Anais do 2º Congresso Brasileiro de Extensão Universitária
Belo Horizonte – 12 a 15 de setembro de 2004
Atividades da Biblioteca na Educação Especial
Área Temática de Educação
Resumo
Este artigo destaca a importância da biblioteca na Educação Especial. Relata projetos de
extensão desenvolvidos visando à leitura para portadores de necessidades especiais, bem
como, as atividades de organização de uma biblioteca voltada à educação especial Destaca o
envolvimento dos alunos do Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal de Santa
Catarina nas atividades dos projetos. Demonstra que a educação especial é um campo de
atuação para o bibliotecário que, além de gestor, é um educador e poderá estar contribuindo
ao desenvolvimento deste público, em especial.
Autoras
Araci Isaltina de Andrade Hillesheim, Mestre em Educação
Gleisy Regina Bories Fachin, Mestre em Engenharia da Produção
Maria Margarete Sell da Mata, Mestre em História
Instituição
Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
Palavras-chave: leitura; portadores de necessidades especiais; biblioteca especial; educação
especial
Introdução e objetivo
O tripé ensino-pesquisa-extensão tem sido uma prática constante entre os professores
do Departamento de Ciência da Informação (CIN), da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC), o que garante experiências e atividades voltadas à comunidade. Estas atividades são
desenvolvidas através de projetos de extensão e, desde 1995, o CIN, envolve-se com
atividades de incentivo à leitura e de organização de materiais bibliográficos, em bibliotecas
diversas, procurando voltar-se ao ensino fundamental.
Com estes projetos de extensão, o CIN oportuniza a abertura de bolsas de estágios aos
estudantes do Curso de Biblioteconomia da UFSC, colocando-os em atividades práticas na
comunidade, promovendo o ensino-aprendizadem dos mesmos e o seu contato com o mercado
de trabalho e as necessidades das comunidades.
Assim, desde o primeiro semestre de 2002, o CIN, através das autoras deste artigo,
vem executando um projeto de organização e um outro de atividades de leitura para
portadores de necessidades especiais, junto a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais
(APAE) de Florianópolis/SC. Acredita-se que a sociedade, de uma maneira geral, precisa
considerar que as pessoas antes de serem portadores de necessidades especiais são seres
humanos capazes e dotados de inúmeras possibilidades as quais, quando estimuladas,
permite-lhes uma vivência integrada no dia a dia da comunidade em que estão inseridos.
Com a finalidade de colaborar na estimulação, no desenvolvimento e na alfabetização
dos portadores de necessidades especiais da APAE/Florianópolis/SC é que se desenvolve os
projetos, sendo um com o objetivo de organizar a biblioteca e disponibilizar o acervo a toda a
comunidade; o outro, com o objetivo de desenvolver atividades de leitura para estimulação
dos portadores de necessidades especiais, envolvendo bolsistas do curso de Biblioteconomia
da UFSC. Em ambos projetos, as atividades são integradas, como: a) tratar o acervo existente
e disponibilizá-lo aos usuários; b) realizar a hora do conto nas turmas de alunos com
necessidades especiais, envolvendo atividades pedagógicas junto aos professores; c)
demonstrar aos professores e demais profissionais os serviços de uma biblioteca escolar para
portadores de necessidades especiais; d) demonstrar o papel da biblioteca e, por conseguinte,
do profissional bibliotecário junto às instituições de educação especial; f) diversificar os
meios de leitura, utilizando jogos, sucatas e dramatização, visando a conscientizar os
profissionais que atuam junto às pessoas portadoras de necessidades especiais do seu papel no
desenvolvimento e estimulação da linguagem expressiva e compreensiva dos portadores de
necessidades especiais.
Baseando-se nestes objetivos, apresentam-se a seguir as metas utilizadas, os resultados
alcançados, as considerações e as referências utilizadas.
Metodologia
As pessoas que trabalham com Educação Especial precisam estar preparadas e ter a
sua disposição material adequado e atualizado com ênfase nas atividades educacionais a
serem desenvolvidas com os portadores de necessidades especiais. Utilizam livros, recursos
audiovisuais, reálias, instrumentos, enfim tudo que for importante para que haja experiências
reais e proveitosas no envolvimento dos alunos no processo de desenvolvimento e
aprendizagem.
Nesta perspectiva, a direção da APAE de Florianópolis e do Instituto buscam adquirir,
arrecadar e ofertar a sua comunidade uma biblioteca com um acervo mais especializado sobre
o tema Educação Especial, além de disponibilizar outros tipos de materiais, em especial os
mais estimulantes, como: brinquedos pedagógicos, livros infantis, CD ROMs, fitas de vídeo,
entre outros.
Pois, o alunado da Educação Especial é constituído por educandos que requerem
recursos pedagógicos e metodologias educacionais específicas. Genericamente conhecidos
como portadores de necessidades especiais, estas pessoas (ou crianças), segundo Carvalho
(1994), de modo geral classificam-se em: portadores de deficiências (visual, auditiva, mental,
física e múltipla), portadores de condutas típicas (problemas de conduta decorrentes de
síndromes de quadros psicológicos e neurológicos que acarretam atrasos no desenvolvimento
e prejuízos no relacionamento social) e os de altas habilidades (com notável desempenho e
elevada potencialidade em aspectos acadêmicos, intelectuais, psicomotores e/ou artísticos).
Baseando-se nesta realidade, a Educação Especial tem um papel de fundamental
importância para o combate da discriminação e a inserção das pessoas portadoras de
necessidades especiais no mercado de trabalho. É necessário salientar que a complexidade
desta tarefa significa o rompimento do paradigma existente na sociedade de que estas pessoas
são incapazes de participar do processo produtivo em igualdade de condições com os demais
trabalhadores. Desta forma, a inserção das pessoas portadoras de deficiência no mercado de
trabalho representa, de forma inequívoca, o resgate da cidadania dessas pessoas, colocando-as
como atores e não mais como meros e passivos espectadores, na construção material e política
do Brasil. (MANUAL 2001).
E, neste campo, reencontra-se a importância da biblioteca e, conseqüentemente, dos
bibliotecários voltarem-se às atividades em bibliotecas de Educação Especial.
E, com este pensamento e o intuito de organizar e disponibilizar o acervo existente na
APAE/Florianópolis/SC, através do projeto de extensão e em parceria com outros setores da
UFSC, como o Núcleo de Processamentos de Dados (NPD), desenvolveu-se uma base de
dados,
utilizando
o
software
Lotus
Notes,
com
acesso
via
Internet
(http://notes.ufsc.br/aplic/cinapae.nsf). Utilizam-se as ferramentas de tratamento do material,
como: o Código de Catalogação Anglo-Americano (AACR2); a Classificação Decimal de
Dewey (CDD); a Tabela de Cutter Samborn; cabeçalhos controlados de autoridade e de
assunto, baseados no Bibliodata e na Biblioteca Nacional.
A interação entre pessoas e setores que o desenvolvimento destes projetos provoca,
pode ser comprovada no processamento técnico do acervo da Biblioteca da
APAE/Florianópolis/SC, que se conta com o apoio de alunos matriculados em disciplinas
práticas, ministradas pelas professoras, por bolsa de estágio, cedidas pela Coordenadoria de
Estágio do CIN e pelo Departamento de Apoio à Extensão (DAEx) da UFSC, principalmente
com relação ao projeto de incentivo as atividades de leitura.
O público alvo atendido pelos projetos na APAE/Florianópolis/SC é em torno de 350
educandos especiais, divididos nas seguintes categorias: a) atraso no desenvolvimento
neuropsicomotor; b) deficiência mental associada ou não a outras deficiências e c) transtorno
invasivo do desenvolvimento (autistas, entre outros). Estes educandos estão distribuídos em
Centros de Atendimento específicos, como: Centro de Educação Infantil (0 a 06 anos); Centro
de Ensino Fundamental (07 a 14 anos); e Centro de Educação e Trabalho (acima de 14 anos).
Desta maneira, as atividades desenvolvidas visando à organização de todo o acervo e
as atividades de leitura, de forma paralela, nos dois projetos são:
Projeto de organização do Acervo da Biblioteca da APAE/Florianópolis/SC
Busca de acervo na instituição para o preparo técnico no Laboratório de Tratamento da
Informação (LTI) do CIN, pelas professoras;
Processo técnico no LTI, pelos alunos, bolsistas, monitores;
Conferência das professoras;
Alimentação da base;
Preparo para empréstimo;
Retorno para instituição;
Organização das estantes realizada pelos bolsistas;
Atendimento aos usuários pelos bolsistas.
Projeto de incentivo a leitura para alunos da APAE/Florianópolis/SC
Alocação de bolsa de estágio pelo DAEx, e seleção de bolsistas interessados;
Apresentação na instituição, adaptação e interação com a comunidade local;
Conhecimento das turmas e interação com professores e alunos;
Planejamento das atividades juntamente com professores e orientadores pedagógicos;
Pesquisa, recuperação, estudo e organização de cada uma das atividades, analisando
junto com os professores o que é melhor para cada turma;
Desenvolvimento das atividades que envolvem: leituras, marionetes, fantoches,
desenhos, cartazes, tanto em ambiente interno (biblioteca, sala de aula), como externo
(parque, quadra, outros);
Atendimento aos usuários na biblioteca.
Relato das atividades.
Com a execução das atividades de extensão na APAE/Florianópolis/SC, os bolsistas e
professores da UFSC integrantes do projeto perceberam que era essencial e urgente a
aquisição de novos acervos atualizados e inovadores para dar continuidade as atividades de
extensão na referida instituição.
Em julho de 2003, o Ministério da Educação lançou o Edital PROEXT 2003/SESuMEC e vislumbrando a melhoria do material disponível na Instituição encaminhou-se,
juntamente com o DAEx/UFSC um projeto com o objetivo de ampliar e renovar o material
lúdico-pedagógico da biblioteca da APAE/Florianópolis/SC, para a execução de atividades de
leitura, visando a alfabetização e a estimulação da linguagem expressiva e compreensiva,
permitindo a socialização dos portadores de necessidades especiais. O projeto foi
encaminhado e teve sua aprovação, recebendo apoio financeiro, o qual esta sendo revertido
em acervo lúdico-pedagógico para a APAE/Florianópolis/SC.
Resultados e discussão
A diversificação das atividades e das expectativas permite a pessoa portadora de
necessidades especiais trabalhar dentro de suas possibilidades, de acordo com os seus
objetivos e ao mesmo tempo estimulando a troca de experiências e de realizações, tornandoos pessoas mais felizes.
Em relação à leitura para portadores de necessidades especiais, Silva e Fachin (2002,
p. 154) afirmam que “verifica-se que a leitura para alunos portadores de deficiência com
necessidades especiais favorece aos alunos um maior desenvolvimento crítico e intelecto, bem
como estimula o seu imaginário, permitindo que algumas barreiras e conceitos sobre a pessoa
portadora de deficiência com necessidades especiais sejam quebradas.”
Esta citação reforça a importância deste projeto para os educandos da
APAE/Florianópolis/SC, que, por possuírem necessidades especiais, precisam de
atendimentos específicos, planejados e elaborados atentamente direcionados a cada turma, as
quais podem ser exploradas através da leitura.
No decorrer do desenvolvimento dos projetos, percebeu-se a aceitação da biblioteca e
das atividades nela realizadas por toda a comunidade da APAE/Florianópolis/SC. A procura é
diária e a biblioteca passou a ser um ponto referencial aos alunos, professores, funcionários e
pais que buscam recursos literários e lúdico-pedagógicos.
As pessoas portadoras de necessidades especiais, em muitos casos têm uma
capacidade maior de resposta do que o esperado, surpreendendo os profissionais que
trabalham com elas pela sua dedicação, interesse e seu desenvolvimento cognitivo.
Com atividades de leitura é possível extrair dos alunos sentimentos reprimidos,
apaziguar emoções e colocar o portador de necessidades especiais em contato com o mundo
dos livros, dos sonhos, do imaginário e, também, ter uma maior interação com o meio em que
vive.
Vivemos em um país onde o livro ainda é um símbolo quase que sagrado, reservado a
estar nas estantes, sem ser manuseado, de custo caro e inacessível à maioria dos brasileiros.
Ler é um privilégio de alguns. Como ressaltam Silva e Vizin (2001, p. 8) “não se trata de
colocar apenas em destaque a condição marginal das pessoas com ‘deficiências’, mas de
escancarar a cruel realidade à qual milhões de brasileiros são expostos, no que se refere à
importância do papel da leitura no processo de desenvolvimento do pensamento, já que esta
leitura não se delimita ao espaço fixo e imutável dos objetos, mas ao descortinar, ao apropriarse da multissignificação desta realidade que se faz na práxis social”.
Ainda como destacam as autoras, a contradição fica mais explicita quando se analisa o
segmento das pessoas com necessidades especiais. O que lêem estas pessoas? Qual o valor
que se dá à leitura dessas pessoas, suas opiniões, críticas e sugestões? No universo social
brasileiro, marcado pelas injustiças sociais e pelo preconceito, ser um leitor é um privilégio,
um leitor especial é ser quase um super-herói. (SILVA, VIZIN, 2001)
Neste contexto, acreditamos que nas práticas de leituras, as pessoas com necessidades
especiais vivem uma verdadeira exclusão, onde o bibliotecário pode estar atuando para a
melhoria na qualidade de vida das pessoas portadoras de necessidades especiais.
É importante destacar que o desenvolvimento destes projetos, envolvendo os
acadêmicos com a abertura das bolsas de extensão, com atividades práticas em laboratório
possibilitam a integralização de seus currículos, as experiências em locais reais e o vivenciar
do dia a dia de bibliotecas em campo prático o que lhes oportuniza a interdisciplinariedade e
um retorno crítico em sua participação em sala de aula.
Também através dos projetos de extensão na APAE/Florianópolis/SC, percebemos a
importância da biblioteca e do bibliotecário na colaboração para o planejamento e
desenvolvimento das atividades lúdico-pedagógicas, executadas para a estimulação dos
portadores de necessidades especiais.
Conclusões
Como os objetivos principais dos projetos são o de organizar o acervo de uma
biblioteca voltada à educação Especial e demonstrar a importância do papel da leitura para
estimulação dos portadores de necessidades especiais, pode-se concluir que os objetivos
foram alcançados.
No decorrer do desenvolvimento dos projetos até o momento, percebeu-se a aceitação
da biblioteca e das atividades nela realizadas por toda a comunidade da
APAE/Florianópolis/SC, principalmente pela alegria dos alunos, quando se menciona a
palavra “biblioteca”, esta reação é a que mais encanta os bolsistas, professores e demais
envolvidos.
A procura é diária e a biblioteca passou a ser um ponto referencial aos alunos,
professores, funcionários e pais que buscam recursos literários e lúdico-pedagógicos.
Também, através destes projetos na APAE/Florianópolis/SC, percebe-se a importância
da biblioteca e do bibliotecário na colaboração para o planejamento e desenvolvimento das
atividades lúdico-pedagógicas executadas para a estimulação dos portadores de necessidades
especiais.
Como resultados mais concretos, percebeu-se a evolução de alguns alunos, como:
expectativas do horário de ir a biblioteca; receptividade com as bolsistas, tratando-as pelo
nome; o querer ler e gesticular; o recontar das histórias pelos alunos, utilizando fantoches e
desenhos; o relato das professoras quanto à melhoria da relação entre os alunos e sua
compreensão quanto aos conteúdos tratados; o comentário dos alunos em casa, referentes às
atividades da biblioteca, levando os pais a participarem mais da associação e visitar a
biblioteca. Alguns alunos já identificam o dia em que será realizada a leitura em sua classe, e
despertou-se ainda o interesse dos alunos pela biblioteca, uma vez que se realizou diversas
vezes a leitura na própria biblioteca e ela conta no seu acervo com muitos brinquedos.
É importante enfatizar que, no decorrer destes projetos, a biblioteca da escola esta
sendo organizada e houve um crescimento substancial na procura de material por parte dos
profissionais que atuam na instituição. E o acervo já não conta apenas com livros, mas
também cds, fita de vídeo, brinquedos, fantoches, entre outros. O que foi acrescido pelo
projeto obtido junto ao MEC.
Durante a execução das atividades, está sendo possível proporcionar aos participantes
dos projetos (alunos, professores da escola, juntamente com os alunos e professores do Curso
de Biblioteconomia da UFSC) a oportunidade de desenvolver experiências referentes à leitura
para pessoas portadoras de necessidades especiais através de atividades pedagógicas,
integrando teoria e prática.
Deste modo, esta atividade representa aos acadêmicos do curso de Biblioteconomia, a
abertura de um campo de trabalho ainda não tão explorado por bibliotecários e, também,
esquecido pela sociedade, que é a biblioteca escolar e, de modo especial, a biblioteca escolar
voltada à Educação Especial.
O descaso com a educação acompanha este processo intensificando os problemas de
acesso à cultura no Brasil, e a inserção dos portadores de necessidades especiais na sociedade.
Ficou visível a interação entre alunos da escola, equipe interdisciplinar de
profissionais, juntamente com os alunos e professores do Curso de Biblioteconomia da UFSC.
Houve um reconhecimento do papel da biblioteca e, por conseguinte, do profissional
bibliotecário junto às instituições de educação especial. Isto fica comprovado pelo fato de os
professores que atuam no período vespertino terem solicitado que o projeto de leitura fosse
desenvolvido para as turmas deste período, uma vez que o projeto é desenvolvido somente no
período matutino.
Ler para os alunos portadores de deficiência com necessidades especiais tornou-se
gratificante à medida que o interesse pela leitura por parte dos alunos foi crescendo tornandose um hábito. Desta forma, espera-se ter contribuído para o crescimento e desenvolvimento
das pessoas portadoras de necessidades especiais, visando que as mesmas tenham uma vida
mais feliz.
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