Este trabalho apresenta uma pesquisa qualitativa
em Educação Matemática que utilizou a História
Oral como metodologia e fundamentos para a
realização de entrevistas com alunos e professora
da disciplina Laboratório de Ensino de Matemática
II do curso de Licenciatura em Matemática da
UDESC. O objetivo foi apresentar concepções de
tecnologia expressas nas narrativas e também
discutir a formação do licenciando em Matemática
para o uso de tecnologias na sua prática docente.
Orientadora: Luciane Mulazani dos Santos
JOINVILLE, 2015
UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA – UDESC
CENTRO DE CIÊNCIAS TECNOLÓGICAS – CCT
CURSO DE LICENCIATURA EM MATEMÁTICA
TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO
CONCEPÇÕES DE TECNOLOGIA NO
CONTEXTO DA PRÁTICA: O CASO
DISCIPLINA LABORATÓRIO DE
ENSINO DE MATEMÁTICA.
NATHIELE COSTA
JOINVILLE, 2015
NATHIELE COSTA
CONCEPÇÕES DE TECNOLOGIA NO CONTEXTO DA
PRÁTICA: O CASO DISCIPLINA LABORATÓRIO DE ENSINO
DE MATEMÁTICA.
Trabalho de Graduação apresentado ao
Curso de Licenciatura em Matemática
do Centro de Ciências Tecnológicas,
da Universidade do Estado de Santa
Catarina, como requisito parcial para a
obtenção do grau de Licenciatura em
Matemática.
Orientadora: Luciane Mulazani dos
Santos
JOINVILLE-SC
2015
Dedico este trabalho a meus pais
Elisonete e Otavio (in memorian),
por seu apoio incondicional.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus por minha vida, pela oportunidade de realizar
este curso e concluir este trabalho.
Agradeço a minha amada mãe, por seu amor, sua compreensão
e incentivo sempre. Agradeço ao meu pai, falecido em 2014, por ter me
apoiado e amado desde o inicio, e ao meu namorado, pelo amor e
companherismo durante todos esses anos.
Agradeço a professora Luciane, por ter aceito me orientar nessa
pesquisa. Por sua dedicação e paciência comigo. Obrigada pelo auxílio
em todos os momentos.
Agradeço a professora Ivanete, por disponibilizar tempo das
suas atividades e aceitar colaborar nessa pesquisa, e ao mesmo tempo,
assumir compor a Banca Examinadora da minha defesa. Agradeço a
todos os acadêmicos colaboradores, Bruna, Marcelo, Marcos, Mariana,
Matheus, Raiane e Vilson, por aceitarem participar e contribuir nessa
investigação.
Agradeço ao professor Valdir, por aceitar compor a Banca
Examinadora do meu trabalho.
Aos amigos Emanuella, Joana e Marcelo, pela amizade durante
esses quatro anos de aprendizado. Obrigada por toda ajuda e atenção
que vocês me deram. Agradeço as queridas, Alessandra, Mariana,
Bruna, Suelen, Caroline e Jennifer pela divertida companhia nessa
caminhada e aos amigos Samuel, Nayra, Gustavo, Mayara, Franciele e
Thiago, por me proporcionarem momentos memoráveis.
Obrigada a todos os servidores da UDESC com quem tive a
oportunidade de trabalhar, em especial ao Senhor Maurilio, Estefania e
Maristela.
Agradeço a professora Regina, pela oportunidade de fazer parte
do PIBID e ampliar meus conhecimentos sobre a docência.
Um agradecimento especial a todos os professores que
participaram da minha formação. Pelo aprendizado e auxílio que recebi.
Obrigado por me proporcionarem conhecimentos matemáticos e
pedagógicos que me permitirão exercer a profissão que tanto amo.
RESUMO
COSTA, Nathiele. Concepções de tecnologia no contexto da prática:
o caso disciplina Laboratório de Ensino de Matemática. 2015. 89
páginas. Trabalho de Conclusão de Curso Licenciatura em Matemática –
Universidade do Estado de Santa Catarina, Joinville, 2015.
Este trabalho apresenta uma pesquisa qualitativa em Educação
Matemática que utilizou a História Oral como metodologia e
fundamentos para a realização de entrevistas com alunos e professora da
disciplina Laboratório de Ensino de Matemática II do curso de
Licenciatura em Matemática da UDESC. O objetivo foi apresentar
concepções de tecnologia expressas nas narrativas e também discutir a
formação do licenciando em Matemática para o uso de tecnologias na
sua prática docente.
Palavras-chave: Concepções. Educação Matemática. História Oral.
Narrativas. Tecnologias.
ABSTRACT
COSTA, Nathiele. Conceptions of technology in the context of
practice: the case of Teaching Laboratory of Mathematics. 2015. 89
pages. Trabalho de Conclusão de Curso Licenciatura em Matemática –
Universidade do Estado de Santa Catarina, Joinville, 2015.
This work presents a qualitative research in Mathematics Education that
used Oral History as a methodology and grounds for conducting
interviews with students and professor of Mathematics Teaching
Laboratory II, a discipline of the Bachelor's Degree in Mathematics
from UDESC . The goal is to present conceptions of technology
expressed in the narratives and also discuss the formation of licensing in
Mathematics for the use of technologies in their teaching practice.
Keywords: Conceptions . Mathematics education. Oral history .
Narratives. Technologies .
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 – Ementa das disciplinas de Laboratório de Ensino ..............29
Tabela 2 – Cronograma das entrevistas.................................................35
Tabela 3 – Palavras que os entrevistados relacionam a tecnologia.......65
14
15
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
CCT
GTs
LEM
MEC
OBMEP
PPC
PROINFO
SBEM
TICs
UDESC
Centro de Ciências Tecnológicas
Grupos de Trabalhos
Laboratório de Ensino de Matemática
Ministério da Educação
Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas
Projeto Político Pedagógico do Curso
Programa Nacional de Tecnologia Educacional
Sociedade Brasileira de Educação Matemática
Tecnologias de Informação e Comunicação
Universidade do Estado de Santa Catarina
16
17
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
ESCOLHAS E OBJETIVOS ................................................................... 19
INSERÇÃO EM PROJETO E GRUPO DE PESQUISA ................................. 21
1 CONTEXTO E MÉTODO DA PESQUISA
1.1 TECNOLOGIAS E EDUCAÇÃO MATEMÁTICA ............................... 23
1.2 A DISCIPLINA LABORATÓRIO DE ENSINO DE MATEMÁTICA II.... 28
1.3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS............................................ 31
2 NARRATIVAS
TECNOLOGIA
CONSTITUÍDAS:
CONCEPÇÕES
DE
2.1 MARCOS MANUEL DA SILVA ...................................................... 37
2.2 MARIANA ENCK DE SOUZA ........................................................ 41
2.3 MATHEUS CHARLES DAMASIO ................................................... 44
2.4 VILSON HERMES SCHROREDER .................................................. 47
2.5 BRUNA CORSO ............................................................................ 49
2.6 MARCELO SÁVIO RAMOS ........................................................... 52
2.7 RAIANE LENKE ........................................................................... 54
3 NARRATIVA CONSTITUÍDA E DISCUSSÃO PROVOCADA:
CONCEPÇÕES DE TECNOLOGIA E PRÁTICA DOCENTE
3.1 IVANETE ZUCHI SIPLE ................................................................ 57
4 REFLEXÕES SOBRE AS NARRATIVAS E CONCEPÇÕES ... 63
CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................. 71
REFERÊNCIAS .................................................................................. 73
APÊNDICES
APÊNDICE A – Entrevista Ivanete Zuchi Siple ................................... 77
APENDICE B – Cartas de autorização dos depoentes .......................... 87
18
19
INTRODUÇÃO
ESCOLHAS E OBJETIVOS
Quando escolhi o curso de Licenciatura em Matemática,
almejava aprofundar todo conhecimento matemático com o qual,
durante a Educação Básica, me identifiquei. A matemática sempre fez
parte da minha vida, da mesma forma que se apresenta na vida de todas
as pessoas. Foram minha afinidade com a ciência dos números e as
experiências que vivenciei com meus professores no Ensino Médio que
motivaram a minha escolha. Naquela época, auxiliar aqueles que tinham
dificuldade para entender a matemática era tão gratificante quanto
aprendê-la. Sem perceber, desde cedo descobri a minha paixão pela
profissão. No curso de Licenciatura em Matemática, confirmei minha
escolha. Os Estágios Curriculares me trouxeram a gratificante
experiência de ensinar matemática.
Desde o início, o trabalho com tecnologias esteve presente na
minha formação. Quando estava na terceira fase do curso, descobri as
ferramentas tecnológicas conhecidas como softwares, desenvolvidas
pelo homem para, por exemplo, facilitar a visualização de objetos
matemáticos. Ao mesmo tempo, descobri que tecnologia não é somente
o conhecimento cientifico aplicado, mas também, o conhecimento
prático. Um exemplo disso é a construção de um artefato tecnológico1.
O trabalho com artefatos tecnológicos ocorreu em vários momentos da
minha formação. Na segunda fase do curso, participei da construção de
sólidos geométricos feitos com cartolina, cola, régua e tesoura. Nas
fases seguintes, desenvolvi jogos com aplicação no ensino de
matemática.
Entendo que a tecnologia se faz presente na vida do homem
desde quando ele criava instrumentos com algum propósito de utilidade.
Entretanto, o conceito de tecnologia somente foi difundido tempos
depois. Nos últimos anos, a palavra vem sendo pronunciada com
frequência. Os meios de comunicação são os principais responsáveis por
essa reprodução. De modo geral, usamos tecnologia todos os dias. Na
Universidade, não poderia ser diferente. Compreendo que a importância
1
Segundo entendimento da autora, em Educação, artefato tecnológico é um
produto, de origem manual ou mecânica, usado no processo de ensino e
aprendizagem.
20
da tecnologia no ensino de matemática passa pela inclusão de uma
série de possibilidades para o ensino e aprendizagem. O uso de qualquer
ferramenta que possibilita a exploração do conhecimento matemático
tem sua importância no ensino atual. Vivenciei experiências na
Universidade que comprovaram isso. Durante uma aula de Cálculo
Diferencial e Integral I, com uso de um software de geometria dinâmica,
foi esclarecida a definição da derivada de funções de uma variável. O
desenvolvimento de programas computacionais que respondessem aos
problemas propostos nas aulas da disciplina Algoritmos e Linguagem de
Programação possibilitou o desenvolvimento de um algoritmo com
aplicação nas aulas de Cálculo Numérico. A abordagem de um software
que gera gráficos 3D a partir de equações matemáticas nas aulas de
Laboratório de Ensino de Matemática II, possibilitou a sua exploração
nos exercícios de Integral Definida na disciplina de Cálculo Diferencial
e Integral II. Exemplos assim me motivam a gostar e querer usar a
tecnologia para ensinar matemática.
A temática escolhida para esta pesquisa faz parte dos desafios
da carreira profissional do professor. Uma pesquisa realizada em 2012
pelo Comitê Gestor de Internet no Brasil apontou que apenas 2% dos
professores da rede publica urbana utilizam tecnologia como apoio na
sala de aula2. Ainda que 99% destes professores sejam considerados
usuários de internet, poucos utilizam a tecnologia em suas atividades
docentes.
A Universidade, como espaço para formação profissional e
científica, deve proporcionar o desenvolvimento de concepções e o
conhecimento necessário para atuarmos no mercado de trabalho.
Investigar as concepções sobre tecnologia dos estudantes de um curso
de Licenciatura em Matemática é conhecer um pouco sobre como esse
conhecimento influencia sua perspectiva acerca do uso da tecnologia na
sua prática docente.
Nessa perspectiva, este trabalho de conclusão de curso de
graduação apresenta os resultados do estudo realizado cujo objetivo foi
constituir fontes a partir de narrativas de sete acadêmicos e de uma
professora do curso de Licenciatura em Matemática da UDESC sobre
suas concepções de tecnologia. As narrativas registraram a relação que
eles mantêm com a tecnologia em seu dia a dia e nas atividades que
realizam na Universidade, o que possibilita a abertura de reflexões
2
http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,so-2-dos-professores-usamtecnologia-imp-,1035079
21
importantes para os processos do uso de tecnologia no ensino da
Matemática.
INSERÇÃO EM PROJETO E GRUPO DE PESQUISA
Este trabalho se insere no contexto do Grupo de Pesquisa
THEM – Temperos de História em Educação Matemática, linha de
pesquisa Matemática, Cultura, Arte e Tecnologia e também no Projeto
de Pesquisa OBLABI – Observatório e laboratório de práticas
inovadoras em educação.
Para apresentar as narrativas e concepções e discutir o tema,
esse trabalho está organizado da seguinte forma: no capítulo 1, são
apresentados o contexto e o método empregado na pesquisa abordando a
tecnologia como tema de interesse da Educação Matemática, o
Laboratório de Ensino de Matemática como disciplina do curso de
Licenciatura em Matemática da UDESC e os procedimentos
metodológicos utilizados na investigação; no capítulo 2,
são
apresentadas as narrativas dos acadêmicos entrevistados; no capítulo 3 é
apresentada a narrativa da professora entrevistada e uma discussão sobre
a prática docente com o uso da tecnologia; no capítulo 4, são
apresentadas reflexões sobre as concepções presentes nas narrativas.
22
23
1 CONTEXTO E MÉTODO DA PESQUISA
1.1 TECNOLOGIAS E EDUCAÇÃO MATEMÁTICA
Como o tema deste trabalho é tecnologia, ao longo da pesquisa
estudei o contexto da discussão sobre esse tema no âmbito da Educação
Matemática. Como resultado de tal estudo, apresento na sequência os
tópicos que considerei mais interessantes, que me ajudaram a
compreender esse campo de pesquisa e cujo conhecimentos ampliaram a
minha formação acadêmica.
A SBEM e o GT6
A Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM) é
uma associação civil sem fins lucrativos fundada em 27 de janeiro de
1988 com o objetivo de trabalhar pela consolidação da Educação
Matemática como área de conhecimento. Sua finalidade ampla é buscar
meios para desenvolver a formação matemática de todo cidadão de
nosso país. Para isso, ela congrega profissionais envolvidos com a área
de Educação Matemática e com áreas afins, promovendo o
desenvolvimento desse ramo do conhecimento, por meio do estímulo às
atividades de pesquisa e de estudos acadêmicos.3
Em sua organização, a SBEM abriga, atualmente, treze Grupos
de Trabalhos (GTs) que se dedicam aos seguintes campos de pesquisa:









3
GT1 - Educação Matemática nas séries iniciais
GT2/GT3 - Educação Matemática nas séries finais do ensino
fundamental e no ensino médio
GT4 - Educação Matemática no ensino superior
GT5 - História da Matemática e Cultura
GT6 - Educação Matemática: novas tecnologias e educação a
distância
GT7 - Formação de professores que ensinam Matemática
GT8 - Avaliação em Educação Matemática
GT9 - Processos cognitivos e linguísticos em Educação
Matemática
GT10 - Modelagem matemática
Informações disponíveis no site da SBEM: http://www.sbembrasil.org.br/
24



GT11 - Filosofia da Educação Matemática
GT12 - Ensino de probabilidade e estatística
GT13 - Diferença, Inclusão e Educação Matemática.
O GT 06 é um grupo de trabalho que estabelece articulação com
praticamente todas as temáticas dos outros GTs e tem por objetivo
discutir pesquisas que tratam da matemática, de seu ensino e
aprendizagem, dos processos de educação e que, ao mesmo tempo,
estabeleçam vínculos com o uso de Tecnologias de Informação e
Comunicação – TIC e/ou Educação a Distância4.
Formação de professores e tecnologias
D’Ambrosio (1999) já dizia: “a incorporação de toda a
tecnologia disponível no mundo de hoje é essencial para tornar a
Matemática uma ciência de hoje”. Atualmente, o rápido alcance de
informações e a velocidade do desenvolvimento tecnológico faz
repensar o trabalho do professor em sala de aula. As novas tecnologias
da informação e comunicação aprimoraram o acesso à informação e
provocaram mudanças na forma como enxergarmos o mundo. A escola,
como elemento da sociedade responsável pela formação de cidadãos,
procura se manter atualizada perante os avanços das últimas décadas,
mas sofre, na contramão, com o despreparo de seus profissionais e com
a velocidade da modernização tecnológica que bate a sua porta dia a dia.
O professor, que até a década de noventa contava com pouco mais do
que o quadro, giz e livro, se vê hoje em um mundo repleto de novos
recursos, ferramentas e métodos criados pelas tecnologias e que podem
ser utilizados no ensino.
D’Ambrósio apresenta assim um exemplo de um estudo em
Matemática que poderia ser transformado com o uso da tecnologia:
Resolução de problemas geométricos com
utilização apenas de régua e compasso
continuarão a atrair interesse de alguns
matemáticos,
como
aconteceu
desde
a
antiguidade. Mas o grande desenvolvimento da
4
Informações disponíveis no site http://mauriciomatematica.wix.com/gt06sbem
25
ciência se dará, como foi em outros tempos,
quando incorporando toda a tecnologia disponível,
isto é, inserida no contexto cultural.
(D’AMBROSIO, 1999, p.4).
A prática educacional com uso de tecnologias é incentivada,
pelo Ministério da Educação (MEC), há muitos anos no Brasil. Em
1997, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE)
implantou o Programa Nacional de Informática na Educação
(PROINFO), denominado Programa Nacional de Tecnologia
Educacional a partir de 2007. O PROINFO possibilitou a introdução do
computador nas escolas defendendo uma educação voltada para o
desenvolvimento científico e tecnológico em uma sociedade
tecnologicamente desenvolvida.
Contudo, o uso pedagógico de
tecnologias de informática nas escolas ocorreu de forma lenta se
comparada ao desenvolvimento tecnológico vivido pela sociedade.
Enquanto os professores sentiram a necessidade de capacitação para os
novos desafios da profissão docente, a sociedade continuava
influenciada pelo surgimento de novas tecnologias.
O conceito de novas tecnologias é variável e
contextual. Em muitos casos confunde-se com o
conceito de inovação. Com a rapidez do
desenvolvimento atual, ficou difícil estabelecer o
limite de tempo que devemos considerar para
designar como “novos” os conhecimentos,
instrumentos e procedimentos que vão
aparecendo. (KENSKI, 2007, p. 25)
Da mesma forma que o quadro e giz um dia aprimoraram a
forma de ensinar, as novas tecnologias aprimoram hoje o meio de
aprender. Para isso, o professor deve estar preparado para lidar com os
desafios que surgirão na atual era da informação.
A organização da grade curricular, o tempo destinado ao
preparo das aulas, o conhecimento técnico e a motivação dos
professores são algumas das dificuldades que encontramos ao discutir a
incorporação de tecnologias no ambiente escolar. Ainda, para muitos
professores da Educação Básica em atividade, sua formação inicial não
garantiu os conhecimentos necessários para prática com novas
tecnologias. Segundo Marinho (1998, apud MARINHO, 2008, p. 20),
“A disponibilidade de professores perfeitamente preparados para o uso
26
da tecnologia da informação em educação é reconhecidamente a
maior dificuldade.”
A formação profissional do professor vem sendo estudada desde
a década de noventa quando se iniciou o movimento que apontou a
necessidade pela profissionalização do ensino. A partir de então, ficou
reconhecida a profissão docente constituída tanto de saberes obtidos na
formação acadêmica, quanto saberes adquiridos no cotidiano escolar e,
no que diz respeito ao saber tecnológico, esse continua sendo objeto de
estudo da formação do professor dos dias atuais.
Para discutirmos a formação tecnológica é necessário
conhecermos a relação entre essas palavras. Dentro de nosso contexto,
formação, que deriva do ato de formar, significa dar alinhamento,
preparação ou constituir algo5. Pode adquirir contextos distintos e
também tratar sobre educação e fundamentos. O termo tecnológico se
refere a toda tecnologia existente, sendo associado ao seu
desenvolvimento e proveito. Sendo assim, entendemos que formação
tecnológica trata de desenvolver habilidades, conhecimentos e
concepções referente à tecnologia. Apresentada essas considerações, a
seguinte questão segue a ser respondida: como acontece a formação
inicial tecnológica do professor de matemática?
Atualmente, os cursos de Licenciatura em Matemática devem
apresentar em seu currículo uma proposta que contemple o
desenvolvimento de competências para o uso de tecnologia no ensino de
matemática. O Ministério da Educação (MEC) responsável pela
regulamentação dos cursos superiores no Brasil, delibera desde 2001, as
Diretrizes Nacionais dos cursos de Licenciatura em Matemática com
amparo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei
9.394/96). No que diz respeito à incorporação de tecnologias no
trabalho de formação acadêmica, o parecer CNE/CES 1.302/2001
garante:
Desde o início do curso o licenciando deve
adquirir familiaridade com o uso do computador
como instrumento de trabalho, incentivando-se
sua utilização para o ensino de matemática, em
especial para a formulação e solução de
problemas. É importante também a familiarização
do licenciando, ao longo do curso, com outras
5
Novo dicionário Aurélio, 2009
27
tecnologias que possam contribuir para o
ensino de Matemática. (BRASIL, 2001)
Muito se tem discutido sobre essa formação visando ao preparo
do acadêmico para os desafios da carreira docente com o uso das
Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs)6. A familiarização do
licenciando ocorre particularmente em disciplinas específicas voltadas
ao estudo das possibilidades tecnológicas no ensino. É importante
ressaltar que esse trabalho deve ir muito além da exploração de
programas computacionais, mas também envolver o desenvolvimento
do saber tecnológico do futuro professor. Sampaio (1999), já
mencionava em seu livro “Alfabetização Tecnológica do Professor”, a
necessidade de uma alfabetização que fosse além do uso mecânico dos
recursos tecnológicos, mas abrangesse também o domínio crítico da
linguagem tecnológica.
Cada vez mais ele (o professor) deve levar em
conta o ritmo acelerado e a grande quantidade de
informações que circulam no mundo de hoje,
trabalhando de maneira crítica com a tecnologia
presente em nosso cotidiano. Isso faz com que a
formação do educador deva voltar-se para a
análise e compreensão dessa realidade, bem como
para a busca de maneiras de agir pedagogicamente
diante dela. (SAMPAIO, 1999, p. 19)
Entendemos que o saber tecnológico é variável e parte da
concepção crítica de cada educador, devendo ser idealizado em sua
formação. A complexa junção de saberes do professor nos faz
questionar sobre a ideal formação deste profissional. O Ministério da
Educação reconhece a necessidade de capacitação para os professores
em atividade e oferece desde 2004 os cursos de Formação Continuada.
Os cursos de Licenciatura em Matemática apresentam interesse por
mudanças que promovam uma formação tecnológica sólida para o
licenciado, porém encontramos poucas informações da atual situação de
ensino com Tecnologias nos cursos de formação inicial desses
6
As TICs podem ser entendidas como o grupo de tecnologias responsável pelo
aprimoramento no compartilhamento de informações que proporcionaram um
novo meio de se comunicar. Exemplos de computadores pessoais, internet,
celulares, fotografia digital, televisão a cabo entre outros.
28
professores. Refletir essa questão é fundamental para entendermos
como o futuro professor da nossa sociedade está sendo preparado para
atuar como mediador no ensino de matemática da atualidade.
Primeiramente precisamos conhecer a concepção sobre tecnologia dos
estudantes em formação, e então realizar uma análise de como o
estudante vê essa inserção no seu cotidiano acadêmico.
1.2 A DISCIPLINA LABORATÓRIO DE ENSINO DE MATEMÁTICA II
O curso de Licenciatura em Matemática da UDESC é oferecido
no Centro de Ciências Tecnológicas, situado na cidade de Joinville.
Atende a demanda de toda região norte de Santa Catarina. Seu processo
de criação foi aprovado em 2007 pelo Conselho Universitário da
Universidade (CONSUNI), tendo iniciado suas atividades no ano
seguinte. Desde então, o curso oferece semestralmente 40 (quarenta)
vagas no período matutino. O seu Projeto Político Pedagógico7 (PPC)
foi elaborado por uma comissão compostas de seis professores
vinculados ao Departamento de Matemática do CCT, no qual
encontramos o seguinte conjunto de habilidades a se formar no perfil
profissional de seus acadêmicos:





7
Um conhecimento sólido do conteúdo de matemática usual do
ensino fundamental e médio;
Conhecimento de matemática superior que lhe permita
aprofundar os conhecimentos dos programas do ensino
fundamental e médio para que possa transmitir uma visão da
importância dos tópicos que esteja ensinando, no contexto da
matemática e de outras áreas afins.
Uma formação pedagógica que lhe dê condições de exercer sua
atividade de educador embasado nos conhecimentos de história,
psicologia e filosofia das ciências e da matemática.
Habilidade para discutir, analisar e avaliar propostas
curriculares, livros didáticos e materiais pedagógicos.
Elaboração e desenvolvimento de pesquisas que contribuam
para a sua prática docente, considerando os aspectos regionais
específicos de seu campo de atuação.
Disponível em:
http://www.matematica.joinville.udesc.br/files/PPC_Matematica.pdf


29
Compreensão, críticas e utilização de novas tecnologias.
Conhecimento das diversas leis e estatutos que regem sua
atuação profissional visando seu comportamento ético.
O projeto tem como base as Diretrizes Curriculares Nacionais
para os cursos de Bacharelado e Licenciatura em Matemática. Faz parte
dos seus objetivos formar no licenciado a compreensão e o uso de novas
tecnologias de forma crítica.
No que diz respeito a sua estrutura física, o curso tem à
disposição salas de aula e laboratórios de ensino e informática. Todas as
salas estão equipadas com projetor e computador. Os laboratórios
acomodam cerca de vinte alunos. Em algumas salas, há disponível
quadros digitais. Em termo de acesso à novas tecnologias, recentemente,
o curso adquiriu a sua primeira impressora 3D.
O currículo do curso de Licenciatura em Matemática, é
composto por sete fases. Nele, são previstas 2.826 (duas mil oitocentas e
vinte e seis) horas de atividades. Aproximadamente 600 (seiscentas)
horas, são reservada a disciplinas práticas e estágios curriculares.
Destas, 180 (cento e oitenta) horas estão alocadas em quatro disciplinas
de Laboratório de Ensino de Matemática (LEM) que contemplam
práticas de ensino. Esses Laboratórios de Ensino são oferecidos em
quatro fases sequenciais. O primeiro Laboratório de Ensino é oferecido
na segunda fase do curso. Na Tabela 1, são apresentadas as ementas
oficiais das disciplinas de Laboratório de Ensino de Matemática,
segundo proposta aprovada em 2007.
Tabela 1 – Ementa das disciplinas de Laboratório de Ensino
Ementa
Construção de artefatos para o ensino de
Matemática. Planificação e construção de prisma,
LEM I
cone, pirâmide, cilindro, esfera, poliedros de Platão
e outros sólidos.
Estudo teórico de viabilização de softwares
educacionais.
Exploração
de
ambientes
computacionais para o ensino de matemática.
LEM II
Projeto
de ensino
utilizando
ferramentas
computacionais.
Projetos de ensino que contextualizam o conteúdo
LEM III
matemático.
Elaboração
de
projetos
30
LEM IV
interdisciplinares com o uso de materiais concretos.
Elaboração de materiais concretos para o ensino de
matemática
Resolução dos exercícios de uma coleção de livros
que envolvam todo o conteúdo de Ensino Médio.
Seleção, preparação e montagem de experiência de
prática de ensino no tópico de funções para alunos
do ensino Médio.
Fonte: produção da própria autora
A ementa é o resumo do conteúdo a ser estudado em uma
disciplina e pode sofrer alterações se requisitadas ao Conselho
Universitário pelo professor efetivo. As ementas acima não sofreram
alterações desde então, mas têm seus objetivos gerais e específicos
alterados, conforme autonomia do professor responsável pela disciplina
a cada semestre. Os laboratórios de ensino, além das demais disciplinas
pedagógicas, aproximam-se da Educação Matemática. O trabalho com
tecnologia educacional fica a cargo da disciplina LEM II, oferecida na
terceira fase do curso.
No primeiro semestre de 2015, a disciplina Laboratório de
Ensino de Matemática II apresenta em seu plano de ensino os seguintes
objetivos específicos a se alcançar:






Discutir e analisar algumas referências educacionais que
permitem a fundamentação teórica sobre a integração das
tecnologias no ensino da matemática.
Utilizar as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC)
para desenvolver atividades de matemática direcionadas aos
alunos do ensino fundamental, médio e superior.
Estabelecer a relação entre o desenvolvimento das tecnologias,
o desenvolvimento da matemática e o progresso científico.
Analisar as potencialidades e especificidades das tecnologias
que serão utilizadas em sala de aula.
Entender as condições históricas e sociais em que as
ferramentas matemáticas foram criadas.
Explorar ferramentas tecnológicas disponíveis que permitem
potencializar atividades de ensino de Matemática.
O plano de ensino prevê uma avaliação presencial, por meio de
31
provas e trabalhos realizados em sala de aula, incluindo seminários e
discussões de artigos. Há também uma avaliação a distância com uso da
plataforma Moodle da UDESC, um ambiente virtual de aprendizagem
(AVA) para o ensino a distância.
Para alcançar sua proposta, a disciplina LEM II aborda
softwares computacionais com aplicação matemática. Entre eles,
Geogebra, Maple, Winplot e SuperLogo. São importantes ferramentas
que o professor utiliza durante sua formação e, posteriormente, para
prática docente na Educação Básica. Ainda, segundo o plano de ensino,
a disciplina explora o potencial dessas ferramentas e analisa
criticamente seu uso.
A proposição do uso das tecnologia também é contemplada no
plano de ensino de outras disciplinas. É o caso dos blogs dos alunos
presente nos estágios supervisionados. Quatro disciplinas de Estágio
Curricular Supervisionado (ECS) compõe o currículo do curso de
Licenciatura em Matemática. Nos Estágios, os acadêmicos utilizam
ferramentas de comunicação, como os blogs. O blog é uma página
pessoal na internet que recebe atualizações periódicas do seu usuário.
Durante os Estágios Curriculares, o blog funciona como o Diário Virtual
do estudante. Ele contém relatos de experiências vivenciadas nessa fase.
A ferramenta ajuda o professor a manter-se atualizado sobre o progresso
dos alunos durante o percurso do estágio e auxilia o licenciando a
produzir o seu relatório final.
Disciplinas como Algoritmos e Linguagem de Programação
(ALP) e Cálculo Numérico (CAN) abordam a programação
computacional para resolverem problemas envolvendo cálculo
matemático. A linguagem de programação C e o software Maple são
utilizados neste apredizado.
1.3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Este trabalho apresenta uma pesquisa qualitativa em Educação
Matemática que utilizou a História Oral como metodologia e
fundamentos para a realização de entrevistas com alunos e professora do
curso de Licenciatura em Matemática da UDESC. O objetivo foi
apresentar concepções de tecnologia expressas nas narrativas e também
discutir a formação do licenciando em Matemática para o uso de
tecnologias na sua prática docente. Os procedimentos utilizados para o
trabalho com a História Oral foram seguidos conforme os estudos do
32
GHOEM8 (Grupo História Oral e Educação Matemática) e também
Alberti (2005), Garnica (2006) e Meihy e Ribeiro (2002, 2011).
A História Oral é uma metodologia adequada para se fazer um
levantamento de narrativas sobre as concepções das pessoas a respeito
de determinado tema. Ela é composta por um conjunto de
procedimentos fundamentados que guiam as ações do pesquisador para
a melhor compreensão das narrativas. De acordo com Garnica, é um
trabalho de pesquisa onde
Trata-se de entender a História Oral na perspectiva
de, face à impossibilidade de constituir “A” história,
(re)constituir algumas de suas várias versões, aos
olhos de atores sociais que vivenciaram certos
contextos e situações, considerando como elementos
essenciais, nesse processo, as memórias desses atores
- via de regra negligenciados -, sem desprestigiar, no
entanto, os dados “oficiais”, sem negar a importância
de fontes primárias, de arquivos, de monumentos,
dos tantos registros possíveis. Não havendo uma
história “verdadeira”, trata-se de procurar pelas
verdades das histórias, (re)constituindo-as como
versões, analisando como se impõem os regimes de
verdade que cada uma dessas versões cria e faz valer.
Historiadores orais são, portanto, criadores de
registros; constroem, com o auxílio de seus
depoentes colaboradores, documentos que são [...]
“enunciações em perspectiva”. Documento cuja
função é preservar a voz do depoente - muitas vezes
alternativa e dissonante -, que o constitui com o
sujeito e que nos permite (re)traçar um cenário, um
entrecruzamento do quem, do onde, do quando e do
porquê. (GARNICA, 2006, p. 89)
Em busca de concepções de tecnologia, foram realizadas
entrevistas com o objetivo de registrar aquilo que os colaboradores –
sete alunos e uma professora do curso de Licenciatura em Matemática
da UDESC – narraram a respeito de suas concepções de tecnologia e das
suas vivências sobre o tema na formação inicial de professores.
As etapas da investigação seguiram os procedimentos da
História Oral a partir de um projeto inicial que envolveu planejamento
da pesquisa, escolha dos colaboradores que seriam entrevistados,
8
http://www2.fc.unesp.br/ghoem/index.php?
33
realização e tratamento das entrevistas. De acordo com Meihy e
Ribeiro (2011), um projeto inicial em História Oral:
É um plano que une argumentos operacionais de
ações de planejamento de pesquisa prévia sobre
algum grupo social que tem algo a dizer. O projeto é
composto por sete etapas: o planejamento da
condução das gravações segundo indicações
previamente feitas; respeito aos procedimentos do
gênero escolhido e adequado de história oral;
tratamento da passagem do código oral para o
escrito, no caso da elaboração de um texto final para
a pesquisa ou escrita de um livro; conferência da
gravação e validação; autorização; arquivamento
e/ou eventual análise; sempre que possível
publicação dos resultados, podendo ser feita através
de catálogos, relatórios, textos de divulgação, sites,
documentários em vídeo ou exames analíticos como
dissertações ou teses. (MEIHY; RIBEIRO, 2011,
p.13)
De acordo com Alberti (2005),
Sendo um método de pesquisa, a história oral não é
um fim em si mesma, e sim um meio de
conhecimento. Seu emprego só se justifica no
contexto de investigação científica, o que pressupõe
sua articulação como um projeto de pesquisa
previamente definido. Assim, antes mesmo de se
pensar em história oral, é preciso haver questões,
perguntas, que justifiquem o desenvolvimento de
uma investigação. A História Oral só começa a
participar no momento em que é preciso determinar a
abordagem do objeto em questão: como será
trabalhado. (ALBERTI, 2005, p.29)
Estas considerações foram importantes para justificar a
utilização da História Oral nesta pesquisa, para investigar e
compreender as questões de investigação e também para fundamentar a
organização e realização das etapas de pesquisa. As entrevistas foram
estruturadas com perguntas direcionadas ao aprofundamento do tema.
As narrativas dos colaboradores entrevistados foram gravadas em áudio
e posteriormente foram textualizadas e encaminhadas a eles para
34
conferência e validação do conteúdo. As textualizações aprovadas
pelos colaboradores serão apresentadas nos próximos capítulos.
Antes de realizar as entrevistas, analisei o currículo do curso de
Licenciatura em Matemática da UDESC. O objetivo foi verificar as
ementas das disciplinas para identificar quais delas têm como conteúdo
discussões sobre o uso da tecnologia na prática docente para, assim,
definir quem seriam os colaboradores entrevistados. Optei por
entrevistar a professora que ministra a disciplina Laboratório de Ensino
de Matemática II (LEM II), alunos que estão cursando essa disciplina e
alunos que estão no último semestre do curso e que, portanto, já
cursaram LEM II.
Assim, entrevistei sete acadêmicos e uma professora do curso
seguindo um roteiro estruturado elaborado de modo a discutir o tema,
formado pelas seguintes questões que guiaram as narrativas dos
colaboradores:













O que você entende por tecnologia?
Cite cinco palavras que você relaciona a tecnologia.
Em que momentos do seu dia a dia você faz uso de tecnologia?
Em que momentos da sua formação você usa/usou tecnologia?
O que você acha sobre o trabalho com tecnologias no ensino de
Matemática?
Como você analisa o uso de tecnologia na Educação Básica
atualmente? Conhece alguma experiência?
Você se sente preparado para o trabalho com tecnologias em
sala de aula?
Você já teve alguma experiência com o uso de tecnologia para
fins de ensino? Descreva como foi.
Como professor, você pretende fazer uso de novas tecnologias
em sala de aula?
No seu ponto de vista, quais as dificuldades encontradas ao
fazer uso de tecnologias no ensino de matemática?
Como você analisa o uso de tecnologia na sua formação
atualmente?
Como você idealiza que seria sua formação tecnológica para
atuar como professor de matemática na atualidade?
Existe alguma ferramenta tecnológica que não faça parte, mas
você gostaria de estudar na sua formação?
35


Com o crescente avanço tecnológico, como você imagina que
será o ensino de matemática daqui 10 anos?
Alguma outra observação ou consideração?
As perguntas foram realizadas de acordo com a direção que
assumiram as entrevistas. Os encontros com os depoentes aconteceram
individualmente nas dependências da UDESC. Foram usadas salas
disponíveis, com fácil acesso. Durante esse processo, utilizei um
caderno para anotações, caneta, folha contendo o roteiro de perguntas e
um aparelho de celular para gravação. As entrevistas foram gravadas em
áudio, utilizando o aplicativo para gravação de voz do celular. Na
Tabela 2, encontra-se o cronograma referente às oito entrevistas
realizadas.
Tabela 2 – Cronograma das entrevistas
Entrevistado (a)
Duração
Data
Bruna Corso
11 min e 30s 28/04/2015
Marcos Manuel da
21 min e 32 s 30/04/2015
Silva
Mariana Enck de
16 min e 08 s 30/04/2015
Souza
Marcelo Sávio Ramos 20 min e 58 s 28/04/2015
Matheus Charles
16 min e 44 s 30/04/2015
Damasio
Raiane Lenke
11 min e 16 s 27/04/2015
Vilson Hermes
16 min e 52 s 11/05/2015
Professora Ivanete
45 min e 25 s 04/05/2015
Zuchi Siple
Local
UDESC
UDESC
UDESC
UDESC
UDESC
UDESC
UDESC
UDESC
Fonte: produção da própria autora
Após a captação das entrevistas, iniciou-se o processo de
passagem do estado de linguagem oral para o estado de linguagem
escrita, gerando a forma do documento, segundo a metodologia da
História Oral. Primeiramente, as entrevistas foram transcritas
integralmente da gravação para um texto escrito. Segundo Meihy e
Ribeiro (2011), na fase de transcrição, está incluída uma passagem
completa dos diálogos e sons como eles foram captados. Em seguida, a
36
transcrição foi textualizada na forma de narrativa. Meihy e Ribeiro
(2011) destacam que, nessa fase, o objetivo é facilitar a leitura do texto,
possibilitando uma melhor compreensão do que o narrador expôs. Por
fim, na última etapa, cada entrevistado assinou o documento que
autoriza o uso de suas entrevistas, no processo denominado validação.
As textualizações das entrevistas são apresentadas neste
trabalho em meio às discussões sobre as concepções de tecnologia.
37
2 NARRATIVAS
TECNOLOGIA
CONSTITUÍDAS:
CONCEPÇÕES
DE
2.1 MARCOS MANUEL DA SILVA
Marcos é aluno da disciplina de Laboratório de Ensino de
Matemática II - LEM II e está na terceira fase do curso de Licenciatura
em Matemática da UDESC. Usuário de videoaulas em canais do site
youtube para aprendizagem, Marcos afirma se sentir apto a fazer uso de
tecnologia no ensino de matemática.
Meu nome é Marcos Manuel da Silva, tenho 29 anos e sou
natural de Joinville. Sempre gostei de números. Eu sempre gostava
quando se falava de contas ou de coisas que envolvessem qualquer
tipo de pensamento matemático. Quando terminei o Ensino Médio,
fiquei um tempo sem estudar até resolver fazer o curso de
matemática a distância. Achei que o ensino a distância não
respondia ao que eu esperava em relação à aprendizagem, então
decidi parar. Fiquei novamente um período sem estudar e acabei
voltando a fazer matemática agora. Quero ser professor do Ensino
Superior, lugar onde acredito que vou ter um bom desempenho
dando aula.
Para nós que somos professores, tecnologia é tudo o que
você tem de novo, que você pode usar para fazer com que os
alunos tenham uma melhor compreensão do que você está falando.
Fora da sala de aula, as pessoas já têm uma visão diferente do que
é tecnologia e vinculam a qualquer aparelho eletrônico. Quando se
fala de novas tecnologias, envolve o aperfeiçoamento desses
aparelhos eletrônicos. São concepções diferentes. Algumas
palavras que relaciono à tecnologia são modernidade, atualização,
facilidade, aperfeiçoamento e conhecimento. Faço uso constante
dessa tecnologia que conhecemos em nível geral, tanto do celular
quanto do computador, aplicativos e tudo mais. Para saber sobre
muitos conceitos, acabamos jogando em algum aplicativo e
encontrando o que procuramos. Utilizei muito a tecnologia no
cursinho pré-vestibular. O meu computador e o notebook foram os
meus professores. Fiquei treze anos sem estudar até me preparar
para prestar o vestibular novamente. Então, depois das aulas,
assistia videoaulas no Youtube, buscava resolução de problemas e
38
conteúdo na internet. O uso da tecnologia dentro de casa foi o que
me possibilitou maiores chances de passar no vestibular.
Na minha formação, atualmente, utilizo direto. Seja para
enviar trabalhos ou durante a aula, a tecnologia está em tudo. Sou
monitor da disciplina de Cálculo Diferencial e Integral e durante meu
trabalho uso bastante tecnologia, principalmente para definir
conceitos do conteúdo. Essa possibilidade de fazer uso da
tecnologia para ensinar um conteúdo, me faz ter certeza que a
tecnologia certa vale a pena, no momento certo e no conteúdo certo.
Estamos na monitoria com três turmas diferentes e o que mais ouvi
quando levei tecnologia para dentro da sala de aula e apresentei
para eles uma definição bem explicada de derivada no software
Geogebra é que todos eles entenderam. Todos demonstraram
entender, com uso da tecnologia, o que a professora explicou em
sala e eles não tinham entendido. A tecnologia te dá movimento e
quando você tem algo móvel e flexível acaba proporcionando um
conhecimento maior. É claro que devemos ter uma noção da faixa
etária com a qual estamos trabalhando. O aplicativo correto, no
assunto correto e na idade correta pode trazer muito benefício,
principalmente hoje, quando adolescente sem tecnologia não é
adolescente. Se conseguirem unir o útil ao agradável e usarem
essas ferramentas corretamente, com certeza o grau de
aprendizado será bem maior. Para isso, o professor precisa instigar
esse aluno a usar a tecnologia corretamente. O que acontece na
Educação Básica é que falta conhecimento dos professores. Quem
faz estágio ou leciona durante a faculdade percebe que não existe a
busca pelo novo por parte do professor que ensina nessa fase
escolar. Muitos professores acabam parando no tempo, ou porque já
estão saturados da profissão ou porque a escola não oferece
abertura, assim acabam desistindo de buscar um conhecimento
diferente e novo para levarem para dentro da sala de aula. Imagino
que falta essa busca pelo novo. Se o professor está vendo que a
aula dele é rotineira, por que não buscar alguma coisa nova? E se
ele está vendo que todos os adolescentes, todas as crianças da sala
de aula têm acesso à tecnologia, por que não unir o útil ao
agradável? Por que não usar isso em seu benefício, em benefício da
sua aula? Em benefício da disciplina de matemática? Falta uma
conscientização de todos. Falta conscientização do professor de que
isso realmente é importante e válido no mundo tão moderno que nós
estamos vivendo. Falta conscientização do aluno, para perceber que
dentro da sala de aula essa tecnologia vai ajudá-lo na aprendizagem
e que não é algo leviano, mas que vai ajudá-lo naquela disciplina. E
39
também falta uma conscientização da escola, promovida pela
secretaria da educação, de incentivar e propor projetos, ter uma boa
infraestrutura e assim por diante.
Hoje eu me sinto preparado para o trabalho com tecnologias
em sala de aula porque estou entendendo essa conscientização
aqui na faculdade. Claro que antes de usar essa tecnologia seria
necessário um trabalho de conscientização com a turma de que
vamos usar uma tecnologia para agilizar e facilitar o aprendizado.
Hoje, me considero apto e pronto, porque vou buscar o
conhecimento e trazer aquilo pronto, assim vou saber como aplicar.
Dentro da universidade, por mais que se fale bastante do uso de
tecnologia, ainda acho que os professores usam muito pouco. É
escasso o número de professores que usa. Acho complicado falar
do uso de tecnologia dentro da universidade porque o professor
pode pensar que está usando tecnologia a partir do momento que
lança a nota no sistema Siga9. E não é bem isso. Também questiono
sobre o uso da plataforma Moodle. A tecnologia que está sendo
usada precisa facilitar a aprendizagem do aluno e há professores
que nos deixam instruções no Moodle das atividades, mas essas
instruções podem ser passadas por e-mail e essas mesmas
instruções são dadas na sala de aula. Na verdade, ele está usando
a tecnologia para me mostrar algo que já falou em sala de aula,
então, no que essa tecnologia está construindo o meu
conhecimento? Para mim, o Moodle não está facilitando em nada,
porque o que o professor falou em sala de aula está escrito lá, ou
seja, não facilitou em nada. Agora se ele usasse essa tecnologia de
uma maneira diferente, transmitindo para mim uma informação e
fazendo eu construir novos conhecimentos por meio daquela
ferramenta, seria interessante. Acho que está faltando um pouco
dessa conscientização dos professores. Alguns conseguem usar e
usam muito bem... Avalio de forma regular o uso de tecnologia na
minha formação, pois acho que poderia melhorar. Talvez, se
existisse uma comunicação maior ou se fosse padronizado, seria
legal. Muitas vezes é subjetivo esse uso e você utiliza se quiser ou
procura se tiver interesse, isso não é algo padronizado... não tem
como analisar de forma geral todos os alunos. Se o professor
sugere um aplicativo para uso na aula de Cálculo 1, não posso
avaliar a aprendizagem de quem está usando e de um aluno que
não está, porque não existe um padrão.
9
Sistema de Gestão Acadêmica Online
40
Com certeza farei uso de tecnologia no ensino de
matemática pois na minha experiência como monitor percebi que a
compreensão dos alunos é muito mais ampla e você ganha muito
tempo. O tempo que você perde demonstrando alguma coisa na
lousa ou no quadro, você ganha com o uso da tecnologia em sala de
aula. Você tem uma possibilidade maior para tirar dúvida e fazer
esclarecimentos... A maior dificuldade para fazer esse uso é o
conhecimento da ferramenta e da tecnologia. Ainda hoje, procuro
ajuda quando quero alguma coisa e não tenho o conhecimento
daquela ferramenta.
Outra dificuldade seria a escola ou
universidade me oferecer possibilidade de usar essa tecnologia
como professor. São os dois pontos cruciais. Um, de eu ter o
conhecimento do que estou usando e outro da escola me oferecer a
possibilidade de usar... Gostaria muito que aqui na UDESC tivesse
algo como um canal do Youtube, com videoaulas das nossas
disciplinas, poderia ser aluno ensinando aluno ou professores dando
algumas explicações. Poderia ter entrevistas também e seria algo
vantajoso abrir essa plataforma de tecnologia com conteúdo da sua
própria Universidade. Na verdade, propomos algo parecido, mas
não com relação a vídeo e ainda está em andamento.
No futuro, se o professor não se atualizar, a educação vai
ficar precária. Isso é fato, não há o que questionar. A tecnologia já
está dentro da sala de aula mesmo que o professor não queira e o
aluno já faz uso da tecnologia. Então, sem conhecimento a
tecnologia vai estar ali e ele não vai conseguir dar aula. O aluno vai
ter a tecnologia e ele vai querer a tecnologia, mas o professor não
vai se qualificar para usar aquilo.
41
2.2 MARIANA ENCK DE SOUZA
Mariana está na terceira fase do curso de Licenciatura em
Matemática e está cursando a disciplina LEM II. Ela descobriu que
ensinar é sua verdadeira vocação. Segundo ela, usar tecnologia no
ensino de matemática faz despertar o interesse dos estudantes pela
disciplina.
Meu nome é Mariana Enck de Souza, tenho 28 anos e sou
natural de Joinville. Escolhi o curso de Licenciatura em Matemática
porque ensinar é o que realmente gosto de fazer. Sou formada em
Engenharia de Produção e Sistemas, mas nunca exerci a profissão.
Durante minha primeira formação acadêmica, percebi que a
Engenharia não me agradava. Ainda que as pessoas achem que ser
engenheiro dá um bom retorno financeiro, eu não estava feliz em
fazer aquilo. Ao mesmo tempo, sempre me disseram que eu tinha
vocação para ser professora. Terminei o curso de Engenharia e
escolhi fazer o que realmente gostava. Hoje posso afirmar que
ensinar é o que realmente gosto de fazer, por isso pretendo ser
professora.
Entendo que, dentro da sala de aula, tecnologia é tudo que
pode auxiliar na aprendizagem dos estudantes. Seja o computador,
celular, internet, quadro, giz ou canetão, tudo pode ser tecnologia.
Hoje em dia as pessoas pensam que tecnologia é o que foi criado
agora. Não penso assim. Quando o quadro de giz foi lançado, ele
era a modernidade do momento. No dia a dia, tecnologia é tudo que
pode nos auxiliar a ter uma vida melhor. O carro é uma tecnologia,
por exemplo. Com ele posso me locomover mais rápido do que
andando a pé. Algumas palavras que relaciono à tecnologia são:
globalização, informática, celular, tablet e carro. Utilizo todos os dias
tecnologias como celular e o carro. Às vezes, na faculdade, utilizo o
computador para fazer atividades de aula, acessar páginas na
internet e assim por diante.
Hoje em dia, os jovens estão muito ligados à tecnologia e
eles gostam disso. Usá-la pode despertar o interesse deles pela
matemática. Entretanto, o professor não tem uma formação
necessária para isso. Normalmente, ele trabalha 40 horas por
semana dentro da sala de aula. Às vezes, trabalha nos três períodos
do dia. Quando chega em casa, o professor tem que corrigir provas,
preparar sua aula e está cansado. Não existe tempo para novas
aprendizagens. Na Educação Básica, por exemplo, se utiliza muito
42
pouco a tecnologia. O motivo disso é o despreparo dos
professores. Eles não têm tempo para aprenderem a utilizar uma
ferramenta tecnológica. É complicado chegar na sala de aula e
utilizar algo, sem dominar aquilo. Se der algum problema, o
professor pode passar uma imagem negativa aos alunos. Porém,
conheço experiências boas com uso da tecnologia. Na disciplina de
Prática de Ensino da Matemática – PEM do curso de Licenciatura
em Matemática, aplicamos um projeto de ensino em que os alunos
tiveram que usar a sala de informática. Atualmente, estou fazendo o
Estágio Curricular Supervisionado III – ECS III e durante as
observações, notei que a professora utilizava com os alunos o
tablet. Em uma aula, ela pediu para os alunos fazerem o download
de um arquivo contendo as provas da Olimpíada Brasileira de
Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). Se fosse para imprimir,
seria um arquivo muito grande. Eles acabaram utilizando o tablet
para fazerem os exercícios. Às vezes, ela também utiliza com jogos.
Achei uma ideia bem legal. Eu também utilizaria com meus alunos.
Tenho dúvida sobre meu preparo para isso. Hoje, fazendo a
disciplina de Laboratório de Ensino de Matemática II – LEM II estou
aprendendo mais sobre o software Geogebra. Eu arriscaria em
preparar uma aula utilizando o Geogebra ou qualquer outro
programa que consiga aprender a usar. Não me arriscaria a fazer
isso sem ter o domínio do software e a certeza que daria certo. No
curso de Licenciatura em Matemática, utilizamos bastante o
computador e outras tecnologias como o quadro de giz. Como
professora, pretendo usar tecnologia em sala de aula. Para isso,
será algo que eu conheça e tenha o domínio. Em algumas escolas
municipais, os alunos receberam os tablets, e eles querem utilizá-lo.
Se eles têm isso disponível, é para ser usado. Vou procurar
maneiras de usá-lo e acabar motivando o interesse deles na aula de
matemática. A maior dificuldade é o tempo necessário para dominar
essa ferramenta. Em uma aula utilizando o computador, podem
surgir muitos problemas e o objetivo final não ser alcançado. Muito
tempo é perdido tentando consertar esses problemas... No
computador, os alunos acabam desviando a atenção para sites
como facebook, twitter... O professor pode acabar perdendo o
controle da turma.
Analiso que o uso de tecnologia na minha formação
acadêmica está bom. A quantidade que é utilizada é boa. Não
adianta só utilizar a tecnologia e deixar outras coisas de lado. Com
essa formação, acredito que tenho capacidade de buscar
informações e aprender a usar algo diferente. Tenho capacidade de
43
ir atrás e procurar. Caso contrário, minha formação estaria
falhando. Nesse caso, teria que focar mais o lado da tecnologia. No
momento, não sinto falta disso.
Seria interessante se algum professor da Universidade
conseguisse utilizar o celular durante as aulas, para fim de ensino.
Gostaria de conhecer uma aplicação para essa ferramenta no
ensino de matemática. Talvez usar algum programa ou aplicativo
que o celular suporte... Pensando bem, eu não deixaria meus
alunos utilizar. Ficaria difícil controlar esse uso durante uma prova,
por exemplo. Hoje, todos os dias aparecem alunos com alguma
nova tecnologia que você ainda não tem conhecimento para usar.
Isso vai crescer conforme o tempo. Há algum tempo, não tínhamos
smartphones e hoje quase todas as pessoas têm um. Não existia
tablet e hoje o governo já distribui nas escolas. Essa tendência vai
aumentar cada vez mais. Será um requisito para os professores
terem conhecimento dessas tecnologias para trabalharem nas
escolas. Eles vão ser cobrados cada vez mais. Falar sobre
tecnologia na formação inicial de professores é bem interessante. A
juventude com quem vamos trabalhar no Ensino Fundamental e
Médio gosta disso. É importante estudar sobre o assunto e aprender
como trabalhar com eles, como despertar neles um maior interesse,
principalmente porque Matemática desagrada muita gente.
44
2.3 MATHEUS CHARLES DAMASIO
Matheus está na terceira fase do curso de Licenciatura em
Matemática e está cursando a disciplina LEM II. Ele considera muito
bom o uso de tecnologia na sua formação até o momento. Segundo ele,
para se aproveitar o uso de tecnologia no ensino de matemática é preciso
investir nos recursos visuais.
Meu nome é Matheus Charles Damasio, tenho 19 anos e
sou natural de Joinville. O curso de Licenciatura em Matemática foi
minha segunda opção. Durante o Ensino Médio fiz o curso técnico
em Química. Meus pais esperavam que a minha escolha fosse a
faculdade de Engenharia Química, mas a área não me agradava.
Não recebi apoio deles para escolher minha primeira opção, que era
fazer Artes Cênicas. Acredito que você deve escolher fazer o que
gosta. Mesmo chateado por não poder fazer aquilo que eu gostava,
sempre achei a ideia de ser professor legal. A matéria que eu mais
me identificava no Ensino Médio era matemática, então optei pelo
curso de Licenciatura em Matemática oferecido em minha cidade
pela UDESC. Meus pais também se agradaram com a ideia. Hoje
tenho certeza que quero ser professor.
Entendo que tecnologia é alguma ferramenta da atualidade
que não necessariamente precisa ser algo eletrônico, mas alguma
invenção que tenha surgido para nos auxiliar em determinado
momento. Por exemplo, quando criaram o quadro de giz, o quadro
de giz era uma tecnologia daquela época. Relaciono tecnologia à
inovação, como o computador, celular e aplicativos. Hoje estamos
bem restritos a esse pensamento de computador e celular... a
tecnologia do momento. Sou voluntário numa Organização em que
precisamos nos comunicar constantemente para o andamento das
atividades. Então, durante o meu dia, faço uso constante de
tecnologia. Pela manhã, converso pelo aplicativo WhatsApp no
celular. A tarde envio e-mails para os outros e também utilizo o
computador de noite, para ouvir música e outras atividades. A ideia
de tecnologia como o lápis e papel também está presente no meu
dia a dia.
Atualmente, na minha formação, faço uso de tecnologia na
disciplina de Laboratório de Ensino de Matemática II – LEM II onde
estamos aprendendo a trabalhar com softwares. Também fiz uso de
tecnologia no Laboratório de Ensino de Matemática I – LEM I,
construindo objetos concretos de aprendizagem com uso de
45
cartolina, régua e tesoura, que dentro da minha concepção de
tecnologia são objetos criados para nos auxiliar. Às vezes, trabalhar
com novas tecnologia no ensino de matemática pode ser muito
difícil, principalmente pelo pensamento de que a Matemática só
pode ser ensinada pelo professor utilizando o quadro, o giz e os
alunos repassando o conteúdo no caderno. Não sou uma pessoa
criativa, daquelas que sabe inovar, mas adoro essa ideia de
inovação. Usar um software como o Geogebra para ensinar função,
por exemplo, é muito válido e ajuda no aprendizado. Um exemplo
disso foi a aula de Cálculo Diferencial e Integral II em que o
professor utilizou o software para ensinar sobre intercessão de
planos. Há pessoas que não conseguem abstrair ideias sem essa
visualização.
Concluí o Ensino Fundamental em escola pública e percebi
que na Educação Básica a tecnologia não é aproveitada. Não
tínhamos muito acesso a isso na minha escola. Tinha apenas um
equipamento de datashow para todos os professores usarem e era
preciso reservar uma sala para usá-lo. Isso dificultava planejar uma
apresentação, por exemplo. Usar a tecnologia sai da mesmice dos
professores, pois não é costume deles utilizá-la, então, na minha
escola não era aproveitado. Já o Ensino Médio e o curso Técnico
cursei em colégio particular e usávamos bastante recursos visuais.
Como professor, pretendo usar tecnologia para auxiliar a
aprendizagem em sala de aula. Para isso tenho algumas ideias, mas
ter ideia não significa que irá funcionar. Ainda tenho dúvidas se me
sinto preparado para isso. Por um lado, me sinto, porque temos uma
disciplina de Laboratório especificamente para essa preparação. Por
outro lado, preciso saber utilizar a tecnologia de forma correta e
medir quando é vantajoso usar. Não é válido usar o datashow para
apresentar uma definição que poderia estar escrita no quadro, por
exemplo. Acredito que para saber aproveitar a tecnologia no ensino
de matemática precisamos trabalhar com os recursos visuais.
Lembro quando estava no terceiro ano do Ensino Médio, estudando
os sólidos e tinha muita dificuldade de relacionar altura, aresta da
pirâmide e todos esses conceitos num desenho de duas dimensões.
Quando fiz o primeiro Laboratório de Ensino do curso de
Licenciatura em Matemática, entendi como era fácil distinguir esses
conceitos construindo uma pirâmide com palitos de churrasco. Acho
que isso também é usar a tecnologia em benefício do ensino, pois
os alunos participam da construção do artefato e enxergam o
abstrato se tornar concreto. No entanto, existem algumas
dificuldades para se trabalhar com tecnologia em sala de aula. Um
46
problema seria não saber controlar o seu uso e os alunos
acabarem perdendo o foco. É preciso saber medir quando se
tornará inoportuno... A questão da infraestrutura também é
importante. Os equipamentos eletrônicos precisam estar
funcionando para colocarmos em prática o que aprendemos.
Até o momento está muito bom o uso de tecnologia na
minha formação acadêmica. Entretanto, existem softwares que não
são abordados por serem pagos. Acharia interessante conhecer
esses softwares, pois podem existir acadêmicos interessados em
comprá-los para utilizar no futuro, em suas aulas.
Noto que as crianças nascidas hoje serão nossos alunos um
dia e eles já estão nascendo numa sociedade altamente tecnológica.
Hoje em dia, criança de sete anos já está jogando no computador ou
tem o próprio celular. Se não soubermos trabalhar com isso, eles
podem perder o interesse em aprender. Dez anos pode ser pouco
tempo para uma mudança no ensino, mas imagino que até o fim
desse período todos os alunos tenham um tablet que possam levar
para casa, colocar sobre a mesa e aquilo gerar um holograma...
Talvez seja um pouco utópico, mas a tecnologia é algo global e no
Brasil as coisas demoram para chegar, então, não sei dizer como
estaremos.
47
2.4 VILSON HERMES SCHROREDER
Vilson está na terceira fase do curso de Licenciatura em
Matemática e está cursando a disciplina LEM II. Segundo ele, todo seu
conhecimento sobre tecnologia no ensino de matemática decorre da sua
formação atual. Ele deseja colocar em prática as ideias que surgiram
desse aprendizado.
Meu nome é Vilson Hermes Schroreder, tenho 25 anos e
sou natural de Joinville. Escolhi o curso de Licenciatura em
Matemática porque achava interessante a forma como meus
professores ensinavam. Isso despertou meu interesse em ser
professor. Antes de fazer o curso pré-vestibular, trabalhava em uma
empresa de grande porte e não planejava fazer essa faculdade.
Hoje, pretendo ser professor.
Definir tecnologia é complicado. Normalmente, quando
ouvimos essa palavra, associamos a algo eletrônico. Acho que,
resumidamente, tecnologia é tudo que o homem criou para facilitar
sua vida de diversas maneiras. Relaciono tecnologia à eletrônica,
comunicação, atualização, informação e relacionamento. No meu
dia a dia faço uso de tecnologias como celular, computador, e-mail,
internet... Na minha formação acadêmica utilizo bastante o site
youtube para assistir videoaulas e estudar. Uso softwares, como o
Geogebra, e a internet para pesquisas gerais. Entretanto, não sou
usuário de aplicativos para celular, por exemplo, porque não possuo
o modelo smartphone. O trabalho com tecnologias no ensino de
matemática é uma excelente iniciativa para atrair a atenção dos
jovens. Atualmente, eles vivem num mundo digital. Como
professores, temos o desafio de unir a matemática a esse mundo.
Porém, culturalmente, tecnologia é para o entretenimento. Quando o
professor traz isso para sala de aula, precisa estar bem preparado.
Caso contrário, não alcançará o objetivo de ensinar. Na Educação
Básica o uso de tecnologia é inconsistente. Quando fiz o Estágio
Curricular Supervisionado II – ECS II, descobri que o professor de
matemática da escola utilizava apenas o livro didático para ensinar.
Ele não tinha interesse em usar o laboratório de informática e
trabalhar com softwares, por exemplo. Acredito que isso acontece
porque os professores estão presos ao sistema tradicional. É mais
cômodo apenas usar o livro.
Ainda não me sinto preparado para o trabalho com
tecnologias em sala de aulas. Na disciplina de Laboratório de Ensino
48
de Matemática II – LEM II trabalhamos bastante com essa
temática. Realizamos debates e abordamos questões sobre o uso
da tecnologia no ensino. Há muito o que estudar sobre o assunto.
Acho que seria necessária outra disciplina para aplicarmos essas
ideias. Também focamos no uso de tecnologia para o Ensino
Superior. Tenho receio em usar isso na Educação Básica porque
não sou usuário ativo dessas tecnologias como internet e as redes
sociais. Sei que nasci numa era influenciada pelas tecnologias, mas
tenho dúvidas se conseguiria acompanhar os alunos nisso. Para dar
certo, precisa existir um objetivo comum entre professor e aluno. O
professor tem que ter o objetivo de ensinar por meio daquilo e o
aluno querer aprender. É preciso uma conscientização das duas
partes.
No curso de Licenciatura em Matemática, tive experiências
com uso de tecnologia na disciplina de Cálculo Diferencial e Integral
usando o software Geogebra. Foi na Universidade que descobri a
potencialidade desses softwares para ensinar. A maior parte das
disciplinas não utiliza essas ferramentas. No geral, o uso da
tecnologia na minha formação é mediano. Há momentos que
utilizamos bastante. Em outros, muito pouco. No geral, tudo que
aprendi sobre tecnologias para o ensino foi no curso de Licenciatura
em Matemática. Utilizo ao dar aulas particulares e vejo como
melhoram os resultados. Como professor pretendo usar. Acredito
que planejar uma aula com esse objetivo é o desafio. É necessário
prever o tempo para realizar isso... Existe também a questão da
cultura. Os alunos utilizam tecnologia para entretenimento e não
percebem que esse uso pode ajudá-los a aprender algo.
Difícil imaginar o futuro da Educação. Acredito que, em dez
anos, não teremos grandes mudança. Teremos alguns professores
adeptos a tecnologia, mas continuaremos utilizando o livro didático.
Talvez, a escola não acompanhe esse avanço tecnológico. Estudar
sobre essa temática é interessante porque nos faz refletir sobre o
tipo de professor que queremos ser.
49
2.5 BRUNA CORSO
Bruna está na última fase do curso de Licenciatura em
Matemática, prestes a se formar. Ela afirma que pretende usar a
tecnologia para ensinar matemática. Segundo ela, pequenas ações
funcionam, mas tudo depende da força de vontade do professor.
Meu nome é Bruna Corso, tenho 20 anos e sou natural de
Chapecó. Escolhi fazer o curso de licenciatura em matemática pelo
exemplo que recebi da minha mãe, que é professora de matemática.
Tive a experiência de ser aluna dela e, desde então, todos os dias
ela me mostra um pouco de como é gratificante ensinar os alunos e
estar em sala de aula mesmo com tantos desafios que hoje
encontramos. Foi por isso que escolhi ser professora.
Entendo que tecnologia seja tudo o que está envolvido com
recursos tecnológicos, como o computador e a televisão, ou o que
aparece na mídia e que podemos utilizar também em sala de aula.
Quando ouço falar em tecnologia, lembro do celular, computador,
tablet, internet e rádio. Sempre utilizo tecnologia como o celular e o
computador. Durante minha formação no curso, utilizei tecnologia
em disciplinas como Laboratório de Ensino de Matemática II,
Metodologia de Pesquisa e em disciplinas de ensino de conteúdo de
Matemática que acabam usando tecnologia, como a disciplina de
Geometria Analítica, em que a professora fez uso do software
winplot na sala de aula, o que foi uma experiência bem legal porque
aumentou a possibilidade de visualização dos sólidos. Acho que o
trabalho com tecnologias no ensino de matemática, tanto em sala de
aula como professora, quanto na Universidade como aluna é um
grande desafio, pois acabamos não tendo muita formação para usála. Fazer uso é muito bacana com os alunos, pois como eles estão
em contato direto com ela no seu dia a dia, se torna legal interagir
com eles por meio do uso da tecnologia. Na Educação Básica, por
exemplo, faltam muitas coisas para que se tenha um aproveitamento
melhor. É muito fácil só distribuir os tablets para os professores da
rede pública, enquanto muitos, como minha mãe, não têm
conhecimento do uso de um tablet, nem mesmo o celular ela não
sabe usar. Primeiro deveria existir uma formação inicial para os
professores, para depois conseguir implantar isso em sala de aula...
Por mais que os alunos tenham facilidade para aprenderem com o
uso do tablet, o professor tem que estar formado para saber usá-lo.
50
Conheço experiências que dão certo com uso da tecnologia, como
acontece na escola onde trabalho pelo PIBID. A professora de
matemática pediu para os alunos baixarem a prova da OBMEP no
tablet para eles utilizarem em sala de aula e foi uma ideia bem legal.
Hoje estou no último semestre do curso e vejo que minha
formação tecnológica é precária. Talvez tenha faltado uma disciplina
específica que mostrasse quais são os campos que a gente pode,
em sala de aula, abranger com a tecnologia. Uma disciplina que
apresentasse, por exemplo, conteúdos em que podemos fazer uso
disso ou os softwares que a gente pode utilizar em sala de aula e
que é gratuito para os alunos. Existe também a questão da
infraestrutura, como ter acesso à internet na sala de aula e acesso
aos computadores. Como a moda do momento são os tablets,
gostaria de ter estudado um pouco sobre sua inserção em sala de
aula, até porque não tenho tablet e nem sei manusear um, então,
seria uma forma de aprender a utilizá-lo. Sinto-me mais ou menos
preparada para o trabalho com tecnologias, pois acredito que nunca
vamos estar preparados cem por cento. Às vezes temos o
conhecimento de algo, mas não é cem por cento daquilo. Ontem
mesmo, fui fazer a aplicação da minha pesquisa para o Trabalho de
Graduação e durante a aula alguns alunos apresentaram dúvidas
não previstas. Tem algumas coisas que a gente não espera... e vai
ser sempre assim, até com a tecnologia. Temos que saber bem, ter
bastante conhecimento daquilo, caso contrário os alunos chegarão
com dúvidas que não vamos saber responder. Na disciplina de
Prática de Ensino da Matemática, vivenciei uma experiência com
uso de tecnologia para fim de ensino. Escrevemos um projeto sobre
os impostos no Brasil. Durante a aplicação em uma turma do Ensino
Fundamental, os alunos deveriam pesquisar sobre os tipos de
impostos. Para isso, levamos os alunos até a sala de informática da
escola onde, divididos em grupos, eles escolheram um determinado
tipo de imposto e realizaram uma apresentação sobre o assunto.
Acabamos utilizando os computadores como forma de pesquisa e
multimídia para fazer a apresentação. Depois, aplicamos esse
projeto no PIBID também.
As dificuldades para fazer uso de tecnologias no ensino de
matemática variam muito de professor para professor. Há professor
que tem mais facilidade de usar a tecnologia e há professor que
não. No meu caso, uma dificuldade se relaciona com a própria
escola oferecer acesso à internet e ao computador, porque às vezes
tem computador, mas não funciona e por mais que eu tenha força
de vontade e tempo à disposição, o ambiente não ajuda. Dispor de
51
tempo também é uma dificuldade, pois um professor que tem
quarenta horas em sala de aula não dispõe de tempo para estudar
um determinado software e aplicar em sala de aula. Mesmo assim,
pretendo fazer uso de tecnologia como professora, inclusive esse
tema foi motivo de discussão em minha casa. Meus pais acreditam
que o uso de tecnologia para fins de ensino vai depender do
governo disponibilizar tempo aos professores. Eu digo que se a
gente for esperar pelo governo, nunca vamos fazer nada. Ficar de
braços cruzados e continuar nas aulas tradicionais não vai ajudar,
mas com poucas coisas conseguimos explicar um conteúdo de
forma diferente. Por exemplo, estou trabalhando o conteúdo de
equação do segundo grau e os alunos terão que montar uma forma
geométrica com duas folhas sulfites. Propor isso não dispõe de
tempo. Às vezes, estudar um pouco já supre o necessário.
Com esse crescente avanço tecnológico, acredito que o
ensino de matemática daqui a dez anos pode estar muito avançado,
mas isso vai depender dos professores. Nada acontece se os
professores não tiverem força de vontade.
52
2.6 MARCELO SÁVIO RAMOS
Marcelo está na última fase do curso de Licenciatura em
Matemática. Ele acredita que só a prática vai ensiná-lo a trabalhar com
tecnologias no ensino de matemática. Segundo ele, é necessário a
colaboração de todos os envolvidos no assunto, para que essa ideia
funcione.
Meu nome é Marcelo Sávio Ramos, tenho 30 anos e sou
natural de Joinville. Sempre gostei de calcular e resolver problemas
de matemática, mas nunca pensei em ser professor. Entrei no curso
de Licenciatura em Matemática e gostei. Hoje, pretendo ser
professor e exercer outras atividades.
Entendo que tecnologia é tudo que o homem inventa a seu
favor. Para seu benefício e benefício de outras pessoas.
Computador, livros, celular, tablet, internet e até a roda são
tecnologias. Durante o meu dia a dia, utilizo constantemente o
celular. No curso de Licenciatura em Matemática sempre usei
tecnologias como o computador e a internet. Acho importante o
trabalho com tecnologias no ensino de Matemática. No entanto, o
professor precisa saber utilizá-la de forma favorável para que ele
consiga ensinar e seu aluno aprender. É necessária uma troca de
saberes entre professor e aluno. Para isso, o professor deve
conhecer bem a ferramenta que vai utilizar. Muitas vezes, o uso de
tecnologia é realizado de forma errada. Na Educação Básica, por
exemplo, para usar o computador não existe uma regra. Isso
acontece porque o professor ainda não sabe trabalhar com isso.
Quando ele tiver esse conhecimento será diferente. Estou na última
fase do curso de Licenciatura em Matemática e ainda tenho dúvidas
sobre meu preparo para usar tecnologias no ensino de matemática.
Gostaria de ter usado o computador durante meu estágio curricular
em uma turma do Ensino Médio. Nos Estágios Curriculares não
tivemos tempo suficiente para vivenciar essas experiências. Ainda
não tive oportunidade de colocar em prática minhas ideias sobre
isso. Vou aprendendo aos poucos, na prática.
Como acadêmico do curso de Licenciatura em Matemática,
usei tecnologias nas disciplinas de Laboratório de Ensino de
Matemática II – LEM II e Estatística. Na disciplina de Estatística, a
professora incentivava o uso de softwares, e usávamos bastante.
Como professor, tenho a intenção de usar tecnologias em sala de
aula porque sempre gostei de computação. Sei que só vou aprender
53
na prática. Infelizmente existem algumas dificuldades para isso. O
investimento do maquinário e na profissionalização do professor são
problemas que encontramos... A dimensão da internet é muito
grande e os alunos se distraem facilmente com uso do computador.
Essa ferramenta vai muito além do que conhecemos, por isso é
preciso definir objetivos na aula.
O uso de tecnologia na minha formação foi bom. Acredito
que há sempre o que melhorar. Atualmente, dedicando-me ao
Trabalho de Conclusão do Curso, notei a pouca experiência que tive
com aplicação da tecnologia. Conhecemos muito a Matemática, mas
faltou a aplicação desse conhecimento. Imagino que seria
importante se os alunos pudessem participar mais dessa aplicação e
não apenas utilizá-la pronta. Fazer o aluno pensar, construir e
resolver os problemas com uso da tecnologia seria interessante. É
preciso inovar.
Cada vez mais o professor precisa estar preparado para os
desafios futuros da profissão. Caso contrário, ele não conseguirá
ensinar. Os alunos vão estar dominados pela tecnologia dos
celulares, tablets... O professor não receberá atenção. Não haverá
interesse em aprender matemática. O professor precisar estar
preparado para lidar com a tecnologia e os alunos em sala de aula.
Esse preparo deve começar na formação inicial e continuar depois.
O governo deveria disponibilizar treinamentos para capacitar os
profissionais. O licenciado não deve parar de estudar depois do fim
da faculdade. Acredito no potencial da formação continuada. É
importante estudar sobre tecnologia na formação inicial dos
professores de matemática porque não podemos fugir dessa
realidade. Acredito que para isso funcionar, é preciso a colaboração
de todos. A colaboração da escola, dos professores, dos alunos, da
cidade e do governo. Todos precisam ajudar. Só assim, acredito que
irá dar certo.
54
2.7 RAIANE LEMKE
Raiane Lemke está na última fase do curso de Licenciatura em
Matemática. Segundo ela, é importante o uso de tecnologia no ensino da
matemática porque não se deve ignorar a influência da tecnologia sobre
os estudantes. Ela acredita que a formação tecnológica do professor de
matemática depende do interesse do licenciando em buscar esse
conhecimento.
Meu nome é Raiane Lemke, tenho 21 anos e sou natural de
Joinville. Escolhi fazer o curso de Licenciatura em Matemática por
ser um curso gratuito, oferecido na minha cidade e com pouca
concorrência de vagas. Gostar da matemática também favoreceu
minha escolha. Hoje, estou na última fase do curso e pretendo ser
professora.
Entendo que tecnologia é um instrumento ou ferramenta que
não necessariamente resolva um problema, mas tenha a função de
ajudar. São ferramentas que o homem inventou para facilitar as
práticas do seu dia a dia. Em algumas situações, por exemplo, o
lápis e a calculadora são tecnologias. Quando penso em tecnologia
relaciono à praticidade, agilidade, amplitude, invenção e
conhecimento. No meu dia a dia, uso tecnologias como o
computador, celular e a calculadora. É importante o trabalho com
tecnologias no ensino de matemática porque não podemos ignorar o
domínio que a tecnologia exerce sobre os alunos hoje em dia. A
maioria dos estudantes tem seu próprio smartphone. Temos que
saber lidar com essa realidade. Não podemos deixar de usar. No
Ensino Fundamental e Médio, por exemplo, não vejo acontecer esse
aproveitamento. O que acontece, muitas vezes, é que os alunos são
levados ao laboratório de informática para usarem o computador e
fazerem atividades que poderiam ser feitas utilizando o quadro de
giz. Quando fiz a Educação Básica, não usei tecnologias como os
softwares que conheço hoje. A calculadora foi minha tecnologia da
época. No curso de Licenciatura em Matemática, conheço colegas
que usaram o software Geogebra durante o Estágio Curricular para
ensinar o conteúdo de função afim.
Avalio que o uso de tecnologia na minha formação
acadêmica foi bom. Já na primeira fase do curso tive contato com o
software Geogebra na disciplina de Matemática Básica - MBA.
Assim que conheci a ferramenta, achei incrível. É um software útil
para ensinar vários conteúdos de matemática. Na terceira fase do
55
curso, tive a disciplina de Laboratório de Ensino de Matemática II
– LEM II direcionada ao trabalho com tecnologia. Acho essa
disciplina importante porque conhecemos ferramentas úteis para
ensinar matemática. Aprendemos sobre softwares como o Winplot,
SuperLogo, Maple...
Na minha opinião, o Geogebra é uma
ferramenta que supre várias necessidades. Na questão da
visualização, é uma ferramenta muito útil. Posso dizer que aprendi
muito sobre o Geogebra. Como professora, pretendo trabalhar com
softwares gratuitos. Esses podemos aproveitar. Talvez existam
softwares que não foram abordados, mas os que conheci foram
suficientes.
Um bom desempenho com uso de tecnologias no ensino de
matemática depende de outros fatores além da formação do
professor. A escola precisa estar bem equipada com essas
ferramentas. A quantidade de computadores precisa ser suficiente
para atender todos os alunos. Esse equipamento deve estar
funcionando corretamente e, também, o professor precisa saber
usá-lo. O sistema operacional dos computadores também é
importante. Acho que o sistema Ubuntu não favorece o uso de
softwares. É um sistema pouco conhecido se comparado ao sistema
operacional Windows.
Acredito que grande parte da formação tecnológica do
professor de matemática depende da vontade do licenciando em
buscar esse conhecimento. Por exemplo, conheci o Geogebra na
primeira fase do curso. Nas disciplinas seguintes, como Cálculo
Diferencial e Integral e Geometria Analítica, utilizei bastante o
software em meus estudos. Assim, aprendi alguns comandos dos
softwares para benefício próprio. Temos que buscar esse
conhecimento.
Algumas pessoas dizem que a Escola vai enfraquecer com
o tempo. Esse pensamento é decorrente da facilidade em se obter
respostas na internet. Daqui a dez anos, se não inventarem uma
nova tecnologia, espero que as escolas estejam melhor
informatizadas. Infelizmente, imagino que vamos continuar com
essas características do ensino tradicional, com professor expondo
conteúdos e o aluno recebendo. Essa metodologia é antiga e
predomina até hoje.
56
57
3 NARRATIVA CONSTITUÍDA E DISCUSSÃO PROVOCADA:
CONCEPÇÕES DE TECNOLOGIA E PRÁTICA DOCENTE
3.1 PROFESSORA IVANETE ZUCHI SIPLE
No primeiro semestre de 2015, a disciplina Laboratório de
Ensino de Matemática II é ministrada pela professora Ivanete Zuchi
Siple, Licenciada em Matemática, Mestra e doutora em Engenharia de
Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina e pós-doutora em
Educação Matemática pelo Institut National de Recherche Pédagogique,
na França. Professora do Departamento de Matemática da UDESC
desde 2002, Ivanete integrou a comissão elaboradora do PPC do curso
de Licenciatura em Matemática.
Segundo ela, definir tecnologia não é uma tarefa fácil, pois
existem diferentes pontos de vista sobre o assunto. Ela prefere dizer que,
tecnologia é a união entre técnica e ciência. Acredita que, às vezes,
existe uma ligação que dificulta separar o que é tecnologia do que é
conhecimento10.
Na visão estritamente clássica, tecnologia é uma
ferramenta que serve para resolver um determinado
problema. Mas, essa definição, não se aplica a nossa
atualidade. Hoje, prefiro dizer que a tecnologia é um elo
entre a técnica e a ciência. Algumas vezes, é utilizada
como ferramenta, mas, pode ser uma ciência, que produz
novos conhecimentos.
Ao ser questionada sobre a importância do uso de tecnologia no
ensino da matemática, ela defende:
A importância da tecnologia está extremamente
associada a compreensão do objeto matemático que
vamos ensinar. Nem todas as aulas são potencializadas
pelo uso da tecnologia. Devemos usá-la quando esta, for
a melhor forma de explorar aquele objeto. Uma forma de
ensinar que, sem ela, não seria possível.
Dizendo-se fascinada pela temática do uso de tecnologias no
10
No apêndice A, o leitor encontrará a íntegra dessa entrevista.
58
ensino, Ivanete se dedica aos estudos da área desde o inicio da sua
graduação, na década de noventa, quando trabalhava com Sistemas
Especialistas11 para aplicação no ensino de matemática. Manteve essa
linha de pesquisa ao longo do mestrado e doutorado, e atualmente se
denomina “extremamente apaixonada” por essa temática. Boa parte
dessa motivação se deve a sua proximidade com a pesquisa. Ela
justifica:
Minha formação inicial, em geral, foi bem frágil no que diz
respeito ao uso de tecnologia. A maior parte dessa
formação foi baseada nas velhas tecnologias do quadro
de giz, livros e apostilas. Tinha pouco espaço para
debater o uso de tecnologias para o ensino de
matemática na nossa prática docente.
Além do Laboratório de Ensino de Matemática II, Ivanete
leciona outras disciplinas vinculadas ao Departamento de Matemática da
UDESC, como Cálculo Diferencial e Integral II (CDI II) e Geometria
Analítica (GAN). Ela lamenta que outras disciplinas não apresentem
fácil acesso a utilização das tecnologias em sala de aula. Contudo, ela
não deixa de utilizar ferramentas que favoreçam o seu ensino e a
aprendizado de seu alunos. A professora utiliza softwares como o
Geogebra e Winplot, porque acredita ser fundamental o trabalho com
ferramentas de geometria dinâmica, pois possibilitam explorar as
conexões entre os diferentes tipos de representações de um dado objeto
matemático. Da mesma forma que no Laboratório de Ensino de
Matemática, ela faz uso da plataforma Moodle, em todas as suas
disciplinas.
O Moodle é uma ferramenta tecnológica que serve para
trabalhar em modo de aprendizagem híbrida, uma
aprendizagem que não acontece somente na sala de
aula, mas em qualquer outro espaço em que os alunos
estejam conectados comigo.
No primeiro semestre de 2015, a turma do Laboratório de
Ensino de Matemática II é composta de 19 (dezenove) alunos. Ao
11
Sistemas Especialistas são programas computacionais que simulam o
raciocínio humano e solucionam problemas, semelhante a um especialista.
59
responder sobre o perfil que deseja agregar a esses alunos, Ivanete
avalia:
Os acadêmicos do Laboratório de Ensino de Matemática
são estudantes em formação inicial, com diferentes
pontos de vistas. Eles têm muita motivação para
aprenderem, de forma crítica, quando, como e por que
usar a tecnologia. Acredito que, até o final do curso,
esses alunos estarão bem preparados para responderem
essas questões.
A professora relata que inicialmente os alunos não tinham o
hábito da leitura. Não estavam habituados a utilizarem uma ferramenta
como o Moodle, para exporem suas ideias e se posicionarem sobre um
assunto, por exemplo.
O sistema de avaliação tradicional é o sistema que
conhecemos e com o qual estamos habituados. O que é
novo sempre traz algumas rupturas e frustrações. No
começo, os alunos não participavam porque não tinham
esse hábito de se posicionarem, mostrarem sua opinião,
lerem questões relacionadas ao conteúdo.
Segundo Ivanete, o Laboratório de Ensino II não contempla
toda formação tecnológica do professor de matemática. Muito dessa
formação recebe a influência do professor que está ministrando a
disciplina, do que ele entende por tecnologia no ensino de matemática.
Sobre a amplitude dessa formação, a professora descreve que trabalha
bastante com as possibilidades do uso de determinada ferramenta no
ensino, propondo ideias e explorando sua potencialidade.
Trabalho explorando as ferramentas e propondo
atividades que podem ser realizadas usando essas
ferramentas. Espero também que eles não sejam
usuários no sentido de conhecer, mas no sentido de
dominar a ferramenta. A tecnologia pode ajudá-los na
formação profissional, mas também auxiliá-los nas
disciplinas específicas do curso, permitindo um
aprendizado em paralelo.
60
Segundo ela, a ementa da disciplina é ampla. Isso significa
que, não há uma exigência quanto as tecnologias que devem ou não
serem abordadas. Se apresentasse uma carga horária de estudos maior,
ela diz que inseriria no currículo, o trabalho com modelagem de
materiais para a impressora 3D. É um tema recente no curso, que requer
tempo de dedicação, tanto da professora, quanto de seus alunos. Um
tempo que excederia, às 60 (sessenta) horas da disciplina.
Como professora, Ivanete diz que para usar tecnologia é preciso
motivação em aprender. Essas ferramentas mudam com frequência e o
que é novidade hoje, amanhã deixa de ser. Esse fato, é uma das
dificuldades que encontramos ao trabalhar com tecnologias no ensino de
matemática. A seguir, apresentamos uma relação das principais
dificuldades para essa prática, segundo a professora.
O tempo
O tempo de aprendizagem técnica que você leva para
dominar a ferramenta é um tempo consideravelmente
alto. Quando se consegue aprender, já pode existir uma
nova tecnologia, com novas funções.
Domínio do conteúdo
Um software funciona como uma caixa preta. Ele recebe
os comandos fornecidos pelo usuário. Se você não tiver o
domínio do conteúdo matemático e fornecer informações
incorretas ao programa, ele não responderá de modo
satisfatório.
Formação continuada
Devemos estar sempre nos atualizando, sempre em
formação; é uma formação continuada. Nunca podemos
supor que dominamos totalmente uma tecnologia. Você
descobrirá que isso não é verdade.
Limitação
As tecnologias ainda estão guardadas dentro do armário.
Na sala de aula, por exemplo, não tenho uma boa
61
conexão de internet. Quando vou ao laboratório, sou eu
que preciso instalar o projetor. Muitas vezes, o professor
ou o aluno desistem de usar porque o trabalho para usar
é tanto que preferem escolher a velha tecnologia
Ivanete enfatiza que, não é apenas no Laboratório de Ensino de
Matemática que se trabalha a questão do uso de tecnologia em sala de
aula. As disciplinas especificas do curso, e as próprias da área
pedagógica, lidam bem com a questão do uso da tecnologia. Ela conclui:
A formação do nosso aluno é ampla. Ela envolve diversas
temáticas, tanto para explorar, como para refletir e
buscar. Nosso aluno sai bem formado. Comparando com
a minha formação, os alunos do curso hoje estão muitos
anos à frente. O currículo está bastante forte nesse
aspecto. É lógico que sempre existem coisas que podem
ser melhoradas. A questão é que sempre temos que
estar em formação continuada, tanto alunos como
professores. Assim poderemos direcionar e orientar
nossos alunos da melhor forma possível.
62
63
4 REFLEXÕES SOBRE AS NARRATIVAS E CONCEPÇÕES
Ao analisar as narrativas constituídas nesta pesquisa, observei
alguns pontos em comum na fala dos entrevistados. Acerca das suas
concepções de tecnologia, os estudantes do curso do Licenciatura em
Matemática, apresentam as seguintes falas:
Estudantes que estão cursando a disciplina LEM II
[...] tudo o que você tem de novo, que você pode usar para fazer
com que os alunos tenham uma melhor compreensão do que
você está falando. Fora da sala de aula, as pessoas já têm uma
visão diferente do que é tecnologia e vincula a qualquer
aparelho eletrônico.
[...] dentro da sala de aula, tecnologia é tudo que pode auxiliar
na aprendizagem dos estudantes. No dia a dia tecnologia é tudo
que pode nos auxiliar a ter uma vida melhor.
[...] alguma ferramenta da atualidade que não necessariamente
precisa ser algo eletrônico, mas alguma invenção que tenha
surgido para nos auxiliar em determinado momento.
[...] é tudo que o homem criou para facilitar sua vida de diversas
maneiras.
Estudantes que já cursaram a disciplina LEM II
[...] tudo o que está envolvido com recursos tecnológicos, como
o computador e a televisão, ou o que aparece na mídia e que
podemos utilizar também em sala de aula.
São ferramentas que o homem inventou para facilitar as práticas
do seu dia a dia.
[...] é tudo que o homem inventa a seu favor. Para seu benefício
e benefício de outras pessoas.
64
De modo geral, ainda que os entrevistados sejam de fases
diferentes do curso, as concepções de tecnologia apresentam pontos em
comum. Argumentos referentes à criação e invenção do homem foram
os mais citados. Foram constatadas respostas com o predomínio de
diferentes classificações. Alguns alunos escolheram apresentar sua
concepção de tecnologia para dentro e fora da sala de aula. Alguns
fatores justificam essa distinção. Um deles, é a temática do trabalho.
Apresentar para os acadêmicos nossa proposta de investigação, dentro
do curso de Licenciatura em Matemática pode ter influenciado a direção
das suas respostas. De outro modo, seria a própria colocação do
entrevistado, como estudante de licenciatura. Das duas formas, os
resultados mostram que os acadêmicos têm uma concepção ampla do
que é tecnologia. Notamos que, em suas falas, predominaram os
aspectos característicos.
Dentro de suas concepções, alguns acadêmicos indicaram que
tecnologia não é algo recente. Segundo eles, ferramentas como o quadro
de giz, lápis, e a calculadora são tecnologias criadas em outra época.
Isso mostra que eles tendem a diferenciar as tecnologias das novas
tecnologias, termo referenciado por Kenski em sua obra “Educação e
Tecnologias”. Essa distinção foi firmada pela professora Ivanete em sua
entrevista.
Notamos também que, para os estudantes que já cursaram LEM
II e estão encerrando o curso, existe uma diferença de concepções,
quanto à finalidade da tecnologia. Para Bruna, tecnologia refere-se a
recursos tecnológicos e meios de comunicação social. Marcelo acredita
que a tecnologia tenha finalidade de atender as práticas cotidianas. Já
Raiane entende que ela tem a finalidade de auxiliar o homem.
Para os alunos que estão cursando LEM II, as recentes aulas
disciplina trouxeram influência em suas concepções. Ao ser
entrevistada, professora Ivanete comenta que questões como essas
abordadas na entrevista são também debatidas durante as aulas de LEM
II. Nesse contexto, entendemos que definir tecnologia é subjetivo e
envolve as experiências individuais do acadêmico com tudo que ele
conhece por tecnologia.
Ao solicitar que os entrevistados citassem cinco palavras que,
eles relacionassem à tecnologia, observamos que:



Três estudantes atribuíram características organizacionais.
Dois estudantes listaram ferramentas.
Dois estudantes caracterizaram e exemplificaram a tecnologia.
65
No quadro a seguir, apresentamos a relação das palavras
mencionadas pelos entrevistados.
Tabela 3 – Palavras que os entrevistados relacionam à tecnologia.
Colaborador
Características
organizacionais
Ferramentas
tecnológicas
Bruna
-
Celular, computador,
tablet, internet e rádio
Marcos
Modernidade,
atualização, facilidade,
aperfeiçoamento e
conhecimento
-
Mariana
Globalização, informática
Celular, tablet e carro
Marcelo
-
Computador, livros,
celular, tablet,
internet e a roda
Matheus
Inovação
Computador, celular e
aplicativos
Raiane
Praticidade, agilidade,
amplitude, invenção e
conhecimento
-
Vilson
Eletrônica, comunicação,
atualização, informação e
relacionamento.
-
Fonte: produção da própria autora
A maior parte das ferramentas relacionadas são tecnologias que
os estudantes também descreveram utilizarem no seu dia a dia.
Os entrevistados reconhecem que o uso da tecnologia no ensino
de matemática é eficiente e que deve ser incluído na prática docente.
Segundo eles, a tecnologia é importante porque dá movimento,
proporciona um conhecimento maior, desperta o interesse dos alunos,
ajuda no aprendizado, melhora a interação com os alunos e atrai a
atenção. De fato, os estudantes mostraram ter consciência da tecnologia
66
como algo favorável ao ensino, o que os motiva a querer usá-la na sua
prática docente.
Os estudantes ainda indicaram que o uso de tecnologia na
Educação Básica não acontece de forma apropriada. Eles descrevem
algumas dificuldades que se apresentam, ao sugerir essa prática.
Listamos abaixo, uma síntese dos principais problemas mencionados
pelos entrevistados:









A falta de conscientização sobre a importância da tecnologia
A falta de conhecimento em abordar a tecnologia
A falta de tempo disponível para o trabalho com tecnologia
O pouco investimento do maquinário
O desinteresse dos professores em buscar novos conhecimentos
O comodismo do ensino tradicional
O desinteresse dos alunos em aprender
A falta de conscientização dos alunos sobre o uso de tecnologia
em sala de aula
O pouco incentivo à profissionalização dos professores
Com efeito, alguns destes problemas foram destacados pela
professora Ivanete em sua entrevista. Para completar, alguns acadêmicos
relataram sobre o uso equivocado da tecnologia no ensino de
matemática: quando o professor não a utiliza de forma significativa.
Todos os acadêmicos entrevistados afirmaram usar a tecnologia
na sua formação acadêmica. A disciplina de Laboratório de Ensino de
Matemática II foi citada como a principal responsável por essa prática.
Disciplinas como Geometria Analítica e Calculo Diferencial e Integral
também foram lembradas em alguns casos, por fazerem uso dos
softwares de geometria dinâmica durante as aulas. Disciplinas que
usaram o computador no processo de desenvolvimento das suas
atividades como Metodologia de Pesquisa, Probabilidade e Estatística e
Prática de Ensino da Matemática foram relacionadas como aquelas que
abordaram a tecnologia dentro da suas concepções. O uso adequado da
plataforma de aprendizagem virtual Moodle foi questionado.
É importante observar que, as diretrizes curriculares nacionais
do curso de Matemática expõem a necessidade pela familiarização do
licenciando com as tecnologias de ensino desde o início da sua
formação. Deve ocorrer também uma identificação com outras
tecnologias que possam contribuir para o ensino da matemática. Sendo
assim, plataformas de aprendizagem virtual como o Moodle beneficiam
67
o estudo extraclasse. O Moodle é utilizado em diversos cursos da
UDESC para integrar uma aprendizagem fora da sala de aula. O ensino
a distância exige do aluno sua participação ativa nas atividades que
acontecem no ambiente virtual. O curso que utiliza essa plataforma para
complementar o conteúdo, acender debates, sanar dúvidas e demais
atividades extraclasse exige do acadêmico um comprometimento maior
com a disciplina. Uma obrigação que vai além da presença em sala de
aula. Conforme Ivanete, quem está acomodado ao sistema tradicional de
ensino não tem o hábito de utilizar uma ferramenta com essa finalidade,
acaba insatisfeito. Práticas como esta favorecem a relação do
licenciando com a tecnologia. Desde cedo, ele se identifica com o
trabalho em ambientes virtuais.
Compete aqui destacar também a importância do uso de
ferramentas tecnológicas em disciplinas especificas do curso de
Licenciatura em Matemática. Bittar (2006), membro do GT6, destaca a
importância do uso de softwares matemáticos em sala de aula:
A utilização adequada de um software pode
permitir
uma
melhor
compreensão
do
funcionamento cognitivo do aluno, favorecendo a
individualização
da
aprendizagem
e
desenvolvendo a autonomia do estudante, o que é
fundamental para que a aprendizagem seja
significativa. (BITTAR, 2006, p.2)
Os estudantes relataram ter essa percepção eficaz da tecnologia
no ensino de Matemática. Fatos assim, ressaltam o que Ivanete descreve
em sua narrativa:
Mesmo que eu não tenha, naquele momento, um
ambiente rodeado pelas tecnologias ideais, a proposta de
semear e incentivar os alunos a se manterem conectados
e utilizá-la em sala de aula faz com que os alunos a
utilizem também fora dela e procurem por soluções
tecnológicas.
Entendemos que, o estudante de licenciatura que vivencia a
potencialidade da tecnologia na sua aprendizagem individual
desenvolverá o conhecimento da tecnologia como ferramenta de ensino
68
para sua prática docente. O trecho a seguir, descreve um pouco sobre
a relevância de experiências e modelos na formação docente.
O exercício de qualquer profissão é prático, no
sentido de que se trata de aprender a fazer “algo”
ou “ação”. A profissão do professor também é
prática. E o modo de aprender a profissão,
conforme a perspectiva da imitação, será a partir
da observação, imitação, reprodução e, às vezes
reelaboração dos modelos existentes na prática
consagrados como bons. [...] Nesse processo
escolhem, separam aquilo que consideram
adequado, acrescentam novos modos, adaptandose aos contextos nos quais se encontram. Para isso
lançam mão de suas experiências e dos saberes
que adquiriram. (PIMENTA; LIMA, 2012, p. 37)
Ao realizarem uma análise subjetiva sobre a formação
tecnológica do curso de Licenciatura em Matemática, as opiniões
divergiram. As respostas variaram entre: muito bom, bom, regular e
ruim. Ainda que todos afirmem ter a intenção de usar tecnologias, as
inseguranças dessa prática influenciaram suas opiniões quanto ao seu
preparo para isso. Alguns acadêmicos disseram sentir falta de vivenciar
situações práticas com uso da tecnologia, nas quais estivessem
envolvidos como educadores. Outros têm certeza que só aprenderão na
prática o que poderá ou não funcionar. Nesse contexto, a aprendizagem
autônoma foi defendida. Alguns entrevistados avaliam que sua formação
tecnológica garante o conhecimento necessário para aprender de forma
independente. Nessas perspectivas do “saber fazer”, o trecho descrito
por Pimenta e Lima (2012) apresenta o entendimento da prática,
presente na formação de professores:
Um curso de formação estará dando conta do
aspecto prático da profissão à medida que
possibilite
o
treinamento em situações
experimentais de determinadas habilidades
consideradas, a priori, como necessárias ao bom
desempenho docente. (PIMENTA; LIMA, 2012,
p. 38)
Ao responderem se sentiam-se preparados para a prática com
tecnologias, alguns estudantes apresentaram a incerteza dos fatos,
enquanto outros consideram-se aptos para a atividade.
69
Por fim, os entrevistados avaliaram o não uso da tecnologia
no ensino como uma causa negativa para o futuro da Educação. Eles
apresentaram uma visão desiludida do sistema atual de ensino e
incumbem ao professor, a responsabilidade pela mudança.
70
71
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho de pesquisa contribuiu para conhecermos as
diferentes realidades dos estudantes do curso de Licenciatura em
Matemática da UDESC. A proposta de apresentar as entrevistas
realizadas com acadêmicos em formação expôs as concepções,
inseguranças e medos acerca do tema, revelando diferentes pontos de
vista de nossos futuros educadores. Entrevistar uma professora
envolvida com o tema possibilitou a associação de informações e o
entendimento dessa realidade. As narrativas permitiram a interpretação
dos fatos que constituíram esta pesquisa.
Desenvolver este trabalho foi importante para minha formação
profissional como professora de matemática, pois me proporcionou a
gratificante experiência de trabalhar com uma temática desafiadora, com
a qual me identifico desde o início da minha formação. O uso de
tecnologias no ensino da matemática continua sendo o centro de
pesquisas no Brasil e afora. A exemplo do GT6 da SBEM, este trabalho
buscou compor as pesquisas que abordam a relação de tecnologias com
a Educação Matemática. Para isso, apresentamos um panorama acerca
das concepções de tecnologias de pessoas que representam os futuros
professores de matemática em nossa sociedade. Este cenário, serviu para
conhecermos as expectativas desses estudantes dentro de nosso curso e
avaliarmos a forma como se relacionam os fatos.
No decorrer deste trabalho, algumas questões foram levantadas
como o processo da prática com tecnologias, as limitações da Educação
Básica, as dificuldades existentes e a conscientização sobre o tema. Tais
questões trazem importantes discussões que poderão vir a ser debatidas
e aprofundadas em futuros trabalhos
Para encerrar, concluímos que é preciso reconhecer a tecnologia
como um tema atual, que deve ser discutido e aprofundado na formação
docente. A profissionalização do professor de matemática para o
trabalho com tecnologias depende de fatores que associamos ao
conhecimento pedagógico, matemático, instrumental e prático. É preciso
continuar investigando as causas que originam esses saberes. Esta
pesquisa oportunizou essa consciência, a qual pretendo levar adiante.
72
73
REFERÊNCIAS
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SAMPAIO, M. N.; LEITE, L. L. Alfabetização tecnológica do
professor de matemática. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999
75
APÊNDICES
76
77
APÊNDICE A
Íntegra da entrevista com Ivanete Zuchi Siple
ENTREVISTA COM IVANETE ZUCHI SIPLE
04/05/2015 HORA: 15:40 SALA 13 DMAT
Sou professora do departamento da Matemática da UDESC
desde 2002 e atuo no curso de Licenciatura em Matemática desde o
início de suas atividades. Quando fiz o curso Licenciatura em
Matemática na UFSC, tive a oportunidade de trabalhar em um Grupo de
Estudos de Informática Aplicada à Aprendizagem MatemáticaGEIAAM. Era um projeto ligado à área de ensino de matemática e seu
principal foco era o uso de tecnologia no ensino de matemática. Então,
desde a década de noventa, ainda durante o curso de graduação, comecei
a trabalhar com pesquisas de iniciação cientifica na área de ensino de
matemática usando tecnologia. Foi um tema que gostei muito, me
fascinou bastante, com o qual trabalhei durante todo o tempo da minha
graduação, desde a segunda fase até o final do meu curso. Na época,
usávamos muito sistemas especialistas, que era uma ideia bem atual para
aplicação no ensino de matemática. Usávamos a ferramenta Kappa para
implementar pequenos protótipos de sistemas especialistas para o ensino
de matemática. Sempre segui essa linha temática. Na época, o meu
trabalho de graduação de curso foi sobre tecnologias no ensino de
matemática. Quando entrei no mestrado, continuei o trabalho com a
mesma professora do Departamento de Matemática, que atuava na PósGraduação da Engenharia. Minha temática foi o ensino da matemática
com tecnologias. No doutorado trabalhei com o ensino de cálculo e
tecnologias. É uma temática que, no decorrer dos anos, esteve presente
no meu trabalho e sempre me seduziu. Sinto-me extremamente
apaixonada por esse foco de pesquisa.
Definir o que é tecnologia é bastante complexo. É uma pergunta
que sempre faço aos meus alunos da disciplina de Laboratório de Ensino
de Matemática II: “o que vocês acham que é tecnologia?” Sempre digo
que responder essa pergunta não é uma tarefa fácil, porque há muitos
pontos de vista diferenciados sobre o que é tecnologia. Se pensarmos em
uma visão estritamente clássica, tecnologia é uma ferramenta que serve
para resolver um determinado problema. Mas, essa definição não se
aplica a nossa atualidade. Hoje, prefiro dizer que a tecnologia é um elo
78
entre a técnica e a ciência. Algumas vezes, é utilizada como
ferramenta, mas pode ser uma ciência que produz novos conhecimentos.
Muitas vezes, existe uma simbiose, o que torna difícil diferenciar o que
é tecnologia do que é conhecimento. A tecnologia também faz com que
se produza novos conhecimentos. Então, escolho dizer que tecnologia é
um elo entre a ciência e a técnica.
Acredito que utilizo tecnologia a todo minuto no meu dia a dia.
Muitas vezes achamos que algo não é uma tecnologia, mas quando uso
um lápis, por exemplo, estou usando tecnologia. Acho que fazemos uso
da tecnologia o tempo todo; até usando a famosa tecnologia do quadro
de giz. A maioria das pessoas entende tecnologia como aquilo que é
inovação, que está conectado, que está plugado. Isso é a visão moderna
do que é tecnologia. Não podemos esquecer de outras tecnologias como
cadeira, mesa, lápis, giz... Se pensarmos na confecção de uma caneta,
qual o processo de engenharia que foi utilizado para que essa caneta
funcionasse? Então, é uma ferramenta tecnológica. Podemos dizer que
nossa vida está rodeada por essas tecnologias. Celulares, tecnologias
móveis, internet... Faço uso diário dessas tecnologias. Quando penso em
tecnologia relaciono à ciência, ferramenta, convergência, oportunidade e
dinâmica.
Fiz muito uso de tecnologia quando participei da iniciação
científica na graduação porque era um tópico que estava muito atrelado
à linha de pesquisa que estava investigando. Então, programei bastante
na época de graduação para implementar pequenos protótipos de
sistemas especialistas para o ensino de matemática. Porém minha
formação inicial, em geral, foi bem frágil no que diz respeito ao uso de
tecnologia. A maior parte dessa formação foi baseada nas velhas
tecnologias do quadro de giz, livros e apostilas. Tinha pouco espaço
para debater o uso de tecnologias para o ensino de matemática na nossa
prática docente. Como eu poderia potencializar o uso da tecnologia
existente naquela época para ensinar matemática? Isso foi muito pouco
discutido e muito pouco utilizado nas aulas. A minha bagagem de
conhecimento partiu mais da pesquisa do que da minha formação de
ensino na licenciatura.
Hoje, um aluno me disse na sala: “professora, lendo todos esses
textos que colocam ênfase na questão do uso da tecnologia, me
questiono se para ser um bom professor eu preciso usar tecnologia”. Na
minha opinião, a importância da tecnologia está extremamente associada
à compreensão do objeto matemático que vamos ensinar. Nem todas as
aulas são potencializadas pelo uso da tecnologia. Devemos usá-la
79
quando esta for a melhor forma de explorar aquele objeto. Uma forma
de ensinar que, sem ela, não seria possível. Por exemplo, a visualização
tridimensional. Às vezes, se não usarmos um recurso tecnológico, como
um software de geometria dinâmica, fica difícil conseguir fazer aquela
representação do campo algébrico para o campo geométrico. A
tecnologia facilita essa visualização 3D. Isso não é fácil fazer em um
quadro, como ambiente 2D, por exemplo. Com os recursos do Google
Maps ou Google Earth, por exemplo, pode-se criar situações nas quais o
aluno pode viajar pelo mundo sem sair da sala de aula: explorar os
mapas, as visualizações 3D, os recursos tridimensionais; explorar esses
locais é possível dentro do contexto de sala de aula. No momento, esses
tipos de ferramentas nos dão possibilidade de experimentar um ensino
que, sem essas tecnologias, não seria possível. Essa é sua importância.
Por exemplo, confrontar os dados do Google Maps: pesquisar o
percurso que o aluno faz da sua casa até a escola, trabalhar com a
questão do tempo que ele leva, se o tempo que ele leva é o mesmo que
está descrito pela ferramenta, assim por diante. É uma forma de fazer
simulações, de confrontar ideias, de você validar ou não as suas
hipóteses. Nesse momento, o grande diferencial é responder: como e
quando nós devemos usar essas tecnologias? Em que momentos elas
devem ser utilizadas? Comentei com um aluno hoje que o fato de
transpor uma aula que poderia ser dada utilizando quadro e giz para
uma tela de apresentação faz os alunos dormirem. Se eu fizer isso na
disciplina de Cálculo Integral e Diferencial II, ensinar uma integral para
os alunos, passo a passo, usando o recurso de apresentação de slides,
tenho certeza que os alunos iriam dormir. Talvez, nesse momento, a
minha melhor tecnologia é o quadro de giz, porque com ele posso ter
maior interação com os alunos. É preciso saber em que momento a
tecnologia potencializa uma aula, ou seja, quando faz a diferença e cria
um momento de aula que não seria aconteceria sem essa tecnologia.
Na disciplina Laboratório de Ensino de Matemática II, o foco é
a tecnologia. Sempre comento com os alunos que o ambiente que temos
disponível ali, onde podemos estar todos na frente de computadores,
conectados à rede, em um laboratório que nos permite nos conectarmos
e sanarmos nossas dúvidas instantaneamente na rede, não é possível, por
exemplo, em outras disciplinas, como Cálculo Diferencial e Integral II.
Em Cálculo II, não tenho acesso a um laboratório em todas as aulas,
para onde posso levar meus alunos para que eles fiquem na frente do
computador e, quando necessário, eles estejam conectados. Uso a
tecnologia para ensinar, especificamente a parte tridimensional. Como
80
trabalhamos com funções de várias variáveis, acredito ser
fundamental trabalhar com softwares de geometria dinâmica. Utilizo
muito o Geogebra para o ensino de integrais. Uso também o Winplot
para fazer parametrização de superfícies e o trabalho de integrais.
Como usuária, utilizo a tecnologia em sala de aula. Sempre levo
comigo um laptop. Quando necessário, projeto a imagem. Incentivo
muito os alunos a levarem suas tecnologias móveis para a sala de aula.
Alguns alunos possuem tablets ou celulares que suportam aplicativos.
Muitas vezes, estou falando sobre determinado assunto e o aluno me
aborda perguntando se conheço um determinado aplicativo que ele
descobriu. Isso é bem interessante. Mesmo que eu não tenha, naquele
momento, um ambiente rodeado pelas tecnologias ideais, a proposta de
semear e incentivar os alunos a se manterem conectados e utilizá-la em
sala de aula faz com que os alunos a utilizem também fora dela e
procurem por soluções tecnológicas. Por exemplo, utilizo muito o
Moodle, que é meu meio de comunicação entre os alunos. O Moodle é
uma ferramenta tecnológica que serve para trabalhar em modo de
aprendizagem híbrida, uma aprendizagem que não acontece somente na
sala de aula, mas em qualquer outro espaço em que os alunos estejam
conectados comigo. Um ambiente virtual que eles usam para me
enviarem dúvidas, onde eu realizo feedback de provas e faço monitoria
virtual além da presencial. Às vezes, os alunos têm dúvidas, se
conectam e enviam essas dúvidas pelo Moodle... São esses os tipos de
ferramentas que eu uso. Não uso tanto quanto gostaria, mas não deixo
de usar em uma disciplina cujo foco não é exatamente a tecnologia.
Acredito que, para você usar tecnologia, é preciso muita
motivação e querer aprender. As tecnologias mudam muito rapidamente.
O que é novidade hoje, amanhã já não é mais. O tempo de aprendizagem
técnica que você leva para dominar a ferramenta é um tempo
consideravelmente alto. Quando se consegue aprender, já pode existir
uma nova tecnologia, com novas funções. Devemos estar sempre nos
atualizando, sempre em formação; é uma formação continuada. Nunca
podemos supor que dominamos totalmente uma tecnologia. Você
descobrirá que isso não é verdade. Às vezes, as pessoas têm habilidades
natas para área tecnológica e acabam gostando disso, se identificam com
essa questão de programação. Acredito que é preciso ter muito tempo
para aprender a ferramenta. Para você usar a tecnologia, deve existir
uma simbiose muito grande entre a técnica e o conteúdo. Um software
funciona como uma caixa preta. Ele recebe os comandos fornecidos pelo
usuário. Se você não tiver o domínio do conteúdo matemático e fornecer
81
informações incorretas ao programa, ele não responderá de modo
satisfatório. Lembro dos meus alunos tentando utilizar um software que
indiquei para eles para fazerem gráfico de superfície. O software não
respondia aos comandos deles. Isso aconteceu porque o comando
matemático que eles estavam fornecendo para o software não era um
comando válido. É preciso realçar a questão do elo entre a técnica e o
conhecimento, para que seja de fato produtivo. Nesse contexto, acredito
que a dificuldade do tempo, a questão da formação continuada e a
restrição das tecnologias sejam as maiores dificuldades. As tecnologias
ainda estão guardadas dentro do armário. Na sala de aula, por exemplo,
não tenho uma boa conexão de internet. Quando vou ao laboratório, sou
eu que preciso instalar o projetor. Muitas vezes, o professor ou o aluno
desistem de usar porque o trabalho para usar é tanto que preferem
escolher a velha tecnologia. Existem todas essas questões atreladas à
formação, à disponibilidade do ambiente em que você está trabalhando,
dos cursos de capacitação... Na verdade, essa questão é muito mais
autônoma do que institucional.
Os alunos da turma de Laboratório de Ensino de Matemática II,
são acadêmicos que oficialmente estão na terceira fase do curso de
Licenciatura em Matemática. Alguns já estão cursando disciplinas tanto
da área pedagógica quanto da área especifica. São estudantes em
formação inicial, com diferentes pontos de vistas. Eles têm muita
motivação para aprenderem, de forma crítica, quando, como e por que
usar a tecnologia. Acredito que, até o final do curso, esses alunos estarão
bem preparados para responderem essas questões. Quando comecei a
dar aula de Laboratório, existia uma questão sobre o Laboratório ser
uma disciplina que não exigia tanta cobrança, até pelo próprio nome da
disciplina. Sempre digo que trabalho dá muito trabalho. O sistema de
avaliação tradicional é o sistema que conhecemos e com o qual estamos
habituados. O que é novo sempre traz algumas rupturas e frustrações.
Sobre a avaliação, por exemplo, lembro que quando apresentei aos
alunos o plano de ensino da disciplina de Laboratório, avisei como seria
o sistema de avaliação. Uma das avaliações que coloquei era provas.
Outras avaliações seriam a engenhoca, participação em seminários,
fórum do Moodle... No começo, os alunos não participavam porque não
tinham esse hábito de se posicionarem, mostrarem sua opinião, lerem
questões relacionadas ao conteúdo. Acredito que quando vamos discutir
algum assunto, precisamos ter uma fundamentação. Não precisamos
concordar com o que o autor está escrevendo, mas, precisamos ter uma
boa leitura e assim ter uma boa argumentação para dizer se
82
concordamos ou discordamos daquele ponto de vista. Acredito que
nessa turma, os alunos têm muita vontade de aprender coisas novas.
Penso que até o final do curso eles serão alunos muito bem preparados
para responderem essas questões sobre a tecnologia. Não seremos
ambiciosos a ponto de pensar que a disciplina de Laboratório de Ensino
contempla toda formação tecnológica do professor de matemática.
Afinal, o que seria toda a formação tecnológica? Como é uma questão
sobre tecnologia na formação do professor, há muita influência daquilo
que o professor que ministra a disciplina entende por tecnologia no
ensino da matemática. Talvez eu trabalhe com a disciplina de uma
forma e um outro professor aborde coisas que eu não abordo ou vice e
versa. Eu trabalho com a proposta de dar ideias sobre tecnologias que
eles podem, de maneira geral, utilizar no ensino de matemática. Mas,
também exploro muito dessas ferramentas, não fica só na discussão...
São ferramentas que, no meu ponto de vista, podem auxiliá-los na
Educação Básica quando eles forem professores. Espero que eles
possam dizer que conhecem as ferramentas e saibam explorá-las. Assim,
trabalho explorando as ferramentas e propondo atividades que podem
ser realizadas usando essas ferramentas. Espero também que eles não
sejam usuários no sentido de conhecer, mas no sentido de dominar a
ferramenta. A tecnologia pode ajudá-los na formação profissional, mas
também auxiliá-los nas disciplinas específicas do curso, permitindo um
aprendizado em paralelo. Procuro saber quem são meus alunos. De
acordo com suas respostas, direciono as minhas atividades de tal
maneira que eu consiga contemplar meu público alvo, inclusive para
matérias especificas do curso de graduação.
Acredito que o aluno do curso de Licenciatura em Matemática,
ao encerrar a garduação sai com uma boa formação a respeito de
tecnologias. Não é só na disciplina de LEM II, onde se trabalha
especificamente com o tema, mas também nas disciplinas específicas e
nas outras disciplinas pedagógicas. No curso, o aluno tem uma visão
ampla do uso de tecnologia. É muito dinâmica a discussão sobre
tecnologia, mas dá condições e maturidade suficiente para o aluno
buscar sempre a maneira mais eficaz de utilizá-la em sala de aula. Essa é
uma questão central... já vi trabalhos em outras disciplinas que
colocaram o aluno exatamente nessa questão, de se posicionarem como
professores e como alunos frente àquela tecnologia. Essa reflexão faz
com que o aluno se sinta no papel de professor, fazendo ele pensar como
pode auxiliar seus alunos, como pode auxiliar a sua própria
aprendizagem, agora como acadêmico e depois como professor. A
83
formação do nosso aluno é ampla. Ela envolve diversas temáticas,
tanto para explorar, como para refletir e buscar. Nosso aluno sai bem
formado. Comparando com a minha formação, os alunos do curso hoje
estão muitos anos à frente. O currículo está bastante forte nesse aspecto.
É lógico que sempre existem coisas que podem ser melhoradas. A
questão é que sempre temos que estar em formação continuada, tanto
alunos como professores. Assim poderemos direcionar e orientar nossos
alunos da melhor forma possível.
A ementa de LEM II é ampla e adaptável ao contexto da
tecnologia. Isso não significa que preciso inserir ou não devo inserir
uma determinada ferramenta. Uma coisa com a qual eu gostaria de
trabalhar, mas em função do tempo não vou conseguir, são as
ferramentas que podem ser utilizadas para modelarem materiais para
impressora 3D. Falo em tempo necessário para trabalhar o conteúdo na
disciplina e, também, para minha aprendizagem. O Departamento de
Matemática adquiriu uma impressora 3D no ano passado, mas somente
no começo deste ano tivemos acesso a ela no nosso grupo de pesquisa.
Estamos em uma fase inicial de estudarmos como a impressora 3D
funciona e quais são as potencialidades dessa ferramenta. Os alunos do
LEM II já tiveram a oportunidade de ver a impressora 3D em
funcionamento. Também mostrei sites em que encontramos modelos
prontos para imprimir. No grupo de pesquisa já imprimimos alguns
modelos para vermos como funciona, mas eu gostaria de ir além.
Gostaria que meus alunos modelassem esses materiais e esses materiais
fossem impressos na impressora 3D. Para isso, é preciso dominar um
software para modelar esse material. Isso, não terei tempo de trabalhar
com eles na disciplina. Posso até dar uma aula inicial, mas não com a
profundidade que eu gostaria. Apresentei a ideia para eles, mas nem eu,
como professora, ainda consegui modelar um material para imprimir...
Eu pretendo ampliar esse trabalho nos próximos semestres, modelando
materiais a partir das ideias dos alunos. Imagino que serão ideias
inéditas, que depois poderíamos imprimir em nosso próprio laboratório.
No ano passado, durante a Semana da Matemática, aconteceu uma
gincana em que os alunos tinham que fazer um artefato conhecido como
engenhoca. Eles tiveram a ideia, mas precisaram pagar para fazer esse
material. Agora, nós temos à disposição uma impressora que poderia
imprimir esse tipo de material. Para isso, precisamos conhecer como
modelar.
Acredito que o futuro do ensino dependerá de como vamos
aplicar o avanço tecnológico em nossos currículos. Já passamos um bom
84
tempo convivendo com avanços tecnológicos, mas nossos modelos de
ensino não acompanharam as mudanças que a tecnologia provocou no
nosso dia a dia. O avanço na sociedade não é o mesmo avanço no
sistema de ensino. Sou otimista quanto a isso. Se o professor, de fato,
trabalhar com a necessidade da mudança no ensino, de explorar todas as
potencialidades que essas inovações têm para propor ao ensino, então
nosso modelo de ensino estará muito além do contexto da sala de aula.
A figura do professor vai ser exatamente de um professor, não
simplesmente de um mero transmissor. Ele fará o papel de conector. O
papel dele vai ser muito mais que mediador, ele vai fazer a conexão
entre a aprendizagem formal e a aprendizagem do que o aluno traz
consigo, que não é a aprendizagem formal do contexto da sala de aula,
mas a bagagem que ele tem, pelo acesso às informações. A questão do
acesso à informação mudou muito. Temos que refletir sobre como
ensinamos hoje. Há alguns anos, o processo de ensino era dessa maneira
porque os alunos não tinham muito acesso à informação. Precisava,
realmente, ter aquele formato do quadro de giz e de tudo dado passo a
passo e por escrito porque não se tinha esse acesso. Hoje esse acesso
está disponível. Agora, a grande questão é: o que fazer com esse acesso?
Como conectar essas ideias para que se tenha de fato uma aprendizagem
significativa? Nesse sentido, aposto muito no ensino hibrido. Isso
significa trabalhar muito a questão sobre o que ensinamos hoje em sala
de aula, mas que o aluno possa acompanhar essas atividades fora do
contexto da sala de aula. Gostaria muito que, quando trabalhasse com
um assunto como derivadas, por exemplo, tivesse a oportunidade de
chegar na sala de aula, meus alunos utilizassem as tecnologias para
explorarem esse conceito Seria bom que os alunos chegassem na aula
para tirarem dúvidas a respeito daquele assunto que consultaram antes,
discutindo situações reais e aplicações e não eu usar o tempo da sala de
aula para transcrever o que já está no livro ou disposto num ambiente
virtual. Imagino que nossas aulas no futuro sejam mais produtivas nesse
sentido. Realmente discutir a aplicação e as dúvidas e não simplesmente
mera transmissão de conteúdo.
Sempre que fizermos uso de qualquer tecnologia, temos que
pensar muito bem sobre quem é e como é nosso público alvo. Não
deixarmos questões, às vezes mínimas, atrapalharem a aprendizagem da
matemática ou de qualquer outro conteúdo. Muitas vezes, trazemos a
tecnologia como um elemento facilitador e ela acaba sendo um elemento
complicador. Quando os estudantes não dominam a técnica da
ferramenta, pode acontecer de em vez da tecnologia ajudar, atrapalhar a
85
aprendizagem. É muito bom conhecer nosso público alvo, pensar no
aluno que tem uma habilidade, mas também pensar naquele aluno que
não tem essa habilidade. Como fazer com que a tecnologia seja uma
potencialidade e não um fator de dificuldade para o aluno? Temos que
pensar que nem todas as atividades ou conteúdos são potencializados
com o uso da tecnologia. Às vezes, uma boa discussão traz elementos
muito mais importantes ou motivantes, do que usar uma determinada
tecnologia em sala de aula.
Trabalhei na Educação Básica antes de entrar no Ensino
Superior. Tenho contato com os professores da Educação Básica por
meio dos cursos de capacitação continuada e projetos de extensão.
Quando vamos fazer esse tipo de trabalho, os professores têm uma
expectativa muito grande de saber como utilizar as tecnologias. Quando
vamos trabalhar com isso, eles não querem apenas teoria para refletir em
que momento se deve utilizar a tecnologia e como utilizá-la. O
interessante para eles é saberem como podem utilizar e de que maneira
devem fazer. Eles gostam muito de ver coisas práticas, elementos que
eles podem pegar daquela palestra ou curso de formação e levar para o
seu ambiente de sala de aula. Temos muitas tecnologias disponíveis,
mas, às vezes, o professor não tem o conhecimento nem mesmo sobre
como procurar essas tecnologias para usar em sala de aula. Temos
muitos recursos. Por exemplo, objetos de aprendizagem em rede que os
professores poderiam utilizar como livros, filmes, vídeos, alguns
experimentos online, que eles podem fazer... eles ficam muito contentes
quando a gente aborda essa temática de tecnologias. Por outro lado,
notamos que, em muitas situações, o conceito da tecnologia está muito
associado a tecnologias de informação e comunicação, ou seja, mais
ligado a computadores, rede, conectar na tomada. Eles acham que o fato
de usarem uma engenhoca não seja usar tecnologia no ensino. Precisa
ser bastante discutida e enfatizada essa questão de como potencializar as
práticas de ensino com o uso das tecnologias. Aplicamos um
questionário num curso de especialização e uma das respostas me
surpreendeu bastante. Muitos professores disseram ter usado as
tecnologias na formação inicial, num percentual relativamente alto. Mas,
ao serem perguntados se eles utilizavam tecnologia na sala de aula na
sua prática docente, a resposta foi aquém do uso na formação inicial. Há
a questão da infraestrutura da escola, a questão das tecnologias
disponibilizadas... A maioria das escolas hoje têm os quadros digitais,
mas os professores não sabem o que fazer com eles. A tecnologia está
lá, mas não tiveram uma formação para o seu uso. É preciso essa
86
conexão entre a tecnologia e o seu uso, como ela pode contribuir para
o ensino de uma determinada disciplina.
87
APÊNDICE B
Cartas de autorização dos depoentes
88
89
90
91
92
93
94
Download

Este trabalho apresenta uma pesquisa qualitativa em Educação