EVOLUÇÃO DA DISTRIBUIÇÃO DE CRÉDITO AGRÍCOLA NO BRASIL, ENTRE UNIDADES DA FEDERAÇÃO, NO PERÍODO 2000 A 2007 [email protected] Apresentação Oral-Evolução e estrutura da agropecuária no Brasil HUMBERTO FRANCISCO SILVA SPOLADOR; ROBERTO ARRUDA DE SOUZA LIMA. ESALQ/USP, PIRACICABA - SP - BRASIL. Evolução da distribuição de crédito agrícola no Brasil, entre Unidades da Federação, no período 2000 a 2007 Resumo: O objetivo deste trabalho é medir o grau de concentração do crédito agrícola no Brasil, em nível estadual, utilizando o índice T de Theil para o período 2000-2007. Além da medida de concentração, pretende-se, com os resultados, avaliar o padrão de distribuição do crédito agrícola entre os estados, avaliando em que medida o volume de crédito distribuído é proporcional à participação da produção e da área plantada de cada estado no total brasileiro. Os resultados sugerem que o crédito agrícola continua concentrado em alguns estados das regiões Sudeste e Sul. No entanto, dentro das regiões, observou-se que está ocorrendo um processo de desconcentração não apenas do crédito total, mas, também, das finalidades de crédito (custeio, investimento e comercialização). Palavras-chaves: crédito rural, concentração, distribuição, índice T de Theil. Abstract: This paper aims at studying the degree of agricultural credit concentration in Brazil, at state level, using the Theil T index for the period 2000-2007. We have the additional objective to analyze the assess, and the pattern agricultural credit distribution among the Brazilian states, evaluating the extent to which the volume of credit is distributed in proportion to the production share and planted area of each state. The results suggest that the agricultural credit remains concentrated in some states of Southeast and South regions. However, within regions; there is a process of credit devolution that not only for the total credit, but also the purposes of credit (cost, investment and commerce). Key Words: rural credit, concentration, distribution, Theil index. 1. Introdução A criação do Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR) em 1965 aconteceu, conforme Coelho (2001), em uma fase de modernização da agricultura brasileira. Naquele momento, além da criação do SNCR houve, também, uma reformulação da Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM). Hoffmann e Kageyama (1987) verificaram que a concentração do crédito rural, ao longo da década de 1970, ocorreu em benefício de alguns produtos, principalmente àqueles direcionados exportação e/ou industrialização, e em favor das regiões Sul e Sudeste. A década de 80 caracterizou-se pelo esgotamento do processo de industrialização via substituição de importações, pela crise da dívida externa e a conseqüente interrupção do fluxo de poupança externa. A capacidade de poupança do setor público se exauriu e a inflação atingiu níveis politicamente insustentáveis (Barros & Araújo, 1991). A oferta de crédito 1 oficial, então, reduziu-se drasticamente e foram buscadas novas alternativas de financiamento, com prioridade para fontes não inflacionárias de recursos. Na década de 1990, a agricultura teve de se ajustar às mudanças na política de crédito rural, e conviver com um novo ambiente que a direcionava mais ao mercado, com o progressivo afastamento do governo: caía a ênfase nos instrumentos de AGF e EGF e aumentava o uso de instrumentos como Contratos de Opção de Venda e Prêmio de Escoamento de Produto (PEP). A conjuntura macroeconômica, ainda caracterizada pela valorização da taxa de câmbio, agora continha o novo ingrediente representado pelas elevadas taxas de juros. Além disso, com a abertura econômica, ainda havia baixas tarifas de importação e importações financiadas de alguns produtos agrícolas. As variáveis compensatórias foram os aumentos de preços internacionais durante 1994/97, redução dos preços dos insumos1 e pelo aumento da produtividade agrícola graças aos trabalhos de décadas da Embrapa, de universidades e demais instituições de pesquisa e tecnologia (Homem de Melo, 1998). A Figura 1 mostra que, ao longo das décadas recentes, o volume de crédito distribuído pelo SNCR foi sendo reduzido, e atingiu seu menor valor entre 1996 e 1997. Os motivos dessa redução, como conjuntura macroeconômica e alterações das fontes de recursos, foram amplamente estudas na literatura de política agrícola no Brasil, como os trabalhos de Coelho (2001) e Gasques et. al. (2000). No entanto, o crédito nesse período não perdeu sua importância como instrumento de política agrícola, embora tenham sido desenvolvidos novos instrumentos de financiamento da agricultura e os programas de micro crédito. 120 R$ Bilhões . 100 80 60 40 20 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 0 Figura 1. Evolução de Recursos do Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR)- Agrícola e Pecuária – Valores Reais de 2007 – 1970 a 2007. Fonte: Banco Central (2008) A partir de 2000, observa-se na Figura 1 que o volume de crédito destinado à agropecuária tem crescido consistentemente, chegando em 2007 ao valor de R$ 51 bilhões, aproximadamente, o que representou um aumento de 94,8% entre 2000 e 2007. Neste trabalho, pretende-se verificar se apesar do aumento do crédito rural, o padrão de concentração do crédito, conforme o observado nas décadas de 1970 e 1980, tem se mantido na década atual. 1 Causada pela valorização cambial e por reduções tarifárias de defensivos, máquinas e fertilizantes. 2 2. Revisão de Literatura O mercado de crédito é caracterizado pela presença de racionamento, que é mais severo nos segmentos em que o financiamento adquire contornos especiais, pois apresentam riscos diferenciados (caso do crédito rural), ou exigem maturação de longo prazo (caso do crédito imobiliário). Para contornar esse problema, historicamente, a oferta de crédito para essas operações esteve basicamente dependente de programas e recursos governamentais. A concentração do Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR) no Banco do Brasil e as linhas especiais de financiamento do BNDES, principal fonte de recursos de longo prazo, são alguns dos exemplos da estrutura do mercado de crédito no Brasil. No crédito agrícola formal, concedido pelas instituições participantes do SNCR, observa-se uma divisão entre bancos públicos e privados na forma de atuação2. Os bancos privados atendendo poucos tomadores mas em grandes volumes (ou seja, com elevado valor médio dos contratos) e as demais instituições realizando grande número de contratos (com baixo valor médio). Isto é um indicador de que uma oferta realizada apenas por bancos privados poderia estar limitada a poucos agricultores, não atendendo à agricultura como um todo (Lima, 2003). A literatura apresenta a hipótese de que o crédito rural teria sido um importante determinante adoção de novas tecnologias e no crescimento da produção agrícola, como os trabalhos de Conceição et al. (1998), Sperl & Araújo (1995), Vicente (1999) e Kageyama et al. (1990). A correlação positiva entre a produção agrícola e o volume de crédito rural no Brasil é explicada, por estes autores, em função da disponibilidade de crédito para compra de máquinas e insumos modernos3. Ressalve-se que não há uma comprovação econométrica para esta hipótese, e, citando Araújo (1983), “que mesmo revelando sensíveis acréscimos de certos insumos associados a ganhos de produtividade, a principal variável a explicar o crescimento da produção agrícola continuou sendo a intensificação no uso dos fatores tradicionais”. Adicionalmente, deve ser ressaltado que apenas 15% dos estabelecimentos rurais existentes no país obtiveram algum tipo de financiamento de fontes institucionais ou não, durante a década de 1970 (Araújo, 1983). Desta forma, durante a década de 70, criou-se expectativa a respeito de uma possível concentração do crédito rural para os produtos exportáveis em detrimento do financiamento da produção de alimentos. Contrariando de certa forma esta expectativa, os produtos básicos de mercado interno tiveram ligeiro aumento de participação no crédito total de custeio, mas que foi o suficiente para, já a partir de 1975, praticamente eliminar a desigualdade na distribuição de crédito em relação ao valor da produção entre os grupos de produtos agrícolas exportáveis e os alimentos simples (Hoffmann & Kageyama, 1987). Dentre as explicações para este fato, os autores do estudo destacam: a) do lado da oferta, o aumento da participação de empresas capitalistas − com maior poder de acesso ao crédito bancário − na produção de culturas tradicionalmente a cargo de empresas familiares (como, por exemplo, o caso do arroz na região Centro-Oeste); e, b) do lado da demanda, a intensificação do consumo interno (principalmente nas áreas urbanas) de alimentos industrializados, por efeitos renda e substituição, fez 2 3 Trata-se de uma tendência relativa não apenas ao crédito rural, mas a todo mercado financeiro (Pequenos sem crédito, 2002). O fato da assistência técnica ter sido obrigatória aos mutuários do crédito rural, favorecendo o contato entre técnicos e produtores, teria, também, estimulado o uso de insumos modernos. 3 com que uma parte crescente da produção agrícola que era classificada como exportável4 passasse a ser efetivamente consumida dentro do país. Outra característica do crédito rural no Brasil é que o acesso aos recursos tem sido bastante restrito. De acordo com a legislação do Sistema de Crédito Rural, este deveria ser um mecanismo garantidor de maior disponibilidade de recursos ao setor agrícola (Melo, 1983). Nos anos 70, apenas 15% dos estabelecimentos rurais obtiveram algum tipo de financiamento de fontes institucionais ou não (Araújo, 1983). Analisando o período de 1970 a 1993, observa-se que a concentração regional do crédito rural foi acentuada. A soma dos recursos ofertados às regiões Sul, Sudeste e CentroOeste atingiram cerca de 90% do total. Para as regiões Norte e Nordeste foram direcionadas quantidades pouco expressivas para o financiamento agrícola5 (Sperl & Araújo, 1995). Essa situação pode ser explicada, em parte, pela distribuição da produção comercial. Logo após a instituição do SNCR houve maior concentração nas regiões Sul e Sudeste. Somente a partir do final dos anos setenta, com o deslocamento da fronteira agropecuária, é que foi elevado o volume de crédito concedido para região Centro-Oeste (Hoffmann & Kageyama, 1987). Além disso, a concentração regional das operações de crédito foi afetada pelas seguintes razões: o pequeno grau de interiorização da rede bancária brasileira; a concentração desta rede nas regiões mais prósperas do país; e, o tipo e lavouras que predominam no sul do país (como soja e trigo), particularmente exigentes em termos de fertilizantes e defensivos (Agroanalysis, 1979). Dados do Censo Agropecuário de 1995/96 apontam que apenas 5,3% dos proprietários rurais contraíram empréstimos para o desenvolvimento e expansão de suas atividades, e 4,1% conseguiram crédito para custeio. O trabalho de Lima & Campos (2001), citado por Almeida et al. (2008), mostra a redução da concentração de crédito no Brasil, embora os primeiros autores tenham verificado um declínio do valor da produção agrícola no Nordeste aliado à redução do crédito rural, enquanto que a Região Sul obteve elevação nas duas variáveis no período compreendido entre 1986 e 1997. Almeida et al. (2008) apresentaram estimativas recentes de concentração do crédito rural, entre 1999 e 2003. A análise dos autores foi restrita unicamente ao Estado da Bahia, e suas mesorregiões, e os resultados indicaram que há desigualdade na distribuição do crédito entre as mesorregiões baianas, embora a avaliação da contrapartida produtiva permita a conclusão de forte concentração dos recursos naquele estado. 2.1 A Evolução do Crédito Rural entre 2000 e 2007 O crédito rural, ofertado pelo SNCR, é dividido em duas atividades: agrícola e pecuária. Neste trabalho, para a construção dos índices de concentração, serão considerados apenas os valores referentes ao crédito destinado à agricultura excluindo-se, portanto, a pecuária. Os dados exibidos na Tabela 1 mostram que, no período 2000 a 2007, houve pequenas alterações na distribuição do crédito entre as Unidades da Federação. Os estados com maior participação no SNCR foram: São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais. Tabela 1. Valores Percentuais da Distribuição de Crédito Agrícola entre as Unidades da Federação – 2000 a 2007. 4 5 Algodão, amendoim, cacau, café, cana-de-açúcar e soja (Hoffmann & Kageyama, 1987). Mesmo com a criação dos Fundos Constitucionais de Financiamento do Nordeste (FNE) e do Norte (FNO), em 1988, não houve alteração no padrão distributivo do crédito rural no Brasil (Sperl & Araújo, 1995). 4 Estados Acre Amapá Amazonas Pará Rondônia Roraima Tocantins Alagoas Bahia Ceará Maranhão Paraíba Pernambuco Piauí Rio Gde. do Norte Sergipe Espírito Santo Minas Gerais Rio de Janeiro São Paulo Paraná Rio Gde do Sul Santa Catarina Distrito Federal Goiás Mato Grosso Mato Grosso do Sul Total 2000 0,16 0,02 0,12 0,78 0,90 0,06 0,48 0,21 2,02 1,16 0,55 1,03 0,23 0,41 2001 0,04 0,02 0,37 0,41 0,34 0,03 0,37 0,46 1,93 1,21 0,45 0,82 0,20 0,33 2002 0,05 0,02 0,10 0,31 0,23 0,02 0,33 0,34 2,25 0,75 0,46 0,66 0,13 0,27 2003 0,09 0,01 0,10 0,64 0,36 0,04 0,79 0,34 2,54 0,47 0,75 0,45 0,31 0,40 2004 0,05 0,02 0,09 0,68 0,35 0,07 1,00 0,21 2,89 0,63 0,66 0,46 0,50 0,51 2005 0,05 0,01 0,13 0,53 0,37 0,13 0,77 0,48 3,42 0,44 1,51 0,35 0,57 0,68 2006 0,05 0,01 0,07 0,52 0,26 0,03 0,56 0,79 3,25 0,63 1,07 0,43 0,74 0,65 2007 0,05 0,00 0,14 0,42 0,21 0,03 0,55 0,56 3,27 0,67 0,98 0,57 0,78 0,57 0,19 0,20 0,22 0,21 0,33 0,16 0,17 0,17 0,14 0,14 0,25 0,22 0,29 0,43 0,26 0,24 1,41 1,07 1,02 0,88 0,80 1,56 2,01 2,46 10,94 9,84 9,52 8,92 8,34 11,51 14,29 15,45 0,29 19,22 18,09 0,39 19,43 18,42 0,24 18,93 19,14 0,16 15,44 19,12 0,17 15,36 19,57 0,23 15,23 18,90 0,34 19,89 16,13 0,26 20,43 17,36 18,37 19,27 20,14 20,13 19,47 17,28 17,06 15,92 7,69 7,42 6,79 7,21 6,52 6,72 7,21 6,81 0,21 6,90 0,20 6,44 0,21 7,10 0,22 7,20 0,32 8,11 0,41 7,08 0,24 5,04 0,23 4,56 5,76 7,16 7,34 8,89 8,77 7,52 5,19 4,38 2,63 100 2,94 100 3,18 100 4,19 100 4,20 100 3,64 100 2,82 100 2,84 100 Fonte: Banco Central (2008) e elaboração dos autores Nas Tabelas 2 e 3 são apresentados os valores percentuais da produção agrícola estadual para as lavouras temporárias e permanentes, também no período 2000 a 2007. Novamente não se observam grandes alterações, e os estados com maior participação na produção da lavoura permanente foram: São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo. Na produção da lavoura temporária, os estados com maior participação foram: São Paulo, Paraná Rio Grande do Sul e Mato Grosso. Tabela 2. Valor Percentual da Produção Agrícola Estadual – Lavoura Permanente – 2000 a 2007. Estados Rondônia Acre Amazonas Roraima 2000 2,83 0,21 0,54 0,06 2001 1,01 0,18 0,45 0,07 2002 1,13 0,16 1,20 0,05 2003 2,38 0,16 1,15 0,07 2004 1,36 0,12 0,89 0,07 2005 1,58 0,10 0,53 0,08 2006 0,92 0,09 0,52 0,06 2007 1,35 0,14 0,48 0,07 5 Pará Amapá Tocantins Maranhão Piauí Ceará Rio Gde. do Norte Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Bahia Minas Gerais Espírito Santo Rio de Janeiro São Paulo Paraná Santa Catarina Rio Gde. do Sul Mato Grosso do Sul Mato Grosso Goiás Distrito Federal Total 4,67 0,04 0,08 0,28 0,44 1,75 4,22 0,03 0,16 0,94 0,28 1,79 4,85 0,02 0,14 0,46 0,20 1,86 3,56 0,02 0,14 0,49 0,27 2,07 2,83 0,01 0,12 0,40 0,32 1,93 3,02 0,03 0,14 0,43 0,22 1,71 3,01 0,04 0,11 0,35 0,23 1,94 3,70 0,06 0,12 0,43 0,16 1,72 0,58 0,87 2,29 0,30 1,09 11,46 0,54 0,96 3,02 0,31 1,06 12,35 0,57 0,76 2,31 0,34 1,25 13,83 0,79 0,94 2,72 0,24 1,40 13,40 0,78 0,67 2,61 0,21 1,02 12,12 0,84 0,83 3,13 0,21 1,22 12,86 0,67 0,67 2,86 0,18 1,30 12,35 0,86 0,71 2,99 0,18 1,23 13,73 22,95 16,38 20,13 16,44 23,79 21,84 24,25 18,85 10,64 6,78 6,54 7,14 8,32 9,61 9,26 11,12 1,40 17,53 6,91 1,44 32,90 3,47 1,11 29,15 3,55 1,18 29,05 4,49 1,04 26,43 3,85 1,14 25,80 3,52 0,93 25,46 4,01 0,93 26,59 3,38 3,51 2,41 2,50 2,96 2,43 2,55 2,90 2,93 6,90 6,56 6,05 6,96 6,71 6,38 5,99 6,33 0,24 0,16 0,16 0,17 0,19 0,16 0,10 0,11 1,30 1,01 1,35 1,02 0,66 0,90 0,75 0,94 0,74 0,93 0,81 1,15 0,62 1,06 0,65 1,05 0,12 100 0,14 100 0,13 100 0,13 100 0,11 100 0,10 100 0,11 100 0,11 100 Fonte: IBGE (2009) e elaboração dos autores Tabela 3. Valor Percentual da Produção Agrícola Estadual – Lavoura Temporária – 2000 a 2007. Rondônia Acre Amazonas Roraima Pará Amapá Tocantins Maranhão Piauí Ceará Rio Gde. do Norte Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Bahia 2000 0,39 0,34 0,59 0,15 1,71 0,06 0,53 1,50 0,58 1,35 2001 0,29 0,22 0,63 0,13 1,52 0,07 0,56 1,40 0,44 0,80 2002 0,37 0,20 0,41 0,13 1,33 0,08 0,51 1,42 0,29 1,09 2003 0,37 0,19 0,26 0,13 1,44 0,03 0,81 1,49 0,57 1,08 2004 0,41 0,14 0,22 0,16 1,47 0,05 0,84 1,54 0,61 0,82 2005 0,51 0,21 0,44 0,16 1,71 0,07 0,97 1,75 0,77 0,93 2006 0,54 0,17 0,47 0,16 1,74 0,09 0,76 1,62 0,78 1,41 2007 0,52 0,18 0,37 0,12 1,55 0,10 0,75 1,44 0,58 1,01 0,49 0,93 1,68 2,40 0,31 5,95 0,35 0,71 1,50 2,22 0,25 4,67 0,59 0,69 1,60 1,66 0,27 6,49 0,56 0,68 1,21 1,12 0,33 4,72 0,57 0,63 1,24 1,09 0,27 5,56 0,59 0,70 1,57 1,25 0,30 5,30 0,76 0,92 1,66 1,39 0,39 4,98 0,53 0,61 1,41 1,18 0,37 5,93 6 Minas Gerais Espírito Santo Rio de Janeiro São Paulo Paraná Santa Catarina Rio Gde. do Sul Mato Grosso do Sul Mato Grosso Goiás Distrito Federal Total 8,41 7,45 7,42 7,02 7,24 8,72 7,88 7,89 0,53 0,44 0,47 0,41 0,41 0,51 0,48 0,39 0,86 16,46 14,53 0,68 17,76 15,81 0,57 17,29 15,76 0,43 13,75 17,69 0,55 12,66 16,47 0,59 15,32 14,47 0,61 19,20 14,60 0,42 17,11 16,21 5,16 4,51 4,09 4,58 4,47 4,48 4,25 4,20 13,98 17,18 14,30 16,84 14,27 10,15 13,96 14,18 3,29 3,77 3,79 4,71 3,94 3,50 3,60 4,10 10,50 7,05 9,81 6,60 10,70 8,21 12,18 7,11 16,35 7,80 17,39 7,36 10,75 6,55 11,83 6,74 0,28 100 0,23 100 0,27 100 0,27 100 0,24 100 0,30 100 0,27 100 0,27 100 Fonte: IBGE (2009) e elaboração dos autores Uma avaliação preliminar dos dados, através da análise tabular, sugere a concentração de crédito, visto que estados representativos na produção agrícola, a exemplo de Bahia, Espírito Santo e Mato Grosso recebem uma parcela de crédito, via SNCR, muito inferior à representatividade de suas respectivas lavouras. A seção 4 deste trabalho apresentará uma análise mais consistente sobre a concentração de crédito entre os estados. O crédito rural é dividido por finalidades: custeio, investimento e comercialização. Ao longo do período 2000 a 2007, as três finalidades de crédito tiveram aumento no volume ofertado, seguindo a tendência de aumento da oferta total de crédito mostrada pela Figura 1. A finalidade que mais tem recebido crédito é o custeio, representando, aproximadamente, 60% do volume de recursos do SNCR. As demais finalidades, investimento e comercialização, representaram cada uma, algo em torno de 20% dos recursos oficiais de crédito concedidos para produtores e cooperativas via SNCR. A Figura 2 ilustra a distribuição percentual de crédito por finalidade. 100% 80% Comercialização Investimento Custeio 60% 40% 20% 0% 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 7 Figura 2. Valores Percentuais das Finalidades de Crédito Agrícola (Custeio, Investimento e Comercialização) – 2000 a 2007. Fonte: Banco Central (2008) e elaboração dos autores 3. Metodologia A pesquisa foi realizada com fontes secundárias de informação, e o período de análise está restrito aos anos de 2000 a 2007. Os dados do crédito agrícola foram coletados no Anuário Estatístico do Crédito Rural, publicado pelo Banco Central (Bacen). Todas as informações sobre crédito rural, consideradas neste trabalho, referem-se exclusivamente à lavoura, tendo sido desconsiderados os valores referentes à atividade pecuária. Além do valor total de crédito destinado à atividade agrícola, foram levantadas as informações sobre as modalidades de crédito (custeio, investimento e comercialização) para o Brasil e para as Unidades da Federação. O valor bruto da produção (VBP) e a área plantada foram retirados da Produção Agrícola Municipal (PAM), do IBGE. Os dados expressos em unidades monetárias foram deflacionados pelo Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), tendo como base o ano de 2007. Finalmente, os dados de crédito agrícola foram confrontados com os dados do valor da produção agrícola e da área plantada (lavouras temporárias mais permanentes). 3.2. O índice T de Theil6 Para o cálculo do índice T de Theil entre o crédito agrícola e o valor bruto da produção agrícola, e com a área plantada, foram utilizadas variáveis contemporâneas, pois o objetivo deste trabalho é apenas mensurar a concentração do crédito agrícola no ano corrente. O uso de variáveis defasadas é recomendado quando se deseja estimar o impacto do crédito no valor da produção agrícola no ano subseqüente. Encontram-se na literatura alguns tipos de índices para mensuração da concentração ou desigualdade, conceitos esses, muitas vezes utilizados como sinônimos. Conforme Shirota (1988, p. 114), os índices mais utilizados são o de Gini, o de entropia e o T de Theil. O índice de Gini é largamente utilizado na mensuração da concentração da renda da população. Os índices de entropia e T de Theil são utilizados nos casos em que os dados se encontram agrupados por algum critério como região, estrato de área, entre outros. Os índices de concentração fornecem subsídios importantes para a análise da distribuição do crédito, e de sua eficácia como fomentadora do desenvolvimento rural. Lemos et al. (1984) utilizaram o índice de entropia para estudar a concentração do crédito rural entre produtos e entre regiões, porém, conforme observado por Shirota (1988, p.119) e Lima e Campos (2001), o índice de entropia mede a distribuição entre os elementos, enquanto que o índice T de Theil estabelece uma relação de distribuição entre as variáveis estudadas, ou melhor, determina a concentração na distribuição de uma das variáveis em relação à distribuição de uma outra variável. 6 Uma descrição metodológica com maior riqueza de detalhes pode ser encontrada em Hoffmann e Kageyama (1987), Shirota (1988) e Hoffmann (1998). O índice T de Theil, ou redundância, pode ser expressa em bits, quando se utiliza logaritmo na base 2 ou em nits, quando se utiliza logaritmo natural, sendo que 1 bit = 0,693 nit e 1 nit = 1,443 bit. 8 O índice T de Theil permite a decomposição da concentração do crédito em dois componentes: o primeiro consiste na mensuração da concentração entre as Regiões7 (interregiões) e, o segundo se refere à concentração do crédito dentro das Regiões, ou seja, intraregiões. Segundo Hoffmann (2006, p.355), tal decomposição utilizando o índice de Gini é mais complexa e de difícil interpretação, por isso a maior conveniência em se utilizar o índice T de Theil. O índice T de Theil total (T) pode ser descrito da seguinte forma: y T = ∑ ∑ y hi . log hi h =1 i=1 πhi nh k (1) Em que: k corresponde ao número de Regiões; n h é o número de UF da h-ésima Região (h = 1, K , k ) ; y hi é a participação da i-ésima UF da h-ésima Região no valor do crédito agrícola; π hi é a participação da i-ésima UF da h-ésima Região no valor da produção agrícola (ou na área plantada). Conforme comentado anteriormente, o índice T de Theil total pode ser decomposto no índice T de Theil entre Regiões (Te) e dentro de cada Região (Th). Desta forma, tem-se que o índice T de Theil entre Regiões é expresso por: y Te = ∑ y h . log h h =1 πh k (2) Em que: y h é a participação da h-ésima Região no valor do crédito agrícola; π h é a participação da h-ésima Região no valor da produção agrícola (área plantada). A redundância intra grupos (Regiões) é expressa por: y (π .y ) Th = ∑ hi . log h hi i=1 y h (y h .π hi ) nh (3) De acordo com Theil (1967) apud Hoffmann e Kageyama (1987), “a redundância total é o resultado da adição da redundância entre as regiões com uma média ponderada da redundância dentro das regiões”. Segundo Shirota (1988), os fatores de ponderação são as participações relativas dos diferentes grupos na variável em questão. A redundância, ou T de Theil, total pode ser expressa por: 7 Norte, Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste. 9 k T = Te + ∑ (y h .Th ) h =1 (4) De acordo com Hoffmann e Kageyama (1987), não seria razoável supor a ausência da desigualdade na distribuição do crédito quando cada região recebe o mesmo volume de crédito. Como exemplo, os autores citam os Estados de Minas Gerais e Sergipe alegando que se ambos recebessem a mesma dotação creditícia, haveria concentração no Estado de Sergipe. Uma possibilidade da ausência da desigualdade argumentada pelos autores seria a distribuição do crédito rural proporcionalmente ao valor da produção agropecuária de cada região, embora estes não defendam esse artifício, pois o índice T de Theil seria zero, mas isso não seria, necessariamente, a situação ideal. Uma distribuição desigual do crédito rural pode ser incentivada pelo Governo em uma situação em que o mesmo deseja desenvolver determinada atividade em determinada região, em detrimento de outras atividades em outras regiões. Ainda segundo esses autores, uma situação de ausência de concentração é verificada quando o índice T de Theil atinge seu valor mínimo (zero). Esta situação ocorreria se cada região recebesse valores de crédito rural na mesma proporção que sua participação no valor da produção agrícola (área plantada), ou seja, ( y hi = π hi ) . Em contrapartida, o índice T de Theil será máximo quando todo o crédito agrícola for direcionado para a região com menor valor da produção agrícola (área plantada) – região menos produtora. Nesta situação, o índice T de Theil será {log[1 min (π hi )]}, em que [min (π hi )] é a menor participação no valor da produção (área plantada). Utiliza-se o mesmo raciocínio para designar os limites para o índice T de Theil entre as regiões. Pelas argumentações expostas pode-se observar que o índice T de Theil pode ser considerado, neste caso, como um índice de eficiência na alocação do crédito agrícola, identificando regiões mais ou menos eficientes na alocação do crédito. 4. Análise e Discussão de Resultados As Figuras 3 a 8, e Tabelas 4 a 7 apresentam os resultados estimados neste trabalho sobre a concentração do crédito agrícola no Brasil. Na Figura 3 observa-se que, em face do aumento do volume de recursos do SNCR, o aumento da oferta de crédito não foi uniforme entre os estados brasileiros, e nem mesmo entre os estados da mesma região. Ao longo do período 2000 a 2007, na Região Norte, por exemplo, o volume de recursos totais foi mantido praticamente constante nos estados do Acre, Amapá, Amazonas e Roraima, enquanto que Pará e, principalmente, Tocantins obtiveram maior volume de recursos no período. Em Rondônia, após forte redução no primeiro ano (de 2000 para 2001), o volume de crédito agrícola manteve-se ao redor de R$ 77 milhões. Na Região Nordeste todos os estados tiveram aumento na obtenção de crédito agrícola no período, com destaque para o estado da Bahia, que em 2000 recebeu, em termos reais, R$ 0,4 bilhão em recursos e, em 2007, esse valor foi de R$ 1,22 bilhão. Situação semelhante ocorreu nas Regiões Sul e Centro-Oeste. Na Região Sul, os estados do Paraná e Rio Grande do Sul receberam em 2000, cada um, aproximadamente R$ 3,7 bilhões de crédito, e em 2007 esse valor foi de aproximadamente R$ 6,5 bilhões para o Paraná e R$ 5,9 para o Rio Grande do Sul. Santa Catarina teve um aumento de crédito de R$ 1,5 bilhão para R$ 2,5 bilhões. Na Região Centro-Oeste, onde, também, todos os estados aumentaram o volume de crédito recebido, os estados de Goiás e Mato Grosso obtiveram os maiores volumes de crédito 10 da região, obtendo em 2007 os valores de R$ 1,7 bilhão e R$ 1,6 bilhão, respectivamente (o pico no volume de recursos ocorreu em 2004, quando esses estados receberam, respectivamente, R$ 2,9 bilhões e R$ 3,1 bilhões). Os montantes mais expressivos de crédito recebido junto ao SNCR ocorreram na região Sudeste, destacadamente nos estados de São Paulo e Minas Gerais. Em São Paulo, no ano 2000, o total de recursos via SNCR totalizaram R$ 3,91 bilhões e, em 2007, R$ 7,6 bilhões, o que correspondeu a um aumento real de 95%. Em Minais Gerais, no ano 2000, o volume de crédito agrícola foi de R$ 2,23 bilhões e atingiu, em 2007, o valor de R$ 5,78 bilhões, o que correspondeu a um aumento de 160% no período. 8 6 4 2007 DF GO MT MS PR RS SC ES MG RJ SP AL BA CE MA PB PE PI RN SE 0 AC AP AM PA RO RR TO 2 2000 Figura 3 – Brasil: Volume de crédito total para agricultura, por Unidade da Federação, período de 2000 a 2007, em bilhões de reais de 2007 deflacionado pelo IGP-DI. Fonte: Banco Central (2008) e elaboração dos autores As Figuras 4 e 6 que ilustram o volume de crédito agrícola para as modalidades custeio e comercialização, respectivamente, apresentam um padrão bastante semelhante na obtenção do crédito por cada Unidade da Federação, ao observado na Figura 1. Em relação ao crédito para custeio, novamente, os estados de São Paulo e Minas Gerais, seguidos pelo Rio Grande do Sul) foram as Unidades da Federação que mais obtiveram aumento de recursos no período de 2000 a 2007 (Figura 4). 6 4 2 DF GO MT MS PR RS SC ES MG RJ SP AL BA CE MA PB PE PI RN SE AC AP AM PA RO RR TO 0 2007 2000 11 Figura 4 – Brasil: Volume de crédito total para custeio da agricultura, por Unidade da Federação, período de 2000 a 2007, em bilhões de reais de 2007 deflacionado pelo IGP-DI. Fonte: Banco Central (2008) e elaboração dos autores Em relação à modalidade de crédito para investimento, conforme mostra a Figura 5, um aspecto relevante a se destacar é que os estados das Regiões Norte (Pará e Tocantins, destacadamente) e Nordeste (Bahia, Maranhão, Pernambuco e Piauí) não só têm uma participação relativa maior nessa modalidade de crédito como, também, conseguiram aumentar o valor total anual de crédito recebido entre 2000 e 2007. 1,5 1,0 0,5 DF GO MT MS PR RS SC ES MG RJ SP AL BA CE MA PB PE PI RN SE AC AP AM PA RO RR TO 0,0 2007 2000 Figura 5 – Brasil: Volume de crédito para investimento na agricultura, por Unidade da Federação, período de 2000 a 2007, em bilhões de reais de 2007 deflacionado pelo IGP-DI. Fonte: Banco Central (2008) e elaboração dos autores 3 2 1 DF GO MT MS PR RS SC ES MG RJ SP AL BA CE MA PB PE PI RN SE AC AP AM PA RO RR TO 0 2007 2000 Figura 6 – Brasil: Volume de crédito para comercialização para agricultura, por Unidade da Federação, período de 2000 a 2007, em bilhões de reais de 2007 deflacionado pelo IGP-DI. Fonte: Banco Central (2008) e elaboração dos autores A partir dos valores deflacionados para preços de 2007, foi calculado o valor médio dos contratos no período 2000 a 2007, por Unidade da Federação, para cada modalidade de 12 financiamento em cada um dos anos do período analisado. A partir desses resultados, foi obtida a média aritmética dos valores médios dos contratos no período de 2000 a 2007. Estes valores encontram-se na Tabela 4. Observa-se uma grande amplitude nos valores médios dos contratos, variando de R$ 380,43 (para investimento na Paraíba) até R$ 2.909.474,26 (para comercialização no mesmo estado, Paraíba). De um modo geral, os valores médios dos contratos na Região Centro-Oeste são mais elevados, enquanto que na Região Nordeste encontram-se médias mais baixas. Nota-se que há fraca correlação entre os valores médios dos contratos e o valor da produção de cada Unidade da Federação. O mesmo ocorre comparando com a área plantada. Tabela 4 – Brasil: Valor médio dos contratos de crédito para agricultura, por modalidade e por Unidade da Federação, período de 2000 a 2007, em reais de 2007 deflacionado pelo IGP-DI. U.F. Custeio Investimento Comercialização Total Acre Amapá Amazonas Pará Rondonia Roraima Tocantins 2.605,00 5.255,76 6.499,11 6.164,03 3.550,91 59.176,37 17.836,33 2.090,41 3.531,22 3.034,19 2.460,78 3.459,66 6.499,76 3.886,49 160.360,48 15.006,17 299.294,99 619.597,33 67.248,39 160.114,90 672.406,39 2.460,64 3.990,10 10.661,92 3.547,70 3.567,59 16.831,84 8.931,26 Alagoas Bahia Ceará Maranhão Paraíba Pernambuco Piauí Rio Gde do Norte Sergipe 6.876,41 11.762,14 2.244,54 4.928,07 4.958,50 8.218,33 3.267,87 1.032,95 2.356,07 1.323,08 2.326,53 648,90 1.816,63 380,43 599,95 1.167,29 636,07 537,83 402.016,05 766.988,55 1.143.143,89 149.055,02 2.909.474,26 565.475,30 431.159,21 773.859,22 476.789,11 3.794,30 5.242,61 3.604,03 2.786,05 6.247,82 1.952,77 1.879,33 1.429,20 1.277,41 Espírito Santo Minas Gerais Rio de Janeiro São Paulo 8.845,55 18.562,78 6.719,38 41.953,55 12.088,24 5.848,54 10.583,71 35.421,23 95.074,94 149.451,96 1.239.202,26 144.014,39 9.822,22 17.159,17 10.614,37 52.149,91 Paraná Rio Gde do Sul Santa Catarina 18.137,75 8.530,15 7.579,97 18.307,45 13.886,40 10.281,43 231.237,39 132.635,77 266.541,25 21.158,21 11.205,55 10.096,27 Distrito Federal Goiás Mato Grosso Mato Gr. do Sul 49.157,69 32.975,21 57.168,13 39.319,05 41.342,89 25.455,87 43.090,60 26.983,23 108.453,06 165.435,06 174.823,31 31.360,46 57.083,71 35.625,80 55.038,51 35.444,81 13 Brasil 13.972,79 6.234,22 155.456,36 13.238,80 Fonte: Banco Central (2008) e elaboração dos autores A tabela 5 apresenta os resultados do índice T de Theil para o período de 2000 a 2007, calculado com base tanto no valor da produção quanto na área plantada. Observa-se que a evolução da concentração apresenta resultados divergentes conforme a base utilizada, Se considerarmos a distribuição do crédito em relação ao valor da produção, observa-se que houve desconcentração no período analisado. Já quando é utilizada a área plantada como base, nota-se crescimento da concentração. A exceção ocorre na finalidade “investimento”, em que há forte desconcentração independente da base utilizada. Uma possível interpretação para essa diferença de resultados é a redução proporcional do volume de crédito antes direcionado às regiões Sudeste e Sul. Em ambas as regiões, há a predominância de pequenas propriedades com elevada produtividade. Assim, o crédito teria migrado para regiões com menor produção (desconcentração por produção), e predominância de grandes propriedades (concentração por área). Tabela 5 – Brasil: evolução da concentração do crédito agrícola, por Unidade da federação, mensurada pelo índice T de Theil, período de 2000 a 2007. 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2000 Valor da Produção Custeio Investimento Comercialização Total 0,150 0,115 0,293 0,113 0,131 0,130 0,197 0,091 0,162 0,152 0,239 0,119 0,102 0,090 0,195 0,066 0,125 0,163 0,105 0,114 0,161 0,1318 0,089 0,111 0,125 0,081 0,168 0,076 0,112 0,050 0,193 0,085 Área Custeio 0,206 Investimento 0,169 Comercialização 0,369 Total 0,175 Fonte: Resultados da Pesquisa 0,200 0,149 0,307 0,163 0,212 0,136 0,365 0,175 0,172 0,119 0,331 0,140 0,170 0,104 0,238 0,133 0,232 0,056 0,389 0,185 0,229 0,094 0,390 0,208 0,192 0,076 0,172 0,132 A desigualdade na distribuição do crédito pode ser analisada tanto pela concentração nas Regiões (N, NE, SE, S e CO) quanto pela concentração dentro de cada uma dessas regiões. Nas figuras 7 e 8 estão apresentados os percentuais que indicam a contribuição da desigualdade entre as Regiões (índice Te) na concentração total (índice T), a partir do valor da produção e da área plantada. Independente da base de cálculo, verifica-se que a desigualdade da distribuição entre regiões é um importante componente na concentração do crédito agrícola no Brasil. Algumas exceções ocorreram pontualmente. Em 2007, a desigualdade entre regiões não foi relevante na finalidade “investimento”, o que pode ser explicada pela forte queda no volume de crédito para a Região Centro-Oeste, reduzindo sua participação no volume total de 22% (em 2006) para 16% (em 2007). 14 100% 80% 60% 40% 20% 0% 2000 2001 Custeio 2002 2003 Investimento 2004 2005 2006 Comercialização 2007 Total Figura 7 – Evolução do percentual do índice T de Theil entre Regiões (Te) e em relação ao índice T, com base no valor da produção. Fonte: Resultados da Pesquisa 100% 80% 60% 40% 20% 0% 2000 2001 Custeio 2002 2003 Investimento 2004 2005 2006 Comercialização 2007 Total Figura 8 – Evolução do percentual do índice T de Theil entre Regiões (Te) e em relação ao índice T, com base na área plantada. Fonte: Resultados da Pesquisa Nas tabelas 6 e 7 encontram-se os resultados de concentração de crédito dentro das respectivas regiões, segundo a modalidade de crédito. Pelo valor da produção (Tabela 6), o índice Th mostra que, na modalidade custeio, aumentou a concentração de crédito nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Na modalidade investimento, a concentração reduziu na Região Sudeste, ao contrário do que ocorreu nas demais regiões (a Região Sul apresentou oscilação da concentração no período, mas atingindo em 2007 valor próximo ao de 2000). Na modalidade comercialização, houve aumento da concentração apenas na região Norte. Em relação ao volume total de crédito, dentro das respectivas regiões, constatou-se aumento da concentração apenas nas regiões Sul e Centro-Oeste e, ainda assim, em pequena intensidade. Tabela 6 -Evolução do índice T dentro de cada Região (Th), com base no valor da produção Custeio N NE 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 0,5968 0,2210 0,8751 0,1623 0,6569 0,2250 0,3300 0,1809 0,3230 0,0996 0,3602 0,1329 0,4537 0,1135 0,3755 0,0683 15 SE S CO 0,0199 0,0006 0,0468 0,0260 0,0052 0,0329 0,0175 0,0007 0,0257 0,0202 0,0017 0,0355 0,0183 0,0000 0,0998 0,0150 0,0009 0,1456 0,0241 0,0054 0,1063 0,0345 0,0051 0,0699 Investimento N NE SE S CO 0,1334 0,0382 0,0892 0,0019 0,0032 0,0757 0,1789 0,0123 0,0151 0,0137 0,1111 0,1156 0,0042 0,0136 0,0121 0,0839 0,1852 0,0046 0,0078 0,0046 0,1001 0,1413 0,0116 0,0153 0,0028 0,1455 0,2724 0,0210 0,0266 0,0050 0,1026 0,0931 0,0102 0,0305 0,0311 0,1761 0,1059 0,0229 0,0419 0,0030 Comercialização N NE SE S CO 0,7530 0,9814 0,1798 0,0634 0,1234 1,2478 0,9614 0,0619 0,0289 0,1017 1,2054 1,3319 0,0820 0,0195 0,0887 0,6550 0,7745 0,0661 0,0412 0,0667 0,5367 0,5315 0,1065 0,0093 0,1424 0,2113 0,2460 0,0447 0,0139 0,1270 0,8094 0,2574 0,0338 0,0102 0,0530 0,9664 0,3934 0,0258 0,0195 0,1078 Total N NE SE S CO 0,2348 0,2248 0,0323 0,0010 0,0343 0,2848 0,2238 0,0106 0,0067 0,0083 0,3272 0,1571 0,0107 0,0027 0,0057 0,1596 0,0430 0,0141 0,0049 0,0098 0,2178 0,0511 0,0264 0,0014 0,0545 0,2121 0,0707 0,0120 0,0031 0,0833 0,2571 0,0450 0,0118 0,0056 0,0254 0,2210 0,0480 0,0198 0,0060 0,0440 Fonte: Resultados da Pesquisa A tabela 7 mostra que a concentração, medida pelo índice Th com base na área plantada, mostra aumento da concentração de crédito na modalidade custeio nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Na finalidade investimento, apenas na Região Sul houve incremento na concentração do crédito. Na modalidade comercialização, a concentração do crédito reduziu-se em todas as regiões. Tabela 7 -Evolução do índice T dentro de cada Região (Th), com base na área plantada 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Custeio N NE SE S CO 0,6421 0,1326 0,0099 0,0113 0,0496 0,5391 0,1619 0,0138 0,0112 0,0397 0,3676 0,2564 0,0167 0,0107 0,0459 0,3422 0,2222 0,0132 0,0164 0,0387 0,2765 0,1511 0,0171 0,0094 0,0556 0,2685 0,1495 0,0078 0,0207 0,0892 0,2407 0,1015 0,0118 0,0320 0,1356 0,2041 0,0848 0,0128 0,0217 0,0865 Investimento N NE SE S CO 0,1875 0,0690 0,0696 0,0235 0,0168 0,0657 0,0871 0,0530 0,0412 0,0078 0,0933 0,2170 0,0244 0,0292 0,0011 0,0795 0,1802 0,0142 0,0306 0,0025 0,0818 0,1181 0,0141 0,0383 0,0089 0,1382 0,1721 0,0241 0,0672 0,0051 0,0287 0,0645 0,0134 0,0843 0,0222 0,0791 0,0213 0,0423 0,0854 0,0006 Comercialização 16 N NE SE S CO 0,8622 0,7590 0,1548 0,1480 0,1778 1,6450 0,7318 0,1303 0,0700 0,1200 1,5788 1,0568 0,1530 0,0487 0,1296 0,7691 0,7247 0,1139 0,0834 0,0707 0,5023 0,3898 0,1176 0,0326 0,1426 0,2226 0,2545 0,0383 0,0051 0,1236 0,6769 0,3418 0,0328 0,0458 0,0967 1,2430 0,4114 0,0173 0,0570 0,1551 Total N NE SE S CO 0,2856 0,1176 0,0177 0,0268 0,0451 0,2254 0,1103 0,0261 0,0223 0,0145 0,1596 0,1037 0,0320 0,0167 0,0217 0,1712 0,0525 0,0241 0,0249 0,0118 0,1825 0,0372 0,0290 0,0154 0,0314 0,1663 0,0505 0,0062 0,0204 0,0534 0,1037 0,0412 0,0045 0,0380 0,0456 0,1089 0,0327 0,0062 0,0299 0,0608 Fonte: Resultados da Pesquisa 5. Conclusão Os resultados obtidos nesta pesquisa mostram que em valores absolutos, o maior volume de crédito continua sendo destinado aos estados de São Paulo e Minas Gerais, na região Sudeste, e Paraná e Rio Grande do Sul, na região Sul. Esse fato reflete a participação dos quatro estados mencionados na produção da lavoura permanente e temporária do país: aproximadamente 55% de cada tipo de lavoura. Do ponto de vista da política agrícola, e do desenvolvimento econômico regional do país, os resultados são animadores por mostrar que o crédito, nas diferentes modalidades, tem apresentado redução da concentração dentro das regiões Norte e Nordeste. O acesso ao crédito, além de permitir o fortalecimento da atividade agrícola, possibilitará o aumento da renda e, consequentemente, maiores oportunidades de desenvolvimento nas duas regiões. Outra questão que se depreende dos resultados deste estudo, a ser pesquisada em futuros trabalhos, é sobre a relação de causalidade entre a expansão da fronteira agrícola e a demanda por crédito, uma vez que há uma desconcentração do crédito no Norte e Nordeste. Possivelmente, a desconcentração do crédito nas regiões citadas seja conseqüência do desenvolvimento da atividade agrícola em regiões anteriormente inexploradas, logo, há maior demanda por crédito o que, necessariamente, leva ao aumento da desconcentração. Referências Bibliográficas AGROANALYSIS. Rio de Janeiro, v.3, n.6, jul. 1979. 36p. ALMEIDA, P.N.A.; LIMA, R.A.S.; SANTOS, V.C.; ALMEIDA, A.F.C.; SHIROTA, R. Concentração do crédito rural no Estado da Bahia no período de 1999 a 2003, In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ECONOMIA E SOCIOLOGIA RURAL, Rio Branco-AC. Anais... Brasília: SOBER, 2008 17 ARAUJO, P.F.C. Agricultura brasileira sem subsídio. Revista de Economia Rural, v.21, n.3, p.295-303, jul./set. 1983. 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