FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO
DIRETORIA DE PESQUISAS SOCIAIS
COORDENAÇÃO GERAL DE ESTUDOS ECONÔMICOS E POPULACIONAIS
TRAÇOS DO TURISMO NO NORDESTE BRASILEIRO
RELATÓRIO DE PESQUISA
Ana Lúcia Hazin
Cleide De Fátima Galiza de Oliveira
Rejane Pinto de Medeiros
Recife, outubro/ 2007
Introdução
A prática turística não é um fato recente na história da humanidade. Escreve Ianni
(1995, apud SERRANO, p.37) que a
história dos povos está atravessada pela viagem, como realidade ou
metáfora. Todas as formas de sociedade, compreendendo tribos e clãs,
nações a nacionalidade, colônias e impérios, trabalham e retrabalham a
viagem, seja como modo de descobrir o “outro”, seja como modo de
descobrir o “eu”[...] . Sempre há viajantes[...] buscando o desconhecido,
desvendando o exótico [...] mesmo os que permanecem, que jamais saem
do seu lugar, viajam imaginariamente, ouvindo estórias, vendo coisas,
gentes e signos do outro mundo.
De modo geral, os estudiosos do turismo situam suas origens históricas na Grécia Antiga,
cuja prática relacionava-se a questões religiosas. Sob o Império Romano introduziu-se a
idéia do turismo como prazer, desviando-se assim da função utilitarista ligada à religião, à
saúde ou aos negócios. No final da Idade Média constata-se um crescimento do chamado
“turismo educacional”, realizado por pessoas que “viajavam para ver grandes pinturas e
edificações, encontrar artistas famosos e aprender mais sobre línguas e culturas”
(SWARBROOKE; HORNER, 2002, p.39).
Tal prática continuou, ainda, de forma bastante elitizada na Europa dos séculos XVII e
XVIII, quando o turismo só podia ser feito pela aristocracia que representava a “classe
social que possuía riqueza e não estava submetida aos imperativos do trabalho como os
demais estratos sociais” (SOUSA, 1994, p.29). Viajar, portanto motivado pelo lazer, era
símbolo de status.
As revoluções, tanto a industrial quanto a francesa, produziram mudanças importantes na
sociedade da época e se refletiram, também, na atividade turística, que sofreu grande
impulso, em conseqüência, sobretudo, da invenção e desenvolvimento do transporte
ferroviário.
A partir daí, os deslocamentos puderam ser feitos em grupos e por preços mais baixos,
permitindo que o acesso à atividade turística fosse ampliado para um maior número de
2
pessoas. De acordo com Urry (1990, apud LABATE, 2001 p.63), os motivos que
contribuíram para o incremento do turismo de massas na Inglaterra do século XIX, foram:

o crescimento de um padrão de trabalho mais organizado e rotinizado, que
promove o desenvolvimento de uma racionalização equivalente do lazer;

o crescimento substantivo da renda de boa parte da população industrial;

o alargamento da idéia, por parte do estado e dos empregadores, de que é
bom civilizar a “dura” classe trabalhadora por meio da recreação
organizada.
A atividade turística veio a se transformar em um fenômeno de massas somente após a
Segunda Guerra Mundial. Para Swarbrooke e Horner (2002), o rápido crescimento desse
tipo de turismo tem sido explicado pela ocorrência de diversos fatores inter-relacionados e
que, conjugados entre si, produziram o turismo de massa, em um primeiro momento, na
Europa. Como conseqüência do processo de globalização essa prática, rapidamente,
estendeu-se a outras partes do mundo.
Dentre os diversos fatores intervenientes no processo de desenvolvimento do turismo de
massas pode-se citar: “maior disponibilidade de renda; progressos na tecnologia de
aeronaves; automóveis mais acessíveis; aumentos adicionais nas horas de lazer; motivos
educacionais; ascensão das operadoras de viagens e de pacotes de excursão” (idem, p.42).
Constata-se, portanto, que o turismo de massas, enquanto atividade, é um “fato novo” que
merece ser estudado e discutido. Porém, como abordar esse tema se “a própria área
temática sofre de fraqueza e indefinição conceituais” ? (COOPER et al 2001, p.37).
Utiliza-se aqui, como referencial, o modelo de Leiper de um sistema turístico básico,
composto essencialmente por 3 elementos:
1- Os turistas, atores principais do sistema;
2- Os elementos geográficos, compostos;
a) pela região geradora de viajantes, importante por estimular e motivar as
viagens;
3
b) pela região de destinação de turistas: nesta pesquisa, em específico, esse é o
elemento principal, uma vez que é na destinação que se percebe todo o
impacto do turismo e onde, de acordo com Leiper (1990, apud COOPER,
2001, p. 39) “ocorrem as conseqüências mais visíveis e drásticas do
sistema”;
c) e pela região de rotas de trânsito, que muitas vezes é incluída como lugar de
visitação pela atratividade que oferece.
3- A indústria turística, constituída pelas empresas e organizações encarregadas da
oferta do produto turístico.
Segundo Marutshka (2003), o produto turístico é um fenômeno recheado de
objetividade/subjetividade, consumido por milhões de pessoas, sendo gerado pelo
somatório da dinâmica sociocultural resultante de uma complexa combinação de interrelacionamento entre produção e serviços no turismo.
O que faz de um lugar ou região uma destinação turística?
Como determinantes externos, pode-se dizer que são os atrativos que o lugar oferece, sejam
eles de caráter natural, artificial ou sob a forma de eventos. Além das atrações, o destino
turístico deve oferecer toda a infra-estrutura necessária para que o turista se sinta bem.
De acordo com Cooper et al. (2001), a infra-estrutura aparece, principalmente, na forma de
transporte (estradas, ferrovias, aeroportos, estacionamentos), serviços de utilidade pública
(eletricidade, água e comunicações) e outros serviços (saúde e segurança) sendo, em geral,
utilizado por residentes e visitantes. Já a superestrutura é constituída pelos meios de
hospedagem, comércio varejista e outros serviços, sendo uma atividade do setor privado.
Mudando o foco para o indivíduo, pode-se afirmar, com Mayo (1973, apud COOPER et al.,
2001), que um dos motivos principais da escolha do lugar para onde viajar é a imagem que
4
se faz dele. Nesse sentido, o papel dos meios de comunicação, assim como dos agentes de
viagens, é de fundamental importância para despertar o interesse pelo lugar.
Entretanto, alguns pólos turísticos começaram a ser divulgados através da chegada dos
surfistas e outros viajantes, citados como os “descobridores” do local, como ocorreu em
algumas praias brasileiras (ESMERALDO, 2002; OLIVEIRA; MEDEIROS, 2005;
OLIVEIRA, 1998; CAMURÇA, 2003). A conseqüência desse processo foi, muitas vezes,
uma ocupação desordenada dos espaços por aqueles que viram nesse afluxo de pessoas,
uma possibilidade de fazer negócios, de melhorar sua renda, ou simplesmente tirar dali o
seu sustento.
Como qualquer outra atividade produtiva, o turismo requer um planejamento estratégico.
Se mal planejado, ou implementado, o turismo “é fator de poluição, concentração de renda,
aumento da prostituição, incremento da exploração sexual infantil e comprometimento de
investimentos em projetos mal elaborados” (NETTO; TRIGO, 2003).
Para os autores, a responsabilidade por essas questões não é exclusiva dos governos, mas
também dos empresários, embora, em regra geral, no Brasil, as políticas nacionais sejam
exercidas a partir “do topo”, das “elites”, com exceção do Programa Nacional de
Municipalização do Turismo - PNMT.
A falta de estudos dos impactos, que podem resultar da implementação de grandes
empreendimentos turísticos, sejam eles relativos à hotelaria ou entretenimento, tem trazido
danos às pessoas do local. “Nesse processo, alguns poucos se locupletam, os moradores
originais são expulsos. O lucro se faz em cima da usurpação de um bem público e, muitas
vezes, com a destruição das comunidades” (Ibidem, p.102).
5
O canto da sereia
Analisar o que ocorre nas praias nordestinas, acossadas pelo capital internacional que
investe no setor turístico, exige uma reflexão sobre os efeitos, as mudanças e os sofrimentos
vividos pela população local, a partir da descoberta do município como um ponto propício
à especulação imobiliária, comercial e turística.
Não adianta discutir, apenas, as questões relativas ao desenvolvimento social e econômico
do povoado descoberto pelos surfistas e, gradativamente, apropriado pelo empresariado que
constrói hotéis, condomínios e transforma residências em pousadas ou lojas. O saldo poderá
ser positivo se a avaliação for puramente quantitativa: daí podendo resultar em uma área
maior contando com saneamento, água encanada e eletrificação. As ruas calçadas e as
estradas pavimentadas dão acesso fácil aos turistas e, por conseguinte, aos moradores,
enquanto os empreendimentos turísticos (hospedagem, compras e diversão) oferecem
postos de trabalho, com baixa remuneração, aos nativos.
Mas, e a qualidade de vida das pessoas que habitavam esses “pedaços de paraíso”, como
fica? Qual o futuro que as aguarda se não estão preparadas - técnica e emocionalmente para enfrentar o choque com outros povos, outros costumes, outras culturas? Esse é um
lado da interferência do turismo, entretanto, há de se reconhecer que a chegada dessa
atividade econômica em pequenas comunidades - cujas relações sociais são estreitas e
fundamentadas, em alguns casos, pela linha de parentesco, criando um ambiente familiar
em que todos se conhecem - possibilita a ampliação do conhecimento proporcionado pelos
que vêm de fora. O visitante traz, consigo, uma bagagem cultural que contrasta com a do
anfitrião, revelando as diferenças existentes entre “os do lugar” e os turistas.
O momento inicial desse contato é marcado por uma convivência pacífica e prazerosa entre
os nativos e os primeiros grupos de visitantes – em geral, jovens surfistas ou conhecidos de
veranistas. A natureza exuberante do litoral brasileiro, a recepção calorosa por parte dos
moradores cativa e atrai outros viajantes. O contraste entre o ritmo de vida nessas
localidades e o ritmo vivenciado pelos turistas, nas grandes metrópoles, é um ponto que
sempre surge nos depoimentos sobre as razões que motivam um retorno a essas praias.
6
No início do século 20, começam a chegar os veranistas. Foi um tempo
de grandes expectativas e mudanças para os praieiros. As famílias de
mais alta renda, fugindo do calor das cidades e das fazendas,
introduziram o hábito de veranear. Mas não tinham acomodações e
alugavam as casas dos pescadores, que, por sua vez, construíam às
pressas barracos de taipa e palha para acomodar a família. Era, para os
nativos, um período de vacas gordas. (...) Na década de 70, as praias
começam a receber uma nova leva de freqüentadores – são os turistas que
chegam. Estavam à procura do exótico, selvagem, diferente. Praias
habitadas apenas pelos “nativos” significavam pouca interferência na
natureza (NASSER, 2003. p.54).
A etapa seguinte, quando começam a surgir as primeiras pousadas projetadas, hotéis e lojas,
iniciando um novo desenho urbano, é a fase em que os antigos moradores descobrem
oportunidades de trabalho, antes inexistentes, e as propostas de venda dos imóveis vão
deslocando essa gente para a periferia das suas cidades. O novo ritmo do cotidiano os
inebria e confunde: sentem o seu poder aquisitivo crescer e, de início, não percebem que
também aumenta o valor dos imóveis e dos gêneros alimentícios, tornando a vida mais cara.
Nota-se uma superestimação do turismo como efeito da perspectiva
oficial de atribuir à atividade turística um poder dinamizador da
economia do estado. A construção discursiva do turismo pelo Estado é
como um canto de sereia, que mais encanta do que aponta possibilidades
de soluções para os problemas locais. Essa expectativa superestimada
alimenta uma atitude de esperar do turismo a solução dos problemas
locais e pessoais (FARIAS ; NOGUEIRA, 2003. p.21).
Quando o turismo avança, estabelece-se uma maior interferência, provocando, em
segmentos da população local, uma inquietação no sentido de trabalhar no resgate de
manifestações culturais adormecidas, seguindo uma tendência de valorização do patrimônio
cultural das comunidades receptoras, impulsionada pela presença do turismo o qual,
segundo uma das diretrizes apresentadas para a elaboração do código de conduta1, deve ser
considerado “um instrumento para preservar as culturas locais e revitalizar os valores e as
pressões da identidade étnica e comunitária (MALDONADO, p.7).
1
Foram delineadas diretrizes para a elaboração do “Código de conduta do turismo rural comunitário na
América Latina” provenientes de Encontros Consultivo Regional de REDTURS – Rede de Turismo
Sustentável, criada pela OIT – Organização Internacional do Trabalho, realizados no Panamá, em 2005 e na
Bolívia, em 2007(MALDONADO,p.7)
7
A chegada da “indústria sem chaminé” vai alterando a vida litorânea, mudando costumes
cotidianos e interferindo nos valores, comportamentos e hábitos que caracterizavam as
praias escolhidas como destino pelos viajantes, surfistas e turistas. O estudo desse processo
no Nordeste brasileiro motivou essa pesquisa, realizada em duas etapas. A primeira, tendo
como foco Porto de Galinhas (Pernambuco), já concluída e publicada, e a segunda, aqui
apresentada, refere-se às praias de Pipa (Rio grande do Norte) e do Francês (Alagoas).
A pesquisa, desenvolvida nesses pólos turísticos, teve como objetivo geral analisar os
programas governamentais direcionados ao desenvolvimento do turismo nos dois pólos
selecionados. Como objetivos específicos o estudo deteve-se em identificar, através dos
depoimentos locais, o grau de impacto da atividade turística no pólo receptor; observar,
através dos depoimentos das lideranças locais, o nível de envolvimento da população
receptora no planejamento e na execução dos projetos turísticos para o município; as
manifestações culturais próprias da região enfocada e suas transformações.
Para atender a esses objetivos, que contemplam principalmente a análise dos níveis de
interferência do turismo no cotidiano da população local, utilizou-se o método da entrevista
e da observação no período de 2005/2006.
Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com antigos moradores, lideranças locais,
representantes de associação de moradores e de categorias de trabalhadores ligados a
atividades tradicionais e àquelas surgidas com as novas demandas impulsionadas pelo
turismo. Técnicos, dirigentes. de cargos públicos ligados à temática, pessoas que, direta ou
indiretamente, atuam em atividades relacionadas ao turismo nos municípios de Tibau do
Sul -RN e Marechal Deodoro – AL, especificamente nos pólos da praia de Pipa e da Praia
do Francês respectivamente, também foram contatados
A escolha da entrevista, como método de coleta de informações, caracterizou-se pela
capacidade de estabelecer um contato mais direto com o pesquisado, dando oportunidade
8
para que as expressões e sentimentos sejam externados. Para Quivy e Campenhoudt (1995,
p.192), com a entrevista
instaura-se uma verdadeira troca, durante o qual o interlocutor do
investigador exprime as suas percepções de um acontecimento ou
de uma situação, as suas interpretações ou as suas experiências, ao
passo que, através das suas perguntas abertas e das suas reações, o
investigador facilita essa expressão, evita que ela se afaste de seus
objetivos da investigação e permite que o interlocutor aceda a um
grau máximo de autenticidade e de profundidade
A escolha de alguns segmentos não foi pré-estabelecida. A abordagem com moradores
ocorreu através da indicação de pessoas, formando uma rede de contatos que possibilitou
colher informações que subsidiassem e atendessem aos objetivos da pesquisa. Variáveis
como tempo de moradia, atuação em setores emergentes, participação em associações,
envolvimento com programas locais fizeram parte do perfil das pessoas selecionadas para
as entrevistas.
Mudanças na vida litorânea
Semelhante a muitos outros municípios litorâneos do Nordeste, as praias aqui estudadas Pipa e a do Francês - viviam física e socialmente distanciada de outros lugares, antes da
chegada dos primeiros veranistas e da construção das vias de acesso, como revelam Hélio
Galvão (1989) e Adélia Oliveira (1998). A dificuldade de locomoção e de comunicação
limitava a interação dos seus moradores com habitantes de localidades mais distantes e até
com áreas circunvizinhas.
Segundo Galvão (1989), a abertura da estrada, ligando dois importantes povoados, quebrou
o isolamento de Pipa, gerando novo impulso para o município de Tibau do Sul, onde a
praia está inserida. Casas comerciais surgiram, eram as mercearias em que se vendia de
tudo “do cimento e da cal à pimenta do reino e carne do Ceará” (Ibdem, p.53) ao lado do
desenvolvimento da pesca da lagosta.
Décadas depois, a praia passou a ser visitada por veranistas oriundos do próprio Estado e de
regiões fronteiriças. Posteriormente foi descoberta por turistas, apreciadores da natureza,
9
em busca de paisagens intocadas pelo homem, lugar ideal para a prática do “surf”,
meditação, caminhada, descanso, acampamento, constituindo-se quase uma fuga de um
mundo conturbado, industrializado e urbanizado. São os apreciadores de lugares remotos e
praticantes do “turismo ambiental”, segundo classificação de Talavera (2003), que realizam
viagens para áreas naturais relativamente pouco alteradas ou
contaminadas com o objetivo específico de estudar, admirar e
desfrutar a paisagem, a flora, a fauna, da mesma forma que as
manifestações culturais (passadas e presentes), características
dessas áreas” (WILLIAMS, Apud TALAVERA, 2003, p.36)
O pequeno conjunto de residências – de pescadores ou de veranistas, o mar, o céu azul e sol
compõem um cenário ideal para os primeiros turistas vindos de fora do país, como suíços,
italianos, argentinos. Inicialmente visitantes temporários, para em seguida fixarem
residência no lugar aprazível - o paraíso procurado e encontrado. Essa mudança de
condição implicaria no estabelecimento de novas formas de relação com a população local.
Na concepção de uma antiga moradora, a especulação que se iniciou provocou uma série de
situações equivocadas em que
os moradores vendiam um ‘pedação’ de terra por tostões, porque eles
nunca tinham visto um dólar, então isso pra eles é muito e aí você vê a
ingenuidade deles, eles pegavam esse dinheiro e compravam carro,
porque já se sentiam ricos, só viviam andando, gastando gasolina e
dinheiro , porque naquela época era muito pra eles.
No caso da praia do Francês a especulação atingiu os barraqueiros que começaram a vender
os seus pontos comerciais, de pequenas dimensões, localizadas na beira da praia.
Posteriormente, esses estabelecimentos tornaram-se grandes restaurantes, impeditivos à
visão do mar, formando um paredão de alvenaria. Além de fugir dos padrões aceitáveis e
harmoniosos com a paisagem natural, das trinta e quatro atuais barracas, apenas três
pertencem a nativos.
Na praia de Pipa o processo de venda dos terrenos e das casas dos pescadores e/ou
agricultores contribuía para alimentar a ilusão de que o turismo lhes traria riqueza. O
“enriquecimento” momentâneo, também provocava o deslocamento de moradores, que
antes residiam em áreas privilegiadas, próximas à praia e a um incipiente centro urbano,
para áreas mais distantes, desprovidas de serviços básicos de infra-estrutura, e mais, com o
10
passar do tempo, tornavam-se rapidamente descapitalizados, estabelecendo-se novas
relações de trabalho. Nesse aspecto, uma nativa ressalta que
muitos vendem [as suas casas] por milhões, aí vão morar lá dentro do
mato, aí fica vivendo desse dinheiro um ano... aí quando acaba vem o
aperreio, aí vão trabalhar para o cara que vendeu o terreno a eles, aí
trabalha pra eles de empregado.
Ainda sobre o tema, o Secretário de Turismo de Tibau do Sul dá o seguinte depoimento:
o cara tem uma casinha ali na vila de pescador que para ele não tinha um
valor venal, um valor de dinheiro e sim um valor cultural, emocional,
familiar de onde ele está ali com um certo conforto, vivendo do trabalho
dele, pescando o peixinho dele, trocando um peixe por uma mandioca,
com um coco. Enfim, de repente, chega um cidadão que não sabe quem é,
com um monte de dinheiro e balança na frente dele e ele fica louco,
seduzido, achando que ali ele vai ficar rico. E ali ele vai poder dar
condição melhor ao filho, a mulher, talvez comprar outra casa. E o
momento que a gente vem passando agora, eu calculo, empiricamente,
que já faz uns 3 ou 4 anos que esse dinheiro acabou, então eles ficaram
pobres de novo, os filhos não aprenderam um trabalho ou estão drogados
ou alcoólicos, então você correr atrás desse prejuízo é muito sério e muito
trabalhoso.
Santos (2002, p.24)) em seu estudo sobre o município de Tibau do Sul, traça um perfil atual
de destino turístico de maior projeção no Estado do Rio Grande do Norte e destaca os
elementos que compõem os principais diferenciais dessa localidade:
arquitetura rústica e arrojada; gastronomia eclética, sofisticada e regional
ao mesmo tempo; imigração de estrangeiros e de diversos brasileiros(...)
além dos milhares de visitantes que anualmente visitam o município de
Tibau do Sul, em especial a Praia de Pipa onde buscam, primordialmente,
o contato com a natureza, a tranqüilidade e a fuga dos grandes
conglomerados urbanos.
A cada visitante satisfeito com o que viu e viveu em um determinado lugar, ainda não
descoberto pelo turismo de massas, os atrativos do local vão sendo propagados e reforçados
através do “boca-a-boca”, ou seja, os depoimentos entusiásticos feitos para amigos e
conhecidos. Como bem coloca Urry (2001), “o olhar coletivo do turista” é que determina,
ou não, o ponto de visitação como um futuro pólo turístico. Gradativamente, interesses
comerciais, governamentais e privados vão ampliando a rede de divulgação das praias,
11
utilizando, então, meios publicitários que realizam campanhas para enaltecer, criar e vender
os “paraísos” e “portos seguros” ao redor do planeta.
A chegada do turismo nessas pequenas comunidades estudadas, em sua maioria povoada
por pescadores, dotadas de praias de beleza natural e exótica, com a presença de uma
população acolhedora, parecem percorrer um caminho anunciado, haja vista estudos
realizados por Oliveira; Medeiros (2005), Dias, Esmeraldo (2002) e Oliveira (1998) em
Porto de Galinhas(PE), Porto Seguro(BA), Canoa Quebrada (CE), Praia do Francês(AL)
respectivamente. São lugares que sofreram rápidas e profundas mudanças, tal qual Pipa,
processo esse relatado por uma antiga moradora, cujas raízes com o lugar advêm da
infância, através de estreitas relações de parentesco com os primeiros proprietários e
veranistas da praia. Sobre o crescimento vertiginoso ela ressalta:
Há uns 15 anos atrás... ele[o turismo] vem crescendo que você nem
imagina, uns dez anos mais ou menos, assim acelerado, sabe dum, dum,
dum! Nós temos condomínios de 36, 52 casas. São mansões aí
dentro.Para você ter uma idéia eu chegava aqui [em Pipa] e dizia:
‘mainha, vamos ver qual foi a pousada este ano que apareceu’, então todo
ano a gente ia visitar.Chegou um certo período que não dava, de um ano
para o outro era 10, 15[pousadas], sabe, era coisa assim da noite pro dia.
Segundo o Secretário de Turismo de Tibau do Sul, o processo de chegada do turismo no
município vem ocorrendo, aproximadamente, há duas décadas, porém, a rápida ascensão é
recente. Quase tudo aconteceu nos últimos cinco anos. Os indicadores mais expressivos
desse crescimento referem-se ao número de estabelecimentos de alimentação e ao
saneamento básico.
Existia cerca de 25 restaurantes, nos primeiros momentos da descoberta da praia, hoje, essa
marca já alcança 100 unidades alimentícias para uma população fixa, em todo o município,
de dez mil habitantes, concentrando-se no distrito de Pipa, três mil residentes. A população
flutuante, no auge dos eventos de reveillon, segundo o Secretário, chega a 15 mil visitantes.
Outro indicador do crescimento é o investimento na rede de águas e esgotos. Em 1998 foi
elaborado o Projeto de Saneamento de Pipa, o qual atenderia a quase totalidade do distrito,
12
porém, após a implantação e conclusão dos serviços, apenas 48% da área foi contemplada,
numa demonstração da defasagem entre planejamento e rápido ascensão da praia de Pipa.
A estrutura montada para impulsionar o turismo, em especial, nas pequenas comunidades,
provoca alterações significativas nos aspectos sociais, culturais, psicológicos e econômicos
na vida da população, mudando comportamentos cotidianos e o meio-ambiente. São
transformações de mão dupla, ou seja, por um lado trazem benefícios e, por outro,
provocam novos arranjos sociais nocivos à população.Nesse sentido, Urry (2001,p.44)
argumenta que
muitos investimentos que resultaram do turismo (aeroportos, campos de
golfe, hotéis de luxo etc) beneficiarão muito pouco a massa da população
nativa. Do mesmo modo, muita riqueza nativa que é gerada será
distribuída de maneira extremamente desigual e, assim, a maior parte dos
países em desenvolvimento obterá poucos benefícios (...) boa parte da
mão-de-obra é relativamente mal preparada e poderá muito bem
reproduzir o caráter servil do antigo regime colonial.
O convívio com pessoas de diferentes partes do mundo, falando idiomas diversificados, trazendo
valores e costumes os mais variados, vai introduzindo no cotidiano praiano novas formas de viver,
antes desconhecidos da população local. A presença de hábitos culturais diversificados, em
contraste com os locais, fazem parte da nova ordem que se estabelece com a chegada dos
“diferentes”. Sob o ponto de vista econômico, o turismo proporciona uma diversidade de
ocupações gerando um leque de opções, nem sempre absorvido por todos. Antes o mercado
de trabalho se restringia, basicamente, às atividades comerciais em pequenos
estabelecimentos e às ocupações tradicionais pesqueiras e agrícolas.
A presença do turista, por sua própria condição de estranho ao lugar, contribui, também,
para criar, inicialmente, relações de desconfiança, típico do confronto de dois mundos: o
dos que chegam e o dos que recebem. O desconforto aumenta quando se deparam situações
econômicas diferentes: enquanto os visitantes se originam de regiões desenvolvidas e
possuem um nível de renda alto, a população local vive desprovida de infra-estrutura
básica, com pouca escolaridade e precárias condições de saúde e renda. Para
Soares(2005:102),
a relação nativo/turista não é monolítica. Pelo contrário, o turista é a
origem do conflito e da oportunidade. Com ele chega o barulho, as
13
drogas, a prostituição, assim como as possibilidades de geração(sazonal)
de renda com pequenos empreendimentos informais e postos de trabalho.
Os benefícios e prejuízos acarretados pelo turismo se mesclam em suas falas, revelando a
percepção dessa dualidade pelos anfitriões. Reconhecem a importância da atividade sob o
ponto de vista da economia do lugar, mas, também, ressaltam as modificações na dinâmica
e na organização da sociedade.
Em um mês chega aqui [em Pipa] coisas novas; se traz muita mão-deobra de fora, principalmente na construção civil, que você não sabe quem
é quem, inclusive estamos numa batalha com a prefeitura para ver se faz
cadastro dessas pessoas. Os mais velhos estão excluídos, os mais novos
não, porque eles entram na balada. Hoje você pega um nativo ele
conversa sobre a Europa, porque a Europa pra eles é local, os nativos vão
e voltam e não vão a todo canto [têm contato com pessoas de diferentes
países, “viajam” sem sair do lugar].
O turismo serve sim de alavanca para beneficiar direta ou indiretamente
quase todo mundo. Agora é também um instrumento de devastação.As
pessoas vêm se aproveitando, o dinheiro flui para a prefeitura, o imposto,
o IPTU. Cada vez mais dinheiro, cada vez mais habitantes, quanto mais
habitantes, mais dinheiro. Certamente o município cresce, tem mais
policiamento, posto de saúde é ampliado, as ruas são pavimentadas e por
aí vai (...) entre os habitantes têm os que conseguem pegar a onda,
aproveitar, fazer pequenas pousadas, imóveis. Sempre tem os bem
sucedidos. Tem aqueles que não conseguem se adaptar, ficam cada vez
mais afastados do centro, Às vezes vendem suas casas, por preços
modestos e são obrigados a construir novas casas de taipa cada vez mais
longe.
Transformações no âmbito do trabalho
Com a chegada de investimentos dirigidos ao lazer e ao bem-estar do turista, o mundo do
trabalho é alterado e diferentes ocupações surgem sintonizadas com as novas atividades. A
tradicional pesca artesanal sofre mutações e é substituída, paulatinamente, por formas mais
sofisticadas de trabalho. Grande parte dos antigos trabalhadores pesqueiros não consegue
acompanhar as inovações tecnológicas e, por não estarem preparados para o exercício de
novas profissões, correm o risco de ficarem excluídos da massa de oferta que a atividade
turística proporciona.
14
Em alguns setores, a criatividade e a capacidade de resiliência de alguns trabalhadores
iniciam transformações que possibilitam a sobrevivência das suas famílias frente à nova
realidade: os antigos pescadores começam a utilizar os seus barcos para conduzir turistas a
passeios pela costa. Trata-se de uma forma de inserção em um mercado constituído por
atividades diversificadas e especializadas, estas, quase sempre, absorvidas pelo pessoal que
vem de fora. As oportunidades de trabalho que lhe são ofertadas trazem como marca a
baixa remuneração. Os nativos não são contemplados pela falta de escolaridade e da pouca
qualificação. O despreparo da população dos dois municípios estudados – Tibau do Sul e
Marechal Deodoro – pode ser melhor observada nas tabelas 1 e 2. Segundo o IBGE, em
ambos é alto o percentual
(80,7) de pessoas sem o ensino fundamental concluído,
representando menos de 8 anos de estudo.
Tabela 1. Anos de estudo da população de 10 anos idade ou mais no município de
Tibau do Sul - Rio Grande do Norte
Anos de estudo
%
Sem instrução e menos de 20,6
1 ano de estudo
1 a 3 anos
27,8
4 a 7 anos
32,3
8 a10 anos
10,2
11 14 anos
8,3
15 anos ou mais
0,8
TOTAL
100,0
Fonte:IBGE – 2000
Tabela 2. Anos de estudo da população de 10 anos idade ou mais no município de
Marechal Deodoro - Alagoas
Anos de estudo
%
Sem instrução e menos de
23,4
1 ano de estudo
1 a 3 anos
29,9
4 a 7 anos
27,4
8 a10 anos
9,4
11 14 anos
8,8
15 anos ou mais
1,1
TOTAL
100,0
Fonte:IBGE – 2000
15
A constatação de que parte da população, ao abandonar a pesca, é redirecionada para
ocupar postos de trabalho com menos rendimentos, reflete-se na expectativa de estudantes
com relação a futuras profissões, como destaca uma educadora e moradora do município.
Segunda ela, os alunos comentam que “quando crescer vão trabalhar de jardineiro, vigia e
garçom”. São atividades agora exercidas pelos pais, oriundos da pesca, e que se engajaram
nesse grupo de ocupações. A reprodução desse padrão é questionada pela professora que
desenvolve junto aos alunos, um trabalho de reflexão, incentivando-os a buscar melhores
níveis de escolaridade para concorrerem, no mercado de trabalho, às profissões que
oferecem remunerações mais elevadas.
O exemplo acima remete à questão mais ampla da educação e do despreparo da população
para as atividades turísticas nas quais há a exigência de um nível de instrução mais elevado.
A falta de capacidade para ocupar os cargos com melhor remuneração exige uma reflexão
da própria situação do país com respeito ao acesso à escola e à qualidade de ensino que daí
resulta. No caso específico de uma população que se defronta com novas e rápidas
demandas e com tempo insuficiente - o período de formação, com um bom preparo
profissional se reveste de um processo a médio e longo prazo - para atender às solicitações
do mercado, reforçando, assim, um sentimento e a real constatação da exclusão. Para o
Secretário de Turismo do município de Tibau do Sul, deveria haver um trabalho nas escolas
para “educar para o turismo” pois, segundo ele, a não inserção da população
esbarra na educação de base. Precisava ter, nesses colégios daqui ,
introdução ao turismo já quando criança. A gente tem que se entender,
todo mundo que está aqui trabalhando, João, Paulo, Gabriel, Marivaldo,
você, eu, que estamos inseridos nesse processo. Nós somos anfitriões com
excelência [eficiência] o tempo todo. Quem chegar tem que dar um bom
dia, todo mundo tem que ter essa postura, para isso tem que fazer todo
mundo entender o que é turismo.
Mar azul, areia branca e pernas para o ar
Em geral, as praias nordestinas são procuradas devido as suas águas mornas e emolduradas
pelo branco das suas areias, acompanhando o recorte do litoral. Tanto no Rio Grande do
16
Norte como em Alagoas a beleza proporcionada pela paisagem natural existente se constitui
em um ponto de atração para quem busca o lazer e o descanso.
A costa de Pipa é “delimitada por 16 Km de falésias vegetadas ou não e por dunas com
remanescentes de Mata Atlântica” (SANTOS, 2002,p.36). Os “descobridores” desse
recanto do litoral brasileiro se sentiam atraídos pela diversidade ali encontrada e, acima de
tudo, pela preservação do ambiente oferecido pela natureza. A praia do Francês, antes
denominada Porto dos Franceses, conta com uma proteção de arrecifes que contribui para a
formação de piscinas naturais com águas translúcidas. Acompanhando um lado da praia é
possível observar a existência de dunas - “que eram a alegria das crianças pois nelas faziam
‘surf de areia’ em um pedaço de madeira de barcos velhos” – coqueiral e mangue, como
destaca Oliveira (1998: 32), ao estudar os efeitos do turismo sobre a população de Marechal
Deodoro .
Os estudos sobre a chegada do turismo, no Nordeste, mostram como tem sido estimulada a
idéia de que turismo significa emprego, renda e melhoria de condições de vida para a
população do município onde se situa a praia divulgada nas campanhas. Sobre essa questão,
Nasser (2003, p.54) revela haver uma distância entre o discurso e a prática, com relação à
realidade da vida dos nordestinos que habitam esses locais.
Na década de 70, as praias começam a receber uma nova leva de
freqüentadores – são os turistas que chegam. Estavam à procura do
exótico, selvagem, diferente. Praias habitadas apenas pelos ‘nativos’
significavam pouca interferência na natureza. Os órgãos governamentais
começam a propagar as maravilhas do turismo, passando a imagem de
que ‘a indústria do turismo é que vai gerar emprego’. Entretanto, a maior
parte do que foi feito nessa época, de apoio ao turismo e à geração de
emprego, teve mais o sabor da improvisação do que o resultado do
trabalho planejado.
A falta de planejamento atinge também o meio-ambiente. O conflito existente entre a
necessidade já demandada pelo crescente turismo e a questão da preservação, é real. As
estradas surgem atropelando tudo o que é natural na região, provocando certa indignação
nos defensores de um planejamento coordenado e participativo, ao serem surpreendidos por
novos e constantes empreendimentos:
17
A estrada que liga Tibau do Sul [sede do município] à Sibaúma
[remanescente de quilombos] foi uma grande surpresa, ficamos sabendo
dessa novidade casualmente por alguém da Secretaria de Turismo .... caiu
como uma bomba. Estrada atravessando matas virgens ... e para que
precisam de outra estrada ? Por que não usar a estrada que vai para Pipa ?
A economia de tempo é mínima para justificar uma estrada nova. Essa
estrada nova vai ser como um recheio de sanduíche, aquela mata vai ficar
cercada por ambos os lados. Hoje em dia se sobe em Cacimbinhas , é
cheia de dunas. Naquela área vai passar uma estrada por trás das dunas.
Hoje você sobe nas dunas e é o maior silêncio. Você enxerga de longe a
lagoa de Guaraíbas, o sol espelhado na lagoa, uma vista muito bonita,
muito tranqüila. Só se ver oceano e árvores. Agora só vai escutar carros
vum! vum! vum! De um lado e de outro também.
A dubiedade de perspectiva que tem a população local sobre o turismo - ora visto como um
grande negócio para a região, ora aparecendo como uma intromissão depredadora – revela a
complexidade da situação vivenciada pelos moradores das praias que, sem preparo e sem
planejamento, transformam-se em pólo receptor de turistas. Para os praianos são ofertados
os empregos com baixa remuneração, para os de fora, com maiores níveis de escolaridade e
especialização, ficam destinadas as vagas do mercado de trabalho com melhores salários.
Assim, aos poucos, começam a observar a disparidade que existe entre os que são do
município e os que começam a chegar, junto com o turismo: diferenças quanto à renda,
quanto à escolaridade, quanto aos costumes e quanto às oportunidades de emprego e de
projetos de vida.
Ansiosos em aproveitarem as oportunidades de negócio que surgem, desinformados e já
explorados em situações anteriores, os moradores dessas praias não resistem à “tentação”
do lucro imediato e vendem o seu terreno por “qualquer dinheiro”, mesmo que este seja
proveniente da Mata Atlântica, parte integrante dos bens naturais apontados por 78,65%
dos turistas que visitam a praia de Pipa, como motivo maior de sua permanência na
localidade (SANTOS, 2002, p.55). Assim, a transfiguração da paisagem se intensifica com
a chegada dos projetos de hotéis e de condomínios. Conforme relato de um militante
ecológico de Pipa todos procuram tirar proveito da situação:
Pipa tem a mata que é um bem comum mas, hoje em dia, está muito
ameaçada, a começar pela especulação imobiliária. Os próprios nativos
estão indo lá, cortar um pedaço. Especialmente os nativos que
anteriormente não foram beneficiados com vendas, agora estão se
aproveitando para, com o uso capião, vender posteriormente ou mesmo
18
construir suas casas lá dentro.(...) Infelizmente esse sistema é tão
poderoso, tão forte. A globalização veio para apoiar esse modelo
desenvolvimentista. Infelizmente não se pode criticar abertamente. Todo
mundo é empurrado para essas coisas, se não for a pessoa é um parente
que está comprometido,[ou já] fez uma coisa semelhante, tirou um pedaço
de floresta, vendeu para construir um prédio alto, em vez de preservar a
casa histórica. Mesmo os mais esclarecidos fazem isso, pode imaginar o
povo mais humilde resistir às tentações...
Mas nem tudo é efetuado de forma indiscriminada e sem respeito ao meio-ambiente e à
história local. Alguns segmentos, responsáveis pelo incremento da atividade turística,
procuram desenvolver práticas compatíveis com a conservação do patrimônio material e
imaterial dos lugares a serem visitados e apregoados como “paraísos históricos e
ecológicos” e, assim, preservar o lucrativo mercado, atraindo, cada vez mais, uma parcela
de consumidores conscientes e preocupados com o planeta. Por outro lado, caso não haja
empenho em conservar a paisagem e seu entorno, o destino perderá a força de atração e o
turismo perderá investimentos (COSTA, 2006).
Leal (2006), analisando os portais governamentais divulgadores dos principais destinos
turísticos do Nordeste brasileiro, observou uma nova tendência: uma crescente valorização
dos aspectos ambientais e uma preocupação com os ecossistemas. Essa postura é um
reflexo da nova estratégia do capitalismo frente à importância crescente dos recursos
naturais na escolha do destino a ser visitado pelo turista. As empresas envolvidas no trade
turístico procuram adequar o seu discurso aos novos tempos, mostrando-se politicamente
corretas e conquistando, assim, novos clientes que permitem a ampliação do seu espaço
mercadológico.
As praias de Pipa e do Francês se incluem no grupo de destinos turísticos cujo principal
poder de atração é a natureza, ali exposta e exuberante, porém, argumenta um morador de
Tibau do Sul: “do jeito que está sendo concebida pelos empresários, por economistas do
Estado, acredito que se torne uma enorme cidade, uma massa urbana com pequeno parque,
que estão criando como um pequeno recheio de sanduíche”. Esse depoimento revela a
preocupação com a falta de planejamento e a descaracterização do arruado que deu início a
toda a “febre turística” na região.
19
Nas duas praias, as modificações na paisagem urbana são observadas pelos moradores e
sentidas como sinal de progresso, mas uma transformação que não os inclui, nem no
planejamento e nem nas vantagens oriundas daí. Os nativos são deslocados, cada vez mais,
para a periferia do novo aglomerado urbano. De início eles ficam como meros
espectadores, mas, aos poucos, passam a refletir sobre a nova realidade e começam a
participar de discussões e movimentos em prol da preservação ambiental e cultural, como já
é possível observar em Pipa. Percebem que continuar alijados pode ser pior para eles e para
a sua comunidade. Uma jovem praiana entrevistada e engajada no trabalho de resgate
cultural do município é capaz de estabelecer a diferença entre eles e os visitantes: “nós
somos a herança de Pipa, o povo que mora aqui, nós somos a história. Isso é o que
diferencia a gente do turista”. Os antropólogos argumentam que as relações entre turistas e
locais são assimétricas e ainda fazem referência às diferentes situações em que se
encontram o anfitrião e o visitante: um trabalha para satisfazer o tempo livre do outro,
porém afirmam que “isso não implica que a população local-residente aceite passivamente
um papel vindo de fora” (TALAVERA, 2003, p.51).
Em busca da preservação das raízes
O turismo contribui para tornar as diferenças entre o visitante e os moradores das praias
ainda mais explícitas. Essa realidade é percebida e contribui para a tomada de consciência
da população sobre a sua nova situação no contexto. Ao se defrontarem com outras
culturas, os anfitriões percebem o contraste, seja do ponto de vista de alguns hábitos, de
distintos idiomas, de equipamentos trazidos pelos visitantes, de estilos de vida, de situação
econômica e muitos outros que vão se revelando na convivência cotidiana. Gradativamente,
o que antes era distração e novidade que agitava a pequena cidade, acordando-a da
mesmice anterior, passa a inquietar pelo fato de ocupar espaços antes reservados aos
nativos.
A beira-mar, onde comemoravam uma boa pesca ou colheita, dançando e tomando uma
cachaça, vira um mercado público onde se vende de tudo: desde drogas – antes
desconhecidas no local – produtos artesanais, comidas, passeios de barco e tudo o que
20
interessar aos visitantes e puder gerar uma renda para quem chegar primeiro na disputa por
um pedaço de chão na areia da praia.
Na praia de Pipa, a “beira do mar” era um local dedicado ao prazer do ócio ativo e cenário
de manifestações culturais, como o Zambê – dança de origem afro, praticada, inicialmente,
pelos afrodescendentes integrantes de um quilombo existente em Tibau do Sul. Um espaço
procurado para o desenvolvimento de um turismo nacional, como identifica Ulate (2006),
ao estudar o que ocorre na América Latina. Para ele, o movimento dos povos pobres desse
continente, ao deslocar-se, durante um dia ou um dia e uma noite, para visitar uma praia,
com fins exclusivamente recreativos, termina por criar uma “cultura popular turística”
(Ibidem, p.123). A forma de viver esses momentos de satisfação e diversão termina fazendo
parte da identidade dos grupos que habitam a região. E é esse modo de ser e de viver que
atrai o viajante, o estrangeiro e o capital internacional.
À medida que as localidades turísticas, expressão da cultura turística
local, entram em fluxo de circulação internacional de mercadorias
turísticas, essa cultura é subsumida e filtrada no interior dos fluxos
internacionais das ofertas turísticas. Assim, o turismo internacional, em
boa medida e infelizmente de maneira muito freqüente, avança como
uma expropriação da base física do prazer das comunidades, ou seja, os
seus belos lugares (Ibidem, p.124).
Sobre a areia da praia os nordestinos de Pipa e do Francês descansavam, utilizando o seu
tempo do não-trabalho para desenvolver a livre expressão do seu ser, através de danças,
brincadeiras, jogos, bebidas e comidas produzidas localmente. A invasão turística desse
espaço transforma-o em um mercado público, demarcado por regras municipais, disputas e
pela busca do vender e do ter, pelo lucro, em lugar do prazer.
As primeiras vozes a denunciar essa ocupação dos espaços começam a chamar a atenção de
outros cidadãos, também incomodados com a invasão. Em seguida, começam a procurar,
ainda de forma incipiente, mecanismos de ação para recuperar o que parece estar perdido.
Percebem que antigos hábitos locais, que se constituíam importantes traços culturais da
comunidade estão “adormecidos” e que esses costumes, forma de ser, estilo de vida etc são
elementos que se configuram como um fator de originalidade, fundamental para garantir a
atratividade do lugar. A retomada dessas questões coloca em discussão o processo de
aculturação já vivenciado pela população local. Do ponto de vista das relações sociais em
21
que os grupos se envolvem, interagem e realizam trocas, o encontro, entre turista e
anfitrião, revela a impossibilidade de isolamento de um e de outro, haja vista que ocorre em
menor ou maior grau a assimilação, uma vez que o contato cultual é parte integrante desse
processo, gerando distintas variações de impactos. Para Talavera (2003), a oportunidade
desse encontro pode servir de preparo para a minimização de preconceitos, conflitos e
tensões.
Mas, o encontro entre visitante e visitado pode, também, gerar inquietações em segmentos
da população local, que se auto-apóiam e buscam reacender tradições e resgatar
manifestações culturais “adormecidas”, como uma forma de recuperar a identidade
sufocada pelos que vêm de fora, como afirma uma moradora de Pipa: “conseguir que eles
[os anfitriões] entendam que têm o mesmo valor de um europeu, ou de qualquer outro que
chegue aqui”. Para Oliveira (2006, p.7), “o turismo pode a vir a estimular e renovar alguns
aspectos das manifestações culturais que, de uma forma ou de outra, estão sendo
transfiguradas devido às forças de desenvolvimento do mundo globalizado”.
Alguns grupos trabalham, no município de Tibau do Sul, através de ONGs, organizadas por
eles, no sentido de recuperar “aquela praia, que um dia foi uma vila de pescador”. A partir
desse sentimento, algumas estratégias e ações são colocadas em prática, com ou sem a
participação do poder público. Destaca-se o Projeto Pipa Sabe, com seus desdobramentos, o
Núcleo Ecológico de Pipa, iniciativas isoladas de educadoras e de nativos, como também
algumas propostas culturais do governo municipal.
O Pipa Sabe é um projeto de rede , criado em 2003, com parceria inicial da Universidade de
São Paulo (USP), idealizadora e estimuladora do trabalho. Posteriormente, vieram outros
colaboradores como o Ministério da Cultura, a Casa Civil, o Ministério das
Telecomunicações e a Prefeitura do Município de Tibau do Sul. Em princípio, o objetivo
principal consistia em realizar a inclusão digital, porém, uma das responsáveis pelo Projeto
- moradora preocupada com a perda de identidade dos nativos - propôs a ampliação e
sugeriu um trabalho de resgate da cultural local, através da inclusão social. Essa
necessidade, segundo ela, advém da idéia de que “uma casa não se constrói do telhado”. O
Pipa-Sabe abrange outros componentes, como o Tele-Centro e o Educa Pipa, que em
22
conjunto com o Núcleo Ecológico de Pipa (NEP), desenvolve aulas de Educação
Ambiental.
O Tele Centro, criado em 2004, possui quase 500 pessoas cadastradas para uso de
computadores e da biblioteca. O público é constituído de jovens e crianças. O projeto trata
da inclusão sócio-digital, através de aulas de introdução à informática e acesso à internet
para a população. Ocupa uma sala, cedida pela Prefeitura, onde funciona uma pequena
biblioteca com livros e revistas, distribuídos em estantes improvisadas. Conta, ainda, com
antigos computadores, doados tanto pela iniciativa privada, quanto pela pública. O serviço
de internet, através da banda larga, funciona com antena doada pelo Ministério das
Telecomunicações e com sinais provenientes de um satélite de Israel.
O resgate da cultura local é o foco principal dos jovens responsáveis pelo gerenciamento do
Pipa Sabe. Pretendem voltar a praticar e estimular a população a dançar o forró, o zambê, a
capoeira, a lapinha e outras manifestações folclóricas. A participação no Tele-Centro vai
além das aulas de informática. As discussões internas do grupo ampliam a visão de mundo
e desenvolvem o olhar crítico, como atesta o depoimento de um de seus integrantes:
Educação é um grande problema... falta capacitação de professor, porque
todos os professores moram aqui sabe, aí a maioria só tem o segundo grau
e não fazem capacitação... um pessoal da pousada quer uma recepcionista
vai buscar de Natal, de não sei aonde, de Rio de Janeiro, porque não
encontra gente capacitada para poder trabalhar nesses locais(...) a maioria
das mulheres nativas daqui, trabalha tudo de camareira, lavar roupa, só
esses empregos assim, aí é muito difícil ter uma que tenha o cargo de
gerência, de recepcionista, essas coisas(...) Antes de entrar no Projeto,
antes de conviver, assim, na raça, com o pessoal daqui, eu pensava,
sempre, em ir embora da Pipa, querer estudar em outro estado. Agora
estou pensando diferente, agora estou pensando em me capacitar para
poder instruir pessoas daqui.
A interconexação entre a população local e o turista possibilita a troca de emoções,
costumes e hábitos entre os dois lados. Porém, há um momento em que é percebida, pelos
nativos, a predominância cultural dos que vêm de fora, exercendo, inclusive, influência nos
moradores. Ao atingir esse estágio as referências sócio-culturais-ambientais da população
tornam-se difusas. O depoimento de uma jovem, integrante do Tele-Centro, revela as
23
conseqüências dessa mescla de atores interagindo, profunda ou superficialmente, numa
comunidade transformada em grande destino turístico:
O turismo influencia muito na identidade deles[os nativos] ao ponto de
fazer, quem eu sou ? eu sou fulano ou sicrano? Porque é muita gente de
fora,
muita
influência
européia,
é
muito
gringo.
É
muita gente do Rio de Janeiro, de São Paulo, aí já vem com outras
coisas[costumes, hábitos,estilos] e aí passam pra gente aqui. Sem querer
eles[os nativos] ficam pegando e aí vai acabando com a raiz deles...
alguns têm pouca educação, não tiveram muito estudo e acabam sendo
influenciados por essas pessoas.
O resgate da cultura local produz efeitos benéficos na auto-estima dos jovens, estimulando
a elaboração de projetos e sonhos que extrapolam os tradicionais modelos profissionais
encontrados no município, direcionando-os para novas profissões. A responsável pelo
Projeto relata, surpresa e recompensada, uma das falas de um dos seus integrantes ao
afirmar que o trabalho desenvolvido mudou a sua vida e que o transformou em outra
pessoa. Esse jovem, que concluiu o segundo grau e pretende prestar vestibular para Ciência
da Informática, provocou o seguinte comentário da coordenadora: “Você imagina a
responsabilidade de estar num projeto desse e o menino chegar e dizer isso!”. O reforço na
auto-estima possibilitou ao estudante ousar ser diferente, alçar novos vôos que, na pequena
aldeia praiana, antes do advento do turismo, eram inimagináveis. Atividades como vídeocomentarista, editor de tele-jornal, montadores de tele-centros fazem parte, hoje, do elenco
de ocupações possíveis de serem exercidas por um grupo de jovens de Pipa.
Em 1999, como estratégia de ação e combate aos danos provocados ao meio-ambiente e,
mais especificamente, aos resquícios da mata atlântica, foi criado o Núcleo Ecológico da
Pipa – NEP. A estratégia de ação visava, ainda, buscar alternativas para lidar com a
crescente produção de lixo, responsável pela poluição e problemas de saúde pública.
Moradores de Pipa, nativos ou não, simpatizantes da comunidade e igualmente
preocupados com as desordens oriundas da especulação imobiliária uniram-se na primeira
organização não-governamental da comunidade. Segundo um dos fundadores, a idéia da
criação,
foi amor à Pipa e [a necessidade de] manter a natureza viva. A gente viu
que estavam acabando com tudo.O lixo na praia, a coletiva seletiva não
24
funcionava. O caminhão que se usava era a céu aberto e o lixo ficava
espalhado na pista [estrada].
A entidade continua a mobilizar a comunidade, apesar do aparente amadorismo, já que
depende do voluntariado. Em virtude dos afazeres pessoais dos seus componentes, da
dificuldade de angariar recursos financeiros, além de uma questão de cunho operacional
que é a inexistência de uma sede que congregue os encontros e sirva de referência para a
ONG, algumas atividades são postas em prática. O NEP se constitui em um dos coparticipantes da “Semana do Meio Ambiente do Município de Tibau do Sul”. O evento é
realizado anualmente - são oferecidas oficinas de reciclagem, exibição de filmes, palestras,
coleta seletiva nas praias (atividade que conta com a parceria do Projeto Educa Pipa) - e
desenvolve um trabalho de Educação Ambiental, envolvendo crianças das escolas da
comunidade. O trabalho da ONG ultrapassou barreiras locais e “ganhou o mundo” através
da inclusão digital. A criação de uma página virtual, embora apresente algumas limitações
de ordem informativa, oferece visibilidade à problemática da sustentabilidade em suas
várias dimensões e coloca o NEP, Pipa e os efeitos do turismo, na agenda de debates.
A sensibilidade e a percepção da necessidade de resgatar manifestações tradicionais estão
presentes nos moradores que buscam o fortalecimento de suas raízes. Nessa perspectiva,
cidadãos preocupados em manter os legados de gerações passadas, investem na formação
de novos brincantes, prováveis multiplicadores culturais, através do trabalho direcionado às
crianças e jovens.
Até hoje se eu pudesse e tivesse apoio, jamais deixaria a cultura local
adormecer, porque acho que ela deveria ser mais valorizada.
[se as crianças não se interessarem pelo Zambê] vai morrer, vai parar a
cultura.
Partindo do princípio de que “o turismo é um forte encorajador da consciência em relação
ao ambiente e do senso de identidade cultural dos residentes” (OLIVEIRA, 2006, p.6), em
Pipa observa-se esse despertar, através de iniciativas individuais e de pequenos grupos.
O Zambê, manifestação que faz parte da raiz cultural da população de Pipa, está introjetada
no imaginário de um dos responsáveis por seu resgate, como mostra o seu depoimento:
25
O coco de roda e o zambê é antigo daqui da Pipa, da galera mais
velha.Uns já foram, outros ainda estão vivos. Tem uma galera que ainda
conta como é que é, como não é. Eu comecei assim, mais ou menos aos 9
anos, 10 anos.Comecei a brincar com meu irmão que ele já sabia também,
e meu irmão já brincava, que ele é mais velho de que eu, e ele foi me
ensinando bater, também, o zambê. Fui pegando o ritmo com a galera e
nós brincávamos todo domingo aqui na praia de Pipa, porque a Pipa, aqui,
era uma capoeira, na época, só eram os nativos ... turismo , essa coisa não
tinha, só a galera nativa.
Os primeiros passos para a formação de um grupo de dança partiram de uma iniciativa
familiar, em que os filhos pequenos e amigos estão sendo preparados para dar continuidade
ao coco de roda. Os instrumentos, confeccionados pelos próprios participantes, constituemse, basicamente, de dois paus furados grandes e um pequeno, feitos de madeira cajarana e
couro de gado cru, lata, pandeiro, maracá e triângulo.Os tocadores são escolhidos de acordo
com a sua capacidade rítmica, avalizada pelo coordenador do grupo. Algumas
apresentações públicas são realizadas, esporadicamente, representando embriões de
valorização da cultura. A persistência em desenvolver um trabalho dessa natureza, com o
intuito maior de manter as raízes faz com que o responsável pelo resgate insista em
arregimentar, apenas, nativos, porque , segundo ele, “se for o caso de botar um de fora, aí
vai embora, aí já dá uma furada [mexe com a composição do grupo] no conjunto”.
O responsável pela formação, organização e motivação dos jovens reconhece que o turismo
introduz novos hábitos e insere na sociedade elementos até então inexistentes no imaginário
da juventude, tais como: “boate, baile e banda”. Essas inovações se incorporam ou se
sobrepõem às manifestações tradicionais desenvolvidas pelos nativos - zambê, quadrilha,
drama, lapinha. As novas formas de expressão somam-se às antigas e “a partir daí vai
começando outra coisa”, comenta o nativo, numa recomposição de sons e danças com a
contribuição dos que chegam e com a incorporação das idiossincrasias locais.
Apesar da eminente possibilidade de aculturação, o fortalecimento das raízes é perseguido,
também, por uma educadora que, na escola, desenvolve um trabalho, com alunos mirins,
com o intuito de resgatar “muita coisa que estava adormecida”. Para recuperar “falas”
utilizadas no drama - espécie de teatro cantado -, foi “buscando pelas pessoas mais velhas e
26
passando [os versos] para um caderno” e, com a certeza de alcançar os objetivos, declara:
“vou resgatar e conseguir”.
São atitudes pontuais, sem estrutura e sem apoio, em que as ações se transformam quase em
um sacerdócio, cujas atividades se desenvolvem artesanalmente, conforme relata a
educadora sobre os preparativos para uma apresentação pública:
Começou a chover, as nossas faixas eram de papel crepom, eu fiz com
tanto carinho, trabalhei até não sei que horas da noite, com areia brilhante
para ficar aquelas letras bem bonitinhas, porque eu sou muito... assim...
muito caprichosa... aí desmoronou tudo, eu chorei, sabia? Porque no outro
dia a gente tinha um convite para apresentar em Piau [distrito de Tibau do
Sul]. Fiquei preocupada e fiz uma promessa ‘eu vou comprar essas faixas
de tecido’(...) comprei o tecido, a tinta, meti o pau [trabalhou muito], para
pintar, para dar tempo, aí pintei, depois botei purpurina, que era mais
segura, e fiz umas rosas bonitas de outra cor vermelha. Ai ficaram lindas,
as faixas. Ah, como eu fiquei feliz no dia da apresentação!
Turismo, cultura e município.
Um estudo, junto aos municípios brasileiros, realizado pelo IBGE, em 2006, revela a pouca
importância conferida à cultura no organograma das prefeituras: em 72% das unidades
pesquisadas a cultura não tem secretaria própria, estando acoplada a outros temas.
Quando a cultura está em conjunto com outras políticas setoriais –
geralmente com a educação – ela costuma ser considerada de forma
marginal. (...) Em 6,1% dos municípios a Cultura está vinculada
diretamente à chefia do executivo. Nesses casos, ela costuma ser vista
como uma área produtora de eventos que beneficiem a imagem do gestor.
O fato de não existir um órgão gestor é um indicador importante do
relativo pouco prestígio da área. (IBGE, 2006)
Em Tibau do Sul não há Secretaria de Cultura e a de Turismo foi criada há poucos anos,
bem depois do município ter se tornado um destino turístico, inserido no cardápio das
agências de viagem. Entrevistado, o Secretário de Turismo falou das dificuldades
enfrentadas para a implantação de medidas necessárias para tornar a atividade turística
rentável e compatível com os interesses da população. Para ele, os principais entraves para
o desenvolvimento do turismo são: a lentidão do poder público, a falta de qualificação e
capacitação do pessoal, a desarticulação com outros pontos turísticos que ficam no entorno
27
e em áreas fronteiriças de Pipa. Além de todas essas variáveis citadas, há, ainda, há
concorrência com o capital privado que seduz as pessoas, lamenta, ressaltando que:
O processo de turismo já se instalou aqui, não é de hoje. Então, a gente
anda correndo atrás da máquina privada. ‘O poder da grana que move e
destrói coisas belas’ como dizia Caetano [compositor brasileiro]. Ele [o
poder do dinheiro] é um fato, a realidade é que a gente não consegue
acompanhar.
A concorrência com o capital internacional que aporta ao município, principalmente por
parte de empresários portugueses, torna difícil o papel de gestor pois, nem sempre, os
empreendimentos são compatíveis com os interesses locais, o que pode gerar a exclusão de
grande parte da população, cuja escolaridade, insuficiente, não a habilita para realizar
negociações exitosas com os investidores externos. Sob esse prisma, o Secretário analisa o
processo de exclusão:
Se ele[o nativo] fosse um cara preparado dizia: “vamos fazer uma
sociedade. O Sr. está vindo lá da Itália, cozinha bem? Vou ceder a minha
casa e a gente faz a sociedade” e assim você não exclui ele [o estrangeiro]
do processo e ele não exclui você [o nativo] do processo (...) esse seria um
modelo legal de fazer... mas a pessoa não tem aquela consciência.
A ausência da consciência pode ser traduzida pelo despreparo, pela inexperiência e pelo
inusitado propiciado pela chegada do turismo que, paulatinamente, vai se instalando com
suas peculiaridades e demandas específicas. Como já comentado anteriormente, as
pequenas comunidades, notadamente de países pobres, descobertas como “paraísos
turísticos”, de modo geral, são constituídas por uma população de baixa escolaridade, com
escassez total de saneamento básico, insuficiência em atendimento de saúde etc.
O Secretario de Turismo de Tibau do Sul reconhece que a sustentabilidade do turismo
depende da organização e participação comunitárias, mas considera que a desqualificação
profissional é um dos entraves, entre outros, também significativos, para a inserção dos
moradores. Por essa deficiência, os nativos perdem a oportunidade de ocupar postos de
trabalho elevados, gerando certo tipo de exclusão, apesar de existir muitas pessoas
empregadas em função do turismo. Esse lado, positivo, da empregabilidade o entusiasma:
“o turismo, nesse sentido, é fantástico, o que falta é sentar e planejar”.
28
A falta de planejamento é explicada pela insuficiência de subsídios que possam alimentar e
conduzir satisfatoriamente a implementação de projetos, dificultada, principalmente, pela
não conclusão do Plano Diretor para o Município que esbarra em dificuldades operacionais,
ausência de pesquisas e estatísticas sobre as reais necessidades e demandas de Tibau do
Sul. Segundo o Secretário “sem esse diagnóstico eu não tenho como planejar”. E, enquanto
essas condições ideais para o desenvolvimento do turismo não se concretizam, o Secretário
parte para um trabalho miúdo, fragmentado, justificando com a seguinte declaração: “não
adianta querer fazer tudo ao mesmo tempo que a gente não vai conseguir. O poder público
é muito mais lento do que a iniciativa privada, então vamos pontuando ações”
Entre essas ações, destacam-se àquelas destinadas ao resgate e valorização da cultura local,
reconhecida como importante elemento de atratividade do turismo. Um das iniciativas
pontuais diz respeito ao Festival de Gastronomia, organizado com o intuito de recuperar e
inserir elementos regionais na composição dos pratos, uma vez que a culinária internacional
tem forte presença na praia de Pipa, reconfigurando o caráter gastronômico local. Produtos,
com forte relação identitária com nativos, como a macaxeira, a carne de sol e o coco, foram
reintroduzidos no cardápio para tornar a cozinha de Pipa mais brasileira e, assim,
resguardar importantes elementos da cultura local.
Ações pontuais, sem sistematização e continuidade, vêm sendo realizadas através de
convênios com a Prefeitura Municipal, Fundações, Sebrae. São atividades de diversa
ordem, passando por cursos de capacitação profissional a apresentações do zambê, dança
tradicional marcada pelo ritmo do coco, organizado e patrocinado por instituição privada.
Para o Secretário, o momento exige o resgate do pastoril, da lapinha, do drama,
consideradas importantes manifestações culturais da comunidade.
Alguns aspectos diferenciam a situação vivenciada pelo turismo em Marechal Deodoro
com relação às condições dessa atividade em Tibau do Sul. Enquanto nesse município, a
desarticulação é apontada pelo Secretário de Turismo como obstáculo para o seu
desenvolvimento, em Marechal, o trabalho integrado tornou-se uma saída para o
fortalecimento da economia local. Com o objetivo de promover o turismo de forma
conjunta foi criada uma associação, formada por oito municípios fronteiriços, localizados
29
no litoral do Estado de Alagoas. Denominada de “Região das lagoas e mares do sul” essa
área reúne particularidades que podem despertar o interesse dos viajantes conforme relata a
Secretária de Turismo de Marechal Deodoro:
O nosso destino é vender esse roteiro, porque tudo é perto um do
outro, dá para o turista dormir cada dia num lugar. Ele [o turista]
vai ter a oportunidade de conhecer uma cidade pitoresca, pequena,
cada uma com sua cultura.
A concepção de um turismo integrado vai além da esfera municipal, todo o Estado está
empenhado em desenvolver roteiros temáticos em que são explorados acontecimentos
históricos como a questão dos quilombos, a importância de Delmiro Gouveia, idealizador
da Companhia Hidrelétrica do São Francisco, a saga de lampião, o rei do gangaço, e seu
bando, entre outros aspectos importantes para o Estado.
Enquanto a praia de Pipa apresenta grandes saltos econômicos com a presença maciça de
empreendedores internacionais, a praia do Francês dá início ao capital estrangeiro,
conforme ressalta um assessor da Secretária de Turismo:
O auge da praia do Francês está começando agora, entendeu? Está
começando o investimento internacional, principalmente por parte
dos italianos (...) o grande salto mesmo eu acho que [aconteceu] do
ano passado para cá.
A grande “invasão”, já consolidada em Pipa, parece estar em processo na praia do Francês.
Além da chegada dos recursos externos, o empresariado local se volta para investir na
compra de terrenos, pousadas e outros equipamentos com o intuito de construir hotéis de
grande porte nessa parte do litoral sul de Alagoas.
Considerações finais
A atividade turística encontra-se disseminada em quase todo o território brasileiro. Cada
vez mais é considerado um importante setor da economia, capaz de alavancar o
desenvolvimento do país, criar oportunidades de emprego e, conseqüentemente, melhorar
as condições de vida da população. Várias localidades disputam a inclusão em roteiros
turísticos e, assim, alçarem degraus economicamente satisfatórios e rentáveis. Nessa
30
disputas, lugarejos vocacionados ou criados para o turismo enfrentam situações em que se
questionam quais os reais benefícios proporcionados pelo turismo à população dessas
pequenas comunidades, receptoras de viajantes oriundos de vários pontos do país e de
diferentes origens internacionais. Como alguns estudos apontam, nem sempre o lugar
“escolhido” ou “descoberto”, como destino turístico, encontra-se preparado para o
desenvolvimento dessa atividade, que apresenta um elevado grau de exigência como uma
satisfatória infra-estrutura viária e um aporte humano capacitado profissionalmente.
O que pode acontecer quando se estabelece uma defasagem entre as necessidades da nova
atividade econômica e as reais condições da população local? A pesquisa, realizadas nas
praias de Pipa e do Francês, situadas nos Estados do Rio Grande do Norte e de Alagoas,
respectivamente, mostra os variados graus de interferência do turismo em localidades que
apresentam características semelhantes no seu sistema organizacional e relacional. São
lugarejos, originalmente vila de pescadores, isolados de outras localidades pela inexistência
de estradas e de transportes, mas com um atrativo em comum: a bela paisagem natural,
quase intocada, revelando-se para o mundo como o tão sonhado e desejado “paraíso”. O
que se observa é que, num primeiro momento, a chegada do turismo provoca um
“encantamento” nos nativos que vislumbram ganhos financeiros até então improváveis,
pelo estilo de vida pacato que vivenciam, sem alternativas de mudanças.
Na comunidade de Pipa, após os primeiros anos de avanço da atividade turística, a
população percebe as diferenças existentes entre os anfitriões e os visitantes. Seja no
idioma, no estilo de vida, no vestir, no andar, no ter, no ser. A tomada de consciência
dessas diferenças gera inquietação em segmentos da população que passa a desenvolver um
trabalho de retomada do seu próprio destino. Há uma preocupação em fortalecer a
identidade local, que se mescla com os costumes e hábitos dos que vêm de fora. Os
diferentes grupos buscam a revalorização da cultura e a preservação da paisagem natural;
desenvolvem um trabalho, com algumas parcerias, e travam uma luta desigual com o
capital estrangeiro, principalmente de portugueses e espanhóis, que investe maciçamente
na localidade, na construção de condomínios residenciais, restaurantes e hotéis.
31
As interferências do turismo são mais contundentes na praia de Pipa se comparada à
comunidade da praia do Francês. Nesta, o processo de “invasão” parece estar num estágio
anterior ao vivenciado pelos nativos da praia potiguar. Enquanto na praia do Francês a
população não se desfez de suas moradias, mantendo o povoado original, formado por uma
pequena rua, apontando para o mar, em Pipa, a avassaladora chegada do turismo, deslocou
grande parte da população, que vivia próxima à praia, para localidades periféricas da
comunidade. A proliferação de pousadas, restaurantes, lojas, galerias mudou o cenário da
praia e transfigurou a paisagem.
Em ambas as situações, as mudanças trazidas pelo turismo parecem acontecer de forma tão
repentina, tanto para a população como para o poder público. A tardia criação de secretarias
municipais de turismo, quando essa atividade se encontra instalada e com repercussões
negativas na vida da população local, é um sinal dessas dificuldades. Não se pode negar
que a baixa escolaridade e o despreparo profissional colaboram para a exclusão de parte dos
moradores dos benefícios advindos dessa nova atividade econômica, porém práticas bem
sucedidas de planejamento compartilhado, com a comunidade, mostram ser possível o
desenvolvimento de ações compatíveis com as condições objetivas da população.
A eficiência de políticas participativas, em que os diversos atores interagem em busca de
alternativas, fazendo com que projetos e programas, voltados para o turismo, deixem de ser
uma ameaça e tornem-se vetores de benefícios e bem-estar para a população local, vem
sendo discutida em fóruns e consiste em uma das atribuições da Rede de Turismo
Sustentável - REDTURS, que busca compatibilizar a capacidade econômica do turismo
com a dinâmica social e a preservação da cultura e dos recursos naturais.
BIBLIOGRAFIA
CAMURÇA, Sílvia Maria Sampario (Org.). Dimensões da desigualdade no
desenvolvimento do turismo no Nordeste. Recife: SOS CORPO – Gênero e cidadania,
2003.
COSTA, Irene Oliveira da. Turismo no arquipélago de Marajó: construindo
competitividade com sustentabilidade.31/8/2006 www.etur.com.br acesso: 13/9/2006.
32
COOPER, Chris et al. Turismo, princípios e prática. Porto Alegre: Bookman, 2001.
DIAS, Suzana. Turismo no litoral produz impactos.
www.comciencia.br/reportagens/litoral/creditos.shtml
ESMERALDO, Luiz Régis Azevedo. Jangadeiros e Pescadores. Os dilemas do turismo
em Canoa Quebrada, Aracati – CE. Fortaleza, CE: Ed. SENAC Nacional, 2002.
FARIAS, Maria Dolores Mota; NOGUEIRA, Sheila. Turismo e emprego em Flecheiras:
soluções e dilemas de um canto de sereia. Dimensões da desigualdade no
desenvolvimento do turismo no Nordeste. Recife: SOS CORPO – Gênero e cidadania,
2003.
GALVÃO, Hélio.Derradeiras cartas da praia & outras notas sobre Tibau do Sul.
Natal, Editora Clima, 1989.
IANNI, O. A metáfora da viagem. Campinas: Unicamp, 1995 (mimeo).
IBGE, 2000. www.ibge.gov.br/cidadesat/default.php
IBGE. Perfil dos Municípios Brasileiros. Cultura – 2006. IBGE investiga a Cultura nos
municípios brasileiros. Comunicação. 17 de setembro de 2007.
http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=980&i
d_pagina=1
LABATE, B. C. A experiência do “viajante-turista” na contemporaneidade.In: SERRANO,
C.; BRUHNS, H.T.; LUCHIARI, M.T.(orgs.) Olhares contemporâneos sobre o turismo.
Campinas, SP: Papirus, 2000.
LEAL, Rosana Eduardo S. O papel do meio ambiente natural na promoção dos portais
turísticos governamentais nordestinos: velhos e novos paradigmas. Caderno Virtual de
Turismo, março, 2006 www.ivt.coppe.ufrj.br/cadernos/ojs/
MALDONADO,Carlos. Fortaleciendo redes de turismo comunitário. REDTURS en
América Latina. www.redturs.org acesso em 30/07/2007.
MARUTSHKA, M. M. A produção do saber turístico. In: NETO, A. P.; TRIGO, L.G.G.
Reflexões sobre um novo turismo: política, ciência e sociedade. São Paulo: Aleph, 2003.
NASSER, Elisabeth Mafra Cabral. A mesma triste história. Mulheres praieiras vivendo sob
contexto de desenvolvimento turístico no litoral nordestino. In: CAMURÇA, Sílvia Maria
Sampario (Org.). Dimensões da desigualdade no desenvolvimento do turismo no
Nordeste. Recife: SOS CORPO – Gênero e cidadania, 2003.
NETTO, A.P.; TRIGO, L.G.G. Reflexões sobre um novo turismo: política, ciência e
sociedade. São Paulo: Aleph, 2003.
33
OLIVEIRA, Adélia Augusto Souto de. Turismo e Comunidade: a configuração do
sofrimento psicossocial em um povoado de pescadores. Dissertação de Mestrado. São
Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1998.
OLIVEIRA, Anelize Martins de. Ensaios teóricos: o significado da cultura para o turismo
com
base
local.
Caderno
Virtual
de
Turismo.
Vol.6,n.4,2006
www.ivt.coppe.ufrj.br/cadernos/ojs/
OLIVEIRA, Cleide Galiza de; MEDEIROS, Rejane. A desconstrução de uma comunidade
praieira. Turismo,Partrimonio y Desarrollo. Puebla(México), v.2,n.1, p.59-74, diciembre
2005.
QUIVY, R.; CAMPENHOUDT, L. V. Manual de Investigação em Ciências Sociais.
Lisboa: Gradiva, 2003.
SANTOS, Sergina Fernandes Dantas.Os impactos sócios, econômicos, culturais e
ambientais provocados pela atividade turística no município de Tibau do Sul/RN.
Natal, 2002 (Monografia)
SERRANO, C.; BRUHNS, H.T.; LUCHIARI, M.T.(orgs.) Olhares contemporâneos
sobre o turismo. Campinas, SP: Papirus, 2000.
SERRANO, C. Poéticas e políticas das viagens. In: SERRANO, C.; BRUHNS, H.T.;
LUCHIARI, M.T.(orgs.) Olhares contemporâneos sobre o turismo.Campinas, SP:
Papirus, 2000.
SOUSA (1994)
SWARBROOKE, J.; HORNER, S. O comportamento do consumidor no turismo. São
Paulo: Aleph, 2002.
TALAVERA, Agustín Santana. Turismo Cultural, Culturas Turísticas. Porto Alegre,
Horizontes Antropológicos,ano9, n.20, p.31-57,out.2003.
ULATE, Allen Cordero. Nuevos ejes de acumulación y naturaleza: el caso del turismo.
Buenos Aires, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales – CLACSO, 2006.
URRY, John. The tourist gaze. Londres: Sage, 1990.
URRY, John. O olhar do turista. Lazer e viagens nas sociedades contemporâneas. São
Paulo: Nobel/SESC, 2001. 3ª ed. 231p.
34
Baixar

fundação joaquim nabuco diretoria de pesquisas sociais