CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 DEPARTAMENTO DE TAQUIGRAFIA, REVISÃO E REDAÇÃO NÚCLEO DE REVISÃO DE COMISSÕES TEXTO COM REDAÇÃO FINAL COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL EVENTO: Audiência pública Nº: 0639/00 DATA: 01/06/00 INÍCIO: 10h16min TÉRMINO: 13h DURAÇÃO: 2h44min TEMPO DE GRAVAÇÃO: 2h47min PÁGINAS: 53 QUARTOS: 17 REVISÃO: LUCIENE, MADALENA, ODILON SUPERVISÃO: AMANDA, GRAÇA CONCATENAÇÃO: AMANDA DEPOENTE/CONVIDADO - QUALIFICAÇÃO GABRIEL PRIOLLI - Apresentador do programa "Opinião Brasil". FLÁVIO CAVALCANTI JÚNIOR - Diretor-Regional do SBT em Brasília. EVANDRO GUIMARÃES - Vice-Presidente de Relações Institucionais, das Organizações Globo. SUMÁRIO: Considerações sobre propriedade de empresas jornalísticas e de radiodifusão sonora e de sons e imagem. OBSERVAÇÕES Joe Wallack - pág. 7 Não foi possível conferir a grafia da palavra acima citada. 1 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 O SR. PRESIDENTE (Deputado Luiz Carlos Hauly) Declaro abertos os trabalhos da presente reunião de audiência pública. Convido o Sr. Evandro Guimarães, Vice-Presidente de Relações Institucionais, das Organizações Globo, o Sr. Flávio Cavalcanti Júnior, Diretor-Regional do SBT em Brasília, e o Sr. Gabriel Priolli, apresentador do programa Opinião Brasil, [DTTR1] para debaterem as implicações da PEC nº 203-A, de 1995, apensada à Proposta de Emenda à Constituição nº 445, de 1977, referente à propriedade de empresas jornalísticas e de radiodifusão sonora e de sons e imagem. Comunico a V.Exas. que também foi convidado para participar desta audiência pública o Sr. Alberto Dines, Editor Responsável do Observatório da Imprensa, da TVE, do Rio de Janeiro, que, por motivo de força maior, não pôde comparecer. S.Sas. têm o prazo de vinte minutos para promover as exposições, não sendo permitidos apartes enquanto fizerem as apresentações. Concluídas as exposições, daremos início ao debate. Cada Parlamentar inscrito previamente poderá interpelar os expositores por um prazo máximo de três minutos, tendo os interpelados igual tempo para responder, facultadas a réplica e a tréplica, pelo mesmo prazo. Com a palavra o Dr. Gabriel Priolli, apresentador do programa Opinião Brasil. O SR. GABRIEL PRIOLLI - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, bom-dia a todos. Agradeço a V.Exas. a oportunidade de poder estar aqui, na Câmara dos Deputados. Vimos trazer algumas preocupações em relação ao tema da proposta de Emenda Constitucional que altera o art. 222 da Constituição e permite a entrada de capital estrangeiro na área da mídia, particularmente no nosso objeto mais direto de atenção e análise, a televisão. Além de apresentador do programa Opinião Brasil, somos profissionais dedicados à construção do projeto da rede pública de televisão no País. Somos também diretores do Canal Universitário, de São Paulo, emissora que está no ar há dois anos e meio e que integra um conjunto de emissoras que está se organizando desde 1995, com base na lei da tevê a cabo, Lei nº 8.977, junto com todas as emissoras ligadas a universidades. 2 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 Além de fazermos televisão e tentarmos difundir as universidades por meio da televisão, procuramos, evidentemente, refletir a respeito dos problemas da mídia, particularmente da televisão. O tema do capital estrangeiro na mídia nos preocupa muito pela forma, a nosso ver, um tanto limitada com que vem sendo debatido. E, desde já, congratulo-me com a Comissão pela iniciativa e agradeço mais uma vez a V.Exas. a oportunidade de poder falar. Então, preocupa-nos um pouco a forma restrita como o assunto vem sendo debatido, dadas a gravidade e a influência que pode vir a ter sobre a cultura brasileira. Preocupa-nos mais diretamente pelo que, de fato, pode acontecer com a nossa produção cultural, com a produção de conteúdo brasileiro a partir da publicação ou da aprovação da emenda, pelo menos nos moldes em que os debates estão transcorrendo até agora. A entrada do capital estrangeiro não é propriamente o problema. Deve haver, sim, flexibilização e a possibilidade de que capitais internacionais venham a disputar o nosso mercado. Isso é perfeitamente coerente com o momento histórico que vivemos e com o que acontece no plano global na economia. Estamos assistindo, em termos globais, a uma forte expansão internacional das empresas de entretenimento, de mídia e de comunicações, que, por sua vez, estão convergindo através do sistema de digitalização, da tecnologia digital. Está havendo, no plano internacional, grande convergência entre três ramos da mídia: entretenimento, mídia e comunicações. Com a capitalização intensiva das empresas, há uma expansão global de atividades. A possibilidade de ingresso no mercado brasileiro não é apenas um problema brasileiro, mas também de diversos países no momento histórico que vivemos, de expansão internacional do setor. Os dados são absolutamente impressionantes em relação à convergência que está havendo no setor de mídia. Por exemplo, em relação às fusões e aquisições de empresas nos setores de entretenimento, mídia e comunicações, no início da década, em 1991, houve 142 casos envolvendo 7 bilhões de dólares. Em 1997, foram 587 casos, e o valor das aquisições foi multiplicado por dez, ou seja, 79 bilhões de dólares. Empresas 3 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 de grande porte mundial, como Disney, Time Warner, Dow Jones, estão crescendo duas a três vezes mais no mercado internacional do que estão crescendo dentro do próprio mercado. Entre os fatores que explicam a expansão internacional, estão as demandas por serviços de telecomunicações nos países emergentes; a incapacidade dos governos de provê-los com estruturas próprias, com investimento público e estatal; a desregulamentação dos mercados, processo que está acontecendo universalmente; a privatização de serviços de comunicação; a facilidade de obtenção de capitais nos mercados internacionais e financeiros; e a redução dos custos de tecnologia de produção exatamente com esse processo de fusões e de parcerias. Há outro processo particular no campo da televisão, que é a verticalização da televisão norte-americana, que sofreu um processo de desregulamentação do mercado. Antes, as redes eram apenas exibidoras e tinham apenas 20% de programação própria. Hoje, o percentual de programação própria já subiu para a faixa de 30% e de até 50%. E antigas produtoras de conteúdo estão se voltando para a distribuição de conteúdos. Portanto, estão competindo com as redes. Isso significa que as empresas precisam do mercado internacional para se expandir. Elas têm uma sobra de produção, um volume de produção que precisa, necessariamente, ser difundido para o mercado internacional e explica a pressão que diversos países estão sentindo no sentido de abrirem seus mercados para a entrada dos produtos. Na televisão brasileira, o processo de globalização começou no início dessa década, no setor de televisão paga. [DTTR2]Em 1991, surgiu a primeira empresa de televisão por assinatura no País, e é por onde começa a entrar, digamos, o capital estrangeiro e onde não há qualquer restrição legal à associação entre grupos nacionais e internacionais. O que a entrada de grupos no nosso mercado de televisão — [DTTR3]Grupo Cisneros, MSV Multivision, Grupo Televisa, HNTF — tem produzido? Na tevê paga, há o evidente predomínio de canais internacionais e a fragilidade dos canais nacionais, que são pobres e sem recursos na competição com os canais internacionais. Há, de modo geral, melhor qualidade de programação, que atrai, até pelo custo do serviço, uma audiência basicamente de elite. Portanto, essa é a situação da 4 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 televisão paga. Nos últimos anos, com a televisão aberta e a estabilização da economia, houve forte expansão do consumo e um número muito maior de televisores em uso. Calcula-se que cerca de 20 milhões de telespectadores foram agregados apenas nos últimos cinco a seis anos. Isso levou ao grande aumento de audiência dos programas populares, à competição renhida entre as emissoras de televisão, com reflexos na qualidade da programação e alguns excessos, normalmente comentados pela própria imprensa, como as "baixarias" que todos conhecem. A nosso ver, as ameaças que o processo de globalização trazem à mídia, particularmente à televisão, concentram-se basicamente na possibilidade de que haja uma explosão de produtos estrangeiros à disposição nas grades de programações das nossas televisões, produtos estrangeiros na sua versão original, ou aquilo que se chama de programas tropicalizados, cuja parte da programação é formatada para que sejam mais facilmente consumidos pelo espectador brasileiro. Há o risco da importação de pacotes fechados de criação como, por exemplo, scripts prontos provenientes do exterior, desenhos de cenários, figurinos, toda uma parte de criação da produção televisiva vindo como pacote fechado. Isso pode redundar na desnacionalização das grades de programação, na retração e no enfraquecimento da produção nacional na área de conteúdo para a televisão. Outro problema que nos preocupa é que, dependendo do controle ou do eventual descontrole na proporção do que o capital estrangeiro poderia assumir em relação às nossas empresas, se o controle das empresas passar a ser de grupos estrangeiros, pode haver o risco de controle editorial externo sobre o telejornalismo. Portanto, a opinião editorial pode ser controlada externamente. Também nos preocupa o descompromisso com a proteção da língua portuguesa. Não nos parece que grupos internacionais, tendo o controle de canais de televisão brasileiros, terão a mesma preocupação que os canais nacionais têm com a preservação da língua portuguesa. Fator que agrava essa situação, que a torna mais complexa e, a nosso ver, potencializa os riscos é o fato de não haver uma política cultural no País para a televisão. 5 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 A televisão, que completa cinqüenta anos de implantação no País, tem estado, historicamente, sob a hegemonia do setor de telecomunicações e do setor de marketing e propaganda. As áreas de educação e cultura não formulam políticas para a televisão, pelo menos políticas consistentes. Os aspectos técnicos e mercadológicos predominam sobre os aspectos de conteúdo. O controle estatal público ou social sobre a televisão brasileira é limitado. Há alguns artigos importantes, inclusive dispositivos constitucionais, que não são aplicados, como, por exemplo, o art. 221, que estabelece princípios de regionalização de programação, e outros que, a nosso ver, são importantes e não são incluídos, apenas são discutidos. Diante desse quadro, portanto, a nossa posição ante a proposta de emenda do capital estrangeiro não é de impedimento. As empresas nacionais têm um grande desafio, que é exatamente a convergência para a tecnologia digital, processo que precisa ser feito para sintonizar a nossa televisão com a tecnologia mais avançada existente e a tecnologia do futuro. É necessário que a televisão brasileira se adapte à tecnologia digital. Porém, as empresas encontramse descapitalizadas, não têm condições de arcar com os custos do processo. Portanto, precisam de recursos financeiros, que poderiam ser obtidos por meio de um processo de associação com grupos internacionais. Todavia, é necessário que sejam estabelecidos limites claros para a entrada do investimento estrangeiro, a exemplo: que seja mantido o limite máximo de 30% do capital total, com a garantia de controle ao parceiro nacional e a proibição de programação gerada do exterior, no caso de televisão aberta; que haja a obrigatoriedade de dublagem da programação para o português feita no Brasil; que haja proteção ao produto nacional, por intermédio de mecanismos de incentivo ou de taxação do produto importado. Então, a nossa posição em relação a isso não é xenófoba, excludente, que negue ou tente isolar o País do processo de globalização que vivemos. Porém, é uma proposta que tenta proteger e fazer com que o Brasil entre no processo sem que a cultura brasileira seja prejudicada. Caso isso aconteça, o 6 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 País e o nosso povo serão prejudicados e perderão a chance de continuar construindo a identidade nacional que há cinco séculos vimos construindo e que ainda não se formou totalmente. Enfim, a busca da nossa identidade precisa ser preservada. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Luiz Carlos Hauly) Agradecemos a V.Sa. as palavras. De imediato, concedo a palavra ao Dr. Flávio Cavalcanti Júnior, Diretor-Regional do SBT em Brasília. S.Sa. tem a palavra por vinte minutos. O SR. FLÁVIO CAVALCANTI JÚNIOR - Sr. Presidente, Deputado Luiz Carlos Hauly, Deputado Neiva Moreira, Sras. e Srs. Deputados, é um prazer e uma honra estar aqui falando com V.Exas. sobre tema tão importante para as empresas de comunicação no Brasil e que o Congresso está apreciando com o devido cuidado, um vez que é tema que, de uma maneira ou de outra, pode interferir positiva ou negativamente nas comunicações, na radiodifusão, na mídia impressa. Começo lembrando a V.Exas. que, na área de televisão brasileira — em que atuo e que conheço um pouco —, há uma terrível e triste história de fracassos, e não uma grande e bela história de sucessos. As emissoras de televisão que já surgiram e já foram embora no País são mais de vinte. [DTTR4]Vou citar algumas. A TV Rio, no início da década de 60, no Rio de Janeiro, chegou a monopolizar audiências de setenta a oitenta pontos, com programas maravilhosos que paravam a cidade, como Noite de Gala. A Rede Tupi de Televisão, de triste e saudosa memória, que não agüentou o empuxo. A TV Rio também não. A velha e tradicional Rede Record, da família Machado de Carvalho, também parava São Paulo com os shows do dia 7, com audiências quase unânimes. Era o maior sucesso. A Rede Excelsior de Televisão — que, parece-me, acabou por causa de alguns problemas políticos — desenvolveu uma linha de shows absolutamente extraordinária, musicais como Time Square, que nunca mais foram reproduzidos. Ninguém conseguiu fazer musicais tão bem quanto a TV Excelsior. A TV Continental, no Rio de Janeiro. Quantas emissoras e pequenas redes de televisão não se viabilizaram neste País? As histórias de sucesso da líder de audiência e do SBT são uma exceção no contexto. Há algumas emissoras no ar com enormes dificuldades de se viabilizarem como potência de comunicação, como, por exemplo a CNT e outras. Enfim, essas emissoras — o meu amigo Martinez que me perdoe — não são um 7 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 instrumento importante de comunicação. Em televisão aberta, nenhuma emissora é importante se não tiver uma média mínima de dez pontos de audiência. Ela tem de atingir 10% do universo dos telespectadores. Hoje, infelizmente, apenas duas redes têm atingido esse índice habitualmente. Há alguns picos em outras emissoras, mas hoje quem atinge isso são a Rede Globo e o SBT. Começo, então, a tentar questionar com V.Exas. o que levou tantos casos de sucesso, como TV Rio, Excelsior e Continental, a acabarem. Nas décadas de 50 e 60, o mercado publicitário ainda era incipiente, era um mercado em formação. Disputava-se um bolo de dinheiro relativamente pequeno. Essa já é uma explicação: não havia dinheiro para todo mundo. A outra explicação é que não havia formação de profissionais na área administrativa de executivos para gerenciar e cuidar corretamente daquele empreendimento. Tanto não havia que a Rede Globo, para conseguir se formar, buscou o Joe Wallack(?), nos Estados Unidos, com seu brilhante know-how, para cuidar da administração, porque era um mundo muito novo. Então, isso fazia com que as televisões não tivessem capacidade de se manter por muito tempo. Há outro componente fundamental que não podemos desprezar: a falta de capital para continuarem tocando o negócio. Todos esses grupos, em algum momento, precisavam investir em tecnologia, importar mais equipamentos, montar programas mais sofisticados e não conseguiram fazê-lo, porque não tinham capital. Quanto à idéia de trazer capital estrangeiro para a radiodifusão, perguntaríamos: "Por quê? O Brasil consegue". Não consegue. Não consegue, principalmente num momento de alteração profunda em todos os aspectos tecnológicos da televisão. Está-se discutindo a implantação da tevê digital, que é algo que precisaremos ter mesmo que não queiramos, inclusive porque, daqui a pouco, todos os equipamentos produzidos no mundo serão digitais. Se não tivermos televisão digital, não conseguiremos equipamentos para mantê-la. Teremos de mudar todos os transmissores. Cada emissora do Brasil, por menor que seja, terá de jogar seu transmissor fora e comprar um novo, terá de jogar sua câmera fora e comprar uma nova. Enfim, mudar esse parque técnico — o que será necessário — num espaço de quatro, cinco ou seis anos 8 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 demandará um investimento brutal. Investimento esse que, certamente, a Rede Globo tem capacidade de fazer. Nós talvez tenhamos, com algum endividamento. E acho que ninguém mais terá, no atual perfil do tratamento da televisão. O que vai acontecer no futuro, infelizmente, não sei dizer. Inicialmente, a emenda foi apresentada pelo Deputado Aloysio Nunes Ferreira, hoje Ministro. Quando o nosso grupo se reuniu, pensamos em estabelecer 49%, e não 30%. Se tem de ser minoritário, 49% são minoritários. E partimos para uma defesa muita acirrada com alguns Deputados, principalmente dentro da Comissão. Sabem perfeitamente V.Exas. que foi criada uma Comissão Especial que tratou da matéria durante alguns meses, cujo Presidente era o Deputado Ayrton Xerêz, e o Relator era o Deputado Henrique Eduardo Alves. Por questões de justiça, temos de dizer que a Comissão ouviu todos os que tinham algo a falar sobre o assunto. Ouviu sindicatos de artistas e de jornalistas, empresas de comunicação, todo mundo. Naquelas discussões, chegou-se ao consenso de que o ideal seria limitar o capital a 30% e criar mecanismos que restringissem a possibilidade de eventuais grupos estrangeiros imporem grades de programação que nada têm a ver com o Brasil. E o SBT, sem muito constrangimento, recuou da posição inicial dos 49%, de uma liberalização maior e assentiu que seria bem mais prudente limitar em 30%, até porque o proprietário, o maior acionista do SBT, que é o Sr. Sílvio Santos, não tem o menor interesse em que um americano diga a ele o que fazer na sua estação. Ele faz questão de decidir isso. Então, concordamos, recuamos e foi apresentado o relatório. Certamente, V.Exas. conhecem o relatório aprovado na Comissão, que será discutido brevemente pelo Plenário — não sei como é a tramitação — e é fruto de consenso dos mais expressivos meios de comunicação deste País, e incluo a mídia impressa. Sei que a mídia impressa também ficou muito satisfeita com o relatório. A preocupação de preservar o espaço do artista e do produtor brasileiros é válida, justa, e temos de ter mesmo. No relatório, salvo outros estudos e melhor juízo, parece-me que isso está bem contemplado, uma vez que o acionista estrangeiro, limitado a 30%, não terá direito de gestão na 9 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 empresa. Parece-me que, dessa forma, a coisa está mais ou menos assegurada. Há aquela preocupação de sempre, do por-debaixo-do-pano. Por debaixo do pano, pode-se fazer tudo neste País, até ser descoberto ou haver uma CPI. Por debaixo do pano, hoje, poderia ser feito qualquer negócio. Nada impede — lei ou Constituição — que se faça um acordo operacional para que um estrangeiro faça uma produção e coloque no ar no SBT. Nada impede isso. O nosso impedimento é que a nossa emissora tenha capital estrangeiro hoje. Mas posso criar uma produtora de televisão, produzir com capital 100% estrangeiro e veicular essa produção numa empresa de televisão. Isso é possível. Nada impede que um grupo estrangeiro, uma CBS venha montar uma estação em português, gerando dos Estados Unidos para cá, através das pay tvs, que ainda hoje são restritas às classes média e alta, [DTTR5]apenas por um motivo, o custo muito elevado. Hoje, ter em casa dois aparelhos ligados a uma TV por assinatura sai em média 90 reais por mês, sem contar a programação que se paga para eventos como shows, futebol. Sabemos que, infelizmente, uma parcela muito pequena da população brasileira pode pagar essa quantia. A tendência é que haja uma diminuição drástica desse valor, quando os investimentos gigantescos feitos para instalar os cabos estiverem mais ou menos acomodados ou resolvidos. Especula-se que, em cinco anos, esses 90 reais estejam custando em torno de 40 reais, a preço de hoje. Ora, de 90 para 40, vai-se agregar uma massa importante de telespectadores à tevê por assinatura. Nada impede, repito, que o satélite mande dos Estados Unidos a programação que quiser, e a população vai assistir ao que escolher. Parece-nos que a tecnologia vai passar por cima de alguns anseios de limitação, porque ela vem atropelando, haja vista o problema da MP3, que está deixando as gravadoras e os compositores enlouquecidos. Todos estão gravando através da MP3, e surgem os questionamentos: quem vai vender disco? Como o artista vai viver, se sua renda vem da venda de discos? Quem vai pagar o direito autoral? Essa questão está sendo discutida no mundo inteiro. Esse é um problema que, de qualquer maneira, teremos de enfrentar daqui para frente. Para concluir, coloco-me à disposição de V.Exas. e gostaria de dizer que somos absolutamente a favor do relatório final aprovado na Comissão Especial. Entendemos que o relatório protege a indústria brasileira de produção, por meio dos mecanismos que impedem acionistas externos de terem gestão 10 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 na empresa, e mantém 70% do capital da emissora na mão de pessoas físicas. Isso é muito importante, porque dificulta o cruzamento de empresas, as jogadas montadas por advogados, que cruzam empresas que parecem brasileiras, mas não são. Então, 70% do capital terá de permanecer em nome de pessoas físicas, brasileiros natos ou naturalizados, que, pela reforma, serão os únicos responsáveis pela administração da televisão. Portanto, ninguém vai poder dizer que os acionistas de 30% impuseram algum tipo de programação. Se alguém o disser, será conversa para boi dormir. Estou à disposição de V.Exas. Essa é a nossa posição. O Sílvio pediu-me que dissesse que, apesar de ser plenamente favorável, não está convencido a fazer o negócio. Ele gostaria de ter, na condição de empresário, o direito de, amanhã, numa necessidade conjuntural de investimentos, poder vir a estudar a possibilidade. Não é verdade — de vez em quando vazam notícias — que somos a empresa de comunicação que está mais à frente na defesa do relatório aprovado. Dizem por aí que o Sílvio já vendeu. Não vendeu coisa nenhuma, nem sabe se vai vender. Estamos muito felizes com o desempenho da nossa empresa nos últimos tempos. Ela vem crescendo de maneira importante. Estamos sonhando com que, com ou sem capital estrangeiro, teremos condições de diminuir um pouco mais a distância — que já foi muito maior — entre a líder de audiência e o nosso segundo lugar. O Sílvio jogou fora, para nossa alegria, o slogan "campeão da vice-liderança", que mantivemos durante quinze anos. Ele ambiciona disputar o primeiro lugar no futuro. E faremos isso com ou sem os 30%. É provável que faremos mais facilmente com os 30%. E só mais uma última frase: 30% para emissoras pequenas que estão com enormes dificuldades, cito o exemplo da Rede TV!, não resolvem nada. Esse percentual pode resolver para uma empresa estruturada, que não tenha dívidas. Dizem que vão usar os 30% para pagar dívida. É preciso investimento, e não pagar dívida. Se o dinheiro for usado apenas para pagar dívidas, a empresa continuará na mesma situação. Estou às ordens de V.Exas. Muito obrigado pela atenção e pela paciência. 11 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 O SR. PRESIDENTE (Deputado Neiva Moreira) - Agradeço ao Sr. Flávio Cavalcanti Júnior a colaboração com os trabalhos da Comissão. Concedo a palavra, por vinte minutos, ao Sr. Evandro Guimarães, Vice-Presidente de Relações Institucionais, das Organizações Globo. O SR. EVANDRO GUIMARÃES - Sr. Presidente, apenas para facilitar minha exposição, peço licença para exibir um roteiro dos meus comentários. (Apresentação de transparências.) Sras. e Srs. Deputados, primeiro, gostaria de expor, visto que participei de várias reuniões na Comissão Especial que avaliou a modificação do art. 222 da Constituição Federal, que entendo essa visita de profissionais respeitáveis do setor — como a rede importantíssima SBT — como esforço suplementar, complementar de esclarecimento da situação atual dos meios de comunicação social e das implicações tanto das mudanças tecnológicas em curso, quanto das estruturas de capital e gestão, para que os meios de comunicação social no Brasil possam cumprir o seu papel e sejam preservadas algumas questões que vou tomar liberdade de relembrar a V.Exas. Nessa minha pequena exposição, não há fato novo que não tenha sido veiculado por representantes da minha organização, ou na Comissão Especial que tratou desse projeto de emenda constitucional. Gostaria de lembrar a V.Exas. o que ficou praticamente acordado. Certamente, não há atividade humana e econômica que não tenha imperfeições, mas a radiodifusão brasileira, mesmo com seus senões, é uma das mais eficientes do mundo. Provavelmente, a televisão aberta e o rádio de recepção livre e gratuita contribuem de maneira essencial, e acho que isso se refere de maneira muito importante a esta Comissão temática, quando se fala da defesa nacional, assunto sobre o qual explorarei com o exclusivo e único objetivo de comentar e suplementar informações eventualmente necessárias aos Deputados membros desta Comissão. A radiodifusão brasileira garante a integração nacional. Permito-me lembrar que, sem a fundação da EMBRATEL, o lançamento dos satélites com foot print, quer dizer, com cobertura nacional, 12 que permitem a transmissão de jogo de CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 futebol, de carnaval, de novela, de programa de auditório, de calouros ou musical, e do noticiário transmitido simultaneamente para todo o Brasil, em tempo real e em idioma nacional, foi uma vitória da estratégia de telecomunicações no Brasil, um país continental. Além disso, há a eficiência do setor empresarial, que foi capaz de prover conteúdo que interessou e tem interessado os brasileiros do Rio Grande do Sul, do Amapá, de Roraima e de comunidades com maior ou menor densidade populacional. Freqüentemente, esquecemo-nos de que a televisão, quanto à integração nacional e à valorização do pacto federativo, cumpriu um fantástico papel, admirado em todo mundo. Tenho um amigo gaúcho, com quem tenho liberdade e costumo brincar, dizendo que, se ele não estivesse vendo um pouco da nossa novela, do nosso carnaval, talvez estivesse olhando mais para o churrasco de Buenos Aires. Há vários Deputados da região, e permito-me lembrar freqüentemente aos companheiros e amigos das televisões da Amazônia que a televisão em língua portuguesa é uma verdadeira fronteira virtual de defesa da agregação da Amazônia a esta Federação, que todos defendemos. Dito isso, não há fato novo na Comissão presidida pelo Deputado Ayrton Xerêz e com a relatoria do Deputado Henrique Eduardo Alves. Esses assuntos foram expostos à exaustão e motivaram interesse. [DTTR6]Agora, esse esforço complementar permite-me relembrar que a televisão brasileira é eficiente, tem qualidade, não consome recursos públicos e oferece acesso livre e gratuito à população. São mais de 2.500 áreas comerciais, das 290 televisões comerciais que existem nas regiões, que, além do noticiário local e da promoção de eventos culturais locais, são capazes de distribuir, em tempo real, a qualidade da programação brasileira produzida por um grande centro. Como, de resto, é assim em todos os outros países. Há centros que se especializam na produção editorial e disseminam, no nosso caso, em língua portuguesa, em idioma nacional, aquilo que é bom, bonito e belo, porque isso é universal para a escolha de qualquer consumidor em qualquer lugar do País. Portanto, esse é um fator absolutamente importante, democratizador da operação da rádio e da televisão brasileiras. A televisão e a rádio brasileiras — até porque existem pequenas, médias e grandes televisões e rádios locais, regionais e nacionais, em várias categorias — garantem expressão às culturas regionais. A cultura regional não se expressa somente num programa feito no interior da Paraíba 13 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 para o interior da Paraíba. Esses espaços sempre existem nas televisões regionais e locais. Garantem também que a televisão, mediante intervalo comercial, promova, valorize e consiga a obtenção de patrocínios para que as expressões culturais, locais e regionais estejam permanentemente sendo lembradas para aquela população mais próxima do próprio evento ou da própria manifestação cultural. A televisão cumpre importante função social. Ninguém pode negar, no Brasil, quer seja do ponto de vista da saúde pública, com a disseminação das campanhas que, voluntariamente, foram criadas pelos meios de comunicação para combater mortalidade e desidratação, quer seja pela utilização mais profissional e mais regionalizada de algumas campanhas de necessidade pública do Governo, seja Federal, seja Estadual, seja Municipal, quer seja com excelente preço de serviço que prestam a televisão e a rádio brasileiras à disseminação das idéias dos partidos políticos e dos políticos candidatos ao Executivo e ao Legislativo, que uma estrutura comercial preste tantos serviços ao eleitor como o rádio e a televisão brasileiras. A radiodifusão brasileira mostra o Brasil. Isso é preciso dizer, porque esquecemos disso. Um programa rural, exibido na minha rede, mostrava, num único bloco, a criação de determinado animal no Estado do Rio Grande do Sul, uma lavoura de feijão no interior do Estado da Bahia, o cuidado dispensado ao gado de corte no Estado do Mato Grosso do Sul. Estou citando o exemplo desse programa, exibido todos os domingos, às 8h da manhã. A televisão brasileira mostra o Brasil. Por via de conseqüência dessa necessidade, desse papel que ela cumpre de trabalhar a favor do Estado brasileiro, é obrigada a mostrar as faces. Não se admite na televisão brasileira a não-expressão de populações importantes, com sotaques, manifestações culturais também importantes, que estão tanto no editorial jornalístico, quanto nos cenários em que se desenvolvem a teledramaturgia no Brasil. Todos se lembram de que "Tereza Batista Cansada de Guerra" foi filmada em Aracaju. Enfim, não há nenhum sítio importante no Brasil que não tenha participado do audiovisual 14 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 que mostra o Brasil aos brasileiros. O mais importante não é ter uma colcha de retalhos regionais, mas ter o regional no nacional e o nacional exibido ao regional. O cruzamento entre fornecedores e exibidores de matéria de interesse traz a riqueza e a virtude da televisão brasileira. Além disso, a televisão brasileira já teve a satisfação de produzir Érico Veríssimo, Jorge Amado, Dias Gomes, Guimarães Rosa, Machado de Assis, todos autores importantes. Não há autor importante da literatura brasileira que não tenha sido convertido, com a sua riqueza, à teledramaturgia. Eu poderia fazer uma relação enorme aqui, mas deixo essa imaginação a V.Exas. A televisão e a rádio brasileiras alavancam a produção e o consumo de bens culturais, desde a música tipicamente brasileira até as manifestações culturais, que hoje são disseminadas no Brasil inteiro, seja fitinha do Senhor do Bonfim, que é permanentemente lembrada, sejam outros produtos culturais que cada um dos Deputados, em suas regiões, saberão perceber. E, por fim, a televisão brasileira fortalece a língua portuguesa. Há um projeto de fortalecimento da língua portuguesa. Freqüentemente, existem notícias na imprensa, ou mesmo comentários com Parlamentares, sobre algo bastante inespecífico, que é o seguinte: capital estrangeiro na mídia. Graças ao bom trabalho de discussão democrática das diversas correntes feito por esta Casa, o texto da proposta de emenda constitucional aprovada na respectiva Comissão tem o apoio da organização que represento. A proposta surgiu de um conjunto de preocupações. Permito-me lembrar a V.Exas. as preocupações que os empresários de comunicação social, numa atitude conjunta, articulada, cumulativa e convergente, levantaram no momento em que se discutia a internacionalização da mídia no Brasil. Então, só para fazer um comentário, como o companheiro do SBT já disse, o texto tenta eliminar a possibilidade de armadilhas na legítima condução dos negócios pelas empresas, que devem ser, efetivamente, geridas por brasileiros. 15 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 Quero apenas dar informações complementares sobre o muito que se discutiu e se tem discutido. Por exemplo, na minha organização, temos 10 mil pessoas diretamente envolvidas com a produção de audiovisual. Quer dizer, são atores, autores, roteiristas, iluminadores, marceneiros, enfim, pessoas envolvidas com a produção de programas brasileiros, a que V.Exas. assistem e que conhecem muito bem. Então, foi dito que faltava pensar, no momento em que se pensava na abertura de capital necessária para oxigenar as empresas de mídia, nos efeitos da globalização sobre os mercados nacionais. E sempre que houve convocação, foi no sentido de pensar nisso como um fenômeno mundial. E volto a dizer que esta Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional observa a temática com muito cuidado. V.Exas., nesta Comissão, são os que mais discutem a questão da reciprocidade. (Apresentação de transparências.) Eu gostaria de reproduzir apenas um material divulgado na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, cuja fonte é a ANATEL, que foi convidada a expor como é a situação internacional. Em resumo, em todos os países onde o mercado de comunicação livre é importante, há relevantes cuidados com a propriedade e a gestão dos meios de comunicação social, particularmente aqueles que são recebidos livre e gratuitamente pelas populações. Senão, vejamos: na França, é permitida a participação do capital estrangeiro, o que é muito raro, até 20% em rádio e até 25% em televisão. Mas, quanto à gestão, é vedada. Na Itália, menos de 50% do capital votante, e a participação estrangeira é vedada. Lá, inclusive, predominam as redes estatais, dominadoras efetivas do mercado em todos os eixos. No Japão, menos de 20%, e é vedada a participação de outros na administração. Na Inglaterra, até 20% do capital social, o que seria o capital total das entidades. Na Alemanha, menos de 50%, apenas televisão. Alguns desses mercados em que a televisão aberta e [DTTR7][DTTR8]a radiodifusão são livres, freqüentemente, não têm a mesma importância relativa que tem esse meio em mercados como Brasil, Índia e China. A televisão gratuita no Brasil é muito importante. Para V.Exas. terem uma idéia da magnitude do que estamos falando, o Brasil tem hoje 40 milhões de domicílios com televisão. O televisor é o terceiro item que entra no novo domicílio em formação. O primeiro é o fogão, o segundo é o 16 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 rádio, o terceiro é o televisor. Estou falando de algo que é quase um bem indispensável, indissociável da vida doméstica no País. Há 40 milhões de domicílios com televisão e menos de 6% dos lares com replicação de duas assinaturas de televisão paga. Nos Estados Unidos, o nível de penetração da televisão paga é de 80% dos domicílios, é de dez vezes maior que o nosso, o que mostra que o acesso ao meio de televisão paga tem a ver com a renda e com uma infra-estrutura desenvolvida para isso. Portanto, em níveis relativos, o Brasil tem radiodifusão livre e gratuita como o meio de comunicação relativamente mais importante quanto às questões relativas em outros países com população também importante. Na Alemanha, então, menos de 50% — a ANATEL, na época, não forneceu. Estou-me cingindo a não trazer fatos novos, a reproduzir o que já foi dito nesta Casa e o que já foi veiculado. No Canadá, menos de 20% apenas podem participar. V.Exas., na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, acompanham certamente a grande discussão que existe na Organização Mundial do Comércio. O único assunto que, na OMC, provoca briga é a tentativa de um grupo de países tornar commodities as produções culturais e intelectuais. Países como França, Itália e outros resistem porque entendem que isso significa absoluta importância para o vigor da nacionalidade e para o vigor econômico dos seus próprios países. V.Exas. sabem que, no Canadá, as restrições e recomendações são exaustivas, são regulatórias e respeita-se, de maneira cautelosa, a manifestação do mercado publicitário. Na Espanha, um mercado importante — temos hoje no Brasil importantes empresários espanhóis — até 25% são rádio, até 25% são televisão, e a participação estrangeira é vedada. Acho que foi nesta Comissão que, há pouco tempo, discutiu-se o ingresso de gerentes não brasileiros em postoschaves nas empresas privatizadas. Mas não há nenhuma revanche. Apenas quero lembrar que isso foi muito discutido na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional e trazido pela agência reguladora do Governo Federal como um fato de que há que se praticar reciprocidade e que é preciso ser vista a reciprocidade desmembrada em propriedade de capital e quadros 17 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 de gestão das companhias. E, nos Estados Unidos, enfim, país que, nesse assunto, está mais próximo de nós, até 20% direta e até 25% indireta. E a ANATEL, naquela oportunidade, informou que a participação de estrangeiros ou nacionalizados é permitida, só que é um país onde o FCC, a agência reguladora, tem que opinar. E é eficiente, mantém um quadro bastante importante há várias décadas e ocupa-se de maneira próxima do setor de telecomunicações e comunicação social. Por fim, para não me alongar, gostaria de relembrar apenas que o patrimônio econômico e a atividade cultural são dedo e unha. Freqüentemente, esquecemo-nos de que o idioma nacional é um patrimônio da comunidade que desenvolveu aquela língua. A liturgia dos procedimentos na indústria e nos serviços tem um valor estratégico, que todos os países prezam muito. Freqüentemente, percebemos que a cultura expressada na indústria e nos serviços se esquece da importância de uma língua própria, daquela configuração, daqueles links que nos permitem nos chamar de nação. A Comissão Especial elaborou um texto que, na nossa opinião, é muito bom e adequado. Discutiu-se muito a fragilização da produção nacional com a eventual chegada de capitais e gestão internacionais. O Sr. Flávio lembrou muito bem que não há impossibilidade, vedação legal, constitucional ou fiscal. Qualquer empresa, sob as leis brasileiras, pode produzir no Brasil. Se o estúdio achar que o clima do Rio Grande do Norte é melhor que o de Los Angeles, ele pode mudarse com todos os seus funcionários, seus equipamentos, seu capital, seu marketing e produzir no Brasil. Não é vedada a produção no Brasil: seja de um CD, seja de um filme, seja de um livro, seja de qualquer outro produto audiovisual e cultural. Isso é importante. O que se está discutindo, portanto, não é o eventual fechamento do mercado brasileiro à produção feita por brasileiros no Brasil, gerando empregos e riqueza. O que se está discutindo é a propriedade dos meios que transmitem e, portanto, freqüentemente, escolhem que conteúdo devem exibir. Isso é importante para as conclusões que V.Exas. terão ao observar o panorama internacional e os verdadeiros movimentos do mercado internacional em relação a esse bem estratégico, 18 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 que é a produção cultural, especialmente a produção audiovisual. Existe a preocupação em relação à perda de liberdade editorial. Acho que o texto da emenda proposta resolve bem isso. Mas como, por exemplo, para rádio e televisão é impossível que pessoas físicas não brasileiras não participem, e esperando que essa lei seja uma vacina que pegue, se o texto constitucional for bem regulamentado, imaginamos que o Poder Executivo terá condições de implementar, de fato, que apenas brasileiros dirijam as empresas, mesmo que elas tenham uma participação de até 30% do capital total de países estrangeiros. O Deputado Neiva Moreira, numa reunião, alertou para o fato de que países que não se preocuparam com a proteção do seu mercado cultural ou com o fomento à produção cultural tipicamente nacional perderam o bonde da história rapidamente. Há exemplos muito próximos nossos de que, com falta de cuidados quanto a isso, rapidamente a produção cultural dos países tende a descer a zero. Temos exemplos no Brasil. Todo mundo sabe que o cinema brasileiro já teve melhores momentos no País. Agora, com incentivos e com um tipo de fomento está havendo — e nós somos entusiastas — uma retomada do cinema brasileiro, que é uma produção prima da produção da televisão. Mas o cinema brasileiro começa a enfrentar dificuldades, que se instalam não só na produção, mas também na distribuição, na consolidação das empresas, nas parcerias, etc. Temos de ter cuidado na implantação de capital estrangeiro. O mercado publicitário brasileiro, com atores internacionais e nacionais, tem mais de 5 mil agências de propaganda. O setor publicitário brasileiro emprega hoje em torno de meio milhão de profissionais, estejam eles voltados a produzir um formulário ou um comercial para a televisão. Eventualmente, um menor cuidado em relação à participação internacional pode desorganizar o mercado publicitário brasileiro, que resiste à criação daqueles famosos bureaux de mídia, que são os atacadistas que podem controlar veículos de comunicação comprando, agenciando, antecipando recursos para que seu espaço publicitário seja, então, retalhado. Há um 19 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 movimento no mercado em relação a isso, e, sem dúvida, a participação do capital estrangeiro poderá interferir nisso, a critério do legislador. Atentem os legisladores para esses cuidados e atente o Poder Executivo, igualmente, para o espírito do capítulo constitucional renovado. Enfim, pode haver o enfraquecimento da identidade nacional, o fim da veiculação de temas regionais e a diminuição do sentido coletivo brasileiro oferecido pela televisão aberta e pelo rádio. Ninguém está dizendo que isso vai acontecer. Estamos dizendo o seguinte: as Organizações Globo sã ΝℵκνΠΗιοΕΛΜΗνΠΗℵθΕΡΝοáveis ao texto da Comissão Especial, que redigiu o substitutivo às propostas dos Deputados Laprovita Vieira e Aloysio Nunes Ferreira. Somos inteiramente favoráveis à promulgação daquela emenda[DTTR9], sugerindo que os enormes patrimônios de recursos humanos, de recursos literários e de acervo criativo sejam preservados, em prol do mercado no qual crescemos e no qual pretendemos desenvolver o nosso trabalho. Sentimos relativamente tímidas, em face da história da comunicação social no mundo, as iniciativas de fomento à produção audiovisual brasileira, quer seja fomento para rede pública de televisão, para canal comunitário de televisão, quer seja para concorrentes nossos em televisão aberta ou fechada. Somos um grupo grande. O fato é que, no momento em que houve certa liberalização quanto à participação não nacional na mídia, todos os países do mundo organizaram-se para proteger o que tinham e fomentar ainda mais aquela produção, para que houvesse uma contraposição, ou seja, segurar um santo sem derrubar o outro, e para permitir a oxigenação das empresas sem derrubar o patrimônio, não só o cultural, mas também o econômico e a estratégia de nação — no caso do Brasil, a estratégia de federação. E acho, como brasileiro que viajou muito por todo o País, que isso é algo subavaliado, uma vez que é importantíssimo para um país que fala português, cercado de países que falam espanhol, um país que fala uma língua que não é a mais importante do mundo, mas que tem criação artística, acervo importante da expressão cultural e nacional legítimas. Por fim, quero voltar a lembrar a V.Exas. que para nossa organização capital adicional na mídia, sim, nos termos da 20 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 proposta que está sendo discutida... De preferência, como tudo que o Legislativo tem feito, até pela existência de diversas Comissões temáticas, olhado de maneira um pouco mais articulada, mais cumulativa, mais concomitante, mais convergente, para que possa atingir o objetivo de permitir algum recurso adicional para os meios de comunicação, mas preservando aquilo que V.Exas., melhor do que eu, têm preservado nos seus mandatos. Quero relembrar que o texto existente já se preocupa, de maneira constitucional, com níveis de capital e de gestão, especialmente com a propriedade titulada, intuitu personae, em rádio e televisão. Mas quero lembrar também que o texto constitucional, em nenhum momento, pode abrigar o conjunto de observações que alguns de V.Exas. certamente fariam a esse rápido ingresso, a essa rápida modificação do panorama societário das televisões no Brasil. Volto a acentuar que costumamos ouvir nossa base. Nossa base é composta pelos profissionais, os intelectuais e artistas que produzem o conteúdo das Organizações Globo. Eles sempre se perguntam por que não há incremento da produção, já que não há limitações à produção de terceiros de qualquer país no Brasil. E sempre se perguntam por que não há um esquema de valorização das empresas existentes, para que o mercado seja aberto para brasileiros, por que não há uma articulação entre os sindicatos de artistas, de roteiristas, de arquitetos. Insisto com V.Exas.: quando falo de manifestação cultural, falo também que, com a privatização e a globalização de alguns sistemas, é freqüente observarmos que até plantas de arquitetura detalhadas estão chegando ao Brasil prontas. A cultura se manifesta não apenas no produto audiovisual, mas em toda e qualquer manifestação. E a preservação de empregos intelectuais e artísticos, empregos que custam muito caro para a nação, deve ser prioridade de qualquer Executivo e de qualquer Legislativo. Por fim, quero dizer que o grande esforço que existe em algumas correntes do Legislativo, saudável, de democratização do acesso e da propriedade dos meios de comunicações deveria incluir também a preocupação com que a democratização seja adjetivada por democratização para brasileiros e 21 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 democratização para preservação da nação e da federação. Muito obrigado. Estou à disposição para responder a qualquer pergunta. O SR. PRESIDENTE (Deputado Neiva Moreira) - Agradeço ao Sr. Evandro Guimarães a colaboração aos nossos trabalhos. Concluída a fase de exposições, daremos início aos debates. Cada Parlamentar inscrito poderá interpelar os expositores por um prazo máximo de três minutos. Os expositores terão o mesmo prazo, com direito a réplica e a tréplica. Com a palavra o Deputado Aldo Rebelo, autor do requerimento. O SR. DEPUTADO ALDO REBELO Sr. Presidente, naturalmente, sem requerer qualquer tipo de privilégio, mas como autor do requerimento, gostaria que V.Exa. tivesse uma compreensão maior, até para que possa explicar a razão da convocação, por iniciativa minha, da presente audiência pública da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional. Creio que as exposições realizadas pelos ilustres convidados já são auto-explicativas. De qualquer maneira, a comunicação oral, escrita, audiovisual, nas suas formas mais diversificadas, configura elemento importante da preservação da identidade cultural, da identidade nacional. Num mundo que exige, pari passu, a intensificação da globalização e a circulação, cada vez mais intensa e em maior velocidade, não só de mercadorias, mas de idéias, valores e padrões culturais, a manifestação espontânea da globalização — às vezes, nem tão espontânea assim — exige, por um lado, um esforço muito grande na preservação dos valores da identidade, da cultura, da língua, da economia, do mercado, do patrimônio do País. Gostaria de lembrar, Sr. Presidente, que não é a primeira vez que esta Casa trata do ponto de vista da relação do capital estrangeiro com a imprensa no Brasil sob a ótica do interesse nacional e da preservação da soberania do País. V.Exa., decano que é nesta Casa, provavelmente tem acompanhado. Em 1963, funcionou na Câmara a CPI requerida pelo 22 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 Deputado João Dória. Quando das conclusões de seu trabalho, o relatório afirmava, entre outras coisas: um dos poderosos mecanismos de que se utilizam grupos financeiros internacionais para exercitar no mundo moderno uma nova forma de colonialismo, aquela que domina as fontes de informação e os meios de exploração de riquezas, com outras armas que não a da ocupação militar, e dá aos povos colonizados a falsa e, por isso mesmo, cruel impressão de senhores do seu destino, é o domínio dos meios de comunicação. Essa a conclusão da CPI realizada nesta Casa, no ano de 1963. Gostaria de lembrar uma manifestação mais recente, de janeiro de 1996, assinada pelos proprietários dos jornais de São Paulo, entre eles [DTTR10]Júlio Mesquita Filho, Ruy Mesquita, Otavio Frias de Oliveira, Edmundo Monteiro, dos Diários Associados e pelo Sindicato dos Proprietários de Jornais e Revistas, e Paulo Machado de Carvalho, pela Associação das Emissoras de São Paulo. No manifesto de 1996, portanto, recente, o primeiro parágrafo é o seguinte: Não se pode dizer que a opinião pública brasileira tenha sido inteiramente surpreendida pelas últimas divulgações de fatos relacionados com a infiltração de capitais estrangeiros na indústria jornalística nacional, bem como na exploração de concessões de rádio e televisão. Circulam, com efeito, por aí, numerosas publicações, revistas principalmente, que não escondem a origem dos capitais que as sustentam e não disfarçam a origem extranacional do seu pensamento, dos seus sentimentos e, portanto, dos interesses também. Agregue-se ainda a informação de que, recentemente, a Argentina abriu seu mercado. E quem apareceu para se associar ao principal jornal da Argentina, o vetusto e respeitável jornal El Clarín? [DTTR11]Não foi, Sr. Presidente, nenhum grupo jornalístico estrangeiro, sul-americano, americano, europeu ou japonês, que viesse agregar padrões técnicos, tecnologia de comunicação, modernização da capacidade de comunicação ao antigo jornal de Buenos Aires. Não. Quem apareceu foi um banco americano, Goldman Sachs, que pagou 500 milhões de dólares por 18% do maior grupo de comunicação do nosso país irmão e vizinho. Meio bilhão de dólares, Sr. Presidente! Para termos uma idéia do que isso representa no mercado nacional de comunicação, 500 milhões de dólares correspondem ao faturamento — não sei se é o maior em faturamento, mas 23 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 certamente é dos maiores — do jornal Folha de S.Paulo. Esse valor pago pelo banco americano — mais uma hipótese, sem prova concreta — deve ser superior ao valor de mercado das ações do jornal El Clarín. O banco americano não pagou por uma mercadoria, pagou pelo direito de ter assento e influência no principal jornal da república argentina. Portanto, Sr. Presidente, está aí, pelo menos em parte, justificada a minha preocupação, que é a mesma desta Comissão, que aprovou por unanimidade a convocação desta audiência pública. Finalmente, gostaria de ouvir dos nossos convidados um comentário a propósito de manifestações, que tenho acompanhado pela televisão, em relação não só à questão da língua portuguesa. As dublagens, por exemplo. Recebi ofício de profissionais dubladores dizendo que, hoje, parte da dublagem é realizada nos Estados Unidos, com todas as implicações de deformação, de deturpação da língua portuguesa, que tem uma dublagem realizada. Vimos, recentemente, quando o expositor do FMI falou ao País sobre um programa econômico, a dificuldade do tradutor moçambicano que traduziu as palavras do representante do Fundo Monetário para o nosso povo. Há problema também de noticiário produzido lá fora. Não sei se continua ainda no ar uma produção do SBT, um noticiário produzido a partir dos Estados Unidos. Há também, no caso das tevês por assinatura, das tevês fechadas, o abuso dos estrangeirismos. A impressão que temos é que os absurdos chegam a tal ponto que não estamos recebendo uma emissão em língua portuguesa do Brasil, às vezes a produção é lá de fora. Tenho a impressão de que, no caso da MTV, por exemplo, ou em, te, ve, como chamam, aquelas moças falam melhor o inglês do que o português. Não tenho grande domínio da língua inglesa, mas a impressão que tenho, pela desenvoltura, é de que elas falam melhor o inglês do que o português. O SR. PRESIDENTE (Deputado Neiva Moreira) - Deputado Aldo Rebelo, peço a V.Exa. que conclua, inclusive porque estamos condicionados à votação em plenário. O SR. DEPUTADO ALDO REBELO - Está certo. Por último, a transmissão por tevê a cabo de fenômenos culturais e esportivos. É o caso da Copa Libertadores da América, que uma 24 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 tevê por assinatura chegou a transmitir em espanhol para o Brasil, além da transferência para os Estados Unidos, o que implica tratamento não de mercado como é o Brasil. Uma tevê com sede no Brasil trata o país como mercado. Com sede nos Estados Unidos, vai tratar a América Latina... E, naturalmente, a língua espanhola terá muito mais peso do que a portuguesa. Muito obrigado, Sr. Presidente. Cumprimento os expositores pelo brilhantismo. O SR. PRESIDENTE (Deputado Neiva Moreira) - Com a palavra o Dr. Gabriel Priolli, que foi o primeiro expositor. Apenas insisto em que devemos nos ater aos três minutos, porque estamos sendo avisados de que, brevemente, ocorrerão as votações nominais no plenário. O SR. GABRIEL PRIOLLI - A preocupação do Deputado Aldo Rebelo em relação às dublagens feitas no exterior é também minha. De fato, isso acontece. É possível observar que a maior parte das empresas de televisão distribuídas hoje no sistema de tevês pagas estão sediadas em Miami, de onde transmitem a programação. Hoje em dia, existe grande oferta de trabalho para brasileiros em Miami, para toda a área artística, particularmente para as áreas de locução e dublagem, em que são bastante requisitados. Na falta de profissionais brasileiros, evidentemente, poderemos ter os moçambicanos ou quaisquer outros profissionais que falem a língua portuguesa. Como essas emissoras não têm esses profissionais na quantidade necessária, freqüentemente as estações têm feito dublagens ou têm tentado se expressar em português, de forma incorreta. Daí por que defendemos, no caso da televisão aberta, cuja importância cultural sobre o conjunto da população é muito maior, como foi bem ressaltado por Evandro Guimarães, que haja clara restrição à emissão de sinal de fora do território nacional. Devem continuar sendo emitidos de dentro do território nacional. E que o material eventualmente vindo dos parceiros, dos novos sócios estrangeiros, para veiculação aqui, seja, primeiro, traduzido e dublado no Brasil, para garantir, digamos assim, a preservação da nossa língua, da nossa cultura e também do mercado de trabalho dos profissionais da área. 25 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 Em relação aos telejornais no exterior, tínhamos esse caso citado do telejornal da CBS, através de um acordo entre o SBT e a CBS. O acordo foi desfeito. No momento, não temos mais essa situação. E não tivemos, felizmente, ao longo do período em que durou essa associação no plano do telejornal, problemas maiores ou mais graves no sentido de um "tendencionamento" editorial que não atendesse aos interesses nacionais. Não houve, felizmente, qualquer problema nesse sentindo. O que não significa, caso isso se dissemine como uma prática, que não possamos ter problemas à frente, especialmente em algumas situações em que se oponha o interesse nacional ao interesse, por exemplo, dos Estados Unidos, país que detém a maior força na área da mídia. O SR. PRESIDENTE (Deputado Neiva Moreira) - Com a palavra o Sr. Flávio Cavalcanti Júnior. O SR. FLÁVIO CAVALCANTI JÚNIOR - Quero apenas acrescentar, Deputado, que, no período em que fizemos a cobertura via CBS, só havia brasileiros trabalhando. O editor Marcos Wilson, aliás, um belo editor profissional, mudou-se, por razões pessoais, para os Estados Unidos. Esse profissional competente, que trabalhou muitos anos no Estadão, fez uma proposta a Sílvio Santos. O horário era a partir de 1h da manhã, um negócio da alta madrugada, mas acabou. Seus apresentadores são conhecidos: Leila e o marido, Eliakim Araújo. Jamais passou pela nossa cabeça transmitir material jornalístico 100% feito por americanos. Isso não teria sentido para nós. De qualquer maneira, o acordo foi desfeito, e o SBT está estudando uma estratégia para voltar ao jornalismo lá na frente. Não sei se preciso responder a algo mais. O SR. PRESIDENTE (Deputado Neiva Moreira) - Com a palavra o Sr. Evandro Guimarães. O SR. EVANDRO GUIMARÃES - Eu gostaria de registrar que as preocupações dos veículos de comunicação da nossa organização, que cresceu e tem os benefícios do tamanho, têm-se focado em informar, entreter e educar. O terceiro verbo, que é importante para todos nós, para as futuras gerações, realmente depende de algum tipo de condimento, de algum tipo de novos elementos estimuladores a que essa riqueza patrimonial brasileira, o idioma nacional, seja preservada. Já estivemos 26 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 muito mal nesse assunto. No momento, isso é visível pela tabela de preços, só temos um programa com o nome em inglês. Já conversamos com a direção da empresa, para ver se isso pode ser mudado. [DTTR12]O único anglicismo em nossa grade de programação é o Xuxa Park. Não haveria nenhum problema se se chamasse Xuxa Parque, conforme o idioma português. O mais importante é que a sensibilidade do Deputado tornou-se muito aguda em relação às fáceis migrações do emprego intelectual e artístico para sistemas internacionalizados, dos quais não somos críticos. Imaginem! A Globo é uma empresa que, nas áreas em que a lei permite, tem inúmeras e várias parcerias internacionais. Isso é de conhecimento público. É uma empresa que já foi, durante muito tempo, acusada de ser mais disseminadora de cultura internacional do que hoje. O fato é que, avaliando a situação, hoje, chegamos à conclusão de que nos tornamos a principal produtora cultural de temática brasileira, a principal empregadora há muitos anos, e apostando no mercado tipicamente brasileiro. O reflexo maior disso, Deputado, é que a única programadora expressiva que opera vários canais editados, montados, formatados, dublados no Brasil é a nossa Globosat, que fornece a programação para os canais a cabo Net. Essa preocupação enfrentou muita resistência inicial dos fornecedores internacionais de programação e deu-nos e continua dando enorme prejuízo, porque é uma indústria nascente. Foi uma necessidade da empresa, que aposta em conteúdo brasileiro para brasileiros, continuar a manter esse link, aparentemente, para nós, uma estratégia de marketing necessária e saudável, sobre a qual não há nenhuma limitação para que outras empresas acompanhem na mesma estratégia. Sendo assim, somos os editores de vários programas que estão na grade da tevê paga, Multishow, GNT, Globo News, que, infelizmente, têm, sim, anglicismos. No entanto, em contrapartida, somos estimuladores importantes do canal Futura, canal de educação presente nos cabos e nos satélites e hoje em cerca de 60 mil escolas no Brasil, pelo sistema de entreter e educar, muito bem aceito, com sistema de telessalas, que têm sido disseminadas e muito utilizadas pelo programa oficial da TV Escola e com grande sucesso pelo nosso canal Futura, que é baseado exclusivamente no acervo que 27 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 produzimos para a tevê comercial. Temos também com muita satisfação, reconhecidamente e com muita dificuldade, o único canal de exposição cultural permanente, o canal Brasil, que exibe e reexibe o acervo de filmes brasileiros disponibilizados pelos produtores. Tem razão V.Exa. É exatamente isso que estamos procurando atender para cumprir nosso papel de empresa brasileira voltada para o mercado brasileiro, que não vê nenhum problema em associação estratégica ou parceria com países estrangeiros, até porque nosso objetivo é, com nosso idioma e as parcerias, atingir também o mercado internacional. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Neiva Moreira) - Muito obrigado. Avisamos aos nossos colegas que começou a votação. Sugerimos que se faça um revezamento, a fim de mantermos a reunião. Pedimos aos colegas que forem votar que sejam o mais breves possível e voltem. Com a palavra o Deputado Francisco Rodrigues. O SR. DEPUTADO FRANCISCO RODRIGUES - Sr. Presidente... O SR. DEPUTADO VIRGÍLIO GUIMARÃES - Deputado Francisco Rodrigues, só um segundo. Desejo saber qual é a ordem de inscrição. O SR. PRESIDENTE (Deputado Neiva Moreira) - Deputados Vivaldo Barbosa, Haroldo Lima, De Velasco, Eduardo Campos, Dr. Heleno, Roberto Argenta e Virgílio Guimarães. O SR. DEPUTADO VIRGÍLIO GUIMARÃES - Sugiro que se agrupem as perguntas, para não responder um a um. O SR. PRESIDENTE (Deputado Neiva Moreira) - Sugiro que as perguntas sejam dirigidas aos expositores. Se algum quiser complementar alguma opinião, será mais eficaz. Tem a palavra o Deputado Francisco Rodrigues por três minutos. O SR. DEPUTADO FRANCISCO RODRIGUES - Sr. Presidente, Deputado Neiva Moreira, palestrantes convidados, apenas um parênteses. Desejo pedir ao nobre colega Virgílio Guimarães, próximo orador a se manifestar, em virtude da ausência de Parlamentares inscritos, que não saia agora, porque não farei perguntas. Quero, primeiro, falar da riqueza das informações apresentadas, com números apresentados pelo nobre 28 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 representante da TV Globo, Evandro Guimarães, que mostram que, realmente, a tevê — disso temos alguma idéia, mas não sabemos com minudência de detalhes e precisão —, praticamente, já representa uma necessidade em todos os lares brasileiros, chegando hoje a estar em 40 milhões de domicílios. Uma questão que, na verdade, nos preocupa bastante é a importância que os veículos de comunicação têm para a difusão e a divulgação mais firme, mais presente e mais agressiva do nosso turismo. Sabemos, como disse o Sr. Evandro Guimarães... Sou Deputado do Estado de Roraima. No meu Estado, estamos cercados por 1.900 quilômetros de fronteiras entre dois países, do nordeste ao sudeste do Estado, a Guiana Inglesa e a Venezuela. No entanto, não sofremos absolutamente nenhuma influência do idioma inglês, da Guiana, e do idioma espanhol, da Venezuela, exatamente pela presença maciça dos meios de comunicação, seja rádio, seja televisão. Nossa preocupação é com o turismo. Precisamos que os veículos de comunicação aqueçam, levem mais informação, mostrem mais, de forma não contemplativa, porém mais agressiva e presente, a importância de o brasileiro, primeiro, utilizar as milhares de alternativas que temos de turismo nacional. No caso da Amazônia especificamente, por vivermos momentos cruciais nos dias de hoje, com a presença cada vez mais forte, mais intensa e preocupante de ações e organizações não-governamentais, estrangeiros, etc., temos a convicção de que apenas os meios de comunicação, como SBT, Globo, enfim, as mais fortes do País, de maior penetração, teriam condições de penetrar na consciência da sociedade brasileira para convencêla da importância dos 5 milhões e 200 mil quilômetros quadrados, a fim de que haja um sentimento patriótico, nacionalista mais forte ainda. Para V.Exas. terem uma idéia, atualmente estamos deparando-nos com um problema terrível, que, inclusive, os meios de comunicação não têm divulgado, infelizmente. Um navio do Greenpeace, o Amazon Guardian, tem feito verdadeiras agressões à nossa soberania, inclusive vistas de forma contemplativa pelas autoridades brasileiras. Com helicópteros a bordo e sistema de comunicação de satélites, leva para a imprensa internacional toda uma série de informações falsas em 29 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 relação à exploração da Amazônia, ao extermínio dos índios, à exploração da madeira. Acredito que programas com uma abordagem mais visível e mais forte em relação à importância da Amazônia no processo de integração nacional seriam muito importantes e deveriam ser realizados por todos os instrumentos de comunicação. São apenas observações, que acredito serem importantíssimas, pela penetração que têm os veículos. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Neiva Moreira) - Peço ao Deputado Aldo Rebelo que assuma a Presidência enquanto voto. Com a palavra o Sr. Evandro Guimarães. O SR. EVANDRO GUIMARÃES - O tema da proteção e da conscientização de que a Amazônia é uma reserva para o mundo, mas que, antes de tudo, é brasileira, também foi bastante discutido com participantes de sua região, Deputado, em encontros anteriores. Levarei as sugestões de turismo e da cobertura mais adequada. Posso dizer apenas que levarei as sugestões. Realmente, a televisão e o rádio podem contribuir com o turismo de maneira importante. Não é a única peça. O turismo no Brasil, o turismo interno não necessita apenas de divulgação. Necessita também de estrutura, de treinamento para os agentes de turismo, de melhor visão do empresário do pequeno turismo, da pequena pousada sobre o que é o receptivo, [DTTR13]o que, no Brasil, é totalmente diferente da Europa e de outros países que cultivam o turismo. No entanto, V.Exa. tem razão: os meios de comunicação são os mais importantes indutores de turismo, seja pela publicidade, seja por conteúdo editorial. O filme "Bossa Nova", que está sendo exibido no mercado nacional e será exibido em vários países do mundo, fará pelo turismo brasileiro muito mais do que os programas de incentivo nos próximos meses, V.Exa. não tenha dúvida, com as boas imagens do Rio de Janeiro etc. Registrarei suas opiniões, porém, neste momento, apenas posso tornar-me solidário a V.Exa. em relação à conscientizaçã ΝℵηΕℵΟρΕℵοΗικão e à necessidade de conhecimento. Conheço apenas a Capital do Estado de V.Exa. O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) - Com a palavra o Dr. Flávio Cavalcanti Júnior. 30 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 O SR. FLÁVIO CAVALCANTI JÚNIOR - Talvez a Associação Regional das Emissoras de Televisão da região de V.Exa., Deputado, possa, porque são homens de televisão e quase todos ligados a uma cabeça de rede, estabelecer em conjunto com os senhores uma pauta de sugestões de temas para que fossem abordados. A realidade quem conhece são V.Exas., são nossos afiliados lá. O SBT tem uma estação em Belém do Pará, por exemplo, e na Amazônia há um afiliado. Essa associação regional de radiodifusão poderia criar, pautar, sugerir ações para que nossas cabeças de rede, no Rio de Janeiro ou em São Paulo, possam tratar melhor e mais adequadamente esse assunto. O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) - Com a palavra, o Sr. Gabriel Priolli. O SR. GABRIEL PRIOLLI - Só aduziria, Deputado, a preocupação com a defesa da televisão regional do País. Temos de estabelecer, dentro desse quadro de globalização, um novo modelo de televisão para o País, mais equilibrado, em que a televisão nacional tenha um ponto de equilíbrio em uma televisão regional bastante forte e desenvolvida. Acho que ainda estamos devendo nesse sentido. As redes ainda são muito mais fortes do que as emissoras regionais. O espaço de programação regional ainda é, na minha opinião, muito inferior àquilo que poderia ser. Uma televisão brasileira forte é uma televisão que tem emissoras regionais fortes articuladas com as redes nacionais fortes que temos hoje, que cumprem um papel muito importante, o que foi lembrado pela Mesa, de coesão nacional, de simulação de um sentimento nacional. Mas ainda precisamos desenvolver melhor o sentido de uma televisão regional mais forte. Portanto, é um desafio para a Amazônia não apenas, digase, esperar que o País como um todo se volte para ela e examine seu problema, mas ela mesma articular-se para dar mais difusão e comunicar mais suas questões e sua perspectiva. Um modelo equilibrado de televisão seria, então, esse que preparasse o País para a fase internacional, inclusive ocupando o mercado internacional — por que não? —, uma vez que a televisão brasileira é perfeitamente competitiva no plano internacional, deve atuar nesse plano. Deve haver uma televisão nacional forte e também uma televisão regional. 31 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 O SR. DEPUTADO FRANCISCO RODRIGUES - Nobre Presidente, para concluir minha participação nesse debate, digo que tenho absoluta certeza de que a participação dos grandes veículos de comunicação, inclusive através dos satélites e na divulgação da importância do papel da Amazônia, teria muito mais densidade, seria de uma forma até mais agressiva. Na verdade, recebemos menos de 5 milhões de turistas por ano. A França recebe 65 milhões de turistas por ano, praticamente sua população. A Espanha recebe 40 milhões de turistas por ano. E nossa Amazônia, com sua visão internacional deformada, poderia ser trabalhada como instrumento fortíssimo de captação de recursos pelas próprias redes — e concordo com o Evandro Guimarães quando fala da necessidade da logística para o turismo. A Amazônia é um santuário tão sagrado, tão natural ainda, diferentemente do que pensam, lá fora, os estrangeiros, que querem conhecê-la, vê-la e ocupá-la para descanso, lazer e até mesmo por curiosidade. Acataremos a sugestão dada por Gabriel Priolli com relação à maior participação das redes regionais. Porém, entendemos que os cabeças de rede têm um papel importante no filtro e na formatação de programas que possam efetivamente contribuir para a divulgação, manutenção e garantia dessa nossa soberania, cuja preocupação o tempo se encarregará de mostrar que não é em vão. Muito obrigado. O SR. DEPUTADO ROBERTO ARGENTA - Sr. Presidente, pela ordem. Sugiro que se façam os questionamentos em bloco, para que ganhemos tempo e todos possam fazer uso da palavra. Obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) - Não havendo encaminhamento contrário, acato a sugestão de V.Exa., Deputado Roberto Argenta. Veremos quantos estão inscritos e procuraremos fazer o bloco de acordo com o número de Deputados presentes. Há vários votando no plenário. Passo a palavra ao próximo orador inscrito, Deputado Vivaldo Barbosa. O SR. DEPUTADO VIVALDO BARBOSA - Muito obrigado. Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, Srs. Expositores, o debate 32 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 sobre a participação de capital de entidade estrangeira em meios de comunicação no Brasil toca-nos de maneira especial, porque os meios de comunicação têm um papel relevante na formação da consciência da cidadania brasileira e na cultura nacional. Em conseqüência, também na deformação das consciências e na deformação da cultura nacional. Surge dessa preocupação um drama. Tem sido a televisão brasileira um veículo condutor que contribua para o aperfeiçoamento da cultura nacional, para a formação da consciência e para a elevação do nível da cidadania do povo brasileiro? A resposta, evidentemente, a um drama como esse é que, a meu ver e sob ponto de vista de tantos críticos dos meios de comunicação brasileiros, é que essa contribuição não tem sido das mais eficazes. Os meios de comunicação no Brasil não têm sido instrumento dessa busca da realização da cidadania e da melhor formação da consciência cívica do povo brasileiro. Daí é que, na oportunidade de um debate como esse, surge sempre uma indagação que atinge muitas pessoas de boa vontade, muitos patriotas. Se a televisão brasileira não tem sido até hoje um instrumento para o aperfeiçoamento da cultura e da cidadania brasileira, a abertura para a participação estrangeira, aumentando a competitividade, trazendo outros valores, não seria um meio de sacudir um pouco o comportamento dos meios de comunicação brasileiros, especialmente a televisão? Evidentemente, a televisão brasileira foi um instrumento muito importante, um dos elementos de sustentação durante o regime militar. Todos sabemos das dificuldades — perdoamos esse período — de todos os instrumentos que ajudaram a sustentar o regime. A história terá seu registro a esse respeito. [DTTR14]Quando veio a abertura, especialmente da televisão brasileira, continuamos com a dificuldade de aceitála. Muitas das televisões brasileiras constituíram-se em verdadeiros partidos políticos no Brasil: ou assumiram a posição de correntes políticas ou assumiram o direito de vetar que correntes políticas tenham acesso até a noticiários. Personalidades da vida brasileira foram inteiramente vetadas, obscurecidas como personalidades brasileiras para o noticiário da pessoa comum Brasil afora. É evidente que todos nós sabemos que a TV Globo assumiu um papel concreto na sustentação de um ideário político muito mais do que qualquer outro meio de comunicação no País. É 33 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 evidente que guardamos uma visão crítica a respeito do papel das televisões, especialmente do papel da TV Globo, assumindo posições em diversos episódios, o que todos nós sabemos, não é preciso recordar. Mas essa atitude de poder que a televisão quis assumir, o fato de se ter julgado e julgar-se no direito de vedar, vetar, proibir a veiculação até de notícia, de opiniões de figuras e de correntes políticas no País, é evidente, não é apenas inaceitável do ponto de vista ético, do ponto de vista de uma compreensão democrática dos meios de comunicação, mas vedado pela legislação brasileira e pela Constituição que conseguimos, a duras penas, escrever. Não houve força no mundo capaz de fazer com que os meios de comunicação, especialmente as televisões, cumprissem o seu papel constitucional de ser concessão de serviço público e, como tal, atender ao interesse do debate político democrático, aberto, das correntes políticas que existem no cenário brasileiro. Outra questão que continua presente: as televisões públicas, entes estatais, que pertencem ao Estado brasileiro, também se julgaram nesse direito de ser governo em determinado período e vedar, não admitir a presença de setores de oposição ao Governo. Durante aquele período, ela se julgou no direito de servir. A televisão pública é instrumento do Estado nacional e deve favorecer a Nação brasileira no seu conjunto, independente dos governos que transitoriamente são eleitos por períodos democráticos de exercício de mandato. A televisão brasileira tem seguido muito mais o modelo americano de produção de programas, geração de divertimento e outras atitudes e menos o padrão das televisões européias, que se preocupam mais com a cultura nacional, são mais abertas e democráticas ao debate político de todas as correntes. Especialmente no tocante a estas últimas, quase todas as mais importantes televisões estatais da Europa, embora estatais, sempre se abriram para as correntes políticas de oposição. O mesmo não acontece aqui ou raramente acontece, com exceções. Até as televisões brasileiras, não só públicas, como privadas, para demonstrar certo equilíbrio, escolhem quem é oposição e têm suas preferências quanto a quem melhor exerce a oposição. Diante desse drama que vivemos, compreendo que 34 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 consciências elevadas se toquem e às vezes se dobrem à consciência de que uma participação de entidades estrangeiras que tenham condições de dobrar um pouco o comportamento democrático e até ético da televisão brasileira seja uma necessidade para o País na atualidade. É evidente que minha consciência, especialmente cívica, patriótica, nacionalista, resiste a essa visão, mas sinto-me impotente no tocante a contribuir para que a televisão brasileira seja democrática, aberta à cidadania. Perguntaria aos expositores, que com muito brilho fizeram suas ponderações e têm enfrentado tais questões: como corrigir o comportamento que a televisão brasileira teve não durante o regime militar, mas da abertura para cá? É uma questão que o livre mercado vai resolver? É o liberalismo que vai permitir essa correção? Ou isso se dará por meio de algum tipo de controle público, democrático, social, conforme prevê a Constituição? Isto é, instrumentos de controle e de acompanhamento da programação dos meios de comunicação, o que até hoje não conseguimos constituir; não houve força no mundo que pudesse constituir como previu a Constituição. Muito obrigado, Presidente. O SR. PRESIDENTE (Deputado Neiva Moreira) - O Deputado Haroldo Lima não está presente. Tem a palavra o Deputado De Velasco. O SR. DEPUTADO DE VELASCO - Sr. Presidente, nobres companheiros Deputados, Srs. Expositores, farei mais uma observação. Fala-se da questão da dublagem. Temos observado e ouvido falar da qualidade do tradutor e não do dublador. Outro dia, vendo o canal Discovery, tivemos oportunidade de, em um programa em que estava sendo discutida a autoria de Da Vinci sobre um quadro descoberto nos Estados Unidos, a tradução foi a seguinte: que o quadro se chamava "Jesus entre os médicos", quando, na realidade, quem conhece o mínimo da palavra de Deus sabe que há uma passagem bíblica em que Jesus está entre os doutores. Simplesmente trocaram "doutores" por "médicos". Um lapso tremendo de informação mínima. Muitas vezes, quando veiculadas discussões sobre o que se passa em determinada cidade, vê-se "prefeito" ser traduzido por "major", e coisas dessa natureza. 35 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 Fica essa observação. Sabemos da velocidade com que as traduções são feitas. Normalmente, os interessados nessa tradução não procuram o melhor tradutor, e sim o mais barato. Tive na família uma cunhada que fazia essas traduções. Ela era especialista em traduzir. Muitas vezes ficava embatucada em alguma palavra e acabava por inserir qualquer outra que desse para traduzir. O SR. DEPUTADO VIRGÍLIO GUIMARÃES - Parece que fazem até por computador. Ouvi dizer que esses enlatados, como Discovery e outros, são feitos assim. O SR. DEPUTADO DE VELASCO - Sr. Presidente, tenho um certificado de um seminário realizado na hoje Universidade Estácio de Sá, assinado pelo pai do Dr. Flávio, que foi um grande instigador. O brilhante expositor Flávio Cavalcanti Júnior falou que duas emissoras estão no páreo: a Globo, que está sempre em disparada, e o SBT. Esqueceu-se, sem dúvida nenhuma, de incluir a Record. Disse que a Record era uma das lamentáveis histórias de fracasso — tenho anotado o que ele disse. Sem dúvida nenhuma, seria uma história de fracasso ainda na mão de Senor Abravanel[DTTR15], com Paulo Machado de Carvalho, não fosse a aquisição feita, agora, pela atual gestora de seus negócios, de que fui eu o primeiro diretor administrativo financeiro. Realmente, a emissora não teria condição de viver mais dez dias se, por acaso, não tivesse entrado a nova administração. Outro ponto. Sei que ele fez isso para me instigar. A Record é uma das emissoras que mais têm investido em tecnologia nos últimos anos, inclusive retirando do mercado muito do que era utilizado pela [DTTR16]hegemônica TV Globo e que hoje pertence à TV Record. Ela hoje é a que está mais aparelhada, em termos de tecnologia digital. Citei isso apenas como referência. Quanto ao último expositor, quero falar sobre a garantia de expressão das culturas regionais. Quando no interior chegávamos, vindos do Rio de Janeiro ou de São Paulo, nossa presença causava impacto. Hoje, quando vamos a esses locais, causamos impacto exatamente porque eles estão muito mais atualizados em termos de moda, gesticulação, gírias do que nós, que vivemos nesses locais, porque tais manifestações chegam lá e todos as admitem como algo a ser absorvido. Ficam essas observações. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Neiva Moreira) - Os Deputados Eduardo Campos e Dr. Heleno não estão presentes. Portanto, tem 36 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 a palavra o Deputado Roberto Argenta. O SR. DEPUTADO ROBERTO ARGENTA - Sr. Presidente, Srs. Expositores, Srs. Deputados, minha posição é muito mais em relação ao que entendo de livre mercado. Entendo como livre mercado a compra e venda de mercadorias e tecnologias e não a venda de empresas e de nosso mercado. As pessoas, em todos os tempos, trabalham fora para levar dinheiro para casa. Um capital externo vem para cá a fim de levar dinheiro para sua casa, isto é óbvio e natural. Depois nos queixamos de que essas empresas não pagam lucro em nosso País, preferem pagar no seu país, o que é absolutamente normal. Vejo que temos de mudar a nossa mentalidade. E aproveito a oportunidade de termos conosco estas pessoas ilustres da comunicação para dizer que é importante realmente mudarmos a nossa mentalidade. Para ver como a nossa mentalidade está totalmente equivocada em relação ao capital externo, aproveito uma reportagem da revista Veja, de 24 de maio, que, na sua pág. 50, diz o seguinte: Capital globalizado: a participação do capital estrangeiro no PIB brasileiro passou de 8% para 20% na última década. A economia brasileira deixou de ser uma das mais fechadas do mundo, mas ainda não está suficientemente aberta. Confira o percentual do PIB no estoque estrangeiro de vários países. Vemos aqui: a Alemanha possui somente 10% de capital estrangeiro; os Estados Unidos, 11%; a França, 12%. Então, fazemos muito mais o que eles querem. Em vez de fazermos o que eles querem, devemos fazer o que eles fazem. Devemos começar a entender esse jogo, para não continuarmos a pagar royalties e dividendos a vida toda ao capital externo. Temos de estar abertos ao mercado, o que significa dizer que temos de comprar e vender mercadorias, bem assim tecnologias. Enfim, essa a observação que eu gostaria de fazer, para que realmente começássemos a mudar a nossa mentalidade. Para competir no mundo não é necessário entregarmos nossas empresas; podemos comprar tecnologia, formar poupança interna. Quem perde o comando econômico perde o comando político e social. Se 37 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 analisarmos várias regiões do País, o bem-estar é maior exatamente onde existem empresas com capital local, porque lá fica o salário, fica o lucro reinvestido. Ou nos tornaremos um país de meros assalariados e prestadores de serviços ou seremos um país onde o lucro se torna capital para reinvestimento. Esse é o grande dilema. Na minha visão, devemos começar a mudar nossa maneira de entender o que é mercado aberto e fazer o que a Alemanha faz, o que os Estados Unidos fazem, em vez de fazermos o que eles querem que façamos: sermos eternamente pagadores de dividendos e royalties aos seus países. Obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Neiva Moreira) - Tem a palavra o Sr. Deputado Virgílio Guimarães. O SR. DEPUTADO VIRGÍLIO GUIMARÃES - Sr. Presidente, Srs. Expositores, Srs. Deputados, sou Deputado Federal por Minas Gerais, do PT, e fico muito à vontade para fazer uma avaliação sobre a televisão, até porque sou de um partido que teve conflitos muito grandes com a televisão, de críticas. Acredito que elas também deviam ter críticas ao nosso comportamento. Mas creio que o Brasil precisa, sobretudo em uma Comissão como esta, encontrar espaço para uma reflexão mais madura e estratégica sobre o significado, já tão importante, dos meios de comunicação social. É inegável que as redes de televisão estão entre os imensos patrimônios que o Brasil tem. Um país, para ter afirmada a sua nacionalidade, precisa ter uma imprensa forte, uma produção cultural forte. O Brasil tem, ainda que construídas a duras penas, com equívocos, como bem lembrou o Deputado Vivaldo Barbosa e outros, grandes redes de televisão com uma imensa produção cultural, produção de noticiário, produção de divertimento, entretenimento, como poucos países do mundo têm. Isso faz parte do nosso patrimônio e tem de ser defendido, valorizado. Como disse, sou de um partido que cansou de brigar com os meios de comunicação — e eu pessoalmente também. A televisão, apesar de conduzida com equívocos, tem alguns méritos inegáveis na formação cultural brasileira. As nossas novelas, os nossos programas de cultura, souberam valorizar nossa 38 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 cultura, ao mesmo tempo em que levaram a todos os rincões do Brasil uma visão padronizada e pasteurizada, por um lado. Esse era um processo inegável. Não queremos ter um Brasil contingenciado, em gavetas, em compartimentos. Isso seria feito de uma maneira ou de outra. Ainda bem que foi feito a partir de uma visão nacional. Por que não podemos ter uma cultura — já que é globalizada — abrasileirada? Isso, o Brasil teve. Nós queríamos o quê? Que o pessoal da Amazônia não recebesse uma novela, um programa, um noticiário transmitido para o Brasil inteiro? Ainda bem que estava nessa programação um Guimarães Rosa, um Érico Veríssimo, com "O Tempo e o Vento", e outras expressões da nacionalidade levando a cultura regional para todo o País. Portanto, são questões sobre as quais vamos ter de refletir e as quais teremos de valorizar. Claro que há uma insuficiência quanto à produção regional. Não é fácil um mesmo canal de televisão ser simultaneamente nacional e regional. É uma mágica! É como cobertor curto: se se cobre o pé, descobre o queixo. Você tem de olhar para seus objetivos nacionais, mas também deve olhar para a audiência. Não há como fugir disso. Acredito que o equilíbrio de alguma maneira está no modelo brasileiro: o de ter uma forte rede pública, que convive de uma maneira harmônica com redes privadas de concessão. Cumprimento o SBT pelo seu crescimento. Espero que não se torne um primeiro lugar. Que o Brasil não tenha um primeiro lugar, mas redes que se revezem, num e noutro horário, no primeiro lugar. Talvez tenha sido importante para a Globo chegar onde chegou, que tenha tido a hegemonia que teve para forjar uma massa crítica de escritores, artistas e produtores. Isso foi importante para a formação profissional do brasileiro que estivesse nesse mercado. Foi bom que houvesse duas redes por um tempo, mas que consigamos algumas outras, que convivam também com a transmissão a cabo. E não sei, Sr. Flávio Cavalcanti Júnior, se esse meio de transmissão será tão elitizado por longo tempo. Creio que em Belo Horizonte predomina a NET, mas lá já há lançamento de assinaturas a 20 reais. O SR. FLÁVIO CAVALCANTI JÚNIOR - Deve ser uma liquidação 39 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 de ocasião. O SR. DEPUTADO VIRGÍLIO GUIMARÃES - Não é. Trata-se de uma estratégia inteligente: em uma cidade, a maior rede, a NET, associa-se a um grupo local que talvez represente, individualmente, o maior número de assinantes e que pode lançar um programa popular para subir morro, ir a bairros populares, conjuntos habitacionais, a fim de transmitir basicamente os programas das televisões abertas, a um preço popular. O caminho é esse. O SR. FLÁVIO CAVALCANTI JÚNIOR - Acho que o caminho é esse mesmo, mas é algo mais lá na frente. O SR. DEPUTADO VIRGÍLIO GUIMARÃES - O Deputado Vivaldo Barbosa citou questões importantes. Foi bom que a Globo tivesse apanhado. Nós apanhamos, mas a Globo também apanhou. Ela não bateu apenas. A Globo pensou que fosse maior que o Carnaval. Não foi. Ótimo para o Brasil. Pensou que fosse ser maior do que as diretas. Não foi. Ótimo. Acredito que a Globo, hoje, no jornalismo, gradativamente vai ter uma visão mais profissional desse aspecto. Ela é herdeira de uma série de fatores, assim como nós. Estamos neste debate para construir. [DTTR17]Quem sabe no dia em que se fortalecer mais o noticiário do SBT, essa questão também vai surgir, porque vamos tendo opções. Essa opção de tevê a cabo serviu até para fazermos uma comparação das redes que temos com o que recebemos de fora. Não temos de ter medo disso de jeito nenhum. Alguém já chamou isso de aterro sanitário. Não vou tão longe, mas também não repúdio quem usa essa terminologia, porque realmente é de causar pena o que eles recebem nesses canais, pré-fabricados, por computador, com traduções feitas por computador. Não sei se é exagero, mas se traduz para o espanhol, depois, no computador, versa para o português, versa não sei para quem, sem gastar um centavo. Creio até que deveria haver uma regulamentação maior dessas coisas. Devia haver nas próprias retransmissões a cabo. São essas as considerações que tinha a fazer. Aproveito para deixar aqui algumas sugestões. Aliás, também comento sobre a questão do Xuxa Park. Espero que mude. Mas quero deixar meus cumprimentos, já fiz aqui na sua ausência. O Xou da Xuxa é um nome brilhante. Brigo nesta Comissão quanto à questão do uso indevido do estrangeirismo. Esta Comissão inclusive padece desse colonialismo cultural, 40 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 infelizmente. E o exemplo mais brilhante que conheço é o Xou da Xuxa. "SH" não existe em português. É "X", igual a xampu, escreve-se com "x", a versão dessa palavra "xou", xis, o, u. Brilhante. Meus parabéns. Enfrentou e venceu. Então, compensa o Xuxa Park. Sem querer fazer qualquer coisa, deve ter sido uma semelhança com o "Jurassic Park", sem querer criticar ninguém. Além disso, digo o seguinte: primeiro, faço um apelo. Por que não colocar o Canal Brasil nos pacotes populares, nos pacotes básicos da NET? Inclusive nesses populares. Não vai concorrer com nada. O Canal Brasil passa uma porção de filmes, chanchada. Põe o cinema nacional aí na roda. Por que colocar ele só no top? É um apelo. Essa contribuição poderia ser feita. Estenda-o a todos, democratize o Canal Brasil. É um patinho feio. Ele não vai derrubar a HBO, o Telecine. Imagina! Quem dera! O dia que for derrubar, isso será uma outra coisa. Também nesse monte de canais dublados, põe pelo menos um sap em português. Os Estados Unidos dublam tudo. Cinema comercial dubla tudo. A Europa também, porque eles valorizam sua língua. O SBT e a Globo têm dublagem de ótima qualidade quando apresentam no horário nobre. Por que essa porcariada, se bem me permite a palavra, como bem lembrou o De Velasco? Que façam dublagens e letreiros nesses enlatados e acostumem a população. O Brasil já se tinha acostumado a assistir a filme dublado. O problema da dublagem é a má qualidade. Se for feita com a tradução correta, usando os nossos professores de português, os nossos filólogos, teriam um bom trabalho de ajuda e fariam traduções de nível. Isso pode ser feito, coloque isso no sap, já que existe, para quem quiser poder circular. Por que não valorizar? Deixo essas sugestões, sobretudo com relação ao Canal Brasil. A questão que considerei um exagero, Sr. Evandro, foi quando V.Sa. disse que a defesa da nacionalidade é perfeita. Da Federação, deixa a desejar. Na questão dos Estados, a televisão não consegue, com a transmissão-múndi, equilibrar a questão nacional com as culturas regionais. Não consegue. Penso que V.Sa. exagerou um pouquinho quando disse que ela fez as duas coisas ao mesmo tempo. 41 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 Claro que a questão nacional foi muito importante. E o equilíbrio da Federação com as questões regionais nas transmissões das associadas tem pouco programa. Mas isso deveria ser compensado com canais locais que entrassem também nas redes básicas a cabo, porque isso vai democratizar-se, abre também mercado de trabalho. Poderia dar mais chance. Já tem alguma chance, mas mais chance ainda para canais locais a cabo para revigorar o mercado de trabalho, o noticiário, produções independentes, que depois podem ganhar espaços nacionais. Deixo esses apelos com relação ao Canal Brasil, da dublagem e da questão dos canais locais, para valorizar. Quanto às demais questões, o noticiário etc, acredito que o Brasil vai evoluir muito na questão de ter um noticiário, se não isento, porque isso é impossível, mas pelo menos mais profissional, mais democratizado e mais transparente, porque no restante da produção, por mais que alguém possa criticar o noticiário de uma emissora, se ela está fazendo cultura nacional, está valorizando o que é nosso, está dando um recado também na formação histórica e cultural do povo brasileiro. Deixo esse depoimento e faço esses apelos em relação a esse patrimônio que temos, que faz parte do patrimônio brasileiro, que são as nossas redes de rádio e televisão. O SR. PRESIDENTE (Deputado Neiva Moreira) - Com a palavra o último orador inscrito, Deputado Arnon Bezerra. Convoco mais uma vez o Deputado Aldo Rebelo para assumir os trabalhos. O SR. DEPUTADO ARNON BEZERRA - Com o reconhecimento da qualidade e do brilhantismo do Deputado Aldo Rebelo, lamento a sua ausência, Sr. Presidente. Geralmente todos já falaram quase tudo antes do último orador inscrito. Para não ser muito repetitivo, falarei pouco. Sr. Presidente Aldo Rebelo, Srs. Gabriel Priolli, Evandro Guimarães, Flávio Cavalcanti Júnior, meus cumprimentos. A exposição do Sr. Evandro Guimarães sobre o "Mecanismo de Proteção para Evitar a Fragilização da Produção Nacional de Programas de Cinema" é também uma preocupação nossa. A participação do capital estrangeiro, nesse instante, para equipar e trazer tecnologia, realmente não nos preocupa muito. 42 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 É o investimento, a qualidade, a globalização que inevitavelmente temos de ter para melhor conhecermos nossas questões. Mas a nossa preocupação é justamente com a programação. Sei e reconheço que as emissoras de televisão têm-se preocupado em oferecer boa qualidade, como é o caso da Globo, que mostra, de todas as regiões deste País, os mais diferentes autores e costumes. Tem levado ao homem do campo, ao de Roraima, bem como ao do interior do Estado do Ceará, os costumes do Rio de Janeiro. Hoje vemos o homem do campo não mais utilizando aquela roupa bem caipira, mas já se modernizando. Não penso que isso seja perda de costume. Acredito ser um crescimento, porque todos nós precisamos avançar, melhorar nossa qualidade, no visual, a vaidade é própria de todos nós seres humanos. Mas na questão da programação existe uma preocupação muito grande. Vemos a obsessão da busca pela audiência, e reconheço que isso faz parte. É da audiência que vem o faturamento, conseqüentemente melhora a qualidade de serviço. Reconheço isso. Mas quando uma emissora exibe um filme de arte num determinado canal, a outra concorrente procura colocar uma superprodução, e todo o nosso povo vai em busca da superprodução, porque é mais agradável aos olhos. E muitas vezes deixa-se de lado um cinema de arte, um filme que traga um bom resultado e melhore a qualidade da educação da nossa população. Vemos o próprio Canal Brasil, que já está tendo uma aceitação muito grande. Lamenta-se o fato de não ser um canal aberto. A TV Cultura tem procurado trazer programas com temas importantes, bons filmes. As TV Educativa, TV Câmara e a TV Senado também já têm uma audiência assegurada, justamente pela qualidade das suas programações, trazendo fatos históricos, documentários históricos, cinema, algumas vezes até a nossa chanchada. Fala-se muito no Charles Chaplin, mas temos as nossas chanchadas da Atlântida, que sem dúvida alguma são de alta criatividade. Por exemplo, o Mazzaropi oferecendo toda a sua criatividade, o Oscarito, o Anquito, esse pessoal todo que fez história no cinema brasileiro. Essa é uma preocupação: como fazer com que as emissoras tragam para o público, num canal 43 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 aberto, essas importantes conquistas que temos no passado? Hoje vemos o cinema nacional tão retraído e acanhado, justamente pela falta de um espaço maior para ocupar nos canais abertos. Nos canais fechados, repito, existe espaço. Cada um que tem dinheiro quer ter um nível cultural e educativo melhor, [DTTR18]mas nos ressentimos ao ver programas de audiências que não têm tanto valor ocupando um espaço. Nos domingos e nas noites durante a semana — e aqui estão os representantes dos dois maiores programas de audiência — há determinados programas que nos trazem situações embaraçosas, até pela condição humana, que desvalorizam os cidadãos, colocam-nos em situações constrangedoras, brigas domésticas. Enfim, é uma coisa tão grotesca que mudamos de canal. Sei que existe um público que quer ver sangue, pancada, mas se fizermos alguma coisa, vamos tirando esses programas, que são inspirados em programas americanos e europeus. Temos o cinema nacional com boa qualidade, mas vemos as emissoras brasileiras serem ocupadas, depois da meia-noite, por programas asiáticos que em nada contribuem para a nossa cultura, é só pancadaria, sem nenhuma história sequer. Também vemos telejornais cujo apresentador dá a notícia e a interpreta para o cidadão na versão dele. Considero isso um perigo. Muito pior do que se dizer que a TV Globo faz isso e aquilo. A TV Globo traz muita coisa boa, mas vemos que o apresentador de um jornal de grande audiência dessa emissora, ao invés de dar a notícia para o cidadão, a interpreta da sua maneira, envolve a população brasileira interpretando à sua maneira o fato apresentado. Essa é uma preocupação que devemos ter. De madrugada há um programa de uma determinada emissora que ao entrevistar algum Deputado faz a seguinte pergunta: "e, aí, Deputado, no Congresso há muita corrupção?" Isso não é pergunta que se faça. É debochar com uma instituição séria. Quando há escândalo no Congresso, com um Deputado envolvido, a instituição fica toda manchada perante a opinião pública por conta de determinadas chamadas que se fazem para que a população fique atenta, na busca incessante pela audiência. Essa preocupação não deve ser tanta pela participação do capital estrangeiro. De que forma ele vem? É sadia? Vai trazer benefícios? Agora, a nossa preocupação maior é com a qualidade da programação que é jogada para a população brasileira. Isso 44 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 sim. Isso é um perigo, porque pode haver uma mudança de pensamento e, de repente, criar-se uma situação embaraçosa para a Nação. Era basicamente essa consideração que tinha a fazer. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) - Muito obrigado, Deputado Arnon Bezerra. Passo a palavra aos expositores para que também façam as suas manifestações finais. Com a palavra o Sr. Gabriel Priolli. O SR. GABRIEL PRIOLLI - Em relação às abordagens feitas pelos Deputados, primeiro, digo que a minha perspectiva em relação à televisão brasileira é praticamente idêntica à apresentada pelo Deputado Virgílio Guimarães. Provavelmente temos a mesma origem e a mesma afinidade ideológica. Sei perfeitamente o quanto é difícil, tendo essa origem ideológica, sustentar uma posição afirmativa em relação à televisão brasileira. A esquerda brasileira tende muito mais a ser crítica, negativa em relação à televisão do que valorizar os seus aspectos positivos. Penso que a televisão brasileira tem diversos problemas, que foram bem levantados pelo Deputado Vivaldo Barbosa. Quero comentá-los em seguida. Mas no cômputo geral das coisas, creio que a televisão muito mais prestou e presta um serviço positivo, tem muito mais um papel positivo para o País, dá muito mais uma contribuição positiva do que negativa. Isso não significa que não tenhamos uma responsabilidade geral como cidadãos brasileiros para reformar, reorientar e resolver aquilo que ainda está pendente. E entre as coisas que estão pendentes, seguramente, aquelas abordadas pelo Deputado Vivaldo Barbosa, do ponto de vista da isenção política da televisão brasileira, merecem, sem dúvida alguma, correção. Temos de trabalhar em relação a isso. Quando digo temos, digo nós cidadãos brasileiros, o conjunto da sociedade. Diversos segmentos têm responsabilidade nisso. O próprio Congresso Nacional, ao não regulamentar o Conselho Nacional de Comunicação, previsto na Constituição Federal desde 1988, peca, tem responsabilidade séria nisso. Esse Conselho foi imaginado exatamente para que pudesse 45 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 haver uma participação democrática maior na gestão da televisão brasileira, que é muito pouco compreendida no País como serviço público, concessão de um serviço público. Não há essa consciência. Isso não está introjetado na cidadania brasileira, as pessoas não têm essa consciência. As próprias emissoras, evidentemente, trabalham dentro dos limites de atuação que as condições legais e políticas lhes permitem. Evidentemente, se não houver um controle social, e eu digo controle social não como um controle policial em cima das televisões, mas o controle de uma opinião pública mobilizada, atenta, pressionando, exigindo e cobrando posições da televisão, não podemos pensar em ter efetivamente uma democratização da televisão. Ela está nos devendo muito. Pecou muito. Errou muito e vem errando muito. Eu mesmo, no programa que dirijo, recentemente, tive um problema, dentro de uma rede pública. Um episódio de veto do Líder do MST, João Pedro Stédile, em entrevista que fizemos através da Rede Cultura de São Paulo, que não pôde ser transmitido para toda a rede pública, uma vez que a Secretaria de Comunicação do Governo Federal impediu que o programa fosse transmitido também pela Rede Brasil, TVE, ou seja, só metade da rede pública transmitiu o programa e não a sua íntegra. Ora, se isso acontece no plano do Estado, essa visão ainda dirigista em relação à televisão evidentemente acontece no plano das empresas privadas. Ainda temos um problema a resolver nesse sentido, mas acredito que só no debate democrático, na pressão da opinião pública, no controle social que possa ser exercido através de uma opinião pública mobilizada, grupos de pressão organizados, enfim, uma cidadania mobilizada, é que poderemos garantir mais eqüidade na cobertura, sobretudo do noticiário político, nos telejornais e, digamos, no posicionamento das empresas em relação aos temas políticos. Penso ser utópico imaginar que as empresas não tenham posicionamento político e que não procurem exercer as suas opções políticas nos momentos em que isso é necessário, por exemplo, nas eleições e em outros momentos mais críticos, por assim dizer, do processo das relações políticas. Mas elas têm um papel fundamental com o conjunto do País, prestam um 46 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 serviço público. Dá-se a concessão de um patrimônio riquíssimo, que são as ondas eletromagnéticas, à exploração de alguns grupos, na expectativa de que esses grupos utilizem esse patrimônio dentro de um estrito espírito público e no interesse da maioria. É isso tudo que desejamos. Devemos lutar e trabalhar no sentido educativo e conscientizador da população e da cidadania brasileira para que esses problemas, muito bem apresentados pelo Deputado Vivaldo Barbosa, possam ser superados. Foi um prazer estar aqui com V.Exas. dando uma pequena contribuição a esse importante debate e à grave responsabilidade que os Parlamentares brasileiros têm: legislar a respeito da matéria do capital estrangeiro na nossa mídia. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) - Com a palavra o Dr. Flávio Cavalcanti. O SR. FLÁVIO CAVALCANTI JÚNIOR - Prezado Deputado Vivaldo Barbosa, as questões que V.Exa. abordou são de tanta relevância e importância que creio deveríamos fazer não um debate, mas um seminário, enfim, semanas discutindo as centenas de ângulos que envolvem a questão da qualidade da programação da televisão brasileira. A má televisão brasileira, certamente, é uma exceção em termos de faixa horária, [DTTR19]quer dizer, existem pontualmente programas com alguns problemas. A grande maioria da programação da televisão brasileira parece-me muito adequada, sem nenhum problema. O Deputado De Velasco disse que sou polêmico, relembrando meu pai, o que não é verdade. Acontece que a televisão é feita para o povo brasileiro. Não adianta pensarmos nos formatos das televisões alemã, sueca, canadense, porque a realidade psicossocial e o nível cultural de cada país são absolutamente diferentes. Esse é o primeiro problema que começamos a ter de encarar, porque somos uma indústria. Infelizmente, em algum momento da nossa operação, que não exclui a responsabilidade social, o compromisso com a nacionalidade e o fato de tentar melhorar o nível do povo brasileiro por meio de campanhas, como negócio particular e 47 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 privado, temos de chegar ao final do mês com dinheiro para pagar os custos e rentabilizar os acionistas. Infelizmente, a televisão privada brasileira vive obcecadamente preocupada com a audiência, e não há outro jeito, porque a história enterrou as estações sem audiência. Temos de discutir muito a respeito. Certa época tentamos, na Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão — ABERT —, o formato de um código de ética que estabelecesse regras mínimas de conduta. Ficou bonito no papel, todos aceitaram, mas na hora do programa, o seu beijo foi mais indecente que o meu, a sua notícia mostrou mais cadáver que a minha. Então, isso é muito complicado. Não sei como resolver essa questão, e acho que temos de continuar encarando que ela existe e precisa ser resolvida. Nos 50 anos, que completa em 2000, a televisão brasileira sempre acompanhou um pouco o desejo do público. O nosso Velho Guerreiro, hoje tão cultuado como uma coisa cult, jogava bacalhau na platéia. Hoje é um charme pensarmos na sua história dando buzinada e jogando bacalhau na platéia. Se o Ratinho fizer isso, será mais execrado do que é. Quer dizer, são coisas que não são tão simples. Deputado, o SBT não se furta jamais a discutir essa questão. Mas temos de trazer junto a ela o seguinte dado: é viável ou não como negócio e como empresa fazer a televisão dos sonhos de V.Exas. ou da sociedade? Se não o for, temos de jogar fora esse modelo e fazer outro, se há algum melhor. Parece-me que não há. Quando foi dito que na Alemanha e nos Estados Unidos a participação do capital estrangeiro é extremamente restritiva, isso é natural. Aliás, isso me espanta, porque os Estados Unidos, com um PIB de alguns trilhões de dólares, não precisam do capital estrangeiro! Acho um escândalo dizer que a economia americana só tem 11% de participação estrangeira! Não precisava ter nada. Não estamos querendo defender os 30% de capital estrangeiro na televisão porque adoramos os americanos ou os mexicanos ou os colombianos, ou quem quer que seja, ou porque queremos conviver com eles, mas porque precisamos de dinheiro para continuar fazendo os pesados investimentos na televisão. Cabe a V.Exas. estabelecer padrões para que esse 48 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 dinheiro não se transforme na compra do editorial ou da programação, estamos todos de acordo que isso deve ser feito por brasileiros. Quanto ao problema da regionalização de programação, a princípio somos todos favoráveis. Ninguém é contra. Temos de atentar para a realidade econômica brasileira tão díspar, tão desigual, ou seja, de que o interior da Amazônia é bem diferente de Brasília. Portanto, se fizermos uma exigência legal de programação linear para cada emissora será um desastre, porque há pequenas cidades sem condições de fazer uma boa programação. E um lixo de programação, com equipamento VHS, do tipo caseiro, que custa 500 dólares a câmera, será que faz bem? Acho que seria até uma forma de desserviço. Temos de atentar para a regionalização, mas, repito, o nosso problema é a economia dessas cidades, cuja maioria não resistiria à carga horária de programação regional porque não possui retorno comercial. Quero dizer ainda, para tranqüilizá-los, ou não, que não há nenhuma pressão de grupo estrangeiro para entrar nesse negócio. Ninguém nos está pressionando, e tenho certeza de que ninguém fez pressão em cima do Deputado Henrique Eduardo Alves. Os estrangeiros estão lá fora, olhando, sim, porque não são burros. Mas não estão fazendo pressão. A decisão é brasileira e única e exclusiva do Congresso Nacional. Não há pressão, nem conversa ao pé do ouvido, etc. (Risos.) Queremos discutir a questão entre nós brasileiros e decidir se esse caminho vale ou não a pena. Para o SBT, com certeza, vale a pena, defende o projeto como foi aprovado no relatório. Mais do que isso não nos interessa e também não estamos com nenhuma conversa secreta, a Rede Globo certamente não. Esse é um assunto que cabe a nós decidir. Não há ninguém forçando a mão com o Governo. O Ministro Pimenta da Veiga tem algumas preocupações graves sobre essa questão. Então, temos de ver isso entre nós, internamente. Vamos fazer? Não vamos fazer? Qual o momento? Como vai ser feito? Em que base? Acho que vale a pena continuar discutindo e perseguindo esse caminho. Desculpem-me quando defendi a Globo e o SBT. Isso é marketing. Eu preciso fazê-lo. Não posso dizer que o senhor 49 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 está me incomodando. Mas quero lembrar que se não fosse seu grupo, a Record teria acabado como todas as outras emissoras que por aí passaram. É claro que o senhor viabilizou essa emissora. Mas estou preocupado é com a minha direita. Agradeço a V.Exas. e coloco-me à disposição. O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) - Com a palavra o Sr. Evandro Guimarães. O SR. EVANDRO GUIMARÃES - Serei breve e tentarei ficar muito próximo ao tema para o qual fomos convidados, até porque as Organizações Globo — editoras, jornais, rádios, livros, televisão e televisão a cabo — não têm nenhuma pretensão, com toda humildade, de defender ou conhecer de forma mais enfática as vicissitudes da vida da empresa, da inter-relação com a sociedade local, regional ou nacional, de maneira que eu não poderia ser um super-homem. O que posso dizer é que anotei com muito cuidado os comentários do Deputado Vivaldo Barbosa e posso dizer-lhe que a nossa organização tem boas notícias. V.Exa. certamente terá visto que há alguns anos temos tido a preocupação central com a absoluta independência do jornalista. Nenhum repórter fala comigo. Participei da construção da Rede Globo nos últimos 25 anos, construímos emissoras por todo o Brasil, emissoras afiliadas que pediam assistência para [DTTR20]atender a um padrão regional de qualidade. Mas posso garantir a V.Exa. que os jornalistas hoje fazem o jornalismo das Organizações Globo. O Conselho Editorial reúne-se uma vez e, se em algum momento pode ter havido alguma postura política interferente ou alguma imperfeição, o caminho genuíno do Conselho das Organizações Globo é não fazer qualquer tipo de papel diferente daquele a você destinado. Somos mídia destinada a divulgar a realidade, os avanços, as impropriedades e os méritos da organização social em todos os níveis. Deputado Vivaldo Barbosa, V.Exa. não imagina, mas estou muito feliz em como conseguimos nos últimos anos implantar nos jornais regionais um absoluto conceito de cidadania. Disseram que somos muito ligados tecnicamente ao Ministério Público. Sem dúvida, nunca houve no Brasil, como nos últimos cinco anos, tal quantidade de divulgação sobre questões ambientais, malversação de recursos públicos, notas e notícias sobre coisas com follow-up de interesse do consumidor. Há um absoluto porre de cidadania no jornalismo regional, inclusive V.Exa. está vendo no seu Estado, que o jornalismo independente 50 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 e imparcial mostra a grande e melhor opção para qualquer veículo de comunicação. Gostaria também de dizer a V.Exa. que se a televisão é pró-cidadania, depois do regime militar houve alguma mudança na estrutura do tema que precisa ser anotado. Para atender à sociedade brasileira, uma rede de televisão precisa ter mais pontos de retransmissão, mesmo que ela seja parcial, ligada a algum talento local ou ao jornalismo local. Vou responder, com isso, à intervenção do Deputado Virgílio Guimarães, que falou de Minas Gerais. Além de um sinal só para o Estado de Minas Gerais, temos geração local, emprego local — pelo menos 120, 130 empregos por emissora. Temos emissoras afiliadas, emissoras que retransmitem a programação TV Globo, fazem o jornalismo local, têm seu programa local de esporte, enfim, poderia dizer que são pelo menos seis janelas de programação local com equipe permanente. Hoje, temos emissoras em Uberlândia, Araxá, Valadares, Montes Claros, Varginha, Juiz de Fora, instaladas e operando. Quer dizer, essas operações são praticamente independentes de grupos a nós associados. No entanto, para que Minas Gerais seja corretamente atendida, seja pela programação da Globo, seja pela do SBT, precisaria ter, dentro da legalidade, um sistema normal de outorga, retransmissores em Poços de Caldas, Patos de Minas, Uberaba, Ipatinga etc. Não tenha dúvida V.Exa. de que, freqüentemente, para valorizar esse modelo de televisão, que funciona bem no Brasil, que é a televisão aberta, lead de recepção livre e gratuita, quer dizer, informação e entretenimento, gênero quase que de primeira necessidade para a família que precisa informar-se e tem direito a entreter-se, falta outorga de televisão. Desde o princípio do Governo Collor, nenhuma televisão... O SR. DEPUTADO VIRGÍLIO GUIMARÃES - Evandro, há algum projeto no sentido da redivisão? O SR. EVANDRO GUIMARÃES - Não. Eu sei que o Executivo está tentando modernizar e acelerar os processos de licitação pública, porque, a partir da lei geral, todas as outorgas devem ser por licitação pública, e há iniciativas brilhantes, 51 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 porque há uma demanda exponencial da comunidade local. Ou seja, se não temos a programação regional porque o mercado não comporta, o mercado de recursos humanos, se não tem um mercado local para algumas cidades, o mercado regional, a microrregião, a mesorregião comporta uma operação regional. As redes de televisão, a Globo, o SBT e a Record, que cresceram muitíssimo nessa base, não são as únicas a não explorar esse grande potencial econômico. Houve também limitação e certo travamento, durante pelo menos dez anos, da concessã ΝℵηΗℵνΝΡΕΟℵΝρΠΝοιΕΟ@ℵŸℵΖΝΜΝℵΟΝΜΝΟℵΖΝνΖΗΟΟão, somos vigiados de perto pelo poder concedente, que basicamente hoje são o Ministério das Comunicações e a ANATEL, somos absolutamente legalistas e aguardamos que isso se possa desenvolver. Penso que a televisão aberta ainda trará grandes contribuições local e regional para o cidadão, para o consumidor e para a informação do eleitor regional, basta que se multipliquem as oportunidades. Isso não interessa a nenhuma empresa isoladamente. Temos uma televisão afiliada em Valadares, eu a construí para o empresariado, e posso garantir a V.Exa. que teria sido muito mais confortável se lá houvesse também uma afiliada do SBT, porque a indústria é uma só. Como disse o Flávio, formamos pessoas em conjunto, freqüentemente dividimos os pontos altos da região em condomínios, a concorrência não se dá na existência de uma rede mais ou menos estruturada, mas se dá na qualidade e na atenção do telespectador à sua programação. A concorrência se dá de maneira muito importante, aliás quase somente no conteúdo, na credibilidade da informação e na qualidade do entretenimento, que variam de acordo com as classes sociais e com as regiões de atendimento. Deputado Vivaldo Barbosa, anotei com cuidado seus comentários, fico muito feliz pela sua atenção e até pela sua provocação, que na verdade é o nosso discurso: algum capital pode oxigenar o setor. Alguns cuidados o legislador e o Executivo, certamente em prol do consumidor, estarão atentos e procurarão sincronizar essas necessárias medidas de fomento e proteção à cultura e, enfim, ao emprego intelectual e 52 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 artístico brasileiro. Deputado De Velasco, cumprimento a Rede Record que recentemente está empregando pessoal da área artística, tenho visto muitos ex-companheiros da empresa nessa telenovela, bem produzida, embora com dificuldades. Essa concorrência é bemvinda porque, afinal de contas, não estamos falando sozinhos disso. Nenhuma empresa vai muito bem num setor que vai mal. Nenhuma empresa vai bem num país que vai mal. Precisamos que o setor publicitário brasileiro e a indústria de televisão aberta cresçam permanentemente. E os bons operadores nessa indústria fazem o setor crescer. O Deputado Roberto Argenta não está presente, mas fez um comentário de quem vem para levar, postura tipicamente gaúcha. Mas é isso mesmo que pensamos, quer dizer, a pessoa que se instala como empresa e que tem estrutura de operação é mais ou menos uma operação de concessão de serviço público, onde há um determinado investimento e, a partir de certo momento, há remuneração de capital. Se o capital é externo, é legítimo que seja exportado. Temos de andar na contramão disso. O fortalecimento da produção nacional é importante para que possamos exportar. Não há solução para isso. Virão empresas para cá com o objetivo de remunerar capitais externos ao País. Nós é que temos de fazer isso. Estamos tentando inverter a contramão, ou seja, levar nossa tecnologia e um pouco do nosso capital para o exterior, endividarmo-nos um pouco para produzir centros de produção com brasileiros e com alguma temática brasileira no exterior. V.Exas. sabem que fizemos um investimento absolutamente monstruoso para levar a programação da TV Globo a cerca de 1 milhão de brasileiros que vivem basicamente em cidades dos Estados Unidos, em alguns países da América Latina, no Japão e em alguns países da Europa. E temos tido enorme aceitação. A Globo Internacional, que é a programaçã ΝℵζοΕΟκΛΗκοΕℵΞρΗℵÞ@ŸυΕΟ@ℵΡêem com alguma montagem, porque não há publicidade, é vista hoje por centenas de milhares de brasileiros, alguns cultivando e reaprendendo o português por haver programação em sua língua natal na sua casa, seja em Boston, Miami, ou em qualquer outra cidade do mundo. O sistema é o DTH, Digital To Home, sistema digital de satélite, aquela 53 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 parabólica pequena. Como V.Exa. falou da parabólica, quero lembrar a V.Exas. que se falou muito aqui hoje, quero reproduzir tecnicamente: quando se fala de integração e do atendimento ao consumidor, do acesso livre e gratuito, quero dizer que todas as redes de televisão utilizam a banda C do Brasilsat, que é aquela parábola grande presente na beira da praia, no mato, na Amazônia, no seu caseiro, no retireiro de quem tem uma figuinha ou média fazenda, cuja instalação custa hoje menos de 150 reais, sem o decodificador. É muito importante a preservação desse sistema para o Brasil. Esses satélites foram vendidos junto com a EMBRATEL. Sempre pedimos à EMBRATEL que olhe para frente, que preserve isso nos próximos 10, 12, 14 anos. À época da privatização falou-se que haveria uma golden share com ação diferenciada na empresa para que pudesse garantir o transporte em tempo real, aberto e livre para quem produz audiovisual brasileiro. Falando ainda tecnicamente sobre a questão, quero dizer ao Deputado Virgílio Guimarães o que conseguimos. [DTTR21]Nossos acertos e nossos erros são avaliados diariamente pelo telespectador, pelo cidadão, pelo eleitor, pelo político, pelo formador de opinião, por quem regula o setor. Penso que estamos agora tornando cada vez mais essa avaliação interativa. O Xou da Xuxa tem esse nome, esse anglicismo, mas com brasileirismo. Não há nada de maquiavélico nisso. O fato é que, fazendo um mea-culpa, as televisões brasileiras, preocupadas com o valor do idioma nacional, têm de voltar a fazer uma reflexão. Curiosamente, foi a mídia brasileira, e o jornal O Globo é absolutamente o primeiro nesse assunto, quando colocamos, desde o princípio, no ar o Prof. Pasquale Cipro Neto, que passou a desenvolver um amor e uma coletânea de sugestões para que a nossa língua materna seja cuidadosamente apreciada, querida e desenvolvida. Meaculpa nisso, acho que as empresas de comunicação no Brasil... O SR. DEPUTADO VIRGÍLIO GUIMARÃES - Falei Xou da Xuxa elogiando de verdade. Quem me conhece nesta Comissão sabe que não falei com gozação, é de verdade. O SR. EVANDRO GUIMARÃES - Tá bom. Deputado, entendo isso, mas foi uma coisa que eu não tinha observado e, talvez, a sua observação tenha mostrado aqui mais uma vez como pode ser forte o nosso idioma nacional, como é bonito, como pode ser 54 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 desenvolvido. Acho que falta, e deve haver, uma convocação parlamentar. Sei que há projetos na Câmara, até um projeto do Deputado Aldo Rebelo, que já pude passar os olhos, ler, estive aqui num dia em que foi lançada uma questão, estava a escritora Lígia Fagundes Teles, com bastantes pessoas interessadas. Acho que é meritório para a defesa da Nação a existência de mecanismos estimuladores, reguladores, que preservem esse patrimônio poderoso e lindo que temos, haja vista Guimarães Rosa. Gostaria de falar também com relação aos dubladores, várias pessoas citaram isso. Os dubladores, que freqüentemente eram de empresas terceirizadas, exerceram papel importante. Hoje a grande demanda de material dublado para televisão aberta e cabo está provocando algumas distorções, mas as televisões estão atentas a isso e, certamente, a manifestação de V.Exas. é importante para que possamos corrigir esse rumo e continue a preocupar. Por fim, o Deputado Arnon Bezerra fez alguns comentários muito interessantes, que anotei com cuidado, e parodiou um comentário feito anteriormente com relação à briga pela audiência. Do nosso lado, acho que é importante ter um desafio, ter um adjetivo na audiência, disputarmos audiência com qualidade, seja colocando mais câmeras para se ver melhor os gols do Corinthians ou os do Cruzeiro, melhorando a transmissão do futebol, seja produzindo com planos perto, como em Terra Nostra, que é uma novela que interessa hoje a oitenta países, que tem uma técnica nova de iluminação e abordagem dos atores, sempre em plano perto, belíssimo, com recursos digitais. Esse adjetivo de audiência com qualidade é um compromisso da empresa, seja no jornal, na editora, nas rádios. E esse compromisso pode ser estendido a um outro estimulador importante, que é a concorrência nesse mesmo tom. A audiência com qualidade é um compromisso da radiodifusão séria, preocupada com o crescimento do mercado do ponto de vista editorial, do ponto de vista do entretenimento. Quero registrar que estamos atentos a isso. Por fim, quero cumprimentar esta Comissão e os organizadores desta audiência, porque acho que hoje, aqui, 55 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ REDAÇÃO FINAL Nome: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DE DEFESA NACIONAL Número: 0639/00 Data: 01/06/00 aprendemos muito, mas trouxemos a reprodução de comentários já manifestados anteriormente na Comissão Especial, que produziu um texto que atende às nossas preocupações de melhorar o fluxo de capital no Brasil sem perder o patrimônio, os recursos humanos e culturais da realidade brasileira. V.Exas. avaliarão, certamente, como disse o Flávio, no tempo correto, se essa providência deve ser seguida de outras medidas que permitam a proteção e o fomento da produção brasileira, empregos intelectuais e artísticos, que custam caro, entre os quais o meu. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Aldo Rebelo) - Srs. Deputados, creio que a presente audiência pública cumpriu seus objetivos e incorporou as preocupações desta Comissão à proposta de emenda à Constituição que trata da abertura ao capital estrangeiro das empresas de comunicação do nosso País, não apenas pela contribuição dos nossos convidados, mas também pela abordagem aqui realizada pelos mais diversos Deputados, dos mais diversos Estados, desde o Estado do Rio Grande do Sul até Roraima, passando pelos gloriosos Estados do Ceará, de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Todos os Estados presentes contribuíram com as distintas visões que apresentaram sobre a importância de a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional passar a acompanhar com mais atenção a tramitação, a discussão e a votação da presente proposta de emenda constitucional. Dito isso, agradeço mais uma vez aos nossos convidados pelas brilhantes exposições que fizeram e pelas contribuições que deram a esta Comissão para uma melhor compreensão dessa matéria. Nada mais havendo a tratar, dou por encerrada a presente sessão. Muito obrigado. 56