PRÓ-REITORIA DE GRADUAÇÃO TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO Enfermagem O USO TERAPÊUTICO DO HUMOR EM CRIANÇAS HOSPITALIZADAS Autoras: Alyne da Silva Wladiane Almeida Raulino ALYNE DA SILVA WLADIANE ALMEIDA RAULINO Orientadora:Profª Msc. Leila Bernarda Donato Gottems ALYNE DA SILVA WLADIANE ALMEIDA RAULINO O USO TERAPÊUTICO DO HUMOR EM CRIANÇAS HOSPITALIZADAS Monografia apresentada ao curso de graduação em Enfermagem da Universidade Católica de Brasília como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Enfermagem. Orientadora: Profª Drª Msc. Leila Bernarda Donato Gottems Brasília 2009 A Deus sem o qual esse trabalho não seria possível. Te louvamos por ter nos ajudado a prosseguir mesmo quando as barreiras pareciam intransponíveis. Aos nossos pais por todo amor, apoio e dedicação, imprescindíveis para a realização deste sonho. Aos irmãos, demais parentes e amigos pelo incentivo. Ao meu namorado Igor, por toda paciência, amor e compreensão. As queridas amigas Poliana e Polliane que foram inseparáveis nessa caminhada. Aos professores do curso de enfermagem da Universidade Católica de Brasília que contribuíram significativamente para o nosso crescimento profissional. Ao grupo Doutores do Sorriso e às crianças visitadas que nos permitiram perceber que um simples sorriso pode modificar uma vida. AGRADECIMENTO À professora e orientadora Leila Bernarda Donato Gottems pelos expressivos ensinamentos que nos foram repassados. Gratas pela paciência e motivação. À enfermeira Renilda Oliveira Matos Fernandes pela simpatia e disposição em contribuir com esse trabalho. “O coração alegre é um bom remédio”. Pv 17: 22a RESUMO SILVA, A.; RAULINO, W.A. O uso terapêutico do humor em crianças hospitalizadas. 2009. 46 fls. Enfermagem – Universidade Católica de Brasília; Brasília- DF, 2009. A hospitalização acarreta diversos prejuízos que comprometem a saúde da criança, dentre eles o medo e a privação de suas atividades diárias (como o brincar). Numa perspectiva de mudar esse quadro, surge o trabalho de palhaços em hospitais que com a utilização do humor auxiliam na recuperação da criança. Essa prática vem se espalhando por todo o mundo através de grupos que tem o intuito de ajudar a “curar”. É comprovado cientificamente que o riso traz vários benefícios para a saúde do ser humano e notado que é uma eficaz terapia para ajudar a lidar com a doença. O humor é um forte aliado na busca pela humanização do ambiente hospitalar onde todos são contagiados (pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde). Transforma o meio e o ser. Integrá-lo à política de Práticas Integrativas Complementares do Sistema Único de Saúde e aos currículos dos cursos de enfermagem seria um grande avanço e certamente contribuiria significativamente para a saúde pública, fortalecendo o cuidado. Esse é um estudo qualitativo baseado em pesquisa teórico-empírica com o objetivo de avaliar os efeitos terapêuticos do humor em crianças hospitalizadas. Os resultados apontam para um consenso entre pesquisadores, profissionais, familiares e crianças de que a risoterapia é uma prática importante para aliviar o sofrimento de todos. Palavras-chave: Humor. Terapia do Riso. Criança hospitalizada. Enfermagem pediátrica. Riso. ABSTRACT SILVA, A.; RAULINO, W. A. The therapeutic use of humor on hospitalized children. 2009. 46 fls. Nursing – University of Brasilia, Brasilia – DF, 2009. The hospital carries many losses that threaten health of children, among them fear and deprivation of their daily activities (like playing). Changing the situation appears the work of clowns in hospitals that use the humor to help recovering the child. This practice is spreading throughout the world through groups that have the aim of help to “cure”. It is scientifically proven that laughter has many benefits for the health of humans and noted that it is an effective therapy to help deal with the disease. Humor is a strong ally in the referring to humanization of the hospital where all are contagious (patients, health professionals and associates). It transforms the environment and the being. Integrate it to the policy of Integrative Practice Committee of the Unified Health System and the curriculum of courses in nursing would be a great advance and certainly contribute significantly to public health, strengthening the care. This is a qualitative study based on theoretical and empirical research to evaluate the therapeutic effects of humor on hospitalized children. The results indicate a consensus among researchers, professionals, families and children that laugh therapy is an important practice to alleviate the suffering of all. Keywords: Sense of humor. Therapy of Laughter. Hospitalized children. Pediatric nursing. Laughter. SUMÁRIO 1 I N T R O D U Ç Ã O E J U S T I F I C A T I V A .................................................................... 8 2 OBJETIVOS ........................................................................................................................ 11 2.1 OBJETIVO GERAL ................................................................................................................................... 11 2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ...................................................................................................................... 11 3 REFERENCIAL TEÓRICO ............................................................................................. 12 3.1 ORIGEM E HISTÓRIA DA RISOTERAPIA ............................................................................................. 12 3.2 O HUMOR E A HOSPITALIZAÇÃO DA CRIANÇA ............................................................................. 13 3.3 O HUMOR COMO PRÁTICA DE ENFERMAGEM ................................................................................. 16 3.4 O SORRISO E O SER HUMANO .............................................................................................................. 18 3.5 A RISOTERAPIA E AS PRÁTICAS INTEGRATIVAS EM SAÚDE ....................................................... 21 4 M E T O D O L O G I A ......................................................................................................... 23 4.1 TIPO DE PESQUISA.................................................................................................................................. 23 4.2 SUJEITOS DA PESQUISA ........................................................................................................................ 24 4.2.1 Critérios de inclusão ........................................................................................................................... 24 4.2.2 Critérios de exclusão .......................................................................................................................... 24 4.3 LOCAL DE REALIZAÇÃO DA PESQUISA............................................................................................. 25 4.4 INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS ............................................................................................. 25 5 ANÁLISE DOS DADOS ..................................................................................................... 26 5.1 INSTRUMENTOS E ESTRATÉGIAS DE APLICAÇÃO ........................................................................ 27 5.2 FATORES FACILITADORES E DIFICULTADORES DO TRABALHO DE CAMPO ......................... 27 5.3 ASPECTOS ÉTICOS ................................................................................................................................. 28 6 A P R E S E N T A Ç Ã O E A N Á L I S E D O S R E S U L T A D O S ............................... 29 6.1 SENTIMENTO DAS CRIANÇAS SOBRE A RISOTERAPIA ................................................................ 29 6.2 OPINIÃO DOS FAMILIARES/ACOMPANHANTES SOBRE A INFLUÊNCIA DO HUMOR NA SAÚDE DA CRIANÇA. .................................................................................................................................. 30 6.3 VISÃO DO PROFISSIONAL DE ENFERMAGEM SOBRE O TEMA ................................................... 32 7 C O N C L U S Õ E S .............................................................................................................. 36 8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................. 38 APÊNDICE ............................................................................................................................. 42 ROTEIRO SEMI – ESTRUTURADO DE ENTREVISTA.............................................................................. 42 Destinado às crianças .................................................................................................................................. 42 Destinado aos Familiares/ acompanhantes ................................................................................................. 43 Destinado aos Enfermeiros (as) ................................................................................................................... 44 ANEXO A ................................................................................................................................ 45 TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO ....................................................................... 45 ANEXO B ................................................................................................................................ 46 CARTA DE APROVAÇÃO DA FEPECS ....................................................................................................... 46 8 1 INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVA Hunter “Patch” Adams é um médico americano que revolucionou a forma de atendimento médico antes conhecida. Seu trabalho, iniciado na década de 70, até hoje inspira milhares de pessoas no mundo todo. Patch destacou-se por defender a idéia de que princípios como alegria, humor, amor, cooperatividade e criatividade devem estar presentes na boa medicina, sendo ele hoje o principal nome relacionado à luta pela humanização na saúde. Entre outras tantas linhas de trabalho inspiradas em suas idéias, está a introdução de palhaços nos hospitais, método rapidamente difundido no mundo todo e hoje considerado uma das principais formas de aliviar o sofrimento de indivíduos doentes, particularmente crianças e idosos (COPATCH, 2009). Seu projeto culminou na fundação do Instituto Gesundheit (do alemão “saúde”), localizado no estado americano de West Virginia, que desde 1971 já atendeu milhares de pessoas gratuitamente. Atualmente o instituto promove diversos cursos voltados para a humanização do atendimento à saúde, cursos estes que contam com a participação de profissionais de saúde vindos de todas as partes do mundo. O instituto também promove viagens de “clowning”, levando grupos de palhaços (dentre estes, atores e profissionais de saúde) para hospitais de países em situação de pobreza extrema. Patch Adams exerce ainda um importante papel de ativismo social, capacitando os profissionais de saúde participantes de seus cursos a tornarem-se multiplicadores de suas idéias dentro das unidades de saúde em que cada um trabalha, visando causar uma verdadeira transformação do atendimento à saúde em âmbito mundial. (COPATCH, 2009). O “trabalho” de palhaços em hospitais também foi propagado por Michael Christensen, fundador e diretor do Big Apple Circus de Nova Iorque. Christensen, ou melhor, o palhaço Mr. Stubs como era conhecido, criou um grupo de artistas - a Clown Care Unit treinados para visitar crianças nas enfermarias pediátricas há cerca de 20 anos (SILVESTRE, 2008). Christensen esclarece que a Clown Care Unit não foi uma idéia programada, que aconteceu por acaso. Segundo o autor “[...] foi uma coisa que emergiu na minha vida em 1985, quando o meu irmão morreu de cancro. Era o meu único irmão e fiquei arrasado com a sua morte. Então fiz o compromisso solene de servir a comunidade como pudesse e aí surgiu 9 a idéia”. O autor afirma ainda “[...] voltei para o circo e com dois companheiros tentei arranjar formas de subverter e parodiar esse fato” (SILVESTRE, 2008). O Dr. Stubs começou a visitar regularmente as crianças, dando início a um projeto piloto de cinco semanas no mesmo hospital. Ressalta-se a existência de outras experiências não menos importantes, como por exemplo, os Palhaços da Alegria no Brasil, que em parte surgiu em Portugal por meio da Operação Nariz Vermelho onde trabalham equipes de "Doutores Palhaços" que habitualmente estão presentes com as suas “consultas” semanais em oito hospitais: IPO de Lisboa, Hospital Dona Estefânia, Hospital Garcia de Orta (Almada), Hospital Santa Maria, Hospital São Francisco Xavier, IPO Porto, Hospital Pediátrico de Coimbra e Centro Hospitalar de Cascais (SILVESTRE, 2008). O grupo Doutores da Alegria é a primeira instituição criada no Brasil para levar solidariedade, humor, carinho, e o lirismo da arte do palhaço para crianças e adolescentes que estão internados em hospitais (BRANDÃO, 2007). Em 1988 Wellington Nogueira entrou em um hospital pela primeira vez, usando "a menor máscara do mundo”, um nariz de palhaço. Estava fazendo residência para se tornar um especialista no ramo da "beisteirologia"; acabou aprovado. Três anos mais tarde, em 1991, assumiu a identidade de Dr. Zinho e fundou no Brasil a Doutores da Alegria, uma instituição sem fins lucrativos que tinha como objetivo levar os conhecimentos desta "especialidade médica" a crianças e adolescentes hospitalizados (PEREIRA, 2004). Treze anos desde sua fundação, o grupo Doutores da Alegria conta hoje com 37 atores profissionais. Antes de ser incorporado à trupe, no entanto, cada ator passa por um rigoroso processo de seleção, que inclui um estágio e um treinamento específico para desempenhar, com toda graça e cuidado, uma dura jornada de seis horas diárias nos hospitais. O grupo já visitou cerca de 350 mil pacientes (PEREIRA, 2004). Em Brasília, podemos citar o grupo “Doutores do Sorriso” que tem por finalidade levar a alegria e o amor de Deus às crianças e pacientes de leitos hospitalares, creches, casas de apoio e asilos, caracterizados de palhaços. É um trabalho interdenominacional, sem fins lucrativos. A linguagem do humor, usada pelos palhaços, faz com que eles consigam interagir com crianças e adultos. Com isso, eles se tornam mais ativos, mais falantes, se alimentam melhor, aceitam com mais facilidade o tratamento e a realização de exames. A iniciativa desse trabalho se deu pela teóloga Izabel Cristina de Souza em 2007 (DOUTORES DO SORRISO, 2008). O grupo começou com três voluntários e hoje já são mais de doze. Para esse tipo de Aquilo que não está vinculado a nenhuma igreja/religião específica. 10 trabalho junto a hospitais, creches e asilos, todo voluntariado passa por um treinamento, onde o mesmo será treinado para o ofício dentro dos hospitais, creches e asilos, contudo dentro das normas de cada estabelecimento. O grupo presta serviços atualmente no Hospital Regional do Guará, mas também visita outras instituições que solicitarem a risoterapia. Estas práticas estão se tornando cada vez mais freqüentes em serviços de saúde, embora sem reconhecimento pelas políticas de saúde. Neste sentido a relevância deste estudo se dá pela possibilidade de se produzir informações sistematizadas sobre os efeitos destas atividades. Com isto, a questão que norteou esta pesquisa realizada no Hospital Regional do Guará foi “quais os efeitos terapêuticos do humor em crianças hospitalizadas”? Observa-se, ainda de forma empírica, que há melhora no quadro geral das crianças, dos acompanhantes e no próprio ambiente de trabalho. Pesquisar esta temática certamente contribui para o reconhecimento desta prática entre as demais, consideradas atualmente como integrativas. 11 2 OBJETIVOS 2.1 OBJETIVO GERAL Avaliar os efeitos terapêuticos do humor em crianças hospitalizadas entre 4 e 12 anos. 2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS Levantar junto às crianças e acompanhantes os benefícios para a saúde da criança ao participar do projeto do grupo Doutores do Sorriso; Levantar junto aos profissionais de enfermagem respostas positivas com o uso do humor como uma prática auxiliar na recuperação de crianças hospitalizadas. 12 3 REFERENCIAL TEÓRICO 3.1 ORIGEM E HISTÓRIA DA RISOTERAPIA Hipócrates, o pai da medicina no século IV a.C. já utilizava animações e brincadeiras na cura de pacientes. Darwin, pioneiro no estudo dos movimentos expressivos da comunicação não verbal, classificou em seu livro “A expressão das emoções nos homens e nos animais (1872)” o sorriso e o riso entre os movimentos expressivos inatos e universais (MEDINA, 2008). Na França, Jeanne Louisie Calmet, falecida em 1977 aos 122 anos afirmou que o segredo da longevidade é sorrir sempre. Na Índia algumas empresas têm o costume de fazer uma sessão de riso antes de iniciar a jornada de trabalho. O resultado é um aumento considerável na produção, em decorrência do bem estar físico e emocional dos trabalhadores. No final de novembro do ano passado, estudo feito pelo Centro Médico da Universidade de Maryland (EUA), com a presença de especialistas de vários países, mostrou que rir protege contra infartos e doenças coronárias (MEDINA, 2008). A risoterapia é um método terapêutico existente desde a década de sessenta. Foi propagado pelo médico americano Hunter Adams chamado de “Patch Adams”, que desde sua época de estudante já implantava este método em hospitais e escolas (MEDINA, 2008). Partidário da eficiência do método é o médico clínico geral e homeopata Eduardo Lambert, especializado em terapias sistêmicas e autor do livro: Terapia do Riso – A cura pela alegria. Ele considera o riso como uma terapia complementar que auxilia na melhoria do estado emocional e orgânico das pessoas, em pacientes dos mais diferentes tipos de enfermidades. Cientificamente, Lambert considera o riso como um grande estimulador. Afirma que é o riso o responsável por “mandar a ordem” para cérebro, através do hipotálamo, que sintetiza as endorfinas, mais precisamente beta-endorfinas. Essas substâncias, que são produzidas nos momentos de bom humor e conseqüentemente do riso, são analgésicas, similares às morfinas, mas com potência cem vezes maior. Ao ativar o estado de alegria fazendo a pessoa sorrir, rir e gargalhar, aliadas também a outras terapias que ativam a produção de endorfinas, como a homeopatia, observou que as melhoras são muito rápidas. Pensando nisso, Lambert acredita que a terapia do riso deve ser indicada - sem restrição de idade - para ajudar as pessoas a viverem mais alegres e com a auto-estima elevada. "É um 13 método terapêutico auxiliar e complementar de cura que visa ajudar as pessoas a espantarem a tristeza, a depressão, a melancolia e o mau humor, e ainda a desfrutarem dos benefícios do riso que propicia o bom humor e a saúde”, afirma. Os dados são baseados na observação clínica feita em hospitais nos Estados Unidos que empregam a terapia do riso (MEDINA, 2008). Assumindo a importância terapêutica do humor, a associação americana para o estudo do humor terapêutico define-o como sendo “qualquer intervenção que promova saúde e o bem estar por estimular uma descoberta divertida, uma expressão, ou apreciação do absurdo e das incongruências da vida” (JOSÉ, 2006). Essa intervenção pode acentuar a produtividade no trabalho, apoiar a aprendizagem, melhorar a saúde, ou até ser utilizada como um tratamento complementar na doença, para ajudar a lidar com a situação ou para conseguir uma ajuda quer seja emocional, física, cognitiva, social ou espiritual (ASSOCIATION FOR APPLIED AND THERAPEUTIC HUMOR, 2000). 3.2 O HUMOR E A HOSPITALIZAÇÃO DA CRIANÇA A doença e a hospitalização constituem crises na vida da criança e alterações em seu comportamento emocional. A hospitalização, por sua vez, tem impacto negativo e brutal para as crianças hospitalizadas, acarretando vários prejuízos psicológicos, pois, além de estarem passando por momentos difíceis que comprometem a sua saúde, elas se vêem privadas de seu mundo social, atividades diárias, brincadeiras e, muitas vezes, da autonomia já conquistada (BEZERRA et al., 2007). Soares (2001) relata que um dos problemas existentes na hospitalização infantil deriva do descuido de aspectos psicológicos, pedagógicos e sociológicos envolvidos nesta situação. Na criança, os efeitos da hospitalização podem variar em função de sua idade, das experiências prévias de hospitalização, de determinadas variáveis individuais e, especialmente, do repertório de habilidades de enfrentamento de cada uma. De acordo com Schmitz (1989 p. 183) “a hospitalização para a criança é uma experiência estressante que envolve profunda adaptação da criança às várias mudanças que acontecem no seu dia-a-dia. Contudo, 14 pode ser amenizada pelo fornecimento do brincar e da presença de familiares no ambiente hospitalar”. Do ponto de vista da criança estas atividades promovem o desenvolvimento físico, psicológico, social e moral: ajuda a criança a perceber o que ocorre consigo, libera temores, raiva, frustração e ansiedade. Ajuda a criança, ainda, a revelar seus pensamentos e sentimentos; promove satisfação, diversão e espontaneidade. Assim, brincando ela exercita suas potencialidades. Quando brincar faz parte da assistência à criança hospitalizada, o hospital também se beneficia, pois a visão corrente de que nele só existe dor, solidão, medo e choro, ou seja, apenas aspectos negativos, é relativizada. A busca pela "humanização" do espaço hospitalar prevê o respeito, o estímulo e o resgate da dimensão saudável da criança, que muitas vezes pode ser traduzida pelo brincar (FURTADO, 1999). Brincar, portanto, faz parte do cuidar (BEZERRA et al., 2007). Whaley e Wong (1989) afirmam que brincar é um dos aspectos mais importantes na vida de uma criança e um dos instrumentos mais eficazes para diminuir o estresse. Tratando-se de crianças hospitalizadas, o brinquedo tem também um importante valor terapêutico, influenciando no restabelecimento físico e emocional, pois pode tornar o processo de hospitalização menos traumatizante e mais alegre, fornecendo melhores condições para a recuperação (FRANÇANI, 1998, p. 28). O brincar transforma o ambiente hospitalar e vem preencher uma lacuna entre a criança, sua família e a equipe de saúde, aliviando o estresse, a ansiedade da criança e apresenta-se como uma forma da criança ultrapassar os sentimentos mais dolorosos (BEZERRA et al., 2007). Para Waldow (1998), o cuidar é a essência da enfermagem, e é um termo intimamente ligado ao termo assistir, significando ajudar, que requer, principalmente, o conhecimento do ser humano. A atuação da equipe de enfermagem transcende a de meros executores de ordens; estende-se à posição de co-participantes junto aos demais profissionais da área de saúde no plano global de prevenção, tratamento e reabilitação. A enfermagem possui conhecimentos próprios e ainda os adquiridos de outras ciências, capacitando-a para uma atuação dinâmica e criativa (DANIEL, 1983 apud BEZERRA et al., 2007 p. 2). As visitas regulares dos Doutores Palhaços criam efeitos diretos muito positivos (alegria, satisfação, contentamento, prazer) e efeitos positivos mais tardios (confiança, 15 otimismo, elevação da auto-estima) não apenas nas crianças e jovens internados como também nos seus familiares e nos profissionais de saúde que aí trabalham (médicos, enfermeiros, assistentes sociais, educadoras de infância, auxiliares de ação médica). Isto ocorre porque são criadas relações com todos os intervenientes ajudando a suportar harmoniosamente a hospitalização (SILVESTRE, 2008). Cardoso (2002 apud BEZERRA et al., 2007) afirma que a Medicina Moderna está começando a levar vantagens com os seus efeitos positivos: crianças hospitalizadas que vêem palhaços brincando permanecem menos tempo nos hospitais que aquelas que não vêem. Afirma ainda que: O riso está associado não somente com o alívio de tensão induzido pelo perigo e sinalização não agressiva, mas também com a expressão de emoções positivas. Isto poderia ser a base para a expressão bem conhecida mundialmente de que “o riso é um bom remédio”. Pesquisas sérias têm mostrado que esta noção é verdadeira. Riso e humor diminuem estresse e ansiedade, reforça a imunidade, relaxa a tensão muscular e diminui a dor (CARDOSO, 2002 apud BEZERRA et al., 2007 p. 4). Adams (1999) diz que as visitas hospitalares podem trazer de volta o magnífico poder de cura e que visitar pode ser fácil e divertido sendo qualquer um capaz de fazer sem precisar de diploma nem licença especial. Ainda relata que poucas coisas ajudam tanto uma estada no hospital quanto a visita de um amigo capaz de levar amor, empatia e até mesmo agir para acalmar ansiedades. Essa “força da visita de um amigo” também se aplica aos profissionais de saúde. Adams informa que em suas visitas os pacientes falam da importância do amor, do humor e da alegria para a transformação de sua experiência hospitalar. Receber solidariedade e ser mimado (tratar com atenção) faz toda a diferença. Se as visitas se sentirem à vontade, podem compartilhar da fé religiosa do paciente - mesmo que não seja a sua, criando dessa forma um enorme refúgio para o sofrimento. Histórias, fotografias, músicas e jogos também podem ser instrumentos preciosos em uma visita ao hospital (ADAMS, 1999). O autor diz que é importante perceber que, assim como a aparência física, cada pessoa possui uma bioquímica única. Ainda não se sabe como os processos bioquímicos se manifestam em cada pessoa. Os profissionais de saúde no campo da Medicina Preventiva não querem esperar pelas conseqüências. Em vez disso, afirmam que levar uma vida feliz e vibrante é essencial para o bem-estar. A definição de Adams (1999, p. 17) para saúde é: “[...] uma vida vibrante e feliz, na qual você utiliza ao máximo o que possui, com enorme prazer”. 16 Ele relata que usando este critério, encontrou pessoas saudáveis em todas as camadas sociais e nas mais diversas situações. Sobre o uso do humor nos hospitais Adams (1999, p. 30) diz: Existe uma razão para a frase “alívio cômico”. Quando o sofrimento é grande, existe necessidade de alívio. As piadas surgem em situações de grande nervosismo ou emoção. E apesar de sabermos disso, ficamos nos perguntando se é conveniente usar humor nos hospitais, que é justamente um lugar onde as pessoas estão sofrendo muito. Foi atuando como palhaço em hospitais que me convenci de que podemos levar humor até mesmo aos leitos de morte. Imagine que você é a pessoa doente. Você gostaria de receber um visitante deprimido ou com cara de velório? É assim que quer passar sua temporada no hospital? É assim que você quer morrer? Estou convicto de que a melhor alternativa é trazer humor para o hospital - e para o mundo também, pois ele parece estar sofrendo. 3.3 O HUMOR COMO PRÁTICA DE ENFERMAGEM Diversos profissionais como médicos, psicólogos, enfermeiros e terapeutas reconhecem os benefícios do riso para o bem-estar do indivíduo, bem como na recuperação da sua saúde. O riso elimina toxinas e libera endorfinas no organismo, as quais cooperam na melhoria da circulação, no relaxamento muscular, na oxigenação dos pulmões, contribuindo também para o esquecimento das experiências ruins e para melhorar a perspectiva futura. (AQUINO et al, 2004). Em seu artigo, José (2006) faz uma avaliação comparativa de artigos sobre o humor. Aqui, explicitamos três autores citados no que diz respeito aos resultados com enfermeiras: 17 Autor (es)/ Ano/País Participantes Intervenções Resultados Sheldon, 1996 (Reino Unido) Sete enfermeiras de pediatria e uma estudante de enfermagem pediátrica. Seis pais de crianças internadas no serviço de pediatria. Aplicação de questionário respondido pelas oito participantes. Aos pais foram feitos ensinos e desenvolvidas competências para o cuidado aos filhos, através do uso do humor. Através de escalas analógicas visuais os pais avaliaram o grau de despreocupação, relaxamento e humor da enfermeira, bem como avaliaram o resultado da intervenção humorosa. Beck, 1997 (EUA) 21 enfermeiras a freqüentar um programa de graduação AstedtKurki; Isola, 2001 (Finlândia) 16 enfermeiras a exercer funções em áreas diferentes. Às 21 enfermeiras foi pedida uma descrição escrita, detalhada, da sua experiência de utilização do humor na prestação de cuidados. Foi solicitado que escrevessem (até que não tivessem mais para escrever) sobre pensamentos, sentimentos e percepções que se conseguissem lembrar acerca dessa experiência. As 21 descrições escritas foram analisadas, de acordo com as etapas do método fenomenológico. Foi pedido às enfermeiras que, durante uma semana, registrassem diariamente os incidentes que envolvessem o humor, no local de trabalho. Os dados consistiam nos diários escritos pelas enfermeiras, que foram depois analisados, indutivamente, por análise de conteúdo. O humor é contextual, e pode ser inapropriado se não for adequado à cultura da pessoa e/ou se esta estiver extremamente ansiosa. O humor, apropriado se o seu benefício for para o doente, estabelece uma relação de parceria enfermeiro-doente permitindo abordar áreas sensíveis e negociar assuntos difíceis. O humor suaviza a atmosfera no local de trabalho e ajuda os enfermeiros a lidar com o stress relacionado com a sua profissão. Os enfermeiros têm que estar conscientes do valor positivo do humor. Humor ajuda a lidar com as pessoas e situações difíceis, facilita uma relação positiva entre enfermeira e doente, encoraja sentimentos de ligação e proximidade, promove a coesão entre as pessoas. Os efeitos da partilha de uma intervenção humorosa perduram para além do momento em que esta ocorre, tanto para os doentes como para as enfermeiras. Humor entre enfermeirodoente capacita ambos para lidar com situações e procedimentos menos agradáveis. O humor possibilita ainda uma melhoria no ambiente de trabalho e entre profissionais ajuda-os a lidar com as dificuldades inerentes ao exercício da sua profissão. Desenho Quasiexperimental Fenomenológico Qualitativo FONTE: (JOSÉ, 2006) O humor segundo Mccloskey e Bulecheck (citados por James, 1995 apud José, 2006) possibilita ao enfermeiro ajudar o paciente a perceber, apreciar e expressar o que é engraçado, de modo a estabelecer relações, aliviar a tensão, libertar a raiva e facilitar a aprendizagem ou lidar com sentimentos dolorosos promovendo e mantendo deste modo, a saúde. 18 José (2006) afirma que apesar do humor, como intervenção de enfermagem, ter começado na década de 90, e dos enfermeiros o identificarem como um componente da sua relação com as pessoas que cuidam, ele continua a ser subutilizado, sub-valorizado e até mal interpretado o seu uso, numa cultura profissional onde seriedade profissional tem vindo não raras vezes, aliada a estar sério. ‘Os benefícios não são motivos suficientes para que o humor passe a fazer parte do agir profissional dos enfermeiros? Seguramente são... Será preciso incluí-lo nos currículos de enfermagem e treiná-lo, como se treinam quaisquer outras habilidades e competências necessárias ao exercício da profissão’ (JOSÉ, 2006, p. 17). Estes relatos nos fazem pensar sobre o tipo de cuidado que temos prestado. Focalizamos aqui a enfermagem, mas a pergunta da autora também deve abranger os demais profissionais de saúde. Se os benefícios são comprovados cientificamente e tão significativos à saúde, por que não empregar a risoterapia nos serviços de saúde? Por que ainda não é comum a presença dos “Doutores Palhaços” nas pediatrias dos hospitais do Brasil? Se gasta muito no tratamento da doença e esquece-se muitas vezes do tratamento do doente. Diz o velho ditado que “Rir é o melhor remédio.” Que infinitas prescrições médicas sejam feitas! Doses e mais doses desse remédio sejam administradas pela enfermagem e que inúmeros pacientes sejam curados, ainda que emocionalmente. 3.4 O SORRISO E O SER HUMANO Qual o poder do riso então para o ser humano? Segundo Lopes (2008) ao sorrirmos, estimulamos a produção de endorfina. Relata que existem alguns efeitos do riso sobre o organismo, como por exemplo - o hormônio do estresse, a adrenalina, que é produzido pelas glândulas supra-renais é reduzido. Segundo Funes (2000, p. 37): [...] com o riso, as lágrimas passam a ter mais imunoglobulinas, um anticorpo que é a sua primeira linha de defesa contra algumas infecções oculares provocadas por vírus e bactérias. A boca também passa a ter mais imunoglobulina, resultando em uma melhor função imunológica. O cérebro e o corpo produzem beta-endorfinas, opiáceos internos que ajudam a relaxar e reduzem a dor. 19 O riso pode nos conferir poder sobre nossa situação. Pode nos dar uma perspectiva diferente de nossos problemas, e quando nos desligamos deles sentimo-nos protegidos e no controle (FUNES, 2000). Cosby (citado por FUNES, 2000), em circunstâncias pessoais muito diferentes, expressou de forma sucinta: “Se você puder rir de uma coisa, poderá sobreviver a ela”. O riso envolve o cérebro todo e ajuda a equilibrar a atividade dos seus dois hemisférios. Svebak (1982 apud FUNES, 2000) demonstrou que durante o riso, há um único padrão de atividade das ondas cerebrais, e outros pesquisadores demonstraram que a atividade cerebral parece unificar-se em resposta a piadas, pois estas exigem o envolvimento das partes emocional e cognitiva do cérebro. Goodheart (1995 apud FUNES, 2000) usa o riso para aliviar a dor em pessoas que passaram por cirurgias. Ela sugere que ao focalizar o riso na área que está doendo você conseguiria obter um alívio significativo da dor. Mas não se conseguiu determinar, pela observação, em que medida o efeito conseguido se resumia a um placebo. “Se o riso dá ao paciente acesso a um meio de alívio da dor, não precisamos ficar perguntando quais os parâmetros em jogo – se o que procuramos é a redução da dor e não a explicação, e se o efeito pode ser repetidamente alcançado pelo paciente” (FUNES, 2000, p.46). Herchenhorn (1994 apud FUNES, 2000) estudou o relacionamento entre a terapia focalizada e a artrite reumatóide. Ela descobriu que a freqüência, intensidade e duração do riso afetavam a intensidade e o incômodo da dor. O riso reduzia a intensidade da dor, mas tinha um efeito ainda maior no modo como a dor incomodava o paciente. Seus resultados mostram que, no mínimo, sentimos a mesma quantidade de dor, mas simplesmente nos incomodamos menos com ela quando damos risada. Uma interpretação diferente e menos pragmática dos resultados de Herchenhorn (1994) e que está mais na linha de outras descobertas fisiológicas, é de que o riso produz endorfinas (FUNES, 2000). As endorfinas são substâncias químicas produzidas pelo corpo para aliviar a dor de ferimentos e ajudar-nos a enfrentar o estresse físico. Elas também nos deixam eufóricos, o que pode explicar a sensação de não nos incomodarmos com a dor. O poder do riso, de ativar a produção de endorfinas, é tão eficiente quanto à acupuntura, o relaxamento, a meditação, os exercícios físicos e a hipnose (LOPES, 2008). Por outro lado, o estresse cria mudanças fisiológicas prejudiciais à saúde. O elo entre o estresse e a hipertensão, a tensão muscular, o sistema imunológico enfraquecido e muitas outras mudanças têm sido claramente demonstradas nos muitos anos de pesquisa sobre esse 20 assunto. Também temos provas de que o riso exerce exatamente o efeito contrário em nosso corpo (FUNES, 2000). Berk (1996) provou que a experiência do riso abaixa os níveis de cortisol, aumenta a quantidade de linfócitos T ativados e o número e a atividade de células NK, e assim por diante. Em suma, o riso estimula o sistema imunológico, eliminando os efeitos imunosupressores do estresse. Os estudos que a autora realizou demonstram que há benefícios fisiológicos claros no uso do riso para lidar com o estresse, dentre eles: 1. Durante o estresse, a glândula supra-renal libera corticosteróides que são convertidos em cortisol na corrente sanguínea. Níveis elevados de cortisol têm um efeito imunossupressivo. Sua pesquisa demonstrou que o riso reduz os níveis de cortisol, protegendo nosso sistema imunológico. 2. As células NK atacam células cancerosas ou virais. São importantes na prevenção do câncer, e o riso aumenta sua atividade. As células de nosso corpo são trocadas constantemente e produzem células potencialmente carcinogênicas. Um sistema imunológico saudável mobiliza essas células para que elas destruam células anormais. 3. As células T são ativadas durante o riso, e assim se produzem linfócitos para lidar com substâncias estranhas potencialmente nocivas (BERK, 1996). Cada vez mais cientistas vêm demonstrando que a alegria é realmente eficaz no combate às doenças. Além de melhorar o humor, reduz o estresse, ajuda a combater infecções ao fortalecer o sistema imunológico, aumenta a atividade de células responsáveis pela destruição de tumores, e alivia a dor. A gargalhada aumenta a freqüência cardíaca, torna a respiração mais profunda, e utiliza os músculos da face, estômago e diafragma. Cada vez mais, os funcionários de hospitais, pacientes e grupos de apoio são treinados para utilizar o humor na obtenção desses benefícios (ALMEIDA, 2009). 21 3.5 A RISOTERAPIA E AS PRÁTICAS INTEGRATIVAS EM SAÚDE A construção da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS iniciou-se a partir do atendimento das diretrizes e recomendações de várias Conferências Nacionais de Saúde e às recomendações da Organização Mundial da Saúde (BRASIL, 2006). Em fevereiro de 2006, o documento final da política, com as respectivas alterações, foi aprovado por unanimidade pelo Conselho Nacional de Saúde e consolidou-se, assim, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS, publicada na forma das Portarias Ministeriais nº 971 em 03 de maio de 2006, e nº 1.600, de 17 de julho de 2006 (BRASIL, 2006). O campo da PNPIC contempla sistemas denominados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) de medicina tradicional e complementar/alternativa (MT/MCA). Tais sistemas e recursos envolvem abordagens que buscam estimular os mecanismos naturais de prevenção de agravos e recuperação da saúde por meio de tecnologias eficazes e seguras, com ênfase na escuta acolhedora, no desenvolvimento do vínculo terapêutico e na integração do ser humano com o meio ambiente e a sociedade. Outros pontos compartilhados pelas diversas abordagens abrangidas nesse campo são a visão ampliada do processo saúde-doença e a promoção global do cuidado humano, especialmente do autocuidado (BRASIL, 2006). No final da década de 70, a OMS criou o Programa de Medicina Tradicional, objetivando a formulação de políticas na área. Desde então, em vários comunicados e resoluções, a OMS expressa o seu compromisso em incentivar os Estados-membros a formularem e implementarem políticas públicas para uso racional e integrado da MT/MCA nos sistemas nacionais de atenção à saúde bem como para o desenvolvimento de estudos científicos para melhor conhecimento de sua segurança, eficácia e qualidade(BRASIL,2006). O documento "Estratégia da OMS sobre Medicina Tradicional 2002- 2005" reafirma o desenvolvimento desses princípios. No Brasil, a legitimação e a institucionalização dessas abordagens de atenção à saúde iniciaram-se a partir da década de 80, principalmente, após a criação do SUS. Com a descentralização e a participação popular, os estados e municípios ganharam maior autonomia na definição de suas políticas e ações em saúde, vindo a implantar as experiências pioneiras (BRASIL, 2006). 22 O Ministério da Saúde, atendendo à necessidade de se conhecer experiências que já vêm sendo desenvolvidas na rede pública de muitos municípios e estados, adotou como estratégia a realização de um Diagnóstico Nacional que envolvesse as racionalidades já contempladas no Sistema Único de Saúde, entre as quais se destacam aquelas no âmbito da Medicina Tradicional Chinesa- Acupuntura, Homeopatia, Fitoterapia e da Medicina Antroposófica, além das práticas complementares de saúde (BRASIL, 2006). Práticas integrativas e complementares em saúde constituem denominação recente do Ministério da Saúde (MS) para a medicina complementar, em suas ricas aplicações no Brasil. Este campo de saberes e cuidados em saúde desenha um quadro extremamente complexo, múltiplo e sincrético articulando um número crescente de práticas diagnóstico/terapêuticas, tais como terapia nutricional, massoterapia e radiestesia, dentre diversas opções (ANDRADE, 2007). Andrade (2007) faz uma crítica à Política Nacional de Práticas Integrativas no SUS. Ele destaca a importância da regulamentação no SUS de métodos terapêuticos como acupuntura, homeopatia, fitoterapia e termalismo. E comenta que ainda é preciso ampliar essa política de inclusão terapêutica. Assim como Andrade, concordamos que a PNPIC é pouco abrangente deixando de incluir outras terapêuticas que seriam essenciais como práticas integrativas, dentre elas a risoterapia. Segundo Doutores da Alegria (2003) foram localizadas 180 iniciativas em todo o Brasil caracterizadas, principalmente, pela atuação de palhaços em hospitais. Porém contaram com a resposta de 57 organizações, um número já considerável. Então, Por que não incluir a Risoterapia como Prática Integrativa e Complementar no SUS? 23 4 METODOLOGIA 4.1 TIPO DE PESQUISA Metodologia, segundo Demo (1987), [...] “trata das formas e caminhos para se fazer ciência”. Minayo (1994) amplia um pouco o conceito dizendo que “a metodologia compreende a teoria, os métodos e a criatividade do pesquisador”. O método, por sua vez, é definido por Oliveira (1998) como a [...] “via de acesso para se chegar a determinado resultado” (DEMO, 1987; MINAYO, 1994; OLIVEIRA, 1998 apud LUDORF, 2004, p. 80). Foi realizada uma pesquisa Teórico-Empírica (PTE) que se fundamentou em uma abordagem qualitativa. PTE é definida por Ludorf (2004, p.82) como sendo: Uma pesquisa na qual além da pesquisa bibliográfica, será feita uma parte empírica. Isso significa que haverá coleta de dados através de uma pesquisa de campo. Nesta, o pesquisador deverá ir ao ambiente natural onde o fato/realidade que quer estudar, ocorre. De lá, extrairá (através de técnicas de pesquisa como observação, entrevista, etc.) os dados primários que serão o substrato para a sua análise. Amstel (2008) define uma pesquisa qualitativa como “basicamente aquela que busca entender um fenômeno específico em profundidade. Ao invés de estatísticas, regras e outras generalizações, a qualitativa trabalha com descrições, comparações e interpretações”. Este tipo de pesquisa envolve ouvir o que as pessoas têm a nos dizer, explorando as suas idéias e preocupações sobre determinado assunto. A metodologia qualitativa, mais do que qualquer outra, levanta questões éticas, principalmente, devido à proximidade entre pesquisador e pesquisados (MARTINS, 2004). 24 4.2 SUJEITOS DA PESQUISA A população alvo foi composta por cinco crianças entre quatro e doze anos de idade que estavam internadas no referido hospital há pelo menos duas semanas; cinco profissionais de enfermagem que atuavam na pediatria do referido hospital durante o período de visita/atuação do grupo Doutores do Sorriso e cinco familiares destas crianças que acompanharam as mesmas durante a visita do grupo. 4.2.1 Critérios de inclusão Crianças entre quatro e doze anos de idade que estiveram internadas no referido hospital há pelo menos duas semanas; profissionais de enfermagem que atuavam na pediatria do referido hospital durante o período de visita/atuação do grupo Doutores do Sorriso; familiares destas crianças que acompanharam as mesmas durante a visita dos Doutores do Sorriso. 4.2.2 Critérios de exclusão Crianças menores de quatro e maiores de doze anos de idade internadas no referido hospital ou que, mesmo estando dentro da faixa etária, estivessem internadas há menos de duas semanas; profissionais de enfermagem que atuaram na pediatria do referido hospital, mas que não estavam presentes durante o período de visita/atuação do grupo Doutores do Sorriso; familiares destas crianças ausentes durante a visita dos Doutores do Sorriso. Todos aqueles que independente de atenderem aos critérios, não aceitaram participar voluntariamente da pesquisa. 25 4.3 LOCAL DE REALIZAÇÃO DA PESQUISA A coleta de dados ocorreu na clínica pediátrica do Hospital Regional do Guará (HRGu). A escolha deste hospital se deu pelos seguintes critérios: É uma unidade auxiliar de ensino, é de fácil acesso pelas pesquisadoras responsáveis, houve contato prévio com a coordenadora do grupo Doutores do Sorriso que informou ser o hospital em que eles mais atuam. O Hospital Regional do Guará foi criado através da Lei n° 255 de 23 de abril de 1992, após passar de Posto de Assistência Médica – PAM, vinculado ao INAMPS, para a Fundação Hospitalar do DF, hoje, Secretaria de Estado de Saúde do DF. Realiza mensalmente, em média, dois mil e trezentos atendimentos ambulatoriais e oito mil atendimentos emergenciais. Possui vinte leitos na pediatria e vinte e oito na clínica médica e é considerado de pequeno porte. Sua área de abrangência inclui o Guará I e II, a Cidade Estrutural, o Setor de Indústrias e Abastecimento, o Setor Habitacional Park Way (Quadra 05), a Colônia Agrícola Águas Claras e a Colônia Agrícola Vicente Pires (DISTRITO FEDERAL, 2009). O Hospital do Guará oferece ambulatório das seguintes especialidades: acupuntura, geriatria, cardiologia, dermatologia, homeopatia adulto e infantil, mastologia, neuropediatria, neurologia adulto, nutrição, oftalmologia, otorrinolaringologia, pneumologia infantil, psicologia, psiquiatria e urologia (DISTRITO FEDERAL, 2009). 4.4 INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS A coleta de dados foi realizada por meio de uma Entrevista Semi-estruturada. Segundo Ludorf (2004, p. 90): A entrevista é uma interação pessoal, registrada pelo entrevistador (anotada ou, preferencialmente, gravada). É indicada para pequenos grupos e assuntos específicos, que dependem da habilidade do entrevistador para serem aprofundados. Normalmente é utilizada quando se deseja levantar sentimentos, emoções, percepções, motivações ou opiniões dos sujeitos envolvidos na pesquisa. 26 A entrevista semi-estruturada é caracterizada pela formulação da maioria das perguntas previstas com antecedência e sua localização é provisoriamente determinada. (COLOGNESE; MÉLO, 1998 apud GRINGS; MALLMANN, 2008). Na entrevista semi-estruturada o entrevistador tem uma participação ativa, apesar de observar um roteiro, ele pode fazer perguntas adicionais para esclarecer questões e melhor compreender o contexto (GRINGS; MALLMANN, 2008). 5 ANÁLISE DOS DADOS A análise dos dados coletados foi feita por meio da Análise de Conteúdo, que é definido por Bardin (1977) como um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos, sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens. A análise de conteúdo se constitui num conjunto de instrumentos metodológicos que asseguram a objetividade, sistematização e influência aplicadas aos discursos diversos. Tem como objeto de estudo a linguagem. Em razão disto, foi muito usada em estudos de mensagem escrita, num primeiro estágio. Posteriormente, foi empregada na análise de comunicações não verbais, a Semiologia. Finalmente, abrangeu trabalhos de índole lingüística. É atualmente utilizada para estudar e analisar material qualitativo, buscando-se melhor compreensão de uma comunicação ou discurso, aprofundar suas características gramaticais às ideológicas e outras, além de extrair os aspectos mais relevantes (BARDIN, 1977). A análise de conteúdo visa analisar as características de uma mensagem através da comparação destas mensagens para receptores distintos, ou em situações diferentes com os mesmos receptores; o contexto ou o significado de conceitos sociológicos e outros nas mensagens, bem como caracterizar a influência social das mesmas e analisar as condições que induziram ou produziram a mensagem. Esse processo de análise de dados é constituído por três fases: a pré-análise, a exploração do material e, o tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação (BARDIN, 1977). 27 5.1 INSTRUMENTOS E ESTRATÉGIAS DE APLICAÇÃO A coleta de dados se deu por meio de entrevista com roteiro semi-estruturado, visando identificar como o uso do humor pode influenciar a assistência e a recuperação da criança hospitalizada. A primeira entrevista foi realizada com o intuito de testar o instrumento da coleta, especialmente sobre a compreensão das questões. Esta entrevista não compôs o conjunto de entrevistas analisadas no final. As entrevistas foram realizadas nos dias 21 e 28 de março; 4 e 25 de abril de 2009, pelas pesquisadoras responsáveis e foram registradas com anotações nos espaços do roteiro e no diário de campo. Foram entrevistadas cinco crianças na faixa etária de 04 a 12 anos, cinco acompanhantes das mesmas crianças, cinco profissionais de enfermagem, sendo duas enfermeiras e três técnicos em enfermagem. Foram selecionados os profissionais de enfermagem que se faziam presentes no momento da atuação do grupo Doutores do Sorriso. 5.2 FATORES FACILITADORES E DIFICULTADORES DO TRABALHO DE CAMPO O trabalho de campo apresentou as seguintes dificuldades: Alegação de falta de tempo e recusa em participar por parte de alguns profissionais; Dificuldade de entrevistar os profissionais devido ao não conhecimento da maioria do que vem a ser Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares do SUS; Dificuldade de interpretação e conseqüente dificuldade em responder as perguntas por parte de alguns acompanhantes devido ao baixo nível de escolaridade; Dificuldade em assinar o termo de consentimento por parte de alguns acompanhantes que eram analfabetos; Dificuldade de algumas crianças em responder as perguntas abertas (os porquês). 28 Como fatores facilitadores do projeto podemos citar a contribuição da coordenadora do grupo Doutores do Sorriso e da enfermeira do núcleo de atenção domiciliar na tramitação do projeto para autorização da coleta. 5.3 ASPECTOS ÉTICOS No que se refere aos aspectos éticos, a pesquisa seguiu todas as recomendações da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, que trata de pesquisas envolvendo seres humanos. Foram garantidos aos cidadãos envolvidos na pesquisa todos os direitos citados no termo de consentimento livre e esclarecido. O projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa - CEP-Saúde e foi aprovado conforme parecer n° 379/08, processo n° 356/08. Todos os entrevistados assinaram o Termo de consentimento livre e esclarecido que será arquivado por nós, juntamente com os instrumentos por cinco anos. 29 6 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS 6.1 SENTIMENTO DAS CRIANÇAS SOBRE A RISOTERAPIA As crianças foram entrevistadas no dia que receberam a visita dos Doutores do Sorriso. Ao serem questionadas sobre os sentimentos que lhes vinha à tona quando eram visitadas, todas relataram “alegria” e “felicidade”, que podem ser exemplificados pelo seguintes depoimentos: “Eles me deixam alegre” (C2). Pelo menos uma das crianças entrevistadas referiu se sentir feliz com os instrumentos utilizados pelo grupo: “A gente brinca e também ganha desenho pra pintar” e“ Fico feliz quando ganho cachorrinho de balão”(C4). Quando perguntadas se o sorriso faz bem para saúde delas, todas as crianças prontamente responderam que sim. Dos 5 entrevistados, 3 informam esquecer da doença pelo menos por um instante conforme depoimento a seguir: “Estou sentindo que a doença melhorou” (C1) / “Parece que a gente não está mais no hospital” (C3) / “Quando a gente ri se sente melhor e parece que não está mais doente (C5). Estes resultados corroboram com Silvestre (2006) que afirma, após realizar pesquisa semelhante, que as visitas regulares dos Doutores Palhaços criam efeitos diretos muito positivos (alegria, satisfação, contentamento, prazer) e efeitos positivos mais tardios (confiança, otimismo, elevação da auto-estima). Isso pôde ser confirmado e observado claramente durante e após o momento das visitas. De acordo com Schmitz (1989, p. 183) “a hospitalização para a criança é uma experiência estressante que envolve profunda adaptação da criança às várias mudanças que acontecem no seu dia-a-dia. Contudo, pode ser amenizada pelo fornecimento do brincar...”. Cardoso (2002 apud BEZERRA et al., 2007, p. 4) também complementa que riso e humor diminuem o estresse e ansiedade, reforçando a imunidade, relaxando a tensão muscular e diminuindo a dor. Em uma das visitas observamos uma criança que apesar de não querer responder à entrevista foi incluída na pesquisa, pois pudemos enxergar em sua reação durante a visita do grupo que o seu semblante, antes triste, se tornou alegre e logo que os Doutores iniciaram a 30 visita, ela sorriu e ficou deslumbrada com tudo o que tinha ganhado, começou a conversar e demonstrar seu contentamento com a presença dos “doutores palhaços” (DIÁRIO DE CAMPO, p.2). Neste sentido, é possível observar que o riso provoca sentimentos que favorecem o processo de recuperação e a diminuição dos efeitos negativos da hospitalização. Como num “passe de mágica” parece que a criança se esquece de tudo ao seu redor e o ambiente que antes parecia sério é tomado de “ flores coloridas”, “passarinhos verdes”, “ corações” e sons suaves de risadas. A linguagem da alegria é compreendida em todas as idades. Basta sorrir e logo há uma interpretação da mensagem que se passa. Não é preciso um tradutor ou intérprete, é uma linguagem universal. A criança então capta essa mensagem como ninguém! Mesmo que a sua boca não se “escancare” em risos (como notamos em muitas), seu olhar puro e sincero sorri. 6.2 OPINIÃO DOS FAMILIARES/ACOMPANHANTES SOBRE A INFLUÊNCIA DO HUMOR NA SAÚDE DA CRIANÇA. Foram entrevistados os familiares das crianças dentro da faixa etária requerida no projeto e que acompanharam as visitas dos Doutores nos dias da coleta de dados. Quando perguntados se existe influência do humor na recuperação da saúde da criança, os familiares unanimemente responderam que sim. Vejamos três relatos abaixo: “Melhora muito. A criança fica mais disposta, alegre.” (F3) “Sim. Porque o humor traz um sorriso esquecendo a dor. (F5) “Sim. Porque tem muitos que estão tristes e ficam alegres depois da visita.” (F1) Quanto aos benefícios que o humor pode trazer a saúde da criança foram citados: “alegria”, “descontração”, “disposição” e “felicidade”. Para Cardoso (2002 apud BEZERRA et al., 2007) crianças hospitalizadas que vêem palhaços brincando permanecem menos tempo nos hospitais que aquelas que não vêem. Diz ainda que, isto poderia ser a base para a expressão bem conhecida mundialmente de que “o riso é um bom remédio”. 31 Sobre a importância de ter no ambiente hospitalar grupos como o dos Doutores do Sorriso, todos os familiares disseram ser importante. Os depoimentos a seguir demonstram isso: “Sim. Porque é bom, traz alegria, brinquedo. Elas ficam mais felizes.” (F1) “Sim. Porque o humor e o sorriso fazem esquecer as lágrimas.” (F5) A busca pela humanização do espaço hospitalar prevê o respeito, o estímulo e o resgate da dimensão saudável da criança, que muitas vezes pode ser traduzida pelo brincar (FURTADO, 1999). Para Whaley e Wong (1989), brincar é um dos aspectos mais importantes na vida de uma criança e um dos instrumentos mais eficazes para diminuir o estresse. Assim como as crianças entrevistadas os familiares também informaram que a criança se esquece da doença durante as visitas. Três entrevistados responderam “sempre” e dois responderam “às vezes”. E todos os entrevistados disseram que o ambiente hospitalar se torna mais humanizado/agradável com a risoterapia. Ao compararmos uma clínica que recebe a visita do grupo Doutores do Sorriso com outra que não recebe enxergamos claramente a diferença tanto nos pacientes, em seus olhares e expressões, como no próprio ambiente, que se mostra mais tenso e tem um clima mais pesado conforme descrito no Diário de Campo. Os profissionais da pediatria confirmam isso ao relatarem gostar de trabalhar no setor, pois têm o privilégio de receber a visita do grupo (DIÁRIO DE CAMPO, p.3). Quando interrogados sobre a percepção de melhora no estado de saúde da criança e se a mesma se tornou mais feliz com a visita do grupo, os entrevistados confirmaram a melhora tanto no estado de saúde como no estado de humor da criança, como pode ser visto nos depoimentos a seguir: “...agora ela sorri mais e chora menos.” (F4) “Sim. Porque levanta a auto- estima.” (F5) “Sim. A criança se sente mais esperta. Além disso, as palavras de Deus que eles trazem ajudam a recuperar a saúde.” (F1) 32 O brincar transforma o ambiente hospitalar e vem preencher uma lacuna entre a criança, sua família e a equipe de saúde, aliviando o estresse, a ansiedade da criança e apresenta-se como uma forma da criança ultrapassar os sentimentos mais dolorosos (BEZERRA et al., 2007). Não houve divergência de opiniões em relação ao trabalho do grupo Doutores do Sorriso. Todos os acompanhantes concordaram que é bom: “Muito bom, pois traz alegria e paz para as crianças.” (F1) “Legal, por que diverte não só as crianças, mas a gente que as acompanha também.” (F3) É possível observar que há unanimidade entre os acompanhantes e coerência entre as respostas deles e das crianças. A risoterapia contagia não só a criança, como os familiares destas. Aqueles que as acompanham também precisam de cuidados especiais. Alguns deixam os afazeres domésticos, o trabalho e as demais tarefas para estar com seus entes queridos, o que acaba afetando não só o seu estado físico e emocional, mas também sua vida social. Estes não deixam de ser prováveis doentes. A risoterapia chega para amenizar o sofrimento ou acabar com ele por um instante, para tornar a vida tão dura, um pouco mais feliz. 6.3 VISÃO DO PROFISSIONAL DE ENFERMAGEM SOBRE O TEMA Quando indagados se o humor pode auxiliar na recuperação da criança hospitalizada, todos os profissionais responderam que sim. Alguns relatos expressam a opinião de todos: “Sim. A alegria da criança faz com que ela responda melhor ao tratamento.” (PE1) “Com certeza. Pela alegria que transmite à criança. Melhora a imunidade, o estado de humor. É tudo de bom.” (PE4). Sobre a interferência na relação profissional - paciente, os profissionais de enfermagem acreditam que essa relação melhora após a visita dos Doutores: “Com certeza. A criança se torna mais receptiva” (PE1) 33 “Sim. Acredito que as crianças ficam mais alegres e colaborativas.” (PE2) “Creio que sim, pois a criança alegre se comunica melhor.” (PE4) Para nós isto se tornou bastante evidente após as visitas, já que antes dos palhaços entrarem nos quartos a relação entre a criança e o profissional era mais difícil. A maioria das crianças chorava e não queria aderir ao tratamento e durante o contato com o grupo houve uma mudança considerável. Elas estavam mais receptivas, distraídas, o que facilitou essa relação. O humor segundo Mccloskey e Bulecheck (citados por JAMES, 1995 apud JOSÉ, 2008) possibilita ao enfermeiro ajudar o paciente a perceber, apreciar e expressar o que é engraçado, de modo a estabelecer relações, aliviar a tensão, libertar a raiva e facilitar a aprendizagem ou lidar com sentimentos dolorosos promovendo e mantendo deste modo, a saúde. Alguns benefícios para a saúde da criança também foram notados pelos profissionais de enfermagem durante e após a visita do grupo: “Maior descontração da criança, elas estão mais relaxadas e mais contentes.” (PE1) “A criança se encontra mais aberta, menos tensa e aceita melhor o tratamento.” (PE5) “Interação da criança com outras crianças e também com a equipe.” (PE4) Conforme citado por Furtado (1999), estas atividades promovem o desenvolvimento físico, psicológico, social e moral; ajuda a criança a perceber o que ocorre consigo, libera temores, raiva, frustração e ansiedade. Ajuda a criança, ainda, a revelar seus pensamentos e sentimentos; promove satisfação, diversão e espontaneidade Com a visita dos Doutores do Sorriso também foram notados benefícios para os profissionais de saúde: “Sim. Porque é um momento de descontração para todos.” (PE3) “...o humor, a alegria, a descontração cabe em qualquer ambiente de trabalho. A satisfação em ver as crianças felizes também satisfaz a equipe”. (PE5) 34 Alguns depoimentos dos entrevistados sobre o trabalho dos Doutores do Sorriso são explicitados abaixo: “Um trabalho lindo, onde pessoas deixam de fazer suas coisas para alegrar a vida dos que precisam.” (PE2) “Muito bom, pois o hospital é um ambiente tenso, ainda mais para a criança e o trabalho deles ameniza um pouco isso.” (PE4) “Acho muito legal e essencial para a evolução do paciente e para relação entre profissional e paciente.” (PE5) Sobre os benefícios para os profissionais, alguns autores reforçam a importância da risoterapia. Furtado (1999), refere que quando brincar faz parte da assistência à criança hospitalizada, o hospital também se beneficia, pois a visão corrente de que nele só existe dor, solidão, medo e choro, ou seja, apenas aspectos negativos, é relativizada. Os profissionais também responderam sobre a inclusão da risoterapia na Política de Práticas Integrativas Complementares do SUS (PNPIC) e a consideram importante. Um dos relatos informa isso: “... tudo que possa trazer benefício à saúde dos pacientes é válido.” (PE 4). Sobre esta questão, Funes (2000) aponta que “se o riso dá ao paciente acesso a um meio de alívio da dor, não precisamos ficar perguntando quais os parâmetros em jogo, se o que procuramos é a redução da dor e não a explicação, e se o efeito pode ser repetidamente alcançado pelo paciente”. Por outro lado, Andrade (2007) faz uma crítica às praticas integrativas do SUS e comenta que ainda é preciso ampliar essa política de inclusão terapêutica. É possível observar que há consenso entre pesquisadores, profissionais, familiares e crianças de que a risoterapia é uma prática importante para aliviar o sofrimento de todos. Entretanto é pouco utilizada ainda, principalmente pela enfermagem. José (2006) afirma que apesar do humor, como intervenção de enfermagem, ter começado na década de 90, e dos enfermeiros o identificarem como um componente da sua relação com as pessoas que cuidam, ele continua a ser subutilizado, subvalorizado e até mal interpretado o seu uso, numa cultura 35 profissional onde seriedade profissional tem vindo não raras vezes, aliada a estar sério. Diz ainda: “os benefícios não são motivos suficientes para que o humor passe a fazer parte do agir profissional dos enfermeiros? Seguramente são.” 36 7 CONCLUSÕES Os objetivos desta pesquisa eram avaliar os efeitos terapêuticos do humor em crianças hospitalizadas entre 4 e 12 anos, descrever o trabalho do grupo “Doutores do Sorriso” e os métodos/técnicas utilizadas pelo mesmo, na unidade de saúde, levantar junto às crianças e acompanhantes os benefícios para a saúde da criança ao participar do projeto, bem como levantar junto aos profissionais de enfermagem respostas positivas com o uso do humor como uma prática auxiliar na recuperação de crianças hospitalizadas. Neste sentido concluímos que: É importante perceber que uso do humor no hospital não substitui o tratamento convencional, mas percebemos nitidamente que é uma prática poderosa, um instrumento capaz de transformar choro em riso, dor em alegria e doença em saúde. De maneira alguma queremos com essa pesquisa ir contra a importância da terapia medicamentosa, mas fazer com que aliada à promoção a saúde, esteja a risoterapia. Como dizia o famoso comediante Groucho Marx: “Os palhaços funcionam tão bem quanto à aspirina, mas, duas vezes mais rápido.” Acreditamos que o mundo só será mais feliz, quando as pessoas começarem a sorrir. Um mundo capitalista e globalizado contribui para que as pessoas estejam sempre ocupadas, sérias, sisudas e intocáveis, mas não podemos deixar que isso mude o nosso ser: o ser humano. Por que não tocar em alguém? Por que não dizer bom dia? Por que não fazer alguém sorrir? Por que não deixar extravasar a criança que existe em cada um de nós? Talvez por medo de pensar o que os outros vão achar. É preferível viver o hoje como se não houvesse o amanhã, e que esse hoje seja repleto de sorrisos, alegrias e amor. O trabalho do grupo Doutores do Sorriso baseia-se em “fazer sorrir”. Trazer alegria às crianças através da caracterização, brinquedos, revistas para colorir, contos, músicas, balões personalizados, além da palavra de Deus. Esses são os métodos utilizados pelo grupo a fim de trazer conforto às crianças e seus acompanhantes e diminuir o estresse advindo da hospitalização. Esse trabalho agrada não somente os pacientes, mas também os acompanhantes e profissionais de saúde que compartilham dessa experiência contagiante. O 37 humor tem o poder de tornar o ambiente hospitalar mais humanizado, tão sonhado e desejado por todos. Todas as questões levantadas com a realização desta pesquisa são respondidas e resumidas na resposta de algumas crianças ao relatarem que ao receberem a visita do grupo parecem não estar mais doentes. Por um instante que seja a dor é esquecida. Tanto a criança como o ambiente que a rodeia é transformado por um sorriso, um ato simples que pode ajudar a modificar uma vida. Certamente o humor traz benefícios para a saúde da criança. Os resultados são claramente observados na mudança de comportamento das crianças que passam a se comunicar melhor, retomam sua alimentação normal e aceitam melhor o tratamento, sem contar com os efeitos que não foram observados, como os fisiológicos já citados. Tratando-se da relação profissional - paciente, o humor pode ser considerado uma prática avançada e uma tecnologia de apoio ao cuidado, pois torna essa relação bem mais harmoniosa, já que afasta a imagem séria, fria e formal que se tem do profissional, criando uma relação maior de confiança entre os mesmos. Além disso, dá ao profissional de enfermagem o poder de interagir e conhecer melhor as necessidades dos pacientes, aumentando o vínculo. Percebemos com isso que o humor/risoterapia deveriam ser inclusos nos currículos dos cursos de enfermagem, para que sejam reconhecidos como uma competência do enfermeiro na assistência de enfermagem e para que esta se torne cada vez mais humana e focada no cuidado. Concluímos ainda que o humor como prática auxiliar na recuperação da saúde não deve ser visto de forma meramente empírica, mas científica, já que diversos estudos e pesquisas, como esse por nós realizado, confirmam isso. Devemos apoiá-lo como uma prática/intervenção voltada não só para o cuidado com a criança, mas para todo aquele que sofre com a hospitalização; incluindo os acompanhantes e profissionais de saúde. 38 8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADAMS, P. O amor é contagioso. Ilustrações de Jerry Van Amerongen; tradução Fabiana Colasanti. Rio de Janeiro: Sextante, 1999. ALMEIDA, E. O sorriso deixa você mais forte. Disponível em: < http://www.lincx.com.br/lincx/saude_a_z/prevencao/sorriso_forte.asp>. Acesso em: 13 maio 2009. AMSTEL, F. V. Como fazer uma pesquisa qualitativa. Disponível em: <http://www.usabilidoido.com.br/cat_apresentacao.html>. Acesso em: 15 jun. 2008. ANDRADE, J.T. Práticas Integrativas no SUS: Um avanço para a inclusão terapêutica? 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Enfermagem pediátrica: elementos essenciais à interação efetiva. 2. ed. Rio de janeiro: Guanabara, 1989. 42 APÊNDICE ROTEIRO SEMI – ESTRUTURADO DE ENTREVISTA Destinado às crianças 1. Você se sente feliz com a visita dos Doutores do Sorriso? ( ) sim ( ) não Por quê? ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ 2. Você gosta quando os Doutores do Sorriso vem te visitar? ( ) sim ( ) não Por quê? _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ 3. Você acha que sorrir faz bem à sua saúde? ( )sim ( ) não Por quê? ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ 4. Você esquece um pouco da doença quando os Doutores do Sorriso vem visitá-lo (a)? ( ) sim ( ) não Por quê? _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ 43 Destinado aos Familiares/ acompanhantes 1. Você acha que o uso do humor influência na recuperação da criança? Explique sua resposta. _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ 2. Quais os benefícios você acha que o “sorriso” pode trazer à saúde da criança hospitalizada? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ 3. Você tem percebido melhora no estado de saúde da criança após as visitas dos Doutores do Sorriso? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ 4. O que você acha do trabalho dos Doutores do Sorriso? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ 5. Seu filho se tornou mais feliz/alegre com a visita dos Doutores do Sorriso? ( ) Sim . Por quê? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ ( ) Não. Por quê? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ 6. Você acha importante o uso do humor em hospitais na assistência à criança? ( ) Sim . Por quê? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ ( ) Não. Por quê? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ 7. Você acha que a criança se esquece da doença quando recebe a visita dos Doutores do Sorriso? ( ) sempre ( ) às vezes ( ) nunca 8. Você acha que se em todo hospital houvesse a risoterapia, o ambiente hospitalar seria mais humanizado/agradável? ( ) sempre ( ) às vezes ( ) nunca 44 Destinado aos Enfermeiros (as) 1. O uso do humor pode auxiliar na recuperação da criança hospitalizada? Como? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ 2. A relação enfermeiro x paciente melhora após o contato da criança com o grupo Doutores do Sorriso? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ 3. Quais benefícios podem ser observados durante e após a visita do grupo? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ 4. Você acha que a risoterapia deveria ser incluída à Política de Práticas Integrativas do SUS (PNPIC)? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ 5. O que você acha do trabalho dos Doutores do Sorriso? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ 6. Você acha que a criança se esquece um pouco da doença quando recebe a visita dos Doutores do Sorriso? ( ) Sim. Por quê? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ ( ) Não. Por quê? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ 4. Você acha que os profissionais de saúde também se beneficiam com a visita dos Doutores do Sorriso? ( ) Sim. Por quê? _____________________________________________________________________ ( ) Não. Por quê? _____________________________________________________________________ 45 ANEXO A TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO O Senhor (a) está sendo convidado para participar da pesquisa intitulada “O uso terapêutico do humor em crianças hospitalizadas” que tem como objetivo geral avaliar os efeitos terapêuticos do humor na saúde de crianças hospitalizadas. Esta pesquisa é importante para que haja o reconhecimento desta prática como um auxílio ao tratamento dessas crianças. Sua participação será por meio da concessão de entrevista, com a duração de no máximo 20 minutos, respondendo questões sobre os benefícios observados que o uso do humor traz à saúde das crianças. O (a) senhor (a) receberá todos os esclarecimentos necessários antes e no decorrer da pesquisa. Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Secretaria de Saúde do DF – SES/DF e lhe garantimos os direitos abaixo relacionados: 1) Solicitar, a qualquer momento, maiores esclarecimentos sobre esta pesquisa, através dos telefones: - CEP/SES/DF: 61- 3325.4955; Leila Gottems: 84175175 / 3327 5741; Alyne da Silva: 9656 8383 / 3315 3593 / 3456 1980; Wladiane A. Raulino: 9121 8225 / 3964 6127 / 3311 5153. 2) Segredo absoluto sobre nomes, local de trabalho, residência e quaisquer outras informações que possam levar à identificação pessoal e da instituição a qual pertence; 3) Ampla possibilidade de negar-se a responder a quaisquer questões ou a fornecer informações que julgar prejudicial à sua integridade física, moral e social; 4) Solicitar que parte das falas e/ou declarações não sejam incluídas em nenhum documento oficial, o que será prontamente atendido; 5) Desistir, a qualquer tempo, de participar da pesquisa. Os resultados da pesquisa serão publicados em jornais e revistas científicas, apresentados em eventos científicos e para equipes técnicas e de gestores da SES-DF para que possam ser utilizados no planejamento, organização e gestão da saúde. Uma cópia deste termo permanecerá com o Sr (a) e a outra ficará arquivada, juntamente com os demais documentos da pesquisa, com o pesquisador responsável, na sala S 113, Bl. S, no 1º Andar, Universidade Católica de Brasília, Campus I, Q.S 07, Lote 01, EPCT, CEP-71.966.700 – Águas Claras – Taguatinga-Brasília-DF – Brasil. Telefones: (61) 3356-9000. Brasília-DF, ________ de _______________________ 2008. ______________________________________________________ Participante __________________________________ Pesquisador (es) responsável(eis) 46 ANEXO B CARTA DE APROVAÇÃO DA FEPECS 47