ECONOMIA AGRÁRIA Sinopse das aulas Versão Provisória O sector agrícola Estruturas, recursos e resultados económicos: alguns conceitos 1 O complexo agro-florestal O conjunto formado pelas actividades económicas de produção e transformação de produtos agrícolas e florestais é designado por Complexo Agro-florestal (CAF). Complexo Agro-florestal O CAF integra quatro sectores de actividade económica: Agricultura Silvicultura Indústrias Agro-Alimentares(IAA) Indústrias Florestais (IF) 2 O CAF na Economia O peso de cada um dos sectores no CAF é medido através de dois indicadores: % do Valor Acrescentado Bruto a preços de mercado; % do Emprego Total Ramos das Contas Económicas que integram o CAF Agricultura: Ramo 1-Agricultura e Caça; Silvicultura: Ramo 2- Silvicultura e Explorações Florestais; 3 Ramos das Contas Económicas que integram o CAF Indústrias Agro-Alimentares: Ramo 17-Abate e conservas de carne Ramo 18- Lactícinios Ramo 20- Óleos e gorduras alimentares Ramo 21- Produtos de cereais e leguminosas Ramo 22- Outros produtos alimentares Ramo 23- Bebidas O complexo agro-florestal em Portugal “ O conjunto das actividades que constituem o CAF tem vindo a perder importância na economia portuguesa, tanto na contribuição para o produto como para o emprego. Este facto é comum a todos os países desenvolvidos. “ In Panorama da Agricultura Portuguesa-2000 ( Ver Estatísticas Europeias) 4 O CAF na economia Portuguesa “ A tendência temporal decrescente observada deve-se sobretudo às componentes Agricultura e Silvicultura, actividades que têm vindo a perder peso no Produto e no Emprego de modo mais acentuado do que as Indústrias agroalimentares e as Indústrias Florestais.” In Panorama VAB pm Agrícola no VAB pm da Economia 1990 1995 1996 1997 1998 1999 2000 Preços Constantes de 1990 5.9 5.2 5.9 5.8 4.7 6.0 5.4 Preços Correntes 5.9 3.5 3.6 3.0 2.7 3.2 2.8 5 É a agricultura uma actividade de regiões atrasadas? O peso da Agricultura nas diferentes regiões NUTS III variava entre 0.2% na Grande Lisboa e 16.1% no Vale do Tejo. Indicadores económicos Medir a actividade económica do sector 6 Valorização do Produto Preços correntes: preços médios praticados em cada ano; Preços constantes: preços de um ano tomado como base para a análise das evoluções em volume; Preços base: preço no produtor+ subsídios ligados à produção-impostos sobre a produção excepto IVA e impostos sobre importação Valorização do produto Os preços correntes podem ser: Nominais: valores em cada ano; Reais: valores deflacionados pelo indíce geral de preços; 7 Revisão da teoria dos indíces Índice de Laspeyres; Índice de Paasche; Outros Indicadores do peso da agricultura na economia VAL a preços no produtor em % do PIB; População Activa Agrícola em % da População activa Total 8 Cálculo da Produção do Ramo Agrícola Produção Vegetal a preços do produtor +Subsídios aos Produtos Vegetais líquidos de impostos +Produção Animal a preços do produtor +Subsídios aos Produtos Animais líquidos de impostos = Produção de Bens Agrícolas a preços base + Produção de Serviços Agrícolas + Produção de actividades não separáveis da agricultura = Produção do Ramo Agrícola a preços base Cálculo do Valor Acrescentado Líquido Produção do Ramo Agrícola….1,264,829 - Consumos Intermédios………...583,960 = Valor Acrescentado Bruto……..680,869 - Consumo de Capital Fixo……...146,319 = Valor Acrescentado Líquido…...534,550 9 Cálculo do Rendimento Empresarial Líquido Valor Acrescentado Líquido….......534,550 + Outros Subsídios à Produção……29,863 - Outros Impostos à Produção……….2,648 = Remuneração dos factores……..561,765 - Remuneração dos assalariados...112,213 - Juros Pagos…………………………40,631 - Rendas Pagas………………………12,384 = Rendimento Empresarial Líquido.396,537 VAL a custo de factores O rendimento dos factores corresponde ao Valor Acrescentado Líquido a custo de factores. 10 Indicadores de rendimento agrícola Rendimento dos factores por Unidade de trabalho ano(UTA) agrícola Rendimento Empresarial Líquido a preços reais por UTA não assalariado Rendimento Empresarial Líquido a preços reais Indicadores de produtividade Produtividade do Trabalho : VAB/UTA Produtividade da Terra: VAB/SAU 11 Indicadores Estruturais Superfície Agrícola Média: SAU/Exploração Emprego Agrícola Médio: UTA/Exploração SAU/UTA Conceito de Unidade Trabalho Ano Define-se como a actividade de uma pessoa ocupada com trabalhos agrícolas a tempo completo (8 horas/dia) durante a totalidade dos dias úteis do ano (275 dias/ano), o que significa que 1 UTA=2200 horas/ano. 12 Estruturas do sector agrícola Produção agrícola Estruturas da produção agrícola Os elementos que constituem a Estrutura Agrária de uma região ou país correspondem ao conjunto das características sócioestruturais e técnico-económicas das empresas agrícolas que nela se localizam. 13 Estruturas da produção agrícola Empresa agrícola: uma unidade técnicoeconómica no âmbito da qual se procede à aplicação de recursos factores de produção) sob a direcção de um único centro de decisão (empresário) e orientada para o desenvolvimento de actividades agrícolas e rurais ( turismo rural, artesanato, aluguer de equipamento, transformação de produtos). Estruturas da produção Exploração Agrícola: é uma unidade técnico económica que utiliza mão de obra e factores de produção próprios e que deve satisfazer as quatro condições seguintes Produzir um ou mais produtos agrícolas; Atingir uma certa dimensão mínima; Estar sujeita a gestão única; Localização determinada e identificável. 14 Tipos de exploração agrícola Explorações agrícolas de tipo familiar: têm como objectivo a manutenção e mehoria das condições de vida do agregado familiar, cujos membros asseguram o seu normal funcionamento; Explorações agrícolas de tipo empresarial: têm como objectivo prioritário assegurar lucro máximo. Natureza jurídica das explorações agrícolas Explorações de produtores singulares Sociedade de agricultura de grupo, por quotas, anónimas; Baldios(terrenos possuídos e geridos por uma comunidade local); Empresas públicas 15 Formas de exploração Conta própria: Terra é propriedade do produtor agrícola; Arrendamento fixo Arrendamento de campanha; Arrendamento de parceria; Outras formas Dimensão económica das explorações A dimensão das explorações pode ser calculada em termos físicos ou económicos; A dimensão económica de cada exploração é dada pela soma das Margens Brutas Padrão das suas produções/culturas, sendo expresas em unidades de dimensão económica(UDE cujo valor unotário é de 1200 Euros. 16 Conceito de Margem Bruta Padrão A margem bruta padrão de cada produção ou cultura obtém-se pela diferença entre os respectivos valores de produção e os custos específicos. Dispersão das explorações agrícolas A dispersão resulta das explorações não funcionarem como um corpo único estando divididas em blocos, parcelas de terra pertencentes à exploração que se encontram separadas umas das outras por obstáculos físicos naturais ou artificiais. É usualmente caracterizada pelas seguintes variáveis: nº de blocos, área dos blocos, distância ao assento de lavoura, acesso dos blocos. 17 Orientação técnico-económica das explorações A classificação em orientações técnicoeconómicas depende das Margens Brutas Padrão das diferentes produções agrícolas. O enquadramento numa OTE presupôe que existem produções dominantes, com mais de 75% da MBP total. Trabalho O trabalho desenvolvido nas explorações é classificado como proveniente da mão de obra familiar e da mão de obra assalariada. 18 População agrícola familiar A população agrícola familiar abrange todas as pessoas que residem na exploração e/ou fazem parte do agregado familiar do produtor. O critério principal é a residência na exploração incluindo todos os membros do agregado quer trabalhem ou não na exploração Inclui ainda outros membros da família do produtor que participem regularmente nos trabalhos agrícolas da exploração. Mão de obra assalariada Dirigente da exploração Assalariados permanentes Assalariados eventuais 19 Problemas de medição da mão de obra agrícola Face à diversidade dos conceitos e à dificuldade de comparar estas variáveis com o trabalho, mão de obra, de outros sectores económicos adoptou-se o conceito de Unidade de Trabalho Ano ( UTA) que é equivalente a 2200/horas de trabalho permitindo converter a mão de obra familiar e assalariada numa variável estandardizada. Terra Superfície agrícola utilizada Matos e florestas sem culturas sob-coberto Superfície agrícola não utilizada Outras superfícies ( área social, áreas improdutivas) 20 Capital Capital fundiário: terras e águas naturais mais benfeitorias; Capital da exploração: capital fixo vivo, capital fixo inanimado, capital circulante Capital fundiário Corresponde à propriedade rústica constituída por um ou mais prédios rústicos, englobando a terra e tudo o que nela se encontra incorporado com características de permanência, dele não se podendo separar sem afectar a actividade produtiva da exploração. 21 Síntese dos elementos que descrevem a estrutura agrária em Portugal Continental 382 mil explorações 3,736,140 Ha de S.A.U. 1,927,165 Ha de Superfície Florestal 1,746,853 Ha de Terras aráveis 1,284,056 Ha de Prados e Pastagens Permanentes 705,232 Ha de Culturas Permanentes Estrutura Agrária Portugal Continental 22 População e mão de obra agrícolas 1,123,418 pessoas vivem em explorações agrícolas 945,754 são mão de obra familiar 56,726 são mão de obra não familiar UTA familiares: 408,197 UTA não familiares: 93,142 Exploração Média Agrícola 9,8 Ha de S.A.U. 1,3 UTA 1560 contos de MBP 23 Distribuição à volta da média 80% das explorações encontram-se abaixo da média; 0.18% das explorações encontram-se na média; 1.5% das explorações (5736 expl.) detêm 54% da S.A.U. 7% das explorações com maior dimensão económica geram 60% da Margem Bruta Caracterização das explorações agrícolas “ Para caracterizar as explorações agrícolas portuguesas é necessário efectuar partições sobre o tecido agrícola pois a descrição do conjunto através da utilização de instrumentos clássicos de estatística descritiva conduz a visões parciais e redutoras, nomeadamente situações médias inexistentes ou muito pouco frequentes. ….. Nas partições a efectuar sobre o tecido agrícola dever-se-á ter em conta as diversas funções da agricultura portuguesa, que podem ser classificadas em três vectores principais: no primeiro a produção de bens alimentares e outras matérias-primas; no segundo , a gestão e o ordenamento do território, a preservação do ambiente e da paisagem; no terceiro, a promoção do emprego e a distribuição do rendimento, contribuindo para a coesão social.” In Panorama pp. 27-28 24 A diversidade do território Características físicas: Precipitação, que varia desde menos de 400 ml até mais de 2000 ml anuais; Insolação, que varia desde menos de 2000 horas até mais de 3000 horas médias anuais; Altimetria, que varia de menos de 100 m até mais de 1400 m Água e Fertilidade do solo Água e Fertilidade são dois dos principais factores diferenciadores pela sua influência directa na produtividade da terra; Dois indicadores desses factores são: Peso da SAL irrigada; Peso da Sal mais extensiva. 25 Utilização da Terra Arável 386,667 Ha de culturas forrageiras 216,873 Ha de trigo 154,582 Ha de milho 211,280 Ha de outros cereais 562, 646 Ha de Pousio Culturas Permanentes 335,082 Ha de olival 116,428 Ha de Vinha vqprd 95, 393 Ha de outros vinhos 52,342 Ha de Frutos Frescos 22,428 Ha de citrinos 80,821 Ha de Frutos Secos 26 Efectivo Animal 872,144 CN de Bovinos 579,978 CN de Suínos 478,407 CN de Aves 291,772 CN de Ovinos Produtividade da Terra por Região Produtividade da Terra por Região em contos/Ha EDM BL TM BI RO ALT ALG Total MP 364 258 120 103 231 48 142 157 P 431 389 145 91 374 52 249 166 M 449 536 190 71 466 43 378 141 G 481 1258 269 64 396 58 602 145 27 Total Family Labour Force 1000 Persons EU (15 countries) Belgium 1990 1993 1995 1997 2000 : : 14258.87 13708.53 12218.60 2003 : 133.9 123.16 112.69 105.58 95.01 86.08 72.9 Denmark 119.48 114.75 103.24 92.6 84.27 Germany 1372.14 1269.22 1147.07 1038.15 940.81 : Estonia : : : : : 78 Greece 1537.83 1767.32 1557.46 1587.42 1420.79 : Spain 2707.35 2429.99 2384.79 2328.35 2253.71 2128.58 France 1691.44 1442.97 1337.34 1228.27 857.62 812.82 Ireland 299.29 305.02 277.89 268 243.6 234.37 5197.21 4689.55 4695.58 4534.5 3888.22 3601.39 Latvia : : : : 254 231.66 Lithuania : : : : : 512.14 8.73 7.27 6.64 6.14 5.84 5.11 : : : : : 1357.01 Italy Luxembourg Hungary Malta : : : : : 17.32 238.34 228.37 212.76 214.54 193.82 175.3 : : 525.67 491.8 507.4 : Portugal 1474.56 1197.91 1110.98 1009.99 1002.61 : Slovenia : : : : 255.16 207.74 Slovakia : : : : : 171.27 Finland : : 229.42 220.97 164.61 159.41 Sweden : : 134.98 143.26 132.82 119.48 461.18 462.4 422.37 438.96 427.47 499.1 : : : : 169.6 : Netherlands Austria United Kingdom Norway O problema agrícola Visão tradicional 28 A visão tradicional do problema agrícola George Brandow(1977) identifica a essência do problema agrícola de “ rendimentos anormalmente baixos” como o resultado de baixos preços dos produtos agrícolas. Um problema adicional seria a diminuição do número de explorações agrícolas; Tweeten(1971) identifica o baixo rendimento como um sintoma com duas origens: um rendimento líquido demasiado baixo para suportar as despesas familiares e uma baixa taxa de rentabilidade (retorno) dos factores de produção; A visão tradicional do problema agrícola Brandow e Tweeten identificam um outro problema que denominam de variabilidade ou instabilidade dos preços e rendimentos agrícolas; Schultz(1945) sintetiza a sua visão do problema agrícola como abrangendo o baixo rendimento dos agricultores e a grande instabilidade do rendimento derivado da actividade agrícola 29 A visão tradicional do problema agrícola A percepção prevalecente do problema agrícola no pós-guerra coincide com a visão de Schultz de baixos e instáveis rendimentos originados pela estrutura económica particular do sector agrícola. O modelo do problema agrícola Os economistas agrícolas dos anos 40 e 50 do sec.XX explicavam o problema agrícola como o resultado dum modelo simples de oferta e procura. 30 As características básicas do modelo Procura muito inelástica; Oferta muito inelástica; A procura aumenta muito lentamente com o tempo; A oferta aumenta mais rapidamente com o tempo. As características básicas do modelo O modelo requere uma taxa de progresso técnico suficiente para causar um aumento da oferta superior à procura; Choques externos no curto prazo que causem grandes flutuações de preços. 31 Revisão de conceitos A elasticidade preço da procura é a variação percentual da quantidade procurada dividida pela variação percentual do preço; A elasticidade rendimento da procura é a variação percentual da quantidade procurada dividida pela variação percentual do rendimento Determinantes da elasticidade preço da procura Necessidades versus supérfluos; Disponibilidade de substitutos; Definição do mercado ver exemplo do mercado de bens alimentares e do mercado do sorvete de baunilha; Horizonte temporal ver exemplo do mercado da gasolina. Ver Mankiw Capítulo 5 pp91-113; 32 Revisão de conceitos Elasticidade preço da oferta é igual à variação percentual da quantidade oferecida dividida pela variação percentual do preço; Grande elasticidade preço da oferta para valores superiores a 1; Pequena elasticidade preço da oferta para valores inferiores a 1; Exemplos: mercado de trigo Ver Mankiw pp 105-107; Elasticidade zero curva de oferta vertical; Elasticidade infinita curva de oferta horizontal Elasticidade um curva de oferta na recta dos 45º; Curva da oferta abaixo da linha dos 45º elasticidade superior a 1; Curva da oferta acima da linha dos 45º elasticidade inferior a 1. 33 Verificação empírica do modelo A ineslasticidade procura preço e oferta preço foi confirmada para um grande número de produtos agrícolas; As discussões de Brandow, Schultz, Hathaway, Tweeten e outros como Willard Cochrane(1958) são dirigidas ao sector, logo as funções de oferta e procura são agregadas; Pesquisa da oferta e procura agregada, discutida por Gale Johnson(1950) e Cochrane(1958) confirmam que os valores das elasticidades são próximas de zero no curto prazo Limitações do modelo O modelo agrícola de oferta e procura é incompleto tanto do ponto de vista micro económico como por ser um modelo parcial da economia; Um modelo de equilibrio geral incorporando outros factores e mercados seria necessário para situar o sector agrícola na economia; Houthakker(1967) e Simon(1947) desenvolvem um modelo para dois sectores: agricultura e outras actividades. 34 Modelos do sector agrícola Equilíbrio geral e mercados de factores O modelo de equilíbrio geral Embora mais complexo este modelo mantém a relação entre produtividade agrícola e o problema agrícola; Como diz Houthakker: “ Quanto maior for o aumento da produtividade agrícola maior o desequilíbrio entre oferta e procura agrícola que tem de ser corrigido pela saída de mão de obra agrícola e baixos preços. Se a saída de mão de obra agrícola não for suficientemente rápida, um aumento da produtividade causa a baixa dos preços agrícolas e baixos rendimentos.” 35 Introdução do comércio internacional Segundo Gale Johnson(1973) e Edward Schuh(1974) tem-se negligenciado o comércio internacional na discussão do problema agrícola nomeadamente: Que o baixo crescimento da procura doméstica pode ser equilibrado pelo crescimento da procura externa; A procura inelástica de produtos agrícolas é irrelevante numa economia aberta. Consequências dum modelo com economia aberta As dúvidas sobre a relevância da inelasticidade procura teve consequências na análise do problema; Uma elasticidade maior implica que uma política de controlo da oferta para sustentar o rendimento agricola é menos eficaz do que o sugerido no caso anterior; A visão de que a perda de mercados é razão suficiente para evitar grandes programas de controlo da oferta vulgarizou-se. 36 Síntese O modelo de oferta e procura agrícola integrou com sucesso a teoria e a verificação empírica estabelecendo como plausível que a ineslasticidade da oferta e da procura agrícolas causam instabilidade nos preços; Contudo a relação com o baixo nível de rendimento não foi fortemente consubstanciada. A investigação empírica (econométrica) NÃO estabeleceu uma ligação entre a tendência nos preços agrícolas e a tendência para a redução do rendimento agrícola. Os modelos de equilíbrio geral sugerem que a explicação deve ser procurada nos mercados de factores e não nos mercados de produtos. Mercados de factores e o problema agrícola Segundo Johnson(1958) o problema agrícola é o resultado do excedente de mão de obra com um rendimento abaixo do que poderia ganhar noutros sectores da economia. Tweeten(1971) sublinha que o capital fundiário em média é remunerado abaixo do seu custo de oportunidade. 37 Inovação e procura de factores Schultz(1953) e Zvi Griliches(1958) estudaram a taxa de retorno do investimento em inovação. É consensual que tem sido alta, acima da taxa média de retorno do investimento na economia dos USA (Evenson and Kislev1975;Peterson and Hayami 1977). As estimativas da produtividade total dos factores aponta para um crescimento anual de 1.5% nos últimos 40 anos. Produtividade Total dos Factores É calculada como o rácio dum índice do produto agrícola dividido pelo índice agregado da terra, trabalho e bens de capital; Inovação tecnológica desta dimensão teria de ter efeito na procura de factores; Ruttan e Stout(1960), Binswanger(1974), Antle(1986), Hufman e Evenson (1989) verificam que a mudança tecnológica tem poupado trabalho. 38 Estudos de inovação tecnológica As séries de trabalho, terra e construções, maquinaria, adubos e pesticidas publicadas pelo USDA a partir de 1910 mostram uma tendência para uma grande redução na utilização de mão de obra paralela à redução no número de agricultores; Huffman e Evenson(1989) verificam que a despesa privada e pública em inovação tem um enviesamento para tecnologias que poupam trabalho e usam mais adubos. Desequilíbrio no mercado de trabalho Porque razão agricultores e trabalhadores rurais se mostram incapazes de ajustar o seu comportamento por forma a terem rendimentos ao mesmo nível dos outros sectores apesar do tempo de adaptação ser longo? 39 Visão neo-clássica O desequilíbrio é um fenómeno de curto prazo atribuível aos custos de ajustamento; As diferenças de rendimento de longo prazo têm origem em preferências pela actividade agricola, diferenças de formação, de idade, de medição ou devido à não comparabilidade de rurais e não rurais ( Johnson,1963). Extensão da visão neoclássica Enfatiza a rigidez e irreversibilidade do investimento no sector agrícola; A ênfase na rigidez foi desenvolvida por Johnson: “ A função oferta de bens de capital tem uma elasticidade preço para movimentos de redução de preços muito pequena porque a quantidade de activos existentes em qualquer momento poderiam ter um retorno maior noutras aplicações.” 40 O novo problema agrícola Multifuncionalidade e externalidades da actividade agrícola O novo problema agrícola Tradicionalmente as políticas agrícolas tentam atingir objectivos relacionados com o rendimento agrícola, preços agrícolas e comércio( Gardner,1990; Johnson,1991). As externalidades de actividades agrícolas, embora influenciadas pela escala, a localização e os métodos de produção agrícolas eram uma preocupação secundária. No fim do Sec. XX uma alteração nas prioridades começa a ser evidente na maioria dos países. A política agrícola preocupa-se cada vez mais em encorajar e apoiar a oferta de externalidades agrícolas positivas e reduzir as negativas (Ervin e Graffy,1996; Poe,1997). 41 Agricultura e multifuncionalidade Esta nova vertente do problema agrícola é muitas vezes identificada como a multifuncionalidade da agricultura, um termo introduzido na discussão sobre política de comércio agrícola nos anos 90 tendo como base a ideia de a agricultura para além de produzir produtos alimentares e fibras também produz by-products (Bohman et al,1999) Funções da agricultura A função primária da actividade agrícola é a produção de alimentos, fibras, peles, madeiras etc. A produção de by-products não alimentares pode ser enquadrada nas seguintes categorias: bens ambientais, segurança alimentar, desenvolvimento rural, bens sociais (Bohman et al., 1999) 42 Produtos não alimentares Bens ambientais positivos: paisagens humanizadas, protecção de bacias hidrográficas, controle de cheias, recarga de aquíferos, conservação do solo, biodiversidade, habitats selvagens; Bens ambientais negativos: Odores, nutrientes runoff, erosão do solo, perca de biodiversidade, destruição de habitats; Desenvolvimento rural: comunidades rurais viáveis, emprego rural; Social: estilos de vida tradicionais, património cultural, pequenas explorações familiares; Segurança alimentar e bem estar animal Externalidades na agricultura Na literatura sobre poluição ambiental, os lixos são geralmente referidos como resíduos uma terminologia adoptada também aqui. Os resíduos não mereceriam a nossa atenção se fossem bio degradáveis e não tóxicos podendo ser depositados em aterros controlados. A degradação ambiental como problema económico é uma falha do sistema de mercado que não consegue afectar de uma forma eficiente os recursos disponíveis à produção de bens e serviços e à protecção dos serviços prestados pelo ambiente. 43 Externalidades na produção agrícola O modelo de decisão do produtor Especificidades da poluição agrícola Em comparação com as outras actividades económicas as fontes de poluição agrícola representam um problema mais complexo por serem fontes de poluição não localizadas ( non-point sources). Os fluxos de poluentes de origem agrícola com origem não localizada não podem ser medidos com precisão por um custo razoável sendo portanto inerentemente fenómenos estocásticos. 44 O modelo de afectação de recursos incorporando o ambiente O sector agrícola usa o ambiente como um factor de produção e nesse processo gera custos sociais. Estes custos não são suportados directamente pela agricultura, que ignora os efeitos da poluição ou da disposição de resíduos, gerando assim equilíbrios de mercado que não eficientes do ponto de vista social. Custos externos Um custo externo também é referido como uma externalidade negativa e uma deseconomia externa. Se considerar-mos uma situação em que um agente económico gera uma utilidade positiva a uma terceira parte teremos um benefício externo ou externalidade positiva 45 Custos externos Existem quando se verificam as seguintes condições: A actividade de um agente económico causa uma perda de bem estar a outro agente; A perda de bem estar não é compensada. Se a perda de utilidade ou bem estar é compensada pelo agente que causa a externalidade, o efeito é internalizado. Nível óptimo de custos externos 46 Poluição da água por fontes agrícolas Muitas das avaliações ambientais identificam os efluentes agrícolas como a maior causa dos problemas de qualidade das águas superficiais nos países desenvolvidos. Os efluentes dos terrenos agrícolas transportam adubos, pesticidas, estrume animal, sais e agentes patogénicos para cursos de água, lagos, estuários e águas costeiras. Segundo a OCDE(1986,1989) as mudanças estruturais na agricultura aumentaram os impactos negativos da produção vegetal e animal na qualidade da água. Poluição da água A dificuldade de alargar os mecanismos de controle da poluição às fontes difusas limita a potencial melhoria da qualidade ambiental e aumenta os custos da protecção ambiental dificultando uma afectação eficiente de meios de controle entre fontes difusas e localizadas. Embora o conhecimento do nível de contaminação dos aquíferos seja limitado, a contaminação por nitratos e pesticidas levou a WHO e a EU a estabelecer standards de controle (50mg/l). A criação de amplas margens de segurança nos standards de qualidade e a incerteza sobre os prováveis efeitos na saúde humana não permitem quantificar as ameaças à saúde humana (Bogárdi e Kuzelka,1991). Os custos económicos da poluição de aquíferos incluem reduções na produtividade da pesca industrial e de recreio, custos acrescidos no tratamento de água para consumo humano e industrial, custos de doença por contaminação de aquíferos, e impactos negativos no funcionamento e na diversidade biológica dos eco sistemas. 47 Poluição do ar A agricultura é uma fonte de vários poluentes do ar. A volatilização de várias formas de nitratos como a amónia, nitrous oxide, nitrous dioxide contribuem para a acidificação da atmosfera e para a chuva ácida. A agricultura contribui também com cerca de um quinto das emissões totais de gases com efeito de estufa. A conversão de florestas tropicais em terra agrícola contribui para aumentar a libertação de carbono. Metano de origem animal e dos arrozais pode ser uma fonte significativa de gases de estufa. Políticas agrícolas para a poluição da água e ar A concepção e desenho de politicas eficazes de controlo da poluição do ar e da água pela agricultura é, segundo Shortle e Antler1997, um desafio difícil. As soluções económicas standard para controlar as externalidades negativas envolvem instrumentos de controlo de emissões como impostos ou taxas e quotas de emissões. As formas de poluição difusa e o elevado numero de fontes agrícolas tornam difícil e mesmo inviável aplicação do controlo das emissões agrícolas ao nível da exploração agrícola. EM alternativa temos os mecanismos de adesão voluntária, a regulação da oferta de factores de produção potencialmente poluentes 48 Regulação e controlo na exploração agrícola Introdução à análise custo benefício Benefícios e custos sociais e privados 49 Políticas de Preços e de Rendimentos Análise das políticas agrícolas Objectivos Analisar os mecanismos de política agrícola: Primeiro classificar os instrumentos de acordo com o tipo de variáveis económicas que utilizam Segundo analisar os efeitos dos diferentes mecanismos da política agrícola Terceiro comparar os méritos dos diferentes mecanismos de acordo com a sua eficácia em atingir os objectivos da política agricola. 50 Objectivos de política agrícola “ Aumentar o rendimento e melhorar o nível de vida da população agrícola é um objectivo tão generalizado que deve ser considerado o objectivo central das políticas agrícolas” OECDE Política Agrícola Comum Artº 39, Tratado de Roma,1958: Aumentar a produtividade agrícola através do progresso tecnico e do desenvolvimento racional da produção agricola e da utilização óptima dos factores de produção, em particular do trabalho. Assegurar um justo nível de vida à população agrícola, em particular aumentando o rendimento individual das pessoas trabalhando na agricultura Estabilizar os mercados. Garantir o abastecimento regular do mercado Assegurar preços razoáveis ao consumidor. 51 Lei de Bases Agrícola Lei de Orientação Agrícola 52 Política de apoio ao rendimento Os motivos para apoiar o rendimento agrícola radicam na visão apresentada no paradigma tradicional do problema agrícola. Verificando que o rendimento médio da população agrícola é inferior ao rendimento médio nacional é razoável definir como objectivo da política agrícola o apoio ao rendimento agrícola. 53 Avaliação da política de apoio ao rendimento Se o objectivo central da política de apoio ao rendimento é a redistribuição do rendimento em benefício da população agrícola. Este objectivo deve ser acompanhado com o requerimento de que essa transferência se faça de grupos com rendimento elevado para grupos com rendimento baixo. A avaliação da politica deverá ter em consideração os métodos de financiamento, o montante da transferência e a distribuição desses apoios. Políticas de aumento da rentabilidade agrícola Investimento governamental dirigido ás áreas rurais. Apoio ao desenvolvimento de actividades não agrícolas nas explorações e no meio rural. Apoio directo ao rendimento. Seguros agrícolas. 54 Investimento estrutural nas áreas rurais Infra-estruturas rurais: água, electricidade e caminhos; Serviços sociais: saúde ,educação e habitação; Transportes rurais. Desenvolvimento rural de actividades não agrícolas Agricultura em part-time; Turismo rural; Energias renováveis: energia do vento, mini hídricas e solar. 55 Apoio directo ao rendimento Os apoios directos ao rendimento tem uma menor probabilidade de entrarem em conflito com os outros objectivos da política agrícola. A Comissão da EU apresentou propostas de reforma com este objectivo em 1973 que foram refutadas com o argumento de que aumentaria a despesa publica e travaria o ajustamento estrutural necessário ao sector. Seguros agrícolas Seguros de colheita: compensam os agricultores das perdas associadas a um mau ano agrícola ou uma baixa produção. Seguros do rendimento do agricultor: estes programas são alternativas aos programas de suporte de preços. O rendimento bruto garantido deve ser baseado numa percentagem do rendimento médio dos últimos anos. Seguros de catástrofe ou de intempérie. 56 Cronologia da PAC 1958- Tratado de Roma, Artº 39 1959- Conferência de Stressa. Desenvolve os princípios e os mecanismos que levam à realização dos objectivos definidos no artº 39 1962- Criação da 1ª organização comum de mercado Cronologia da PAC 1972- Aprovadas as 3 Directivas que constituem o início da política sócio estrutural 1975- Aprovada a Directiva que cria as indemnizações compensatórias 1977- Aprovado o Reg. Relativo ao financiamento dos investimentos na transformação e comercialização 57 Cronologia da PAC 1984- Cimeira de Fontainebleau, criação do regime de quotas leiteiras e dos planos integrados mediterrânicos; 1988- Criada a linha directriz agricola que limita o crescimento da despesa agricola a 74% da taxa de crescimento anual do PIB; 1992- Cimeira de Edinburgo, a linha directriz passa a englobar as ajudas directas ao rendimento e as medidas de acompanhamento Cronologia PAC 2000- Cimeira de Berlim 58 Políticas de apoio ao rendimento Deficiency payments: pagamentos compensatórios directos Preços garantia: apoio aos preços de mercado Determinação dos preços garantia Determinação por fórmulas: De indexação a uma referência; % dos preços de mercado dos últimos anos; Que ajustam os preços a variações dos custos de produção. Exemplo: preços de paridade nos USA indexam os preços agrícolas à variação de preços dum cabaz de produtos que os agricultores compram procurando manter o seu poder de compra. 59