Sérgio Ricardo da Mata, Helena Miranda Mollo & Flávia Florentino Varella (org.). Caderno de resumos & Anais
do 2º. Seminário Nacional de História da Historiografia. A dinâmica do historicismo: tradições historiográficas
modernas. Ouro Preto: EdUFOP, 2008. (ISBN: 978-85-288-0057-9)
HISTÓRIA CULTURAL: OS USOS BIOGRÁFICOS EM FAVOR DA
HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
Nadja Santos Bonifácio/GEPHE/UFS
Especialização em Metodologia do Ensino Superior
[email protected]
A Biografia se constitui ainda num caminho de estudo e pesquisa pouco explorado e
com resistências por parte de alguns pesquisadores. Esse tipo de fonte oferece ao leitor
mostras e acontecimentos. Através da vida de educadores, médicos, juristas, políticos,
podemos encontrar rastros ou sinais de ações executadas por educadores e intelectuais
que se envolveram no desenvolvimento da educação. Assuntos referentes à cultura
material escolar, as relações de poder nas escolas, as práticas escolares, disciplina, os
conteúdos e outros subsídios importantes descritos nas obras. Utilizei dois livros nesse
trabalho: Pro pátria laboremus: Joaquim José de Menezes Vieira (1848-1897) e Baú de
memórias, bastidores de histórias. O legado pioneiro de Armanda Álvaro Alberto com
eles busquei analisar a diversidade da cultura material escolar e de práticas escolares
empreendidas na educação no final do século XIX e início do século XX. A pesquisa é
de cunho bibliográfico, com aporte teórico-metodológico na História Cultural.
Palavras-chave: Práticas Escolares; Cultura Material Escolar; História da Educação
INTRODUÇÃO
Desejo de início situar o leitor no contexto das duas obras trabalhadas nesse
artigo. São obras cunhadas na pesquisa biográfica e documental, em que as autoras
procuraram “atentar para os condicionamentos sociais do biografado, o grupo ou grupos
em que atuavam, enfim, todas as redes de relações pessoais que constituíam seu dia-adia” 1. (BORGES, 2006, p. 222).
Segundo Maria Helena Câmara Bastos (2002), a “biografia é sempre um
resumo de vida, um excerto, uma parte do todo, resultado da construção de um
determinado olhar, em um determinado momento.”2 Entendendo a biografia nesses
termos ela aborda a trajetória de Joaquim José de Menezes Vieira, objetivando analisar
o discurso e a ação desse intelectual nos períodos de 1848-1897. A autora utiliza fontes
1
2
BORGES, Vavy Pacheco. Grandezas e misérias da biografia. In: PINSKY, Carla Bassanezi. (Org.) 2
ed. Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2006, p. 203-233.
BASTOS, Maria Helena Câmara. Pro pátria laboremus: Joaquim José de Menezes Vieira (18481897). Bragança Paulista: Edusf, 2002, p. 319.
1
diversas como: documentos oficiais, cartas, relatórios, jornais e biografias de outros
autores sobre Menezes Vieira.
Bastos (2002), descreve em seu livro Pro pátria laboremus: Joaquim José de
Menezes Vieira (1848-1897), a ação de um intelectual, médico e educador que se
apropriou das teorias estrangeiras, através da literatura de estudiosos da época,
exposições e congressos em que participou. Tentou dessa forma, como tantos outros,
nacionalizar e vulgarizar, os métodos, materiais e móveis escolares, adaptando-os a
realidade do ensino brasileiro. Introdutor do Jardim de Infância no Brasil e defensor
inflexível da adoção do método intuitivo e das teorias froebelianas na educação. O
método intuitivo, conforme Souza (2007), “teve uma importância fundamental na
consolidação de uma sensibilidade para a necessidade do uso e diversificação dos
materiais didáticos na transição do século XIX para o século XX.”3 Menezes Vieira,
intelectual de pensamento positivista, funda o Colégio Menezes Vieira juntamente com
o primeiro Jardim de Infância do Brasil, cujo lema era Pró patria laboremus - “A Pátria
e pela vida”4 regido nos moldes da educação européia e, principalmente, a educação
francesa.
Para a autora o seu contato com as biografias de Menezes Vieira, sua atuação e
suas obras lhe proporcionaram uma visão ampla para analisar,
a circulação das idéias e práticas pedagógicas; o cotidiano escolar de um
colégio do Rio de Janeiro, na segunda metade do século XIX; o significado
espaço destinado a registrar os eventos educacionais na imprensa da época,
permitindo avaliar o papel da educação na vida cultural da Corte nas décadas
de 70 e 80; outros atores sociais e as inter-relações estabelecidas no meio
intelectual. São pistas e traços que permitem ao pesquisador compor um
mosaico da educação brasileira no ocaso do Império e no raiar da República.5
A obra de Ana Crystina Venâncio Mignot, Baú de Memórias, bastidores de
história. O legado pioneiro de Armanda Álvaro Alberto, (2002), objetivou relatar a
trajetória de Armanda A. Alberto, relacionando sua vida com questões sobre as práticas
da memória feminina, os espaços de visibilidade e os recursos de legitimação da mulher
na história. Mignot, utiliza como fonte a historiografia escrita sobre o movimento
renovador, a produção dos pioneiros, depoimentos de ex-alunos e amigos, documentos
3
4
5
SOUZA, Rosa Fátima de. História da Cultura Material Escolar: um balanço inicial. In: BENCOSTTA,
Marcos Levy Albino (org.). Culturas escolares, saberes e práticas educativas: itinerários histórico.
São Paulo: Cortes, 2007, p. 175.
BASTOS, Maria Helena Câmara. Op. Cit., 2002, p. 46.
BASTOS, Maria Helena Câmara. Op. Cit., 2002, p. 318.
2
oficiais, os arquivos da escola e da ABE, e principalmente, o baú de D. Armanda onde
se conservavam recortes de jornais, fotografias, cartas, cadernos, livros, enfim,
lembranças que permitiram reconstruir momentos da história e de uma vida.
A trajetória de Armanda Álvaro abordada por Mignot nos aponta a importância
dos estudos da História da Educação orientados pela visão da História Cultural. Através
da biografia dessa educadora, ela nos relatou a atuação dessa personagem na educação
brasileira ocorridos nas primeiras décadas do século XX, fatos relevantes para o
entendimento da educação nesse período, em determinado local e tempo. A partir de D.
Armanda, personagem de seu tempo, a autora traz a tona à história da infância, da
escola, rememora o processo de legislação e emancipação da mulher na sociedade e
evidencia a atuação dos intelectuais do movimento de renovação da educação. A
memória para Mignot,
…diz respeito a um conjunto de funções psíquicas que permite ao homem
atualizar impressões do passado. Condicionada pelas experiências históricas,
a memória individual dialoga permanentemente com crenças e
conhecimentos socialmente construídos, contento a memória coletiva.6
Entretanto, sabemos que a história não é linear e sim, descontínua, e
conseqüentemente seus atores, desse modo sugerimos delinear, por meio da trajetória
descrita desses dois personagens atuantes na história e na história da educação, a cultura
material escolar e as práticas escolares empreendidas na educação no final do século
XIX e início do século XX . Portanto, como acrescenta Borges (2006), “não se deve
interpretar uma vida buscando-se uma unidade, uma racionalidade, uma linearidade”7
A CULTURA MATERIAL ESCOLAR E AS PRÁTICAS ESCOLARES
Rosa Fátima Souza (2007), em seu artigo História da Cultura Material
Escolar: um balanço inicial, explica que a cultura material escolar é bastante recente no
campo educacional. A expressão passou a ser utilizada na área da História da Educação
nos últimos anos, influenciada pelos estudos em cultura escolar, pela renovação na área
6
7
MIGNOT, Ana Crystina Venâncio. Baú de memórias, bastidores de histórias. O legado pioneiro de
Armanda Álvaro Alberto. Bragança Paulista: Editora da Universidade São Francisco, 2002, 2002, p.
40
BORGES, Vavy Pacheco. Op. Cit., 2006, p. 224-225.
3
provocada pela Nova História Cultural e pela preocupação crescente dos historiadores
em relação à preservação de fontes de pesquisa e de memória educacional em arquivos
escolares, museus e centros de documentação.8
A cultura material escolar no livro de Bastos (2002), tem ampla visibilidade na
maioria dos capítulos, o livro torna-se fonte primordial, para estudos voltados à
categoria cultura material escolar, pois observa a entrada de materiais escolares no
Brasil, assim como, a configuração de estabelecimentos de ensino naquele período.
Nota-se a riqueza de detalhes que a autora utiliza para descrever a quantidade de
materiais escolares e inovações tecnologias – bancos, arquitetura escolar, práticas,
métodos que eram utilizados no Colégio Menezes Vieira e outras instituições de ensino
privado. Remete a grande importância das Exposições Pedagógicas que aconteciam
naquela época para divulgação, tanto do que estava oferecendo a pedagogia moderna
naquele momento, como para a conceituação do estabelecimento, elevando-o em
qualidade de ensino perante a sociedade.
Essas exposições pedagógicas realizadas no final do século XIX e início do
século XX tiveram papel importante na difusão e exibição de inovações técnicas da
indústria moderna, Souza enfatiza que:
as Exposições Pedagógicas realizadas no interior das Exposições Universais
forma as vitrines que colocaram em circulação esses produtos industrias de
modernização educacional à disposição nos países europeus e nos Estados
Unidos. A exposição universal de Paris realizada em 1855, foi a primeira a
abrir uma subdivisão especial para matérias de ensino primário. [eram
expostos] os mais variados suportes matérias desde as plantas dos prédios
escolares, os móveis e os acessórios, até os materiais de uso em sala de aula
para finalidades diretas do ensino: quadro-negro, mapas, livros, etc. […]
Dessa maneira, pode-se dizer que a produção material para a escola apresenta
uma face do desenvolvimento econômico e social do Ocidente em que as
tecnologias de ensino associaram-se ao espetáculo da indústria.9
No texto de Câmara Bastos (2002), se evidencia além da gama de mobiliários:
bancos e mesas para alunos e professores; o livro possibilita também observar objetos
da arquitetura escolar como as plantas, e planos de escolas as menções de gabinetes e
laboratórios de ensino de ciências físicas e naturais; apresenta também, um arsenal de
materiais utilizados pelos professores durante as aulas. Na escola primária e infantil do
Colégio Menezes Vieira era obrigatório os professores saber não somente a teoria sobre
o método de Froebel, mas saber como usar os instrumentos. A introdução no currículo
escolar da ginástica, a instrução moral e cívica. O currículo a partir da 2ª série para
8
9
SOUZA, Rosa Fátima de. Op. Cit., 2007, p. 169-170.
SOUZA, Rosa Fátima de. Op. Cit., 2007, p. 164.
4
meninos, diferenciando-se do currículo para meninas, onde praticavam “trabalhos de
agulha, moldes, cortes, roupas simples, aplicações da costura, cerzidos, marcas, rendas,
crivo, tricô, crochê, bordado, flores, aquarela, pintura a óleo” e outros. Objetos como
cadernos, caligrafias, livros, brochuras.
Enfim, todo esse material são vestígios, e atribuir sentido a esses objetos tornase necessário para o estudo da história da educação brasileira. Segundo Le Goff (2003),
o “documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da
sociedade que fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder. Só a
análise do documento enquanto monumento permite à memória coletiva recuperá-lo e
ao historiador usá-lo cientificamente.”10 Torna-se, porém, relevante à observação desses
materiais estrangeiros, introduzidos no Brasil nesse período, tendo como ponto de
divulgação as Exposições Escolares e Pedagógicas locais e as Exposições Universais
foram explica Souza (2007), “as vitrines que colocaram em circulação esses produtos
industrias de modernização educacional è disposição dos países europeus e nos Estados
Unidos.”11
No livro de Mignot (2002), podemos perceber a cultura material escolar no
terceiro capítulo. Armanda Álvaro Alberto estudou magistério no Colégio Jacobina que
seguia o modelo da cultura francesa e preparava as alunas para “mães de família
zelosas, donas-de-casa exemplares, senhoras de sociedade polidas.”12
A Escola Regional do Meriti, fundada por D. Armanda era uma “escola
particular, gratuita e sem fins lucrativos,”13 que objetivava a educação integral do aluno.
No projeto pedagógico da escola estava pautado em educar os alunos para observar,
construir, experimentar, responder, perguntar, incorporando o espírito de descoberta, da
pesquisa e introduzindo o aluno ao método científico.14
Os materiais escolares destacados e utilizados na escola eram: lápis de cor,
álbuns de fotografias, mapas, globos, gravuras, cartões postais, sólidos geométricos,
compasso, régua, transferidos, fita métrica, tesoura, canivete, agulhas de crochê,
barbantes, cordas, coleções de insetos, mudas de árvores diversas, livros infantis, eram
os objetos de ensino da escola, que
10
11
12
13
14
LE GOFF, Jacques. Documento/monumento. In: História e Memória. 5 ed. Campinas: Editora da
UNICAMP, 2003, p. 536.
SOUZA, Rosa Fátima de. Op. Cit., 2007, p. 164
MIGNOT, Ana Crystina Venâncio. Op. Cit., 2002, p. 127.
MIGNOT, Ana Crystina Venâncio. Op. Cit., 2002, p. 171.
MIGNOT, Ana Crystina Venâncio. Op. Cit., 2002, p. 175.
5
tomados em sua materialidade favorecem a percepção dos conteúdos
ensinados, com base numa análise dos enunciados e das respostas, mas
sobretudo suscitam o entendimento do conjunto de fazeres ativados no
interior da escola, […] e trazem as marcas da modelação das práticas
escolares, quando observados na sua regularidade.15
Nesse contexto inseri-se também a proximidade do aluno com o trabalho
pedagógico como, as aulas ao ar livre embaixo das árvores. Portanto para Mignot, “essa
concepção de escola experimental, escola-laboratório, diferente de escola-modelo,
visava dar à educação o mesmo estatuto dos laboratórios em relação às ciências físicas,
como preconiza Dewey.”16
Assim, com esses materiais e práticas, as escolas privadas ou de ação particular
filantrópica das primeiras décadas republicana, preparavam os alunos e alunas para
vida. Fotografias17 destacadas no livro de Mignot (2002), traz os meninos lidando com
atividades de jardinagem e atividades manuais, enquanto que as meninas continuavam
desempenhando o trabalho doméstico, bordando ou aprendendo a cuidar da casa e dos
filhos. As atividades de Trabalhos Manuais se constituiu em disciplinas escolares que
foram incluídas no currículo da escola primária brasileira, com intuito, segundo
Taborda, de educar o corpo, bem como outras disciplinas como: “a Educação Física,
Canto Orfeônico, o Desenho, a Higiene, a Ginástica e as prendas domésticas.” 18
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BASTOS, Maria Helena Câmara. Pro pátria laboremus: Joaquim José de Menezes
Vieira (1848-1897). Bragança Paulista: Edusf, 2002.
BORGES, Vavy Pacheco. Grandezas e misérias da biografia. In: PINSKY, Carla
Bassanezi. (Org.) 2 ed. Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2006. p. 203-233.
LE GOFF, Jacques. Documento/monumento. In: História e Memória. 5 ed. Campinas:
Editora da UNICAMP, 2003. p. 525-541.
15
VIDAL, Diana Gonçalves. Culturas escolares: estudos sobre práticas de leitura e escrita na escola
pública primária (Brasil e França no final do século XIX). Campinas, SP: Autores Associados, 2005,
p. 64-65.
16
MIGNOT, Ana Crystina Venâncio. Op. Cit., 2002, p. 184.
17
As fotografias também faz parte do conjunto da cultura material da escola, pois são produtos que
“participam de um discurso que cumprem uma função de legitimação das intervenções
disciplinadoras”. ROCHA, Heloisa Helena Pimenta. A higienização dos costumes: educação escolar e
saúde no projeto do Instituto de Higyene de São Paulo (1918-1925). Campinas, SP: Mercado de
Letras; São Paulo: Fapesp, 2003, p. 107.
18
OLIVEIRA, Marcus Aurélio Taborda de. Educando pelo corpo: saberes e práticas na instrução pública
primária nos anos finais do século XIX, In: BENCOSTTA, Marcus Levy Albino. Culturas escolares,
saberes e práticas educativas: itinerários históricos. São Paulo: Cortez, 2007, p. 267.
6
MIGNOT, Ana Crystina Venâncio. Baú de memórias, bastidores de histórias. O
legado pioneiro de Armanda Álvaro Alberto. Bragança Paulista: Editora da
Universidade São Francisco, 2002.
OLIVEIRA, Marcus Aurélio Taborda de. Educando pelo corpo: saberes e práticas na
instrução pública primária nos anos finais do século XIX, In: BENCOSTTA, Marcus
Levy Albino. Culturas escolares, saberes e práticas educativas: itinerários históricos.
São Paulo: Cortez, 2007, p. 265-300.
ROCHA, Heloisa Helena Pimenta. A higienização dos costumes: educação escolar e
saúde no projeto do Instituto de Higyene de São Paulo (1918-1925). Campinas, SP:
Mercado de Letras; São Paulo: Fapesp, 2003.
SOUZA, Rosa Fátima de. História da Cultura Material Escolar: um balanço inicial. In:
BENCOSTTA, Marcos Levy Albino (org.). Culturas escolares, saberes e práticas
educativas: itinerários histórico. São Paulo: Cortes, 2007. (p. 163-189).
VIDAL, Diana Gonçalves. Culturas escolares: estudos sobre práticas de leitura e
escrita na escola pública primária (Brasil e França no final do século XIX). Campinas,
SP: Autores Associados, 2005.
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