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Análise espectrofotométrica do clareamento dental interno
Spectrophotometric analysis of internal dental bleaching effect
Maíra Dias SAMPAIO1
Anderson Pinheiro de FREITAS1
Roberto Paulo Correia de ARAÚJO2
RESUMO
Objetivo: Comparar a eficácia do peróxido de carbamida a 37%, do perborato de sódio e da associação do perborato de sódio com o peróxido de hidrogênio a 35% sobre o clareamento interno de dentes bovinos, tratados endodonticamente, escurecidos e não escurecidos, in vitro.
Métodos: Oitenta incisivos bovinos foram seccionados 3mm abaixo da junção cemento-esmalte e foram divididos em oito grupos. Quatro
grupos foram pigmentados experimentalmente com sangue durante 14 dias após o que foi realizado tratamento endodôntico em todas
as amostras e seguiram-se os procedimentos de clareamento endógeno pela técnica walking bleach, durante três semanas consecutivas.
A avaliação da eficácia clareadora dos agentes utilizados no terço médio dentário foi determinada pela comparação da resposta dos fatores L*, a* e b* dos grupos estudados, a partir de leituras realizadas em espectrofotômetro Easyshade-Vita, com base no sistema CIE Lab.
Resultados: Em relação ao parâmetro luminosidade (L*) houve diferença estatística entre GC2 e os demais grupos. O mesmo resultado foi
encontrado para as comparações entre GC1 e os grupos GC2, GT1a, GT1b, GT2a, GT2b e GT2c. Não houve diferença estatística para
L* quando comparados os grupos GT1a, GT1b e GT1c (p>0.05). No entanto, GT2c apresentou diferença estatística significativa quando
comparado aos grupos GT2a e GT2b (p<0.05) apesar de na leitura L5 a diferença entre GT2a e GT2c não ser detectada.
Conclusão: Para o terço médio de dentes não pigmentados, os três agentes clareadores estudados apresentaram o mesmo efeito clareador.
Para dentes escurecidos, o perborato de sódio em diferentes veículos foi mais eficaz que o peróxido de carbamida a 37%, principalmente
para efeito residual dos agentes clareadores. Contudo, quando comparadas entre si, as pastas perborato de sódio apresentaram o mesmo comportamento clareador independente da presença de pigmentação da câmara pulpar por sangue.
Termos de indexação: clareamento de dente; dente não vital; peróxidos; pigmentos biológicos.
ABSTRACT
Objective: The objective of this study was to compare the efficacy of 37% carbamide peroxide and the association between sodium
perborate and 35% oxygen peroxide on the internal bleaching of bovine teeth treated endodontically, darkened or not in vitro.
Methods: Eighty bovine incisors were sectioned 3mm below the cement-enamel junction and divided into eight groups. Four groups were
experimentally stained with blood for 14 days. After this period, an endodontic treatment was done in all the specimens followed by
internal bleaching using the walking bleach technique for three consecutive weeks. Assessment of the bleaching efficacy of the agents used
in the middle third of the tooth was determined by comparing the response of the L*, a* and b* factors of the studied groups obtained with
a Easyshade-Vita spectrophotometer based on the CIE Lab system.
Results: There was statistical difference in luminosity (L*) between group GC2 and the other groups (Figure 2). The same result was found
for the comparisons between GC1 and the groups GC2, GT1a, GT1b, GT2a, GT2b and GT2c. L* did not differ statistically when the
groups GT1a, GT1b and GT1c were compared (p>0.05). However, GT2c presented a significant statistical difference when compared
with the groups GT2a and GT2b (p<0.05) even though the L5 reading did not detect the difference between GT2a and GT2c.
Conclusion: For the middle third of the unstained teeth, the three bleaching agents presented the same bleaching effect. For darkened teeth,
sodium perborate in different vehicles was more effective than 37% carbamide peroxide, especially regarding the residual effect of the
bleaching agents. However, when the pastes containing sodium perborate were compared, they presented the same bleaching behavior
even when the pulp chamber was stained by blood.
Indexing terms: tooth bleaching; peroxides; tooth nonvital; pigments biological.
INTRODUÇÃO
Como a alteração de cor dos dentes constitui um
aspecto esteticamente negativo e há uma valorização de
procedimentos cada vez menos invasivos, a técnica de
clareamento dental tem sido uma alternativa conservadora
para a recuperação da estética, tanto para dentes polpados
quanto para os dentes despolpados, escurecidos ou manchados1-2. Diante das causas multifatoriais das alterações
cromáticas dentárias, ressaltam-se as necroses e gangrenas
pulpares, fatos que promovem a hemólise e a permanência
de material necrótico no interior dos canais resultando
em produtos pigmentados que penetram nos túbulos
dentinários1,3-4.
Para o clareamento de dentes despolpados, o
mercado disponibiliza agentes clareadores à base de peróxido
de carbamida em diferentes concentrações5, mas o material
clareador mais comumente utilizado para o clareamento
endógeno é o peróxido de hidrogênio de 30% a 35%. Ele
ainda pode ser utilizado isolado ou associado ao perborato de
sódio, em uma pasta espessa, selada na câmara pulpar, com ou
sem adição de calor6.
Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Odontologia, Departamento de Clínica Odontológica. Rua Araújo Pinho, 62, Canela, 40858-950,
Salvador, BA, Brasil. Correspondência para / Correspondence to: MD SAMPAIO. E-mail: <[email protected]>.
2
Universidade Federal da Bahia, Instituto de Ciências da Saúde, Departamento Biofunção. Salvador, BA, Brasil.
1
RGO - Rev Gaúcha Odontol., Porto Alegre, v. 58, n. 3, p. 363-368, jul./set. 2010
MD SAMPAIO et al.
Atualmente, pesquisas afirmam que o perborato
de sódio possui eficácia mesmo quando administrado
com diferentes veículos além da água, como, por exemplo,
peróxido de hidrogênio3-8 e géis de clorexidina9. O peróxido de hidrogênio (H2O2) é um líquido incolor
de sabor amargo que a depender da sua concentração, quando
diluído em água, apresenta-se altamente solúvel e origina uma
solução ácida. A produção de peróxido de hidrogênio pode
ser seguida da liberação de radicais de oxigênio altamente
reativos para o corpo humano os quais interagem com metais
de transição como o ferro e o cobre10.
Apesar de ser amplamente difundido como clareador
dentário nos dias atuais, o peróxido de carbamida foi inicialmente utilizado como anti-inflamatório nas grandes guerras e,
mais tarde, na endodontia, para a limpeza de canais radiculares.
Hoje, também é conhecido como peróxido de ureia, peróxido de
hidrogênio ureia, hiperóxido de ureia, peróxido de hidrogênio
carbamida e percabamida11. Apresenta-se como uma substância
muito instável e, em contato com a saliva ou com a estrutura
dental, imediatamente se dissocia em peróxido de hidrogênio
e ureia. Esta ureia forma dióxido de carbono e amônia, que é
responsável pela neutralização ácida do meio e a partir disso,
surgem hipóteses de que o peróxido de carbamida não é capaz
de desmineralizar a estrutura dentária10.
Para a avaliação do clareamento endógeno, vários
estudos utilizam dentes bovinos como corpos de prova7,9 uma
vez que a permeabilidade coronal da dentina para incisivos
bovinos é semelhante à da dentina humana12. Além disso, não
existem diferenças morfológicas estatisticamente significativas
entre dentes bovinos e humanos quando se trata de número
e diâmetro de túbulos dentinários por milímetro da camada
superficial da dentina de incisivos centrais bovinos com a de
dentes humanos decíduos e molares permanentes13.
Buscando aproximar-se da realidade, estudos experimentais e in vitro tem desenvolvido técnicas de escurecimento
dental que simulam a pigmentação dental por hemorragia3,7,9,14.
Diante do contexto atual, este estudo objetiva
comparar a eficácia do peróxido de carbamida a 37%, do
perborato de sódio e da associação do peróxido de hidrogênio
a 35% com o perborato de sódio sobre o clareamento interno
de dentes bovinos, submetidos ao preparo químico dos
condutos radiculares, escurecidos e não escurecidos, in vitro.
MÉTODOS
Foram selecionados 80 incisivos bovinos hígidos que
após a divisão aleatória em 8 grupos (n = 10) tiveram o terço
cervical devidamente numerado (Figura 1a e Quadro 1). A cor
inicial da face vestibular para o terço médio de cada espécime foi
determinada utilizando o espectrofotômetro Easy Shade (VITA)
(Figura 1b) de acordo com o Sistema CIELab: L*, a* e b*.
Quatro grupos foram submetidos ao processo
de pigmentação experimental utilizando uma injeção de
sangue humano através da secção radicular há 3mm do colo
anatômico até o total preenchimento da câmara pulpar. Após
364
o vedamento com cimento provisório (Coltosol, Vigodent,
Rio de Janeiro, Brasil) os espécimes foram armazenados em
beckers de vidro e mantidos a uma temperatura de 37º C, em
solução de soro fisiológico, por um período de 14 dias15.
Concluída esta etapa, todos os 80 corpos de prova
foram submetidos à instrumentação endodôntica químicomecânica, seguindo-se da confecção de tampão cervical em
resina composta (Filtek Supreme-A3, 3M ESPE, St. Paul, MN,
USA) e sistema adesivo (Single Bond 2, 3M ESPE, St. Paul, MN,
USA). Uma segunda leitura da cor de todos os corpos de prova
foi realizada para verificar a eficácia da pigmentação in vitro.
Para os seis grupos experimentais, os agentes
clareadores específicos para cada um, foram administrados
segundo orientação do fabricante. A acomodação do agente
clareador foi feita em toda a extensão da parede vestibular
da câmara pulpar. Esta foi protegida, superficialmente, com
algodão hidrófilo sobre a qual foi realizada a vedação da
câmara, utilizando cimento provisório à base óxido de zinco
e sulfato de zinco (Coltosol, Vigodent, Rio de Janeiro, Brasil).
A medicação foi trocada a cada sete dias, durante um
período de três semanas e as leituras para avaliação dos valores
de L*, a* e b* (L3, L4, L5, L6) foram realizadas sempre sete
dias após a administração do agente clareador. A leitura L6
foi realizada após a limpeza completa do agente clareador da
câmara pulpar utilizando-se água deionizada, a fim de se avaliar
a possibilidade de efeito residual da substância química aplicada.
Para cada grupo avaliado, foram determinados os valores
de ∆E (diferença de cor entre duas medidas espectrofotométricas),
com base na mensuração dos parâmetros L*, a* e b*, a partir da
seguinte fórmula: ∆E =√ (∆L)2 + (∆a)2 + (∆b)2. Os valores de delta
tiveram como base os valores de L*, a* e b* dos espécimes nos
diferentes momentos de leitura: cor original, após a pigmentação
e após cada um dos três procedimentos clareadores distintos, com
intervalos de sete dias entre as sessões.
Para a realização deste estudo levou-se em
consideração os princípios éticos contidos na Declaração de
Helsink (2000), além do atendimento a legislações específicas
do Brasil, país no qual a pesquisa foi realizada.
RESULTADOS
Após a obtenção dos parâmetros L*, a* e b* decorrentes
da análise espectrofotométrica, os valores foram submetidos a
análise de variância ANOVA e Teste de Tukey, com nível de
significância (p≤0,05) pelo pacote estatístico MINITAB.
Os resultados encontrados após a última leitura (L6)
evidenciaram que em relação ao parâmetro luminosidade
(L*) houve diferença estatística entre GC2 e os demais
grupos (Figura 2). O mesmo resultado foi encontrado para
as comparações entre GC1 e os grupos GC2, GT1a, GT1b,
GT2a, GT2b e GT2c.
Não houve diferença estatística para L* quando
comparados os grupos GT1a, GT1b e GT1c (p>0.05). No
entanto, GT2c apresentou diferença estatística significativa
quando comparado aos grupos GT2a e GT2b (p<0.05) apesar de
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Efeito de peróxidos no clareamento dental
na leitura L5 a diferença entre GT2a e GT2c não ser detectada.
Quando comparados GT2a e GT2b a diferença estatística
não foi encontrada, o mesmo ocorrendo para as comparações
realizadas entre GT1a e GT2a, GT1b e GT2b, GT1c e GT2c, no
entanto, para a leitura imediatamente anterior (L5) foi detectada a
diferença significativa entre GT2a e GT2b (p<0.05).
Em relação ao parâmetro a* para as leituras iniciais e
após o processo de pigmentação (L1 e L2, respectivamente), os
valores aumentaram para os grupos GC2, GT2a, GT2b e GT2c.
Após a leitura final (L6), não houve diferença
estatística (p>0,05) entre os grupos GT1a, GT1b, GT1c,
GT2a, GT2b e GT2c, tanto para o parâmetro a*, quanto para
o parâmetro b* (Figuras 3 e 4).
Para o grupo GT2a, ∆E5 apresentou diferença
estatística significativa, quando se compararam aos deltas
∆E2, ∆E3, ∆E4 (Figura 5)
Para o grupo GT2b e GT2c, não houve diferença
estatisticamente significante, quando foram comparados os
deltas (∆E6, ∆E7, ∆E8, ∆E9) e (∆E10, ∆E11, ∆E12, ∆E13),
respectivamente.
Quando se comparam os deltas ∆E6, ∆E9 e ∆E13, podese verificar que ∆E13 apresenta diferença estatística significante
dos deltas ∆E5 e ∆E9. Entretanto, estes não apresentam diferença
estatística significante, quando comparados entre si (Figura 5).
Para os grupos que não foram escurecidos artificialmente, não foi encontrada nenhuma diferença estatística para os
deltas tanto quando comparados dentro do mesmo grupo, quanto
ao serem comparados entre si, nos diferentes grupos (p>0,05).
Figura 2. Comportamento do parâmetro L* para o terço médio durante a
leitura L6, nos grupos estudados.
Figura 3. Comportamento do parâmetro a* para o terço médio durante a
leitura L6 nos grupos estudados.
Quadro 1. Especificação dos grupos e as respectivas substâncias e marcas
comerciais utilizadas no estudo.
Figura 4. Comportamento do parâmetro b* para o terço médio durante a
leitura L6 nos grupos estudados
Figura 1. (a) Numeração radicular; (b) Espectrofotômetro Easyshade (Vita)
Figura 5. Comportamento do parâmetro ∆E para o terço médio dos grupos
escurecidos experimentalmente (GT2a, GT2b e GT2c).
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MD SAMPAIO et al.
DISCUSSÃO
Apesar das diferenças morfológicas e de espessura
entre as dentinas humana e bovina, autores afirmam que a
permeabilidade coronal dentinária para incisivos bovinos é
semelhante à humana12 e que não existem diferenças estatísticas
tanto para número de túbulos dentinários por milímetro quanto
para o diâmetro desses túbulos quando se compara a morfologia
da camada superficial da dentina de incisivos centrais bovinos
com a de dentes humanos decíduos e molares permanentes13.
Diante dos materiais encontrados no mercado
brasileiro e do grande número de pesquisas realizadas com
agentes clareadores de uso interno, o peróxido de carbamida
e o perborato de sódio associado a diferentes veículos: água
destilada e peróxido de hidrogênio a 35% têm sido utilizados
em diferentes estudos3-11,16-18.
Para simular a pigmentação de natureza intrínseca, os
estudos, em sua maioria, utilizam soluções de sangue humano
ou animal3,7,9,14,19. No entanto, as técnicas que reproduzem
a hemólise que ocorre como uma resposta fisiológica do
organismo a situações de sangramento interior a câmara pulpar
variam segundo alguns autores, embora todas elas objetivem
a sedimentação do pigmento enegrecido a partir da oxidação
da hemoglobina3,7,9,19. O método de escurecimento in vitro foi
utilizado porque ele simula a causa mais comum de escurecimento
dental16. Para tanto, este estudo realizou uma técnica simplificada
de pigmentação por sangue humano, descrita por Argolo15. A
eficácia desta técnica foi confirmada pela leitura L2 onde os
grupos GC2, GT2a, GT2b e GT2c apresentaram diferença
estatística significativa quando comparados aos demais.
Atualmente, existem diversos métodos para a
avaliação da cor dos dentes. As técnicas visuais medem a cor
através de comparações subjetivas, com o uso de escalas de
cor em resina acrílica ou cerômeros. Por outro lado, as técnicas
instrumentais são medidas objetivas obtidas por aparelhos
ou métodos automatizados, que variam desde programas de
computadores, fotografias digitais, passando por colorimetria
e espectrofotometria3,5,16,20-21. O uso do espectrofotômetro
Easyshade (VITA Zahnfabrik, Bad Säckingen, Alemanha)
é preciso e eficaz para a determinação de cor de unidades
dentárias e utiliza os parâmetros CIE Lab5,21. Neste sistema L*
indica a luminosidade, e seus valores podem ser numerados de
zero a 100, onde o zero é preto, 100 é branco e 50 corresponde
ao cinza. Os parâmetros a* e b* indicam a direção da cor, onde
os valores positivos de a* indicam a cor vermelha e os valores
positivos de b* indicam a cor amarela. Os valores negativos
de a* indicam cor verde e os valores negativos de b* indicam
cor azul. Os valores do centro não têm cor5,22.
Em relação ao parâmetro L*, os resultados após o
escurecimento dos espécimes apresentaram uma diminuição
dos valores médios de luminosidade para os grupos GC2,
GT2a, GT2b e GT2c, quando comparados com GC1, GT1a,
GT1b e GT1c. Este fato demonstra a eficácia da técnica de
escurecimento utilizada neste estudo15, concorda com os
resultados encontrados por Kaneko et al.7 e com a afirmativa
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de que cores com baixos valores de L* parecem ser mais
escuras23. Sendo assim, o grau de luminosidade (L*) parece ser
o fator mais importante na determinação da cor de um dente5.
Após a aplicação dos agentes clareadores, ocorreu
um aumento dos valores de L* e, consequentemente, da
luminosidade em todos os grupos, variando a sua intensidade
na dependência da substância utilizada. Esse comportamento
dos grupos testados concorda com os resultados encontrados
por Wiegand et al.12. No entanto, como era esperado, o grupocontrole GC2 não sofreu alterações para os valores de L*,
uma vez que não foi submetido à ação de agentes clareadores,
mantendo-se diferente, estatisticamente, de todos os grupos
testados.
Comparando-se o aumento da luminosidade com
eficácia do tratamento clareador, após as três sessões de
clareamento e período de espera, os grupos tratados por
perborato de sódio e perborato de sódio associado com
peróxido de hidrogênio 35% equivaleram-se estatisticamente.
Sendo assim, o perborato de sódio é eficaz no clareamento tanto
para dentes que sofreram escurecimento quanto para aqueles
isentos de manchamento por sangue, independentemente do
veículo: água ou peróxido de hidrogênio a 35%. Esses achados
corroboram com os resultados encontrados por Britto et al.3,
Kaneko et al.7 e por Oliveira et al.9 em suas pesquisas.
A ausência de significância estatística entre os grupos
que não sofreram pigmentação experimental é similar com os
resultados prévios encontrados em estudos de Kaneko et al.7
e Mokhilis et al.24 os quais afirmam que os agentes clareadores
testados neste estudo apresentam o mesmo desempenho
clínico.
As amostras tratadas por peróxido de carbamida
(GT1c e GT2c) obtiveram taxas de luminosidade inferiores
às dos demais agentes clareadores utilizados no experimento.
No entanto, isso não denota uma menor eficácia do peróxido
de carbamida quando comparado ao perborato e suas
associações, uma vez que GT1c apresentou valores de L*
equivalentes à luminosidade do grupo controle (GC1) e GT2c
superou esses valores após as três sessões de clareamento e
um período de espera de 7 dias.
Quando são comparados os três agentes clareadores
utilizados para este estudo, a alteração de comportamento
dos valores de L* para dentes pigmentados durante as duas
últimas leituras (L5 e L6) confirma o fato de que: após o
período de 7 dias sem a administração de agente clareador
no interior da câmara pulpar, existe uma alteração cromática
para a estabilização do quadro de clareamento dental do terço
médio.
Após este período, todos os grupos pigmentados
aumentaram os valores de L* gradativamente com diferença
estatisticamente significante para o grupo pigmentado e
tratado por perborato de sódio associado à água destilada.
Esses resultados contradizem achados da literatura os quais
afirmam não existir diferença estatística significante entre
grupos tratados por peróxido de carbamida e perborato
de sódio, independentemente do veículo em que ele foi
administrado9.
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Efeito de peróxidos no clareamento dental
Diante das alterações cromáticas ocorridas durante o
período de espera para os grupos GT2a, GT2b e GT2c, fica
evidente a importância deste tempo para a estabilização da
cor no processo de clareamento25-26.
As leituras referentes ao parâmetro a*, nos grupos
GC2, GT2a, GT2b e GT2c demonstram um aumento dos
níveis de vermelho (+a*) entre as leituras inicial (L1) e a leitura
após a pigmentação experimental (L2), evidenciando diferença
estatisticamente significativa entre os grupos que sofreram
pigmentação experimental e os que não sofreram qualquer
processo de manchamento. Após a administração dos agentes
clareadores específicos para cada grupo avaliado, os valores de
a*, em todos os grupos teste, tenderam ao verde (-a*) nas leituras
subseqüentes (L3, L4, L5 e L6). Esses resultados concordam
com os achados de Carvalho et al.5 e de Lima & Araújo23.
A semelhança estatística entre os seis grupos
testados indica que, para esse terço, o parâmetro a* não foi
o responsável pelas diferenças de desempenho dos agentes
clareadores utilizados neste estudo. Estes achados são
divergentes dos resultados de Lima & Araújo23, que atribuem
a alteração de cor como decorrente do processo clareador
com peróxido de hidrogênio a 35% aos parâmetros L* e a*.
O parâmetro b*, em todos os grupos, demonstra
valores médios compatíveis com a tonalidade amarela em
todas as seis leituras, não sendo registrado nenhum valor
negativo (azul). Esses resultados estão de acordo com aqueles
encontrados por Carvalho et al.5.
A definição numérica de percepção visual de
∆E é discordante entre pesquisadores22,27-29. Sendo assim,
estabeleceu-se, na presente pesquisa, como referencial
os valores para os quais se consideram diferenças de cor
perceptíveis, em condições clínicas, apenas quando o ΔE foi
maior que 3,0 unidades28.
A partir das leituras dos valores de L*, a* e b* dos
dentes hígidos e dos mesmos valores de L*, a* e b* das 40
unidades após o procedimento de pigmentação experimental,
foi possível caracterizar o delta ∆E1 como a diferença de
cor após manchamento caracterizando o grupo GC2, o que
serviu para comprovar a eficácia do método escolhido para
esta pesquisa15. Outros estudos também utilizam um delta
correspondente ao mesmo intervalo de leitura (antes e após
pigmentação dos espécimes), para assegurar que a alteração
cromática para a realização do estudo tenha sido eficaz5,7,14,23.
Dentre os grupos que sofreram escurecimento, os resultados demonstraram não haver diferença estatística entre
os deltas dentro dos grupos tratados por perborato de sódio
associado a peróxido de hidrogênio (GT2b) e por peróxido de
carbamida (GT2c). Para o grupo tratado por pasta de perborato
de sódio e água destilada (GT2a), houve significância estatística
apenas para ∆E5, quando comparado com os demais desse
mesmo grupo. Esses achados caracterizam um importante
efeito residual para essa associação e confrontam os achados da
literatura que afirmam uma sutil recaída de cor nos primeiros
dias, até que a cor do dente se estabilize30, e os resultados
que afirmam a não ocorrência de alterações cromáticas nas
unidades dentais clareadas, mesmo após 15 ou 30 dias5.
Quando são comparados os deltas referentes ao
período de efeito residual (∆E5, ∆E9 e ∆E13), o grupo que
utilizou peróxido de carbamida apresenta diferença estatística
significante e os demais grupos não diferem entre si. O
peróxido de carbamida apresenta desempenho clínico inferior
ao perborato de sódio associado à água ou ao peróxido de
hidrogênio a 35%, quando se avalia o efeito residual de cada
uma das substâncias estudadas. Esse baixo desempenho
durante o período de estabilização da cor pode ser explicado
pelo fato do peróxido de carbamida ser mais solúvel em
água quando comparado ao perborato de sódio, sendo mais
facilmente removido durante o procedimento de lavagem
durante as trocas do agente clareador e por isso podendo não
apresentar um efeito residual intenso26.
Para os dentes que não foram escurecidos
artificialmente, não foi encontrada nenhuma diferença
estatística para os deltas, tanto quando comparados dentro
do mesmo grupo, como quando comparados entre si nos
diferentes grupos (p>0,05). Isso significa que, para dentes
não pigmentados por sangue, os agentes clareadores
utilizados neste estudo apresentaram comportamento muito
semelhante, com valores de variação de cor muito próximos
entre si e, portanto, estatisticamente insignificantes9.
CONCLUSÃO
Para dentes escurecidos por sangue, o perborato de
sódio administrado em diferentes veículos apresenta efeito
clareador mais eficaz quando comparado ao peróxido de
carbamida a 37%, principalmente no que se refere ao efeito
residual da ação dos agentes clareadores.
O perborato de sódio e a associação entre este agente
e o peróxido de hidrogênio a 35% apresentam o mesmo
comportamento clareador dentário independente da presença
de pigmentação.
O período de espera após o clareamento é importante
para a estabilização da cor das unidades dentárias devido à
existência do efeito residual dos agentes clareadores utilizados
neste estudo.
Todos os três agentes clareadores estudados possuem
o mesmo efeito clareador para dentes não pigmentados.
Colaboradores
MD SAMPAIO idealizou a pesquisa bem como
executou toda a parte experimental estando presente em todas
as etapas necessárias à finalização do artigo. AP FREITAS
participou diretamente da concepção e desenho do estudo bem
como na análise de dados e interpretação dos resultados. RPC
ARAÚJO participou diretamente da concepção e desenho
do estudo bem como na análise de dados, interpretação dos
resultados e correção de toda a literatura que fora discutida.
RGO - Rev Gaúcha Odontol., Porto Alegre, v. 58, n. 3, p. 363-368, jul./set. 2010
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MD SAMPAIO et al.
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Recebido em: 8/5/2009
Versão final reapresentada em: 7/10/2009
Aprovado em: 15/10/2009
RGO - Rev Gaúcha Odontol., Porto Alegre, v. 58, n. 3, p. 363-368, jul./set. 2010
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Análise espectrofotométrica do clareamento dental interno