CADERNO ESPECIAL Defesa Civil em Sergipe O paradigma da priorização das ações de resposta aos desastres Alexandre Alves, Douglas Farias, Gilfran Marceliocopete e José Erivaldo Do SERGIPE A discussão sobre a priorização das ações de resposta aos desastres por parte dos gestores da Defesa Civil pretende apontar neste artigo alguns fatores que limitam as ações de prevenção e preparação aos desastres. Aproveitando o momento de reavaliação do Sistema Nacional de Defesa Civil (SINDEC), são apresentados os avanços e limitações da Defesa Civil Estadual na construção Com Ciência Ambiental 76 da política atual, ressaltando a importância da pesquisa científica e da participação social no processo de reorganização do SINDEC. Por fim, sugere-se a criação de um quadro permanente de Defesa Civil, como medida essencial à efetivação de um planejamento a longo prazo, minimizando os problemas que impedem a maioria dos projetos de prevenção e preparação aos desastres. Com Ciência Ambiental 77 Este artigo busca, de maneira simplificada, apresentar as experiências vivenciadas na condução dos trabalhos da Coordenadoria Especial de Defesa Civil de Sergipe (CEDEC-SE), destacando ações e iniciativas que objetivaram a otimização dos recursos em diferentes momentos da história da Defesa Civil sergipana. Vislumbrando a possibilidade de coincidência entre as dificuldades enfrentadas por Sergipe e por outros estados da federação para a implementação da atual política nacional de defesa civil, pretende-se com este debate tornar público alguns dados que poderão despertar a curiosidade e revelar a necessidade da realização de novos estudos sobre as limitações da atual política. Aproveitando o momento de reava- liação do Sistema Nacional de Defesa Civil, o artigo destaca alguns fatores que costumam conduzir os gestores a priorizarem a atuação na fase de resposta aos desastres. Além disso, busca-se eleger, dentro da discussão sugerida, a pesquisa científica como sendo a principal forma de embasamento para implementação das políticas de defesa civil. Por fim, por meio da exposição do atual quadro de pessoal do órgão e das dificuldades de execução de planejamentos, a longo prazo, envolvendo os trabalhos de prevenção e preparação aos desastres, sugere-se o estudo da composição de um quadro permanente de gestores e agentes de defesa civil que possa garantir a continuidade de projetos que surgem e tendem a morrer com a renovação dos quadros. Sergipe no contexto da Defesa Civil Os textos que fazem referência às origens da Defesa Civil como instituição organizada surgem ligados à necessidade da atuação na fase de resposta aos desastres. Durante a Primeira e a Segunda Grande Guerra, a necessidade de coordenação e proteção das comunidades civis passa a exigir medidas emergenciais de Com Ciência Ambiental 78 orientação sobre proteção contra ataques aéreos. Dessa forma, começam a aparecer, em países como a Inglaterra e os Estados Unidos, os primeiros órgãos de Defesa Civil. No Brasil,em 1942, é criado o serviço de defesa passiva antiaérea, ligado ao Ministério da Aeronáutica, recebendo, a partir de 1946, a denominação de Serviço de Defesa Civil, subordinado ao Ministério da Justiça (CEDEC-MG, 1980). Embora ações públicas de atendimento emergencial sejam bem mais antigas no Brasil e no mundo, a denominação como ações de defesa civil é contemporânea deste contexto. Passada a fase de resposta aos desastres após a 2ª Guerra, as atividades de organização de um Sistema Nacional de Defesa Civil são colocadas em segundo plano. Apenas em 1967 a importância do tema volta a ser reconhecida, quando o texto constitucional define como competência da União a organização da Defesa Permanente Contra as Calamidades Públicas, especialmente as secas e as inundações (CEDEC –MG 1980). Mais uma vez, as atividades da defesa civil destacam a necessidade de atuação na fase de resposta aos desastres, pois em casos de calamidades a atuação passa a ser emergencial. Apesar do destaque às ações de resposta, o tema Defesa Civil passa a ter uma abrangência maior, extrapolando a necessidade de atuação em tempos de guerra e passando a tratar de problemas cíclicos e com tempo de recorrência mais curto. A ocupação urbana, o saneamento básico, as questões de saúde comunitária e os conceitos de segurança global da população são inseridos nas ações de Defesa Civil. Em 1972, surge em Sergipe a Comissão de Defesa Civil, criada em caráter permanente, estabelecida pelo decreto 2.204, de 24 de janeiro de 1972, sendo composta por secretários de Estado e coordenada pelo secretário extraordinário para assuntos da Casa Civil. A partir daí, o órgão sofreu várias modificações na composição dos membros e em sua denominação, estando hoje ligado à Secretaria de Estado da Inclusão, Assistência e do Desenvolvimento Social e com a denominação de Coordenadoria Especial de Defesa Civil (CODEC).1 De fato, as ações organizadas de combate à seca são bem anteriores à organização do sistema de Defesa Civil. A criação do Instituto de Obras contra as secas, no governo de Nilo Peçanha, em 1909, e registros bem anteriores de ações emergenciais contra a seca, referentes ao período de Dom Pedro II, podem ser citados como exemplos de iniciativas do poder público em ações de minimização dos efeitos da estiagem no sertão nordestino. Sob esse aspecto, a Defesa Civil surge em Sergipe como novo órgão de resposta contra a seca, concentrando mais uma vez a atuação nas ações de minimização dos desastres. Não se pode, no entanto, deixar de destacar os avanços na ampliação da rede de distribuição de água potável, além dos programas de construção de cisternas que têm amenizado o sofri- PERCEBENDO RISCOS, REDUZINDO PERDAS Introdução CADERNO CADERNO ESPECIAL Civil Estadual uma atuação de identificação, avaliação e desocupação das áreas de risco, principalmente nos municípios sem coordenadoria de Defesa Civil. Além disso, a ocupação permanente do setor de engenharia, atendendo às solicitações para realização de vistorias e análise de estruturas de prédios públicos e privados quanto aos critérios de prevenção de desastres, ocupam o departamento, impossibilitando ou dificultando a orientação das vistorias que deveriam ser realizadas pelas coordenadorias municipais.2 A reconstrução da Política Nacional de Defesa Civil Apesar dos avanços na construção de uma Política Nacional de Defesa Civil e do esforço, sobretudo teórico, em priorizar as ações de prevenção e preparação para os desastres, é necessário admitir que continuamos concentrando os esforços na fase de resposta aos desastres. Aquilo que é denominado, no discurso de ente público, como um desastre, permite à Defesa Civil exercer plenamente “a cereja” da sua missão institucional, ainda focada preponderantemente na resposta e não na prevenção e preparação. Trata-se de coordenar as forças sociais, sejam elas públicas, Com Ciência Ambiental 80 comunitárias, civis ou militares (VALENCIO, 2009, p.17). No entanto, a solução ao problema não é tão simples quanto a sua identificação. É comum em órgãos que atuam na fase de resposta, bem distante do entendido como ideal, que as atuações emergenciais acabem comprometendo as atividades de prevenção e preparação, não sendo prazeroso tampouco confortável para gestores públicos estarem permanentemente estancando as feridas que se abrem a todo o momento, fazendo sofrer principalmente as camadas mais carentes da população. Em pesquisa realizada em municípios sergipanos, pode-se perceber que a importância da prevenção na percepção dos conceitos de defesa civil é bem comum entre prefeitos, coordenadores municipais e outros gestores públicos, no entanto, a maioria admite que tem concentrado a atuação na fase de resposta aos desastres (SILVA, 2008). Diante deste paradoxo de priorização, o equacionamento entre as questões tecnicamente necessárias e os recursos administrativos disponíveis nos aparelhos do Estado desafia os gestores públicos e ultrapassa as limitações de ideologias partidárias, de representatividade civil ou militar, ou ainda da área acadêmica de formação do gestor público. Reconhecendo a importância da discussão sobre o Sistema Nacional de Defesa Civil, a Secretaria Nacional, por meio da realização da I Conferência Nacional de Defesa Civil, busca promover a participação da sociedade no processo de reconstrução da Política Nacional de prevenção e assistência aos desastres, aproveitando a multidisciplinaridade dos representantes da sociedade para a proposição de novas ideias e projetos que reconstruam a política atual. Para tanto, é fundamental fortalecer a discussão sobre o que já existe e divulgar o que tem sido feito ao longo dos anos, apontando os avanços e limitações dos trabalhos desenvolvidos e evitando o arrombamento de portas destrancadas. É importante lembrar a observação de Freire (2007, p. 28), que sendo “histórico como nós, o nosso conhecimento do mundo tem historicidade. Ao ser produzido o conhecimento novo supera outro que antes foi novo e se fez velho e se dispõe a ser ultrapassado por outro amanhã”, ressaltando o entendimento de que as sugestões de ampliação das pesquisas na área acadêmica tornam-se condição essencial à reformulação do sistema. Assim, os estudos das estruturas de Defesa Civil e o gerenciamento de desastres não podem e não devem estar restritos aos currículos acadêmicos militares, pois acabam reduzindo as possibilidades de contribuição multidisciplinar para o tema. Estando disposta a promover a multidisciplinaridade da temática, a Defesa Civil Estadual tem convidado os centros de pesquisa e as universidades a assumirem a importância do tema, incluindo a discussão do assunto nos currículos acadêmicos e fomentando as pesquisas necessárias para reformulação das políticas de Defesa Civil. No entanto, o volume de pesquisas e produções científicas no estado de Sergipe ainda é muito pequeno. PERCEBENDO RISCOS, REDUZINDO PERDAS mento e os efeitos da seca em Sergipe. Porém, a ainda deficiente estrutura hídrica para o armazenamento de água da chuva tem provocado a decretação recorrente de situação de emergência em vários municípios do sertão sergipano. E ainda hoje o problema da estiagem ocupa boa parte das ações de Defesa Civil em Sergipe. Passado o período de seca, os problemas de inundação que atingem os principais centros urbanos do estado, associados aos de ocupação urbana em aéreas de riscos, acabam requerendo da Defesa CADERNO CADERNO ESPECIAL A Defesa Civil em Sergipe tem buscado acompanhar os avanços do sistema Nacional de Defesa Civil. A promoção de cursos e o incentivo à criação de Coordenadorias Municipais de Defesa Civil (COMDEC) e de Núcleos de Defesa Civil (NUDEC) sempre foram estabelecidos como meta da coordenadoria estadual. Um dos primeiros registros das tentativas de avanços foi a criação, em 1988, da Divisão de Engenharia e Transporte, Assistência e de Estatística3. A percepção da importância da organização e o estudo dos dados indicadores das ações e problemas relacionados à Defesa Civil demonstravam que os gestores da coordenadoria sabiam o que era necessário ser feito para a melhoria dos trabalhos, porém, a inexistência de quadros específicos e permanentes de funcionários impedia o prosseguimento dos trabalhos e comprometia o sucesso de um planejamento de longo prazo. E mais uma vez o apoio e a atenção aos trabalhos de Defesa Civil acabavam por priorizar a resposta aos desastres. Na década de 1990, a relevância dos temas ligados à preservação ambiental e às mudanças climáticas fortaleceu a importância das ações da defesa civil e ampliaram a visibilidade da instituição, abrindo as portas para a discussão em diversas áreas do conhecimento. A partir da reorganização das Ações de Defesa Civil com o decreto federal 5.376, de 17 de fevereiro de 2005, a necessidade de descentralização e o estabelecimento de atribuições específicas aos diferentes níveis de atuação dos órgãos deram novos estímulos às coordenadorias estaduais, visando promover a implementação das COMDECs. A partir de 2006, conforme o gráfico abaixo, cresceu o número de Coordenadorias Municipais em Sergipe. Em pesquisa realizada nos municípios sergipanos, Silva (2008) revela que diversos municípios sem coordenadoria municipal alegaram ser a falta de conhecimento sobre o Sindec o principal motivo da inexistência da COMDEC. Após a detecção do problema, a coordenadoria estadual visitou em 2009 todos os municípios sem coordenadoria de Defesa Civil, apresentando aos chefes do poder executivo e legislativo a importância e a forma de criação de uma COMDEC. Os trabalhos apresentaram bons resultados, uma vez que triplicou o número de criação de coordenadorias municipais. Também em 2009, pela primeira vez no estado, foi possível contabilizar, por meio do serviço de plantão da coordenadoria estadual, grande parte das ocorrências relacionadas às chuvas. Os resultados eram disponibilizados diariamente no site da Defesa Civil Estadual e alimentavam também os dados da Secretária Nacional da Defesa Civil. Apesar do esforço na conciliação entre as atividades de prevenção, preparação, resposta e reconstrução, um dos maiores problemas continua referindo-se à inexistência de quadros específicos e permanentes na CEDEC, conforme se vê no quadro atual da coordenadoria estadual: Coordenador Estadual Secretário Executivo Gerência de Planejamento Gerência Técnica Gerência de Engenharia 1 Coordenador * ------------------------------------ 1 Secretário Executivo * ------------------------------------ 1 Gerente * 1 oficial administrativo 1 Gerente * 1 oficial administrativo 1 Gerente (engenheiro) * 2 oficiais administrativos Gerência Operacional 1 Gerente. * 1 Chefe* Gabinete 3 oficiais administrativos, 2 motoristas 3 oficiais administrativos, 1 cargo comissionado * Funcionários requisitados de outros órgãos, exercendo cargos comissionados. Figura 2: Quadro de funcionários da Defesa Civil. Fonte: CEDEC-SE Figura1: Crescimento das Coordenadorias Municipais em Sergipe. Fonte: CEDEC-SE Com Ciência Ambiental 82 PERCEBENDO RISCOS, REDUZINDO PERDAS Avanços e limitações CADERNO CIÊNCIA NA CADERNO ESPECIAL AMAZÔNIA e 3) Ver histórico da Defesa Civil de Sergipe no site www.defesacivil.se.gov.br 1 2) Atribuições da Coordenadoria Municipal de Defesa Civil de acordo com o decreto 5.376, de 17/2/2005 REFERÊNCIAS O grande número de funcionários requisitados e a inexistência legal de um quadro específico para as funções de gerenciamento técnico, aliados à fragilidade ou inexistência de leis específicas que regulamentem as atividades de defesa civil, podem ser citados como pontos que potencializam a fragilidade da política nacional de Defesa Civil. Diante desse desafio, a administração atual está desenvolvendo um projeto de lei que regulamenta as atividades estaduais de defesa civil e propõe a realização de concurso público para ocupação dos quadros. A criação de uma lei de organização básica com o estabelecimento das funções e da formação necessária aos gestores, técnicos e agentes de defesa civil é apresentada como proposta de solução, embora reconheçamos a necessidade de ampliar a discussão sobre quais funções poderiam compor o modelo para a formação de um quadro básico para as coordenadorias estaduais em nível nacional. O entendimento sobre a necessidade de priorização da atuação da Defesa Civil nas fases de prevenção e preparação aos desastres parece Com Ciência Ambiental 84 alcançar a maior parte dos gestores. No entanto, as limitações estruturais dos órgãos em nível municipal e estadual têm obrigado a maioria deles a concentrar boa parte dos trabalhos em ações de resposta. Além disso, a discussão do tema e a divulgação dos trabalhos de Defesa Civil ganham grande repercussão nos momentos de desastres, o que acaba camuflando os esforços e os trabalhos no período de normalidade. Sob esta perspectiva, a ampliação da discussão popular e científica do tema aparenta ser o principal meio de convencimento sobre a necessidade de construção de uma estrutura permanente de Defesa Civil. Por fim, as reflexões sobre a reconstrução da Política Nacional precisam reconhecer as experiências históricas de todos os trabalhos de Defesa Civil realizados até o momento e avaliar criteriosamente os fatores que limitaram a efetivação da política atual. Um bom planejamento precisa conhecer os recursos disponíveis e esta parece ter sido uma excelente oportunidade para continuarmos a discussão e estabelecermos um novo ponto de partida. BEZERRA, Sérgio José; LOPES, Daniela da Cunha. Sistema Nacional de Defesa Civil. Disponível em http://www. assistenciahumanitaria.mre.gov.br/documentos/exto%20sobre%20 SINDEC.pdf. Acesso em 25/02/2008. BRASIL. Decreto nº 5.376, de 17 de fevereiro de 2005. 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Douglas Farias de Morais, Capitão do Corpo de Bombeiros Militar de Sergipe, exerce a função de Chefe de Gabinete da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil em Sergipe. É graduado em Engenharia Contra Incêndio e Pânico pela Academia de Bombeiro Militar do Distrito Federal, em parceria com a Universidade de Brasília (2003). Tem Licenciatura Plena em Matemática pela Universidade Federal de Sergipe (2005) e pós-graduação em Gestão e Tecnologia Educacional pela Polícia Militar da Paraíba. Gilfran Marceliocopete Santos Mateus é Major do Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Sergipe, formado em 1997 na Academia de Bombeiro Militar do Distrito Federal, atualmente exerce a função de Secretário Executivo da Coordenadoria Especial de Defesa Civil de Sergipe. É pós-graduado em Engenharia de Segurança do Trabalho pela FANESE (2006) e possui o Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais pelo Centro de Altos Estudos e Comando do Estado Maior do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (2004). E-mail: [email protected] Telefone (79) 3179-3760. José Erivaldo Mendes, Major do Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Sergipe, exerce a função de Coordenador Estadual de Defesa Civil. É formado em Gestão de Riscos Coletivos (2002) pela Universidade Estadual do Pará (UEPA), em parceria com o Instituto de Ensino de Segurança Publica do Pará (IESP). Tem curso de Aperfeiçoamento de Oficiais pela Academia Senador Arnon de Melo da Polícia Militar de Alagoas com Especialização em Defesa Civil (2006), Curso de Perícia de Incêndio e Explosões - CBMDF (2001), graduando em Administração pela Universidade Federal de Sergipe. E-mail: [email protected] Telefone (79) 3179-3760 PERCEBENDO RISCOS, REDUZINDO PERDAS Algumas considerações CADERNO CIÊNCIA NA CADERNO ESPECIAL AMAZÔNIA