Universidade do Estado do Rio de Janeiro Centro de Educação e Humanidades Faculdade de Educação Annie Gomes Redig Ressignificando a Educação Especial no contexto da Educação Inclusiva: a visão de professores especialistas Rio de Janeiro, 2010. Annie Gomes Redig Ressignificando a Educação Especial no contexto da Educação Inclusiva: a visão de professores especialistas Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Educação. Orientadora: Profª. Drª. Rosana Glat Rio de Janeiro 2010. 1 CATALOGAÇÃO NA FONTE UERJ / REDE SIRIUS / BIBLIOTECA CEH/A R317 Redig, Annie Gomes Ressignificando a educação especial no contexto da educação inclusiva: a visão de professores especialistas/ Annie Gomes Redig - 2010. 183f. Orientadora: Rosana Glat. Dissertação (Mestrado) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Faculdade de Educação. 1. Educação especial - Teses. 2. Educação inclusiva – Teses. 3. Incapacidade intelectual – Teses. 4. Professores de crianças deficientes – Formação – Teses. I. Glat, Rosana. II. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Faculdade de Educação. III. Título. CDU 376.4 Autorizo, apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta tese. ___________________________________________ Assinatura _______________ Data 2 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE EDUCAÇÃO E HUMANIDADES FACULDADE DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO CURSO DE MESTRADO Título da dissertação: Ressignificando a Educação Especial no contexto da Educação Inclusiva: a visão de professores especialistas Elaborada por: Annie Gomes Redig Aprovada pela Banca Examinadora Rio de Janeiro, 4 de fevereiro de 2010. ___________________________________________________________________________ Profª. Drª. Rosana Glat (UERJ) Orientadora ___________________________________________________________________________ Profª. Drª. Edicléa Mascarenhas Fernandes (UERJ) ___________________________________________________________________________ Profª. Drª. Silvia Márcia Ferreira Meletti (UEL) 3 À medida que o homem mais conhece e mais se instrui, mais complexo se torna o seu ambiente, de mais incertezas se semeia a sua vida, e mais difícil se torna viver em segurança e harmonia. Anísio Teixeira. 4 Dedico essa dissertação à minha mãe, Eliete (in memorian), uma sobrevivente que nunca desistiu e sempre foi e é a pessoa que mais me incentiva na realização dos meus sonhos. Com ela aprendi o verdadeiro sentido da palavra AMOR. 5 Agradecimentos E screver os agradecimentos, ao mesmo tempo, que é um alívio, se torna complicado dizer “obrigada” a todas as pessoas que me ajudaram nessa caminhada cheia de angústias, dúvidas e alegrias. É um momento repleto de ansiedade, pois não quero esquecer ninguém, mas sei que não há espaço suficiente para agradecer todos, então, os que não tiverem o nome contemplado, não se sintam injustiçados ou esquecidos, visto que, estão no meu coração. Primeiramente, quero agradecer a Deus, que sem a minha fé e sua bênção, não estaria aqui, compartilhando esse momento de realização e satisfação. Ao meu pai, Henrison Redig, que apesar dos obstáculos, sempre me apoiou, mesmo que em silêncio. Ajudou-me a estar aqui e a sonhar com novos desafios. A minha mãe, Eliete Redig (in memorian), que me ensinou o valor da vida e aproveitar cada momento. Ensinou-me também, a lutar pela vida, sendo uma guerreira, com amor, dedicação, humildade e força para vencer os obstáculos encontrados, sempre com esperança e fé. Ao Julio Cesar, meu amigo e companheiro, pelo apoio, compreensão e o ombro, no qual chorei minhas angústias e fui acalmada e confortada. Pelas revisões ortográficas, carinho e motivação ao me ouvir contar sobre o meu trabalho, mesmo contra sua vontade. A professora Rosana Glat, que foi mais que orientadora, mas uma pessoa muito especial, que não só me acrescentou academicamente, como me ensinou a ser uma pessoa melhor. Aos momentos que foi amiga e psicóloga, com palavras confortantes e otimistas. Aos amigos de percurso, Thyene Bürkle, mais que uma companheira, mas uma cúmplice na caminhada. Daniele Pereira, Vitorino Ramos e Márcia Pletsch que me ajudaram com ótimas contribuições para a realização desse trabalho e possibilitaram a construção de uma base sólida de amizade. Ao grupo de pesquisa e em especial à Paloma, pela paciência nas transcrições das fitas. As meninas do NEEI, em particular à Caroline Albuquerque e Gabriela Feijó, por serem ótimas ouvintes das minhas dúvidas. A professora Edicléa Mascarenhas Fernandes, pelo incentivo e ensinamentos, não só acadêmicos, mas de vida. Pela amizade, que durante toda a minha trajetória foi mais que uma professora. Agradeço também pelo aceite em participar da minha banca. 6 A professora Silvia Melleti pelo aceite em participar da minha banca e a todos os demais professores que contribuíram para minha formação pessoal e acadêmica. Aos meus amigos e familiares por toda ajuda, paciência, compreensão e estímulo. Ao Drº. Mauro Zukin, pelo apoio e equilíbrio emocional para suportar os percalços dessa trajetória. As professoras entrevistadas que aceitaram o convite de participarem dessa pesquisa. E a todos que direta e indiretamente contribuíram para a realização deste trabalho. 7 RESUMO Esta pesquisa analisa as narrativas das professoras especialistas que atuam em classes especiais, salas de recursos e itinerância com alunos com deficiência intelectual. Seu objetivo principal foi o de discutir o papel da Educação Especial e suas modalidades de atendimento educacional especializado no contexto da Educação Inclusiva. Para tal foi utilizada uma metodologia de pesquisa qualitativa com entrevistas semi-estruturadas (MANZINI, 2008) sobre a formação e função das especialistas no contexto da Educação Inclusiva, bem como o processo de inclusão escolar dos alunos com deficiência intelectual. O estudo revelou que o serviço de atendimento especializado mais oferecido para essa clientela, na região pesquisada, é a classe especial. Todas as especialistas, independente da modalidade de sua atuação, acreditam que o aluno com deficiência intelectual precisa estar “preparado” para ser incluído em uma turma comum, sobretudo no que tange à alfabetização. As participantes apontam, também, a importância da formação continuada e / ou em serviço para o atendimento educacional especializado. Elas colocam a dificuldade de interação com os professores do ensino regular e realização de adaptações curriculares adequadas, em especial, no II Segmento do Ensino Fundamental e Médio. Entretanto, apesar de inúmeros obstáculos, a maioria das participantes concorda que a inclusão escolar dos alunos com deficiência intelectual no Município do Rio de Janeiro está acontecendo de forma satisfatória, embora não garanta ainda seu pleno desenvolvimento e aprendizagem. Palavras-chave: Educação Especial, Educação Inclusiva, Deficiência Intelectual, Professoras Especialistas. 8 ABSTRACT This research analyses narratives of specializes teachers who work in special classes, resource classes and itinerant service with intellectually disabled students. Its main objective was to discuss the role of Special Education and its special service modalities in the context of Inclusive Education. For its purpose it was utilized the qualitative research methodology, with semi-structured interviews (MANZINI, 2008) about formation and function of the specialists in the context of Inclusive Education, as well as about the process of school inclusion of intellectually disabled students. The study showed that the specialized service more frequently offered for this clientele, in the region researched, is the special class. All the specialists, regardless of the modality of their performance, believe that the intellectually disabled student needs to be “prepared” in order to be included in a regular class, particularly in regard to alphabetization. The participants also stressed the importance of continued formation and /or in service for the specialized educational work. They pointed out the difficulty in interaction with the regular class teachers, and the realization of adequate curriculum adaptation, specially at the middle school and high school levels. However, in spite of several obstacles, the majority of the participants agree that school inclusion of intellectually disabled students in the City of Rio de Janeiro is happening in an satisfactory way, but it still does not guarantee their whole development and learning. Key- words: Special Education, Inclusive Education, Intellectual Disability, Specialized Teachers 9 LISTA DE FIGURAS, TABELAS, MAPA E GRÁFICOS Figura I: Modelo de suportes da AAMR de 1992................................................................... 57 Figura II: Modelo teórico dos suportes da AAMR de 2002 .................................................. 60 Figura III: Modelo explicativa da zona de desenvolvimento proximal ............. 62 Tabela I: Tabela comparativa sobre os modelos de suportes da AAMR de 1992 e 2002....... 59 Tabela II: Tabela ilustrativa das escolas pesquisadas ............................................................ 75 Tabela III: Formação das professoras participantes .............................................................. 76 Tabela IV: Média de idade dos alunos com deficiência intelectual matriculados nas classes especiais ................................................................................................................ 93 Mapa I: Mapa das Coordenadorias Regionais de Educação do Rio de Janeiro e os bairros de abrangência ................................................................................................................ 72 Gráfico I: Alunos com necessidades educacionais especiais matriculados no Município do Rio de Janeiro ......................................................................................................... 73 Gráfico II: Alunos com deficiência intelectual atendidos nas modalidades de atendimento da Educação Especial ............................................................................................... 74 Gráfico III: Alunos com deficiência intelectual atendidos nas modalidades de atendimento da Educação Especial na 4ª CRE ............................................................................. 75 Gráfico IV: Formação das professoras especializadas ........................................................... 77 Gráfico V: Tempo de magistério das professoras entrevistadas ............................................ 79 Gráfico VI: Opinião das professoras sobre a Educação Inclusiva ......................................... 82 Gráfico VII:Opinião das professoras sobre a inclusão do aluno com deficiência intelectual 84 Gráfico VIII: Opinião das professoras sobre a atuação da Educação Especial no contexto da Educação Inclusiva .......................................................................................... 85 Gráfico IX: Dificuldades e desafios do processo de ensino-aprendizagem dos alunos com deficiência intelectual .......................................................................................... 90 Gráfico X: Opinião das professoras sobre a passagem do aluno com deficiência intelectual da classe especial para a comum ............................................................................. 102 Gráfico XI: Considerações das professoras ......................................................................... 142 10 LISTA DE ANEXOS Anexo I: Grade curricular das disciplinas obrigatórias do curso de Pedagogia da Universidade Federal do Rio de Janeiro .................................................................... 170 Anexo II: Grade curricular das disciplinas obrigatórias do curso de Pedagogia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro ........................................................... 171 Anexo III: Grade curricular das disciplinas obrigatórias do curso de Pedagogia da Universidade Federal Fluminense ............................................................................. 172 Anexo IV: Grade curricular das disciplinas obrigatórias do curso de Pedagogia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro .................................................... 173 Anexo V: Grade curricular das disciplinas obrigatórias do curso de Pedagogia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro ................................................................. 174 Anexo VI: Roteiro de perguntas para as professoras de classes especiais ........................... 176 Anexo VII: Roteiro de perguntas para as professoras da sala de recursos e itinerantes ....... 177 Anexo VIII: Autorização da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro ............ 178 Anexo IX: Carta de apresentação às escolas da 4ª CRE ....................................................... 179 Anexo X: Aprovação do Comitê de Ética da Sub-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa da UERJ ................................................................................................................. 180 Anexo XI: Termo de concessão dos professores .................................................................. 181 Anexo XII: Termo de consentimento livre e esclarecido dos professores ........................... 182 11 SUMÁRIO Resumo ...................................................................................................................................... 8 Abstract ..................................................................................................................................... 9 Lista de figuras, tabelas, mapa e gráficos............................................................................. 10 Lista de anexos ....................................................................................................................... 11 Introdução ............................................................................................................................... 14 PARTE I - EDUCAÇÃO ESPECIAL NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA: Políticas, formação de professores e deficiência intelectual ............................................. 19 Capítulo 1 – Reflexões sobre a Educação Especial e Educação Inclusiva no Brasil: um longo percurso........................................................................................................................ 20 1.1. Da segregação à Educação Inclusiva: percursos a trilhar .............................................. 20 1.2. Repensando a Educação Especial no contexto da Educação Inclusiva ......................... 29 Capítulo 2 – A FORMAÇÃO DE PROFESSORES NA ÁREA DE EDUCAÇÃO ESPECIAL: avanço ou retrocesso? ...................................................................................... 35 2.1. Formação de professores para a Educação Especial: um breve histórico...................... 35 2.2. Reflexões sobre a formação de professores especializados no contexto da Educação Inclusiva .............................................................................................................................. 41 Capítulo 3 – CONSIDERAÇÕES E REFLEXÕES ACERCA DA DEFICIÊNCIA INTELECTUAL ................................................................................................................... 49 3.1. Reflexões sobre o conceito de deficiência intelectual no século XX: a construção e a desconstrução de um pensamento .............................................................. 50 PARTE II – NARRATIVAS DAS PROFESSORAS ESPECIALISTAS: pesquisa de campo....................................................................................................................................... 65 12 Capítulo 4 – CAMINHOS METODOLÓGICOS: a trajetória percorrida ...................... 66 4.1. Pesquisa qualitativa com entrevistas semi-estruturadas: algumas considerações sobre o método ................................................................................................................................ 66 4.2. Procedimentos e participantes........................................................................................ 68 4.3. A Rede Pública de Ensino do Município do Rio de Janeiro.......................................... 72 Capítulo 5 – NARRATIVAS DAS PROFESSORAS ESPECIALISTAS: visão Geral ....................................................................................................................................... 81 5.1. Reflexões sobre a política da Educação Inclusiva através das narrativas das professoras especialistas ......................................................................................................................... 81 5.2. Reflexões sobre o diagnóstico e aprendizagem da pessoa com deficiência intelectual a partir da visão educacional das professoras especialistas.................................................... 86 Capítulo 6 – NARRATIVAS DAS PROFESSORAS ESPECIALISTAS: no interior das Classes Especiais .................................................................................................................... 92 6.1. Reflexões sobre as classes especiais pelo olhar das professoras especialistas ............... 92 Capítulo 7 – NARRATIVAS DAS PROFESSORAS ESPECIALISTAS: no interior das Salas de Recursos ................................................................................................................. 111 7.1. Reflexões sobre a sala de recursos pela ótica das professoras especialistas ................ 112 Capítulo 8 – NARRATIVAS DAS PROFESSORAS ESPECIALISTAS: o trabalho do itinerante ......................................................................................................................... 121 8.1. Reflexões sobre o trabalho do professor itinerante ...................................................... 122 8.2.Reflexões sobre o ensino itinerante no PEJA: o relato de uma professora especialista 136 Capítulo 9 – NARRATIVAS DAS PROFESSORAS ESPECIALISTAS: “eu gostaria de acrescentar...” ................................................................................................................. 142 9.1. Reflexões das professoras especialistas: narrativa final .............................................. 142 Considerações finais ............................................................................................................ 151 Bibliografia............................................................................................................................ 157 Anexos.................................................................................................................................... 170 13 Introdução Eu quase que nada sei, Mas desconfio de muita coisa. (ROSA, 1986). Qual o papel da Educação Especial no contexto da Educação Inclusiva? Como ressignificar a Educação Especial para se adequar a essa nova ótica da política educacional? Como está acontecendo a inclusão escolar de alunos com deficiência intelectual neste contexto? Estas foram uma das questões que suscitaram a presente pesquisa. Por meio de narrativas de professoras1 da Educação Especial, que atuam com alunos com deficiência intelectual, em classes especiais, salas de recursos e itinerância, pretendemos compreender a dinâmica atual dessas modalidades de atendimento em escolas da Rede Pública de Ensino do Município do Rio de Janeiro. Embora haja muitos estudos que relatam a visão de professores das classes regulares sobre a proposta da Educação Inclusiva, há poucos que se voltam à percepção de docentes da própria Educação Especial. Entre estes, destacam-se os de Müller & Glat (1999), Valladão (2001) e Glat (2008a). Müller & Glat (1999) investigaram histórias de vidas de professoras de classes especiais. Os dados desta pesquisa apontam para a importância de uma formação adequada para atender alunos com deficiências, principalmente a partir da política de integração/ inclusão destes alunos nas turmas comuns. Segundo as autoras “estudar a trajetória do professor e o conhecimento de sua realidade, possibilita não só o resgate de seu papel, mas também reitera as exigências sobre a sua atuação, a qual é fruto do tipo de formação e capacitação que ele vem recebendo” (MÜLLER & GLAT, 1999, p.79). As professoras da Educação Especial, nesse estudo (MÜLLER & GLAT, 1999), narram que apesar de todas as dificuldades que enfrentam, como o desgaste físico e a baixa remuneração, é gratificante trabalhar com alunos com deficiências, e reiteram a importância dos especialistas no processo de ensino-aprendizagem desses educandos. 1 Como a maioria dos professores da Educação Especial é composta por mulheres, incluindo todas as participantes da pesquisa, iremos utilizar o termo no feminino. 14 Esta pesquisa tem por objetivos refletir e discutir sobre a função e reestruturação dos serviços de atendimento da Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva, a partir de relatos de professoras especialistas, com foco no processo referente a alunos com deficiência intelectual. Optamos por privilegiar este alunado, uma vez que, como aponta Glat (2008b), estes alunos encontram muita resistência por parte dos professores para serem incluídos nas turmas comuns. Assim, por meio de entrevistas semi-estruturadas analisamos a visão das docentes da Educação Especial com relação à inclusão dos alunos com deficiência intelectual em classes comuns, bem como às práticas pedagógicas desenvolvidas nas classes especiais, salas de recursos e itinerância. Partindo dessa perspectiva, a presente pesquisa visa discutir a ressignificação da Educação Especial no contexto da Educação Inclusiva, por meio da visão de professores especialistas que trabalham com alunos com deficiência intelectual. Em outras palavras, almeja-se compreender a percepção dessas sobre o processo de inclusão de alunos com deficiência intelectual nas salas comuns, através do suporte da Educação Especial. Também foi foco de nosso interesse refletir sobre formação, conhecimento e experiência pedagógica destes profissionais especialistas para atuarem como suporte aos professores das classes comuns, nas modalidades de itinerância e salas de recursos. Somente através de uma parceria entre estes profissionais, acreditamos ser possível uma construção de mecanismos de apoio para os alunos com deficiência, como ressalta o Plano Nacional de Educação – PNE (BRASIL, 2001a). Nesse sentido justifica-se a realização da investigação, na medida em que, por meio da escuta dos professores especialistas que trabalham com alunos com deficiência intelectual, poderá delinear possíveis possibilidades da Educação Especial e sua ressignificação no contexto da Educação Inclusiva. Além de percebermos os entraves para o êxito desta proposta, promover novas reflexões sobre a Educação Especial / Educação Inclusiva e favorecer novas práticas pedagógicas e intervenções educacionais. Meu interesse pelo tema está vinculado às experiências vivenciadas na minha formação inicial no Curso de Graduação em Pedagogia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e no curso de Especialização em Orientação Educacional e Pedagógica na Universidade Candido Mendes. Essas foram enriquecidas com a minha participação em pesquisas desenvolvidas no Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação Especial e Inclusiva (NEEI – UERJ), coordenado pela Profª. Drª. Edicléa Mascarenhas Fernandes, e posteriormente, com o meu ingresso no Curso de Mestrado e inserção no grupo de pesquisa 15 Inclusão Escolar de Alunos com Necessidades Educacionais Especiais no Ensino Regular: Práticas Pedagógicas e Cultura Escolar, coordenador por minha orientadora, Profª Rosana Glat. Neste grupo tive oportunidade de participar do estudo A Educação Especial no contexto da Educação Inclusiva: diretrizes políticas e ações pedagógicas (GLAT, 2008a, 2008b). Durante este tempo em que tive a oportunidade de vivenciar várias situações discutidas nos grupos de pesquisas sobre a inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais2 na escola comum. No bojo dessas discussões surgiram questionamentos sobre a função da Educação Especial nessa nova perspectiva. A Educação Inclusiva torna irrelevante à Educação Especial? Como já comentado, poucas pesquisas abordam a visão das professoras da Educação Especial sobre este processo, bem como analisam sua formação para atuarem como suporte dos docentes das classes comuns. Todos os profissionais da Educação vêem esses especialistas como a “salvação” de suas salas de aula, mas será que estes “heróis” tem uma formação que lhes possibilite contribuir de fato com a proposta? Nas pesquisas em que participei durante minha Graduação no NEEI, onde fui bolsista3, pude acompanhar a inclusão de alunos com necessidades educacionais nas classes comuns, bem conhecer a formação de professores do Ensino Básico. Neste período também fui professora de Língua Inglesa para turmas da Educação Infantil e Séries Iniciais do Ensino Fundamental, em uma escola da rede privada. Esta era considerada “inclusiva”, por possuir alunos com Síndrome de Down e dificuldades de aprendizagem. Entretanto, não contava com a ajuda de um professor especialista, o que me fez sentir necessidade de uma formação em serviço, com a finalidade de me capacitar para a inclusão desses alunos. Em outro momento, estagiei como pedagoga em uma empresa pública, atuando na formação à distância de seus funcionários. Embora fosse um projeto concebido como Educação à Distância, na prática funcionava como presencial, pois era um espaço para os funcionários estudarem e tirarem dúvidas, as quais sempre se tornavam em aulas presenciais. Nesse local, lecionei para jovens e adultos, que possuíam formação do I Segmento do Ensino Fundamental, porém, por terem cursado há muitos anos, era como se não haviam feito e, muitos eu desconfiava, que nem haviam estudado até essa série, pois mal sabiam ler. Ou seja, 2 De acordo com Glat & Blanco (2007) alunos com necessidades educacionais especiais são aqueles que apresentam algum tipo de dificuldade de aprendizagem, precisando de diferentes metodologias e/ou suportes educacionais para aprenderem. Esse termo não é sinônimo de deficiência, porém, no âmbito desse trabalho, os serão considerados como alunos com necessidades educacionais especiais aqueles que apresentam uma deficiência física, mental e /ou sensorial, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades - alunado tradicionalmente atendido pela da Educação Especial 3 Entre 2004 a 2006 tive bolsa de estágio interno complementar, monitoria e iniciação à docência. 16 eram pessoas que embora sem um comprometimento orgânico, apresentavam dificuldades de aprendizagem, talvez adquiridas pela falta de escolarização e / ou causadas por problemas afetivos, entre outros. Sendo assim, pude perceber que as dificuldades que me deparei no processo de ensino-aprendizagem de alunos com necessidades educacionais especiais, também foram encontradas na educação de jovens e adultos, por isso, tive que buscar novas estratégias para alcançar um aprendizado significativo, que nesse caso, nem sempre era almejado pelos alunos, visto que, alguns queriam apenas o diploma para o aumento salarial. Quando me formei na Graduação, tornei-me orientadora pedagógica de uma escola privada, coordenando desde o 6º ano do Ensino Fundamental até o 2º ano do Ensino Médio. Nessa função, participei da formação de alunos, pais e professores, com palestras e discussões desenvolvidas na escola. Posteriormente, já no nível superior, como professora substituta dos cursos de Pedagogia e Licenciaturas da Faculdade de Educação da UERJ, ministrei as disciplinas Educação Inclusiva e Cotidiano Escolar e Práticas Pedagógicas em Educação Inclusiva. Nesta experiência tive contato com as angústias e dúvidas dos alunos com relação à inclusão de pessoas com necessidades educacionais especiais nas classes comuns. Esse conjunto de vivências contribuiu para minha formação e me instigou a um direcionamento nessa área de conhecimento, culminando na presente pesquisa. A dissertação está organizada em duas partes: a primeira dedica-se a análise teórica da bibliografia referente ao tema da Educação Especial e Inclusiva, bem como da inclusão do sujeito com deficiência intelectual e formação dos professores. Sendo dividido em três capítulos. O primeiro capítulo levanta uma discussão sobre o processo histórico da Educação Especial até o presente momento, enfatizando a atual política da Educação Inclusiva, a escolarização dos alunos com necessidades educacionais especiais e os serviços de atendimento especializado. Neste contexto, debate sobre a ressignificação da Educação Especial para fazer frente à proposta de Educação Inclusiva. O segundo capítulo apresenta uma reflexão sobre a formação do profissional da Educação Especial e os desafios colocados pela Educação Inclusiva, transformando a ação da Educação Especial do atendimento individualizado aos alunos com necessidades educacionais especiais, para atuação como suporte para os professores das turmas comuns. O terceiro capítulo faz um levantamento sobre a construção do conceito de deficiência intelectual ao longo dos anos, através da análise da concepção da Associação Americana de Retardo Mental. 17 A segunda parte da dissertação dedica-se à apresentação e análise da pesquisa de campo, e está dividida em seis capítulos. No quarto capítulo, descreve a pesquisa em si: sua concepção metodológica, cenário e participantes. O trabalho de campo constituiu-se em entrevistas semi-estruturadas com professoras da Educação Especial da Rede Pública do Município do Rio de Janeiro, que lecionam para alunos com deficiência intelectual, em classes especiais, salas de recursos e como itinerantes. Os seguintes cinco capítulos são voltados para a análise das entrevistas. O quinto trata das questões comuns a todos os professores entrevistados. O sexto refere-se às narrativas das professoras das classes especiais. O sétimo às narrativas das professoras das salas de recursos. O oitavo capítulo dispõe das narrativas das professoras itinerantes, sendo que uma delas atua no Programa de Educação de Jovens e Adultos, acompanhando um aluno com deficiência intelectual. O nono capítulo aborda as respostas das participantes a uma questão aberta: o que você gostaria de acrescentar?, permitindo uma fala mais espontânea e complementar. A dissertação é encerrada com as considerações finais que contemplam as principais conclusões e encaminhamentos da pesquisa. 18 PARTE I Educação Especial no contexto da Educação Inclusiva: políticas, formação de professores e deficiência intelectual 19 1 Reflexões sobre a Educação Especial e Educação Inclusiva no Brasil: um longo percurso A educação é [...] onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum (ARENDT, 1979, p.247). Nesse capítulo pretendemos discutir o processo histórico da Educação Especial até o atual momento em que a política oficial é a chamada Educação Inclusiva, bem como o papel da Educação Especial nessa nova realidade educacional no Brasil. Para tal, refletiremos sobre diferentes enfoques para o processo de escolarização das pessoas com necessidades educacionais especiais e os serviços de atendimento especializado. 1.1 Da Segregação à Educação Inclusiva: percursos a trilhar A educação4 é de extrema importância para a formação do homem. É por meio dela que o homem se constitui como cidadão e, é um dos caminhos para construirmos uma sociedade melhor, baseada em valores solidários e humanos. É por meio da educação que o homem será capaz de construir um futuro promissor, mas para isso, é preciso que essa seja de qualidade. Teixeira (2000, p.94, grifo do autor) afirma que “não existe sociedade. Existe um processo de sociedade. Não existe educação. Existe um processo de educação”. Para esse autor (TEIXEIRA, 2000, p.100, grifo nosso), a “educação é o permanente esforço de redireção da própria natureza. É a natureza na sua grande aventura de ordem, de utilidade e de beleza, em uma permanente reconstrução de si mesma. Educação é a natureza que se faz arte”. Pode-se considerar que a educação é a ação de reorganização e reconstrução da experiência; a qual se constitui em um processo individual. E é a inteligência, ou capacidade cognitiva do homem que o possibilita a observação e compreensão dos fatos, que, combinada com a sua história, suas experiências, resultará em novos conhecimentos. 4 O sentido de Educação para a formação humana, não se limita apenas à educação formal escolar, mas sim a todas as formas de educação, como por exemplo, em sociedades não letradas há a educação pela transmissão oral. 20 A educação se processa, com efeito, por meio de um ato consciente de readaptação, em que determinada experiência, percebida em suas conexões e relações, habilita o homem a aumentar o seu poder de governo e direção de outras experiências. Tal ato é eminentemente individual, em sua origem e em seu processo. Sucede mesmo que o indivíduo só é verdadeiramente individual quando, nessa reconstrução da experiência, obedece a métodos e planos que lhe são próprios. E sendo a educação o processo pelo qual o pensamento se efetiva e se incorpora à vida, a educação se torna também o processo pelo qual o homem se torna, verdadeiramente, um indivíduo (TEIXEIRA, 2000, p. 101-102, grifo do autor). Atualmente pode parecer óbvio afirmar que a pessoa com necessidades educacionais especiais tem direito à educação, porém historicamente esses sujeitos sempre foram vítimas de preconceitos, abandono e descaso por parte do Estado. Apesar da primeira Constituição brasileira, de 1824, alegar que a educação era um direito de todo cidadão5, independente de sua condição civil e política, isentava as pessoas com necessidades educacionais especiais das obrigações políticas (JANNUZZI, 2004). A primeira escola especial foi criada no Brasil em 1854, na época do Império, para pessoas com deficiência visual, conhecida hoje como Instituto Benjamim Constant. Tendo sido seguida, em 1857, pelo Instituto Nacional de Educação para Surdos, como atualmente é nomeado. Estas escolas surgiram com o intuito de educar e ensinar um ofício para as pessoas com deficiência. Essas instituições continuam sendo referências nacionais no ensino de pessoas com deficiência visual e auditiva, respectivamente. Até a década de 1970, a Educação Especial era primordialmente de encargo de profissionais da Saúde. Apesar das pessoas com necessidades educacionais especiais freqüentarem escolas especiais com o acompanhamento de professores, as práticas pedagógicas seguiam vertentes terapêuticas e clínicas (JANNUZZI, 2004, GLAT & FERNANDES, 2005). O deficiente não era visto como uma pessoa capaz de desenvolver-se social e academicamente. Foi a partir do ano de 1970, com a criação do Centro Nacional de Educação Especial (CENESP), um órgão que definia as metas governamentais para a Educação Especial, que a Educação Especial passou a ser preocupação dos sistemas públicos educacionais, e a pessoa com deficiência passou a ser percebida como um indivíduo capaz de aprender (GLAT & FERNANDES, 2005, GLAT & BLANCO, 2007). No final da década de 1970, as políticas educacionais começaram a seguir os modelos da Integração e Normalização. Esses são dois conceitos distintos, porém interligados; a Normalização é uma posição filosófica que defende proporcionar condições de vida o mais “normais” possíveis para as pessoas com deficiências. Já no campo educacional, o conceito de 5 Vale lembrar nesta época apenas os homens podiam ser considerados cidadãos. 21 Integração, propõe que “os alunos com necessidades especiais (geralmente oriundos do ensino especial) sejam integrados na sala regular, na medida em que demonstrem condições para acompanhar a turma, recebendo atendimento paralelo na sala de recursos” (GLAT & DUQUE, 2003, p.70, grifo dos autores). Para Glat & Fernandes (2005), o modelo da Integração tinha como ênfase proporcionar condições adequadas para o desenvolvimento e aprendizagem do aluno, focalizando em suas possibilidades e não mais na deficiência do sujeito. Entretanto, “apesar dos avanços, esse modelo não representou a garantia de ingresso de alunos com deficiência no sistema de ensino” (p.37). Isso ocorreu porque as práticas pedagógicas adotadas na Educação Especial ainda partiam da ênfase clínica e com currículos próprios. Além disso, as classes especiais passaram a ser espaços de segregação e “depósito” dos alunos que não se enquadravam no sistema de ensino das classes comuns; assim, as pessoas com deficiências mais acentuadas continuavam, em sua maioria, em instituições privadas. Foram, justamente, as dificuldades de implementação do modelo da Integração que levaram ao desenvolvimento da proposta da Educação Inclusiva. Segundo Rodrigues (2006, p.303) a Integração ainda manteve a dicotomia entre o ensino regular e o especial, no qual o aluno com deficiência tinha condições especiais para freqüentar a escola, como “aulas suplementares, apoio educativo, possibilidade de estender o plano escolar de um ano em vários, condições especiais de avaliação etc”. Esse mesmo autor coloca que na escola integrativa o aluno com necessidades educacionais especiais era sempre exigido de apresentar um comportamento e aproveitamento escolar satisfatório, caso contrário, voltaria ao ensino especial, ou seja, o seu pertencimento era condicional. A partir da década de 1990, o sistema educacional brasileiro vem sofrendo modificações crescentes na direção de oferecer uma Educação Inclusiva para todos os alunos — independentemente de sua condição social, econômica, cultural ou orgânica (deficiências, transtorno psiquiátricos e/ou de comportamento, altas habilidades e outros) — visando seu desenvolvimento social e acadêmico, em classes comuns do ensino regular. De acordo com Fernandes, Glat, Orrico, Redig & Feijó (2005, p.114): [...] A inclusão de pessoas com necessidades educativas especiais na sociedade, seja no ensino regular, no mercado de trabalho, no lazer, enfim, possui como objetivo a promoção de um cidadão com direitos e deveres igualmente aos demais indivíduos. Garantindo assim, o acesso e permanência destas pessoas no ensino regular com suportes adequados para o melhor desenvolvimento do processo de ensinoaprendizagem. 22 A proposta da Educação Inclusiva tem como princípio uma escola que deve se preparar para lidar com a diversidade do alunado, recebendo os que apresentam necessidades educacionais especiais em uma pedagogia centrada no estudante, com suportes adequados para que ele se desenvolva, em consonância com os preceitos da Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994)6. A política da Educação Inclusiva preconiza que esse alunado deve estudar em uma classe regular, que tenha uma estrutura adequada para que o seu processo de ensinoaprendizagem ocorra com êxito. Rodrigues (2006, p.303) alega que a política da Educação Inclusiva não é uma evolução da Integração, pois segundo ele: “a integração deixou intocáveis os valores menos inclusivos da escola”. E que a escola integrativa separava os alunos em “normais” e “deficientes”, no qual os “normais” tinham um currículo a ser trabalhado, mantendo os mesmos valores e práticas pedagógicas, enquanto que para os “deficientes” havia condições diferenciadas de apoio. Dessa forma, afirma que “a escola integrativa ‘via’ a diferença só quando ela assumia o caráter de uma deficiência, e neste aspecto encontrava-se bem longe de uma concepção inclusiva” (RODRIGUES, 2006, p. 304). Porém alguns professores ainda confundem o termo Integração com Inclusão, acreditando que são sinônimos, como mostram estudos de Oliveira (2007), Redig (2007), Redig & Souza (2008) entre outros. Segundo Glat e Fernandes (2005), o modelo da Integração ainda é o que prevalece na prática em nossos sistemas de ensino, apesar do discurso da Inclusão. A diferença principal é que no modelo da Integração a escola não se transforma e é o aluno quem tem que se adaptar, e na inclusão a escola precisa se adaptar às necessidades do aluno com deficiência, mas como as escolas mostram uma grande resistência para se modificarem, na prática ainda prevalece o modelo da Integração. De acordo com Stainback & Stainback (1999) os benefícios da Educação Inclusiva não são apenas para os alunos com necessidades educacionais especiais, mas para todos os envolvidos. Em suas palavras: “os alunos aprendem a ser sensíveis, a compreender, a respeitar e a crescer confortavelmente com as diferenças e as semelhanças individuais entre seus pares” (p.23). 6 A Declaração de Salamanca é um documento internacional, que teve grande repercussão no Brasil, no qual preconiza uma educação de qualidade para todas as pessoas, sejam com alguma deficiência ou não. Esse documento é uma referência para os pesquisadores da área de Educação Especial para a instituição da Educação Inclusiva. Essa declaração é resultante da Conferência Mundial sobre Necessidades Educacionais Especiais: Acesso e Acessibilidade, promovida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e pelo governo da Espanha em 1994, na qual havia mais de 300 participantes, sendo 92 representações governamentais e 25 organizações internacionais. 23 Para Teixeira (2000), a construção do conhecimento e a educação são processos individuais, ou seja, devemos respeitar o ritmo de aprendizado de cada educando. Esta concepção de ensino-aprendizagem vem de encontro com a política da Educação Inclusiva, a qual concebe que cada aluno tem seu tempo próprio e que atividades escolares devem ser desenvolvidas de forma que todos os alunos, inclusive, os com necessidades educacionais especiais, possam participar e aprender. Não há questionamentos sobre a relevância da proposta de inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais em classes comuns. Mas quando nos deparamos com a realidade das escolas, percebemos que, na maioria dos casos, a inclusão é mais física – o aluno está matriculado na turma – mas não está de fato incluído no processo de aprendizagem. Ou seja, como já discutimos anteriormente: a intenção é uma e a prática é outra (OMOTE, 2004). Segundo Oliveira & Leite (2007, p.516): Apesar das ações da SEESP [Secretaria de Educação Especial], no âmbito educacional, alguns dados têm demonstrado que as dificuldades não foram ainda superadas e há muito a ser feito para alcançarmos a transformação da escola em um espaço educacional acolhedor e aberto às diferenças. O que complica também esse quadro, para as autoras, é que o quantitativo de profissionais da Educação Especial – os especialistas – é, de modo geral, pouco para atender à demanda. Segundo Glat (2009a) mesmo em redes de ensino com tradição em Educação Especial, como a do Município do Rio de Janeiro7, não há profissionais especializados suficientes para dar suportes aos professores das classes comuns. Essa autora acredita que o fator principal que impede a transformação das políticas públicas em práticas cotidianas é exatamente por essa pouca disponibilidade de recursos humanos especializados. Fontes, Pletsch & Glat (2007, p.1) destacam, também, como barreiras para a efetivação da proposta de Educação Inclusiva nas escolas: (...) o número excessivo de alunos nas salas de aula, padrões rígidos e uniformes de avaliação, ausência de adaptações curriculares para atender os alunos com necessidades educacionais especiais, a precária acessibilidade física de muitas escolas, inadequação da formação de professores, bem como a freqüente descontinuidade de programas (mesmo quando bem sucedidos), em função de mudanças de Governo. 7 O órgão da Secretaria Municipal de Educação (SME / RJ), responsável pelas políticas e programas relacionadas aos alunos com necessidades educacionais especiais, é o Instituto Helena Antipoff, centro de referência nacional. 24 Segundo Anísio Teixeira (2000, p.116, grifo do autor) “a escola de hoje viu, de repente, as suas classes invadidas por todas as crianças, ao invés do pequeno punhado de favorecidos ou escolhidos, que outrora a freqüentava”. Apesar dessa afirmativa ter sido feita em outro contexto social e político8, essa situação de perplexidade do professorado ainda se aplica hoje, sobretudo com relação à política da Educação Inclusiva. Diversos autores, como Oliveira (2007), por exemplo, mostram em pesquisas com professores do ensino regular de que o aluno com necessidades educacionais especiais, em muitos casos, é considerado um problema para os educadores e para a escola. Para Dubet (2003) a escola reproduz as desigualdades sociais, porque está inserida em um contexto de conflitos sociais, no qual aparece como justa e neutra nesta arena de preconceitos. Esta instituição ao invés de romper com as representações sociais existentes na sociedade reforça a exclusão dos grupos desviantes, salientando os estigmas construídos socialmente. As bandeiras progressistas de educadores com perspectivas tão diferentes como Anísio Teixeira (1979) e Paulo Freire (1967), apontavam, desde os anos 50 e 60, a necessidade de se construir uma educação verdadeiramente democrática que, crescentemente, oferecesse condições qualificadas de acesso e permanência a todos os alunos, especialmente aqueles oriundos das camadas populares, vítimas de políticas educacionais elitistas e seletivas (BUENO, 2008, p.56). Bueno (2008, p.56) acredita que apesar da proposta da Educação Inclusiva aparentemente ter como base estes mesmos ideais, “isto é somente aparência, pois se o norte é a educação inclusiva como meta a ser alcançada, isto significa que a projeção política que se faz do futuro é de que continuarão a existir alunos excluídos, que deverão receber atenção especial para deixarem de sê-lo”. Nessa direção, ao invés de construirmos uma política realmente democrática, com uma escola de qualidade que incorpore verdadeiramente todas as pessoas, estamos colocando como meta o “inatingível” em uma sociedade excludente. De acordo com Rodrigues (2006, p.301-302, grifo nosso): O conceito de inclusão no âmbito específico da educação implica, antes de mais, rejeitar, por princípio, a exclusão (presencial ou acadêmica) de qualquer aluno da comunidade escolar. Para isso, a escola que pretende seguir uma política de educação inclusiva desenvolve políticas, culturas e práticas que valorizam a contribuição ativa de cada aluno para a formação de um conhecimento construído e 8 A primeira edição do livro “Pequena Introdução à Filosofia da Educação – a escola progressiva, ou, a transformação da escola”, foi no ano de 1932, passando a ter esse título apenas em 1967. Anísio Teixeira foi um educador que lutou por uma escola democrática e popular, no qual todos teriam acesso a ela. Então, quando esse autor alega que os professores resistiram à entrada de todos os alunos, ele está se referindo às classes menos privilegiadas economicamente. 25 partilhado – e, desta forma, atinge a qualidade acadêmica e sociocultural sem discriminação. As transformações na Educação Brasileira vêm acontecendo de forma significativa, por meio de alguns documentos nacionais como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBEN 9394/96 (BRASIL, 1996), que garantem a entrada e permanência deste alunado nas escolas regulares. As Diretrizes Nacionais para Educação Especial na Educação Básica - Resolução nº 2 (BRASIL, 2001b), oficializou legalmente os termos Educação Inclusiva e necessidades educacionais especiais, na política brasileira. Podemos perceber então, que a educação no Brasil, ganhou novas concepções de uma escola aberta à diversidade. Para Oliveira & Leite (2007, p.517): Entendemos, desse modo, que a Educação Inclusiva, deve basear-se no princípio da igualdade, em que respeitar a diferença não é se opor à igualdade e sim garantir direitos iguais para atender às necessidades específicas de cada um, considerando que todos são diferentes. Essa idéia é complementada pelo princípio da eqüidade que, por sua vez, postula o favorecimento de condições diferenciadas para suprir as desigualdades sociais, culturais e econômicas, daqueles que se encontram em situação de desvantagem. Essas autoras nos alertam que, ainda hoje, o princípio de igualdade, não garante o respeito às diferenças humanas, já que a escola continua com uma visão de que todos os alunos são iguais, aprendem com a mesma metodologia e no mesmo ritmo, de forma, homogênea. Senna (2007) toma a mesma posição ao afirmar que a escola não compreende o aluno como um indivíduo em formação, mas sim como um sujeito ideal, comparado ao cidadão estipulado pela sociedade, para o padrão de normalidade. Para Teixeira (2000) é importante que os alunos sejam reconhecidos como sujeitos individuais, pois cada um constrói o seu próprio conhecimento. Para trabalhar com alunos com necessidades educacionais especiais em turma comum o professor deve adaptar o processo de ensino-aprendizagem para que o educando seja capaz de participar das atividades e relacionar os conhecimentos aprendidos com o mundo, e buscando ao máximo desenvolver sua autonomia. Não se trata apenas reduzir o conteúdo, pois assim, ele estaria excluindo esse estudante de grande parte do processo de aprendizagem. Mas, para que isso aconteça é necessário que o professor se questione sobre o que ele quer 26 ensinar (currículo proposto pela escola) e que currículo (oculto)9 está sendo, de fato, transmitido para os alunos. A escola tem a missão de ensinar e integrar socialmente os alunos com necessidades educacionais especiais, porém os professores não estão conseguindo cumprir com estes objetivos e assim, voltam a se apoiar no modelo médico. Senna (2007, p.154) afirma que “educar e curar consagram-se como ações sinônimas na sociedade brasileira, compreendendose, então, a educação formal como a cura da debilidade social ou, indiferentemente, da debilidade mental”. Anísio Teixeira (2000), há várias décadas já se preocupava com a formação dos professores, a fim de que se tenha não só uma escola de qualidade, mas sim uma qualidade na educação. De acordo com Dourado (apud PLETSCH, 2009, p.21) qualidade na educação, não pode ser reduzido a rendimento escolar, nem tomado como referência para o estabelecimento de mero ranking entre as instituições de ensino. Assim, uma educação com qualidade social é caracterizada por um conjunto de fatores intra e extra escolares que se referem às condições de vida dos alunos e de suas famílias, ao seu contexto social, cultural e econômico e à própria escola – professores, diretores, projeto pedagógico, recursos, instalações, estrutura organizacional, ambiente escolar e relações intersubjetivas no cotidiano escolar. Neste sentido, Teixeira (2000, p.116-117) reconhece que preparar o professor para compreendê-los bem, e para os analisar, a fim de que acompanhe a evolução humana, não é tarefa simples, nem de fácil execução [...] dêem-lhe os elementos de cultura, de estudo e de recurso, e esses exércitos [professores] irão tentar a renovação da humanidade, a grande aventura de democracia, que ainda não foi tentada. Sabemos que será difícil alcançarmos uma sociedade totalmente democrática / inclusiva, pois sempre haverá um grupo de excluídos, marginalizados. Porém, acreditamos que um dos caminhos para tentarmos diminuir o vão existente entre estes grupos e para a construção de uma escola de qualidade para todos é através da capacitação dos professores. Considerando por esse prisma, os profissionais da Educação precisam ter uma formação continuada, a fim de receberem todos os educandos, pois não podem mais, como no 9 O currículo oculto, de acordo com Martins (2005, p.3-4), “nos leva a reproduzir, sem percebermos, teorias e práticas educacionais realizadas nas salas de aula que priorizam a reprodução dos interesses deste brutal sistema capitalista, fazendo a vontade dos que a querem reprodutora e esquecendo ou deixando em segundo plano os objetivos educacionais, descaracterizando, assim, a nossa postura como educadores. [...] O currículo oculto, com a sua força positiva de transmitir e reproduzir valores e crenças no processo de escolarização, pode estar contribuindo para que conteúdos transmitidos através de certas práticas pedagógicas em sala de aula não sejam analisadas nem questionadas, e que interesses políticos criem consistência, justapondo-se e direcionando a organização do conhecimento escolar”. 27 passado, “escolher” lecionar ou não para alunos com deficiência. Aliás, não só os professores precisam estar preparados, mas todos os funcionários da escola, mesmo os que já possuem uma qualificação: desde o diretor até o porteiro, pois este aluno é da escola e não do professor. A formação dos professores é uma das questões mais complexas para o sucesso da proposta da Educação Inclusiva, visto que, é um dos fatores fundamentais para a efetivação de uma educação de qualidade para todos os alunos. Para Senna (2007, p.165) “a perplexidade do professorado diante dos sujeitos da educação inclusiva reflete exatamente sua incapacidade de os enquadrar no perfil conceitual de aluno”. É necessário que na formação dos professores haja uma articulação entre Educação Especial e Ensino Regular, de forma, que os especialistas participem da capacitação dos professores das classes comuns, construindo novas possibilidades de práticas pedagógicas inclusivas (OLIVEIRA & LEITE, 2007). Essa proposta de parceria entre Educação Especial e Ensino Regular também é defendida por outros autores como Fernandes (2006), Mendes (2006, 2008), Glat & Blanco (2007), Fontes (2007), Pletsch, Redig & Bürkle (2008), Glat (2008b), Redig (2009) entre outros. A propagação da Educação Inclusiva trouxe em seu bojo um questionamento sobre a continuidade da Educação Especial, pelo menos na forma tradicional como esta área vem atuando. Certamente, há necessidade de reformulação do papel da Educação Especial sobre este novo palco educacional que vem se definindo. Entretanto, a importância da mesma não pode ser subestimada. Como discutido, para viabilizar este processo é essencial que os professores especialistas sirvam de suporte para os do ensino regular visto que estes não estão capacitados para receber esse alunado e se sentem despreparados para esta nova realidade. O despreparo dos docentes do ensino comum é apontado por diversos autores, entre eles: Glat & Nogueira (2002), Glat (2004a, 2008b), Souza (2005), Machado (2005), Lima (2006), Antunes (2007), Oliveira (2007), Fontes (2007) entre outros. De acordo com Bueno (1999) os professores do ensino regular (que ele denomina de “generalistas”) não possuem preparo para o recebimento de alunos com necessidades educacionais especiais. Mas, por outro lado, este autor também aponta que os professores da Educação Especial, de modo geral, não têm muito a contribuir com o trabalho pedagógico das classes comuns, uma vez que sua prática tem sido pautada na compensação da deficiência do aluno em situação específica de classes especiais, com sua dinâmica própria. Omote (2008) lembra que a proposta da Educação Inclusiva não implica em nenhuma idéia nova, mas sim em uma reconstrução de alguns valores, crenças e dogmas da Educação, 28 do processo de ensino-aprendizagem, do desenvolvimento, bem como uma reorganização das práticas pedagógicas. Para o sucesso dessa política, é importante que o ensino especializado tenha lugar no ensino inclusivo, mesmo parecendo um paradoxo, mas somente assim, conseguiremos um aprendizado significativo e eficaz dos alunos com necessidades educacionais especiais nas classes comuns. “Se, de fato, queremos construir a educação inclusiva, superando a barreira da retórica e da simulação, então é hora de fazermos a revisão de velhos dogmas, crenças e práticas, um grande mutirão para essa revisão” (OMOTE, 2008, p.31). 1.2 Repensando a Educação Especial no contexto da Educação Inclusiva Garantir o “e” aditivo da escola regular e especial é tarefa que se impõe através do diálogo, de ações conjuntas e do acompanhamento de registros e documentação nos diversos sistemas de ensino das soluções e estratégias criadas para a construção dos referenciais brasileiros de escolas e comunidades inclusivas (FERNANDES, 2006, p.232). De acordo com Pletsch et al (2008) Educação Especial no Brasil surgiu por volta de 1960, com a preocupação de garantir o atendimento terapêutico e educacional à pessoa com deficiência. Entretanto, como lembram Glat & Blanco (2007, p.15): A Educação Especial tradicionalmente se configurou como um sistema paralelo e segregado de ensino, voltado para o atendimento especializado de indivíduos com deficiências, distúrbios graves de aprendizagem e/ou de comportamento, altas habilidades ou superdotação. Foi caracterizando-se como serviço especializado por agrupar profissionais, técnicas, recursos e metodologias específicas para cada uma dessas áreas. Estes especialistas se responsabilizavam pelo ensino e aprendizagem dos alunos então chamados “especiais”, mesmo quando estes participavam de turmas comuns em escolas comuns. Com o atual cenário da Educação Inclusiva, a Educação Especial vem tendo que reestruturar o seu papel, antes voltado prioritariamente para a educação de pessoas com necessidades educacionais especiais, agora, reconfigurado para dar suporte e / ou apoio ao ensino regular (GLAT, FONTES & PLETSCH, 2006). Pletsch (2009) ressalta que a Educação Especial não deve ser apenas um reforço escolar / pedagógico, mas sim um trabalho realizado juntamente com o ensino comum, desenvolvendo métodos para um aprendizado significativo e com êxito. É fundamental para o sucesso da Educação Inclusiva que as escolas regulares tenham um serviço de suporte da Educação Especial, como as salas de recursos e / ou professores 29 itinerantes10. A sala de recursos é um espaço destinado aos alunos que apresentam alguma deficiência e que estão incluídos nas classes comuns, com o objetivo de aprofundar os conteúdos e desenvolver mecanismos para que eles aprendam, com o auxílio de recursos específicos que atendam as suas necessidades (PLETSCH et al, 2008). O professor itinerante, segundo Pletsch (2005), Pletsch et al (2008), Bürkle & Redig (2009) é um serviço desenvolvido por um especialista aos professores das classes comuns que possuem alunos com necessidades educacionais especiais e aos próprios educandos. Como já mencionado, o advento da Educação Inclusiva trouxe uma discussão sobre a relevância da Educação Especial. Lieberman (2003) coloca que há um grupo de educadores que defendem como estratégia política, a chamada inclusão total, que preconiza a descontinuidade dos serviços da Educação Especial, sobretudo escolas e classes especiais por os considerarem lócus de segregação. Rodrigues (2006) aponta em uma pesquisa que a Educação Regular é mais barata que a Educação Especial, por não ter uma série de serviços especializados, como fonoaudiologia, psicologia, terapia ocupacional entre outros. Pletsch (2009), baseada no relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico de 1994, afirma que a proposta da Educação Inclusiva é de sete a nove vezes mais econômica do que colocar uma criança com necessidades educacionais especiais na escola especial. Mas será que o destino da educação de pessoas com necessidades educacionais especiais deverá ser definido pelo orçamento? O Decreto nº 6571 (BRASIL, 2008a), dispõe sobre o atendimento educacional especializado, no qual se entende como as atividades, recursos pedagógicos e de acessibilidade11, organizados para complementar ou suplementar a formação de alunos com deficiências, transtornos globais do desenvolvimento, altas habilidades e / ou superdotação. Portanto, a União financiará e prestará apoios técnicos aos sistemas públicos de ensino, do Distrito Federal e dos municípios. Assim, a partir de 1º de janeiro de 2010, as escolas que tiverem alunos com necessidades educacionais especiais matriculados no ensino regular com atendimento especializado complementar, receberão recursos do FUNDEB12. Para Pletsch 10 Estes são os serviços de suporte ou apoio oferecidos na Rede Pública de Educação do Município do Rio de Janeiro, outras redes apresentam outras modalidades e / ou denominações para os suportes. 11 No Decreto nº 5296 (BRASIL, 2004), o conceito de acessibilidade é: “condição para utilização, com segurança e autonomia, total ou assistida, mobiliários e equipamentos urbanos, das edificações, dos serviços e dos dispositivos, sistemas e meios de comunicação e informação por pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida”. Para uma discussão aprofundada ver Fernandes, Antunes & Glat (2007); Fernandes & Orrico (2008), entre outros. 12 FUNDEB é o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, substituto do FUNDEF (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério). O FUNDEB entrou em vigor em janeiro de 2007 e vai até 2020. 30 (2009, p.33-34) “este dispositivo acarretará mudanças significativas no processo de escolarização das pessoas com deficiência nos sistemas públicos de ensino. Por isso, a implementação desse documento deve ser acompanhada e avaliada com todo o cuidado e rigor científico”. No ano de 2006, surgiu no Brasil, pela influência norte-americana, uma corrente de pensamento denominada desenvolvimento econômico, a qual relaciona deficiência à pobreza (CARVALHO, 2007; PLETSCH, 2009). Esse conceito surgiu pelos resultados dos dados estatísticos relacionarem a pobreza à deficiência. Os defensores dessa vertente acreditam que se o aluno com deficiência tiver na escola todos os recursos de tecnologia assistiva ou ajudas técnicas13 e acessibilidade à sua disposição, os problemas de aprendizado serão minimizados, e a sua deficiência será “sanada” (PLETSCH, 2009). É importante ressaltar que esse conceito evoca a concepção econômica de que se forem eliminadas as barreiras financeiras, as pessoas com necessidades educacionais especiais poderão se “igualar” às demais. Porém, em uma sociedade capitalista, onde o lucro é imprescindível para o “progresso” da sociedade, como acabaríamos com esse obstáculo? Mesmo pensando na questão da acessibilidade, que a própria corrente coloca como um dos pontos principais para esse desenvolvimento, não será possível minimizarmos a política da Educação Inclusiva, que preconiza uma série de modificações no processo de ensinoaprendizagem e nas relações interpessoais, apenas em uma questão de recursos materiais. Voltando à concepção de inclusão total, Lieberman (2003) aponta a existência de distintos grupos de defensores desta proposta. Há os que querem que aconteça a qualquer custo, sem se preocupar em responder às conseqüências de uma inclusão mal sucedida. Outros enfatizam uma reestruturação da escola / das práticas pedagógicas. Em qualquer destas alternativas os professores das classes comuns seriam os responsáveis pelo aprendizado dos alunos com deficiência. Há também os que defendem “parcerias mais sofisticadas” entre os profissionais da Educação Especial e Regular, não transferindo uma responsabilidade maior para nenhum dos profissionais, em relação ao aprendizado daqueles com dificuldades. Entretanto, os defensores da inclusão total acreditam que é fundamental a inclusão dos educandos com necessidades educacionais especiais para a construção de valores, amizade e socialização. Mas a proposta da Educação Inclusiva não se volta apenas à socialização. Para não cometermos erros com experiências mal sucedidas, é importante que repensemos o papel da Educação Especial, pois segundo Pletsch (2009), colocarmos crianças com deficiências 13 De acordo com Fernandes & Orrico (2008), ajuda técnica (ou tecnologia assistiva) é qualquer recurso que facilite a autonomia, o acesso e uso do meio físico. 31 severas nas classes comuns, sem nos preocuparmos com a gravidade das suas “limitações”, é colocar em risco o seu desenvolvimento e aprendizagem. Glat (2007) também contesta que a meta da Educação Inclusiva seja a socialização, uma vez que há alunos que, para sua aprendizagem, precisam de ambientes mais estruturados, com turmas menores e, em alguns casos, até mesmo atendimento individualizado. Em síntese, concordamos com estes autores de que apenas a inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais em turmas comuns sem adequada estrutura física, material, de recursos humanos capacitados, não promoverá a aprendizagem destes educandos. Nas palavras de Lieberman (2003, p.92): Todos os alunos são indivíduos únicos, mas ensinem-nos todos da mesma maneira. É perfeitamente claro que grande número dos chamados alunos normais não tem sucesso na escola pela simples e básica razão de não serem tratados ou ensinados recorrendo a métodos diferenciados (grifo do autor). Bueno (2008) afirma que apesar dos baixos índices dos resultados escolares alcançados por alunos com necessidades educacionais especiais, os alunos ditos “normais” também apresentam um desempenho insuficiente. Ou seja, Educação Inclusiva deve representar um novo paradigma, não só no que tange a Educação Especial, mas a Educação como um todo, para reverter o problema do fracasso escolar de alunos com ou sem deficiências. Para Ferreira (2006) a questão principal da Educação Inclusiva não é romper com a Educação Especial, mas sim como esta parceria vai se constituir para o sucesso dessa política. Lieberman (2003, p.102), tem a mesma posição e acredita que é fundamental que a Educação Especial permaneça, pois “há crianças que, num dado momento das suas vidas, podem necessitar de serviços de educação especial que podem estar completamente fora dos limites da classe regular”. Este autor, assim como Glat & Blanco (2007) defendem inclusive que mesmo numa proposta de Educação Inclusiva, é possível a existência de escolas especiais, já que para alguns casos, elas podem ser a melhor opção. Pletsch (2009) ressalta que a Educação Especial tem muito a oferecer ao ensino regular, por ser uma área de conhecimento que pode proporcionar recursos específicos para os alunos que apresentam singularidades peculiares a seu aprendizado, seja, na classe comum ou em classe especial14. Isso ocorreria para aqueles alunos que necessitam, por exemplo, 14 De acordo com Mazzotta (1993) a classe especial é uma turma instalada na escola comum, supervisionada por um professor especializado e tem a característica de ser composta por alunos com a mesma “deficiência”. Em 1889 começaram a funcionar, nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, as classes especiais vinculadas às escolas públicas e em 1920 já funcionavam 15 classes, sendo a maioria no Rio de Janeiro (CORRÊA, 2009), permanecendo até o presente momento. 32 aprender Braille, intérprete de Libras ou comunicação alternativa15 para poderem ter maiores possibilidades de sucesso em sua inclusão na turma comum. Müller & Glat (1999) alegam que, em alguns casos, a classe especial é a melhor opção, principalmente, para aqueles que ainda não possuem condições de freqüentar, com aproveitamento satisfatório, a classe comum. Porém essas autoras, também ressaltam que é necessário que a classe especial se ressignifique e se transforme, para atender da melhor forma, a nova demanda educacional. Sob esta ótica, a Educação Especial ganhou um novo espaço passando de uma modalidade paralela de ensino para ser suporte das classes comuns. Para Glat & Blanco (2007, p.17) “a Educação Especial não deve ser concebida como um sistema educacional especializado à parte, mas sim como um conjunto de metodologias, recursos e conhecimentos [...] que a escola comum deverá dispor para atender à diversidade de seu alunado”. A parceria estreita entre a Educação Especial e a Educação Regular vem de encontro com a Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva, Portaria nº 948 de 09 de outubro de 2007 (BRASIL, 2008b), que regulamenta o atendimento da pessoa com deficiência no ensino comum. Neste documento está especificado que a Educação Especial irá organizar e orientar a criação de redes de apoio, formação continuada e em serviço de professores, identificação de recursos e a realização de práticas colaborativas. Assim, será de encargo da Educação Especial elaborar recursos pedagógicos e de acessibilidade adaptados às necessidades de cada aluno. Embora a política proponha que a Educação Especial se estabeleça como salas de recursos multifuncionais16 e / ou atendimento complementar, como será discutido no decorrer deste texto, esta é uma posição bastante controversa. Os objetivos da atual política baseiam-se nos seguintes princípios: 1) transversalidade da Educação Especial desde a Educação Infantil até a Educação Superior; 2) atendimento educacional especializado; 3) continuidade da escolarização nos níveis mais elevados do ensino; 4) formação de professores para o atendimento educacional especializado, e demais 15 Comunicação Alternativa e Ampliada (CAA) é usada para as pessoas que possuem dificuldade ou não conseguem se comunicar. Dessa forma, são utilizados recursos para que a comunicação dessas pessoas aconteça, e, esses recursos variam do mais simples e artesanal até os que são desenvolvidos com tecnologias mais complexas. Para o aprofundamento desse assunto, indicamos alguns autores, Nunes, Pelosi & Gomes (2007, vols I e II), Reily (2004), Manzini & Deliberato (2006), Pires, Blanco & Oliveira (2007), Deliberato (2008). 16 Segundo Alves, Gotti, Griboski & Dutra (2006) salas de recursos multifuncionais são espaços da escola equipados com computadores com programas que facilitem o aprendizado dos alunos com necessidades educacionais especiais, bem como impressoras em Braille, livros com fontes ampliadas e outros equipamentos que possibilitem o aprendizado. Essa sala serão trabalhadas por professores especializados, que realizarão práticas pedagógicas inclusivas, favorecendo a construção do conhecimento. Para tal os professores especializados deverão comprovar sua formação em cursos de pós-graduação, graduação ou cursos de formação continuada nas áreas da Educação Especial. Este tema será retomado no próximo capítulo. 33 profissionais da educação para a inclusão escolar; 5) participação da família e da comunidade; 6) acessibilidade urbanística, arquitetônica, nos mobiliários e equipamentos, nos transportes, na comunicação e informação; 6) articulação intersetorial na implementação das políticas públicas (BRASIL, 2008b, p.14). Para implementação destes objetivos é importante rompermos com a barreira existente entre Educação Especial e Ensino Regular, pois é essencial que os professores especialistas sirvam de suporte para os professores regulares / generalistas – professores que lecionam no ensino regular (BUENO, 1999). Essa concepção é também defendida por Glat & Pletsch (2004a, p.05): Vale ressaltar que, em nossa opinião, vem sendo criada uma falsa dicotomia entre Educação Inclusiva e Educação Especial, como se o advento de uma representasse a descontinuidade da outra. Na realidade, ocorre justamente o contrário. Em um sistema educacional inclusivo torna-se fundamental a especificidade da experiência em processos diferenciais de aprendizagem da Educação Especial, tanto como campo de conhecimento como área de atuação aplicada. Ferreira (2006) também coloca a necessidade de um trabalho coletivo entre os profissionais da Educação. De forma a garantir a singularidade de cada sujeito, mas sem permanecer os preconceitos construídos pelas desigualdades e desvantagens que os alunos com necessidades educacionais especiais geralmente encontram e causam nas escolas. Para Glat (2007, p.190) “as escolas e instituições especializadas devem se fortalecer como centros de referência para a formação de recursos humanos, pesquisas, produção de material adaptado, consultorias, entre outras ações”. É de extrema relevância que este trabalho seja feito de forma coletiva e colaborativa com todos os profissionais, pois como colocam os diversos autores já citados, é preciso ter o cuidado de que estas redes de apoio não sejam as únicas responsáveis por esses alunos; visto que, na Educação Inclusiva todos os profissionais de Educação são responsáveis pela educação desse alunado. 34 2 A Formação de Professores na área de Educação Especial: avanço ou retrocesso? Combinando as qualidades fundamentais envolvidas no nível atitudinal, cognitivo, instrumental e crítico-contextual, o professor precisa ser aquele educador que, para concretizar o valer, o saber e o saber fazer, entenda, antes de mais nada, a sociedade e a educação na sociedade em suas várias dimensões (MAZZOTTA, 1993, p.40). Este capítulo visa discutir a formação do profissional da Educação Especial e seus desafios frente à proposta da Educação Inclusiva. 2.1 Formação de Professores para a Educação Especial: um breve histórico Nos anos finais do Brasil Império, o atendimento a pessoas com deficiências era de encargo da Saúde, como discutido no capítulo anterior. A segunda década do século XX trouxe uma crescente preocupação com a aprendizagem desses indivíduos, relacionada especialmente com a abordagem psicológica, ainda integrando o campo da Saúde. Segundo Cartolano (1998, p.2): Articulando tal preocupação, defende, em 1930, uma formação comum a todos os professores e sugere, tanto no que se referia ao conteúdo quanto no que dizia respeito à prática, a familiarização com as crianças ditas normais e deficientes. Porém, sua prática, fundando as escolas da Sociedade Pestalozzi, caminhou em sentido contrário, acabando por segregar os ditos anormais e por confiná-los em escolas especiais. De acordo com Almeida (2004) a formação de professores para a Educação Especial se iniciou, no século XX, em cursos de nível médio no Instituto Benjamin Constant e Instituto Nacional de Educação de Surdos no Rio de Janeiro, e no Instituto Pestalozzi em Minas Gerais, sendo que este já realizava cursos de férias para os profissionais da área desde 1951. No Estado de São Paulo, por exemplo, o primeiro curso regular de formação para a Educação Especial, aconteceu em 1955 e foi até 1972, oferecido como uma especialização do Curso Normal (MAZZOTA, 1993). Posteriormente, essa formação passou a ser oferecida pelo curso de Pedagogia com habilitação específica, permanecendo até os dias atuais (NUNES, GLAT, FERREIRA & MENDES, 1998, ALMEIDA, 2004, DENARI, 2004). 35 Almeida (2004) informa que em alguns estados, como São Paulo e Paraná, ofereciam habilitação em Educação Especial no Curso Normal, com o objetivo de formar normalistas especializados. Estes cursos atendiam as áreas da deficiência visual, auditiva, física e intelectual. Dependendo do local de realização, podiam ter um enfoque mais educacional ou mais médico-clínico. Essa mesma autora (ALMEIDA, 2004), aponta que somente na década de 1970, surgiram, por exemplo, no Estado do Paraná, os cursos de Estudos Adicionais para Formação de Professores para a Educação Especial que estivessem em exercício, o quais foram mantidos até o ano de 2000. Porém, a temática sobre a Educação Especial, só foi inserida nos cursos de nível superior a partir da Lei nº 5692/71, que dispõe sobre a formação de professores e especialistas para o ensino do 1º e 2º graus da época (BUENO, 2002). Foi depois dessa Lei que a formação de professores para a Educação Especial passou a ser de nível superior, nos cursos de Pedagogia, mas em muitos estados, a formação para a Educação Especial, continuou sendo em nível pós-normal17 (ALMEIDA, 2004). Apenas em 1978, foi estabelecido em São Paulo o cargo de Professor III – professor de Educação Especial, considerando-o com formação superior em licenciatura plena, esse cargo difere-se do professor de Educação Infantil e séries Iniciais18, com um bônus na remuneração (MAZZOTTA, 1993). Segundo Bueno (2002, p.64): Os cursos de formação de professores de educação especial foram em número reduzido, com distribuição totalmente desequilibrada pelo País e, mesmo nas regiões mais privilegiadas, insuficientes em relação à demanda estimada. Essa situação trouxe como decorrência a disseminação de cursos de extensão, atualização e especialização que, em grande parte, parecem atender muito mais à falta de professores habilitados de acordo com as normas em vigor do que a iniciativas de formação continuada. Denari (2004) defende que a formação em Educação Especial seja feita no curso de Pedagogia, o qual deveria possibilitar o encontro da teoria com a prática, preocupando-se com a qualidade social da Educação; para ela, o profissional da Educação Especial deve ser antes de tudo um professor. Entretanto autores como Müller & Glat (1999), Nunes, Glat, Ferreira & Mendes (1998), entre outros, argumentam que os cursos de formação de professores são, em sua maioria, muito teóricos. 17 De acordo com Mazzotta (1993), a certificação de especialização em curso de pós-normal, era um diploma de especialização em nível de Ensino Médio, obtido em estabelecimentos oficiais. Esse registro era comumente oferecido nos anos de 1955 a 1972 no estado de São Paulo. 18 No município do Rio de Janeiro, esse cargo intitula-se como Professor II e o professor de Educação Especial faz parte do cargo de Professor II, não recebendo nenhum adicional para cumprir essa função. Em alguns municípios ainda permanece a nomenclatura de Professor III, como por exemplo, em São Carlos (SP). 36 De acordo com Bueno (1999), o Parecer 251 do Conselho Federal de Educação – CFE, indica que a inclusão de uma ou, no máximo, duas disciplinas sobre Metodologia e / ou Práticas de Ensino, seria o suficiente para a formação do professor para as primeiras séries do Ensino Fundamental. Então, seguindo esta lógica, a formação em nível superior do docente com habilitação para a Educação Especial, que passou a ser realizada no curso de Pedagogia, contribuiu para que esse profissional tivesse muito pouco conhecimento pedagógico para a formação de professor. A medida que a formação desse educador passou a ser centrada, cada vez mais, nas limitações das deficiências e não nos processos de ensino-aprendizagem, esse professor apresentou dificuldades de relacionar fracasso escolar com processos pedagógicos. Nas décadas de 1980 e 1990, em alguns cursos, os profissionais da Educação Especial podiam escolher áreas de conhecimento na sua formação, como deficiência visual, auditiva, intelectual, entre outras. Para Lima (2006, p.121) “assim, não havia, objetivamente, especialistas em educação de deficientes, e sim especialistas em deficiência visual, auditiva, física ou outras”. Como por exemplo, podemos citar o curso de Pedagógica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que até 1992 possuía habilitação em Educação Especial, a qual dividia-se em deficiência intelectual e auditiva. Para a formação desse profissional a UNESCO, em 1988, elaborou um relatório sobre serviços educacionais, no qual sugeriu: 1. A inclusão, obrigatória, da Educação Especial nas ações de formação inicial e contínua de todos os professores, nos diversos níveis de ensino; 2. O engajamento das instituições de ensino superior na oferta e no desenvolvimento de programas de formação em Educação Especial, abrangendo parcerias e atendendo a todos os níveis de ensino; 3. A visão e reconsideração do papel dos professores de Educação Especial; 4. Iniciativas de encorajamento a programas de formação que preparem os professores para trabalhar com todo tipo de deficiência (BAUMEL, 2003, p.28). A Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional – LDBEN 9394/96 (BRASIL, 1996), no inciso III do artigo 59, regulamenta que a formação de professores para o atendimento a alunos com necessidades educacionais especiais poderá ser realizada por meio de cursos em nível médio ou superior. Nunes, Glat, Ferreira & Mendes (1998) e Fontes (2007) apontam que houve uma transferência / retirada / negação da responsabilidade dos cursos de Pedagogia na formação de profissionais na área de Educação Especial, pois a partir do momento que na LDBEN está escrito que a formação desses professores poderá ser feita por cursos de nível médio, os de nível superior se isentam dessa obrigação. 37 Segundo pesquisa realizada por Almeida (2004), a situação do Brasil no ano de 2001, em relação à formação de professores especialistas, podia ser categorizada em três itens: 1) Formação inicial em nível médio: professores normalistas habilitados em uma área de deficiência pelos cursos de Estudos Adicionais; professores normalistas habilitados por cursos de especialização oferecidos pelas Secretarias de Educação e Institutos Especializados, como o IBC e o INES. 2) Formação inicial em nível superior: professores habilitados em Educação Especial pelos cursos de Pedagogia, em áreas específicas; licenciados somente em Educação Especial ou por cursos de pós-graduação Lato e Stricto Sensu. 3) Formação continuada: professores licenciados em qualquer área de conhecimento com cursos de aperfeiçoamento oferecidos pelas Secretarias de Educação ou Instituições de Ensino Superior; professores, geralmente formados por curso de nível médio, capacitados por cursos de atualização, realizados pelas Instituições de Ensino Superior, Institutos de Educação e Secretarias de Educação e professores com formação em nível superior ou médio, sem nenhuma capacitação de um curso específico, trabalhando com alunos com necessidades educacionais especiais. Na Resolução CNE / CEB nº 2 de 11 de setembro de 2001 (BRASIL, 2001b), o artigo 18, preconiza que as escolas devem ter condições para a elaboração de seus projetos políticos pedagógicos e contam com a participação de professores capacitados e especialistas, como previstos na LDBEN e em outras diretrizes de formação de docentes. Nessa Resolução, o mesmo artigo e parágrafo primeiro, as características dos professores capacitados são para atuar em classes comuns que possuam alunos com necessidades educacionais especiais – classes inclusivas – e precisam, apenas, comprovar que em sua formação, seja de nível médio ou superior –, cursaram disciplinas com o conteúdo sobre Educação Especial que os capacitem para: perceber a necessidade educacional especial dos alunos, valorizar a Educação Inclusiva, além de flexibilizar a sua prática pedagógica e avaliar o processo de ensinoaprendizagem dos educandos. No parágrafo terceiro do artigo 18 dessa Resolução, afirma que professores especialistas são os que apresentam: I – formação em cursos de licenciatura em educação especial ou em uma de suas áreas, preferencialmente de modo concomitante e associado à licenciatura para educação infantil ou para os anos iniciais do ensino fundamental; II – complementação de estudos ou pós-graduação em áreas específicas da educação especial, posterior à licenciatura nas diferentes áreas de conhecimento, para atuação nos anos finais do ensino fundamental e no médio. 38 Essa Resolução abre a possibilidade, novamente, de transferência da responsabilidade dos cursos de nível superior, visto que, surge a opção para a formação dos professores na área de Educação Especial nos cursos de pós-graduação. Sendo assim, observamos, por exemplo, que os cursos de Pedagogia das universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro, atualmente, optam pela formação do profissional capacitado, ou na concepção de Bueno (1999) generalista, como veremos a seguir, em uma breve análise das grades curriculares, das disciplinas obrigatórias, dos cursos presenciais de Pedagogia disponíveis para o ano de 2009/119. A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na sua grade curricular das disciplinas obrigatórias do curso de Pedagogia (anexo I), oferece duas disciplinas sobre Educação Especial: uma no quarto período, intitulada Fundamentos da Educação Especial e a outra no nono período, Educação e Comunicação II – LIBRAS. Nesse curso o aluno sai “multi habilitado”, com Licenciatura Plena. A Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), em sua grade curricular (anexo II), oferece apenas uma disciplina no quarto período, denominada como Fundamentos Teórico-Metodológicos da Educação Especial. Formando professores habilitados para atuar no magistério de Educação Infantil, nas séries iniciais do Ensino Fundamental e no Nível Médio, na modalidade Normal, bem como em áreas de gestão, serviços e apoio técnicopedagógico escolar e / ou pára-escolar. Essa universidade está revendo a sua grade curricular, porém o curso continuará oferecendo, no sexto período, apenas uma disciplina obrigatória, Educação Especial e terá a disciplina de LIBRAS como obrigatória para todas as Licenciaturas. A Universidade Federal Fluminense (UFF), em sua grade (anexo III), mostra que o curso possui apenas uma disciplina chamada Educação Especial, porém pelo site da Universidade, não conseguimos visualizar em que período essa disciplina é oferecida. Esse curso tem a formação básica para a habilitação do Magistério, considerado como uma licenciatura global, sendo geradora das demais habilitações: Magistério das Disciplinas Pedagógicas do Ensino Médio, Magistério da Educação Infantil e Séries Iniciais do Ensino Fundamental, Administração Educacional, Orientação Educacional e Supervisão Educacional. A Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), em sua grade curricular (anexo IV), apresenta duas disciplinas na área: uma no quarto período com o nome 19 Algumas Faculdades de Educação das universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro, estão reformulando seus currículos para atender as novas exigências, porém utilizamos os que estão em vigor no semestre de 2009/1, disponíveis nos sites das instituições. 39 de Educação Especial e outra no nono, sobre Língua Brasileira de Sinais. O aluno formado em Pedagogia por essa faculdade sai habilitado em Licenciatura Plena. A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), na sua grade curricular (anexo V), mostra que o curso oferece duas disciplinas sobre o tema: uma no terceiro período, intitulada como Questões Atuais em Educação Especial e outra no quinto, Educação Inclusiva e Cotidiano Escolar. Esse curso habilita o aluno para atuar em: Licenciatura em formação de professores para a Educação Infantil e anos iniciais do Ensino Fundamental para crianças, jovens e adultos. Bacharelado em Pedagogia das Instituições e nos Movimentos Sociais. Portanto, os cursos de Pedagogia das universidades públicas no Estado do Rio de Janeiro, seguem a proposta do Plano Nacional de Educação – PNE (BRASIL, 2001a), que afirma a inclusão de disciplinas específicas para o atendimento a alunos com necessidades educacionais especiais nos currículos de formação de professores. A Faculdade de Educação da UERJ – Campus Maracanã20, parte da concepção de que Educação Especial é uma área de conhecimento, e Educação Inclusiva uma política pública. Sendo assim, oferece duas disciplinas obrigatórias na área de Educação Especial, sendo uma delas voltada para a Educação Inclusiva. As demais faculdades analisadas oferecem apenas uma disciplina intitulada como Educação Especial, porém não podemos afirmar que essa não possua a mesma concepção da UERJ e que as outras disciplinas não denominadas como Educação Especial ou Educação Inclusiva, não abordem a temática. A UFRJ e a UNIRIO apresentam como disciplina obrigatória, LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais), indo de encontro com o Decreto nº 5626, de 22 de dezembro de 2005 (BRASIL, 2005), que regulamenta a inclusão de LIBRAS como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério, em nível médio e superior, além dos cursos de Fonoaudiologia. A UERJ está reformulando seu currículo do curso de Pedagogia, no qual conterá a disciplina LIBRAS como obrigatória. Porém, Bueno (1999) acredita que o oferecimento de disciplinas sobre a Educação Inclusiva e/ou atendimento aos alunos com necessidades educacionais especiais, sem um aprofundamento dos conteúdos e um comprometimento político com a diminuição do fracasso escolar, não eliminará as práticas excludentes. 20 A UERJ tem mais duas unidades acadêmicas voltadas para formação de professores a nível superior: a Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF) localizada em Duque de Caxias, e a Faculdade de Formação de Professores (FFP), em São Gonçalo. A análise aqui no âmbito da UERJ refere-se apenas á Faculdade de Educação do Campus Maracanã (EDU). 40 Ainda há universidades públicas no Brasil que possuem cursos de graduação com habilitação em Educação Especial. A Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (UNESP - Marília), por exemplo, possui o curso de Pedagogia com habilitação em Educação Especial, no qual o aluno poderá optar pela seguintes áreas de conhecimento: deficiência intelectual, auditiva, visual e física. Já a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em São Paulo e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) no Rio Grande do Sul oferecem graduação específica em Educação Especial, além da UFSM possuir esse mesmo curso na modalidade à distância. Porém, podemos perceber que no Estado do Rio de Janeiro, a responsabilidade da formação do professor especializado passou a ser de encargo das pósgraduações, visto que, as graduações formam um professor capacitado e / ou generalista. Dessa forma, as universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro, não estão mais formando professores especializados em nível de graduação. 2.2 Reflexões sobre a Formação do Professor Especializado no contexto da Educação Inclusiva A formação do professor para a Educação Especial é uma discussão que deve ser feita a partir dos objetivos que se quer atingir. Müller e Glat (1999) acreditam que o professor é o elemento fundamental para o desenvolvimento de uma prática pedagógica inclusiva, por isso, é importante repensar essa formação, levando em consideração as dificuldades em relação à inclusão dos alunos com necessidades educacionais especiais nas classes comuns. Na Resolução nº 2 de 2001 (BRASIL, 2001b), o artigo 18 parágrafo segundo, preconiza que os professores especializados em Educação Especial sejam: aqueles que desenvolveram competências para identificar as necessidades educacionais especiais, para definir, implementar, liderar e apoiar a implementação de estratégias de flexibilização, adaptação curricular, procedimentos didáticospedagógicos e práticas alternativas adequadas ao atendimento das mesmas, bem como trabalhar em equipe, assistindo o professor de classe comum nas práticas que são necessárias para promover a inclusão dos alunos com necessidades educacionais especiais. Rodrigues (2006) defende que o professor precisa ter uma formação profissional e não apenas uma formação acadêmica. Nesse sentido, Barreto (2007) acredita que os professores especializados são produtores de conhecimento e que encontram na escola, um espaço para a vivência com a diversidade, do debate, da reflexão e da aplicação de saberes, a fim de construírem uma escola de qualidade para todos os alunos. Sendo assim, esse autor elaborou 41 sete aspectos para a formação do professor para a Educação Especial, em relação aos estágios que esses alunos devem cumprir: 1. A compreensão conceitual do estágio deve ocorrer como vivência intensiva de inserção no campo profissional, garantindo a articulação entre teoria e prática. 2. A atuação do professor é mediada pelo espaço escolar e pelo conhecimento produzido inerentemente nessa instância de ensino – a escola. 3. A compreensão do estágio é importante na ação da indissociabilidade entre pesquisa, ensino e extensão. 4. A vivência, pelo estagiário, das diferentes dimensões da vida da instituição educativa, não deve se restringir à docência. Ele deve conhecer e interagir com outras dimensões do cotidiano e da cultura organizacional: instâncias da gestão democrática, bibliotecas escolares, eventos, projetos e atividades diversos, bem como os sistemas de ensino aos quais pertencem as instituições educativas. 5. O exercício da docência passa pela apreensão e produção de saberes necessários e exclusivos a essa profissão, e ser professor envolve uma imersão no seu cotidiano, nos seus hábitos, na sua forma de expressão e nos dilemas e dificuldades que atravessam sua prática. 6. É importante a organização de estágios compartilhados por alunos oriundos de diferentes habilitações dos cursos de pedagogia assim como dos alunos da pósgraduação [...], favorecendo desde a formação inicial à interlocução entre docentes de diferentes formações. 7. A pesquisa em educação e em educação especial vem contribuir para a formação do futuro professor, a partir do momento em que o ajuda a entender a prática docente e as teorias que procuram fundamentar essa prática (BARRETO, 2007, p. 278-279). Diversos autores concordam que a formação do professor para a Educação Especial deve ser feita com a interlocução da teoria com a prática, dentre eles podemos destacar Müller & Glat (1999), Fontes (2007), Prieto (2007). Porém, acreditamos que essa interlocução deve ser feita em toda formação de qualquer profissional, principalmente a do professor. Nessa direção, a formação do docente, tanto “generalista” ou “capacitado” quanto “especialista” deve possuir conteúdos que estimulem competências para o perfil de um profissional intelectual, com o objetivo de conseguir lidar com situações singulares do cotidiano da escola (FREITAS, 2006). Todavia, tem sido verificado que a atual formação do professor especialista em Educação Especial não atende às necessidades atuais da prática pedagógica desse profissional, visto que esses educadores se sentem despreparados para atuar com os alunos com necessidades educacionais especiais, devido à precariedade de sua formação inicial. Pesquisas revelam que a formação inicial dos professores para a Educação Especial não é suficiente para a atuação profissional, o que leva os docentes a sentimentos variando desde insegurança até culpa por não conseguir adequadamente ensinar a esses alunos (NUNES, GLAT, FERREIRA & MENDES, 1998, MÜLLER & GLAT, 1999, OLIVEIRA & COSTA, 2007, MENDES, 2008). Em uma pesquisa desenvolvida na APAE – Rio, Ferreira (1998) aponta que um dos 42 caminhos para tentar superar esse sentimento de fracasso e culpa, é desenvolver um espaço para que os professores possam expressar suas angústias e dúvidas acerca de suas práticas pedagógicas, dessa forma, haverá trocas de conhecimentos, bem como a reflexão sobre o trabalho docente. O advento da Educação Inclusiva trouxe novas questões sobre a formação dos professores, entre elas se os profissionais da Educação Especial devem ser especializados ou capacitados. No Rio de Janeiro, a tendência dos cursos de formação de professores em nível de graduação, como discutido anteriormente, e os de pós-graduação Lato-Sensu21 é da formação do professor capacitado / generalista. Fontes (2007), após uma análise geral dos estudos na área de formação de professores para a Educação Inclusiva percebeu que a maioria dos cursos se dá de forma generalista, não se preocupando com as especificidades e singularidades de cada deficiência. Nesse sentido, o que acontecerá com o professor especialista? Observamos que a formação na concepção da Educação Inclusiva deixou dúvidas na formação do especialista, pois por não haver mais especificações, a terminologia utilizada passou a ser necessidades educacionais especiais. Nessa direção, não distinguimos mais as deficiências, então para que formar um especialista em deficiência intelectual, por exemplo? Dessa forma, constata-se que esta definição amplia a população que deve ser considerada especial, e sugere ainda o abandono das classificações categoriais tradicionais da clientela da Educação Especial, em virtude da adoção do conceito genérico de “necessidades educacionais especiais”. Entretanto, embora a rotulação e categorização seja um assunto problemático na área de Educação Especial, não há ainda um consenso sobre a possibilidade de se abandonar o sistema de classificação tradicional para se regulamentar a prática na área (MENDES, 2008, p.101). Com a política da Educação Inclusiva, há uma tendência em formar o especialista, com habilitação ampla, para atender as diferentes deficiências, inclusive para trabalho no contexto das salas de recursos multifuncionais, já discutidas. De acordo com uma pesquisa realizada com professores de classes especiais, Müller e Glat (1999) perceberam a formação ampla não “contempla as particularidades e complexidades do processo ensino-aprendizagem de alunos com necessidades especiais, principalmente os mais prejudicados” ( p.39). 21 As universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro, atualmente, não possuem pós-graduação Lato-Sensu em áreas de deficiência. O Instituto Benjamin Constant oferece um curso de capacitação em deficiência visual, porém esse não é considerado como pós-graduação e sim como extensão. Apenas o Instituto Nacional de Educação de Surdos possui um curso de pós-graduação Lato Sensu em Surdez e Letramento em Anos Iniciais para Crianças e Educação de Jovens e Adultos. 43 Mendes (2008) alega que a formação em Educação Especial, tradicionalmente, era feita por categorização das deficiências – deficiência intelectual, visual, auditiva, física e altas habilidades ou superdotação – e habilitava o professor para atuar na escola especial, na classe especial ou na sala de recursos. Porém, com a política da Educação Inclusiva, passou a se questionar se essa formação deveria ser especialista categorizada ou generalista22. Isso aconteceu, porque com a inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais nas classes comuns, esse profissional da Educação Especial, teve que lidar com as dificuldades no processo de ensino-aprendizagem de alunos com diferentes deficiências incluídos na mesma sala, por exemplo. Então, os saberes categorizados, passaram a não ser mais tão “necessários”, visto que, o professor especializado, seja na função de itinerante ou da sala de recursos, tem que lidar com os diversos alunos, independentes da sua deficiência, assim, ele precisa saber um “pouco de tudo”. Mendes (2008) relata resultados de uma pesquisa realizada nos Estados Unidos da América, por Heller e seus colaboradores no ano de 1999, em cursos de nível superior de formação de professores para a Educação Especial. Esses cursos habilitavam os alunos para serem especialistas generalistas. Sendo assim, constatou-se que os professores não saíam capacitados para trabalharem com os alunos com deficiência, principalmente os com deficiência física. Isso nos remete, à nossa discussão inicial, quando em outras pesquisas, verificamos que os professores com habilitação especialista categorizada também não se sentiam preparados. Os autores questionaram esta tendência a uma certificação genérica na área de Educação Especial por considerarem que as condições de deficiências físicas ou de problemas crônicos de saúde requerem competências específicas dos professores, e ainda alertaram para o fato de que o bem estar dos alunos, ou mesmo a manutenção da vida de muitos deles poderia recair sobre professores não capacitados (MENDES, 2008, p.100). Olhando por esse prisma, haverá uma carência em relação à formação desse profissional, mas mesmo assim, alguns autores ainda expressam a necessidade da formação 22 Há de se esclarecer que essa formação generalista distingue-se da formação generalista que Bueno (1999) apresenta, como discutido no capítulo anterior. Na formação generalista de Bueno, são considerados os professores das classes comuns da Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio. De acordo com a Resolução nº 2 (BRASIL, 2001b), os professores capacitados, são os das classes comuns, tendo cursado alguma disciplina sobre Educação Especial e/ou Inclusiva. O conceito de generalista de Bueno engloba os capacitados da Resolução nº 2, pois os generalistas podem ter cursado ou não disciplinas sobre a temática. Os especialistas são os habilitados para atuarem na Educação Especial, porém dentro dessa formação, há uma discussão se devem ser habilitados por deficiências ou com uma formação ampla / generalista. Então, aqui surgem duas novas categorias, os especialistas generalistas com uma formação ampla e os formados por deficiência, serão denominados especialistas categorizados. 44 em áreas de conhecimento, nas diversas especificidades de cada deficiência, visto que, para ensinar um aluno cego, é preciso que o professor conheça e domine o sistema Braille; para um aluno surdo, a LIBRAS e assim por diante. Cada deficiência possui suas especificidades e necessidades para que o processo de ensino-aprendizagem seja bem sucedido. Por isso, Mendes (2008) após a pesquisa desenvolvida nos EUA, afirma que ainda há a necessidade da formação específica. Essa concepção é ressaltada em outros trabalhos, como Müller & Glat (1999), Bueno (1999), Denari (2004), Freitas (2006), Oliveira & Costa (2007), entre outros já comentados. Todavia, os cursos devem passar por uma reformulação, a fim de contemplar à política da Educação Inclusiva. Para Bueno (1999) os professores da Educação Especial não estão preparados para atender nesse novo paradigma, pois estão acostumados a elaborarem práticas com o objetivo de minimizar os efeitos das deficiências e não com o intuito de desenvolver as potencialidades e capacidades desses educandos. Pois esses profissionais estão acostumados a lecionar em turmas menores sem um currículo fixo, como nas classes especiais, não estão preparados para trabalharem em turmas comuns com um número excessivo de alunos, seguindo um currículo rígido. Müller e Glat (1999) não propõem um modelo de formação que siga vertentes clínica ou especializada, bem como métodos e técnicas de aprendizado específicas, para os educandos com necessidades educacionais especiais. Mas sugerem que a formação do professor especialista deva acontecer para a formação de um “bom professor” com conhecimentos básicos de didática e pedagogia, além do conhecimento especializado. Bueno (1999) aponta que o professor especializado deve ter uma formação voltada para atender os alunos nas diversas necessidades educacionais especiais, no atendimento direto ou no apoio aos docentes das classes comuns. Essa formação “especialista generalista” vem de encontro com a concepção de que a política da Educação Inclusiva é menos custosa financeiramente do que a Educação Especial, como discutido no capítulo anterior. Uma alternativa para a formação dos professores especialistas, generalistas / capacitados é a formação continuada ou em serviço. Segundo Mendes (2008), esse tipo de capacitação tem êxito, visto que, serão desenvolvidas estratégias para minimizar as dificuldades encontradas no cotidiano escolar e preencher as lacunas da formação inicial desses profissionais. Os dados de expansão das matrículas de alunos com necessidades educacionais especiais nas redes regulares de ensino nos últimos anos, por si, indicam que é preciso investir em políticas públicas de formação continuada também dos 45 professores especializados, tendo como referência que esses deverão compor frentes de trabalho junto com os demais docentes (PRIETO, 2007, p.283). Esses cursos de formação continuada em Educação Inclusiva, para os professores generalistas, poderiam ser, em muitos casos, oferecidos pelos próprios professores especialistas, visto que, possuem saberes que serão importantes para a inclusão do aluno com necessidades educacionais especiais. Fontes (2007) afirma que devido ao despreparo dos professores generalistas, houve uma valorização dos saberes especializados dos profissionais da Educação Especial. Glat (2004a) lembra que o despreparo dos professores generalistas é agravado pelo número excessivo de alunos nas salas de aula, no qual apresentam também dificuldades de aprendizagem, mesmo os alunos ditos “normais”, dessa forma o professor não consegue dar a devida atenção ao aluno com necessidades educacionais especiais. Para facilitar o trabalho dos professores generalistas e / ou capacitados, a Resolução nº 2 (BRASIL, 2001b), no artigo 8º no inciso 4º, regulamenta os serviços de apoio pedagógico especializado, realizados nas classes comuns: a) atuação colaborativa de professor especializado em educação especial; b) atuação de professores-intérpretes das linguagens e códigos aplicáveis; c) atuação de professores e outros profissionais itinerantes intra e interinstitucionalmente; d) disponibilização de outros apoios necessários à aprendizagem, à locomoção e à comunicação. Denari (2004) sugere que a formação do professor especialista deve ter como meta o preparo para lidar com a diversidade, além de uma formação específica para a Educação Especial, com o objetivo de prover os suportes pedagógicos previstos na lei. Assim, para essa autora a formação tem que garantir: 1) que seja realizada em cursos de nível superior; 2) que a parte específica da formação tenha base pedagógica, visto que, esse profissional, antes de ser da Educação Especial, é professor; 3) que a parte específica vise à atuação colaborativa entre o professor da Educação Especial e o professor da classe comum, na ótica da Educação Inclusiva. Essa atuação colaborativa do professor especializado em Educação Especial com o da classe comum tem sido alvo de diversos estudos na área, conforme discutido no capítulo anterior. Alguns autores definem essa atuação como trabalho colaborativo, co-ensino (MENDES, 2006, 2008) ou bidocência (FONTES, 2007, 2008). Para Mendes (2006, 2008) o conceito de co-ensino acontece no processo em que o professor especialista auxilia o da classe comum. Porém, ela considera que ainda há a necessidade de mais pesquisas nessa área, a fim de desenvolver uma formação desses profissionais para a atuação colaborativa. Segundo Fontes (2007, 2008) no conceito de 46 bidocência, o trabalho colaborativo acontece seguindo duas vertentes: entre o professor regente da classe inclusiva e o professor da sala de recursos, e entre o professor regente e o professor de apoio. A função do professor de apoio é de dar suporte diariamente ao aluno com necessidades educacionais especiais na sala regular, juntamente com o docente da turma. Em síntese, não resta dúvida que a formação do professor para a Educação Especial, deve ser repensada, de acordo com os parâmetros da Educação Inclusiva. Assim, deve-se ter o objetivo de que esse profissional seja capaz de atuar colaborativamente com o docente da classe comum, independentemente se sua formação é de especialista generalista ou categorizado. Porém, deve atender às especificidades e singularidades do processo de ensinoaprendizagem dos alunos com necessidades educacionais especiais, estejam eles incluídos nas classes comuns ou através de um trabalho individualizado, nas salas de recursos ou classes especiais. Mendes (2008) coloca que as experiências colaborativas entre a Educação Especial e a Educação Regular mostram sucesso no processo de ensino-aprendizagem dos educandos com necessidades educacionais especiais. Entretanto deve-se atentar para alguns problemas cotidianos entre os professores, como tempo para o planejamento das atividades, a organização dos horários dos professores e estudantes e apoio administrativo. Bem como, as diferenças nas práticas pedagógicas e os relacionamentos interpessoais entre os professores das classes comuns e os alunos com necessidades educacionais especiais que estão incluídos. Concluindo podemos dizer que a colaboração é uma característica muito importante para a sociedade do século XXI, e a perspectiva da inclusão escolar parece estar lentamente transformando o panorama em direção ao crescimento da colaboração nas escolas. Se antes o significado da inclusão escolar era a mera colocação na classe comum de uma escola regular, hoje o conceito se amplia no sentido de abranger a “inclusão” não só do aluno mas também dos serviços de apoio, tendo a frente a perspectiva de que os dois sistemas que nasceram separados, a Educação Especial e a Educação Geral, possam finalmente unir seus esforços no sentido de buscar uma melhor educação para todos os alunos indistintamente (MENDES, 2008, p.115). Não só a Educação Especial e a Educação Regular devem exercer um trabalho colaborativo, mas como a formação em nível de graduação e pós-graduação23 precisam ser articuladas, objetivando um entendimento da política da Educação Inclusiva, aliado à pesquisa e a produção de saberes pedagógicos inclusivos. É importante o incentivo da formação continuada desses profissionais, a fim de eliminarmos as práticas excludentes existentes, por 23 Ver artigo sobre os 30 anos do Programa de Pós-Graduação em Educação da UERJ (REDIG, BÜRKLE & GLAT, 2009). 47 isso, é fundamental o estímulo aos cursos de pós-graduação em Educação, que seguem essa concepção. Como lembra Bueno (1999) uma qualificação crescente do professor implica em ações políticas, com financiamento, valorização do trabalho docente em todos os âmbitos, seja no salário, carreira entre outros. 48 3 Considerações e Reflexões acerca da Deficiência Intelectual Conceber a criança com deficiência mental como qualquer criança, um ser que se constitui como sujeito na sua relação com o outro, devendo ser-lhe dados, portanto, espaço e liberdade para ser sujeito, pessoa humana. Sob esta ótica, deve ser concebida pelo que é, e não somente através do déficit, do que lhe falta, do que não é (FERREIRA, 1998). Nesse capítulo temos como objetivo discutir o conceito de deficiência intelectual por meio de uma sucinta análise histórica sobre as concepções da Associação Americana de Retardo Mental (AAMR)24, baseada na edição de 2006. É importante destacar que, atualmente, estamos vivendo um momento de transição em que os termos retardo mental e deficiência mental estão sendo substituídos por deficiência intelectual, e a AAMR, atual AAIDD, já está reformulando o seu manual, com previsão de publicação da 11ª definição25 em 2011. O termo deficiência intelectual, atualmente adotada pela AAMR / AAIDD26, que se refere à mesma população classificada tradicionalmente como tendo um retardo ou deficiência mental, expressa que a pessoa não possui uma deficiência na mente, como um todo, e sim nos aspectos cognitivo / intelectual. A deficiência intelectual é compreendida com base em uma perspectiva ecológica, focando a pessoa em sua interação com o meio ambiente, bem como a 24 Essa é uma associação considerada referência, que, entre outras ações, promove aa produção de manuais, a fim de divulgar o conceito e serviços de apoios para as pessoas com deficiência intlelectual. Segundo Muniz (2008) a sua nomenclatura -- AAMD, AAMR e / ou AAIDD -- tem se modificado de acordo com as concepções de cada época. Originalmente era “American Association of Medical Officers of American Institutions for Idiotic and Feeble-Minded Persons”, depois passou a ser “Amercian Association for the study of Feebelminded”, transformando em “American Association on Mental Deficiency (AAMD)”, posteriormente se tornou “American Association on Mental Retardion (AAMR)”. Atualmente é “American Association on Intellectual and Developmental Disabilities (AAIDD)”. Nesse texto utilizaremos AAMR, por basearmos nosso estudo no sistema de suporte de 2002 (AAMR, 2006), o qual é usado na legislação oficial brasileira. O primeiro manual foi editado em 1921, sendo revisto em 1933, 1941, 1957, 1959, 1961, 1973, 1983, 1992, 2002 (CARVALHO apud MUNIZ, 2008) e a próxima de acordo com o site da AAMR será publicado em 2011. Embora haja todas essas revisões, analisaremos as diferentes concepções sobre deficiência mental a partir da revisão de 1959, pois somente nesse período foi que as edições ficaram conhecidas no Brasil, sendo aplicadas na Educação, de acordo com Muniz (2008), em 1973. Para um maior aprofundamento da temática, ver Muniz (2006, 2008), bem como o manual da AAMR. Estamos baseando nossos estudos na 10ª edição de 2006. 25 Maiores informações sobre o manual, ver no site: http://www.aamr.org 26 Segundo Oliveira (2008) Essa terminologia foi aprovada na Declaração de Montreal sobre Deficiência Intelectual. Para um maior aprofundamento sobre essa temática ver Schalock et al (2007), Wehmeyer et al (2008) e Milanez (2008). 49 aplicação do sistema de suporte individualizado para o desenvolvimento funcional do sujeito (SCHALOCK et al, 2007). Esse capítulo pretende também refletir sobre a inclusão da pessoa com deficiência intelectual na classe comum e acerca do processo de ensino-aprendizagem destes educandos. Por isso, é fundamental entender os caminhos percorridos para a construção da terminologia da deficiência intelectual, pois o laudo médico pode ser entendido como uma “porta”, que abre o caminho para essa pessoa ou que fecha o mundo para seu desenvolvimento e interação. Por isso, Carneiro (2007, p.42) afirma que “mais importante que diagnosticar a deficiência, é apresentar propostas de intervenção que promovam o desenvolvimento”. 3.1 Reflexões sobre o conceito de deficiência intelectual no século XX: a construção e a desconstrução de um pensamento Até o século XIX, a deficiência intelectual era compreendida por meio de lendas e 27 mitos , só após este momento é que passou a ter uma base científica reconhecida; entretanto, desde o século XVIII havia teóricos que buscavam discutir a questão (MUNIZ, 2008). Segundo Pletsch (2009), a concepção sobre deficiência intelectual foi influenciada por saberes de diversos campos, como a Medicina, Educação, Psicologia, Neurologia e a Antropologia. As terminologias definidas para designar essas pessoas eram: Idiotia (século XIX), debilidade mental e infradotação (início do século XX), imbecilidade e retardo mental (com seus níveis leve, moderado, severo e profundo) e déficit intelectual / cognitivo final do século XX. O termo deficiência mental é relativamente recente. Foi criado em 1939, durante o Congresso de Genebra, numa tentativa de minimizar a carga negativa presente nos termos da época e estabelecer um padrão internacional (PLETSCH, 2009, p.76, grifo da autora). De acordo com Muniz (2008), desde 1908 já existia uma definição sobre a deficiência intelectual, porém apenas em 1937, Tredgold divulgou esta conceituação: “[...] um estado de desenvolvimento mental incompleto de tal tipo e grau que torna o indivíduo incapaz de se adaptar ao ambiente normal de seus semelhantes, de maneira a manter uma existência independente de supervisão, controle externo ou apoio” (p.04, grifo da autora). Em 1941, Doll tornou público outro conceito de deficiência intelectual: “[...] uma maturação mental incompleta que aparece desde o nascimento, ou em uma idade relativamente precoce, como conseqüência de possibilidades inatas limitadas, ou de influências variadas que detêm o crescimento mental normal” (MUNIZ, 2008, p.04). Esse 27 Para o aprofundamento do tema, ler Pessoti (1984). Para leitura sobre a história e o processo de ensinoaprendizagem de pessoas com deficiência intelectual, ver Fernandes & Corrêa (2008). 50 autor desenvolveu seis critérios para o diagnóstico, destacando os quatro primeiros: “1) incompetência social, 2) devido à subnormalidade mental, 3) devido a uma paralisação no desenvolvimento, 4) que se obtém na maturidade, 5) que é de origem constitucional e 6) que é essencialmente incurável”. De acordo com o manual da Associação Americana de Retardo Mental (AAMR, 2006, p.30) os quatro primeiros critérios da definição de deficiência intelectual desenvolvido por Doll ainda permanecem nas conceituações atuais. Esses conceitos foram utilizados até a metade do século XX, quando a deficiência intelectual era considerada uma “doença incurável”, sendo que essas pessoas deveriam ser isoladas / segregadas da sociedade, devido ao seu baixo quociente de inteligência (QI). Desde o surgimento do teste de Binet-Simon, no início do século XX, a classificação em níveis de funcionamento passou a ser considerada de acordo com a idade mental do sujeito, por meio de pontuações numéricas, definindo-se então, as subcategorias da deficiência intelectual. Em 1910, a AAMR criou três subcategorias para categorizar a pessoa com deficiência intelectual, bobos, imbecis e idiotas. Quando os pesquisadores da área perceberam que a idade mental não correspondia ao desenvolvimento da pessoa, por não acontecer de forma linear, os índices do QI passaram a substituir os índices de idade mental, como forma de avaliação e diagnóstico desses indivíduos (AAMR, 2006). Somente em 1954, a Organização Mundial de Saúde (OMS), sugeriu a mudança dessas subcategorias pelos adjetivos: leve, moderado, severo e profundo (MUNIZ, 2008). De acordo com esta autora (MUNIZ, 2008, p. 05) “antes de 1959 a OMS denominava e / ou classificava as pessoas estabelecendo parâmetros baseados apenas na causa orgânica / etiológica geradora da deficiência, desconsiderava por completo as atitudes comportamentais dos sujeitos diante das relações com o meio social”. Em 1959, a AAMR (2006), com sua 5ª definição e classificação da deficiência intelectual, desenvolvida por Heber, publicou o seguinte conceito que se refere ao: funcionamento intelectual geral abaixo da média que se origina durante o período de desenvolvimento (do nascimento até mais ou menos os dezesseis anos) e está associado a uma deficiência em uma ou mais áreas, no que concerne o amadurecimento, aprendizagem e ajustamento social. Para o diagnóstico da deficiência intelectual, entretanto, eram utilizados apenas os testes de QI, levando em conta somente a “inteligência” do sujeito. O comportamento adaptativo refere-se à forma como o sujeito encara as demandas naturais e sociais do ambiente, a maneira como ele funciona e se mantém independente, bem como o grau em que satisfaz as demandas impostas pela sociedade em relação à responsabilidade pessoal e social. 51 Seguindo a linha histórica da conceituação da deficiência intelectual no século XX, é importante definirmos o que entendemos por inteligência28. Segundo a AAMR (2006, p.25) “a inteligência é uma habilidade mental geral. Inclui raciocínio, planejamento, resolução de problemas, pensamento abstrato, compreensão de idéias complexas, aprendizagem rápida e aprendizagem a partir da experiência”. Para Stermberg (2000, p.372, grifo do autor) “o desenvolvimento cognitivo envolve mudanças qualitativas no pensamento, tanto quanto mudanças quantitativas, tais como o aumento do conhecimento e da capacidade”. Isto significa que o processo cognitivo influencia na aprendizagem dos alunos. Portanto, é necessário que o professor entenda como este desenvolvimento acontece para facilitar o processo de ensino-aprendizagem dos seus estudantes29. Retornando à conceituação de deficiência intelectual, a AAMR em sua 6ª revisão, desenvolvida por Heber em 1961, entende esta como o funcionamento intelectual geral abaixo da média que se origina durante o período do desenvolvimento (do nascimento até os dezesseis anos) e está associado com deficiência no comportamento adaptativo. De acordo com Tessaro (2005, p.30), o comportamento / funcionamento adaptativo refere-se “a maneira como a pessoa enfrenta, efetivamente, as exigências comuns da vida e o grau em que experimenta uma independência pessoal compatível com sua faixa etária, bem como o grau de bagagem sociocultural do contexto comunitário no qual se insere”. Esta definição representa um marco, pois permite avaliar a pessoa com deficiência intelectual de acordo com a sua interação social, além do amadurecimento, aprendizagem e ajustamento social. A deficiência intelectual era sub-classificada em: limítrofe, leve, moderada, severa e profunda. Com esse conceito teve início o estabelecimento de uma condição mais permissiva ao se avaliar a pessoa com deficiência mental. O conceito de 1961 foi o primeiro a apresentar possibilidade de oferecer a interação da pessoa deficiente mental com o seu meio social. Esse mesmo conceito apresentou uma pequena mudança de foco quanto à forma de avaliar, se comparado ao conceito de 1959. Quanto à sua praticidade não ofereceu maiores respaldos para que as formas classificatórias dos testes de QI, utilizados por profissionais envolvidos com a questão da deficiência mental, fossem definitivamente abandonadas (MUNIZ, 2008, p.06). 28 Lima (2006) fez um breve paralelo sobre inteligência em relação às pessoas com deficiência intelectual e altas habilidades, além de conceituar esses dois casos. 29 Há vários estudos sobre o desenvolvimento cognitivo, como Ferreira (1998), Piaget (2007), Vigotski (1997, 1998, 2005) entre outros. 52 Em 1973, foi editada por Grossman, a 7ª definição da AAMR (2006, p.31), na qual está especificado que: “o retardo mental refere-se a um funcionamento intelectual geral significativamente abaixo da média, existente ao mesmo tempo com déficits no comportamento adaptativo e manifestado durante o período desenvolvimental”. Nesta definição, o período de desenvolvimento foi ampliado, passando dos 16 anos para os 18 anos. O diagnóstico de deficiência intelectual era baseado no escore obtido em testes padronizados de QI e medidas de comportamento adaptativo. Compreendia-se por comportamento adaptativo o desenvolvimento da independência pessoal e responsabilidade social relativa à idade e grupo cultural, refletida nos primeiros anos, infância, adolescência e vida adulta. Em relação ao final da adolescência e vida adulta, é interessante ressaltar que a AAMR colocava como uma das características o desempenho vocacional e social. Assim, percebemos uma nova visão do sujeito com deficiência intelectual, que passa a ser considerado como um “ser social capaz de responder às demandas da sociedade em que vive” (MUNIZ, 2008, p.06). A deficiência intelectual passou a ser sub-classificada em leve, moderada, severa e profunda, sendo a inteligência limítrofe localizada entre o retardo e a inteligência média, considerando os indivíduos, assim diagnosticadas, como “aprendizes lentos”. Esse ponto é fundamental para a concepção de que a pessoa com deficiência intelectual aprende e é capaz de produzir conhecimento. Esse é o início, de forma bem embrionária, para compreendermos o processo de ensino-aprendizagem desses sujeitos, visto que, a partir do momento que são considerados “aprendizes lentos”, indica a capacidade de aprender algo, desmistificando a idéia de incapacidade. Vale ressaltar, que essa definição surgiu na mesma época em que se criou a política da Integração (como visto no Capítulo 1), momento propício a essa nova concepção, na qual acreditavam que a pessoa com necessidades educacionais especiais era capaz de aprender. Em 1983, Grossman, revisou novamente a definição de deficiência intelectual da AAMR (2006, p.32), divulgando a 8ª edição, no qual era assim conceituada: “funcionamento intelectual geral significativamente abaixo da média, resultando em ou associado a deficiências concomitantes no comportamento adaptativo e manifestado durante o período de desenvolvimento”. Nessa definição, houve uma grande modificação em relação às anteriores, pois o período de desenvolvimento passou a ser considerado como o tempo entre a concepção e os 18 anos, assim, compreende-se que a pessoa se desenvolve a partir do momento de sua concepção. Nessa definição o diagnóstico ainda era baseado nos escores de testes padronizados de QI e em medidas de comportamento adaptativo. Este era considerado como limitações 53 importantes no amadurecimento, aprendizagem, independência pessoal e responsabilidade social esperadas para sua faixa etária e grupo cultural. Nesse sentido, passou a se observar as limitações importantes que essa pessoa apresentava e não mais o grau de eficiência esperado pela sociedade. A deficiência intelectual ainda era sub-categorizada em leve, moderada, severa e profunda. Antes de começarmos a discutir a próxima revisão da AAMR, vale fazer um contraponto com as definições de deficiência intelectual expostas na Classificação Internacional de Doenças (CID-10) e no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV). Segundo Kaplan & Sadock (1998) o termo “deficiência mental” era utilizado de forma concomitante com “retardo mental”, sendo que a AAMR escolheu o termo “retardo mental” criticando a CID, porém a OMS sugeriu a utilização da terminologia “subnormalidade mental”, no qual inclui duas categorias: retardo mental referindo-se ao “funcionamento subnormal secundário a causas patológicas básicas identificáveis” (p.955) e deficiência mental designando às pessoas com QI abaixo de 70. O DSM-IV, de acordo com Ballone (apud Tessaro, 2005), recomenda que não sejam diagnosticadas como deficiente intelectual, apenas as pessoas que apresentem o QI inferior a 70, mas também, deve existir comprometimentos e prejuízos significativos no funcionamento adaptativo. Esse conceito vai de encontro com o Compêndio de Psiquiatria (KAPLAN & SADOCK, 1998). No CID-1030 (apud AAMR, 2006, p.104), a deficiência intelectual é entendida como: uma condição de desenvolvimento paralisado ou incompleto da mente, que é especialmente caracterizado pela deficiência das habilidades manifestadas durante o período desenvolvimental, habilidades que contribuem para o nível geral de inteligência, isto é, as habilidades cognitivas, de linguagem, motoras e sociais. [...] Os graus de retardo mental são convencionalmente estimados por testes de inteligência padronizados. [...] O diagnóstico deve ser baseado nos níveis atuais de funcionamento (grifo nosso). O CID foi revisto em 1983, e o resultado dessa revisão originou o CID-10, que apenas foi implementado nos Estados Unidos da América em 2004. Por essa classificação, a deficiência intelectual passou a ser divida em graus de acordo com os testes de QI, esses se apresentam em (AAMR, 2006): 30 Para uma análise mais aprofundada do CID-10 em relação ao conceito da AAMR ler AAMR (2006). 54 1. Retardo mental leve: extensão aproximada de QI de 50 a 69, resultando em algumas dificuldades de aprendizagem na escola. Alguns adultos conseguirão trabalhar, manter relacionamentos sociais e contribuir para a sociedade. 2. Retardo mental moderado: QI de 35 a 49, resultando em significativos atrasos de desenvolvimento na infância, todavia a maioria pode aprender a desenvolver a independência no auto cuidado, habilidades na comunicação e acadêmico. Os adultos irão precisar suportes para trabalhar e viver em sociedade. 3. Retardo mental grave: QI de 20 a 34, podendo necessitar de apoio contínuo para exercer as atividades. 4. Retardo mental profundo: QI inferior a 20, resultando limitação severa na autonomia e no desenvolvimento de tarefas. 5. Retardo mental não especificado: quando há suspeita de deficiência intelectual, porém não há condições de diagnosticar por instrumentos padronizados, como no caso de bebês. Para a AAMR (2006), a definição de deficiência intelectual dada pela CID apresenta muitas limitações em relação à sua concepção, pois a avaliação ainda se restringe ao QI, tendo o comportamento adaptativo como suplemento opcional. Após uma análise das categorias, percebemos que as pessoas enquadradas como retardadas mentais profundas ou severas, não seriam capazes de fazer praticamente nada com autonomia, o que significa que as expectativas funcionais estabelecidas para elas, são praticamente nulas. Precisa ser ressaltado que a CID-10 não é um manual diagnóstico detalhado, mas um sistema para designar códigos estatísticos para a identificação das condições de saúde. Como a CID é amplamente utilizada no campo médico, é freqüentemente usada pelos profissionais para identificar o retardo mental, dar entrada com o diagnóstico nos sistemas de dados de atenção à saúde. A CID-10 não pretende ser e nem é adequada para objetivos de avaliação ou para a determinação de apoios (AAMR, 2006, p.105-106). Em 199231, houve uma revolução na área, com a 9ª revisão da AAMR (2006, p.32-33), realizada por Luckasson, no qual a definição de deficiência intelectual passou a referir-se às: “limitações substanciais no funcionamento atual. É caracterizado por um funcionamento intelectual significativamente abaixo da média, existente ao mesmo tempo com limitações relacionadas em duas ou mais das seguintes áreas de habilidades adaptativas aplicáveis”. As 31 Para o aprofundamento desse tema, ler Fernandes (1999, 2000), AAMR (2006), Fernandes, Redig, Couto Junior & Ribeiro (2006), Schalock et al (2007). 55 áreas de habilidades adaptativas estão relacionadas à comunicação, auto-cuidado, vida doméstica, habilidades sociais, uso da comunidade, auto direcionamento, saúde e segurança, aprendizagem funcional, lazer e trabalho. Essa definição também compreende o período de desenvolvimento como sendo da concepção até os 18 anos. Para o diagnóstico são utilizados os testes padronizados de QI, mas também testes de habilidades de comportamento adaptativo, juntamente com observações de profissionais preparados. Fernandes (2000) desenvolveu um estudo sobre os modelos de suportes utilizados pela AAMR em 1992, elaborando um protocolo adaptado à realidade brasileira, que se refere às dez áreas propostas pela AAMR. Nesse estudo, atribui-se categorias com respostas baseadas em positivo, negativo e necessidade de suporte, com a finalidade de estabelecer os “perfis” das Capacidades Adaptativas nos referidos sujeitos. Esse “modelo ecológico” tem como base um triângulo eqüilátero, visto que, todas as áreas32 são importantes para o diagnóstico da pessoa com deficiência intelectual, não prevalecendo apenas o resultado dos testes padronizados de QI, compreendendo que essa pessoa não corresponde somente à “deficiência”, mas sim à uma pessoa plena, além de sua deficiência, com capacidades e potencialidades. A partir da avaliação do sujeito são propostos os tipos de suportes para o seu melhor desenvolvimento. Fernandes et al (2006), realizaram uma pesquisa, utilizando o questionário adaptado por Fernandes (2000), com 14 pessoas com deficiência intelectual entre cinco e 39 anos de idade. A partir de suas respostas, foi observado que aqueles que possuíam suportes de profissionais da Saúde e principalmente da Educação, tiveram um desenvolvimento social e acadêmico melhor do que as que não tiveram nenhum apoio e que não foram compreendidas por esse modelo da AAMR. Ou seja, crianças de cinco anos incluídas em classes comuns foram consideradas mais desenvolvidas, não só academicamente, mas em todas as demais capacidades adaptativas, do que os adultos que freqüentaram escolas ou classes especiais e mais ainda dos que nem a isso tiveram acesso. 32 Essas áreas analisadas representam a capacidade da pessoa avaliada por meio de testes de inteligência, o ambiente em que a pessoa está inserida, levando em conta todos os lugares que ela freqüenta, bem como os níveis de suporte (PLETSCH, 2009). 56 Capacidades Adaptativas Comunidade Comunicação Cuidados pessoais Vida doméstica Independência Funcionalidades acadêmicas Uso comunitário Habilidades sociais Segurança Saúde Trabalho Lazer Casa Escola Igreja Clube Inteligência Funcionalidades Suportes Figura I: Modelo de suportes da AAMR de 1992, adaptado por Fernandes (2000). Em função das muitas críticas ao modelo da AAMR de 1992, foi feita uma nova revisão em 200233, criando a 10ª definição, elaborada por Luckasson. De acordo com Pletsch (2009, p.79-80), a concepção de 1992, foi criticada no Brasil por enfatizar demasiadamente o sujeito e suas limitações com base em resultados psicométricos sem levar em consideração o contexto social, especialmente pelos teóricos que discutiam a deficiência como uma ‘construção social’ [...] Para a maioria, a deficiência não era algo que emergia exclusivamente com o nascimento, mas se construía no grupo social no qual a pessoa estava inserida (OMOTE, 1994). Ou seja, a deficiência não era vista apenas como uma condição intrínseca orgânica do sujeito, mas sim também produzida a partir do meio social em que ele vive. Segundo a AAMR (2006), algumas críticas à 9ª definição foram: 1) a eliminação dos níveis de severidade; 2) substituição dos níveis de apoio pelos níveis de severidade; 3) critério do QI de 70 para 7534; 4) imprecisão no uso das habilidades de comportamento adaptativo e sua mensuração; 5) indivíduos com “retardo mental leve”; 6) ampla extensão da heterogeneidade na população. 33 Para uma discussão desta, ler Fontes, Pletsch, Braun & Glat (2007), Muniz (2008), Wehmeyer et al (2008), Pletsch (2009), entre outros. 34 Segundo Milanez (2008) dependendo do teste utilizado para a medição do Q.I., o resultado pode variar até em cinco pontos na escala. 57 Os autores que criticaram a definição de 1992, argumentam que as pessoas classificadas como tendo retardo mental leve representam à 75 a 85% da população com deficiência intelectual; com o novo modelo de suportes, essas pessoas estão sendo diagnosticadas na escola como tendo dificuldades de aprendizagem, devido ao estigma que se aplica a um grupo extremamente diversificado (AAMR, 2006). Para Glat (2009b) as pessoas com deficiência intelectual leve tem mais em comum com os sujeitos ditos “normais” do que os considerados com deficiência intelectual severa. Percebe-se então, que essas pessoas apesar de terem o mesmo diagnóstico de deficiência intelectual, são diferentes entre si, por isso, é necessário conhecermos e relevarmos as peculiaridades de cada um. A 10ª edição, publicada em 2002, define deficiência intelectual como: “uma incapacidade caracterizada por importantes limitações, tanto no funcionamento intelectual quanto no comportamento adaptativo, expresso nas habilidades adaptativas conceituais, sociais e práticas. Essa incapacidade tem início antes dos 18 anos de idade” (AAMR, 2006, p.20). A AAMR (2006) aponta cinco situações para a aplicação dessa definição: 1) as limitações no funcionamento atual devem ser consideradas a partir do contexto social, das características da mesma faixa etária e cultural do sujeito; 2) a avaliação deve ponderar a diversidade lingüística e cultural, bem como as diferenças na comunicação, nos fatores sensoriais, motores e comportamentais; 3) as limitações do indivíduo coexistem com as potencialidades; 4) cada indivíduo tem um perfil específico de suportes que necessita para seu desenvolvimento; 5) com os apoios personalizados adequados as peculiaridades de cada pessoa, o desenvolvimento do sujeito com deficiência intelectual tende a melhorar. A avaliação para o diagnóstico da pessoa com deficiência intelectual permaneceu praticamente o mesmo do modelo de 1992, acrescentando o uso de medidas e processos de avaliação válidos, considerando também o mesmo período de desenvolvimento, ou seja, da concepção até o 18º aniversário. Os níveis de comprometimento correspondem à intensidade do apoio, variação do QI, limitações do comportamento adaptativo, categorias de saúde mental entre outros. Este modelo reconhece que as limitações no comportamento adaptativo, interferem na vida cotidiana da pessoa, bem como na capacidade de reagir a mudanças. Devem ser analisadas de acordo com as cinco dimensões definidas pela AAMR: 58 Dimensão I Dimensão II Sistema de 1992 Sistema de 2002 Funcionamento intelectual e habilidades adaptativas Considerações psicológicas e emocionais Habilidades intelectuais Dimensão IV Saúde e considerações físicas Considerações ambientais Dimensão V - Dimensão III Comportamento adaptativo: habilidades conceituais, sociais e práticas Participação, interações e papéis sociais Saúde: física, mental e etiologia Contexto: ambientes, cultura Tabela I: Tabela comparativa sobre as dimensões nos sistemas de 1992 e 2002 (AAMR, 2006). No modelo de 2002, houve um acréscimo da dimensão V, para ficar consistente com a Classificação Internacional do Funcionamento da Deficiência e da Saúde – CIF (AAMR, 2006). A 10ª definição da AAMR continua sendo um modelo ecológico, considerando que a pessoa interage com o ambiente e que precisa de suportes. Porém, a revisão foi necessária para incorporar a multidimensionalidade da deficiência intelectual e o papel da intervenção e mediação proporcionada pelo sistema de suporte para cada sujeito. Segundo a AAMR (2006, p.21) “cada uma das influências multidimensionais no funcionamento do indivíduo é mediada por meio de apoios disponíveis para a pessoa. [...] a necessidade de apoios pode influenciar reciprocamente o funcionamento”. Esse sistema, apesar de algumas mudanças em relação ao de 1992, mantém a concepção de que a pessoa com deficiência intelectual é um sujeito que deve ter como meta o seu desenvolvimento pleno, para contribuir com a sociedade. A visão de que o sujeito é capaz, inovou a forma de compreender e entender essas pessoas, tanto na sua vida doméstica, mas principalmente no seu processo de ensino-aprendizagem. Ao considerar o deficiente mental a partir do que ele é capaz de ser, de fazer, de entender, de assumir como pessoa, revelam-se a todos nós e a ele próprio possibilidades que se escondiam, que não lhe eram creditadas, por falta de oportunidades de emergirem espontaneamente (MANTOAN, 1989, p.161). A definição de 2002 trouxe um novo modelo de suporte representado a seguir: 59 I. Habilidades Intelectuais II. Comportamento Adaptativo Apoios Funcionamento Individual III. Participação, Interações, Papéis Sociais IV. Saúde V. Contexto Figura II: Modelo teórico dos suportes da AAMR 2002. O sistema de suporte / apoio proposto por essa definição, tem o compromisso de “proporcionar uma base mais natural, eficiente e contínua para melhorar os resultados pessoais” (AAMR, 2006, p.141). Os apoios podem ser naturais e serviços, o primeiro referese aos recursos e estratégias utilizados pela própria pessoa com deficiência ou outras pessoas do seu cotidiano, como por exemplo, seus familiares. Já o segundo tipo de suporte é de responsabilidade dos profissionais da Educação, Saúde, Assistência Social, bem como todos que não fazem parte do “ambiente natural” da pessoa. Esses apoios são divididos em quatro categorias em função aos seus níveis de intensidade e necessidade (AAMR, 2006; FONTES, PLETSCH, BRAUN & GLAT, 2007; PLETSCH, 2009): 1) Apoio Intermitente: Proporcionado com “alta” ou “baixa” intensidade; é oferecido de forma esporádica de acordo com a necessidade da pessoa. Esse suporte é de natureza episódica ou de curto de prazo. 2) Apoio Limitado: Realizado por um tempo limitado, mas não de forma contínua. Esse suporte pode envolver menos recursos humanos e financeiros em relação aos mais intensos, porém é oferecido por tempo limitado. 3) Apoio Extensivo: Utilizado por tempo ilimitado, de forma periódica e regular em alguns ambientes, como a escola, trabalho, casa, entre outros. 60 4) Apoio Pervasivo: Oferecido de forma constante e com alta intensidade, principalmente para as pessoas com um maior grau de comprometimento, sendo disponibilizado em todos os ambientes ao longo da vida do sujeito, envolvendo uma equipe multidisciplinar. Com esse sistema de apoio, a inclusão da pessoa com deficiência intelectual poderá acontecer de forma, realmente, benéfica e eficaz. Esses suportes auxiliam o trabalho do professor da classe comum, bem como o processo de ensino-aprendizagem desses educandos. Tem a vantagem adicional de estimular o desenvolvimento de uma equipe multidisciplinar dentro do sistema educacional, em parceria com a Saúde. Segundo a AAMR (2006) os apoios estendem-se pelas áreas de Reabilitação, incluindo a Educação, família, emprego, Medicina e vida comunitária. É interessante ressaltar que o conceito de apoios, no qual se deve desenvolver suportes para minimizar as dificuldades e “limitações” do sujeito, vem de encontro com a concepção do desenvolvimento sócio-histórico de Vigotski, e seu conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que significa: a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes (VIGOTSKI, 1998, p.112). O nível de desenvolvimento real são as funções mentais da criança que já estão completas, ou seja, o que ela já aprendeu, já sabe. E o nível de desenvolvimento potencial são as funções mentais que serão construídas, através da mediação de outra pessoa e que a criança não seria capaz de construí-la sozinha. Em termos escolares, a zona de desenvolvimento proximal implica na mediação do professor ou de outra pessoa. Portanto, é de extrema importância que ele saiba o nível de desenvolvimento real do educando e qual o nível potencial (o objetivo estipulado no momento), que através da mediação o aluno poderá alcançar e construir o seu próprio conhecimento. Isso não significa que o limite máximo que a pessoa pode alcançar, mas sim o início para uma nova produção de conhecimento, e assim sucessivamente. Entretanto, como lembra Carneiro (2007), a escola valoriza mais o produto final do que o processo de construção do conhecimento. Dessa forma, enfatizamos as funções que já estão desenvolvidas no aluno e não as interações que promovem processos de aprendizagem, estimulando o 61 desenvolvimento real do educando. Acreditamos que a essência do conceito de adaptações / adequações curriculares35 é exatamente esse, o de adaptar o processo de construção do conhecimento e não apenas “empobrecer” o currículo, pensando somente no produto final, sem pensar no caminho que o aluno percorrerá para chegar lá. Para Vigotski (1998) somente através da interação da criança com outras pessoas em seu meio e da troca de experiências é que despertará diversos processos internos de desenvolvimento, estabelecendo o aprendizado. A ilustração a seguir, representa o esquema da zona de desenvolvimento proximal. Nível de desenvolvimento real: habilidades que a criança já domina. Zona de desenvolvimento proximal: habilidades que a criança está começando a aprender com a ajuda de outra pessoa. Nível de desenvolvimento potencial: habilidades que estão fora das aptidões atuais da criança. Figura III: Zona de Desenvolvimento Proximal 35 As adaptações curriculares ou adequações curriculares podem ser de dois tipos: adaptações curriculares significativas ou de grande porte e não significativas ou de pequeno porte. A primeira refere-se às adaptações de responsabilidade dos gestores da escola, como mudanças no projeto político pedagógico, objetivos, avaliação, temporalidade, currículo, materiais. A segunda são as adaptações de encargo dos professores regentes, como nos objetivos, metodologia, temporalidade, avaliação. Essas adaptações apesar de serem direcionadas para cada profissional, não significa que uma não esteja interligada com a outra, pois o ato de adaptar o processo de ensino-aprendizagem é de responsabilidade de todos os profissionais da educação. Há vários estudos sobre essa temática, como Fernandes & Redig (2005, 2006, 2007), Fernandes; Glat; Orrico; Redig & Feijó (2005), Redig (2005), Oliveira & Machado (2007), Fernandes, Antunes & Glat (2007), Bürkle & Redig (2008), Fernandes, Redig, Silva (2008), Oliveira (2008), Fernandes, Redig, Silva & Silva (2009) entre outros. 62 Partindo desse pressuposto, verificamos a importância do sistema de apoio ser desenvolvido a partir da concepção da zona de desenvolvimento proximal. Pois, os suportes poderão melhorar as condições de funcionalidades das pessoas com deficiência intelectual. Para Pletsch (2009, p.87): Tomando como base esse sistema de apoios, acreditamos que seja possível incluir em classe comum crianças com deficiência mental, possibilitando seu desenvolvimento social e aprendizagem significativa. Como discutido, os profissionais da Educação Especial, munidos com o conjunto de conhecimentos pedagógicos construídos historicamente, poderiam atuar como apoio ao ensino regular com alunos com deficiência mental incluídos em suas salas de aula. [...] Outrossim, não é demais lembrar que a escolha do tipo de apoio precisa levar em consideração a opção que proporcione mais benefícios ao aluno. Também cabe destacar que, apesar de adotar o conceito de deficiência mental segundo a AAMR, as políticas educacionais nunca incorporam o sistema de apoio tal qual proposto por essa associação. Em suma, a deficiência intelectual, antes era considerada uma doença. Agora, a ênfase é na pessoa, na sua interação com o meio. Reconhece-se que o sistema de suportes propicia o seu desenvolvimento, facilitando o processo de inclusão educacional e social. Pessoas com deficiência intelectual passam pelo mesmo processo de construção do conhecimento dos ditos “normais”, porém de forma um pouco mais devagar. Como lembra Carneiro (2007, p.39) “os princípios de desenvolvimento das crianças com deficiência mental são os mesmos das crianças ditas normais, apenas com alterações na organização da estrutura durante o curso desse desenvolvimento”. É importante que o professor compreenda que para a inclusão desse indivíduo aconteça de fato, o educador não deve se limitar apenas às atividades concretas com o aluno com deficiência intelectual. Ele precisa ter a oportunidade de alcançar outros níveis de complexidade do pensamento. Isso somente será possível por meio de um trabalho pedagógico adequado para minimizar suas dificuldades, desenvolver suas potencialidades e habilidades, com o objetivo do seu desenvolvimento pleno. Partindo do pressuposto do conceito sócio-histórico, segundo o manual da AAMR (2006), do qual baseia-se a concepção da AAMR, em que a pessoa com deficiência intelectual deve ser avaliada a partir do seu contexto, percebemos que o processo de ensinoaprendizagem também precisa compreender que, nas palavras de Vigotski (1997, p.76): uma criança deficiente representa um tipo de desenvolvimento qualitativamente diferente e único. Se uma criança cega ou surda atinge o mesmo nível de desenvolvimento de uma criança normal, ela o faz de outra maneira, por outros meios; e, para o pedagogo, é particularmente importante estar ciente da 63 singularidade deste caminho pelo qual deverá guiar a criança. Essa singularidade transforma o menos da deficiência no mais da compensação. Uma das dificuldades para o processo de escolarização dessas pessoas, apontada por Mantoan (1989), é que os professores ao lecionarem para esses alunos, limitam-se somente à sua condição, às suas dificuldades. Por outro lado, os professores que estão acostumados com os alunos ditos “normais” prendem-se ao que é característico da maioria, sem levar em conta os processos de aprendizagem de cada educando. Por isso, é fundamental rompermos com a barreira do estereótipo e entendermos que: [...] deve se levar em conta que a criança com deficiência mental tem alterações nos processos mentais que interferem na aquisição da leitura, dos conceitos lógicomatemáticos, na realização das atividades da vida diária, no desempenho social, entre outras habilidades. Contudo, novamente ressaltamos que essas alterações não são determinantes por si só para o processo de ensino-aprendizagem e conseqüentemente do desenvolvimento. Para Ferreira (2003), estes aspectos podem se tornar ainda mais deficitários, na medida em que se destina para estes alunos experiências de aprendizagem “que mobilizam basicamente as funções psicológicas elementares com um significativo distanciamento da cultura” (p.136) (PLETSCH, 2009, p.90). Então, entendemos que as pessoas com deficiência intelectual devem ser compreendidas como sujeitos capazes de produzir conhecimentos e de serem cidadãs ativas na sociedade, rompendo com a barreira do estigma do laudo. 64 PARTE II Narrativas das Professoras Especialistas: pesquisa de campo 65 4 Caminhos metodológicos: a trajetória percorrida Em misto de medo e força Pesquiso entre os escritos Versos, frases e crônicas (de futebol, não faz mal) Do boêmio de outros tempos Que por amor ou paixão (serão sinônimos ou não?) Deu-me vida não pedida (ELOYSA, 1999, p.22) Nesse capítulo temos o objetivo de discutir a trajetória metodológica percorrida para o desenvolvimento da presente pesquisa, os participantes envolvidos e os procedimentos para a coleta e análise dos dados. A escolha da metodologia é importante, pois deve atender aos objetivos da pesquisa e às expectativas pretendidas. Nessa direção, discutiremos sobre pesquisa qualitativa com a utilização de entrevistas semi-estruturadas com professores da Educação Especial que lecionam para alunos com deficiência intelectual. Entendemos que é necessário darmos voz aos profissionais que atuam, na prática, com alunos com necessidades educacionais especiais, a fim de compreendermos e refletirmos sobre as práticas pedagógicas vigentes na Educação Brasileira na perspectiva da Educação Inclusiva. 4.1 Pesquisa qualitativa com entrevistas semi-estruturadas: algumas considerações sobre o método A pesquisa qualitativa “envolve a obtenção de dados descritivos, obtidos no contato direto do pesquisador com a situação estudada, enfatiza mais o processo do que o produto e se preocupa em retratar a perspectiva dos participantes” (BOGDAN & BIKLEN apud LÜDKE & ANDRÉ, 1986, p.13). Para Godoy (apud SOUSA, 2007, p.67) as características para identificação de uma pesquisa qualitativa são: “o ambiente natural como fonte direta de dados e o pesquisador como instrumento fundamental; o caráter descritivo; o significado que as pessoas dão às coisas e à sua vida como preocupação do investigador; o enfoque indutivo”. Segundo Duarte, Oliveira, Augusto & Melo (2008) a pesquisa qualitativa reconhece que os sujeitos envolvidos no estudo são capazes de produzir conhecimentos e desenvolverem 66 práticas para intervirem nas situações problemáticas que encontram. Eles acreditam também que o professor é sujeito do processo em que se produz o conhecimento sobre ele. A comunicação desempenha um papel fundamental nesse processo e constitui o espaço no qual o sujeito vai amadurecendo e construindo, de forma coletiva e cada vez mais complexa, sua expressão, condição essencial para o conhecimento que se constrói (DUARTE, OLIVEIRA, AUGUSTO & MELO, 2008, p. 223-224). De acordo com Müller & Glat (1999) através da escuta do que o sujeito ou um grupo de sujeitos têm a dizer é possível conhecer a realidade destes indivíduos, sendo esta uma das formas mais relevantes de se entender o contexto em que eles vivem. Para tal, há diferentes métodos como a utilização de escalas, questionários, entrevistas semi-estruturadas e abertas (GLAT, 2009b). Para Manzini (2008) a entrevista pode ser utilizada como forma única para a coleta de dados, ou de maneira secundária, para complementar informações. Para ele (MANZINI, 2008, p.8, grifo do autor) “é certo que o pesquisador que irá coletar informações por meio de entrevista terá um dado de natureza muito particular: a versão sobre um evento ou fato”, isso significa, que esse fato ou evento foi vivenciado pelo entrevistado, fazendo parte de sua realidade. Então, os dados obtidos pelas entrevistas expressam opiniões, concepções e descrições informadas pelos participantes. A entrevista é um momento de interação social, visto que é desenvolvida por meio de um diálogo entre os envolvidos. [...] Pode-se definir entrevista como uma técnica que o investigador se apresenta frente ao investigado e lhe formula perguntas, com o objetivo de obtenção de dados que interessam à investigação. A entrevista é, portanto, uma forma de interação social. Mais especificamente, é uma forma de diálogo assimétrico, em que uma das partes busca coletar dados e a outra se apresenta como fonte de informação (GIL apud MANZINI, 2008, p.13). Goldenberg (2004) informa que as entrevistas e questionários podem ser estruturados de diversas maneiras. O primeiro grupo engloba entrevistas padronizadas, no qual são utilizadas perguntas apresentadas a todos os participantes, sendo que as mesmas podem ser fechadas ou abertas. Um tipo de metodologia de entrevista fechada é o questionário (BRANDÃO, MANDELERT & PAULA, 2005, REDIG, 2007, REDIG & SOUZA, 2008); um exemplo de entrevista aberta é a chamada história de vida36 (GLAT, 2009, CANEJO, 36 Método de história de vida segundo Glat, Santos, Pletsch, Nogueira & Duque (2004) é realizado através de uma entrevista aberta, no qual o sujeito fala livremente sobre um assunto pré-determinado, sobre a sua vida, um período ou algum aspecto dela. 67 1996, MÜLLER & GLAT, 1999). 2) O segundo grupo contempla as entrevistas nãoestruturadas ou assistemáticas, que consistem em afirmativas, conversas ou respostas espontâneas do entrevistado, não previamente dirigidas pelo pesquisador (GLAT, 2008a). 3) O terceiro grupo representa as entrevistas projetivas, que utilizam recursos visuais para estimular a resposta do entrevistado (SANTANA, 2003). A entrevista semi-estruturada parte de um esquema ou roteiro básico, o qual não é aplicado de forma rígida, possibilitando que o pesquisador faça as devidas adaptações durante a entrevista (LÜDKE & ANDRÉ, 1986). Para Fontes (2007, p.84) a entrevista semiestruturada “se caracteriza pela apresentação de certos questionamentos considerados básicos dentro do foco principal da pesquisa e que, ao mesmo tempo, oferece amplo campo para novas interrogações”. Segundo Triviños (apud HUMMEL, 2007, p.77) a entrevista semiestruturada “valoriza a presença do investigador, oferece todas as perspectivas possíveis para que o informante alcance a liberdade e a espontaneidade necessárias, enriquecendo a investigação”. Após um estudo sobre metodologias de entrevistas, Manzini (2008), observa que um ponto convergente das definições sobre a utilização de entrevistas semi-estruturadas é a “necessidade de perguntas básicas e principais para atingir o objetivo da pesquisa” (p.19). A partir do emprego de entrevistas semi-estruturadas, podemos perceber opiniões de diversas pessoas sobre o mesmo fato em diferentes locais. O instrumento básico de coleta de dados para este trabalho foi a entrevista semiestruturada, aplicada com professores da Educação Especial que lecionavam para alunos com deficiência intelectual em classes especiais, salas de recursos e serviços de professor itinerante nas escolas da Rede Pública de Ensino do Município do Rio de Janeiro. Existem várias pesquisas sobre a percepção de professores que utilizam a entrevista semi-estruturada; entre estas podemos destacar Oliveira (2004), Souza (2005), Lacerda (2006), Braga (2006). Neste estudo, foram utilizadas entrevistas semi-estruturadas para não perdermos o foco de nossa pesquisa, que é justamente compreender o papel da Educação Especial neste novo contexto da Educação Brasileira, através da visão dos próprios professores. 4.2 Procedimentos e Participantes Para iniciarmos a pesquisa, é preciso ter em mente que o roteiro é importante para o não esquecimento de algum item ou pergunta. Segundo Manzini (2008, p.52): Utilizar um roteiro bem elaborado para a entrevista semi-estruturada não significa que o entrevistador deva tornar-se refém das perguntas elaboradas antecipadamente à coleta, principalmente porque uma das características da entrevista semi- 68 estruturada é a possibilidade de fazer outras perguntas na tentativa de compreender a informação que está sendo dada, ou mesmo a possibilidade de indagar sobre questões momentâneas à entrevista que parecem ter relevância para aquilo que está sendo estudado. É, portanto, fundamental um planejamento adequado para a elaboração de um roteiro que alcance os objetivos do trabalho. Para a construção desse roteiro é preciso que se façam algumas entrevistas piloto para o melhor ajustamento das questões. Sendo assim, é necessário levar em consideração que público será entrevistado, para adequar o vocabulário das perguntas à população alvo, pois podemos utilizar termos técnicos não conhecidos pelos entrevistados e / ou questões que induzem a uma resposta (MANZINI, 2008). No presente estudo foram realizadas duas entrevistas-piloto com professoras de classe especial e sala de recursos, a fim de avaliarmos a pertinência do roteiro a ser utilizado. Após a análise dessas entrevistas, reformulamos algumas perguntas e acrescentamos outras. O roteiro final passou a ser composto de 20 perguntas abertas, incluindo perguntas comuns para os professores especialistas, e específicas para os que atuavam em classes especiais, sala de recursos e / ou itinerantes (anexo VI e VII respectivamente). Posterior à elaboração do roteiro e a testagem através de entrevistas piloto, é o momento de coleta de dados, ou seja, entrevistar os sujeitos da pesquisa. Nesse trabalho os professores foram selecionados, após autorização da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (anexo VIII), e envio de carta de apresentação para as escolas da 4ª Coordenadoria Regional de Educação – CRE (anexo IX), a qual indicou as escolas de um bairro dessa CRE, que possui classes especiais, sala de recursos e professores itinerantes atendendo alunos com deficiência intelectual. O presente trabalho também foi aprovado pelo Comitê de Etica da Sub-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa da UERJ (anexo X). Conforme exposto, este estudo teve como foco as narrativas de professores da Educação Especial com ênfase em sua percepção / opinião sobre a inclusão de alunos com deficiência intelectual, bem como o que eles consideram ser a função da Educação Especial no contexto da Educação Inclusiva. Para tal, foram entrevistadas 17 professoras; entre estas 11 estavam atuando na ocasião com alunos com deficiência intelectual em classes especiais e sete como suporte para classes comuns em que esses alunos estavam incluídos. Deste segundo grupo três eram professoras de salas de recursos e cinco itinerantes37. Optamos por professoras de classes especiais, pelo fato de já estarem atuando em escolas regulares, desta 37 Algumas professoras de classes especiais também atuavam, no segundo turno, em outra classe especial ou na sala de recursos, por isso a contabilidade total das professoras está acima do número total de entrevistadas / participantes. 69 forma, presumi-se que possuem, pelo menos, algum contato com os professores das classes comuns, o que não seria o caso, por exemplo, de professoras de escolas especiais. Todas as professoras pertencem à Rede Pública de Educação do Município do Rio de Janeiro. Este município, que foi alvo de uma pesquisa anterior38, foi escolhido por ter trajetória consolidada de Educação Especial, no âmbito de uma política de Educação Inclusiva. Segundo Glat (2008a, p.33): é preciso reconhecer que, apesar dos entraves enfrentados, as políticas educacionais da SME [Secretaria Municipal de Educação] têm permitido um atendimento mais inclusivo deste alunado. O projeto político pedagógico da SME/RJ é efetivamente direcionado para uma proposta de Educação Inclusiva: os alunos com deficiências ou outras necessidades especiais têm matrícula assegurada em qualquer escola e o IHA [Instituto Helena Antipoff] acompanha e orienta diferentes modalidades de suporte para os que se escolarizam na classe regular. Inicialmente foi feito contato com as escolas para agendamento das entrevistas. Após esse primeiro contato, as entrevistas foram marcadas de acordo com a disponibilidade das professoras, respeitando a rotina das escolas. As entrevistas ocorreram nas dependências das escolas entre abril a julho de 2009. No momento das entrevistas, foi explicado o objetivo da pesquisa, pedido autorização para a gravação em áudio e para a publicação dos relatos, por meio de um termo de consentimento dos professores (anexos XI e XII). Manzini (2008) afirma que os relatos das entrevistas, as informações passadas sempre serão publicadas em dissertações, teses e / ou artigos, sendo que podem ser apresentadas como parte de um dado analisado em um texto crítico formulado pelo pesquisador ou como trechos de falas com interpretação desse material. Das 17 professoras participantes apenas uma não autorizou a gravação de sua narrativa, mas mesmo assim participou da pesquisa. Manzini (2008) acredita que a gravação é importante, uma vez que há falhas nas informações anotadas, já que é muito difícil captar na íntegra a versão do sujeito. Assim, no ato de tomar nota é muito complicado registrar integralmente a fala do outro, tornando-se os dados, na realidade, o relato do pesquisador sobre a versão do entrevistado. O terceiro momento da trajetória metodológica foi a transcrição das entrevistas, que, como recomendado, deve ser feita na íntegra. Dessa forma, no texto que se segue será 38 Pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação da UERJ (PROPEd), foi coordenada pela Profª. Drª. Rosana Glat, e intitulada como Educação Inclusiva na rede municipal do Rio de Janeiro: estudo etnográfico do cotidiano escolar e desenvolvimento de estratégias pedagógicas de ensino-aprendizagem para alunos com necessidades educacionais especiais em classes regulares. 70 mantida a linguagem coloquial que foi utilizada nos diálogos, a fim de garantir a fidelidade das informações adquiridas. A transcrição das narrativas é importante para a análise dos dados, que foi feita por meio de análise de conteúdo. A análise de conteúdo tentaria compreender para além dos significados das comunicações e teria como objetivos: 1) ultrapassar a incerteza frente à mensagem, ou seja, aquilo que pessoalmente é julgado na mensagem deverá ser compartilhado por outros, conferindo a esse julgamento um caráter de validade e generalização; 2) enriquecer a leitura do material, ou seja, se um julgamento ou olhar pessoal traz um dado de conteúdo, uma leitura sistemática aumentaria a produtividade e pertinência desse julgamento a partir da descoberta de conteúdos e de estruturas que confirmam o que se procura demonstrar em relação às mensagens (MANZINI, 2008, p.105, grifo do autor). Para a análise de conteúdo é fundamental que o pesquisador faça uma leitura do material com o objetivo de criar categorias de análise, agrupá-las e classificá-las. Para tal, utilizamos a análise temática, que consiste em recortes de um assunto e, quando for necessária, a criação de sub-temas. Nesse tipo de procedimentos as informações dos relatos podem ser analisadas de forma que o conteúdo apareça em mais de uma unidade / sub-tema (MANZINI, 2008). Os próximos capítulos apresentarão a análise das narrativas obtidas, as quais foram divididas em cinco blocos: 1) perguntas comuns a todas as professoras; 2) perguntas às professoras das classes especiais; 3) perguntas às professoras das salas de recursos; 4) perguntas às professoras itinerantes e 5) pergunta aberta complementar a todas as entrevistadas. Esse capítulo destinado às complementações refere-se à última pergunta do roteiro: Você deseja falar mais alguma coisa? Achamos interessante analisar esse quesito separadamente para refletirmos sobre o que elas desejavam falar independente das perguntas, configurando uma complementação da pesquisa de campo. Devemos ter em mente a complexidade da análise das informações obtidas pelas entrevistas e de sua importância para a pesquisa. Apesar de a coleta de informações por meio da entrevista semi-estruturada parece ser um procedimento simples, a forma de análise é bastante complexa. A análise de dados advindos da entrevista semi-estruturada é complexa, trabalhosa e exige conhecimento teórico por parte do analista. Somente depois de uma rigorosa análise, o pesquisador poderá iniciar sua síntese e interpretação (MANZINI, 2008, p.151). 71 4.3 A Rede Pública de Ensino do Município do Rio de Janeiro Minha alma canta, Vejo o Rio de Janeiro, Estou morrendo de saudade. Rio, teu mar, praias sem fim, Rio, você foi feito pra mim. Cristo Redentor, Braços abertos sobre a Guanabara. Este samba é só porque, Rio, eu gosto de você [...] (JOBIM, 1962). A Rede Municipal de Educação do Rio de Janeiro é a maior da América Latina, contando, de acordo com a página eletrônica da Prefeitura39, com 1062 escolas, atendendo a um total 705.65940 alunos, matriculados na Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino de Jovens e Adultos (EJA). Este sistema é administrado de forma descentralizada por dez Coordenadorias Regionais de Educação (CREs). As CREs contemplam diferentes bairros do município, como mostra o mapa abaixo: Mapa I: Coordenadorias Regionais de Educação e bairros de abrangência. 39 40 Site da Secretaria Municipal de Educação: www.rio.rj.gov.br/sme Acessado no dia 15 de junho de 2009. Senso realizado no ano de 2008. 72 Essa Rede de Ensino possui diversas modalidades de atendimento na Educação Especial, gerenciadas pelo Instituto Helena Antipoff (IHA). Criado em 1974, o IHA é responsável pelo atendimento a alunos com necessidades educacionais especiais matriculados na Rede e a capacitação dos professores especialistas e do ensino comum (GLAT, 2008a). O IHA atende 8.894 alunos, de acordo com o senso de 2008. Uma parte deste alunado está incluída em turmas comuns sem suporte específico. Mas a maioria recebe suporte através de diferentes modalidades de atendimento especializado: Escola Especial, Classe Especial, Pólo de Educação Infantil41, Sala de Recursos, Professor Itinerante e Classe Hospitalar. O gráfico a seguir mostra o quantitativo de alunos com necessidades educacionais especiais matriculados nesta Rede de Ensino. Esses dados estatísticos, referentes às matriculas de 2008, que foram contabilizados a partir das planilhas elaboradas e disponibilizadas pelo IHA. Gráfico I: Gráfico representativo dos alunos com necessidades educacionais especiais matriculados no Município do Rio de Janeiro, dados fornecidos pelo IHA. Como pode ser observado, o número de alunos com deficiência intelectual é significantemente maior do que as demais deficiências. Este dado, por si só, aponta para a necessidade de se aprofundar estudos sobre o processo de ensino-aprendizagem desses educandos, bem como a formação dos professores que serão apoio / suportes nesse aprendizado. A deficiência intelectual além de ser a condição com maior índice de pessoas afetadas é também a que traz dificuldades diretas na aprendizagem formal ou escolarização. O 41 De acordo com Glat (2008a, p.15) o atendimento no pólo de Educação Infantil refere-se ao “trabalho educacional com alunos com necessidades educacionais especiais na faixa etária de 0 a 2 anos e 11 meses.” 73 presente estudo pretendeu, assim, focalizar nos professores de classes especiais, salas de recursos e itinerantes que atendam alunos com deficiência intelectual para buscar, então, dados referentes à dinâmica desses atendimentos especializados. Gráfico II: Gráfico representativo dos alunos com deficiência intelectual atendidos nas modalidades da Educação Especial no município do Rio de Janeiro, dados fornecidos pelo IHA. Por meio desse gráfico, percebemos que os alunos com deficiência intelectual matriculados nessa Rede, atendidos pelos serviços especializados, se encontram em sua maioria nas classes especiais. As redes de apoios de sala de recursos e professores itinerantes, somados resultam em um quantitativo de 769 alunos, sendo inferior ao número de matrículas em classes especiais. O gráfico anterior mostra o quantitativo de alunos com deficiência das dez CREs. O próximo gráfico ilustra o número de alunos com deficiência intelectual matriculados na 4ª CRE, onde ficam lotadas as professoras participantes deste estudo. Vale informar que esta é a segunda região com mais escolas do município, ficando atrás, apenas por uma escola da 8ª CRE. De acordo com o Gráfico III, observamos que nessa região, o número de alunos com deficiência intelectual matriculados nas classes especiais é superior aos acompanhados pela sala de recursos e professores itinerantes, confirmando os dados gerais mostrados no Gráfico II. 74 Gráfico III: Gráfico representativo dos alunos com deficiência intelectual, matriculados nos serviços de atendimento especializados na 4ª CRE do município do Rio de Janeiro, dados fornecidos pelo IHA. A 4ª CRE, como as demais, abrange uma grande região geográfica composta por diferentes bairros. Para limitação do presente estudo fizemos um recorte selecionando como participantes professoras da Educação Especial que atuavam em escolas em um bairro específico dessa CRE, já que as escolas que atendem esse alunado possuem classes especiais, sala de recursos e professor itinerantes42, focos da pesquisa, como mostra a tabela a seguir: Escolas Escola 1 Escola 2 Escola 3 Escola 4 Escola 5 Escola 6 Escola 7 Escola 8 Modalidade de atendimento 03 classes especiais 01 sala de recursos 03 classes especiais 03 classes especiais43 01 classe especial 01 itinerante 03 classes especiais 01 sala de recursos 01 itinerante 02 itinerantes44 01 itinerante 01 sala de recursos45 Número de professores 02 01 02 03 01 01 03 01 01 02 01 01 Tabela II: Tabela ilustrativa das escolas pesquisadas 42 Os serviços de atendimento que foram alvo de nossa pesquisa atendem aos alunos com deficiência intelectual; o que não significa que os professores itinerantes e as salas de recursos de Educação Especial, como são denominadas, não possuem alunos com outras deficiências. 43 A professora de classe especial da escola 3 é a mesma professora de uma classe especial da escola 5. 44 Na escola 6 há duas professoras itinerantes sendo que uma atende o Programa de Educação de Jovens e Adultos (PEJA). É a única escola e professora que atende nessa modalidade de ensino, aluno com deficiência intelectual, isso não significa que essa docente não atenda outras escolas no período diurno. 45 Essa professora da sala de recursos da escola 8 é a mesma professora da classe especial da escola 4. 75 Foram entrevistadas 17 professoras especialistas, sendo que algumas que atuavam em classes especiais em uma determinada escola eram as mesmas em outras escolas em classes especiais ou como professoras de sala de recursos. Por isso, na análise das narrativas, algumas perguntas que são comuns a todas as professoras, serão as mesmas, pois foram respondidas na mesma entrevista pela mesma pessoa. A formação das professoras está indicada na tabela a seguir: Escolas Professoras Escola 1 Professora A Professora B Escola 7 Professora C Professora D Professora E Professora F Professora G Professora H Professora I Professora J Professora F Professora L Professora M Professora N Professora O Professora P Professora Q Professora R Escola 8 Professora I Escola 2 Escola 3 Escola 4 Escola 5 Escola 6 Formação das Professoras Pedagogia Pedagogia – Educação Especial (deficiência mental) Curso Normal Curso Normal Cursando Pedagogia Pedagogia Curso Normal Curso Normal Pedagogia Normal / Psicologia Pedagogia Pedagogia e Direito Curso Normal Pedagogia Normal / Psicóloga Pedagogia Fonoaudiologia Normal / Comunicação Social / Geografia Pedagogia Tabela III: Tabela representativa da formação das professoras participantes da pesquisa. De acordo com a Tabela III, observamos que a maioria das professoras entrevistadas tem formação em nível de Ensino Superior. Esta formação inicial foi complementada, na maioria dos casos por estudos adicionais, pós-graduação e / ou formação em serviço. 76 Gráfico IV: Gráfico representativo da formação das professoras especializadas que atendem alunos com deficiência intelectual, matriculados nos serviços de atendimento especializados na 4ª CRE do município do Rio de Janeiro, dados fornecidos pelo IHA.. Pelo gráfico IV, notamos que 11 das 17 professoras entrevistadas (65%) fizeram cursos oferecidos pelo IHA. As duas professoras que não haviam feito nenhum curso adicional eram novas na área de Educação Especial. Quatro professoras fizeram curso de PósGraduação Lato Sensu, sendo que duas tinham Especialização em Educação Especial (sendo uma na área de Deficiência Visual), em curso oferecido pela Prefeitura. Esses dados foram analisados a partir das respostas às questões comuns a todas as entrevistadas. “Você faz várias disciplinas, o Município deu vários tipos de Extensão... aí você escolhia entre surdez, classe de condutas típicas. Durante dois, três anos, mais ou menos. Aí chegou ano passado, o Prefeito antes de sair, fez assim: quem tivesse a carga horária grande que desse para transformar em Pós, daria para ser transformado. Aí eu fiz a carga horária que faltava e transformou o curso em Pósgraduação em Educação Especial. Pago pela própria Prefeitura” (relato da professora I). De fato, a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME) desenvolve diversos cursos de capacitação e / ou atualização para seus professores. Este tipo de ação é fortalecida pela LDBEN 9394/96 (BRASIL, 1996) que preconiza a preparação dos profissionais da Educação para lidar com os alunos com necessidades educacionais especiais. Esses cursos, de acordo com algumas narrativas, funcionam da seguinte maneira: “Nós temos vários cursos de Extensão [...] Então a Educação Especial, ela possibilita esses cursos, até na Candido Mendes46 também. Tem uma parte teórica 46 Universidade Candido Mendes, uma instituição da rede privada do Estado do Rio de Janeiro, que possui parceira com a SME/RJ. 77 do curso, de currículo adaptado, deficiência mental, e aí é isso. Mas outros cursos também, mas é um curso que é mais que capacitação. É bastante porque tem o maior número de horas” (relato da professora A). “Tem de retardo mental47 sim, são módulos que eles tem. Mas a gente passa por todas as necessidades especiais. Às vezes em um ano a gente não consegue vaga; porque é difícil conseguir, quem trabalha em classe especial tem que passar por esse curso” (relato da professora N). “Quando a gente tem algum tipo de formação, é tudo junto. Na verdade eles não fazem, eles falam da Educação Especial de uma forma global, digamos assim. Quando a gente tem reuniões de itinerante é que a gente se divide e fazemos algumas trocas. Mas especificamente assim uma coisa dirigida somente naquele momento” (relato da professora P). “Porque lá no IHA, de certa forma a gente trabalha um pouco assim por áreas. Então quando eles promovem um curso, eles promovem um curso com vários enfoques; por exemplo, eles separam dois ou três dias de capacitação, aí tem turmas que vai trabalhar com DV [deficiência visual], com DA [deficiência auditiva], com DM [deficiência mental], com CT [condutas típicas] – que é o pessoal com transtornos, o autista, transtornos psiquiátricos. Então geralmente elas pedem que a gente se mantenha dentro da mesma área que a gente atua, o que também é justo e lógico, se capacitar dentro daquilo que realmente você trabalha” (relato da professora O). As professoras confirmam que os cursos oferecidos auxiliam em sua prática pedagógica. Essa concepção vem de encontro com pesquisas que afirmam que a formação em serviço é um dos caminhos para capacitar os profissionais para a Educação Inclusiva, como já discutido anteriormente (PRIETO, 2007, MENDES, 2008). Porém, elas enfatizam mais a prática em detrimento da teoria, pois acreditam que o cotidiano da sala de aula, já acrescenta na sua formação, relatando que a verdadeira aprendizagem acontece no espaço escolar. Todavia, se essa prática pedagógica não for avaliada, refletida e planejada juntamente com a teoria da Educação, fica superficial. A seguir apresentamos algumas narrativas sobre os cursos, de forma a compreendermos se, na opinião das entrevistadas, esses contribuíram para uma melhoria na sua prática pedagógica: “Os [cursos] do IHA a princípio sim, só que com o tempo, é tanta prática. Então, na verdade, quando a gente vai no curso a gente já está quase que dominando aquilo tudo ali. Então, os cursos do IHA são muito na base da prática mesmo, então você já está na prática, e às vezes é até ministrado por colegas nossos, então, já está mais ou menos por dentro daquilo tudo. Então, acrescentar, eu acho que tudo que você faz acrescenta. Eu acho que é importante, porque às vezes que lá atrás você parou de fazer ou de notar, faz a diferença, aquilo faz reviver alguma coisa que 47 Apesar de atualmente se utilizar deficiência intelectual, e no Município do Rio de Janeiro, usar a terminologia deficiência mental, algumas professoras ainda denominam essa clientela como retardo mental. 78 talvez fosse importante para a vida. Acho que tudo acrescenta” (relato da professora A ). “Já fiz vários, todos os cursos que o IHA ofereceu, eu fiz. Já me capacitaram, porque não basta só a intuição” (relato da professora E). As duas professoras que não fizeram nenhum curso, seja por estarem começando na Educação Especial ou por acreditarem que a prática já é suficiente, demonstraram, espontâneamente (isto é, sem terem sido diretamente questionadas a respeito) interesse nos cursos oferecidos pelo IHA. Há também professoras que fazem os cursos disponibilizados pela Prefeitura, mas que gostariam de ampliar sua formação, mas por falta de condições financeiras ficam impossibilitadas de continuarem seus estudos. “Eu gostaria de fazer faculdade, mas não tenho dinheiro. Os cursos oferecidos pela Prefeitura, eu faço todos, porém se eu tivesse condições eu faria [faculdade]” (relato da professora C.). Um fator importante para compreendermos as narrativas das professoras é o tempo de magistério, ou seja, o seu percurso na Educação. Segundo Kassar (1995) é importante conhecer a formação das professoras as quais pretende investigar, pois em suas narrativas ficam explícitas a sua história, seu contexto social, apresentando o produto das suas interações sociais. Gráfico V: Gráfico representativo do tempo de magistério das professoras especializadas que atendem alunos com deficiência intelectual, matriculados nos serviços de atendimento especializados na 4ª CRE do município do Rio de Janeiro48. Parte das professoras entrevistadas começou a lecionar na Educação Especial, praticamente assim que ingressaram na Rede; outras lecionaram bastante tempo no ensino 48 A professora C, não informou o tempo de magistério na Educação Especial. 79 comum. Muitas professoras que atuam na Educação Especial fazem o segundo turno49 em turmas regulares, facilitando o diálogo com os professores do ensino comum. “Eu entrei para a Educação e logo eu peguei uma turma especial, porque já foi sinalizado no primeiro ano e segundo ano. [...] Então quando eu entrei na primeira escola que eu peguei logo. Eu estava no primeiro ou no segundo ano, alguém (que eu não lembro quem), achou que eu tinha o perfil para trabalhar com esse alunado, aí logo me falou de uma escola; aí uma coisa foi levando a outro” (relato da professora A). Portanto, podemos concluir que o perfil das professoras entrevistadas é de pessoas que buscam uma formação continuada, a fim de minimizar suas inquietudes e dúvidas da prática pedagógica, seja por meio dos cursos oferecidos pelo IHA, dos momentos de reflexão com as demais especialistas e / ou por pesquisas e cursos por sua conta própria. As participantes configuram um grupo que busca relacionar e dialogar a teoria na sua prática cotidiana, com o objetivo de complementar sua formação, além de auxiliar e melhorar o processo de ensinoaprendizagem dos alunos com deficiência intelectual matriculados na escola pública. 49 Trabalhar no segundo turno, também é conhecido pelas entrevistadas como fazer dupla ou dobra, isso significa quando um professor tem uma matrícula e pega dois turnos de trabalho, então, o segundo turno refere-se à dupla ou dobra. 80 5 Narrativas das professoras especialistas: visão geral O certo é que não só os alunos são diferentes, mas também os professores – e ser diferente é uma característica humana e comum, não um atributo (negativo) de alguns. A EI [Educação Inclusiva] dirige-se assim aos “diferentes”, isto é... a todos os alunos. E é ministrada por “diferentes”, isto é... por todos os professores (RODRIGUES, 2006). Esse capítulo tem como objetivo discutir e analisar as questões que foram comuns a todas as entrevistadas. Para uma melhor compreensão das narrativas, as perguntas foram divididas em dois sub-temas: 1) Educação Inclusiva; 2) Diagnóstico e aprendizagem de alunos com deficiência intelectual. Pretendemos, com estes tópicos, entender como os conceitos, pensamentos e opiniões influenciam na prática pedagógica das professoras especialistas. De acordo com Orrico (2009, p.716) “as atitudes também são a base para a formação do preconceito, da violência e outras formas de discriminação, [...] necessitam considerar para o melhor entendimento do fenômeno educacional e da promoção do bem estar humano”. 5.1 Reflexões sobre a política da Educação Inclusiva através das narrativas das professoras especialistas Anjos, Andrade & Pereira (2009) em um estudo com professores do ensino comum e da Educação Especial mostram que a concepção de Educação Inclusiva se configura de duas formas: como processo e como produto. Referindo-se ao processo, esse conceito implica em tentativas, erros e acertos de todos envolvidos, ou seja, todos participam da construção. Mas, como produto, as pessoas precisam apenas aceitar ou negar essa concepção, não se sentindo pertencente da elaboração do mesmo. Dessa maneira, percebe-se que de acordo com a percepção dessa política pelos profissionais da Educação, esses poderão ou não interferir no processo. 81 O gráfico VI50 refere-se à opinião das professoras em relação à Educação Inclusiva. Observamos que o entendimento e as opiniões sobre essa política são diversificados: Gráfico VI: Gráfico referente à opinião das professoras em relação à política da Educação Inclusiva De acordo com o Gráfico VI, notamos que mais da metade das entrevistadas (59%) acreditam na política da Educação Inclusiva. Dessa porcentagem, 50% concordam com a política. Entretanto, os 50% restante embora acreditando, consideram que a inclusão do aluno com necessidades educacionais especiais na classe comum para ser bem sucedida demanda uma estrutura que nem sempre está presente na escola. Estas docentes dizem discordar da forma como esta política está acontecendo na prática, alegando que “na teoria é uma coisa e na prática outra”. Dados semelhantes foram encontrados em pesquisas de Redig (2007), Redig & Sousa (2008) e Costa (2009). Nestes estudos, que também envolveram entrevistas com professores do ensino comum e orientadores pedagógicos, foi visto que para algumas docentes para que a inclusão ocorra de fato, deve haver uma organização escolar favorável a esse processo, com redes de apoio dos especialistas e outros recursos humanos. Enquanto outros professores acreditam na política por ser um direito do ser humano. Como visto no gráfico acima, apenas duas participantes responderam que não concordam / não acreditam com a política de Educação Inclusiva. A primeira alegou o despreparo dos professores das turmas regulares e a quantidade em excesso de alunos nessas classes o que dificulta a inclusão de alunos com deficiências, questões já apontadas em estudos de autores como Glat (2004a), Plestsch & Glat (2007) e Tessaro (2005), entre outros. 50 Uma resposta se enquadrou em mais de uma categoria, totalizando um quantitativo acima do número de professoras entrevistadas. 82 E a outra participante que também se manifestou contrariamente por considerar que não há condições efetivas nas escolas que garantam a inclusão escolar. “Bom, com relação à política que vem sendo imposta, eu acho que é um pouco complicado, porque tudo que a gente tem atualmente do ensino, não favorece o aluno especial dentro de sala. Não tapar o sol com a peneira, mas tentar melhorar um pouco essa qualidade com esses outros serviços, que são os professores de apoio, só que nem sempre a gente dá conta, nem sempre o professor de turma está apoiando esse trabalho, e às vezes a coisa é muito pior do que simplesmente colocar o aluno dentro da sala. Porque eu acredito na inclusão a partir do momento que você ensina e o aluno te dá um retorno; pode não ser o retorno da turma como um todo, mas que tem que ter um retorno tem, não é só botar o aluno lá na sala e deixar que ele vá aprender um dia ou então esperar o itinerante chegar, que o itinerante vai dar jeito. É um sistema muito complicado, é uma estrutura que a gente não tem, dificilmente você vai encontrar uma instituição como todo, de escolas, que tenha um suporte para dar conta disso tudo” (relato da professora R). A narrativa da professora R expõe sua crítica à situação dos alunos da Educação Especial no processo de inclusão escolar, pois acredita que isso deve ser feito de forma com que o aluno aprenda nesse contexto, flexibilizando e adaptando esse processo de ensinoaprendizagem, bem como reestruturando os objetivos estipulados para a turma. Nessa direção, como já discutido, o aprendizado e a produção de conhecimento são vistos como um processo e não produto final, a fim de alcançar um nível de aprendizado satisfatório, como preconiza a Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994). Vale ressaltar também, a carência de recursos humanos nas redes de apoio para atender a demanda de alunos com necessidades educacionais especiais e a dificuldade de estabelecer parcerias com os professores regentes das turmas comuns. O Gráfico VI também mostra que 23% das entrevistadas acreditam na política da Educação Inclusiva para alunos que tenham alguns tipos de deficiências. No que tange aos alunos com deficiência intelectual, podemos observar no Gráfico VII, que 56% das professoras acreditam ser difícil a sua inclusão na classe comum, seja pelo despreparo dos professores regentes, seja pelas dificuldades apresentadas por eles no aprendizado. Para as entrevistadas, esses alunos tem seu tempo próprio individualizado para absorver novos conhecimentos, necessitando uma flexibilização curricular maior que os que tem outras deficiências. Tessaro (2005, p.159), discutindo o trabalho com o sujeito com necessidades educacionais especiais, ressalta que “para os docentes são muitas as dificuldades envolvidas nesse processo, destacando-se a falta de preparo / capacitação dos profissionais, especificamente dos professores, a falta de infra-estrutura da escola, a discriminação social e a não aceitação da inclusão escolar”. 83 9 10 3 5 4 0 Acredita na inclusão escolar do sujeito com deficiência intelectual Acreditam na inclusão escolar do sujeito com deficiência intelectual, porém com suporte Acham a inclusão escolar do sujeito com deficiência intelectual difícil Gráfico VII: Gráfico referente à opinião das professoras em relação à política da Educação Inclusiva para os alunos com deficiência intelectual. Como mostra o Gráfico VII, 25% das docentes especialistas acreditam na inclusão escolar deste alunado, porém afirmam que isso deve acontecer com o auxílio de suportes, seja da sala de recursos, do professor itinerante e até mesmo da classe especial. Também destacam a importância da parceria com a família e outros profissionais da Saúde. Essa concepção vem de encontro com a proposta da Educação Especial como apoio do Ensino Regular e não mais como modalidade paralela. “Eu acho que depende muito de cada aluno, depende muito de cada deficiência também. A gente já teve sucesso de alunos sindrômicos, que são um pouquinho mais comprometidos, em classe comum. Mas eu já vi necessidade também da alfabetização desses alunos em uma classe especial, o que também é uma forma de inclusão. Porque muitas pessoas confundem isso, acham que estar na classe especial, por isso está excluído. Ele não está excluído, está incluído dentro da escola, eles fazem parte dos projetos da escola, interagem com os outros alunos sempre. Só que eles tem uma atenção mais individualizada, e às vezes dependendo do comprometimento de cada aluno, eles necessitam dessa classe. Que seria a classe especial, com alunos reduzidos, com professores especializados, e aí depois que eles são alfabetizados, eles são incluídos, na classe normal” (relato da professora J). “Com DM [deficiência mental] é difícil, porque em uma turma de oito, eles levam às vezes, anos e anos, e não acontecem. Agora tem crianças que o retardo é mais leve, eu acho que é valido, ele tem o direito de estar em uma turma, mesmo ele sendo mais velho, tendo um retardo, é um direito que ele tem. Porque se ele atingiu a leitura, a interpretação e tem aquelas responsabilidades de não chegar atrasado, fazer trabalho de casa, e agüentar aquele ritmo de quatro horas e meia de uma turma regular. Eu então acho que é valido, tem todo o direito” (relato da professora M). 84 De acordo com os depoimentos acima, observamos que ainda é forte na concepção das entrevistadas o modelo da Integração, no qual era exigido dos sujeitos uma preparação prévia para serem integrados nas turmas comuns. Também fica claro a importância da classe especial para a escolarização desse alunado. Para as participantes (tanto as que atuam nas classes especiais, quanto nas redes de apoio), a classe especial, é uma forma legítima de oferecer um aprendizado para os alunos com deficiência intelectual em um ambiente favorável a uma prática pedagógica individualizada para atender as necessidades de cada um. Vale lembrar também que, apesar das professoras entrevistadas utilizarem os termos integração e inclusão em seus depoimentos como sinônimos, segundo Ramos (2009) não é só uma diferença semântica existente entre esses dois modelos, mas sim conceitual. Embora, a Integração e a Inclusão sejam políticas distintas e que aconteceram em momentos históricos diferentes, ainda coexistem concomitantemente (GLAT & FERNANDES, 2005), já que na prática a inclusão do aluno com deficiência intelectual na classe comum ainda segue os pressupostos do modelo da Integração. Para finalizarmos esse subitem discutiremos como as professoras responderam sobre a forma como a Educação Especial precisa atuar para que a inclusão aconteça. Gráfico VIII: Gráfico referente à opinião das professoras em relação à atuação da Educação Especial no contexto da Educação Inclusiva51. Notamos, no Gráfico VIII, que 37% das entrevistadas consideram que o papel da Educação Especial segue a concepção do modelo da Integração, no qual, a classe especial se 51 Uma resposta se encaixou em mais de uma categoria, totalizando um número maior de entrevistadas. 85 configura em um espaço de preparação do aluno para sua inclusão na classe comum, como já discutido. “Estão fazendo esse trabalho de integração como é aqui na escola, eu aqui estou esse ano, mas as professoras aqui trabalham com esse objetivo, que é, que a criança se alfabetize, se aprimore, leia, interprete, que é para ele poder se inserir no mundo, e dentro da sala de aula ele não fique completamente perdido” (relato da professora N). No que se refere ao estabelecimento de parcerias com a escola, família e profissionais da Saúde, apenas quatro entrevistadas reconheceram sua importância para a inclusão desses alunos. Entretanto, como discutido no Capítulo 1, para que inclusão desse alunado aconteça é fundamental a participação e contribuição de toda a comunidade escolar, bem como o auxílio de uma equipe multidisciplinar. Outros pontos levantados pelas especialistas como essenciais na sua função foram a preparação e informação dos professores do ensino comum, além de incentivo e estímulo para o aumento de profissionais na área da Educação Especial e mais capacitação para os mesmos. Uma professora comentou que há necessidade de mostrar à sociedade que a inclusão é possível e aponta ações como festas na escola e divulgação dos trabalhos que os alunos desenvolvem. Apenas três professoras alegaram que sua função é de ser suporte do ensino comum, como propagado na política da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008b). Com base nos dados obtidos, percebemos que apesar da política educacional brasileira seguir a concepção da Educação Inclusiva, ainda permanece na prática, em muitos casos, o modelo da Integração, confirmando Glat & Fernandes (2005). Para Costa (2009) a escola ainda se estrutura de forma a ensinar turmas homogêneas, no qual facilita a segregação das pessoas com necessidades educacionais especiais e segundo Victor (2009, p.12) “o olhar diante da inclusão desses alunos deve ser de inquietação e mudança”, pois somente assim conseguiremos superar esse desafio. 5.2 Reflexões sobre o diagnóstico e aprendizagem da pessoa com deficiência intelectual a partir da visão educacional das professoras especialistas Para que o processo de ensino-aprendizagem aconteça com qualidade e de forma significativa é necessário que os professores conheçam seus alunos, sobretudo no caso dos que tem deficiência intelectual, a fim de compreender as suas dificuldades e potencialidades para que melhor possam desenvolver suas capacidades e habilidades. 86 Uma das questões investigadas foi à percepção das professoras participantes diante do diagnóstico dos estudantes com deficiência intelectual, o qual por vezes é difícil de ser obtido. Conforme relatou uma das entrevistadas, para o aluno ser encaminhado para um atendimento educacional especializado é preciso que apresente o laudo médico da deficiência, mesmo que esse não chegue à professora que o acompanhará. “Quando ele entra na classe especial a primeira vez, ele tem um laudo de algum médico ou de algum pediatra, e ele é analisado pela pessoa da parte de Educação Especial da CRE52. Para ele ser inserido em classe especial ele tem que ter esse laudo, mas não vem nada. O psicopedagogo quando pega, ele faz o laudo para a gente poder trabalhar. Fora isso, não” (relato da professora N). O diagnóstico (na forma de um laudo médico) de deficiência intelectual é importante para que se faça valer os direitos dessa pessoa, nesse caso, no que diz respeito ao atendimento educacional especializado, conforme especificado na Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008b). Mas para as professoras do Ensino Especial, o que realmente importa é a avaliação psicopedagógica e / ou educacional, que, segundo a fala da entrevistada, nem sempre é disponível. De acordo com outros depoimentos, quando não encontram um laudo que descreva a situação real de aprendizado do educando, as docentes fazem avaliações diagnósticas para entender o seu nível de aprendizado. “Esses diagnósticos para mim são importantes, porque aí eu vou ver como eu vou atuar em determinadas áreas dependendo da dificuldade, né! No primeiro momento eu penso, e agora por onde que eu vou? Aí eu começo procurando conhecer o que ele pensa, o que ele tem, como é que ele se vê dentro desse espaço escolar, não com perguntas formais. Na verdade eu faço uma visão dele a partir daquilo que ele me revela dele, aí eu começo no dia-dia traçando esse perfil para poder intervir pedagogicamente” (relato da professora P). A professora P, afirma que o laudo é importante para o desenvolvimento de uma prática pedagógica que atenda às necessidades do aluno, pois esse diagnóstico serve como um respaldo para compreender o aluno e a partir desse momento, a docente constrói uma relação com o estudante, a fim de conhecê-lo melhor. Estudos de Glat (2008a) e Oliveira M. (2008) mostraram que a proposta do município do Rio de Janeiro é baseada em um modelo de avaliação educacional do processo de aprendizagem do aluno já em sala. Entretanto, na prática, a avaliação continua sendo clínica, realizada pelas agentes de Educação Especial, e o laudo médico continua sendo exigido. 52 O profissional que faz a avaliação do aluno com necessidades educacionais especiais e o seu encaminhamento para um serviço de atendimento especializado é o Agente de Educação Especial. Glat (2008a) fez um estudo com esses profissionais especializados. 87 É necessário compreendermos que a condição da deficiência não se altera, no que se refere ao diagnóstico, mas que com estímulos e intervenções pedagógicas o sujeito é capaz de avançar em sua aprendizagem e desenvolvimento, independente do que estiver rotulado no laudo como categoria de severidade e comprometimento da deficiência. Portanto, é importante avaliarmos continuamente nosso aluno, para refletirmos e conhecermos a zona de desenvolvimento real em que ele se encontra. A professora Q aponta que o laudo clínico não é importante para a elaboração de intervenções pedagógicas, mas que o laudo educacional é o que interessa, esse é o que os professores procuram para traçar estratégias que contemplem esses alunos53. “Olha só, o laudo para nós ele não tem muito valor, inclusive quando avaliamos o aluno para ter atendimento pelo IHA, esse laudo não é levado em conta, então o que importa para nós é o laudo pedagógico, o laudo clinico, realmente nós absolvemos isso. Dentro da escola, na nossa política educacional, isso não é levado em conta, tá! O que nos importa realmente é a parte educacional, a pedagógica, a clínica, nós aqui não tocamos nisso” (relato da professora Q). Após o encaminhamento do aluno com deficiência intelectual para o atendimento educacional especializado, 87% das professoras relatam que as características que esses sujeitos apresentam correspondem com o laudo de deficiência intelectual. Entre essas destacam dificuldade de comunicação, memória e retenção de conteúdo, atrapalhando sua aprendizagem. Porém, elas enfatizam que o laudo por si só não define seus alunos, pois cada sujeito é único. “Deficiente mental, não existe assim uma coisa fechada; tem tantas características. Eles são deficientes mentais, eu vejo eles como pessoas normais, como qualquer ser humano, é normal. Sendo que o trabalho que a gente faz é um trabalho um pouco diferente, na parte da escrita, na parte dessa alfabetização formal. Agora, eu não vejo nada assim de diferente, depois que estão aí participando de tudo que a gente faz, de esporte, eles fazem tudo. Claro a gente vê que tem uma dificuldade na aprendizagem, talvez por isso, fale que tem características, mas você olhando, não tem características físicas. Deficiente mental você passa por ele na rua, você não percebe, só quando você vê uma síndrome, quando é uma criança que tem uma síndrome associada à deficiência mental, um Down por exemplo, você está vendo. Mas quando você vê um deficiente mental, e ele nem abre a boca... Porque quando começa a conversar, você vai perceber na questão de repetição, que repete a mesma coisa, e às vezes não conclui uma frase, raramente consegue isso. A maior dificuldade como falei é a da oralidade, tem mais dificuldade para se expressar, mas tirando isso, eu não vejo tanta dificuldade”(relato da professora B). 53 Para o aprofundamento da avaliação pedagógica de alunos com necessidades educacionais especiais nas classes comuns, ver Oliveira M. (2008). 88 No depoimento da professora B, notamos a dificuldade em se fechar um laudo de deficiência intelectual, pelo grande quantitativo de características. Segundo ela: “deficiente mental, não existe uma coisa fechada, tem tantas características”. Esse excesso de características que “impede” o conhecimento total da deficiência intelectual pode se configurar em um empecilho para o desenvolvimento e progresso do aprendizado desse aluno. Já a professora L acredita que seus alunos quando chegam à escola, correspondem ao laudo, no que se refere ao rótulo de incapacidade e características a ele atrelado, mas após o trabalho da classe especial há uma mudança significativa em seu desenvolvimento, mostrando progressos nas áreas referentes às capacidades adaptativas que foram estimuladas: “Eles, antes de serem trabalhados, as características são essas; mas quando eles são trabalhados, aí você nem percebe. Se você pegar a maioria da minha turma do ano passado, você não diz. Eles são alfabetizados. São 12 anos de trabalho” (relato da professora L). Vale ressaltar que essa posição converge com a noção de que se deve avaliar continuamente o sujeito. A partir dessa ação, o professor poderá atuar na zona de desenvolvimento proximal e não se limitar às dificuldades apontadas pelo laudo e pelo estado inicial do indivíduo. Sendo assim, romperá com o diagnóstico eterno que alguns profissionais da saúde estipulam para seus pacientes, como no caso de um aluno que o médico alegou ter cognitivo zero: “Aí a professora acompanhou em uma consulta... ele estava fazendo o teste da posição da mão, aí a professora falou ‘por que você não coloca a letra?’. E aí o médico perguntou se ele podia. E ele já estava começando a ler algumas palavras. Aí o oftalmo deu os parabéns para ela. E ela falou que era da sala de recursos e deu os parabéns pra mim, e disse que não tinha noção de que ele soubesse isso. Chegaram [os médicos] a falar que ele era papagaio de pirata [repetia o que os outros falavam], a professora da sala de leitura dizia que não é possível falar isso do aluno, porque ele faz o comentário na hora certa, que tem pertinência com aquilo que está conversando. Outra coisa também que eu trouxe para a Coordenadora ver, foi o ditado. Ele está conseguindo fazer o ditado, ele está fazendo o ditado de palavra, com muita dificuldade para construir a letra por causa da baixa visão dele, mas conseguindo fazer. Não estou dizendo em relação a todos os laudos, mas tem laudos que às vezes acontece, como aconteceu com ele” (relato da professora F). Outros pontos que aparecem nos relatos das entrevistadas foram os diferentes graus de deficiência intelectual e a dificuldade de se detectar a deficiência, bem como de fechar o laudo clínico. 89 “Alguns sim, alguns não e outros a gente demora a detectar, porque não é muito claro, ele tem um grau diferente para cada criança. Então uns tem uma dificuldade maior de entender, outros entendem melhor, outros absorvem metade, estou falando dos conteúdos, cada um tem um nível. Tanto que o IHA divide as aprendizagens por níveis. Então a cada nível que ele vai ultrapassando, aí você enquadra a criança dentro daqueles níveis de desenvolvimento” (relato da professora N). Percebemos que apesar da política educacional brasileira adotar a concepção da AAMR no atendimento de pessoas com deficiência intelectual, como discutido, esse modelo não chega aos professores que atuam na prática com esses sujeitos, pois a ação e o planejar pedagógico ainda se baseiam nos diferentes níveis de aprendizagem. Por isso, é importante reforçar que cada um possui o seu nível de aprendizagem, mas a escola precisa compreender esses níveis e adaptar / adequar o processo de ensino-aprendizagem e não o produto final do conhecimento. O Gráfico IX mostra a visão das entrevistadas sobre as dificuldades e desafios para o processo de ensino-aprendizagem das pessoas com deficiência intelectual: 10 5 8 3 1 1 1 1 1 2 2 0 dificuldade de reter conteúdos / memorização dificuldade na abstração / subjetividade dificuldade de interpretação dificuldade de concentração dificuldade na comunicação problemas emocionais outrosproblemas de saúde desprepar o dosdocentes falta de acompanhamento fora da escola Gráfico IX: Gráfico representativo das dificuldades e desafios do processo de ensino-aprendizagem dos alunos com deficiência intelectual. As dificuldades de reter conteúdos e a memorização são apontadas em 40% das respostas como grandes barreiras para a escolarização desse alunado, já que segundo as entrevistadas, é preciso repetir e revisar a matéria constantemente. Os problemas emocionais apresentados por esses alunos aparecem em 15% dos relatos como entraves para o aprendizado. O despreparo dos docentes do ensino comum e a falta de acompanhamento fora da escola, ficam empatados com 10% cada do total do gráfico como desafios e empecilhos 90 para a inclusão escolar desse sujeito, os quais se superados podem ser o caminho para a garantia do processo. Porém, elas não minimizam a importância da capacitação das professoras da Educação Especial, para que possam desenvolver um atendimento educacional especializado adequado. “Não, ainda não, ainda não fui convocada para fazer o curso não. Mas eu trabalho há muitos anos com Educação Infantil, então eu não encontrei nenhuma dificuldade, até de me relacionar com eles, porque eu já tenho 35 anos de magistério. Como eu já tenho uma experiência muito ampla na Educação Infantil, tem muito haver também com conteúdos que eu encontro na Educação Infantil, e que eu posso também desenvolver com eles, e conteúdo deles eu vou seguindo a dificuldade de cada um” (relato da professora G). Nesta fala, e em outras semelhantes, observamos uma tendência à infantilização dos alunos da Educação Especial, em específico dos que possuem deficiência intelectual. Pois as mesmas atividades que são realizadas com as crianças da Educação Infantil são utilizadas com esse alunado. Isso fica claro na narrativa dessa professora que leciona para adultos de 19 e 20 anos de idade. Apesar do advento da Educação Inclusiva, ainda perduram idéias de que a clientela tradicional da Educação Especial, principalmente os sujeitos com deficiência intelectual, são eternas crianças. As entrevistadas apontam como estratégias para superar as limitações da deficiência intelectual, a contextualização do conteúdo e a utilização de materiais concretos que facilitem a aquisição da matéria. “Eles querem aprender, acho que o desafio realmente é eles conseguirem aprender, acho que o maior é esse. As dificuldades, acho que é explicar um pouco mais, dar um apoio maior. Aqui, por exemplo, uma escola regular, mas acho que eles tinham que ter toda uma estrutura de atendimento fora ou aqui dentro. As vezes tem problema com a família que não aceita, ou que aceita, mas não liga. Eu acho que eles têm que ter um acompanhamento de um psicólogo aqui oficial, de um médico. Integrá-los também não só na escola, mas em atividades diversas, como natação, futebol, para também eles poderem ter vida. Eu tenho um aluno meu que ele é enlouquecido para poder aprender. Um dia ele chegou pra mim chorando porque ele não está trabalhando. Aí tem uma oportunidade de emprego para um deficiente, ele chegou lá, porque não sabia ler ele não concluiu, ele ficou muito mal. Então eu acho que o desafio deles realmente é tentar vencer esse problema, porque eles querem alguma coisa. Acho que as dificuldades são essas, acho que eles não tem toda uma estrutura” (relato da professora H). Então, entendemos que para a inclusão do aluno com deficiência intelectual é necessário o envolvimento de toda a comunidade escolar, bem como políticas públicas que viabilizem suportes materiais e recursos humanos para a garantia do acesso e permanência desses sujeitos na escola. 91 6 Narrativas das professoras especialistas: no interior das Classes Especiais “Eu até falei com minha Diretora, eu falei que assim, é o primeiro ano que peguei [classe especial], eu estou apaixonada, eu falei para ela que queria me aprofundar mesmo [...] Então, salas com turma especial, eu me dou com todas, porque eu tenho uma habilidade com eles, e eu quero saber tudo, eu quero aprender tudo. Estou até pensando em fazer a faculdade nessa área, porque hoje, realmente, eu não tenho estrutura, porque eu estou começando agora, agora eu estou tendo a visão, vivenciando” (relato da professora H). Neste capítulo analisaremos as narrativas das 10 professoras de classes especiais de alunos com deficiência intelectual entrevistadas. Estas classes são compostas por, no máximo, oito alunos com deficiências54, e ficam em escolas regulares, seguindo a dinâmica da instituição. De acordo com a epígrafe deste capítulo, percebemos ainda a existência de um sentimentalismo em torno dos profissionais da Educação Especial. Esta representação do trabalho com alunos especiais como “missão”, também foi constatado por Müller & Glat (1999) em sua pesquisa com professoras de classes especiais. Na fala, notamos também a necessidade sentida pela professora, nova no campo, de maior formação para atuar nessa modalidade de ensino. Mas será que todas sentem essa necessidade? Por meio dessas narrativas, pretendemos compreender a importância dessas classes especiais no processo de ensino-aprendizagem e de inclusão dos alunos com deficiência intelectual. 6.1 Reflexões sobre as classes especiais pelo olhar das professoras especialistas Para entendermos melhor o trabalho exercido e o funcionamento das classes especiais, é preciso conhecer o alunado que estuda nessas classes. A tabela abaixo mostra as idades dos alunos nas turmas das professoras entrevistadas. Destaca-se que embora no total sejam 10 professoras entrevistadas, como já mencionado no capítulo 4, algumas tinham mais de uma turma. 54 Esse número segue a legislação da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro vigente. 92 Professora Professora A Professora B Professora D Professora E Professora F Professora G Professora H Professora I Professora L Professora M Quantidade de turmas 01 turma 02 turmas 01 turma 02 turmas 02 turmas 01 turma 01 turma 01 turma 01 turma 01 turma Média de idade dos alunos 13 anos 18 anos / 23-25 anos 12-15 anos 14-17 anos / 12 a 19 anos 17-31 anos / 16 anos 19-20 anos 16-18 anos 12-17 anos 13-14 anos 7-12 anos Tabela IV: Tabela representativa da média de idade dos alunos com deficiência intelectual matriculados nas classes especiais da 4ª CRE do Município do Rio de Janeiro. Por meio da Tabela IV, notamos que a média de idade dos alunos com deficiência intelectual matriculados nas classes especiais corresponde a de pessoas na fase da adolescência ou adultos. Este é um dado significativo já que essas turmas representam os primeiros anos do Ensino Fundamental, fase de escolaridade em que as crianças completam aos dez anos de idade, aproximadamente. Pelas informações recolhidas, entendemos que a maioria dos alunos estão há bastante tempo na Educação Especial. “Ih, é variado, tem de 17, 15, 13, 12. Aqui é uma classe que eu já vi que tem alunos que estão aqui há nove anos, juntos” (relato da professora I) “Toda turma só pode ter no máximo oito alunos, eu atualmente estou com três. Porque a minha turma que eu tinha oito alunos, como a nossa escola é de 1ª a 4ª série, eles foram remanejados para a Escola 3, com outra professora que trabalha aqui de manhã. Para eles poderem ter contato com adolescentes da idade deles. Porque aqui é muito pequenininho, ficavam muito só com as crianças de idades menores, então eles tem que começar a se envolver com crianças com a idade parecida com a deles” (relato da professora L, grifo nosso). A estratégia de criar uma classe especial em outra escola que acompanhe a idade dos alunos, segue a concepção do modelo da Educação Especial tradicional da classe especial em escola comum, levando em consideração a idade geral dos educandos e da escola. Sendo assim, percebemos algumas discrepâncias em relação às idades; por exemplo, em uma mesma turma há alunos de 17 até 31 anos e, em outra, de sete a 12 anos. É importante refletir sobre o fato de que a idade cronológica do aluno não é considerada, essa situação também foi constatada em pesquisa realizada por Glat (2009b) com mulheres com deficiência intelectual em instituições especializadas. Outro fator presente na fala dessas professoras já discutido no capítulo anterior e detectado em outras pesquisas (GLAT, 2009b, GLAT & FREITAS, 2002, GLAT & REDIG, 2008 entre outras), é a referência de que as pessoas com deficiência intelectual são eternas 93 crianças que devem ter contato com crianças da sua idade, como se eles não tivessem pensamentos e sensações de acordo com a sua idade cronológica. Outro aspecto interessante é a professora que lecionava para essa turma migrou junto com os alunos para a outra escola, passando a trabalhar nos dois colégios, visto que, ela e a Direção da Escola acreditam que “só ela sabe ensinar esses alunos”. Isso nos remete à pesquisa desenvolvida por Müller & Glat (1999), que encontraram esse mesmo sentimento das professoras especialistas em relação aos alunos da Educação Especial. Embora seja comum, professores, em geral, em sua fala, se referirem aos alunos como meus alunos, minha turma, esse sentimento de posse é temporário, já que não existe na maioria das escolas continuidade do professor na mesma turma ano após ano. Em outras palavras, não limita o processo de ensino-aprendizagem dos educandos, evitando que conheçam outros docentes com diferentes metodologias. As narrativas das professoras descrevendo o cotidiano de suas classes compostas, como já comentado, de alunos com idades muito diversificadas, mostram que o atendimento e metodologia pedagógica utilizada nem sempre estão adequados à idade do alunado. “E eu trabalho com eles, conforme está exposto aqui na sala. Eu trabalho com eles, por exemplo, estações do ano; as datas, os eventos, Dia do Trabalho, as datas cívicas; ali o calendário do ano todo, aí ali eu incluo além das datas, o aniversario deles. Inclusive ali, teve uma coisa, esse aluno que teve a rubéola congênita, ele lembrou, por exemplo, que dia 1º de abril era o Dia da Mentira, aí eu coloquei ali. Eu trouxe ali para eles saberem o que é um calendário, eles tem ali... que eles preenchem todos os dias, cada um vai lá e preenche. Então, qual é o primeiro dia da semana? E por incrível que pareça, tem muito adulto que não sabe que o primeiro dia da semana é o domingo. Então, são essas coisas do dia a dia, essa vivência, que eu procuro levar para eles. E eles até às vezes me surpreendem, porque eles sabem, eles sabem mais do que um aluno do ensino regular, então isso dá aquela motivação e a gente fica feliz por isso, e eles vão se empolgando. E o mais interessante é que às vezes, só a nossa turma é que sabe disso. No Dia do Trabalho só a nossa turma que lembrou. Eles participam de todos os eventos, eles fazem o trabalho e recortam, aí eu boto para eles escreverem o nome, é colocado lá embaixo e depois eu deixo aqui na sala de aula. Aí aqui tem caixinhas que tem o material, por exemplo, ontem nós fizemos ali a mãozinha; eles fizeram o contorno da mão, que é mais um trabalhinho para o Dia das Mães; aí eles fizeram o contorno da mão, e aí foram enfeitando. Eu fiz um e dei um exemplo, aí cada um foi criando o seu. Eu tenho um aluno, que é um menino, que tem um retardo mental com comprometimento muito grande, e ele baseado no que eu fiz, ele recortou o papel de presente ai enrolou bolinhas, ele teve essa técnica, essa criatividade” (relato da professora G, grifo nosso). “Para cada criança eu tenho um tipo de trabalho. Mas às vezes eu vou para o quadro e trabalho sobre o texto para todo mundo, e na hora de trabalhar, eu tenho que fazer um trabalho diversificado com cada um. Alguns têm uma condição de mundo melhor do que os outros, porque às vezes tem criança que não lê nem escreve ainda direito, mas tem um conhecimento de mundo ao seu redor. Vai e volta para a escola sozinho. Eu tenho um aluno que tem tanta dificuldade para aprender, 94 mas na prática ele sabe muita coisa, então eu não posso considerar analfabeto assim, ele vai e volta da escola sozinho, ele cuida dos seus pertences, trabalha no sacolão. Com os alunos eu trabalho muito material concreto, com matemática eu trabalho com tudo que puder de contar, trabalho com material dourado” (relato da professora E, grifo nosso). O cotidiano das classes especiais segue seu “ritmo próprio”, no qual o conteúdo a ser trabalhado não é o mesmo estipulado no currículo das turmas regulares, pois a docente pode aumentar a temporalidade de cada matéria, atendendo as necessidades de cada um. Pelo que foi relatado, parece que algumas professoras ainda trabalham com seus alunos, já adultos, com metodologias mais adequadas para a Educação Infantil, inclusive fornecendo modelos a serem seguidos, como no caso do desenho do dia das Mães e utilizando também linguagem infantilizada como, “mãozinha”, “trabalhinho”, etc, como exemplificado nos depoimentos acima em que as turmas são compostas por alunos com idade superior a 12 anos. Ou seja, elas demonstram ter ainda a visão estereotipada da pessoa com deficiência intelectual como uma “eterna criança” (GLAT, 2009b, GLAT & FREITAS, 2002, GLAT & REDIG, 2008) sem levar em consideração sua idade cronológica. Conseqüentemente, esses adultos continuarão apresentando comportamentos infantis, visto que, são tratados assim por seus professores. Em pesquisa realizada por Garcia (2007) sobre as classes especiais para deficientes intelectuais, através da percepção dos ex-alunos, concluiu-se que as características / diferenças que antes eram apresentadas como dificuldades, passaram a ser evidenciadas na idade, no tamanho dos alunos entre outras, de forma que ficaram estigmatizados perante a nova situação de estudantes velhos, repetentes e da classe especial. Então, diante dessa realidade, eles são expostos aos processos de ensino voltado para as crianças, mas tendo que apresentar comportamentos maduros “para discernir entre esse ensino e as atitudes que deveriam apresentar diante dos fatos” (p.04). Outro ponto fundamental a ser observado é o trabalho desenvolvido pelas docentes com materiais concretos, que, segundo elas, auxiliam no processo de ensino-aprendizagem desses educandos. Porém acreditamos que isso deve ser uma das estratégias para que o aluno consiga chegar ao pensamento abstrato, não se limitando apenas ao uso do suporte concreto e não oportunizando que o aluno chegue ao abstrato, por só possibilitar a resolução de problemas com o suporte do material concreto. Na fala da professora E, destacam-se as experiências de um aluno fora da escola, que não sabe ler e escrever direito, mas que tem autonomia, independência e trabalha. Essa professora narra que apesar dele não dominar o conteúdo acadêmico, ele tem as habilidades sociais desenvolvidas, e que dessa forma, ela não pode considerá-lo analfabeto. De acordo 95 com a concepção da AAMR (2006) essa pessoa precisaria de um suporte / estímulo específico para aprender e produzir os conhecimentos estipulados pela professora. Com os estímulos adequados, relacionando a sua vida cotidiana com os conteúdos da sala de aula, esses realmente fariam sentido para ele, e o docente atuaria na zona de desenvolvimento proximal de cada um. Também chama atenção que muitas professoras consideram a classe especial como uma “classe normal”, sem diferença alguma em relação às demais. Entretanto, ao mesmo tempo apontam a importância de se desenvolver um trabalho diversificado para cada aluno, de forma a atender às suas necessidades especiais. Algumas entrevistadas afirmam que a prioridade do trabalho para alunos adultos é a socialização, embora, sem perder o foco acadêmico. Para tal baseiam-se no Programa Diversificado do Município55, no qual cada aluno tem a sua programação específica. “Ontem teve jogo do Flamengo, que é uma coisa que eles chegam aqui... que é uma coisa que eles gostam. Então eu trago jornais, a gente começa a trabalhar frases de jornais, notícias, a gente trabalha assim. Mas, respeitando sempre, sem aquela cobrança, cada grupo é um grupo” (relato da professora B, grifo nosso). Segundo Garcia (2007, p.03) a classe especial passou a ser considerada como um “espaço de oportunização, onde foi oferecido um atendimento individualizado na tentativa de preencher lacunas detectadas tanto na área de comportamento como nos pré-requisitos dos conteúdos escolares, atentando para as (im)possibilidades de cada um”. O conteúdo acadêmico não segue o planejamento das classes comuns, sendo organizado conforme as necessidades de cada um, visto que, cada aluno está em um nível de aprendizado diferente do outro. Mas, pelo que foi enfatizado pelas entrevistadas o objetivo principal da classe especial é a alfabetização. Dados semelhantes foram encontrados por Pletsch (2009), em pesquisa acompanhando alunos com deficiência intelectual. Esta autora aponta que nas discussões das professoras especialistas o papel da classe especial é “efetivar o processo de alfabetização e letramento dos alunos com necessidades educacionais especiais” (p.181). “Cada um, tem uma forma de aprender, cada um está em um momento do conteúdo. [...] Então a mesma atividade, você vai fazer uma adaptação curricular para adequar o que você quer atingir a cada um e saber o que cada um é capaz de te dar” (relato da professora A). 55 O Programa Diversificado do Município refere-se às atividades de vida diária do sujeito . 96 O currículo estipulado para cada ano do ensino regular é importante para que esse aluno com deficiência intelectual seja incluído na classe comum. Assim, ao mesmo tempo, que na classe especial há uma autonomia e independência para ensinar esses conteúdos, respeitando a temporalidade de cada um, existe a pressão da inclusão desses alunos. “[...] barra o conteúdo e aí barra na idade. Porque por idade eu poderia colocar... assim, um aluno que alfabetizou e está bem, vou botar ele no 2º ano, que é a antiga primeira série. Só que ele já tem 11 anos, 10 anos, pelo sistema acadêmico eu não posso fazer isso, que é o que organiza as turmas. Aí o que eu tenho que fazer, procurar me informar; eu tenho que investir nele, eu tenho que dar uma forma dele alcançar. O trem que não pára, e idade que também não pára, então é uma luta contra o tempo. [...] é uma corridazinha” (relato da professora A). Garcia (2007), em uma pesquisa desenvolvida com alunos de classes especiais, já comentada, mostrou que a passagem pela classe especial segue um curso composto por dois momentos: o primeiro acontece quando a pessoa não corresponde às expectativas criadas para alunos de turmas comuns indo para a classe especial e o segundo refere-se aos alunos da classe especial que retornaram para o ensino regular, carregando esse estigma. Glat (2004) explica que os estigmas, rótulos e os preconceitos são criados socialmente e historicamente, transformando alguns grupos em excluídos / segregados, sendo assim, posteriormente esse estigma será difícil de retirar. Isso é o que acontece com o sujeito com deficiência intelectual que fica na transição classe especial e turma regular, carregando o rótulo do “fracasso escolar”. A passagem desse alunado para as classes comuns é feita com muita cautela, sendo preciso estabelecer uma parceria entre o ensino regular com o especial. Esse fato nos remete às pesquisas (já discutidas no capítulo 1), que relatam a importância dessa parceria para o sucesso da Educação Inclusiva. O processo da passagem do aluno com deficiência intelectual da classe especial para a classe comum, em alguns casos acontece como é denominada pelas participantes como inclusão / integração parcial, no qual o aluno é incluído aos poucos, de acordo com a sua capacidade de adaptação à turma. É interessante lembrar que esse processo, embora bastante razoável, contraria a política da Educação Inclusiva, que preconiza que todos os alunos devem estar matriculados diretamente em turmas comuns. “É difícil, primeiro a gente faz uma... um horário reduzido, ele vai um pouquinho cumprir o horário reduzido. Eles sentem muito, às vezes a professora que recebe sente muito. Vamos falar de uma maneira geral, que aqui eles estão acostumados a fazer isso, às vezes dá certo quando não pode não dá. E ele de qualquer maneira vai ter o acompanhamento de uma sala de recursos ou do itinerante. Mesmo assim eles ficam defasados” (relato da professora I, grifo nosso). 97 No depoimento da professora I, notamos que a defasagem no currículo da classe especial em relação ao da turma comum é uma barreira para a inclusão do aluno com deficiência intelectual, pois esse sujeito, além de suas dificuldades intrínsecas, entra no meio de um processo que nem sempre consegue acompanhar, mesmo com suporte. “A gente procura uma turma que esteja mais ou menos no mesmo nível de conteúdo, só que muitas vezes esbarra na idade. Porque todo sistema acadêmico para montagem de turma é de acordo com a idade, isso é um sistema acadêmico, isso é da Rede toda. Quando eu tenho um aluno que às vezes já tem uma ‘idadezinha’ que teria para um determinado período e ele não sabe aquele conteúdo que vai, aí eu tenho que segurar ele um pouquinho e investir. Aí eu tento organizar a idade com o conteúdo daquele período, investir em cima daquele ali para poder chegarem um nível para que ele possa ser integrado pelo sistema acadêmico também ser recebido naquela turma” (relato da professora A). A inclusão / integração parcial acontece como uma forma de “preparação” do aluno para estudar em uma turma comum, mas isso está mais alinhado com o modelo da Integração em que o aluno vai para a turma comum quando “estiver preparado”. E é justamente esse modelo que a política de Educação Inclusiva tenta superar. Novamente os dados aqui obtidos estão de acordo com a já citada pesquisa de Pletsch (2009) que observou que as classes especiais são utilizadas como forma de “preparação” desse alunado para a inclusão na classe comum, mantendo a postura do modelo da Integração. “A criança vai visitando a sala, ela vai com a professora, ela fica alguns minutos lá na sala com a professora. É gradativo, até ela ficar, e enquanto ela não passa, ela ainda responde como aluna do ensino especial” (relato da professora E). Outra barreira que é apresentada nas falas das entrevistadas, além do conteúdo, é a idade dos alunos, pois para serem incluídos em classes regulares os alunos precisam ter a mesma idade que os demais, se não o sistema acadêmico impede essa inclusão. Entretanto, essa mesma exigência não é feita para o ingresso em classes especiais, que atendem alunos de diferentes faixas etárias na mesma turma. Esse impeditivo da idade faz com que as professoras especialistas tenham que investir em um determinado aluno, o qual acreditam estar “preparado” para ser incluído em uma turma comum e / ou para o encaminhamento ao Programa de Ensino de Jovens e Adultos (PEJA)56, caso isso não aconteça, essas pessoas ficam na classe especial por tempo indeterminado. Ou seja, para que um aluno de classe especial seja incluído em uma turma comum, ele precisa ser alfabetizado e, em alguns casos, 56 De acordo com relato da professora E, para a inclusão do aluno com necessidades educacionais especiais na EJA (Educação de Jovens e Adultos) é necessária a autorização do responsável, e estes nem sempre concordam com a transferência, entre outros aspectos devido ao fato que geralmente o PEJA é no turno noturno. 98 há a necessidade também de dominar outros conteúdos acadêmicos como as operações matemáticas, além de ter idade adequada para a série. “É quando a criança já lê, interpreta, faz cálculo” (relato professora M). “Eu só mando um aluno para a classe comum quando ele está totalmente alfabetizado. O alfabetizado é aquele que consegue ler e interpretar; se ele só lê, eu não mando, porque são no caso os alfabetizados funcionais” (relato professora L). Na narrativa da professora L, percebemos ainda a predominância do modelo de Integração e o “poder” da docente de Educação Especial para encaminhar os alunos na medida em que ache adequado, como se não houvesse uma diretriz normativa a respeito desse processo. Portanto, os alunos que não atendem aos requisitos de idade e o conteúdo exigido pela série para serem incluídos em turmas comuns, permanecem nas classes especiais. Cabe questionar se esse processo de inclusão está sendo feito da melhor maneira. Será que os alunos desejam essa inclusão e se adaptam às turmas comuns? De acordo com Veltrone & Mendes (2009, p.17) em pesquisa desenvolvida com sujeitos com deficiência intelectual em que relatam suas experiências, as autoras notam que As experiências de inserção de alunos com deficiência mental na classe comum não podem ser vistas a priori como algo bom ou ruim em si, quando se tem em mente o impacto deste tipo de escolarização sobre o aluno com deficiência mental. Nestes casos, parece difícil até mesmo falar de sucesso ou fracasso porque em geral observa-se que os alunos percebem tanto aspectos positivos quanto negativos nesta nova forma de escolarização (grifo das autoras). Certamente há experiências bem sucedidas desse processo, mas de acordo com alguns relatos, às vezes o aluno acaba retornando à classe especial. “Mas eu tive um aluno que ano passado nós experimentamos na 3ª série, da idade dele, ele é bem grandão. Ele se sentia meio perturbado em relação ao quantitativo, mesmo tendo uma turma reduzida, não por ele, porque já tinha outro especial que era o C.. Mas ele achava que era muita gente, achava que era muito barulho, porque nossa turma são só oito, no caso esse ano eu tenho sete. E eles são muito tranqüilos, mesmo que não tem bagunça, que eu sou muito bagunceira, então eu não aceito turma muito quietinha não, eu gosto de turma movimentada, eu faço atividades que eles se movimentem, mas ele não se adaptou muito bem a essa turma, ai esse ano nós íamos fazer a mesma coisa” (relato da professora F). Pesquisadora: E aí ele voltou para a classe especial? “Não, ele ficou só experimentando, ele estava indo e ficando no horário diferente da turma, mas aí não foi muito bom pra ele, porque ele estava ficando nervoso, ele tava ficando muito agitado, ele tava com dificuldade, porque ele só escreve com letra bastão. Então uma coisa que nós não tínhamos trabalhado ainda que foi bom até experimentar, para nós percebermos, que eu só trabalho com ele com a letra bastão, e indo para essa turma nós pensamos: a professora escreve com letra 99 cursiva no quadro, e ele vai ter que copiar. Aí eu comecei a trabalhar com ele a letra cursiva para ele passar para bastão, ele reconhece as letras, mas ele tinha dificuldade de passar, a letra bastão ele copiava meio tempo, você colocava a cursiva ele demorava muito mais” (relato da professora F). No depoimento acima, há um exemplo claro da diferença entre o conteúdo e a temporalidade da classe especial e da turma comum. Não é necessário lembrar que o retorno do aluno para a classe especial é um procedimento contrário à atual política da Educação Inclusiva. De acordo com a Lei Orgânica do Município do Rio de Janeiro de 1990, os alunos com deficiências ou outras necessidades especiais devem ser matriculados diretamente em uma turma regular. No momento em que a professora regente percebe alguma dificuldade mais acentuada de aprendizagem, ela deve emitir um relatório para a CRE, que juntamente com o IHA avaliará o aluno, a fim de encaminhá-lo, se for o caso, para a classe especial. Em pesquisa realizada por Glat (2008a), notou-se que na maioria das vezes, os relatórios das escolas pedindo avaliação dos educandos com necessidades educacionais especiais relatam apenas as impossibilidades dos sujeitos, somente o que eles não podem fazer, sem se atentarem para as suas capacidades. Porém, na prática, o movimento da classe especial para a classe regular acontece através da percepção da professora especialista em parceria com o professor da turma para onde esse aluno seria encaminhado. Pelos relatos, o encaminhamento para classe especial seria uma última opção: “Tem que esgotar todos os tipos de recurso para ver até que ponto a criança é especial, ou é um criança que está indisciplinada ou é uma criança dispersa apenas” (relato da professora L). Glat (2008a) em pesquisa desenvolvida com as Agentes de Educação Especial (profissionais responsáveis pela avaliação dos educandos com necessidades educacionais especiais na CRE) relatam que no momento da matrícula desses alunos, normalmente, a Escola entra em contato com elas para se informarem sobre o procedimento de encaminhamento para um serviço especializado. Como se os responsáveis por esses indivíduos ainda fossem os profissionais da Educação Especial. Há também casos em que o aluno já foi de classe especial, foi para a turma comum e não se adaptou a essa nova realidade, sendo pedido para que a mãe consiga um laudo para que ele seja reavaliado pela CRE, a fim de que retorne para a classe especial. Segundo uma das professoras, os responsáveis precisam autorizar o remanejamento de um aluno da classe especial para a comum ou virse-versa. 100 “Nós agora estamos com o caso de um aluno do 5º ano, antiga 4ª série, que a mãe dele está correndo atrás para ver se encaixa o R. em uma sala especial, de crianças especiais, que seria pra mim. Porque o R. já foi meu aluno, até hoje ele ainda não aprendeu as vogais”. Pesquisadora: E está na classe comum? “Sim. Mas a mãe dele está levando ao médico, correndo atrás para achar um laudo, para que seja dado um laudo para ele ser encaminhado. Porque sem laudo ele não pode ser encaminhado para uma turma especial” (relato da professora L). Para Garcia (2007) é fundamental repensar esse movimento de “classe regular – classe especial – classe regular” e conhecer melhor as práticas pedagógicas desenvolvidas nas salas de aula, caso contrário esses alunos carregarão o estigma do fracasso escolar. Para essa autora, há uma perversidade no sistema de ensino regular, o qual possui critérios de exclusão e “como meio de ‘ajudar’ aos que fracassam, ele oferece os serviços das classes especiais” (GARCIA, 2007, p.5). A partir da pesquisa realizada com ex-alunos com deficiência intelectual de classes especiais e seu processo de escolarização, Garcia (2007) concluiu que esses educandos aprenderiam independentemente das classes especiais, porém o ensino regular não soube ensiná-los, então a classe especial contribuiu para o seu processo de ensino-aprendizagem. Essa pesquisa também mostra que a escola precisa ser revista e que a classe especial fez a diferença na vida dos estudantes com deficiência intelectual, sendo a oportunidade de prosseguirem os estudos ao invés de abandonarem a escola, tendo a possibilidade de aprender a ler e escrever. Quando o trabalho desenvolvido na classe especial é bem feito e quando a parceria com o ensino regular é bem sucedida, a inclusão se torna viável, como foi o caso de uma aluna da classe especial que foi transferida para a regular. Segundo a professora esse processo aconteceu por meio da inclusão / integração parcial, no qual a docente da classe especial ajudava a aluna no conteúdo, como se fosse uma sala de recursos. Atualmente a aluna participa integralmente das atividades da classe comum. “Quando foi esse ano, ela [aluna com deficiência intelectual da classe especial] foi integrada, ficou lá, e foi muito interessante, porque ano passado ela participou das avaliações da turma e ela é MB [muito bom] em matemática, em português não. O que professora [da turma comum] fez? A professora colocou ela como monitora. E ela era daqui [classe especial], as crianças [da turma comum] no recreio, a todo momento sabiam que ela era daqui, tanto que começaram a falar para a Tia [regente da turma comum], e as crianças do regular, ‘ a Jéssica é MB e a Tia falou que ela estava na tua turma [classe especial], é para aprender um pouco mais’. Mas na turma comum ela já estava ajudando. Então para eles, ela virou alguém que ajuda a professora, para eles aprenderem. Eu estava sentava no parquinho com a minha turma da classe especial, esse ano, aí vieram duas coleguinhas [da aluna com deficiência intelectual incluída turma comum,] que foram da turma da antiga 101 4ª série, aí falou, ‘Tia eu quero ir para a sua turma [classe especial]’, criança regular da turma dela” (relato da professora A). Esse relato é significativo, pois ilustra um caso de inclusão bem sucedida; a aluna não só se adaptou bem à classe regular, como passou a ser reconhecida como uma estudante de destaque na turma, tanto nas matérias acadêmicas quanto socialmente, tornando-se a monitora da professora. Outro fator interessante é a de que nesse momento, a classe especial perdeu o seu estigma de ser uma turma de “fracassados”, mas passou a ser um espaço para auxiliar os alunos na aprendizagem, propiciando o desejo de outros alunos da turma comum de estudarem na classe especial. Vale ressaltar nessa fala, como na maioria das entrevistas, é a utilização do termo integração como sinônimo de inclusão, como se fossem conceitualmente os mesmos modelos. Esta observação já havia sido apontada em outras pesquisas, como de Redig (2007), Oliveira (2007), Redig & Souza (2008), Ramos (2009) entre outras e discutida no capítulo 5. Conforme mostra o gráfico abaixo, a maioria das professoras concorda com os procedimentos estabelecidos para a passagem do aluno com necessidades educacionais especiais da classe especial para uma turma comum. Gráfico X: Gráfico representativo da opinião das professoras especializadas sobre a forma como é feita a passagem dos alunos com deficiência intelectual da classe especial para a turma comum. Das dez professoras entrevistadas apenas uma apresentou uma opinião contrária, alegando que: “Não, eu acho que deveria ser incluído, não levando em conta a idade. Se ele está mesmo com 15 anos, mas vai freqüentar uma 2ª série, eu acho que deveria incluir assim” (relato da professora I). 102 Porém, se o aluno for incluído na série equivalente aos seus conhecimentos acadêmicos, mas com uma idade muito diferente do restante da turma, esse não poderá conviver com seus pares da mesma idade, criando uma defasagem social. Essa questão, da idade x conhecimentos acadêmicos, envolve uma grande polêmica, e é um dos entraves para a inclusão dos alunos com deficiência intelectual, visto que, eles realmente, aprendem de forma mais lenta. Acreditamos que esses alunos devem ser matriculados nas classes comuns e com suporte dos professores especializados, bem como utilizando as adaptações / adequações curriculares, esses indivíduos possam seguir sua trajetória escolar nessas turmas. Todavia, concordando com Garcia (2007) se o ensino comum não souber educar / ensinar esse alunado, um dos caminhos para a oportunização do aprendizado é a classe especial. Mas que essa deve se reformular para atender essa demanda de acordo com a nova estrutura educacional, como informa Glat (2004a). As professoras que concordam com essa situação, afirmam: “Claro, com certeza. Teria até que ter mais, porque já lendo e sabendo as quatro operações, dependendo da turma, porque às vezes vai para uma série que ainda não precisa saber multiplicação e divisão. Mas tem que saber e tem que saber bem, ler legal, interpretar, porque qualquer falhazinha ele mesmo começa a se ver como inferior aos outros coleguinhas. E tem criança que trava” (relato da professora M). Nesse sentido, observamos que ainda se considera o conceito tradicional de “preparação” do aluno; ou seja, que precisa dominar o conteúdo da série adequada a sua faixa etária para ser incluído em uma classe comum e em alguns casos ainda precisará de suporte especializado para acompanhar a turma. Para Glat & Blanco (2007, p.27-28) a concepção da escola de valorizar que a “idéia de ‘prontidão’, preparação ou qualificação prévia do sujeito para estar incluído em uma turma, e não as necessidades que ele terá para aprender o que é proposto para os demais alunos dessa turma” é um movimento contrário à proposta da Educação Inclusiva. Essas autoras também apontam que as escolas inclusivas, precisam reconhecer que alguns alunos precisarão de mais suporte / ajuda que outros para alcançar o mesmo aprendizado. “Se não, não vai acompanhar. Eu sei disso porque já tive alunos integrados também. Eu dou aula a tarde, minha turma é 4º ano, e ano passado eu dei pra última 4ª série. O aluno integrado, mesmo assim ele não consegue acompanhar uma 4ª série, então você tem que colocar ele do seu lado, fazer um trabalho a parte. Porque ele não vai conseguir, e não é todo professor que sabe trabalhar com aluno especial que está integrado, a primeira coisa que ele faz é largar pra lá, porque é difícil. Além de ter o planejamento tem que fazer outro para atender a criança, porque se não o que vai adiantar a criança estar ali, integrado se ela não sabe os propósitos da classe” (relato da professora L). 103 No relato da professora L, percebemos que outro obstáculo para a inclusão desse aluno é a falta de segurança no professor da turma comum que se sente despreparado para lecionar a esse alunado, deixando-o de lado. Acreditamos que um dos caminhos para superar esse problema da desinformação dos docentes é a capacitação não só dos especialistas, mas também dos docentes das classes regulares. A Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994) afirma que nas escolas deve haver práticas de treinamento para os professores, oferecendo uma capacitação para que exercitem sua autonomia, desenvolvendo adaptações / adequações curriculares de modo a colaborar com os professores especialistas. As professoras participantes da pesquisa informaram que, todas têm contato com os professores das classes comuns e que essa relação é boa. Algumas alegam ter o contato apenas nas reuniões e que nesse momento é tranqüilo. Esse relacionamento bom entre as professoras especialistas com os demais docentes das turmas comuns pode ser compreendido pelo fato, da maioria atuar no segundo turno como docentes de classes comuns, facilitando o estreitamento desse laço profissional e pessoal. “Eu trabalho em classe regular à tarde, e aqui a gente está em contato toda hora” (relato da professora L). “Eu acho boa, eu passo o dia aqui, eu trabalho o dia todo, mas eu acho muito boa a relação. Tem professores da nossa escola que até fizeram curso de Educação Especial para receberem os alunos. Às vezes, o aluno não está dando certo porque as turmas são muito grandes, então às vezes alguma indisciplina na sala de aula, então às vezes o aluno vê aquele clima na sala de aula e aí não responde bem” (relato da professora E). De acordo com o relato da professora E, notamos que há professores do ensino regular que se interessam e se sentem despreparados para receberem alunos com necessidades educacionais especiais, realizam o curso oferecido pela Prefeitura. Mas segundo algumas falas, mesmo o docente tendo o interesse para cursar uma capacitação, às vezes, ele não tem disponibilidade de horário para a realização do mesmo ou esses são no fim de semana, bem como depende da sobra de vagas para eles, visto que, a preferência é para os professores especialistas. O número excessivo de alunos em sala de aula, como apontado em diversas falas, mais uma vez, se revela um obstáculo para a inclusão desse alunado. Então, retornando à discussão da capacitação dos docentes; o oferecimento de cursos para os professores regentes das classes comuns, também foi apontado como uma possibilidade de melhorias na percepção que esses profissionais têm em relação aos professores da Educação Especial, principalmente da classe especial. Apenas uma professora 104 especialista da classe especial relatou que soube de casos em que os professores do ensino comum inferiorizavam o trabalho das classes especiais. “Mas eu sei de casos, que não recebe muito bem, que acha que o professor de classe especial só tem oito alunos, é a fala: ‘- Oito alunos é muito pouquinho’.” (relato da professora I). Pesquisadora: E como você acha que poderia melhorar essa relação? “Todo mundo fazendo esses cursos de... que a Prefeitura oferece, esses cursos de reciclagem, que aí a pessoa iria pra lá, e iria receber esses alunos com a maior base. Porque esse curso que você faz, que o pessoal não faz, sempre é fora do seu horário de trabalho, inclusive sábado, você trabalha o dia todo, aí o pessoal não procura” (relato da professora I). As demais professoras afirmaram que em suas escolas a maioria dos professores do ensino comum recebe bem os profissionais da Educação Especial, mas pela desinformação, alguns se mostram apreensivos, como no relato da professora I. Porém, podemos perceber que por vezes as especialistas escolhem os professores do ensino comum que mais se identificam com essa proposta, a fim de estabelecerem parcerias, sendo assim, a experiência de relacionamento, no final, é boa. De acordo com essa prática de escolha dos docentes, notamos que é a especialista da classe especial quem decide em que turma seu aluno será incluído. “Muito bem, da nossa escola muito bem. Todo mundo aqui, se perguntar por um deles, da manhã ou da tarde, para qualquer funcionário até para o Sr. C. que varre aqui, ele vai te dizer que sala que é, vai te dizer o nome, porque o carinho e o respeito aqui, é lá em cima. A escola é pequenininha, então todo mundo se conhece, é uma troca. Se a gente está com dificuldade com um aluno, um ajuda o outro” (relato da professora L). “Eu acho que recebem muito bem, aqui na escola a gente nunca teve problema. Nós temos voz e temos vez aqui. E lá na Escola 3, todo mundo no primeiro conselho de classe que teve, todo mundo falando que a minha turma estava de parabéns que são os mais educados da escola, porque lá eles são terríveis, a maioria adolescente” (relato da professora F). No relato da professora F entende-se que as professoras especialistas são consideradas parte integrante da escola, podendo opinar nas decisões. Também fica indicado que sua turma é vista com respeito. A docente acredita que rompeu com o estigma que esses sujeitos carregam, mas não podemos afirmar isso, pois os profissionais da Escola podem achá-los “educados”, principalmente para os comportamentos “considerados” historicamente de pessoas com deficiência intelectual, mas não significa que tenham habilidades sociais que os permitam se integrar com os demais alunos da instituição. Entretanto, esse respeito só foi alcançado pela atitude da professora de Educação Especial, que, para superar o preconceito e brincadeiras de mau gosto que eram feitas com sua turma, passou a incentivar os adolescentes 105 que debochavam dos estudantes da classe, a participarem de alguns momentos da aula e conhecessem aquela realidade. No próximo item, abordaremos a relação dos professores generalistas com os alunos com deficiência intelectual. Algumas professoras entrevistadas, relatam bom relacionamento dos docentes do ensino comum em relação a esse alunado, mas ressaltam o despreparo e receio em alguns casos. Outras afirmam que essa boa relação é devido à escolha do profissional para lecionar a esses educandos. “A maioria recebe bem, alguns eles tem ainda uma certa dificuldade. Mas quando se tem uma orientação, toda uma orientação, uma ajuda por fora, a equipe da escola trabalhando junto, o professor vai. Mas se esse professor se sente ameaçado, logo de início ele fica assustado. Mas quando ele começa a ver que tem um professor itinerante, que tem a sala de recurso que está ali do lado ajudando, tem a equipe da Direção. Eu acho que eles recebem bem, eu não posso falar que 100% recebe bem, mas eu diria que 70% recebe bem. Tem professor que tem sim preconceito, ele tem as suas resistências, mas o ser humano é assim, mas a maioria aceita bem, aqui na nossa escola” (relato da professora B). “Então você vai chegando e vai descobrindo, você vai descobrindo o perfil assim, você vai observar, vai ver se aquela pessoa, se o que ele te passa é certo. E aí você achou a pessoa certa, então dali você vai estabelecendo um vínculo com ela aos poucos. Quando você fala, por exemplo, essa escolha por essa turma, você já tem uma idéia de que ele vai ser bem recebido” (relato da professora A). “Existe uma boa relação, mesmo que ele [professor da turma comum] não possa ajudar muito, não tenha condições, mas a relação pessoal é muito boa. De repente a parte pedagógica ele não consegue saber, ele tenta, mas a relação pessoal é muito boa” (relato da professora I). “Eu estou falando só pela minha escola, por isso acho que fica um pouco limitado. Mas eu acho que os professores que estão mais de perto com o ensino especial, são professores de turma que tem, por exemplo, uma turma regular e trabalha com o ensino especial, são os que mais se aproximam. O professor de ginásio, já é um pouquinho mais distante” (relato da professora E). Esses relatos expressam opiniões importantes para nosso estudo, pois no primeiro (professora B), as atitudes dos docentes com os alunos com deficiência intelectual, são diferentes quando percebem o apoio e suporte não só dos profissionais da Educação Especial, mas também da Direção da Escola. Um dos principais pressupostos da Educação Inclusiva é que o aluno com necessidades educacionais especiais seja de responsabilidade da escola como um todo e não apenas dos serviços de Educação Especial. Isso significa que todos os profissionais da Educação precisam ser capacitados para atender esses educandos, de forma que, a inclusão seja parte integrante do projeto político pedagógico da Instituição (GLAT & NOGUEIRA, 2002; REDIG, 2007, 2009; REDIG & SOUZA, 2008). 106 No segundo relato, acontece a escolha do profissional que mais se aproxima do perfil desejado para o recebimento dos alunos com necessidades educacionais especiais. Com essa narrativa há o reforço de uma postura que aparece em algumas falas, da necessidade de escolha do profissional que receberá seu aluno da classe especial, no qual é a docente da Educação Especial quem determina para que turma seu aluno irá, de acordo com o perfil que ela considera apropriado do professor da classe comum. Sendo assim, a inclusão desse sujeito não é realizada como um processo da Escola, mas sim pelo “poder” da especialista de decisão. No terceiro, a percepção de que no relacionamento pessoal, esses alunos são bem aceitos pelos professores, mas que estes não sabem adaptar sua prática pedagógica para que eles alcancem um nível satisfatório de aprendizado, enfatizando o despreparo para a Educação Inclusiva. Possa, Silveira & Revelante (2007), afirmam que para construirmos uma escola inclusiva, há a necessidade de desmistificar a concepção de “bom” e “mau” aluno, visto que, se não houver essa mudança, os alunos com necessidades educacionais especiais estão destinados ao fracasso, pois representarão o mau aluno, o que não aprende no tempo estipulado pela escola. Essas autoras (POSSA, SILVEIRA & REVELANTE, 2007, p.2) apontam que “sem essa transformação os professores estão fadados a se deparar com um aluno deficiente e não saber o que fazer, ou ainda, pior que não saber o que fazer, poderão estar negando sua capacidade docente de atendê-los”. Mas, independente de outras considerações, podemos afirmar, de acordo com as entrevistadas, que os professores que tem mais facilidade para aceitar e estabelecer relacionamentos significativos com os alunos com deficiência intelectual, são aqueles que já tiveram experiência com esse alunado, logo não precisam lidar com o obstáculo do desconhecido. Para finalizarmos essa análise, verificaremos as respostas referentes à capacitação do professor da classe especial para atuar como suporte no atendimento ao aluno com necessidades educacionais especiais incluído em turmas comuns. Vale ressaltar que, de acordo com a política de Educação Inclusiva, os professores da Educação Especial precisam (re)pensar sua formação na escola, antes voltada exclusivamente para o atendimento especializado individual dos educandos com necessidades educacionais especiais, e que agora abarca também o apoio / suporte aos professores do ensino comum que recebem esses alunos em suas turmas. Nessas modalidades de atendimento, o especialista pegará diferentes deficiências, não se especificando apenas em uma clientela da Educação Especial, como acontece em alguns casos; por exemplo, na explicação da professora B sobre a escolha do curso oferecido pelo IHA: 107 “Eu fiz esses dois anos de especialização em Deficiência Mental, e eu fiz capacitação que o IHA faz. Quando entrei, e no decorrer desses anos todos, eu sempre fiz, as capacitações que a própria prefeitura oferecia”. Pesquisadora: Todas em RM? “A maioria sim, porque eles fazem qualquer área, e como fiquei na área do RM, tudo que fiz foi na área. Fiz também de alfabetização há muitos anos atrás, mas agora como eu me especializei mais trabalhando com a RM, tudo que eu fiz foi em torno da Educação Especial, não só RM, a gente vê algumas coisas de Condutas Típicas, DA [deficiência auditiva], mas o meu foco maior é no Deficiente Mental” (relato da professora B). Algumas professoras acreditam que a experiência que possuem é suficiente para desenvolverem um serviço de apoio ao ensino comum para alunos com diferentes deficiências, visto que, o trabalho realizado na classe especial é muito parecido com o da sala de recursos e itinerância, por se tratar de atendimentos individualizados e direcionados (personalizados). Não concordamos com essa percepção, pois uma coisa é oferecer atendimento a um aluno na turma especial, em que todos estão classificados com a mesma deficiência, seja intelectual, auditiva, visual, física, condutas típicas e etc, outra é ensinar a alunos com distintas necessidades educacionais especiais, bem como ensinar a um colega como lidar com esse aluno no meio de muitos outros que estão mais adiantados do que ele. Segundo Bueno (1999) os professores da Educação Especial não estão preparados para o novo papel, já que sua visão é baseada no déficit. Nos relatos a seguir em relação à sua capacitação para serem suporte do ensino comum atendendo diversos alunos, notamos que para elas não há problema em lecionar para pessoas com outras deficiências, pois a experiência que possuem lhes proporcionou base para isso, negando a especificidade do trabalho especializado: “Porque eu já dou aula há anos na sala das crianças especiais. Outras deficiências? Sem problema” (relato da professora L). “Eu acho que o trabalho deve ser quase o mesmo, porque a gente faz um trabalho individual, só que com características diferentes, com respostas diferentes” (relato da professora F). “Eu acho que a gente tem capacidade para isso, se você está trabalhando nesse ramo, a gente recicla sempre” (relato da professora E). “[...] até pela prática que a gente tem de muitos anos. Às vezes até não é o caso nem de ser feito uma especialização a mais, mas a prática te ensina muito. [...] Então eu gosto muito da turma que eu tenho, eu gosto muito de lidar com deficiente mental, mas se fosse trabalhar [como professora itinerante ou de sala de recursos] sem opção, eu trabalharia, mas por opção eu prefiro a classe especial” (relato da professora B). 108 Outras entrevistadas disseram que até atuariam no serviço de apoio, mas preferem continuar na classe especial, por já estarem acostumadas com o trabalho e por ficarem lotadas em apenas uma escola, o que não aconteceria se estivessem como itinerantes ou de sala de recursos, como explicitado no depoimento da professora B. Outro obstáculo é o já comentado sentimento de posse das especialistas em relação à sua turma, elas desejam fazer o seu trabalho de forma autônoma, sem depender dos docentes das classes regulares. “Eu gosto mais de trabalhar com turma mesmo. Já estou tão acostumada” (relato da professora D). “Porque eu ficava pensando assim, gente, vou ter que, a sala de recurso pega trabalho, que o professor já está fazendo, para dar um reforço, uma forma diferencial do que ele não está entendendo. Eu falei não. Eu quero, eu prefiro minha aula, eu quero dar a minha aula. Eu me sinto melhor” (relato da professora A). “Mas eu gosto muito da minha sala de aula, da classe mesmo especial, eu gosto muito, porque são meus alunos todos os dias, aquela minha rotina, eu gosto sim. De repente se eu não aceitasse um convite desses é porque eu não gosto de trabalhar em várias escolas, eu gosto de ter a minha sala, os meus alunos ali” (relato professora M). Algumas professoras acham que precisam de uma capacitação para atuar como suporte, principalmente se for para apoiar alunos que tenham outros tipos de deficiências, que não sejam a intelectual, com a qual já estão acostumadas e capacitadas. Essas especialistas acreditam que há especificidades em cada deficiência e que para compreenderem as necessidades educacionais desses outros alunos precisam de mais estudo. Em outras palavras, apenas a experiência na classe especial com alunos com deficiência intelectual, não as capacitaria para atuarem como suporte para alunos com outras necessidades educacionais especiais. “Não vou dizer pra você que eu não me sinta, precisaria é claro de fazer uma capacitação” (relato professora M). “Aí não, porque, por exemplo, se eu for pegar surdo eu vou ter que me capacitar, eu sei alguma coisinha de surdo, mas se eu for pegar o surdo eu vou ter que capacitar para isso, se eu pegar uma criança que é muda, eu vou ter que aprender língua de sinais, coisa que eu não sei” (relato da professora E). “Eu até me sinto capacitada, mas é claro que tem que haver uma especialização, mais uma participação de um curso, uma coisa assim” (relato da professora G). 109 No decorrer desse trabalho notamos que a formação do professor especialista é importante para o processo de ensino-aprendizagem dos educandos com necessidades educacionais especiais, no caso, os com deficiência intelectual. Vale lembrar que mesmo as professoras que, em sua fala alegam que a prática é o suficiente, receberam formação continuada pela Prefeitura, como já mencionado. Sendo assim, sem dúvida esses cursos devem ter contribuído para uma melhoria em sua prática docente. Além da formação do professor da Educação Especial, para que a inclusão do aluno com necessidades educacionais especiais em turma comum seja bem sucedida, toda a escola deve se envolver no processo, tendo como um dos objetivos o auxílio aos professores do ensino comum nas suas dificuldades, além de possibilitar a participação dos alunos com deficiência intelectual nos eventos e projetos desenvolvidos pela instituição escolar. “Aqui a inclusão é muito bem trabalhada, eles participam de toda festividade, de peças, eles cantam, eles dançam, eles não ficam fora de nada” (relato da professora M). No relato acima, a entrevistada informa que a inclusão dos alunos com deficiência intelectual é “muito bem trabalhada” pelo fato deles participarem das festividades da Escola. Entretanto, Veltrone & Mendes (2009, p.17) após ouvirem esses sujeitos concluírem que “pode-se questionar se de fato a inclusão escolar está ocorrendo na nossa realidade educacional”, pois a matrícula é o início para a concretização da política da Educação Inclusiva, mas que esse processo só se efetivará quando esses educandos tiverem acesso a um aprendizado significativo e relevantes interações sociais. É fundamental ressaltar a necessidade de eliminação de sentimentos de inferioridade dos alunos, principalmente dos que já possuem um histórico de insucesso / fracasso escolar, como no caso os com deficiência intelectual. As autoras Veltrone & Mendes (2009, p.18) informam que “a vivência de situações satisfatórias por parte dos alunos revela aspectos positivos, mas, por outro lado, a vivência de situações negativas evidência que muito ainda precisa ser feito”, por isso elas apontam a importância da diminuição de situações discriminatórias e de mudanças nas práticas pedagógicas. 110 7 Narrativas das professoras especialistas: no interior das Salas de Recursos “Porque meu objetivo nessa sala de recursos, não é dar um acompanhamento como se fosse uma professora particular não; verifico o trabalho para eu ajudar a fazer” (relato da professora I). Neste capítulo analisaremos as narrativas de três professoras especialistas, que atuam em salas de recursos atendendo alunos com deficiência intelectual. A proposta das salas de recursos é atender no máximo 12 alunos em diferentes horários. O estudante que freqüenta esse serviço de atendimento estuda em uma classe comum e no contra turno vai à sala de recursos, sendo assim, essa docente precisa se organizar para visitar as escolas em que seus educandos estão matriculados, a fim de conversar com os professores regentes das turmas. A docente organiza a freqüência desse alunado, de acordo com a necessidade de cada um e o período que permanecerão na sala, bem como o agrupamento também dependerá de cada professor, normalmente esse atendimento é realizado em grupo. Esse planejamento acontece durante quatro dias de aula para que no quinto dia, a especialista possa visitar as outras escolas ou agendar reuniões com os pais. Segundo Siqueira & Silva (2009, p. 2729): De acordo com as Diretrizes Nacionais a sala de recursos é um serviço de apoio pedagógico especializado, no qual um professor especialista realiza a complementação ou suplementação curricular, em local dotado de equipamentos e recursos pedagógicos adequados às necessidades educacionais especiais dos alunos, podendo estender-se a alunos de escolas próximas, nas quais ainda não exista esse atendimento. Podendo ser realizado individualmente ou em pequenos grupos, para alunos que apresentem necessidades educacionais especiais, em horário diferente daquele em que freqüentam a classe comum. Como as salas de recursos se destinam ao atendimento de alunos com necessidades educacionais especiais, para Miranda, Rocha & Santos (2009) esse espaço se constitui em um verdadeiro instrumento para a inclusão escolar desses sujeitos. Conforme colocou uma das professoras entrevistadas, a sala de recursos não se caracteriza como um serviço de reforço escolar, mas sim como um espaço que proporcione “conhecimentos que contribuam para o seu desenvolvimento e aprendizagem, com a utilização de recursos específicos que atendam 111 às suas necessidades” (BRASIL, 1998, p.9). Segundo Bürkle & Redig (2008) a sala de recursos tem como objetivo auxiliar o aluno com necessidades educacionais especiais na sua inserção escolar e no processo de ensino-aprendizagem, bem como orientar os professores das classes comuns para a inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais, minimizar suas dificuldades, estabelecer relação com a família e elaborar adaptações / adequações curriculares de pequeno porte, quando necessário. Por meio das falas das professoras especialistas pretendemos compreender a relevância desta rede de apoio para a inclusão de alunos com deficiência intelectual em classes comuns. 7.1 Reflexões sobre a sala de recursos pela ótica das professoras especialistas No Município do Rio de Janeiro, à semelhança de outras redes escolares, os alunos com deficiência ou outras condições atípicas de desenvolvimento são avaliados pela equipe de Educação Especial da CRE e, de acordo com as singularidades de sua aprendizagem, se necessário, são encaminhados para os serviços de atendimento ou rede de apoio da Educação Especial: a sala de recursos, itinerância (BURLE & REDIG, 2008). “A CRE é que avalia. Lá tem uma equipe que faz a avaliação. Só recebo na sala de recursos, os alunos que tem encaminhamento de lá. Isso acontece, geralmente, no início do ano letivo. Eu acho que deve ser a CRE mesmo que tem que avaliar. Elas [profissionais da CRE] que são capacitadas para fazer isso. Elas é que decidem para onde serão encaminhadas: sala de recursos, classe especial, itinerância” (relato da professora C). Esse relato apresenta a insegurança da professora de avaliar a situação do aprendizado do aluno com necessidades educacionais especiais, acreditando que apenas a CRE é que possui profissionais capacitados para avaliação desse alunado. Os responsáveis pelo encaminhamento desses sujeitos para as diferentes modalidades de atendimentos especializados são os Agentes de Educação Especial lotados nas CREs. Conforme constatado em estudo anterior (GLAT, 2008a) esses profissionais são o elo entre as CREs e o IHA. Sendo assim, quando a escola possui dados reais de que um aluno possui alguma deficiência, o IHA é acionado por meio desses agentes com o objetivo de “auxiliar a escola no encaminhamento do aluno para o suporte especializado mais adequado” (p.20). Os pré-requisitos para essa função são “o interesse e a experiência como docente de alunos com necessidades educacionais especiais”; ou seja, a formação específica na área de Educação Especial não é exigida, e “devido à carência na formação inicial, o IHA, oferece 112 cursos de capacitação e / ou atualização para o exercício da função”. Logo, apesar destes profissionais estarem na CRE, eles não são necessariamente mais qualificados do que o professor da sala de recursos. É interessante observar, que as especialistas entrevistadas sentem insegurança para avaliarem seus alunos, mas consideram as agentes de Educação Especial, que não possuem nenhuma formação a mais, por estarem na CRE, como mais capacitadas para essa função. Como comentado no capítulo anterior, esses profissionais desenvolvem uma avaliação clínica o que contraria a própria política do Município de avaliação pedagógica do processo de ensino-aprendizagem desses educandos, o que seria mais apropriado ser realizado pela professora da sala de recursos. Após a indicação do aluno para a sala de recursos pelos Agentes de Educação Especial, o especialista deve entrar em contato com o professor regente, a fim de que estabeleçam uma parceria (BÜRKLE & REDIG, 2008), pois é o docente da turma comum que poderá relatar as dificuldades encontradas tanto no processo ensino-aprendizagem, bem como as potencialidades apresentadas pelo aluno. Conforme apontam estas autoras, depois do primeiro contato com o professor regente e do relato das dificuldades, tanto do aluno quanto do docente, o especialista apresentará ao outro docente as estratégias e metodologias para o ensino dos conteúdos que os alunos encontram dificuldades de aprenderem nas classes comuns. Essas estratégias propostas pelo profissional da sala de recursos compõem as adaptações / adequações curriculares, e tem como objetivo facilitar o processo de ensino-aprendizagem desses educandos. Este plano de ação, inicialmente é elaborado no espaço das salas de recursos e posteriormente, encaminhado aos professores das classes comuns, isso acontece de forma colaborativa, quando esses educadores se encontram. Comentando sobre a organização da sala de recursos, Silva (2008) lembra que por ser relacionada às necessidades educacionais de cada aluno, esta adquire uma configuração diferenciada. De praxe, funciona no contra turno da classe comum em que o sujeito está matriculado. O relato abaixo ilustra o cotidiano deste atendimento educacional especializado: “É sala de recurso de educação especial, eu pego todas as deficiências. Essa sala antes de ser sala, era um projeto que tinha só de surdez, então durante 12 anos essa sala era só de surdez. O aluno estudava de manhã e tarde, aí foi mudado, então muito aluno surdo, começou a receber os outros alunos com várias deficiências. Então eu tenho CT [condutas típicas], deficiência mental eu tenho uma só, que é por sinal daqui” (relato da professora I). 113 A partir do relato da professora I, percebemos que não há uma sala de recursos específica para alunos com deficiência intelectual, assim, a professora especialista lida com diferentes deficiências em sua sala de aula e a proposta atual é que essas salas sejam multifuncionais. Então, essa concepção de uma sala diversificada compartilha em parte com a idéia de Silva (2008) em que se ter uma sala de recursos somente para alunos com deficiência intelectual, representa o problema de separar o que difere e o de avaliar o que é diferente. Porém, ainda não alcançamos a concepção plena dessa autora, que se refere a uma sala de recursos em que as pessoas com deficiência não fiquem separadas dos demais alunos, não estabelecendo espaços destinados à escolarização desses sujeitos. “Ela tem um cotidiano, um pouco diferenciado da classe de alfabetização. Eu tenho um aluno do 4º ano, um aluno integrado. Ele está com 16 anos agora. Ele lê, escreve e interpreta, ele é um aluno ótimo, ele foi preparado aqui dentro da escola, eles têm alguns déficits abaixo na matemática e o mesmo na ortografia, que é trabalhado aqui. Quer dizer eu pego o que a professora dele está dando e tento aprofundar os conhecimentos dele, com todas as possibilidades que eu tenho na sala de recurso. Então o trabalho é alfabetizar eles, eu faço as visitas lá na escola, a gente conversa sobre os alunos, os professores estão pegando livros sobre alfabetização para poder me ajudar também. Então é um conjunto de ações para poder ajudá-los. E o objetivo é que eles aprendam a ler, interpretar, e que a gente possa colocar eles no 6º ou no 7º ano, não com problema de conteúdo, porque a gente não vai nesse momento se preocupar com isso, mas que eles possam estar inseridos, porque eles estão a margem, porque eles não conseguem fazer nada. Imagina ter 9 professores trocando ao mesmo tempo e todos eles escrevendo alemão no quadro para eles. É um desafio, a gente está começando agora, mas é um trabalho de formiguinha, de beija flor” (relato da professora N). Um ponto importante que aparece na fala da professora N, é a preocupação de que o aluno, no caso com deficiência intelectual, já esteja alfabetizado para ser incluído na classe comum. De acordo com a visão de algumas professoras especialistas, só assim ele poderá acompanhar a turma. Pois, como a professora N alega, não é possível adequar os conteúdos da turma, mas sim fazer um trabalho de alfabetização, para posteriormente adaptar esses conteúdos. Essa visão que professoras de salas de recurso mostraram sobre a alfabetização ser um pré-requisito para a inclusão do aluno com deficiência intelectual em uma classe comum, é semelhante ao que foi colocado pelas professoras das classes especiais, já discutido no Capítulo 5. A rotina da professora da sala de recursos é a seguinte: durante quatro dias da semana ela atende neste espaço para os alunos, e no 5º dia, visita as escolas em que eles estão matriculados. 114 “Eu tenho uma grande sorte, porque eu estou nessa escola, então eu encontrei muitos lá dentro, eu estou com cinco lá de dentro, porque quando eu não estava trabalhando de manhã aqui, tinha essa matrícula, aqui agora é matrícula, que eu já estou aposentada, no meu caso a dupla, então eu tinha a manhã para ir. Aí eu vou na escola, vou meia hora em uma, uma hora e meia numa, uma hora e meia na outra, eu podia fazer. As vezes eu vou duas vezes no semestre, aí não dá, e aí a relação sua com o professor da classe regular fica complicada, a partir do 6º ano. Porque de 1ª a 4ª é ótima, é telefone. E ainda tem um agravante, que eu só posso vir nesse horário da tarde, e o aluno que eu recebo é do horário da manhã, a professora trabalhou de manhã, e eu vou à tarde, mas assim geralmente todo mundo dobra na escola. Então dá para você fazer esse acompanhamento” (relato da professora I). Quando a matrícula da especialista é na mesma escola dos alunos que atende, facilita o contato com os demais professores e o atendimento individualizado. Mas quando acontece de ter que sair da sua escola para visitar outras, como exposto no relato, o acompanhamento fica mais complicado. “Então é um trabalho totalmente individualizado, eu tenho 10 alunos, agora no momento. Então é um trabalho individualizado, difícil de ser feito, porque às vezes a professora [da turma comum] não colabora” (relato da professora I). “Eu teria que ajudar ele antes para quando chegasse na aula, ele já entender a aula. E na maioria das vezes eu não tenho esse material antes, porque eu vou as escolas; que assim, eu trabalho durante 4 dias e tenho o 5º dia. Esse 5º dia eu faço o alojamento deles, que é um atendimento individualizado e vou as escolas conversar com os professores, aí eu sempre estou conversando, estou falando isso, mas elas não dão, principalmente quando eles vão para o 6º ano. A maior dificuldade minha é a partir do 6º ano, essa colaboração” (relato da professora I). Um aspecto significativo apresentado pelas entrevistadas é a dificuldade de colaboração dos professores do ensino comum, a partir do 6º ano do Ensino Fundamental. Acreditamos que isso possa acontecer, em grande parte, pelo fato dos docentes do Ensino Fundamental 2º segmento e Ensino Médio, lecionarem para diversas turmas em diferentes escolas, dificultando o encontro com os especialistas no seu 5º dia. Essa dificuldade de construir um trabalho colaborativo com os docentes das turmas comuns, também foi encontrada na pesquisa de Miranda, Rocha & Santos (2009, p.2112) que afirmou que “os professores das salas de recursos, muitas vezes têm dificuldade em prestar o atendimento educacional especializado para o alunado, pois em grande parte, o professor da classe comum, discrimina o trabalho especializado ou não fornece o material necessário”. Observamos a dificuldade em auxiliar os alunos nos conteúdos do Ensino Médio, visto que, não possuem formação específica nas disciplinas e que a falta de colaboração dos professores regentes deste grau de ensino aumenta esse problema. 115 “Olha, tem hora que eu sinto dificuldade em algumas matérias agora, porque você está afastada há muito tempo. Essa semana mesmo, agora, fui ensinar dízima periódica para uma aluna, aí eu senti um pouco de dificuldade. Aí eu tenho que pesquisar, procurar..., que é isso que eu falo, não era, para auxiliar ele. Se eu sei disso antes, eu já vou estar preparada na hora. E quando for para o 2º grau [Ensino Médio], eu já estou aqui pensando, quando esses alunos forem para o 2º grau eu não sei se eu vou estar preparada para esse acompanhamento. Eu até queria perguntar para elas, eu não sei como que é, se tem salas específicas e pessoas para esses alunos do 2º grau, que eu acho que não deve ter” (relato da professora I). “Olha nem eu sei, está difícil. Outro dia... eu estou tentando no conselho de classe, mas não consegui. Porque a gente sabe como é o conselho de alunos. A própria escola através da orientadora pedagógica, tenta conversar com eles, é isso que eu pedi na última vez, essa importância, eu já tive casos aqui, aconteceu hoje não, o professor depois de um ano, não sabia que tinha uma aluna surda dentro de sala. Um ano com aquela série o professor não sabe, com dados nas nossas reuniões, o professor não sabe nem que a aluna é surda. Tem professor que não se envolve” (relato da professora I). Tessaro (2007) em entrevistas com professores das classes regulares mostra que o entendimento que estes possuem sobre a Educação Inclusiva é insatisfatório, pois, apesar de terem uma noção, não conhecem os princípios norteadores dessa política. No entanto, a relação entre professor especialista e o da turma comum é fundamental para o desenvolvimento do trabalho colaborativo da sala de recursos, bem como para a elaboração das adaptações / adequações curriculares, como apresentado nos relatos a seguir. Embora a dificuldade de interação com os professores regentes seja comum, não é uma regra, há casos em que o relacionamento é bastante produtivo, como na pesquisa de Glat (2008b). O relato da professora N, abaixo, ilustra estratégias utilizadas em parceria para diminuir a dificuldade de adaptar o conteúdo. “Em matemática sim, porque não é o meu forte. Mas eu tenho uma ótima relação com os professores. Por exemplo, na escola em que eu trabalho, o professor de matemática, ele esboça para mim toda a matéria que ele quer dar, e lá a gente discute qual é a possibilidade do aluno. Dentro dessa discussão ele me mostra a matéria ele me passa exemplo; então essa dificuldade eu não tenho, porque eu tenho parcerias. O professor da sala de recurso só tem dificuldade se ele trabalhar sozinho. O 5º dia ele é extremamente importante para isso, para a gente sanar as nossas dificuldades” (relato da professora N). Algumas entrevistadas relatam que a relação com os professores regentes com quem tem contato é boa, pelo fato destes se sentirem inseguros com a crescente demanda de alunos com necessidades educacionais nas classes comuns. Por outro lado, alguns não compreendem o trabalho desenvolvido na sala de recursos, não disponibilizando atenção necessária para esse serviço. 116 “Alguns até acreditam no trabalho, mas outros não. Hoje graças à Deus eu fui bem recebida, a não ser esses do 6º ano, que eu não estou tendo contato, e o que eu tenho, o que eu falo, eu não estou sendo mal recebida, mas também não estou sendo autônoma” (relato da professora I). Nesse relato, a docente afirma não ter autonomia para a realização de seu trabalho, por não ter o contato e o apoio do professor da classe comum. Oaigen (1994) coloca a importância do educador ter autonomia, pois assim, ele poderá romper com um sistema reprodutor inflexível e a partir da vivência da situação, possibilitar “uma práxis diária que mostre uma escola discutida com a comunidade e não para a comunidade; o conhecimento do direito à Educação [...] direitos a desenvolver as potencialidades inatas e adquiridas que caracterizam o homem livre, social e universal” (p.159). Nesse mesmo relato, percebemos que alguns professores não acreditam no trabalho da sala de recursos. Possa, Silveira & Relevante (2007) afirmam que apesar de alguns professores de turmas comuns alegarem a falta de formação para justificarem a segregação dos alunos com deficiência, é fundamental que eles ressignifiquem seus imaginários em relação a esses alunos. Pois a proposta da Educação Inclusiva remete à capacidade de lidar com a diversidade existente nas salas de aula, “considerando que enquanto educador o professor precisa especializar-se na aprendizagem de todas as crianças, uma vez que toda a criança em situação de aprendizagem também pode ser vista como um aluno com necessidades especiais” (p.02). Em outra passagem, notamos que uma das escolas que recebe bem as professoras da sala de recursos, tem uma Diretora que já fez parte da equipe do IHA; então, ela desenvolve um trabalho de acordo com os princípios da Educação Inclusiva. Isso nos remete às falas das professoras das classes especiais, que ressaltaram que docentes das classes comuns que melhor recebem os alunos com deficiência intelectual em suas turmas e que compreendem a proposta da Educação Inclusiva, são as que têm experiência na Educação Especial. Mediar a relação entre os professores regentes e os alunos com deficiência intelectual, é uma das funções do especialista da sala de recursos, porém essa não é uma atividade fácil de exercer. Segundo as entrevistadas, os docentes recebem bem esse alunado, embora ainda haja preconceito. “Recebem bem, mas tem muito preconceito ainda, não vou dizer para você que não tem preconceito. Mas aqui dentro dessa escola a gente não tem esse problema de preconceito. Dentro da escola que a gente esta lá, que eu estou visitando, quem dirige, quem coordena pedagogicamente já tem um olhar sensível a essas crianças, então é só um transcorrer. Porque aquele professor que não tem um olhar sensível, 117 o coordenador se insere em cima daquilo, e vai trabalhando com aquele professor, porque é papel do coordenador, fazer essa integração” (relato da professora N). A equipe de gestão (Coordenação e Direção) da escola são fundamentais para o processo de inclusão, como já explicitamos anteriormente. Redig (2007, 2009), Redig & Souza (2008) defendem que os coordenadores pedagógicos são profissionais necessários para que a comunidade escolar apóie a política da Educação Inclusiva. Em escolas que a Direção é a favor da inclusão dos alunos com necessidades educacionais especiais nas classes comuns, esse processo acontece de forma menos traumática para todos, visto que, os professores, alunos e familiares se sentem seguros e confiantes nessa transição, como já exemplificado em alguns relatos. Em contrapartida, a parceria entre escola e família também é importante para a inclusão do aluno com deficiência intelectual no ensino comum, mas há casos em que esse movimento escola x família é complicada de transitar, como explicitado na pesquisa de Sousa (2007). “Às vezes nem é por parte só educacional não, é a parte mesmo familiar, que a mãe às vezes não ajuda muito. Tem aluno que precisa de uma fono, uma psicóloga. Está certo, eles não tem condições financeira, mas aí quando a gente arruma alguma coisa, a mãe também não leva. Eu acho que o Município está fazendo... alguma coisa está fazendo; não é o suficiente ... não é o suficiente porque é aquilo que eu te falei, essa inclusão, como eu te falei [...]. Está muito complicado” (relato da professora I). “Nos casos em que a família negligencia, temos problemas sérios” (relato da professora C). O auxílio da família no processo de inclusão desse alunado é fundamental. Como lembra Santos (2008, p.419), “a família permanece como sua grande âncora social, com muito pouca diversificação de convívios com outros ambientes que não sejam estabelecidos a partir dela”. Para Glat & Pletsch (2004b) as percepções das famílias em relação ao sujeito com deficiência é de incapacidade, prejudicando seu desenvolvimento e sua inclusão educacional. Por outro lado, Glat (2004b) aponta que uma família orientada influencia positivamente na auto-estima da pessoa com necessidades educacionais especiais, desenvolvendo suas capacidades, bem como estimulando a busca por alternativas de organização e enfrentamento dos problemas cotidianos. Portanto, essa relação escola x família, deve ser pensada de forma a propor oportunidades de desenvolvimento da pessoa com deficiência intelectual. Segundo Glat (2007, p.186): 118 a possibilidade ou potencial de aprendizagem de um indivíduo não se constitui uma característica ou condição intrínseca fixa, determinada por seu diagnóstico clínico ou qualquer outra avaliação quantitativa. Na realidade, suas possibilidades se ampliam na medida em que lhe proporcionamos suportes e condições adequadas de aprendizagem, nos diversos campos de conhecimento. Pode-se dizer, então, que é o atendimento de suas necessidades que determina as possibilidades de aprendizagem do aluno. De acordo com Bürkle e Redig (2008), em seu cotidiano, a professora da sala de recursos não se limita apenas ao atendimento direto dos alunos com necessidades especiais, mas tem uma função primordial auxiliando na inserção destes nas classes comuns. Não há dúvidas da importância de seu papel como mediador da relação entre a escola e o aluno com deficiência, criando condições para a permanência desse sujeito na turma comum. Então, para que a inclusão dos alunos com deficiência intelectual aconteça, não só os professores das turmas comuns devem estar preparados para lecionar para esse alunado, mas os especialistas precisam de capacitação para auxiliar nessa inclusão, mediando o processo de ensino-aprendizagem na sala de recursos para diferentes deficiências, bem como preparando distintos planos de aula individualizados. Miranda, Rocha & Sousa (2009) em sua pesquisa acompanhando o atendimento nas salas de recursos, apontam que normalmente o especialista possui capacitação em uma deficiência, porém precisa atender diversas necessidades educacionais especiais, limitando seu trabalho. Na entrevista, a professora C afirma que sua experiência acrescida com os cursos de capacitação oferecidos pelo IHA, resultaram em uma melhoria no seu trabalho. Para Miranda, Rocha & Santos (2009) os docentes da sala de recursos não exercem o seu trabalho de forma satisfatória, não por falta de capacitação, mas porque o atendimento ao aluno não é feito em conjunto com o professor da sala comum, ou seja o trabalho do professor da sala de recursos geralmente, não tem o apoio pedagógico e necessário do professor da sala comum para que o alunado possa ter um aprendizado completo e eficaz. (p.2114) Bürkle & Redig (2008) afirmam que para cumprir a proposta da Educação Inclusiva, a escola precisa se modificar, estabelecendo parcerias entre as classes comuns e as redes de apoio, pois somente dessa maneira, será possível alcançar um aprendizado significativo. Vale ressaltar, que a sala de recursos não é a única responsável para a inclusão escolar do aluno com deficiência intelectual, sendo assim, os professores da turma comum precisam participar desse processo. Nesse sentido, percebemos que a sala de recursos quando bem usufruída, 119 beneficia o aluno com deficiência intelectual, facilitando seu aprendizado, como em entrevista com a professora I, que indica a importância e a necessidade dessa rede de apoio para a inclusão de seus alunos nas classes comuns. Mas para isso, é necessário que toda a instituição escolar auxilie na inclusão desses alunos, facilitando a comunicação e o planejamento entre os docentes. 120 8 Narrativas das professoras especialistas: o trabalho do itinerante “E acho que quando a gente coloca um filho da gente na escola, é claro que a gente quer que ele seja o mais normal possível, mas eu não vejo a escola como um lugar de lazer, o termo educadora para mim, às vezes é um pouco pesado, eu não estou aqui para educar, educação vem de casa. Então eu não acho que aqui seja área de lazer, eu não acho que ele vem aqui para se alimentar sozinho, que é pra eu ensinar a escovar os dentes, nada disso, para mim, o meu papel principal é a instrução, sendo o mais coerente possível, para conceitos. Mas é claro que você passa, você sabe que a crianças não conseguem, você vai acabar ensinando, não é você negar isso, mas acho que esse não é o papel da escola [...]” (relato da professora R). Nesse capítulo analisaremos as falas de cinco professoras itinerantes, que, como as demais entrevistadas, acompanham alunos com deficiência intelectual. Uma dessas docentes atua também no Programa de Jovens e Adultos (PEJA) com alunos com essa deficiência, e discutiremos alguns aspectos separadamente, pois acreditamos que a educação de jovens e adultos (EJA) é uma modalidade com características próprias. O serviço de itinerância tem como objetivo “atender as necessidades educacionais especiais dos alunos por ele atendido, complementando, suplementando e servindo de apoio ao ensino comum” (BÜRKLE & REDIG, 2009, p.1). Por isso, é importante que o trabalho desenvolvido por esse profissional esteja articulado com o projeto político pedagógico da escola em que o aluno está matriculado. De acordo com Pletsch (2005), algumas funções desse profissional são o acompanhamento do aluno, assistência aos professores das turmas regulares e a família. Para efetivar o atendimento ao educando, as itinerantes utilizam diversas estratégias. Segundo a fala da professora R, a escola é um espaço para que o aluno possa aprender conteúdos e não as denominadas “atividades de vida diária” e que o papel do especialista é mediar nesse processo de ensino-aprendizagem. Porém, a pessoa com deficiência intelectual precisam mais do que os conteúdos acadêmicos para se desenvolver, principalmente se não possuem o suporte da família para orientá-los. Assim, o professor itinerante, sendo responsável por esse estudante, acaba assumindo a função de auxiliá-lo no aprendizado das atividades de vida diária. É dever desse profissional, mediar as relações do indivíduo com a 121 família e com a comunidade escolar para que tenha uma aprendizagem significativa, bem como auxiliar os professores do ensino comum em desenvolver práticas pedagógicas que contemplem e minimizem as dificuldades apresentadas por esse alunado. 8.1 Reflexões sobre o trabalho do professor itinerante Para iniciarmos essa análise, é fundamental compreendermos como acontece o encaminhamento do aluno com deficiência intelectual para o serviço de itinerância, após a avaliação do IHA, partindo da visão das entrevistadas. “Agora do 1º Segmento em diante, acaba sendo uma opção para aos pais, o que é mais perto... o que tem disponível no momento... às vezes o itinerante vai atender porque o pai não quer ter que levá-lo a uma sala de recurso. Mas assim a partir do 6º ano a sala de recurso já é, na minha visão, melhor do que a itinerância” (relato da professora O). Um fator que define o encaminhamento do aluno com deficiência para a sala de recursos ou itinerância (visto que, ele só poderá ser acompanhado por um serviço das redes de apoio, com raríssimas exceções), é a autorização dos pais, que de acordo com a disponibilidade dos mesmos e a localização da escola, optará pelo serviço que lhe convém. Contudo, se o IHA não fornecer opções de atendimento, o responsável deverá autorizar o serviço escolhido pelo Instituto. A professora O acredita que para alunos com deficiência intelectual matriculados em turmas comuns do 1º segmento do Ensino Fundamental, tanto o atendimento na sala de recursos ou a itinerância, são suportes apropriados e eficazes para a escolarização desses sujeitos. Entretanto, do 2º Segmento em diante, a sala de recursos é mais adequado. O aluno com deficiência intelectual se expõe no momento em que a itinerante entra em sua turma, seja para conversar com a professora regente, observar a aula e / ou retirá-lo da sala de aula. E alunos já adolescentes podem se sentir envergonhados, por isso ela pensa que a sala de recursos para o 2º Segmento funcionará melhor, pois esse apoio é oferecido fora do horário de aulas dos alunos. A entrevistada também levanta a dificuldade de atender os alunos matriculados no 2º segmento do Ensino Fundamental, pois como geralmente visitam a escola em um dia específico da semana, encontram apenas os professores que lecionam naquele dia, o que impossibilita o diálogo com os demais docentes. Bürkle & Redig (2009), após uma pesquisa com itinerantes observaram que o atendimento educacional especializado só é possível com a ajuda do docente do ensino comum, porque, como já discutido, é ele quem sabe as 122 dificuldades e necessidades apresentadas pelos alunos com deficiência intelectual no seu aprendizado. “Sim, é comum acontecer, até porque tem um movimento, não sei se a gente pode falar de movimento, mas existe uma linha de direcionamento dentro do IHA que na verdade, essas separações estavam se acabando. Na verdade a gente é itinerante da Educação Especial, nos últimos tempos elas sempre têm frisado isso. Embora eu pegue mais DM, até porque já fiz mais cursos na área, mas que a gente pode pegar qualquer um, esse ano eu estou com dois autistas, que seriam da área de CT [condutas típicas], dentro da rede você já deve estar acostumada com essas siglas. Então é comum a gente pegar outras deficiências, eu já peguei paralisado cerebral também, que é mais da área de deficiente físico, mas quando tem algum comprometimento mais profundo na área cognitiva, aí fica com os dois atendimentos, fica com o atendimento para ver a parte de acomodação do mobiliário e a gente acaba atuando também na área cognitiva” (relato da professora O). Conforme o relato acima, os professores itinerantes acompanham diversos alunos em diferentes escolas. Os alunos indicados para esse serviço possuem distintas deficiências, sendo assim, esse profissional orientará alunos com várias necessidades especiais diferentes. Esse fato aponta para a necessidade de especialista em diversas áreas das deficiências, o que, como já mencionado, ocorre também com os profissionais da sala de recursos. Segundo entrevista com a professora P, ela se sente capacitada, porém acredita que apenas cursos não garantem o conhecimento necessário, pois cada aluno é um aluno com uma deficiência diferente. Então, é fundamental ser um professor-pesquisador, a fim de minimizar suas dificuldades e para isso, o docente deve investir na sua formação, por meio de leituras e pesquisas. Como explicam Bürkle & Redig (2009), o trabalho do itinerante é diferenciado e diversificado; seu planejamento deve ser elaborado para atender as necessidades do educando, de acordo com o plano de aula do outro educador. Porém, vale ressaltar, que como a entrevistada disse, às vezes nem encontram o docente regente de algumas disciplinas, impossibilitando o acompanhamento do educando. Pletsch (2005) aponta que o número elevado de alunos acompanhados pelos itinerantes e que muitas vezes inclui sujeitos com diferentes deficiências, deve ser levado em conta nos cursos oferecidos pelo IHA, como abordado nas falas das próprias professoras. Essa autora também alerta que o quantitativo de docentes atuando como itinerantes é baixo, dificultando o atendimento dos alunos e dos professores das classes comuns. Esse fato foi apresentado em alguns depoimentos onde foi a dificuldade de visitar as escolas com freqüência, o que atrapalhou o serviço. 123 “Eu tenho três na mesma escola. Então eu vou três vezes na semana nessa escola; para não ficar o tempo inteiro com aquele mesmo aluno, eu fico dois tempos com um, dois tempos com o outro, dois tempos com o outro. Eu fico mais de uma vez na semana com ele, às vezes duas, às vezes três. Às vezes eu estou com um, o outro aparece porque está fazendo prova e está pedindo” (relato da professora R). Não há dúvida de que quando os sujeitos estudam em uma mesma escola, facilita o trabalho da itinerância, visto que, a professora pode acompanhar os alunos mais vezes, tendo a oportunidade de encontrar diferentes docentes do ensino comum, ampliando o seu serviço. “A idade varia muito! E assim, o que acontece é assim,... a gente pegando alunos de faixa etária mais alta. Porque às vezes a criança entra na Rede sem uma avaliação, você sabe que nossas crianças são crianças com uma história social complicada. Então, muitas das vezes, a mãe não reconhece o filho como uma criança com deficiência, ou então nunca foi orientada; ou até desconfia que o filho tenha alguma coisa, mas a dificuldade de arrumar um neurologista na rede é enorme. Então a criança às vezes passa anos sem ser avaliada., aí entra na escola, sem saber que é especial. Aí vai lá, 1º ano apresenta dificuldade, aí vai para o 2º ano com dificuldade, o pessoal já fica com o pisca alerta ligado, daqui a pouco ele está sinalizando ‘olha essa criança tem alguma coisa a mais que a gente não está pesquisando’. E nem sempre a mãe tem um laudo médico para apresentar. [...] Então na minha prática eu tenho pego muito mais criança de faixa etária avançada do que criança de faixa etária menor. Esse ano, por isso que eu estou dizendo que esse ano eu estou rindo a toa, porque esse ano é um ano atípico, primeiro porque eu estou com poucos alunos, e segundo porque eu estou com crianças bem pequenas. Esse ano eu estou com crianças de sete anos, de seis anos. Quer dizer está meio a meio, eu estou com quatro com faixa etária mais alta, e quatro com faixa etária pequena. E os mais altos têm uma menina até de 16 anos. Eu já tive alunos na rede incluídos de 24 anos. Mas isso não acontece mais não” (relato da professora O). Como o atendimento para esses educandos tem que ser individualizado, a diversidade de idade e séries dos mesmos é outro fator que dificulta o trabalho do professor itinerante, já que ele necessita de maior planejamento para o desenvolvimento de suas atividades. Como também apontado, devido à dificuldade de avaliação e diagnóstico que atrasa o encaminhamento para os serviços de itinerância, a maior parte dos sujeitos com deficiência intelectual acompanhados tem uma idade elevada. “Eles estudam em escola integral, que é de manhã, e a tarde é mais a parte de oficina. Então eu trabalho lá de manhã e acompanho eles dentro da sala. Eu não tiro o aluno de 2º Segmento dentro da sala, eu fico dentro da sala assistindo aula, e a partir do que o professor fala, ou do que o professor está expondo, eu vou fazendo mediação, intermediando o conceito, o que aquele professor está falando, tentando colocar aquilo mais prático, porque às vezes, principalmente a sala de 8º ano as coisas já estão muito subjetivas, então fica mais difícil para conseguir entender. Então eu tento colocar aqueles conceitos numa prática, quando dá. E o do 7º ano também já está começando a ficar subjetivo, então você fica do lado, o tempo inteiro ao lado do aluno. A avaliação às vezes é feita fora de sala quando o aluno precisa de mais tempo, ou quando precisa de uma interferência maior, de você estar falando o tempo inteiro ou então quando o exercício exige maior concentração. Mas 124 o dia-dia mesmo é entrar na sala e ficar assistindo aula junto com o aluno e ficar interferindo o tempo inteiro” (relato da professora R). “Cada professor, a gente, é claro dentro das suas funções que são gerais, a gente desenvolve um trabalho com características do próprio itinerante. Então as minhas características são: eu acompanho esse aluno em sala; assim que eu chego, eu começo com eles em sala, depois eu tiro o aluno de sala e levo para a sala de leitura, dou o atendimento individualizado para esse aluno para a necessidade dele específica e trabalho também com módulos semanais. Então, cada aluno meu, todos eles, cada aluno meu, tem os módulos semanais que desenvolvem em casa com o acompanhamento da família, é orientado também de como trabalhar com esse aluno, e eles desenvolvem mais atividades que são complementares para eles. E estão contidas nesses módulos semanais” (relato da professora J). “Então digamos, ela [aluna com deficiência intelectual] em um determinado dia, que isso às vezes se repete ao longo do ano, ela entrou na sala, porque normalmente o que eu faço no meu cotidiano, eu normalmente prefiro tirar o aluno da sala de aula, porque normalmente o barulho, isso desconcentra, são crianças com dificuldades no foco de atenção, então se ele tem uma possibilidade de estar comigo sozinho para eu trabalhar em áreas específicas, eu prefiro tirar da sala de aula, porque concentra melhor o trabalho” (relato da professora P). Apesar da crítica da professora O, como citado, de pensar que a retirada do aluno com deficiência intelectual da sala para a realização do atendimento ser, em alguns casos, constrangedor, essa é uma das estratégias traçadas pelas especialistas. Portanto, é importante salientar, que a retirada do aluno, juntamente com a observação das aulas, apontando as suas dificuldades, podem ser mecanismos eficazes e necessários para o desenvolvimento do trabalho da itinerância, facilitando o acompanhamento desses sujeitos. Para Pletsch (2005) esses profissionais, não se limitam a interagir diretamente com o aluno, pois com a observação em sala de aula podem planejar intervenções futuras. Segundo essa autora é por meio da observação atenta e constante que o professor poderá entender a realidade do aluno, visto que, “para alguém que não conheça a dinâmica de trabalho itinerante pode pensar que a presença dessa professora não tem sentido, na medida em que ela fica muito tempo observando a dinâmica da sala de aula” (PLETSCH, 2005, p.77). Além dos problemas objetivos que entravam o desenvolvimento do trabalho de itinerância, já mencionadas como grande quantitativo e diversidade de condições dos alunos, etc, algumas professoras citaram a dificuldade em se relacionar com os alunos com deficiência intelectual. “Digamos assim no meu cotidiano eu procuro sempre a cada dia reconquistar esse aluno, porque nem todos os dias, esse aluno está emocionalmente aberto ao que você traz. Eu tenho um caso particular de uma aluna de uma determinada escola, essa já está no 8º ano, que ela tem tipo de retardo de moderado para grave, então ela tem ondulações de humor, alguns estados depressivos, então eu reconheço esse 125 dia que ela está assim. Que é a tendência em geral, sem falar da questão comportamental, que os professores se queixam, não é? Então tem dias que eu percebo que ela está nesse estado. Então eu não posso chegar e simplesmente falar ‘vamos fazer essas atividades’; não, eu não posso ir direto ao assunto, porque o meu papel é colaborar nessa construção do processo de ensino-aprendizagem, com limitações sim, com adaptações sim, mas é um papel de colaboração, de construção. Então, em determinados dias eu preciso conquistar essa criança de novo”(relato da professora P). Como relatado acima, as inconstâncias de humor do alunado se apresentam também como dificuldade para a realização do trabalho. Isto talvez seja uma conseqüência do contato descontínuo com o professor itinerante, que aparece na escola uma vez por semana ou até com um espaço maior entre uma visita e outra, o que não permite o estabelecimento de um vínculo mais estreito com o aluno. Vale ressaltar que a relação afetiva entre professor e aluno é fundamental para o bom rendimento do serviço, e serve como estímulo ao sujeito com deficiência intelectual, visto que, esse precisa ter segurança no professor. Entretanto, é importante que essa relação não seja com sentimentos paternalistas, super protetores e / ou assistencialistas, como observado em pesquisa desenvolvida por Pletsch (2005). Como visto nos relatos das professoras de classes especiais no capítulo 6, o relacionamento professoraluno influencia o processo de ensino-aprendizagem. Para a adaptação do currículo, o trabalho colaborativo entre os profissionais da Educação Especial e do ensino comum é essencial para o sucesso da rede de apoio. Porém, Bürkle & Redig (2009) observaram que apesar do professor do ensino comum ser apontado como um aliado, a falta de tempo para o planejamento em conjunto é uma barreira para se alcançar bons resultados. Essa situação, também foi encontrada na pesquisa de Fontes (2007) que analisa experiências de ensino colaborativo. “Por exemplo, a gente sempre pede à escola que mostre para nós quais são os conteúdos que aquela criança precisa, até uma orientação do próprio IHA... o que ela precisa atingir; não é que ela vá eliminar os conteúdos, mas vai minimizar esse conteúdo de uma forma significativa. Então se o professor dá um livro de geografia, texto grande, digamos sobre mapas, localizações, que tipo de adaptação eu faço? Aquele texto é muito complexo para ela num livro de geografia, então eu pego outro texto de uma forma simples que de repente faz o caminho que uma criança percorreu da sua casa até a escola, da escola até determinado lugar; então eu uso figuras menores, demonstrando o mapa, localizando de uma forma mais simplista, fazendo com que ela perceba dentro desse caminho, o que ela encontrou nesse caminho. Então, ao invés de eu falar naquela linguagem que o aluno não vai entender no livro, eu trago para isso, e não deixo de falar de localização espacial e de mapa, de uma outra forma” (relato da professora P). Nota-se nesse depoimento a preocupação de não se efetuar simplesmente uma eliminação do conteúdo acadêmico, mas sim da adequação e flexibilização do currículo para 126 os alunos com deficiência intelectual. Posição semelhante à relatada pelas professoras de sala de recursos. Por isso, é importante nos atentarmos para a maneira como a adaptação curricular está sendo feita, pois não se pode empobrecer o currículo, achando que assim, o sujeito estará acompanhando a turma. Ao contrário, se só tiramos conteúdos, no futuro não haverá tempo hábil para introduzi-los novamente, porque esse estudante já estará defasado academicamente dos demais, como acontece na classe especial. Deve-se sim, ajustar os conteúdos e as metodologias a fim de contemplar as necessidades educacionais dos alunos com deficiência intelectual, ou seja, adaptar o processo de ensino-aprendizagem e não somente o conteúdo de forma superficial, se preocupando com o produto final. “Olha só, o que a gente faz, a gente procura atuar na área das linguagens, por exemplo, através da produção de textos variados. Eu faço com que aquele conteúdo programático que seria dado de uma outra forma, ele tenha acesso a ele. Então, basicamente a gente hoje não interfere no conteúdo das disciplinas de uma forma sistematiza. Porque se a questão é a construção de um algoritmo de uma operação, então a gente vai por parte daquilo, porque muitas vezes a criança não chega ao abstrato, ela ainda está no processo do concreto para o abstrato, a fase que ela deveria estar, ela não está. Mas também a gente percebe que os outros que são considerados normais, também não estão, então muitas vezes a diferença não está tão longe assim. Então a gente prioriza a questão da linguagem, da construção de texto, raciocínio lógico, para poder ele, digamos assim estar mais preparado para esses outros conteúdos” (relato da professora P). Nesse depoimento, a entrevistada informa que as adaptações / adequações curriculares não acontecem de forma a introduzir a matéria sistematizada, mas sim adequar a “essência” do conteúdo programático, ou seja, o objetivo principal do conteúdo, como por exemplo, a interpretação de texto. Ela ainda aponta que a defasagem do aprendizado do aluno com deficiência intelectual, acompanhado pelo suporte da itinerância, não é tão grande em relação aos demais, pois o restante da turma, em alguns casos, também não aprendeu tudo o que lhe foi passado. A docente P, parte do princípio de priorizar as áreas da linguagem e raciocínio lógico, a fim de prepará-lo para os próximos conteúdos. Essa fala coincide com os depoimentos das professoras das classes especiais, no qual elas “preparam” o sujeito para a sua inclusão na turma comum, e essa “preparação” acontece na alfabetização e dependendo da série nas operações matemáticas. “Com eles, esse ano eu já fiz o Google, aquele Google Earth; o professor estava falando todos os planisférios, dos continentes, dos oceanos, e aí nós baixamos da Internet, gravamos em DVD e levamos para o auditório, e passamos para a turma inteira. Isso é um material que é muito mais rico, muito mais legal de você ver. Estava tudo lá, tinha os meridianos, tinha o paralelo, todos os continentes... a gente foi dando a volta, pra gente poder criar um momento mais estimulante, porque a Internet é o melhor para eles. E aí eu fiz na página da Internet um Orkut que é 127 aberto para a escola, é o meu perfil, mas só para eles e ali eles trocam as informações, as fotos, e para ela agora a gente está fazendo um que é só da América do Sul, então tem... acho que são 170 slides, aí tem o país e várias fotos do país, então no Chile você tem o deserto, mas você tem também a neve, tem vulcão, tem Andes, tem praia, tem Corcovado, tem Rio Amazonas, só na América do Sul. Sem contar aquela coisa que a gente inventa de material diferente, de contagem diferente, eu estou fazendo um relógio aqui com o marcador, porque ela não sabe ver hora; estou fazendo um relógio que eu possa mexer, para ela poder ver a hora. Não é um conteúdo de 8º ano, não, mas ela não sabe ver hora, ela não tem noção de tempo, quanto tempo tem a aula, não sabe, então precisa mostrar essa noção para ela, para a vida dela” (relato da professora R). As adaptações / adequações curriculares não só beneficiam o aluno com necessidades educacionais especiais incluídos na classe comum, mas também os demais estudantes, como apontado em outras pesquisas (REDIG, 2005; FERNANDES & REDIG, 2005, 2006, 2007; BÜRKLE & REDIG, 2008). O uso da tecnologia educacional na sala de aula, como no relato acima, contribui bastante para um aprendizado significativo, pois os alunos estão habituados a utilizar esses recursos no seu cotidiano, aproximando a escola de sua vida. Pretto & Pinto (2006, p.11) acreditam que a tecnologia, bem utilizada, é um aliado da Educação e que “somos cidadãos e consumidores, emissores e receptores de saber e informação, seres ao mesmo tempo autônomos e conectados em redes, que são a nova forma de coletividade”. Como já mencionado, para a elaboração de adaptações curriculares, é fundamental a colaboração dos professores das turmas regulares. De acordo com o depoimento das entrevistadas, elas possuem bom relacionamento com os professores das classes comuns, por isso, conseguem a ajuda necessária para um resultado favorável para os alunos com deficiência intelectual. Segundo Bürkle & Redig (2009) as relações estabelecidas entre esses profissionais favorecem a inclusão do sujeito com necessidades educacionais especiais, melhorando o trabalho com os demais alunos. Afirmação semelhante é feita por Pletsch (2005, p.73) para quem “o suporte oferecido pelo ensino itinerante tem trazido uma maior ‘segurança’ aos professores regulares em relação à atuação com alunos incluídos, apesar de evidenciarem não ter conhecimentos específicos a respeito das peculiaridades apresentadas por essas crianças”. Mas para que isso aconteça, os professores itinerantes precisam “conquistar” a confiança dos professores do ensino comum. “Em primeiro lugar, quando eu entro naquela escola eu primeiro tenho uma primeira reunião onde eu falo da importância [desse serviço] para a Coordenadora, para colocar os professores a par dessa realidade. Me coloco a disposição de partilhar com eles, de fazer trocas, então é um contato permanente” (relato da professora P). 128 “Mas a nossa Coordenadora sempre fala isso: ‘o itinerante tem que ter jogo de cintura’, e é verdade. A gente tem que conquistar o profissional, porque a gente não está ali na verdade, quem sou eu para criticar, o trabalho do cara é muito árduo, ele fica com trinta e mais um especial e eu estou ali uma vez por semana, e quem sou eu para criticar o trabalho dele” (relato da professora O). Após a “conquista” do professor da classe comum, inicia-se o trabalho do itinerante de ganhar espaço na escola e desenvolver o serviço, pois ainda existe preconceito em relação aos especialistas. Pletsch (2005) lembra que em alguns casos esses encontros e reuniões causam um desgaste entre os docentes, pois como observou em sua pesquisa, alguns professores são resistentes às práticas inovadoras. Essa autora também encontrou oposição ao trabalho do itinerante; em suas palavras “tal resistência se revela, sobretudo, na dificuldade dos professores regulares modificarem a sua prática pedagógica, de modo a contemplar a diversidade do alunado” (p.102). “Os professores do 2º Segmento, que é o professor a partir do 6º ano, muitas itinerantes falam que eles são resistentes, que eles acham que aquele aluno não deveria estar ali, que deveria estar sempre separado no primeiro segmento, para que prosseguir? Por que não vai para o profissionalizante?Mas eu não vivi isso, ainda” (relato da professora J). “É o que te falei, nunca tive problema, mas sei que existe, sei que muitas vezes a gente é encarado como professor que não quer nada que não quer dar aula, que não tinha que estar ali; como se fosse fácil trabalhar com o especial. E que você não tem um horário certo, não tem uma turma, você não tem 30 alunos para dar conta. Mas você tem um e aquele um tem nome sobrenome você conhece tudo sobre ele. Então eu acho que o seu envolvimento é muito maior, e a cobrança, pelo menos a cobrança que eu vejo, é muito maior no aluno, do que muitas vezes para o professor. Eu cobro muito mais, eu não quero aluno meu escrevendo errado, muita paciência. Enquanto que o professor aceita às vezes, ele vê a turma como um todo. É uma relação complicada, não é uma coisa fácil” (relato da professora R). Nota-se que ainda perdura o pensamento de que esses educandos não precisam ter acesso a todas as informações, basta que eles aprendam “o básico”. A fala da professora J apresenta a idéia do ensino profissionalizante como uma alternativa para as pessoas com deficiência intelectual. Mas se eles não tiverem oportunidades de uma escolarização satisfatória para o mercado de trabalho, não adianta cursar essa modalidade de ensino, como discutiremos mais adiante. As professoras itinerantes, sustentando o já relatado pelas professoras de classe especial, também comentaram que os docentes das turmas comuns percebem o trabalho das especialistas como sendo mais fácil do que o deles, essa mesma situação foi verificada na pesquisa de Müller & Glat (1999). As entrevistadas de nossa pesquisa narram também que cobram mais dos alunos com deficiência intelectual para que se destaquem e não fiquem atrás 129 dos demais estudantes nas classes comuns. Nessa direção, percebemos que para que estes alunos estejam incluídos em turmas regulares precisam ser iguais e / ou melhores. Como ressalta a professora R: “eu não quero aluno meu escrevendo errado”. Assim, as especialistas percebem como fracasso se o aluno for mal (academicamente) na turma; como se fosse um indicativo de que o trabalho realizado com ele é que não foi bem desenvolvido. Entretanto, a realidade é distinta, porque cada aluno tem o seu próprio ritmo de aprendizado, e dependendo do sujeito haverá progressos em um dia e retrocessos em outro, causando até sentimento de frustração em alguns professores. “Aí é aquilo, depende de cada pessoa como eu falei, uns [professores regentes] logo de inicio ficam assustados, pedem ajuda, alguns falam que não vão dar conta. Mas com o andamento... é porque os alunos especiais eles têm uma característica que eu acho bem comum entre eles, todos eles são muito meigos, principalmente o RM, não o CT, porque o CT são condutas típicas que já tem outras questões psiquiátricas, mas o RM não, ele é um aluno que ele gosta de receber ajuda, que quando ele está feliz, ele está feliz aprendendo, ele fica buscando, ele é carinhoso, ele é sociável, então é um aluno bom de se trabalhar. A gente sabe que às vezes o professor está super animado, porque ele está caminhando muito bem, aí o RM principalmente, às vezes dá uma regredida muito importante, por algum motivo que a gente não sabe nem explicar muito bem por que, depois volta de novo a se desenvolver. Uns professores tem a sensação e comentam: ‘Ah! Eu acho que ele chegou no limite dele’, aquela frase que a gente escuta, eu acho que a partir daí ele não vai mais, aí o próprio itinerante mostra que ele está indo, olha só como ele caminhou, olha as atividades diferentes que ele conseguiu fazer, aí o professor volta a acreditar que esse aluno tem como crescer” (relato da professora J). Um ponto interessante nesse depoimento é o fato da professora J acreditar que os alunos com deficiência intelectual são meigos, criando um estereótipo para essa população. A situação relatada, em que os professores acreditam que o aluno já chegou ao seu “limite”, é bastante séria, pois se pensarmos assim e trabalharmos nesse sentido, os indivíduos com deficiência intelectual não terão acesso nem a escolarização nem ao mercado de trabalho. Esse pensamento também foi encontrado no Diretor da instituição nos estudos de Redig (2005) e Fernandes & Redig (2006) e que com as adaptações / adequações curriculares de pequeno porte houve progresso no aprendizado de uma aluna com Síndrome de Down. Esse “limite” contraria o conceito de deficiência intelectual da AAMR (2006) e das teorias de desenvolvimento e aprendizagem, discutidas no capítulo 3. Deve-se partir do princípio que todo mundo aprende, mas o caminho para alcançar esse aprendizado é que cada educador deverá descobrir. Se alguns professores do ensino comum possuem esse pensamento, como será o relacionamento deles com os alunos com deficiência intelectual? 130 “Olha, tem de tudo. Tem o que não quer saber, tem o que não quer fazer, tem o que não ajuda, tem o que atrapalha, tem o que não quer saber daquele garoto nem amarrado, nem pintado. Tem uns que falam que o aluno é muito bagunceiro; mas aluno difícil, com necessidades de aprendizagem, não tem só alunos especiais, está cheio de alunos com dificuldades. Acho que agora mais do que nunca, está todo mundo sendo medicado, diagnosticado, com um monte de coisas que eu também era, você também, mas na nossa época não tinha nada disso. São alunos difíceis, alunos com dificuldades de aprender; tem um monte aquele ali é mais um. Eu acho que se ganha muito com aluno especial dentro da sala, se tiver um professor a mais, porque já é um trabalho diferenciado a mais, se ganha uma atenção maior da escola, se a escola é séria, se a escola é comprometida, se a escola tem essa visão de inclusão, de querer fazer o melhor eu acho que só tem a ganhar, os professores, os amigos. Você lidar com o especial é uma linha de conhecimento muito grande, passa uma tarde na escola especial que você vai ver. Ali é muito ensinamento, ali eu passei meio ano, ali eu aprendi muito, e a melhor escola é a prática, né!” (relato da professora R). Nessa fala, observamos, mais uma vez que os alunos com deficiência intelectual que estão incluídos em turmas comuns são rotulados como “alunos difíceis”, como se somente eles tivessem dificuldades de aprendizagem e que todos os demais aprendessem com facilidade. Esta postura ainda é decorrente da idéia tradicional de homogeneidade, na qual todos são iguais e aprendem da mesma maneira, e os que fogem desse padrão devem ser segregados, pois não acompanham o ritmo do restante da turma. Encontramos também no depoimento acima, a concepção de que há muito o que aprender com alunos com necessidades educacionais especiais, de um modo geral, como se fosse um privilégio trabalhar com eles. Visão semelhante à relatada pelas professoras de especialistas entrevistadas por Müller & Glat (1999). Outro ponto interessante levantado, também já apontado nos capítulos anteriores é a importância da escola estar comprometida com a inclusão desse alunado. De acordo com Pletsch (2005) o bom relacionamento com a comunidade escolar facilita o processo de inclusão de alunos com deficiências, bem como possibilita o sentimento de segurança e confiança no auxílio que o itinerante pode proporcionar aos docentes das classes comuns. Essa parceria poderá causar o comprometimento dos professores regentes com a inclusão dos alunos com necessidades educacionais especiais, pois é a ação colaborativa entre os profissionais da Educação Especial com os do ensino comum que viabilizarão um ensino de qualidade. Em outro depoimento, observamos que: “É uma pergunta assim, que é bastante, digamos preocupante responder se tratando de uma pesquisa, mas muitas vezes a gente percebe, como eu falei a princípio, que a dificuldade dele é ele aceitar esse aluno, porque ele não sabe lidar com o novo, ele não sabe lidar com aquilo que é desconhecido. Então eu acho que a princípio ele tem, ele tem receio, ele tem medo, ele tem inseguranças em lidar com esse desconhecido” (relato da professora P). 131 A professora P, acredita que o receio do docente da classe comum em aceitar o aluno com deficiência intelectual é devido à sua insegurança. Logo, se informarmos e apresentarmos dados consistentes de que esses sujeitos aprendem e disponibilizarmos suporte para o trabalho pedagógico, será que esse “distanciamento” entre professor e aluno diminuiria? A Prefeitura do Rio de Janeiro, por meio do IHA, tenta fazer isso, propiciar informações e a rede de apoio para os professores, mas mesmo assim, as justificativas do desconhecimento e da desinformação ainda perduram. “Agora, faço uma ressalva, segundo segmento é um caso a parte, é muito mais complicado, porque a dinâmica é diferente, é um entra e sai. Eles têm muito mais alunos, eles alegam não ter tempo de fazer trabalho diversificado, eles têm quantitativo de alunos muito mais alto, a disciplina é maior. O tempo não facilita. E existe também uma resistência mesmo de ideologia, de filosofia, ou seja, na cabeça deles a resistência é muito grande” (relato da professora O). Outros empecilhos para a inclusão escolar do aluno com deficiência intelectual e para a aceitação desse sujeito pelo professor do ensino comum, segundo a entrevistada O, é a grande quantidade de docentes lecionando para uma mesma turma no 2º segmento, como já comentado, aliado a um elevado número de alunos em sala, além da grande quantidade de matéria a ser dada em um tempo de aula menor, dividido por esses profissionais. A necessidade econômica do professor em trabalhar em mais de uma escola, e a falta de tempo deste para planejar as aulas, quanto mais um plano diversificado, são apontadas pelos professores das classes comuns como barreiras para a escolarização de qualidade de alunos com deficiências. Porém, não podemos apenas culpar os docentes pela dificuldade da inclusão dos alunos com deficiência intelectual nas classes comuns, pois esse é um trabalho colaborativo entre os profissionais, se o sistema educacional não disponibiliza tempo para esse planejamento colaborativo e melhores condições para o trabalho, a inclusão escolar fica comprometida. Vale ressaltar que a falta de tempo e dificuldades para o planejamento afeta igualmente os professores regentes e os especialistas de suporte, como o itinerante, como já discutido. É importante que a escola proporcione momentos de reflexão e diálogo entre esses profissionais, Segundo as entrevistadas, a inclusão de um aluno com deficiência intelectual em uma classe comum pode ocorrer em quatro situações: 1) o aluno que é matriculado na classe regular, porque o responsável não informou que ele tem uma deficiência; 2) o responsável não sabe que o aluno tem uma deficiência, então, o matricula na classe comum; 3) o responsável 132 informa que o aluno tem uma deficiência e ele é matriculado na classe comum, respeitando a política da Educação Inclusiva; 4) o aluno estuda na classe especial e está alfabetizado, então, é transferido para a classe comum. De acordo com as professoras especialistas, esse aluno só é transferido da classe comum para a classe especial quando não responde aos recursos e suportes oferecidos pelos serviços de atendimento educacional especializado. E mais uma vez a alfabetização é apresentada como um pré-requisito para a inclusão do aluno com deficiência intelectual na turma regular. “Para mim eu acho que ele deve estar alfabetizado, se ele for alfabetizado dentro de uma turma regular, ótimo. Mas eu acho que tem que estar, não sei se a classe especial seria o melhor lugar para ele, tem alunos que sim e têm outros que não. Hoje em dia a gente recebe aluno, e tem que matricular, independente de estar alfabetizado ou não, então às vezes ele cai em uma turma regular e você não consegue tirar. Você tem toda uma indicação de que ele deveria ir para uma classe especial, ele é avaliado na CRE, para a classe especial, mas se o responsável não aceitar, ele não vai. Ele fica na classe regular” (relato da professora R). A professora R teme que esse aluno com indicação para uma classe especial que permanece na turma comum sem suporte, fique retido indefinidamente na série. Na entrevista da professora Q, ela acredita que o estudante sendo matriculado em uma turma comum, tem a possibilidade de permanecer nela. Entretanto, se preocupa porque, nos casos em que o professor regente detecta alguma dificuldade no aluno que demande um atendimento especializado, o processo pode ser muito demorado, devido à burocracia, que muitas vezes, atrapalha a autorização desse suporte. Podemos observar que as entrevistadas concordam com a forma em que se dá o processo de inclusão dos alunos com deficiência intelectual, mas apontam como obstáculos a falta do laudo (diagnóstico oficial) e a demora da avaliação pela equipe da CRE, o que ocorre por esta não ter quadros de funcionários suficientes para atender a grande demanda. “Olha só... Aquilo que eu te falei... Na minha cabeça, o ideal dos ideais teria que toda criança que fosse sinalizado, que tem; que antes dessa criança ser matriculada, que ela passasse por uma avaliação juntamente com a CRE. E que esse pai fosse chamado e conversasse e ali passasse por uma avaliação e visse se realmente é melhor a integração ou a classe especial. Isso na minha cabeça é o que seria o ideal, mas não há como viabilizar isso, até porque também seriam sempre aqueles casos dos pais que não aceitam e que não tem o diagnóstico. Mas de maneira geral o sistema funciona, não é o ideal. Por exemplo, às vezes uma avaliação demora muito para ser feita pela equipe, porque é uma equipe pequena, para o quantitativo grande de escola, então às vezes demora. E existem também essa situação que eu estou te falando, de pais que nunca levam o filho para nenhum tipo de avaliação não aceitam não querem não levam ou não encontram quem atenda, pessoas com condições sociais complicadíssimas, não tem às vezes dinheiro de passagem para sair do bairro para levar no médico, de hospital público, e aí 133 essa criança fica anos a fio sem laudo, sem um atendimento” (relato da professora O). Na percepção da professora O, a classe especial tem papel importante para a escolarização do indivíduo com deficiência intelectual, sendo uma das opções de espaços para garantir a sua educação, o que já havia sido ressaltado pelas professoras de classes especiais. Finalizando este sub-tema, discutiremos a capacitação do professor para atuar na modalidade de itinerante, e se ele se sente preparado para trabalhar como suporte dos docentes do ensino comum. A professora J se sente capacitada porque complementou os cursos da Prefeitura com outra formação, o que lhe permite não só atender à demanda dos alunos da rede pública como em sua clínica particular. “... me sinto preparada. Veja bem, essa capacitação não foi só pelo Município, também eu fiz pós-graduação, outras coisas também por interesses próprios, enquanto profissional não só da rede, como também de consultório” (relato da professora J). Já a professora R não se sente capacitada para ensinar alunos do 2º segmento do Ensino Fundamental em diante, por conta das disciplinas específicas dessas séries. Isto é um ponto interessante, pois se houvesse de fato a interação com o professor regente, a falta de conhecimento em determinadas disciplinas não importaria, visto que, ela tem apenas que fazer as adaptações e orientar o docente da turma comum em como passar este conteúdo para o aluno. Mas, na prática, a especialista acaba ficando responsável pelo ensino do aluno, em um nível para o qual, pode não estar qualificada. “Eu acho que o mais complicado é você dar conta de um conteúdo que você não sabe. Eu já tive alunos, não de deficiência mental, mas alunos com deficiência visual, até o ensino médio, agora estão na faculdade. Então pegava aquela química que eu odeio química, e eu não sabia nada. Agora, o que eu acho a maior dificuldade é com relação a conteúdo. Com relação ao aluno especial mesmo, não tem muita dificuldade” (relato da professora R). A dificuldade em ensinar conteúdos que não foram aprendidos pelas especialistas também foi apresentada na fala das professoras de sala de recursos, como sendo um limite para ajudar no processo de ensino-aprendizagem dos alunos com deficiência intelectual. Realmente, é difícil encontrar pessoas que saibam ensinar todo o conteúdo acadêmico sem ter habilitação para a disciplina, então, é preciso traçar estratégias para “driblar” esse empecilho e um dos mecanismos para isso é o trabalho colaborativo entre os professores especialistas e os do ensino comum. 134 Outro aspecto levantado por esta mesma entrevistada é a já comentada diversidade de deficiências que os especialistas são obrigados a atender, o que nem sempre os cursos de extensão dão conta de lhes preparar. “Surdez eu sei lidar, claro, eu não sei a língua de sinal, mas se ele souber fazer leitura labial ótimo. Agora se ele não souber e não for alfabetizado eu estou ferrada. Se ele for alfabetizado a gente vai escrevendo, mas se não for eu estou perdida. A minha formação em deficiência visual, já me dá outra linguagem, mas é um complicador dentro de uma escola pública, o Braille, é difícil porque os professores não dominam então você tem uma dificuldade maior” (relato da professora R). Esta professora disse ainda que, em sua opinião, para melhorar essa situação, a Prefeitura precisa capacitar e atualizar os professores, pois há muitos cursos repetidos, e que tanto o capacitador quanto os cursistas precisam de idéias novas e atualizadas ao contexto educacional da escola pública. Então, acrescenta que acredita ser importante que os docentes das classes regulares também façam os cursos, mas entende que para eles é mais complicado, visto que, possuem turmas fixas e que para se capacitarem precisam liberar os alunos, sendo assim, não encontram alternativas para continuarem sua formação. Esses aspectos mostram condições limitadoras da atualização e formação em serviço dos profissionais da Educação, o que, em última instância prejudica a meta de uma educação de qualidade para todos. “Pelo menos na Prefeitura, ela já foi aberta aos professores de turma regular, a questão toda é a estrutura, eu como itinerante eu não tenho uma turma, então minha turma não fica sem aula, quando eu sou capacitada, mas o professor de turma regular para sair da escola alguém precisa ficar com a turma, normalmente é alguém da Direção, o que a Direção faz, não comunica ao professor que ele pode fazer isso. E acho que muito mais interessante do que eu estar fazendo o curso, é o professor de turma regular, mal ou bem eu já fiz muito, e eu só deixei de fazer porque eu achava que não tinha mais necessidade” (relato da professora R). Outras professoras se queixaram que sentem necessidade de mais reuniões e oficinas para discutir o cotidiano das escolas, e sobretudo trocar experiências. Para Giroto & Sade (2008) as oficinas pedagógicas são como espaços de interação e trocas entre os professores, com o objetivo de melhorar suas práticas pedagógicas, por meio da reflexão e do diálogo. Mas vale ressaltar, a importância da formação em serviço desenvolvido pelo IHA, porque, as especialistas se sentem mais seguras para atuarem no processo de inclusão dos alunos com necessidades educacionais especiais nas classes comuns. Essa necessidade de formação continuada e a procura por cursos, também foram apresentados na pesquisa de 135 Müller & Glat (1999) com docentes de classes especiais, bem como a riqueza das reuniões com as outras professoras especialistas, possibilitando a troca de experiências. A professora O, por sua vez, afirma que, por mais cursos que se faça nunca se sentirá capacitada, porque há sempre muita coisa nova a aprender. “Ah olha vou te falar uma coisa... eu nunca me sinto totalmente capacitada... Uma das coisas que o professor de classe regular sempre fala muito com a gente ‘a gente não é capacitado para trabalhar com esse aluno’; realmente não são, tem muito pouca capacitação para eles, pra gente tem mais. Pra mim que recebo mais capacitação já não me sinto capacitada, imagina eles. Mas por outro lado eu costumo brincar e falar assim, mas ninguém está capacitado, sabe por quê? Porque por mais que você estude, por mais que você se capacite, sempre tem uma novidade, então você tem que ter uma capacitação básica, o mínimo do mínimo, mas na verdade, é na hora do fazer que você vai vendo que sabe. Olha esse aqui com esse aluno não vai funcionar é quase que uma coisa que é ‘feeling’ que você tem, até de conhecer a criança, então capacitação é importante, é, mas quem está capacitado para todas as diversidades que a gente tem? Na rede, a gente pega crianças com síndromes raríssimas, porque escola particular nenhuma pega, então é na nossa mão que vem cair, eu já peguei aluno de ter uma síndrome em cinco mil” (relato da professora O). A consciência de que ninguém está completamente preparado e que a formação tem que ser contínua, acontece por causa da demanda cotidiana da sala de aula, pela diversidade de deficiências existentes e atendidas por esses profissionais, exigindo um maior conhecimento na área e um plano individualizado para cada educando. Essas características causam essa busca por uma formação em serviço, a fim de atender às necessidades educacionais dos alunos com deficiências, possibilitando a superação desse desafio. 8.2 Reflexões sobre o ensino itinerante no PEJA: o relato de uma professora especialista A EJA é uma modalidade de ensino que normalmente é oferecida no turno da noite, o que, entre outros aspectos, dificulta o atendimento do itinerante e a participação de alunos com deficiências. Este programa possui características singulares em relação aos demais atendimentos, por isso nos deteremos para analisá-lo separadamente. Para Leonço (2007, p.108) a EJA “trata de responder culturalmente a uma lacuna que geralmente envolve sujeitos que hoje, [...] buscam sua escolarização. Educar jovens e adultos significa compreender o conceito de aprendizagem em uma perspectiva atual, de que aprendemos e ensinamos para a vida”. Sendo que sua clientela é composta por sujeitos anteriormente excluídos do sistema regular de ensino. Moraes (2007) aponta que essa modalidade se constitui pelas minorias, pelos segmentos segregados da sociedade. Sob esta perspectiva poderíamos considerar que o 136 alunado tradicional da Educação Especial se encaixa nesta proposta. Entretanto, apesar do PEJA ser constituído por turmas heterogêneas, e os professores reconhecerem que trabalham com alunos “difíceis” como mostra Taveira (2008), esses docentes acostumados com turmas compostas pelas “minorias sociais” encontram dificuldades em lidar com os alunos com deficiência. Porém, ao término de sua pesquisa, que envolvia a representação social dos professores regulares em relação aos alunos com deficiência, essa autora verificou que os professores regulares entenderam que a EJA possui características favoráveis à inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais. A docente entrevistada (professora Q) acompanha 12 alunos, dos quais quatro tem deficiência auditiva e os demais deficiência intelectual. E, desse quantitativo da deficiência intelectual, apenas dois estão no PEJA II (Ensino Fundamental 2º segmento). Esse dado sugere que a clientela da Educação Especial que se beneficia desse serviço educacional, ainda é a minoria dos sujeitos com deficiência, esses os que são mais prejudicados na sua trajetória escolar, seja por desvio de comportamento, déficit de aprendizagem e / ou dificuldade na comunicação. Logo, essas peculiaridades que dificultam o processo de ensino-aprendizagem em uma turma regular com um grande quantitativo de alunos, podem ser melhor contornadas no PEJA. Segundo Taveira (2008) este programa se caracteriza por turmas menores, facilitando o apoio do professor aos diferentes alunos e as aulas são mais contextualizadas à realidade de seu alunado. Para Leonço (2007, p.108) “ensinar adultos com as mesmas técnicas didáticas usadas nas escolas de Ensino Fundamental e Médio é, muitas vezes, o traçado equivocado para este importante desafio”. Oliveira (2009) concorda com este posicionamento e acrescenta que independente da idade do aluno, a organização curricular e dos conteúdos possuem abordagens e propostas voltadas para as crianças da Educação Infantil e / ou Ensino Fundamental, “os problemas com a linguagem utilizada pelo professorado e com a infantilização de pessoas que, se não puderam ir à escola, tiveram e têm uma vida rica em aprendizagens que mereciam maior atenção, são muitas” (p.99). Essa autora também afirma que diversas pesquisas na área de jovens e adultos apresentam resultados que apontam para propostas curriculares destinados a esse alunado como sendo formuladas para crianças, desconsiderando as experiências, interesses e modos de vida dos sujeitos da EJA. O problema da infantilização curricular, que se torna um empecilho à aprendizagem, não ocorre apenas no PEJA como verificamos nos relatos das professoras das classes especiais. O encaminhamento desse aluno com deficiência da EJA para o serviço de itinerância acontece da mesma maneira do ensino comum. 137 “Primeiro passo ao ser matriculado no Município, ele é colocado em uma turma regular. Quando o professor detecta alguma situação que aquele aluno passa a ter um olhar diferenciado, é solicitado a ele o preenchimento de um relatório. Esse relatório é enviado ao departamento da Coordenadoria Regional de Educação onde os agentes de Educação Especial, fazem a avaliação, ou vão até a escola... Chama os pais para irem até lá, e fazem uma avaliação. Mediante essa avaliação, esse aluno tem autorização ou não de ter o atendimento, que pode ser itinerância, sala de recurso ou até mesmo a classe especial” (relato da professora Q). De acordo com Taveira (2008) é importante a avaliação inicial e contínua do aluno com necessidades educacionais especiais, para que tenha acesso e permanência ao PEJA, caso esse seja a melhor opção de modalidade de ensino para ele. O trabalho do itinerante no PEJA, não é muito diferente do ensino comum, pois as professoras precisam se articular com os docentes regentes das turmas, a fim de desenvolverem adaptações / adequações nos conteúdos. “Eu trabalho em cima das dificuldades deles [dos alunos e dos professores], o que eles me pedem de auxílio. Então, por exemplo, quando eu pego o aluno que não sabe a tabuada, multiplicação, e aí eu percebo que vem mecanizado, não sabe a tabuada, aí vamos multiplicar. Aí eu trabalho com material concreto através de material dourado, vamos montando ou mesmo desenho, com chapinha, sempre montando o concreto para que eles possam realmente visualizar aquilo” (relato da professora Q). Para Oliveira (2009), na EJA, deveria se trabalhar os conteúdos abstratos em relação à sua aplicação prática, o que facilitaria o aprendizado desses sujeitos. Em suas palavras, “a escola poderia ter, na adesão dos alunos à necessidade de aprendizagem deles, um contributo fundamental para a facilitação dos processos pedagógicos” (p.101). Pelo relatado, a itinerante retira os alunos com deficiência intelectual das aulas para poder fazer o atendimento individualizado, seguindo uma rotina, na qual, o estudante assiste um pouco da aula, para saber o que o professor ensinará e posteriormente ele é liberado para o atendimento. Essa estratégia, já discutida, também acontece nessa modalidade de ensino, o que não é uma das melhores opções já que o aluno acaba tendo sua participação na turma prejudicada, mas como o itinerante visita a escola no horário da aula do PEJA, essa é a única maneira para realizar o atendimento individualizado, devido ao fato dessa modalidade ser oferecida no turno noturno. Apesar da recomendação de Pletsch, Redig & Bürkle (2008) que os professores itinerantes trabalhem com o aluno no contra turno nem sempre isto é possível devido ao grande quantitativo de alunos a serem atendidos, como no caso desta professora que acompanha 12 alunos, em diferentes horários, incluindo o PEJA. 138 “Na verdade eu não faço adaptação de material, é o planejamento que ele é enxugado para esses alunos. Então eu sento com os professores e coloco... eles me passam a grade, o que realmente vai ser dado naquela UP [unidade de progressão] porque o PEJA 2, ele passa de 3 em 3 meses, é diferente essa avaliação. Então, eu sento com os professores, eles me passam o que seria dado para aquela UP, daquela UP nós enxugamos juntos o que pode ser realmente necessário pra vida desse aluno e o que pode ser excluído. E aí a avaliação deveria ser feita de uma maneira diferente, mas nem sempre isso ocorre, é muito complicado quando você tem cinco cabeças pensando diferente” (relato da professora Q). Como ocorre com o ensino fundamental comum, as adaptações / adequações curriculares são desenvolvidas no conteúdo das disciplinas, sendo retiradas algumas matérias e substituídas por algo mais fácil de ser assimilado pelo aluno com deficiência intelectual, estipulado pelos docentes. No PEJA, a adequação curricular acontece de forma mais “drástica”, ou seja, o conteúdo é reduzido, ao invés de adaptado, respeitando o tempo de aprendizado de cada um, visto que, nessa modalidade, a “corrida contra o tempo” é ainda mais perversa do que no ensino comum. Logo, é necessário cortar conteúdos que acharem desnecessários no momento, priorizando o “que pode ser realmente necessário pra vida desse aluno”. Nesse sentido, a adaptação curricular é realizada em parceria com os professores regentes. “Eu trabalho sempre com o professor regente, meu trabalho está sempre voltado no que o professor regente pede, solicita, nós trabalhamos sempre juntos, a gente tenta sempre um trabalho com parceria, o professor regente e o itinerante” (relato da professora Q). Para minimizar as dificuldades e potencializar as capacidades dos alunos na EJA, Leonço (2007) apresenta seis considerações, visando estruturar propostas didáticas que facilitem o aprendizado: 1) Oportunizar o aproveitamento das experiências acumuladas pelos alunos; 2) Propor desafios, novos conhecimentos e situações contextualizadas com a vida cotidiana; 3) Justificar a necessidade de cada conhecimento; 4) Comprometer os alunos na organização, planejamento e na responsabilidade pelo seu aprendizado; 5) Motivar os alunos para o aprendizado; 6) Facilitar o acesso, os meios, o tempo e a oportunidade. Essas considerações, acreditamos, não valer apenas para os alunos com deficiência intelectual ou os do EJA, mas também para todos os matriculados em qualquer modalidade de ensino. Porém, essa parceria – como apresentado em outras falas das professoras de classes especiais, sala de recursos e itinerantes – nem sempre é desenvolvida de forma harmoniosa e amigável. 139 “Olha só, é um pouco complicado, porque muitos colegas não permitem que você interfira no trabalho dele, e aí por mais que você oriente, solicite, quando você chega em sala, você depara com o que você não gostaria de estar vendo” (relato da professora Q). É preciso desenvolver um trabalho com os professores do ensino comum a fim de que percebam a importância do serviço da Educação Especial, e que esse só irá ajudá-lo. Esses docentes ainda não compreenderam que a EJA contempla sujeitos marcados por profundas desigualdades sociais e que nessas turmas estão os alunos reais, abandonados pelo sistema educacional (ANDRADE, 2009) e que o professor itinerante irá facilitar o processo de ensinoaprendizagem das pessoas com deficiência intelectual, sendo um parceiro nesse desafio. Moraes (2007) acredita que a EJA no Brasil ainda não se implementou como um espaço de inclusão e acolhimento da diversidade existente e que “é necessário pontuar, que além de espaço de inclusão e acolhimento, entende-se que a EJA – assim como toda a educação escolarizada – deva-se constituir – também – em um espaço de empoderamento dos diferentes” (p.19). Por outro lado, há situações em que os professores aceitam a ajuda do itinerante, construindo, realmente uma parceria, entre Ensino Comum e Ensino Especial. Pletsch (2005) observou que quando há o ensino colaborativo, esse se baseia em uma cumplicidade entre os docentes, sendo assim, a itinerante é vista como uma aliada no processo de ensinoaprendizagem desses educandos. “Olha, alguma coisa está sendo feita, o que eu te digo é que eles participem de encontro, que seja debatido vários assuntos que possa, ah, mas eu não tenho tempo, são alegações, eu ainda não tenho esse tipo de aluno, eu acho que esse caso me interessa, e por ai vai” (relato da professora Q). Oliveira (2009) afirma que é fundamental superarmos a ilusão da homogeneidade das salas de aulas. Pois, mesmo que essas sejam separadas e divididas em séries / níveis com características semelhantes, sempre serão formados por uma diversidade / multiplicidade de indivíduos, no qual “nenhum professor lida em uma mesma sala de aula com um grupo homogêneo de sujeitos, sejam quais forem os critérios de ordenação utilizados” (p.104). Essa mudança de postura dos profissionais de Educação, em enxergar os alunos reais e parar de idealizar o aluno ideal, também foi encontrado em pesquisa realizada por Redig (2007), Redig & Souza (2008). Para finalizarmos essa análise, a relação do professor do ensino comum com o aluno com deficiência intelectual: 140 “Cada um é um de uma maneira, não tem como você colocar, alguns aceitam. É a mesma coisa que eu estava falando da formação, alguns aceitam aquele aluno, outros... já escutei papo que vai botar daqui da porta da escola para fora, outros é bom que ele vá embora porque aqui não é o lugar dele, ele tem que arranjar um outro lugar para estudar, que isso aqui não é escola que pertença a ele, então são certas falas que você escuta por aí a fora, outros não, vamos lá, vamos junto, vamos tentar fazer que esse aluno consiga vencer esse obstáculo, é muito difícil, você não tem como generalizar o ser humano” (relato da professora Q). Possa, Silveira & Revelante (2007) se preocupam com esses professores que alegam não estarem preparados ou que não aceitam esse desafio da Educação Inclusiva, se mostrando resistentes a esse processo, pois “embora tenham a responsabilidade social de promover o acesso ao conhecimento a todos os alunos e fazer valer o direito à inclusão, esses professores são aqueles que pensam na Educação Especial como um segmento a parte” (p.3). Esses docentes ainda não se atentaram para a realidade educacional brasileira, de que não adianta ignorar a diversidade existente nas salas de aula, pois eles estão lá, principalmente nas turmas de EJA, que são constituídas pelas “minorias” sociais, que são formadas, realmente, por essa heterogeneidade. 141 9 Narrativas das professoras especialistas: “eu gostaria de acrescentar...” “... que é muito gratificante trabalhar com esse tipo de aluno, eu me realizo” (relato da professora Q). Antes de encerrar as entrevistas, deixamos um espaço para que as professoras pudessem falar livremente sobre qualquer assunto ou tema que ainda precisasse ser acrescentado. Nesse capítulo, portanto, iremos analisar as narrativas das entrevistadas nesta fala aberta. Das 17 entrevistadas, apenas cinco disseram não ter mais nada a acrescentar. Na análise dos relatos, verificaremos diversas situações interessantes, expostas pelas entrevistas. 9.1 Reflexões das professoras especialistas: narrativa final Para analisarmos as colocações das professoras especialistas na questão aberta, dividimos suas respostas em cinco categorias: 1) Estimulação dos alunos; 2) Formação continuada; 3) Política de Educação Inclusiva; 4) Educação Inclusiva para alunos com deficiência intelectual e 5) Prazer de trabalhar na Educação Especial. No gráfico XI, estão divididas as respostas das professoras participantes em relação às categorias estabelecidas. É preciso informar que alguns relatos se encaixam em mais de uma categoria. Como pode ser observado, a categoria cinco – Prazer de trabalhar na Educação Especial – é a que contempla o maior número de respostas. Gráfico XI: Gráfico representativo das categorias das considerações das professoras entrevistadas. 142 Para nossa análise apresentaremos alguns exemplos de falas relativas a cada um das categorias. Iniciaremos com a categoria um – Estimulação dos alunos –, apesar de não ser a que abrange mais respostas. “Eu ia falar da auto-estima, mas eu já tinha falado... Ressaltar a imaginação e a criatividade deles e a auto-estima” (relato da professora D). Esse depoimento apresenta a importância de estimular os alunos com deficiência intelectual para desenvolver suas potencialidades. Giroto & Sade (2008) enfatizam a influência que o professor exerce no aluno e vice-versa. E que de acordo com essa interação, o processo de ensino-aprendizagem poderá ser mais significativo para o aluno, facilitando sua inclusão escolar. Aumentar a auto-estima do aluno com deficiência intelectual é fundamental para que ele não se sinta inferior aos demais estudantes da escola, possibilitando oportunidades de interação com seus pares. A segunda categoria refere-se à formação continuada: “Eu estou esperando com ansiedade que o IHA abra curso, para que eu possa me especializar mais. Mas eu já fui assistir palestras, e até na EI [Educação Infantil], eu já fui assistir encontros com a questão da inclusão. Então não é dizer que eu sou totalmente leiga, e as leituras que eu tenho feito, eu acho que eu me encaixei muito bem, eu não estou sentindo nenhuma dificuldade, e pelo o que eu vejo no caderninho deles do ano passado, professores já com muita experiência e base na Educação Especial, em relação a mim” (relato da professora G). “... é valorizar esse professor, eu acho que eu já disse isso, mas repito, é investir na sua formação, é dizer: você acredita, então eu vou investir em você, eu vou conduzir você até um mestrado, vou conduzir você até um doutorado, você vai continuar ainda trabalhando em campo. Eu pretendo fazer, mesmo que mais tarde eu me torne alguém, digamos ligado a formação desses professores que eu acho também fundamental. Ter essa visão que um professor bem formado também na classe especial isso é fundamental, porque se ele é só mais um elemento a fazer parte daquele círculo, mas se ele não é dentro desse círculo um elemento valorizado, um elemento bem formado, a educação inclusiva ela perde. Porque são muitos avanços que a gente ainda aguarda”(relato da professora P). A necessidade de formação continuada é um aspecto presente no discurso de praticamente todas as entrevistadas. Isso indica a importância do desenvolvimento de cursos de capacitação e atualização das especialistas. Muitas pesquisas, discutidas anteriormente, apontam a necessidade de formação dos professores do ensino comum, mas de acordo com as narrativas, percebemos que as especialistas também precisam de uma capacitação para atuar na nova ótica educacional brasileira da Educação Inclusiva. 143 Outro ponto que chama atenção na fala da professora G, e em outras similares, é a dependência de abertura de cursos pelo IHA, como se apenas essa instituição pudesse prover a sua capacitação. Sabemos que é fundamental que a Prefeitura disponibilize cursos, oficinas, encontros, entre outros, para que seus professores se atualizem, mas esses docentes também poderiam tomar iniciativa de buscar formação em outras instituições. Já o depoimento da professora P, informa a necessidade de valorização do profissional da Educação, fato apontado em diversas políticas, como a Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994), LDBEN 9394/96 (BRASIL, 1996), Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008b) entre outras. A terceira categoria traz reflexões acerca da Política de Educação Inclusiva: “Só queria te dizer que eu acredito em inclusão de qualidade. Aluno pra mim que não aprende, seja ele especial ou não, ele tem que aprender. É claro que eu estou tecendo todo um critério, toda uma adaptação, que a maioria dos professores não conhece. Acha que adaptar currículo é fácil, acha que adaptar currículo é só tirar conteúdo, e não é, é muito mais abrangente e é o dia-dia mesmo. É você chegar lá e lutar por ele, e querer o melhor sempre, as vezes você consegue, as vezes não... aceitar que os professores tenham maior atenção e os outros não e lidar com isso, não tem outra opção. Agora, para mim, isso tem que ser dado com qualidade, e muitas vezes eu não vejo qualidade. Independente se é meu trabalho ou não, tem horas que dá vontade de você pegar o papelzinho a bolsinha e ir embora. E também quando você vai para um sistema maior, para uma prefeitura imensa como a do Rio, e quando você lida direto você sabe quem é aquela pessoa, enquanto a outra pessoa que está lá na Secretaria, lá no IHA, ela não sabe quem é, ela não sabe quanto aquela pessoa demorou para chegar ali, o quanto de desenvolvimento da família, pais, professor, direção, todos fazem parte daquilo. E eles dizem a não, isso aí não é importante, então quando você pega essas burocracias, essas... são entraves, é nessa hora que dá vontade de pegar a bolsinha e ir embora. Mas a gente é teimoso, quem é da Educação Especial é teimoso” (relato da professora R). Nesse depoimento, observamos os obstáculos enfrentados pelas entrevistadas para a inclusão educacional de alunos com deficiência intelectual, não só no que diz respeito à relação com os professores do ensino comum, mas também com o sistema burocrático da Rede Pública do Município do Rio de Janeiro. Essa entrevistada também levanta a questão de que Educação Inclusiva precisa ser levada a cabo com qualidade, isto é, garantindo o aprendizado do aluno. Outro ponto é a dificuldade na adaptação / adequação curricular, uma prática complexa para sua elaboração e para isso, é preciso o desenvolvimento de um trabalho colaborativo entre os docentes do ensino regular e da Educação Especial. Outros depoimentos, ainda nessa categoria, retratam a insatisfação com as políticas públicas educacionais: 144 “Então se houvesse seriedade nessas políticas... eu acredito que a Educação Inclusiva seria levada mais a sério, no sentido assim, eu vou acreditar. Eu, enquanto professor, vou acreditar mais, porque eu estou vendo que o suporte está acontecendo, porque eu estou vendo auxiliarem na minha prática, e também essa criança está sendo atendida em suas necessidades. Porque se nós falamos de necessidades educativas especiais, elas são concretas, e cadê a resposta? Cadê a solução para corresponder essas necessidades, para minimizar às vezes o sofrimento dessa criança que já é tão grande?” (relato da professora P). “... a inclusão tem que ser colocada na televisão, está sendo feita de uma maneira enganosa, colocando alguns alunos lá como fantoches e se os professores não estiverem preparados a receberem esses alunos, não vai dar certo. Então gente, e esse ano com a mudança da política que até agora a Educação especial, ainda não está chegando, nem está” (relato da professora I). A insatisfação com forma com que a Educação Inclusiva que está sendo posta em prática e o não cumprimento das leis que garantem suportes aos alunos com necessidades educacionais especiais é bem marcado nessas falas. Pela visão destas professoras há uma inclusão na teoria e outra na prática. Considerações semelhantes foram feitas por autores como Redig (2007), Redig & Souza (2008), Omote (2004), entre outros. A mídia tem grande influência na opinião dos brasileiros em relação aos acontecimentos, dessa maneira, segundo a professora I, é necessário o desenvolvimento de campanhas televisivas que abordem a temática da Educação Inclusiva. Cabreira, Cabreira & Alencar (2007, p.07) comentam que essas campanhas do Governo “que na atualidade envolvem quase que toda a programação televisiva, podem sim contribuir para apenas informar o telespectador que se diverte sob a pretensa intenção de ser tocado pela mensagem ‘educativa’”. Porém, Reily (2004) coloca a importância de trabalhar com as pessoas com necessidades educacionais especiais, no sentido de romper com a passividade de espectador, por meio de atividade que estimulem a comunicação e a linguagem. Na categoria quatro – Educação Inclusiva para alunos com deficiência intelectual – os depoimentos serão divididos em dois aspectos: 1) Aluno com deficiência intelectual e a escola; 2) Aluno com deficiência intelectual para além dos muros da escola. Como exemplo da primeira situação temos: “Aqui a escola, é uma escola bem diferente nesse aspecto, e até as merendeiras são envolvidas. Sabe, na outra escola que eu trabalho, também são anos e anos com esses alunos já freqüentando, então eles abraçam. Todos os alunos da classe já conhecem a dedicação especial deles, isso agora eu já vejo” (relato da professora I). Esse relato apresenta o envolvimento da escola para a inclusão do aluno com deficiência intelectual, mostrando que com o compromisso da comunidade escolar, o estigma 145 desse alunado pode ser superado. Nessa direção, acreditamos que a inclusão do sujeito com necessidades educacionais especiais deve ser de responsabilidade de todos os profissionais da Educação. O segundo ponto levantado nesta categoria é representado pelo relato da professora H: “Só que assim, como eu te falei, eu estou gostando muito, é muito legal, gostaria que tivesse realmente um suporte para eles, porque eles já são carentes de pai, de mãe, de atenção de tudo e a escola não vai fazer milagre, não adianta que não vai. Eu gostaria que eles tivessem uma atenção especial, muito legal eles estarem dentro da escola, mas fora eles precisam de um suporte. Para não ficarem tão ociosos. Um menino quer ser faxineiro de qualquer maneira, e não consegue, chora comigo porque quer ser faxineiro de qualquer maneira. E as oportunidades que eles dão de emprego aos deficientes, porque tem que ser deficiente que saiba ler, escrever, realmente é complicado. Até para varrer o chão, para ter uma oportunidade. Então tem que proporcionar que faça um curso, faça alguma coisa. Pelo meu pouco tempo realmente acho que o que falta realmente é isso aí. Mas fora isso é muito bom trabalhar” (relato da professora H). Esse depoimento apresenta situações pertinentes, inclusive aborda a importância da família para o desenvolvimento desses sujeitos. Para Glat (2004b, p.01) é “a família, como grupo social primário, desempenha uma função formativa e determinativa no desenvolvimento cognitivo-afetivo do indivíduo e no modo como este se situa e interage na sociedade, mesmo em idade adulta”. A entrevistada coloca que a escola não pode ser a única responsável pela inclusão do aluno com deficiência intelectual, mas que deve haver suporte de outros setores, como por exemplo, da Secretaria do Trabalho. Também levanta a necessidade e desejo destes alunos de trabalhar e como a não realização desta aspiração pode causar problemas emocionais, como a frustração e o sentimento de incapacidade. A entrada de uma pessoa com necessidades educacionais especiais no mercado de trabalho é situação que merece uma atenção especial, visto que, é um momento delicado e complexo, principalmente para aqueles que apresentam deficiência intelectual. De acordo com Silva & Fernandes (2008), a inserção desse indivíduo em um emprego, no qual, se configura em um ambiente competitivo, é relativamente nova, e a pessoa com deficiência intelectual ainda é vista como incapaz ou até mesmo é ignorada pelos empregadores. Vale ressaltar, que a exigência de formação satisfatória desses sujeitos é um dos empecilhos para a inclusão no trabalho, há um pré-requisito de escolarização básica, pelo menos que ele seja alfabetizado. Porém, partindo das experiências e relatos das professoras participantes, percebemos que a falta de alfabetização, já é um obstáculo presente no momento da transferência desse aluno para a classe regular. Então, se ele não consegue ir para a turma comum, por não estar alfabetizado, muito menos irá encontrar um emprego. Essa demanda de 146 alfabetização para empregabilidade de pessoas com deficiência intelectual necessita ser repensada, pois algumas funções, as quais eles pretendem exercer, não necessariamente exigem que saibam ler e escrever. A última categoria – Prazer de trabalhar na Educação Especial – contempla a maior quantidade de relatos, e por isso foi dividida em quatro subcategorias: 1) Dádiva de Deus; 2) Recompensa e Paixão; 3) Envolvimento emocional com os alunos; 4) Entusiasmo de iniciante. Na subcategoria 1, encontramos o seguinte relato: “Então graças a Deus, o grupo aqui, a escola também, é uma autonomia que nós temos, e o grupo também é muito receptivo... a Direção, eu me sinto muito bem, eu faço dupla aqui, eu me sinto muito a vontade, e foi assim um presente, eu acho que trabalhar com alunos especiais é uma dádiva” (relato da professora G). Nessa narrativa, nos deparamos com uma situação em que trabalhar com alunos com necessidades educacionais especiais é uma missão divina. Este aspecto já havia sido apontado em pesquisa com professores especialistas de Müller & Glat (1999, p.46), no qual muitas professoras encaram seu trabalho com uma “conotação mística, religiosa”. Essas autoras, também chamam atenção para a visão assistencialista que muitas especialistas de classes especiais apresentam. Outro ponto interessante, é que a entrevistada relata a autonomia que possui, revelando a importância para o desenvolvimento do seu trabalho (como já discutido no capítulo 7), bem como o envolvimento de toda a escola para a realização do processo de ensino-aprendizagem eficaz e significativo, além da segurança que esse auxílio traz para os especialistas. Já na subcategoria dois (Recompensa e Paixão), os relatos mostram sentimentos de amor e recompensa, como se essas emoções fossem essenciais para ser professor de Educação Especial. Assim, a professora F traz a idéia do desafio, de cada dia ser um dia diferente do anterior. Certamente amor, dedicação, realização e satisfação são qualidades fundamentais para qualquer profissão, em especial, o professor. “Só que sou apaixonada por eles que é muito gostoso trabalhar com eles, é muito legal, apesar dessa dúvida, a cada dia ter um dia diferente, ter um momento diferente” (relato da professora F). “É que eu aprendi muita coisa, eu aprendo todo dia com meus alunos, e é um trabalho que eu falo para todo mundo, que eu venho trabalhar na maior felicidade, porque eu adoro meu trabalho, adoro meus alunos” (relato da professora E). 147 A professora E informa do aprendizado com esses alunos e da recompensa de ensinar para essa clientela, trazendo uma satisfação profissional. Assim, o relato da professora L, colocar que não é qualquer profissional que consegue trabalhar em classes especiais e a gratificação de vê-los se desenvolvendo. Segundo Müller & Glat (1999, p.45) “essa visão é fruto de uma concepção clínica ou ‘qualitativa’ da excepcionalidade, em que o aluno especial é concebido como qualitativamente diferente dos demais, necessitando, portanto, de um professor qualitativamente diferente dos demais”. “A única coisa que tenho para falar é que, só trabalha com classe especial quem gosta, quem não gosta não consegue trabalhar com classe especial. E a melhor coisa que existe é quando você bota uma criança em classe especial que ninguém acredita nela, e depois você mostra que ele conseguiu ler, que ele conseguiu interpretar, o texto pode não ser desse tamanhão, mas ele pode um texto desse tamaninho, ele interpreta aquilo, e ele conseguiu se socializar. Porque ele passa por você e fala:’Oi tia, boa tarde!’, ‘Oi tia, dá licença!’. Ele sabe falar direitinho. Sabe quando para o outro é um grão de areia, que não tem a mínima, pra mim esse grão de areia é uma montanha de areia, porque para mim significa muito, porque é uma conquista e não é só pra mim, é uma conquista para o próprio aluno, porque ele percebe o quanto ele cresceu” (relato da professora L). Para Müller & Glat (1999, p.48) as professoras especialistas “se reconhecem como ‘mais especiais’ que suas colegas do ensino regular, pelas dificuldades que enfrentam na efetivação de sua prática pedagógica, bem como pela multiplicidade de papéis que são obrigadas a desempenhar”. Muitas professoras especialistas, segundo essas autoras, consideram que para o exercício de sua função, além da formação especializada é preciso, ainda, ter características como os pré-requisitos do amor, dedicação e paciência. Porém, não podemos generalizar, indicando que todas as entrevistadas concordam com essa postura, pois esses relatos foram narrados de forma livre, sem um direcionamento do pesquisador. A subcategoria três refere-se ao “Envolvimento emocional com os alunos”, que contempla a valorização dos laços afetivos entre professor e aluno. “Eu gosto muito de trabalhar com ensino especial e o meu ensino especial aqui na escola é uma dupla regência, só tenho uma matrícula, eu faço a dupla a tarde e já conversei com vários colegas, se eu tivesse que largar para dar uma descansada em um horário, eu gostaria de permanecer com os meus especiais e largaria a dupla, mas permaneceria com eles, porque você aprende muito, você fica muito angustiada, é um desafio, angústia, preocupação. Tem uma agora que era minha ano passado que eu tive que ligar para a casa dela, porque eu não consigo, ela é uma cadeirante, ela tem problemas sérios de respiração, o pulmão não funciona, o outro 40% só de função e quando ela não vem e falta, fica internada, a gente se envolve, a gente fica preocupada, não deveríamos. Mas nós somos assim, eu tentei ligar para ela, mas ela não atendeu, então a gente se envolve. Quando um aluno meu tem crise, eu socorro, mas depois que ele melhora, eu choro, por angústia de ver aquele sofrimento” (relato da professora M). 148 Para Müller & Glat (1999), o estreitamento desse laço afetivo acontece devido ao fato da professora possuir poucos alunos e permanecer com eles durante anos, bem como o desenvolvimento de um trabalho individualizado, necessitando do conhecimento do sujeito, cultivando essa relação. Entretanto, as autoras alertam que em alguns casos, essa relação afetiva tem um cunho “maternal”, distanciando do trabalho profissional. O envolvimento emocional acontece de forma mútua, no qual professoras e alunos se envolvem reciprocamente, construindo ambientes seguros, para que esse alunado se sinta confortável, possibilitando o seu desenvolvimento e facilitando o seu aprendizado. Finalizando nossa análise, a subcategoria quatro – Entusiasmo de iniciante – refere-se às pretensões que as participantes possuem ao iniciar seu trabalho na área da Educação Especial. “É, o que eu tenho que acrescentar é isso, que eu apesar de todas as dificuldades que a gente tem, por exemplo, com um número em excesso de alunos que a gente tem que acompanhar, eu acho que o trabalho assim é bem prazeroso. É lógico que o resultado, o itinerante quando ele entra, ele entra com um gás, né! Ele tem que diminuir um pouquinho às vezes, a ansiedade, a expectativa, que alguns alunos são mais lentos para responder. E isso frustra, às vezes você vê frustrado, pensando em desistir, mas logo percebe que tem um outro ali que está crescendo muito enquanto aquele deu um regredida e vai equilibrando. E eu acho o trabalho assim muito bacana, tanto da itinerância, quanto da classe especial, quanto da sala de recurso” (relato da professora J). A professora I apresenta a dificuldade de trabalho que as especialistas, no caso itinerante, enfrentam em relação ao número excessivo de alunos, dado também relatado na pesquisa de Pletsch (2005), Bürkle & Redig (2009). Sendo assim, essa entrevistada aponta o sentimento de frustração que pode surgir no decorrer da prática pedagógica com alunos com deficiência intelectual, visto que, geralmente, o professor inicia sua atividade com muitos desejos e expectativas que nem sempre são alcançados. É importante, ressaltar, que não só os docentes do ensino comum precisam desmistificar a imagem do aluno ideal e se atentar para o aluno real da sua sala de aula, mas igualmente, o especialista necessita mudar sua percepção, a fim de não se frustrar com a realidade e largar o ensino especial. Dessa maneira, esse profissional poderá desenvolver um trabalho, realmente significativo, contribuindo para a escolarização e aprendizado dos educandos com deficiência intelectual. As falas abertas das especialistas nos remetem à necessidade da escuta dos profissionais da Educação Especial e o quanto é importante refletirmos essas narrativas para a compreensão da realidade da Educação Especial nas escolas públicas do município do Rio de 149 Janeiro e a inclusão escolar dos alunos com deficiência intelectual. Assim, poderemos traçar metodologias de intervenção, objetivando a construção de práticas pedagógicas inclusivas. 150 Considerações Finais Não aceiteis o que é habito como coisa natural, Pois em tempo de desordem sangrenta, De confusão organizada, de arbitrariedade consciente, De humanidade desumanizada, Nada deve parecer natural Nada deve parecer impossível de mudar. (BRECHT) Essa pesquisa visou compreender o papel atualmente exercido pela Educação Especial no contexto da política de Educação Inclusiva em vigor na Rede Pública Municipal do Rio de Janeiro. Teve como foco a inclusão escolar de alunos com deficiência intelectual, bem como a formação continuada e / ou em serviço dos profissionais especializados para atender a esta nova perspectiva educacional. Para tal, foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com 17 professoras especialistas que atuavam em classe especial, sala de recursos e itinerância prestando atendimento a esse alunado. Nosso objetivo era entender, por meio de suas narrativas, as percepções, angústias, anseios e dificuldades vivenciados por elas nesse processo. A partir dos relatos recolhidos concluímos que a inclusão escolar do aluno com deficiência intelectual é uma ação complexa, que deve ser construída em parceria, através de um trabalho colaborativo entre os profissionais da Educação Especial e do ensino comum. Semelhante consideração já havia sido feita por Pletsch, Redig & Burkle (2008) analisando dados obtidos em diversas pesquisas sobre a intervenção do docente da sala de recursos e itinerantes. Esses autores ressalvam que esses serviços de apoio são fundamentais para a inclusão escolar, mas que para o processo ser bem sucedido, não adianta apenas matricular esse alunado em classes comuns. É preciso “mudar concepções generalizantes a respeito do que seja educação inclusiva, bem como possibilitar aos professores regulares conhecimentos sobre essa proposta, já que a maioria não se sente preparada para receber estes alunos” (p.5). Vale ressaltar que apesar das entrevistadas atuarem em três diferentes serviços, suas narrativas mostram uma coerência de discurso no que tange à maioria dos aspectos abordados. Entre estes destaca-se importância levantada pelas professoras, de, dependendo do caso, do 151 encaminhamento do aluno para a classe especial, contrariando a nova política educacional brasileira (BRASIL, 2008b) que propõe uma “inclusão total”. Com relação às classes especiais, notamos que, pelo menos na região onde as entrevistadas trabalham, há mais espaços disponibilizados para essa prática pedagógica do que para as redes de apoio, como sala de recursos e itinerância. E, como, mencionado acima, esse serviço é considerado por elas importante para o processo de inclusão desses educandos nas classes comuns. Na pesquisa de Glat (2008a), que abordou toda a Rede Municipal do Rio de Janeiro, também verificou que, pelo menos até o presente, a maioria dos alunos com deficiência intelectual freqüentam classes especiais. Também ficou marcante a partir dos dados obtidos que, apesar da política vigente, não há, na maioria dos casos de alunos com deficiência intelectual, inclusão escolar direto. Pois continua existindo uma exigência de que o aluno esteja “preparado” para freqüentar a turma regular, mesmo que receba algum suporte e / ou que haja adaptações curriculares no seu processo de ensino-aprendizagem. Ou seja, o processo mais comum é o que pode ser chamado de integração parcial, uma prática em que a especialista escolhe a professora do ensino comum que irá receber o aluno da Educação Especial, traçando o perfil que corresponde às suas expectativas. Nesse sentido, a classe especial, para esse sujeito, se constituirá como um reforço, em que terá que “correr contra o tempo”, ensinando e aprofundando os conteúdos necessários para a sua inclusão na classe comum. Outro ponto importante verificado é que alunos com deficiência intelectual em idade adulta matriculados nas classes especiais ainda são tratados de forma infantilizada. Pelos relatos recolhidos foi visto vários casos em que as docentes se referem a eles utilizando terminologias e atividades voltadas para a Educação Infantil, confirmando dados de outras pesquisas como a de Müller & Glat (1999) e Glat (2009b). Conseqüentemente, esses adultos continuarão apresentando comportamentos infantis, visto que, são tratados por seus professores dessa maneira, sendo assim, será difícil estabelecerem padrões de comportamentos compatíveis com sua idade cronológica. Esse é um aspecto que faz com que a classe especial não seja sempre uma boa opção. Em pesquisa desenvolvida por meio de narrativas de professoras especialistas na Educação Infantil, Victor (2009) concluiu sobre a necessidade de: a) organização escolar para o planejamento e o atendimento do aluno com necessidades educacionais especiais na sala de aula e outros ambientes; b) formação continuada dos professores da Educação Especial nos cursos oferecidos pela Secretaria de Educação, bem como o seu envolvimento nessa formação para uma mudança de postura que contemple a perspectiva da Educação Inclusiva. As 152 conclusões deste autor são compatíveis com os dados apresentados no presente trabalho, no qual destacamos a formação inicial e em serviço como pontos fundamentais para a inclusão escolar do aluno com deficiência intelectual, em especial. Victor (2009, p. 12) também aponta que as concepções dos professores regentes e especialistas “problematizam a proposta da inclusão escolar dos alunos e alunas com deficiência que apresentam necessidades educacionais especiais. De acordo com as suas concepções o olhar diante da inclusão desses alunos deve ser de inquietação e mudança”. Isso vai de encontro, com as falas das nossas entrevistadas que enfatizam a necessidade de conscientizar os docentes do ensino comum, a fim de que auxiliem no processo de ensinoaprendizagem desses educandos, sendo fundamental a organização da escola para o recebimento desse aluno, com o objetivo de garantir o acesso e permanência na escola regular. Como discutido no decorrer do texto, os professores da Educação Especial não podem ser os únicos responsáveis pela inclusão dos alunos com necessidades educacionais especiais nas classes comuns. O processo exige parcerias com os demais profissionais da escola. Essas observações são importantes, pois explicitam referências e discussões para uma melhoria na capacitação e / ou atualização dos profissionais da Educação. Mas, certamente, é preciso que os especialistas desenvolvam estratégias para estreitar o seu relacionamento com os outros professores, bem como desmistificar a percepção dos docentes das turmas comuns de que o trabalho dos especialistas é mais fácil do que o deles, fato comentado por várias entrevistadas. O despreparo dos professores mostrado em inúmeros depoimentos se contrapõe com a LDBEN 9394/96 (BRASIL, 1996), a Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994), Decreto nº 2 (BRASIL, 2001b) entre outros documentos que preconizam a valorização do docente, com melhores condições salariais, de trabalho, qualificação e etc. Esses elementos são fundamentais para que o profissional de Educação exerça sua função de forma satisfatória e de qualidade para todos os envolvidos nesse processo. É importante frisar que este despreparo atinge tanto os professores das turmas comuns quanto os especialistas, que na atual política precisam ser capacitados para atender alunos com uma grande diversidade de deficiências, porque atuarão com diferentes alunos nas salas de recursos e na itinerância. O pequeno quantitativo de profissionais especializados para atender à enorme demanda (tanto de apoio direto ao educando como suporte ao professor regente) também se configura como um obstáculo para a inclusão educacional. Outro ponto discutido refere-se à dificuldade de conseguir o diagnóstico médico do aluno com deficiência intelectual, o que é um requisito para que ele possa usufruir dos 153 serviços da Educação Especial, atrasando, portanto, seu desenvolvimento. Por outro lado, também observamos uma dificuldade das próprias professoras especialistas em realizar a avaliação pedagógica desse aluno para o encaminhamento a um atendimento educacional especializado. Oliveira M. (2009) informa que os professores, de modo geral, desenvolvem planejamentos escolares focando nas necessidades e características de cada aluno, observando o seu progresso, baseado nos objetivos estipulados por eles e para esses sujeitos. Sendo assim, os estudantes com deficiência intelectual devem ser avaliados de acordo com o seu desempenho, e não comparados com o restante da turma. Esse fato é relevante, pois nessa pesquisa, notamos que esse alunado para ser incluído em uma turma regular precisa saber os conteúdos daquela série / ano, mas continua tendo um processo de escolarização que não permite esse aprendizado. Ele continua sendo avaliado de forma individual sem se preocupar com o andamento dos demais alunos, visto que, em alguns casos, o currículo é reduzido e não flexibilizado, assim, o sujeito com deficiência intelectual fica com o conhecimento acadêmico defasado em relação aos demais. Para Padilha (2009, p.7) não há homogeneidade, há heterogeneidade entre os que habitam sobre o planeta. Há regularidades, mas não igualdades, portanto, quando se fala em direitos iguais para todos não se pode entender que isso aconteça de forma única. Não podemos tratar os desiguais de maneira igual. Sendo assim, vale ressaltar a importância da adaptação / adequação curricular e não apenas a eliminação de conteúdos, porque devemos adaptar o processo de aprendizagem do educando e não pensar somente no resultado final como um produto. Por alguns destes aspectos não estarem sendo, na prática, levados em consideração, está havendo uma descrença na proposta da Educação Inclusiva, conforme pudemos observar em várias das falas aqui analisadas. Portanto, há uma preocupação com o futuro dessa política e das oportunidades para essas pessoas. No que tange à inclusão deste alunado no Programa de Educação de Jovens e Adultos (PEJA), não encontramos, como havíamos originalmente suposto, diferença no processo, apesar dessa modalidade ser composta por uma característica ímpar - a diversidade. Pelos relatos prestados verificamos que na EJA também há dificuldade no recebimento de alunos com necessidades educacionais especiais, em particular a deficiência intelectual, visto que, os professores continuam alegando não saber lidar com esses educandos. Mesmo considerando que a EJA é composta, em sua grande maioria, por alunos oriundos do fracasso escolar e / ou 154 que não puderam estudar na idade adequada por motivos externos, como o trabalho, os docentes são resistentes a sujeitos com deficiência intelectual, apresentando as mesmas barreiras do ensino diurno “regular”. É importante enfatizar que na região pesquisada, há apenas uma escola que atende alunos com deficiência intelectual na EJA, disponibilizando uma professora itinerante para esse atendimento educacional especializado. Por isso, acreditamos que se há outros indivíduos matriculados nessa modalidade de ensino estão sem acompanhamento de um profissional da Educação Especial ou matriculados nas classes especiais, como comprovados pelas idades dos indivíduos das turmas estudadas. Bürkle & Redig (2009) afirmam que a presença e atuação do professor itinerante na escola facilita a permanência do aluno com necessidades educacionais especiais na sala de aula, bem como contribui para a sua inclusão. Entretanto, apesar das dificuldades apontadas, a partir dos dados obtidos e confirmando outras pesquisas na área, como Glat (2008a), a inclusão educacional do aluno com deficiência intelectual, em particular no Município do Rio de Janeiro está sendo realizada, de forma satisfatória. Nas palavras de uma das entrevistadas: “O trabalho de inclusão do Município do Rio de Janeiro está muito bacana” (relato da professora J). Certamente ainda existem muitos obstáculos a serem superados, apontados pelas entrevistadas, como por exemplo, o número excessivo de alunos nas salas de aula, o que dificulta uma atenção mais diferenciada ao aluno com necessidades especiais. Este, e outros argumentos foram também levantados por autores como Glat (2004a, 2008b), Bürkle & Redig (2009), Fontes, Pletsch & Glat (2007) e Padilha (2009). Esta última coloca como uma das prioridades de mudança no âmbito escolar que “o professor ensine e todos os alunos aprendam de acordo com suas necessidades, no momento adequado, com instrumentos apropriados” (p.13). Bürkle & Redig (2009) afirmam que essas melhorias e a construção de uma Educação Inclusiva só serão alcançadas, com a parceria entre os profissionais da Educação, fato bastante citado em nossa pesquisa. Em termos amplos, precisamos conscientizar a sociedade da diversidade existente, da importância da Educação Inclusiva e não apenas responsabilizar e culpabilizar a escola pelos conhecimentos dos indivíduos. Todavia, para Padilha (2009) é função da escola a escolha da melhor maneira para que o aprendizado aconteça de forma significativa, então acreditamos que para isso, os professores precisam ser capacitados, de forma que os possibilitem atender à nova demanda de ser um profissional multi-habilitado, com o objetivo de garantir uma 155 educação de qualidade para todos. Mas para isso, precisamos refletir sobre a realidade de nossas turmas e para tal, é fundamental ouvir as percepções das professoras especialistas para a compreensão do processo de inclusão escolar dos sujeitos com necessidades educacionais especiais, a fim de desenvolvermos práticas pedagógicas que facilitem o aprendizado desses alunos. Em suas narrativas, esses profissionais expressam seus sentimentos e pensamentos que poderão auxiliar na construção de uma educação de qualidade, pois vivenciam a prática das políticas educacionais brasileiras e as dificuldades criadas pelo cotidiano da sala de aula. A Educação Especial precisa transformar sua função e forma tradicional de atuação, com o propósito do desenvolvimento de novas práticas pedagógicas para a inclusão escolar real e efetiva dos alunos com necessidades educacionais especiais. Chama atenção, sobremaneira, que muitos fatos relatados e posicionamentos expressados pelas entrevistadas neste estudo, são semelhantes recolhidos na pesquisa de Müller & Glat (1999), realizada há uma década atrás. Com esta constatação, concluímos que para acontecer uma Educação Inclusiva de qualidade, que garanta a participação e a aprendizagem de alunos com necessidades especiais, é preciso romper com os paradigmas existentes, pois nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar. 156 BIBLIOGRAFIA AAMR. Retardo mental: definição, classificação e sistemas de apoio. 10 ed. Porto Alegre: Artmed, 2006. ALMEIDA, M. A. Formação do professor para a educação especial: história, legislação e competências. In: Cadernos. n.24. 2004. ALVES, D. de O.; GOTTI, M. de O.; GRIBOSKI, C. M. & DUTRA, C. P. Sala de recursos multifuncionais: espaços para atendimento educacional especializado. Brasília: MEC/SEESP, 2006. Disponível no endereço eletrônico, acessado no dia 07 de abril de 2009: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/me002991.pdf ANDRADE, E. R. Os jovens da EJA e a EJA dos jovens. In: PAIVA, J. & OLIVEIRA, I. B. de (Orgs.). Educação de jovens e adultos. pp. 35-43. 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Científico Brasileira Educação Infantil Educação Fundamentos Filosofia da Educação Currículo Sociológicos Educação Brasileira I Educação Contemporânea Filosofia História da Questões Didática Educação Educação atuais de Ed. Mundo Ocidental Brasileira Brasileira História da História da Educação e Fundamentos Educação Mundo Educação Comunicação da Educação Ocidental Brasileira I Especial 5º Período Avaliação Proc.EnsinoAprendizagem 6º Período Didática Ciências da Natureza Arte-Educação Didática Matemática Planejamento Currículo-ensino Metodologia da Pesquisa em Educação Psicologia Psicologia da Bases Alfabetização Prat.Ens.Mag.Disc. Desenvolvimento Aprendizagem Biológicas da e Letramento Pedagógicas e Educação e Educação Aprendizagem Antropologia Estágio na Educação 7º Período Didática Ciências Sociais 8º Período O. T. P. 9º Período Educação Comparada Didática Abord.Didática Ed. da Língua EJA Comunicação II - Libras Portuguesa Psicopedagogia Pesquisa Estágio Educação e e Educação em Trabalho Educação Estágio Prática de Seminário Ensino Séries Monografias Iniciais Prática de Ensino Ed.Infantil 170 ANEXO II: Grade curricular das disciplinas obrigatórias do curso de Pedagogia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) 1º Período 2º Período 3º Período 4º Período 5º Período 6º Período 7º Período Filosofia da Educação Sociologia da Educação Tópicos Especiais em Educação e Formação Docente Introdução à Administração Psicologia da Educação – aspectos afetivos Fund. TeóricoMetodológicos da Educação Especial Linguagem, Letramento e Alfabetização Tópicos Especiais em Educação, Meio Ambiente e Sociedade Psicologia da Educação - aspectos cognitivos e Comportamentais Didática da Educação Infantil e das Séries Iniciais do Ensino Fundamental Fund. TeóricoMetodológicos da Língua Portuguesa Pesquisa Educacional Criança na Educação Infantil Planejamento e Avaliação em Instituições Educativas História da Educação Economia e Política da Educação Antropologia Social Arte-Educação Teorias e Política Curricular Introdução à Sociologia Filosofia da Educação Brasileira Fund. TeóricoMetodológicos da Matemática Fund. TeóricoMetodológicos de Ciências Sociais Criança na Família e na Sociedade Desenvolvimento e Aprendizagem Motora Estrutura e Funcionamento do Ensino Didática Geral Fund. TeóricoMetodológicos de Ciências Naturais Planejamento e Avaliação do Processo de Ensino Tópicos Especiais em Educação no Campo Estágio Supervisionado: Magistério e Gestão Monografia de Graduação de Licenciatura (TCC) Recreação Formação e Espaços de Trabalho do Pedagogo Tópicos Especiais em Políticas Públicas para o Curso de Pedagogia Pesquisa e Prática Pedagógica II Informática na Educação Fund. TeóricoMetodológicos da Educação Infantil Estudos da Família Estatística Aplicada à Educação Tópicos Especiais em Educação e Movimentos Sociais Pesquisa e Prática Pedagógica I Tutoria Discente em Prática de Ensino Prática de Ensino (na Educação Infantil e Fundamental) Tópicos Especiais em Gestão e Supervisão Escolar Gestão e Coordenação do Trabalho Pedagógico Pesquisa e Prática Pedagógica III Pesquisa e Prática Pedagógica IV Estágio Supervisionado: Magistério e Gestão Estágio Supervisionado: Magistério e Gestão 171 ANEXO III: Grade curricular das disciplinas obrigatórias do curso de Pedagogia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Administração Educacional Alfabetização Filosofia da Educação História da Educação Análise de Dados de Pesquisa em Educação Biologia da Educação Língua Portuguesa - Conteúdo e Método Magistério das Disciplinas Pedagógicas do Ensino Médio Matemática - Conteúdo e Método Currículos e Programas Movimentos Sociais e Educação Ciências Naturais - Conteúdo e Método Organização da Educação no Brasil Ciências Sociais - Conteúdo e Método Orientação Educacional Ciencia Política e Educação Política Educacional Didática Psicologia da Educação Economia Política da Educação Sociologia da Educação Educação Especial Educação e Trabalho Supervisão Educacional Tópicos Especiais em Educação, Saúde e Sociedade Tópicos Especiais em Educação Infantil Educação Infantil Trabalho, Cultura e Escola Epistemologia das Ciências da Educação Trabalho, Educação e Produção do Conhecimento Antropologia da Educação Educação de Jovens e Adultos Escola e Democracia: Planejamento, Gestão e Participação 172 ANEXO IV: Grade curricular das disciplinas obrigatórias do curso de Pedagogia da Universidade Federal DO Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) 2008.1 1º Período Introdução aos Estudos Científicos em Educação Introdução à Filosofia 2º Período 3º Período 4º Período 5º Período 6º Período Política Educacional Educação e Economia Política Estatística Aplicada à Educação Avaliação e Educação Metodologia da Pesquisa em Educação Pensamento Educacional Brasileiro Didática Epistemologia Gestão Educacional Planejamento Educacional Educação e Filosofia Antropologia Cultural Educação e Sociologia História das Instituições Escolares História da Educação Brasileira Dinâmica e Organização Escolar Psicologia e Educação Psicologia da Infância Pensamento e Linguagem Educação e Saúde Didática: Ciências questões Sociais na contemporâne Educação I as Educação Alfabetização, Especial leitura e escrita Educa ção Infantil Educação e Trabalho Currículo Optativa 1 Optativa 2 7º Período 8º Período 9º Período Educação Educação a Popular e Distância Movimentos Sociais Financiamento Arte e da Educação Educação Língua Brasileira de Sinais Psicologia Institucional Ciências Sociais na Educação II Língua Portuguesa na Educação Imagem e Educação Informática e Educação Ciências Naturais na Educação I Ciências Naturais na Educação II Literatura na Escola Optativa 7 Educação de Pessoas Jovens e Adultas Matemática na Educação II Corpo e Movimento Optativa 8 Matemática na Educação I Optativa 4 Monografia 1 Optativa 3 Optativa 5 Optativa 6 Monografia 2 173 ANEXO V: Grade curricular das disciplinas obrigatórias do curso de Pedagogia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) 1º Período 2º Período 3º Período 4º Período 5º Período 6º Período 7º Período 8º Período Filosofia e Educação Filosofia Política e Educação História da Educ. Brasileira Didática Políticas Públicas e Educação Currículo e Abordagens Pedagógicas da Educação Infantil Educação para a Gestão de Projetos Sócio-Ambientais Educação e Movimentos Sociais: Aspectos Históricos e Políticos Psicologia do Desenvolvimento Humano e Educacional Aprendizagem Avaliação em Educação Gestão Democrática da Educação Formação de Prof: Anos Iniciais do Ensino Fund. para Crianças, Jovens e Adultos Estágio Sup. I Formação de Prof:Anos Iniciais do Ensino Fund. para Crianças, Jovens e Adultos Estágio Sup. II Antropologia e Educação Sociologia da Educação Questões Atuais em Educação Especial Trabalho, Educ. e Desenvolvimento Profissional Pedag nas Instit e nos Mov Sociais: Estágio Superv I Pedag nas Instit e nos Mov Sociais: Estágio Superv II Tecnologias e Educação História da Educação O Lúdico e a Educ. Infantil Processos de Formação de Leitores/ Escritores Geografia e História para Crianças, Jovens e Adultos Formação de Prof para Educ Infantil: Estágio Superv I Formação de Prof para Educ Infantil: Estágio Superv II Eletiva Introd à Ped: História, Formação e Campos de Atuação Processos de Desenv. Infantil e Educação Processos de Alfabetização Educação Matemática para Crianças, Jovens e Adultos Educação Estética Pesquisa e Prática Pedagógica VI Monografia em Educação I Eletiva Economia e Processos Lúdicos e Financiamento da Criativos no Educação Desenvolvimento e na Aprendizagem Infância e Cultura Educ. Inclusiva e Cotidiano Escolar 174 Infância e Políticas de Educação Infantil Fund. da Linguagem e Educação Ciência e Educ. em Ciência Educ. Continuada e as Perspectivas em Redes de Conhecimento Pesquisa e Prática Pedagógica I Pesquisa e Prática Pedagógica II Atividades Culturais I Atividades Culturais II Atividades Culturais III Atividades Culturais IV Eletiva Eletiva Eletiva Eletiva Pesquisa e Prática Pesquisa e Prática Pedagógica III Pedagógica IV Pesquisa e Prática Pedagógica V Atividades Culturais VI Atividades Culturais VII Monografia em Educação II Atividades Culturais V Eletiva Eletiva Atividades Culturais VIII Eletiva Eletiva 175 ANEXO VI: Roteiro de perguntas para as professoras das classes especiais 1) Qual a sua formação? 2) Quantos anos de magistério? 3) Tem especialização em alguma área de deficiência? 4) Atualmente a política é de Educação Inclusiva, dessa forma, encontramos nas classes comuns, pessoas com necessidades educacionais especiais. Assim, o que você entende por Educação Inclusiva? 5) O que você pensa sobre a inclusão do aluno com deficiência mental na classe comum? 6) Como a Educação Especial deve atuar para o sucesso da inclusão dos alunos com deficiência mental no ensino regular? 7) Descreva o seu cotidiano como professor da classe especial com alunos com deficiência mental. 8) Na sua opinião, quais os desafios e as dificuldades para a aprendizagem dos alunos com deficiência mental na classe especial? 9) De acordo com o diagnóstico ou as características geralmente imputadas a pessoas com deficiência mental, como você vê o seu aluno em sala de aula? 10) As características que ele de fato apresenta coincidem com o laudo e/ ou o rótulo? 11) Como na sua experiência, geralmente, acontece a passagem do aluno da classe especial para a classe comum? 12) Há casos em que ocorre o inverso? 13) Quais as condições para que o aluno com deficiência mental seja incluído em uma classe comum? 14) Em que momento isso acontece? 15) Na sua opinião é assim que deve ser? 16) Como você prepara os alunos com deficiência mental da classe especial para a inclusão nas classes comuns? 17) Você tem contato com o professor da classe regular? Como é a sua relação? 18) Você se sente capacitado para trabalhar como suporte no ensino regular? 19) Na sua experiência como os professores das classes regulares recebem os professores da Educação Especial? Como melhorar esta relação? 20) Como é a relação do professor da classe comum com o aluno com deficiência mental? 176 ANEXO VII: Roteiro de perguntas para as professoras de salas de recursos e itinerantes 1) Qual a sua formação? 2) Quantos anos de magistério? 3) Tem especialização em alguma área de deficiência? 4) Atualmente a política é de Educação Inclusiva, dessa forma, encontramos nas classes comuns, pessoas com necessidades educacionais especiais. Assim, o que você entende por Educação Inclusiva? 5) O que você pensa sobre a inclusão do aluno com deficiência mental na classe comum? 6) Como a Educação Especial deve atuar para o sucesso da inclusão dos alunos com deficiência mental no ensino regular? 7) Descreva o seu cotidiano como professor da sala de recursos e/ou professor itinerante de alunos com deficiência mental. 8) Na sua opinião, quais os desafios e as dificuldades para a aprendizagem dos alunos com deficiência mental na classe comum? 9) De acordo com o diagnóstico ou as características geralmente imputadas a pessoas com deficiência mental, como você vê o seu aluno em sala de aula? 10) As características que ele de fato apresenta coincidem com o laudo e/ ou o rótulo? 11) Quais as condições para que o aluno com deficiência mental seja incluído em uma classe comum? 12) Em que momento isso acontece? 13) Na sua opinião é assim que deve ser? 14) Como você adapta seu trabalho pedagógico para alunos com deficiência mental que estão incluídos nas classes comuns? 15) Que tipo de adaptações? 16) Você tem contato com o professor da classe regular? 17) Como é a sua relação? 18) Você se sente capacitado para trabalhar como suporte no ensino regular? 19) Na sua experiência como os professores das classes regulares recebem os professores da Educação Especial? Como melhorar esta relação? 20) Como é a relação do professor da classe comum com o aluno com deficiência mental? 177 ANEXO VIII: Autorização da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro 178 ANEXO IX: Carta de apresentação às escolas da 4ª Coordenadoria Regional de Educação - CRE PREFEITURA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO 4a COORDENADORIA REGIONAL DE EDUCAÇÃO DIVISÃO DE EDUCAÇÃO Memorando E/4a CRE – 4ª s/n Rio de Janeiro, 18 de dezembro de 2008. Assunto: Apresentação de pesquisadora Senhor(a) Diretor(a) da ____________________________________ Apresentamos a Vossa Senhoria Annie Gomes Redig, pesquisador(a) da (o) Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que realizará pesquisa cujo título é "Ressignificando a Educação Especial no contexto da Educação Inclusiva: narrativas de professores especialistas", no período de 17/12/2008 até 17/12/2009, sob responsabilidade do(s) Professor(es) Coordenador(es)/Orientador(es) Rosana Glat sem qualquer vínculo empregatício. O(s) Pesquisador(es) se compromete(m) a respeitar a rotina da Escola e a remeter os resultados da pesquisa ao Departamento Geral de Educação. Segue, em anexo, a autorização do Departamento Geral de Educação (EIDGED). Informamos que não é permitido tirar fotos, filmagem sem autorização prévia. Atenciosamente, Substituta Eventual – E/4ª CRE/ DED 179 ANEXO X: Aprovação do Comitê de Ética da Sub-Reitoria de PósGraduação e Pesquisa da UERJ 180 ANEXO XI: Termo de concessão dos professores Eu,________________________________________________________________, AUTORIZO e CONCEDO os direitos autorais do relato por mim dado à Annie Gomes Redig, mestranda em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), para publicação, na íntegra ou em parte. Rio de Janeiro, _______de ______________de 2009. _________________________________________ Assinatura R.G. nº.___________________________, 181 ANEXO XII: Termo de consentimento livre e esclarecido dos professores Eu,__________________________________________________________________ (preencher o espaço com nome, nacionalidade, idade, estado civil, profissão, endereço, RG), estou sendo convidado a participar de um estudo denominado “Ressignificando a Educação Especial no contexto da Educação Inclusiva: narrativas de professores especialistas”, cujos objetivos são: refletir sobre a função da Educação Especial no contexto da Educação Inclusiva, a partir da percepção dos professores especialistas. E se justifica, pois contribuirá para a compreensão do processo de inclusão dos alunos com necessidades educativas especiais que são acompanhadas pelas redes de apoio e nas classes especiais. A minha participação no referido estudo será no sentido de emitir minha opinião e participação neste processo através de respostas a entrevista realizada pela pesquisadora, que serão gravadas em áudio. Fui alertado de que, da pesquisa a se realizar, posso esperar alguns benefícios, tais como: esclarecimento sobre a importância da função dos professores especialistas no processo de inclusão dos alunos com necessidades educacionais especiais nas classes comuns, que a longo prazo, será um importante instrumento para justificar a permanência destas redes de apoio no Município do Rio de Janeiro e melhoria na qualidade da educação do aluno com necessidades educacionais especiais. Recebi, por outro lado, os esclarecimentos necessários sobre os possíveis desconfortos e riscos decorrentes do estudo, levando-se em conta que é uma pesquisa, e os resultados positivos ou negativos somente serão obtidos após a sua realização. Assim, fico ciente de que a pesquisa pode não ter os resultados esperados e que a justificativa para a existência de tal rede de apoio e/ou classe especial podem não ser comprovada. Estou ciente de que minha privacidade será respeitada, ou seja, meu nome ou qualquer outro dado ou elemento que possa, de qualquer forma, me identificar, será mantido em sigilo. Também fui informado de que posso me recusar a participar do estudo, ou retirar meu consentimento a qualquer momento, sem precisar justificar, e de, por desejar sair da pesquisa, não sofrerei qualquer prejuízo à assistência que venho recebendo. Foi-me esclarecido, igualmente, que eu posso optar por métodos alternativos, que são: responder aos questionários de forma escrita e não gravada. 182 O pesquisadori envolvido com o referido projeto é Annie Gomes Redig e com ele poderei manter contato pelo telefone (21) 78973576.ii É assegurada a assistência durante toda pesquisa, bem como me é garantido o livre acesso a todas as informações e esclarecimentos adicionais sobre o estudo e suas conseqüências, enfim, tudo o que eu queira saber antes, durante e depois da minha participação. Enfim, tendo sido orientado quanto ao teor de todo o aqui mencionado e compreendido a natureza e o objetivo do já referido estudo, manifesto meu livre consentimento em participar, estando totalmente ciente de que não há nenhum valor econômico, a receber ou a pagar, por minha participação. No entanto, caso eu tenha qualquer despesa decorrente da participação na pesquisa, haverá ressarcimento na forma seguinte: pagamento em espécie com comprovação dos casos por nota fiscal. De igual maneira, caso ocorra algum dano decorrente da minha participação no estudo, serei devidamente indenizado, conforme determina a lei. Declaro que entendi os objetivos, riscos e benefícios de minha participação na pesquisa e concordo em participar. Rio de Janeiro, __________ de _____________________ de 2009. ________________________________________________________________ Nome e assinatura do sujeito da pesquisa ________________________________________________________________ Nome(s) e assinatura(s) do(s) pesquisador(es) responsável(responsáveis) i Pesquisadora principal: Professora Doutora Rosana Glat. E-mail: [email protected]. Endereço e telefone de contato: Rua São Francisco Xavier, 524 Grupo 12.037-F CEP 20550-900 – Rio de Janeiro (RJ) Tel: (21) 2587-7535 Pesquisadora: Annie Gomes Redig. E-mail: [email protected] Endereço e telefone de contato: Rua São Francisco Xavier, 524 Grupo 12.037-F CEP 20550-900 – Rio de Janeiro (RJ)Tel: (21) 2587-7535 ou 78973576. ii “Caso você tenha dificuldade em entrar em contato com o pesquisador responsável, comunique o fato à Comissão de Ética em Pesquisa da UERJ: Rua São Francisco Xavier, 524, sala 3020, bloco E, 3º andar, Maracanã - Rio de Janeiro, RJ, e-mail: [email protected] - Telefone: (021) 2569-3490." 183