RBMFC Sumário EDITORIAL Novos rumos para a Pesquisa em APS nas Américas. Carlos Eduardo Aguilera Campos. .......................................................................................................................... 003 ARTIGOS Avaliação do Programa de intervenção preventiva “Sexualidade e Adolescência”, com jovens estudantes da periferia do município de Campinas (SP). Osmar Ferreira Rangel Neto e Solange L´abbate. ........................................................................................................ 004 Qualidade da consulta de Medicina Geral e Familiar: conseguem os médicos julgar corretamente a qualidade sentida pelos doentes? Tiago Santos, Inês Rosendo, Gonçalo Pimenta, Dina Martins, Maria Prazeres Francisco, Maria da Glória Neto e Luiz Miguel Santiago. ................................................................................................ 013 Sensibilidade no diagnóstico da desnutrição protéico-calórica realizado pelas equipes de saúde por meio do SIAB e de busca ativa de casos. Tatiana Monteiro Fiúza e Marco Túlio Aguiar Mourão Ribeiro. ................................................................................... 021 Medicina de Família e Comunidade e doenças gastroenterológicas. Bruno Brunelli, Mariana Eri Sato, Suzane Kioko Ono-Nita e Flair José Carrilho. ............................................................. 027 Sinais e sintomas relacionados à baixa acuidade visual em escolares do nordeste do Rio Grande do Sul. Ellen Zatti Ramos Simionato, Jonathan Soldera, Eduardo Machado Estevão Pires, Filipe Rech Bassani, Eduardo Schmidt Rizzon e Gustavo Basso Poleto. ........................................................................... 038 Prevalência de Obesidade e Obesidade Abdominal em amostra de usuários de um ambulatório de Medicina Integral. Charles R. M. Day, Cristiane C. Cabral, Vivian S. Lima, Gustavo Vaitsman, Ronaldo M. Louzada Junior, Christiano Buarque, Maria Inês Padula Anderson e Rosimere J. Teixeira. .................................................................. 045 RELATO DE CASO Intervenção na adesão ao tratamento de doenças crônicas tendo como modelo um paciente adolescente HIV positivo. Larissa Matsumoto, Júlia Andrade de Oliveira, Camila Aparecida Moma, Telma Kenshima, Marília Martins Corrêa e Gustavo Tenório Cunha. ..................................................................................................... 053 RESUMOS DE TESE Evaluación de la atención a la salud infantil del Programa de Saúde da Família en la región sur de Porto Alegre, Brasil. Erno Harzheim. ................................................................................................................................................. 060 No Olho do Furacão. Trabalho Médico e o Programa Saúde da Família. Angela Aparecida Capozzolo. ................................................................................................................................ 062 Necessidades de saúde na estratégia de Saúde da Família, no município de Jequié BA: em busca de uma tradução. Adriana Alves Nery. ............................................................................................................................................ 064 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro v.3 nº 9 p. 001-072 abr / jun 2007 RBMFC Summary EDITORIAL New ways for Primary Health Care Research in the Americas. Carlos Eduardo Aguilera Campos. .......................................................................................................................... 003 ARTICLES Evaluation of the preventive Program “Sexuality and Adolescence”, carried out with students from the periphery of the city of Campinas. Osmar Ferreira Rangel Neto and Solange L´abbate. ..................................................................................................... 004 The Quality of General Prectice and Family Consultation: are doctors prepared to correctly evaluate how the patients feel about? Tiago Santos, Inês Rosendo, Gonçalo Pimenta, Dina Martins, Maria Prazeres Francisco, Maria da Glória Neto and Luiz Miguel Santiago. ............................................................................................. 013 The sensitivity of malnutrition diagnosis using the SIAB and active search of cases. Tatiana Monteiro Fiúza and Marco Túlio Aguiar Mourão Ribeiro. ................................................................................ 021 Gastroenterological Diseases and Family and Community Medicine. Bruno Brunelli, Mariana Eri Sato, Suzane Kioko Ono-Nita and Flair José Carrilho. ......................................................... 027 Signs and symptoms related to low visual acuity in schoolchildren from the Northeast of Rio Grande do Sul. Ellen Zatti Ramos Simionato, Jonathan Soldera, Eduardo Machado Estevão Pires, Filipe Rech Bassani, Eduardo Schmidt Rizzon and Gustavo Basso Poleto. ........................................................................ 038 Prevalence of obesity and abdominal obesity in a sample of users of an Integrated Medicine Ambulatory. Charles R. M. Day, Cristiane C. Cabral, Vivian S. Lima, Gustavo Vaitsman, Ronaldo M. Louzada Junior, Christiano Buarque, Maria Inês Padula Anderson and Rosimere J. Teixeira. ............................................................... 045 CASE REPORT Adherence to chronic disease treatment using an HIV positive adolescent as a model: a case study. Larissa Matsumoto, Júlia Andrade de Oliveira, Camila Aparecida Moma, Telma Kenshima, Marília Martins Corrêa and Gustavo Tenório Cunha. .................................................................................................. 053 THESE ABSTRACTS Evaluation of child health care in the Family Health Program, in the southern region of Porto Alegre, Brazil. Erno Harzheim. ................................................................................................................................................. 060 In the middle of the windstorm: the physician’s work and the Family Health Program. Angela Aparecida Capozzolo. ................................................................................................................................ 062 Health needs in the context of the Family Health Program in the city of Jequié-BA: searching to understand. Adriana Alves Nery. ............................................................................................................................................ 064 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro v.3 nº 9 p. 001-072 apr / jun 2007 RBMFC Editorial Novos rumos para a Pesquisa em APS nas Américas. Editorial New ways for Primary Health Care Research in the Americas. Carlos Eduardo Aguilera Campos* A Organização Panamericana de Saúde, com o apoio do Ministério da Saúde do Brasil, promoveram nos dias 11, 12 e 13 de dezembro um encontro em Belo Horizonte no qual foram lançadas as bases para a criação de uma Rede de Excelência em Atenção Primária à Saúde nas Américas. Estavam presentes neste primeiro encontro representantes de instituições acadêmicas e de serviços dos EUA, Canadá, Espanha, Argentina, Colômbia, Cuba e Brasil. Como ressaltou o documento base do encontro e os debates realizados nestes dias teve o objetivo de criar uma rede de instituições de pesquisa e serviço em APS, de modo a fortalecer os princípios contidos no compromisso firmado de Renovação da APS no continente. Entre as principais funções da rede incluem-se: - Coletar, organizar, analisar e disseminar a produção científica em APS e seu papel nos sistemas de saúde; - Desenvolver e adaptar metodologias para a avaliação e análise de desempenho da APS; - Possibilitar a difusão de instrumentos que advoguem e divulguem a importância da implantação nos países de uma Atenção Primária à Saúde Renovada; base de sistemas de saúde universais e eqüitativos; - Articular os parceiros para tomar parte em estudos e pesquisas multicêntricas; - Prover assessoria e apoio técnico relacionados ao desenvolvimento da APS, de sistemas e políticas de saúde; - Organizar fóruns e encontros para o intercâmbio de experiências; - Mobilizar recursos para o financiamento da rede e projetos de cooperação técnica; - Realizar análises sobre os papeis e funções dos níveis de atenção primária e secundária dos sistemas de saúde. No encontro ficou ainda estabelecida a formação de um comitê executivo que teria a função de ampliar os contatos para a consolidação de uma rede ampla e representativa, facilitar os canais de comunicação entre os seus membros e propor desdobramentos para o trabalho, incluindo a agenda futura de encontros. A SBMFC está presente e apóia esta e outras iniciativas de consolidar a APS não só como uma estratégia de reestruturação dos sistemas nacionais de saúde e da MFC como uma especialidade médica essencial aos indivíduos, famílias e comunidades. Entendemos que estas são também disciplinas e áreas de conhecimento científico que merecem um maior reconhecimento da comunidade acadêmica e dos órgãos de fomento no Brasil e no Exterior. A RBMFC é portanto um canal de todos aqueles que produzem conhecimento nestes campos da ciência. * Editor RBMFC. 003 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 RBMFC Avaliação do Programa de intervenção preventiva “Sexualidade e Adolescência”, com jovens estudantes da periferia do município de Campinas (SP). Evaluation of the preventive Program “Sexuality and Adolescence”, carried out with students from the periphery of the city of Campinas. Osmar Ferreira Rangel Neto* Solange L´abbate** Resumo A questão da sexualidade na adolescência é um desafio para a saúde pública, havendo necessidade de desenvolvimento de programas mais efetivos. Para tanto, deve-se compreender a dimensão sociocultural do tema, observando a especificidade dos diferentes contextos nos quais os jovens estão inseridos e que os têm tornado vulneráveis. O programa contou com a participação de 23 estudantes de medicina, três profissionais da Unidade Básica de Saúde local e 170 estudantes de uma escola da periferia. Foi utilizada a metodologia da pesquisa-ação, incluindo como estratégia de trabalho oficinas, entendidas como espaço de aprendizagem compartilhada. Foi realizado um processo de avaliação com objetivo de avaliar o impacto e a efetividade da intervenção. Os resultados mostram que os jovens aprovaram o projeto porque se identificaram como peças fundamentais para a construção do seu conhecimento, compreendendo que o exercício da sexualidade de maneira consciente é um passo fundamental nesta fase e reconhecendo-se, portanto, como sujeitos da própria vida. Abstract The question adolescent sexuality poses a challenge to public health that calls for more effective programs. For developing such programs however it is necessary to understand the social and cultural aspects involved in the question and to consider the different specific contexts the young people are living in and that are turning them vulnerable. The program counted with the participation of 23 medicine students, 3 professionals from local Primary Care Units and 170 students from schools in the periphery of the city of Campinas. The methodology used in this study was action research and the strategy chosen were workshops understood as spaces for shared learning in group activities. An evaluation process was carried out for determining the impact and effectiveness of the intervention. The results show that the youths approved the program because they were able to identify themselves as a fundamental part in the construction of knowledge and - understanding that exercising their sexuality in a responsible way as a fundamental step in this phase - they recognized themselves as subjects of their own life. Palavras-chave: Sexualidade; Adolescente; Vulnerabilidade; Avaliação de Programas; Projetos de Saúde. Key Words: Sexuality; Adolescent; Vulnerability; Program Evaluation, Health Projects. * Acadêmico do 5º ano do curso de graduação em Medicina, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, São Paulo, Brasil. ** Socióloga, Professora Assistente, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, São Paulo, Brasil. 004 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Avaliação do Programa de intervenção preventiva “Sexualidade e Adolescência”, com jovens estudantes da periferia do município de Campinas (SP). Osmar Ferreira Rangel Neto e Solange L´abbate. 1. Introdução Convivemos, no Brasil, com duas definições acerca das fronteiras cronológicas que delimitam a adolescência: a do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº. 8069/ 1990) classifica um indivíduo como adolescente, se este estiver na faixa etária dos 12 aos 18 anos de idade; já a Organização Mundial de Saúde delimita a adolescência como a segunda década de vida (10 aos 19 anos) e também estabelece como juventude o período de 15 a 24 anos de idade. Para o planejamento de suas ações, o Ministério da Saúde segue a recomendação da OMS, particularmente o período definido como juventude1. Esta fase peculiar da vida dos seres humanos é compreendida por dois fenômenos tidos muitas vezes como sinônimos: a puberdade, que é a vertente biológica do processo, caracterizada pelas transformações físicas e fisiológicas, sendo universal a todos os indivíduos, e a adolescência propriamente dita, que correspondente ao componente biopsicosocial, que, embora se inicie durante a puberdade, pode manter-se por mais tempo e envolve a maturação do indivíduo em termos de comportamento biológico e social; cada ser vive de maneira ímpar, em cada família ou sociedade, esta vertente do processo2. Algumas das características do desenvolvimento psicológico-emocional observadas na maioria dos adolescentes foram compreendidas na Síndrome da Adolescência Normal e incluem: busca de si mesmo, separação progressiva dos pais, tendência grupal, desenvolvimento do pensamento abstrato (necessidade de intelectualizar e fantasiar), evolução da sexualidade, crises religiosas, vivência temporal singular, atitude social reivindicatória e constantes flutuações de humor3. Uma das principais aquisições no funcionamento cognitivo do indivíduo que está passando pela adolescência é o desenvolvimento do pensamento operacional formal – tal acesso leva ao surgimento de um fenômeno conhecido como egocentrismo. O adolescente se considera único e julga que ninguém passou por aquilo que ele está vivendo no momento e, conseqüentemente, passa a ter dificuldades de reconhecer sua vulnerabilidade frente às novas 005 experiências/descobertas da vida4. Aniquilar esse processo seria impedir a formulação de valores e saberes que constituirão a identidade e conseqüentemente a autonomia dos jovens5. Outra questão pertinente a ser colocada, e importante geradora de conflitos, refere-se ao término da adolescência, período tido, muitas vezes, como representante da capacidade para assumir compromissos profissionais e independência econômica, para constituir família, geralmente vinculada ao advento da maternidade/paternidade5,6,7. Estabelece-se uma “moratória” entre os jovens e seus responsáveis, o adolescente reconhece que para se tornar um adulto ele precisa ser feliz e ter o reconhecimento frente à sociedade, e, para tanto, há dois principais campos a serem concentrados os seus esforços de competição: o amoroso-sexual e o produtivo. Entretanto, apesar de julgar que seu corpo e sua “cabeça” estão prontos para tal busca, percebe que ainda não é reconhecido como capaz, tendo de ficar sob os cuidados de seus pais por cerca de mais dez anos até a chegada da “maturidade”8. Assim, na busca pelo reconhecimento, o jovem cria “microcosmos”, que vão desde grupos de amigos até gangues, ou então passa a valer-se da transgressão e da atitude social reivindicatória para ser observado por uma sociedade que não o enxerga como integrante dela. A sexualidade é uma dimensão fundamental da vida humana e se caracteriza pelas práticas e desejos relacionados à afetividade, ao prazer, aos sentimentos e ao exercício da liberdade e da saúde1. É evidenciada não somente por aquilo que fazemos, mas por aquilo que somos, assim não pode ser entendida apenas como uma proposta individual, mas construída por meio da influência de múltiplos fatores, agrupados em três principais vertentes: a histórica, a cultural e a de raiz social3, as quais geram limites, preconceitos, mitos e tabus. Para os adolescentes, a sexualidade se configura um importante campo de descobertas e vivências, fundamentais ao exercício da autonomia e a construção de valores como responsabilidade, identidade e sentimentos. De maneira equivocada os programas de saúde dirigidos Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Avaliação do Programa de intervenção preventiva “Sexualidade e Adolescência”, com jovens estudantes da periferia do município de Campinas (SP). Osmar Ferreira Rangel Neto e Solange L´abbate. aos jovens simplesmente têm desconsiderado essa dimensão e focado ações apenas no campo biomédico1. É de fundamental importância a compreensão da dimensão sociocultural da questão Sexualidade e Adolescência no entendimento de que a condição mínima para que um adolescente se previna é a assunção de uma postura ativa de tornar-se sujeito da própria saúde9, ou seja apenas aspectos biológicos e culturais não são suficientes para orientar estratégias de educação e promoção de saúde. Deve-se observar a particularidade social e cultural na qual os jovens estão inseridos e como isso influencia a constituição da sua identidade e que os tornam mais suscetíveis as DST, à AIDS e à gravidez10,11. Segundo dados do IBGE, de 2001, são 51 milhões de brasileiros entre os 10 a 24 anos, o que corresponde a um terço da população brasileira, os jovens dos 10 aos 19 anos correspondem a 21% da nossa população, sendo que grande parte vive nos grandes centros urbanos 1 . Considerando a faixa etária dos 16 aos 19 anos, 67,4% dos homens e 55,2% das mulheres já haviam iniciado atividade sexual12. Desde o início da década de 1980, com o advento da transição epidemiológica, a taxa de fecundidade total vem caindo, exceto na faixa dos 15 aos 19 anos, cujos índices ganham peso quando comparados ao concomitante decréscimo nas taxas do grupo etário dos 20 aos 24 anos6. As internações por gravidez, parto, aborto ou puerpério na faixa dos 10 aos 19 anos correspondem a 37% do total de internações entre mulheres no SUS1. Na cidade de Campinas, o percentual de nascidos vivos que possuem mães na faixa dos 10 aos 19 anos tem sido em torno dos 14%13. Com relação a AIDS, a situação é semelhante: em 2000, configurava-se como 4ª causa de morte no grupo etário dos 20 aos 49 anos, sendo que 70% dos casos ainda se concentravam na faixa dos 20 aos 39 anos, indicando que novas infecções acontecem principalmente entre os mais jovens14. A oportunidade para o desenvolvimento do programa Sexualidade e Adolescência veio a partir de uma demanda apresentada pelo Centro de Saúde Parque da Figueira ao Distrito Sul de Saúde da Secretaria Municipal de Campinas (SMS). O Centro de Saúde daquele bairro, por intermédio da direção da Escola Estadual Deputado Jamil Gadia, foi procurado para auxiliar no desenvolvimento de algum instrumento de intervenção mais eficaz direcionado ao público adolescente estudante para abordar questões relacionadas à gravidez, comportamentos sexuais seguros, DST e AIDS. Por meio de uma parceria entre a UNICAMP e a SMS, tal demanda chegou à coordenação do Módulo Saúde e Sociedade, ministrado aos estudantes do curso de Medicina* . Já havia em desenvolvimento na escola um programa de âmbito governamental relacionado ao assunto e que contava com profissionais de saúde da rede básica (não ligados à comunidade local), cujo principal foco de abordagem eram aspectos da fisiologia da reprodução, anatomia da área genital e apresentação dos principais métodos contraceptivos – a distribuição de panfletos e cartilhas explicativas também eram instrumentos em utilização. A diretora, à época, relatou sua insatisfação, bem como da dos alunos, em relação e este programa e mostrou-se amplamente receptiva ao desenvolvimento de uma nova proposta. Assim, iniciamos o programa Sexualidade e Adolescência, tendo por base que uma intervenção só poderia ser bem-sucedida se inspirada nos princípios da promoção e proteção de direitos individuais e sociais, integrando propostas que assumem a vulnerabilidade à Aids e à gravidez, em um só tempo, individual e coletivo. Essa visão pressupõe não somente a disseminação de informações corretas, mas, fundamentalmente, da possibilidade dos indivíduos nela se reconhecerem, usando-as para sua proteção, o que não acontece independentemente das culturas, do contexto sociopolítico de cada local, dos programas de saúde, do desenvolvimento e da educação15. 2. Sujeitos e Métodos A coordenação do Módulo Saúde e Sociedade propôs a utilização da metodologia da pesquisa-ação para o desenvolvimento das atividades do programa, e a opção por essa metodologia participativa permitiu que os objetivos e estratégias fossem definidos a partir de um vínculo com *Salienta-se que a coordenadora do Módulo Saúde e Sociedade é a orientadora da presente pesquisa. 006 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Avaliação do Programa de intervenção preventiva “Sexualidade e Adolescência”, com jovens estudantes da periferia do município de Campinas (SP). Osmar Ferreira Rangel Neto e Solange L´abbate. os adolescentes a fim de compreender a realidade e o contexto socioeconômico e cultural em que os jovens estavam inseridos16. Como instrumento de trabalho optou-se pela estratégia das oficinas, compreendidas como um espaço de aprendizagem compartilhada por meio da atividade grupal, face a face e com objetivo de construir coletivamente o conhecimento7. As oficinas surgiram como um espaço em que idéias e valores são colocados de forma aberta e sem restrições, propiciando uma discussão sobre a autonomia da responsabilidade sobre questões sexuais, necessárias à ruptura do jovem com a alienação produzida pelo mundo social. Iniciamos nosso trabalho em abril de 2004, com cerca de 60 estudantes da 1ª série do Ensino Fundamental e, a seguir, dada a repercussão positiva na escola e na comunidade, expandimos o trabalho para cerca de 90 estudantes das turmas de 2ª e 3ª série do Ensino Fundamental. As freqüências dos encontros variaram de dois a três por mês, de acordo com a disponibilidade das atividades letivas na escola. Os trabalhos foram encerrados ao final do ano letivo, em novembro. Participaram 23 acadêmicos do curso de Medicina, três funcionários da UBS (um agente de saúde, um auxiliar de enfermagem e um auxiliar de odontologia). O objetivo da presente pesquisa foi o de avaliar o impacto e a efetividade do programa após cerca de seis meses do desenvolvimento dos trabalhos, com relação à aquisição de informações e adoções de práticas concretas com relação à prevenção. Para o cumprimento de tal objetivo foi elaborado um questionário auto-aplicado e estruturado com respostas fechadas, contendo 24 questões, e uma aberta ao final, aplicado aos jovens. Tal instrumento de pesquisa foi elaborado com base nas atividades realizadas, bem como nos temas abordados durante o desenvolvimento do programa. Os dados foram analisados pelo programa “EPI-INFO”, versão 6.04 de 2001 e consistiu na determinação da freqüência das respostas a cada questão. Os critérios de inclusão dos jovens na pesquisa 007 foram: estar matriculado e freqüentando regularmente o ano letivo de 2005 na escola em que o projeto foi desenvolvido e ter participado de pelo menos cinco oficinas durante o desenvolvimento do programa. Assim, dos 150 jovens participantes do programa, 107 foram incluídos nos critérios (considerado grupo “apto”) e 81 concordaram em participar com os termos da pesquisa, definidos pelo Termo de Consentimento Livre e Esclarecido dirigidos aos pais dos jovens (já que a maioria destes apresentava idade inferior a 18 anos), o que correspondeu a 75,7% do total de aptos. 3. Resultados e discussão A média de idade dos participantes foi de 16,15 anos (desvio-padrão de 0,963), foram incluídos nesta análise 32 rapazes (39,5%) e 49 moças (60,5%). Com relação ao início da atividade sexual, 20 jovens (24,7%) referiram já terem iniciado antes do desenvolvimento do programa e 38 (47,3%) afirmaram terem iniciado algum relacionamento sexual após as atividades realizadas – neste segundo grupo, conforme se observa na Tabela 1, podemos inferir que o programa foi eficaz, no sentido da sensibilização dos jovens em relação à prevenção e adoção de práticas concretas, bem como no desenvolvimento da capacidade de negociação e do diálogo com o parceiro de temas considerados tradicionalmente como tabus. Uma importante constatação pertinente é o fato de que nenhum jovem referiu não ter estabelecido algum tipo de relacionamento sexual. Com relação à aquisição de informações técnicas, foi questionado aos jovens, por meio de uma questão de múltipla escolha, em quais locais e/ou situações julgavam de maior possibilidade para a aquisição de infecção pelo HIV. Os adolescentes tiveram um bom desempenho, mostrando que vias como sexo vaginal sem camisinha (n=72 - 22,5%), sangue contaminado (n=60 – 75%) e seringas (n=62 – 77,5%) são reconhecidas pela maioria como práticas de risco e que o uso de talheres (n=0), o abraço (n=2 – 0,6%), a “picada de mosquito” (n=5 – 1,5%), e o uso do banheiro (n=0) não se relacionam a um risco Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Avaliação do Programa de intervenção preventiva “Sexualidade e Adolescência”, com jovens estudantes da periferia do município de Campinas (SP). Osmar Ferreira Rangel Neto e Solange L´abbate. Tabela 1. Adoção de práticas discutidas durante as atividades, referida pelos jovens que iniciaram a vida sexual após o programa (n=38 – 47,0%) significativo. Contudo, duas situações importantes, dentre as propostas, evidenciam um sinal de alarme. Apenas 35% (n=28) das respostas levavam em consideração o sexo oral sem camisinha como prática de risco e 62,5% (n=50) o sexo anal sem camisinha. Assim, podemos, de maneira intuitiva, inferir que o incremento e a continuidade das atividades se configurariam como uma alternativa viável e certamente mais eficaz. Quando questionados com relação ao uso do condom masculino, apesar de a grande maioria afirmar fazer uso do preservativo em todas relações sexuais (n=67 – 82,3%), identificamos que um motivo importante ligado à sua não-utilização é a eventualidade das relações sexuais – 11 jovens (13,6%) apontaram a seguinte alternativa do questionário: “Uso somente algumas vezes, e, em outras, pinta um clima, mas não tem uma à mão, e, aí, rola sem mesmo”. Estudos da literatura têm corroborado que a imprevisibilidade das relações, sobretudo entre os mais jovens, é um fator de risco importante para a não-adoção de práticas mais seguras17. A figura do médico é apontada por 39 jovens 008 (48,1%) como a fonte na qual as informações e dúvidas com relação à questão da sexualidade possam ser mais efetivamente esclarecidas, a família (pai e/ou mãe) foi a segunda opção mais escolhida (n=13 – 16%), o que nos denota a importância do núcleo familiar na constituição (ou não) da vulnerabilidade a que estes jovens estão submetidos. Ao reconhecerem o médico como uma figura importante é relevante explorar futuramente o fato de que o serviço de saúde se constrói hoje, no SUS, alicerçado em um acolhimento composto por uma equipe multidisciplinar, em que o profissional médico é apenas um de seus elos. Ao serem inquiridos sobre a adoção de diálogo com relação à negociação de práticas seguras (Tabela 2), a maioria dos jovens refere já ter conseguido estabelecer algum tipo de comunicação com o parceiro sobre o assunto, entretanto 29 jovens (36%) apontaram não terem tido a capacidade de conversar com seu parceiro sobre alguma prática de prevenção, o que é um número expressivo – para uma parcela significativa destes ainda há alguns entraves como vergonha, atribuição de fidelidade ao parceiro e estabilidade no relacionamento. Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Avaliação do Programa de intervenção preventiva “Sexualidade e Adolescência”, com jovens estudantes da periferia do município de Campinas (SP). Osmar Ferreira Rangel Neto e Solange L´abbate. A maioria das garotas se preocupa em evitar uma gravidez indesejada e adota métodos para se prevenir, sendo que a maior parte refere somente o uso do condom masculino (21 garotas – 43%), 12 garotas afirmaram usar a pílula anticon- A estratégia das oficinas foi aprovada por 74,1% dos adolescentes (n=60), que apontaram como um dos principais benefícios a criação de um ambiente de descontração e estabelecimento de vínculos, tornando Tabela 2. Adoção de diálogo por parte dos jovens em relação à negociação de práticas seguras com os(as) parceiros(as). cepcional associada ao preservativo (24,5%), e seis garotas (12,3%) afirmaram utilizar a pílula, mas associado ao uso de preservativo irregular, não necessariamente em todas suas relações. Entre os rapazes, é interessante notar que 40,6% (13 garotos) afirmaram que se preocupam com a questão da contracepção, tomando a atitude ou de sugerir algum método ou de questionar sua parceira sobre o uso de alguma formulação contraceptiva, apenas três garotos (9,4%) afirmam que a preocupação em relação à contracepção é exclusiva da mulher. Tal fato sugere fortemente uma mudança no comportamento atribuído historicamente ao homem no que diz respeito à prevenção de uma gravidez indesejada. Ao serem reportados diretamente sobre em quais as situações os jovens faziam o uso regular da camisinha, a grande maioria (n=71 – 87,6%) referiu o uso sistemático em todas relações, e oito jovens (10%) afirmaram que o uso da camisinha era restrito a parceiros eventuais (“o ficante”), pessoas fora do círculo de amizades ou de confiança (como o parceiro estável – namorado(a)). 009 bastante favorável a discussão e reflexão de temas relacionados à sexualidade. Cinqüenta jovens (61,7%) julgaram que as discussões decorrentes das atividades do programa suscitaram aquisição de conhecimento significativo, e a criação de “espaços” de livre comunicação e expressão foram fundamentais para o compartilhamento de dúvidas e identificação de pontos fracos, que muitas vezes ficavam sem orientação adequada por falta de ambientes/pessoas que pudessem lidar melhor com a juventude. Quando foi solicitado aos jovens escolherem um tema (dentre todos os abordados nas atividades do programa) que melhor ficou esclarecido, a questão da AIDS foi apontada como assunto melhor abordado (n=42 – 51,9%) e os temas que deixaram mais dúvidas foram: outras DST (não AIDS) e outros métodos contraceptivos (DIU, camisinha feminina, patchs, implantes intradérmicos) e Impotência Sexual/Ejaculação Precoce (n=8 – 9,9. Satisfatoriamente, a maioria (n=31 – 38,3%) afirmou que não houve dúvidas sobre nenhum dos assuntos abordados durante as atividades Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Avaliação do Programa de intervenção preventiva “Sexualidade e Adolescência”, com jovens estudantes da periferia do município de Campinas (SP). Osmar Ferreira Rangel Neto e Solange L´abbate. (Tabela 3). Tais resultados mostram algo que vem sendo identificado em outros estudos afins, o de que temos planejado trabalhos em relação à área da sexualidade, fundamentados basicamente no tema da AIDS, assunto de fundamental importância, porém não único. Certamente a predileção pela discussão em torno da AIDS se deva a um resquício do avanço rápido da epidemia, principalmente no final da década de 1980, e aos esforços em termos de receber adolescentes. Durante o desenvolvimento do trabalho, apesar de contarmos com três funcionários da unidade local, a UBS não participou de forma muito ativa, no sentido de receber os jovens, de preparar programações especiais e/ou dirigidas em reação ao assunto. Com relação ao seguimento das atividades do programa, 39 jovens (48,1%) mostraram interesse pela continuidade do programa sem nenhuma modificação do Tabela 3. Assuntos que, para os jovens, ainda restam dúvidas: Vigilância em Saúde dispensados para a “contenção” da infecção. Um dos objetivos do programa era suscitar nos jovens o interesse pelo Centro de Saúde, no sentido de sensibilizar nos jovens uma visão da Unidade Básica como um espaço de toda comunidade, em que pode ser encontrada uma retaguarda importante para sanar dúvidas e esclarecimentos com relação à questão. Entretanto, após o desenvolvimento das atividades, 23 jovens (28,4%) continuam com o mesmo posicionamento com relação à UBS, apontada como local útil somente a pessoas doentes ou que precisam de remédio ou vacina; 12,3% (n=10), afirmaram que as atividades do programa até conseguiram despertar o interesse em procurar a unidade básica, mas o programa não conseguiu fazer com que passassem a enxergar o “posto de saúde” como um local capaz de 010 seu formato, e 35 jovens (43,2%) apontaram interesse na continuidade do programa, mas com pequenas modificações em sua estrutura. Este dado é extremamente importante, pois, ao mesmo tempo em que reconhecem sua importância, os jovens mostram interesse em promover readequações que, certamente, iriam torná-lo mais interessante/ atraente e conseqüentemente mais eficaz. A questão de sermos estudantes de Medicina, vindos de outro estrato socioeconômico (e até mesmo cultural), nos preocupava muito, no sentido de que talvez não conseguíssemos estabelecer um vínculo (a)fetivo com os jovens, necessário para a boa condução das atividades, entretanto tal “diferença” não foi significante para a boa ou má condução dos trabalhos. Alguns reconheceram a existência da diferença, mas mesmo assim julgaram que os trabalhos foram bem conduzidos (n=20 – 24,7%) e outros, Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Avaliação do Programa de intervenção preventiva “Sexualidade e Adolescência”, com jovens estudantes da periferia do município de Campinas (SP). Osmar Ferreira Rangel Neto e Solange L´abbate. não conseguiam ver relação entre essas diferenças e o bom ou mau desempenho das atividades (n=33 – 40,7%), o que é também outro fato positivo. A nota média atribuída ao programa foi 9,210 (o desvio padrão de 0,847, a mediana de 9,000), 29 jovens (35,8%) declaram interesse em participar do programa como agentes multiplicadores, parcela significativa se considerarmos o contexto em que tais jovens estão inseridos como baixa qualidade de ensino, poucas oportunidades de trabalho, convivência próxima de problemas como drogas, tráfico, roubos, dentre outros. 4. Conclusões Analisando os resultados, podemos estabelecer uma linha de raciocínio interessante: as atividades do programa, por meio das oficinas, permitiram aos jovens inicialmente reconhecerem a sua vulnerabilidade (ou talvez a sua não tão invulnerabilidade, como pensavam), identificando a necessidade de ajuda, os esforços de todos (pesquisadores/ planejadores das atividades junto dos próprios adolescentes) conseguiram construir um ambiente que permitiu inicialmente a formação de vínculos e, depois, um círculo de confiança em que as dúvidas, angústias, questionamentos passaram a ser colocadas de maneira integral, sem meiaspalavras ou rodeios, gerando conhecimento útil e aplicável a experiências reais vividas e, muito mais, a aquisição de habilidades que capacita os jovens a se tornarem sujeitos de sua própria vida e de sua própria saúde/sexualidade, tornando-os capazes de se identificarem como força importante para a continuidade das ações desenvolvidas (inclusive propondo mudanças), bem como para a expansão do programa, sendo eles mesmos os condutores a outros jovens que não tiveram a oportunidade de passarem pelas atividades do projeto. Certamente, ainda há pontos que devem ser explorados, como a questão do Centro de Saúde ser mais “próximo” dos jovens, a influência de sentimentos subjetivos como amor, estabilidade de relacionamento, fidelidade, desejo e impulso no comportamento sexual. Demandas importantes foram identificadas – a 011 continuidade dos trabalhos é a mais evidente, justificada no sentido de re-orientar conceitos equivocados, para modificar alguns aspectos de planejamento e execução das atividades e para que os próprios jovens se apropriem desta experiência e a desenvolvam a outros jovens, ao contrário da maioria das propostas desenvolvidas que tratam a questão de maneira extremamente estereotipada e centrada no saber biomédico. Os jovens identificam que o exercício da sexualidade é, sem dúvida, um processo fundamental para constituição de valores e sentimentos importantes na vida adulta, mas não é isento de conseqüências, algumas vezes indesejáveis, o que é um passo fundamental para a adoção efetiva de práticas seguras, apropriando-se do comando de suas decisões pessoais de uma maneira muito mais responsável e consciente. 5. Referências 1.Brasil. Ministério da Saúde. Marco teórico e referencial: Saúde sexual e reprodutiva de adolescentes e jovens (versão preliminar), Brasília (DF): Editora MS; 2006. 2.Zeferino AMB; Barros Filho AA; Bettiol H; Barbieri AM. Acompanhamento do crescimento. Jornal de Pediatria. 2003;79(supl.1):S23-S32. 3.Leal MM; Saito MI. Desenvolvimento psicossocial do adolescente e Síndrome da Adolescência Normal. In: Sucupira ACLS; Bricks LF; Kobinger MBA; Zuccolotto SMC. (editores). Pediatria em consultório. São Paulo: Sarvier; 2000. p.715-720. 4.Boruchovitch E. 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Saúde Pública. 2003; 37(5): 566-575. 012 Este artigo é o produto de uma pesquisa de iniciação científica tendo sido financiada com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (processo número 05/52319-5), pelo período de agosto de 2005 a agosto de 2006. A referida pesquisa recebeu aprovação pela Comissão de Ética em pesquisa da Faculdade de Ciências Médicas (processo número: 142/2005) e atende as especificações da resolução 196/96 do CNS-MS. Endereço para correspondência: Osmar Ferreira Rangel Neto Rua Pedro Vieira da Silva, 144, apto. 12G Campinas (SP) CEP: 13080-570 Endereço Eletrônico [email protected] Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 RBMFC Qualidade da consulta de Medicina Geral e Familiar: conseguem os médicos julgar corretamente a qualidade sentida pelos doentes? The Quality of General Prectice and Family Consultation: are doctors prepared to correctly evaluate how the patients feel about? Tiago Santos* Inês Rosendo* Gonçalo Pimenta* Dina Martins* Maria Prazeres Francisco** Maria da Glória Neto** Luiz Miguel Santiago*** Resumo A valorização da atividade médica em Medicina Geral e Familiar (MGF), conhecida no Brasil como Medicina de Família e Comunidade, depende, entre outros fatores, do resultado de um encontro médico/doente. O especialista em MGF, ao ter de gerir a sua atividade com base nos pilares fundamentais do contexto, da ciência e da atitude, deve ponderar que a qualidade é algo que depende também da interface que ele contata. Objetivos: verificar a satisfação dos pacientes com a consulta médica de Clínica Geral. Averiguar a capacidade de os médicos avaliarem corretamente a satisfação dos pacientes na consulta. Foi feito um estudo observacional, transversal, com intenção analítica. O material utilizado consistiu em: três médicos de Medicina Geral e Familiar de um Centro de Saúde, questionário validado e usuários da consulta em dois dias distintos de trabalho. Métodos: em dois dias de atividade, apenas sabidos no início de período laboral, foram entregues pelos médicos o questionário com 11 afirmações. No final da cada consulta os médicos preenchiam questionário sobre os mesmos pontos, mas, na sua óptica e após a saída do paciente. Critérios de inclusão: maiores de 16 anos, capacidade de leitura e escrita e aceitação para participar. Análise estatística descritiva e inferencial ( 2 e t de student). Análise de diferenças na resposta às afirmações do questionário, por um modelo de correlação bi-variada com o coeficiente tau-b de Kendall com sensibilidade a 5%. Resultados: recebidos 43 (64,2%) dos questionários entregues. Idade média de 42,7±16,8 anos, sendo majoritariamente do sexo feminino (72,1%). Para 51,3% da amostra não terá havido possibilidade de falar sobre as preocupações de saúde e para 50% não parecem ter sido recebidas instruções acerca de estilos de vida saudáveis para a doença, e para 56,1% o tempo de duração da consulta não terá sido suficiente. Sem diferenças com significado as respostas por sexo, grupo etário e formação. Apenas na questão de o médico querer advogar a saúde do doente, as respostas são consonantes entre doentes e médicos. Conclusões: boa avaliação da consulta nos 11 fatores estudados. Os médicos revelam Palavras-chave: Garantia da Qualidade dos Cuidados de Saúde; Avaliação em Saúde; Medicina de Família e Comunidade; Relação Médico-paciente. Key Words: Quality Assurance; Health Care; Evaluation in health; General and Family Practice; Physician-Patient Relation. *Médico residente em Medicina Geral e Familiar, Centro de Saúde de Eiras, Portugal. **Médica, assistente graduada de Clínica Geral, orientadora de Estágio de Especialidade e de alunos do ano profissionalizante da Licenciatura em Medicina da Faculdade de Medicina de Coimbra, Centro de Saúde de Eiras, Coimbra, Portugal. ***Médico, chefe de Serviço de Clínica Geral, mestre em Saúde Pública, orientador de Estágio de Especialidade de Clínica Geral e de alunos do ano profissionalizante da Licenciatura em Medicina da Faculdade de Medicina de Coimbra Centro de Saúde de Eiras, doutorando em Medicina da Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal. 013 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Tiago Santos, Inês Rosendo, Gonçalo Pimenta, Dina Martins, Maria Prazeres Francisco, Maria da Glória Neto e Luiz Miguel Santiago. baixa capacidade de avaliação correta da satisfação dos pacientes na consulta, apenas estando médico e doente de acordo quanto à disponibilidade do médico para advogar a saúde do paciente. Qualidade da consulta de Medicina Geral e Familiar: conseguem os médicos julgar corretamente a qualidade sentida pelos doentes? the doctors were ready to care for the health of the patients. Conclusions: the consultations were considered good with regard to the 11 factors studied. The doctors reveal low capacity for correctly predicting the satisfaction of their patients with the consultation. Doctors and patients only agree with respect to the doctor’s readiness to care for the patient’s health. Abstract One of the criteria for evaluating medical activity in the field of Family and General Practice, in Brazil known as Family and Community Practice, is the satisfaction obtained in the doctor-patient encounter. The general practitioner, while performing his activity based on the fundamental pillars context, science and attitude, has to consider that quality is something that has to be seen from the viewpoint of the patient as well. Objectives: verify the degree of satisfaction of patients with the general practice consultation and the capacity of the practitioners to correctly predict the satisfaction of their patients with the consultation. An observational transverse study was carried out with the intent to analyze this question. The subjects ans material used in the study consisted of: three general practitioners from a Primary Care Unit, a validated questionnaire and users of consultations on two distinct workdays. Method: during two specific days, only revealed in the beginning of each work shift, the doctors asked the patients to answer a questionnaire containing 11 statements. In the end of each consultation, after the patient had left, the doctors answered the same questionnaire from their own perspective. Criteria for inclusion in the study: over 16 years of age, ability to read and write and consensual participation. Data were submitted to descriptive and inferential statistical analysis (chi square and student’s t test). The differences in the answers to the statements contained in the questionnaire were analyzed with a bivariable correlation model using Kendall’s tau-b coefficient with sensibility of 5%. Results: Forty three (64,2%) of the distributed questionnaires were returned. The age mean of responders was 42,7±16,8 years, most of them of feminine sex (72,1 %). 51,3% of the sample claimed that they were not given the chance to speak about their health concerns, 50% seem not to have received instructions about healthier life styles in relation to their disease and in the opinion of 56,1% the consultation was too short. The answers showed no significant differences in relation to sex, age group and educational level of the responders. The only question in which doctors and patients agreed was that 014 1. Introdução A valorização da atividade médica em Medicina Geral e Familiar (MGF), conhecida no Brasil como Medicina de Família e Comunidade, depende, fundamentalmente, do resultado de um encontro médico/doente. De pouco servirá a produção de elevado número de consultas, se destas não advier algo de valor acrescentado para quem apresenta problemas e pede soluções e para quem tem de dar uma resposta a sintomas e sinais, explicando quadros apresentados, expondo planos de atuação, imediatos ou a prazo, e, ao mesmo tempo, gerindo recursos e expectativas em situações de multipatologia1,2,3,4. Em MGF, a questão da empatia não se coloca apenas como o bom relacionamento entre os dois participantes na consulta. Tal tem a ver com a capacidade de, no futuro, o relacionamento poder continuar a ser humano e profissional, para o que deve haver trabalho de formação profissional contínua3,5,6. O especialista em MGF, ao ter de gerir a sua atividade com base nos pilares fundamentais do contexto, da ciência e da atitude, deve ponderar que a qualidade é algo que depende também da interface que ele contata3,7. O alvo da sua atividade, o doente, ser complexo que apresenta um problema a que chama “doença” ou que simplesmente procura consulta médica para certificar que não a tem, quer perceber, quer explicação, quer um plano futuro. Quer, por vezes, apenas uma desresponsabilização8. Toda essa atividade implica disponibilidade, conhecimento, ciência e tempo, sendo julgados de diferentes formas consoante a posição do observador9,10. Neste contexto, qual a qualidade sentida pelos usuários da consulta? Como avaliam os médicos a satisfação Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Tiago Santos, Inês Rosendo, Gonçalo Pimenta, Dina Martins, Maria Prazeres Francisco, Maria da Glória Neto e Luiz Miguel Santiago. dos doentes quanto à consulta realizada? Será que conseguem perceber que satisfizeram o paciente por terem feito um boa interpretação, exame e orientação dos problemas, queixas e sintomas? Alguma evidência já disponível, mas obtida em diferentes contextos, sugere que não11. Segundo a organização da prática da MGF em um particular Centro de Saúde e em atividade própria de formadores de Clínica Geral/Medicina Geral e Familiar, tanto do Ensino de Medicina Familiar na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, como da formação específica pós-graduada da Especialidade de Medicina Geral e Familiar, procuramos responder a essa pergunta analisando, criteriosamente, quadros que têm a ver com a estrutura da consulta, o seu processo e o seu resultado, este entendido como a compreensão do explicado e como a apreciação global da consulta. 2. Objetivos Medir aspectos relacionados à qualidade sentida pelos pacientes com a consulta médica de Medicina Geral e Familiar. Avaliar a concordância da opinião de médicos e usuários sobre aspectos relacionados à satisfação destes com a consulta médica. 3. Material e métodos Estudo observacional, transversal, com intenção analítica. 1º - Material: Três médicos de Clínica Geral/Medicina Geral e Familiar de um Centro de Saúde, questionário validado e usuários da consulta em dois dias distintos de consulta. 2º - Métodos: Em dois dias de atividade, os médicos entregaram o questionário, com 11 afirmações, para as quais era solicitada resposta quanto ao grau de concordância com a afirmação. No final da cada consulta faziam o preenchimento de um questionário versando os mesmos pontos que o doente, mas na sua óptica. Foi solicitado pelos 015 Qualidade da consulta de Medicina Geral e Familiar: conseguem os médicos julgar corretamente a qualidade sentida pelos doentes? médicos, aos usuários da consulta, que respondessem ao questionário fora do gabinete e que o entregassem na secretaria de atendimento onde o veriam ser depositado em caixa própria. A entrega foi apenas realizada a maiores de 16 anos, com capacidade de ler e escrever e que aceitassem participar. Os dias de entrega dos questionários foram revelados apenas no início das consultas de tais dias. As afirmações para os médicos foram construídas pelos próprios, interpretando o que era pretendido nas afirmações colocadas aos usuários. A validação do questionário foi, resumidamente, efetuada em três fases: 1) validação interna após formulação das questões por um painel de peritos; 2) validação externa por um painel de pessoas que se dignaram a responder à compreensibilidade das afirmações e outras dificuldades no preenchimento, verificando-se não haver diferença entre resposta por escrito e oral, com intervalo de seis minutos, neste painel de 16 elementos, o qual não integrou a amostra do presente estudo, conforme a Tabela I; 3) validação lingüística por uma perita em Português. Foi elaborada base de dados para análise estatística descritiva e inferencial ( 2 e t de student). Para análise de diferenças na resposta às afirmações do questionário, foi utilizado um modelo de correlação bi-variada com o coeficiente tau-b de Kendall com sensibilidade a 5%. 4. Resultados Dos 67 questionários entregues nos dias 11 e 15 de junho de 2007, foram recebidos 43 (64,2%). A idade média da amostra é de 42,7±16,8 anos, sendo majoritariamente do sexo feminino (72,1%). As características sociodemográficas medidas, em comparação, encontram-se na Tabela II. Essa amostra representa a população que foi caracterizada em termos de sexo e idade para os dois dias de consulta. Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Tiago Santos, Inês Rosendo, Gonçalo Pimenta, Dina Martins, Maria Prazeres Francisco, Maria da Glória Neto e Luiz Miguel Santiago. Qualidade da consulta de Medicina Geral e Familiar: conseguem os médicos julgar corretamente a qualidade sentida pelos doentes? Tabela I. Resultados de não-diferença entre dois tempos de aplicação do questionário a usuários de Consulta de Clínica Geral, utilizando o teste de Crohnback, para uma amostra de 31 elementos. Tabela II. Características sociodemográficas comparadas na amostra. Na Tabela III são fornecidos resultados obtidos para as 11 afirmações do questionário aplicado aos usuários. Podemos observar um ambiente geral de boa avaliação sobre a consulta, com exceção do exame realizado. Na Tabela IV são referidos os valores encontrados no questionário que os médicos responderam a seguir a cada consulta igualmente avaliada por usuários. Não verificamos diferenças com significado estatístico na distribuição das respostas por sexo, atividade profissional e idade do paciente. 016 Na Tabela V são mostrados os resultados da análise estatística, valendo realçar apenas haver diferença com significado estatístico para a afirmação relativa à advocacia do estado de saúde. Os usuários revelam menor concordância com o sentimento de afirmação de advocacia dos seus problemas pelo médico (92,7% de concordância total e/ou muita) que os médicos (95,4% de concordância total e/ou muita). Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Tiago Santos, Inês Rosendo, Gonçalo Pimenta, Dina Martins, Maria Prazeres Francisco, Maria da Glória Neto e Luiz Miguel Santiago. Qualidade da consulta de Medicina Geral e Familiar: conseguem os médicos julgar corretamente a qualidade sentida pelos doentes? Tabela III. Concordância com as afirmações do questionário por parte dos pacientes. 5. Discussão e conclusões A amostra é limitada no tempo e na quantidade, tendo, no entanto, sido colhida segundo critérios constantes em dias diferentes da semana, permitindo assim pensar ser uma aproximação à realidade para estes três médicos. Podemos, mesmo assim, julgar existirem vários viéses quanto aos usuários da consulta, como de voluntarismo, intenção na resposta, estado de alma pelo tempo de espera para a entrada na consulta e pelo prévio conhecimento do médico, bem como para os médicos de encenação em função do conhecimento do dia de aplicação do questionários. Vale realçar a idade relativamente jovem da amostra. Este trabalho visa, por um lado, ao estudo da avaliação da qualidade da consulta pelos pacientes e, por outro, da capacidade que os médicos têm de predizer a qualidade sentida pelos doentes. Este pode ser um aspecto importante na contínua melhoria da prática, não estando a ser avaliados 017 parâmetros científicos tecnicamente mensuráveis. Apesar de ter sido feito um inquérito que avalia algo com base em experiências concretas – como foi ouvido, atendido, examinado e orientado –, à saída de uma consulta, este tipo de estudo deve ser entendido como uma forma de avaliação de qualidade, com um peso a determinar em um conjunto de outras possibilidades de medição12,13. A concordância com as afirmações que pretendiam avaliar sobretudo o processo e o resultado da “consulta” quanto às envolventes tempo para ouvir, implicação na decisão terapêutica farmacológica, necessidade da realização de exames, exame médico efetuado, tempo de duração da consulta, ensino sobre estilos de vida saudáveis, advocacia dos problemas de saúde do paciente e ambiente geral, ou qualidade em geral da consulta, revelam um aparente bom conceito. Devemos, no entanto, realçar que 51,3% da amostra não julga ter tido da parte do médico a possibilidade Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Tiago Santos, Inês Rosendo, Gonçalo Pimenta, Dina Martins, Maria Prazeres Francisco, Maria da Glória Neto e Luiz Miguel Santiago. Qualidade da consulta de Medicina Geral e Familiar: conseguem os médicos julgar corretamente a qualidade sentida pelos doentes? Tabela IV. Concordância com as afirmações do questionário por parte dos médicos. de falar sobre as suas preocupações de saúde, que 50% não parecem ter recebido instruções acerca de estilos de vida saudáveis para a doença de que padecem e que, para 56,1%, o tempo de duração da consulta não terá sido suficiente. Esta questão é recorrente na literatura médica, sendo difícil, se alguma vez possível, que haja completo encontro de posições14. É, no entanto, curioso verificar que, apesar de 51,3% dos respondentes terem respondido não estarem satisfeitos com o exame realizado, é de 67,5% a concordância de agradado com a consulta. Ou seja: que, em MGF, nem só o exame interessa; é importante, entre outros fatores, o diálogo como paciente. O médico tende a pensar a sua atividade na consulta como bastante boa. Apenas a duração da consulta não é tão bem avaliada, com 25,6% das situações a serem julgadas de pouca concordância em relação ao tempo dedicado. Da comparação das respostas de doente e médico para a mesma consulta, sem que ambos conhecessem as respostas dadas, verifica-se existir apenas uma situação com 018 concordância entre médico e doente na afirmação: “O meu médico manifestou interesse em me orientar na resolução dos problemas de saúde / Manifestei interesse em advogar a saúde o paciente”. Ou seja: apenas para esta pergunta existe similaritude na resposta entre doentes e médicos e, tal como em outros estudos12,13, os médicos têm alguma dificuldade em perceber a avaliação da sua consulta pelos doentes. Será necessário que esses médicos realizem eventuais modificações nos fatores em que aqui notamos diferença de respostas, podendo estas estar relacionadas com a comunicação na consulta. De fato, é possível que a antigüidade de conhecimento entre médico e doente, bem como o tempo de evolução da patologia sejam fatores condicionantes a serem estudados. Para uma amostra de n=47 indivíduos, em 51,3% das respostas é revelado não ter havido possibilidade de falar sobre as preocupações de saúde; para 50%, não parecem ter sido recebidas instruções acerca de estilos de vida saudáveis para a doença e, para 56,1%, o tempo de Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Tiago Santos, Inês Rosendo, Gonçalo Pimenta, Dina Martins, Maria Prazeres Francisco, Maria da Glória Neto e Luiz Miguel Santiago. Qualidade da consulta de Medicina Geral e Familiar: conseguem os médicos julgar corretamente a qualidade sentida pelos doentes? Tabela V. Correlações entre as respostas às afirmações por doentes e médicos. duração da consulta não terá sido suficiente. A avaliação global da qualidade da consulta em 11 pontos é francamente positiva. Os médicos revelam baixa capacidade de avaliação correta da satisfação dos pacientes na consulta, apenas estando médico e doente de acordo quanto à disponibilidade do médico para advogar a saúde do paciente. 6. Referências 1.Gomes LF. A Definição Europeia de Medicina Geral e Familiar, versão reduzida. EURACT. 2005. Rev Port Clin Geral. 2005;21:511-516. 2.Santos I. O desafio da comorbilidade para os serviços de saúde. Rev Port Clin Geral. 2006;22:191-4. 3.Sá AB. O médico, o paciente, o medicamento e a sua 019 prescrição. Rev Port Clin Geral. 2007;23:13-4. 4.Gervas J, Santos I. A complexidade da comorbilidade Rev Port Clin Geral. 2007;23:181-189. 5. Portugal. Ministério da Saúde. Missão para os Cuidados de Saúde Primários. Disponível em: http://www.mcsp.minsaude.pt/NR/rdonlyres/EB139DE8-00B1-4B54-A19F418D98D52DF0/2824/linhas_acção.pdf 6.Starfield B. Comorbidity and its challenges for quality of Primary Care. Rev Port Clin Geral. 2007;23:179-180. 7.Miranda JA. 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Tatiana Monteiro Fiúza* Marco Túlio Aguiar Mourão Ribeiro** Resumo É atribuição da Atenção Primária á Saúde e da Estratégia de Saúde da Família (ESF) atuar na promoção e na manutenção do estado de saúde da população infantil por meio do atendimento e acompanhamento integrais. Para a atuação das equipes de saúde é fundamental a análise de saúde das populações cobertas. Para esse fim o Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB) é instrumento de valor inestimável. O objetivo deste estudo foi demonstrar a sensibilidade no diagnóstico da desnutrição protéico-calórica realizado pelas equipes de Saúde da Família, quando são utilizados apenas dados primários como instrumentos de busca da adequação e posterior informação destes, via SIAB, e por meio da busca ativa de crianças de 0 a 23 meses e 29 dias e obtenção de seus dados antropométricos delas. Tratase de estudo seccional, realizado no município de Patos de Minas (MG), de janeiro a abril de 2005. As prevalências de desnutrição protéico-calórica informadas no SIAB foram 2,35% e 2,5%, nas equipes A e B, respectivamente. As prevalências de desnutrição encontradas a partir da busca ativa, dos dados antropométricos e do cálculo dos índices peso-idade foram 14,12% e 13,75% nas equipes A e B, respectivamente. Essas foram superiores à prevalência descrita pela Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde, cuja prevalência foi 5,7%. As prevalências de desnutrição protéico-calórica com base no índice peso-idade, mediante exclusivamente a utilização do SIAB como fonte de dados, levam ao subdiagnóstico do problema. Tratando-se o SIAB de um sistema de informação “territorializado”, cujos dados possibilitam a construção de indicadores populacionais referentes a áreas de abrangência bem-delimitadas, propomos a avaliação crítica e constante desses dados. Abstract Both the Primary Care System and the Family Health Program are responsible for promoting and maintaining the health of the child population by providing full care and follow-up. For enabling the health teams to carry out their work it is fundamental to analyze the Palavras-chave: Desnutrição Protéicocalórica; Sistemas de Informação; Vigilância em Saúde. Key Words: Protein-calorie malnutrition; Information Systems; Health Surveillance. *Médica de Família e Comunidade e Hebiatria; mestranda em Saúde Pública, pela Universidade Federal do Ceará; preceptora e coordenadora regional da Residência em Medicina de Família e Comunidade da Secretaria Municipal de Saúde, Fortaleza, Ceará, Brasil. **Médico de Família e Comunidade e Geriatria e Gerontologia; mestrando em Saúde Pública, pela Universidade Federal do ceará; preceptor e vicecoordenador geral da Residência em Medicina de Família e Comunidade da Secretaria Municipal de Saúde, Fortaleza, Ceará, Brasil. 021 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Sensibilidade no diagnóstico da desnutrição protéico-calórica realizado pelas equipes de saúde por meio do SIAB e de busca ativa de casos. Tatiana Monteiro Fiúza e Marco Túlio Aguiar Mourão Ribeiro. health status of the population covered by the system. The Primary Care Information System (SIAB) is a priceless instrument for this purpose. The goal of this study is to demonstrate the sensitivity of protein-calorie malnutrition diagnosis performed by the Family Health Teams when only using the SIAB as data source and when performing active search of children from 0-23 months and 29 days of age, taking their anthropometric data. This cross-sectional study was carried out in the municipality of Patos de Minas (State of Minas Gerais), from January to April 2005. The prevalence of protein-calorie malnutrition informed by the SIAB found by teams A and B was of 2.35% and 2.5% respectively. The prevalence of malnutrition found by teams A and B through active search, collection of anthropometric data and weight/age ratio calculation were 14.12% and 13.75% respectively. This prevalence rate was higher than that described by the National Demographic and Health Survey, which was 5.7%. The prevalence of protein-calorie malnutrition based on weight/age ratio exclusively using the SIAB as a data source results in an underdiagnosis of this health problem. Seen that the SIAB is a territorialized information system designed for allowing elaboration of population indicators in well defined areas of coverage, the authors propose a critical and constant evaluation of these data. The authors also suggest active search of all cases, involving the entire health team. 1. Introdução Muitos conceitos têm sido utilizados para definir desnutrição. A desnutrição protéico-calórica, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), é um conjunto de condições patológicas resultante da deficiência concomitante de calorias e de proteínas1. As crianças e as gestantes são os grupos populacionais mais vulneráveis, nos quais as deficiências nutricionais costumam determinar maiores danos, pois, nessas faixas, aumentam de forma qualitativa e quantitativa as necessidades de nutrientes1,2. Existe uma estreita relação entre desnutrição protéico-calórica e o grau de desenvolvimento socioeconômico de cada região. O Brasil, país de dimensões continentais, possui enorme diversidade social, econômica e cultural. Com isso, dentro de seu território há diversos 022 processos sociais resultantes de diversificados “modos de viver” das populações. Vem ao longo de sua história enfrentando diversas crises econômicas com sérias repercussões sociais, sendo a desnutrição um problema de saúde e social relevante. Segundo Aerts e Giugliani, em última instância o estado nutricional é o retrato, no indivíduo e na população, da forma de estruturação do modelo de estruturação de uma dada sociedade2. Habitualmente, desnutrição, pobreza e infecções, catalisadas pela iniqüidade e má distribuição da renda e de alimentos, participam de um ciclo vicioso em que um componente auxilia na perpetuação ou agravamento do outro2. A redução da mortalidade infantil e da mortalidade de crianças menores de cinco anos é ainda um grande desafio no país para os gestores, profissionais de saúde e a sociedade como um todo. Apesar da queda importante nos últimos anos, decorrente da redução da mortalidade pós-neonatal (28 dias a um ano de vida), os índices ainda são elevados. As causas perinatais, a pneumonia e a diarréia, associadas à desnutrição, são as principais nos primeiros anos de vida. Essa situação é agravada quando se reconhece que a maioria dessas mortes precoces pode ser considerada evitável3. A promoção da saúde abrange um complexo de ações exercidas continuamente e integralmente com indivíduos, famílias e comunidades, a fim de propiciar melhor desenvolvimento físico, intelectual e emocional da população. É atribuição da Atenção Primária de Saúde e da ESF atuar na promoção e na manutenção do estado de saúde da população infantil por meio do atendimento e acompanhamento integrais4. As equipes de saúde deverão incentivar ações de promoção à saúde e prevenção da desnutrição, como: orientação alimentar às famílias; acompanhamento pré-natal; incentivo ao aleitamento materno; orientação no desmame; acompanhamento do crescimento e desenvolvimento; uso de ferro profilático e de vitaminas para recém-nascidos prematuros (e de baixo peso) e lactentes a partir dos seis meses de vida; suplementação alimentar para gestantes Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Sensibilidade no diagnóstico da desnutrição protéico-calórica realizado pelas equipes de saúde por meio do SIAB e de busca ativa de casos. Tatiana Monteiro Fiúza e Marco Túlio Aguiar Mourão Ribeiro. desnutridas, nutrizes e crianças em risco nutricional. As equipes deverão estar preparadas para averiguar os índices antropométricos e avaliar o Cartão da Criança em todos os atendimentos, promover atividades educativas, identificar e captar gestantes e crianças desnutridas ou em risco nutricional3,4. Estima-se que entre crianças de países em desenvolvimento 26,7% (149,6 milhões) e 32,5% (181,9 milhões) apresentem déficits de peso-idade e altura-idade, respectivamente5. A Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde, realizada em 1996, constatou que 10,5% das crianças brasileiras de 0-59 meses sofrem de retardo no crescimento (baixa altura/idade), 5,7% de baixo peso para idade e 2,3% de baixo peso/altura. No meio rural a prevalência é maior que no meio urbano, respectivamente 4,6% e 9,2%. O índice altura/idade possui maiores prevalências de crianças cuja altura é maior que dois desvios padrões abaixo da mediana na faixa etária 12-23 meses (15,1%), seguida da faixa entre 6 e 11 meses (10,2%). O índice peso-idade possui os maiores déficits nas faixas etárias de 48 a 59 meses (6,8%), 24 a 35 meses (6,7%) e 12 a 23 meses (6,3%)6. Para a atuação das equipes de Saúde da Família é fundamental a análise de saúde das populações cobertas. Para esse fim o Sistema de Informação da Atenção Básica é instrumento de valor inestimável. Os principais instrumentos do SIAB são: o cadastramento, que permite a caracterização sociodemográfica das famílias cobertas; as fichas de acompanhamento de grupos, para priorização de grupos etários e de condições de risco; ficha de registro de procedimentos e notificações para acompanhamento das ações e serviços desenvolvidos pelas equipes de saúde da família.7 2. Objetivos Demonstrar a sensibilidade no diagnóstico da desnutrição protéico-calórica realizado pelas equipes de Saúde da Família, quando são utilizados apenas dados primários como instrumentos de busca da adequação e posterior informação destes, via SIAB e por meio da busca 023 ativa de crianças de 0-23 meses e 29 meses e obtenção de seus dados antropométricos. Realizar análise crítica entre a prevalência de desnutrição encontrada no SIAB, busca ativa associada à antropometria e aos dados da literatura. 3. Material e Método Trata-se de estudo seccional, realizado no município de Patos de Minas/MG, de janeiro a abril de 2005. A população estudada foram crianças de 0 a 23 meses e 29 dias sob responsabilidade de duas equipes de Saúde da Família atuantes em zona urbana do município. A partir do trabalho dos agentes comunitários de saúde, conseguimos incluir no estudo 100% das crianças cadastradas, sendo possíveis perdas por não-cadastramento. As variáveis estudadas foram: a prevalência de desnutrição protéico-calórica com base no índice peso-idade em crianças menores que dois anos; a prevalência de desnutrição calculada pelo SIAB e dados antropométricos. Foi feita uma busca ativa às crianças na faixa etária estudada, residentes na área de abrangência das equipes de Saúde da Família. Para isso utilizamos a Ficha A do SIAB7 e o Questionário de Risco e Vulnerabilidade Familiar (Anexo 1). Esses foram aplicados pelos ACs a partir da visita domiciliar mensal às famílias cadastradas. Dividimos as crianças em grupos educativoterapêuticos, sendo os critérios para divisão: faixa etária, número de crianças/faixa etária, viabilidade operacional dos grupos, facilidade de acesso da população-alvo ao local de realização dos grupos. Estes ocorreram com freqüência mensal, sendo cada criança e seus responsáveis convidados pelos ACS durante visita domiciliar. Foram realizadas buscas ativas aos faltosos. Com relação às crianças analisadas, foram coletados dados de peso e altura. Foram analisados os índices peso/ idade, peso/altura e altura/idade para a monitoração do crescimento das crianças e diagnóstico da desnutrição e risco nutricional, conforme preconizado pela Organização Mundial de Saúde2,6,8. Utilizamos, para análise, o índice pesoidade, pois não era possível, por meio das informações Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Sensibilidade no diagnóstico da desnutrição protéico-calórica realizado pelas equipes de saúde por meio do SIAB e de busca ativa de casos. Tatiana Monteiro Fiúza e Marco Túlio Aguiar Mourão Ribeiro. anteriormente coletadas e demonstradas via SIAB, calcular os demais índices. As prevalências de desnutrição em crianças de 0 a 23 meses e 29 dias foram calculadas, e os dados obtidos foram comparados aos do SIAB e da literatura. Os resultados do estudo foram divulgados para as equipes de Saúde da Família e para a população estudada. Foram seguidos os preceitos éticos para pesquisas em seres humanos nos termos do inciso II.2 da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. 4. Resultados As prevalências de desnutrição protéico-calórica informadas no SIAB foram 2,35% e 2,5%, nas equipes A e B, respectivamente. As freqüências absolutas de crianças desnutridas nas equipes A e B comparadas com as freqüências encontradas no SIAB estão demonstradas nos gráficos 1 e 2, respectivamente. Gráfico 1. Freqüêmcia absoluta de desnutrição em crianças de 0 a 23 meses e 29 dias (índice peso-idade), Equipe A: Gráfico 2. Freqüêmcia absoluta de desnutrição em crianças de 0 a 23 meses e 29 dias (índice peso-idade), Equipe B: 024 As prevalências de desnutrição encontradas a partir de busca ativa, dados antropométricos e cálculo dos índices peso-idade foram 14,12% e 13,75% nas equipes A e B, respectivamente. Essas foram superiores à prevalência descrita pela Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde, cuja prevalência foi 5,7%. 5. Discussão As prevalências de desnutrição protéico-calórica com base no índice peso-idade, mediante exclusivamente a utilização do SIAB como fonte de dados, levam ao subdiagnóstico do problema. A desnutrição protéico-calórica e o risco nutricional vêm sendo freqüentemente subdiagnosticados pelas equipes de Saúde da Família. A baixa sensibilidade dos métodos aplicados para identificar as crianças desnutridas e conseqüentes subdiagnóstico, subnotificação e informação de dados irreais levam os profissionais de saúde a subestimarem o problema e, com isso, não planejarem adequadamente as ações preventivas, educativas e curativas a serem realizadas pelas equipes de Saúde da Família. Concluímos que a falha no diagnóstico da desnutrição protéico-calórica ocorre devido à coleta de dados. Os dados colhidos pelos Agentes Comunitários de Saúde são vulneráveis ao viés de informações, pois dependem das informações fornecidas pelos pais ou responsáveis, os quais, por desconhecimento do problema e/ou nãoaceitação deste, podem fornecer informações falsonegativas. Outro ponto a ser refletido é a exclusão das crianças entre 24 e 59 meses dos dados a serem utilizados pelas equipes de Saúde da Família, uma vez que a prevalência do agravo, segundo a literatura, é maior nessa faixa etária (PNDS, 1997). Por meio da análise dos resultados deste trabalho, concluímos que a busca ativa de crianças desnutridas pertencentes à área de abrangência – o território – de uma equipe de Saúde da Família e a obtenção dos seus dados antropométricos possuem maior sensibilidade e evitam o subdiagnóstico do problema. Propomos o maior empenho de toda a equipe de Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Sensibilidade no diagnóstico da desnutrição protéico-calórica realizado pelas equipes de saúde por meio do SIAB e de busca ativa de casos. Tatiana Monteiro Fiúza e Marco Túlio Aguiar Mourão Ribeiro. Saúde da Família para o diagnóstico e o tratamento das crianças desnutridas, por meio de uma abordagem multiprofissional. A capacitação adequada dos profissionais de saúde para abordagem do problema é indispensável para coleta adequada de dados e cálculo de indicadores, utilizando corretamente o Cartão da Criança. A análise crítica dos dados apresentados deve ser feita pelos profissionais, pois o conhecimento da realidade epidemiológica do território de atuação da equipe é fundamental para planejamento e execução de ações em saúde. Tratando-se o SIAB de um sistema de informação “territorializado”, cujos dados possibilitam a construção de indicadores populacionais referentes a áreas de abrangência bem-delimitadas, propomos a avaliação crítica e constante desses dados. 6. Referências 1.Goulart LMHF; Amaral TM. Desnutrição energéticoprotéica. In: Alves CRL; Viana MRA. Saúde da Família: Cuidando de crianças e adolescentes. Belo Horizonte (MG): COOPMED; 2003. p.135-143. 2.Aerts DRGC; Giugliani ERJ. Desnutrição. In: Duncan BB; Schmidt MI; Giugliani ERJ. Medicina ambulatorial: Condutas de atenção primária baseadas em evidências. 3. ed. Porto Alegre (RS): Artmed; 2006. p.269-275. 3.Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Agenda de compromissos para a saúde integral da criança e redução da mortalidade infantil. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2005. 4.Organização Panamericana de Saúde. Atenção integrada às doenças prevalentes na infância (AIDPI): manual para capacitação de profissionais da atenção primária. Fortaleza (CE): Escola de Saúde Pública do Ceará; 2005. 5.World Health Organization. Nutrition form health and development. Geneva: WHO/NHD; 2002. 6.Sociedade Civil Bem-Estar Familiar no Brasil. Pesquisa nacional sobre Demografia e Saúde. Rio de Janeiro: BEMFAM; 1997. 025 7. Brasil. Ministério da Saúde. SAA/DAB Sistema de Informação da Atenção Básica. Disponível em: http:// dtr2004.saude.g ov.br/dab/caadab/documentos/ siab2001.pdf 8.World Health Organization. Working group: use and interpretation of anthropometric indicators of nutricional status. Geneva: WHO; 1995. Endereço para correspondência: Tatiana Monteiro Fiúza Avenida dos Coqueiros, s/n Condomínio Summer Ville, Casa n° 133 Praia do Cumbuco Caucaia (CE) Cep: 61600-970 Endereço eletrônico: [email protected] Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Tatiana Monteiro Fiúza e Marco Túlio Aguiar Mourão Ribeiro. Sensibilidade no diagnóstico da desnutrição protéico-calórica realizado pelas equipes de saúde por meio do SIAB e de busca ativa de casos. Anexo 1. Questionário de Risco e Vulnerabilidade Familiar. Responsáveis pela aplicação do questionário: médico, enfermeira, odontólogo, THD, assistente social AE ou ACS. 026 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 RBMFC Medicina de Família e Comunidade e doenças gastroenterológicas. Gastroenterological Diseases and Family and Community Medicine. Bruno Brunelli* Mariana Eri Sato** Suzane Kioko Ono-Nita*** Flair José Carrilho**** Resumo O médico de família e comunidade é figura central em um sistema de saúde que pretende seguir o modelo de Atenção Primária à Saúde (APS), definido na conferência de Alma Ata, em 1978. Fazem parte das suas competências: comprometimento com a pessoa e enfoque em prevenção e gestão de recursos. É sua função diagnosticar e tratar os quadros mais prevalentes tendo em vista essas competências até o momento em que uma maior complexidade tecnológica seja requerida. Uma vez que os sintomas relacionados ao trato digestivo representam queixas muito comuns na prática clínica diária, fazem parte do cotidiano do médico generalista. Uma busca na literatura foi conduzida nos bancos de dados Pub Med, Lilacs e Biblioteca Cochrane sobre estudos que relacionam Medicina de Família e Comunidade (MFC) e Doenças Gastroenterológicas publicados nos últimos 30 anos em inglês, espanhol ou português. Livros de textos de MFC e Clínica Médica também foram consultados. O objetivo foi demonstrar o papel do médico de família e comunidade no diagnóstico e tratamento de doenças gastroenterológicas. Como resultado foi constatado que grande parte dos casos de dor epigástrica, queimação retroesternal, sangramento retal e diarréia podem ser plenamente resolvidos pelo médico de família e comunidade. O acompanhamento de doenças gastroenterológicas crônicas estabilizadas, como as hepatites virais, também podem ser de sua responsabilidade. Conclusão: a maior parte das queixas gastroenterológicas que chegam ao médico de família e comunidade não necessita de encaminhamento ao especialista, pode ser resolvida ao nível da APS. Assim, o sistema de saúde é “otimizado”: as consultas dos especialistas tornam-se mais rápidas, aumenta-se o valor preditivo positivo das provas diagnósticas e diminui-se a possibilidade de erro do nível secundário/terciário. Abstract Background: the Family Physician is a key figure in any health system that intends to follow the Primary Care Model defined at the Alma-Ata Conference in 1978. His actions are guided by commitment to the individual and focus on prevention and management of resources. Palavras-chave: Medicina de Família e Comunidade; Gastroenteropatias; Atenção Primária à Saúde. Key Words: Family Practice; Gastrointestinal Diseases; Primary Health Care. *Acadêmico, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil. **Médica de Família, Unidade Básica de Saúde do Jardim Boa Vista, São Paulo, Brasil. ***Professora, Departamento de Gastroenterologia, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil. ****Professor, Departamento de Gastroenterologia, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil. 027 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Bruno Brunelli, Mariana Eri Sato, Suzane Kioko Ono-Nita e Flair José Carrilho. Medicina de Família e Comunidade e doenças gastroenterológicas. His function is to diagnose and treat the most prevalent diseases until a more complex technology be required. The symptoms related to diseases of the digestive tract are very common complaints and as such part of the daily work of the general practitioner. Methods: A literature search for studies relating Family and Community Medicine (FCM) and gastroenterological diseases published over the last 30 years in English, Spanish or Portuguese was conducted in the bibliographic databases Pub Med, Lilacs, and Cochrane library. FCM and Internal Medicine Text-books were consulted as well. Results: great part of cases of epigastric pain, retroesternal burning, rectal bleeding and diarrhea could be completely resolved by the family and community physician. He is also qualified for looking after patients with stabilized chronic gastroenterological diseases such as viral hepatitis. Conclusions: The greater part of cases of gastroenterological complaints brought to the general practice consultation need not to be referred to a specialist and can be resolved at Primary Care level. As a consequence the health system is optimized, specialist consultations become less time-consuming; the positive predictive value of diagnostic proofs increases and there is less possibility of error in the secondary and tertiary levels. 1. Introdução O Médico de Família e Comunidade (MFC) é, antes de tudo, um clínico. Enquanto especialista em Atenção Primária, é figura central em um sistema de saúde que pretende seguir o modelo de Atenção Primária à Saúde (APS), definido na conferência da Organização Mundial de Saúde de Alma Ata, em 1978. Este modelo foi caracterizado como capaz de oferecer, como primeiro contato ao sistema de saúde, um cuidado coordenado, contínuo e longitudinal à população. Por essa razão, não há distinção entre gênero, idade ou órgão afetado. Assim, se a APS se propõe a disponibilizar cuidado a todos em uma população, o médico de família deve estar apto a tratar das doenças e afecções mais prevalentes em uma dada comunidade. Segundo Mac Whinney1, a Medicina de Família e Comunidade possui os seguintes princípios: a. Comprometimento com a pessoa, e não com um 028 conjunto de conhecimentos, grupo de doenças ou técnica especial. O Médico de Família está disponível para qualquer problema de saúde numa pessoa de qualquer sexo ou idade e seu compromisso não possui um prazo definido. Não termina com a cura, término do tratamento ou incurabilidade de uma doença. Em muitos casos, esse compromisso é firmado com a pessoa enquanto ente saudável. b. Compreensão do contexto da doença. Muitas das doenças observadas na Medicina Familiar não podem ser compreendidas totalmente, a menos que sejam vistas no seu contexto pessoal, familiar e social. c. Enfoque em prevenção e educação sanitária. Cada contato com o doente é uma oportunidade para educar. d. Visão epidemiológica. O médico de família encara seus doentes como uma população em risco. e. Gerência de recursos da comunidade para benefícios da população adstrita. O médico de família considera-se como parte de uma rede comunitária de centros de apoio e proteção de cuidados de saúde, estatais e não-estatais, informais ou formais. f. Conhecimento profundo do ambiente habitacional em que os doentes vivem. Para serem eficazes os médicos de família devem ter uma presença visível na vizinhança. g. Acompanhamento extra-ambulatorial. O médico de família vê os doentes no ambulatório, em suas casas e acompanha a evolução de seu caso, mesmo quando procuram outro serviço ou precisam ser internados no hospital. h. Atribuição de importância aos aspectos subjetivos da Medicina. Para o médico de família a objetividade e o positivismo devem ser conciliados com uma sensibilidade aos sentimentos e uma percepção das relações. i. Gestão de recursos. O generalista pode controlar, dentro de certos limites, o uso de exames complementares, de terapêuticas e os encaminhamentos aos especialistas. Em todas as partes do mundo os recursos são limitados. É, portanto, responsabilidade do médico de família gerir esses recursos para o máximo benefício de seus doentes. “O generalista lida com três categorias de doentes: aqueles que ainda não foram classificados em nenhuma especialidade orientada para um órgão ou técnica; doentes Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Bruno Brunelli, Mariana Eri Sato, Suzane Kioko Ono-Nita e Flair José Carrilho. Medicina de Família e Comunidade e doenças gastroenterológicas. em quem, tendo sido catalogados desse modo, surgem novos sinais ou sintomas que poderão ou não estar relacionados com a categoria anterior; doentes com problemas simultâneos em mais do que um sistema de órgãos.”2 Tendo em vista as principais afecções gastroenterológicas, é função do médico de família tratar os quadros mais prevalentes – como, dentre outros, dispepsia, gastroenterocolites agudas e parasitoses –, até o momento em que uma maior complexidade tecnológica seja requerida, e descobrir precocemente doenças que representem maior morbi-mortalidade. 2. O Médico de Família e Comunidade e sua relação com o gastroenterologista: Enquanto o especialista torna-se conhecedor profundo de doenças específicas e das variantes mais raras, o médico de família e comunidade especializa-se nas doenças que são encontradas mais comumente e “otimiza” todo o funcionamento do sistema de saúde: torna as consultas dos especialistas mais rápidas, aumenta o valor preditivo positivo de suas provas diagnósticas e diminui a possibilidade de errar do nível secundário/terciário, melhorando o atendimento global ao paciente. Tomando como exemplo a dor abdominal, é possível entender a influência que médicos de família e comunidade exercem sobre a demanda comum a gastroenterologia. Em estudo realizado por Forés et al 3, 3,2% das consultas de um médico de família espanhol foram por dor abdominal. Cerca de metade desse montante era relativamente benigna e resolveu-se por si mesma. Dessas queixas de dor, apenas 0,7% estava relacionado à apendicite, 0,8%, à CA de aparelho gastrintestinal, 0,3%, à CA de aparelho feminino e 0,2%, à CA de aparelho respiratório. A análise do processo de atenção, ao cabo de um ano, demonstrou que, de 150 pacientes atendidos em um serviço de APS, 89% não precisaram ser encaminhados ao nível secundário, sendo tratados pelo próprio médico generalista, e apenas 11% demonstraram necessidade do cuidado especializado. 029 Dos 11% encaminhados, 41% não precisavam realmente de um centro secundário. Foram mal encaminhados. Porém, daqueles que ficaram sendo tratados apenas pelo médico generalista, nenhum desenvolveu posteriormente quadro que exigia tecnologia mais complexa, ou seja, não precisaram de encaminhamento posterior. Em outras palavras, não houve nenhum falso negativo: os médicos de família não cometeram nenhum erro por omissão. Apesar de haver um número elevado de falsos positivos, os médicos de família transformaram uma necessidade de cuidados especiais de 7% na comunidade em uma necessidade de 59% no grupo em que foi encaminhado. Isso evitou uma ampla proporção de visitas desnecessárias ao gastroenterologista. Houve um aumento em mais de oito vezes na prevalência de necessidade de cuidados especializados na amostra que foi encaminhada, aumento este que foi acompanhado pelo valor preditivo positivo. Em um país como o nosso, onde a escassez de recursos para saúde da população é uma realidade, sua administração deve acontecer da melhor forma possível. Não há provas diagnósticas perfeitas. História clínica, exame físico, exames laboratoriais e de imagem contribuem para diminuir a dúvida, mas não a elimina radicalmente. Um resultado positivo não assegura que o paciente realmente possuia a enfermidade, nem um resultado negativo a exclui. A probabilidade de uma enfermidade depois da prova se valoriza com os valores preditivos negativos e positivos. Se uma dada prova diagnóstica possui sensibilidade de 95% e especificidade de 90%, e a prevalência de uma amostra pula de 7% para 59%, temos um aumento no valor preditivo positivo de 41% para 93%. Com um aumento dessa magnitude no valor preditivo positivo, facilita-se o trabalho do gastroenterologista, melhora-se o seu rendimento e sua estratégia disgnóstica fica muito mais adequada. É crucial, então, que o MFC tenha a função de filtrar os pacientes que chegam à atenção especializada. Este trabalho, portanto, tem o objetivo de evidenciar até que Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Bruno Brunelli, Mariana Eri Sato, Suzane Kioko Ono-Nita e Flair José Carrilho. Medicina de Família e Comunidade e doenças gastroenterológicas. ponto o paciente com queixas gastroenterológicas é responsabilidade apenas do MFC e quando é necessário seu encaminhamento ao especialista. “O médico de família deve proteger seus pacientes dos especialistas inapropriados e os especialistas dos pacientes inapropriados”4. 3. Afecções gastroenterológicas mais prevalentes em APS e seu manejo pelo médico de família e comunidade: Os sintomas relacionados ao trato digestivo representam uma das queixas mais comuns na prática clínica diária. Na Inglaterra, correspondem à cerca de 8% das consultas médicas em Atenção Primária e à 11% da demanda espontânea de novas consultas5. Entretanto, apesar desta tamanha representatividade, a maior parte das queixas gastroenterológicas que chegam ao MFC não resultam em encaminhamentos ao especialista. Em estudo realizado por Prieto et al 6, apenas 8,6% de todos os encaminhamentos realizados por 13 médicos de família de Madri foram devido a queixas digestivas (3,7% para o gastroclínico e 4,9% para o gastrocirurgião). Tomando em consideração que a taxa geral de encaminhamentos da atenção primária neste estudo foi de 5,28%, este valor de 8,6% encontrado corresponde a, no máximo, 0,49% do total de consultas. Ou seja, de mil consultas, apenas cinco terminaram em encaminhamento para o gastroenterologista ou para o cirurgião gastroenterológico. Não há estudos com este desenho no Brasil, entretanto basta ficar um dia acompanhando consultas em uma UBS para perceber que queixas de dispepsia, queimação retroesternal, diarréia e retorragia são muito comuns e, portanto, pertencem à esfera de atuação do médico de família e devem ser tratadas por ele, evitandose os encaminhamentos. 3.1. Dor epigástrica ou retroesternal em queimação As causas mais prevalentes de dor epigástrica e retroesternal em queimação são: dispepsia funcional e úlcera péptica e doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), 030 respectivamente. Em estudo feito em Pelotas (RS) com 3.934 indivíduos de 20 anos ou mais, entrevistados em seus domicílios, a prevalência de dispepsia foi de 44,4% e de dispepsia freqüente, 27,4%7. A dispepsia é um desconforto localizado no abdome superior – persistente ou recorrente e relacionado ou não com a alimentação – e pode também ser referida como dor abdominal vaga, má digestão, azia, enjôo, falta de apetite, estufamento, eructações e “gastrite”. Este desconforto pode ter razão orgânica, uma úlcera na mucosa gastrintestinal, por exemplo, ou ser de razão funcional. De acordo com o Consenso Internacional de Roma III8, os critérios mínimos para o diagnóstico de dispepsia funcional são: - Presença de um ou mais dos seguintes sintomas: empachamento pós-prandial, plenitude precoce, dor ou queimação epigástrica há pelo menos três meses com o início dos sintomas há no mínimo seis meses. - Ausência de evidências de doença estrutural que expliquem os sintomas. Apesar de ser necessário o uso de exame de endoscopia digestiva alta (EDA) para avaliar a presença ou ausência de doença estrutural, em 40% a 50% dos pacientes o aspecto endoscópico é normal, sendo mais prudente e barato selecionar aqueles cujas evidências “falem” mais a favor de lesão9. Segundo Stein et al 9, são candidatos diretos a endoscopia aqueles que apresentam sinais de alarme (melena, vômitos persistentes, disfagia, hematêmese, anemia, perda de peso involuntária maior que 5%) e/ou sejam maiores de 50 anos. Se o paciente não apresentar sinais, mas possuir um histórico de úlcera, o procedimento endoscópico ainda não estará indicado, mas deve-se ser feito um teste para rastrear infecção por Helicobacter pylori. Devido ao papel causal deste agente na patogênese da úlcera péptica, muito se fala na necessidade de investigar sua presença nesses pacientes, já que sua erradicação reduz a taxa de recorrência da doença péptica ulcerosa10. Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Bruno Brunelli, Mariana Eri Sato, Suzane Kioko Ono-Nita e Flair José Carrilho. Medicina de Família e Comunidade e doenças gastroenterológicas. Os testes não-invasivos básicos são o teste sorológico (IgG) ou o teste respiratório (teste da urease). O teste respiratório baseia-se na conversão, pela bactéria, da uréia marcada com carbono 13 ou 14 em CO2 e Amônia. Um teste positivo é definido pela presença de carbono marcado no ar expirado. Entretanto esse teste não deve ser usado para rastreamento. Seu valor preditivo positivo para doença péptica ulcerosa não é alto, visto a alta prevalência de infecção por H. pylori na população. Estudos brasileiros encontraram as seguintes prevalências de infecção: 59,5% no Rio de Janeiro (RJ), 76,3% em São Paulo (SP), 83% em Santa Maria (RS), 84,7% em Nossa Senhora do Livramento (MT), 85,18 em Botucatu (SP), 87% em Araçuaí (MG), 89,6% em Campinas (SP) e 96% em São Luís (MA) 11. Por ser um teste muito caro e, quando feito em indivíduos já submetidos a tratamento com anti-secretores, apresentar muitos falso-negativos, muitos médicos da rede pública preferem não submeter seus pacientes a ele e decidem iniciar antibioticoterapia empírica para H. pylori conjugada com tratamento também empírico com inibidor de bomba de prótons logo que percebem sintoma muito sugestivo de ulceração: dor abdominal em queimação que se inicia uma a três horas após a refeição, podendo inclusive acordar o paciente à noite, mas que se alivia imediatamente após à ingestão de alimentos ou antiácidos. A conduta para aqueles cujo teste para H. pylori deu positivo, para os que já foram confirmados pela EDA como portadores de úlcera gástrica ou duodenal com biópsia positiva para a bactéria e para esses com sinais sugestivos é a mesma: Primeira Escolha: - Inibidor de bomba de prótons em dose padrão 2x por dia, por 7 dias. - Claritromicina 500 mg 2x por dia, por 7 dias. - Amoxicilina 1g 2x por dia, por 7 dias. Segunda Escolha: - Inibidor de bomba de prótons em dose padrão 2x por dia, por 7 dias. - Tetraciclina 250 mg 1x ao dia, por 7 dias. 031 - Metronidazol 500 mg 2x por dia, por 7 dias. - Bismuto 2 tabletes 4x por dia, por 7 dias. “Os sintomas sugestivos de ulceração, especialmente se associados a um teste não invasivo positivo para H. pylori, são suficientes para iniciar a antibioticoterapia. Essa conduta encontra respaldo em ensaios clínicos radomizados e análises de custo efetividade”8. É muito importante que o tratamento dure todo o período demonstrado. Cerca de 90% das úlceras só cicatrizam após quatro a seis semanas de terapia, ainda que os sintomas já tenham desaparecido. Em algumas regiões do Brasil, costuma-se tratar empíricamente com antibioticoterapia todo paciente com queixa dispéptica. Essa conduta não é indicada, já que a erradicação da bactéria não produz melhora sintomática em pacientes com dispepsia funcional12 e o uso indiscriminado de antibióticos propicia o surgimento de cepas multiresistentes. Se não há sinais de ulceração evidentes ou a sorologia para H. pylori deu negativa, o médico generalista pode então iniciar o tratamento empírico com inibidores de bomba de prótons, de efeito mais consistente 13 ou bloqueadores H2, que, apesar de efeito de menor magnitude, apresentam custo menor. Atualmente o SUS disponibiliza para as Unidades Básicas de Saúde a ranitidina, na concentração de 150 mg. É importante, além disso, que seja suspenso o uso de antiinflamatórios não-hormonais (AINEs), seja proibido o uso de cafeína, álcool e fumo (que exacerbam os sintomas) e evitem-se aqueles alimentos que causem desconforto. A opção por bloqueadores H2 exige maior número de doses e apresenta mais efeitos colaterais e interações com outros fármacos (propranolol, cumarínicos, benzodiazepínicos, fenitoína, teofilina e outros medicamentos metabolizados no fígado). Deve-se evitar o uso simultâneo com antiácidos que diminuem sua absorção. Se o paciente possuir uma doença inflamatória sistêmica grave, a interrupção do uso de antiinflamatórios pode não ser possível. Há dois caminhos: associar omeprazol ou escolher substituir os AINEs por inibidores seletivos Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Bruno Brunelli, Mariana Eri Sato, Suzane Kioko Ono-Nita e Flair José Carrilho. Medicina de Família e Comunidade e doenças gastroenterológicas. da COX-2, uma alternativa mais cara. A escolha dependerá da situação financeira do paciente. Se os sintomas persistirem após quatro semanas, está indicada a endoscopia. Se, por outro lado, houver regressão dos sintomas, deve-se continuar o tratamento até o final da oitava semana e observar. Caso o paciente retorne em até 12 meses com recidiva dos sintomas, o exame endoscópico estará indicado novamente9. Serão encaminhados ao especialista todos os indivíduos que apresentarem achados endoscópicos sugestivos de neoplasia e também os casos resistentes ao tratamento. Muitas vezes, o sintoma predominante não é a dor epigástrica, mas uma sensação de queimação que se irradia do epigástrio até a base do pescoço chamada pirose. Este sintoma está presente em até 20% da população14 e é um excelente marcador da Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE). Pode ocorrer de forma espontânea ou, mais comumente, ser observado após as refeições ou quando o paciente acaba de se deitar. Geralmente, é acompanhado por regurgitação ácida e melhora com a ingestão de água, leite ou antiácidos líquidos. Esses sintomas típicos podem aparecer com outros menos prevalentes, como dor torácia retroesternal, tosse crônica ou rouquidão, entretanto não são bons marcadores para a DRGE. Dos pacientes com refluxo: 72,7% apresentam pirose; 36%, regurgitação; 20,9%, disfagia; 17,8%, dor torácica; 17,4%, rouquidão; 16,2%, tosse crônica e 7,5%, sibilância15. Se presentes de forma isolada, esses sintomas atípicos devem ser investigados criteriosamente por meio de EDA e, se necessário, biópsia. A presença de disfagia, odinofagia, regurgitação, perda de peso, vômitos ou hematêmese indica alguma complicação como esofagite erosiva, úlcera péptica, esôfago de Barret ou adenocarcinoma, sendo indicação imediata para endoscopia e, havendo confirmação de lesão neoplásica ou pré-neoplásica, encaminhamento ao especialista. Pacientes com queimação retroesternal recorrente também devem ser encaminhados. A maioria dos pacientes com pirose, porém, não 032 necessita de investigação complementar. Se os sintomas são típicos e ocasionais, o manejo da DRGE baseia-se em medidas comportamentais (elevação da cabeceira da cama em 15cm; moderar a ingestão de alimentos gordurosos, cítricos, café, bebidas alcoólicas, bebidas gasosas, menta, hortelã, produtos à base de tomate, chocolate; cuidados especiais com medicamentos potencialmente “de risco”, como colinérgicos, teofilina, bloqueadores de canal de cálcio, alendronato; evitar deitar-se nas duas horas posteriores às refeições; evitar refeições copiosas; suspensão do fumo; redução do peso corporal em obesos) e teste terapêutico empírico. Pacientes com menos de 40 anos de idade com freqüência dos sintomas inferior a duas vezes por semana, sem manifestações de alarme, e tempo de história por período não superior a quatro semanas, podem receber, como conduta diagnóstica inicial, terapêutica com inibidores da bomba protônica em dose plena. A resposta satisfatória permite inferir o diagnóstico de DRGE. Em particular, três fatores promovem a consideração do teste terapêutico: Como já dito, inibidores de bomba de prótons melhoram sintomas de pacientes com dispesia funcional já que muitos deles também apresentam componente de refluxo não-erosivo. Tratamento empírico com inibidores diagnostica e efetivamente trata a maioria dos pacientes com DRGE. O teste terapêutico induz remissão dos sintomas e proporciona alívio para a maioria dos pacientes com úlcera péptica. Pacientes em idade de risco para cânceres gástricos (> 40 anos) devem ser submetidos à endoscopia logo após a primeira consulta e encaminhados caso haja alguma alteração. Porém, esses indivíduos são a minoria dos que procuram os sistemas de saúde com queixa de refluxo9. 3.2. Sangramento Retal Existem quatro maneiras de o sangramento retal se manisfestar: sangue oculto, quando não há alterações visíveis no bolo fecal; melena, quando as fezes são enegre- Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Bruno Brunelli, Mariana Eri Sato, Suzane Kioko Ono-Nita e Flair José Carrilho. Medicina de Família e Comunidade e doenças gastroenterológicas. cidas e mal-cheirosas; hematoquezia, se o sangue é vermelho vivo misturado às fezes, e hemorragia maciça. Conseguir descrever as fezes é importantíssimo para definir a localização e intensidade do sangramento. Enquanto melena leva a pensar em uma afecção acima do ângulo de Treitz, hematoquezia indica lesão abaixo do ceco. Enquanto sangue oculto demonstra pouco sangramento, hemorragia maciça indica exatamente o contrário. A queixa de sangue nas fezes tem na população inglesa uma incidência anual de 20%. Desse número só 4% consultam um médico generalista e apenas 14% desses são encaminhados ao especialista16. Segundo Crosland16 a prevalência de CA de cólon e reto nesta população é de 0,1%, passando para 2% entre os que procuram o nível primário e para 36% entre os que são encaminhados ao gastro, quando então são submetidos à colonoscopia. A hipótese diagnóstica do médico generalista deve, então, estar sempre mais voltada para os motivos mais comuns de sangramento retal. A hematoquezia, queixa mais comum de quem posteriormente é diagnosticado tumor de trato digestivo baixo pode ser explicada por outras enfermidades mais prevalentes como diverticulose e malformações vasculares. Quando com diverticulose sintomática, o paciente apresenta-se com dor abdominal, tipo cólica ou contínua, no quadrante inferior esquerdo, que piora com a alimentação e melhora ao evacuar. Geralmente o exame físico não é suficiente para fechar o diagnóstico, sendo necessária a solicitação de um enema opaco. Dada a dificuldade em se conseguir esse exame ao nível primário de atenção do sistema, é mais prudente encaminhar os casos de suspeita de diverticulose ao hospital secundário mais próximo. Caso o paciente volte com o diagnóstico é preciso orientá-lo quanto a manter uma dieta rica em fibras e evitar o uso de laxativos, informando-o que terá alternância de períodos com e sem dor pelo resto da vida. Já as malformações vasculares, apesar de comuns, quase nunca são primeira opção de diagnóstico. Isso por 033 que geralmente chega-se a uma constatação apenas quando exames de avaliação inicial, como sigmoidoscopia e enema baritado, não foram elucidativos. Logo seu diagnóstico não é responsabilidade do médico de família. Por outro lado, as doenças anorretais, apesar de não serem, neste estudo, mais comuns que os cânceres, são de fácil diagnóstico e devem ser avaliadas antes de submeter o paciente a qualquer exame complementar. Um estudo em pacientes de atenção primária identificou como causas mais comuns de sangramento retal as hemorróidas e fissuras, e seu diagnóstico reduz a necessidade de investigação maior no momento17. Mesmo assim, nenhum sangramento retal ou anemia devem ser definitivamente atribuídos a hemorróidas sem que as outras causas tenham sido devidamente investigadas. O paciente deve, então, ser submetido à terapia conservadora e, se não houver resposta em uma a duas semanas, ser encaminhado ao proctologista. São encaminhados também aqueles com prolapso irredutível e encarcerado e os casos de trombose aguda. A maioria responde bem ao tratamento conservador que consiste em: tratar a constipação associada, se houver, estimulando o aumento do consumo de fibras; evitar o uso de pimenta; diminuir o uso de papel higiênico; não usar sabão alcalino; fazer banhos de assento em água morna 3x por dia, por 15 minutos; usar topicamente cremes de corticóides para aliviar os sintomas durante 7 a 10 dias no máximo, por causa das consequências do uso crônico de corticóides e por se tratar de área de dobras, de fácil desenvolvimento de fungos e bactérias; usar pomadas analgésicas se houver dor, que são preferíveis aos supositórios. As fissuras anais também são de fácil manejo. A maioria delas pode ser identificada pela inspeção direta mediante retração lateral da região anal. Ao toque retal o tônus demonstra-se aumentado e há dor intensa na introdução do dedo. O tratamento é simples quando o diagnóstico é feito em até três meses do início do quadro e consiste em corticóide e anestésico tópicos e orientação quanto a Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Bruno Brunelli, Mariana Eri Sato, Suzane Kioko Ono-Nita e Flair José Carrilho. Medicina de Família e Comunidade e doenças gastroenterológicas. aumentar a ingestão de fibras. Entretanto, é necessário considerar a presença de doenças sexualmente trasmissíveis como sífilis, herpes e HIV, além de não excluir a possibilidade de ser algo mais sério como um carcinoma ou uma doença inflamatória intestinal. Em caso de fissura crônica, há mais tempo do que três meses, o tratamento inicial é nitroglicerina tópica 0,2% duas vezes ao dia, durante seis semanas. Cinquenta a setenta por cento é a taxa de cura, porém muitos pacientes precisam de intervenção cirúrgica. Na anamnese do médico de família deve ser dada muita ênfase à idade, por motivos epidemiológicos. Pacientes maiores de 50 anos possuem maior risco de câncer colorretal e diverticulose e devem ser encaminhados para serem submetidos a exames complementares imediatamente, embora, segundo estudo realizado por Jones19 et al, o achado de retorragia em pacientes maiores de 55 anos apresentar um valor preditivo positivo para câncer colorretal de apenas 4,26% e uma sensibilidade de apenas 33% em mulheres e 25,1% em homens. A história familiar é também um dado importante e de fácil obtenção, e pode contribuir no raciocínio diagnóstico principalmente se houver casos de familiares diretos com história de neoplasias. O bom senso aqui deve ser prevalecer. A maioria dos centros de referência em São Paulo, por exemplo, demora de três a seis meses para realizar uma colonoscopia, o que torna mais prudente tratar os maiores de 50 anos, da mesma forma como os mais jovens e apenas encaminhálos quando estes também seriam encaminhados. Para os maiores de 40 anos assintomáticos, o Canadian Task Force20 indica o exame de sangue oculto nas fezes a cada dois anos como screening. O mesmo se dá para pacientes com um parente próximo portador de CA de cólon, sendo a colonoscopia indicada para os que apresentarem teste positivo. A presença de melena obriga uma investigação rápida, sendo indispensável o encaminhamento do paciente para um serviço de urgência. 034 3.3 Diarréia Pertence ao médico de família o cuidado das diarréias agudas, com tempo de sintomas inferior a quatro semanas. Até 90% das diarréias agudas não necessitam de exames complementares, sendo quadros virais ou alimentares limitados. Cuidado com a hidratação será a principal preocupação, principalmente em crianças. Estudos de coorte demonstram dois a três episódios de diarréia por criança por ano em regiões desenvolvidas e de até dez ou mais em regiões pobres21,22,23. Apesar das notáveis melhoras em relação a esse assunto no panorama brasileiro, as disparidades entre regiões ainda continuam. Entre 1995 e 1997, 9,3 crianças por mil morreram no nordeste, contra 1,1 na região sul. Uma taxa 8,5 vezes maior21. Cerca de 20% foram devido a E. coli enterotoxigênica, 20% a rotavírus, 15 - 20% a campylobacter, 5 - 10% a Shigella-Salmonella, e não mais do que 5 - 10% ocorrem por infecção por protozoários como a Giárdia ou Ameba24. As etiologias da diarréia são inúmeras e, na maioria das vezes, não compensa a investigação. Todas as diferentes síndromes diarréicas têm sua origem no ciclo oral fecal, no ambiente precário, no saneamento inadequado e no abastecimento de água não-tratada. Logo, procurar uma solução alternativa de baixo custo para a comunidade tornase tão importante quanto o cuidado individual. Uma boa anamnese e um exame físico voltado para estimar níveis de desidratação são suficientes para iniciar um tratamento bem orientado. Perguntar se mais alguém na casa está doente é uma boa forma de começar a história, pois pode indicar uma intoxicação alimentar com mesma fonte comum. Descobrir outros focos na comunidade também é muito importante, uma epidemia pode ser controlada por meio dessas informações. Conseguir caracterizar o tipo de diarréia é de extrema importância. Muco, pus e sangue associados a febre, cólicas e tenesmo falam a favor de disenteria aguda, cujos principais agentes etiológicos são a Shigella sp. Yersinia enterocolitica, Entamoeba sp., Giardia lamblia e Cryptosporidium. Ausência desses sintomas, o grande volume das fezes e a frequência muito aumentada indicam a ocorrência de uma Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Bruno Brunelli, Mariana Eri Sato, Suzane Kioko Ono-Nita e Flair José Carrilho. Medicina de Família e Comunidade e doenças gastroenterológicas. diarréia aquosa aguda, quadro produzido por bactérias como Vibrio cholerae, Escherichia coli enterotoxigênica e Clostridium perfrigens e vírus como o rotavírus. É importante, da mesma forma, avaliar o período em que a doença tem se desenvolvido. Até 14 dias, considera-se o quadro como agudo; mais que 14 dias, prolongada, e duração maior que 30 dias altera a classificação para crônica. O exame físico estimará o grau de desidratação e sinais clínicos de hipernatremia e hipocalemia o que influenciará ativamente na conduta a ser seguida. Cerca de 10% das crianças com diarréia têm risco de desidratação e até 2% correm risco de vida se não tratadas25. Correm risco especial as crianças não-amamentadas e aquelas que interromperam o aleitamento materno recentemente, daí a importância de se estimular o hábito do aleitamento. Crianças que apresentam sinais de desidratação leve a moderada (mucosas secas, fontanela afundada, órbitas fundas, volume urinário levemente diminuído, sem queda da pressão arterial, status mental preservado ou levemente apático e extremidades ainda aquecidas) devem ser tratadas com a terapia de reidratação oral (TRO). Exames rotineiros não são necessários para essa avaliação. Pacientes com desidratação leve devem receber 50 ml/kg de solução caseira de sal e açúcar, ou água de arroz ou outras soluções disponíveis comercialmente mais a reposição das perdas continuadas em um período de quatro horas. Desidratações moderadas devem receber 50 ml/kg a mais pelo mesmo período. A alimentação deve ser reintroduzida tão logo seja aceita pela criança. O aleitamento nunca deve ser suspenso. Caso haja vômitos impedindo a TRO, a hidratação por sonda nasogástrica pode ser realizada. Um estudo realizado em Pelotas (RS) mostrou que muitas mães não confiavam na TRO, por ela não impedir a diarréia, o que os médicos não explicavam. A falta de habilidade do médico em lidar com mães ansiosas ou difícies é fator a ser considerado além das habilidades técnicas26. A desidratação grave é considerada situação de 035 emergência, sendo indispensável o seu encaminhamento a um centro secundário para reidratação intravenosa. Os sinais para reconhecimento de instabilidade hemodinâmica são: letargia profunda, retardo do preenchimento capilar e taquicardia com alterações importantes da pressão arterial. Antibióticos somente serão usados em casos de disenteira por Shigella, salmonelose em imunodeprimidos, suspeita de sepse e infecções por parasitas específicos como Giardia e Entamoeba histolytica. Azitromicina e Ciprofloxacino são os dois medicamentos de escolha para shigelose em adultos. Os diagnósticos de síndromes de má-absorção e outras causas de diarréia crônica também devem ser feitos pelo médico de família, entretanto não pertencem à sua esfera de atuação, sendo o encaminhamento a conduta a ser seguida. 3.4. Hepatites virais A hepatite viral mais freqüente é a hepatite A, e nas crianças ocorre na maior parte das vezes de forma assintomática ou oligossintomática. A transmissão é de forma fecal-oral e dessa forma, medidas higiênico-sanitárias são fundamentais para evitar a transmissão da doença. Com relação à hepatite B, a sua prevalência varia em todo o Brasil, havendo áreas de baixa prevalência (menos de 2% da população é AgHBs positivo) e áreas de alta prevalência (mais de 8% da população é AgHBs positivo) como a região Amazônica, centro-oeste de Santa Catarina e Paraná, e norte do Espírito Santo. A transmissão é de forma parenteral, e o vírus pode estar presente em fluidos orgânicos como saliva, lágrima e sêmen. Atualmente o SUS fornece vacinação gratuita e obrigatória para os recém-nascidos nas primeiras 12 horas, e adolescentes até 19 anos. No caso de diagnóstico de um paciente portador do vírus da hepatite B (VHB), é importante que o médico de família realize também o rastreamento familiar e encaminhe os contatos que são negativos para o VHB para a vacinação27. Com relação à hepatite C, o Brasil é considerado um país de média prevalência (aproximadamente 2% da Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Bruno Brunelli, Mariana Eri Sato, Suzane Kioko Ono-Nita e Flair José Carrilho. Medicina de Família e Comunidade e doenças gastroenterológicas. população anti-VHC positivo), e as formas de transmissão mais comumente descritas são hemotransfusões realizadas antes de 1993, uso de drogas, tatuagens e piercings. Os casos diagnosticados deverão ser encaminhados para os Centros de Referência para Tratamento (CRTs) de hepatites e doenças infecto-contagiosas. Esses pacientes serão avaliados e, no caso de serem estadiados como doença leve (fibrose hepática 0 ou 1), poderão ser acompanhados pelo médico de família, por meio da monitoração da ALT e função hepática, e serão reencaminhados em momento oportuno28. 4. Referências 1. McWhinney IR. A Textbook of Family Medicine. 2. ed. New York: Oxford University Press; 2003. 448p. 2. Pellegrino E. The Academic Viability of Family Medicine. Journal of the American Medical Association. 1978; (240): p. 132-35. 3. Forés M, Gervas J, Bonet M, Marcos L, Tomás P, Sagués A. Epidemiological aspects of patient data in Spanish general practice. In: Lamberts H, Wood M, Hofman I, Editors. The International Classification of Primary Care in The European Community, with a Multilanguage layer. New York: Oxford University Press; 1993. p. 119-24. 4. Fry J. A New Approach to Medicine – priorities and principles of health care. Lancaster: MTP Press Limited; 1978. 154p. 5. Grainger SL, Klass HJ, Rake MO, Williams JG. 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Ellen Zatti Ramos Simionato* Jonathan Soldera** Eduardo Machado Estevão Pires** Filipe Rech Bassani*** Eduardo Schmidt Rizzon**** Gustavo Basso Poleto***** Resumo O objetivo do estudo foi associar os principais sinais e sintomas oculares da infância com a baixa acuidade visual em escolares do nordeste do Rio Grande do Sul. Durante o Projeto Saúde é Cidadania/Ação Comunitária, do período de março a setembro de 2006, foi realizado – com 338 escolares de quatro a 15 anos, os quais chegaram ao serviço de forma livre e espontânea – o teste de acuidade visual com a tabela de Snellen e um questionário indagando: a presença de dificuldade para ver o quadro; cefaléia; dor; vermelhidão ou prurido ocular. Foi considerado parâmetro para a baixa acuidade visual aquela menor ou igual a 20/20 em ambos os olhos. A estatística foi realizada pelo teste do qui-quadrado e o cálculo da sensibilidade (s), especificidade (e), valor preditivo positivo (vpp) e likelihood ratio + (lr+). Foi estatisticamente significativa a relação entre a baixa acuidade visual com a dificuldade para enxergar o quadro na escola (p<0,001, s=26%, e=93%, vpp=51%, lr+=3,7) e com a dor ocular (p=0,002, s=23%, e= 90%, vpp=38%, lr+=2,3). Não foi estatisticamente significativa a relação entre a baixa acuidade visual e a cefaléia (p=0,3, s=26%, e=79%, vpp=24%, lr+=1,2), prurido ocular (p=0,06, s=26%, e=83%, vpp=28%, lr+=1,5) e vermelhidão ocular (p=0,8, s=11%, e=88%, vpp=21%, lr+=0,9). A relação da presença de pelo menos uma dessas queixas com a baixa acuidade visual foi significativa (p=0,004, s=58%, e=60%, vpp=27%, lr+=1,4). Crianças em idade escolar com dificuldade em enxergar o quadro ou dor ocular têm uma probabilidade maior de possuírem baixa acuidade visual, enquanto crianças com cefaléia, vermelhidão ou prurido ocular não fazem parte dessa associação. Palavras-chave: Acuidade visual; Saúde Escolar; Manifestações Oculares. Key Words: Family Practice; Gastrointestinal Diseases; Primary Health Care. *Médica especialista em Oftalmologia Pediátrica. Ambulatório Central da Universidade de Caxias do Sul. Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil **Aluno, Monitor da Área de Oftalmologia do Projeto Saúde É Cidadania/Ação Comunitária, Faculdade de Medicina, Universidade de Caxias do Sul, Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil. ***Aluno, Bolsista de Iniciação Profissional da Área de Oftalmologia do Projeto Saúde É Cidadania/Ação Comunitária, Faculdade de Medicina, Universidade de Caxias do Sul, Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil. ****Médico, Bolsista de Iniciação Profissional da Área de Oftalmologia do Projeto Saúde É Cidadania/Ação Comunitária, Faculdade de Medicina, Universidade de Caxias do Sul, Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil. *****Aluno, Faculdade de Medicina, Universidade de Caxias do Sul. Voluntário da Área de Oftalmologia do Projeto Saúde É Cidadania/Ação Comunitária, Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil. 038 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Ellen Zatti Ramos Simionato, Jonathan Soldera, Eduardo Machado Estevão Pires, Filipe Rech Bassani, Eduardo Schmidt Rizzon e Gustavo Basso Poleto. Abstract Purpose: Associate the most important eye symptoms and signs of the childhood to low visual acuity in children from the northeast of Rio Grande do Sul. Methods: During the Project “Health and the Citizen/Community Action”, carried out from March to September 2006, a visual acuity test was performed in 338 schoolchildren between 4 and 15 years of age, who looked for the service spontaneously. The screening was performed using the Snellen chart and a questionnaire asking about difficulty to see the blackboard at school, headache, eye redness, pain or itch. Acuity less or equal to 20/20 in both eyes was used as parameter for low visual acuity. Statistical analysis was performed using the chi-square test and sensitivity (se), specificity (sp), positive predictive value (ppv) and likelihood ratio + (lr+). Results: There was a statistically significant relationship between low visual acuity and difficulty to see the blackboard at school (p<0.001, se=26%, sp=93%, ppv=51%, lr+=3.7) and eye pain (p=0.002, se=23%, sp=90%, ppv=38%, lr+=2.3). No statistically significant association was found between low visual acuity and headache (p=0.3, se=26%, sp=79%, ppv=24%, lr+=1.2), eye itch (p=0.06, se=26%, sp=83%, ppv=28%, lr+=1.5) and eye redness (p=0.8, se=11%, sp=88%, ppv=21%, lr+=0.9). On the other hand, there was a statistically significant relationship between the presence of at least one of these conditions and low visual acuity (p=0.004, se=58%, sp=60%, ppv=27%, lr+=1.4). Conclusion: Children at school age with difficulty to see the blackboard or with eye pain are more subject to low visual acuity, while no such association was found in children complaining from headache, eye pain or eye redness. 1. Introdução É de grande repercussão a baixa acuidade visual sobre o desenvolvimento de uma criança. Por isso, muitos autores reforçam a necessidade de triagem de acuidade visual, a fim de se detectar alterações visuais precocemente em crianças em idade escolar1, 2, 3, 4. Deve-se levar em consideração que é no período escolar que as crianças começam a necessitar de grande esforço ocular, sendo nessa faixa etária que distúrbios préexistentes podem vir a se manifestar. As principais conseqüências disso são: baixo rendimento escolar, distúrbios 039 Sinais e sintomas relacionados à baixa acuidade visual em escolares do nordeste do Rio Grande do Sul. psicológicos e emocionais, além de alterações no desenvolvimento da personalidade5, 6, 7. Um fato preocupante é que muitos professores não possuem conhecimento suficiente quanto à saúde ocular e, por esse motivo, não conseguem identificar a baixa acuidade visual e encaminhar as crianças a um profissional da área8. Diversos sinais e sintomas, como dificuldade de ver o quadro, cefaléia, dor, vermelhidão e prurido ocular, que não recebem a devida importância pelos pais e professores, podem significar diminuição da acuidade visual. Cerca de 20% a 25% das crianças em idade escolar apresentam algum tipo de problema ocular5,6, cuja detecção precoce é essencial para a minimização ou eliminação de suas conseqüências. É recomendado que o exame de acuidade visual seja realizado pelo pediatra ou médico de família da criança, o qual jamais deve considerar que a criança está sendo propriamente examinada fora de seu consultório9,10. Embora exista certa controvérsia quanto a quem deve realizar esse exame – seja o oftalmologista, quando da entrada da criança na escola, o pediatra ou o médico de família, quando a criança tem de quatro a sete anos, ou o enfermeiro ou o professor da escola –, a não-realização dele pelo pediatra ou médico de família que acompanha o crescimento e desenvolvimento da criança pode levar ao litígio por um diagnóstico tardio de ambliopia ou retinoblastoma11. O teste de acuidade visual tem por objetivo detectar precocemente deficiências como ambliopia e erros de refração5,6, não exigindo alto nível de especialização do examinador nem demandando alto custo. Tal teste tem uma acurácia de 87,1%6, sendo a triagem da acuidade visual perfeitamente viável e de fácil execução, podendo ser aplicada por professores e enfermeiros. O método mais usado é a tabela de Snellen, criada por Hermann Snellen, um oftalmologista francês, no século XIX. O método baseia-se na letra E voltada nas quatro direções e organizadas em linhas12. 2. Métodos O presente estudo analisou crianças em idade escolar, de 4 a 15 anos, no serviço de Oftalmologia do Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Ellen Zatti Ramos Simionato, Jonathan Soldera, Eduardo Machado Estevão Pires, Filipe Rech Bassani, Eduardo Schmidt Rizzon e Gustavo Basso Poleto. Projeto Saúde é Cidadania/Ação Comunitária, que foi desenvolvido pela Pró-Reitoria de Extensão por meio da Coordenadoria de Desenvolvimento Social da Universidade de Caxias do Sul (UCS). Nesse projeto, alunos e professores da UCS visitaram cidades e bairros do nordeste do Rio Grande do Sul que apresentam dificuldades de acesso ao atendimento de saúde primário. Foram realizados diversos exames de triagem, como medida da glicose capilar, toque retal, aferição da pressão arterial, exame dermatoscópio de lesões cutâneas, medida da acuidade visual, dentre outros. Foram atendidos gratuitamente, nessa oportunidade, todos os pacientes que buscaram o serviço, sendo a demanda espontânea. A aferição da acuidade visual foi feita com a tabela de Snellen com optotipos E. Para a realização dos testes foram escolhidos lugares tranqüilos e com iluminação adequada. As tabelas foram fixadas a uma distância de 5 metros do examinado, e a linha correspondente à acuidade visual 20/20 foi colocada ao nível dos olhos do mesmo. Antes do início do teste, foi esclarecido a cada um o objetivo e o método do teste, a fim de facilitar a compreensão e a identificação dos optotipos da tabela. Foi apresentado o optotipo E em suas variações, para que o sujeito pudesse indicar a direção do optotipo. Essa explicação foi realizada com a pessoa situada próxima à tabela. Para facilitar a compreensão e a resposta, foi dada ao sujeito uma régua em formato de E, a qual ele podia girar conforme a posição da letra na tabela. A acuidade visual foi aferida em cada olho separadamente, primeiro no direito e, a seguir, no esquerdo. Iniciou-se apontando para o primeiro optotipo da tabela, continuando de acordo com as linhas horizontais, de cima para baixo. Quando o sujeito apresentou dificuldade em determinada etapa, solicitou-se que ele repetisse a linha anterior. Foi registrada a acuidade visual da linha em que o examinado acertou pelo menos 70% dos optotipos sem apresentar dificuldades, sendo utilizada a classificação fracionada para a tomada de notas. Esse exame foi realizado pelos acadêmicos do 10º e 12º semestre de Medicina após 040 Sinais e sintomas relacionados à baixa acuidade visual em escolares do nordeste do Rio Grande do Sul. treinamento e sob a supervisão dos orientadores. O exame foi realizado apenas com o consentimento dos responsáveis pelo sujeito, sendo preenchido um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, o qual foi aprovado pelo comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Caxias do Sul, conforme os preceitos da ética em pespesquisa em seres humanos. Ao término do exame, os sujeitos, com auxílio de seus responsáveis, responderam a um questionário que indagava sobre a idade, sexo e a presença dos sinais e sintomas levantados pelo grupo pesquisador: dificuldade de ver o quadro, cefaléia, dor, vermelhidão e prurido ocular. Foram incluídos no trabalho todos os sujeitos de 4 a 15 anos que buscaram o serviço de forma livre e espontânea, sendo excluídos os portadores de deficiência considerados incapazes de, satisfatoriamente, responderem ao exame com a tabela de Snellen. Foi considerada como baixa acuidade visual aquela inferior a 20/20 em ambos os olhos. Isso para fins de análise estatística, já que se sabe que em crianças de 4 a 7 anos pode-se usar como parâmetro a acuidade 20/25, dado o fato de que a visão de crianças nessa faixa etária ainda se encontra em desenvolvimento. A análise estatística foi realizada na plataforma estatística SPSS for Windows 14.0, utilizando-se o teste do qui-quadrado para calcular a associação entre os cinco sinais e sintomas citados e a baixa acuidade visual. Na plataforma Pepi4, foram calculadas prevalências com intervalo de confiança 95% por meio do Teste de Fisher. Foram calculados os valores da sensibilidade, especificidade, acurácia, valor preditivo positivo (VPP) e negativo (VPN) e likelihood ratio + (LR +) para cada um dos sinais e sintomas e associações. 3. Resultados Das 338 crianças incluídas no estudo, 167 (49,4%, IC95%: 44%-54,7%) eram meninos e 171 (50,6%, IC95%: 45,2%-55,9%), meninas. Em relação à faixa etária, 66 (19,5%, IC95%: 15,5%-24%) tinham de 4 a 7 anos, 169 (50%, IC95%: 44,6%-55,3%) tinham de 8 a 11 anos e 103 (30,5%, IC95%: 25,7%-35,5%) tinham de 12 a 15 anos. Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Ellen Zatti Ramos Simionato, Jonathan Soldera, Eduardo Machado Estevão Pires, Filipe Rech Bassani, Eduardo Schmidt Rizzon e Gustavo Basso Poleto. Sinais e sintomas relacionados à baixa acuidade visual em escolares do nordeste do Rio Grande do Sul. Tabela 1. Prevalência dos sinais e sintomas pesquisados na amostra. Tabela 2. Relação dos sinais e sintomas pesquisados com a baixa acuidade visual. Encontrou-se, nessa amostra, baixa acuidade visual em 68 crianças (20,1%, IC95%: 16,1%-24,6%). A prevalência dos sinais e sintomas pesquisados pode ser visualizada na Tabela 1. Houve associação entre a baixa acuidade visual com a dificuldade para enxergar o quadro e a dor ocular, conforme descrito na Tabela 2. Os cálculos de sensibilidade, especificidade, acurácia, VPP, VPN e LR + podem ser observados de acordo com a Tabela 3. 4. Discussão O estudo demonstrou que a baixa acuidade visual em escolares do nordeste do Rio Grande do Sul possui uma relação significativamente estatística com os sinais e sintomas investigados. Também foi quantificada, no presente estudo, a 041 prevalência de baixa acuidade visual nos pacientes atendidos, que foi de 20,1%, um valor aproximado aos valores de outros estudos brasileiros, como: 19% em Porto Alegre13, 28,5% em Jundiaí 14, 22,4% em São Paulo15, 17,8% em Londrina16 e 11,9% em São Carlos17. Na amostra estudada, obteve-se um total de 35 crianças com a queixa de dificuldade para enxergar o quadro, estando a mesma presente em 26,4% dos pacientes com baixa acuidade visual (p<0,001). Erros de refração são causas comuns de dificuldade visual infantil e podem cursar com baixa acuidade visual para longe, o que pode causar dificuldade para a criança enxergar o quadro na escola, que normalmente se encontra distante e mais alto do que o local onde a criança está sentada. Deve-se notar, porém, que, embora esse sintoma seja específico, é pouco sensível. Crianças com essa queixa devem ser submetidas à avaliação oftalmológica completa, enquanto sua ausência Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Ellen Zatti Ramos Simionato, Jonathan Soldera, Eduardo Machado Estevão Pires, Filipe Rech Bassani, Eduardo Schmidt Rizzon e Gustavo Basso Poleto. Sinais e sintomas relacionados à baixa acuidade visual em escolares do nordeste do Rio Grande do Sul. Tabela 3. Análise estatística da presença dos sinais e sintomas na baixa acuidade visual. não deve significar a ausência de deficiência visual, sendo indicado o exame de triagem visual habitual. Dor ocular foi um sintoma referido por 42 crianças entrevistadas, sendo encontrado em 23,5% das crianças com baixa acuidade visual (p=0,002). Esse sintoma, geralmente associado a doenças que não afetam a acuidade visual, pode estar presente em pacientes com erros de refração, já que estes necessitam muitas vezes de grande esforço em ambiente escolar ou domiciliar para visualizar objetos que se encontram distantes deles, o que pode eventualmente causar esse sintoma. A presença desse sintoma deve levar a uma avaliação oftalmológica completa, para excluir doenças oftalmológicas da infância que cursam com ele e que não afetam a acuidade visual, além de já ser possível a investigação de erros de refração. Sua ausência, entretanto, não isenta a criança de ser submetida à triagem visual habitual. Foi observado um total de 74 crianças queixandose de cefaléia, estando presente em 26,4% das crianças com baixa acuidade visual (p=0,3). O estudo holandês de Hendricks et al. encontrou uma pequena, porém, estatisticamente significativa relação entre erros de refração e a cefaléia em crianças, concluindo que erros de refração podem ser um fator de risco para cefaléia em crianças18. No presente estudo, porém, esse achado não teve relação com a baixa acuidade visual e não foi suficientemente sensível 042 nem específico. Embora a cefaléia apresente uma relação, na cultura popular, com a baixa acuidade visual, o encaminhamento de crianças apresentando esse sintoma para avaliação oftalmológica completa compulsoriamente não pode ainda ser recomendada, sendo necessários mais estudos para corroborar tal conduta. O ideal consiste na avaliação clínica pelo pediatra ou médico de família, que será capaz de investigar clinicamente as causas de cefaléia infantil, ficando ao seu critério a avaliação oftalmológica completa. A triagem visual habitual, porém, é indicada. Vermelhidão ocular foi um sinal presente em 38 crianças, sendo notada em 11,7% das crianças com baixa acuidade visual (p=0,87). No que se refere ao prurido ocular, 63 crianças queixaram-se de tal sintoma, estando este presente em 26,4% das crianças que apresentaram baixa acuidade visual (p=0,06). Esses dois sintomas, geralmente associados a diversas outras doenças como o glaucoma e a conjuntivite infecciosa e alérgica, não foram relacionados à baixa acuidade visual na presente amostra. Esses devem ser avaliados cuidadosamente pelo pediatra ou médico de família quanto ao diagnóstico diferencial e à necessidade de encaminhamento ao oftalmologista, não indicando uma avaliação oftalmológica completa compulsória, já que são pouco sensíveis e específicos, devendo ser realizada a triagem visual habitual. A pesquisa dos dois sinais e sintomas relacionados Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Ellen Zatti Ramos Simionato, Jonathan Soldera, Eduardo Machado Estevão Pires, Filipe Rech Bassani, Eduardo Schmidt Rizzon e Gustavo Basso Poleto. à baixa acuidade visual deve fazer parte da triagem visual, podendo esses ser preditores da presença de alguma doença visual infantil. É recomendada, também, a realização em todas as crianças da triagem visual habitual, conforme recomendado pela Organização Mundial de Saúde. É sugerida a realização de novos estudos sobre o assunto proposto, a fim de relacionar definitivamente esses sinais e sintomas à baixa acuidade visual, para que a triagem visual seja mais efetiva. O grupo pesquisador também acha importante salientar que pediatras e médicos de família deveriam ser capazes de realizar triagem visual, fazer o diagnóstico diferencial e a abordagem terapêutica das principais patologias oculares da infância, que, se não tratadas em tempo hábil, podem ter conseqüências importantes na vida da criança, e referir seu paciente ao oftalmologista quando necessário, não devendo manejar doenças de alto nível de complexidade se não apto para tanto. 5. Conclusão No presente estudo, portanto, buscou-se correlacionar a baixa acuidade visual aos principais sinais e sintomas oculares. Observaram-se dados estatisticamente significantes na relação entre dificuldade para ver o quadro e dor ocular com a baixa acuidade visual (p<0,05). Na associação entre cefaléia, prurido e vermelhidão ocular com a baixa acuidade visual, não foi possível estabelecer relação estatisticamente significante (p>0,05). 6. Referências 1.Temporini ER. 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Esta pesquisa foi realizada pelo Serviço de Oftalmologia do Projeto Saúde é Cidadania/Ação Comunitária da Universidade de Caxias do Sul e foi financiada pela PróReitoria de Extensão e Coordenadoria de Desenvolvimento Social da Universidade de Caxias do Sul. 044 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 RBMFC Prevalência de Obesidade e Obesidade Abdominal em amostra de usuários de um ambulatório de Medicina Integral. Prevalence of obesity and abdominal obesity in a sample of users of an Integrated Medicine Ambulatory. Charles R. M. Day* Cristiane C. Cabral** Vivian S. Lima** Gustavo Vaitsman** Ronaldo M. Louzada Junior** Christiano Buarque** Maria Inês Padula Anderson*** Rosimere J. Teixeira**** Resumo A obesidade é uma condição clínica cuja prevalência aumenta progressivamente e que está cada vez mais associada à morbi-mortalidade cardiovascular. A concentração visceral de gordura aumenta tal risco, portanto, a medida da cintura abdominal, de forma a evidenciar obesidade abdominal, torna-se necessária e tão importante quanto o índice de massa corporal (IMC). Nosso objetivo foi determinar a prevalência de obesidade e obesidade abdominal e sua associação com os fatores de risco cardiovasculares. Uma amostra de pacientes assistidos no Ambulatório de Medicina Integral foi analisada quanto: idade, sexo, IMC, cintura e as presenças de diabetes mellitus tipo 2, hipertensão arterial, dislipidemia, síndrome metabólica (SM), tabagismo e sedentarismo. Foram selecionados 119 pacientes, todos com aferição do IMC e cintura, entre 50 ±13,4 anos, sendo 89% mulheres. A prevalência de obesidade e de obesidade abdominal foi de 44% e 66%, respectivamente. A obesidade e a obesidade abdominal estão associadas à presença de SM (p=0,01; OR=3,42 e p=0,0005, OR=7,55), e entre si (p<0,0001, OR=22,1). A determinação da cintura foi um teste sensível (89.5%) e com bom valor preditivo negativo (80%) para o diagnóstico de SM em nossos pacientes. As prevalências de obesidade e obesidade abdominal foram altas. A obesidade e a obesidade abdominal estão associadas com a SM. A cintura elevada é um marcador sensível para o diagnóstico de SM, corroborando a importância da sua medida na prática clínica. Abstract Obesity is a progressively prevalent clinical condition increasingly associated with mortality and morbidity from cardiovascular diseases. Visceral fat accumulation worsens such risk and for that reason measuring the waist circumference as a way for evidencing Abdominal Obesity Palavras-chave: Epidemiologia; Obesidade; Medicina de Família. Key Words: Epidemiology; Obesity; Family Practice. *Residente de Medicina Familiar e Comunitária, Departamento de Medicina Integral, Familiar e Comunitária, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. **Interno, Faculdade de Ciências Médicas, do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. ***Professora adjunta e chefe do Departamento de Medicina Integral, Familiar e Comunitária, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. ****Professora visitante do Departamento de Medicina Integral, Familiar e Comunitária, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. 045 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Charles R. M. Day, Cristiane C. Cabral, Vivian S. Lima, Gustavo Vaitsman, Ronaldo M. Louzada Junior, Christiano Buarque, Maria Inês Padula Anderson e Rosimere J. Teixeira. is considered as necessary and important as calculating the Body Mass Index (BMI). The objective of this study is to determine the prevalence of obesity and abdominal obesity and associate them with cardiovascular risk factors. A sample of patients, users of an Integrated Medicine Ambulatory, was analyzed as to age, sex, BMI, waist circumference and clinical conditions such as arterial hypertension, diabetes mellitus type 2, metabolic syndrome (MS), tobacco use and sedentary lifestyle. Patients who already had their waist circumference measured or BMI calculated were selected from the sample, so that 119 patients actually entered the study. Their age mean was 50±13,4 years, 89% were females. The prevalence of obesity and abdominal obesity was 44% and 66% respectively. Both obesity and abdominal obesity were associated with MS (p=0,01, OR=3,42; p=0,0005, OR=7,55) and with each other (p<0,0001, OR=22,1). Circumference measurement was a diagnostic test for MS presenting sensitivity (89.5%) and a good negative prediction value (80%) in our patients. The prevalence of obesity and abdominal obesity was high in this sample. Obesity and abdominal obesity are associated with MS. These data confirm circumference measurement as an important diagnostic tool in the clinical practice. 1. Introdução A obesidade é uma condição clínica cuja prevalência vem aumentando significativamente nas últimas décadas1, a ponto de ser considerada uma epidemia. Devido a sua conhecida associação com perfis metabólicos desfavoráveis e com o aumento do risco cardiovascular2, sua importância, no âmbito da saúde pública, torna-se inquestionável. Sabe-se, atualmente, que não só o índice de massa corporal (IMC) elevado está associado a tais desfechos clínicos, como também a circunferência abdominal (ou cintura elevada), a qual é um dado de suma importância como fator preditor para a morbi-mortalidade cardiovascular. A concentração visceral de gordura aumenta tal risco, sendo considerada como um fator independente. Isso porque a cintura elevada traduz a presença de Obesidade Abdominal ou Visceral, que é mais associada com o risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares (DCV) do que o simples aumento do peso corporal total, medido pelo IMC3. 046 Prevalência de Obesidade e Obesidade Abdominal em amostra de usuários de um ambulatório de Medicina Integral. A consagração de tal conceito se deu com o reconhecimento da existência de um estado clínicometabólico no qual inflamação crônica, disfunção endotelial e resistência à insulina criam um processo fisiopatológico comum4. Esse estado, hoje chamado de Síndrome Metabólica (SM), foi, a princípio, descrito por Reaven em 1988: é um transtorno complexo representado por um conjunto de fatores de risco tanto para diabetes mellitus tipo 2 (DM2) quanto para DCV, usualmente relacionados à Obesidade Abdominal e Resistência à Insulina como características adicionais5,6. Atualmente, existem definições diversas para a SM. A Organização Mundial da Saúde (OMS) a classifica como um distúrbio da glicemia ou da resistência à insulina, associado a, pelo menos, dois componentes dentre: Hipertensão Arterial (HA), Dislipidemia (DLP) e Obesidade (IMC ³ 30 e/ou relação cintura/quadril >0,85 nas mulheres e > 0,90 nos homens)7. Já o National Cholesterol Education Program’s Adult Treatment Panel III (NCEP-ATPIII), tendo como escopo a praticidade da aplicação do conceito no contexto clínico, define a SM como a presença de três ou mais dos seguintes componentes: Obesidade Abdominal, Intolerância à Glicose ou DM2, HA, HDL-colesterol baixo e/ou Hipertrigliceridemia8. A I Diretriz Brasileira para o Diagnóstico e Tratamento da SM (I-DBSM) foi ao encontro desta última definição9. No Brasil, o processo de transição epidemiológica observado principalmente a partir de 1970 também representou uma tendência ao aumento da prevalência das doenças crônico-degenerativas, sobretudo das DCV10. Na vida cotidiana, essas mudanças são representadas por um cenário de maior sedentarismo, mais estresse psicológico, mudanças na dieta com um consumo elevado de gorduras e reduzido de fibras6. No ambulatório da Medicina Integral (AMI), localizado no Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), o atendimento dos pacientes é feito sob uma perspectiva biopsicossocial, levando em conta o estilo de vida dos pacientes e valorizando práticas de promoção de saúde e prevenção de doenças. Por esse motivo, mantemos Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Charles R. M. Day, Cristiane C. Cabral, Vivian S. Lima, Gustavo Vaitsman, Ronaldo M. Louzada Junior, Christiano Buarque, Maria Inês Padula Anderson e Rosimere J. Teixeira. um número significativo de pacientes em acompanhamento continuado, tanto nos ambulatórios dos internos quanto dos residentes. Também no nosso serviço temos notado uma grande prevalência de obesos e de pacientes que podem ser classificados como portadores da SM. Por isso, torna-se bastante relevante quantificar a magnitude deste problema e sua provável associação com perfis de risco cardiometabólicos. Este estudo teve como objetivos aferir a prevalência de Obesidade e Obesidade Abdominal em uma amostra de pacientes usuários do AMI, medir a associação de sua presença com os fatores considerados preditores de DCV e avaliar o papel da cintura e do IMC no diagnóstico da SM. Esperamos com nosso estudo traçar um perfil clínico, metabólico e comportamental de nossos pacientes e focarmos nossa atenção na prevalência da Obesidade/ Obesidade Abdominal e de sua correlação com riscos e acometimentos. 2. Casuística e Métodos Trata-se de estudo de corte transversal com base em dados secundários. Foram avaliados os dados clínicos de 121 pacientes assistidos na sala 25 do AMI, todas as terças-feiras. Esses dados foram previamente registrados em uma planilha, pelos internos do Departamento de Medicina Integral, Familiar e Comunitária (DMIFC), que serviu de base para os cálculos estatísticos efetuados. Foram incluídos na planilha os pacientes adultos, de ambos os sexos, atendidos no período de março a agosto de 2005, com pelo menos duas consultas neste serviço no último ano. Os dados avaliados na planilha de registro foram: idade, sexo, IMC, cintura e as presenças de DM2, HA, DLP, SM, tabagismo e sedentarismo. Para o registro na planilha foram utilizados os critérios diagnósticos abaixo. A Obesidade foi definida por meio do IMC, obtido pela divisão do peso em quilogramas pelo quadrado da altura em metros. Foram considerados obesos os pacientes com IMC maior ou igual a 30kg/m2 11. A Obesidade Abdominal foi definida como a presença da cintura 047 Prevalência de Obesidade e Obesidade Abdominal em amostra de usuários de um ambulatório de Medicina Integral. maior ou igual a 102cm nos homens e 88cm nas mulheres. A circunferência da cintura abdominal foi medida com o paciente em pé, no ponto médio entre a espinha ilíaca anterior e o último arco costal. A medida foi obtida em centímetros, com fita métrica de precisão, de um milímetro9. O DM2 foi definido como dois resultados de glicemia de jejum maiores ou iguais a 126 mg/dL, glicemia casual maior ou igual a 200 mg/dL na presença de sintomas clássicos (poliúria, polidipsia, polifagia e perda de peso), glicemia após Teste Oral de Tolerância à Glicose (TOTG) maior ou igual a 200 mg/dL ou em caso de tratamento medicamentoso. A Glicemia de Jejum Alterada (GJA) foi definida como duas medidas de glicemia de jejum maiores ou iguais a 110 mg/dL e menores que 126 mg/dL. A Tolerância Diminuída à Glicose (TDG) foi definida como glicemia após TOTG maior ou igual a 140 mg/dL e menores que 200 mg/dL7,12. A HA foi definida com pelo menos duas aferições, pela pressão arterial sistólica maior ou igual a 130mmHg, pressão diastólica maior ou igual a 85mmHg ou em caso de tratamento medicamentoso13. As dislipidemias foram classificadas da seguinte forma: Hipertrigliceridemia, quando os níveis séricos de triglicerídeos encontraram-se acima ou iguais a 150mg/ dL; baixo HDL-colesterol, quando este encontrou-se abaixo de 40mg/dL nos homens e 50mg/dL nas mulheres; Hipercolesterolemia, quando os níveis séricos de colesterol total encontraram-se acima de 200mg/dL; e LDLcolesterol aumentado, quando este encontrou-se acima de 160mg/dL. Denominou-se DLP mista a presença de dois ou mais dos transtornos acima7,14. Foi considerado como dislipidêmico o paciente com pelo menos um tipo de DLP. A SM foi definida utilizando-se os critérios do NCEP ATP III e da I DBSM 7,8 a partir da presença de pelo menos três ou mais componentes: Obesidade Abdominal, Hipertrigliceridemia, baixos níveis de HDLcolesterol, HA e alteração da homeostase da glicose (GJA ou TDG) ou DM2. O sedentarismo foi definido como a não-realização de atividade física regular, pelo menos duas vezes por Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Charles R. M. Day, Cristiane C. Cabral, Vivian S. Lima, Gustavo Vaitsman, Ronaldo M. Louzada Junior, Christiano Buarque, Maria Inês Padula Anderson e Rosimere J. Teixeira. semana, nos últimos 30 dias. O tabagismo foi definido como o consumo de qualquer número de cigarros nos últimos 30 dias. Quanto à presença ou não de uma determinada condição clínica, confiou-se na informação contida na planilha, não sendo esta confirmada posteriormente. O único critério de exclusão do estudo usado foi a ausência de aferição do IMC e da cintura. Restaram 119 pacientes para a análise estatística. Foi determinada a prevalência de pacientes com Obesidade e Obesidade Abdominal (n=119), DM2 (n=117), HA (n=115), DLP (n=108), SM (n=72), sedentarismo (n=88) e tabagismo (n=115). Os dados foram apresentados em percentual. Esses percentuais foram calculados sobre o número de pacientes avaliados, representado pelos pacientes que tinham a condição clínica discriminada na planilha. Foram utilizados o teste do qui-quadrado ( 2) ou o teste exato de Fisher para averiguar a significância estatística entre a presença de Obesidade e Obesidade Abdominal com os demais fatores de risco para DCV, como DM2, HA, DLP, sedentarismo e tabagismo. Foram calculados os Odds Ratio (OR) dessas associações. Foi considerado estatisticamente significativo p = 0,05. Também analisamos a sensibilidade, a especificidade, os valores preditivos positivo e negativo e a acurácia do IMC e da cintura para o diagnóstico da SM. Um teste com resultado maior ou igual a 80% foi aceito como uma proporção relevante. 3. Resultados O perfil da amostra de pacientes mostrou predomínio do sexo feminino (89,1%). A idade média dos pacientes foi de 50 ±13,4 anos (22 a 76 anos); sendo que 20% estavam abaixo dos 40 anos, 54% entre 40 e 60 anos, e 26% eram idosos. A prevalência de Obesidade e de Obesidade Abdominal foi de 44,1% e 65,5%, respectivamente (gráfico 1). A prevalência de sedentarismo foi de 62,5% e de tabagismo foi de 18,3%. Na amostra avaliada, 15,4% dos casos eram diabéticos; 37,4%, hipertensos; 63,9%, dislipidêmicos e 52,8%, portadores de SM. Quanto ao tipo 048 Prevalência de Obesidade e Obesidade Abdominal em amostra de usuários de um ambulatório de Medicina Integral. de DLP, observamos que 10,9% apresentavam Hipertrigliceridemia, 10,9%, LDL-colesterol elevado, 23,9%, HDL-colesterol baixo e 54,4%, DLP mista. Os pacientes com Obesidade Abdominal e Obesidade apresentaram associação significativa com a presença de SM (p=0,0005, OR= 7,55 (IC: 2,2-25,9) e p=0,01; OR=3,42 (IC:1,2-9,2), respectivamente, e entre si (p<0,0001, OD=22,1 IC:6,2-78,4) (tabela 1 e gráfico 2). Não foi encontrada associação estatisticamente significativa com a presença de DM2, DLP, HA, tabagismo e sedentarismo (tabela 1). A medida da cintura elevada e o IMC foram avaliados como teste diagnóstico para SM. A medida da cintura mostrou-se sensível (89,5%) e com bom valor preditivo negativo (80%), enquanto o IMC não apresentou uma proporção relevante nesta amostra (tabela 2). 4. Discussão No Brasil, as mudanças demográficas, socioeconômicas e epidemiológicas, ao longo do tempo, permitiram que ocorresse a denominada transição nos padrões nutricionais, com a diminuição da desnutrição e o aumento da obesidade15. Em 1997 a prevalência de obesidade no país foi estimada de 11% da população residente nas regiões nordeste e sudeste, enquanto em 1989 era de 9,8% e, em 1974, de 5,7%, mostrando o desenvolvimento da obesidade16. Em conseqüência dos novos e piores hábitos alimentares, os brasileiros engordam ao longo das últimas três décadas, como foi indicado pela segunda parte da Pesquisa de Orçamento Familiares (POF), 2002-2003, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Ministério da Saúde. Segundo o levantamento, o país tem cerca de 38,6 milhões de pessoas com peso acima do recomendado, o equivalente a 40,5% da população adulta. Deste total 10,5 milhões são obesos 17. Até o momento, não existem dados representativos da prevalência de Obesidade Abdominal na população brasileira. A análise de nossos dados demonstrou uma alta prevalência de Obesidade e Obesidade Abdominal, assim como de sedentarismo na amostra populacional do AMI, semelhantes aos Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Charles R. M. Day, Cristiane C. Cabral, Vivian S. Lima, Gustavo Vaitsman, Ronaldo M. Louzada Junior, Christiano Buarque, Maria Inês Padula Anderson e Rosimere J. Teixeira. Prevalência de Obesidade e Obesidade Abdominal em amostra de usuários de um ambulatório de Medicina Integral. Tabela 1. Associação entre a presença de Cintura e IMC elevados e os fatores de Risco Cardiovascular. Tabela 2. Valor da Cintura e do IMC como teste diagnóstico para a Síndrome Metabólica. Gráfico 1. Proporção de Pacientes com Obesidade Abdominal (A) e Obesidade (B) na amostra de usuários do Ambulatório de Medicina Integral. Gráfico 2. Distribuição de Obesidade Abdominal (A) e Obesidade (B) na amostra de usuários do Ambulatório de Medicina Integral com Síndrome Metabólica. CA= circunferência abdominal; elev.= elevada; IMC= índice de massa corporal. 049 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Charles R. M. Day, Cristiane C. Cabral, Vivian S. Lima, Gustavo Vaitsman, Ronaldo M. Louzada Junior, Christiano Buarque, Maria Inês Padula Anderson e Rosimere J. Teixeira. estudos previamente realizados em nossa comunidade18,19. O aumento da prevalência de Obesidade no mundo e provavelmente da SM parecem resultar principalmente da obesidade exacerbada pelo estilo de vida sedentário7,8. Acredita-se que vários fatores influenciam na prevalência da SM. O primeiro é, obviamente, a definição empregada. Sexo, faixa etária, origem étnica e estilo de vida também desempenham seu papel. Apesar de ainda não haver dados significativos de prevalência da SM na população brasileira, estudos internacionais encontram prevalências variando de 12,4% a 28,5% em homens e 10,7% a 40,5% em mulheres. A alta prevalência de SM nesta amostra (52,8%) está de acordo com os dados da literatura, que mostram que a prevalência tende a ser maior em pessoas acima dos 50 anos, chegando até 60%9,18. A amostra de usuários avaliados encontrava-se na faixa etária entre 40 a 60 anos, sendo 26% de idosos. Além da elevada prevalência nas populações, suas complicações crônicas comprometem significativamente a qualidade de vida e a sobrevida de seus portadores. A Obesidade, especialmente a Obesidade Abdominal é considerada fundamental para o desenvolvimento do DM2 e da SM 13. É importante destacar a associação entre a SM com a DCV, aumentando a mortalidade geral e cardiovascular em cerca de 1,5 a 2,5 vezes, respectivamente19, 20, 21, 22. Nesta amostra, a presença de Obesidade e Obesidade Abdominal foi associada a uma maior chance de apresentar SM. Enquanto a cintura mostrou-se o método mais sensível para a detecção da SM, apresentando, também, um valor preditivo negativo significativo. O IMC não foi uma ferramenta tão útil para a detecção de SM, sendo superado, quanto a esse escopo, pela medida da cintura. Pode-se, portanto, afirmar que a cintura abdominal está mais associada à presença de SM do que o IMC. Este achado vai ao encontro da nova definição formulada em 2005 pela International Diabetes Federation (IDF), com acadêmicos da OMS 7 e do NCEP 8 , contribuindo para a tomada de decisão, que enfatizou a Obesidade Abdominal como componente principal da SM23. Assim como corroboram os dados da literatura que 050 Prevalência de Obesidade e Obesidade Abdominal em amostra de usuários de um ambulatório de Medicina Integral. já consagravam tal associação24. A IDF colocou o aumento da cintura como requisito primordial para o diagnóstico da SM e estabeleceu pontos de corte da medida da cintura inferiores, em comparação com os requisitos da NCEP8, e etnicamente específicos, reconhecendo a maior sensibilidade aos efeitos metabólicos adversos do excesso de ganho de peso em vários grupos étnicos. Para a população de origem européia foi estabelecido o corte de 94cm para homens e 80cm para mulheres. E para a população de origem latinoamericana foram estabelecidos 80cm para mulheres e 90cm para homens23. Os componentes individuais da SM, como obesidade, HA, DM2 e DLP, estão efetivamente estabelecidos como fatores de risco cardiovascular 10,25, assim, quando eles ocorrem simultaneamente, é lógico que os resultados adversos devem ter maior chance de ocorrer. Estudos epidemiológicos sugerem fortemente que os múltiplos fatores de risco aumentam o risco mais que o somatório de simples fatores de risco26. Devemos lembrar que a Obesidade e a Obesidade Abdominal são cada vez mais prevalentes nas sociedades modernas. Além disso, a SM é uma condição progressiva, que costuma começar com a obesidade, tende a piorar com o avançar da idade e com o aumento da obesidade, por isso os indivíduos com a síndrome têm uma longa trajetória de riscos, a longo prazo, tanto para DCV quanto para DM226. Recentemente, a IV Diretriz Brasileira sobre Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose considera a presença da SM como fator de risco agravante para o desenvolvimento de DCV em qualquer estágio da estratificação de risco cardiovascular27. Nesta amostra de pacientes usuários do AMI, as prevalências de sedentarismo, Obesidade e Obesidade Abdominal foram altas e a prevalência de SM foi semelhante aos da literatura para a faixa etária. Tanto a Obesidade quanto a Obesidade Abdominal estão associadas à SM, assim como estão associadas entre si, mas também podem se associar com outros fatores de risco cardiovasculares. A cintura elevada foi um teste diagnóstico sensível e com bom valor preditivo negativo para o diagnóstico de SM, confirmando a importância de sua medida na prática clínica. Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Charles R. M. Day, Cristiane C. Cabral, Vivian S. Lima, Gustavo Vaitsman, Ronaldo M. Louzada Junior, Christiano Buarque, Maria Inês Padula Anderson e Rosimere J. Teixeira. A medida do IMC não se mostrou tão valiosa para este fim. Devem ser empreendidos novos estudos com maiores amostras para corroborar as associações encontradas e para esclarecer as tendências estatísticas percebidas. Nossos dados reforçam a tendência na literatura atual de considerar a Obesidade como um problema de saúde pública bem definida, e não mais, somente, uma questão estética. Deve-se, portanto, encorajar uma postura menos tolerante dos profissionais de saúde frente à Obesidade considerando seu portador em risco pleno para o desenvolvimento futuro de doenças metabólicas e cardiovasculares. Deve-se, finalmente, apontar a necessidade de serem realizados mais estudos, principalmente em ambulatórios de cuidados primários, com maior número de pacientes e maior abrangência para explicitar de forma mais minuciosa as relações entre a Obesidade Abdominal com riscos e acometimentos cardiovasculares. Acreditamos ser necessário um maior foco das ações em promoção da saúde dirigidas a mudanças no estilo de vida, reduzindo a prevalência da Obesidade, em especial da Obesidade Abdominal, a fim de reduzir o risco cardiometabólico e a incidência de doença cardiovascular na população adulta. 5. Referências 1.Mancini, MC; Halpern, A. Obesidade: como diagnosticar e tratar. Rev Med Bras. 2006; 63: 132-43. 2.Gomes, MB, Neto DG, Mendonça E, Tambascia MA, Fonseca RM, Réa RR et al. 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Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Charles R. M. Day, Cristiane C. Cabral, Vivian S. Lima, Gustavo Vaitsman, Ronaldo M. Louzada Junior, Christiano Buarque, Maria Inês Padula Anderson e Rosimere J. Teixeira. Prevalência de Obesidade e Obesidade Abdominal em amostra de usuários de um ambulatório de Medicina Integral. 19.Azevedo FS, Simon E, Silva AWSM, Silva TT, Barbosa JSO, Teixeira RJ. Obesidade abdominal e fatores de risco cardiovascular em participantes do projeto Atividade Física na Vila” VI Congresso Brasileiro de Cardiologia/XXII e Congresso Sul-Americano de Cardiologia, Recife/PE, 2125 de outubro de 2006, página 116. 20.Teixeira RJ, Simão YCS e Anderson MIP. Abordagem da síndrome metabólica. In: PROMEF 2006; ciclo 1 módulo 2: 102-24. 21.Sathyaprakash R, Henry RR. Prevenindo o diabetes através do tratamento dos componentes da síndrome plurimetabólica. Current Diabetes Reports Latin América. 2003; 2: 132-8. 22.Isomaa B, Almgren P, Tuomi T. 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Teixeira Rua General Espírito Santo Cardoso, 377, apto. 403 Tijuca – Rio de Janeiro (RJ) CEP: 20.530.500 Endereço Eletrônico: [email protected] 052 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 RBMFC Relato de Caso Intervenção na adesão ao tratamento de doenças crônicas tendo como modelo um paciente adolescente HIV positivo. Case Report Adherence to chronic disease treatment using an HIV positive adolescent as a model: a case study. Larissa Matsumoto* Júlia Andrade de Oliveira* Camila Aparecida Moma* Telma Kenshima* Marília Martins Corrêa* Gustavo Tenório Cunha** Resumo A clínica ampliada visa à abordagem integral do paciente, baseando-se na intersetorialidade, no acompanhamento longitudinal e no apoio matricial. No caso de doenças crônicas, é fundamental a formação de vínculo e construção do projeto terapêutico singular, possibilitando maior adesão ao tratamento. O objetivo do presente estudo é, por meio da discussão do caso clínico de um adolescente HIV positivo não-aderente ao tratamento, propor intervenções que possam ser usadas como exemplo na condução de casos semelhantes. A equipe da UBS selecionou um caso complexo em que mãe e filho adolescente, HIV positivos, não aderiram de forma adequada ao tratamento. A fim de entender seu contexto familiar e social, e iniciar possíveis intervenções, foram realizadas visitas domiciliares e comunicação entre os diversos níveis de atendimento, o que propiciou a articulação entre os serviços e melhor identificação das demandas familiares. Na abordagem do paciente, deve-se considerar tanto seu aspecto biológico quanto seu contexto sociocultural, a fim de possibilitar um atendimento individualizado, de forma a oferecer melhor qualidade de vida e maior adesão ao tratamento. Abstract Comprehensive care approaches the patient in an integrated way, on the three health care levels, through long-term care and counting with specialized support. In the case of chronic diseases, the establishment of a dialogue and individualized treatment plans are fundamental for a better adherence to treatment. The objective of the present study discussing the case of a HIV positive adolescent, who did not adhere to treatment, is to propose interventions that can serve as examples in the conduct of similar case. The primary care team selected a complex case, in which the mother and her adolescent son, both HIV infected, had not adhered adequately to treatment. Household visits were made in order to understand their familiar and social context and to initiate possible intervenPalavras-chave: Aderência; Terapêutica, Doença Crônica; HIV. Key Words: Adhesions; Therapeutics; Chronic Disease; HIV. *Acadêmicas, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, São Paulo, Brasil. ** Doutorando do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, São Paulo, Brasil. 053 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Larissa Matsumoto, Júlia Andrade de Oliveira, Camila Aparecida Moma, Telma Kenshima, Marília Martins Corrêa e Gustavo Tenório Cunha. tions, and contact was established between the different care levels. This resulted in a better articulation between the different services and helped identifying the needs of this family. A patient must be addressed not only considering the biological aspect but also his social and cultural environment to be able to offer individualized care and a better quality of life. 1. Introdução O conceito de clínica ampliada engloba características que possibilitam o melhor manejo do indivíduo frente à condução do caso, aumentando-se as chances de tornálo aderente ao tratamento e criar autonomia1,2. A sua concretização se dá pelos arranjos organizacionais: equipe de referência e apoio matricial. A equipe e o profissional de referência são aqueles responsáveis pela condução de um caso individual, familiar ou comunitário3. O acompanhamento deve ser longitudinal, a fim de permitir uma visão mais abrangente do indivíduo, conhecer seu contexto social, necessidades e possíveis demandas2,3. É fundamental que haja funcionamento dialógico e integrado da equipe de referência, que passa a ser um espaço coletivo, sem hierarquização durante as discussões de casos clínicos, sanitários ou de gestão3. Cabe a ela destacar, entre os diversos casos da comunidade, aqueles de maior vulnerabilidade4. O apoio matricial funciona como retaguarda especializada, agregando recursos de saber, contribuindo com intervenções. Porém, a relação entre profissionais de referência e especialistas passa a ser horizontal, com base em procedimentos dialógicos e troca de conhecimentos3. Os profissionais devem se incumbir da responsabilidade sobre o indivíduo, levando-se em consideração que o paciente é constituído tanto de elementos concretos quanto de subjetivos. Em todos os âmbitos, o profissional tem o compromisso ético de resguardar o sigilo, criando o primeiro elo da formação do vínculo1,2. Define-se adesão como a disciplina de cada pessoa em termos de seguir a farmacoterapia e a dieta e de realizar mudanças no estilo de vida, conforme orientações dadas pelo médico5. O sucesso da terapia proposta depende da adesão ao tratamento6 estimada para doenças crônicas em 50%7,8. 054 Intervenção na adesão ao tratamento de doenças crônicas tendo como modelo um paciente adolescente HIV positivo. A forma como se vê o papel do paciente em relação ao seu tratamento geralmente é de maneira a ignorar o contexto sociocultural e a visão que ele possui do processo saúde-doença, dificultando a compreensão dos reais motivos que impedem a adesão adequada à terapêutica proposta6. Assim, os profissionais tendem a reduzir a má aderência ao tratamento simplesmente à ignorância e à irresponsabilidade do paciente. Frente a uma doença crônica que cursa de forma assintomática, a adesão torna-se um desafio para os profissionais de saúde em relação ao manejo e para o próprio paciente quanto à conscientização e a importância do tratamento. Segundo o modelo de decisão terapêutica, que analisa a reação do paciente perante o tratamento, há três tipos de pessoas: 1) os que aceitam e procuram cumprir a prescrição; 2) os que aceitam, mas não sem testar outras opções e 3) os céticos, que recusam a terapêutica9. A adesão ao tratamento está muito relacionada com a conscientização da doença10,11,12,13. Até os pacientes mais ativos, quando não são bem informados e sem vínculo com o serviço de saúde9,13, recusam-se a aceitar padrões que interfiram no seu cotidiano, o que é uma forma de não sentir o estigma de doença crônica. Uma vez que o tratamento é aceito, ele se torna parte da vida, como algo rotineiro, e não mais como uma obrigação11. A simultaneidade da doença crônica e da adolescência caracteriza uma crise existencial, sobrepondo-se a outra crise, representada pela enfermidade incurável e respectiva necessidade de tratamento continuado. As mudanças ocorridas durante a adolescência implicam em ampliação do entendimento dos fatos, tais como conscientização da doença12, o sentimento de ser diferente dos outros jovens e a vergonha acarretada por isso, descoberta do preconceito e a procura com maior freqüência ao serviço de saúde12,13. Na infância, a consciência da doença encontra-se na mãe, pois é ela quem possui a percepção da enfermidade; por isso, cabem a ela as decisões e a adesão ao tratamento14. Nesse processo, é importante que as ações da mãe estejam articuladas com as propostas do médico, possibilitando sinergismo de atuações, com conseqüência positiva para a Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Larissa Matsumoto, Júlia Andrade de Oliveira, Camila Aparecida Moma, Telma Kenshima, Marília Martins Corrêa e Gustavo Tenório Cunha. qualidade de vida da criança15,16. Durante a transição para a adolescência, a mãe possui papel de transmitir a compreensão da doença ao jovem, buscando inicialmente compartilhar a responsabilidade e, aos poucos, construir autonomia suficiente para que o indivíduo possa assumir de forma integral o gerenciamento da enfermidade14. Como conseqüência, não haverá mais a necessidade de interposição na relação médico-paciente da figura materna, possibilitando que o contrato seja estabelecido de forma direta14. A condução da doença não deve ser restrita apenas ao médico, reconhecendo os limites de sua atuação profissional; é necessário buscar auxílio em equipe multidisciplinar e na intersetorialidade, aprimorando a integralidade do atendimento3,4. A inserção do adolescente em programas educativos que informem características da doença é uma estratégia que permite o maior envolvimento do jovem e da família na formação do contrato e da construção da autonomia 14,17,18 , evitando atitude passiva do doente e sua infantilização diante do tratamento18,19. A partir disso, o paciente tornase apto a negociar o projeto terapêutico, podendo interferir na tomada de decisões2. Por fim, os bons vínculos com a equipe de saúde e a autonomia do paciente facilitam a adesão adequada ao projeto terapêutico, a “desmedicalização” da vida e a descoberta de novas possibilidades, equilibrando o combate à doença com produção de vida2. O objetivo do presente estudo é, por meio da discussão do caso clínico de um adolescente HIV positivo não-aderente ao tratamento, propor intervenções que possam ser usadas como exemplo na condução de casos semelhantes. 2. Desenvolvimento 2.1. Apresentação O módulo Planejamento e Gestão em Saúde, da área de Medicina Preventiva e Social, aplicado a graduandos do 5º ano de Medicina, consiste na intervenção em um caso complexo selecionado pela equipe de Saúde da Família de um bairro da periferia. Intervenção na adesão ao tratamento de doenças crônicas tendo como modelo um paciente adolescente HIV positivo. 2.2. Seleção de caso* João, masculino, 13 anos, HIV positivo por transmissão vertical, em acompanhamento no serviço terciário, apresentava dificuldade de adesão ao tratamento desde o diagnóstico, levando à adoção de medidas rígidas, acionando a assistente social, Cibelle, e o Conselho Tutelar. Este impôs à agente comunitária da UBS, Juliana, a responsabilidade de supervisionar a administração diária dos medicamentos. Carolina, mãe de João, HIV positiva, manicure, considerou ameaçadora a intervenção do Conselho Tutelar, criando conflito tanto com o órgão impositivo quanto com a UBS, representada pela figura de Juliana. 2.3. Estudo do caso Em 1997, Carolina descobriu ser HIV positiva a partir do quadro de coriorretinite por citomegalovírus, que cursou com perda total da visão do olho esquerdo. Associou-se a aquisição do vírus com transfusão sangüínea realizada dez anos antes, após atropelamento, o qual também resultou em seqüela motora em membro inferior esquerdo. A partir do diagnóstico de Carolina, foi realizada a investigação do vírus em João e Maria, 16 anos, grávida de três meses, descobrindo-se João como portador e iniciando acompanhamento em serviço terciário. Durante o acompanhamento, João sempre apresentou carga viral elevada e níveis baixos de CD4; nunca apresentou repercussões clínicas consideráveis, caracterizando-se como “progressor” lento. Diversos esquemas terapêuticos foram instituídos; entretanto, João nunca aderiu adequadamente ao tratamento. Foram descartados possíveis efeitos colaterais e atribuiu-se a falta de adesão a fatores emocionais e sociais, decorrentes de relacionamento conflituoso com a mãe, sendo, inclusive, diagnosticado transtorno depressivo moderado, iniciando tratamento com Fluoxetina e acompanhamento com a psiquiatria. Foram realizadas três visitas domiciliares pelos graduandos e pela equipe da UBS, na busca de uma abordagem integral e longitudinal do caso. Deparou-se com dinâmica familiar conturbada, na *Os nomes foram modificados para preservar a privacidade dos envolvidos. 055 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Larissa Matsumoto, Júlia Andrade de Oliveira, Camila Aparecida Moma, Telma Kenshima, Marília Martins Corrêa e Gustavo Tenório Cunha. qual Carolina não aderia ao tratamento e não oferecia suporte adequado ao filho, sendo a responsabilidade de acompanhamento às consultas e administração de medicamento transmitida à Maria. Apesar disso, a relação entre os membros da família é permeada por atenção e cuidados mútuos. Tem-se a impressão de que João é o único doente da casa, Carolina não citou nenhuma vez o nome da doença, referindo-se a ela por meio de eufemismos (“imunossupressão”, “aquela doença tipo leucemia”), nunca se autodenominando doente. Observa-se, também, certo receio de estigmatização social por parte de família, evitando tornar público o diagnóstico, reforçando forte preconceito e negação em relação à doença. Tentando compreender os motivos da falta de adesão de João, encontrou-se, como único empecilho apontado, o tamanho do comprimido e a dificuldade de degluti-lo. Porém, Carolina refere que há dois meses João tem aderido melhor ao tratamento e realizado seguimento nutricional no AMDA (Ambulatório Municipal de DST e AIDS), onde Carolina era acompanhada previamente. Foi realizada visita ao AMDA, que é o centro de referência para adultos com HIV/AIDS e DST de maior complexidade em Campinas e região. Em conversa com o Dr. Carlos com o nutricionista Pedro e análise de prontuário, foram obtidas mais informações a respeito do seguimento de Carolina. Observou-se baixa adesão desta, com comparecimento irregular ao serviço, tanto em consultas quanto em coletas de exames, procurando somente o prontoatendimento e medicação. Tal comportamento corrobora para a inferência a respeito da negação de sua doença. Descobriu-se importante vínculo entre João e Pedro, que referiu tentativa de interferir no acompanhamento nutricional de João, porém, encontrando intensa dificuldade em lidar com Carolina, a qual não oferecia à família hábitos alimentares saudáveis e dificultava o acompanhamento regular de João pelo nutricionista, não comparecendo às consultas. No serviço de Imunologia Pediátrica, identificouse acompanhamento longitudinal e vínculo entre João e o Dr. Henrique, responsável pelo serviço. Durante reunião, buscou-se a troca de informações para construção do Projeto 056 Intervenção na adesão ao tratamento de doenças crônicas tendo como modelo um paciente adolescente HIV positivo. Terapêutico Singular, estabelecendo uma ponte entre o serviço primário e o terciário. Compreendeu-se a metodologia empregada pelo serviço no cuidado de seus pacientes HIV positivos, em que existe a preocupação em adequar a linguagem para a idade, transmitindo ao adolescente informações claras a respeito da doença e formas de transmissão, incumbindo-lhe autonomia e responsabilidade social. Não havia comunicação entre os serviços – processo fundamental para o bom andamento do caso. As consultas eram restritas à doença, sendo fraca a abordagem psicossocial e cultural e o acompanhamento nos demais serviços. A falta de acompanhamento na UBS por uma equipe de referência e a não-aplicação do conceito de clínica ampliada corroboram para a visão fragmentada do caso. Como resultado disso, teve-se o acionamento do Conselho Tutelar. Realizou-se visita ao Centro Infantil Boldrini com a finalidade de vivenciar um modelo de cuidado e tratamento de crianças com doenças crônicas e, principalmente, identificar as estratégias adotadas para lidar com o binômio saúdedoença. Observou-se a atenção não apenas quanto aos aspectos biológicos das doenças, mas a relevância da qualidade de vida dessas crianças. Ao se respeitar a individualidade de cada criança e ao buscar momentos nos quais ela esquece que é doente – por meio de arte ou brincadeiras –, é possível construir vínculo e educação. A abordagem deve ser feita por aquele em que a criança conhece e confia. 2.4. Objetivos e Propostas É fundamental a criação de vínculo e afeto, sem os quais os objetivos não serão atingidos. O paciente deve identificar uma relação de confiança nos profissionais que o acolhem, de forma que haja transferências e a equipe compreenda suas angústias, anseios e necessidades. Dessa forma, as relações familiares serão melhor elucidadas, permitindo abordagem da família como um todo, frente à doença. O paciente deve encontrar na equipe uma referência a que possa recorrer quando for necessário, garantir um acompanhamento longitudinal de toda família, estabelecendo relação de confiança progressiva em que barreiras Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Larissa Matsumoto, Júlia Andrade de Oliveira, Camila Aparecida Moma, Telma Kenshima, Marília Martins Corrêa e Gustavo Cunha. Relato de Tenório Caso são transpostas a cada consulta. O primeiro passo é atender às demandas do momento, iniciando a inclusão da família no sistema de saúde. Assim, o pré-natal Case Reportde Maria e a puericultura de Rita funcionariam como porta de entrada para os membros da família na UBS. A construção do ecomapa é ferramenta a ser utilizada na compreensão das relações familiares, agindo como momento de reflexão individual e coletiva a respeito da dinâmica social e familiar. Tal recurso funcionaria como uma primeira abordagem para entendimento da relação entre João, seu pai e padrasto, visto que pouco se sabe quanto aos sentimentos que nutre por eles; a equipe não deve contentar-se apenas com dados obtidos em um contato inicial, tentando aprofundar tais temas em abordagens futuras. Por ser uma doença estigmatizante e por ter sido identificada na família uma dificuldade de aceitação, o ponto essencial no estabelecimento do vínculo é esclarecer e garantir o direito ao sigilo, cabendo à família decidir se deve revelar sua situação, nunca sendo coagida. Sugeriu-se que João fosse acompanhado pela equipe de saúde mental da UBS; já tinha seguimento prévio em serviço terciário, porém, abandonou-o devido ao ambiente tenso na sala de espera psiquiátrica. Tal acompanhamento permitiria trabalhar a questão da vulnerabilidade e seu impacto sobre a aceitação do diagnóstico, além de oferecer oportunidades para autoconhecimento, compreensão de seus sentimentos a cerca da doença e relações familiares, promovendo, ao longo do tempo, respaldo emocional e desenvolvimento de auto-estima. Em reunião com psicóloga da equipe foi sugerida a extensão do acompanhamento para Carolina, que compareceria para abordar questões sobre João, e, aos poucos, haveria abertura para seus conflitos. O espaço para reflexões propicia reconhecer a negação da sua própria doença e suas conseqüências deletérias à adesão ao tratamento e ao seu papel de mãe. A conscientização dos riscos inerentes à sua doença poderia incitar em Carolina uma preocupação maior com sua saúde e a “luta pela vida”, permitindo melhor adesão. 057 Intervenção na adesão ao tratamento de doenças crônicas tendo como modelo um paciente adolescente HIV positivo. Independentemente disso, é importante que seu acompanhamento clínico no AMDA seja restabelecido o quanto antes. Uma ferramenta facilitadora nesse processo é a comunicação entre os serviços, possibilitando o gerenciamento de consultas e exames de Carolina no AMDA pela UBS, que poderia relembrá-la das datas e garantir o transporte. Deve-se manter o cuidado de que esse processo não ocorra de forma coercitiva, mas, sim, demonstrando uma maior atenção à paciente. Também é de grande importância a troca de informações entre profissionais do AMDA e equipe de referência da UBS. Estabelecer comunicação entre UBS e Ambulatório de Pediatria-Unicamp, por sua vez, favorecerá o gerenciamento das consultas de João. Além disso, a troca de informações sobre aspectos clínicos entre os serviços primário e terciário permitirá que eventuais intercorrências e acompanhamento geral sejam abordados, primeiro na UBS. Assim, respeita-se a hierarquia do serviço, por meio da pediatra da equipe, com a qual se estabeleceu um contato inicial em uma das visitas domiciliares. Isso já foi também acordado durante a reunião com o Dr. Henrique, o qual se prontificou a fornecer informações e suporte necessários, disponibilizando seus telefones de contato. A UBS será a equipe de referência da família, como apoio matricial do AMDA e do HC-Unicamp. A forma de abordagem utilizada no HC-Unicamp é apresentar o “bichinho” na idade pré-escolar, o “vírus” na escolar e a doença, com “nome e sobrenome”, na préadolescência, evitando nessa fase a infantilização, incumbindo ao paciente compromisso individual ao assumir posição ativa quanto aos cuidados com sua saúde, e compromisso social ao esclarecer métodos de transmissão e formas de prevenção. O acompanhamento de João não deve ser restrito às dificuldades provenientes da doença, equilibrando-as com as práticas de atividades prazerosas, proporcionando-lhe melhor qualidade de vida e evitando medicalização excessiva. Diante disso, a proposta feita pela equipe de saúde da UBS foi introduzi-lo em uma associação da comunidade que incentiva a socialização dos jovens por práticas artísticas Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Larissa Matsumoto, Júlia Andrade de Oliveira, Camila Aparecida Moma, Telma Kenshima, Marília Martins Corrêa e Gustavo Tenório Cunha. e de lazer. Assim, João será capaz de deixar de viver em função da doença, descobrindo novas possibilidades, por meio da integração com outros adolescentes, permitindo trocas e construção de auto-estima. A aproximação do serviço de saúde com a escola contribui para fornecer informações relevantes à avaliação da qualidade de vida de João. Cabe lembrar que a revelação do diagnóstico pode incitar preconceito; assim, o sigilo deve ser preservado. A impressão inicial durante as visitas é a de que João é o único doente da casa; deve-se lembrar que Carolina também possui a doença e necessita, portanto, de atenção especial quanto à sua responsabilidade perante a sociedade e seu companheiro. A profissão de manicure implica em riscos inerentes ao ofício, exigindo cuidados quanto à transmissão de doenças devido à má esterilização de materiais. Os riscos de transmissibilidade durante as relações sexuais sem preservativo também devem ser abordados; deve-se garantir que Carolina esteja ciente das formas de transmissão e prevenção e de que a boa adesão ao tratamento mantém as cargas virais baixas, diminuindo o risco de infecção. No momento, observa-se relativa coesão familiar, entretanto, Maria detém grande parte dos compromissos, apresentando-se sobrecarregada para uma adolescente de 16 anos, logo, não lhe devem ser atribuídas novas funções. Sua gestação e seu desejo de constituir família própria contribuem para um risco de que, em um futuro próximo, possa ocorrer desestruturação familiar, afetando a adesão de João ao tratamento. O contato com Maria deve ser estabelecido no sentido de criar vínculo, permitindo a realização da puericultura de seu filho e educando-a quanto à aquisição de hábitos saudáveis. Uma aproximação já foi iniciada por intermédio da enfermeira Mariana, que está auxiliando no acompanhamento do pré-natal, reforçando a importância do sexo seguro na prevenção de DSTs e futuras gestações indesejadas. A abordagem integral do núcleo familiar também inclui Rita, que deve ser acompanhada pela pediatra da equipe. Em reunião, foi apresentada demanda de Carolina quanto à inclusão de Rita em creche escolar, propiciando o 058 Intervenção na adesão ao tratamento de doenças crônicas tendo como modelo um paciente adolescente HIV positivo. convívio com outras crianças, de forma a contribuir com seu desenvolvimento afetivo e neuropsicomotor. Para que as propostas citadas possam ser colocadas em prática e os objetivos alcançados, a cada membro da equipe devem ser atribuídas funções, que serão acordadas em reuniões e articuladas pelo coordenador do caso. Sugeriu-se que a enfermeira Mariana realize esse papel e que a agente de saúde Juliana seja o elo mais forte de ligação da família com a UBS. 3. Conclusão Concluímos que a aplicação dos conceitos da clínica ampliada é fundamental no acompanhamento de pacientes com doenças crônicas, permitindo uma abordagem integral dos indivíduos. Assim, deixa-se de se preocupar apenas com o aspecto biológico da doença, atentando-se também para o contexto sociocultural e possibilitando um atendimento individualizado, de forma a oferecer melhor qualidade de vida e maior adesão ao tratamento. Sendo a adolescência o momento de definição de personalidade e responsabilidades perante a vida, torna-se essencial atenção a tal fase, a fim de desenvolver boa aderência à terapêutica, que será solidificada por toda a vida. 4. Referências 1. Cunha GT. Clínica ampliada, equipe de referência e projeto terapêutico singular. Desenvolvido pelo Ministério da Saúde, 2004. Disponível em: dtr2001.saude.gov.br/ editora/produtos/impressos/folheto/04_1162_FL.pdf. Acesso em: 08/10/2007. 2. Cunha GT. Clínica ampliada, equipe de referência e projeto terapêutico singular. [Dissertação] Campinas, Departamento de Medicina Preventiva e Social, Universidade Estadual de Campinas, 2004. 3. Campos GWS, Domitti AC. Apoio Matricial e equipe de referência: uma metodologia para gestão do trabalho interdisciplinar em saúde. Cad Saúde Pública. 2007; (2):399-407. 4. Campos GW, do Amaral MA. Amplified clinic, democratic management and care networks as theoretical and pragmatic references to the hospital reform. Ciência e Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Larissa Matsumoto, Júlia Andrade de Oliveira, Camila Aparecida Moma, Telma Kenshima, Marília Martins Corrêa e Gustavo Tenório Cunha. Saúde Coletiva. 2007; 12(4):849-59. 5. Lernan I. Adherence to treatment: the key for avoiding long-term complications of diabetes. Archives of Medical Research. 2005 (36): 300-306. 6. Leite SN, Vasconcellos MPC. Adesão à terapêutica medicamentosa: elementos para discussão de conceitos e pressupostos adotados na literatura. Ciência e Saúde Coletiva. 2003; 8(3): 775-782. 7. Littenberg B, MacLean CD, Hurowitz L. The use of adherence aids by adults with diabetes: a cross-sectional survey. 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Efficacy of a preventive intervention for youths living with HIV. American Journal of Public Health. 2001; 91(3):400-405. Endereço para Correspondência: Larissa Matsumoto Rua Gilberto Pataro 150, cs 92 Campinas - SP CEP: 13085-540 Endereço Eletrònico: [email protected] Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 RBMFC Resumos de Tese Evaluación de la atención a la salud infantil del Programa Saúde da Família en la región sur de Porto Alegre, Brasil. These Abstract Evaluation of child health care in the Family Health Program, in the southern region of Porto Alegre, Brazil. Erno Harzheim Resumen La atención primaria de salud (APS) busca optimizar la salud y promover la equidad. Es definida, a través de sus atributos, como el primer nivel de asistencia, caracterizándose por la continuidad e integralidad de la atención, la coordinación de la asistencia, la atención centrada en la familia, la orientación comunitaria y la aptitud cultural. En la literatura, se evidencia una creciente asociación entre sus atributos y una mayor efectividad y equidad de la atención sanitaria. Así, investigaciones que respondan preguntas complementarias sobre el binomio proceso/efectividad de la APS presentan relevancia internacional. En Brasil, desde 1994, el Ministerio de la Salud inició una estrategia de multiplicación de los servicios de atención básica llamada Programa Saúde da Familia (PSF). Esta estrategia, basada en los atributos de la APS, pretende complementar la red de servicios públicos ya existente, las Unidades Sanitarias (USs), aumentando el acceso al Sistema Único de Saúde para la población más vulnerable. En 2002, el PSF ya atendía cerca de 30% de la población, más de 50 millones de personas, y seguía creciendo. Resulta importante, así, evaluar la extensión de los atributos de APS en los servicios de atención básica brasileños y su relación con la efectividad de la atención. Para ello fue necesario validar una herramienta de medida de la extensión de los atributos de la APS, el Primary Care Assesment Tool (PCATool), para su uso em los servicios de atención a la salud infantil en Brasil. Además, se ha comparado la extensión de estos atributos entre el PSF y las USs de Porto Alegre, municipio del sur de Brasil, y la relación entre estos atributos y la satisfacción de los cuidadores de los niños que consultaban en estos servicios, la salud percibida por los cuidadores y la cobertura de actividades preventivas realizadas. Se ha realizado estudio transversal, a través de encuestas estructuradas incluyendo el PCATool, a 468 cuidadores de niños de 0-2 años de edad registrados en los equipos del PSF o de las USs de la región sur de Porto Alegre elegidos aleatoriamente. La recogida de los datos se realizó en 2002. Los encuestadores fueron estudiantes de enfermería y medicina debidamente entrenados. El proceso de validación consistió en la traducción, adaptación, debriefing, validación de contenidos y constructo, cumplimiento de las suposiciones de Likert, evaluación de la fiabilidad y confiabilidad. Se realizó análisis estadístico bivariado y multivariable, utilizándose análisis por clusters. El proceso de validación del PCATool-Brasil resultó en una escala con 45 items, divididos en 8 dimensiones. Seis dimensiones representaron los atributos esenciales de la APS (Acceso, Continuidad, Coordinación y 3 dimensiones de Integralidad – Servicios Básicos, Servicios Complementarios, Acciones de Promoción y Prevención) y 2 dimensiones los atributos derivados (Orientación Comunitaria y Familiar). Los resultados de todo el proceso de validación han logrado los criterios establecidos. En la comparación de las actividades preventivas entre PSF y US solamente el monitoreo del crecimiento Palavras-chave: Programa Saúde da Família; Atenção Primária à Saúde; Avaliação em Saúde. 060 Key Words: Family Health Care Program; Primary Health Care; Health Care Evaluation. Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Evaluación de la atención a la salud infantil del Programa Saúde da Família en la región sur de Porto Alegre, Brasil. Erno Harzheim. presentó diferencia significativa. Los niños que consultaban en el PSF tenían cerca de 4 veces más probabilidad de tener el peso apuntado en el gráfico de crecimiento o tenerlo apuntado recientemente (OR=4,39 y OR=3,89, respectivamente). La comparación de la satisfacción entre los cuidadores de los niños de los 2 servicios mostró mayor proporción de cuidadores satisfechos con el PSF con relación al tiempo de espera por la consulta y a la cordialidad de la recepción (p=0,03 y p<0,001, respectivamente). La proporción de cuidadores satisfechos en general ha sido mayor para el PSF, pero solo con tendência estadística (71,8% x 64,2%, p = 0,06). Comparándose los valores de los atributos de APS entre PSF y US, se observó una extensión significativamente mayor de Integralidad (Servicios Básicos), Orientación Comunitaria y Orientación Familiar para los niños del PSF, así como para el Valor General de APS (p<0,05, para todos). Se verificó que los niños con Alto Valor General de APS tenían mayor probabilidad de tener la salud percibida por el cuidador clasificada como “excelente” o “muy buena” (OR=1,65, p<0,05), mayor utilización del sulfato ferroso (OR=2,16, p<0,001) y de las vitaminas A+D (OR=1,78, p=0,01) en el primer año de vida. Los cuidadores de los niños que presentaban Alto Valor General de APS tenían, también, mayor probabilidad de tener alto grado de satisfacción con la última consulta médica (OR=5,13, p<0,001). La realización de una versión validada del PCATool-Brasil posibilita uma estrategia de evaluación y comparación de la calidad de la APS en Brasil. Además, sus valores se asocian con la efectividad del proceso de atención sobre lãs actividades preventivas, mejor salud y satisfacción. Así, puede constituirse em estrategia sistemática de evaluación de los equipos hacia la APS de calidad. La realización de las actividades preventivas ha sido muy similar entre el PSF y las USs, a pesar del PSF presentar mejor vigilancia del crecimiento. Sin embargo, en ambos servicios algunas de estas acciones deberían presentar mayor cobertura. La satisfacción de los cuidadores entre el PSF y las USs era bastante semejante, con pequeña superioridad para el PSF. El PSF presenta mayor orientación hacia la APS que las 061 USs, pero en ambos servicios hay mucho que avanzar en la búsqueda de la excelencia en APS. En resumen, la decisión de reforzar la APS a través de la implantación de equipos de PSF parece ser adecuada. Además, nuestro estúdio posee implicaciones sobre la política de APS en Brasil: incorporar agentes comunitarios de salud en las USs, tornar más atrayente financieramente el trabajo en el PSF y aproximar las universidades a la red de servicios a fin de calificar el proceso de atención y estimular la educación continuada. Los resultados sobre la efectividad de la APS indican que los niños que reciben atención primaria con mayor extensión de sus atributos poseen mayor probabilidad de recibir actividades preventivas, de tener mejor salud percibida por el cuidador y también presentar mayor satisfacción de los cuidadores acerca de lãs consultas. Así, por consiguiente, la APS de calidad es una estrategia efectiva en la búsqueda de mayor promoción de la salud, prevención de enfermedades, mejor estado de salud de los niños y mayor satisfacción de los cuidadores. Tese de Doutorado: Universidad de Alicante. Departamento de Salud Pública Orientador: Carlos Álvarez-Dardet Alicante, España, 2004 Disponível em: http://www.sbmfc.org.br/Articles/Documents/ 1ec9183e/Evaluación%20de%20la%20atención%20%20Tese%20Erno.pdf Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 RBMFC Resumos de Tese No Olho do Furacão. Trabalho Médico e o Programa Saúde da Família. These Abstract In the middle of the windstorm: the physician’s work and the Family Health Program. Angela Aparecida Capozzolo Resumo O trabalho médico é central nos serviços de saúde, e muitos têm sido os desafios para a oferta de um atendimento de boa qualidade na atenção básica. Esse local de alta complexidade tecnológica exige, para responder às complexas necessidades individuais e coletivas de saúde, uma prática clínica ampliada e um trabalho de equipe. A prática médica hegemonicamente encontrada nesses serviços, no entanto, tem se traduzido numa atenção centrada em procedimentos, que pouco considera as diversas dimensões presentes no processo de adoecimento, com baixo compromisso dos profissionais pelo resultado final do trabalho. O Programa de Saúde da Família (PSF) propõe mudanças importantes na organização do trabalho médico com a utilização de generalistas. O objetivo desta investigação foi analisar potências e limites dessa proposta em alterar o padrão hegemônico da prática médica. Realizamos para tal um estudo de casos em unidades de dois projetos QUALIS (Zerbini e Santa Marcelina), modo como inicialmente se implantou o programa no município de São Paulo. Buscamos conhecer a realidade objetiva e subjetiva do trabalho médico nesses serviços e captar se essa proposta se traduzia numa nova forma de operar o trabalho. Utilizamos vários instrumentos para a coleta de dados (entrevistas, fluxograma analisador, observação de consultas, grupos de discussão e pesquisa documental) e realizamos uma triangulação metodológica e validação dos resultados encontrados com as equipes. A investigação ocorreu no período de junho de 2000 a dezembro de 2001. Constatamos que esse modelo de organização do trabalho possui arranjos tecnológicos - vinculação dos médicos a uma equipe e a uma população, espaços de discussão do trabalho, visitas domiciliares, entre outros - com potencialidade para aumentar o envolvimento, o compromisso e a responsabilização dos médicos. Porém os limites encontrados foram importantes. A organização do trabalho permanecia ainda bastante centrada na oferta de assistência médica individual. As consultas expressavam dificuldades de uma abordagem clínica ampliada, estando predominantemente centradas na dimensão biológica do adoecer. Apesar de diferenças entre os projetos QUALIS, a capacitação e o apoio ao trabalho mostravam-se insuficientes para os profissionais responderem às diversas demandas clínicas e para a abordagem das necessidades de saúde nas suas múltiplas dimensões, apontando o risco de uma simplificação da atenção. O elevado número de famílias também se revelava um limite importante para responder às necessidades de saúde da população adscrita. Os médicos estavam submetidos a uma grande carga quantitativa e qualitativa de trabalho, com dificuldades de retaguarda dos demais níveis de atenção. O trabalho nas ESFs se apresentava como extremamente desgastante, sendo Palavras-chave: Médico de Família; Saúde da Família; Trabalho Médico. 062 Key Words: General Practitioner; Family Health; Physician’s Work. Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 No Olho do Furacão. Trabalho Médico e o Programa Saúde da Família. Angela Aparecida Copozzolo. identificado pelos médicos como estar no “olho do furacão”. As questões levantadas neste estudo indicam a necessidade de rever as estratégias do PSF, entre elas a de utilização exclusiva de médicos generalistas nas equipes. Aponta-se como fundamental para a mudança dos atos médicos hegemônicos a aquisição de referenciais e tecnologias para ampliar a escuta, qualificar o vínculo e as intervenções. Ressalta-se ainda como importante o desenvolvimento de mecanismos de gestão para acompanhar e apoiar o trabalho dos profissionais, assim como a melhora na retaguarda dos demais níveis de atenção. Tese de Doutorado Orientador: Prof. Dr. Gastão Wagner de Souza Campos Faculdade de Ciencias Médicas - UNICAMP Campinas, 2003. Disponível em: h t t p : / / b v s m s . s a u d e . g o v. b r / b v s / c t / p d f / angela%20aparecida_tese.pdf 063 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 RBMFC Resumos de Tese Necessidades de saúde na estratégia de Saúde da Família, no município de Jequié BA: em busca de uma tradução. These Abstract Health needs in the context of the Family Health Program in the city of Jequié-BA: searching to understand. Adriana Alves Nery Resumo Estudo de abordagem qualitativa, realizado junto aos usuários de famílias acompanhadas por uma equipe de Saúde da Família do município de Jequié-BA, que teve por objetivo geral utilizar a taxonomia de necessidades de saúde de Matsumoto (1999) como instrumento de leitura de necessidades junto a uma unidade de Saúde da Família, a partir da ótica das famílias atendidas. A pesquisa teve como suporte teórico a taxonomia de necessidades de saúde de Matsumoto e como técnica de coleta do material empírico o grupo focal. Trabalhamos com cinco grupos focais, compostos de 8 a 12 integrantes das cinco microáreas na área de abrangência da equipe de Saúde da Família. Utilizamos a análise temática com a identificação de quatro temas: o processo saúde-doença; a necessidade de acesso; o vínculo na construção da interação; a participação construída versus participação concedida. Os sujeitos apontam diversas concepções do processo saúde-doença: saúde relacionada ao corpo físico, às formas de produção e reprodução social, envolvendo as condições e modos de vida dos indivíduos; saúde é crença em Deus, é um bem simbólico. Ao trazerem sua concepção do processo saúde-doença, apontam para a necessidade de boas condições de vida através do acesso à educação, ao emprego, ao lazer, a ruas asfaltadas e à rede de esgoto, dentre outros aspectos. Quanto à necessidade de acesso, reconhecem que é um direito garantido constitucionalmente, viabilizado através do SUS, embora haja dificuldades no acesso a todos os níveis de atenção à saúde, principalmente no que diz respeito às especialidades e à urgência e emergência, fazendo com que estes procurem outras alternativas assistenciais: utilização de remédios caseiros, farmácia, dentre outras. Com isto assinalam a necessidade da garantia de acesso a todas as tecnologias disponíveis. Afirmam que existem um descaso e descrédito no atendimento dispensado por alguns profissionais, na unidade de Saúde da Família e nas unidades de referência assistencial, e indicam a necessidade de ter vínculo com o profissional ou a equipe de saúde ao afirmarem que os trabalhadores da equipe não têm tempo de escutá-los em função da grande demanda e que gostariam de uma comunicação mais “próxima” com os trabalhadores que os atendem. Ressaltam que se sentem mais à vontade e têm mais intimidade com os ACSs do que com os outros trabalhadores, porque estes são as pessoas mais próximas de seu dia-a-dia e em seus lares. Na fala dos usuários, há uma contradição em como ocorre sua participação na comunidade, uma participação que é “concedida” através das atividades desenvolvidas pela equipe de Saúde da Família e uma construída que é pela atuação destes nas associações de moradores e no Conselho Local de Saúde, indicando a necessidade de autonomia e autocuidado no modo de “andar a vida”. Esta investigação teve como pressuposto que a taxonomia de necessidades proposta por Matsumoto (1999) pode se constituir em potente ferramenta para a leitura das necessidades de saúde dos usuários que Palavras-chave: Saúde da Família; Determinação de Necessidades de Saúde; APS. Key Words: Health, Health Needs, Primary Health Care 064 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 Necessidades de saúde na estratégia de Saúde da Família, no município de Jequié BA: em busca de uma tradução. Adriana Alves Nery. demandam as unidades de Saúde da Família, o que foi possível ser evidenciado através da apreensão do material empírico. Consideramos que as transformações do processo de trabalho em saúde só se efetivarão num movimento de articulação entre a produção do cuidado em saúde, a participação social e a gestão de serviços na direção de uma lógica da integralidade da assistência. Neste sentido, oferecer ferramentas para o trabalho e, neste caso, a taxonomia de necessidades proposta por Matsumoto (1999) pode levar os gestores e a equipe a refletir sobre uma outra lógica para o trabalho em saúde que os aproxime dos usuários, favorecendo os processos de participação social, possibilitando uma escuta que passe a ser qualificada pela compreensão de necessidades de saúde e com a premissa da integralidade da assistência à saúde. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo Orientador: Silvana Martins Mishima Ribeirão Preto, 2006 Disponível em: h t t p : / / s e r v i c o s . c a p e s . g o v. b r / c a p e s d w / resumo.html?idtese=2006533002029027P0 065 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 RBMFC Instruções aos autores. Instrução aos autores da Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade A Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (RBMFC) é uma publicação trimestral da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, que tem por finalidades: sensibilizar profissionais e autoridades da área de saúde sobre a área de interesse da Medicina de Família e Comunidade; estimular e divulgar temas e pesquisas em Atenção Primária à Saúde (APS); possibilitar o intercâmbio entre academia, serviço e movimentos sociais organizados; promover a divulgação da abordagem interdisciplinar e servir como veículo de educação continuada e permanente no campo da Medicina de Família e Comunidade, tendo como eixo temático a APS. Os trabalhos serão avaliados por editores do Con- selho Científico e Editorial, como também por pareceristas convidados ad hoc. O processo de avaliação por pares preserva a identidade dos autores e suas afiliações, sendo estas informadas ao Conselho Editorial somente na fase final de avaliação. Todos os trabalhos deverão ser escritos em português, com exceção dos redigidos por autores estrangeiros não-residentes no Brasil, que poderão fazê-lo em inglês ou espanhol. Tipos de Trabalho A revista está estruturada com as seguintes seções: Editorial Artigos Originais Artigos de Revisão Diretrizes em Medicina de Família e Comunidade Ensaios Relatos de Experiência Resumos de Tese Cartas ao Editor O Editorial é de responsabilidade do editor da revista, podendo ser redigido por terceiros por solicitação dele. A seção Artigos Originais é composta por artigos resultantes de pesquisa científica, apresentando dados originais de descobertas com relação a aspectos experimentais ou de observação, voltados para investigações qualitativas ou quantitativas em áreas de interesse da APS. Artigos originais são 066 trabalhos que desenvolvem crítica e criação sobre a ciência, tecnologia e arte das ciências da saúde que contribuem para a evolução do conhecimento sobre o homem, a natureza e a inserção social e cultural. O texto – contendo introdução, material ou casuística, métodos, resultados, discussão e conclusão – deve ter até 25 laudas. A seção Artigos de Revisão é composta por artigos nas áreas de Gerência, Clínica, Educação em Saúde. Os artigos de revisão são trabalhos que apresentam síntese atualizada do conhecimento disponível sobre matérias das ciências da saúde, buscando esclarecer, organizar, normalizar e simplificar abordagens dos vários problemas que afetam o conhecimento humano sobre o homem e a natureza e sua inserção social e cultural. Têm por objetivo resumir, analisar, avaliar ou sintetizar trabalhos de investigação já publicados em revistas científicas e devem ter até 20 laudas, contendo introdução, desenvolvimento e conclusão. A seção Diretrizes em MFC é composta por artigos estruturados dentro das normas da Associação Médica Brasileira para diretrizes clínicas, validados pela SBMFC. Sua confecção, sob orientação da Diretoria Científica da SBMFC, é uma proposta de organizar e referendar o trabalho dos MFC no Brasil. A seção Ensaios visa à divulgação de artigos com as análise crítica sobre um tema específico relacionado à Medicina de Família e Comunidade e deve ser apresentada em uma média de 5 a 10 laudas. A seção Relatos de Experiência é composta de artigos que relatam casos ou experiências os quais explorem um método ou problema por meio do exemplo. Os relatos de caso apresentam as características do indivíduo estudado – com indicação de sexo e idade, podendo este ser humano ou animal –, ressaltam sua importância na atuação prática e mostram caminhos, condutas e comportamentos para a solução do problema. Essa parte deve ocupar até 8 laudas, com a seguinte estrutura: introdução, desenvolvimento e conclusão. A seção Resumos de Tese, que deve ter apenas 1 lauda, tem como proposta a divulgação da produção científica na temática do periódico. Nela, devem ser expostos resumos Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 RBMFC Instruções aos autores. de dissertações de mestrado ou teses de doutoramento/ livre-docência defendidas e aprovadas em universidades brasileiras ou não. Os resumos deverão ser encaminhados com o título oficial da Tese, informando o título conquistado, o dia e o local da defesa. Devem ser informados, igualmente, o nome do Orientador e o local onde a tese está disponível para consulta. Em Cartas ao Editor, opiniões de leitores e su- gestões sobre a revista são bem recebidas. As cartas, contendo comentários sobre material publicado, devem ter no máximo 2 laudas. Os trabalhos a serem submetidos à apreciação do Conselho Científico deverão ser encaminhados por e-mail para a Secretaria da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade ou ao Editor da revista. O padrão de formatação exigido é Word for Windows – versão 6.0 ou superior -, página padrão A4, letra Arial (tamanho 11), espaçamento entre linhas 1,5 e numeração seqüencial em todas as páginas. As notas de rodapé devem ser limitadas ao máximo possível, assim como as tabelas e os quadros – que devem ser de compreensão independente do texto. Os autores deverão informar seus nomes e endereços completos e quais organizações de fomento à pesquisa apoiaram os seus trabalhos, fornecendo inclusive o número de cadastro do projeto. Os trabalhos que envolverem pesquisas com seres humanos deverão vir acompanhados da devida autorização do Comitê de Ética da Instituição. Os trabalhos devem obedecer à seguinte seqüência de apresentação: 1. Título em português e também em inglês(*). 2. Nome completo – nome(s) seguido(s) do(s) sobrenome(s) do(s) autor(es) – e, no rodapé, a indicação da Instituição a qual está vinculado, cargo e titulação. 3. Resumo do trabalho em português, no qual fiquem claros a síntese dos propósitos, os métodos empregados e as principais conclusões do trabalho. 4. Palavras-chave – mínimo de 3 e máximo de 5 palavras-chave ou descritores do conteúdo do trabalho, 067 apresentados em português de acordo com o DeCS – Descritores em Ciências da Saúde da BIREME - Centro Latino Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde – URL: <http://decs.bvs.br/>. 5. Abstract – versão do resumo em inglês(*). 6. Key words – palavras-chave em inglês, de acordo com DeCS(*). 7. Artigo propriamente dito, de acordo com a estrutura recomendada para cada tipo de artigo, citada no item 2. 8. Figuras (gráficos, desenhos e tabelas) devem ser enviadas à parte, com indicação na margem do local de inserção no texto; as fotografias em preto e branco devem ser apresentadas em papel brilhante. 9. Referências: são de responsabilidade dos autores e deverão ser limitadas às citações do texto, além de numeradas segundo a ordem de referência, de acordo com as regras propostas pelo Comitê Internacional de Revistas Médicas (International Committee of Medical Journal Editors). Requisitos uniformes para manuscritos apresentados a periódicos biomédicos. Disponível em: <http:// www.icmje.org>. (*) A versão do título do trabalho, do resumo e das palavras-chave para o idioma inglês ficará a cargo da própria revista, salvo eventual decisão ao contrário em época futura que, se vier ao caso, será comunicada no Editorial da revista. Exemplos: Periódico Valla VV. Educação popular e saúde diante das formas de se lidar com a saúde. Revista APS. 2000; (5): 4653. Livro Birman J. Pensamento freudiano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 1994. 204p. Capítulo de livro Vasconcelos EM. Atividades coletivas dentro do Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 RBMFC Instruções aos autores. Centro de Saúde. In: ________. Educação popular nos serviços de saúde. 3. ed. São Paulo: HUCITEC; 1997. p. 65-69. Dissertação Caldas CP. Memória dos velhos trabalhadores. [Dissertação]. Rio de Janeiro, Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro; 1993. Evento Mauad NM, Campos EM. Avaliação da implantação das ações de assistência integral à saúde da mulher no PIES/UFJF; 6º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva; 2000, Salvador. Salvador: Associação Brasileira de Pós-graduação em Saúde Coletiva; 2000. p.328. Documento eletrônico Civitas. Coordenação de Simão Pedro P. Marinho. Desenvolvido pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, 1995-1998. Apresenta textos sobre urbanismo e desenvolvimento de cidades. Disponível em: www.gcsnet.com.br/oamis/civitas. Acesso em: 27 nov. 1998. Fluxo dos trabalhos submetidos à publicação. Os artigos são de total e exclusiva responsabilidade dos autores. Avaliação por pares: os artigos recebidos são protocolados na secretaria da revista e encaminhados tanto ao editor geral quanto aos editores associados, para a triagem, a avaliação preliminar e a posterior distribuição ao Conselho Editorial e Científico, em conformidade com as áreas de atuação e especialização dos membros, bem como o assunto tratado no artigo. Todos os textos são submetidos à avaliação de dois consultores – provenientes de instituição diferente daquela do(s) autor(es) –, em um processo duplo cego, que os analisam em relação aos seguintes aspectos: adequação do título ao conteúdo; estrutura da publicação; clareza e pertinência dos objetivos; 068 metodologia; informações inteligíveis; citações e referências adequadas às normas técnicas adotadas pela revista e pertinência à linha editorial da publicação. Os consultores preenchem o formulário de parecer, aceitando, recusando ou recomendando correções e/ou adequações necessárias. Nestes casos, os artigos serão devolvidos ao(s) autor(es), para os ajustes e reenvio, e aos consultores para nova avaliação. O resultado é comunicado ao(s) autor(es), e os artigos aprovados ficam disponíveis para publicação em ordem de protocolo. Não serão admitidos acréscimos ou modificações após a aprovação. Declaração de responsabilidade dos autores Todas as pessoas responsáveis como autores devem responder pela autoria dos trabalhos, tendo como justificada a sua participação de forma significativa no trabalho para assumir responsabilidade pública pelo seu conteúdo. Deverão, portanto, assinar a seguinte declaração de autoria e de responsabilidade: “Declaro que participei de forma significativa na construção e formação deste estudo ou da análise e interpretação dos dados, como também na redação deste texto, tendo, enquanto autor, responsabilidade pública pelo conteúdo deste. Revi a versão final deste trabalho e aprovo para ser submetido à publicação. Declaro que nem o presente trabalho nem outro com conteúdo semelhante de minha autoria foi publicado ou submetido à apreciação do Conselho Editorial de outra publicação.” Artigos com mais de um autor deverão conter uma exposição sobre a contribuição específica de cada um no trabalho. Os autores de cada artigo receberão, após a publicação de seu trabalho, três exemplares da revista em que o seu estudo foi publicado. Ética em pesquisa Com relação às pesquisas iniciadas após janeiro de 1997, nas quais exista a participação de seres humanos nos termos do inciso II.2 da Resolução 196/ 96 do Conselho Nacional de Saúde (“pesquisa que, individual ou coletivamente, envolva o ser humano de forma direta ou indireta, Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 RBMFC Instruções aos autores. em sua totalidade ou partes dele, incluindo o manejo de informações ou materiais”), sempre que pertinente, deve ser declarado no texto que o trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos. Os trabalhos devem ser enviados para: Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade - SBMFC Correspondência Rua 28 de Setembro, 44 sala 605 Rio de Janeiro - RJ Cep: 20551-031 Tel: 21 2264-5117 / 21 3259-6934 Fax: 21 3259-6931 Endereço eletrônico: [email protected] 069 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 RBMFC Instructions to authors. Instructions to authors of the Brazilian Journal of Family and Community Medicine The Brazilian Journal of Family and Community Medicine (BJFCM) is a three-monthly publication of the Brazilian Society of Family and Community Medicine, aimed at sensitizing professionals and health authorities to this field of interest, stimulating and disseminating Primary Health Care (PHC) issues and investigations, and facilitating interchange between academic institutions, health care services and organized social movements. The periodical also aims to promote an interdisciplinary approach to this area and to serve as a vehicle for continued and permanent education in the field of Family and Community Health, with emphasis to the central subject PHC. Manuscripts will be reviewed by members of the Scientific and Editorial Board as well as by outside referees. This peer-review process safeguards the identity of authors and their institutions of origin, which only will be revealed to the Editorial Board in the end of the evaluation process. All manuscripts should be prepared in Portuguese language. Foreign authors, not living in Brazil, can submit their papers in English or Spanish. Categories and formats of papers The journal is divided into the following sections: Editorial Original articles Review articles Directives in Family and Community Medicine Essays Case reports These Abstracts Letters to the Editor The Editorial is responsibility of the editor of the journal, but can be prepared by third persons on his request. The section Original Articles is dedicated to reports on scientific investigations, presenting original data on findings from experiments or observation with emphasis 070 to qualitative or quantitative studies in fields of interest for PHC. Original articles are criticisms or creations on science, technology and the art of health sciences, contributing to the evolution of knowledge about Man, nature and social and cultural inclusion. The papers - including introduction, material or rationale, methods, results, discussion and conclusion – should not exceed 25 pages. The section Reviews is composed by articles about Health Management, Clinics and Health Education. Review articles are papers presenting an up-to-date synthesis of available knowledge on health science subjects, with the intent to elucidate, organize, normalize and simplify approaches to the different problems affecting human knowledge about Man and nature and social and cultural inclusion. These papers are aimed at summarizing, analyzing, evaluating and synthesizing investigations already published in scientific journals and should not exceed 20 pages, including introduction, rationale and conclusion. The section Directives in FCM receives articles prepared according to the norms for Clinical Directives of the Brazilian Association of Physicians, validated by the BSFCM. The purpose of these articles - prepared under the guidance of the Scientific Board of the BSFCM – is to organize and reference the work of physicians involved in FMC in Brazil. The section Essays publishes critical analyses regarding specific topics related to Family and Community Medicine. Articles should have 5 to 10 pages. Case Reports are articles addressing cases or experiences by exploring a method or problem based on an example. These articles indicate details such as sex and age of the studied individual – human or animal – emphasize their importance in practice and indicate ways, procedures and conducts for solving the problem. Articles for this section should not exceed 8 pages and include introduction, rationale and conclusion. The section Abstracts of Theses is aimed at publishing scientific production in the field covered by the journal in form of abstracts of master’s and doctor’s Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 RBMFC Instructions to authors. dissertations defended in Brazilian universities or abroad. Abstracts should not exceed one page, state the official title of the dissertation, the academic degree achieved, date and place where the thesis was defended and indicate the name of the supervisor and where the dissertation is available for consultation. In the section Letters to the Editor, readers are invited to express their opinion and make suggestions to the journal. Articles should be submitted by electronic mail, directed to the Secretariat of the Brazilian Society of Family and Community Health or to the Editor. Papers should be typed in word processor Word for Windows – version 0.6 or superior – paper size ISO A4, font Arial, size 11, space between lines 1,5, and all pages should be numbered sequentially. References should be kept to the necessary minimum. The same refers to tables and figures, which should be understandable independently from the text. Corresponding authors should inform their full names and addresses. The funding sources by which the work was supported should be stated. Articles describing investigations on human subjects must include a statement referring institutional ethics committee clearance. Manuscripts should be structured as below: 1. Title 2. Complete names – first name(s) followed by family name(s) of the author(s) 3. Abstract giving a clear synthesis of the purpose, describing the methods used and main conclusions of the study. 4. Key words – a minimum of 3 and a maximum of 5 key words or describers of the contents of the work, following the norms of DeCS, available at http:// decs.bvs.br/ 5. Text of the article, according to the recommendations for each category given above. 6. Figures (graphs, diagrams and tables) according 071 to the recommendations given above. 7. References: are responsibility of the authors and should be arranged numerically according to the order in which they appear in the text, according to the rules of the International Committee of Medical Journal Editors, Uniform Requirements for Manuscripts Submitted to Biomedical Journals, available at http://www.icmje.org Examples: Periodical Valla VV. Educação popular e saúde diante das formas de se lidar com a saúde. APS Journal. 2000; (5): 46-53. Book Birman J. Pensamento freudiano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 1994. 204p. Book chapter Vasconcelos EM. Atividades coletivas dentro do Centro de Saúde. In: ________. Educação popular nos serviços de saúde. 3rd. ed. São Paulo: HUCITEC; 1997. p. 65-69. Dissertation Caldas CP. Memória dos velhos trabalhadores. [Dissertation]. Rio de Janeiro, Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro; 1993. Event Mauad NM, Campos EM. Avaliação da implantação das ações de assistência integral à saúde da mulher no PIES/UFJF; 6th Brazilian Congress on Collectyive Health; 2000, Salvador. Salvador: Associação Brasileira de Pós-graduação em Saúde Coletiva; 2000. p.328. References from the internet Civitas. Coordinated by: Simão Pedro P. Marinho. Developed by: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, 1995-1998. Presents texts on urbanism and city Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007 RBMFC Instructions to authors. development. Available at: <http//www.gcsnet.com.br/ oamis/civitas>. Accessed: Nov 27. 1998. Review procedures and publication of submitted manuscripts. The articles are of the full and exclusive responsibility of the authors. Peer-review procedure: received articles are registered by the Secretariat of the journal and submitted to the Scientific and Editorial Board for screening, preliminary evaluation and posterior distribution to ad hoc referees with specific expertise in the subject addressed by the article. All manuscripts are submitted to two referees, coming from institutions different from those of the author(s) who, in a double-blind review process, assess them with respect to the following aspects: pertinence of the title in relation to the content, structure of the manuscript, pertinence and clearness of objectives, methodology, intelligible information, conformity of citations and references with the technical norms and alignment with the editorial line of the journal. The referees fill in the review form accepting or rejecting the manuscript or suggesting improvements and/or necessary corrections. In this case, the manuscript is returned to the author(s) for revision and resubmission, followed by a new evaluation. The result is communicated to the author(s) and accepted articles will be published following the order of registry. No additions or modifications in manuscripts already accepted for publication will be admitted. elsewhere, nor is it currently under consideration for publication in another periodical.” Articles prepared by more than one author should state the specific contribution of each of them. The authors of each article will receive three exemplars of the edition in which their study was published. Ethics in experimentation Articles based on investigations involving human subjects should declare in the text that the investigation has beencleared by the responsible Ethics Committee on Human Experimentation. Manuscripts should be submitted electronically to: Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade - SBMFC Contact Address: Rua 28 de Setembro, 44 sala 804 Rio de Janeiro - RJ Cep: 20551-031 Tel: 21 2264-5117 / 21 3259-6934 Fax: 21 3259-6931 e-mail: [email protected] Responsibility Statement All individuals named as authors for having participated substantially in the submitted study have to take public responsibility for the integrity of their work and consequently sign the following Responsibility Statement: “I hereby declare to have participated substantially in the conception and design of the present work and in the writing of the manuscript, taking public responsibility for its integrity. I have read the final version of this work and agreed to its submission for publication. The work in its present or a similar form has not been published 072 Rev Bras Med Fam e Com Rio de Janeiro, v.3, n° 9, abr / jun 2007