VI Encontro Nacional da Anppas 18 a 21 de setembro de 2012 Belém - PA – Brasil ______________________________________________________ O Biodiesel no contexto da matriz energética brasileira: dilemas e desafios 1. Aspectos introdutórios acerca da matriz energética De início, é preciso salientar que a expressão matriz energética não se refere apenas às fontes de energia disponíveis para a sociedade. A expressão abrange também o equacionamento de seu uso. Investiremos na fabricação de veículos movidos a diesel, biodiesel, gás, gasolina, álcool ou híbridos? Mais rodovias ou ferrovias? E o carro elétrico, será um dia comercializado no Brasil em grande escala? Pensando em termos de possíveis escolhas de políticas públicas, estas e outras indagações são de fundamental importância. Mais do que isso, as opções que a sociedade escolher vão influenciar tremendamente no panorama ambiental de um futuro razoavelmente próximo. Um aspecto digno de nota é a forma como algumas fontes de energia são geradas no Brasil. As usinas hidrelétricas, por exemplo, são conhecidas tanto pela sua ação nociva contra a biodiversidade como também pela remoção ou afetação de populações tradicionais da região alagada. As extensas plantações de cana-de-açúcar – matéria prima para o etanol – também tem se mostrado socialmente e ambientalmente problemáticas. A demanda por energia tem aumentado significativamente nos últimos anos e acompanha de perto o desempenho da economia mundial. Entre os dilemas que se impõem, temos o fato de que o petróleo um dia vai acabar além de ser ambientalmente deletério. Diversificar a matriz energética tornou-se um desafio na ordem do dia. Na maior parte dos países, o investimento em energias alternativas ainda é muito fraco. A tabela a seguir nos fornece informações a respeito da evolução da matriz energética nas últimas 3 décadas: Tabela 1: Oferta interna de energia primária no mundo por fonte: 1973/2009, em % Fonte energética 1973 2009 Petróleo 46,0 32,8 Carvão mineral 24,6 27,2 Gás natural 16,0 20,9 Nuclear 0,9 5,8 Hidráulica 1,8 2,3 10,8 10,2 0,1 0,8 6.111 12.150 Biocombustíveis e resíduos Outras* 6 Total em tep x 10 * geotérmica, solar, eólica, calor, etc tep: toneladas equivalentes de petróleo Fonte: IEA-Internacional Energy Agency. Key World Energy Statistics, 2011. (Disponível em: <www.iea.org>) A primeira informação importante desta tabela é que o mundo continua muito dependente do petróleo e do carvão mineral. Ambos são combustíveis fósseis e altamente poluentes. Os três primeiros itens da tabela, os combustíveis fósseis, somam 81% na matriz energética do planeta. Do ponto de vista ambiental, o incremento do uso de gás natural seria interessante. Apesar de não ser um recurso renovável, é seguramente bem menos nocivo à atmosfera. Em 2009, o Brasil 1 importou da Bolívia cerca de 8,5 bilhões de metros cúbicos de gás natural (MME/EPE, 2010). Diante destes números, o Brasil pensa em alternativas para diminuir esta dependência e investe na extração local. Na Amazônia a Petrobrás extrai petróleo e, mais recentemente, gás natural na província de Urucu. Atualmente boa parte das termelétricas da região são alimentadas a óleo, processo altamente poluente. A extração do gás possibilitará a conversão das termelétricas. Essa mudança, o uso do gás natural ao invés de óleo, permite que uma quantidade significativa de CO2 deixe de ser liberado na atmosfera. A utilização da energia nuclear, apesar de polêmica e inequivocamente perigosa, vem crescendo nas últimas décadas, principalmente no continente europeu. A parcela que cabe às fontes limpas e renováveis ainda é muito pequena. Alertam os ambientalistas que estas ainda não receberam os investimentos necessários para se desenvolver consistentemente. Um olhar mais cuidadoso sobre a proporção destes números nos faz perceber que a diminuição em termos percentuais dos derivados do petróleo na matriz energética mundial foi compensada da seguinte maneira: um pequeno aumento no uso de gás natural e um grande aumento na utilização da energia nuclear. O gráfico 1 que se segue, indica a composição da oferta interna energética brasileira, para o ano 2010: Hidráulica e eletricidade 14,1% Urânio 1,4% Biomassa 31,2% Biomassa: Lenha: 9,5% Prod. da Cana: 17,7% Outras: 4% Carvão mineral 5,2% Gás natural 10,3% Petróleo e derivados 37,7% Fontes renováveis: Brasil: 45,3% OECD: 7,2% Mundo: 12,9% Demanda total: 227,4 milhões de tep (toneladas equivalentes de petróleo) OECD - Organization for Economic Cooperation and Development Gráfico 1: Oferta interna de energia no Brasil, 2010, em % Fonte: Elaboração própria a partir de MME. Balanço Energético Nacional, 2011. Por sua vez, o gráfico 2 apresenta a evolução histórica da oferta interna de energia no Brasil, com dados a partir dos anos 40 do século passado: 2 OUTRAS 100% PRODUTOS DA CANA 80% LENHA & C.VEGETAL URÂNIO 60% HIDRÁULICA 40% GÁS NATURAL CARVÃO MINERAL 20% PETRÓLEO E DERIVADOS 0% 1940 1946 1952 1958 1964 1970 1976 1982 1988 1994 2000 2006 Gráfico 2: Evolução da oferta de energia no Brasil (1940/2006) Fonte: Ministério de Minas e Energia (Disponível em <www.mme.gov.br>) Podemos observar, pelo gráfico acima, que dos anos 50 até o final dos anos 70 houve uma forte redução do uso de energia proveniente da lenha. Essa foi justamente a época em que o Brasil obteve seu mais pujante desempenho na economia. Esse período inclui, por exemplo, os anos JK (1956/60) e o “Milagre Econômico” (1968/73). Naquele tempo, os lares brasileiros foram paulatinamente substituindo o velho fogão de lenha pelo alimentado por GLP (derivado do petróleo). Paralelamente, a maior disponibilização da energia hidráulica possibilitou uma verdadeira explosão no uso dos eletrodomésticos e da iluminação artificial. Após as crises do petróleo dos anos 70, o Brasil foi investindo mais fortemente em fontes energéticas como o álcool, o carvão mineral e o gás natural. A energia nuclear também aparece como opção governamental. O petróleo e seus derivados tiveram um pequeno aumento de seu consumo na metade final dos anos 80 devido a uma momentânea queda de preços. Apesar de oscilações em termos percentuais, é importante acrescentar que, em termos absolutos, praticamente todas as formas de energia tiveram aumento de consumo nas últimas décadas. A nossa economia demanda atualmente cerca de um triplo da energia demandada no início da década de 70. Sempre que ocorre uma variação positiva no produto do país, a demanda por energia segue na mesma direção. Para o ano de 2006, por exemplo, tivemos um crescimento de 3,4% na oferta energética ante uma variação de 3,7% no PIB de 2006. Mesmo considerando que o termo renovável seja merecedor de um olhar mais cuidadoso, ainda assim, um aspecto positivo da nossa composição energética é o grande percentual desta energia presente na nossa matriz. O Brasil está muito bem posicionado neste quesito: somando os itens biomassa e hidráulica/eletricidade chegamos ao número de 45% de energia dita renovável. A 3 média mundial é de cerca de 13% (e de apenas 7% nos países que compõem a OECD, de maneira geral, desenvolvidos). Mesmo assim, diante dos problemas ambientais causados pela queima dos derivados do petróleo, estes números ainda são muito baixos. Vale acrescentar que ainda utilizamos mais de 50% de combustíveis fósseis na composição da nossa oferta energética. Antes de nos debruçarmos sobre a possibilidade de investir mais fortemente em energias renováveis, vale destacar um aspecto importante da atual matriz energética. As usinas hidrelétricas participam da nossa matriz de forma significativa. Cerca de 14 % do consumo de energia nacional provém desta fonte. Apesar de ainda temos um grande potencial, sua exploração deve considerar a fragilidade do ecossistema amazônico, onde 65% deste potencial hidrelétrico está localizado, bem como a existência de povos tradicionais cuja cultura e condições de reprodução social devem ser necessariamente consideradas. O Brasil é o terceiro maior produtor mundial de energia hidráulica. Os dois primeiros são China e Canadá. Na composição da oferta de energia elétrica, aproximadamente 80% provém desta fonte (75% interna e 5% importada), contra apenas 16% da média mundial. O consumo brasileiro em 2010 superou a marca dos 540 TWh (MME, 2011). Convém acrescentar que, embora a nossa capacidade de geração de energia hidráulica seja, via de regra, positiva, o excesso de dependência dessa fonte pode causar alguns problemas. Sempre estamos atentos aos níveis dos reservatórios de água. Uma diminuição, mesmo que temporária, na capacidade de geração das hidrelétricas implica na busca emergencial por outras fontes. Para gerar energia elétrica, queimamos carvão mineral, gás e óleo combustível nas usinas térmicas. Mas o gráfico 1 nos traz uma informação relevante e relativamente recente a respeito da composição da matriz energética brasileira: os fortes investimentos no etanol transformaram os subprodutos da cana-de-açúcar (pertencentes ao grupo denominado biomassa) em uma fonte ainda maior do que a nossa tradicional energia hidráulica, com exatos 17,7% de oferta interna (em 2010). Levando-se em conta os atuais níveis de preços do barril de petróleo, bem como os investimentos em automóveis do tipo flex, é provável que o etanol continue sendo uma de nossas prioridades por muitos anos, mesmo considerando os ciclos da entressafra e da cotação internacional do preço do açúcar, que em determinados momentos desestimula os usineiros a produzirem etanol. Existe também ainda um grande potencial de utilização dos subprodutos da cana como o bagaço e o palhiço. Ambos contém uma quantidade de energia acumulada bastante importante (Moreno, 2011). Se por um lado Brasil possui um enorme potencial de produção de energias e renováveis, por outro, ainda dependemos muito dos combustíveis fósseis. Mas a situação brasileira já foi mais delicada. Em 1973, último ano do “Milagre Econômico”, a participação do petróleo na matriz era de 45,6%, em sua maior parte importado. O petróleo, diante de sua importância para a história e economia do século XX e, ao que tudo indica, também século XXI, merece uma atenção especial. Ele responde, atualmente, por quase 4 40% da nossa matriz energética. Entre seus derivados, o Brasil utiliza 17% de gasolina, 36% de óleo diesel, 12% de nafta, 10% de GLP e 6 % de querosene (além de outros subprodutos), conforme indicam os dados do Gráfico 3: 100% NÃO- ENERGÉTICOS 2 6 4 11 OUTROS ENERGÉTICOS 80% 28 17 28 60% 40% 10 11 7 4 7 5 31 20 20% 26 22 6 12 QUEROSENE ÓLEO COMBUSTÍVEL 11 17 GLP 13 NAFTA 33 36 GASOLINA DIESEL 0% 1973 1979 1986 2006 Gráfico 3: Distribuição do consumo de derivados de petróleo, em %. Fonte: Ministério de Minas e Energia (Disponível em <www.mme.gov.br>) Observando a evolução do uso dos derivados de petróleo na matriz energética a partir dos anos 70, percebemos um significativo aumento do diesel e uma ligeira redução da gasolina em sua composição. É importante salientar que uma redução em termos percentuais não significa que estamos queimando menos gasolina. Em termos absolutos, seu uso quase dobrou em 35 anos. A Tabela 2 ilustra a evolução do consumo de alguns combustíveis (todos eles utilizados em motores à explosão) a partir de 1970. Tabela 2. Evolução do consumo final de etanol, óleo diesel e gasolina Combustível/Ano 1970 1980 1990 2000 2004 2005 Etanol 0,3 1,7 6,3 6,5 7,0 7,3 Óleo diesel 5,4 15,7 20,9 29,5 32,7 32,4 Gasolina 7,4 8,9 7,5 13,3 13,6 13,6 Valores em milhões de toneladas equivalentes de petróleo (tep) Fonte: Elaboração própria a partir de ISA, 2008. Segundo a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), em 2008 o consumo de álcool em litros já ultrapassou o de gasolina. Considerando os ciclos de preços do petróleo, do etanol e do açúcar, ainda não é possível saber se esta será uma tendência para os próximos anos. 5 2. O Biodiesel O biodiesel é um biocombustível produzido a partir de plantas oleaginosas e de gordura animal. No Brasil é adicionado ao diesel comum. O resultado desta mistura possibilita uma redução bastante significativa das emissões de enxofre e carbono. Os dados da tabela 3 a seguir demonstram de maneira inequívoca os benefícios da mistura. Tabela 3: Emissões de poluentes das diversas composições de biodiesel (%) B100 B20 B10 B5 (100% de Biodiesel) (20% de Biodiesel) (10% de Biodiesel) (5% de Biodiesel) Gases de efeito estufa -78 -15 -7,5 -3,75 Óxidos de enxofre -98 -19 -9,5 -4,95 Poluente Fonte: Elaboração própria com base em BARUFI, C. in BERMANN, C. (2007) O biodiesel é também biodegradável, derivado de fontes renováveis e permite a utilização de rejeitos. Além disso, o Brasil possui condições climáticas muito favoráveis ao cultivo de oleaginosas. Aos poucos, assim como aconteceu com o etanol, este combustível também pode se tornar uma alternativa importante aos combustíveis fósseis, principalmente aos derivados do petróleo. Diferentemente do que ocorreu por ocasião da implantação do Proálcool, o Programa de Biodiesel previa políticas públicas no sentido de promover a agricultura familiar em seu ciclo produtivo. 3. As Políticas Públicas O redirecionamento da matriz energética no mundo de hoje requer altos índices de investimento público além de uma série de parcerias com institutos de pesquisa, empresas públicas, produtores rurais etc. Uma iniciativa governamental foi essencial para o uso de biocombustíveis: o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB). Trata-se de uma política que atua sobre o lado da oferta, através de uma série de incentivos para os produtores e sobre a demanda, pois fixa percentuais de mistura do biodiesel com o diesel fóssil. O projeto tem algumas características importantes que o distinguem do Proálcool: existe uma preocupação com as questões ambientais e sociais já na sua formulação. O Proálcool ficou visivelmente apoiado sobretudo no aspecto econômico desde o seu início. O PNPB é um programa governamental que se propõe a implementar o uso do combustível de forma a atender questões ambientais, sociais e econômicas. Em sua formulação, objetiva o desenvolvimento regional através da geração de emprego e renda. Criado por um decreto em 2003 e regulamentado pela lei 11.097/2005, inclui a obrigatoriedade de adição de um percentual 6 mínimo do biocombustível ao óleo diesel comum. Atualmente o percentual da concentração está em 5%, podendo chegar a 10% em um futuro próximo ou até mesmo 20% para as regiões metropolitanas. Para isso, além de viabilizar a questão econômica e logística, são necessários testes de desempenho dos motores, emissão de poluentes e consumo com diferentes tipos de biodiesel. No caso brasileiro, os principais substratos para a produção do óleo são a soja e a gordura animal, mas também são utilizados, em menor escala, a mamona, a palma (dendê), o algodão, o amendoim e o girassol. Do ponto de vista econômico o programa também têm se mostrado bastante interessante. O Brasil deixou de gastar quase 1 bilhão de dólares em 2008 com a importação de óleo diesel por conta do uso do biodiesel. Caso seja possível aumentar o percentual do biocombustível na mistura, esta economia poderá ser ainda maior. A produção do biodiesel vem crescendo nos últimos anos além de estar disseminada por diversos estados brasileiros. Em 2009 a produção brasileira atingiu a cifra dos 1,6 bilhões de litros, contra cerca de 1,2 bilhões em 2008. Destacam-se como grandes produtores, os Estados do Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Goiás (MME, 2011). Muito embora, de início, sejam necessárias algumas reflexões cuidadosas, esta opção energética possui muito mais vantagens do que desvantagens. Do ponto de vista ambiental, a adição do biodiesel ao óleo comum, além dos benefícios bastante significativos em termos de redução da emissão de gases nocivos à saúde, pode aumentar a durabilidade dos motores. A geração de empregos nas lavouras e o controverso fortalecimento da agricultura familiar também são aspectos positivos. Mas, como também acontece no caso do etanol, existe a preocupação de que as lavouras de oleaginosas invadam e destruam parte das florestas tropicais. 3.1 O Selo Combustível Social Um aspecto de fundamental importância presente no PNPB é a adoção do programa Selo Combustível Social (SCS). Por esta ferramenta, as indústrias produtoras de biodiesel recebem incentivos para comprar matérias primas oriundas da agricultura familiar. O instrumento ainda prevê um incremento na assistência aos agricultores através do ATER (Assistência Técnica e Extensão Rural). De acordo com a legislação, o contrato com os produtores deve ser realizado através de um representante da associação de agricultores familiares onde seriam esclarecidas as condições acordadas. A adoção do SCS teve, em tese, três motivos primordiais: a) o grande contingente de agricultores familiares nas regiões Norte e Nordeste; b) necessidade de ações para geração de emprego e renda e, c) necessidade de desenvolvimento de políticas públicas voltadas à descentralização do desenvolvimento em direção às regiões Norte e Nordeste do Brasil (Trentini, 2010). Para a concessão do selo por parte da indústria, existe um percentual mínimo de matéria prima adquirida junto a agricultores familiares. A tabela 4 a seguir, nos mostra estas proporções: 7 Tabela 4 Tabela 4: Percentual mínimo obrigatório de aquisição de matéria prima oriunda de agricultura familiar por região. Região Percentual Percentual até a Percentual a partir vigente até safra 2009/2010, a da safra 2010/2011, a 02/2009 partir de 02/2009 partir de 02/2009 Centro-Oeste e Norte 10 10 15 Nordeste e Semiárido 50 30 30 Sudeste e sul 30 30 30 Fonte MInistério do Desenvolvimento Agrário (MDA), in Trentiti (2010). Concedido pelo Ministério de Desenvolvimento Agrário, o SCS concede às indústrias participantes do programa benefícios comerciais e principalmente, tributários. Para ser considerado produtor familiar, é necessário que o agricultor seja beneficiário do PRONAF (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) e adquira uma Declaração de Aptidão (DAP), que leva em consideração aspectos como tamanho da área da propriedade e renda anual. O agricultor, apesar de proprietário de sua produção, terá de vendê-la, evidentemente, à indústria com a qual fechou contrato de fornecimento. Na implementação da assistência, a lei recomenda também fatores como: segurança e soberania alimentar, produção diversificada e consorciada, respeito à cultura e aos conhecimentos dos agricultores familiares, manejo adequado da água e do solo e rotação de culturas (Siniscalchi, 2010). Ao longo dos anos, a legislação tem ampliado benefícios para a agricultura familiar. A inclusão de novos tipos de oleaginosas participantes do programa bem como dos gastos com assistência técnica na contabilização anual da aquisição de matéria prima são exemplos dessa ampliação. Em épocas recentes, foram registrados alguns casos de indústrias que perderam o Selo Social, por comprarem predominantemente da grande propriedade. Na outra ponta também houve produtores rurais que foram excluídos do PRONAF, devido a aumento de renda níveis superiores ao permitido para enquadramento em agricultura familiar. 4. Considerações acerca do Biodiesel na agricultura familiar Abramovay e Magalhães (2007) nos lembram que, neste caso, a intervenção do Estado se dá através do incentivo a um novo formato organizacional e não a partir da mera injeção de recursos públicos. Refletem também acerca de quais seriam as forças sociais bem como os mecanismos de sistemas de governança nesse tipo de mercado. Os autores, de início questionam se de fato, essa nova política representa um caminho durável de geração de renda para essas populações. 8 Perguntam também se o processo pode trazer inovações organizacionais e tecnológicas capazes de garantir sustentabilidade na geração de emprego e renda. A indagação feita pelos autores em artigo de 2007 mostra-se particularmente pertinente quando verificamos os caminhos do PNPB quase cinco anos depois. Se é verdade que na área de produção de alimentos a participação da pequena propriedade rural é de fundamental importância em termos de volume produzido, o mesmo não acontece no setor de produção de oleaginosas para produção de biodiesel. Para alcançar o volume anual de 2,06 milhões de metros cúbicos (2011), a soja é a principal matéria prima utilizada em proporções mensais superiores a 85%, sendo o restante distribuído entre a gordura bovina (10%), óleo de algodão (3%) e demais gorduras, óleo de fritura e outros materiais graxos (2%). 1 Ainda assim o Ministério do Desenvolvimento Agrário divulgou indicadores aparentemente positivos em relação às compras feitas por empresas detentoras do Selo Combustível Social de matéria prima oriunda de agricultura familiar, conforme indicam os dados do Gráfico 4: Aquisições de matéria prima da agricultura familiar no PNPB (R$ Milhões) 1058,7 677,3 276,5 68,5 117,5 2006 2007 2008 2009 2010 Gráfico 4: Aquisições de matéria-prima da agricultura familiar no PNPB (em R$ Milhões) Elaboração própria a partir de SAF/MDA, 2010. Embora estes dados possam nos indicar o sucesso do PNPB no que diz respeito ao Selo, é preciso levar em consideração algumas questões: - Há um nítido predomínio das regiões Sul e Centro Oeste nestas compras (Gráfico 5). Estes dados demonstram uma falha grave no programa que não consegue beneficiar outras regiões mais necessitadas em termos de inclusão social. - O MDA informa que no caso da Região Sul, existe um nível muito mais alto de organização em cooperativas, além da predominância da soja. Mais um problema: o objetivo de diversificar as culturas de oleaginosas está fracassando. 1 Volume total negociado no 20º Leilão da ANP (11/2010), 21º Leilão (02/2011), 22º Leilão (05/2011) e 23º (08/2011), com prazo de entrega ao longo de 2011. Conforme o Boletim mensal do biodiesel da ANP, em julho/2011 a proporção de soja alcançou 86,3%. Disponível em: http://www.anp.gov.br/?id=472. Acesso em 27.01.2012. 9 - No caso da região Centro Oeste, além do predomínio da soja, existe a permissão legal de que áreas maiores sejam enquadradas na agricultura familiar. - Para a Região Nordeste, o MDA reconhece que o programa está sendo fortemente influenciado pela ação da Petrobrás Biocombustível. Participação regional no total de aquisições da agridultura familiar em R$ (2010) Nordeste 5% Sudeste Norte 4% 0% Cento Oeste 23% Sul 68% Gráfico 5: Participação regional no total de aquisições da agricultura familiar (em R$ de 2010) Fonte: Elaboração própria a partir de SAF/MDA, 2010. Não é difícil prever que uma política pública direcionada ao incentivo da agricultura familiar em nível nacional vai encontrar realidades regionais bastante distintas. Existem disparidades enormes em termos de tecnologia agrícola, logística e infra estrutura entre as regiões brasileiras. O caso do cultivo da mamona ou Ricinus communis no Nordeste é emblemático. Embora, de início, o plantio desta oleaginosa parecesse caminhar para a viabilidade econômica, é fato que esta cultura não obteve êxito. Existe uma série de hipóteses para explicar o baixo desempenho da mamona no Nordeste contrapondo-se ao sucesso da soja. Segundo Mourad (2010), a cultura da soja apresentou comparativamente algumas vantagens importantes como desenvolvimento tecnológico e ampla escala de produção. A autora ressalta que sua estrutura calcada em experiências anteriores reduziria custos transacionais. Na mesma linha de raciocínio, Lovatelli (2011) aponta variáveis fundamentais como a logística, a produtividade e a pureza do óleo de mamona como causas para o definhamento do projeto. 5. Conclusão Diante do fim da “era do petróleo”, em que pese algum nível de sobrevida diante da descoberta de novas jazidas, a alternativa de bioenergia se apresenta de forma viável. Nos últimos anos a 10 produção de etanol, e mais recentemente, de biodiesel, tem crescido exponencialmente, inclusive atingindo participações no setor agrícola bastante importantes. Apesar das inovações tecnológicas do setor, algumas características da história agrária brasileira ainda persistem. São elas: grandes superfícies territoriais onde o produto é cultivado, disparidades regionais e péssimas condições de trabalho, principalmente durante a colheita. Considerando que, sob o ponto de vista da preservação da biodiversidade brasileira, o avanço da monocultura sobre as florestas através do agronegócio tem se mostrado problemático, políticas públicas podem atuar para transformar essa realidade. É possível que o investimento em pequenas propriedades produtoras de oleaginosas como mamona, soja, dendê, amendoim e girassol possam, desde que devidamente monitoradas pelo poder público, operar de maneira economicamente inclusiva e ambientalmente mais sustentável, Diante da possibilidade de se investir numa fonte energética renovável – e particularmente na agricultura familiar - abre-se uma oportunidade de se obter vantagens importantes em termos de qualidade de vida. O fracasso do PNPB em áreas como diversificar a cultura de oleaginosas e desenvolver agricultura familiar inclusiva em algumas regiões do país deve ser visto como um desafio. Um sinal para se reorientar as políticas públicas no sentido de entender as realidades regionais e fornecer suporte técnico, financeiro e logístico adequado. A possível sustentabilidade econômica destas políticas públicas ainda é uma incógnita que só será desvendada nos próximos anos. Estamos tratando, porém, de um tipo de política pública que envolve, além de questões econômicas, também aspectos ambientais e sociais. Neste caso, vale a reflexão de que a busca pelos resultados precisa ir além da lógica da reprodução do capital. Referências Bibliográficas ABRAMOVAY, R. e MAGALHÃES R. O acesso dos agricultores familiares aos mercados de biodiesel: parcerias entre grandes empresas e movimentos sociais. (Disponível em: http://www.usp.br/feaecon/media/fck/File/Biodiesel_AIEA2_Portugues.pdf , 2007). BERMANN, C. Os limites dos aproveitamentos energéticos para fins elétricos: uma análise política da questão energética e de suas repercussões sócio-ambientais no Brasil. Tese de Doutoramento. Campinas: FEM/UNICAMP, 1991, 296 p. BERMANN, C. (Org). As novas energias no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Fase, 2007. BOLETIM MENSAL DE BIODIESEL. www.anp.gov.br, Agência Nacional de Petróleo, Novembro, 2011. GOLDEMBERG J. e LUCON, O. Energia, meio ambiente e desenvolvimento. 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