GÊNEROS TEXTUAIS: CONCEITOS E TENDÊNCIAS NO ENSINO DE LÍNGUAS
Auda Valéria do Nascimento Ferreira (UFAL)
([email protected])
Sandra Araujo de Lima (UFAL)
([email protected])
Resumo: este trabalho discorre sobre a temática dos gêneros textuais, a partir de um
passeio pela sua origem na retórica antiga e de seu desenvolvimento até a atualidade.
Refere-se aos gêneros clássicos e digitais. Trata de modo mais específico das tendências
de abordagem dos gêneros em sala de aula, de que modo os professores de língua
portuguesa desenvolvem os trabalhos com gêneros; e, sem a pretensão de sugerir
modelos, enfatiza a necessidade de esses profissionais priorizarem – inicialmente –
textos que cativem os alunos, de modo a conduzi-los ao interesse pela leitura e,
posteriormente, pela escrita. Enfim, que o docente conceba o trabalho com gêneros
textuais como um meio de desenvolver no aluno competências comunicativas; visando,
com isso, à interação verbal. Esse estudo fundamenta-se nas teorias de Marcuschi
(2008), Schneuwly e Dolz (2004), Silveira (2005), entre outros. Pretende-se, assim,
contribuir para uma reflexão sobre os meios utilizados pelos professores ao trabalharem
com gêneros textuais nas escolas brasileiras.
Palavras-chave: gêneros textuais – sala de aula – língua portuguesa
1. Introdução
Pense-se em uma comunidade que faz uso de determinado gênero, mas não o
reconhece, ou seja, efetivamente, não se apropriou dele. Lembre-se de que a tal comunidade
pode ser composta por indivíduos, inclusive, por alunos e professores os quais se encontram
numa relação de ensino-aprendizagem. Como explicar o fato da leitura e da escrita de um
gênero como o artigo de opinião (apenas para exemplificar) se este não faz parte do
cotidiano escolar? Como utilizar a linguagem formal ou informal se não se sabe quando
usar a norma-padrão? Como ler bem se não se sabe o que fazer diante de uma palavra
desconhecida? Como escrever adequadamente sem saber quem são os interlocutores do
discurso? A lista de perguntas é tão grande quanto o número de gêneros textuais.
Uma vez que os gêneros são produtos da cultura de determinada sociedade, tornamse modelos comunicativos, que permitem a interação social. Possuem conteúdo, estilo e
forma próprios, além de apresentarem funções específicas.
Portanto, o trabalho com o gênero textual na escola pressupõe um modo particular
de se relacionar com a linguagem e com o currículo da língua portuguesa. É necessário o
cultivo de uma postura educacional alicerçada pelo rico conhecimento da linguagem, da
língua utilizada no cotidiano, nos diversos níveis de interações formais e informais.
Ensinar as características formais dos gêneros é tarefa considerada fácil, porém,
ensinar o uso social do gênero e sua função é, diga-se de passagem, uma tarefa inútil, caso
não se promova condições efetivas de utilização de tal gênero nas relações interpessoais de
alunos e professores. Isso, tendo-se em vista que a escola possui uma função social. Cabe a
ela formar cidadãos críticos. Por meio de quê se dará essa formação?
Há gêneros considerados mais simples que outros. Para toda circunstância social há
no mínimo um gênero. Não há qualquer necessidade de a escola ensinar o gênero
telenovela, por exemplo, pois este faz parte do cotidiano até mesmo de quem não é
frequente telespectador, mas se a escola não trabalhar a crônica, a reportagem, o editorial,
entre outros, quem o fará?
Não se trata de quais gêneros a escola deve ou não adotar em seu currículo de língua
portuguesa, e sim, de como se deve abordar o tema, visto que ele perpassa pelas demais
disciplinas e se dirige à vida de cada e, ao mesmo tempo, de toda pessoa.
2. A origem dos gêneros: a retórica antiga
O termo gênero tem acompanhado os estudos da língua e do discurso no ocidente
desde a Antiguidade greco-latina. A fim de conhecer sua origem adentrou-se no surgimento
da retórica clássica (jurídica e literária). De acordo com Silveira (2005, p. 47-48), “A
retórica constitui o mais antigo estudo sobre os usos do discurso, verificando-se já, no
chamado sistema retórico, a preocupação explícita com os gêneros na atividade discursiva”.
Considerada arte e técnica do discurso, a Retórica surgiu por volta de 465 a.C nas colônias
gregas da Sicília. Na época, os cidadãos espoliados por tiranos passaram a reclamar os seus
bens, instalando-se inúmeros conflitos judiciários.
As pessoas que recorriam à justiça necessitavam, naturalmente, da arte da
persuasão. Portanto, a retórica tem origem judiciária e permaneceu sem alcance literário e
filosófico por muito tempo. Górgias, a partir de 427 a. C., inova a tradição literária da
época, criando uma prosa eloquente, em que aparece o uso de figuras. Até então, a prosa era
funcional e a literatura, em si, apenas poesia épica, trágica, entre outras (SILVEIRA, 2005).
Pode-se dizer que o estudo dos gêneros surgiu com Platão, na literatura, e com
Aristóteles na tradição retórica. Aristóteles foca os interlocutores, os valores e as intenções
do orador, alcançando, assim, três instâncias de atuação do cidadão grego representadas
pelos gêneros: deliberativo – para aconselhar/desaconselhar, voltando-se para o futuro;
judiciário – tem a função de acusar ou defender, refletindo-se sobre o passado; epidíctico –
caráter de elogio ou censura, situando-se no presente.
Ainda, segundo Aristóteles, há três tipos de ouvinte que operam como: espectador
que olha o presente; assembleia que olha o futuro; juiz que julga sobre coisas passadas. [...]
o mérito de Aristóteles foi mostrar que os discursos podem ser classificados segundo o
auditório e segundo a finalidade (REBOULD apud SILVEIRA, 2005, p. 50). Como se sabe,
tal contribuição aristotélica foi tão importante que se reflete atualmente nos estudos do
texto.
3. Sistematização dos gêneros através do tempo
Na antiguidade clássica greco-latina, surgiu o teatro (tragédia e comédia); a poesia
lírica e a épica. A poesia lírica, o romance de cavalaria (precursor do romance na
atualidade) e o teatro desenvolveram-se na Idade Média. Até o período do Renascimento, os
gêneros utilizados possuíram formas fixas, dogmatizadas, o que coube aos escritores aceitálas e praticá-las.
Durante o Século XVIII (Romantismo), ocorreu a mistura de gêneros e perdeu-se a
rigidez anterior. A novela, por exemplo, apareceu como recriação das canções de gesta; e o
romance, das epopeias, das novelas de cavalaria.
Ao extrapolar o âmbito literário, o termo gênero, atualmente, adquire outras
conceituações: com a terminologia gênero do discurso utilizada por Bakhtin, ver-se o
gênero como “enunciado no sentido dinâmico, interativo e consequentemente bifacial”
(SILVEIRA, 2005, p. 58). Depois do acesso às ideias de Bakhtin, surgiram vários trabalhos,
em diversas abordagens, com denominação variada: gêneros do discurso, gêneros
discursivos, gêneros textuais, gêneros comunicativos. Neste trabalho, sem a pretensão de
eleger qualquer termo referente ao tema em questão, como o mais apropriado, utiliza-se o
termo gêneros textuais. Termo este adotado pela maioria dos estudiosos no assunto.
Na atualidade, muitos estudos e debates têm contribuído para a ampliação e
consolidação do trabalho didático com gêneros textuais em sala de aula. Um dos autores
presentes nesse contexto, Marcuschi (2008, p. 155) assim, manifesta-se sobre o assunto:
Os gêneros são formas textuais escritas ou orais bastante estáveis, histórica, e
socialmente situadas. Exemplos: telefonema, sermão, carta comercial, carta
pessoal, romance, bilhete, reportagem, aula expositiva, reunião de condomínio,
notícia jornalística, horóscopo, receita culinária, bula de remédio, lista de
compras, cardápio de restaurante, instruções de uso, inquérito policial, resenha,
edital de concurso, piada, conversação espontânea, conferência, carta eletrônica,
bate-papo por computador, aulas virtuais e assim por diante.
É fundamental ressaltar-se os chamados gêneros digitais, importantíssimos nas
interações sociais das pessoas modernas, uma vez que a maioria delas não consegue mais
viver sem o ciberespaço, afastados de uma tela de computador. Os chamados gêneros
emergentes ou digitais são o e-mail, o chat, a entrevista on-line, o e-mail educacional –
muito utilizado na educação a distância, mas também, complementar na presencial –, a aula
chat, a videoconferência, a lista de discussão e o endereço eletrônico.
4. Os gêneros textuais e o ensino de língua portuguesa
Os gêneros textuais, no ensino de língua portuguesa, tornaram-se um discurso
praticamente adotado em todas as formações de professores dessa área, que têm por
finalidade estendê-lo às salas de aula, isto é, transformá-lo em prática pedagógica rotineira,
visando contribuir para a formação de leitores e escritores competentes.
No entanto, é observado que a importância desse trabalho na sala de aula não é
levada a sério por muitos profissionais que ainda se ancoram num ensino totalmente voltado
à gramática; quando trabalham a leitura e a escrita, direcionam-nas – com prioridade – às
regras gramaticais, colocando em segundo plano a exploração de gênero textual. Como
resultado, os alunos apresentam sérias dificuldades para ler e produzir textos pelo fato de
essas atividades exigirem que os professores, principalmente, os de língua materna, desde
cedo, valorizem e, por conseguinte, priorizem esse trabalho, visando à competência
comunicativa dos alunos.
Por outro lado, não é recomendável deixar a gramática à revelia do interesse do
aluno; antes disso, é da competência do professor associar os conhecimentos linguísticos da
norma padrão ao ato de tecer o texto; afinal, não se estrutura um texto sem conhecer e
seguir regras.
De modo geral, o professor tem convivido com mudanças nas tendências de ensino
da língua. Em meados do século passado, priorizou-se o ensino da gramática; em seguida, o
foco passou a ser a leitura, a interpretação e a produção de texto; hoje, é necessária a
reflexão em torno de todo extremismo, porque não se pode esquecer de que se convive com
déficits (remediáveis) de conhecimentos gramaticais. É preciso, pois, colocar a gramática a
serviço da produção de texto.
Segundo Suassuna (2008, p. 116),
[...] a condução do trabalho da língua deve se dar por meio de texto, unidade
essencialmente comunicativa da linguagem; por isso, também é necessário que
professores e alunos saibam como trabalhar o texto, como identificar sua
estrutura e o percurso da construção de sentidos.
Ao priorizar – tanto na leitura quanto na escrita de um texto – a comunicação e a
interação entre sujeitos, a escola estará possibilitando ao aluno desenvolver competências
comunicativas, visto que os textos surgem das diferentes atividades humanas que, por sua
vez, são constituídas por diferentes linguagens e formações discursivas. Para isso, faz-se
necessário que o professor pense numa metodologia que conduza esse contato entre leitor e
escritor, trabalhando com um gênero textual adequado às reais necessidades dos seus
alunos. Pelo fato de que os gêneros surgem de acordo com a sua função na sociedade, é
prioritário, ao trabalhar com eles, explicar essa função, para que se chegue ao objetivo do
texto: a interação verbal. A escola, ainda, numa visão estreita de trabalhar alguns gêneros
enfatizando apenas a “redação”, restringindo-se aos aspectos formais do texto, não tem
contribuído para uma aprendizagem significativa.
Bezerra (2002, p. 41) apud Cristovão e Nascimento (2006, p. 47) salienta que
é justamente essa desconsideração de aspectos comunicativos e interacionais que
contribui para que os alunos e professores se preocupem mais com a forma do
texto do que com a sua função e, consequentemente, o texto seja visto como um
formulário preenchido (pela leitura) ou a preencher (pela escrita).
Todo ato de produção textual está apoiado em gêneros, pois é ele (o gênero) que irá
direcionar o autor do texto à sua construção discursiva que, por sua vez, será mediada pela
linguagem que caracteriza o gênero em questão. A esse respeito, Schneuwly e Dolz (2010,
p. 61) partem da hipótese de que “é através dos gêneros que as práticas de linguagem
materializam-se nas atividades dos aprendizes”, levando em conta que, para orientar o aluno
à produção de textos, o professor determina o gênero e passa a colocar as regras necessárias
a essa produção, e uma delas é a utilização da linguagem conveniente à dada situação
comunicativa.
Além disso, é importante que se esclareça que todo ato de comunicação acontece
com um objetivo e, sendo a leitura e a escrita – ao mesmo tempo – um ato de comunicação
com interlocutores distantes, o locutor tem que, antes de tudo, pensar em para quem será
direcionado o seu texto, o que escrever e por que fazer isso. Portanto, é importante, desde
cedo, o professor de língua portuguesa orientar o aluno, durante o processo de construção
textual, a preocupar-se com os leitores do seu texto, escrever pensando neles, na melhor
maneira de assim comunicar-se; ao agir desse modo, estará também se preocupando com a
linguagem adequada ao gênero escolhido e que, ao mesmo tempo, facilite a comunicação
entre locutor e interlocutores.
5. Qual gênero trabalhar na sala de aula?
Não há exatamente um gênero específico para tratamento em sala de aula, cabe ao
professor escolher o mais adequado às necessidades dos alunos. É ele (o professor) quem
irá, ao longo do processo ensino-aprendizagem, detectar qual a situação dos alunos em
relação à leitura e à produção textual e, a partir desse momento, pesquisar o gênero textual
que ora se apresente como o mais conveniente para atrair a turma. Para isso é necessário o
planejamento, a observação dos vários suportes de texto, desde o livro didático até o rádio,
a TV, jornal, revista, entre outros tantos, que contêm gêneros, cuja possibilidade de cativar
o aluno seja grande: primeiro incentivando-o à leitura; segundo, à produção.
A escola já vem desenvolvendo trabalhos a partir de textos, que aparecem nos
referidos suportes, mas de forma superficial, sem levar em conta a visão interacionista da
linguagem, a exemplo dos gêneros da correspondência, que aparecem em jornais e revistas
e são muitas vezes tratados na sala de aula sem essa visão; colocados apenas como mais um
texto lido e/ou produzido, sobre o qual os alunos aprendem algumas características básicas,
nada mais.
Joaquim Dolz, em entrevista à revista Na Ponta do Lápis (2010, p. 2), que divulga e
comenta os passos da Olimpíada de Língua Portuguesa deste ano, diz que “se hoje você tem
uma visão interacionista, um conhecimento do gênero, pode trabalhar melhor a partir da
troca de correspondência, por exemplo”. Sendo os gêneros textuais os textos presentes no
nosso dia-a-dia e que, por sua vez, são constituídos pelas funções sociais, bem como pelas
formações discursivas, e, por isso, contêm um modelo peculiar de escrita e de linguagem,
precisam ser trabalhados na sala de aula para que sejam formados cidadãos não só para a
escola, mas também para além dos seus muros.
Cabe a essa instituição, então, desenvolver aulas com os textos mais frequentes no
cotidiano e que são dela excluídos, quando nesse espaço se valoriza somente aqueles que
são cobrados nos mais diversos concursos, destacando-se o vestibular; daí a preferência
pelas famosas “redações”. O aluno precisa também ser preparado para enfrentar as reais
situações da vida diária, pois a seleção dos gêneros deve estar atenta para esse lado da vida.
Ao serem solicitados a escrever alguns gêneros mais usuais socialmente, a exemplo
de cartas, bilhetes, notícias, entre outros, os alunos fazem de forma aleatória, sem atentar
para os elementos constitutivos dos referidos gêneros, sendo capazes de repetirem a mesma
estrutura e linguagem em diferentes textos e, muitas vezes, não são orientados a perceber
que cada gênero/texto tem sua linguagem própria, forma de composição e interação; um
exemplo disso é boa parte de textos que circulam na internet e apresentam uma linguagem
que se aproxima daquela falada pela maioria dos jovens. Estes quando, na escola, são
solicitados a escrever, tendem a utilizar em seus textos uma linguagem tal qual a que veem
na mídia virtual e fazem isso não atentando que – a depender do gênero e até do suporte –
essa linguagem muda.
É interessante que a escola também desenvolva atividades de leitura e produção que
se voltem aos gêneros midiáticos, objetivando trabalhar a função desses gêneros, a situação
de comunicação, e o tipo de linguagem que neles aparece, levando os alunos a compreender
que essas formas de funcionamento podem mudar, a depender do gênero, do objetivo
comunicativo e daqueles para quem elas são direcionadas. É o que diz Suassuna (2008,
p.117) ao voltar-se para o ambiente escolar:
Os trabalhos com os gêneros – muitos deles produzidos de maneira sistemática e
com grande incidência na vida diária, inclusive os que aparecem nas diversas
mídias – constituiria uma oportunidade de se lidar com a língua em seus mais
diversos usos autênticos no dia-a-dia. Assim caberia à escola e aos agentes de
ensino fazer deles objetos privilegiados de ensino.
Na verdade, como já dito no início, o gênero ideal a ser trabalhado na sala de aula
deve ser aquele que venha contribuir, primeiramente, ao interesse dos alunos para com o
texto, e, posteriormente, ao exercício de leitura e produção textual; a escolha cabe somente
ao professor, mas não pode ser efetuada sem planejamento e vivência com o gênero, ou
melhor, espera-se que o professor conheça bem: o gênero escolhido, ou seja, sua estrutura, a
situação de comunicação, seus interlocutores, sua linguagem; para então iniciar o trabalho
de produção. Se – ao término do trabalho – os alunos sentirem-se atraídos pelo texto, já se
pode perceber que foi encontrado o gênero certo para essa finalidade. O importante é que a
escolha abra as possibilidades de se encaminhar o aluno para o universo textual.
6. Os gêneros orais: como trabalhá-los na escola?
Quando se fala em oralidade, geralmente, pensa-se de imediato na linguagem
popular. No entanto, os gêneros orais tratam de textos que se apresentam tanto na
modalidade culta da língua quanto na modalidade popular. E a escola, como trata disso?
Será que dá importância aos gêneros orais? É bem verdade que eles ficam um pouco
excluídos quando comparados aos gêneros escritos, como se constata a seguir.
Embora a linguagem oral esteja bastante presente nas salas de
aula (nas rotinas cotidianas, na leitura de instruções, na
correção de exercícios etc.), afirma-se frequentemente que ela
não é ensinada, a não ser incidentalmente, durante atividades
diversas e pouco controladas (DOLZ; SCHNEUWLY, 2010, p.
125).
Mas a escola – mesmo que ainda não se tenha percebido – vem aos poucos
desenvolvendo atividades que privilegiam a oralidade, ao realizar seminários, debates, e
orientar os alunos como devem proceder durante a exposição oral de um tema,
principalmente no cuidado com a linguagem. Existem também outros gêneros
característicos da oralidade, que a escola menciona, não em aulas especificamente voltadas
para eles, mas em outras situações de aprendizagem (projetos, apresentações culturais), nas
quais se faz referência à cultura de algumas regiões, precisamente do interior do país, a
exemplo do refrão de feira, provérbios e das benzeções das rezadeiras.
Quanto a isso, é preciso que o aluno tome conhecimento de outras culturas,
principalmente as várias existentes no Brasil, é necessário que também conheça a oralidade
delas, pois esta é também uma forma de identificação cultural. Angelim e Silva (2007)
postulam que é desejável desenvolver um trabalho com textos que conscientizem o aluno
das diferenças culturais, como forma de ampliação vocabular e familiarização com as
diversas nomeações em português brasileiro.
Além disso, ao trabalhar a prática linguística na sala de aula, o professor deve ter
em vista o desenvolvimento da competência comunicativa do aluno e, para isso, dar mais
importância aos gêneros orais; pois, a comunicação, em diversas situações da atividade
humana, acontece por meio da oralidade. Não é à toa que os indivíduos monitoram a sua
própria fala no momento em que se colocam em público, e isso se dá porque se preocupam,
em determinadas ocasiões, se fazem bom uso da língua (norma culta) ou não, já que
esperam ser avaliados pelo uso da linguagem.
A escola precisa, então, desenvolver com mais frequência (desde o ensino
fundamental) práticas orais discursivas, a partir de gêneros que integram as práticas sociais
dos alunos e, assim, tal qual procede com a escrita, cuidar para que conduzam a fala à
interação com os ouvintes, pois “os gêneros textuais não são frutos de invenções
individuais, mas formas socialmente maturadas em práticas comunicativas na ação
linguageira” (MARCUSCHI, 2008, p. 189).
Ao organizarem apresentações de trabalhos, das mais simples aos seminários,
debates em sala de aula, os professores precisam, antes de tudo, expor as características do
gênero ora a ser trabalhado, o estilo formal, além de ter a preocupação em monitorar as
sequências de fala dos alunos, os desvios de linguagem e – a partir daí – trabalhar os
conteúdos que a essas situações se relacionam.
O estudo dos gêneros orais na sala de aula, portanto, precisa ser pensado como meio
de contribuir para o desenvolvimento das práticas comunicativas, interacionais e sociais do
aluno, além de conscientizar que a linguagem oral é tão importante quanto a escrita, haja
vista possibilitar a efetiva comunicação entre os diversos segmentos sociais.
7. Considerações Finais
Se a comunicação apenas é possível através de um gênero textual, então, pode-se
concluir que a abordagem adequada dos gêneros textuais na sala de aula é a tendência de
ensino de língua que leva em conta a modalidade de língua envolvida na produção e
compreensão de textos orais e escritos.
É preciso trabalhar a função social do texto e ensinar aos alunos a necessidade de se
produzir algo adequado às diferentes situações. Apenas reconhecer os gêneros textuais e
seus respectivos agrupamentos – argumentação, exposição, narração etc. – não é o
suficiente para uma real contribuição ao ensino de língua. Utilizar os gêneros como
instrumento, sim. A partir do gênero textual escolhido pelo professor, de sua estrutura e
função comunicativa, pode-se sequenciar outros conhecimentos, como o gramatical, o
semântico, o estilístico etc. Afinal, o contato do aluno com diferentes tipos de textos e de
gêneros textuais, com diferentes propósitos comunicativos, ao longo do ensino básico,
certamente, o encaminhará a um melhor desenvolvimento da leitura e da escrita tanto dentro
quanto fora da escola.
8. Referências
ANGELIM, Regina Célia C.; SILVA, Edila Vianna. Variação, gênero textual e ensino.
In: PAULIUKONIS, Maria Aparecida Lino et al. (Org.) Da Língua ao Discurso:
reflexões para o ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2007.
CRISTOVÃO, Vera Lúcia Lopes; NASCIMENTO, Elvira Lopes. Gêneros Textuais e
Ensino: Contribuições do Interacionismo Sócio-Discursivo. In: KARWOSKI, Acir
Mário et al. (Org.) Gêneros Textuais: Reflexões e Ensino. Rio de Janeiro: Lucerna,
2006.
DOLZ, Joaquim. Revista Na Ponta do Lápis. São Paulo, fev. 2010.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão.
São Paulo: Parábola, 2008.
SCHNEUWLY, Bernard , DOLZ, Joaquim e Colaboradores. Gêneros orais e escritos
na escola. Campinas: Mercado das Letras, 2004.
SILVEIRA, Maria Inez Matoso. Análise de gênero textual: concepção socio-retórica.
Maceió: EDUFAL, 2005.
SUASSUNA, Lívia. Ensino de Língua Portuguesa: os gêneros textuais e a “Ortodoxia
Escolar”. In: ZOZZOLI, Rita Maria Diniz; OLIVEIRA, Maria Bernadete. (Orgs.)
Leitura, escrita e ensino. Maceió: Edufal, 2008.
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