EDUCAÇÃO FEMININA E TRABALHO NA AGENDA POLÍTICA DE REDUÇÃO DA POBREZA DO BANCO MUNDIAL E CEPAL Leda Aparecida Vanelli Nabuco de Gouvêa Amélia Kimiko Noma1 Introdução A educação feminina vem sendo focalizada como prioridade no movimento internacional de educação para todos e nos debates sobre a condição da mulher no contexto das mudanças que estão ocorrendo no mundo do trabalho. A partir de 1990, a educação de mulheres e meninas foi pauta em vários eventos internacionais, realizados no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU), que abordaram temas pertinentes à educação, à infância, ao meio ambiente, aos direitos humanos, à população e desenvolvimento social, entre outros. Destes eventos derivaram declarações internacionais que implicaram em compromissos políticos, por parte dos países membros das agências da ONU, a fim de assegurar a educação básica para todos. Dentre outros dispositivos, tais declarações apontam para a necessidade de se priorizar a educação de mulheres e meninas. Em documentos publicados e divulgados por agências internacionais, é recomendado aos Estados-membros a promoção do acesso à educação básica com eqüidade, a eliminação dos obstáculos que excluem a população feminina do sistema de ensino, como as barreiras sociais e culturais, bem como os preconceitos e os estereótipos que reproduzem a histórica discriminação contra o sexo feminino na escola, especialmente os presentes nos livros didáticos. Duas temáticas se destacam nas discussões sobre a questão educacional feminina, presentes tanto nos documentos derivados dos eventos internacionais como nos documentos oficiais das agências da ONU. A primeira está relacionada à agenda política das agências multilaterais para a redução da pobreza, haja vista a crença de que a educação feminina, especialmente das mulheres, pode interromper o “ciclo intergeracional da pobreza”. A segunda trata da questão da mulher e sua inserção no 2 mercado trabalho, a qual incide, também, na questão educacional, uma vez que as mulheres precisam ser qualificadas e se tornarem empregáveis. A questão central para a qual convergem as duas temáticas é a participação da mulher na redução da pobreza. Objetivo O objetivo deste trabalho é analisar a relação estabelecida, a partir de 1990, entre a educação feminina e trabalho na agenda política de redução da pobreza do Banco Mundial (BM) e da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL). Metodologia Articula-se a discussão do objeto em investigação no contexto histórico pertinente, ancorando-se na análise de conteúdo dos documentos selecionados e na problematização das questões, à luz da literatura existente. Parte-se do pressuposto de que os conteúdos dos documentos analisados não podem ser entendidos como objeto final de explicação. Estes precisam ser abordados como unidades de análise, uma vez que possibilitam o acesso ao discurso e a apreensão da política em presença, por conterem diagnósticos, prioridades, direcionamentos e orientações para a agenda política dos países membros da ONU. Sendo assim, os documentos precisam ser tomados como objeto de interpretação, e não como ponto de partida absoluto (SHIROMA; CAMPOS; GARCIA, 2005). Considera-se fundamental a apreensão do contexto em que foram geradas as análises, formulações e recomendações referentes à educação das mulheres contidas nas fontes, a fim de compreender as vinculações que ele mantém com as políticas que extrapolam o âmbito educacional. A explicitação desta articulação teórica com interesses políticos e econômicos hegemônicos pressupõe um esforço teórico e metodológico que vai além da análise dos espaços institucionais em que foram elaborados os documentos em questão. Aqui, cabe uma ressalva, a de que, com a referida contextualização, não se busca determinar uma relação de causa e efeito, e sim explicitar o cenário de referência no qual atuam os atores e autores da história que está sendo investigada. 1 Professora do Departamento de Fundamentos da Educação, Universidade Estadual de Maringá – UEM. email: [email protected] 3 Resultados A relação entre educação feminina e redução da pobreza não é um tema novo. Entretanto, a partir dos anos de 1990, adquiriu centralidade para as agências multilaterais, como o Banco Mundial e a Cepal. Esta importância está relacionada à condição social da mulher no contexto das mudanças econômicas, políticas e sociais decorrentes da reestruturação capitalista. O quadro social analisado pelas agências multilaterais, com base na condição feminina, revelou as condições drásticas de vida a que essas mulheres eram, e ainda são, submetidas. Tal condição estaria associada às barreiras sociais que favorecem situações como: dificuldade de acesso à escola, deterioração das condições de trabalho, diferença salarial entre mulheres e homens e inúmeras formas em que se expressa a discriminação com base na distinção de gênero. Este conjunto de problemas estaria levando ao empobrecimento acentuado da população feminina, que, em 1997, conforme dados do relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), perfazia cerca de 70% da população que vivia abaixo da linha da pobreza (TOUSSAINT, 2002). Este contexto de empobrecimento mundial, que atingiria com mais intensidade as mulheres, passou a ser denominado como um quadro de “feminização da pobreza”. Esta classificação tem sido utilizada nas análises das agências multilaterais sobre a realidade social, e das quais emanam as orientações para que as nações adotem a “perspectiva de gênero” na elaboração e implementação das políticas sociais. Estas agências enfatizam que sem o investimento em políticas a favor das mulheres, não se pode assegurar o desenvolvimento econômico e social. Nesta perspectiva, as principais recomendações dizem respeito à educação formal de mulheres e meninas, como observar-se nos documentos do Banco Mundial e Cepal estudados. Até os anos de 1980, para o Banco Mundial, a educação feminina incluía-se na preocupação política e econômica a respeito do crescimento demográfico dos países “em desenvolvimento”, como ficou patente em seu “Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial”, publicado em 1984, centrado no tema demografia populacional e desenvolvimento. Contudo, a partir dos anos de 1990, e mais intensamente neste novo século, àqueles benefícios da educação feminina foi agregada, de modo enfático, a noção de melhoria da educação e da saúde infantil. 4 O Banco Mundial, em seu Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial, intitulado “A pobreza”, publicado em 1990, expõe que, se “[...] as famílias tiverem oportunidades seguras de usar proveitosamente sua mão-de-obra e se seus membros forem capacitados, instruídos e saudáveis, certamente estará assegurado um padrão de vida mínimo e a pobreza desaparecerá” (BANCO MUNDIAL, 1990, p. 39). O otimismo do Banco Mundial em relação à educação foi particularmente desenvolvido no contexto de sua análise sobre o empobrecimento mundial, constatando que o peso da pobreza recai com maior força sobre certos grupos, em especial, o das mulheres. As mulheres “[...] enfrentam toda sorte de obstáculos culturais, sociais, legais e econômicos que os homens, inclusive os pobres, não têm” (BANCO MUNDIAL, 1990, p. 35). As mulheres de famílias pobres suportam uma carga de trabalho maior que os homens, além de terem um menor nível de educação e pouco acesso a atividades remuneradas. Diante destas conclusões, o Banco Mundial afirma que a eficácia da educação como arma na luta contra a pobreza está relacionada não só ao aumento produtividade do trabalho dos pobres, mas, pela educação das mães, têm-se importantes benefícios, já que “[...] um ano de educação da mãe tem relação com a diminuição de 9% na taxa de mortalidade infantil. Os filhos de mães com um maior nível de instrução – sendo as demais características iguais – tendem a ser mais saudáveis” (BANCO MUNDIAL, 1990, p. 35). Conclui-se, no documento, que uma das maneiras mais eficazes de reduzir a taxa de fecundidade feminina, que está associada aos fatores desencadeantes da pobreza, é incrementar o nível de educação das meninas e das mulheres (BANCO MUNDIAL, 1990). Seguindo na senda da defesa da educação como arma eficaz na luta contra a pobreza, o Banco Mundial publicou, em 1995, o documento “Prioridades e estratégias para a educação”, no qual afirmou que a rentabilidade do investimento na educação de mulheres é superior à dos homens, quando se trata de mulheres que obtêm emprego. Esta “rentabilidade” da educação feminina, associada aos seus benefícios sociais mais amplos, que chamou de externalidades da educação, são os argumentos principais para o investimento educacional em mulheres e meninas. Estas externalidades estão relacionadas à redução da fecundidade das mulheres, uma vez que aquelas com maior instrução tendem a casar-se com mais idade e a usar anticonceptivos. A educação dos pais, particularmente a da mãe, conforme o documento, produz modificações de hábitos, 5 de comportamento, gerando condições de proporcionar melhor nutrição e melhores serviços de saúde a seus filhos (BANCO MUNDIAL, 1995a). Todos estes benefícios levam a considerar a educação como elemento eficaz para romper com a reprodução da pobreza no futuro. O repertório relativo aos benefícios da educação também estão presentes no Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial, de 1995, intitulado “O trabalhador e o processo de integração mundial”. Este documento, além de explanar sobre as vantagens de uma economia liberalizada, defende a premência do investimento em capital humano e referenda o desenvolvimento do capital humano o mais precocemente possível. Para a agência, “[...] as famílias que procuram tornar mais rendosas as suas horas de trabalho investirão no seu próprio capital humano, na forma de melhorias da saúde e da nutrição, bem como instrução escolar e treinamento” (BANCO MUNDIAL, 1995b, p. 24). Neste sentido, os investimentos em saúde, nutrição, educação e treinamento são investimentos que começam na infância e se estendem ao longo da vida, “[...] tais investimentos geram o capital humano necessário para aumentar a produtividade da mão-de-obra e o bemestar econômico do trabalhador e sua família” (BANCO MUNDIAL, 1995b, p. 42). Em relação à educação de mulheres, afirma que as metas de combate à discriminação, redução da pobreza e promoção da eqüidade, são as que justificam a ação governamental para promover a acumulação de capital humano, em particular entre os pobres (BANCO MUNDIAL, 1995b). Transcorrida uma década desde a publicação do Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial, em 1990, o Banco Mundial inseriu novamente a temática sobre a pobreza mundial em 2000, no Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2000/2001, intitulado “A luta contra a pobreza”. Dentre as estratégias preconizadas para a redução da pobreza consta que a promoção da igualdade entre os sexos é de significativa importância. Para a agência, a “[...] desigualdade entre os sexos tem acentuadas repercussões no que se refere ao capital humano da próxima geração, dado que o encargo de gerar e criar os filhos recai em grande parte sobre a mulher” (BANCO MUNDIAL, 2001, p. 123). Neste documento, repetem-se as conclusões anteriores a respeito dos benefícios da educação feminina concluindo que as mulheres instruídas “[...] apresentam maior capacidade de se comunicar com seus maridos em decisões sobre quantos filhos desejam ter, fazem uso mais efetivo de anticoncepcionais e têm 6 aspirações sociais mais altas para os filhos” (BANCO MUNDIAL, 2001, p. 123). Da análise dos documentos Banco Mundial, apreende-se que questão da educação feminina está inserida no contexto da preocupação da agência em relação aos problemas sociais advindos com o incremento mundial da pobreza. A articulação entre a educação e trabalho, quando se refere à mulher, é considerada, na medida em que redundaria em melhoria das condições familiares, especialmente na formação do capital humano das crianças. Por conseguinte, a educação feminina, como estratégia de resolução dos problemas sociais, insere-se como ponto nodal na teoria da “reprodução intergeracional da pobreza”, adotada como eixo explicativo da produção da pobreza mundial. Nesta perspectiva, não é uma temática desenvolvida somente pelo Banco Mundial, mas está presente nos discursos de outras agências multilaterais filiadas a ONU, entre elas, a Cepal. A qual, a partir de 1990, como agência de desenvolvimento regional, vem orientando sua agenda de desenvolvimento econômico e social pautada na “transformação produtiva com eqüidade”. No documento “Transformação produtiva com eqüidade: a tarefa prioritária do desenvolvimento da América Latina e o Caribe nos anos noventa”, publicado em 1990, além de outras orientações, reforçou a necessidade de formação de recursos humanos por meio da educação. A referida publicação, como documento orientador da política institucional da Cepal, foi precursora da produção teórica da agência a respeito da questão educacional na América Latina e Caribe, e, em consonância com o Banco Mundial, trata a questão da educação feminina como essencial para a redução da pobreza na região. Em 1992, a Cepal, em conjunto com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), publicou um documento sobre a educação, intitulado “Educação e conhecimento: eixo da transformação produtiva com eqüidade”. Nele, enuncia que os fundamentos nos quais os países da região devem embasar-se para formular suas políticas educacionais estão na articulação entre educação, conhecimento e desenvolvimento, considerados como a tríade central para o projeto da transformação produtiva com eqüidade. Enfatiza-se que este objetivo só poderá ser alcançado com uma ampla reforma dos sistemas educacionais e de capacitação de mão-de-obra da região, gerando, assim, a capacidade de aproveitamento interno do progresso científico e tecnológico (CEPAL/UNESCO, 1995). Neste documento, expõe dados sobre o acesso das mulheres à educação e reconhece que seus efeitos no mercado de trabalho e sobre o 7 nível de renda ficam “aquém do esperado”. São abordados, ainda, o problema da discriminação de gênero e a necessidade da eliminação dos estereótipos sobre os sexos nos textos escolares e na prática pedagógica. No texto “Eqüidade e transformação produtiva: um enfoque integrado”, de 1996, o objetivo da Cepal foi de esmerar a proposta da transformação produtiva com eqüidade, a fim de que haja uma integração entre as políticas econômicas e sociais. Neste documento, atribui-se ênfase especial na educação e no conhecimento não somente como um serviço social básico, mas como um dos pivôs do progresso técnico. Afirmase que os programas de investimento social são importantes para se romper com a transmissão intergeracional da pobreza, uma vez que “[...] as maiores taxas de fecundidade se registram precisamente entre as famílias mais pobres, por sua vez, as mães das famílias pobres são as que têm maiores riscos de gravidez; seus filhos padecem de pior estado nutricional [...]”, o que resulta em maiores dificuldades de aprendizagem escolar e as maiores taxas de repetição e de desistência. Conseqüentemente, “[...] são eles que em maior medida terminam em trabalhos com pouco futuro e de escassa produtividade no setor informal. Desta maneira, se fecha o círculo vicioso da pobreza, que se transmite de geração em geração” (CEPAL, 1996, p. 11). Para a Cepal, a tarefa das políticas e programas sociais é romper com este círculo vicioso. No documento “Eqüidade, desenvolvimento e cidadania”, de 2000, a Cepal considera que o principal desafio na região é em relação à igualdade, ao desenvolvimento e à cidadania, que expressam o fato de que o sistema econômico deveria estar subordinado aos objetivos sociais. Neste documento, é estabelecida uma agenda de desenvolvimento para o século XXI, direcionada, especialmente, para a redução da pobreza. A educação é classificada como uma das chaves-mestra para gerar o progresso simultâneo em igualdade, desenvolvimento e cidadania, sendo vital para bloquear a reprodução da pobreza por meio da sua perpetuação de uma geração a outra. A educação, neste sentido, tem efeitos abrangentes na sociedade, já que melhora as condições de saúde da família e a mobilidade social e profissional. Ao fazer referências à relação entre educação feminina e mercado de trabalho, a agência aponta o impacto positivo da educação das mulheres na educação e na saúde da família, sublinhando que, embora tenham adquirido um melhor nível educacional, as mulheres ainda continuam a ter sua 8 força de trabalho subvalorizada. A Cepal (2000, p.101) reitera o efeito triplo obtido com a melhora no ambiente educacional nos lares: “[...] o rendimento educativo das próximas gerações; incide positivamente na saúde reprodutiva e infantil e, por último, a maior mobilidade sócio-ocupacional ascendente dos egressos do sistema educativo”. Afirma-se, no documento, que “[...] maior nível de educação formal, menor é a probabilidade de ser pobre ou cair na pobreza” (CEPAL, 2000, p. 101). A educação também é considerada o principal meio para superar tanto a pobreza como as causas estruturais que a reproduzem, como “[...] baixa produtividade no trabalho, acesso escasso a ferramentas da vida moderna, marginalidade sociocultural, maior vulnerabilidade das famílias no plano da saúde e descontinuidade ou baixos resultados na educação dos filhos” (CEPAL, 2000, p.101). Em 2003, no documento intitulado “Panorama Social da América Latina”, a Cepal abordou sobre os principais problemas que atingem as mulheres na região, no capítulo concernente a questão da pobreza e desigualdade por uma perspectiva de gênero. Dentre estes problemas, citam-se as dificuldades que as mulheres encontram em ingressar no mercado de trabalho, fato que faz com que a taxa de desemprego feminino seja mais elevada que a masculina. Em relação ao emprego da força de trabalho feminina, indicase que a forte segmentação que caracteriza a força de trabalho, atualmente, coloca as mulheres em empregos mais precários e pior remunerados. Esta característica, segundo a agência, independe do nível educacional. Entretanto, mesmo reconhecendo as precárias condições de trabalho e os baixos salários, a Cepal continua a afirmar que a participação das mulheres, com seu ingresso no mercado de trabalho, contribui para reduzir a pobreza. A conclusão que o documento apresenta é que a pobreza afeta com maior severidade as mulheres “[...] sem cuja importante contribuição não é possível superar a pobreza da região” (CEPAL, 2003, p. 135). A relação entre educação das mulheres e pobreza foi particularmente referenciada no documento “Caminhos para a eqüidade de gênero na América Latina e Caribe”, elaborado pela Cepal para a 9ª Conferência Regional da Mulher da América Latina e Caribe, realizada em 2004, no México. No documento, faz-se um balanço das conquistas e desafios em relação à pobreza e à eqüidade de gênero, bem como dos avanços e retrocessos nas esferas institucionais e na participação política das mulheres. Apresenta-se, ainda, uma série de propostas estratégicas para avançar em programas de 9 reformas para a implementação da igualdade plena entre homens e mulheres e a eliminação de todas as formas de discriminação. Acerca da valorização da educação das mulheres como meio de superar a pobreza, o documento enfatiza que um dos maiores avanços em relação à eqüidade foi à elevação do número de anos de estudo e o aumento da matrícula feminina nas escolas. Afirma, ainda, que as mulheres latino-americanas economicamente ativas têm níveis de estudos que superam os índices apresentados pela população masculina. Todavia, como exposto nos outros documentos, o nível educacional das mulheres não traz como conseqüência uma melhor inserção no mercado de trabalho, nem a redução da diferença salarial existente entre homens e mulheres. Uma das explicações apresentadas para as dificuldades enfrentadas pelas mulheres no mercado de trabalho, tanto em termos de inserção como em questões salariais, refere-se ao fato de que tais dificuldades ocorrem “[...] no contexto de um aprofundamento da distância entre o sistema educativo e as necessidades do mercado de trabalho, fenômeno cujos efeitos desfavorecem principalmente as mulheres”. Essa situação “[...] revela carências na qualidade da educação e a debilidade de seu impacto em relação à redistribuição das responsabilidades familiares e à eliminação de valores e prejuízos que fomentam a discriminação” (CEPAL, 2004, p. 31). Das referências da Cepal em relação à questão da educação feminina, observa-se que a agência ressalta-a como estratégia indispensável para a resolução dos problemas relacionados à pobreza, visto que, a longo prazo, atua interrompendo o ciclo da pobreza considerado como de índole intergeracional. No que concerne à relação entre educação feminina e suas desvantagens no mercado de trabalho, comparada aos homens, a agência explica-a de duas maneiras: a) os discursos partem do princípio de que as mulheres pobres, ao aumentarem seu nível de escolaridade, poderiam ocupar postos de trabalho no mercado formal que exigem maior qualificação e são menos precarizados; b) quanto à relação discrepância entre o nível educacional das mulheres e suas condições salariais, o discurso tem se dirigido para a questão da baixa qualidade da educação oferecida pelo sistema de ensino, da sua inadequação às exigências do mercado de trabalho e das práticas discriminatórias baseadas no sexo. Do estudo dos documentos do Banco Mundial e da Cepal, apreende-se uma consonância entre as agências multilaterais ao afirmarem que a baixa qualidade da educação é a causa para os problemas gerados no âmbito do mercado de trabalho. Em específico, a 10 Cepal (2004) expressa essa conclusão ao afirmar que a discrepância entre o nível de educação das mulheres e suas condições salariais está relacionada à baixa qualidade da educação oferecida pelo sistema de ensino e sua inadequação às exigências do mercado de trabalho. Estas explicações, ao serem analisadas à luz da produção teórica de pesquisadores que aprofundam as investigações sobre as condições que envolvem a força de trabalho feminina nos processos produtivos, revelam o reducionismo analítico das agências multilaterais, indicando que é um tema que precisa ser analisado e debatido com maior circunspecção. O paradoxo entre a maior escolarização feminina e o fato delas ocuparem postos menos qualificados e receberem menores salários, conforme explica Hirata (1994; 2002), só pode ser explicado e sustentado a partir dos elementos que envolvem o trabalho doméstico. É no trabalho doméstico que estaria a base das diferenças que se situam no nível profissional e onde foram criadas socialmente as funções chamadas femininas. É nessas funções que as mulheres apresentam sentimentos e habilidades que são, atualmente, aproveitáveis no mundo do trabalho (HIRATA, 1994; 2002). Consoante com esse debate, Lavinas (2001) explicita que a participação feminina no mercado de trabalho teve um aumento linear, sendo que muitas razões podem explicar essa situação mais favorável às mulheres do que aos homens. O diferencial de gênero que capacita as mulheres a disputarem espaço no mercado de trabalho com mais sucesso que os homens é o seu nível médio de escolaridade mais alto e sua remuneração inferior, isso associado a habilidades e atributos relacionados à dimensão de gênero (LAVINAS, 2001). Essa assimilação da força de trabalho feminina proveniente da população mais pobre, feita pelo capital, está estreitamente relacionada aos processos excludentes promovidos pela reestruturação nos processos produtivos. De um lado, os avanços tecnológicos e a inserção de novos padrões de gerenciamento na produção engendraram a absorção de trabalhadores com maior qualificação profissional. De outro lado, tem-se a subsistência de processos produtivos em setores da produção calcados no trabalho intensivo, precarizado e insalubre, que absorvem a maioria dos trabalhadores com níveis qualificação e escolaridade mais baixos. É nesta última dimensão que as mulheres trabalhadoras estão concentradas. 11 A esse respeito, Antunes (1999; 2002), expõe que as mudanças na estrutura produtiva e no mercado de trabalho possibilitaram a incorporação e o aumento da exploração da força de trabalho feminina. As mulheres passaram a ser absorvidas pelo capital, preferencialmente no universo do trabalho part time, precarizado e desregulamentado, por serem consideradas mais adaptáveis às dimensões polivalentes do trabalho na produção flexível. Entretanto, essa expansão do trabalho feminino continua tendo a desigualdade salarial como elemento marcante. Há referências a uma divisão sexual do trabalho, operada pelo capital dentro do espaço fabril, onde as atividades de concepção ou aquelas baseadas em capital intensivo são preenchidas pelo trabalho masculino, enquanto aquelas dotadas de menor qualificação, mais elementares e freqüentemente fundadas em trabalho intensivo, são destinadas às mulheres trabalhadoras. O capital, portanto, tem demonstrado capacidade em apropriar-se intensamente da “polivalência e multiatividade” do trabalho feminino (ANTUNES, 1999; 2002). Nesse sentido, ao se confrontar as conclusões dos autores acima – em relação a educação feminina e sua inserção no mercado de trabalho – com aquelas apresentadas pelas agências multilaterais em questão, depreende-se que a questão da educação feminina está atrelada ao papel outorgado socialmente às mulheres no âmbito da reprodução social. A dimensão da reprodução social é compreendida aqui como a dimensão em que ocorre a reprodução e manutenção da força de trabalho; isto é, está relacionada tanto a reprodução biológica quanto ao consumo individual dos meios de subsistência pelo trabalhador e sua família. Este consumo individual do trabalhador, para Marx (1985, p.157) pertence a ele e “[...] executa funções vitais fora do processo de produção”. Essa dimensão da reprodução social em que ocorre a reprodução da classe trabalhadora, como sublinha Marx (1985, p. 158), “[...] implica, ao mesmo tempo, a transmissão e a acumulação de habilidades de uma geração para outra”. Portanto, a esfera da reprodução social complementa ou integra a dimensão produtiva, considerada como o momento em que o trabalhador despende sua força de trabalho para usufruto do capitalista. Ambas as dimensões fazem parte de um mesmo processo, daí a importância da dimensão da reprodução social no contexto capitalista deste novo século, e, por conseguinte, a significativa importância da educação feminina. Ao mesmo tempo em que é nesta dimensão que as mulheres trabalhadoras adquirem suas habilidades 12 aproveitáveis nos processos produtivos, como indicaram os autores acima, elas também atuam como mediadoras na formação precoce do capital humano de sua prole, conforme o que propugnam as agências multilaterais. A esse respeito, são elucidadoras as afirmações de Farah (2004, p.55), que analisa o discurso do Banco Mundial em relação às mulheres. Segundo a autora, a referida agência, embasada na noção de “feminização da pobreza”, vem evidenciando o papel atribuído às políticas públicas na redução das desigualdades de gênero e, explicitamente, na focalização das políticas sociais em mulheres. As políticas de educação e saúde, dentre outras, sustentam-se no argumento de maior eficiência no combate à pobreza, uma vez que, ao privilegiar-se a atenção nas mulheres, haverá um impacto maior na sociedade. Esse impacto social derivaria da presença decisiva das mulheres “[...] nos assuntos ligados à moradia e ao bairro, seja ainda pela presença significativa de mulheres entre a população pobre” (FARAH, 2004, p. 55). Com relação a esse aspecto, Bandeira (2005, p.8) é contundente ao afirmar que as políticas públicas para as mulheres enfatizam a responsabilidade destas em relação à “[...] reprodução social, pela educação dos filhos, pela demanda por creches, por saúde e outras necessidades que garantam a manutenção e permanência da família e não necessariamente seu empoderamento e autonomia”. Ao evidenciarem a tônica dos discursos em prol das mulheres, Bandeira (2005) e Farah (2004) revelam, portanto, que é na dimensão da reprodução social, em que a família desempenha um papel relevante, que a retórica da educação feminina se abastece. O foco centra-se no argumento que a mulher “educada” pode gerenciar eficazmente seu papel como mãe, administrando seus parcos recursos adquiridos no mercado de trabalho, a fim de engendrar um ambiente doméstico propício para o desenvolvimento do “capital humano” de seus filhos. A racionalidade presente, e exaustivamente reproduzida nos documentos das agências multilaterais, é que, ao educar as mulheres, elas diminuirão o número de filhos, pois fariam uso dos meios anticoncepcionais disponíveis, teriam melhores condições de cuidar da saúde de seus filhos e aumentariam a probabilidade de inserir-los no sistema de ensino. A lógica do processo de interrupção do ciclo da pobreza seria romper com a sua “reprodução intergeracional” por meio da educação das mulheres. Quanto às meninas, o discurso tem sentido prospectivo, ou seja, educando-as, elas se tornarão adultas e mudarão seu destino, desviando-se das 13 condições que geram a pobreza: muitos filhos e “falta de educação”. As ações propostas pelas agências se pautam na educação e qualificação das mulheres como forma de apaziguar os efeitos da pobreza no desenvolvimento social e econômico. Decorre dessa compreensão que nada mais certo como solução para o problema da pobreza que o investimento na educação, particularmente na educação de mulheres e meninas. Conclusão As proposições analíticas sobre a pobreza, recorrentes nos vários documentos analisados, emergem dentro do modelo de um atavismo biológico. Ao naturalizar o social, naturaliza-se a pobreza, sendo, então, possível entendê-la como algo transmitido “hereditariamente”, como se suas características psicológicas, intelectuais e comportamentais pudessem ser repassadas de geração para geração, conforme subentende a teoria da “reprodução intergeracional da pobreza”. Essa abordagem do capital, legitimado pela ideologia liberal que transpassa os discursos das agências multilaterais, evidentemente, não explica o caráter antagônico da acumulação capitalista. Ademais, em decorrência dos limites das análises e interpretações, reproduz-se o pensamento fetichizado que explica as determinações sociais e históricas da pobreza, tratando-a como objeto em si ao naturalizar fenômenos que são sociais, abstraindo as relações societárias em presença. A homogeneização de concepções e análises, que se firmam a partir de um discurso recorrente – como ocorre com a questão da educação feminina como estratégia para redução da pobreza –, não caracteriza somente uma elaboração teórica abstrata, sem maiores implicações no plano dos acontecimentos materiais da sociedade. A partir dessas concepções, reproduzem-se mais ideologias que segmentam os problemas sociais como pertinentes a determinados grupos sociais e não como um problema assentado nas relações antagônicas entre a classe capitalista e a trabalhadora. Partindo desse prisma, os trabalhadores assalariados explorados pelo capital são culpabilizados por estarem em situação de pobreza, por não terem a educação necessária para “escaparem” deste processo, via aproveitamento das oportunidades oferecidas pelo mercado de trabalho. A mulher, trabalhadora, pobre e com pouca ou nenhuma escolaridade, nesse contexto de interpretações reducionistas, é duplamente 14 culpabilizada: além de não ter a educação para desviar-se da pobreza, ainda é culpada por “transmitir”, pela sua ignorância, a pobreza aos seus filhos. Nos documentos analisados, o discurso recorrente é que a educação formal é um fator essencial para o desenvolvimento econômico dos países pobres por possibilitar o incremento do capital humano e a promoção da eqüidade social. Assim, a educação é explicada por metáforas, como a “chave” ou um dos “pilares” para o desenvolvimento e redução da pobreza. Na desconstrução dessa retórica, evidenciou-se que esta se fundamenta numa relação simplista entre educação e desenvolvimento econômico. Em oposição a essa afirmação meramente economicista, foi enfatizado que, no capitalismo, pode haver crescimento econômico sem que, em contrapartida, isso signifique desenvolvimento humano. A apreensão fenomênica das manifestações da questão social, sem a análise das mediações que elas incorporam, leva a imputar à educação o status de estratégia para melhorar as condições econômicas e sociais da população e, especialmente de tornar-se instrumento para equalizar as distorções existentes entre mulheres e homens na estruturalmente desigual e excludente sociedade capitalista. Referências ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo, 1999. ______. Adeus ao trabalho? ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 8.ed. São Paulo: Cortez, 2002. BANCO MUNDIAL. 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