda, seja
palestrante em algum evento.
*Como sua empresa pode vender milhões! por Ciclano, que
nunca teve uma empresa e muito menos ganhou milhões*
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Como avaliamos aqueles que se dominam “gurus”
de algum assunto? Eu procuro pela sua experiência
profissional, seja ele um designer, um empreendedor, um
técnico… Fico assustado quando vejo eventos onde o João
ou Pedro darão palestras e quando você vai pesquisar
mais sobre esses profissionais descobre que não fizeram
nada, nenhum projeto relevante, importante, nada…
*Construindo um time criativo e fazendo sua empresa decolar”
por Fulano, que nunca trabalhou em uma equipe e muito
menos administrou uma empresa na sua vida*
Li sobre um profissional que está listado como expert em
uma área de tecnologia digital, pensei “preciso seguir esse
cara” então fui logo ao Twitter para começar a ler seus
“pensamentos, ideias, etc…” bastou 5 minutos para ver
que seus posts são fotos da esquina onde mora, conselhos
do que comer, links para sites bonitinhos, e por aí vai…
onde está o guru que aparece na lista dos experts?
Acabou a era da meritocracia (se é que ela um dia existiu)
e começamos a era do blá, blá, blá?
-----------Endereço do blog: www.lucca.co
Depois da venda da loja, muitas coisas aconteceram,
entre elas a abertura da filial da Luccaco nos Estados
Unidos, no momento que escrevo se passaram 6 meses que
mudamos para Nova Iorque, eu, Mariana, nossa filha, o Jack
e a Apple. A adaptação por enquanto está indo superbem,
ainda precisamos organizar muita coisa para realmente
saber se vamos ficar ou não, o nosso prazo é de um ano, se
algo não sair do que jeito que gostaríamos simplesmente
faremos as malas e voltaremos para Curitiba.
Sempre seguindo a ideia de que as coisas se encaixam,
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estamos hoje em período que chamo de pausa ativa. Não
temos nenhum projeto no momento, mas não podemos
simplesmente não fazer nada. Como falei antes, a vontade
de empreender está sempre presente. Procuro, então, me
focar na Luccaco e a Mariana começou a se especializar em
outra área que adora, a culinária, que um dia talvez vire
algo maior.
O interessante de tudo isso foi achar inspiração e
tempo para conseguir escrever essas histórias que espero
sejam úteis para você, e que a vontade de correr atrás de
um sonho não fique somente no plano de negócios. Corra
atrás com o mesmo foco de um cão, desvie os buracos,
pule os galhos, mas não pare até você alcançar a bolinha.
Fim.
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SOBRE O AUTOR, Allysson lucca
Nascido em Curitiba, formado pela PUC-PR em design
gráfico com especialização em web pelo Instituto Europeu
de Design em Milão, onde morou por 7 anos.
Empreendedor por “acidente“, já se envolveu na criação de
vários negócios, recebeu reconhecimentos importantes na
área de design como o Webby Awards, Adobe MAX Awards
e o Prêmio A Marca Você S/A.
Adora cães e teve sua vida mudada por eles, história que
conta aqui no - Sem Plano de Negócios - onde busca
desmitificar a obsessão pelo planejamento, de que tudo
deve ser calculado antes de ser colocado em prática, é um
guia para tirar sonhos do papel.
Atualmente vive em Nova York com sua esposa, filha e cães,
onde atua como Business Developer pelo seu estúdio, a
Luccaco *be digital.
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