O Valor Simbólico da Recreação para Crianças Surdas no
Ensino Fundamental Regular
Autor: Maria Mirtes de Sousa Silva e José Francisco de Sousa
Data: 22/04/2010
Resumo: Este trabalho tem como objetivo verificar como acontece a
interação das crianças surdas com as crianças ouvintes e entre si
durante o recreio, observando como estabelecem os diferentes tipos
de comunicação na brincadeira, entendendo porque muitas crianças
ficam isoladas, preferindo não interagir com os colegas. Assim esse
trabalho pretende colaborar com os profissionais de educação para
que tenham uma visão diferente da inclusão na escola, pois incluir
não é apenas inserir alunos com necessidades especiais, mas é
preciso verificar como é feito esse atendimento observando se
realmente existe interação desses alunos com o meio, e se essa
inclusão contribuirá para uma educação eficaz para os alunos com
necessidades especiais auditivas.
1- INTRODUÇÃO
O presente trabalho teve como objetivo conhecer mais sobre a
comunidade surda inserida no ensino regular, verificando como
acontece a interação social dos alunos com necessidades especiais
auditivas. Observando as diferentes formas de comunicação utilizadas
pelas crianças surdas e ouvintes durante o recreio das escolas Classe
e Parque.
Assim esse trabalho teve início com uma investigação realizada
durante o recreio dos alunos surdos e ouvintes, em duas escolas da
rede pública do Distrito Federal, sendo a Escola Classe que atende
alunos do 1º ao 5º ano do ensino fundamental e uma Escola Parque
que foi um projeto realizado por Anísio Teixeira um importante
educador brasileiro, com o objetivo de ampliar os conhecimentos dos
alunos na qual os professores procuram trabalhar de forma
interdisciplinar.
Este estudo partiu do princípio que muitas escolas estão incluindo os
alunos com necessidades especiais, mas é preciso que as instituições
de ensino verifiquem como essas crianças estão sendo acolhidas, e
principalmente aguçar a visão em relação ao lado social deles. Sendo
necessário que a escola incentive e promova a interação dos alunos
com o propósito de garantir uma aprendizagem de qualidade e que as
crianças com necessidades especiais auditivas possam participar da
sociedade
ativamente.
O trabalho verificou como as relações interpessoais acontecem no
espaço recreativo, entre as crianças ouvintes e surdas e também a
relação entre as surdas, pois é nesse contexto que as crianças
interagem espontaneamente por meio de brincadeiras utilizando
diferentes formas de comunicação.
Ao conhecer como interagem as crianças surdas, fica mais fácil
dialogar com elas respeitando suas necessidades especiais. E aos
profissionais da educação cabe investir numa formação continuada,
buscando uma capacitação adequada para trabalhar com todas as
crianças. Cabendo à escola proporcionar um ambiente que favoreça
um aprendizado significativo, sem excluir nenhuma criança tendo ou
não necessidades especiais.
Assim esta investigação partiu da vontade de conhecer esse mundo
tão diversificado que é a inclusão dos surdos, procurando analisar
como a sociedade e a escola em particular, se preparam para auxiliar
os alunos com suas especificidades. O primeiro passo da escola é
procurar respeitar a diversidade, dando a chance de todas as crianças
aprenderem e progredirem em seus estudos de acordo com suas
limitações.
2- O DESAFIO DA INCLUSÃO DOS SURDOS NO ENSINO
REGULAR NO DISTRITO FEDERAL.
O desafio da inclusão dentro das escolas regulares vem colaborar
para que os alunos com necessidades especiais possam ser
valorizados e seu desenvolvimento seja integral. Nesse sentido, cabe
as instituições educacionais oferecer um ensino de qualidade para
que a aprendizagem desses alunos seja significativa e sem
obstáculos.
Atualmente a intenção das escolas é incluir todos os alunos,
independente de ter ou não algum tipo de necessidade especial.
Segundo o documento Declaração de Salamanca (1994), as crianças
que são excluídas da escola por motivos como trabalho infantil, abuso
sexual ou que são portadoras de deficiências graves devem ser
atendidas no mesmo ambiente que todas as demais. Reforça ainda
que as instituições de ensino deveriam levar em conta as diferenças
individuais dos alunos garantindo assim, uma educação de qualidade
independente do aluno ter ou não necessidades especiais.
Na década de 1990, as pessoas com necessidades especiais eram
discriminadas e excluídas, não participando ativamente da sociedade.
Mas atualmente essa realidade já está mudando, pois essas pessoas
já estudam e trabalham buscando uma forma de viverem com
dignidade e respeito. No contexto escolar é necessário um olhar
diferente para os alunos que apresentam alguma necessidade
especial, procurando apoiá-los e motivando sua participação na
sociedade para que progridam sem medo da exclusão.
De acordo com a LDB (Lei de Diretrizes e Bases) 9394/96 para uma
educação de qualidade é dever do Estado oferecer um ensino
gratuito, obrigatório com características e modalidades adequadas às
suas necessidades, garantindo condições de acesso e permanência
na escola e esses alunos devem receber atendimento em classes,
escolas ou serviços especializados caso não seja possível sua
integração nas classes de ensino regular. Nesse sentido a escola deve
estar preparada para receber esses alunos se com o ensino para fazer
diferença na vida dessas crianças inseridas nas escolas regulares.
Segundo a Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação
nenhuma escola pode excluir um aluno alegando não saber atuar com
ele ou não ter professores capacitados. Assim toda escola (regular ou
especial) deve organizar-se para oferecer uma educação de qualidade
para todos.
Desse modo, uma escola preparada e com professores capacitados
para trabalhar com a inclusão em sala de aula é de suma importância
porque contribuirá para o desenvolvimento desses alunos surdos que,
sendo incluídos precisam de apoio da toda a comunidade escolar.
No tocante a inclusão Spinelli (1983), comenta que inserir o aluno
com deficiência auditiva em escolas regulares é vantajoso, pois ele
recebe uma grande quantidade de fala normal, sendo forçado a
utilizá-la. Já as desvantagens dessa inclusão são as frustrações que
esse aluno terá em comunidade e na aprendizagem que podem
prejudicá-lo.
Dentro dessa perspectiva educacional incluir esses alunos com
necessidades especiais no ensino regular, pode colaborar com sua
aprendizagem valorizando cada indivíduo com suas especificidades.
Oportunizando ao aluno com surdez estudar, aprender, crescer e
exercer a sua cidadania que lhe é de direito, e para que possa ser
visto pela sociedade como sujeito pensante, capaz e único. Diante
dessa inquietação que é a inclusão Sacks (1990), expõe que seria
preciso que existisse um mundo em que ser surdo não importasse e
que desfrutassem a plena realização e integração, não sendo vistos
como surdos ou deficientes.
Para que a inclusão seja uma realidade na vida de todos esses alunos
é necessário que a escola esteja preparada para recebê-los e
principalmente aceitá-los com suas diferenças. Diante disso, respeitar
esses alunos com necessidades especiais é fundamental para sua
formação, cabendo a escola e a sociedade proporcionarem sua
integração para que possam viver sem medo de serem excluídos. No
próximo tópico será abordado como os surdos utilizam a LIBRAS para
se comunicar com os colegas ouvintes.
3- ADAPTAÇÃO E A SOCIALIZAÇÃO DAS CRIANÇAS SURDAS E
OUVINTES DURANTE O RECREIO NAS ESCOLAS CLASSE E
PARQUE DO DISTRITO FEDERAL.
De acordo com o Ministério da Educação em 24 de abril de 2002, a
Lei Nº 10.436 referente a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) foi
sancionada pelo presidente da época, Fernando Henrique Cardoso,
que reconheceu a LIBRAS como meio legal de comunicação e
expressão. Este acontecimento foi muito importante para a
comunidade surda que batalhou por esta conquista, sendo importante
também para os ouvintes, pois terão um maior contato com os
deficientes auditivos.
Segundo o site www.planalto.gov.br normalmente os surdos se
comunicam por meio de sinais, uma língua visual espacial com toda
uma estrutura gramatical e regras diferenciadas da Língua
Portuguesa. Essa comunicação em sinais acontece com a utilização
das mãos, das expressões faciais que ajudam na interpretação do
significado para os colegas ouvintes, bem como os movimentos do
corpo. Utilizam também o alfabeto manual que serve para expressar
nomes de pessoas, lugares e outras palavras que não possuem
sinais.
Durante muito tempo os surdos foram vistos como pessoas incapazes
de aprender, por isso não iam à escola e ainda eram proibidos de
utilizarem os sinais para se comunicarem, porém atualmente as
instituições de ensino já permitem que essas crianças com surdez
utilizem a LIBRAS e também façam a leitura labial para uma possível
comunicação com os ouvintes.
Essa comunicação aparece em todos os espaços da escola e não seria
diferente na hora do recreio, pois durante as brincadeiras livres as
crianças se tornam totalmente espontâneas, brincando sem obrigação
e sem serem forçadas a utilizarem os sinais ou a oralidade para
interagir com seus amigos sendo, portanto, uma relação em que os
próprios envolvidos no brincar estabelecem para se comunicarem.
Ampliando essa visão Kishimoto (2003), Silva (2002) e Winnicott (
1973) apontam que o brincar da criança é importante para o seu
desenvolvimento, mas que durante a brincadeira ela não tem
preocupação na aquisição de conhecimento ou desenvolvimento de
qualquer habilidade mental ou física dessa forma, brincando
livremente ela se satisfaz e demonstra por meio de um sorriso.
Portanto é no brincar que a criança pode encontrar com mais
facilidade soluções para as dificuldades durante as brincadeiras
desenvolvidas com seus colegas ouvintes, mas para que a escola
possa integrar esses alunos com necessidades especiais auditivas
tendem a se isolar, é necessário uma abordagem comunicativa para
que uma vez envolvida com essas crianças possa auxiliá-los nessa
integração.
Dentro da perspectiva de Edler Carvalho (1999) e Quadros (1997), a
escola é um ambiente favorável para ampliar as relações
interpessoais, sendo preciso que estas instituições levem em conta o
contexto socioeconômico dos alunos. Ainda segundo as autoras, no
brincar a criança faz suas representações simbólicas da realidade
representando de acordo com suas experiências vivenciadas em seu
cotidiano.
Nos escritos de Aberastury (1992) pode-se encontrar várias
contribuições em relação ao brincar da criança. A autora afirma que:
"A criança que brinca investiga e precisa ter uma experiência total
que deve ser respeitada. Seu mundo é rico e, em contínua mudança,
inclui um intercambio permanente entre a fantasia e a realidade. Se
um adulto interfere e irrompe em sua atividade lúdica, pode
perturbar o desenvolvimento da experiência decisiva que a criança
realiza ao brincar". (ABERASTURY, 1992. Pg 55)
O brincar da criança é importante para seu desenvolvimento afetivo e
cognitivo, auxiliando na socialização com outras crianças. Nas escolas
isso não é diferente, as crianças brincam durante o recreio sem a
necessidade de um adulto para orientar nas brincadeiras livres, pois é
o momento de interação só dos alunos.
4- A RECREAÇÃO NA ESCOLA CLASSE E NA ESCOLA PARQUE DO
PLANO PILOTO PARA CRIANÇAS SURDAS E OUVINTES
INSERIDAS NAS ESCOLAS PÚBLICAS DO DISTRITO FEDERAL.
Esse trabalho foi desenvolvido em duas instituições da rede pública
que pertencem à Secretaria de Educação do Distrito Federal,
realizado por meio de observações durante o recreio dos alunos. A
Escola Classe observada tem uma área de 1.174.42m2 e existe desde
1962, sendo uma construção realizada pelo Banco do Brasil com o
objetivo de garantir a todos os moradores condições de viverem
plenamente a cidadania.
Atende as modalidades de ensino da 1ª a 4ª séries do ensino
fundamental, com um quadro de 26 professores e com 300 alunos,
sendo dividida em classe comum, classe especial e classe bilíngüe,
seu horário de atendimento é das 07h15min às 12h15min no período
matutino e das 13h15min às 18h15min no período vespertino. Sua
clientela é diversificada, se originando de várias regiões
administrativas: Guará, Cruzeiro, Octogonal, Taguatinga, Ceilândia,
Valparaíso, entre outras. Mas um pequeno percentual reside nas
proximidades da quadra da escola que são os filhos de funcionários
públicos, empregadas domésticas, porteiros e militares, e por ser
uma escola inclusiva atende também alunos com necessidades
educacionais especiais fora da faixa etária.
Segundo a proposta pedagógica a escola se compromete com a
comunidade, possibilitando o sucesso escolar dos alunos no prazo
estabelecido, desenvolvendo nos discentes a consciência crítica, ética
e criativa.
A outra instituição na qual foi realizada a observação dos alunos no
recreio foi a Escola Parque, inaugurada em 21 de Abril de 1977.
Atende alunos oriundos de diversas cidades do Distrito Federal no
turno vespertino e matutino, recebe alunos nos horários contrários
que estudam na Escola Classe. Funciona das 8:00 ás 17:20, possui
2650 alunos, 40 professores divididos nos dois horários, esta situada
numa área nobre de Brasília e tem como metas erradicar a evasão
escolar, atender 100% os alunos com necessidades especiais e
reduzir o índice de reprovação.
A Escola Parque foi um projeto idealizado por Anísio Teixeira, um
grande educador brasileiro, que tinha como objetivo para essas
escolas uma educação integral visando ampliar a matriz curricular
das escolas classes, de acordo com a Secretaria de Educação do
Distrito Federal existem cinco escolas parques em Brasília, tendo
como foco principal ampliar os conhecimentos dos alunos e preparálos para o mundo, ensinando diferentes atividades que podem ajudar
no seu desenvolvimento. Atende alunos inseridos nos anos iniciais e
finais do ensino fundamental e alunos com necessidades especiais
que são aquelas crianças que apresentam algumas limitações em
comparação com os demais alunos.
Essas escolas foram escolhidas por serem inclusivas e por
apresentarem de acordo com sua proposta pedagógica um ensino de
qualidade para todos os alunos, promovendo seu desenvolvimento
integral capacitando um aluno que seja o sujeito da sua própria
aprendizagem. Desta forma a escola visa formar um individuo
respeitoso, solidário, digno, justo, responsável e honesto para atuar
na sociedade. Outro ponto relevante dessa instituição é o ensino
interdisciplinar, oferecido para os alunos, onde os conteúdos das
disciplinas são trabalhados de forma que esses tenham um
conhecimento amplo, favorecendo o ensino integral para que esse
seja adquirido possa ser utilizado em seu cotidiano.
Na Escola Parque foi determinado pelos professores e direção que os
alunos com necessidades especiais seriam atendidos nas quintas
feiras sendo exclusivamente para reforçar a matriz curricular da
Escola Classe, no qual os alunos vão uma vez por semana em
períodos contrários ao que estudam e segundo uma professora
intérprete, nesse dia tem aproximadamente 20 surdos separados em
várias turmas.
Os alunos observados tinham aula de teatro onde aprendem a fazer
peças e apresentações para os colegas e a comunidade, no ensino da
música eles juntamente com os professores aprendem a cantar e
reconhecer as notas musicais nas canções, já nas artes aprendem a
se expressarem por meio dos desenhos e pinturas, na educação física
os alunos aprendem o valor do exercício físico para obter uma boa
saúde, todas as aulas tem aproximadamente 50 minutos cada, e ao
final os professores ficam na sala esperando as próximas turmas para
desenvolver as mesmas atividades propostas às outras turmas.
Assim para a realização desse trabalho foram realizadas várias visitas
nessas escolas nos períodos manhã e tarde, em dias alternados para
poder verificar a brincadeira das crianças surdas e as ouvintes e quais
as brincadeiras desenvolvidas no recreio. Para esse trabalho foram
observados alunos na faixa etária de 6 a 19 anos, inseridos no ensino
regular cursando as séries iniciais e finais do Ensino fundamental.
Referente ao material utilizado para fazer as anotações foram
utilizadas fichas de registro, conversas informais com alguns
familiares, professores e alunos com a intenção de obter informações
sobre a interação entre crianças surdas e ouvintes inseridas no ensino
regular.
O foco dessa pesquisa é analisar as crianças entre 8 a 15 anos, de
acordo com as tabelas 1 e 2 abaixo é possível verificar quais as
brincadeiras as crianças realizaram durante o recreio e
respectivamente idades.
Tabela 1 - Escola Classe, crianças entre 8 a 15 anos de idade:
Brincadeiras
Idade das crianças
Correr
8 a 9 anos
Dançar
8 a 9 anos
Futebol
10 a 12 anos
Basquete
10 a 12 anos
Pebolim
10 a 12 anos
Ping- Pong
10 a 12 anos
Pique Esconde
8 a 9 anos
Pular Corda
8 a 9 anos
Nenhuma brincadeira
13 a 15 anos
Tabela 2 idade:
Escola Parque, crianças entre 8 a 15 anos de
Brincadeiras
Idade das crianças
Correr
8 a 9 anos
Futebol
10 a 12 anos
Queimada
10 a 12 anos
Volei
10 a 12 anos
Nenhuma brincadeira
13 a 15 anos
Em relação às brincadeiras desenvolvidas pelas crianças nas duas
escolas, elas aconteceram de forma diferente mesmo sendo na hora
do recreio, os alunos não interagiram da mesma forma.
Pode-se notar que os alunos entre 8 a 9 anos brincam de correr,
dançar, pique - esconde, e pular corda, sendo que durante o recreio
apenas as meninas dançavam as músicas infantis colocadas pela
direção ou monitoras da escola. Os entre 10 a 12 anos brincam de
futebol e basquete sendo apenas os meninos, e as brincadeiras
pebolim e ping-pong os meninos e as meninas se divertiam juntos, já
os alunos entre 13 a 15 anos que eram surdos não interagiam no
recreio durante as brincadeiras, pois segundo esses alunos são
grandes demais e podem machucar os menores. Todos os recursos
colocados a disposição dos alunos eram fornecidos pela escola todos
os dias para as crianças se divertirem, utilizavam as bolas, mesas,
cordas, músicas eram com o auxilio de os alunos preferem as
atividades de correr, esconde-esconde e todo material pedagógico
colocado a disposição dos alunos na hora do recreio.
Esses brinquedos segundo a direção favorecem durante a interação
dos alunos com necessidades especiais auditivas com os ouvintes.
Durante as brincadeiras a escola confeccionou crachás para pendurar
no pescoço das crianças, para que todos os alunos pudessem brincar
com todos os recursos, e só quem estava com o crachá poderia jogar
e as crianças iam revezando para que todos os colegas pudessem
jogar também, servindo para uma certa organização naquele
momento.
Na Escola Classe foi observado que na hora do recreio não existia
interferência de nenhum adulto nas brincadeiras, a não ser a
presença de duas monitoras com a função de olhar os alunos,
procurando evitar algum acidente. Existem 4 monitores de manhã e
mais 4 à tarde, todos sem curso de LIBRAS. Sendo questionadas
sobre o curso, disseram que não tiveram tempo e que só os
intérpretes que atuam em sala de aula possuem o curso.
A escola não tem nenhum projeto para esses monitores, sendo que
sua colaboração é importante não só para evitar acidentes com os
alunos, mas poderiam colaborar com brincadeiras e jogos evitando
assim um desgaste para ambos os lados. Mesmo sabendo que o
recreio serve para a criança ficar a vontade conversando e brincando
com os colegas, pois é na brincadeira sem intervenção que pode
acontecer os acidentes. Na verdade não é interferir nas brincadeiras,
mas procurar dirigir as brincadeiras oferecendo mais recursos na hora
do recreio.
Essa observação teve como objetivo verificar como os alunos da
Escola Classe entre 8 a 15 anos se comportavam durante as
brincadeiras no recreio em atividades diferentes, em ambientes
diferentes e com outros professores, verificando a interação entre
crianças surdas e ouvintes em outros locais. Foi notado nessa escola
que muitas crianças surdas ficavam paradas sem interação com os
colegas ouvintes, e quando brincavam quem estipulavam as regras
eram as crianças ouvintes e os surdos normalmente aceitavam, e
acabavam terminando as brincadeiras se isolando dos demais.
Durante as observações nessa escola, foi fácil perceber que as
crianças surdas interagiam com os ouvintes de forma natural, mesmo
tendo uma diferença de faixa etária entre os alunos eles conseguiam
manter um diálogo. Na hora do recreio e do lanche os alunos
formavam seus grupos de amigos para brincar sem separar surdos de
ouvintes.
As brincadeiras eram realizadas em vários espaços da escola, sendo
que os alunos ficavam andando, correndo, conversando e o único
recurso utilizado para brincar foi uma bola trazida de casa pelos
alunos, não foi notado nenhum outro recurso.
Percebe-se que na tabela 2 da Escola Parque sendo uma instituição
voltada para a prática de esportes, como outras atividades diferentes
em prol de uma aprendizagem significativa. Como os alunos precisam
cuidar dos recursos como bola, rede, corda, jogos pedagógicos para
as próximas aulas, a escola não os libera na hora do recreio que é a
mesma hora do lanche. Nas observações foram notadas diferentes
brincadeiras, de acordo com a tabela 2 pode-se verificar como as
crianças surdas e ouvintes se dividiam na hora do recreio.
De acordo com essa tabela é possível verificar que os alunos entre 8
a 9 anos preferem brincadeiras de correr, de 10 a 12 jogar queimada
e vôlei, sendo que apenas no futebol os meninos brincaram sozinhos.
Já as crianças entre 13 a 15 anos não brincaram, sendo meninos e
meninas, e estas eram surdas.
Durante as brincadeiras desenvolvidas no recreio, os alunos
utilizaram as duas línguas, os sinais e a oralidade para se comunicar
com os colegas ouvintes e surdos, mesmo não havendo um total
entendimento da língua as crianças brincavam, mas não ficavam
brincando por muito tempo, acabavam inventando outras
brincadeiras onde todos entendessem.
No recreio muitos funcionários utilizavam alguns sinais de LIBRAS
com os alunos surdos para manter uma comunicação eficaz onde
fosse possível um entendimento. Mesmo havendo uma distância
entre essas comunicações ficou visível que é preciso a escola investir
mais na educação inclusiva, pois não basta só incluir, é preciso
valorizar a diferença e o potencial desses alunos para que possam ser
estimulados a participarem sem serem vistos como pessoas
incapazes, como eram no passado.
CONCLUSÃO
Conclui-se que durante as observações realizadas nas duas escolas
Classe e Parque do Distrito Federal, foi notado que a interação entre
crianças surdas e ouvintes e entre surdas e surdas, aconteceu de
forma espontânea, mas durante as brincadeiras permaneciam pouco
tempo juntas.
Para que essa interação venha a acontecer de forma natural, é
necessário que a escola busque alternativas para melhor receber e
atender os alunos com necessidades especiais independente da sua
gravidade, pois incluir esses alunos é recebê-los com respeito e
procurar ao máximo valorizar cada um deles, sendo de suma
importância para sua formação enquanto individuo pensante e capaz
de se desenvolver plenamente.
Durante as observações, os alunos da Escola Classe recebiam vários
recursos para utilizarem durante as brincadeiras, favorecendo assim
a interação dos surdos com os ouvintes. Já na Escola Parque os
alunos não recebiam nenhum tipo de recurso pedagógico para
auxiliar nas brincadeiras, pois os alunos que traziam de casa
brinquedos, tinham que lanchar rapidamente para aproveitar o tempo
brincando antes de voltarem para a sala de aula.
Dentro dessa perspectiva a inclusão desses alunos especiais no
ensino regular, requer que as pessoas mudem e suas atitudes e a
forma de ver as pessoas diferentes, verificando que não existe
ninguém perfeito ou normal, e sim pessoas diferentes que precisam
do carinho, compreensão e muito respeito.
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Maria Mirtes de Sousa Silva: aluna do 7º. Semestre do curso de
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da
Faculdade
Evangélica
de
Brasilia
Jose Francisco de Sousa: Pedagogo, Historiador, Teologo,
Administrador, Especialista em Docência do Ensino Superior,
Psicodrama,
Pedagogia
Hospitalar,
Educação
Ambiental,Mestre em Educação, Doutor em História (UnileonEspanha),Doutorando em Psicologia pela PUC-GO.
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