Universidade Presbiteriana Mackenzie
A LÍNGUA PORTUGUESA EM MACAU
Bruno Tateishi (IC) e Regina Helena Pires de Brito (Orientadora)
Apoio: PIBIC Mackenzie/MackPesquisa
Resumo
Este artigo tem como propósito descrever a situação da Língua Portuguesa no contexto macaense,
tanto no passado quanto no presente. Inicia-se com considerações acerca do conceito Lusofonia (que
designa como usuários da Língua Portuguesa os países da CPLP e Málaca, Macau, Goa e Damão),
para em seguida, abordar a presença dos portugueses em Macau e verificar como o processo de
colonização portuguesa, encerrado somente no final do século XX, influenciou elementos sociais,
culturais e linguísticos desta região. Assim, o texto traz aspectos relacionados à questão da Língua
Portuguesa em Macau a partir de breve referência ao português utilizado por macaenses durante a
colonização, sob a forma de patuá, e, em seguida, trata da situação da língua na atualidade e da
necessidade de preservação desta. Com base em um referencial teórico que abrange estudos sobre
Lusofonia e textos que tratam da Língua Portuguesa em Macau, este artigo pretende mostrar que a
questão da Lusofonia é relevante no mundo globalizado e que, mesmo em regiões como Macau onde
o português é falado por uma minoria, essa língua permanece sustentando uma importância política e
econômica e viabilizando a manutenção de uma comunidade representativa para o grupo de países
que possui o português como língua oficial.
Palavras-chave: Lusofonia; identidade; Língua Portuguesa em Macau
Abstract
This article aims to describe the situation of the Portuguese Language in the context of Macao, both in
the past and in the present. It starts with considerations about the concept of Lusophony (that
designes as the users of the Portuguese Language the contries of the CPLP and Malacca, Macao,
Goa and Daman), to then approach the presence of the portuguese in Macao and see how the
process of portuguese colonization, ended only in the late twentieth century, influenced many of the
social, cultural and linguistic elements in this region. Thus, the text brings to question aspects related
to the issue of Portuguese Language in Macao; for it, we make a brief reference of the Portuguese
used in Macao during the period of colonization, the patois, and then to the language situation at
present and its need for preservation. From a theoretical framework that covers the study of
Lusophony and texts dealing with the Portuguese Language in Macao, this article aims to show that
the issue of Lusophony is relevant in the globalized world and that even in regions such as Macao,
where Portuguese is spoken by a minority, the language is still maintaining a political and economic
importance and allowing the maintenance of a representative community for the group of contries that
have the Portuguese as a official language.
Key-words: Lusophony; identity; Portuguese Language in Macao
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O nome de Macau deve ter sido, a princípio, apenas o local
onde se encontra o Pagode da Barra1 e onde, segundo a tradição,
os nossos pioneiros desembarcaram pela primeira vez. Enquanto a
povoação se estabelecia e aumentava, este nome persistiu na boca
do povo, a despeito de todas as designações oficiais, portuguesas
ou chinesas.
Graciete Nogueira Batalha
Se Portugal é minha pátria, Macau é minha mátria.
Henrique de Senna Fernandes
1. Introdução
Se considerarmos a necessidade da consolidação de uma comunidade forte e coesa dos
países e comunidades que falam a Língua Portuguesa, é relevante adentrar na questão da
Lusofonia, termo que expõe não só a existência do português nos países da CPLP2 (Angola,
Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste) e nas
comunidades de Málaca, Macau, Goa e Damão, mas também os traços identitários que as
unem. Neste artigo, abordaremos a questão da Língua Portuguesa na região de Macau,
tanto no passado quanto no presente, mostrando que esta, apesar de utilizada de maneira
restrita, é uma das maiores representações dos traços culturais portugueses existentes em
Macau, pois é elemento comum a todas as comunidades lusófonas e, portanto, importante
para o estudo da Lusofonia. A partir de pesquisa bibliográfica, buscamos suporte para breve
explanação do conceito de Lusofonia, com foro em Macau, além de propiciar uma
reconstrução do passado colonial macaense, marcado pela presença dos portugueses e de
sua língua.
2. Um olhar sobre a Lusofonia
A Lusofonia, a princípio, é um termo utilizado para designar um conjunto de países em que
se verifica a ocorrência da Língua Portuguesa (em suas variantes diatópicas e diastráticas),
como é o caso da CPLP – constituída por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau,
1
O Pagode da Barra (Má-Kók-Miu) é um velho templo construído antes da chegada dos portugueses.
É dedicado à deusa taoísta Á Má, divindade protetora dos pescadores e do mar, e servia de abrigo
aos pescadores durante tempestades.
2
Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
2
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Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste – e das regiões de Málaca, Macau, Goa e
Damão. (Brito, 2003)
No entanto, ao refletirmos acerca do conceito de Lusofonia, devemos ir além do aspecto
lingüístico e dar enfoque, também, ao aspecto identitário que dá sentido ao “indivíduo”
lusófono. A definição de Lusofonia não deve se restringir ao de um grupo de países que tem
a Língua Portuguesa como oficial; trata-se de um grupo de países que possui um mesmo
passado de colonização portuguesa e que partilha características históricas, culturais e
linguísticas semelhantes. Para Fiorin (2006, p. 26), “a lusofonia não pode ser pensada
simplesmente como um espaço de usuários do português. Tendo a língua uma função
simbólica e um papel político, a lusofonia tem que ser analisada como um espaço simbólico
e político”. Nas palavras de Martins (2006):
[...] a lusofonia não pode deixar de nos remeter para aquilo que podemos
chamar o indicador fundamental da realidade antropológica, ou seja, para o
indicador de humanização, que é o território imaginário de paisagens,
tradições e língua, que da lusofonia se reclama, e que é enfim o território de
arquétipos culturais, um inconsciente colectivo lusófono, um fundo mítico de
que se alimentam os sonhos. (p.50)
Apesar da existência de traços culturais comuns a todos os espaços onde se fala o
português, sendo este o principal elemento que os une, há a necessidade de se
respeitarem, também, as possíveis diferenças, para que, dessa forma, se possa construir
uma comunidade mais forte e coesa. Nesse sentido, afirmam Brito e Martins (2004):
A lusofonia e a comunidade lusófona só farão sentido quando de lado a lado
se respeitarem (e para respeitar é preciso conhecer) as experiências, os
valores particulares, a especificidade cultural, o modo próprio de
experienciar a realidade e a visão de mundo que cada comunidade vem
fixando na sua norma de português – é essa a perspectiva a adotar para o
entendimento da construção de uma possível identidade lusófona. (apud
Brito e Bastos, 2006, p. 75)
Na era da globalização, há a necessidade de que o espaço lusófono, formado por uma
grande diversidade de culturas, se estabeleça de forma coesa, atuando com diplomacia e
cooperatividade e guiando-se por um fator determinante, que é, justamente, a Língua
Portuguesa. Nessa perspectiva, assinala Martins (2006):
Diante do imparável processo de globalização cosmopolita, que pela
economia e pela tecnologia se erguem diante de nós, deslocalizando-nos,
desfazendo fronteiras, diluindo memórias, virtualizando paisagens, aquilo
que motiva a lusofonia como coisa sua é a globalização multiculturalista,
dentro de áreas culturais específicas, uma globalização paradoxalmente
regionalista, que se alimenta de um imaginário de territórios, memórias e
paisagens vivos e concretos. (p.83)
Em Macau, mesmo sendo uma região onde a comunicação em Língua Portuguesa assume,
atualmente, pouca expressividade, podemos verificar traços culturais fortemente marcados
por elementos oriundos de uma matriz portuguesa. Constatamos a existência de um
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fenômeno de justaposição, que se comprova pelo fato de duas tão diferentes culturas se
observarem juntas em Macau.
Sobre a identidade do povo macaense, assim se refere Ferreira (1987):
O povo é sua boa gente, o insigne povo macaense, aquele que, ao longo de
quatro séculos, de geração em geração, com desvelo, orgulho e firmeza,
sempre deixou realçada a vontade irredutível de se conservar português, e
tudo fez por honrar e engrandecer Portugal, sua Pátria.(apud Brookshaw,
2000, p. 272)
Para explorar sobre a questão da identidade macaense, é importante citar a produção
literária de Henrique de Senna Fernandes, escritor macaense que representava em suas
obras a mentalidade, a tradição e a cultura macaenses. Para Simas (2004, p.160), o escritor
“oferece um rastro literário cheio de cumplicidades e demarcações para a preservação e
identificação da cultura macaense”. Em entrevista ao Jornal do Brasil (1999), Senna
Fernandes expõe as intenções de seu trabalho literário:
Escrevo sobre a nossa mentalidade, nossas tradições e costumes, que são
diferentes daqueles dos portugueses europeus ou dos chineses com quem
vivemos lado a lado. Era preciso ter duas, três cabeças para guardar todas
as histórias de Macau. Este encontro entre várias etnias – e do equilíbrio a
que se conseguiu chegar entre elas – produz histórias fabulosas, soluções
de vida absolutamente originais, muito belas e muito trágicas também.
(apud Simas, 2004, pp. 160 – 161)
Senna Fernandes narra, em seu romance A trança feiticeira (1993), a história de Adozindo,
mestiço oriundo de uma rica família portuguesa, que se apaixona por uma humilde
carregadora de água de origem chinesa chamada A-leng. Numa interpretação do romance,
pode-se dizer que Adozindo e A-leng representam, respectivamente, o encontro do mundo
Ocidental com o mundo Oriental, o encontro de duas culturas distintas (portuguesa e
chinesa) que devem conviver em uma mesma localidade. Assim se posiciona Brookshaw
(2000) sobre esse romance:
It asserts the contribution of both cultures to Macau in making it a bridge
between East and West, it even suggests the value of Confucian ideas with
regard to family and filial piety and honour, and in so far as the young heroes
are agents for change, this change is evolutionary and respectful of the
3
prevailing social and political order. (p.279)
Pires (1998) se coloca da seguinte forma ao falar sobre a convivência das culturas
portuguesa e chinesa na pequena região de Macau:
Daí que a transculturação, osmose contínua e sem datas, em corpo e alma,
de tudo o que somos e temos, entre homens e povos que sabem conviver,
3
Afirma a contribuição de ambas as culturas para que se faça uma ponte entre Oriente e Ocidente,
sugerindo, inclusive, o valor das idéias de Confúcio no que diz respeito à família e devoção e honra
filiais, e, na medida em que os jovens heróis são agentes da mudança, esta é evolutiva e respeitosa
da ordem social e política existente. (Tradução nossa)
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com toda abertura de espírito ecumênico, represente, melhor que os outros
tipos culturais, a síntese vivencial que este pedaço de história luso-chinesa
plasmou solidamente, num tempo e espaço definidos. Temos, pois, duas
culturas, seculares e opulentas – a portuguesa e a chinesa –, que se
encontram e fundem, em transculturação criadora. Aqui, em Macau. (p. 9)
Segundo Caniato (2004, p.119), “Macau tem sido durante mais de 450 anos ponto de
encontro entre culturas distintas e complexas. Orientais e ocidentais passaram a conviver
sem subserviências, nem perda de identidade, enriquecendo-se mutuamente”.
Laborinho (1999) explica que, mesmo após a independência de Macau em 19 de dezembro
de 1999 e a constituição da República Administrativa Especial de Macau (RAEM), há
interesse por parte dos chineses em preservar a cultura do povo português que lá esteve
desde meados do século XV e cujas reminiscências ainda se encontram na cultura
macaense. Por isso, há a necessidade de se preservar a Língua Portuguesa, pois esta é
elemento comum a todas as comunidades que estiveram sob domínio ou administração
portuguesa. Nessa perspectiva, o Instituto Português do Oriente, instituto privado que
oferece cursos de Língua Portuguesa e promove a difusão da cultura portuguesa, foi criado
pelo governo de Macau como uma estratégia para preservar a cultura e a língua de Portugal
após o término da administração portuguesa.
A Lusofonia, na perspectiva que adotamos, só faz sentido se houver a preservação da
cultura e da língua portuguesas que fizeram parte da constituição histórica e cultural de uma
determinada comunidade, como é o caso de Macau.
3. A presença dos portugueses em Macau
O ponto de partida para verificarmos a presença e a utilização Língua Portuguesa no
território macaense é o estudo da colonização portuguesa que se instalou em localidades
como Brasil, África e Oriente durante a Expansão Ultramarina e a ocupação e permanência
dos portugueses em Macau.
Antes, entretanto, é necessário destacar que o processo de colonização portuguesa na
região de Macau é diferente daquele que se efetivou no Brasil e na África. Foram interesses
econômicos que fizeram com que as autoridades de Pequim e, especialmente, de Cantão
mantivessem os portugueses em Macau. Como exposto por Grosso (1999), a colônia
portuguesa de Macau não nasce de uma conquista político-militar, mas de um processo de
mútuo interesse mercantil luso-chinês, visto que os portugueses atuavam como mediadores
nas relações comerciais entre China e Japão.
De acordo com Durão (1999), a história de Macau antes da chegada dos portugueses no
século XV é pouco conhecida, mas sabe-se que a região era composta por três aldeias de
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pescadores, denominadas como Mong-Há, Patane e Barra e habitada por pessoas oriundas
da província de Fuquiem.
Segundo Nogueira (1959), o início da expansão ultramarina de Portugal e a conquista de
novos territórios iniciam-se em 1492, data em que ocorre a Reconquista e o fim do domínio
muçulmano sob território português. Com o intuito de propagar a religião católica, Portugal
se apodera de diversas regiões na África, Ásia e Brasil, e com o auxílio dos jesuítas
planejaram catequizar os nativos e instalar um processo de ensino-aprendizagem em
Língua Portuguesa.
Em 1553, com o pretexto de secar mercadorias alagadas, os portugueses obtiveram
autorização das autoridades chinesas locais para permanecerem temporariamente na
península de Macau e fazerem comércio. De acordo com Jiabin (1968):
Quando os portugueses inicialmente tentaram estabelecer contactos com a
China, o Buzhengshi (Comissário Provincial da Administração Civil), Wu
Tingju, abriu uma excepção de forma a permitir o comércio [...]
Subsequentemente [...] deu aos portugueses autorização para residirem em
Haojing. Na dinastia Qing [...] foi permitida aos portugueses a ocupação e o
governo perpétuo de Macau. (p.39)
O ano de 1557 é tido como a data de fixação permanente dos portugueses em Macau. A
autorização para essa fixação permanentemente em Macau é concedida aos portugueses
por duas razões: auxiliavam na luta contra a pirataria que ameaçava os mares do sul da
China e serviam como ponte para o contrabando de produtos entre China e Japão.
Caniato (2004) explica que em meados dos anos 70, como já existisse uma povoação
portuguesa, os chineses construíram uma muralha ao Norte com intuito de evitar que os
portugueses saqueassem o continente. A muralha, com acesso ao continente pela Porta do
Cerco, era aberta duas vezes por mês e, posteriormente, todos os dias, para que se
fornecessem alimentos e outros bens. E o mercado acabou por fixar-se entre as duas
comunidades.
Os instrumentos jurídicos que formalizaram a cessão do território aos portugueses teriam
sido certamente por meio de autorização de Pequim e Cantão. No entanto, a soberania
portuguesa sobre o território de Macau só foi reconhecida pelas autoridades chinesas em
1887.
Durante muitos séculos, a região de Macau foi governada por um Senado (Câmara),
constituído por moradores eleitos pelo povo, tendo suas funções reduzidas em meados do
século XIX, quando da Revolução Constitucional de 1834, e sendo dissolvido de forma
definitiva em 1935.
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Em 1974, quando ocorreu em Portugal a Revolução dos Cravos4, foi decretado o fim da
política colonialista portuguesa em Macau. Historicamente, seguiu-se a independência de
cada uma das colônias portuguesas na África: Angola, São Tomé e Príncipe, Moçambique,
Guiné-Bissau e Cabo Verde e também Timor-Leste, na Ásia.
Ainda conforme Caniato (2004, p.122), “em 1979, quando China e Portugal estabeleceram
relações diplomáticas, ficou assentado ser Macau território chinês sob administração
portuguesa. E a Declaração Conjunta entre os dois países, em 1987, determinou, por fim,
que a China retomaria o exercício da soberania sobre Macau em 20 de dezembro de 1999
[...] Em conformidade com o princípio “um país, dois sistemas” [...] Macau foi, então, erigido
em Região Administrativa Especial da República Popular da China”.
Após a cessão do território de Macau à República Popular da China e a constituição da
República Administrativa Especial de Macau (RAEM), surgiram discussões acerca do perigo
de extinção da língua e cultura portuguesas no território (com o fim da administração
portuguesa) e da necessidade de preservá-las.
4. A Língua Portuguesa em Macau
A história da Língua Portuguesa em Macau e nas demais regiões colonizadas coincide com
o processo de Expansão Ultramarina iniciada no século XV. Além de promover a difusão da
religião católica e a catequização dos nativos, a ordem dos jesuítas também foi responsável
pelo ensino da Língua Portuguesa nas regiões sob o domínio luso. Foram as ordens
religiosas que, de fato, promoveram a difusão da Língua Portuguesa nas regiões
portuguesas no além-mar, como explicitado por Caniato (2004):
Os jesuítas podem ser considerados os primeiros que contribuíram para a
expansão da cultura portuguesa em Macau. Ali chegando em 1563,
encontraram apenas uma pequena povoação de 600 ou 700 portugueses
[...] Logo fundaram uma escola de “ler, escrever e aritmética” que, em 1572,
recebeu o nome de Primum Litterarum Scholam. Nos anos 80, já contava
com mais de 200 alunos e com um corpo docente de 12 jesuítas, quase
todos portugueses. (p.127)
Caniato (2004, p.129) ressalta que “também os capuchinhos, os agostinhos, os dominicanos
e as clarissas tiveram estabelecimentos escolares em Macau, tendo contribuído, como os
jesuítas, para a educação e a divulgação da cultura portuguesa”.
Segundo dados de Batalha (1995), não há documentos escritos registrando o português
falado nos primeiros séculos de colonização; porém, pode-se afirmar que os chineses deste
4
Movimento ocorrido em 1974 e que derrubou o regime salazarista em Portugal, de forma a
estabelecer a democracia e promover transformações sociais.
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período expressavam-se por meio do crioulo5 patuá. Os chineses residentes em Macau,
com o intuito de facilitar a comunicação com o português europeu, assimilaram alguns
vocábulos e estruturas da Língua Portuguesa ao mandarim, dando origem ao patuá.
Ferreira (1985), escritor macaense que tem reproduzido em obras literárias (como Macau sa
assi e Nhum Velô) o patuá, afirma que em grande parte da sua infância e juventude, durante
a década de 1920, ouviu e falou o crioulo macaense. O autor constatou que os chineses que
se expressavam em patuá trocavam o r pelo l, típico da fala chinesa; assim, em vez de
falarem, por exemplo, querer ou Maria, diziam quelê e Malia. O processo de troca de
consoantes é bastante comum na maioria dos chineses que imigram para o Brasil
atualmente.
Batalha (1995) também faz um estudo sobre os principais aspectos fonéticos, morfológicos
e sintáticos característicos do patuá. Dentre os aspectos citados, a filóloga considera que é
na sintaxe em que se verificam as maiores influências da língua chinesa. Isso ocorre pois o
chinês, assim como todo estrangeiro que não domina uma língua estrangeira, tende a fazer
uma tradução literal de sua língua para outra. Assim, um chinês inverteria sentenças como
Quem é? e Eu gosto muito e as expressaria, respectivamente, É quem? e Eu muito gosta.
Sobre a situação da Língua Portuguesa em Macau na atualidade, Batalha (1995) afirma
que, em Macau, o ensino da Língua Portuguesa, assim como ocorreu durante o período
colonial, é optativo, ou seja, nenhum macaense é obrigado a aprender o português ou a
frequentar uma escola em que se prioriza o ensino desta língua. Isso ocorre devido ao estilo
de colonização que se deu em Macau, onde a presença dos portugueses foi resultado de
um mútuo acordo entre autoridades chinesas e portuguesas. Além disso, Laborinho (1999)
constata que mais da metade da população residente em Macau chegou à região há
aproximadamente vinte anos e é, conseqüentemente, alheia à cultura portuguesa ali
existente. Estes fatores contribuíram para que a Língua Portuguesa praticamente
desaparecesse do cotidiano macaense, sendo falada somente por 2% ou 3% da população.
No entanto, o português, apesar de pouco utilizado, também é língua oficial em Macau,
assim como o mandarim. De acordo com o artigo 9º da Lei Básica da Região Administrativa
Especial de Macau da República Popular da China (1993, p.3): “Além da língua chinesa,
pode-se usar também a língua portuguesa nos órgãos executivo, legislativo e judiciais da
Região Administrativa Especial de Macau, sendo também o português língua oficial”.
5
Termo utilizado para designar as línguas mistas surgidas a partir do contato entre línguas européias
e línguas nativas da África, Ásia ou Américas.
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A necessidade manutenção da Língua Portuguesa, elemento comum a todas as
comunidades lusófonas, no contexto de Macau pode ser compreendida de duas maneiras:
como possibilidade de estreitar laços econômicos e diplomáticos com as demais
comunidades de Língua Portuguesa e como possibilidade de preservar a cultura portuguesa
na região, existente desde o período colonial e fundamental para a construção da cultura de
Macau.
Para sintetizar a questão da Língua Portuguesa em Macau, utilizamos as palavras de
Laborinho (1999):
Se o português enquanto língua não pode aspirar à comunicação oral no
quotidiano de Macau, mantem-se a sua utilização em contextos diversos,
nomeadamente enquanto língua da administração e língua jurídica, além do
acesso que permite a regiões de emergente interesse (da Europa ao Brasil
e à África). O português é também língua de conhecimento que se cruza
com a cultura dos próprios aprendentes [...] (p.41)
Sobre a Língua Portuguesa como possibilidade de estreitar laços entre a China e o mundo
lusófono, Pereira (2005) afirma, em artigo elaborado para a Revista Macau (revista da
comunidade lusófona em Macau), que os chineses querem aprender a falar o português
para obterem trabalho nos demais países onde se esta língua. Desde setembro de 2002,
data em que o Governo Central apresentou a sua estratégia para a cooperação econômica
com países de língua portuguesa, o interesse pelo aprendizado de língua portuguesa não
cessa de crescer, tanto por parte de jovens como por parte de profissionais em busca de
uma mais valia. A julgar pelas afirmações de governantes e empresários, o céu é o limite
das oportunidades comercias entre a China e os países de língua portuguesa. De acordo
com o próprio Pereira (2005):
Seria lógico pensar-se que o fim da administração portuguesa de Macau
significaria a morte da língua portuguesa na China. Mas ao fazer de Macau
uma plataforma para os países lusófonos, a política de Pequim mudou tudo.
Afinal, há um número crescente de chineses que querem aprender a falar o
português. (p.26)
Segundo Antunes6 (2010), é possível verificar, atualmente, em diversas ruas da cidade de
Macau e nos principais meios de transporte, chineses carregando apostilas de cursos de
Língua Portuguesa debaixo de seus braços e entre seus pertences. Esse fato reafirma a
procura que se tem percebido por cursos de português como língua estrangeira, como os
oferecidos pelo Instituto Português do Oriente.
6
Referência ao curso de extensão “Macau: História, Literatura e Cultura”, ministrado pelo Prof. Dr.
Sérgio Pereira Antunes, no período de 6 de maio de 2010 a 17 de junho de 2010, na Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
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O curso de Língua Portuguesa do Instituto Português do Oriente, segundo dados
encontrados no site da instituição, é organizado em dez módulos semestrais, de setenta e
cinco horas, distribuído em quatro níveis lingüísticos: Nível I – Iniciação A (Módulos 1 e 2) e
Iniciação B (Módulos 3 e 4), Nível II – Elementar (Módulos 5 e 6), Nível III – Intermédio
(Módulos 7 e 8) e Nível IV – Avançado (Módulos 9 e 10).
A concepção do programa oferecido pelo Instituto Português do Oriente se baseia no Nível
Limiar e no Quadro Comum Europeu, que privilegiam a abordagem intercultural e o aluno
como centro do processo de ensino-aprendizagem. O programa tem como objetivo atender
às necessidades comunicativas, às expectativas e motivações do estudante, além de
proporcionar um nível avançado de comunicação que lhe permita interagir com confiança
em situações comunicativas do cotidiano, previsíveis ou não, de forma culturalmente aceita.
Importante notar que, da mesma forma que há instituições que oferecem, por exemplo, os
exames de Cambridge para Língua Inglesa e o DELE (Diploma de Español como Lengua
Extranjera) para Língua Espanhola, o Instituto Português do Oriente também aplica exames
de Certicação Internacional de Português Língua Estrangeira. São eles: o CIPLE
(Certificado Inicial de Português Língua Estrangeira), DEPLE (Diploma Elementar de
Português Língua Estrangeira), DIPLE (Diploma Intermédio de Português Língua
Estrangeira), DAPLE (Diploma Avançado de Português Língua Estrangeira) e o DUPLE
(Diploma Universitário de Português Língua Estrangeira).
Nesse sentido, valem as palavras de Laborinho (1999):
[...] com a crescente perspectiva da mundialização das economias e a
necessidade de assegurar e tornar fluentes as comunicações entre os
povos, esta presença de Portugal no Oriente adquire outros contornos visto
que novas estratégias de aproximação econômica consideram e integram
os laços culturais enquanto propiciadores de um mútuo entendimento. (p.39)
Diante do exposto, é necessário frisar a importância que a Língua Portuguesa assume como
símbolo da cultura portuguesa presente em Macau e como fator de preservação desta
cultura após a constituição da República Administrativa Especial de Macau (RAEM), em
1999, pois a comunicação nesta língua, mesmo que ocorra de forma restrita, possibilita uma
aproximação entre as demais localidades que possuem um mesmo passado de colonização
lusa. Sobre este assunto, destaca Laborinho (1999):
[...] Macau tem desempenhado um papel privilegiado no que se refere à
divulgação e preservação do português na região. A forma como foi possível
conduzir a transição de Macau para a administração chinesa, e a maior
consciência da importância estratégica do ensino da língua e da presença
cultural, possibilitaram nestes últimos anos um crescimento do português
em diferentes vertentes (língua, cultura, preservação patrimonial), o que
beneficiou a região. (p. 40)
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Nesse mesmo sentido, afirma Rangel:
O reforço da posição da língua portuguesa naquela região do Mundo será
sinônimo de que, apesar de nossas limitadas possibilidades de intervenção
tecnológica e econômica, o português pode afirmar-se como língua de
cultura, importante para estreitar laços entre o mundo de língua portuguesa
e outros povos. (1996, p.85 apud Caniato, 2004, p.123)
Como dissemos, o Instituto Português do Oriente foi criado em 1989 pelo Governo Chinês
como uma estratégia para preservar e difundir a língua e a cultura portuguesa em Macau,
assim como em diversas áreas do Oriente. De acordo com Laborinho (1999, p. 41), o
principal objetivo da criação deste Instituto, do qual fazem parte a Fundação Oriente, o
Governo de Macau e o Governo Português, foi “encontrar uma estrutura adequada ao
período de transição e capaz de superar as previsíveis mudanças provocadas pela
transferência do exercício da administração do Território”.
Além do incentivo oferecido pelo governo chinês para a preservação da Língua Portuguesa
em Macau, vale destacar algumas estratégias propostas por Correia (1999, p.123) para que
isto se concretize de fato:
•
promover a fixação e a estabilidade da comunidade portuguesa quer
local, quer de outras origens;
•
fomentar a criação de novas atitudes em relação à Língua Portuguesa,
valorizando o seu papel instrumental como veículo de acesso à
informação útil e atraente, mesmo que isso faça esmorecer o controle
relativo à “pureza” da língua;
•
facilitar a aceitação das variedades do português menos submissas às
regras do português-padrão, nomeadamente a variedade local, fruto da
descrioulização ocorrida a partir do início do século XXI;
•
consolidar uma escola portuguesa que, sendo viável em termos
econômicos, satisfaça as necessidades de um público heterogêneo,
para quem o português poderá ser língua materna ou não;
•
criar instrumentos para a aprendizagem do português em Macau que
levem em consideração o contexto lingüístico e cultural em que o
processo se desenrola, e as características diversificadas dos alunos;
•
facilitar os caminhos que ligam as várias instituições com
responsabilidade e poderes na área de difusão da língua e cultura e
portuguesas em Macau, para que sua abundância numérica e
diversidade possam ser devidamente aproveitadas;
•
apoiar os meios de comunicação social em português, evitando o perigo
de deixá-los ficar reduzidos ao discurso redundante que facilmente
chega ao receptor em outras línguas e por outros meios;
•
estimular a interação social entre os falantes de português, tornando a
língua acessível a grupos com diferentes graus de domínio da língua.
Ao verificar os dados expostos acima, entendemos que, mesmo que a comunicação em
Língua Portuguesa não seja prioritária, há necessidade de se preservar esta língua como
patrimônio de Macau, em seus aspectos históricos, sociais, culturais e linguísticos. O falante
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chinês de Língua Portuguesa deve entender que ao se expressar nesta língua ele está
reafirmando sua identidade de ser macaense.
5. Conclusão
Bakhtin (1992, p.368) afirma, ao tratar de dialogismo, que “o encontro dialógico entre duas
culturas não lhe acarreta a fusão; a confusão; cada um deles conserva sua própria unidade
e sua totalidade, mas se enriquecem mutuamente”. As palavras de Bakhtin podem ser
aplicadas ao apontado neste artigo: se duas culturas (portuguesa e macaense) convivem
em um mesmo território, conseqüentemente, ambas estão em constante processo de
diálogo e interação cultural. No entanto, estas duas culturas não se excluem; se enriquecem
com este constante processo dialógico.
Para que o processo de diálogo e de interação entre as diferentes culturas existentes em
Macau se conserve, é necessário que se faça uma constante manutenção dos elementos
sociais, culturais e linguísticos oriundos de Portugal e que estão presentes na região desde
o início do período colonial. Dentre estes elementos, destaca-se a Língua Portuguesa que,
apesar de utilizada por uma minoria, vem constituindo grande importância política,
econômica e cultural. Como elemento que está presente em todas as regiões da
comunidade lusófona, a Língua Portuguesa se torna elemento que garante uma cooperação
político-econômica entre Macau e as regiões onde há utilização desta língua. Ao falarem o
português, os chineses de Macau preservarão um patrimônio trazido pelos portugueses e
que, mesmo com o tempo, ainda é língua oficial e possibilita uma aproximação com as
regiões que algum dia estiveram sob o jugo de Portugal.
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Bruno Tateishi