AVALIAÇÃO DOS CICLOS DE REPRODUÇÃO E RECRUTAMENTO DAS PRINCIPAIS ESPÉCIES COMPONENTES DA PESCA DE CERCO NO SUDESTE E SUL DO BRASIL COMO ESTRATÉGIA DE GESTÃO MULTIESPECÍFICA ANGÉLICA PETERMANN ITAJAÍ 2015 UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ MESTRADO EM CIÊNCIA E TECNOLOGIA AMBIENTAL Avaliação dos ciclos de reprodução e recrutamento das principais espécies componentes da pesca de cerco no Sudeste e Sul do Brasil como estratégia de gestão multiespecífica Angélica Petermann Itajaí Abril de 2015 Angélica Petermann Avaliação dos ciclos de reprodução e recrutamento das principais espécies componentes da pesca de cerco no Sudeste e Sul do Brasil como estratégia de gestão multiespecífica Dissertação apresentada à Universidade do Vale do Itajaí, como parte dos requisitos para obtenção do grau de Mestre em Ciência e Tecnologia Ambiental. Orientador: Dr. Paulo Ricardo Schwingel Itajaí Abril de 2015 Dedico este trabalho aos meus pais Marcos Petermann e Lúcia Maria Petermann i “A mente que se abre a uma nova ideia, jamais retornará ao seu estado original.” (Albert Einstein) ii AGRADECIMENTOS Agradeço à Deus por todas as coisas. Aos meus pais Marcos e Lúcia, pela vida, por tudo que sou e tenho. Á minha irmã Elizandra por sempre me motivar. Ao meu opa Affonso pelo apoio e à minha oma Ignêz que de algum lugar melhor nos faz lembrar que “no final, sempre dá tudo certo!”. Ao André pelo carinho e companheirismo concedidos e por me acompanhar e apoiar em mais esta etapa da minha vida. À minha prima Gisele (segunda irmã), à Carolina (Guabirubinha) e Andreza (Nena) pela amizade e boas conversas no dia-a-dia do ônibus da faculdade. À melhor turma do PPCTA, Ana, Anelise, Cassiane, Gabriela, Gustavo, Mariana, Maurício, Regina e Solange. À Pauline (Carioca) e Dafne (Daphnia magna) pelas risadas e cumplicidade de todos os dias. Ao Rodrigo (Cebola) pela imensa ajuda e atenção sempre prestadas. Ao Rafael (Schroedichthys) por sempre me auxiliar em tudo quando foi necessário, principalmente na análise dos resíduos e nos gráficos do R. À Ana, Angélica, Priscila e Vanessa pelas horas de conversa. Ao Richard pela parceria nas amostragens. Ao Otávio pelas dicas e confecção dos mapas. Ao Rodrigo Sant’ana pela grande ajuda com o software R e análise GLM. Ao professor Tito pelas conversas sobre estatística. Ao professor Paulo Ricardo Pezzuto pelas dicas concedidas. Agradeço à todos os amigos do LOB e do GEP! Ao professor José Angel Alvarez Perez pelas excelentes conversas concedidas e que renderam novas ideias. Ao professor Joaquim Olinto Branco pelas ótimas dicas prestadas. À professora June Ferraz Dias por aceitar fazer parte desta banca e pelas suas contribuições que foram muito valiosas. Agradeço à todos os membros da banca! Ao orientador e amigo Paulo Ricardo Schwingel que, apesar de sempre ocupado, me concedeu preciosas orientações e ensinamentos e por toda sua atenção e ajuda dadas não só a este trabalho mas também a mim. À todos os pescadores, mestres e armadores da frota de cerco, por suas informações cedidas e à todas as pessoas que fazem ou fizeram parte de todos estes anos de amostragens. À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES – Brasil (Ciências do Mar 09/2009 - AUXPE 1141/2010) pela concessão da bolsa sem a qual não seria possível realizar esse mestrado. iii SUMÁRIO AGRADECIMENTOS .......................................................................................................... III SUMÁRIO .............................................................................................................................. IV LISTA DE FIGURAS.............................................................................................................. V LISTA DE TABELAS .......................................................................................................... VII RESUMO............................................................................................................................. VIII ABSTRACT ........................................................................................................................... IX 1. INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 1 1.1 PESCA DE CERCO NO BRASIL ................................................................................. 1 1.2 PRINCIPAIS ESPÉCIES CAPTURADAS PELA FROTA DE CERCO ..................................... 5 2. OBJETIVOS ......................................................................................................................... 9 2.1 OBJETIVO GERAL .................................................................................................. 9 2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ....................................................................................... 9 3. MATERIAL E MÉTODOS ............................................................................................... 10 3.1. ÁREA DE ESTUDO .............................................................................................. 10 3.2. AMOSTRAGEM E BASE DE DADOS ........................................................................ 10 3.3. ANÁLISE DOS PARÂMETROS REPRODUTIVOS......................................................... 12 3.4. ANÁLISE DO RECRUTAMENTO .............................................................................. 13 3.5. ANÁLISE GEOESPACIAL....................................................................................... 15 4. RESULTADOS ................................................................................................................... 16 4.1 REPRODUÇÃO .................................................................................................... 19 4.1.1 RECLASSIFICAÇÃO DO ESTÁGIO DE MATURAÇÃO II .............................................. 19 4.1.2 COMPRIMENTO DE PRIMEIRA MATURAÇÃO .......................................................... 21 4.1.3 PERÍODO DE REPRODUÇÃO ............................................................................... 24 4.2 PERÍODO DE RECRUTAMENTO .............................................................................. 31 4.2.1 PROPORÇÃO DE IMATUROS ............................................................................... 31 4.2.2 DISTRIBUIÇÃO DE COMPRIMENTOS .................................................................... 34 4.3 GEOESPACIALIZAÇÃO .......................................................................................... 40 5. DISCUSSÃO ....................................................................................................................... 45 5.1 ASPECTOS REPRODUTIVOS ................................................................................. 45 5.2 RECRUTAMENTO ................................................................................................ 53 5.3 MEDIDAS DE ORDENAMENTO ............................................................................... 55 6. CONCLUSÕES................................................................................................................... 59 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................. 60 8. APÊNDICES ....................................................................................................................... 67 iv LISTA DE FIGURAS Figura 1. Distribuição de comprimentos dos machos e fêmeas de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, amostrados em laboratório entre 2000 e 2013, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil. .................................................. 18 Figura 2. Análise dos resíduos entre peso das gônadas (Wgon) e índice gonadossomático (IGS) das fêmeas II de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. ..................... 20 Figura 3. Análise dos resíduos entre peso das gônadas (Wgon) e índice gonadossomático (IGS) dos machos II de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinhacapturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. ..... 20 Figura 4. Distribuição de comprimentos dos machos II e fêmeas II de sardinha-verdadeira após a reclassificação em estágio II-imaturo (Imat) e II-maturo (Mat), capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. ....................................................... 21 Figura 5. Comprimento de primeira maturação (L50) e ajuste da curva de maturação para as fêmeas de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. ............................................... 22 Figura 6. Comprimento de primeira maturação (L50) e ajuste da curva de maturação para os machos de sardinha-verdadeira e palombeta, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. .......................................................................................... 23 Figura 7. Mediana, percentis de 25% e 75% e valores máximos e mínimos de IGS mensal para as fêmeas de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. ....................................... 25 Figura 8. Mediana mensal de IGS para as fêmeas de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. ................................................................................................................................. 25 Figura 9. Número de fêmeas nos estágios III e IV de maturação gonadal, para sardinhaverdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. ....................................................................................... 26 Figura 10. Número de indivíduos dos estágios de maturação gonadal ao longo do ano, das fêmeas de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. ....................................................... 27 Figura 11. Valores quinzenais, nos três diferentes períodos analisados, de mediana de IGS (à esquerda) e de mediana, máximos e mínimos e percentis de 25% e 75% (à direita), para as fêmeas de sardinha-verdadeira capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. ............................................................................................................... 29 Figura 12. Número de indivíduos em cada estágio gonadal, por quinzenas e agrupados nos três diferentes períodos analisados, para as fêmeas de sardinha-verdadeira capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. ............................................... 30 Figura 13. Número mensal de indivíduos imaturos, incluindo machos e fêmeas, de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. ...................................................................... 32 v Figura 14. Número de indivíduos imaturos, em proporção, de sardinha-verdadeira, divididos em três diferentes períodos, 2000-2004, 2005-2009 e 2010-2013, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. ............................................... 32 Figura 15. Distribuição de comprimentos, mensal, dos indivíduos de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil, entre 2000 e 2013. .................................................................................................... 36 Figura 16. Distribuição de comprimentos, separada por quinzenas e nos três diferentes períodos analisados i.e. 2000-2004, 2005-2009, 2010-2013, dos indivíduos de sardinha verdadeira, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil, entre 2000 e 2013. . 37 Figura 17. Distribuição anual de comprimentos de sardinha-verdadeira capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil, entre 2000 e 2013. A linha representa o comprimento de primeira maturação (L50) definido em 19,0cm para a espécie. ............... 38 Figura 18. Variação anual da proporção de indivíduos de sardinha-verdadeira, com tamanho igual ou superior a 19,0cm, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil, entre 2000 e 2013. .................................................................................................... 39 Figura 19. Variação espacial do IGS e IQR para a sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. ................................................................................................................................. 42 Figura 20. Variação espacial dos indivíduos com tamanho inferior ao comprimento de primeira maturação para a sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. ..................... 44 vi LISTA DE TABELAS Tabela 1. Relação da produção pesqueira (t) das espécies capturadas pela frota de cerco de Santa Catarina entre 2000 e 2013. Os dados para 2013 são preliminares. ............................ 5 Tabela 2. Descrição das características macroscópicas (adaptado de Vazzoler, 1996), consideradas para a classificação das gônadas dos indivíduos de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil, entre 2000 e 2013. .................................................................................................... 11 Tabela 3. Número de indivíduos de sardinha-verdadeira (SV), sardinha-laje (SL), palombeta (PB) e cavalinha (CV), medidos nos locais de desembarque, entre 2000 e 2013 nos portos de Itajaí e Navegantes, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil. ............................................................................................................................................. 16 Tabela 4. Número de indivíduos de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, analisados em laboratório, provenientes de sub-amostras coletadas nos locais de desembarque nos portos de Itajaí e Navegantes entre os anos de 2000 e 2013, discriminados por espécie (Sp.) e estágio de maturação (EM)............................................ 17 Tabela 5. Comprimento de primeira maturação (L50), parâmetros do modelo logístico (alpha e beta) e intervalo de confiança dessas variáveis, obtidos através da reamostragem com o método bootstrap, para as fêmeas de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. ... 22 Tabela 6. Comprimento de primeira maturação (L50), parâmetros do modelo logístico (alpha e beta) e intervalo de confiança dessas variáveis, obtidos através da reamostragem com o método bootstrap, para os machos de sardinha-verdadeira e palombeta, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. ....................................... 23 Tabela 7. Modelo Linear Generalizado (MLG) para analisar a influência dos fatores ano e mês na variabilidade da proporção de imaturos de sardinha-verdadeira (nível de significância 0,001), capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. .................................................................................................................................... 33 Tabela 8. Modelo Linear Generalizado (MLG) para analisar a diferença entre cada ano e mês da série de dados, na proporção de imaturos de sardinha-verdadeira, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. ............................................... 34 vii RESUMO O Estado de Santa Catarina tem um importante papel na produção nacional de pescados, sendo a maior parte capturada pela frota de cerco que tem a sardinha-verdadeira Sardinella brasiliensis como recurso-alvo. Apesar de não ser a única espécie capturada pela frota, as medidas de gestão desta pescaria são baseadas apenas no seu ciclo de vida. A análise de uma possível sobreposição do ciclo reprodutivo e recrutamento das principais espécies capturadas Sardinella brasiliensis, Opisthonema oglinum, Chloroscombrus chrysurus e Scomber japonicus foi utilizada como base para propor um modelo de defeso que contemple os ciclos de vida das espécies envolvidas. Dados biológicos e pesqueiros foram obtidos pelo Grupo de Estudos Pesqueiros da Universidade do Vale do Itajaí nos pontos de desembarque de pesca de Itajaí e Navegantes entre 2000-2013. Foram realizadas biometrias quinzenais de 250 indivíduos de cada espécie por desembarque e coletado subamostras de 60 exemplares para posterior amostragem. Em laboratório os indivíduos foram medidos, pesados e após a remoção das gônadas o estágio de maturação foi classificado em: imaturo (I), maturação (II), maduro (III) e desovado (IV). Uma reclassificação do estágio II foi necessária para separar os indivíduos virginalmente imaturos dos que estavam em recuperação pós-desova. Esta separação se deu pelo ajuste dos valores do peso das gônadas (Wgon) e índice gonadosomático (IGS) a uma equação linear e subsequente análise dos resíduos. Após a reclassificação, o tamanho de primeira maturação (L50) e respectivos parâmetros do modelo foram obtidos pelo ajuste da proporção de fêmeas maturas a um modelo logístico com reamostragem. O período de reprodução foi determinado através da análise das variações mensais do IGS e proporção dos estágios de maturação. O recrutamento foi determinado a partir da distribuição de comprimentos e da proporção de imaturos ao longo do ano, sendo que, para a Sardinella brasiliensis as variações temporais nas proporções de imaturos também foram analisadas com auxílio de um Modelo Linear Generalizado (MLG). As áreas de reprodução e recrutamento foram obtidas a partir da análise geoespacial da distribuição das amostras em quadrantes de 30’x30’ de resolução, na costa sudeste e sul do Brasil. O L50 para Sardinella brasiliensis foi de 19,07cm, 19,58cm para Opisthonema oglinum, 18,48cm para Chloroscombrus chrysurus e 21,22cm para Scomber japonicus. Para Sardinella brasiliensis o L50 foi superior ao determinado anteriormente, provavelmente devido a fatores densodependentes e/ou vício amostral. O período de reprodução das espécies analisadas apresentou sobreposição, com desova entre novembro e abril. Da mesma forma todas apresentaram recrutamento nos meses de junho e julho. Foram observadas mudanças temporais destes períodos para Sardinella brasiliensis que podem estar relacionadas com alterações das condições ambientais favoráveis para a espécie. Além da sobreposição do período, as espécies analisadas possuem sobreposição das áreas de desova e recrutamento, que ocorrem principalmente nas áreas costeiras próximas as ressurgências, o que propicia estabilidade e nutrientes necessários para a sobrevivência da prole. As espécies estudadas são beneficiadas pelos defesos usados para Sardinella brasiliensis atualmente, entretanto foi observada uma antecipação da desova da espécie para outubro, sendo necessário um ajuste nas medidas de manejo para proteger o estoque desovante. Palavras-chave: sardinha, pesca de cerco, sudeste e sul do Brasil. viii ABSTRACT The state of Santa Catarina contributes to an important part in national fish production, most of which captured by the seine fleet that target their captures over the Brazilian sardine Sardinella brasiliensis. Although this species is not captured alone by this fleet, fishery management measures are only based on their life cycle. The analysis of a possible overlap of the reproductive cycle and recruitment of the main species captured, including Sardinella brasiliensis, Opisthonema oglinum, Chloroscombrus chrysurus and Scomber japonicus was used as a basis to propose a period of no-catch considering the life cycles of these four species. Biological and fishery data were obtained by Grupo de Estudos Pesqueiros of the Universidade do Vale do Itajaí at landing sites of Navegantes and Itajaí between 2000-2013. The total length was periodically measured in 250 individuals of each species twice a month during landing and a subsample of 60 individuals were collected for further sampling. In laboratory each individual was measured in the total length (cm) and weighed (g) and after the removal of the gonads maturity stage was classified as immature (I), maturation (II), mature (III) and spawned (IV). A reclassification of the stage II was necessary in order to separate the virginal immature from those who were in post-spawning recovery. This separation was based on the analysis of the residuals of gonads weight (Wgon) and gonadosomatic index (GSI) relationship adjusted to a linear equation. After this reclassification, the size at first maturity (L50) and the respective parameters were obtained by adjusting the proportion of mature females to a logistic model with resampling. The reproductive period was determined by analyzing the monthly variations of GSI and proportion of the maturity stages. Recruitment was determined from length distributions and the proportion of immature throughout the year, and temporal variations in the proportions of immature individuals of the Brazilian sardine were also analyzed by a Generalized Linear Model (GLM). Reproductive areas and recruitment were obtained from geospatial analysis of biological samples distributed in quadrants of 30'x30' resolution, on the southeast and southern Brazil coast. The L50 calculated for Sardinella brasiliensis was 19.07cm, 19,58cm to Opisthonema oglinum, 18,48cm to Chloroscombrus chrysurus and 21,22cm to Scomber japonicus. For Sardinella brasiliensis L50 was higher than the previous determinations, probably due to density dependent factors, and/or sample biases. The reproductive period of the studied species demonstrate that they nearly synchronized the spawning activity between November and April, as well as, recruitment period during June and July. Temporal changes of these periods were observed for Sardinella brasiliensis that may be related to changes in favorable environmental conditions for the species. Despite the temporal overlap observed, the studied species also overlapped spawning and recruitment areas which mainly occur in coastal areas close to upwelling zones, which provides stability and nutrients needed for offspring survival. The species analyzed are benefited by the periods of no-catch currently stablished for Sardinella brasiliensis, however the anticipation of the spawning period of this species, required adjustments in the management measures to ensure the protection of the spawning stock. Key words: sardine, purse seine fleet, southeast and southern Brazil ix 1. INTRODUÇÃO 1.1 Pesca de cerco no Brasil O Brasil está entre os 20 maiores produtores de pescado do mundo, e segundo as estimativas do Ministério da Pesca e Aquicultura - MPA, em 2011 atingiu uma produção de mais de 1 milhão de toneladas (1.431.974t), sendo que deste total, 38,7% (553.670t) tem origem na pesca extrativa marinha (MPA, 2013). Neste contexto, o Estado de Santa Catarina destaca-se como o maior pólo produtor de pescado marinho, contribuindo com 121.960t em 2011 (UNIVALI/CTTMar, 2011). Em Santa Catarina os principais portos pesqueiros são Itajaí e Navegantes, com um complexo industrial de grandes dimensões e frota numerosa e diversificada. A frota de cerco emprega o maior esforço pesqueiro em termos de número de desembarques, com um total de 19.737 entre 2000 e 2009, os quais contribuíram com 36,1% de toda a produção desembarcada no Estado (UNIVALI/CTTMar, 2010, 2011). Segundo os registros da SUDEPE (1975) a pesca industrial de cerco iniciou na década de 1940 nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo e por volta de 1964 no Estado de Santa Catarina. A espécie-alvo da frota de cerco é a sardinha-verdadeira Sardinella brasiliensis (Steindachner, 1879), sendo o principal recurso pesqueiro marinho do Brasil em termos de produção, com 75 mil t desembarcadas em 2011 (MPA, 2013). A sardinhaverdadeira é uma espécie costeira, encontrada ao longo da área compreendida entre o Cabo de São Tomé (Rio de Janeiro - 22°S) e Cabo de Santa Marta Grande (Santa Catarina 29°S) (SUDEPE, 1975; Matsuura, 1977a; Saccardo & Rossi-Wongtschowski, 1991; Matsuura, 1998) em profundidade até 100 metros (Matsuura, 1977b; Saccardo & RossiWongtschowski, 1991). A área de distribuição é caracterizada por uma estrutura oceanográfica complexa. A principal característica desta região é a penetração da Água Central do Atlântico Sul (ACAS) sobre a plataforma continental, abaixo da Água Tropical (AT) e da Água de Plataforma (AP), que resulta no aporte de nutrientes e na formação de uma termoclina, principalmente em fim de primavera e verão (Matsuura, 1986; Braga & Niencheski, 2006). Outra característica importante é a ressurgência costeira na região entre Cabo Frio e Ilha Grande e outra ao sul da Ilha de Santa Catarina (Matsuura, 1986). A sardinha-verdadeira é o recurso pesqueiro de maior biomassa desse ecossistema e suas 1 flutuações naturais estão relacionadas com a dinâmica da interação entre componentes biológicos e oceanográficos da região (Paes et al., 2007). A pesca de cerco é realizada com rede denominada traineira, de formato retangular e com dimensões que variam de acordo com o tamanho do barco, sendo que estes possuem entre 19 e 32m, no entanto, a traineira mais comum tem entre 22 e 25m (Schwingel & Occhialini, 2007. Segundo Valentini & Cardoso (1991) no início do desenvolvimento da frota de cerco a localização dos cardumes era direcionada à visualização de uma mancha luminosa, causada pela intensa movimentação dos peixes que ativam a luminescência do plâncton. Dessa forma, a pesca era realizada à noite, iniciando dois a três dias após o final da lua cheia e encerrava ao término do quarto crescente, para facilitar a visualização do cardume pelo proeiro (Valentini & Cardoso, 1991). Ao longo da sua história foram observadas evoluções importantes, sendo que atualmente parte da frota conta com redes acima de 1.000m de comprimento e 90m de altura, permitindo a operação em áreas mais profundas (Cergole & Dias-Neto, 2011). As redes eram confeccionadas com fios de algodão e a partir de 1965 foram substituídas por panagens sintéticas ou de náilon multifilamento (Ueno et al., 1980). A partir de 1970 foi introduzido o power-block para auxiliar no recolhimento da rede (Schwingel & Occhialini, 2007) e do guincho hidráulico na década de 1980, considerados elementos que possibilitaram o aumento no tamanho do petrecho e poder de pesca (Cergole & Dias-Neto, 2011). Nas últimas décadas, o uso de equipamentos como sonar e ecossonda para a procura de cardumes, possibilitou operações de pesca também durante o dia e não apenas no período de escuro (Schwingel & Occhialini, 2007). De forma geral, a operacionalização da pesca de cerco inicia após a localização do cardume, quando primeiramente se faz o lançamento da rede com o auxílio de um pequeno barco, denominado de panga (Schwingel & Occhialini, 2007). Após completar o cerco, o fechamento da rede ocorre com a união das extremidades e posterior recolhimento, concentrando o cardume num tipo de ensacador, sendo que a despesca é realizada com o auxílio de cestos denominados saricos, ou através de equipamentos que succionam o pescado (Schwingel & Occhialini, 2007). Após o recolhimento, os peixes são armazenados no porão do barco com gelo ou salmoura. Desde o início do seu desenvolvimento, as capturas da sardinha-verdadeira pela frota de cerco aumentavam continuamente, até que em 1973 uma frota com aproximadamente 200 barcos (Dias-Neto & Dornelles, 1996) registrou a sua maior 2 produção com 228 mil t (Cergole, 1995). Ao mesmo tempo, foi constatada uma preocupante participação de juvenis nas capturas, o que motivou a adoção da primeira regulamentação da pescaria, sendo estabelecido um tamanho mínimo de captura de 17,0 centímetros para a sardinha-verdadeira e tolerando um máximo de 10% de juvenis em relação ao peso total (Cergole & Dias-Neto, 2011). Nos anos seguintes as capturas apresentaram uma tendência declinante, oscilando em torno de 140 e 125 mil t entre 1977 e 1986 (Valentini & Cardoso, 1991), respectivamente. Estes primeiros sinais de risco para a sustentabilidade da pescaria motivaram a implantação do primeiro modelo de defeso na década de 1980, onde foi mantido 45 dias de parada de pesca por ano (Cergole & DiasNeto, 2011). No mesmo período o número de traineiras no sudeste-sul atingiu um máximo de aproximadamente 500 barcos (Dias-Neto, 2010). No decorrer da década de 1980, novos decréscimos na produção foram registrados, até atingir 31 mil t em 1990 (Matsuura, 1998). Com este primeiro colapso nas capturas, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA ampliou o período de defeso, contemplando não só o período de desova, mas também o recrutamento da espécie, sendo adotados 65 dias por ano para cada período (Cergole & Dias-Neto, 2011). Além disso, o número de embarcações licenciadas também sofreu alterações, diminuindo de 317 para 185 unidades entre 1990 e 2000 (Cergole & Dias-Neto, 2011). A redução no número dessas embarcações não foi uniforme ao longo da costa, tendo sido maior em São Paulo (74%), seguido por Santa Catarina (29%) e Rio de Janeiro (18%) (Schwingel & Occhialini, 2003). Com medidas de ordenamento somadas a melhoria nos níveis de recrutamento entre 1991 e 1994, as capturas da sardinha-verdadeira voltaram a crescer, atingindo 86 mil t em 1994 (Dias-Neto, 2010; Cergole & Dias-Neto, 2011). O aumento da produção fez com que o defeso de recrutamento fosse abandonado na segunda metade da década de 1990, contribuindo com o retrocesso na recuperação dos estoques (Dias-Neto, 2010; Cergole & Dias-Neto, 2011). Mesmo assim, em 1997 foi registrada uma produção de sardinhaverdadeira de 117 mil t. De acordo com Cergole & Dias-Neto (2011) esta recuperação foi acompanhada pela intensificação da atividade pesqueira sem qualquer controle do esforço de pesca, de modo que no ano de 2000 foi registrado um colapso ainda maior que em 1990, com apenas 17 mil t desembarcadas. Assim, no período de 1999 a 2003 foi evidenciada a menor produção de sardinha-verdadeira desde o início dos acompanhamentos estatísticos em 1966 (Dias-Neto et al., 2011). Após esse colapso, novamente foram estabelecidos dois períodos anuais de defeso para sardinha-verdadeira, proibindo a pesca durante seis meses 3 ao ano entre 2003 e 2006, sendo 4 meses no verão para o defeso de reprodução e 2 meses no inverno para o defeso de recrutamento (Cergole & Dias-Neto, 2011). Nos anos seguintes foram discutidas propostas para um plano de gestão da sardinha-verdadeira e novas recomendações para o defeso, sendo que em 2006 foi implantado um novo modelo por mais três temporadas (Cergole & Dias-Neto, 2011). O modelo de defeso que está em vigor atualmente, foi definido no ano de 2009, sendo de 1° de novembro a 15 de fevereiro o defeso de reprodução, e de 15 de junho a 31 de julho o defeso de recrutamento da sardinha-verdadeira (Apêndice 1; Apêndice 2) (Brasil, 2009a). Além disso, outra medida tomada na tentativa de recuperar os estoques de sardinhaverdadeira, é que durante o defeso de recrutamento os barcos permissionados para a pesca com isca viva, estão proibidos de capturar, estocar, armazenar, transportar ou comercializar a sardinha-verdadeira para ser usada como isca (Cergole & Dias-Neto, 2011). Entre 2009 e 2012 estimasse que a produção de sardinha-verdadeira no Brasil tenha oscilado entre 62 e 100 mil t, sendo que Santa Catarina desembarcou 52 mil t em 2012 (GEP/UNIVALI, 2013), a maior produção no Estado nos últimos 14 anos. De modo geral, a frota de cerco de Santa Catarina é a que possui o maior poder de pesca na região Sudeste e Sul, pois o Estado possui a maioria das permissões de pesca e, além disso, segundo as análises de Cergole & Dias-Neto (2011) é o Estado que apresenta a frota mais jovem e, portanto, mais moderna, seguida pela frota do Rio de Janeiro. Os maiores barcos, arqueações brutas e potências são encontrados na frota catarinense, explicando porque o estado detém as maiores produções atuais da pesca de cerco (Cergole & Dias-Neto, 2011). Segundo Schwingel & Occhialini (2007), apesar da sardinha-verdadeira ser a espécie-alvo da pesca de cerco, a partir de 1998 a frota passou a atuar sobre outras espécies de peixes pelágicos e demersais, deixando de ser monoespecífica. Na Tabela 1 pode-se observar as principais espécies capturadas por esta frota em Santa Catarina entre 2000 e 2013. Em termos de produção, além da sardinha-verdadeira, destacam-se a sardinha-laje, tainha, palombeta e cavalinha. Entretanto, estes outros componentes da captura da frota de cerco são desconsiderados nas estratégias de manejo, colocando em risco a sustentabilidade biológica desses estoques. Neste conjunto, apenas a tainha Mugil liza tem uma dinâmica de captura distinta, por ser uma espécie catádroma, com nicho diferente das demais (Lemos et al. 2014), possui uma pesca restrita ao período de migração reprodutiva, de maio a julho. 4 Tabela 1. Relação da produção pesqueira (t) das espécies capturadas pela frota de cerco de Santa Catarina entre 2000 e 2013. Os dados para 2013 são preliminares. Produção por Ano (T) Espécies 2000 Sardinhaverdadeira Sardinhalage 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Total 2008 2009 2010 2011 2012 % 2013 6.476 24.844 10.250 17.978 28.278 27.604 30.753 24.853 22.783 31.497 16.085 26.523 49.812 39.597 357.333 59,40 4.274 3.677 2.312 5.394 4.215 3.111 5.964 11.686 12.560 6.011 6.387 3.778 3.249 1.939 74.557 12,39 Tainha 2.620 946 1.344 2.479 2.641 3.116 1.081 6.397 2.038 4.122 3.309 3.043 1.511 1.218 35.865 5,96 Palombeta 1.201 2.195 1.814 907 1.395 1.855 1.805 1.700 6.172 3.657 6.215 2.777 1.589 3.506 36.788 6,12 Cavalinha 642 1.254 867 30 1.006 1.220 603 1.658 8.943 2.651 788 462 4.714 1.408 26.246 4,36 Corvina 3.396 1.482 2.586 2.357 2.788 2.083 2.066 3.769 5 151 52 43 171 60 21.009 3,49 Enchova 184 225 549 958 628 189 790 1.037 466 196 373 336 577 39 6.547 1,09 Galo 82 16 204 128 127 80 143 112 995 779 503 2.682 519 498 6.868 1,14 2.039 1.741 2.403 3.137 2.999 4.402 3.164 3.712 2.653 2.811 1.394 1.028 2.660 2.242 36.385 6,05 Outros Total 20.914 36.380 22.328 33.367 44.077 43.660 46.368 54.925 56.614 51.874 35.105 40.672 64.801 50.507 601.598 100,00 1.2 Principais espécies capturadas pela frota de cerco A sardinha-verdadeira é um clupeídeo marinho pelágico de pequeno porte (Vazzoler, 1996), e atinge a idade aproximada de quatro anos (Saccardo et al., 1988). A reprodução ocorre em cardumes na coluna da água, próximo à superfície, sem nenhum comportamento de corte nem estruturas especializadas (Vazzoler, 1996). A eliminação dos gametas ocorre no meio pelágico, com fecundação e desenvolvimento externos, sendo considerado um meio eficiente de assegurar a ampla dispersão dos ovos, larvas e jovens através das correntes (Vazzoler, 1996). No geral a proporção de fêmeas no cardume é maior durante o ano, cerca de 62% contra 38% de machos, no entanto, durante a época de reprodução, a proporção se torna quase igual, havendo 53% de fêmeas e 47% de machos (Matsuura, 1977b). O comprimento de maturação estabelecido para a espécie é entre 16,5 e 17,0cm (Vazzoler, 1961; Rossi-Wongtschowski, 1977). A espécie possui uma estratégia de desova parcelada (Isaac-Nahum et al., 1988). Com a desova parcelada, os ovócitos são liberados em lotes, à medida que atingem a maturação completa (Vazzoler, 1996). De acordo com os estudos de Isaac-nahum et al. (1988) a sardinha-verdadeira pode eliminar lotes com pouco mais de 30.000 ovócitos em intervalos de dois dias, durante o período de desova. As desovas ocorrem no período noturno, entre as 21:00h e 3:00h (Matsuura, 1996), com um pico a 1:00h ocorrendo na camada de mistura de superfície (Matsuura, 1998). As 5 larvas eclodem após 19h com a temperatura da água a 24°C (Saccardo & RossiWongtschowski, 1991; Matsuura, 1998). O início da maturação ou recuperação das gônadas começa em outubro, e os ovários continuam crescendo durante a primavera. A desova ocorre no fim da primavera e verão, atingindo sua maior intensidade nos meses de dezembro e janeiro (Matsuura, 1977b; Isaac-Nahum et al., 1988; Jablonski & Legey, 2004). O recrutamento de juvenis ao estoque adulto ocorre principalmente nos meses de inverno, tendo maior intensidade no mês de julho (Matsuura, 1977b; Cergole & Valentini, 1994; Cergole, 1995). A sardinha-laje Opisthonema oglinum (Leseur, 1818) é um clupeídeo marinho, e normalmente atinge um tamanho de até 30,0cm, com distribuição da Nova Inglaterra até a Argentina (Figueiredo & Menezes, 1978). No Brasil, a espécie ocorre em toda a costa, porém, é encontrada em maior abundância entre os estados do Rio de Janeiro e Santa Catarina, se sobrepondo a área da sardinha-verdadeira (Feltrim & Schwingel, 2005). Em um estudo realizado com os indivíduos da espécie que ocorrem na plataforma Sul do México, García-Abad et al. (1998) estabeleceram que para aquela área, a reprodução da sardinha-laje ocorre de maio a outubro, com dois picos de desova, em maio e agosto. Segundo os mesmos autores, o recrutamento dos juvenis ocorre principalmente no mês de junho, sendo que foi observado um segundo recrutamento em outubro. Para os indivíduos que ocorrem na região Sudeste e Sul do Brasil Feltrim (2002) e Feltrim & Schwingel (2005) concluíram que o ciclo reprodutivo da espécie é muito semelhante ao da sardinhaverdadeira, com um aumento da atividade reprodutiva a partir de novembro (primavera), estendendo-se durante o verão. Em relação ao período de recrutamento da espécie, Lessa et al. (2004) em estudos realizados com indivíduos de sardinha-laje que ocorrem na região Nordeste do Brasil, encontraram um período de recrutamento muito amplo, entre junho e fevereiro, com maior intensidade nos meses de dezembro e janeiro. A palombeta Chloroscombrus chrysurus (Linnaeus, 1766) é uma espécie de carangídeo de pequeno porte, com uma ampla distribuição pelas águas costeiras brasileiras, sendo que há registros desta espécie também nos Estados Unidos até o Norte da Argentina (Menezes & Figueiredo, 1980). Segundo Katsuragawa & Matsuura (1992) a espécie possui pico de desova no verão, estratégia similar a da sardinha-verdadeira. Pio e Schwingel (2012a) constataram atividade reprodutiva em todos os meses entre 2008 e 2010, com um pico reprodutivo nos meses de abril e maio em 2009. Segundo Costa et al. (2005) o recrutamento dos indivíduos de palombeta ocorre nos períodos de primavera e verão, e 6 com maior abundância no outono. Cunha et al. (2000) em seus estudos, observaram uma maior frequência de recrutamento nos meses de maio e junho, correspondendo ao período de outono. Para Masumoto & Cergole (2005) os menores indivíduos da espécie são capturados em junho e julho, indicando o recrutamento para a pesca no final do outono e início do inverno. A cavalinha Scomber japonicus (Houttuyn, 1782) é um escombrídeo de pequeno porte, alcançando até 59,0cm de comprimento. É uma espécie de hábitos costeiros, principalmente de superfície, mas pode ser encontrada em até 300m de profundidade. Seus cardumes habitam águas quentes, ocorrendo em todo o mundo, e na costa leste da América, distribui-se desde Nova Scotia até o Leste da Argentina (Figueiredo & Menezes, 2000). Por ser cosmopolita vários estudos foram realizados com a espécie, abrangendo aspectos do seu ciclo de vida em diferentes regiões, sendo que uma relação dos dados existentes sobre a espécie pode ser encontrada na revisão de Castro-Hernández & SantanaOrtega (2000). No Brasil o primeiro estudo da biologia da cavalinha foi realizado por Seckendorff & Zavala-Camin (1985), onde os autores estabeleceram que na região Sudeste do país o período reprodutivo da espécie inicia entre os meses de julho e setembro e termina em dezembro, sendo que o maior número de imaturos ocorre em novembro. Para a região do México, Gluyas-Millán & Muñoz-Gómez (1993) observaram que o recrutamento para a pesca ocorreu entre os meses de novembro e abril. A frota de cerco do Sudeste e Sul do Brasil tem um papel de destaque na produção da pesca extrativa marinha (UNIVALI/CTTMar, 2010). Os estudos sobre as espécies que compõem a captura desta frota se concentram sobre a sardinha-verdadeira, por ser o mais importante recurso pesqueiro do Brasil (Cergole & Dias-Neto, 2011). Assim, poucos trabalhos foram direcionados para o conhecimento da biologia e dinâmica populacional das outras espécies que compõe as capturas. Como consequência, as medidas de gestão são baseadas apenas no ciclo de vida da sardinha-verdadeira, sem considerar as demais espécies capturadas. Mesmo para a sardinha-verdadeira, parâmetros populacionais não foram reavaliados na última década. Em adição, uma análise preliminar do ciclo reprodutivo da sardinha-verdadeira entre 1998 e 2011, apresentada por Pio & Schwingel (2012b), mostra uma tendência de antecipação do início do processo de desova a partir de 2003, indicando a necessidade de estudos mais aprofundados para uma possível readequação nos períodos de defeso. Ao mesmo tempo, é necessário conhecer o ciclo de vida das principais espécies capturadas pela frota de cerco, especialmente no que diz 7 respeito aos períodos de reprodução e recrutamento, parâmetros que definem o modelo atual de ordenamento. Neste contexto, as seguintes questões são apresentadas: a) O modelo atual de defeso da pesca de cerco é adequado à sustentabilidade biológica das espécies que compõem a captura, protegendo os períodos de reprodução e recrutamento?; b) Um novo modelo de períodos de defeso, que contemple as principais espécies componentes da captura da pesca de cerco, pode ser implantado?; e c) Existe sobreposição espacial na desova e recrutamento das principais espécies que compõem a captura da pesca de cerco?. Nesse sentido a seguinte hipótese deve ser testada: Os períodos e áreas de reprodução e recrutamento das principais espécies componentes da captura da pesca de cerco se sobrepõem. 8 2. OBJETIVOS 2.1 Objetivo geral Propor um modelo multiespecífico de gestão pesqueira para a frota de cerco do Sudeste e Sul do Brasil, baseado em análises dos ciclos de reprodução e recrutamento das principais espécies capturadas entre os anos de 2000 e 2013. 2.2 Objetivos específicos a) Analisar o ciclo de reprodução, bem como o tamanho de primeira maturação, das principais espécies capturadas pela frota de cerco no Sudeste e Sul do Brasil, i.e. sardinha-verdadeira Sardinella brasiliensis, sardinha-laje Opisthonema oglinum, palombeta Chloroscombrus chrysurus e cavalinha Scomber japonicus; b) avaliar os períodos e áreas de recrutamento das principais espécies capturadas pela frota de cerco no Sudeste e Sul do Brasil; c) identificar os níveis de sobreposição dos períodos e áreas de reprodução e recrutamento das principais espécies que compõe a captura; d) propor um modelo de defeso de reprodução e recrutamento que contemple os ciclos de vida das principais espécies componentes da captura da frota de cerco. 9 3. MATERIAL E MÉTODOS 3.1. Área de estudo Para este trabalho foram utilizados dados pesqueiros e biológicos das principais espécies capturadas pela frota de cerco na plataforma continental do sudeste e sul do Brasil (20ºS-29ºS) entre os anos de 2000 e 2013. As espécies analisadas no presente estudo foram sardinha-verdadeira Sardinella brasiliensis, sardinha-laje Opisthonema oglinum, palombeta Chloroscombrus chrysurus e cavalinha Scomber japonicus. 3.2. Amostragem e base de dados Os dados são provenientes do Grupo de Estudos Pesqueiros da Universidade do Vale do Itajaí (GEP/UNIVALI), obtidos principalmente, nos portos de Itajaí e Navegantes (SC). A coleta de dados pesqueiros junto a frota de cerco inclui informações sobre o esforço, áreas de pesca e desembarques totais, resultante de entrevistas de cais com os mestres de pesca e fichas de produção (Perez et al., 1998). Nos locais de desembarque foi realizada a biometria (comprimento total, Lt) de uma amostra com cerca de 250 indivíduos, por desembarque, de cada espécie estudada para determinar a distribuição de tamanho dos indivíduos, sendo os peixes agrupados em classes de 0,5cm. Este procedimento foi realizado quinzenalmente (dependendo da disponibilidade de desembarques). Para a amostragem biológica das espécies, foi coletada aleatoriamente uma sub-amostra com cerca de 60 indivíduos. No laboratório, os exemplares de cada subamostra foram medidos (em milímetros) e pesados em uma balança com precisão de 0,01g. Em seguida, foi determinado o estágio de desenvolvimento gonadal das fêmeas e machos baseado em características macroscópicas das gônadas, seguindo uma adaptação da escala proposta por Vazzoler (1996), sendo as gônadas classificadas em: imaturo (I), em maturação (II), maduro (III) e desovado (IV) (Tabela 2). O peso das gônadas também foi registrado, com precisão de 0,01g. 10 Tabela 2. Descrição das características macroscópicas (adaptado de Vazzoler, 1996), consideradas para a classificação das gônadas dos indivíduos de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil, entre 2000 e 2013. Estágios de maturação I – imaturo II – em maturação III – maturo IV – desovado Descrição das características macroscópicas das gônadas Os ovários são pequenos, ocupando menos de 1/3 da cavidade celomática; filamentosos, translúcidos e sem sinais de vascularização. Não se observam ovócitos a olho nu. Não atingem o poro genital, estando ligados a estes pelos ovidutos, de diâmetro muito reduzido. Os testículos são reduzidos, filiformes, translúcidos, com posição semelhante à dos ovários. Os ovários são maiores, ocupando de 1/3 a 2/3 da cavidade celomática, intensamente vascularizados, aproximando-se mais do poro genital, sendo que o oviduto apresenta-se como uma lamina delgada em forma de tubo, transparente e vazia. A olho nu observam-se ovócitos opacos, pequenos e médios. Os testículos apresentam-se desenvolvidos, com forma lobulada e sua membrana rompe-se sob certa pressão, eliminando esperma leitoso e viscoso. Os ovários apresentam-se túrgidos, ocupando de 2/3 a praticamente toda cavidade celomática, sendo visível um grande número de ovócitos opacos ou translúcidos que podem ocupar, inclusive, os ovidutos. Sua vascularização inicialmente é reduzida e no final torna-se imperceptível. Estes ovócitos ocorrem na etapa inicial deste estágio e no final ocupam todo o ovário e também ovidutos. Os testículos apresentam-se túrgidos, esbranquiçados, ocupando grande parte da cavidade celomática, com fraca pressão rompe-se sua membrana, fluindo esperma menos viscoso que no estágio anterior. Os ovários apresentam-se flácidos com membranas distendidas, de tamanho relativamente grande, mas não volumosos, ocupando menos da metade da cavidade celomática. Observam-se poucos ovócitos, em estado de absorção, muitas vezes formando grumos esbranquiçados. A característica mais marcante é a presença de zonas hemorrágicas. Os testículos apresentam-se flácidos, com aspecto hemorrágico e sua membrana não se rompe sob pressão. 11 3.3. Análise dos parâmetros reprodutivos Para a análise dos parâmetros reprodutivos e do período de reprodução, os indivíduos de cada espécie foram separados em imaturos e maturos. No entanto, teve-se que considerar o fato que no ciclo reprodutivo, depois que o indivíduo desova, a gônada retorna para o estágio II, onde após o repouso gonadal ele estará apto a iniciar um novo ciclo. Porém, na análise macroscópica, é difícil distinguir os indivíduos jovens, que estão iniciando seu primeiro ciclo reprodutivo, daqueles que já desovaram e estão em repouso gonadal para iniciar um novo ciclo, sendo todos classificados no estágio II de maturação. Dessa forma, se fez necessário a reclassificação deste estágio. Para isso foram tomados o peso das gônadas (Wgon) e o Índice Gonadossomático (IGS) de cada indivíduo do estágio II, separando machos e fêmeas. O IGS expressa a porcentagem que a massa das gônadas representam da massa do corpo do indivíduo, sendo um indicador eficiente do estado funcional das gônadas e é obtido através da fórmula (Vazzoler, 1996): IGS = (Wgon / (Wt - Wgon)) *100 onde Wgon= peso das gônadas e Wt= peso total. Os valores de Wgon e IGS de cada indivíduo foram ajustados a uma equação linear e a subsequente análise dos resíduos (Zar, 2010; Gotelli & Allison, 2011) foi realizada afim de identificar dois diferentes grupos, separando os indivíduos do estágio de maturação II em imaturos e maturos, correspondendo respectivamente, aos jovens que vão reproduzir pela primeira vez, daqueles que estão em repouso para iniciar um novo ciclo. Com os indivíduos reclassificados, foi feita a distribuição de comprimentos, afim de verificar se, como esperado, os indivíduos reclassificados como imaturos eram os de menores tamanhos e se os maturos se distribuíram nas maiores classes de comprimento. Após a reclassificação foi determinado o comprimento de primeira maturação (L50), ou seja, o comprimento em que 50 por cento dos indivíduos estão aptos a reproduzir (Vazzoler, 1996), para fêmeas e machos de todas as espécies analisadas. Para isso, os indivíduos foram separados em imaturos e maturos e foi feita a reamostragem utilizando o método boostrap (Crawley, 2005), afim de obter os valores do L50, de α e β do modelo logístico e um intervalo de confiança para estes parâmetros. Os dados foram ajustados a uma regressão logística através do método interativo dos mínimos quadrados a partir da fórmula abaixo, afim de obter o ajuste da curva de maturação para cada espécie: P = 1 / [(1 + exp (α - β * Lt)] * 100 12 onde P – proporção de maturos; Lt – classe de comprimento. Para identificar o período de reprodução das espécies estudadas foram consideradas apenas as fêmeas e somente aquelas maiores que o L50, uma vez que as gônadas das fêmeas imaturas apresentam um peso insignificante em relação ao peso corporal, o que poderia comprometer a interpretação dos valores (Vazzoler, 1996). Foi calculada a mediana do IGS destas fêmeas, de todas as espécies, ao longo do ano e os percentis de 25% e 75%, afim de visualizar a dispersão dos valores. Optou-se pelo cálculo da mediana ao invés da média porque foi observado que os IGS dos indivíduos de uma mesma amostra variaram entre valores muito altos e muito baixos, e nesse caso a mediana é a melhor medida por não ser influenciada por estes valores extremos (Morettin & Bussab, 2004; Tsikliras & Stergiou, 2014). Além do IGS mensal, foi calculada a proporção de maturos ao longo do ano para visualizar os picos reprodutivos. A proporção dos indivíduos imaturos e em desenvolvimento gonadal também foi feita com a finalidade de observar a entrada e saída do período de reprodução. Foram considerados como meses de atividade reprodutiva aqueles que apresentaram medianas de IGS iguais ou superiores a 2%, bem como proporção de fêmeas nos estágios avançados de maturação gonadal (III e IV) superior a 50%. Em caso de falta de informações mensais, essa esteve associada aos períodos de defeso ou quando não foram obtidas amostras. 3.4. Análise do recrutamento Para identificar o período de recrutamento foram agrupados machos e fêmeas e a partir dos organismos medidos nas análises biométricas, realizadas nos locais de desembarques, foi feita a distribuição de comprimentos para visualizar o comportamento das modas ao longo dos meses. Dos indivíduos analisados em laboratório foram calculadas a proporção dos imaturos para todas as espécies analisadas, afim de observar os picos de recrutas ao longo do ano. Além disso, para a sardinha-verdadeira as oscilações temporais nas proporções de imaturos foram avaliadas ainda com auxílio de um Modelo Linear Generalizado (MLG) com distribuição de probabilidade Binomial para variável resposta (Nelder & Wedderburn, 1972). Devido ao padrão de superdispersão observado nas proporções de indivíduos imaturos foi necessário adaptar o modelo utilizando uma distribuição de probabilidade Quasi-Binomial capaz de lidar com esta particularidade (Crawley, 2005). A abordagem proposta permite evidenciar significativamente as 13 variações, entre os anos e entre os meses das proporções de imaturos nas capturas e assim, identificar as épocas mais prováveis do recrutamento, bem como, possíveis mudanças nos períodos ao longo da série temporal analisada. O período de recrutamento foi considerado quando houve as menores modas de comprimento e um comportamento bimodal nas análises biométricas, assim como os meses em que foram observadas proporções de imaturos iguais ou superiores a 50%. Para a sardinha-verdadeira, foram avaliados os resultados do MLG e confrontados com as demais análises, para determinar os meses com maior número de imaturos e possíveis mudanças desse período ao longo do tempo. Tanto para o período de reprodução quanto para o de recrutamento, os dados foram separados de duas formas distintas. Para a sardinha-verdadeira, devido ao maior número amostral os dados foram separados em quinzenas ao longo do ano, sendo agrupados em três períodos de tempo: 2000 a 2004, 2005 a 2009 e 2010 a 2013. Optou-se pelas quinzenas por esta ser a unidade em que são definidos os períodos de defeso, facilitando o processo de tomada de decisão. Os três grupos de anos foram assim separados para identificar possíveis deslocamentos destes períodos em relação à reprodução e recrutamento. O primeiro período foi definido ao considerar que em 2004 foi implantado o primeiro defeso de recrutamento, sendo agrupados os anos de 2000 a 2004 porque os efeitos desse defeso iriam refletir apenas no ano seguinte. Em 2009 foi implantada uma nova Instrução Normativa e um novo modelo de defesos de reprodução e recrutamento, da mesma forma, foram agrupados os anos de 2005 a 2009 porque os efeitos destes novos defesos só seriam visualizados no ano seguinte. Assim, no último período foram agrupados o ano de 2010 até o último ano da série de dados, 2013. Para a sardinha-laje, palombeta, cavalinha e novamente, para a sardinha-verdadeira, os dados de 2000 a 2013 foram agrupados mensalmente, afim de observar a sobreposição da reprodução e recrutamento entre as espécies. A divisão em períodos não foi realizada para as demais espécies por terem um menor número amostral. Além disso, a partir das análises biométricas, para a sardinhaverdadeira, foram feitas distribuições de comprimentos ano a ano para toda a série de dados, com a finalidade de visualizar o comportamento da moda ao longo dos anos e possíveis mudanças no comprimento dos indivíduos capturados pela frota de cerco. 14 3.5. Análise geoespacial A análise geoespacial da distribuição das amostras analisadas foi realizada a partir da localização dos respectivos lances de pesca em quadrantes de meio grau (30’ x 30’) de resolução, na costa sudeste e sul do Brasil. Para determinar as áreas de reprodução, a partir de cada amostra com dados geoespaciais foi feita a mediana de IGS e calculados os quartis de 25% e 75%. A diferença entre estes quartis (1° e 3°) foi calculada afim de obter o valor do intervalo Interquartil (IQR), onde 50% dos dados estão dispersos (Zar, 2010). Menores valores do IQR significam menor variação entre os IGS dos indivíduos de uma mesma amostra. Foi utilizado um Sistema de Informação Geográfica (Arc Gis 10.0®) onde os valores de IGS e IQR foram adicionados aos seus respectivos quadrantes. Foram consideradas como prováveis áreas de desova aquelas em que o IGS foi em torno ou superior a 2%, ao mesmo tempo em que o IQR apresentou valores baixos. Para as áreas de recrutamento, a partir das amostras biométricas foram considerados os indivíduos com tamanho igual ou inferior ao L50 e calculada a proporção destes em cada amostra. Da mesma forma, com o auxílio do Sistema de Informações Geográficas (Arc Gis 10.0®) os dados foram localizados nos respectivos quadrantes. Foram consideradas como possíveis áreas de recrutamento aquelas em que foram registradas as maiores proporções de indivíduos menores que o L50. Considerando que uma traineira faz em média 2 lances por viagem (Schwingel & Occhialini, 2007), estes ficam frequentemente restritos a um único quadrante. Desta forma, quando os lances de pesca abrangem mais de um quadrante, esses são adjacentes, sendo assim, as características da amostra (distribuições de comprimento e parâmetros reprodutivos) foram validadas igualmente para todos os quadrantes. Após a definição dos períodos e áreas de reprodução e recrutamento da sardinhaverdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, foram analisados os níveis de sobreposição dos mesmos e, posteriormente, confrontados com o modelo de defeso atualmente em vigor. A partir desta análise foi proposto um modelo de defeso de reprodução e recrutamento, que contemple os resultados obtidos para as espécies estudadas componentes da captura da frota de cerco. 15 4. RESULTADOS Para analisar o ciclo de reprodução e recrutamento das principais espécies capturadas pela frota de cerco no Sudeste e Sul do Brasil, foram realizadas 414 amostragens biométricas nos locais de desembarque entre os anos de 2000 e 2013, totalizando 105.702 indivíduos medidos. Deste total, 250 amostras são de sardinhaverdadeira, 82 sardinha-laje, 35 palombeta e 47 cavalinha (Tabela 3). Para as análises biológicas em laboratório, foram coletadas 339 sub-amostras de sardinha-verdadeira, 58 sardinha-laje, 33 palombeta e 31 cavalinha, totalizando 24.749 indivíduos amostrados (Tabela 4). Para a sardinha-verdadeira, sub-amostras foram obtidas para todos os anos no intervalo de 2000 a 2013, para a sardinha-laje e palombeta foram utilizados dados de 2006 a 2013 e para a cavalinha a série de dados abrange os anos de 2004 a 2011, excetuando-se 2005 (Tabela 4). Tabela 3. Número de indivíduos de sardinha-verdadeira (SV), sardinha-laje (SL), palombeta (PB) e cavalinha (CV), medidos nos locais de desembarque, entre 2000 e 2013 nos portos de Itajaí e Navegantes, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil. Anos Espécies 2000 SV 3.121 SL 2.276 2001 923 2002 451 PB CV Total 5.397 Total 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 3.346 5.068 3.378 5.985 4.839 4.795 7.576 8.428 7.768 5.239 6.685 66.228 215 691 289 1.215 1.707 1.150 2.104 4.038 2.365 1.024 1.336 19.784 210 228 398 469 1.506 1.593 2.714 790 282 1.743 2.111 1.308 492 957 10.547 9.194 13.384 16.488 11.415 7.502 8.974 105.702 1.122 162 346 841 488 129 848 2.045 613 4.117 6.828 4.155 7.727 7.863 953 9.143 16 Tabela 4. Número de indivíduos de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, analisados em laboratório, provenientes de sub-amostras coletadas nos locais de desembarque nos portos de Itajaí e Navegantes entre os anos de 2000 e 2013, discriminados por espécie (Sp.) e estágio de maturação (EM). Anos Cavalinha Palombeta Sardinha-laje Sardinha-verdadeira Sp. EM 2000 2001 2002 2003 2004 2005 150 1.387 FI 307 488 F II 107 426 F III 129 9 F IV 142 1.079 MI 210 221 M II 241 433 M III 31 M IV Total 1.317 4.043 FI F II F III F IV MI M II M III M IV Total FI F II F III F IV MI M II M III M IV Total FI 243 61 103 4 49 85 18 563 241 42 6 101 73 28 3 494 18 37 60 32 21 140 49 29 386 3 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 Total 5 315 92 144 79 529 201 8 37 3.449 35 95 189 250 404 92 220 130 455 2.763 31 39 48 34 99 114 84 65 64 1.316 148 246 270 166 283 217 349 428 253 2.540 2 285 132 140 120 471 199 12 39 2.792 43 56 108 97 219 59 192 88 357 1.948 50 83 51 93 116 165 155 142 52 1.676 77 216 236 85 182 148 330 261 215 1.813 391 1.335 1.126 1.009 1.502 1.795 1.730 1.134 1.472 18.297 58 12 16 272 109 2 12 481 71 73 153 70 23 23 132 545 13 25 71 47 59 19 29 1 264 4 64 36 58 97 150 81 6 496 83 20 53 224 106 2 13 501 39 33 60 13 21 17 102 285 35 31 34 21 65 3 49 3 241 8 62 35 44 89 103 37 28 406 60 433 314 452 889 534 240 297 3.219 4 16 21 28 10 6 85 4 2 11 86 30 6 3 30 172 36 19 80 52 140 9 6 31 373 2 5 1 41 72 49 1 7 178 7 10 31 26 13 1 1 89 9 3 16 85 63 7 11 21 215 50 22 109 88 175 20 12 22 498 4 1 22 57 59 4 7 154 112 81 218 426 591 173 44 119 1.764 2 23 17 37 16 29 127 F II 24 7 31 163 169 25 35 454 F III 2 6 48 24 26 46 11 163 F IV 3 3 1 2 MI 5 6 28 69 34 59 34 235 M II 1 19 43 164 64 42 17 350 1 32 23 19 33 14 122 M III M IV 4 Total 42 2 41 210 9 3 461 354 9 221 140 1.469 17 Na distribuição de comprimentos (Figura 1), proveniente das análises de laboratório, foi observado para a sardinha-verdadeira o registro de indivíduos entre 16,0cm e 24,0cm, caracterizando uma curva unimodal em torno dos 20,0cm. No entanto, exemplares de classes de tamanho menores foram ocasionalmente observados, medindo entre 4,0cm a 15,0cm. Para a sardinha-laje foi observado uma distribuição entre 17,0cm e 31,0cm com a maior proporção em torno dos 22,0cm. A distribuição registrada para a palombeta abrange indivíduos com comprimentos entre 14,5cm e 40,0cm, sendo que as maiores proporções foram observadas em um amplo intervalo, entre os 22,0cm e 30,0cm. Em relação a cavalinha, o menor comprimento amostrado foi de 19,5cm e o maior de 39,5. Para esta espécie foram registradas duas modas com maior proporção de indivíduos, uma em torno dos 23,0cm e outra próximo aos 29,0cm, apresentando uma distribuição bimodal. Figura 1. Distribuição de comprimentos dos machos e fêmeas de sardinha-verdadeira, sardinhalaje, palombeta e cavalinha, amostrados em laboratório entre 2000 e 2013, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil. 18 4.1 Reprodução As análises de reprodução das espécies estudadas envolveram a necessidade de uma reclassificação dos estágios de maturação gonadal, afim de separar os indivíduos em imaturos e maturos. Dessa forma, foi possível determinar o comprimento de primeira maturação (L50) e estabelecer o período de reprodução para todas as espécies estudadas. 4.1.1 Reclassificação do estágio de maturação II A partir da análise dos resíduos da regressão entre peso gonadal (Wgon) e o Índice Gonadosomático (IGS) dos indivíduos do estágio de maturação II (Figuras 2 e 3), foi possível distinguir dois diferentes grupos, com distintas características biológicas, para fêmeas e machos da sardinha-verdadeira. Dessa forma, os indivíduos foram separados em II-imaturos (554 fêmeas e 483 machos) e II-maturos (2.209 fêmeas e 1.465 machos), correspondendo respectivamente a exemplares que vão reproduzir pela primeira vez, daqueles que já reproduziram e estão no repouso gonadal. Para sardinha-laje, palombeta e cavalinha não foi possível fazer esta distinção dos organismos do estágio II, fato que pode estar associado a um menor número amostral dificultando a separação destes indivíduos. Na distribuição de comprimentos para as fêmeas II de sardinha-verdadeira foram observados indivíduos com tamanhos entre 15,0cm e 26,5cm. Após a reclassificação, as fêmeas II-imaturas se distribuíram nos menores tamanhos, apesar de serem observados alguns organismos imaturos com comprimento em torno de 25,0cm (Figura 4). Para os machos II de sardinha-verdadeira, de modo similar as fêmeas, os dados revelam uma distribuição de comprimentos entre 14,5cm e 27,5cm. A maior proporção dos machos IIimaturos ocorreu nos menores comprimentos, sendo que após os 23,0cm nenhum macho foi classificado como imaturo (Figura 4). Dessa forma, foi possível determinar a proporção de indivíduos maturos em cada classe de comprimento, sendo os estágios I e II-imaturos de sardinha-verdadeira considerados como imaturos e os demais como maturos. Para a sardinha-laje, palombeta e cavalinha, os indivíduos do estágio I foram considerados como imaturos e os demais como maturos. 19 II-imaturas II-maturas Figura 2. Análise dos resíduos entre peso das gônadas (Wgon) e índice gonadossomático (IGS) das fêmeas II de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. II-maturos II-imaturos Figura 3. Análise dos resíduos entre peso das gônadas (Wgon) e índice gonadossomático (IGS) dos machos II de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinhacapturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. 20 Figura 4. Distribuição de comprimentos dos machos II e fêmeas II de sardinha-verdadeira após a reclassificação em estágio II-imaturo (Imat) e II-maturo (Mat), capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. 4.1.2 Comprimento de primeira maturação A partir da reamostragem com o método bootstrap foi possível estabelecer o L50 e os parâmetros do modelo logístico para as fêmeas de todas as espécies analisadas e um intervalo de confiança para estes parâmetros (Tabela 5). O ajuste dos dados em uma regressão logística possibilitou a confecção das curvas de maturação para as fêmeas destas espécies (Figura 5). O L50 encontrado para as fêmeas de sardinha-verdadeira foi de 19,1cm (18,8-19,5cm). Para a sardinha-laje o L50 foi de 19,6cm (18,8-20,5cm) e para a palombeta 18,5cm (18,1-18,8). A cavalinha apresentou um L50 de 21,2 (20,9-21,5cm) para as fêmeas. Em relação aos machos, foi possível obter os valores de L50 para duas espécies analisadas, i.e. sardinha-verdadeira e palombeta, sendo estabelecido em 18,2cm (17,418,9cm) e 18,0cm (17,5-18,6cm), respectivamente (Tabela 6). Com o ajuste dos dados a uma regressão logística foram obtidas as curvas de maturação para os machos destas duas espécies (Figura 6). 21 Tabela 5. Comprimento de primeira maturação (L50), parâmetros do modelo logístico (alpha e beta) e intervalo de confiança dessas variáveis, obtidos através da reamostragem com o método bootstrap, para as fêmeas de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. Intervalo de confiança Espécies Parâmetros 2,5% Sardinha-verdadeira Sardinha-laje Palombeta Cavalinha 50% 97,5% alpha beta L50 9,1 0,5 18,8 10,7 0,6 19,1 12,3 19,5 19,5 alpha beta L50 5,0 0,3 18,8 5,8 0,3 19,6 7,0 0,4 20,5 alpha beta L50 9,8 0,5 18,1 13,2 0,7 18,5 15,9 0,9 18,8 alpha beta L50 18,8 0,9 20,9 24,0 1,1 21,2 31,1 1,5 21,5 Figura 5. Comprimento de primeira maturação (L50) e ajuste da curva de maturação para as fêmeas de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. 22 Tabela 6. Comprimento de primeira maturação (L50), parâmetros do modelo logístico (alpha e beta) e intervalo de confiança dessas variáveis, obtidos através da reamostragem com o método bootstrap, para os machos de sardinha-verdadeira e palombeta, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. Espécies Parâmetros Intervalo de confiança Sardinha-verdadeira alpha beta L50 2,5% 4,7 0,3 17,4 Palombeta alpha beta L50 5,9 0,3 17,5 50% 6,7 0,4 18,2 97,5% 9,0 0,5 18,9 6,6 0,4 18,0 7,5 0,4 18,6 Figura 6. Comprimento de primeira maturação (L50) e ajuste da curva de maturação para os machos de sardinha-verdadeira e palombeta, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. 23 4.1.3 Período de reprodução O período reprodutivo foi considerado quando as medianas de IGS foram iguais ou maiores a 2% e quando pelo menos 50% das fêmeas estavam nos estágios avançados de maturação gonadal (III e IV). Em relação a sardinha-verdadeira foram observadas as maiores medianas de IGS entre outubro e abril, alcançando 4% em fevereiro e 5% em novembro e dezembro (Figuras 7 e 8). As maiores proporções de fêmeas III e IV nas amostras foram registradas entre novembro e abril, com mais de 70% de fêmeas maturas, exceto em dezembro onde foi observada uma proporção de 39% (Figura 9). É importante lembrar que em dezembro não há capturas, devido ao defeso de verão, dessa forma, há poucos indivíduos amostrados, o que pode explicar essa baixa proporção de fêmeas maturas. Os maiores valores de IGS para a sardinha-laje foram observados entre novembro e abril (Figuras 7 e 8), mesmo período em que o número de fêmeas maturas se manteve superior a 70%, registrando uma proporção de 100% em novembro (Figura 9). Para a palombeta, os meses entre setembro e maio mostraram os maiores IGS (Figuras 7 e 8), sendo que as maiores proporções de fêmeas III e IV ocorreram também nesse período, com valores superiores a 70%, registrando 100% de fêmeas maturas em fevereiro (Figura 9). Para a cavalinha apenas no mês de novembro apresentou um alto valor de IGS (Figuras 7 e 8), mês que o número de fêmeas maturas foi dominante com 73% dos indivíduos analisados (Figura 9). Em geral, entre novembro e abril foram observados os maiores IGS para todas as espécies, exceto para a cavalinha (Figura 8), indicando similaridade do período reprodutivo ao longo do ano. Da mesma forma, foi observada a sincronia da proporção dos estágios de maturação entre as espécies (Figura 9), onde o maior número de fêmeas III ocorreu entre outubro e março, com proporções em torno ou maiores que 30%. Além disso, os primeiros meses do ano mostram a maior proporção de fêmeas IV, com valores em torno de 50% até junho, decaindo gradativamente até o final do ano. 24 18 18 Sardinha-verdadeira 16 14 Mediana 25%-75% Min-Max 14 12 12 10 IGS % IGS % Sardinha-laje 16 Mediana 25%-75% Min-Max 8 6 10 8 6 4 4 2 2 0 Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez 0 Jan Fev Mar Abr Mai Jun Meses Jul Ago Set Nov Dez Meses 18 16 Mediana 25%-75% Min-Max 14 12 10 10 IGS % 12 8 Cavalinha 16 Mediana 25%-75% Min-Max 14 IGS % 18 Palombeta 8 6 6 4 4 2 2 0 0 Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Meses Meses Figura 7. Mediana, percentis de 25% e 75% e valores máximos e mínimos de IGS mensal para as fêmeas de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. 5 4 IGS % 3 2 SV SL PB CV 1 0 Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Meses Figura 8. Mediana mensal de IGS para as fêmeas de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. 25 Fêmeas III e IV Número de indivíduos (%) 100 80 60 40 SV SL PB CV 20 0 Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Meses Número de indivíduos (%) 100 80 SV SL PB CV Fêmeas III 60 40 20 0 Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Meses Número de indivíduos (%) 100 80 SV SL PB CV Fêmeas IV 60 40 20 0 Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Meses Figura 9. Número de fêmeas nos estágios III e IV de maturação gonadal, para sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. 26 Para a sardinha-verdadeira, foi observado o maior número de fêmeas I nos meses de inverno com pico em julho (80%) e diminuindo gradativamente nos meses seguintes, quando em outubro foi registrado o aumento de fêmeas II-imaturas, chegando a 60% em dezembro (Figura 10). A proporção de fêmeas II-maturas começou a aumentar no final do inverno, com um pico de 44% em setembro e posteriormente decresceu até o final do ano. Em relação a sardinha-laje, a maior proporção de fêmeas I ocorreu em junho e julho, alcançando um pico superior a 70% em junho. Com a queda das fêmeas I foi observado o aumento no número de fêmeas II, chegando a mais de 60% em agosto e setembro. As fêmeas I de palombeta foram registradas apenas em dois meses do ano, junho e julho, quando alcançaram valores superiores a 40%. As fêmeas II foram observadas em baixas proporções ao longo de todo o ano, mas em junho e agosto ocorreram as maiores proporções, 41% e 45%, respectivamente. Para a cavalinha, o maior número de fêmeas I foi verificado em abril, com um pico superior a 90%. Em maio e junho foram registradas as maiores proporções de fêmeas II, alcançando valores em torno de 90% em maio e junho e permanecendo acima de 50% até o mês de outubro. 80 F1 F2 IMAT F2 MAT 100 Sardinha-verdadeira Sardinha-laje F1 F2 Número de indíviduos (%) Número de indivíduos (%) 100 60 40 20 80 60 40 20 0 0 Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Meses Meses 100 100 Palombeta 80 F1 F2 Número de indivíduos (%) Número de indivíduos (%) F1 F2 60 40 20 Cavalinha 80 60 40 20 0 0 Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Meses Meses Figura 10. Número de indivíduos dos estágios de maturação gonadal ao longo do ano, das fêmeas de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. 27 Analisando os valores de IGS para a sardinha-verdadeira no período de 2000-2004, os resultados mostram que as medianas atingiram valores superiores a 2% entre a segunda quinzena de outubro e o início de maio, meses nos quais o IGS aumentou e diminuiu de forma abrupta (Figura 11). No período 2005-2009, para os mesmos meses, os dados exibem um aumento e redução gradual no comportamento do IGS. Entre 2010-2013 foi observado um adiantamento dos maiores valores de IGS na primeira quinzena de outubro, quando comparado aos dois períodos anteriores. Por outro lado, quando observado o comportamento do IGS no final do período reprodutivo (abril), fica evidenciado valores menores de IGS nos períodos mais recentes quando comparado com 2000-2004 (Figura 11). Em relação aos estágios de maturação para fêmeas de sardinha-verdadeira nos três diferentes períodos analisados, foram verificadas mudanças ao longo tempo. Considerando o início do período reprodutivo, foi observado uma redução da participação do estágio IIimaturo nas amostras em detrimento do aumento do estágio III e principalmente do estágio IV a partir da primeira quinzena de outubro (Figura 12). Em adição, pode-se verificar que o estágio IV não era encontrado no início do período amostral até 2004. Por outro lado, o final do período reprodutivo (abril) registra o desaparecimento de indivíduos no estágio IIimaturo e a redução da participação do estágio III a partir de 2005. Esse padrão está associado ao aumento na porcentagem do estágio IV nas amostras coletadas no final do período reprodutivo (Figura 12). Em relação ao estágio II-maturo, sua participação nas amostras aumentou nos períodos mais recentes. Além disso, os dados revelam que os indivíduos II-maturos iniciam seu período reprodutivo antes que os exemplares II-imaturos (Figura 12). 28 0 6 5 3 2 1 0 18 2005-2009 16 6 5 3 6 2 4 1 0 7 4 3 2 1 18 2010-2013 6 0 I-Fev II-Fev I-Mar II-Mar I-Abr II-Abr I-Mai II-Mai I-Jun II-Jun I-Jul II-Jul I-Ago II-Ago I-Set II-Set I-Out II-Out I-Nov II-Nov I-Dez 4 IGS % 18 I-Fev II-Fev I-Mar II-Mar I-Abr II-Abr I-Mai II-Mai I-Jun II-Jun I-Jul I-Ago II-Ago I-Set II-Set I-Out II-Out I-Nov II-Nov I-Dez 4 IGS % 7 Fev I Fev II Mar I Mar II Abr I Abr II Mai I Mai II Jun I Jun II Jul I Jul II Ago I Ago II Set I Set II Out I Out II Nov I Nov II Dez I IGS (%) 2000-2004 I-Fev II-Fev I-Mar II-Mar I-Abr II-Abr I-Mai II-Mai I-Jun II-Jun I-Jul I-Ago II-Ago I-Set II-Set I-Out II-Out I-Nov II-Nov I-Dez 5 IGS % 0 Fev I Fev II Mar I Mar II Abr I Abr II Mai I Mai II Jun I Jun II Jul I Jul II Ago I Ago II Set I Set II Out I Out II Nov I Nov II Dez I IGS (%) 0 Fev I Fev II Mar I Mar II Abr I Abr II Mai I Mai II Jun I Jun II Jul I Jul II Ago I Ago II Set I Set II Out I Out II Nov I Nov II Dez I IGS (%) 7 16 2000-2004 14 2005-2009 14 16 2010-2013 14 Mediana 25%-75% Min-Max 12 10 8 6 4 2 Mediana 25%-75% Min-Max 12 10 8 2 Mediana 25%-75% Min-Max 12 10 8 6 4 2 Quinzenas Quinzenas Figura 11. Valores quinzenais, nos três diferentes períodos analisados, de mediana de IGS (à esquerda) e de mediana, máximos e mínimos e percentis de 25% e 75% (à direita), para as fêmeas de sardinha-verdadeira capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. 29 Figura 12. Número de indivíduos em cada estágio gonadal, por quinzenas e agrupados nos três diferentes períodos analisados, para as fêmeas de sardinhaverdadeira capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. 30 4.2 Período de recrutamento Para determinar o período de recrutamento das espécies estudadas, foram considerados os meses em que a proporção de indivíduos imaturos foi igual ou superior a 50%, bem como os meses em que o número destes foi maior, segundo a análise do Modelo Linear Generalizado (MLG). Além disso, foram observados os meses que apresentaram as modas nos menores comprimentos e um comportamento bimodal. 4.2.1 Proporção de imaturos As maiores proporções de indivíduos no estágio I de sardinha-verdadeira ocorreram entre os meses de junho e setembro, alcançando 83% de imaturos em julho (Figura 13). Padrão similar foi observado para a sardinha-laje, sendo que o maior número de imaturos foi observado nos meses de junho e julho, com valores iguais a 60% e 50%, respectivamente. Para a palombeta, apenas no mês de junho o número de imaturos foi dominante, com 51% dos indivíduos, no entanto, em julho essa proporção alcançou 45%. Diferente das demais espécies, a cavalinha apresentou em abril um número de imaturos maior, representando 81% dos indivíduos. Apesar de ser observado um padrão distinto para a cavalinha, de modo geral, a maior participação de imaturos das espécies analisadas ocorreu nos meses de junho e julho, referentes ao período de inverno (Figura 13). Analisando o número de imaturos para a sardinha-verdadeira ao longo dos diferentes períodos (Figura 14), pode-se verificar mudanças temporais na participação destes indivíduos. Até 2004 os imaturos foram registrados em um longo período do ano, de maio até outubro, inclusive sendo observadas proporções próximas a 100% na segunda quinzena de agosto. Entre 2005-2009, as maiores participações de imaturos foram registradas nos meses de maio a julho. A redução do tempo, onde foram registradas a maior participação de imaturos nas amostras, teve continuidade entre 2010 e 2013, quando se concentrou em junho e julho, com um pico na segunda quinzena de julho (Figura 14). 31 100 Sv Sl Pb Cv Número de imaturos (%) 80 60 40 20 0 Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Meses Figura 13. Número mensal de indivíduos imaturos, incluindo machos e fêmeas, de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. 2000-2004 2005-2009 2010-2013 80 60 40 20 0 Fev I Fev II Mar I Mar II Abr I Abr II Mai I Mai II Jun I Jun II Jul I Jul II Ago I Ago II Set I Set II Out I Out II Nov I Nov II Dez I Número de imaturos (%) 100 Quinzenas Figura 14. Número de indivíduos imaturos, em proporção, de sardinha-verdadeira, divididos em três diferentes períodos, 2000-2004, 2005-2009 e 2010-2013, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. 32 A partir do Modelo Linear Generalizado (MLG) foi observado que os fatores ano e mês explicaram, com alto nível de significância (0,001) a variabilidade na proporção de juvenis ao longo de toda a série de dados analisada (Tabela 7). Destaca-se que o fator ano, isoladamente, explicou cerca de 39% da variação de juvenis, enquanto que mês foi responsável por explicar aproximadamente 27%. Dessa forma, o efeito temporal, sem interação ano-mês, influenciou em cerca de 66% de toda a variabilidade no número de imaturos de sardinha-verdadeira. Os efeitos de cada ano e mês utilizados no modelo contrastados com seu nível de referência (i.e. valor do intercepto dado pelo modelo corresponde ao primeiro nível dos fatores de cada variável explicativa, neste caso, ao ano 2000 e ao mês de fevereiro, juntamente) podem ser observados na Tabela 8. Comparando os valores anuais com o intercepto, pode-se notar que quase todos os anos foram significativamente diferentes de 2000 (nível de significância de 0,05). Foi registrada uma diminuição significativa na proporção de imaturos de sardinha-verdadeira nos últimos anos, como visto em 2011, 2012 e 2013. Em relação aos meses, entre maio e setembro, principalmente junho e julho, foram observadas diferenças significativas, comparando com fevereiro, registrando as maiores participações de imaturos nas capturas (Tabela 8). Dessa forma, considerando todos os anos analisados, pode-se observar que o número de imaturos de sardinha-verdadeira ocorreu principalmente entre maio e setembro, sendo que nos últimos anos este tem diminuído nas amostras de capturas analisadas. Tabela 7. Modelo Linear Generalizado (MLG) para analisar a influência dos fatores ano e mês na variabilidade da proporção de imaturos de sardinha-verdadeira (nível de significância 0,001), capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. Df Desvio residual Df 338 Sem fator 5427,6 325 Fator (Ano) 13 3760,4 315 Fator (Mês) 10 Desvio residual F Pr(>F) 13886,8 8459,1 24,048 < 2,2e-16 4698,7 21,660 < 2,2e-16 33 Tabela 8. Modelo Linear Generalizado (MLG) para analisar a diferença entre cada ano e mês da série de dados, na proporção de imaturos de sardinha-verdadeira, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. Estimado Intercepto -3,7629 Erro valor t 1,9095 -1,971 Pr(>|t|) 0,04964 * fator (Ano) 2001 1,1381 0,3437 3,311 0,00104 ** fator (Ano) 2002 0,8559 0,5246 1,632 0,10376 fator (Ano) 2003 1,0888 0,5802 1,877 0,06149 fator (Ano) 2004 -2,0184 0,6463 -3,123 0,00196 ** fator (Ano) 2005 -4,6027 1,6340 -2,817 0,00516 ** fator (Ano) 2006 0,2629 0,4014 0,655 0,51292 fator (Ano) 2007 -1,3233 0,4466 -2,963 0,00328 ** fator (Ano) 2008 -0,9324 0,4572 -2,040 0,04222 * fator (Ano) 2009 -1,9305 0,4423 -4,365 1,73E-05 *** fator (Ano) 2010 0,2045 0,3814 0,536 0,59220 fator (Ano) 2011 -1,2237 0,3987 -3,069 0,00234 ** fator (Ano) 2012 -4,0072 0,9826 -4,078 5,75E-05 *** fator (Ano) 2013 -2,9759 0,5703 -5,218 3,29E-07 *** fator (Mês) 3 2,8751 1,8978 1,515 0,13079 fator (Mês) 4 2,0925 1,9091 1,096 0,27390 fator (Mês) 5 4,0277 1,8958 2,124 0,03441 * fator (Mês) 6 5,1660 1,9039 2,713 0,00703 ** fator (Mês) 7 5,1060 1,9363 2,637 0,00878 ** fator (Mês) 8 4,8802 1,8981 2,571 0,01060 * fator (Mês) 9 4,5755 1,8959 2,413 0,01637 * fator (Mês) 10 2,7377 1,9030 1,439 0,15125 fator (Mês) 11 1,5031 1,9285 0,779 0,43632 fator (Mês) 12 3,2947 2,0095 1,640 0,10210 Nível de significância: *** 0,001; ** 0,01; * 0,05 4.2.2 Distribuição de comprimentos Em relação a distribuição de comprimentos proveniente das análises biométricas para a sardinha-verdadeira foram registrados indivíduos com comprimentos entre 10,0cm e 27,0cm (Figura 15). De fevereiro a abril, a distribuição de comprimentos da sardinhaverdadeira apresentou uma moda em torno dos 20,0cm, sendo que a partir de maio a moda teve uma amplitude variando entre 18,0 e 21,0cm, ocasionalmente, apresentando padrão bimodal (Figura 15). A dificuldade da observação de deslocamento de modas pode estar associada ao fato dos dados estarem agrupados para um período de 14 anos. Desta forma, os dados foram agrupados em três períodos (Figura 16), seguindo o padrão utilizado para o 34 estudo da reprodução (Item 4.1). No período 2000-2004, foi observado o deslocamento de duas modas, a primeira de março a julho e uma segunda, com indivíduos menores, de agosto a novembro, sendo que a bimodalidade não foi claramente evidenciada. Por outro lado, para 2005-2009 a bimodalidade foi frequente nas distribuições de comprimento, principalmente a partir de maio. Além disso, a partir de 2004 foi registrada uma mudança na proporção de comprimentos, não sendo mais observada uma forte tendência de distribuição dos indivíduos em torno da moda e sim um achatamento no padrão de distribuição de tamanhos. Este padrão foi similar na distribuição de comprimentos da sardinha-verdadeira para o período de 2010-2013 (Figura 16). Para a sardinha-laje foram registrados comprimentos entre 13,0cm e 35,0cm (Figura 15). Em janeiro a distribuição de comprimentos apresentou duas modas, a primeria em torno dos 20,0cm e a segunda em 28,0cm. Esse padrão não se manteve durante o ano, apresentando entre fevereiro e setembro uma moda entre os 20,0 e 24,0cm. Apenas em novembro um grupo de tamanhos menores foi registrado, com indivíduos de cerca de 18,0cm. A palombeta apresentou uma distribuição de comprimentos com indivíduos medindo entre 14,0cm e 40,0cm (Figura 15). Um comportamento bimodal foi observado frequentemente nas distribuições mensais. De janeiro a junho foi registrado o deslocamento de uma moda variando dos 19,0cm aos 29,0cm, sendo que em abril foi identificada a entrada de uma nova moda de indivíduos menores. De julho a setembro foi observado o deslocamento de outra moda, que iniciou em 23,0cm até 28,0cm. Da mesma forma, os meses de outubro e novembro apresentaram a entrada de novas modas, com 24,0cm e 20,0cm, respectivamente. Para a cavalinha foram registrados comprimentos entre 15,0cm e 39,0cm (Figura 15), sendo que ao longo de quase todo o ano foi observada uma distribuição de comprimentos bimodal. Foi registrado o deslocamento de uma moda dos meses de fevereiro a julho, variando entre 23,0cm e 31,0cm, sendo que em abril foi obervada a entrada de uma nova moda de indivíduos menores, que se manteve até outubro. Em novembro foi identificada uma única moda de indivíduos, com tamanhos em torno de 17,0cm, se mantendo no mês seguinte (Figura 15). 35 Sardinha-verdadeira Sardinha-laje Palombeta Cavalinha Figura 15. Distribuição de comprimentos, mensal, dos indivíduos de sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil, entre 2000 e 2013. 36 2000-2004 2005-2009 2010-2013 Figura 16. Distribuição de comprimentos, separada por quinzenas e nos três diferentes períodos analisados i.e. 2000-2004, 2005-2009, 2010-2013, dos indivíduos de sardinha verdadeira, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil, entre 2000 e 2013. 37 Na distribuição de comprimentos da sardinha-verdadeira, com os dados agrupados por ano (Figura 17), pode-se observar o deslocamento da moda ao longo do período analisado. No início dos anos 2000 a maior proporção de indivíduos oscilava em torno dos 18,0-19,0cm. A partir de 2004, até 2011, o tamanho médio dos indivíduos capturados pela frota de cerco oscilou entre 20,0 e 21,0cm, atingindo 22,0cm em 2012 e 2013, quando a proporção de organismos menores diminuiu consideravelmente (Figura 17). Número de indivíduos (%) 20 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 11 20 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 11 20 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 11 20 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 11 2000 13 15 17 19 21 23 25 27 2003 13 15 17 19 21 23 25 27 2004 13 15 17 19 21 23 25 27 2005 13 15 17 19 21 23 25 27 20 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 11 20 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 11 20 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 11 20 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 11 2006 13 15 17 19 21 23 25 27 2007 13 15 17 19 21 23 25 27 2008 13 15 17 19 21 23 25 27 2009 13 15 17 19 21 23 25 27 20 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 11 20 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 11 20 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 11 20 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 11 2010 13 15 17 19 21 23 25 27 21 23 25 27 21 23 25 27 21 23 25 27 2011 13 15 17 19 2012 13 15 17 19 2013 13 15 17 19 Comprimento (cm) Figura 17. Distribuição anual de comprimentos de sardinha-verdadeira capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil, entre 2000 e 2013. A linha representa o comprimento de primeira maturação (L50) definido em 19,0cm para a espécie. 38 Analisando a variação anual da participação nas capturas de indivíduos de sardinhaverdadeira com tamanhos superiores a 19,0cm (Figura 18), foi observado uma tendência de aumento desta proporção ao longo do tempo. Até 2006 a participação se manteve abaixo de 80% e a partir de 2007 esses indivíduos foram frequentes nas capturas (>80%). Número de indivíduos >19,0cm (%) 100 80 60 40 20 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2012 2014 Anos Figura 18. Variação anual da proporção de indivíduos de sardinhaverdadeira, com tamanho igual ou superior a 19,0cm, capturados pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil, entre 2000 e 2013. 39 4.3 Geoespacialização Para a definição das áreas de desova, entre 2000 e 2013, foram geoespacializadas 174 amostras de laboratório da sardinha-verdadeira, resultando em 24 quadrantes distribuídos no sudeste e sul do Brasil. Para a sardinha-laje foram 14 amostras distribuídas em 6 quadrantes. Em relação a palombeta foram 12 amostras que ficaram compreendidas em 11 quadrantes e para a cavalinha 30 amostras distribuidas em 17 quadrantes. As medianas do IGS das amostras de sardinha-verdadeira variaram entre 0,28% e 10,34%. Foram identificadas três áreas com IGS superior a 2% para a sardinha-verdadeira (Figura 18): a primeira área ao sul do Estado do Rio de Janeiro (RJ); uma segunda na região do sul de São Paulo (SP) ao Paraná (PR); e uma pequena área localizada na região sul de Santa Catarina (SC). Para a sardinha-laje não foi possível identificar nenhuma área de IGS em torno de 2%, pois poucas amostras foram geoespacializadas (Figura 18). Para a palombeta, praticamente todos os quadrantes compreendidos na área entre sul de São Paulo até o norte de Santa Catarina apresentaram valores de IGS superiores a 2%, alcançando frequentemente valores maiores que 4% (Figura 18). Em relação a cavalinha, foram identificadas duas pequenas áreas com IGS superior a 3%, na região central da costa do Rio de janeiro (Figura 18). Nas áreas que apresentaram IGS elevados também foram observados os maiores valores do intervalo Interquartil (IQR) para todas as espécies. 40 41 Figura 19. Variação espacial do IGS e IQR para a sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. 42 Para a definição das áreas de recrutamento, entre os anos de 2000 e 2013, foram geoespacializadas 214 amostras biométricas de sardinha-verdadeira, resultando em 24 quadrantes distribuídos no Sudeste e Sul do Brasil. Para a sardinha-laje totalizaram 64 amostras compreendidas em 19 quadrantes, para a palombeta 34 amostras em 17 quadrantes e para a cavalinha 43 amostras em 26 quadrantes. A sardinha-verdadeira apresentou proporções de indivíduos com tamanho inferior a 19,0cm que variaram entre 0% e 99% (Figura 20), sendo que foi possível identificar duas áreas com maior número (41-60%), ao sul do Rio de Janeiro e na região central da costa de Santa Catarina. De modo similar, a sardinha-laje exibiu participações de indivíduos menores que 19,5cm variando entre 0% e 90% (Figura 20). Para esta espécie foi observada uma única área com maior proporção (21-40%), afastada da costa em frente a São Paulo. Para a palombeta, proporções de indivíduos menores que 18,5cm alcançaram um máximo de 33% (Figura 20), com duas áreas de valores entre 21-30%, ao sul de São Paulo e norte de Santa Catarina. Do mesmo modo, a cavalinha apresentou de 0% a 35% de indivíduos com tamanhos inferiores a 21,0cm nas amostras (Figura 20), com proporções maiores ao sul do Rio de Janeiro e sul de São Paulo. 43 Figura 20. Variação espacial dos indivíduos com tamanho inferior ao comprimento de primeira maturação para a sardinhaverdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil entre 2000 e 2013. 44 5. DISCUSSÃO O presente estudo foi realizado com as principais espécies capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil, entre os anos de 2000 e 2013, que desembarcou nos portos de Itajaí e Navegantes (SC). A sardinha-verdadeira Sardinella brasiliensis, sardinha-laje Opisthonema oglinum, palombeta Chloroscombrus chrysurus e cavalinha Scomber japonicus foram selecionadas para este estudo devido as suas expressivas participações no total das capturas da frota. A sardinha-verdadeira é o alvo desta pescaria e o principal recurso pesqueiro do Brasil, sendo que algumas regulamentações, como tamanho mínimo de captura e períodos de defeso, são baseados no seu ciclo de vida, sem considerar as demais espécies capturadas. Tamanhos de primeira maturação, períodos e áreas de reprodução e recrutamento das espécies foram analisados, afim de subsidiar modelos de defeso multiespecíficos. A seguir serão analisados os resultados referentes aos períodos e áreas de reprodução e recrutamento das espécies estudadas, bem como discutido a validade do modelo de defeso, empregado atualmente para a sardinha-verdadeira, sobre as principais espécies componentes da captura da frota de cerco. 5.1 Aspectos Reprodutivos Na análise dos parâmetros reprodutivos foi preciso separar os indivíduos em imaturos e maturos. Dessa forma, o estágio II foi reclassificado, afim de separar os indivíduos que estavam maturando pela primeira vez dos que já haviam maturado anteriormente, sendo chamados de II-imaturos e II-maturos, respectivamente. Com os resultados obtidos, pode ser verificado que a reclassificação foi necessária para a determinação do comprimento de primeira maturação (L50) e períodos reprodutivos. Apesar da distinção dos indivíduos II ter sido possível apenas para sardinha-verdadeira, a análise dos resíduos foi um método eficiente para fazer esta reclassificação, podendo ser usado em futuros estudos que possuam um número amostral suficiente. De forma que, não foi possível distinguir os indivíduos II para as demais espécies, devido ao menor número amostral que estas apresentaram, quando comparado com a sardinha-verdadeira, dificultando a análise dos resíduos. Uma forma de evitar a reclassificação seria adicionar mais um estágio na escala de classificação macroscópica das gônadas, ou seja, o estágio repouso, proposto por Vazzoler (1996). Entretanto, o repouso é difícil de ser identificado macroscopicamente devido sua similaridade com o estágio em maturação. Além disso, a 45 escala com quatro estágios diminui o erro na rotina de classificação, considerando o fato de muitas pessoas participarem das amostragens ao longo dos anos (2000-2013). O L50 observado para as fêmeas de sardinha-verdadeira foi 19,0cm, o que representa 2,0cm superior ao estabelecido anteriormente por Vazzoler (1961). Algumas hipóteses para explicar o aumento do L50 foram levantadas considerando fatores densodependentes, condições ambientais e até mesmo vício amostral dos barcos, causado pela demanda da indústria por sardinhas maiores. Em primeiro lugar, deve-se lembrar que o L50 de 17,0cm foi estabelecido há mais de 50 anos e que durante este tempo nenhuma reavaliação do comprimento de primeira maturação e demais parâmetros reprodutivos da sardinha-verdadeira foi realizada. Além disso, para o estabelecimento do L50, Vazzoler (1961) considerou todos os organismos do estágio II como maturos, diferindo da metodologia utilizada nesse estudo, onde a reclassificação dividiu os indivíduos em dois grupos distintos, imaturos e maturos. Ao mesmo tempo, acredita-se que os parâmetros reprodutivos de uma população sejam densodependentes, e suas taxas mudam como resposta compensatória à variação da densidade populacional (Rose et al., 2001; Silva et al., 2006). Frequentemente, o L50 do estoque de um recurso explotado tende a diminuir com o tempo, como uma resposta compensatória para o declínio no tamanho da população (Cardinale & Modin, 1999; Engelard & Heino, 2004). Em teoria, a história de vida prevê que o aumento da mortalidade de indivíduos com idade e tamanho potenciais para maturação, leva a uma maturação precoce (Olsen et al., 2004). Neste caso, o tamanho e a idade de maturidade não dependem apenas do processo de maturação por si só, mas também das condições de crescimento e sobrevivência, que estão condicionadas pela abundância populacional. Além disso, o amadurecimento em uma idade mais jovem e com um menor tamanho, faz com que os indivíduos contribuam em pelo menos uma ou duas épocas de desova antes de serem capturados (Cardinale & Modin, 1999). No entanto, mesmo a sardinha-verdadeira sendo continuamente explotada como principal recurso pesqueiro do Brasil, no presente estudo não foi observada essa resposta compensatória da espécie em relação a uma possível diminuição do tamanho populacional, como era esperado. Este fato já foi observado para outras populações de peixes, como descrito por Domínguez-Petit et al. (2008). Segundo os autores, a biomassa do estoque tem um impacto significativo no tamanho de primeira maturação, mesmo assim, eles observaram que o L50 da merluza Merluccius merluccius aumentou, apesar do decréscimo contínuo na biomassa do estoque, o que é contrário à teoria compensatória. Segundo 46 Liermann & Hilborn (2001) a ausência de resposta compensatória é conhecida como descompensação e possui quatro mecanismos que podem ocasioná-la, i.e. redução da probabilidade de fertilização, alterações da dinâmica de grupo, influências ambientais e saturação de predadores. Em adição, o aumento do L50 também foi observado para o estoque da sardinha Sardina pilchardus no norte de Portugal, como descrito por Silva et al. (2006). Os autores acreditam que a abundância populacional pode influenciar a maturação em uma curta escala de tempo. Eles observaram que após a forte entrada de uma nova classe no ano 2000, a abundância de sardinha aumentou, elevando o L50 em 2,0cm no período de desova seguinte. No caso da sardinha-verdadeira, uma das hipóteses para o efeito densodependente, é que com a diminuição da biomassa, mais recursos ficaram disponíveis e os indivíduos puderam crescer a taxas mais elevadas, aumentando o L50. Fato como este foi observado por Engelard & Heino (2004), no estoque de arenque Clupea harengus na Noruega, onde encontraram um L50 maior ao mesmo tempo que a idade de primeira maturação diminuiu. Segundo os autores, o crescimento do arenque juvenil é dependente de densidade, sendo que o colapso da biomassa do estoque a níveis muito baixos pode ter diminuído os efeitos densodependentes, resultando em taxas de crescimento superiores. Desse modo, a diminuição da competição intra-específica, pode fazer com que as fêmeas alcancem melhores condições para a desova, produzindo uma descendência de melhor qualidade que cresce a taxas elevadas e resulta em um maior comprimento na mesma idade (DomínguezPetit et al., 2008). Em adição, de acordo com Miethe et al. (2010), a maturação deve ser adiada quando os níveis de recursos aumenta, porque o retorno da reprodução futura também aumenta. De modo que, a maturação com tamanhos reduzidos representa um custo adicional, onde a fecundidade é menor e o risco à predação é aumentado (Vazzoler, 1996). Outra hipótese para a sardinha-verdadeira, é o efeito da introdução de um período de defeso nos meses de recrutamento a partir de 2004, possibilitando o aumento da população devido a diminuição da pressão pesqueira. Portanto, a população poderia ter indivíduos de maior tamanho que elevaram o valor do L50. Para testar essa hipótese seria necessária uma avaliação da relação entre comprimento e idade da sardinha-verdadeira, afim de verificar se os indivíduos estão maiores numa mesma idade ou se vivem mais, atingindo maiores tamanhos. Um fato similar foi verificado por Melvin et al. (1995) para o arenque, onde o estoque se recuperou após um colapso, fazendo com que a idade de 47 primeira maturação aumentasse e a proporção de maturos nos menores tamanhos diminuísse. Contudo, foi verificado que o comprimento dos indivíduos de sardinha-verdadeira, capturados pela frota de cerco, aumentou nos últimos anos da série de dados (Figura 17). Esse aumento do tamanho pode estar associado a um vício amostral, já que as amostras são provenientes de barcos pesqueiros que tem de cumprir a legislação do tamanho mínimo de captura, 17,0cm. Também pode ter relação com a preferência das empresas de conserva por sardinhas maiores, fazendo com que os barcos procurem indivíduos de maior tamanho. Uma empresa enlatadora da região de Itajaí (SC) relatou que em 2006 a lata de conserva padrão para a sardinha sofreu alterações, aumentado de tamanho em altura. A partir desse ano a indústria passou a buscar por sardinhas maiores, onde poucos indivíduos (ou peças) seriam necessários para preencher o conteúdo da lata. Quando analisado os resultados do presente estudo foi verificado a partir de 2006 um deslocamento da moda de distribuição de comprimento da sardinha-verdadeira (Figura 17), evidenciando essa possível relação entre o comprimento dos indivíduos capturados e a demanda da indústria. Fatores ambientais também podem ter influenciado o aumento do L50 da sardinhaverdadeira, pois quando as condições para desova não são favoráveis, jovens e fêmeas menores alocam mais energia em crescimento somático do que na produção de ovos (Cardinale & Modin, 1999). Dessa forma, em condições de estresse ambiental poderia ser mais lucrativo para os peixes crescer um ano a mais antes do período de desova. O início da maturação exige que certas condições ocorram em momentos específicos do ciclo de vida, e isto também está relacionado com o acúmulo de reservas e energias (DomínguezPetit et al., 2008). Segundo Rose (2005), pequenos pelágicos respondem rapidamente a mudanças no ambiente por causa de seus limites fisiológicos e rápido crescimento. A temperatura também pode influenciar a maturação indiretamente ou diretamente, através de alterações da composição do ecossistema, disponibilidade de recursos ou condições hidrográficas (Cardinale & Modin, 1999; Rose et al., 2001). Um efeito direto observado por Tobin & Wright (2011) foi a relação entre o aumento da temperatura e o aumento da proporção de fêmeas maduras em um tamanho inferior. No entanto, é difícil demonstrar que o ambiente desempenha importante papel na dinâmica populacional, pois seu efeito é sobreposto ao da pesca, resultando em dificuldades para discernir entre eles (Rose et al., 2001; Domínguez-Petit et al., 2008). 48 Para a sardinha-laje, o L50 de 19,6cm determinado para as fêmeas foi superior aos valores encontrados na literatura para os espécimes que ocorrem em outras áreas de distribuição, sendo estabelecido em 13,5cm para o sul do México (García-Abad et al., 1998) e 15,0cm para o Caribe (Manickchand-Heileman & Hubbard, 1992). No entanto, o L50 encontrado neste estudo se aproxima do valor determinado por Feltrim & Schwingel (2005) de 19,2cm, onde os autores também analisaram os indivíduos capturados no sudeste e sul do Brasil. Para as fêmeas de palombeta, o L50 foi estabelecido em 18,5cm. Este valor foi superior ao determinado na mesma área de ocorrência, 15,4cm por Masumoto & Cergole (2005) e 15,3cm por Haimovici et al. (2006). Porém, estas estimativas foram feitas agrupando machos e fêmeas, o que pode explicar a diferença para o presente estudo. O L50 estimado para as fêmeas de cavalinha foi de 21,2cm, valor foi superior aos 18,0cm encontrado por Cengiz (2012) para os indivíduos que ocorrem na Túrquia. No entanto, para chegar a este valor o autor também considerou machos e fêmeas de forma agrupada. De modo similar, Cikes & Zorica (2000) estimaram o L50 em 18,3 para machos e fêmeas dos espécimes de cavalinha que se distribuem no mar Adriático, sendo que para as fêmeas separadamente os autores calcularam um L50 de 20,4cm, próximo ao valor determinado no presente estudo. O menor número amostral ou a ausência de indivíduos com menor comprimento, dificultaram o ajuste do modelo para os machos de sardinha-laje e cavalinha, não sendo possível determinar o L50. O tamanho de primeira maturação encontrado para os indivíduos machos de sardinha-verdadeira e palombeta, 18,2 e 18,0cm, respectivamente, foram inferiores aos valores estabelecidos para as fêmeas das mesmas espécies. Este fato era esperado, uma vez que na maioria dos peixes teleósteos os machos começam a maturar antes do que as fêmeas (Mustac & Sinoveie, 2012). Em relação ao período de reprodução das espécies analisadas, foi observado que os mesmos apresentaram sobreposição nos meses com maior atividade reprodutiva, ou seja, de novembro a abril, o qual inclui a época de desova da sardinha-verdadeira, que ocorre no final da primavera e verão, como descrito por diferentes autores (Matsuura, 1977b; IsaacNahum et al., 1988; Jablonski & Legey, 2004). Portanto, durante seis meses do ano foi registrada atividade reprodutiva para as espécies estudadas. De acordo com LowerreBarbieri et al., (2011), temporadas prolongadas de desova são comuns em habitats de águas quentes, sendo que espécies com longo período de desova possuem indivíduos nascidos em diferentes datas e com distintas vulnerabilidades a uma pescaria com limites de tamanho de captura (Lowerre-Barbieri et al., 1998). Além disso, períodos de desova estendidos 49 fornecem um maior número de oportunidades reprodutivas em condições ambientais favoráveis, o que pode aumentar o recrutamento (James et al., 2003). Para a cavalinha foi possível constatar atividade de desova apenas em novembro, devido ao menor número de amostras e fêmeas maturas registradas. No entanto, estudos confirmam que a desova da espécie ocorre principalmente nos meses mais quentes do ano (Cikes & Zorica, 2000; Cengiz, 2012). A sardinha-laje apresentou período reprodutivo similar ao da sardinhaverdadeira, entre novembro e abril, fato que já havia sido identificado por Feltrim e Schwingel (2005), sendo que para outras áreas de ocorrência, também foram registradas desovas em primavera e verão (Houde, 1997; García-Abad et al., 1998). A palombeta foi a espécie que registrou o período mais amplo, com ocorrência de desova de setembro a maio. Este longo período reprodutivo também havia sido observado por Katsuragawa & Matsuura (1992), na região sudeste e sul do Brasil e por Sánchez-Ramírez & Flores-Coto (1998) no México, onde os autores encontraram larvas de palombeta durante todo o ano, indicando amplo período de atividade reprodutiva, com pico no verão. Apesar de ter sido observado os primeiros picos reprodutivos no final da primavera, as espécies estudadas iniciaram a maturação das gônadas alguns meses antes, principalmente em agosto e setembro. Este fato era esperado, pois a maioria das espécies inicia o desenvolvimento gonadal em um período anterior à desova, que ocorre quando as condições ambientais (fotoperíodo, temperatura) forem adequadas à fecundação e desenvolvimento da prole (Vazzoler, 1996; Lowerre-Barbieri et al., 2011). Além disso, para a sardinha-verdadeira, foi observado que os indivíduos em repouso gonadal (II-maturos) se reproduziram antes dos recrutas do ano (II-imaturos), que desovaram no ano seguinte ao seu nascimento e recrutamento. Diferente dos jovens, os indivíduos mais velhos estão com suas estruturas reprodutivas formadas desde o ciclo anterior, sendo apenas necessário condições favoráveis para que a desova ocorra (Vazzoler, 1996). Esta diferença registrada para sardinha-verdadeira mostra a importância da reclassificação feita para o estágio II, pois sem a distinção destes indivíduos, não seria possível identificar a diferença temporal no processo reprodutivo entre estes estágios. Além da sobreposição dos meses com atividade reprodutiva para todas as espécies, foi constatado que a sardinha-verdadeira vem alterando o seu período de reprodução, sendo observado um adiantamento para o início de outubro. De acordo com Vazzoler (1996), após o comprimento de primeira maturação ser atingido, os fatores ambientais passam a influenciar a época de desova do indivíduo, sendo necessária condições favoráveis que 50 garantam o crescimento e sobrevivência da prole. Segundo Matsuura (1986), a penetração da Água Central do Atlântico Sul (ACAS) sobre a Plataforma Continental Sudeste do Brasil (PCSB) no verão, resulta em uma alta produção primária na região costeira. Muitos clupeídeos tropicais se reproduzem durante as ressurgências ou aumento da produção primária (Blaxter et al., 1982), como ocorre com a sardinha-verdadeira. Além disso, a intrusão das águas frias da ACAS estabiliza a coluna da água, sugerindo que a estratégia reprodutiva desta espécie e de muitas outras, é favorecida pelo equilíbrio entre a estabilidade e o enriquecimento fornecidos pela ressurgência (Matsuura, 1998; Gigliotti et al., 2010; Moraes et al., 2012). Contudo, nas áreas de baixa latitude, a ressurgência é de alta amplitude e pode ser muito variável, fazendo com que os períodos de desova também se alterem (Blaxter et al., 1982). A temperatura também é um importante fator para o tempo de desova de clupeídeos. Walsh et al. (1980) observaram que a anchoveta peruana Engraulis ringens adiantou a sua temporada reprodutiva da primavera para o inverno durante períodos de aquecimento da água, induzido pelo El Niño. Por outro lado, Watanabe & Yatsu (2006), estudando o estoque da cavalinha Scomber japonicus no Pacífico, encontraram uma correlação positiva entre a temperatura superficial do mar e a maturação das fêmeas. Os autores constataram que o aumento da temperatura nas áreas de desova aceleraram a maturação de fêmeas jovens, enquanto águas mais frias anteciparam a maturação de fêmeas mais velhas. De acordo com Trippel (1995), devido a alterações na temperatura e a outros fatores externos, a desova pode variar anualmente. Matsuura (1998) observou que a sardinha-verdadeira desova a temperaturas em torno de 24°C. Além disso, Dias et al. (2014) verificaram que a mortalidade associada à baixas temperaturas desempenham um papel importante na variabilidade interanual da sobrevivência das larvas. Dessa forma, com o aumento das temperaturas observado nos últimos anos (Martí, 2012; Seneviratne et al., 2014), a sardinha-verdadeira pode ter encontrado condições favoráveis para sua desova em um período anterior ao que ocorria normalmente, adiantando o início do seu processo reprodutivo. No presente estudo foram identificadas três possíveis áreas de desova para a sardinha-verdadeira, entre Niterói e Ilha Grande (RJ), sul de Santos (SP) até em frente à costa do Paraná (PR) e uma pequena área ao sul de Santa Catarina (SC), em frente a Imbituba. Estas áreas são muito próximas às identificadas por Matsuura (1975; 1998), onde o autor sugeriu que a sardinha-verdadeira geralmente desova ao longo da costa do Rio de 51 Janeiro, principalmente em Ilha Grande. Matsuura (1998) identificou também outras áreas importantes, entre Santos (SP) e Paranaguá (PR), entre Paranaguá e Itajaí (SC), e entre São Francisco do Sul (SC) e Ilha de Santa Catarina. A desova ocorre normalmente na área entre a costa e a isóbata de 100m, com exceção do RJ onde alguns ovos de sardinha foram encontrados ao largo da linha de 100m. As áreas de desova da sardinha-verdadeira também coincidem com os processos de ressurgência e podem se alterar anualmente (Matsuura, 1998). Dias et al. (2004), analisando a condição larval da sardinha-verdadeira no entorno da Ilha de São Sebastião (SP), encontrou larvas em bom estado nutricional apenas nas áreas sob influência da ACAS e onde havia ocorrido fraca intrusão das massas de água fria. Segundo Lasker (1975), quando a intrusão de massas de água fria é excessiva, pode afetar o próprio ciclo reprodutivo de clupeiformes, reduzindo, ou até mesmo impedindo, episódios de desova. Durante cruzeiros de pesquisa realizados entre 1976 e 1993, Matsuura (1998) observou ressurgências costeiras ao longo da costa do Rio de Janeiro, com a camada de superfície fria se estendendo de Cabo Frio a Ilha Grande e uma segunda ressurgência ocorrendo ao sul da Ilha de Santa Catarina. Dessa forma, a desova da sardinha ocorre com menos frequência na porção norte da PCSB, próximo a região de Cabo Frio, devido à variabilidade térmica nas camadas de superfície, bem como à menor extensão da plataforma naquele local (Gigliotti et al., 2010). Além disso, segundo os mesmos autores, as áreas de desova podem se expandir ou contrair, conforme a temperatura superficial do mar. Uma semelhança entre os padrões de distribuição dos ovos e da distribuição horizontal da temperatura também foi constatada por Matsuura (1998). De forma que, temperaturas maiores do que as consideradas ótimas apresentariam efeito negativo sobre a desova da sardinha-verdadeira, que provavelmente evitaria esses locais ou deslocaria temporalmente o pico da desova (Saccardo e Rossi-Wongtschowski, 1991). Assim, intrusões de fundo de águas frias e ricas em nutrientes podem explicar as condições de estabilidade necessárias para o sucesso reprodutivo da sardinha-verdadeira na PCSB (Matsuura, 1998; Gigliotti et al., 2010). Para a sardinha-laje não foi possível identificar áreas de desova no presente estudo. No entanto, na costa do Estado do Ceará a desova da espécie é conhecida por ocorrer em águas próximas a costa e pouco profundas (Alves & Sawaya, 1975). No caso da palombeta, áreas de desova foram identificadas entre Santos e São Francisco do Sul. Esse resultado está de acordo com Katsuragawa & Matsuura (1992), que encontraram larvas da 52 espécie em águas costeiras com profundidade inferior a 30m, no sudeste brasileiro. Da mesma forma, para os indivíduos que ocorrem no México, as desovas foram abundantes em águas rasas e próximo a regiões de estuário e baías (Flores-Coto & Sanchez-Ramirez, 1989). Para a cavalinha foram identificadas prováveis áreas de desova na costa do Rio de Janeiro, frente a Niterói e Cabo Frio. No México, Gluyas-Millán & Muñoz-Gómez (1993), também observaram que a espécie se reproduz próximo as zonas de ressurgência. Dessa forma, assim como a sardinha-verdadeira, as demais espécies analisadas no presente estudo, desovam ao longo da região costeira do sudeste e sul do Brasil e se beneficiam da estabilidade e nutrientes resultantes dos eventos de ressurgência. 5.2 Recrutamento O recrutamento biológico pode ser definido como a incorporação dos indivíduos jovens de uma coorte ao estoque reprodutor quando atingem o comprimento de primeira maturação (Fonteles-Filho, 2011). Em relação ao período de recrutamento foi observado sobreposição dos períodos entre as espécies analisadas, onde as mesmas apresentaram recrutamento nos meses de junho e julho, exceto a cavalinha. Considerando a série de dados 2000-2013, a sardinha-verdadeira manteve sua época de recrutamento nos meses de junho a setembro, como descrito por Matsuura (1977b) e Cergole (1995). Ao mesmo tempo, a sardinha-laje apresentou um período de recrutamento nos meses de junho e julho. Frehse (2006), estudando a sardinha-laje que ocorre na costa do Estado do Paraná, encontrou exemplares jovens durante os meses de outono. Na costa do México, segundo García-Abad et al. (1998), o recrutamento da espécie ocorre de junho a outubro, correspondendo a estação chuvosa daquela região. Para a palombeta, junho e julho também foram identificados como meses de recrutamento, o que está de acordo com Cunha (2000), que encontrou a maior proporção de juvenis em maio e junho para os indivíduos no Estado do Ceará. No caso da cavalinha, os resultados mostraram indicadores de recrutamento apenas em abril, sendo que no México, Gluyas-Millán & Muñoz-Gómez (1993) observaram o recrutamento nos meses mais frios do ano, porém durante um período mais longo, de cinco meses. No presente trabalho, o número de amostras de cavalinha foi pequeno, fato que pode ter limitado a identificação do período de recrutamento. Através da análise de distribuição de comprimentos foi possível identificar para a sardinha-verdadeira, a ocorrência de dois grupos de tamanhos ao longo do ano. Segundo 53 Saccardo & Rossi-Wongtschwski (1991), a sardinha-verdadeira atinge uma idade de até 4 anos, mesmo assim, a classe de 1 ano é predominante nas capturas. A espécie possui crescimento rápido, sendo que com 1 ano de idade os indivíduos podem apresentar tamanhos superiores a 15,0cm (Cergole et al., 2005). A sardinha-laje possui um padrão de distribuição de comprimentos similar ao observado para sardinha-verdadeira, no entanto, nas capturas predominam indivíduos da classe de 2 anos, quando estes têm em torno de 16,0-17,0cm, resultado de um crescimento mais lento para esta espécie (Feltrim & Schwingel, 2005). Por outro lado, as demais espécies apresentaram diferentes grupos de tamanhos durante o ano, provavelmente devido a estas possuírem ciclos de vida mais longos (5-7 anos) (Masumoto & Cergole, 2005; Simãozinho, 2011), resultando em um maior número de classes de idade nas amostras, quando comparados à sardinha-verdadeira e sardinha-laje. Para a palombeta, Masumoto & Cergole (2005) observaram indivíduos com até 7 anos de idade e 42,0cm, sendo que com 2 anos alcançam 20,0cm de comprimento. Em relação a cavalinha, Simãozinho (2011), identificou indivíduos com até 5 anos, onde na idade 1 atingem comprimentos em torno de 13,0cm. Além da sobreposição temporal existente no período de recrutamento das espécies estudadas no presente trabalho, foi identificada uma alteração ao longo dos anos para a sardinha-verdadeira, tendendo a concentrar elevadas proporções de imaturos (cerca de 80%) em um período mais curto, ou seja, nos meses junho e julho. Esta alteração, baseada no Modelo Linear Generalizado, foi identificada principalmente entre 2011 e 2013. Esse fato pode ser resultado da antecipação do período de desova da espécie e/ou seleção de indivíduos maiores pela atividade pesqueira. Além disso, condições ambientais podem desempenhar um papel-chave nestas mudanças, pois segundo a hipótese da Tríade Fundamental de Bakun (1996 apud Cergole et al., 2002), o enriquecimento da coluna de água (como as ressurgências), a concentração de presas planctônicas e os processos de retenção e transporte de larvas, são fatores decisivos no sucesso do recrutamento. Daskalov et al. (2003) estudando as relações entre a abundância da sardinha Sardinops sagax com as condições ambientais, observou correlação entre o recrutamento e fatores como a temperatura superficial do mar e os ventos, sendo que, os efeitos dessas variáveis podem ser interpretados acerca da Tríade Fundamental. Em adição, segundo a Hipótese do Período Crítico de Hjort (1914), a incidência de inanição devido ao esgotamento do saco vitelino e a consequente transição para a alimentação exógena seria um período crítico no desenvolvimento do indivíduo e o principal fator na variabilidade do sucesso no 54 recrutamento. Dessa forma, a sardinha-verdadeira pode estar alterando o seu período de recrutamento de acordo com as mudanças das condições favoráveis a sobrevivência dos seus recrutas. Em relação as áreas de recrutamento, para a sardinha-verdadeira foram identificadas duas prováveis áreas, uma ao sul do Rio de Janeiro RJ e outra ao norte da Ilha de Santa Catarina. Para a sardinha-laje, foi observada uma possível área na região em frente ao Estado de São Paulo. A palombeta mostrou duas prováveis áreas de recrutamento, sendo uma ao sul de São Paulo e outra no norte de Santa Catarina. Para a cavalinha, foram identificadas a região sul dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. De modo geral, foi identificado uma sobreposição das áreas de recrutamento para as espécies analisadas, além disso foi observado que estas áreas ficaram compreendidas em regiões próximas as áreas de desova, as quais sofrem influência de ressurgências sobre a plataforma continental sudeste do Brasil, especialmente. Segundo Checkley et al. (2009) os indivíduos jovens da sardinha do Atlântico Sardina pilchardus, ocorrem nas áreas mais costeiras e próximas aos locais de desova, principalmente por estas áreas apresentarem condições favoráveis de retenção. Assim, a geoespacialização das áreas de desova e recrutamento revelam que as espécies estudadas na presente investigação não realizam migrações significativas entre o nascimento e recrutamento dos indivíduos. 5.3 Medidas de Ordenamento O ordenamento da pesca de cerco no Brasil está baseado no modelo de defeso aplicado desde 2009 para a sardinha-verdadeira (Brasil, 2009a), o qual está dividido em dois períodos: o primeiro de 01 de novembro a 15 de fevereiro, conhecido como defeso reprodutivo; e um segundo, chamado defeso de recrutamento que vai de 15 de junho a 31de julho (Apêndice 1; Apêndice 2). Desde então, não houve reavaliações deste modelo, mesmo porque, desde 2009 não foram implantados fóruns de discussão sobre a gestão deste importante recurso pesqueiro do Brasil. Segundo a legislação, a sardinha-verdadeira possui tamanho mínimo de captura (17,0cm), determinado pela Instrução Normativa (IN) Nº15 de 21 de maio de 2009 (Cergole & Dias-Neto, 2011), mas aplicado desde 1973. A sardinha-laje e palombeta, também possuem tamanho mínimo de captura (15,0cm e 12,0cm, respectivamente), estabelecido na IN MMA N° 53, de 22 de novembro de 2005 55 (Brasil, 2005). Por outro lado, estas duas espécies, juntamente com a cavalinha, não possuem outras medidas de ordenamento que limitem as suas capturas. A gestão de recursos pesqueiros no Brasil foi estabelecida em 2009 com a criação do Decreto Nº 6.981, de 13 de outubro de 2009 que dispõe sobre a atuação conjunta dos Ministérios da Pesca e Aquicultura e do Meio Ambiente nos aspectos relacionados ao uso sustentável dos recursos pesqueiros (BRASIL, 2009b). Entretanto, a implantação deste decreto, que estabelece a chamada gestão compartilhada, não teve os resultados esperados, pois não definiu normas, critérios, padrões e medidas de ordenamento, em conformidade com as peculiaridades de cada unidade de gestão, como determinado no Art. 4º. (BRASIL, 2009b). As unidades de gestão apontadas neste decreto podem compreender espécies, grupo de espécies, ecossistemas, áreas geográficas, bacias hidrográficas, bem como o sistema de produção ou pescaria. Desta forma, apesar de não implementado, foi criado em 2013 o Comitê Permanente de Gestão e do Uso Sustentável dos Recursos Pelágicos - CPG Pelágicos Sudeste e Sul, conforme Portaria Interministerial N° 1, de 27 de fevereiro de 2013, com objetivo de assessorar os Ministérios no uso sustentável dos recursos pelágicos nas regiões Sudeste e Sul do Brasil (Brasil, 2013). Neste contexto, sardinha-verdadeira, sardinha-laje, palombeta e cavalinha, bem como a frota de cerco, estariam contempladas neste CPG. Diante destes fatos, é necessário rever as estratégias de manejo, incluindo uma atualização de dados científicos e estatísticos, bem como considerar outras espécies importantes na composição das capturas da pesca de cerco do sudeste e sul do Brasil. Desta forma, o presente trabalho apresenta subsídios para a elaboração de estratégias de gestão multiespecífica para a frota de cerco, baseado em dados de reprodução e recrutamento das principais espécies capturas. Considerando que, a gestão pesqueira busca a sustentabilidade do uso dos recursos e é um processo integrado de informações, análise, planejamento, consulta, tomada de decisões, alocação de recursos e implementação de normas (FAO, 1997), propostas de medidas de ordenamento para a frota de cerco no sudeste e sul do Brasil são apresentadas. Para a sardinha-verdadeira, foram identificadas mudanças temporais no ciclo reprodutivo, como o adiantamento do início da desova para outubro. Isso significa que o modelo de defeso atual (Brasil, 2009a) está parcialmente ajustado para proteger os períodos de reprodução da espécie. Este fato fica evidenciado pela maior ocorrência de indivíduos maturos (estágio III) nas amostras de outubro dos últimos anos, exibindo a 56 captura de indivíduos em processo de desova neste período. A sobreposição dos períodos de reprodução da sardinha-laje, palombeta e cavalinha, em relação a sardinha-verdadeira, mostra que estas espécies podem ser beneficiadas pelo defeso reprodutivo e dessa forma poderiam ser contempladas nos períodos de proibição das capturas. Por outro lado, estas outras espécies não possuem uma pescaria direcionada de forma constante ao longo do ano, sendo capturadas como alternativa associada a baixa disponibilidade ou defeso da espécie-alvo. Em adição, deve-se considerar que no período de defeso da sardinhaverdadeira parte da frota de cerco não opera. Assim, no presente momento, sardinha-laje, palombeta e cavalinha não necessitam ser contempladas no período de defeso da sardinhaverdadeira, entretanto, devem ser permanentemente monitoradas. Quanto ao defeso de inverno, observou-se que o mesmo encontra-se ajustado ao atual pico de recrutamento da sardinha-verdadeira (junho-julho), sendo que a partir de 2004 este se tornou mais definido. Em relação a sardinha-laje, palombeta e cavalinha, estas estão parcialmente sobrepostas ao período de recrutamento da sardinha-verdadeira, sendo que as mesmas poderiam ser consideradas também neste defeso. Entretanto, valem as ressalvas feitas anteriormente em relação ao defeso reprodutivo. Quanto a sardinhaverdadeira, o defeso de recrutamento não só protege os recrutas (já protegidos pela norma de tamanho mínimo de captura), mas retira a pressão pesqueira neste período, permitindo um aumento de biomassa para uma espécie, a qual tem elevadas taxas de crescimento (Matsuura, 1977a-b). Isso pode ser determinante na manutenção de capturas elevadas nos períodos posteriores ao defeso. Deve-se considerar que com a introdução de dois defesos anuais a partir de 2004 (Cergole e Dias-Neto, 2011) houve uma recuperação na produção pesqueira de sardinha-verdadeira, atingindo o patamar de 100.000 toneladas em 2012 e 2013 (MPA, 2015). Uma possível reavaliação do tamanho mínimo de capturas para a sardinhaverdadeira pode ser analisada, pois o presente estudo revelou um tamanho de primeira maturação superior ao estabelecido anteriormente por Vazzoler (1961). Deve-se lembrar que a metodologia para a definição do L50 no presente trabalho é distinta da aplicada por outros autores (Vazzoler, 1961; Rossi-Wongtschowski, 1977) para a espécie. O L50 deveria ser monitorado continuamente, pois este parâmetro pode sofrer mudanças por pressões ambientais ou densodependentes. Atualmente, a exigência de tamanho mínimo para sardinha-verdadeira é também realizada pela indústria enlatadora, que demanda exemplares maiores para processamento, realizando assim um controle independente de 57 medidas de ordenamento governamentais. Do mesmo modo, os valores do L50 para as demais espécies podem ser reavaliados, pois a IN MMA Nº53 (Brasil, 2005) encontra-se defasada. Segundo Tsikliras & Stergiou (2014), monitorar a variabilidade do L50 ao longo do tempo é cientificamente valioso, podendo ser utilizado como um indicador do estado do estoque, no entanto, esta ainda não é uma prática comum. Diferentes medidas, como um tamanho máximo, além do tamanho mínimo de capturas, também poderiam ser empregadas, formando uma janela de tamanhos ótimos dos indivíduos que poderiam ser capturados (Tsikliras & Stergiou, 2014). A importância de deixar os indivíduos maiores no ambiente está no fato das fêmeas de maior tamanho serem mais fecundas e produzirem uma prole com melhores chances de sobrevivência (Vazzoler, 1996). No entanto, esta seria uma medida para um modelo de gestão futuro, pois na prática apresentaria difícil aplicação e fiscalização no Brasil. Outra alternativa de manejo, a partir da identificação das áreas de desova e recrutamento, é estabelecer zonas de exclusão à pesca. Esse tipo de medida de ordenamento é adotada no Golfo do México a mais de 25 anos (Coleman et al., 2011) e o seu número está em aumento exponencial em todo o mundo, sendo considerada uma importante ferramenta de gestão marinha (Edgar et al., 2007). Entretanto, estas zonas são áreas com restrição total ou parcial à pescaria, onde o manejo é dirigido a todo o ecossistema e não só sobre uma espécie (Cergole & Dias-Neto, 2011). Considerando as diferentes alternativas, o uso de defesos de reprodução e recrutamento ainda são aplicáveis e funcionais nas atuais condições do manejo pesqueiro no Brasil. Ao mesmo tempo, a pesquisa científica é base para promover a sustentabilidade biológica dos estoques explotados e, consequentemente, para a sustentabilidade econômica da atividade pesqueira. Assim, é necessário a implementação de programas de coleta contínua de dados, bem como a instalação de fóruns de gestão pesqueira, inexistentes atualmente. 58 6. CONCLUSÕES A reprodução e o recrutamento foram estudados para as principais espécies capturadas pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil, entre os anos de 2000 e 2013, i.e. sardinha-verdadeira Sardinella brasiliensis, sardinha-laje Opisthonema oglinum, palombeta Chloroscombrus chrysurus e cavalinha Scomber japonicus. Para a análise dos parâmetros reprodutivos, foi necessária a reclassificação dos indivíduos do estágio II em imaturos e maturos baseada na análise dos resíduos, separando os indivíduos que estão maturando pela primeira vez dos demais. Esse método resultou em um aumento do L50 (19,0cm) para sardinha-verdadeira, quando comparado a estudos tradicionais (17,0cm). Para a gestão pesqueira, isso deve ser analisado com precaução, pois resultaria em mudanças do estrato populacional explotado. Com a sobreposição dos períodos de reprodução e recrutamento, os defesos da sardinha-verdadeira beneficiam as demais espécies analisadas, as quais poderiam ser contempladas nos períodos de proibição desta pescaria. Entretanto essa medida seria adequada somente associada a um aumento do esforço pesqueiro sobre as demais espécies. Quanto a sardinha-verdadeira, uma antecipação do período de defeso reprodutivo em 15 ou 30 dias seria adequada para melhor proteger a biomassa desovante, podendo ser compensada pela redução (em dias) no final do período dos defesos reprodutivo e/ou de recrutamento. As áreas de recrutamento observadas para as espécies estudadas ficaram próximas as áreas de desova, mostrando que estas não realizam importantes migrações entre o nascimento e o recrutamento dos indivíduos. Qualquer medida de manejo adotada pressupõe o monitoramento do impacto desta sobre a população e a existência de fóruns de gestão, especialmente de espécies restrategistas como os pequenos pelágicos, que respondem de forma rápida a mudanças ambientais e sofrem flutuações naturais da sua população. 59 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Alves, M.I.M. & Sawaya, P. 1975. Sobre a reprodução da sardinha-bandeira, Opisthonema oglinum (Le Sueur), na costa do estado do Ceará, Brasil. Arquivo de Ciências do Mar, 15(1): 19-28. Blaxter, J.H.S. (ed.); Russel, F.S. & Yonge, M. 1982. Advances in marine biology. Academic Press, London. 20, 223p. Braga, E.S. & Niencheski, L.F.H. 2006. Composição da massas de água e seus potenciais produtivos na área entre o Cabo de São Tomé (RJ) e o Chuí (RS). In: RossiWongtschowski, C.L.D.B. & Madureira, L.S.P (org). O ambiente oceanográfico da Plataforma Continental e do Talude na região Sudeste-Sul do Brasil. Editora da Universidade de São Paulo, 161-218pp. Brasil, 2005. Instrução Normativa MMA N° 53, de 22 de novembro de 2005. Estabelece o tamanho mínimo de captura de espécies marinhas e estuarinas do litoral sudeste e sul do Brasil. Diário Oficial da União, Brasília. Brasil, 2009a. Instrução Normativa n° 15, de 21 de maio de 2009. Estabelece os períodos de defeso para a pesca da sardinha-verdadeira (Sardinella brasiliensis). Diário Oficial da União, Brasília. Brasil, 2009b. Decreto nº 6.981, de 13 de outubro de 2009. Dispõe sobre a atuação conjunta dos Ministérios da Pesca e Aquicultura e do Meio Ambiente nos aspectos relacionados ao uso sustentável dos recursos pesqueiros. Diário Oficial da União, Brasília. Brasil, 2013. Portaria Interministerial n°1, de 27 de fevereiro de 2013. Cria o Comitê Permanente de Gestão e do Uso Sustentável dos Recursos Pelágicos - CPG Pelágicos Sudeste e Sul. Diário Oficial da União, Brasília. Cardinale, M. & Modin, J. 1999. Changes in size-at-maturity of Baltic cod (Gadus morhua) during a period of large variations in stock size and envoronmental conditions. Fisheries Research, 41: 285-295. Castro-Hernández, J.J. & Santana-Ortega, A.T. 2000. Synopsis of biological data on the chub mackerel (Scomber japonicus Houttuyn, 1782). Rome, FAO Fish. Synop., 157: 77p. Cengiz, O. 2012. Age, growth, mortality and reproduction of the chub mackerel (Scomber japonicus Houttuyn, 1782) from Saros Bay (northern Aegean Sea, Turkey). Turkish Journal of Fish Aquatic Science, 12: 799-809. Cergole, M.C. 1995. Stock assesment of the Brazlian sardine, Sardinella brasiliensis, of the south-eastern coast of Brazil. Scientia Marina, 59 (3-4): 597-610. Cergole, M.C. & Dias-Neto, J. 2011. Plano de gestão para o uso sustentável da sardinhaverdadeira Sardinella brasiliensis no Brasil. Ibama, Brasília,180p. Cergole, M.C. & Rossi-Wongtschowski, C.L.D.B. 2005. Sardinella brasiliensis (Steindachner, 1879). In: Cergole, M. C., Ávila-da-Silva, A. O. & Rossi- Wongtschowsky, C. L. B. (eds) Análise das principais pescarias comerciais da região Sudeste-Sul do Brasil: 60 dinâmica populacional das espécies em explotação. Série Doc. Revizee/Score Sul, 145150pp. Cergole, M.C.; Saccardo, S.A. & Rossi-Wongtschowski, C.L.D.B. 2002. Fluctuations in the spawning stock biomass and recruitment of the brazilian sardine (Sardinella brasiliensis) 1977-1997. Rev. bras. oceanogr. 50:13-26. Cergole, M.C. & Valentini, H. 1994. Growth and mortality estimates of Sardinella brasiliensis in the southeastern Brazilian bight. Boletim Instituto Oceanográfico, 42 (1/2): 113-127. Checkley, D.M.; Alheit, J.; Oozeki, Y. & Frontmatter, C.R. 2009. Climate change and small pelagic fish. Cambridge University Press. 1026p. Costa, M.R.; Albieri, R.J. & Araújo, F.G. 2005. Size distribution of the jack Chloroscombrus chrysurus (Linnaeus) (Actinopterygii, Carangidae) in a tropical bay at Southeastern Brazil. Revista Brasileira de Zoologia, 22(3): 580-586. Crawley, M.J. 2005. Statistics: an introduction using R. John Wiley, London, 327p. Cunha, F.E.A.; Feitosa, C.V.; Freitas, J.E.P & Monteiro-Neto, C. 2000. Biologia e biometria da palombeta, Chloroscombrus chrysurus (Linnaeus, 1766) (Teleostei: Carangidae), em Fortaleza, Ceará, Brasil. Arquivos de Ciência do Mar, 33: 143-148. Daskalov, G.M.; Boyer, D.C. & Roux, J.P. 2003. Relating sardine Sardinops sagax abundance to environmental indices in northern Benguela. Progress in Oceanography 59: 257–274. Dias, D.F.; Pezzi, L.P.; Gherardi, D.F.M. & Camargo, R. 2014. Modeling the spawning strategies and larval survival of the Brazilian sardine (Sardinella brasiliensis). Progress in Oceanography, 123: 38-53. Dias, J.F.; Clemmesen, C.; Ueberschär, B.; Rossi-Wongtschowski, C.L.D.B. & Katsuragawa, M. 2004. Condition of the brazilian sardine, Sardinella brasiliensis (Steindachner, 1879) larvae in the São Sebastião inner and middle continental shelf (São Paulo, Brazil). Brazilian Journal of Oceanography, 52(1):81-87. Dias-Neto, J. 2010. Gestão do uso dos recursos pesqueiros marinhos no Brasil. 2ed. Edições Ibama, Brasília, 243p. Dias-Neto, J. & Dornelles, L.D.C. 1996. Diagnóstico da pesca marítima do Brasil. Edições Ibama, Coleção Meio Ambiente, Brasília, 165p. Domínguez-Petit, R.; Korta, M.; Saborido-Rey, F.; Murua, H.; Sainza, M. & Piñeiro, C. 2008. Changes in size at maturity of European hake Atlantic populations in relation with stock structure and environmental regimes. Journal of Marine Systems, 71: 260-278. Edgar, G.J.; Russ, G.R. & Babcock, R.C. 2007. Marine protected areas. In: Connell, S.D. & Gillanders, B.M. (eds.) Marine Ecology. Oxford University Press, Australia, 533-555pp. Engelard, G.H. & Heino, M. 2004. Maturity changes in Norwegian spring spawning herring before, during, and after a major population colapse. Fisheries Research, 66 (2-3): 299-310. FAO. 1997. O estado mundial de la pesca y la acuicultura. Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, Roma. 57p. 61 Feltrim, M.C. 2002. Idade, crescimento e ciclo reprodutivo da sardinha-laje (Opisthonema oglinum) para o sudeste e sul do Brasil. Monografia de Graduação. Universidade do Vale de Itajaí. 37p. Feltrim, M.C. & Schwingel, P.R. 2005. Opisthonema oglinum (Lesueur, 1818). In: Cergole, M. C., Ávila-da-Silva, A. O. & Rossi- Wongtschowsky, C. L. B. (eds) Análise das principais pescarias comerciais da região Sudeste-Sul do Brasil: dinâmica populacional das espécies em explotação. Série Doc. Revizee/Score Sul, 112-115pp. Figueiredo, J.L. & Menezes, N.A. 1978. Manual de peixes marinhos do Sudeste do Brasil II. Teleostei (1). Museu de Zoologia, São Paulo, 110p. Figueiredo, J.L. & Menezes, N.A. 2000. Manual de peixes marinhos do Sudeste do Brasil VI. Teleostei (5). Museu de Zoologia, São Paulo, 116p. Flores-Coto, C. & Sanchez-Ramirez, M. 1989. Larval distribution and abundance of Carangidae (Pisces), from the Southem Gulf or Mexico, 1983-1984. Gulf Research Reports, 8(2):117-128. Fonteles-Filho, A.A. 2011. Oceanografia, biologia e dinâmica populacional de recursos pesqueiros. Expressão Gráfica, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 464p. Frehse, F.A. 2006. Estrutura da População de três espécies da família Clupeidae: Harengulla clupeola, Opisthonema oglinun e Sardinella brasiliensis, no Complexo Estuarino de Paranaguá, Paraná. Monografia de Graduação. Universidade Federal do Paraná. 21p. García-Abad, M.C.; Yáñez-Arancibia, A.; Sánchez-GiI P.; & Tapia-García, M. 1998. Distribución, abundancia y reproducción de Opisthonema oglinum (Pisces: Clupeidae) en. la plataforma continental del sur del Golfo de México. Rev. Biol. Trop., 46(2): 257-266. GEP/UNIVALI, 2013. Estatística online. Disponível em: <www.univali.br/gep>. Acesso em: 03 maio 2013. Gigliotti, E.S.; Gherardi, D.F.M.; Paes, E.T.; Souza, R.B. & Katsuragawa, M. 2010. Spatial analysis of egg distribution and geographic changes in the spawning habitat of the Brazilian sardine Sardinella brasiliensis. Journal of Fish Biology, 77, 2248–2267. Gluyas-Millán, M.G. & V.M. Muñoz-Gómez. 1993. Composición por tallas y edades de la macarela Scomber japonicus de Bahía Vizcaino, México. Invest. Mar. CICIMAR, 8(1):3338. Gotelli N.J. & A.M. Allison. 2011. Princípios de estatística em ecologia. Artmed, Porto Alegre, 528p. Haimovici, M.; Rossi-Wongtschowski, C.L.D.B.; Cergole, M.C.; Madureira, L.S.P. & Bernardes, A. 2006. Recursos pesqueiros da costa sudeste-sul. In: REVIZEE, Relatório executivo - Avaliação do potencial sustentável de recursos vivos na Zona Econômica Exclusiva. MMA, Brasília, 217-254pp. Hjort, J. 1914. Fluxuation in the great fisheries of Northern Europe viewed in the light of biological research. Rapp. P. Réun. Cons. Perm. Int. Explor. Mer. 20, 228p. Isaac-Nahum, V.J.; Cardoso, R. de D.; Servo, G. & Rossi-Wongtschowski, C.L.D.B. 1988. Aspects of the spawning biology of the Brazilian sardine, Sardinella brasiliensis (Steindacher, 1879), (Clupeidae). J. Fish Biol. 32, 383-396. 62 Jablonski, S. & Legey, L.F.L. 2004. Quantifying environmental effects on the recruitment of Brazilian sardine (Sardinella brasiliensis), 1977-1993. Sci. Mar. 68 (3): 385-398. James, A.; Pitchford, J.W. & Brindley, J. 2003. The relationship between plankton blooms, the hatching of fish larvae, and recruitment. Ecological Modelling, 160: 77-90. Katsuragawa, M. & Matsuura, Y. 1992. Distribution and abundance of carangid larvae in the southeastern Brazilian bight during 1975-1981. Bolm Inst. oceanogr., São Paulo, 40(1/2):55-78. Lasker, R. 1975. Field criteria for survival of anchovy larvae: the relation between inshore chlorophyll maximum layers and successful first feeding. Fishery Bulletin, 73(3): 453-462. Lemos, V.M., Varela Jr, A.S., Schwingel, P.R., Muelbert, J.H. & Vieira, J.P. 2014. Migration and reproductive biology of Mugil liza (Teleostei: Mugilidae) in south Brazil. Journ. Of Fish Biol., 17p. Lessa, R.P.; Nóbrega, M.F. de; & Nogueira, G.D. 2004. Opisthonema oglinum. In: Lessa, R.P.; Nóbrega, M.F. de & Bezerra Junior, J.L. (org.). Dinâmica de populações e avaliação de estoques dos recursos pesqueiros da região nordeste. Recife, Série Doc. Revizee/Score Norte, (2):172-182. Liermann, M. & Hilborn, R. 2001. Depensation: evidence, models ande implications. Fish and Fisheries, 2: 33-58. Lowerre-Barbieri, S.K.; Ganias, K.; Saborido-Rey, F.; Murua, H. & Hunter, J. R. 2011. Reproductive timing in marine fishes: variability, temporal scales, and methods. Marine and Coastal Fisheries: Dynamics, Management, and Ecosystem Science, 3:71–91. Lluch-Belda, D.; Schwartzlose, R.A.; Serra, R.; Parrish, R.; Kawasaki, T.; Hedgecock, H. & Crawford, J.M. 1992. Sardine and anchovy regime fluctuations of abundance in four regions of the world oceans: a workshop report. Fish Oceanogr. 1(4): 339-347. Manickchand-Heileman, S.C. & Hubbard, R.H. 1992. A preliminar survey of the clupeoid fishes in Trinidad, West Indies, and their use in live bait fishing. Proceedings of the Gulf and Caribbean Fisheries Institute, 41: 403-415. Martí, L. 2010. A descarga da sardinha-verdadeira (Sardinella brasiliensis) no sul e sudeste do Brasil e suas relações com a temperatura superficial do mar e eventos de El Niño e La Niña. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Itajubá. 66p. Masumoto, C. & Cergole, M.C. 2005. Chloroscombrus chrysurus (Linnaeus, 1766). In: Cergole, M. C., Ávila-da-Silva, A. O. & Rossi- Wongtschowsky, C. L. B. (eds) Análise das principais pescarias comerciais da região Sudeste-Sul do Brasil: dinâmica populacional das espécies em explotação. Série Doc. Revizee/Score Sul, 35-39pp. Matsuura, Y. 1977a. A study of the life history of Brazilian sardine, Sardinella brasiliensis. IV, distribution and abundance of sardine larvae. Bolm. Inst. oceanogr., São Paulo, 26:219-247. Matsuura, Y. 1977b. O ciclo de vida da sardinha-verdadeira (Introdução à oceanografia pesqueira). São Paulo, Publicação Esp. Inst. Oceanogr., 4, 146 p. Matsuura, Y. 1986. Contribuição ao estudo da estrutura oceanográfica da região sudeste entre Cabo Frio (RJ) e Cabo de Santa Marta Grande (SC). Ciência e Cultura, 38 (8): 14391450. 63 Matsuura, Y. 1996. A probable cause of recruitment failure of the Brazilian sardine Sardinella aurita population during the 1974/75 spawning season. South African Journal of Marine Science. 17: 29-35. Matsuura, Y. 1998. Brazilian sardine (Sardinella brasiliensis) spawing in the southeast Brazilian Bight over period 1976-1993. Revista Brasileira de Oceanografia, 46 (1): 33-43. Melvin, G.D.; Fife, F.J.; Sochasky, J.B.; Power, M.J. & Stephenson, R.L. 1995. The 1995 update on Georges Bank 5Z herring stock. Fisheries Research, 49p. Menezes, N.A. & Figueiredo, J.L. 1980. Manual de Peixes Marinhos do Sudeste do Brasil IV. Teleostei (3). São Paulo, Museu de Zoologia, 96p. Miethe, T.; Dytham, C.; Dieckmann, U. & Pitchford, J.W. 2010. Marine reserves and the evolutionary effects of fishing on size at maturation. Journal of Marine Science, 67: 412– 425. Moraes, L.E.S. 2012. Ecologia espacial da sardinha verdadeira (Sardinella brasiliensis steindachner 1879): padrões relacionados a variabilidade atmosférica e oceânica no Atlântico sudoeste. Tese de Doutorado. Instituto nacional de Pesquisas Espaciais. 289p. Morettin, P.A. & Bussab, W.O. 2004. Estatística básica. 5ed. Saraira, São Paulo, 526p. MPA. 2013. Boletim Estatístico da Pesca e Aquicultura - Brasil - 2011. Brasília, Ministério da Pesca e Aquicultura, 60p. MPA. 2015. Produção Pesqueira. Disponível em: www.mpa.gov.br. Acesso: 28 de janeiro de 2015. Mustac, B. & Sinoveie, G. 2012. Reproductive cycle of gilt sardine, Sardinella aurita, Valenciennes 1847, in the eastern midlle Adriatic Sea. Journal of. Applied Ichthyology, 28: 46-50. Nelder, J.A. & Wedderburn, R.W.M. 1972. Generalized Linear Models. J.R.Statist. Soc. 135(3): 370-384. Olsen, E.M.; Heino, M.; Lilly, G.R.; Morgan, M.J.; Brattey, J.; Ernande, B. & Dieckmann, U. 2004. Maturation trends indicative of rapid evolution preceded the colapse of northern cod. Nature 428: 932-935. Paes, E.T.; Soppa, M.A. & Souza, R.B. 2007. Covariações entre os desembarques da sardinha-verdadeira- Sardinella janeiro (Eigenmann, 1894) em seus extremos de ocorrência na plataforma sudeste brasileira e anomalias de temperatura da superfície do mar estimadas por satélite. Anais XIII Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto, Florianópolis: INPE, p. 4651-4658. Perez, J.A.A.; Lucato, S.H.B.; Andrade, A.H.; Pezzuto, P.R. & Rodrigues-Ribeiro, M. 1998. Programa de amostragem da pesca industrial desenvolvido para o porto de Itajaí, sc. Notas te. FACIMAR, 2:93-108. Pio, V.M. & Schwingel, P.R. 2012a. Análise do ciclo reprodutivo da palombeta (Chloroscombrus chrysurus) no sudeste/sul do Brasil, entre 2008-2010. Resumos. II SIBECORP, Mar del Plata, Argentina, p 29. 64 Pio, V.M. & Schwingel, P.R. 2012b. Variações temporais no ciclo reprodutivo da sardinha-verdadeira (Sardinella brasiliensis) no Sudeste/Sul do Brasil, entre 1998-2011. Resumos. II SIBECORP, Mar del Plata, Argentina, p 44. Rose, K.A; Cowan, J.H.; Winemiller, K.O.; Myers, R. A. & Hilborn, R. 2001. Compensatory density dependence in fish populations: importance, controversy, understanding and prognosis. Fish and Fisheries, 2: 293–327. Rose, G.A. 2005. On distributional responses of North Atlantic fish to climate change. Journal of Marine Science, 62: 1360-1374. Rossi-Wongtschowski, C.L.D.B. 1977. Estudo das variações da relação peso total/comprimento total em função do ciclo reprodutivo e comportamento, de Sardinella brasiliensis (Steindachner 1879) da Costa do Brasil entre 23°S e 28°S. São Paulo, Bolm. Inst. Oceanogr., 26: 131-180. Saccardo, S.A.; Rossi-Wongtschowski, C.L.D.B; Cergole, M.C. & Bittencourt, M. M. 1988. Age and growth of the southeastern Brazilian sardine, Sardinella brasiliensis, 19811983. Bolm. Int. oceanogr., São Paulo, 36 (1/2): 17-35. Saccardo, S.A. & Rossi-Wongtschowski, C.L.D.B. 1991. Biologia e avaliação do estoque da sardinha Sardinella brasiliensis: uma compilação. Atlântica, Rio Grande, 13(1): 21-28. Sánchez-Ramírez, M. & Flores-Coto, C. 1998. Growth and mortality of larval atlantic bumper Chloroscombrus chrysurus (pisces: carangidae) in the southern gulf of Mexico. Bulletin of Marine Science, 63(2): 295–303. Schwingel, P.R. & Feltrim, M.C. 2012. Avaliação do estoque de sardinha-verdadeira (Sardinella brasiliensis) para a região sul/sudeste do Brasil, 2000-2010. Relatório Técnico, UNIVALI/MPA, 86p. Schwingel, P.R. & Occhialini, D. 2003. Descrição e análise da variação temporal da operação de pesca da frota de traineiras do porto de Itajaí, SC, entre 1997 e 1999. Notas Tec. FACIMAR, 7: 1-10. Schwingel, P.R. & Occhialini, D.S. 2007. Descrição e dinâmica de traineiras no porto de Itajaí (SC) entre 1997 e 1999. In: Rossi-Wongtschowski, C.L.D.B.; Bernardes, R.A. & Cergole, M.C. (eds) Dinâmica das frotas pesqueiras comerciais da região Sudeste-Sul do Brasil. São Paulo, Série Doc. Revizee/Score Sul, 218-247. Seckendorff, R.W. Von & Zavala-Camin, L.A. 1985. Reprodução, crescimento e distribuição da cavalinha (Scomber japonicus) no sudeste e sul do Brasil. Bol. Inst. Pesca, São Paulo, 12 (2): 1-13. Seneviratne, S.I.; Donat, M.G.; Mueller, B. & Alexander, L.V. 2014. No pause in the increase of hot temperature extremes. Nature Climate Change, 4: 161-163. Sonia I. Markus G. Donat, Brigitte Mueller and Lisa V. Alexander Silva, A.; Santos,M. B.; Caneco, B.; Pestana, G.; Porteiro, C.; Carrera, P.; & Stratoudakis, Y. 2006. Temporal and geographic variability of sardine maturity at length in the northeastern Atlantic and the western Mediterranean. Journal of Marine Science, 63: 663-676. Simãozinho, P.F. 2011. Idade e crescimento da cavalinha (Scomber japonicus Houttuyn, 1782) capturada pela frota de cerco no sudeste e sul do Brasil. Monografia de Graduação. Universidade do Vale do Itajaí. 32p. 65 SUDEPE. 1975. Relatório dos grupos do camarão-rosa e da sardinha. São Paulo, PDP Documentos técnicos, (7): 35-61. Tobin, D. & Wright, P.J. 2011. Temperature effects on female maturation in a temperature marine fish. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology, 403: 9-13. Trippel, E.A. 1995. Age at maturity as a stress indicator in fisheries. Bioscience, 45(11): 759-771. Tsikliras, A.C. & Stergiou, K.I. 2014. Size at maturity of Mediterranean marine fishes. Rev Fish Biol Fisheries, 24:219–268. Ueno, F.; Mesquita, J.X. de & Paludo, M.L. de B. 1980. Catálago das redes de arrasto e cerco utilizadas pela frota industrial nas regiões Norte, Sudeste e Sul do Brasil. Brasília, Documentos Técnicos SUDEPE/PDP, (40) 70p. UNIVALI/CTTMar, 2010. Boletim estatístico da pesca industrial de Santa Catarina - Ano 2009 e Panorama 2000-2009. Universidade do Vale do Itajaí, Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar, Itajaí, SC. 97p. UNIVALI/CTTMar, 2011. Boletim estatístico da pesca industrial de Santa Catarina - Ano 2010. Universidade do Vale do Itajaí, Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar, Itajaí, SC. 59p. Valentini, H. & Cardoso, R. de D. 1991. Análise da pesca da sardinha-verdadeira, Sardinella brasiliensis, na costa sudeste-sul do Brasil. Atlântica, Rio Grande, 13 (1): 4554. Vazzoler, A.E.A. de M. 1961. Sobre a primeira maturação sexual e destruição de peixes imaturos. Pub. Inst. Ocen., São Paulo, 161: 38p. Vazzoler, A.E.A. de M. 1996. Biologia da reprodução de peixes teleósteos: teoria e prática. São Paulo, EDUEM, 169p. Walsh, J.J.; Whitledge, T.E.; Esaias, W.E.; Smith, R.L. Huntsman, S.A.; Santanderi, H. & Mendiola, B.R. 1980. The spawning habitat of the Peruvian anchovy, Engraufis ringens. Deep Sea Research, 27: 1-27. Zar, J. H. 2010, Biostatistical analysis, Prentice Hall, New Jersey, 5. ed., 978p. 66 8. APÊNDICES APÊNDICE 1 Apêndice 1. Dias de defesos de recrutamento da sardinha-verdadeira as alterações feitas nesse período nos diferentes anos analisados 67 APÊNDICE 2 Apêndice 2. Dias de defeso de reprodução da sardinha-verdadeira e as alterações feitas nesse período nos diferentes anos analisados. 68