Oferta | Capítulo 3 Caixa 3.1. A evolução da desigualdade salarial, 1982-2006 A desigualdade salarial no sector privado é elevada em Portugal e aumentou durante as últimas duas décadas e meia (ver Centeno e Novo (2009) para uma análise mais detalhada). O período entre 1982 e 1996 testemunhou um forte aumento na desigualdade em ambos os extremos da distribuição de salários e em todos os grupos etários e níveis de qualificações. Isto explica-se por uma tendência crescente de procura de trabalho qualificado, num contexto de oferta limitada de tais qualificações. A situação mudou substancialmente desde 1996, com a desigualdade a crescer a um ritmo muito mais lento em ambos os extremos da distribuição de salários e com polarização da distribuição de salários. A polarização é caracterizada por uma redução da procura de qualificações intermédias relativamente quer às qualificações inferiores, quer às qualificações mais elevadas. Com a polarização, os salários relativos e das ocupações de baixas e altas qualificações aumentaram (bem como o respectivo peso no emprego), o que ajuda a explicar o aumento na desigualdade salarial na aba superior e a redução na aba inferior da distribuição de salários. No entanto, o forte aumento da oferta de trabalho qualificado (visível no aumento do número de licenciados), que não teve correspondência equivalente no aumento da procura, explica o menor aumento da desigualdade na aba superior. A desigualdade no sector público é superior à do sector privado e, entre 1996 a 2005, teve uma evolução diferente, a desigualdade na aba esquerda diminuiu no sector privado e aumentou no sector público. Em termos de comparações internacionais, o nível de desigualdade na aba superior da distribuição de salários no sector privado em Portugal é quase o dobro do observado para a Alemanha (Schonberg, Dustmann e Ludsteck, (2009)). Relativamente aos Estados Unidos, Portugal começa com um nível mais baixo de desigualdade salarial em 1982, mas chega a 2006 com um nível mais elevado (Autor, Katz e Kearney, (2008)). Por seu turno, os níveis de desigualdade na aba inferior da distribuição de salários em Portugal situam-se entre os níveis mais elevados dos Estados Unidos e os mais baixos da Alemanha. Dados Os dados abrangem todos os trabalhadores assalariados do sector público e privado e são provenientes dos: (i) Quadros de Pessoal, (1982-2006), que cobrem quase censitariamente o emprego no sector privado; (ii) registos da Segurança Social, (2000-2007) e (iii) Base de Dados da Administração Pública, (1996, 1999 e 2005). Os Quadros de Pessoal incluem informação sobre trabalhadores assalariados, em Outubro de cada ano. Os dados da Segurança Social incluem todos os empregos ao longo do ano, incluindo os períodos mais curtos de emprego, que são mais comuns na parte inferior da distribuição salarial. O número de trabalhadores assalariados é de cerca de 3 milhões por ano. A Base de Dados da Administração Pública abrange todos os funcionários públicos que trabalhavam em Dezembro de cada um dos anos de referência. A cobertura da administração local e regional não é homogénea nos diferentes censos da administração pública. Por esta razão, nos cálculos apenas é considerada a administração central, cobrindo cerca de meio milhão de indivíduos (cerca de 75 por cento do número total de funcionários públicos). Todos os salários são deflacionados usando o Índice de Preços no Consumidor. Medidas de desigualdade A literatura sobre desigualdade salarial sugere inúmeras medidas de desigualdade, as quais procuram avaliar o grau de dispersão da distribuição dos salários. Esta caixa considera três medidas: o desvio padrão dos salários (logarítmicos), a diferença logarítmica entre o percentil 90 e o percentil 50 da distribuição dos salários, referido como desigualdade da aba superior/direita, e a diferença logarítmica entre o percentil 50 e o percentil 10 para medir a desigualdade da aba inferior/esquerda. A escolha das diferenças logarítmicas (pontos-log) é conveniente porque aproxima variações percentuais. Relatório Anual 2008 | Banco de Portugal 111 Capítulo 3 | Oferta Desigualdade salarial no sector privado Independentemente da medida utilizada, a desigualdade (não condicional) do sector privado aumentou continuamente durante todo o período, se bem que a ritmos diferentes. Por exemplo, o desvio padrão da distribuição dos salários masculinos aumentou 41 por cento de 1982 a 1996 e 6 por cento de 1996 a 2006; é clara a diminuição do crescimento da desigualdade no último período. Os Gráficos 1 e 2 apresentam as medidas de desigualdade na aba superior e inferior, respectivamente. O aumento da desigualdade é inequívoco. Este aumento é, no entanto, mais forte, na aba superior da distribuição (90/50) durante o primeiro período. Isto pode ser explicado pelo lento aumento da oferta de trabalho qualificado em conjugação com mudanças significativas na procura de qualificações. Gráfico 1 Gráfico 2 DESIGUALDADE SALARIAL NA ABA SUPERIOR DESIGUALDADE SALARIAL NA ABA INFERIOR Sector Privado, 1982-2006 Sector Privado, 1982-2006 0.45 0.85 Rácio dos percentis 50/10, em logarítmos Rácio dos percentis 90/50, em logarítmos 0.9 0.8 0.75 0.7 0.65 0.6 0.55 0.5 0.4 0.35 0.3 0.45 0.4 0.25 1982 1985 1988 1992 1995 Ano 1998 2002 2005 Fontes: MTSS (Quadros de Pessoal) e Centeno e Novo (2009). 1982 1985 1988 1992 1995 Ano 1998 2002 2005 Fontes: MTSS (Quadros de Pessoal) e Centeno e Novo (2009). O aumento relativo da procura de trabalho qualificado (skill-biased technological change), comum à maioria das economias desenvolvidas, é uma boa explicação para o aumento do prémio salarial dos licenciados em Portugal até meados dos anos 90. A partir desse momento, verifica-se um forte aumento na oferta de qualificações (os licenciados passam de um peso de 3 por cento no total de emprego assalariado em 1982 para 13 por cento em 2006 (Quadro 1, painel da direita)), o que levou a um aumento mais lento da desigualdade na parte superior da distribuição (o rácio 90/50 passa de 0.78 para 1.08 de 1982 para 1995 e para 1.38 em 2006, aumentando proporcionalmente menos no último período). No Quadro 1 (painel da esquerda) é também visível que a desigualdade salarial aumenta com o nível de qualificações. A desigualdade aumentou em ambos os extremos da distribuição dos salários entre 1982 e 1995 para todos os níveis de qualificações, com excepção do rácio 50/10 para trabalhadores com qualificações intermédias. De 1995 a 2006, a desigualdade da aba inferior da distribuição de salários diminuiu significativamente para todos os níveis de qualificações, enquanto a desigualdade da aba superior estabilizou, com excepção do grupo com elevadas qualificações, onde houve um aumento da desigualdade. Uma análise mais detalhada mostra que o prémio salarial dos licenciados diminui entre 1995 e 2006 para o grupo dos trabalhadores mais jovens, aqueles que nasceram desde o final dos anos 60, e onde mais cresceu a oferta de trabalhadores com níveis de educação mais elevados. 112 Banco de Portugal | Relatório Anual 2008 Oferta | Capítulo 3 Quadro 1 DESIGUALDADE SALARIAL POR GRUPOS DE NÍVEIS DE QUALIFICAÇÃO E RESPECTIVA PROPORÇÃO DO EMPREGO Rácio dos Desigualdade salarial por grupo Proporção do emprego privado percentis dos salários (log) 1982 1995 2006 1982 1995 2006 Qualificações baixas 50/10 90/50 0.33 0.45 0.36 0.64 0.27 0.66 69% 44% 24% Qualificações intermédias 50/10 90/50 0.55 0.72 0.53 1.10 0.40 1.05 29% 51% 64% Qualificações elevadas 50/10 90/50 0.85 0.78 1.19 1.08 1.00 1.38 3% 5% 13% Fontes: MTSS (Quadros de Pessoal), Centeno e Novo (2009). Notas: “Qualificações baixas” – menos de 9 anos de escolaridade; “Qualificações intermédias” – 9 a 12 anos de escolaridade; “Qualificações elevadas” – Licenciatura ou nível mais elevado. A evolução da desigualdade na aba inferior da distribuição salarial é mais dicotómica entre períodos, um aumento na desigualdade 50/10 no primeiro período, em particular entre 1987 e 1995, seguido por uma redução no período 1996-2006, mais acentuada até 2002. Desde o final dos anos 90, a polarização do trabalho, que favorece empregos de baixas qualificações, e as revisões significativas do salário mínimo podem ter contribuído para a compressão da desigualdade na aba inferior da distribuição de salários. Desigualdade salarial no sector público O sector público (considerando apenas a administração central) apresenta elevados níveis de desigualdade na aba inferior da distribuição de salários. Após controlar para as características produtivas, designadamente no nível de educação e experiência, a desigualdade (condicional) da aba inferior situa-se em torno 0.5 pontos-log para os homens e 0.4 para as mulheres, valores superiores aos do sector privado, que se situam respectivamente em torno 0.3 e 0.2 pontos-log. A desigualdade na aba superior é maior no sector privado, em torno de 0.8 pontos-log, do que no sector público, 0.4 pontos-log, quer para homens, quer para mulheres. Entre 1996 e 2005, a evolução da desigualdade (condicional) salarial dos homens no sector público é dicotómica nas duas abas da distribuição, tendo crescido na aba inferior e diminuído na aba superior (Quadro 2). Pelo contrá- Quadro 2 VARIAÇÃO NA DESIGUALDADE SALARIAL (CONDICIONAL) 1996-2005 Rácio de Homens Mulheres percentis Sector privado 50/10 90/50 0.0 8.8 4.6 3.8 Sector público 50/10 90/50 7.7 -8.8 -1.3 -1.3 Fontes: MTSS (Quadros de Pessoal), Centeno e Novo (2009) e ase de Dados da dministração P blica. Notas: Desigualdade condicional no nível de educação e experiência. Centeno e Novo (2009). Relatório Anual 2008 | Banco de Portugal 113 Capítulo 3 | Oferta rio, no sector privado a desigualdade aumenta apenas na aba superior, mantendo-se inalterada nos salários mais baixos. O nível e a evolução da desigualdade no sector público, um dos sectores mais sindicalizados, contrastam com a evidência existente para o papel dos sindicatos na compressão salarial noutros países. De facto, Schönberg, Dustmann, e Ludsteck (2009) reportam que para a Alemanha os sindicatos contribuem para a redução da desigualdade salarial na aba inferior da distribuição. Desigualdade salarial e a estabilidade no emprego Os dados dos Quadros de Pessoal tendem a sobre-representar o emprego de maior duração, ou seja, os empregos mais estáveis. A natureza dos dados da Segurança Social suprime esta limitação já que são registados todos os empregos ao longo do ano. Desta forma, estes dados permitem calcular indicadores de desigualdade salarial para os rendimentos anuais. Para o período 2000-2006, os dados Segurança Social registam maiores níveis de desigualdade do que os dados dos Quadros de Pessoal. O indicador de desigualdade da aba superior é apenas ligeiramente mais elevado (6 pontos-log), mas os resultados para a desigualdade da aba inferior da distribuição são mais marcantes. Nos dados da Segurança Social, o rácio 50/10 ultrapassa, em média, em 10 pontos-log o rácio obtidos nos Quadros de Pessoal (0.45 vs 0.35). Este comportamento está associado a uma maior prevalência de curtos períodos de emprego, com intervalos de não-emprego frequentes para pessoas com salários baixos, e também com o facto de os trabalhadores mais educados tenderem a ter mais empregos e a trabalhar mais horas (ver Centeno, Machado e Novo, (2008)). REFERÊNCIAS Centeno, M., C. Machado e A. Novo, (2008), “A anatomia do crescimento do emprego nas empresas portuguesas”, Boletim Económico, Verão, Banco de Portugal, 69-95. Centeno, M. e A. Novo, (2009), “When supply meets demand: Wage inequality in Portugal”, mimeo, Banco de Portugal. Schönberg, U., C. Dustmann, e J. Ludsteck (2009), “Revisiting the German wage structure”, Quarterly Journal of Economics, forthcoming. 114 Banco de Portugal | Relatório Anual 2008