ESTUDO DE ADAPTAÇÃO, CRESCIMENTO E QUALIDADE DA MADEIRA DE EUCALYPTUS NITENS NA
TERRA FRIA TRANSMONTANA
M.J. Gaspar, J.L. Louzada, P.R. Brires, A.M. Vicente e A.A. Romano
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 5001-911 VILA REAL
Resumo. Embora Portugal possa ser autosuficiente em madeira de resinosas, principalmente
através da sua principal espécie florestal (Pinus pinaster), não o é, certamente, em madeiras
de folhosas de qualidade.
Tendo em conta a existência de pelo menos 550 a 600 espécies diferentes de Eucaliptos
(Chippendale and Johnston, 1983), algumas das quais produtoras de madeira de boa qualidade
(nomeadamente para construção civil e mobiliário), em 1986 foi instalado na Terra Fria
Transmontana um ensaio de proveniências de Eucalyptus nitens, por forma a estudar, numa
primeira fase, a sua capacidade de adaptação. Dado que actualmente as árvores desse ensaio
já têm uma idade próxima do abate, é possível avaliar o seu desempenho, não só em termos
de crescimento, como da qualidade da madeira por elas produzida.
Assim, com este trabalho procurar-se-á analisar, não só as variações do crescimento em altura
e diâmetro entre Proveniências e entre árvores da mesma Proveniência, como também
algumas características qualitativas da sua madeira, como sejam a densidade e o comprimento
das fibras.
INTRODUÇÃO
Embora Portugal possa ser auto-suficiente em madeira de resinosas, principalmente através
da sua principal espécie florestal (Pinus pinaster), não o é, certamente, em madeiras de
folhosas de qualidade A utilização de espécies exóticas como forma de complementar as
florestas de espécies indígenas, que não atinjam as quantidades e qualidade dos produtos
florestais desejados, tem se vindo a mostrar uma estratégia interessante e real, já que
frequentemente aquelas que melhor se adaptam a situações desfavoráveis são susceptíveis de
limitar um adequado desenvolvimento vegetativo.
Tendo em conta a existência de pelo menos 550 a 600 espécies diferentes de Eucaliptos
(Chippendale and Johnston, 1983), algumas das quais produtoras de madeira de boa qualidade
(nomeadamente para construção civil e mobiliário), em 1986 foi instalado na Terra Fria
Transmontana um ensaio de proveniências de Eucalyptus nitens, por forma a estudar, numa
primeira fase, a sua capacidade de adaptação. Goês (1991) refere que esta espécie é de
possível interesse para o País, em zonas de altitude. Lemos et al. (1994) indicam que E. nitens
tem bons crescimentos, boa resistência ao frio e origina boa pasta, pelo que é de toda a
conveniência aumentar o conhecimento disponível acerca da espécie no País. Atendendo ao
facto de que o ensaio neste momento se encontra com 17 anos de idade, próximo da idade de
abate, é possível agora avaliar o seu desempenho, não só em termos de crescimento, mas
também relativamente à qualidade da madeira por elas produzida.
A densidade é, presumivelmente, o mais importante indicador de qualidade já que, para
além da sua importância na determinação de muitas propriedades da madeira, tais como
resistência mecânica (Panshin e DeZeeuw, 1980 e Fonseca, 1989), retractilidade (Yao, 1969 e
Cown e McConchie, 1983), resistência à biodegradação (Mateus, 1979; Chafe, 1987 e
Wiemann e Williamson 1988) e qualidade do papel (Mandaltsi, 1977), proporciona uma
quantificação muito precisa do teor de matéria prima numa peça de madeira (Panshin e
DeZeeuw, 1970; Elliott, 1970 e Davidson, 1972). O comprimento das fibras muito embora
não seja uma característica determinante das propriedades da madeira sólida, é importante
para o estabelecimento da sua qualidade para a produção de pastas de papel ou para painéis de
fibra. Deste modo, o conhecimento desta característica é fundamental para definição da
capacidade que esta espécie poderá ter como produtora de matéria prima para estas indústrias,
em especial para a indústria da produção de pasta de papel uma vez que esta espécie vegeta
em condições de altitude em oposição à espécie utilizada por excelência para esta indústria,
Eucalyptus globulus.
Assim, com este trabalho procurar-se-á analisar, não só as variações do crescimento em
altura e diâmetro entre Proveniências e entre árvores da mesma Proveniência, como também
algumas características qualitativas da sua madeira, como sejam a densidade e o comprimento
das fibras.
MATERIAL E MÉTODOS
As parcelas de estudo que serviram de base para a realização deste estudo, estão
localizadas dentro dos limites do parque Natural de Montesinho (Figura 1).
Figura 1-Localização dos ensaios no Parque Natural de Montesinho.
Para o estudo de adaptação de espécies de Eucalyptus para a produção de madeira na Terra
Fria Transmontana, foram instalados 2 ensaios (Guadramil e Lagunota) de 5 espécies de
Eucalyptus (E. regans, E. obliqua, E. fastigata, E. delegatensis e E. nitens), cada uma
representada por 3 proveniências. (Quadro 1). Das 5 espécies testadas, apenas a espécie E.
nitens, durante os primeiros quatro anos de idade, mostrou capacidade de adaptação. Sendo
assim, será apenas sobre esta espécie que incidirá o nosso estudo. O delineamento de
experiências consistiu em blocos casualizados completos (3 blocos no ensaio de Lagunota e 2
no ensaio de Guadramil), sendo cada bloco constituído por 12 parcelas com 20 plantas cada.
A preparação do terreno foi feita em vala e cômoro, com um compasso de 3*2.5 m.
Foram amostradas, de forma casualizada, 5 árvores de cada parcela em todos os blocos de
cada um dos ensaios. Em cada árvore, foi medido o seu diâmetro com uma suta de braços a
1.30 m (d) e a sua altura (h) foi avaliada através do hipsómetro Vertex.
A colheita do material foi efectuada através da extracção de uma amostra radial obtida ao
nível do d com uma verruma de Pressler de 12mm. As verrumadas colhidas por este meio,
foram devidamente etiquetadas e guardadas em tubos de plástico para que não se quebrassem.
Já em laboratório foram expostas ao ar, em ambiente seco, para que não fossem atacadas por
fungos.
Quadro 1- Referenciação dos locais de origem das sementes.
Utilizando estas amostras, a densidade básica (D) foi obtida através da razão entre o peso
anidro e o volume saturado dos provetes, em seguida as fibras foram dissociadas utilizando
uma solução de Franklin, tendo o seu comprimento (Fib) medido com recurso a um
curvímetro digital.
Foi efectuada uma análise de variância para todas as características em estudo, com todas
as origens de variação, de forma a identificar os principais factores de variação.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A partir dos resultados obtidos das análises de variância, utilizadas para a estimativa das
principais origens de variação das características em estudo (Quadro 2), podemos observar
que existiram diferenças significativas (P<0.01) entre proveniências para as característica
altura (h) e densidade básica da madeira (D).
Como podemos observar no quadro 3, relativamente à característica altura a Proveniência
6 apresentou o valor médio mais elevado com 16.8 m de altura enquanto o valor mais baixo
foi observado para a Proveniência 5 (14.0 m). No que se refere ao crescimento em diâmetro,
embora as diferenças não tenham sido significativas mais uma vez a Proveniência 5
manifestou o valor médio de d mais baixo (18.6 cm), enquanto a Proveniência 4 apresentou o
valor mais elevado (20.3 cm). Relativamente a estas duas características origem de variação
residual assume-se como a principal fonte de variação, representando cerca de 50% da
variação total.
Quadro 2. Resultados das análises de variância utilizadas para a estimativa das principais origens de variação
das características em estudo.
O.V.
GL
Locais
Blocos/L
Proveniências
PxL
P x B/L
Árvores/P/B/L
Segmentos
SxL
S x B/L
SxP
SxPxL
S x P x B/L
S x A/P/B/L
Fib/S/A/P/B/L
1
3
2
2
6
60
9
9
27
18
18
54
540
29250
d
F
5.53NS
1.77 NS
1.06 NS
0.05 NS
4.32**
-
h
VE %
7.2
2.8
0.1
0
35.8
54.0
-
F
13.72*
1.53 NS
9.95**
2.03 NS
2.17 NS
-
D
VE %
16.8
1.8
11.6
5.8
12.1
51.8
-
F
39.95**
0.90NS
7.36**
0.09NS
1.50NS
8.28***
33.78***
1.72NS
1.50NS
1.93*
1.79NS
1.58*
-
Fib
VE %
21.8
0
5.9
0
2.3
20.5
12.3
0.8
0.9
1.0
2.8
3.3
28.2
-
F
0.03NS
13.29***
0.07NS
0.40NS
5.69***
33.18***
2414.42***
0.45NS
28.54***
16.11***
0.39NS
2.67***
4.54***
-
VE %
0
3.1
0
0
3.5
3.6
36.3
0
2.1
0.7
0
1.7
4.0
48.1
d:diâmetro à altura do peito; h:altura total; D: densidade básica; Fib: comprimento das fibras; Ns: não
significativo; * P<0.05; ** P<0.01;***P<0.0001
Quadro 3. Valores médios para as diferentes características em estudo
Proveniência
4
5
6
d
h
D
Fib
20.316a
15.564ab
0.492b
0.828a
18.574a
13.952b
0.523a
0.828a
19.932a
16.756a
0.500a
0.843a
d:diâmetro à altura do peito; h:altura total; D: densidade básica; Fib: comprimento das fibras;
Valores na mesma coluna com letras distintas são significativamente diferentes (P<0.05).
Relativamente à densidade básica verificamos que os locais se assumem como uma das
principais fontes de variação, sendo responsáveis por cerca de 22% da variação total. Este
elevado peso dos locais, o qual traduzirá de certa forma os efeitos ambientais, é já um
indicador de que uma parte considerável de variação da densidade estará directa ou
indirectamente dependente da componente ambiental. O efeito das Proveniências é
estatisticamente muito significativo (P<0.01) sendo responsável por cerca de 6 % da variação
total. Relativamente às árvores, estas contribuem aproximadamente com 21% para a variação
total da densidade, sendo esta variação altamente significativa (P<0.001). Este resultado
evidencia a grande diversidade existente entre árvores, o que abre boas perspectivas para o
melhoramento genético.
Quanto ao efeito dos segmentos (variação radial) este é também altamente significativo
(P<0.001), sendo responsável por 12.3% da variação total. É de referir que a densidade
decresce até aos 40% do raio ao que se segue um período de estabilização (Fig. 2). As
interacções entre segmentos e locais e segmentos e Proveniências são praticamente nulas, ou
seja, os locais e as proveniências não exercem nenhum tipo de influência na variação radial da
densidade, como podemos verificar nas Figuras 2 e 3. O efeito do resíduo quantifica a
contribuição da variação dos segmentos nas diferentes árvores, sendo de cerca de 28%.
Para a característica comprimento das fibras a origem de variação residual das fibras
assume-se como a principal fonte de variação, representando cerca de 45% da variação total.
Por sua vez o efeito dos segmentos (variação radial), que por si só representa 36% da variação
total, apresentou diferenças altamente significativas (P<0.001) traduzindo por um aumento
quase constante do 1º ao 10º ano. Para além disso, este padrão de variação radial revela-se
independente dos locais (Fig. 4) bem como das Proveniências (Fig. 5).
3
Dens. Básica (g/cm )
0,6
0,58
0,56
0,54
0,52
0,5
0,48
0,46
0,44
0,42
0,4
Guadramil
Lagnota
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
Segmentos
Figura 2. Variação radial da densidade básica em cada um dos ensaios.
0,6
Dens. básica (g/cm3)
0,58
0,56
0,54
Proveniência 4
Proveniência 5
Proveniência 6
0,52
0,5
0,48
0,46
0,44
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
Segmentos
Comprimento das fibras (mm)
Figura 3. Variação radial da densidade básica em cada uma das Proveniências.
Segmentos
Figura 4. Variação radial do comprimento das fibras em cada um dos ensaios.
Comprimento das fibras (mm)
Segmentos
Figura 5. Variação radial do comprimento das fibras em cada uma das Proveniências.
Desta forma, podemos constatar que independentemente dos locais ou das Proveniências
em causa a madeira de E. nitens varia quase linearmente da medula (≈ 0.55 mm) até aos 17
anos (≈ 0.90 mm), idade na qual ainda não se atingiu o período de estabilização do
comprimento das fibras. Não obstante se ter verificado que a madeira produzida no ensaio de
Guadramil apresentava um comprimento médio das fibras 0.769 mm, ligeiramente superior ao
verificado no ensaio da Lagunota (0.763 mm), do ponto de vista estatístico não só é não
significativa como tem uma contribuição nula para a variação total. Os blocos representaram
cerca de 3% da variação total do comprimento das fibras, enquanto para a origem de variação
Proveniências não se verificaram diferenças significativas, sendo este efeito quantificado com
valor nulo. O contributo da origem de variação árvores para a variância esperada total,
embora do ponto de vista estatístico altamente significativo, é relativamente baixo assumindo
um valor de 3.6%.Tendo em conta este valor é de salientar que não será muito proveitoso
implementar um programa de melhoramento para esta característica biométrica.
Os resultados obtidos para a densidade básica neste trabalho indicam-nos que esta espécie
tem uma maior aptidão para usos gerais do que para produção de pasta, pois os valores
obtidos aproximam-se mais dos normalmente obtidos para a espécie Pinus pinaster que
segundo Fonseca e Lousada (2000) tem valores médios de 0.467 g/cm3 e muito inferiores aos
valores de densidade básica indicados por Jorge (1994) para E. globulus de 0.735 g/cm3. Em
relação ao comprimento das fibras os valores médios obtidos de 0.83 mm são ligeiramente
inferiores aos valores médios indicados por Jorge (1994) também para a espécie E. globulus
(0.94 mm).
No que se refere às características de crescimento os resultados médios obtidos de 19.6 cm
de diâmetro e 15.4 m de altura aos 17 anos, podem ser considerados razoáveis dado as
condições edafoclimáticas adversas em que se realizou o ensaio. A título comparativo
podemos indicar os resultados obtidos por Almeida (2004) para Pinus sylvestris, numa
estação semelhante, em que aos 20 anos esta espécie apresentava um crescimento em altura de
cerca de 9 m.
Assim podemos concluir que a espécie E. nitens apresenta potencialidades que devem ser
consideradas pelos gestores nos planos de ordenamento florestais para estas áreas, alargando
o leque de espécies que, de forma sistemática, são consideradas.
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Estudo de adaptação, crescimento e qualidade da madeira