RESENHAS 265 Resenhas SE OS HOMENS PUDESSEM OUVIR Elizabeth de Fontenay, Le silence des bêtes. La philosophie à lepreuve de lanimalité. Paris, Fayard, 1998, 784 p.; Boris Cyrulnik. Si les lions pouvaient parler. Essais sur la condition animale, Paris, Gallimard/Quarto, 1998, 1571 p. EDGARD DE ASSIS CARVALHO Até quando o conhecimento continuará a não reconhecer que a distinção entre animalidade e humanidade precisa ser superada? Os animais pensam? Possuem razão? Possuem cultura? Desenvolvem sensibilidades? Esses questionamentos são problematizados de modo superlativo nesses dois volumosos livros organizados por Fontenay e Cyrulnik, sem tradução prevista no Brasil. Nos limites de uma resenha cabe, de início, referenciar as intenções dos autores na organização dos dois textos. Para diri- mir qualquer tipo de pieguice ou ressentimento, Elizabeth de Fontenay enfatiza que o amor e o respeito pelos animais não conduz à misantropia, ao racismo ou à barbárie. Se a industrialização da vida fez com que a domesticação dos animais fosse necessária para garantir a sobrevivência dos humanos, hoje esses campos de concentração viram as costas para qualquer tipo de precaução que possa ser tomada para com o sofrimento alheio! Adeus qualquer resquício de humanismo! O que importa agora é a metafísica predadora que acomete animais e homens. O terreno é minado e movediço. O que Elizabeth pretende é escrever uma outra história da filosofia, ocidental é claro, que reconhece e admite que a animalidade constitui um enigma cuja decifração é complexa, incompleta e inconclusiva. Boris Cyrulnik, em seu longo ensaio introdutório, é mais explícito. A Filosofia, mesmo quando fala da animalidade, não nos ensina nada sobre ela. E isso porque há um déficit de conceitos para tal. Para a MARGEM, SÃO PAULO, No 15, P. 265-270, JUN. 2002 266 MARGEM No 15 – JUNHO DE 2002 vã Filosofia, criaturas animais são nãohomens, não-humanidade, não-vida. Para superar esse estado de coisas, há pontos de partida inquestionáveis. Um deles diz respeito à derrocada do antropocentrismo, e isso porque o homem não é o centro do Universo, nem o centro do mundo vivo, e muito menos o centro dele mesmo. Os animais nos são úteis para corroborar essa controvertida hipótese, ainda não assimilada nos frios corredores da fragmentação dos saberes. Será a identificação continuada dos estados animais que tornará possível à condição humana pensar e refletir sobre ela mesma. Se os animais servem para alimentar nossas projeções psíquicas, ao afirmarmos por exemplo, fulano é um asno, beltrano é astuto como uma raposa, como será que eles nos vêem? Se é impossível responder a essa pergunta porque a animalidade é destituída de linguagem articulada, é forçoso reconhecer que os animais sempre compartilharam da vida dos humanos, mesmo depois que a domesticação e as experimentações laboratoriais impuseramlhes sofrimentos descabidos. Para Cyrulnik, o nascimento de uma Antropologia naturalista será o indicador de uma nova atitude do Homem ante a linguagem e os demais seres vivos. Os dois livros têm estrutura diferenciada. Precedidos de epígrafes retiradas do fabuloso livro de Elias Canetti, O território do homem, os vinte blocos de O silêncio dos animais constituem metatemas Intercessões, Humanismos contrários, Tempos dos sacrifícios, Delírios e Sonhos, a Refundação, A experiência do semelhante, O coração pesado em torno dos quais são reunidos pensadores que abrangem um leque multivariado e complexo de idéias, dúvidas, provocações. Marcel Mauss, Georges Bataille, David Hume, Maurice Merleau-Ponty, Primo Levi, Claude Lévi- MARGEM, SÃO PAULO, No 15, P. 265-270, JUN. 2002 Strauss, Gilles Deleuze, Gustave Flaubert são alguns nomes que permitem a Fontenay dar consistência filosófica e epistemológica a esse enigma do Ocidente que acabou por classificar os animais como o mais outro dos outros. Nos dezenove blocos de Se os leões pudessem falar Os animais humanizados, A vergonha das origens, Os animais podem enlouquecer, O animal, figura do Outro constituem alguns títulos Cyrulnik prefere ceder a palavra aos próprios pensadores, permitindo ao leitor usufruir da inteireza das formulações. Defrontamonos com fragmentos de Jacques Lacan, Serge Moscovici, Aristóteles, La Fontaine, René Thom, Michel Foucault, René Descartes, Colette, Ye Ziqi, dentre tantos outros. Mergulhamos em sacríficos, rejeições, cultos, bruxarias, ódios, demônios, mistérios da imortalidade, como se nos defrontássemos com nossas próprias origens, angústias e dilemas. Após percorrrer 784 páginas do Silêncio e 1.571 do Se os leões não esperemos receitas, soluções ou propostas mirabolantes. Aliás, não foi esse o propósito dos dois autores. O que sentimos é a sensação de um grande desconforto, pois reconhecemos explicitamente o teatro de crueldades e a guerra perpétua em que se converteu a relação homem-animal. Por outro lado, somos levados a recuperar para os dias correntes uma história muito antiga. Nela um homem que vagava pelo deserto deparou-se com um cão sedento que se encontrava à beira da morte. O homem acercouse de um poço dágua, saciou sua sede e a do cão. Após esse ato, Deus concedeu-lhe o perdão para todas as suas faltas. Desafio de nosso tempo, a superação dessa guerra perpétua de todos contra todos permitirá ultrapassar os desmandos e a intolerâncias da idade de ferro planetária e lutar por uma identidade futura RESENHAS baseada na sinergia entre plantas, animais e homens. Se seremos perdoados por todos os horrores que cometemos contra nós mesmos é assunto para outros livros, que talvez venham a ser organizados por Elizabeth de Fontenay e Boris Cyrulnik. Edgard de Assis Carvalho, professor do Departamento de Antropologia da PUC-SP. E-mail: [email protected] EXISTÊNCIAS, PENSAMENTOS E INCÔMODOS J. M. Coetzee, A vida dos animais, São Paulo, Companhia das Letras, 2002, 148p. MARCOS BERNARDINO DE CARVALHO A capa: no centro de um papel-cartão branco, liso e brilhante, um pedaço de carne, crua, vermelha e áspera, que inevitavelmente atrai nosso toque. Impossível não ficar comparando a sensação de aspereza oferecida pela imagem da carne com a suavidade do branco que a contorna. É difícil simplesmente abrir a edição brasileira do livro do escritor sul-africano J. M. Coetzee sem tocar na imagem do pedaço de carne vermelha colocado no centro de sua capa. A sensação tátil da aspereza e o ruído pulverulento que seu toque produz nos acompanharão por toda a leitura do livro, a cada página virada. 267 Definitivamente, o artista responsável por essa capa Angelo Venosa parece querer colaborar com o incômodo provocado pelo texto de Coetzee. Às reflexões sobre as componentes de arrogância e crueldade que caracterizam a condição humana, especialmente na sua relação com os outros animais e outros seres desprovidos de razão, a capa de Venosa adiciona a lembrança automática, a cada página virada, daquele pedaço de carne vermelha colocado no centro da capa do livro. E esse pedaço de carne, à medida que avançamos na leitura das reflexões de Coetzee, parece lembrar um dos principais e mais chocantes produtos dessa condição humana sobre a qual o escritor sul-africano nos convida a refletir: a redução de muitas existências a nacos de carne sem vida e prontas para o consumo. Mas, vamos ao enredo. J. M. Coetzee, convidado a proferir palestras na Universidade de Princeton, sobre tema de sua livre escolha, que contribua para a reflexão de questões relevantes no campo da ética, surpreendentemente, em vez de um ensaio acadêmico-filosófico, apresenta dois textos ficcionais Os filósofos e os animais e Os poetas e os animais , em que narra os episódios de duas palestras proferidas pela personagem principal dessas suas histórias, a romancista australiana Elisabeth Costello, em Appleton College, localizado na cidade de Waltham, Estados Unidos. Na ficção de Coetzee, também para Elisabeth se concede a liberdade da escolha do tema das palestras, que igualmente surpreendem os anfitriões. Dela, de quem se esperaria algo relacionado à literatura, obtêm-se sessões mais ou menos tradicionais, na forma mas não no conteúdo, sobre os abusos e as crueldades humanas no trato com os animais. MARGEM, SÃO PAULO, No 15, P. 265-270, JUN. 2002 268 MARGEM No 15 – JUNHO DE 2002 Essas inversões que surpreendem as expectativas das formas realizam a nãoficção por meio ficcional e, conseqüentemente, enfraquecem qualquer possibilidade de absolutização dos argumentos e reflexões apresentados, independentemente das ênfases e dos lastros em que se apóiam, e da veracidade ou da irrealidade dos personagens que os veiculam. Assim, as certezas e as incertezas das pregações e convicções alternam-se sem hierarquias valorativas. Da mesma forma, os veículos que as conduzem deixam de ser mais, ou menos, valorizados apenas porque ou se apóiam nas ciências, ou nas não-ciências, ou nas artes, ou nas literaturas. Quanto às palestras, propriamente ditas, Coetzee as emoldura com a chegada e a partida de Elisabeth Costello. A frieza da recepção e da despedida de seu filho John, professor em Appleton, as hostilidades e os conflitos entre Elisabeth e Norma, mulher de John, contribuem para produzir um certo mal-estar, agravado pela tensão das relações familiares, que acompanhará os três dias de permanência da velha romancista australiana em Waltham, incluindo tanto os momentos de hospedagem na casa de seu filho e de sua nora, como também os momentos das palestras ou das homenagens e recepções que a elas se seguem. Os conteúdos e as falas desenvolvidas por Elisabeth, nas sessões das conferências e debates, não aliviam o mal-estar. Pelo contrário. Incomodam suas comparações entre a forma como os nazistas trataram os judeus e a forma como sempre tratamos os animais. Incomodam seus questionamentos à primazia de uma razão que se pretende única, e à negação ao direito das existências que, por não pensarem como nós pensamos, logicamente deixam de existir, conforme costumam decretar os adeptos da pena capital do cogito cartesiano. MARGEM, SÃO PAULO, No 15, P. 265-270, JUN. 2002 Na primeira palestra O filósofos e os animais , o tema parece ser de fato a vida dos animais, o absurdo e a crueldade das atitudes humanas com relação a esses outros seres. Na introdução de sua conferência e indicando, sem meias medidas, a que veio, Elisabeth Costello é radical na denúncia: Estamos cercados por uma empresa de degradação, crueldade e morte que rivaliza com qualquer coisa que o Terceiro Reich tenha sido capaz de fazer, que na verdade supera o que ele fez, porque em nosso caso trata-se de uma empresa interminável, que se auto-reproduz, trazendo incessantemente ao mundo coelhos, ratos, aves e gado com o propósito de matá-los (pp. 26-27). Em ataque direto às velhas argumentações dos filósofos que invocam o mundo da razão para distinguir autômatos biológicos de seres racionais, feitos à imagem e semelhança de Deus, a romancista alerta: A razão não é a essência do universo, nem a essência de Deus... A razão parece ser a essência do pensamento humano; pior ainda, a essência de apenas uma tendência do pensamento humano (p. 29). Tais contra-argumentos oferecem o adequado suporte para que percebamos a densidade contida em inúmeras indagações com as quais Elisabeth vai costurando sua palestra e que, à primeira vista, surpreendem pela simplicidade. Em certo momento, por exemplo, a romancista indaga: se somos capazes de pensar nossa própria morte, por que diabos não somos capazes de pensar a vida de um morcego? (p. 40); e, em outro, arremata exortando: Não há limites para a imaginação simpatizante (p. 43). Essa ausência de limites, no entanto, depende, na opinião de Elisabeth, da recusa a qualquer tipo de concessão nas atitu- RESENHAS des em relação ao tema. Para ela, são graus de obscenidade (p. 54), por exemplo, o que diferencia o ato de comer carne do de usar sapatos de couro. Na segunda palestra Os poetas e os animais , o debate se abre e as possibilidades de interpretações menos literais também. O tema, a vida dos animais, evidentemente, não é abandonado, porém as inúmeras referências metalingüísticas nos levam a refletir sobre o próprio discurso, sobre as formas de construção do discurso e ampliam as considerações para as relações estabelecidas, não só entre nós e os animais, mas entre os próprios seres humanos, uns com os outros. Afirmações como os escritores nos ensinam mais do que sabem (p. 63) ou manifestações de incerteza quanto ao poder das aulas de poesia podem fechar matadouros? (p. 69) ilustram e indicam parte da ampliação a que nos referimos. Outra parte dessa ampliação se alcança pelas menções a diversos escritores (Camus, Rilke, Hughes, Swift...) e ao poder de intervenção de seus escritos, que são feitas tanto por Elisabeth Costello como por outros personagens que com ela dialogam nessa segunda sessão. Mas as indicações de que Coetzee está realmente interessado em nos conduzir para uma leitura menos literal atingem seu ápice exatamente no final dos episódios narrados. Aí, enquanto era levada por seu filho John de volta para o aeroporto, a velha romancista fala de seus medos e receios. Entre eles a apavora a cumplicidade silenciosa com que muitos participam de crimes inimagináveis, como os que foram perpetrados nos campos de concentração nazista. Nesse sentido, Elisabeth chega a manifestar sua exasperação diante da mínima possibilidade de que se incorpore à normalidade dos ambientes familiares 269 abajures feitos de pele judaico-polonesa, sabonetes marca Treblinka 100% estearato humano ou similares (os fragmentos de corpos que mantemos em nossas geladeiras?). Diante da manifestação de desespero de sua velha mãe, John a abraça e ambiguamente a consola dizendo apenas: Calma, calma, já está quase no fim (p. 83). É, portanto, de sofrimento humano que o livro de Coetzee também trata. Mas o fim das histórias de Coetzee não encerra o livro. Às narrações sobre as aventuras de Elisabeth Costello em terras norte-americanas adiciona-se uma segunda parte, tão rica quanto a primeira, composta pelas reflexões de quatro eminentes figuras, convidadas especialmente para comentar as palestras de Coetzee: Marjorie Garber, teórica da literatura e professora de inglês em Princeton; Peter Singer, filósofo e professor de bioética nas Universidades Monash e Princeton; Wendy Doniger, professora de história das religiões na Universidade de Chicago, e Barbara Smuts, primatologista e professora de psicologia e antropologia na Universidade de Michigan. Os comentários de cada uma das personalidades, breves e densos, prolongam o prazer da leitura e da reflexão proporcionados pelas palestras de Coetzee. A reunião das considerações de profissionais de distintas áreas, da crítica literária à biologia, reflete, como nos anuncia Marjorie Garber no início do seu comentário, a especial atenção para a divisão disciplinar e o descontetamento que isso suscita (p. 86). Das interpretações mais literais às metafóricas, os textos dos comentadores se alternam iluminando os diferentes e relevantes aspectos das palestras de Coetzee/ Costello. Também são variáveis na forma de abordagem, alternando entre o estilo MARGEM, SÃO PAULO, No 15, P. 265-270, JUN. 2002 270 MARGEM No 15 – JUNHO DE 2002 acadêmico-ensaístico e narrativas semelhantes às produzidas por Coetzee. Marjorie Garber, por exemplo, em belo ensaio, prefere reforçar um dos sentidos metafóricos que se pode emprestar às narrativas de Coetzee e cogita a possibilidade de que o escritor sul-africano, no fundo, o tempo todo estivesse perguntando: Qual o valor da literatura?(p. 101). Peter Singer prefere narrar um episódio familiar em que ele próprio e sua filha, Naomi, dialogam em torno dos textos de Coetzee e das dificuldades em responder a uma palestra que não é palestra nenhuma (p. 102), mas uma ficção. Dessa maneira, Singer acaba por chamar a atenção para as vantagens da forma de comunicação escolhida por Coetzee para abordar um tema que lhe é dos mais caros, a zooética, e homenageia esse caminho, que desfaz a fronteira entre representação e realidade (p. 103), construindo, no mesmo estilo narrativo (ficcional?), um comentário que, por sua forma, enaltece o conteúdo e a radicalidade das considerações de Coetzee e chama a atenção para a sintonia integral que entre eles, Singer Coetzee, estabeleceu-se. Wendy Doniger e Barbara Smuts, por fim, apesar de admitirem as várias possibilidades de interpretação para as palestras de Coetzee, preferem aprofundar aspectos que se atêm ao que consideram o tema central das palestras, ou seja, os animais e nossas relações com eles (p. 129). Doniger reflete sobre a possibilidade de existência de alternativas para as relações entre os seres humanos e outros animais, que não sejam fundadas nas atitudes unilaterais que ou pregam a ausência de qualquer relação, ou se pautam na crueldade, na restrição de movimentos e na violentação de identidades. Há, acredita Doniger, alternativas civilizadas para os dois extremos naturais da carne crua e grama (p. 115). MARGEM, SÃO PAULO, No 15, P. 265-270, JUN. 2002 Barbara Smuts, por sua vez, dedica suas considerações a um único tema: provar que é possível a amizade entre seres humanos e animais. Ou seja, dedica-se a demonstrar que, de fato, como afirmou Elisabeth Costello em uma de suas palestras, não há limites para a imaginação simpatizante. O recurso utilizado por Smuts para comprovar e argumentar favoravelmente a essa tese é o de um impressionante relato da sua convivência de pesquisadora com bandos de babuínos do Quênia e a aplicação do aprendizado adquirido nessa convivência na relação com sua cachorra Safi, uma vira-lata, sem coleira, nem história, resgatada, já aos oito meses de idade, de um abrigo para animais. Com os babuínos e com Safi, Barbara Smuts nos relata o prazer de experimentar a alegre intersubjetividade que transcende as fronteiras entre as espécies (p. 137). Mas, ao demonstrar a possibilidade da amizade entre indivíduos de diferentes espécies, a primatóloga, mesmo afirmando não ser essa sua intenção, levanos a refletir sobre quão infinitas seriam as possibilidades de afeição entre os indivíduos situados em um mesmo lado dessas fronteiras, como entre os seres humanos, por exemplo. Esse último comentário nos remete, portanto, a pensar novamente nas inúmeras e possíveis leituras das palestras de Coetzee/Costello e talvez em uma óbvia conclusão: estamos diante de uma dessas raras obras que, tanto leituras mais literais, como as menos, produzem iguais, incômodos e positivos efeitos. Marcos Bernardino de Carvalho, professor do Departamento de Geografia da PUC-SP. E-mail: [email protected]