FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO DIRETORIA DE PESQUISAS SOCIAIS COORDENAÇÃO GERAL DE ESTUDOS ECONÔMICOS E POPULACIONAIS TRAÇOS DO TURISMO NO NORDESTE BRASILEIRO RELATÓRIO DE PESQUISA Ana Lúcia Hazin Cleide De Fátima Galiza de Oliveira Rejane Pinto de Medeiros Recife, outubro/ 2007 Introdução A prática turística não é um fato recente na história da humanidade. Escreve Ianni (1995, apud SERRANO, p.37) que a história dos povos está atravessada pela viagem, como realidade ou metáfora. Todas as formas de sociedade, compreendendo tribos e clãs, nações a nacionalidade, colônias e impérios, trabalham e retrabalham a viagem, seja como modo de descobrir o “outro”, seja como modo de descobrir o “eu”[...] . Sempre há viajantes[...] buscando o desconhecido, desvendando o exótico [...] mesmo os que permanecem, que jamais saem do seu lugar, viajam imaginariamente, ouvindo estórias, vendo coisas, gentes e signos do outro mundo. De modo geral, os estudiosos do turismo situam suas origens históricas na Grécia Antiga, cuja prática relacionava-se a questões religiosas. Sob o Império Romano introduziu-se a idéia do turismo como prazer, desviando-se assim da função utilitarista ligada à religião, à saúde ou aos negócios. No final da Idade Média constata-se um crescimento do chamado “turismo educacional”, realizado por pessoas que “viajavam para ver grandes pinturas e edificações, encontrar artistas famosos e aprender mais sobre línguas e culturas” (SWARBROOKE; HORNER, 2002, p.39). Tal prática continuou, ainda, de forma bastante elitizada na Europa dos séculos XVII e XVIII, quando o turismo só podia ser feito pela aristocracia que representava a “classe social que possuía riqueza e não estava submetida aos imperativos do trabalho como os demais estratos sociais” (SOUSA, 1994, p.29). Viajar, portanto motivado pelo lazer, era símbolo de status. As revoluções, tanto a industrial quanto a francesa, produziram mudanças importantes na sociedade da época e se refletiram, também, na atividade turística, que sofreu grande impulso, em conseqüência, sobretudo, da invenção e desenvolvimento do transporte ferroviário. A partir daí, os deslocamentos puderam ser feitos em grupos e por preços mais baixos, permitindo que o acesso à atividade turística fosse ampliado para um maior número de 2 pessoas. De acordo com Urry (1990, apud LABATE, 2001 p.63), os motivos que contribuíram para o incremento do turismo de massas na Inglaterra do século XIX, foram: o crescimento de um padrão de trabalho mais organizado e rotinizado, que promove o desenvolvimento de uma racionalização equivalente do lazer; o crescimento substantivo da renda de boa parte da população industrial; o alargamento da idéia, por parte do estado e dos empregadores, de que é bom civilizar a “dura” classe trabalhadora por meio da recreação organizada. A atividade turística veio a se transformar em um fenômeno de massas somente após a Segunda Guerra Mundial. Para Swarbrooke e Horner (2002), o rápido crescimento desse tipo de turismo tem sido explicado pela ocorrência de diversos fatores inter-relacionados e que, conjugados entre si, produziram o turismo de massa, em um primeiro momento, na Europa. Como conseqüência do processo de globalização essa prática, rapidamente, estendeu-se a outras partes do mundo. Dentre os diversos fatores intervenientes no processo de desenvolvimento do turismo de massas pode-se citar: “maior disponibilidade de renda; progressos na tecnologia de aeronaves; automóveis mais acessíveis; aumentos adicionais nas horas de lazer; motivos educacionais; ascensão das operadoras de viagens e de pacotes de excursão” (idem, p.42). Constata-se, portanto, que o turismo de massas, enquanto atividade, é um “fato novo” que merece ser estudado e discutido. Porém, como abordar esse tema se “a própria área temática sofre de fraqueza e indefinição conceituais” ? (COOPER et al 2001, p.37). Utiliza-se aqui, como referencial, o modelo de Leiper de um sistema turístico básico, composto essencialmente por 3 elementos: 1- Os turistas, atores principais do sistema; 2- Os elementos geográficos, compostos; a) pela região geradora de viajantes, importante por estimular e motivar as viagens; 3 b) pela região de destinação de turistas: nesta pesquisa, em específico, esse é o elemento principal, uma vez que é na destinação que se percebe todo o impacto do turismo e onde, de acordo com Leiper (1990, apud COOPER, 2001, p. 39) “ocorrem as conseqüências mais visíveis e drásticas do sistema”; c) e pela região de rotas de trânsito, que muitas vezes é incluída como lugar de visitação pela atratividade que oferece. 3- A indústria turística, constituída pelas empresas e organizações encarregadas da oferta do produto turístico. Segundo Marutshka (2003), o produto turístico é um fenômeno recheado de objetividade/subjetividade, consumido por milhões de pessoas, sendo gerado pelo somatório da dinâmica sociocultural resultante de uma complexa combinação de interrelacionamento entre produção e serviços no turismo. O que faz de um lugar ou região uma destinação turística? Como determinantes externos, pode-se dizer que são os atrativos que o lugar oferece, sejam eles de caráter natural, artificial ou sob a forma de eventos. Além das atrações, o destino turístico deve oferecer toda a infra-estrutura necessária para que o turista se sinta bem. De acordo com Cooper et al. (2001), a infra-estrutura aparece, principalmente, na forma de transporte (estradas, ferrovias, aeroportos, estacionamentos), serviços de utilidade pública (eletricidade, água e comunicações) e outros serviços (saúde e segurança) sendo, em geral, utilizado por residentes e visitantes. Já a superestrutura é constituída pelos meios de hospedagem, comércio varejista e outros serviços, sendo uma atividade do setor privado. Mudando o foco para o indivíduo, pode-se afirmar, com Mayo (1973, apud COOPER et al., 2001), que um dos motivos principais da escolha do lugar para onde viajar é a imagem que 4 se faz dele. Nesse sentido, o papel dos meios de comunicação, assim como dos agentes de viagens, é de fundamental importância para despertar o interesse pelo lugar. Entretanto, alguns pólos turísticos começaram a ser divulgados através da chegada dos surfistas e outros viajantes, citados como os “descobridores” do local, como ocorreu em algumas praias brasileiras (ESMERALDO, 2002; OLIVEIRA; MEDEIROS, 2005; OLIVEIRA, 1998; CAMURÇA, 2003). A conseqüência desse processo foi, muitas vezes, uma ocupação desordenada dos espaços por aqueles que viram nesse afluxo de pessoas, uma possibilidade de fazer negócios, de melhorar sua renda, ou simplesmente tirar dali o seu sustento. Como qualquer outra atividade produtiva, o turismo requer um planejamento estratégico. Se mal planejado, ou implementado, o turismo “é fator de poluição, concentração de renda, aumento da prostituição, incremento da exploração sexual infantil e comprometimento de investimentos em projetos mal elaborados” (NETTO; TRIGO, 2003). Para os autores, a responsabilidade por essas questões não é exclusiva dos governos, mas também dos empresários, embora, em regra geral, no Brasil, as políticas nacionais sejam exercidas a partir “do topo”, das “elites”, com exceção do Programa Nacional de Municipalização do Turismo - PNMT. A falta de estudos dos impactos, que podem resultar da implementação de grandes empreendimentos turísticos, sejam eles relativos à hotelaria ou entretenimento, tem trazido danos às pessoas do local. “Nesse processo, alguns poucos se locupletam, os moradores originais são expulsos. O lucro se faz em cima da usurpação de um bem público e, muitas vezes, com a destruição das comunidades” (Ibidem, p.102). 5 O canto da sereia Analisar o que ocorre nas praias nordestinas, acossadas pelo capital internacional que investe no setor turístico, exige uma reflexão sobre os efeitos, as mudanças e os sofrimentos vividos pela população local, a partir da descoberta do município como um ponto propício à especulação imobiliária, comercial e turística. Não adianta discutir, apenas, as questões relativas ao desenvolvimento social e econômico do povoado descoberto pelos surfistas e, gradativamente, apropriado pelo empresariado que constrói hotéis, condomínios e transforma residências em pousadas ou lojas. O saldo poderá ser positivo se a avaliação for puramente quantitativa: daí podendo resultar em uma área maior contando com saneamento, água encanada e eletrificação. As ruas calçadas e as estradas pavimentadas dão acesso fácil aos turistas e, por conseguinte, aos moradores, enquanto os empreendimentos turísticos (hospedagem, compras e diversão) oferecem postos de trabalho, com baixa remuneração, aos nativos. Mas, e a qualidade de vida das pessoas que habitavam esses “pedaços de paraíso”, como fica? Qual o futuro que as aguarda se não estão preparadas - técnica e emocionalmente para enfrentar o choque com outros povos, outros costumes, outras culturas? Esse é um lado da interferência do turismo, entretanto, há de se reconhecer que a chegada dessa atividade econômica em pequenas comunidades - cujas relações sociais são estreitas e fundamentadas, em alguns casos, pela linha de parentesco, criando um ambiente familiar em que todos se conhecem - possibilita a ampliação do conhecimento proporcionado pelos que vêm de fora. O visitante traz, consigo, uma bagagem cultural que contrasta com a do anfitrião, revelando as diferenças existentes entre “os do lugar” e os turistas. O momento inicial desse contato é marcado por uma convivência pacífica e prazerosa entre os nativos e os primeiros grupos de visitantes – em geral, jovens surfistas ou conhecidos de veranistas. A natureza exuberante do litoral brasileiro, a recepção calorosa por parte dos moradores cativa e atrai outros viajantes. O contraste entre o ritmo de vida nessas localidades e o ritmo vivenciado pelos turistas, nas grandes metrópoles, é um ponto que sempre surge nos depoimentos sobre as razões que motivam um retorno a essas praias. 6 No início do século 20, começam a chegar os veranistas. Foi um tempo de grandes expectativas e mudanças para os praieiros. As famílias de mais alta renda, fugindo do calor das cidades e das fazendas, introduziram o hábito de veranear. Mas não tinham acomodações e alugavam as casas dos pescadores, que, por sua vez, construíam às pressas barracos de taipa e palha para acomodar a família. Era, para os nativos, um período de vacas gordas. (...) Na década de 70, as praias começam a receber uma nova leva de freqüentadores – são os turistas que chegam. Estavam à procura do exótico, selvagem, diferente. Praias habitadas apenas pelos “nativos” significavam pouca interferência na natureza (NASSER, 2003. p.54). A etapa seguinte, quando começam a surgir as primeiras pousadas projetadas, hotéis e lojas, iniciando um novo desenho urbano, é a fase em que os antigos moradores descobrem oportunidades de trabalho, antes inexistentes, e as propostas de venda dos imóveis vão deslocando essa gente para a periferia das suas cidades. O novo ritmo do cotidiano os inebria e confunde: sentem o seu poder aquisitivo crescer e, de início, não percebem que também aumenta o valor dos imóveis e dos gêneros alimentícios, tornando a vida mais cara. Nota-se uma superestimação do turismo como efeito da perspectiva oficial de atribuir à atividade turística um poder dinamizador da economia do estado. A construção discursiva do turismo pelo Estado é como um canto de sereia, que mais encanta do que aponta possibilidades de soluções para os problemas locais. Essa expectativa superestimada alimenta uma atitude de esperar do turismo a solução dos problemas locais e pessoais (FARIAS ; NOGUEIRA, 2003. p.21). Quando o turismo avança, estabelece-se uma maior interferência, provocando, em segmentos da população local, uma inquietação no sentido de trabalhar no resgate de manifestações culturais adormecidas, seguindo uma tendência de valorização do patrimônio cultural das comunidades receptoras, impulsionada pela presença do turismo o qual, segundo uma das diretrizes apresentadas para a elaboração do código de conduta1, deve ser considerado “um instrumento para preservar as culturas locais e revitalizar os valores e as pressões da identidade étnica e comunitária (MALDONADO, p.7). 1 Foram delineadas diretrizes para a elaboração do “Código de conduta do turismo rural comunitário na América Latina” provenientes de Encontros Consultivo Regional de REDTURS – Rede de Turismo Sustentável, criada pela OIT – Organização Internacional do Trabalho, realizados no Panamá, em 2005 e na Bolívia, em 2007(MALDONADO,p.7) 7 A chegada da “indústria sem chaminé” vai alterando a vida litorânea, mudando costumes cotidianos e interferindo nos valores, comportamentos e hábitos que caracterizavam as praias escolhidas como destino pelos viajantes, surfistas e turistas. O estudo desse processo no Nordeste brasileiro motivou essa pesquisa, realizada em duas etapas. A primeira, tendo como foco Porto de Galinhas (Pernambuco), já concluída e publicada, e a segunda, aqui apresentada, refere-se às praias de Pipa (Rio grande do Norte) e do Francês (Alagoas). A pesquisa, desenvolvida nesses pólos turísticos, teve como objetivo geral analisar os programas governamentais direcionados ao desenvolvimento do turismo nos dois pólos selecionados. Como objetivos específicos o estudo deteve-se em identificar, através dos depoimentos locais, o grau de impacto da atividade turística no pólo receptor; observar, através dos depoimentos das lideranças locais, o nível de envolvimento da população receptora no planejamento e na execução dos projetos turísticos para o município; as manifestações culturais próprias da região enfocada e suas transformações. Para atender a esses objetivos, que contemplam principalmente a análise dos níveis de interferência do turismo no cotidiano da população local, utilizou-se o método da entrevista e da observação no período de 2005/2006. Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com antigos moradores, lideranças locais, representantes de associação de moradores e de categorias de trabalhadores ligados a atividades tradicionais e àquelas surgidas com as novas demandas impulsionadas pelo turismo. Técnicos, dirigentes. de cargos públicos ligados à temática, pessoas que, direta ou indiretamente, atuam em atividades relacionadas ao turismo nos municípios de Tibau do Sul -RN e Marechal Deodoro – AL, especificamente nos pólos da praia de Pipa e da Praia do Francês respectivamente, também foram contatados A escolha da entrevista, como método de coleta de informações, caracterizou-se pela capacidade de estabelecer um contato mais direto com o pesquisado, dando oportunidade 8 para que as expressões e sentimentos sejam externados. Para Quivy e Campenhoudt (1995, p.192), com a entrevista instaura-se uma verdadeira troca, durante o qual o interlocutor do investigador exprime as suas percepções de um acontecimento ou de uma situação, as suas interpretações ou as suas experiências, ao passo que, através das suas perguntas abertas e das suas reações, o investigador facilita essa expressão, evita que ela se afaste de seus objetivos da investigação e permite que o interlocutor aceda a um grau máximo de autenticidade e de profundidade A escolha de alguns segmentos não foi pré-estabelecida. A abordagem com moradores ocorreu através da indicação de pessoas, formando uma rede de contatos que possibilitou colher informações que subsidiassem e atendessem aos objetivos da pesquisa. Variáveis como tempo de moradia, atuação em setores emergentes, participação em associações, envolvimento com programas locais fizeram parte do perfil das pessoas selecionadas para as entrevistas. Mudanças na vida litorânea Semelhante a muitos outros municípios litorâneos do Nordeste, as praias aqui estudadas Pipa e a do Francês - viviam física e socialmente distanciada de outros lugares, antes da chegada dos primeiros veranistas e da construção das vias de acesso, como revelam Hélio Galvão (1989) e Adélia Oliveira (1998). A dificuldade de locomoção e de comunicação limitava a interação dos seus moradores com habitantes de localidades mais distantes e até com áreas circunvizinhas. Segundo Galvão (1989), a abertura da estrada, ligando dois importantes povoados, quebrou o isolamento de Pipa, gerando novo impulso para o município de Tibau do Sul, onde a praia está inserida. Casas comerciais surgiram, eram as mercearias em que se vendia de tudo “do cimento e da cal à pimenta do reino e carne do Ceará” (Ibdem, p.53) ao lado do desenvolvimento da pesca da lagosta. Décadas depois, a praia passou a ser visitada por veranistas oriundos do próprio Estado e de regiões fronteiriças. Posteriormente foi descoberta por turistas, apreciadores da natureza, 9 em busca de paisagens intocadas pelo homem, lugar ideal para a prática do “surf”, meditação, caminhada, descanso, acampamento, constituindo-se quase uma fuga de um mundo conturbado, industrializado e urbanizado. São os apreciadores de lugares remotos e praticantes do “turismo ambiental”, segundo classificação de Talavera (2003), que realizam viagens para áreas naturais relativamente pouco alteradas ou contaminadas com o objetivo específico de estudar, admirar e desfrutar a paisagem, a flora, a fauna, da mesma forma que as manifestações culturais (passadas e presentes), características dessas áreas” (WILLIAMS, Apud TALAVERA, 2003, p.36) O pequeno conjunto de residências – de pescadores ou de veranistas, o mar, o céu azul e sol compõem um cenário ideal para os primeiros turistas vindos de fora do país, como suíços, italianos, argentinos. Inicialmente visitantes temporários, para em seguida fixarem residência no lugar aprazível - o paraíso procurado e encontrado. Essa mudança de condição implicaria no estabelecimento de novas formas de relação com a população local. Na concepção de uma antiga moradora, a especulação que se iniciou provocou uma série de situações equivocadas em que os moradores vendiam um ‘pedação’ de terra por tostões, porque eles nunca tinham visto um dólar, então isso pra eles é muito e aí você vê a ingenuidade deles, eles pegavam esse dinheiro e compravam carro, porque já se sentiam ricos, só viviam andando, gastando gasolina e dinheiro , porque naquela época era muito pra eles. No caso da praia do Francês a especulação atingiu os barraqueiros que começaram a vender os seus pontos comerciais, de pequenas dimensões, localizadas na beira da praia. Posteriormente, esses estabelecimentos tornaram-se grandes restaurantes, impeditivos à visão do mar, formando um paredão de alvenaria. Além de fugir dos padrões aceitáveis e harmoniosos com a paisagem natural, das trinta e quatro atuais barracas, apenas três pertencem a nativos. Na praia de Pipa o processo de venda dos terrenos e das casas dos pescadores e/ou agricultores contribuía para alimentar a ilusão de que o turismo lhes traria riqueza. O “enriquecimento” momentâneo, também provocava o deslocamento de moradores, que antes residiam em áreas privilegiadas, próximas à praia e a um incipiente centro urbano, para áreas mais distantes, desprovidas de serviços básicos de infra-estrutura, e mais, com o 10 passar do tempo, tornavam-se rapidamente descapitalizados, estabelecendo-se novas relações de trabalho. Nesse aspecto, uma nativa ressalta que muitos vendem [as suas casas] por milhões, aí vão morar lá dentro do mato, aí fica vivendo desse dinheiro um ano... aí quando acaba vem o aperreio, aí vão trabalhar para o cara que vendeu o terreno a eles, aí trabalha pra eles de empregado. Ainda sobre o tema, o Secretário de Turismo de Tibau do Sul dá o seguinte depoimento: o cara tem uma casinha ali na vila de pescador que para ele não tinha um valor venal, um valor de dinheiro e sim um valor cultural, emocional, familiar de onde ele está ali com um certo conforto, vivendo do trabalho dele, pescando o peixinho dele, trocando um peixe por uma mandioca, com um coco. Enfim, de repente, chega um cidadão que não sabe quem é, com um monte de dinheiro e balança na frente dele e ele fica louco, seduzido, achando que ali ele vai ficar rico. E ali ele vai poder dar condição melhor ao filho, a mulher, talvez comprar outra casa. E o momento que a gente vem passando agora, eu calculo, empiricamente, que já faz uns 3 ou 4 anos que esse dinheiro acabou, então eles ficaram pobres de novo, os filhos não aprenderam um trabalho ou estão drogados ou alcoólicos, então você correr atrás desse prejuízo é muito sério e muito trabalhoso. Santos (2002, p.24)) em seu estudo sobre o município de Tibau do Sul, traça um perfil atual de destino turístico de maior projeção no Estado do Rio Grande do Norte e destaca os elementos que compõem os principais diferenciais dessa localidade: arquitetura rústica e arrojada; gastronomia eclética, sofisticada e regional ao mesmo tempo; imigração de estrangeiros e de diversos brasileiros(...) além dos milhares de visitantes que anualmente visitam o município de Tibau do Sul, em especial a Praia de Pipa onde buscam, primordialmente, o contato com a natureza, a tranqüilidade e a fuga dos grandes conglomerados urbanos. A cada visitante satisfeito com o que viu e viveu em um determinado lugar, ainda não descoberto pelo turismo de massas, os atrativos do local vão sendo propagados e reforçados através do “boca-a-boca”, ou seja, os depoimentos entusiásticos feitos para amigos e conhecidos. Como bem coloca Urry (2001), “o olhar coletivo do turista” é que determina, ou não, o ponto de visitação como um futuro pólo turístico. Gradativamente, interesses comerciais, governamentais e privados vão ampliando a rede de divulgação das praias, 11 utilizando, então, meios publicitários que realizam campanhas para enaltecer, criar e vender os “paraísos” e “portos seguros” ao redor do planeta. A chegada do turismo nessas pequenas comunidades estudadas, em sua maioria povoada por pescadores, dotadas de praias de beleza natural e exótica, com a presença de uma população acolhedora, parecem percorrer um caminho anunciado, haja vista estudos realizados por Oliveira; Medeiros (2005), Dias, Esmeraldo (2002) e Oliveira (1998) em Porto de Galinhas(PE), Porto Seguro(BA), Canoa Quebrada (CE), Praia do Francês(AL) respectivamente. São lugares que sofreram rápidas e profundas mudanças, tal qual Pipa, processo esse relatado por uma antiga moradora, cujas raízes com o lugar advêm da infância, através de estreitas relações de parentesco com os primeiros proprietários e veranistas da praia. Sobre o crescimento vertiginoso ela ressalta: Há uns 15 anos atrás... ele[o turismo] vem crescendo que você nem imagina, uns dez anos mais ou menos, assim acelerado, sabe dum, dum, dum! Nós temos condomínios de 36, 52 casas. São mansões aí dentro.Para você ter uma idéia eu chegava aqui [em Pipa] e dizia: ‘mainha, vamos ver qual foi a pousada este ano que apareceu’, então todo ano a gente ia visitar.Chegou um certo período que não dava, de um ano para o outro era 10, 15[pousadas], sabe, era coisa assim da noite pro dia. Segundo o Secretário de Turismo de Tibau do Sul, o processo de chegada do turismo no município vem ocorrendo, aproximadamente, há duas décadas, porém, a rápida ascensão é recente. Quase tudo aconteceu nos últimos cinco anos. Os indicadores mais expressivos desse crescimento referem-se ao número de estabelecimentos de alimentação e ao saneamento básico. Existia cerca de 25 restaurantes, nos primeiros momentos da descoberta da praia, hoje, essa marca já alcança 100 unidades alimentícias para uma população fixa, em todo o município, de dez mil habitantes, concentrando-se no distrito de Pipa, três mil residentes. A população flutuante, no auge dos eventos de reveillon, segundo o Secretário, chega a 15 mil visitantes. Outro indicador do crescimento é o investimento na rede de águas e esgotos. Em 1998 foi elaborado o Projeto de Saneamento de Pipa, o qual atenderia a quase totalidade do distrito, 12 porém, após a implantação e conclusão dos serviços, apenas 48% da área foi contemplada, numa demonstração da defasagem entre planejamento e rápido ascensão da praia de Pipa. A estrutura montada para impulsionar o turismo, em especial, nas pequenas comunidades, provoca alterações significativas nos aspectos sociais, culturais, psicológicos e econômicos na vida da população, mudando comportamentos cotidianos e o meio-ambiente. São transformações de mão dupla, ou seja, por um lado trazem benefícios e, por outro, provocam novos arranjos sociais nocivos à população.Nesse sentido, Urry (2001,p.44) argumenta que muitos investimentos que resultaram do turismo (aeroportos, campos de golfe, hotéis de luxo etc) beneficiarão muito pouco a massa da população nativa. Do mesmo modo, muita riqueza nativa que é gerada será distribuída de maneira extremamente desigual e, assim, a maior parte dos países em desenvolvimento obterá poucos benefícios (...) boa parte da mão-de-obra é relativamente mal preparada e poderá muito bem reproduzir o caráter servil do antigo regime colonial. O convívio com pessoas de diferentes partes do mundo, falando idiomas diversificados, trazendo valores e costumes os mais variados, vai introduzindo no cotidiano praiano novas formas de viver, antes desconhecidos da população local. A presença de hábitos culturais diversificados, em contraste com os locais, fazem parte da nova ordem que se estabelece com a chegada dos “diferentes”. Sob o ponto de vista econômico, o turismo proporciona uma diversidade de ocupações gerando um leque de opções, nem sempre absorvido por todos. Antes o mercado de trabalho se restringia, basicamente, às atividades comerciais em pequenos estabelecimentos e às ocupações tradicionais pesqueiras e agrícolas. A presença do turista, por sua própria condição de estranho ao lugar, contribui, também, para criar, inicialmente, relações de desconfiança, típico do confronto de dois mundos: o dos que chegam e o dos que recebem. O desconforto aumenta quando se deparam situações econômicas diferentes: enquanto os visitantes se originam de regiões desenvolvidas e possuem um nível de renda alto, a população local vive desprovida de infra-estrutura básica, com pouca escolaridade e precárias condições de saúde e renda. Para Soares(2005:102), a relação nativo/turista não é monolítica. Pelo contrário, o turista é a origem do conflito e da oportunidade. Com ele chega o barulho, as 13 drogas, a prostituição, assim como as possibilidades de geração(sazonal) de renda com pequenos empreendimentos informais e postos de trabalho. Os benefícios e prejuízos acarretados pelo turismo se mesclam em suas falas, revelando a percepção dessa dualidade pelos anfitriões. Reconhecem a importância da atividade sob o ponto de vista da economia do lugar, mas, também, ressaltam as modificações na dinâmica e na organização da sociedade. Em um mês chega aqui [em Pipa] coisas novas; se traz muita mão-deobra de fora, principalmente na construção civil, que você não sabe quem é quem, inclusive estamos numa batalha com a prefeitura para ver se faz cadastro dessas pessoas. Os mais velhos estão excluídos, os mais novos não, porque eles entram na balada. Hoje você pega um nativo ele conversa sobre a Europa, porque a Europa pra eles é local, os nativos vão e voltam e não vão a todo canto [têm contato com pessoas de diferentes países, “viajam” sem sair do lugar]. O turismo serve sim de alavanca para beneficiar direta ou indiretamente quase todo mundo. Agora é também um instrumento de devastação.As pessoas vêm se aproveitando, o dinheiro flui para a prefeitura, o imposto, o IPTU. Cada vez mais dinheiro, cada vez mais habitantes, quanto mais habitantes, mais dinheiro. Certamente o município cresce, tem mais policiamento, posto de saúde é ampliado, as ruas são pavimentadas e por aí vai (...) entre os habitantes têm os que conseguem pegar a onda, aproveitar, fazer pequenas pousadas, imóveis. Sempre tem os bem sucedidos. Tem aqueles que não conseguem se adaptar, ficam cada vez mais afastados do centro, Às vezes vendem suas casas, por preços modestos e são obrigados a construir novas casas de taipa cada vez mais longe. Transformações no âmbito do trabalho Com a chegada de investimentos dirigidos ao lazer e ao bem-estar do turista, o mundo do trabalho é alterado e diferentes ocupações surgem sintonizadas com as novas atividades. A tradicional pesca artesanal sofre mutações e é substituída, paulatinamente, por formas mais sofisticadas de trabalho. Grande parte dos antigos trabalhadores pesqueiros não consegue acompanhar as inovações tecnológicas e, por não estarem preparados para o exercício de novas profissões, correm o risco de ficarem excluídos da massa de oferta que a atividade turística proporciona. 14 Em alguns setores, a criatividade e a capacidade de resiliência de alguns trabalhadores iniciam transformações que possibilitam a sobrevivência das suas famílias frente à nova realidade: os antigos pescadores começam a utilizar os seus barcos para conduzir turistas a passeios pela costa. Trata-se de uma forma de inserção em um mercado constituído por atividades diversificadas e especializadas, estas, quase sempre, absorvidas pelo pessoal que vem de fora. As oportunidades de trabalho que lhe são ofertadas trazem como marca a baixa remuneração. Os nativos não são contemplados pela falta de escolaridade e da pouca qualificação. O despreparo da população dos dois municípios estudados – Tibau do Sul e Marechal Deodoro – pode ser melhor observada nas tabelas 1 e 2. Segundo o IBGE, em ambos é alto o percentual (80,7) de pessoas sem o ensino fundamental concluído, representando menos de 8 anos de estudo. Tabela 1. Anos de estudo da população de 10 anos idade ou mais no município de Tibau do Sul - Rio Grande do Norte Anos de estudo % Sem instrução e menos de 20,6 1 ano de estudo 1 a 3 anos 27,8 4 a 7 anos 32,3 8 a10 anos 10,2 11 14 anos 8,3 15 anos ou mais 0,8 TOTAL 100,0 Fonte:IBGE – 2000 Tabela 2. Anos de estudo da população de 10 anos idade ou mais no município de Marechal Deodoro - Alagoas Anos de estudo % Sem instrução e menos de 23,4 1 ano de estudo 1 a 3 anos 29,9 4 a 7 anos 27,4 8 a10 anos 9,4 11 14 anos 8,8 15 anos ou mais 1,1 TOTAL 100,0 Fonte:IBGE – 2000 15 A constatação de que parte da população, ao abandonar a pesca, é redirecionada para ocupar postos de trabalho com menos rendimentos, reflete-se na expectativa de estudantes com relação a futuras profissões, como destaca uma educadora e moradora do município. Segunda ela, os alunos comentam que “quando crescer vão trabalhar de jardineiro, vigia e garçom”. São atividades agora exercidas pelos pais, oriundos da pesca, e que se engajaram nesse grupo de ocupações. A reprodução desse padrão é questionada pela professora que desenvolve junto aos alunos, um trabalho de reflexão, incentivando-os a buscar melhores níveis de escolaridade para concorrerem, no mercado de trabalho, às profissões que oferecem remunerações mais elevadas. O exemplo acima remete à questão mais ampla da educação e do despreparo da população para as atividades turísticas nas quais há a exigência de um nível de instrução mais elevado. A falta de capacidade para ocupar os cargos com melhor remuneração exige uma reflexão da própria situação do país com respeito ao acesso à escola e à qualidade de ensino que daí resulta. No caso específico de uma população que se defronta com novas e rápidas demandas e com tempo insuficiente - o período de formação, com um bom preparo profissional se reveste de um processo a médio e longo prazo - para atender às solicitações do mercado, reforçando, assim, um sentimento e a real constatação da exclusão. Para o Secretário de Turismo do município de Tibau do Sul, deveria haver um trabalho nas escolas para “educar para o turismo” pois, segundo ele, a não inserção da população esbarra na educação de base. Precisava ter, nesses colégios daqui , introdução ao turismo já quando criança. A gente tem que se entender, todo mundo que está aqui trabalhando, João, Paulo, Gabriel, Marivaldo, você, eu, que estamos inseridos nesse processo. Nós somos anfitriões com excelência [eficiência] o tempo todo. Quem chegar tem que dar um bom dia, todo mundo tem que ter essa postura, para isso tem que fazer todo mundo entender o que é turismo. Mar azul, areia branca e pernas para o ar Em geral, as praias nordestinas são procuradas devido as suas águas mornas e emolduradas pelo branco das suas areias, acompanhando o recorte do litoral. Tanto no Rio Grande do 16 Norte como em Alagoas a beleza proporcionada pela paisagem natural existente se constitui em um ponto de atração para quem busca o lazer e o descanso. A costa de Pipa é “delimitada por 16 Km de falésias vegetadas ou não e por dunas com remanescentes de Mata Atlântica” (SANTOS, 2002,p.36). Os “descobridores” desse recanto do litoral brasileiro se sentiam atraídos pela diversidade ali encontrada e, acima de tudo, pela preservação do ambiente oferecido pela natureza. A praia do Francês, antes denominada Porto dos Franceses, conta com uma proteção de arrecifes que contribui para a formação de piscinas naturais com águas translúcidas. Acompanhando um lado da praia é possível observar a existência de dunas - “que eram a alegria das crianças pois nelas faziam ‘surf de areia’ em um pedaço de madeira de barcos velhos” – coqueiral e mangue, como destaca Oliveira (1998: 32), ao estudar os efeitos do turismo sobre a população de Marechal Deodoro . Os estudos sobre a chegada do turismo, no Nordeste, mostram como tem sido estimulada a idéia de que turismo significa emprego, renda e melhoria de condições de vida para a população do município onde se situa a praia divulgada nas campanhas. Sobre essa questão, Nasser (2003, p.54) revela haver uma distância entre o discurso e a prática, com relação à realidade da vida dos nordestinos que habitam esses locais. Na década de 70, as praias começam a receber uma nova leva de freqüentadores – são os turistas que chegam. Estavam à procura do exótico, selvagem, diferente. Praias habitadas apenas pelos ‘nativos’ significavam pouca interferência na natureza. Os órgãos governamentais começam a propagar as maravilhas do turismo, passando a imagem de que ‘a indústria do turismo é que vai gerar emprego’. Entretanto, a maior parte do que foi feito nessa época, de apoio ao turismo e à geração de emprego, teve mais o sabor da improvisação do que o resultado do trabalho planejado. A falta de planejamento atinge também o meio-ambiente. O conflito existente entre a necessidade já demandada pelo crescente turismo e a questão da preservação, é real. As estradas surgem atropelando tudo o que é natural na região, provocando certa indignação nos defensores de um planejamento coordenado e participativo, ao serem surpreendidos por novos e constantes empreendimentos: 17 A estrada que liga Tibau do Sul [sede do município] à Sibaúma [remanescente de quilombos] foi uma grande surpresa, ficamos sabendo dessa novidade casualmente por alguém da Secretaria de Turismo .... caiu como uma bomba. Estrada atravessando matas virgens ... e para que precisam de outra estrada ? Por que não usar a estrada que vai para Pipa ? A economia de tempo é mínima para justificar uma estrada nova. Essa estrada nova vai ser como um recheio de sanduíche, aquela mata vai ficar cercada por ambos os lados. Hoje em dia se sobe em Cacimbinhas , é cheia de dunas. Naquela área vai passar uma estrada por trás das dunas. Hoje você sobe nas dunas e é o maior silêncio. Você enxerga de longe a lagoa de Guaraíbas, o sol espelhado na lagoa, uma vista muito bonita, muito tranqüila. Só se ver oceano e árvores. Agora só vai escutar carros vum! vum! vum! De um lado e de outro também. A dubiedade de perspectiva que tem a população local sobre o turismo - ora visto como um grande negócio para a região, ora aparecendo como uma intromissão depredadora – revela a complexidade da situação vivenciada pelos moradores das praias que, sem preparo e sem planejamento, transformam-se em pólo receptor de turistas. Para os praianos são ofertados os empregos com baixa remuneração, para os de fora, com maiores níveis de escolaridade e especialização, ficam destinadas as vagas do mercado de trabalho com melhores salários. Assim, aos poucos, começam a observar a disparidade que existe entre os que são do município e os que começam a chegar, junto com o turismo: diferenças quanto à renda, quanto à escolaridade, quanto aos costumes e quanto às oportunidades de emprego e de projetos de vida. Ansiosos em aproveitarem as oportunidades de negócio que surgem, desinformados e já explorados em situações anteriores, os moradores dessas praias não resistem à “tentação” do lucro imediato e vendem o seu terreno por “qualquer dinheiro”, mesmo que este seja proveniente da Mata Atlântica, parte integrante dos bens naturais apontados por 78,65% dos turistas que visitam a praia de Pipa, como motivo maior de sua permanência na localidade (SANTOS, 2002, p.55). Assim, a transfiguração da paisagem se intensifica com a chegada dos projetos de hotéis e de condomínios. Conforme relato de um militante ecológico de Pipa todos procuram tirar proveito da situação: Pipa tem a mata que é um bem comum mas, hoje em dia, está muito ameaçada, a começar pela especulação imobiliária. Os próprios nativos estão indo lá, cortar um pedaço. Especialmente os nativos que anteriormente não foram beneficiados com vendas, agora estão se aproveitando para, com o uso capião, vender posteriormente ou mesmo 18 construir suas casas lá dentro.(...) Infelizmente esse sistema é tão poderoso, tão forte. A globalização veio para apoiar esse modelo desenvolvimentista. Infelizmente não se pode criticar abertamente. Todo mundo é empurrado para essas coisas, se não for a pessoa é um parente que está comprometido,[ou já] fez uma coisa semelhante, tirou um pedaço de floresta, vendeu para construir um prédio alto, em vez de preservar a casa histórica. Mesmo os mais esclarecidos fazem isso, pode imaginar o povo mais humilde resistir às tentações... Mas nem tudo é efetuado de forma indiscriminada e sem respeito ao meio-ambiente e à história local. Alguns segmentos, responsáveis pelo incremento da atividade turística, procuram desenvolver práticas compatíveis com a conservação do patrimônio material e imaterial dos lugares a serem visitados e apregoados como “paraísos históricos e ecológicos” e, assim, preservar o lucrativo mercado, atraindo, cada vez mais, uma parcela de consumidores conscientes e preocupados com o planeta. Por outro lado, caso não haja empenho em conservar a paisagem e seu entorno, o destino perderá a força de atração e o turismo perderá investimentos (COSTA, 2006). Leal (2006), analisando os portais governamentais divulgadores dos principais destinos turísticos do Nordeste brasileiro, observou uma nova tendência: uma crescente valorização dos aspectos ambientais e uma preocupação com os ecossistemas. Essa postura é um reflexo da nova estratégia do capitalismo frente à importância crescente dos recursos naturais na escolha do destino a ser visitado pelo turista. As empresas envolvidas no trade turístico procuram adequar o seu discurso aos novos tempos, mostrando-se politicamente corretas e conquistando, assim, novos clientes que permitem a ampliação do seu espaço mercadológico. As praias de Pipa e do Francês se incluem no grupo de destinos turísticos cujo principal poder de atração é a natureza, ali exposta e exuberante, porém, argumenta um morador de Tibau do Sul: “do jeito que está sendo concebida pelos empresários, por economistas do Estado, acredito que se torne uma enorme cidade, uma massa urbana com pequeno parque, que estão criando como um pequeno recheio de sanduíche”. Esse depoimento revela a preocupação com a falta de planejamento e a descaracterização do arruado que deu início a toda a “febre turística” na região. 19 Nas duas praias, as modificações na paisagem urbana são observadas pelos moradores e sentidas como sinal de progresso, mas uma transformação que não os inclui, nem no planejamento e nem nas vantagens oriundas daí. Os nativos são deslocados, cada vez mais, para a periferia do novo aglomerado urbano. De início eles ficam como meros espectadores, mas, aos poucos, passam a refletir sobre a nova realidade e começam a participar de discussões e movimentos em prol da preservação ambiental e cultural, como já é possível observar em Pipa. Percebem que continuar alijados pode ser pior para eles e para a sua comunidade. Uma jovem praiana entrevistada e engajada no trabalho de resgate cultural do município é capaz de estabelecer a diferença entre eles e os visitantes: “nós somos a herança de Pipa, o povo que mora aqui, nós somos a história. Isso é o que diferencia a gente do turista”. Os antropólogos argumentam que as relações entre turistas e locais são assimétricas e ainda fazem referência às diferentes situações em que se encontram o anfitrião e o visitante: um trabalha para satisfazer o tempo livre do outro, porém afirmam que “isso não implica que a população local-residente aceite passivamente um papel vindo de fora” (TALAVERA, 2003, p.51). Em busca da preservação das raízes O turismo contribui para tornar as diferenças entre o visitante e os moradores das praias ainda mais explícitas. Essa realidade é percebida e contribui para a tomada de consciência da população sobre a sua nova situação no contexto. Ao se defrontarem com outras culturas, os anfitriões percebem o contraste, seja do ponto de vista de alguns hábitos, de distintos idiomas, de equipamentos trazidos pelos visitantes, de estilos de vida, de situação econômica e muitos outros que vão se revelando na convivência cotidiana. Gradativamente, o que antes era distração e novidade que agitava a pequena cidade, acordando-a da mesmice anterior, passa a inquietar pelo fato de ocupar espaços antes reservados aos nativos. A beira-mar, onde comemoravam uma boa pesca ou colheita, dançando e tomando uma cachaça, vira um mercado público onde se vende de tudo: desde drogas – antes desconhecidas no local – produtos artesanais, comidas, passeios de barco e tudo o que 20 interessar aos visitantes e puder gerar uma renda para quem chegar primeiro na disputa por um pedaço de chão na areia da praia. Na praia de Pipa, a “beira do mar” era um local dedicado ao prazer do ócio ativo e cenário de manifestações culturais, como o Zambê – dança de origem afro, praticada, inicialmente, pelos afrodescendentes integrantes de um quilombo existente em Tibau do Sul. Um espaço procurado para o desenvolvimento de um turismo nacional, como identifica Ulate (2006), ao estudar o que ocorre na América Latina. Para ele, o movimento dos povos pobres desse continente, ao deslocar-se, durante um dia ou um dia e uma noite, para visitar uma praia, com fins exclusivamente recreativos, termina por criar uma “cultura popular turística” (Ibidem, p.123). A forma de viver esses momentos de satisfação e diversão termina fazendo parte da identidade dos grupos que habitam a região. E é esse modo de ser e de viver que atrai o viajante, o estrangeiro e o capital internacional. À medida que as localidades turísticas, expressão da cultura turística local, entram em fluxo de circulação internacional de mercadorias turísticas, essa cultura é subsumida e filtrada no interior dos fluxos internacionais das ofertas turísticas. Assim, o turismo internacional, em boa medida e infelizmente de maneira muito freqüente, avança como uma expropriação da base física do prazer das comunidades, ou seja, os seus belos lugares (Ibidem, p.124). Sobre a areia da praia os nordestinos de Pipa e do Francês descansavam, utilizando o seu tempo do não-trabalho para desenvolver a livre expressão do seu ser, através de danças, brincadeiras, jogos, bebidas e comidas produzidas localmente. A invasão turística desse espaço transforma-o em um mercado público, demarcado por regras municipais, disputas e pela busca do vender e do ter, pelo lucro, em lugar do prazer. As primeiras vozes a denunciar essa ocupação dos espaços começam a chamar a atenção de outros cidadãos, também incomodados com a invasão. Em seguida, começam a procurar, ainda de forma incipiente, mecanismos de ação para recuperar o que parece estar perdido. Percebem que antigos hábitos locais, que se constituíam importantes traços culturais da comunidade estão “adormecidos” e que esses costumes, forma de ser, estilo de vida etc são elementos que se configuram como um fator de originalidade, fundamental para garantir a atratividade do lugar. A retomada dessas questões coloca em discussão o processo de aculturação já vivenciado pela população local. Do ponto de vista das relações sociais em 21 que os grupos se envolvem, interagem e realizam trocas, o encontro, entre turista e anfitrião, revela a impossibilidade de isolamento de um e de outro, haja vista que ocorre em menor ou maior grau a assimilação, uma vez que o contato cultual é parte integrante desse processo, gerando distintas variações de impactos. Para Talavera (2003), a oportunidade desse encontro pode servir de preparo para a minimização de preconceitos, conflitos e tensões. Mas, o encontro entre visitante e visitado pode, também, gerar inquietações em segmentos da população local, que se auto-apóiam e buscam reacender tradições e resgatar manifestações culturais “adormecidas”, como uma forma de recuperar a identidade sufocada pelos que vêm de fora, como afirma uma moradora de Pipa: “conseguir que eles [os anfitriões] entendam que têm o mesmo valor de um europeu, ou de qualquer outro que chegue aqui”. Para Oliveira (2006, p.7), “o turismo pode a vir a estimular e renovar alguns aspectos das manifestações culturais que, de uma forma ou de outra, estão sendo transfiguradas devido às forças de desenvolvimento do mundo globalizado”. Alguns grupos trabalham, no município de Tibau do Sul, através de ONGs, organizadas por eles, no sentido de recuperar “aquela praia, que um dia foi uma vila de pescador”. A partir desse sentimento, algumas estratégias e ações são colocadas em prática, com ou sem a participação do poder público. Destaca-se o Projeto Pipa Sabe, com seus desdobramentos, o Núcleo Ecológico de Pipa, iniciativas isoladas de educadoras e de nativos, como também algumas propostas culturais do governo municipal. O Pipa Sabe é um projeto de rede , criado em 2003, com parceria inicial da Universidade de São Paulo (USP), idealizadora e estimuladora do trabalho. Posteriormente, vieram outros colaboradores como o Ministério da Cultura, a Casa Civil, o Ministério das Telecomunicações e a Prefeitura do Município de Tibau do Sul. Em princípio, o objetivo principal consistia em realizar a inclusão digital, porém, uma das responsáveis pelo Projeto - moradora preocupada com a perda de identidade dos nativos - propôs a ampliação e sugeriu um trabalho de resgate da cultural local, através da inclusão social. Essa necessidade, segundo ela, advém da idéia de que “uma casa não se constrói do telhado”. O Pipa-Sabe abrange outros componentes, como o Tele-Centro e o Educa Pipa, que em 22 conjunto com o Núcleo Ecológico de Pipa (NEP), desenvolve aulas de Educação Ambiental. O Tele Centro, criado em 2004, possui quase 500 pessoas cadastradas para uso de computadores e da biblioteca. O público é constituído de jovens e crianças. O projeto trata da inclusão sócio-digital, através de aulas de introdução à informática e acesso à internet para a população. Ocupa uma sala, cedida pela Prefeitura, onde funciona uma pequena biblioteca com livros e revistas, distribuídos em estantes improvisadas. Conta, ainda, com antigos computadores, doados tanto pela iniciativa privada, quanto pela pública. O serviço de internet, através da banda larga, funciona com antena doada pelo Ministério das Telecomunicações e com sinais provenientes de um satélite de Israel. O resgate da cultura local é o foco principal dos jovens responsáveis pelo gerenciamento do Pipa Sabe. Pretendem voltar a praticar e estimular a população a dançar o forró, o zambê, a capoeira, a lapinha e outras manifestações folclóricas. A participação no Tele-Centro vai além das aulas de informática. As discussões internas do grupo ampliam a visão de mundo e desenvolvem o olhar crítico, como atesta o depoimento de um de seus integrantes: Educação é um grande problema... falta capacitação de professor, porque todos os professores moram aqui sabe, aí a maioria só tem o segundo grau e não fazem capacitação... um pessoal da pousada quer uma recepcionista vai buscar de Natal, de não sei aonde, de Rio de Janeiro, porque não encontra gente capacitada para poder trabalhar nesses locais(...) a maioria das mulheres nativas daqui, trabalha tudo de camareira, lavar roupa, só esses empregos assim, aí é muito difícil ter uma que tenha o cargo de gerência, de recepcionista, essas coisas(...) Antes de entrar no Projeto, antes de conviver, assim, na raça, com o pessoal daqui, eu pensava, sempre, em ir embora da Pipa, querer estudar em outro estado. Agora estou pensando diferente, agora estou pensando em me capacitar para poder instruir pessoas daqui. A interconexação entre a população local e o turista possibilita a troca de emoções, costumes e hábitos entre os dois lados. Porém, há um momento em que é percebida, pelos nativos, a predominância cultural dos que vêm de fora, exercendo, inclusive, influência nos moradores. Ao atingir esse estágio as referências sócio-culturais-ambientais da população tornam-se difusas. O depoimento de uma jovem, integrante do Tele-Centro, revela as 23 conseqüências dessa mescla de atores interagindo, profunda ou superficialmente, numa comunidade transformada em grande destino turístico: O turismo influencia muito na identidade deles[os nativos] ao ponto de fazer, quem eu sou ? eu sou fulano ou sicrano? Porque é muita gente de fora, muita influência européia, é muito gringo. É muita gente do Rio de Janeiro, de São Paulo, aí já vem com outras coisas[costumes, hábitos,estilos] e aí passam pra gente aqui. Sem querer eles[os nativos] ficam pegando e aí vai acabando com a raiz deles... alguns têm pouca educação, não tiveram muito estudo e acabam sendo influenciados por essas pessoas. O resgate da cultura local produz efeitos benéficos na auto-estima dos jovens, estimulando a elaboração de projetos e sonhos que extrapolam os tradicionais modelos profissionais encontrados no município, direcionando-os para novas profissões. A responsável pelo Projeto relata, surpresa e recompensada, uma das falas de um dos seus integrantes ao afirmar que o trabalho desenvolvido mudou a sua vida e que o transformou em outra pessoa. Esse jovem, que concluiu o segundo grau e pretende prestar vestibular para Ciência da Informática, provocou o seguinte comentário da coordenadora: “Você imagina a responsabilidade de estar num projeto desse e o menino chegar e dizer isso!”. O reforço na auto-estima possibilitou ao estudante ousar ser diferente, alçar novos vôos que, na pequena aldeia praiana, antes do advento do turismo, eram inimagináveis. Atividades como vídeocomentarista, editor de tele-jornal, montadores de tele-centros fazem parte, hoje, do elenco de ocupações possíveis de serem exercidas por um grupo de jovens de Pipa. Em 1999, como estratégia de ação e combate aos danos provocados ao meio-ambiente e, mais especificamente, aos resquícios da mata atlântica, foi criado o Núcleo Ecológico da Pipa – NEP. A estratégia de ação visava, ainda, buscar alternativas para lidar com a crescente produção de lixo, responsável pela poluição e problemas de saúde pública. Moradores de Pipa, nativos ou não, simpatizantes da comunidade e igualmente preocupados com as desordens oriundas da especulação imobiliária uniram-se na primeira organização não-governamental da comunidade. Segundo um dos fundadores, a idéia da criação, foi amor à Pipa e [a necessidade de] manter a natureza viva. A gente viu que estavam acabando com tudo.O lixo na praia, a coletiva seletiva não 24 funcionava. O caminhão que se usava era a céu aberto e o lixo ficava espalhado na pista [estrada]. A entidade continua a mobilizar a comunidade, apesar do aparente amadorismo, já que depende do voluntariado. Em virtude dos afazeres pessoais dos seus componentes, da dificuldade de angariar recursos financeiros, além de uma questão de cunho operacional que é a inexistência de uma sede que congregue os encontros e sirva de referência para a ONG, algumas atividades são postas em prática. O NEP se constitui em um dos coparticipantes da “Semana do Meio Ambiente do Município de Tibau do Sul”. O evento é realizado anualmente - são oferecidas oficinas de reciclagem, exibição de filmes, palestras, coleta seletiva nas praias (atividade que conta com a parceria do Projeto Educa Pipa) - e desenvolve um trabalho de Educação Ambiental, envolvendo crianças das escolas da comunidade. O trabalho da ONG ultrapassou barreiras locais e “ganhou o mundo” através da inclusão digital. A criação de uma página virtual, embora apresente algumas limitações de ordem informativa, oferece visibilidade à problemática da sustentabilidade em suas várias dimensões e coloca o NEP, Pipa e os efeitos do turismo, na agenda de debates. A sensibilidade e a percepção da necessidade de resgatar manifestações tradicionais estão presentes nos moradores que buscam o fortalecimento de suas raízes. Nessa perspectiva, cidadãos preocupados em manter os legados de gerações passadas, investem na formação de novos brincantes, prováveis multiplicadores culturais, através do trabalho direcionado às crianças e jovens. Até hoje se eu pudesse e tivesse apoio, jamais deixaria a cultura local adormecer, porque acho que ela deveria ser mais valorizada. [se as crianças não se interessarem pelo Zambê] vai morrer, vai parar a cultura. Partindo do princípio de que “o turismo é um forte encorajador da consciência em relação ao ambiente e do senso de identidade cultural dos residentes” (OLIVEIRA, 2006, p.6), em Pipa observa-se esse despertar, através de iniciativas individuais e de pequenos grupos. O Zambê, manifestação que faz parte da raiz cultural da população de Pipa, está introjetada no imaginário de um dos responsáveis por seu resgate, como mostra o seu depoimento: 25 O coco de roda e o zambê é antigo daqui da Pipa, da galera mais velha.Uns já foram, outros ainda estão vivos. Tem uma galera que ainda conta como é que é, como não é. Eu comecei assim, mais ou menos aos 9 anos, 10 anos.Comecei a brincar com meu irmão que ele já sabia também, e meu irmão já brincava, que ele é mais velho de que eu, e ele foi me ensinando bater, também, o zambê. Fui pegando o ritmo com a galera e nós brincávamos todo domingo aqui na praia de Pipa, porque a Pipa, aqui, era uma capoeira, na época, só eram os nativos ... turismo , essa coisa não tinha, só a galera nativa. Os primeiros passos para a formação de um grupo de dança partiram de uma iniciativa familiar, em que os filhos pequenos e amigos estão sendo preparados para dar continuidade ao coco de roda. Os instrumentos, confeccionados pelos próprios participantes, constituemse, basicamente, de dois paus furados grandes e um pequeno, feitos de madeira cajarana e couro de gado cru, lata, pandeiro, maracá e triângulo.Os tocadores são escolhidos de acordo com a sua capacidade rítmica, avalizada pelo coordenador do grupo. Algumas apresentações públicas são realizadas, esporadicamente, representando embriões de valorização da cultura. A persistência em desenvolver um trabalho dessa natureza, com o intuito maior de manter as raízes faz com que o responsável pelo resgate insista em arregimentar, apenas, nativos, porque , segundo ele, “se for o caso de botar um de fora, aí vai embora, aí já dá uma furada [mexe com a composição do grupo] no conjunto”. O responsável pela formação, organização e motivação dos jovens reconhece que o turismo introduz novos hábitos e insere na sociedade elementos até então inexistentes no imaginário da juventude, tais como: “boate, baile e banda”. Essas inovações se incorporam ou se sobrepõem às manifestações tradicionais desenvolvidas pelos nativos - zambê, quadrilha, drama, lapinha. As novas formas de expressão somam-se às antigas e “a partir daí vai começando outra coisa”, comenta o nativo, numa recomposição de sons e danças com a contribuição dos que chegam e com a incorporação das idiossincrasias locais. Apesar da eminente possibilidade de aculturação, o fortalecimento das raízes é perseguido, também, por uma educadora que, na escola, desenvolve um trabalho, com alunos mirins, com o intuito de resgatar “muita coisa que estava adormecida”. Para recuperar “falas” utilizadas no drama - espécie de teatro cantado -, foi “buscando pelas pessoas mais velhas e 26 passando [os versos] para um caderno” e, com a certeza de alcançar os objetivos, declara: “vou resgatar e conseguir”. São atitudes pontuais, sem estrutura e sem apoio, em que as ações se transformam quase em um sacerdócio, cujas atividades se desenvolvem artesanalmente, conforme relata a educadora sobre os preparativos para uma apresentação pública: Começou a chover, as nossas faixas eram de papel crepom, eu fiz com tanto carinho, trabalhei até não sei que horas da noite, com areia brilhante para ficar aquelas letras bem bonitinhas, porque eu sou muito... assim... muito caprichosa... aí desmoronou tudo, eu chorei, sabia? Porque no outro dia a gente tinha um convite para apresentar em Piau [distrito de Tibau do Sul]. Fiquei preocupada e fiz uma promessa ‘eu vou comprar essas faixas de tecido’(...) comprei o tecido, a tinta, meti o pau [trabalhou muito], para pintar, para dar tempo, aí pintei, depois botei purpurina, que era mais segura, e fiz umas rosas bonitas de outra cor vermelha. Ai ficaram lindas, as faixas. Ah, como eu fiquei feliz no dia da apresentação! Turismo, cultura e município. Um estudo, junto aos municípios brasileiros, realizado pelo IBGE, em 2006, revela a pouca importância conferida à cultura no organograma das prefeituras: em 72% das unidades pesquisadas a cultura não tem secretaria própria, estando acoplada a outros temas. Quando a cultura está em conjunto com outras políticas setoriais – geralmente com a educação – ela costuma ser considerada de forma marginal. (...) Em 6,1% dos municípios a Cultura está vinculada diretamente à chefia do executivo. Nesses casos, ela costuma ser vista como uma área produtora de eventos que beneficiem a imagem do gestor. O fato de não existir um órgão gestor é um indicador importante do relativo pouco prestígio da área. (IBGE, 2006) Em Tibau do Sul não há Secretaria de Cultura e a de Turismo foi criada há poucos anos, bem depois do município ter se tornado um destino turístico, inserido no cardápio das agências de viagem. Entrevistado, o Secretário de Turismo falou das dificuldades enfrentadas para a implantação de medidas necessárias para tornar a atividade turística rentável e compatível com os interesses da população. Para ele, os principais entraves para o desenvolvimento do turismo são: a lentidão do poder público, a falta de qualificação e capacitação do pessoal, a desarticulação com outros pontos turísticos que ficam no entorno 27 e em áreas fronteiriças de Pipa. Além de todas essas variáveis citadas, há, ainda, há concorrência com o capital privado que seduz as pessoas, lamenta, ressaltando que: O processo de turismo já se instalou aqui, não é de hoje. Então, a gente anda correndo atrás da máquina privada. ‘O poder da grana que move e destrói coisas belas’ como dizia Caetano [compositor brasileiro]. Ele [o poder do dinheiro] é um fato, a realidade é que a gente não consegue acompanhar. A concorrência com o capital internacional que aporta ao município, principalmente por parte de empresários portugueses, torna difícil o papel de gestor pois, nem sempre, os empreendimentos são compatíveis com os interesses locais, o que pode gerar a exclusão de grande parte da população, cuja escolaridade, insuficiente, não a habilita para realizar negociações exitosas com os investidores externos. Sob esse prisma, o Secretário analisa o processo de exclusão: Se ele[o nativo] fosse um cara preparado dizia: “vamos fazer uma sociedade. O Sr. está vindo lá da Itália, cozinha bem? Vou ceder a minha casa e a gente faz a sociedade” e assim você não exclui ele [o estrangeiro] do processo e ele não exclui você [o nativo] do processo (...) esse seria um modelo legal de fazer... mas a pessoa não tem aquela consciência. A ausência da consciência pode ser traduzida pelo despreparo, pela inexperiência e pelo inusitado propiciado pela chegada do turismo que, paulatinamente, vai se instalando com suas peculiaridades e demandas específicas. Como já comentado anteriormente, as pequenas comunidades, notadamente de países pobres, descobertas como “paraísos turísticos”, de modo geral, são constituídas por uma população de baixa escolaridade, com escassez total de saneamento básico, insuficiência em atendimento de saúde etc. O Secretario de Turismo de Tibau do Sul reconhece que a sustentabilidade do turismo depende da organização e participação comunitárias, mas considera que a desqualificação profissional é um dos entraves, entre outros, também significativos, para a inserção dos moradores. Por essa deficiência, os nativos perdem a oportunidade de ocupar postos de trabalho elevados, gerando certo tipo de exclusão, apesar de existir muitas pessoas empregadas em função do turismo. Esse lado, positivo, da empregabilidade o entusiasma: “o turismo, nesse sentido, é fantástico, o que falta é sentar e planejar”. 28 A falta de planejamento é explicada pela insuficiência de subsídios que possam alimentar e conduzir satisfatoriamente a implementação de projetos, dificultada, principalmente, pela não conclusão do Plano Diretor para o Município que esbarra em dificuldades operacionais, ausência de pesquisas e estatísticas sobre as reais necessidades e demandas de Tibau do Sul. Segundo o Secretário “sem esse diagnóstico eu não tenho como planejar”. E, enquanto essas condições ideais para o desenvolvimento do turismo não se concretizam, o Secretário parte para um trabalho miúdo, fragmentado, justificando com a seguinte declaração: “não adianta querer fazer tudo ao mesmo tempo que a gente não vai conseguir. O poder público é muito mais lento do que a iniciativa privada, então vamos pontuando ações” Entre essas ações, destacam-se àquelas destinadas ao resgate e valorização da cultura local, reconhecida como importante elemento de atratividade do turismo. Um das iniciativas pontuais diz respeito ao Festival de Gastronomia, organizado com o intuito de recuperar e inserir elementos regionais na composição dos pratos, uma vez que a culinária internacional tem forte presença na praia de Pipa, reconfigurando o caráter gastronômico local. Produtos, com forte relação identitária com nativos, como a macaxeira, a carne de sol e o coco, foram reintroduzidos no cardápio para tornar a cozinha de Pipa mais brasileira e, assim, resguardar importantes elementos da cultura local. Ações pontuais, sem sistematização e continuidade, vêm sendo realizadas através de convênios com a Prefeitura Municipal, Fundações, Sebrae. São atividades de diversa ordem, passando por cursos de capacitação profissional a apresentações do zambê, dança tradicional marcada pelo ritmo do coco, organizado e patrocinado por instituição privada. Para o Secretário, o momento exige o resgate do pastoril, da lapinha, do drama, consideradas importantes manifestações culturais da comunidade. Alguns aspectos diferenciam a situação vivenciada pelo turismo em Marechal Deodoro com relação às condições dessa atividade em Tibau do Sul. Enquanto nesse município, a desarticulação é apontada pelo Secretário de Turismo como obstáculo para o seu desenvolvimento, em Marechal, o trabalho integrado tornou-se uma saída para o fortalecimento da economia local. Com o objetivo de promover o turismo de forma conjunta foi criada uma associação, formada por oito municípios fronteiriços, localizados 29 no litoral do Estado de Alagoas. Denominada de “Região das lagoas e mares do sul” essa área reúne particularidades que podem despertar o interesse dos viajantes conforme relata a Secretária de Turismo de Marechal Deodoro: O nosso destino é vender esse roteiro, porque tudo é perto um do outro, dá para o turista dormir cada dia num lugar. Ele [o turista] vai ter a oportunidade de conhecer uma cidade pitoresca, pequena, cada uma com sua cultura. A concepção de um turismo integrado vai além da esfera municipal, todo o Estado está empenhado em desenvolver roteiros temáticos em que são explorados acontecimentos históricos como a questão dos quilombos, a importância de Delmiro Gouveia, idealizador da Companhia Hidrelétrica do São Francisco, a saga de lampião, o rei do gangaço, e seu bando, entre outros aspectos importantes para o Estado. Enquanto a praia de Pipa apresenta grandes saltos econômicos com a presença maciça de empreendedores internacionais, a praia do Francês dá início ao capital estrangeiro, conforme ressalta um assessor da Secretária de Turismo: O auge da praia do Francês está começando agora, entendeu? Está começando o investimento internacional, principalmente por parte dos italianos (...) o grande salto mesmo eu acho que [aconteceu] do ano passado para cá. A grande “invasão”, já consolidada em Pipa, parece estar em processo na praia do Francês. Além da chegada dos recursos externos, o empresariado local se volta para investir na compra de terrenos, pousadas e outros equipamentos com o intuito de construir hotéis de grande porte nessa parte do litoral sul de Alagoas. Considerações finais A atividade turística encontra-se disseminada em quase todo o território brasileiro. Cada vez mais é considerado um importante setor da economia, capaz de alavancar o desenvolvimento do país, criar oportunidades de emprego e, conseqüentemente, melhorar as condições de vida da população. Várias localidades disputam a inclusão em roteiros turísticos e, assim, alçarem degraus economicamente satisfatórios e rentáveis. Nessa 30 disputas, lugarejos vocacionados ou criados para o turismo enfrentam situações em que se questionam quais os reais benefícios proporcionados pelo turismo à população dessas pequenas comunidades, receptoras de viajantes oriundos de vários pontos do país e de diferentes origens internacionais. Como alguns estudos apontam, nem sempre o lugar “escolhido” ou “descoberto”, como destino turístico, encontra-se preparado para o desenvolvimento dessa atividade, que apresenta um elevado grau de exigência como uma satisfatória infra-estrutura viária e um aporte humano capacitado profissionalmente. O que pode acontecer quando se estabelece uma defasagem entre as necessidades da nova atividade econômica e as reais condições da população local? A pesquisa, realizadas nas praias de Pipa e do Francês, situadas nos Estados do Rio Grande do Norte e de Alagoas, respectivamente, mostra os variados graus de interferência do turismo em localidades que apresentam características semelhantes no seu sistema organizacional e relacional. São lugarejos, originalmente vila de pescadores, isolados de outras localidades pela inexistência de estradas e de transportes, mas com um atrativo em comum: a bela paisagem natural, quase intocada, revelando-se para o mundo como o tão sonhado e desejado “paraíso”. O que se observa é que, num primeiro momento, a chegada do turismo provoca um “encantamento” nos nativos que vislumbram ganhos financeiros até então improváveis, pelo estilo de vida pacato que vivenciam, sem alternativas de mudanças. Na comunidade de Pipa, após os primeiros anos de avanço da atividade turística, a população percebe as diferenças existentes entre os anfitriões e os visitantes. Seja no idioma, no estilo de vida, no vestir, no andar, no ter, no ser. A tomada de consciência dessas diferenças gera inquietação em segmentos da população que passa a desenvolver um trabalho de retomada do seu próprio destino. Há uma preocupação em fortalecer a identidade local, que se mescla com os costumes e hábitos dos que vêm de fora. Os diferentes grupos buscam a revalorização da cultura e a preservação da paisagem natural; desenvolvem um trabalho, com algumas parcerias, e travam uma luta desigual com o capital estrangeiro, principalmente de portugueses e espanhóis, que investe maciçamente na localidade, na construção de condomínios residenciais, restaurantes e hotéis. 31 As interferências do turismo são mais contundentes na praia de Pipa se comparada à comunidade da praia do Francês. Nesta, o processo de “invasão” parece estar num estágio anterior ao vivenciado pelos nativos da praia potiguar. Enquanto na praia do Francês a população não se desfez de suas moradias, mantendo o povoado original, formado por uma pequena rua, apontando para o mar, em Pipa, a avassaladora chegada do turismo, deslocou grande parte da população, que vivia próxima à praia, para localidades periféricas da comunidade. A proliferação de pousadas, restaurantes, lojas, galerias mudou o cenário da praia e transfigurou a paisagem. Em ambas as situações, as mudanças trazidas pelo turismo parecem acontecer de forma tão repentina, tanto para a população como para o poder público. A tardia criação de secretarias municipais de turismo, quando essa atividade se encontra instalada e com repercussões negativas na vida da população local, é um sinal dessas dificuldades. Não se pode negar que a baixa escolaridade e o despreparo profissional colaboram para a exclusão de parte dos moradores dos benefícios advindos dessa nova atividade econômica, porém práticas bem sucedidas de planejamento compartilhado, com a comunidade, mostram ser possível o desenvolvimento de ações compatíveis com as condições objetivas da população. A eficiência de políticas participativas, em que os diversos atores interagem em busca de alternativas, fazendo com que projetos e programas, voltados para o turismo, deixem de ser uma ameaça e tornem-se vetores de benefícios e bem-estar para a população local, vem sendo discutida em fóruns e consiste em uma das atribuições da Rede de Turismo Sustentável - REDTURS, que busca compatibilizar a capacidade econômica do turismo com a dinâmica social e a preservação da cultura e dos recursos naturais. BIBLIOGRAFIA CAMURÇA, Sílvia Maria Sampario (Org.). Dimensões da desigualdade no desenvolvimento do turismo no Nordeste. 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