O ESTADO DO CONHECIMENTO ACERCA DA PSICOPEDAGOGIA
ESCOLAR NO BRASIL
CÔRTES, Ana Rita Ferreira Braga - FURB/SC
[email protected]
RAUSCH, Rita Buzzi (orientadora) – FURB/SC
[email protected]
Eixo Temático: Psicopedagogia
RESUMO
A Psicopedagogia teve origem quando se buscou compreender profundamente os processos de
aprendizagem e as possíveis dificuldades apresentadas pelos alunos na construção de
conhecimentos. Considerar o aluno na sua globalidade, em seu contexto sociocultural; entender
sua dificuldade recorrendo a um amplo e diverso campo de conhecimentos alicerçados em
áreas afins como Psicologia, Filosofia, Fonoaudiologia, Neurologia entre outros, faz parte da
ação e intervenção do psicopedagogo e o ambiente mais propício a isto é a própria escola.
Permeando estas questões destaca-se a formação do profissional, a busca de subsídios que
embasem sua prática para assim fortalecer a identidade do profissional da Psicopedagogia.
Nesta pesquisa bibliográfica e descritiva, analisamos produções científicas que investigaram a
Psicopedagogia Escolar no Brasil. Para isso, fizemos um levantamento de teses, dissertações e
artigos que focaram a Psicopedagogia nos últimos anos e que foram publicados em Revistas de
Educação, com o intuito de compreender melhor o papel do psicopedagogo, bem como suas
possibilidades de atuação na escola. As pesquisas analisadas destacam que a Psicopedagogia
está abrindo novas possibilidades de atuação e a inserção de um psicopedagogo nas escolas se
faz cada vez mais necessária frente aos atuais problemas da educação. Por meio de uma ação
consciente e compromissada o psicopedagogo não deve atuar somente junto aos alunos, mas
também junto aos demais profissionais da educação visando o repensar das práticas
pedagógicas diante das dificuldades de aprendizagem, bem como junto às famílias para que
assim se possa amenizar o fracasso escolar brasileiro.
Palavras-chave: Psicopedagogia. Psicopedagogia escolar. Aprendizagem.
1 INTRODUÇÃO
A Psicopedagogia é uma formação recente e está conquistando seu espaço em nível
teórico, científico e profissional. Os estudos referentes à Psicopedagogia, no Brasil, têm uma
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história de aproximadamente 30 anos. Inicialmente dedicou-se à pesquisa, por meio de grupos
de estudos, que refletiam sobre a prática educacional.
Nesses últimos tempos, percebe-se o acréscimo de profissionais buscando compreender
melhor esse processo. O espaço profissional da Psicopedagogia reúne diversos profissionais
como psicólogos, pedagogos e psicopedagogos, cuja atividade está relacionada com a maneira
como as pessoas, que têm dificuldades de aprendizagem, aprendem e se desenvolvem.
Buscam-se intervenções por meio de atividades que são pensadas e elaboradas individualmente
de acordo com a necessidade de cada sujeito, com o objetivo de ajudá-lo a superar suas
dificuldades.
De acordo com Coll (2000), a Psicopedagogia, como espaço profissional continua
estando entre nós, essencialmente vinculada aos processos educativos escolares, ainda que,
recentemente, e com certo atraso em relação a um processo similar experimentado em outros
países próximos, tenha começado a produzir-se um tímido movimento de abertura progressiva
a outros tipos de práticas educativas não-escolares. Atualmente, a realidade profissional da
Psicopedagogia em nosso país remete à educação escolar e aos processos escolares de ensino e
aprendizagem. O grande desafio do psicopedagogo então é colaborar na mudança da educação
a partir de um campo de trabalho próprio.
Como Psicopedagoga, iniciando um trabalho em Itajaí, em uma Escola da Rede
Municipal, desafia-nos a enfrentar obstáculos, a conhecer um pouco mais o quê outras
profissionais que também estão trabalhando na mesma área vêm estudando e praticando no
contexto educacional. Desta forma, buscamos neste trabalho, por meio de uma pesquisa
bibliográfica, fazer uma revisão minuciosa da literatura disponível sobre o assunto investigado,
analisando criteriosamente e criticamente o estado atual do conhecimento da Psicopedagogia
Escolar no Brasil, analisando-se as abordagens teórico-metodológicas utilizadas, identificando
pontos de consenso, controvérsia e lacunas nas pesquisas realizadas. Para isso, fizemos um
levantamento de teses, dissertações e artigos que focaram a Psicopedagogia nos últimos anos,
com o intuito de compreender melhor o papel do psicopedagogo na escola, bem como suas
possibilidades de atuação e a viabilidade de sua permanência na escola.
Na busca bibliográfica encontramos seis artigos publicados em Revista de Educação
(2008), no site Estação Científica Online (2008), no Simpósio Internacional de Educação
(2008) e no site do Instituto Sedes Sapientiae. Encontramos também duas teses de doutorado,
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uma monografia de conclusão de curso de Especialista em Educação e Psicopedagogia e uma
monografia de conclusão de curso de Especialista em Psicopedagogia clínica, institucional e
hospitalar.
2 PSICOPEDAGOGIA – UM POUCO DE HISTÓRIA
Historicamente, segundo Bossa (2000), os primórdios da Psicopedagogia ocorreram na
Europa, ainda no século XIX, evidenciada pela preocupação com problemas de aprendizagem
na área médica. Essa linha diagnóstica que procurava identificar no físico as determinantes das
dificuldades do aprendiz é encontrada no histórico da Educação Especial e também no da
Psicopedagogia.
Na Educação Especial, Esquirol frisou a importância da diferenciação entre confusão
mental passageira, loucura como perda irremediável da razão e idiotia (provocada pela
ausência do desenvolvimento da inteligência na infância). Seguin inovou a teoria de Esquirol,
fazendo distinção entre idiotia, imbecilidade, debilidade mental, considerando-se enfermidades
diferentes e de diferentes etiologias. Afirmou que qualquer que seja o gênero de dificuldade, o
indivíduo é educável importando saber o “quantum” de inteligência dispõe, o grau de
comprometimento das funções orgânicas relevantes para a instrução pretendida e a habilidade
na aplicação do método educacional. Isto pôs em relevo a importância do diagnóstico médico.
Dessa forma, os médicos educadores acentuaram, na ação pedagógica, a questão do saber
como tratar, tornando a ação do pedagogo vinculada à do médico (MERY, 1985).
Em fins do século XIX foi formada uma equipe médico-pedagógica pelo educador
Seguin e pelo médico psiquiatra Esquirol. Conforme Mery (1985), a partir daí a
neuropsiquiatria infantil passou a se ocupar dos problemas neurológicos que afetam a
aprendizagem. Nessa mesma época, Maria Montessori, psiquiatra italiana, criou um método de
aprendizagem destinado inicialmente às crianças retardadas. Posteriormente, o método
Montessori foi estendido a todas as crianças, sendo utilizado em muitas escolas
(MONTESSORI, 1954).
Conforme Mary (1985), em 1946, foram fundados e chefiados por J. Boutonier e
George Mauco os primeiros Centros Psicopedagógicos, onde se buscava unir conhecimentos
da Psicologia, da Psicanálise e da Pedagogia para tratar comportamentos socialmente
inadequados de crianças, tanto na escola como no lar, objetivando sua readaptação.
3808
Segundo Mauco (1959), os fundadores do primeiro centro procuram, como já havia
sido tentado entre 1920 e 1928, utilizar os conhecimentos oriundos da Psicologia, da
Psicanálise e da Pedagogia, em auxílio das crianças que tivessem dificuldades de
comportamento, tanto na escola como na família, visando obter, na medida do possível, a sua
readaptação através de um acompanhamento psicopedagógico, melhorando assim a
convivência da criança com seu meio familiar e escolar. Através dessa cooperação Psicologia –
Psicanálise – Pedagogia, esperavam adquirir um conhecimento total da criança e do seu meio,
o que tornaria possível a compreensão do caso. Assim, a ação re-educadora poderia ser
determinada e prevista de acordo com a orientação e a gravidade dos distúrbios da criança.
A falta de conhecimento a respeito das dificuldades de aprendizagem fez e, ainda faz,
com que os alunos com dificuldades sejam encaminhados para profissionais das mais diversas
áreas de atuação. Isso fez com que se criasse uma consciência da necessidade de uma formação
mais globalizante onde uma única pessoa fosse apta para atuar de forma mais objetiva, eficaz e
fazer com que os atendimentos se centralizassem num só profissional, facilitando o vínculo do
aluno com o processo de aprendizagem e assim resgatar o prazer de aprender.
Vê-se então, que o papel da Psicopedagogia, que é a área que estuda e trabalha com o
processo da aprendizagem e suas dificuldades, deve englobar vários campos do conhecimento.
O atendimento psicopedagógico que antes era restrito a clínicas particulares, começa a
contribuir aos poucos, para a diminuição dos problemas de aprendizagem nas escolas e assim
reduzir os altos índices de fracasso escolar.
As escolas, por falta de conhecimento adequado e por não conseguir solucionar alguns
problemas, por não compreender as dificuldades dos alunos, acabam discriminando da mesma
forma alunos que tem problemas e não são tratados, não conseguindo então, intervir de forma
eficaz. Segundo Scoz (1992), a grande questão de nossas escolas é encontrar caminhos que
possibilitem ao professor a revisão de sua própria prática, a descoberta de alternativas possíveis
de ação. Isso só será possível se o profissional da educação tiver acesso às informações das
várias ciências, como a Pedagogia, a Psicologia, a Sociologia, a Psicolingüística, de forma a
atingir um conhecimento profundo, que deve ser vinculado à realidade educacional brasileira,
possibilitando a visão global do aluno.
Abre-se então, a questão do papel do psicopedagogo na e para uma determinada
instituição, cujas formas de estrutura e articulação não podem ser ignoradas. No dizer da
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professora Bernadete Gatti (1980), a ação educativa se passa num ambiente determinado,
historicamente construído, e seu entendimento é fundamental para a compreensão dos agentes
e das ações educativas e de suas potencialidades.
A partir dessas considerações podemos concluir que a Psicopedagogia deve estar
presente no enfrentamento dos problemas cruciais da educação brasileira, assumindo uma
atuação consciente e comprometida.
3 PESQUISAS QUE INVESTIGARAM A PSICOPEDAGOGIA ESCOLAR
De acordo com Bossa (2000) a questão da formação do psicopedagogo assume um
papel de grande importância na medida que é a partir dela que se inicia o percurso para a
formação da identidade desse profissional. No Brasil, do ponto de vista legal, a
Psicopedagogia ainda não representa uma profissão. A maioria dos psicopedagogos formou-se
em cursos de Pedagogia ou Psicologia, e depois de terminar a graduação, completa seus
estudos em nível de especialização em Psicopedagogia - em programas lato sensu
regulamentados pela Resolução nº 12/83, de 06.10.83-, e assim modifica a sua práxis.
Mesmo com a especialização terminada, em termos de conhecimento, o aluno ainda não
está realmente habilitado para iniciar sua atuação, digo isso pela minha própria experiência,
pois depois que terminei o curso de especialização, senti necessidade de, mesmo sozinha,
continuar estudando e me aperfeiçoando. Acredito que a Psicopedagogia tem ganhado espaço
nos meios educacionais brasileiros, pois os profissionais buscam cada vez mais subsídios para
poder melhorar sua prática e assim poder alcançar com responsabilidade e comprometimento,
os estudantes que estão em nossas escolas e não conseguem aprender. A dificuldade de
aprendizagem pode ser uma manifestação inconsciente ou até mesmo um problema de
ensinagem, o que tem relação com a instituição escolar e não com a criança.
O artigo “A importância do trabalho psicopedagógico: incentivo institucional e
atendimento às crianças com dificuldades escolares” de Andréia Osti e Eliane Marcelino
(2008) destaca a importância do trabalho do psicopedagogo e sua área de atuação, seja ela
institucional ou clínica, focando a prevenção ou a intervenção das dificuldades de
aprendizagem. Apresenta também a experiência realizada na Faculdade de Valinhos que
organizou o laboratório de Psicopedagogia para realizar um programa de atendimento
psicopedagógico às crianças com queixas de dificuldades de aprendizagem, visando
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aperfeiçoar a formação do psicopedagogo, oferecendo assim um espaço para que os
profissionais formados por essa instituição pudessem exercer atividades de avaliação,
diagnóstico e intervenção, podendo contar com os materiais necessários e também com
supervisão. Porém o espaço era fora de uma instituição escolar, sem constância de profissionais
e alunos e o psicopedagogo não tinham contato com o ambiente escolar o que prejudicava sua
visão do que realmente acontece dentro de uma instituição.
Em outro artigo, Osti, Júlio, Torrezin e Silveira (2005), relatam a experiência da
Secretaria de Educação do Município de Valinhos que no ano de 2004 implantou nas escolas
da rede pública o Programa de Assessoramento Psicopedagógico. O relato da experiência teve
o objetivo de mostrar os desafios e os resultados parciais obtidos nesse programa. Destacam
que a implantação de serviços que busquem atender alunos traz excelentes resultados desde
que sejam implantados e mantidos. Estes autores partilham da opinião de Ferreira (2002), de
que a atuação do psicopedagogo não deve restringir-se ao espaço físico em que atua, mas
também depende de sua atitude psicopedagógica que abrange seu modo de pensar a
Psicopeadgogia e o conhecimento que se tem da área. A psicopedagogia educacional objetiva
que todos os profissionais da educação, considerando diretores, professores e coordenadores
pedagógicos repensem o papel da escola frente às dificuldades da criança e os vários fatores
envolvidos numa situação de aprendizagem. Por outro lado, crianças com dificuldades de
aprendizagem necessitam de atendimento específico, o que evidencia que em certos casos a
escola não consegue resolver todos os problemas desta ordem sozinha, necessitando de ajuda
de um profissional especializado.
Este artigo chamou-nos atenção, pois a intenção deste Programa foi implantar o
psicopedagogo na escola com o objetivo de investigar todas as variáveis possíveis existentes no
processo de ensino aprendizagem, a fim de orientar as famílias e a escola bem como direcionar
à reflexão e ao encaminhamento de estratégias de ajuda à criança e ao adolescente atendido
neste Programa, promovendo uma atitude de acolhimento. O artigo não nos mostra o resultado
do projeto e também não conseguimos saber por quanto tempo esse projeto continuou.
Concordamos com Mello (1992) que sinaliza que dificilmente teremos equipes estáveis, se for
permitida a cada ano a remoção de diretores, professores, supervisores, orientadores e no caso
em questão, de psicopedagogos de uma escola. Não há nenhuma possibilidade de trabalho e
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nenhum psicopedagogo que consiga fazer o milagre de atuar em problemas de aprendizagem se
a cada ano uma escola recomeçar com uma equipe, ou parte dela, nova.
O artigo “Crianças com dificuldades escolares atendidas em Programa de Suporte
Psicopedagógico na escola: avaliação do autoconceito” (2004) teve como objetivo avaliar o
autoconceito de um grupo de crianças com dificuldades de aprendizagem escolar, que
frequentavam o ensino regular associado a um programa de suporte psicopedagógico na escola
(Ensino Alternativo), comparando a outro grupo formado por crianças sem dificuldades
escolares que frequentavam apenas o ensino regular. As autoras desse artigo mostram que os
efeitos adversos do fracasso escolar têm apontado para a existência de relação entre
dificuldades de aprendizagem e baixa auto-estima, aceitação e popularidade perante os colegas
(LINHARES et al, 1993).
Estudos empíricos e de revisão desde os anos 1970 (ABU- HILAL, 2000; ASHMAN &
VAN KRAAYENOORD, 1998; BLOOM, 1976; CHAPMAN, 1988; CHAPMAN &
BOERSMA, 1991; COVINGTON & OMELICH, 1979; HAMACHEK, 1995; HARTER &
PIKE, 1984; PURKEY, 1970) têm assinalado de forma sistemática correlações positivas entre
autoconceito e o desempenho acadêmico. De forma geral, pode-se dizer que os referidos
autores partilham da afirmativa que conhecimentos e sentimentos positivos em relação a si
próprio repercutem no bom funcionamento individual, na motivação e na forma como os
indivíduos respondem às demandas da aprendizagem.
A tese de doutorado “A emergência da Psicopedagogia no Brasil” (2008) apresenta
inicialmente condições mais amplas que transcendem o caso brasileiro, afirmando que as
primeiras possibilidades para a construção do solo psicopedagógico foram dispostas pelas
relações entre os estudos das crianças, o elo entre a Psicologia e a Pedagogia e a invenção da
infância anormal. O objetivo real da autora foi mostrar algumas condições em determinados
momentos em que surge a necessidade de outros saberes para fundamentar as práticas
escolares; saberes que se envolveram na re-definição de conceitos típicos da Pedagogia como
ensino e aprendizagem, professor e aluno, etc.; e que foram solidificando o terreno para a
construção do edifício psicopedagógico. Essa tese mostra que as práticas psicopedagógicas
vêm efetivamente acontecendo em escolas, hospitais, empresas, clínicas.
Esta tese tece considerações sobre a chegada dos princípios escolanovistas no país,
principalmente nos períodos que, na História do Brasil, ficaram conhecidos como Primeira e
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Segunda República. Mostra que nas décadas de 1920 e 1930, aconteceram as principais
reformas de ensino, especialmente de abrangência estadual que aconteceram com a criação da
Associação Brasileira de Educação. Discute as duas das principais portas de entrada para a
Psicopedagogia no Brasil: a que trata da Escola de aperfeiçoamento Pedagógico de Belo
Horizonte, criada em 1927, por meio da qual foi introduzido o pensamento de Claparède,
através de Helena Antipoff e das pesquisas que ela passou a realizar naquela instituição, sobre
o desenvolvimento mental e sobre os ideais e os interesses das crianças mineiras. Trata também
do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, criado em 1923, destacando em especial as
atuações de Anísio Teixeira e Lourenço Filho e analisando a grade curricular da Escola
daquele Instituto.
Aprofundando o tema “A Psicopedagogia no cenário atual” a tese sugere que as
investigações e práticas psicopedagógicas têm se legitimado na mesma proporção em que
cresce o debate em torno da constituição da Psicopedagogia como campo independente do
saber. A tese trata do envolvimento da Psicopedagogia com o processo de normalização, na
medida em que os saberes psicopedagógicos constituem estratégias para reinserção e
readaptação de alunos desviantes e, ao mesmo tempo, legitimam a permanente necessidade de
intervenção junto a esses alunos. Trata também do envolvimento da Psicopedagogia com a
gestão do risco social, destacando o fracasso escolar como materialização, no campo da
educação, do risco social. E por fim, trata do envolvimento da Psicopedagogia com o
deslocamento do ensino para a aprendizagem retomando o conceito de fracasso escolar
primeiro na pedagogia curativa e depois nos três enfoques que orientaram os discursos e as
práticas pedagógicas: organicista, cognitivista e terapêutica.
A monografia de conclusão de curso para obtenção de título de Especialista em
Educação e Psicopedagogia também serviu como referência neste estudo. Nesse trabalho o
autor, João Batista Cesário (2007), propõe investigar como a Psicopedagogia pode ser um
efetivo instrumento de inclusão, devolvendo as crianças, adolescentes, jovens e adultos a
alegria, a auto-estima e o gosto pelo aprender. O autor mostra em sua pesquisa que a exclusão
sempre esteve presente no ensino deixando muitas pessoas privadas do conhecimento e do
saber. Ao investigar as origens, o método e a natureza da Psicopedagogia a apresenta como
instrumento válido, atual, urgente e necessário para a superação do fracasso escolar.
3813
Quanto à definição de psicopedagogia é freqüente a junção dos conhecimentos da
psicologia e da pedagogia – como a simples decomposição do vocábulo: psico + pedagogia.
Essa compreensão limita e reduz o conceito e não é suficiente para abarcar e definir toda a ação
e a prática psicopedagógica.
Segundo Beauclair (2004)
[…] a Psicopedagogia é um campo de conhecimento que se propõe a integrar, de
modo coerente, conhecimentos e princípios de diferentes ciências humanas com a
meta de adquirir uma ampla compreensão sobre os variados processos inerentes ao
aprender humano. [...] Interessa à psicopedagogia compreender como ocorrem os
processos de aprendizagem e entender as possíveis dificuldades situadas neste
movimento. Para tal, faz uso de integração e síntese de vários campos do
conhecimento, tais como a psicologia, a psicanálise, a filosofia, a psicologia
transpessoal, a pedagogia, a neurologia, entre outros.
Na seqüência, o autor registra as origens da Psicopedagogia, situando o nascimento da
Psicopedagogia na França, em torno de 1940. Bossa (2000, p.36) afirma que “a preocupação
com os problemas da aprendizagem [a Psicopedagogia, portanto] teve origem na Europa, ainda
no século XXI”.
Castanho (2002) julga ser possível localizar a gênese da Psicopedagogia nas últimas
décadas do século XVIII. Foi a partir de 1946, na França, que os chamados Centros
Psicopedagógicos ganharam importância e se multiplicaram com rapidez até o início da década
de 1960, ligando equipes de trabalho “compostas por médicos, psicólogos, pedagogos,
psicanalista e reeducadores de psicomotricidade e da escrita” (PERES, p.41). O modelo de
psicopedagogia diagnóstica com tendência clínica, ao final da década de 1960, passou a ser
veemente questionado por educadores que estavam incomodados com a indiscriminada
rotulação de alunos, sem a menor preocupação com o contexto sócio-educacional.
A Psicopedagogia se espalhou principalmente em países preocupados com o insucesso
escolar, mas foi na Argentina que ela cresceu e se desenvolveu rapidamente adquirindo
condição de ciência, reconhecida e valorizada como tal no contexto da educação. A práxis
psicopedagógica na Argentina se dá fundamentalmente nas áreas de educação e saúde, para
diminuir o fracasso escolar e reconhecer as alterações da aprendizagem sistemática.
3814
Adiante, o autor discorre sobre a Psicopedagogia no Brasil, que se deu na década de
1950, com o surgimento do chamado ‘Serviço de Orientação Psicopedagógica’ (SOPP), no
estado da Guanabara, e “tinha como meta desenvolver a melhoria da relação professor-aluno e
criar um clima mais receptivo para a aprendizagem, aproveitando para isso as experiências
anteriores dos alunos” (PERES, 1998, p. 43). Mas no Brasil prevaleceu, durante muito tempo,
uma “perspectiva patologizante” (BOSSA, 2000, p. 49) na abordagem dos problemas de
aprendizagem, que tendia a atribuir a causa de tais problemas e fatores orgânicos, recaindo
sobre o sujeito aprendente a ‘culpa’ pelo fracasso.
Esta pesquisa destaca também campo de atuação da prática psicopedagógica e nos
relata sobre a Psicopedagogia Institucional, no qual a escola ainda é a principal e mais
importante instituição a reclamar pela presença e pela intervenção psicopedagógica em seu
cotidiano. Calberg (2000, p. 16), mostra que a escola, em diversas situações tem sido
“produtora de dificuldades de aprendizagem”, o que ele chama de ‘dispedagogia’, indicando
nesse conceito “as dificuldades encontradas pela escola em sua prática, referentes à
metodologia de ensino ou ao vínculo que estabelece com seus alunos”. Cabe a Psicopedagogia
ressignificar as relações no espaço institucional da escola, bem como o conhecimento aí
produzido, pois “ninguém aprende e apreende sem afeto, sem desejo, sem curiosidade e sem
vivenciar objetivamente o conteúdo em questão” (CASTRO, 2004, p. 111)
De acordo com Calberg (2000, p.17) ao psicopedagogo que atua o campo da
psicopedagogia institucional escolar compete uma série de tarefas, dentre as quais
[…] administrar ansiedades e conflitos; trabalhar com grupos […] identificar
sintomas de dificuldades no processo de ensino-aprendizagem; organizar projetos de
prevenção, clarear papéis e tarefas nos grupos, ocupar um papel no grupo; criar
estratégias para o exercício da autonomia (aqui entendido segundo a teoria de Piaget:
cooperação e respeito mútuo); fazer a mediação entre os subgrupos envolvidos na
relação ensino-aprendizagem (pais, professores, alunos, funcionários); transforma
queixas em pensamentos; criar espaços de escuta; levantar hipóteses; observar;
entrevistar e fazer devolutivas; utilizar-se de metodologia clínica, olhar clínico;
estabelecer vínculo psicopedagógico; não fazer avaliação psicopedagógica clínica
individual dentro da instituição escolar […]; fazer acompanhamentos e orientações;
compor a equipe técnica-pedagógica.
3815
Quanto aos impasses e desafios para a regulamentação da psicopedagogia como
profissão, Cesário mostra que ela ainda não conseguiu status de profissão regulamentar no
Brasil. Há mais de uma década o Projeto de Lei nº 3124/97 de 15/05/97 que dispõe sobre a
regulamentação da profissão de psicopedagogo, está ‘parado’ na Câmara Federal.
O Projeto de Lei 3.124/97 descreve as funções do psicopedagogo, estabelecendo um
perfil desse profissional, cujo “saber diversificado oriundo de várias áreas do conhecimento
humano” o torna competente para
[...] realizar intervenção visando à solução dos problemas de aprendizagem tendo
como enfoque o educando, instituição de ensino pública ou privada; efetuar o
diagnóstico e intervenção psicopedagógica, utilizando métodos, instrumento e
técnicas próprias da Psicopedagogia; intervir na prevenção de problemas de
aprendizagem; pesquisar cientificamente o processo ensino-aprendizagem, assim
como os problemas que dele decorrem; oferecer assessoria psicopedagógica aos
trabalhos realizados em espaços institucionais; coordenar, orientar e supervisionar
cursos de especialização em Psicopedagogia em nível de pós-graduação, oferecidos
por instituições credenciadas. (COSTA, 2007)
Cesário relata que no Estado de São Paulo, o Projeto de Lei nº 128/2000 do deputado
estadual Claury Alves de Souza, aprovado em 04/09/2001, logrou estabelecer a “implantação
de assistência psicopedagógica e psicológica em todos os estabelecimentos públicos de ensino
do estado de São Paulo” (NOFFS, 2002, p.43). Cesário menciona que até a época em que
apresentou o seu trabalho, em 2007, ainda faltava implementar de fato o que havia sido
estabelecido em lei.
Outra tese que aborda o tema é “Psicopedagogia: Limites e possibilidades a partir de
relatos de profissionais” de Maria Regina Peres (2007). O seu objetivo foi investigar a prática
do professor-psicopedagogo, seus desafios, suas possibilidades, frente ao cotidiano da atuação
psicopedagógica preventiva em instituições regulares de ensino. Os sujeitos dessa pesquisa
foram 10 professores-psicopedagogos de diferentes instituições de ensino e a coleta de dados
deu-se por meio de questionário semi-estruturado. Neste trabalho Peres destaca que, segundo
Bossa (2000, p.51), no Brasil, o primeiro registro oficial de um curso, de livre iniciativa,
destinado
à
formação
em
psicopedagogia,
denominado
“Curso
de
Orientação
3816
Psicopedagógica”, teria ocorrido no Rio Grande do Sul em 1954, promovido pelo Centro de
Pesquisas e Orientação Educacional (CPOE).
Peres (2007) constata que em grande parte das instituições, o fazer ‘psicopedagógico’,
ocorre de modo geral, tendo como referencial três vertentes. Uma vertente é quando o
psicopedagogo é contratado temporariamente, para uma assessoria psicopedagógica e as
intervenções geralmente acontecem diretamente junto ao grupo de docentes que buscam
metodologias diferenciadas de trabalho, visando melhor aproveitamento escolar por parte do
aluno. A assessoria pode acontecer também junta aos pais ou familiares de alunos que
apresentam dificuldades de aprendizagem. Nesse caso, geralmente, o atendimento acontece
fora do ambiente escolar e assim, dificilmente o psicopedagogo irá criar vínculos com o grupo,
já que seu trabalho, na maioria das vezes, acontece semanalmente, quinzenalmente ou até
mesmo mensalmente.
Outra vertente é quando o psicopedagogo é contratado pela instituição para compor o
quadro de sua equipe de trabalho, juntamente com o diretor, coordenador, orientador
educacional, professores, alunos, pais, familiares e outros segmentos e, assim tem oportunidade
de interagir diretamente com o cotidiano das ações desenvolvidas na instituição. Nesse caso, o
psicopedagogo passa a realizar um trabalho em conjunto com outros profissionais contribuindo
em diversos aspectos como metodologia, avaliação, relacionamentos entre outros. O
psicopedagogo pode também atuar junto aos pais na busca de melhorias nas relações entre pais
e filhos frente aos desafios de um mundo em constante mudança.
Outra vertente ainda é a presença do professor que também é psicopedagogo, ou seja, o
professor-psicopedagogo que irá atuar diretamente com seus alunos em sala de aula, o que
favorece o relacionamento de proximidade, de confiança, propiciando um melhor
conhecimento das possíveis dificuldades de aprendizagem dos alunos e intervindo no sentido
de prevenir ou minimizar possíveis dificuldades de aprendizagem. Nesta tese, Peres (2007)
aborda a concepção de prevenção, de prevenção psicopedagógica e algumas possibilidades de
intervenção institucional preventiva.
Portanto, diante das pesquisas que investigaram a Psicopedagogia escolar pode-se
delinear a trajetória percorrida para garantir a presença do psicopedagogo no espaço escolar
para que através de saberes próprios da área, integrados as áreas afins, possam atuar na
prevenção e na intervenção apropriada a fim de entender e minimizar os problemas de
3817
aprendizagem. Para tanto, porém, é necessário que se lute pela implantação de fato, do que já
está estabelecido em lei.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Tendo em vista os artigos consultados nesta pesquisa bibliográfica vemos que há
consenso sobre o campo de conhecimento da Psicopedagogia. Psicopedagogia relaciona-se
com a maneira como as pessoas aprendem e reporta-se à educação escolar e aos processos de
ensino aprendizagem. Procura entender principalmente como se dá esse processo nos alunos
que apresentam uma maneira diferenciada de aprender e que, nem sempre acertadamente, são
chamadas de dificuldades. Só isso basta para que tais alunos apresentem uma baixa em seu alto
estima e conseqüentemente em seu desempenho.
Ficou claro nesta pesquisa, que o aluno não pode ser o único responsável pelas
dificuldades; as causas devem ser procuradas também num sistema escolar excludente; na
formação precária dos professores e nas causas de risco social.
Para a recuperação desses
alunos e a superação das dificuldades a psicopedagogia necessita integrar-se com os saberes de
outras áreas de conhecimento como a psicologia, a neurologia, a psicolingüística, a psiquiatria,
a fonoaudiologia e outros.
Cremos que, atualmente, a psicopedagogia começa a escrever uma nova página na sua
trajetória histórica, pois a necessidade de inserção de um psicopedagogo nas escolas se faz
cada vez mais necessária frente aos problemas da educação. Por meio de uma ação consciente
e compromissada o psicopedagogo não deve tão somente atuar junto aos alunos, mas também
junto ao quadro de profissionais da educação para um repensar das práticas pedagógicas diante
das dificuldades de aprendizagem, bem como junto às famílias para que assim se possa reverter
o quadro de fracasso escolar brasileiro.
REFERÊNCIAS
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