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O Cristão e a Cultura
Uma visão cristã da cultura
e do seu papel dentro dela
Michael S. Horton
tradução Elizabeth C. Gomes
19 de abril de 1997
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Para Gary Horton, com gratidão
por uma vida toda de amizade e apoio.
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CONTEÚDO
Introdução
1. Como ser um cristão mundano
2. Soberania da esfera: cuidar de nossos próprios afazeres
3. “Vã filosofia”: Uma fuga do anti intelectualismo
4. Cristianismo e as artes
5. Arte na vida do cristão
6. Cristianismo e a ciência moderna: Não podemos ser amigos?
7. Trabalho para o final de semana
8. Um mundo enlouquecido
Conclusão: No mundo mas não do mundo
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INTRODUÇÃO
Por vezes os hinos me confundem. Eu me lembro bem, quando garoto, de ficar
confuso com dois hinos populares que me pareciam totalmente contraditórios. O primeiro
era “Aqui não é meu lar, um viajante sou”, e o outro era “O mundo é do meu Pai”. Se o
mundo é do meu Pai, eu pensava, porque estou apenas passando por ele como viajante?
Mas os hinos não eram a única coisa a confundir no negócio de relacionar-me
como cristão no mundo. Esperava-se dos cristãos que justificassem tudo nas suas vidas
pela sua utilidade espiritual ou evangelística. No máximo, a educação, atividades,
vocações ou buscas “seculares” eram um mal necessário -- para se ganhar a vida, para ter
com que dar o dízimo e dar para missões. Na pior das hipóteses, distraíam da vida cristã.
Agiam como a canção da Sirene seduzindo mundaninhos insuspeitos aos recifes da
incredulidade e do afastamento de Deus. Assim, os que queriam ser empresários
procuravam empregos em organizações e agências cristãs. Se descobríssemos um
pequeno Rembrandt num jovem artista da igreja, nós o colocávamos como responsável
pelo quadro de avisos e (se ele fosse realmente bom) deixávamos que pintasse o
batistério. Esperava-se dos nossos cientistas que promulgassem a causa do criacionismo - mesmo que a cosmologia ou as ciências biológicas e antropológicas não fossem suas
especialidades. Dos músicos esperava-se que entrassem (ou formassem) na banda de
louvor ou fizesse uma turnê pelas igrejas do país -- o tamanho da igreja, claro, dependia
do grau de talento do artista. Através dos anos, temos criado os nossos próprios guetos de
artistas, super estrelas e apresentadores, com versões cristãs de tudo que há no mundo.
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Essas experiências, porém, não se limitam ao nosso tempo e lugar. A Renascença,
e de modo especial, os tempos da Reforma foram reações ao modo medieval de encarar a
vida. Para a igreja medieval, filosofia, arte, música e ciência se confundiram tanto com a
religião que não dava para distinguir uma da outra. A filosofia não era, na realidade,
filosofia, A Renascença demonstrou como a interpretação da igreja medieval de
Aristóteles e Platão (os favoritos) era diferente dos escritos daqueles filósofos. Se alguém
quisesse ser artista, mais uma vez procurava-se a igreja para um emprego, como a arte era
ferramenta da pregação ou do ensino da vida e dos tempos de Jesus e seus apóstolos. E os
sofrimentos de Copérnico e Galileu nos lembram do perigo de dizer mais do que a Bíblia
diz sobre teorias científicas específicas.
A pressão de justificar arte, ciência e diversão
em termos do seu valor espiritual ou sua utilidade evangelística
acaba prejudicando tanto o dom da criação
quanto o dom do Evangelho.
A Reforma libertou homens e mulheres cristãos para seguir com dignidade e
respeito os seus chamados divinos no mundo, sem ter que justificar a utilidade desses
chamados à igreja ou ao empreendimento missionário. A vocação era dom da criação.
Até mesmo os não cristãos, como quem carrega a imagem de Deus, possuíam este
chamado divino. Crente e incrédulo eram igualmente responsáveis por desenvolver seu
trabalho com excelência -- um reconhecendo a Deus como autor e alvo dessa excelência,
e o outro servindo a Deus com seus talentos apesar de sua recusa em reconhecê-lo como
doador e alvo de tudo. Em contraposição à visão monástica do mundo, a Reforma
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promulgava uma teologia que abarca o mundo, um dos fatores principais no
desenvolvimento da ciência, da Era Dourada” da arte holandesa e da literatura inglesa e
escocesa, a libertação da igreja da política, a difusão universal da leitura e da escola
pública, e o grito por liberdades civis em contraposição ao fundo da tirania vigente.
É claro, não existe movimento perfeito -- há envolvida em todos gente demais
parecida conosco! A Reforma não é exceção, com sua parcela de erros e os disparates de
homens e mulheres pecadores. Contudo, os temas bíblicos por ela recuperados trouxeram
de volta ao povo de Deus um senso de pertencer a este mundo durante o tempo que Deus
nos deu, mas pertencer dentro de, e não como parte do mundo.
A pressão de justificar a arte, ciência e a diversão em termos do seu valor
espiritual ou sua utilidade evangelística acaba prejudicando tanto o dom da criação
quanto o dom do Evangelho, desvalorizando o primeiro e distorcendo, no processo, o
segundo. Por exemplo, “música cristã” é freqüentemente uma desculpa para artistas
inferiores conseguir vencer numa sub cultura cristã que imita o brilho e glamour do
entretenimento secular, inclusive suas próprias cerimônias de premiação e seu ambiente
de super estrelato. Pode ser que essa não seja a intenção por parte de muitos artistas que
querem contribuir ao cenário da música cristã contemporânea, mas a indústria acaba
produzindo, na maioria, imitações nada criativas, repetitivas, superficiais da música
popular. Produzir música em conformidade com os gostos anestesiados duma cultura
consumista já é ruim; imitar a arte comercializada é desperdiçar os talentos, a não ser que
se esteja escrevendo para o rádio e a televisão. Trivializa tanto a arte quanto a religião.
Não quero com isso condenar todos os artistas cristãos, pois há muitos musical e
liricamente sofisticados o bastante que integram uma compreensão séria da mensagem
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bíblica com um estilo musical criativo. Também não quero que sejamos “esnobes”
musicais que confundem seu gosto particular com a Palavra revelada de Deus. Afinal de
contas, freqüentemente “a verdade está escrita nas paredes do metrô”, o equivalente
arquitetônico da música popular. É esta uma das razões pelas quais eu aprecio a música
popular de vez em quando, em parte porque é agradável e traz lembranças de tempos
passados. Mas é uma forma inferior, dirigida comercialmente (noutras palavras,
financeiramente) que se rebela contra os padrões mais altos da expressão artística.
Essas pressões, porém, para se criar versões distintamente “cristãs” de tudo no
mundo (ou seja, na criação), pressupõem que exista algo essencialmente errado com a
criação -- e essa é uma pressuposição teológica que tem influência muito maior na
formação das atitudes evangélicas em todas essas esferas do que geralmente se admite.
Examinaremos essa posição básica nos próximos capítulos.
Permita-me dizer de início que este livro não é uma análise sofisticada da base
teológica de uma visão cristã do mundo ou da natureza das artes, ciências, filosofia e
assim por diante. É para o leitor geral, especialmente para aqueles crentes que lutam com
uma sub cultura que abafa ao invés de encorajar seus impulsos e suas ambições
divinamente dotadas. Nesse sentido, é um livro pastoral. É oferecido com esperança de
que os teólogos aprendam mais sobre outras disciplinas e que cristãos nessas outras
disciplinas se ancorem mais firmemente sobre a teologia bíblica antes de tentar “integrar”
sua fé e vida. Mas não obstante a posição do leitor em relação a esses tópicos -- seja ele
um esteta de muita cultura ou uma mãe cristã que quer saber se sua filha pode cursar com
segurança uma universidade secular -- haverá poucos desafios às idéias prevalecentes no
mundo evangélico e aqui e ali algo em que pensar um pouco mais.
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Para iniciar, quero definir alguns termos, Primeiro, estarei usando o termo
“cultuara" no seu senso mais amplo, referindo-me tanto à cultura popular (esportes,
política, ensino público, música popular e diversões, etc. e a alta cultura ( horticultura,
academicismo, música clássica, ópera, literatura, ciências, etc.). Uma definição útil e
abrangente de “cultura” para nossa discussão pode ser “a atividade humana que
intenciona o uso, prazer e enriquecimento da sociedade”. Segundo, por “igreja” estou
dizendo a igreja institucional, -- “onde a Palavra de Deus é pregada e os sacramentos são
administrados corretamente”, como diziam os reformadores. Quando, por exemplo, se diz
que a igreja não deve confundir sua missão com as esferas da política, arte, ciência, etc.,
não se está sugerindo que os cristãos como indivíduos devessem abandonar esses campos
(muito pelo contrário), mas que a igreja como instituição deve observar a sua missão
divinamente ordenada. Essa igreja institucional deve ser entendida como expressão
visível do corpo universal de Cristo através de todos os séculos e em todo lugar. A igreja
institucional recebeu a comissão única de pregar a Palavra e fazer discípulos, Meu
emprego da palavra “igreja” , portanto, não é apenas uma referência ao corpo coletivo de
cristãos individuais, mas ao organismo vivo fundado por Cristo, ao qual foi confiado o
seu próprio ministério pessoal.
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.Capítulo
Um
COMO SER UM CRISTÃO MUNDANO
“Só quero servir ao Senhor”.
Qual a sua primeira impressão dessa declaração? Quando um novo crente que é
advogado há vinte anos diz que resolveu “virar as costas para o mundo” e “entregar sua
vida a Jesus”, nós não presumimos automaticamente que isso vá incluir algum
compromisso radical com uma nova profissão? Talvez ela passe a trabalhar num serviço
de advocacia cristã ou até mesmo abandonar por completo o direito para uma profissão
ligada à igreja.
Normalmente consideramos a paixão por servir ao Senhor como paixão por
missões, evangelismo e envolvimento nas atividades e nos ministérios da igreja
institucional. Mas quero que repensemos essa idéia através dos seguintes capítulos.
Quero que consideremos a possibilidade de que servir ao Senhor signifique um
compromisso renovado em desempenhar a função à qual fomos chamados com maior
excelência ao invés de abandoná-la por outro chamado.
Alguns cristãos têm dificuldade em entender sua relação para com o mundo
porque percebem a terra como sob o reinado de Satanás, portanto, é melhor concentrar no
evangelismo e no crescimento espiritual particular do que se envolver numa atividade
secular. Através deste livro exploraremos o caráter da espiritualidade evangélica que
afirme o mundo, desde a Reforma aos Puritanos e em algumas expressões
contemporâneas. Especialmente no próximo capítulo, procuraremos também ver a
importância de mantermos nosso envolvimento com o mundo num equilíbrio correto.
SATANÁS ESTÁ NO CONTROLE?
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“O deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não
resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é à imagem de Deus”(2
Coríntios 4:4).
A partir deste trecho, muitos, através dos séculos, concluíram que o mundo está
sob controle de Satanás e suas hostes. Os livros tremendamente populares de muitos
“guerreiros espirituais” contemporâneos contribuíram para um dualismo cósmico entre
Deus e Satanás, luz e trevas, o bem e o mal. Este tem sido um aspecto do impulso
gnóstico que sempre volta a aparecer, vendo este mundo como um campo de batalha
cósmica entre forças espirituais cujo destino será decidido pela habilidade de terráqueos
com conhecimento e destreza espiritual. Assim, “mapeamento espiritual”, promulgado
por crescente número de missiólogos, tenta identificar “pontos quentes” de atividade
demoníaca com o alvo de “amarrar" os maléficos opressores da região. Naturalmente, soa
como algo saído de um livro medieval de superstições, mas é levado muito a sério por
bom número de líderes evangélicos.
Os reformadores se alarmaram com o reavivamento, em sua época ,da antiga
heresia do maniqueísmo, ma forma de gnosticismo que enfatizava o dualismo entre o
“deus bom” e o “deus mau”. Como ressaltou Calvino com respeito a este trecho, “Paulo
diz em outro lugar que ‘muitos são chamados de deuses’ (1 Coríntios 8:5) e Davi declara
que ‘os deuses das nações eram demônios’ (Salmo 96:5)... Quanto aos maniqueístas esse
título não sustenta mais os seus pontos de vista do que quando o diabo é chamado de
príncipe deste mundo... Pois o diabo é chamado o deus deste mundo exatamente da
mesma forma como Baal é chamado o deus daqueles que o adoram ou o cão é chamado o
deus do Egito”. Não são na realidade deuses, mas são tratados como tais pelas
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imaginações obscurecidas das nações. Conforme Lutero disse “O diabo é o diabo de
Deus”, Calvino também argumentava que toda influência demoníaca e satânica do mal
estava sob o comando soberano de Deus e está sob o controle do verdadeiro Soberano do
Universo.
C. Peter Wagner relata um caso em que um missionário pentecostal distribuía
folhetos. A fronteira entre o Uruguai e o Brasil passava pela rua principal desta
cidadezinha. Quando o missionário percebeu que os do lado uruguaio não aceitavam os
folhetos, enquanto os brasileiros aceitavam, Deus lhe deu uma “palavra”: O “valente”
estava amarrado de um lado, mas não no outro. Wagner oferece mais um exemplo:
Omar Cabrera, de Santa Fé, Argentina, é um evangelista que leva a sério a
necessidade de amarrar o valente ou quebrar o poder da hierarquia territorial. Quando ele
vai a uma nova área ele se fecha sozinho num quarto de hotel por uns quatro ou cinco
dias de jejum e oração intensos, Ele luta com as forças do inimigo até que identifique os
valentes que dominavam o território. Então ele luta com eles e os amarra no nome do
Senhor. Quando isso acontece ele simplesmente vai para a reunião e anuncia ao auditório
que estão libertos. Os doentes começam a ser curados e os perdidos começam a ser salvos
até mesmo antes dele pregar e orar por eles. Essa espécie de evangelismo de poder fez
com que o seu movimento, Visão do Futuro, crescesse de 10.000 para 135.000 crentes em
cinco anos.i
Naturalmente, as Escrituras não relatam nenhum exemplo de pessoas se salvando
antes de ouvir a pregação da Palavra. Até mesmo muitos títulos de livros evangélicos
populares demonstram essa fascinação com a guerra cósmica que nada tem a ver com a
batalha espiritual descrita na Escritura. Na Bíblia, a batalha espiritual ocorre sobre esta
terra, quando Satanás tenta confundir ou diminuir no crente a confiança em Cristo e na
sua justiça imputada como suficiente para a salvação. Em outras palavras, é uma batalha
pelos corações e pelas mentes, e tem a ver com verdade versus erro, fé versus
incredulidade, crença em Cristo versus crença em qualquer outra coisa ou pessoa. Não se
focaliza em “encontros de poder” e exorcismos, mas no “valente” ser expelido por um
“homem mais valente” que toma o seu lugar. Esse modismo popular tem mais afinidade
com os filmes de “Guerra nas Estrelas” e é influenciado mais pelo sensacionalismo da
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cultura popular, com sua atração pelo paranormal, do que por trechos claros das
Escrituras.
“Encontros de Poder” não era exatamente o que Paulo tinha em mente ao referirse a Satanás como “o deus deste século”. Ele não dizia que um bom Deus reina no
âmbito espiritual enquanto um deus mau reina nas arenas “seculares” e “mundanas”.
Satanás é apenas deus deste mundo no sentido que ele está sendo servido como se fosse
um deus. Como ministro da ira, Satanás cegou os corações de judeus e gentios, mas é
sempre dentro da permissão divina, e essa permissão poderá ser retirada sempre que Deus
quiser.
Não há, portanto, razão para ver este mundo como inerentemente mau, campo de
batalha para o controle do planeta e do universo, cujo resultado é determinado pela
habilidade de alquimistas espirituais amarrarem os demônios e fazerem o mapeamento
espiritual das regiões. Embora nós, homens e mulheres pecadores, tornamos este mundo
em lugar de rebeldia, maldade e desordem, Satanás não tem a mínima chance de vitória
final; ele não tem, em tempo algum, vitória sobre os propósitos de Deus e nem pode
frustrar os intentos de Deus (Daniel 4:34-37). Contudo, ele é incansável em tentar
enfraquecer a confiança do crente na graça de Deus. A resposta a isso tem que ser um
entendimento mais firme do evangelho.
A soberania de Deus nos consola na crise
e contém nosso orgulho no triunfo.
A soberania de Deus não é apenas um ponto essencial da fé cristã em especial ( e
do teísmo em geral), mas é também imensamente prática para nossa confiança de que
Deus luta as nossas batalhas por nós; o mal nunca terá a última palavra. Na cruz, nossa
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dívida não foi apenas cancelada, mas “despojando os principados e as potestades,
publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz” (Colossenses 2:15). Não
seria o máximo da arrogância, beirando a blasfêmia, sugerir que é a vitória do crente
sobre as forças demoníacas ao invés do triunfo de Cristo, uma vez por todas, que garante
a libertação das amarras de satanás? É por proclamar o Evangelho, declara Paulo em sua
passagem famosa sobre batalha espiritual (Efésios 6), não por tomar sobre nós mesmos a
tarefa de extirpar as trevas espirituais, que o Reino de Deus é divulgado e o reino de
Satanás é diminuído.
Freqüentemente nossas causas políticas, como nossas cruzadas evangelísticas,
tendem a ignorar esta verdade fundamental, fazendo com que às vezes pareça que este
último movimento, mais recente e grandioso (a Direita Cristã na política, os Cumpridores
de Promessa, o movimento de Sinais e Maravilhas, AD 2000 no evangelismo e missões)
de nossa própria atividade e ambição frenética em projetos e empreendimentos atinja a
obra que as Escrituras atribuem à Cruz de Cristo. Ou, no outro lado, se a pessoa errada
estiver na Presidência, temos a impressão de que o universo está fora do nosso controle,
como se Deus dependesse de nós e de nossas maquinações para a realização do seu reino.
Muitas vezes, os crentes mais bem-intencionados se envolvem nessas causas com os
melhores motivos, mas é grande a tentação de esquecer, quando perdemos, que Cristo
ainda é Rei e que, quando nós ganhamos, ainda assim nós não o somos.
É claro que isso não significa que o triunfo de Cristo na cruz elimine nossa
responsabilidade de evangelizar as nações ou de ensinar-lhes a justiça, mas é afirmar que
a única forma de se trazer esta vitória às nações é por proclamar o que Cristo já realizou,
não por nossos feitos de grandeza e glória. Pois, diferente dos “super apóstolos”, como
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Paulo se referiu aos gnósticos, “Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo
Jesus como Senhor, e a nós mesmos como vossos servos por amor de Jesus” ( 2 Coríntios
4:5).
A soberania de Deus consola-nos em crise e contém nosso orgulho no triunfo,
lembrando-nos que não somos nós que determinamos o resultado das batalhas espirituais,
mas Cristo o Rei que luta por nós e já assegurou-nos a vitória final.
ALGUNS BONS EXEMPLOS
Sendo que este ainda é o mundo de Deus e que Ele reina soberano ainda mesmo
quando não reina como Salvador, como podemos nos tornar “cristãos mundanos” no
melhor sentido da frase? Talvez fosse útil observar a herança que temos no cristianismo
evangélico, não porque não houvessem grandes exemplos de fidelidade a essa missão
mundial antes da Reforma, mas porque este movimento restaurou a piedade que abarca e
afirma o mundo encontrada claramente exposta nas Escrituras Sagradas.
Martinho Lutero sabia que compreender que a aceitação do pecador perante um
Deus santo era resultado de uma “justiça estrangeira” que necessariamente conduziria a
revoluções nos relacionamentos humanos. Liberto de focalizar só para dentro, o crente
estava livre para tomar o mundo como uma atividade espiritual e piedosa, em vez de
separar-se dele com o entendimento distorcido de que estivesse assim se separando do
pecado. “Pois até mesmo na cela do monge,” Lutero lembrava, “eu ainda tinha aquele
malandro (sua própria natureza pecaminosa) ali junto comigo”.
Quando pessoas leigas comuns descobriram o Evangelho, foram de tal forma
revolucionadas por ele que queriam fazer tudo para promovê-lo. Longe de levar à
lassidão
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moral. inspirava zelo onde antes havia apatia. Na verdade, um sapateiro perguntou a
Lutero o que ele deveria fazer agora que conhecia o evangelho. Qual deveria agora ser o
seu chamado? Da mesma forma que o caso hipotético do advogado que queria servir a
Deus, mencionado no início deste livro, era uma pergunta óbvia para uma pessoa
medieval que fora treinada a achar que uma grande experiência religiosa requeria
devoção especial em termos de um chamado sagrado. A resposta do reformador foi
surpreendente para o sapateiro, do mesmo modo que surpreenderia muitos de nós hoje:
“Faça um bom sapato e venda-o com preço justo”. Quando lhe perguntaram o que faria se
ele soubesse que Cristo estava voltando amanhã, Lutero respondeu: “Eu plantaria uma
árvore”. Noutras palavras, Deus se agrada de nossa atividade comum e fiel neste mundo,
de tal forma que Lutero não achava que teria que estar em oração ou “exercícios
espirituais” no momento da volta de Cristo para receber a sua bênção.
Na família
Lutero é considerado por muitos historiadores como o pai do ponto de vista da
família que tornou-se parte de uma herança ocidental hoje em desaparecimento. Antes, a
falsa espiritualidade diminuía o valor de um lar piedoso no sentido de não considerar que
criar uma família fosse um ato de serviço a Deus em si mesmo. Era secular, mundano,
comum, e portanto, os cristãos mais devotos se separariam de tais preocupações
mudanças e concentrariam em sua ascendência espiritual pessoal na escada de
experiência e piedade cristã. Relações sexuais eram consideradas um mal necessário com
propósitos de procriação, mas Lutero e os outros reformadores causaram um grande
escândalo ao dizer que eram também com propósito de prazer e comunhão no
relacionamento conjugal. Os relatos que temos da vida no lar de Lutero estão cheios de
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retratos de uma família sentada em volta da mesa orando, lendo a Bíblia e cantando,
tocando instrumentos e jogando, brincando.
Na arte
Na arte as coisas também começavam a mudar, como veremos em detalhes
quando discutirmos o cristianismo e as artes. Pode-se observar a transformação quando se
visita um museu moderno que tenha uma coleção medieval e uma coleção do barroco
holandês. Alguns anos atrás, experimentei isso com um amigo católico romano com
quem eu estudava direitos humanos na França. Nós estivemos lendo juntos a epístola de
Paulo aos Romanos e ele estava ansioso por aprender mais a respeito do Evangelho. Um
dia, quando visitávamos o Louvre em Paris, visitamos a ala medieval e depois o barroco
holandês. Sem muita direção, ele pôde ver em ação os diferentes pontos de vista sobre o
mundo. as pinturas medievais, por exemplo, o assunto era quase sempre religioso.
Mesmo quando retratados assuntos seculares (tais como os mitos pagãos), personagens
ou imagens bíblicas eram integradas como se de alguma forma o assunto secular exigisse
alguma justificativa.
Os quadros populares de Nossa Senhora e Filho, refletindo as influências
bizantinas, eram freqüentemente iconográficas: isto é, achatadas, unidimensionais e
altamente decorativas. A intenção óbvia era inspirar devoção e ensinar uma lição moral
ou espiritual. Em nada diferente de nossos próprios dias, a imagem, mais do que a
palavra, era o meio de comunicação e instrução, e a arte servia um propósito didático e
moral. A igreja encomendava a maior parte das obras artísticas, e era assim que uma
pessoa de talento ganhava a sua vida no mundo medieval.
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Fomos então para a ala do barroco holandês e imediatamente notamos uma visão
totalmente diferente da vida e da religião. Primeiro, a maioria das obras era secular, ou
seja, não foi feita para pregar ou ensinar. Não tentavam informar ou inspirar uma piedade
fora do mundo. Somos tocados pelas cenas pastorais, pequenos retratos de vida comum
nos vilarejos, homens e mulheres trabalhando, famílias (como a de Lutero) em volta de
suas mesas tendo prazer no que os outros faziam para divertir com instrumentos musicais,
(às vezes com a participação do pastor, indicando a afirmação desta vida no lar pela
igreja). Há ainda as natureza mortas, com tigelas de frutas cuidadosamente representadas,
e há as cenas tristes com a pobreza dos sem-teto contrasta com a animação da vida na
corte. Este mundo era assunto aceitável de maravilha e estudo, mesmo quando não desse
uma lição espiritual ou moral ou convertesse os perdidos. Ainda assim, embora não fosse
seu propósito explícito, os quatros eram ilustração da diferença entre a piedade católica
romana na qual meu amigo fora criado (e que havia rejeitado) e a perspectiva evangélica.
Deu-me um exemplo que explicava o próprio evangelho e discutia as formas como os
dois evangelhos diferentes criavam dois distintos pontos de vista sobre o mundo.
Até mesmo nos quatros religiosos, nota-se uma revolução na visão do mundo que
tinham os artistas. Por exemplo, nos quadros medievais da Família Sagrada, há um retrato
achatado, unidimensional. Maria, José e Jesus vestem mantos caros e têm halos dourados
em volta de suas cabeças. Afinal de contas, o propósito era inspirar devoção, ensinar e
trazer os leigos ao contato com o Deus invisível. No quadro de Rembrandt do mesmo
assunto, ele fez a sagrada família sentada no canto de uma sala. Na parte da frente, que
ocupa a maior parte da pintura, vê-se um lar típico de campesinos. Todas as indicações
de vestimenta e ambiente mostram que é uma família normal e simples de gente do
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campo. A fonte de luz é natural" em vez de emanar dos halos, entra pela janela como luz
natural do sol da tarde.
Há, portanto, dois princípios importantes funcionando: Primeiro, há a aceitação
do mundo como é de verdade, criado por Deus, sob o cuidado de Deus, mas quebrado e
corrupto. É totalmente realista e nada sentimental. Existe perspectiva verdadeira, dando a
impressão de que esta é uma família de verdade que mora num lugar de verdade, dentro
de um tempo verdadeiro, e não uma família espiritualizada, efêmera sem ligação com a
realidade do mundo. Parte desta perspectiva se deve à influência da Renascença, que se
rebelou contra a visão medieval e sua maneira estática de ver a vida e a história,
insistindo em que o estudo de história e das disciplinas seculares pudesse ser um fim em
si mesmo, separado do controle de tudo da espiritualidade da igreja. Mas a Reforma
explorou esse interesse em recuperar um senso de história e perspectiva verdadeiro -- não
apenas recuperando a antiga fé, mas também descrevendo o mundo real em termos
verdadeiros. Verdade: Jesus é Deus, mas a igreja medieval de tal maneira enfatizara a sua
distância e divindade que os devotos tinham que olhar para os santos e para Maria para
entender alguma coisa. A Reforma enfatizou a verdade que deus se fez homem, trazendo
dignidade à vida terrena e secular. Em Cristo, Deus tornou-se vizinho próximo da
pessoa. O segundo princípio é este: não é necessário “santificar" a arte exigindo que ela
sirva aos interesses morais e religiosos da igreja. A criação é uma esfera legítima em si
mesma. O falecido historiador holandês Hans Rookmaker, amigo de Francis Schaeffer,
resumiu bem esse conceito no título de seu livrete “Art needs no justification”( A arte não
precisa de justificativas).
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Embora a visão medieval do mundo produzisse uma multidão de obras artísticas
surpreendentes, belas e evocativas nas habilidosas apresentações do ideal religioso, a
visão Reformada libertou a arte das amarras, permitindo que ela fosse um
empreendimento puramente secular, um dom de Deus. Nomes tais como Rembrandt,
Vermeer, de Hootsch, Cranach, Holbein, e Dürer figuram alto na história da arte, dando
expressão artística a esse ponto de vista. Na verdade, Albrecht Dürer (1471-1528) se
converteu ao Evangelho e tornou-se aluno e amigo pessoal de Lutero, pois os ensinos do
reformador o “livraram de grandes ansiedades”. Dürer, que já abraçara o estilo
renascentista sobre o medieval, agora sentiu-se livre para retratar assuntos seculares nas
ilustrações para textos científicos, nos mapas de exploradores, e retratos de pessoas. Suas
gravuras (tais como seu famoso “Quatro cavalheiros do Apocalipse”) eram muitas vezes
religiosos, mas em estilo realista. Quando esses artistas apelavam para as histórias
bíblicas, os personagens vestiam roupas contemporâneas e representavam vidas
verdadeiras de pessoas de todas as camadas da vida, ricos e pobres. Lucas Cranach, que
morreu em 1553, fez muitos retratos e peças para altares de igrejas evangélicas.
O reformador de Zurique, Ulrico Zuinglio (1484-1531) proibiu a arte e a música
na igreja porque insistia na centralidade única da Palavra e dos sacramentos. Contudo ele
próprio tocava instrumentos e fundou a orquestra de Zurique. Vez após vez vemos a
atitude dos reformadores como sendo longe de anti arte ou anti música; queriam, pelo
contrário, libertar a Palavra no culto e as artes na criação, desde que estas não tivessem
primazia sobre a Palavra. “A música é um maravilhoso dom de Deus’, disse ele, “e
depois da teologia, eu não desistiria do meu pequeno conhecimento musical por nada. A
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juventude precisa aprender esta arte, pois ela forja pessoas excelentes e habilidosas”.ii Até
mesmo professores escolares devem saber cantar, insistia Lutero.
Conquanto muitos dos anabatistas defendessem desprezar as artes como sendo
“mundanas”, Lutero contra argumento: “Não sou da opinião de que as artes devam ser
jogadas de lado ou desprezadas pelo Evangelho, como protestam algumas pessoas super
espirituais; eu quisera ver, com prazer, todas as artes, especialmente a música, a serviço
daquele que as deu e as criou”iii. Compositor de hinos ele mesmo, Lutero inspirou toda
uma tradição de hinologia evangélica.
Na música
O nome de Johann Sebastian Bach vem à mente como alguém que levou à frente
essa visão. Tanto suas peças sacras quanto as seculares levavam a mesma assinatura
“S.D.G.”⎯o dizer reformado “Soli Deo Gloria” (só a Deus a glória), e ele mandou gravar
essas letras no seu órgão em Leipzig. G.F.Händel declarou “Que coisa maravilhosa é ter
certeza de nossa fé! Que maravilha ser membro da igreja evangélica, que prega a livre
graça de Deus através de Cristo como esperança dos pecadores! Se fôssemos depender de
nossas obras -- meu Deus, o que seria de nós?”ivNo século dezenove, um jovem músico
judeu se converteu a Cristo e compôs sua célebre “Sinfonia da Reforma” como tributo ao
dom gracioso de Deus. O nome daquele jovem foi Felix Mendelssohn.
Esses grandes artistas puderam mover-se livremente entre o secular e o sagrado
sem confundir nem um nem o outro, pois estavam de bem com a realidade, fosse ela a
realidade sobre a Criação e a Queda, épicos históricos, impressões delicadas de uma terra
estrangeira ou a realidade da salvação do pecado pela redenção em Cristo. Eles se
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moviam confortavelmente entre o secular e o sagrado como âmbitos legítimos e
divinamente ordenados, mas não confundiam os dois.
A tradição reformada mais formada pela influência de João Calvino produziu
também uma rica tradição artística. Não só o Barroco Holandês era tributo à sua
influência, como também a tradição do cântico dos salmos, hoje em dia muito esquecida,
que foi popularizada durante o seu ministério em Genebra. Crianças de escola na França
cantavam os Salmos nos pátios onde brincavam (até que o mestre de escola os compelisse
a parar) e estes hinos majestosos foram cantados em lugares longínquos como na
Hungria, Polônia, Escócia e Itália durante a Reforma. Embora Calvino admoestasse
contra colocar a igreja de volta sob as leis cerimoniais de Israel, que eram apenas sombra
do reino futuro e passaram com a vinda de Cristo, ele encorajou o desenvolvimento de
sociedades musicais na comunidade. Para o cântico sagrado dos salmos nas igrejas, ele
empregou o poeta mais famoso da Renascença Francesa, Clement Marot (1497-1544)
para escrever o texto e compor a música com a assistência de Louis Bourgeois.
Até mesmo nas artes dramáticas, houve um impacto notável. A maioria das peças
dramáticas era em forma de peças medievais de moralidade, que freqüentemente tinham
o mesmo final: o bom era recebido na glória e os que não aprenderam a lição eram
lançados no inferno. Mas os reformadores libertaram também esta esfera do domínio da
igreja. Na verdade, o pastor associado de Calvino e seu sucessor em Genebra, Teodoro
Beza (1519-1605) escreveu a primeira tragédia francesa, entre escrever seus imensos
tomos teológicos. Os puritanos na Inglaterra estavam longe de condenar o teatro, como
uma obra teatral importante por Martin Butler, Theater and Crisis, 1632-1642
22
(Cambridge University Press, 1984) demonstrou. Muitos deles eram, eles próprios,
arquitetos do palco shakesperiano.
Na literatura
Nas artes literárias, a Reforma inspirou liberdade das constrições eclesiásticas
também, Vemos aí o surgimento do romance moderno, estudos históricos e uma
variedade de explorações literárias. Lutero escreveu sobre uma variedade de assuntos
seculares, e Calvino até mesmo experimentou com a poesia. A primeira obra publicada
de Calvino foi um comentário De Clementia (sobre a clemência), um estudo do antigo
jurista romano Sêneca. Beza escreveu textos políticos que muitos historiadores hoje
consideram como tendo grande influência na formação da teoria democrática moderna.
Grande número de mudanças perturbadoras e transformadoras
poderiam ocorrer na nossa compreensão do universo
sem que despojassem a revelação infalível da Escritura.
A “Era Dourada” da literatura inglesa está ligada à reforma, com nomes tais como
Spenser, Donne, Herbert, Milton e uma multidão de outras luminárias foram resultado da
enorme influência daquele movimento evangélico.
Na Ciência
O mesmo espírito prevaleceu na ciência. Não há melhor exemplo da confusão e
do domínio da igreja sobre os empreendimentos científicos do que no caso de Copérnico.
Conquanto deixaremos a discussão da crise em si para o capítulo apropriado, basta aqui
dizer que quando a igreja confunde as Escrituras com um determinado sistema filosófico
em particular, ela facilmente fala onde a Escritura não falou, enfranquecendo a autoridade
bíblica quando as afirmativas dogmáticas da igreja são impossíveis de ser reconciliadas
23
com os fatos. A igreja confundiu a ortodoxia bíblica com Aristóteles, e quando a ciência
provou ser falsa a cosmologia geocêntrica, muitos concluíram que a Bíblia simplesmente
fora sobrepujada pelos fatos.
Para os reformadores, a Bíblia era sobre Cristo, não sobre o relacionamento dos
planetas. Calvino louvou a astronomia e admoestou contra a expectativa de Moisés dar
informações científicas sobre os movimentos dos planetas e dos astros. Não devemos
“censurar a Moisés por não falar com maior exatidão... Moisés escreveu em estilo
popular coisas que, sem instruções, pessoas comuns, dotadas de bom senso, são capazes
de entender; mas os astrônomos investigam com grande esmero aquilo que a sagacidade
da mente humana pode compreender”.vComo a Bíblia não foi feita como manual de
teoria artística, literária, musical ou política, também não deveria ser vista como livro
texto para as ciências. Tudo nas Escrituras é verdade, no sentido daquilo para o qual foi
escrito pelo autor original, mas o propósito das Escrituras não é nos contar tudo sobre
todas as coisas, mas explicar -- na linguagem mis comum e básica possível -- o progresso
da obra salvífica de Deus em Cristo através da história da redenção.
Isso libertou o cientista para seguir sua vocação sem ter aqueles não treinados nas
ciências constantemente julgando as suas observações. Os grandes cientistas protestantes,
portanto, criam que “o segundo livro de Deus”, como se referiam à criação, se
harmonizaria perfeitamente com o “primeiro livro” (as Escrituras), sendo que Deus era o
autor de ambos. Foi dado espaço à razão e à observação empírica para explorar as “coisas
terrenas" sem medo de derrubar o céu. Foi só quando a ciência, após o Iluminismo,
tentou exceder os seus limites de observação e postular sobre a natureza daquilo que não
se vê que caiu na mesma confusão que fora a vergonha da igreja católica romana.
24
Enquanto muitos cristãos estavam nervosos sobre o surgimento da astronomia e das
mudanças em potencial que ela poderia trazer para o modo que se entende o universo,
avisou Calvino, “Este estudo não deve ser reprovado, nem a ciência deve ser condenada,
por que algumas pessoas desesperadas tendem a rejeitar ousadamente qualquer coisa que
lhes é desconhecida”vi
Portanto, os reformadores deram grande espaço à “revelação natural" e às
disciplinas seculares que desfraldavam a sabedoria divina de modo a complementar as
Escrituras. Como estavam convencidos de que a Bíblia é a respeito de Cristo e não
discorre sobre a ciência, não tiveram dificuldade em aceitar a idéia de que grande número
de mudanças perturbadoras e transformadoras poderiam ocorrer na compreensão do
universo sem que despojassem a revelação infalível da Escritura. . Talvez as nossas
pressuposições sobre o que a Bíblia ensina fossem derrubadas, mas eventualmente,
chegaríamos a conclusão que as novas descobertas (se fundamentadas em fatos) se
harmonizavam perfeitamente com as Escrituras, não importa o quanto eram deferentes de
nossas queridas opiniões pessoais. John Dillenberger observa que os reformadores “
foram positivos quanto ao papel das ciências em geral e da astronomia em particular. A
abordagem teológica de Lutero e de Calvino oferecia uma visão da ciência e da Escritura
que teria estado aberta para Copérnico”.vii
O escolasticismo protestante, movimento que seguiu imediatamente à Reforma,
refinando e sistematizando o protestantismo evangélico num todo coerente, continuou
com essa atitude afirmativa para com a ciência e ajudou grandemente a contribuir para a
sua ascensão. Kepler, Bacon e Newton estão entre os maiores astros nessa constelação.
25
Kepler se referiu a esse empreendimento como “pensar os pensamentos de Deus após
ele” e foi um dos primeiros apoiadores das novas teorias de Copérnico.
Os puritanos fundaram a famosa Sociedade Real, cidadela das ciências britânicas.
Um dos seus fundadores, Thomas Sprat, comparou a reforma, com a libertação dos
acréscimos da Palavra de Deus, com o surgimento das ciências, dando crédito ao
primeiro pelo último. Roberto Boyle ( 1627-91), um dos primeiros pioneiros da física,
desejou para os colegas da Sociedade Real “que se vá bem nas louváveis tentativas de
descobrir a verdadeira natureza das obras de Deus, e [orava] para que eles e os demais
que buscavam as verdades da física pudessem de coração render as suas realizações para
a glória do Autor da Natureza e para o benefício da humanidade”.viii Lewis Spitz, da
Universidade de
Stanford, nota também que Boyle escreveu um livro intitulado A Excelência da Teologia
Comparada com a Filosofia Natural, e, observa Spitz: “Ninguém pode negar a
preponderância dos protestantes entre os cientistas após 1640. Luteranos, anglicanos e
acima de tudo calvinistas fizeram mais descobertas científicas do que os católicos e
apreciam ser mais flexíveis em colocá-las em prática”.ix
Na educação
Uma área de preocupação dos reformadores que consideraremos é na educação,
pois aqui, especialmente nos dias atuais, sentimos o ardume das palavras de H.G. Wells:
“A civilização é uma corrida entre a educação e a catástrofe”.
Os reformadores não se limitaram a amaldiçoar as trevas;
estavam decididos a trabalhar de maneira positiva
26
para o bem do próximo e para a glória de Deus.
Martinho Lutero persuadiu o governo a proclamar a educação universal
compulsória tanto para meninas como para meninos. Com seus associados ele criou um
sistema de educação pública na Alemanha. o cristianismo era religião da Palavra, e
aqueles que dependiam de imagens religiosas e só “ouvir falar” eram, a princípio
espiritualmente empobrecidos. Mas eram também culturalmente empobrecidos, e esse era
um ponto importante também. Com este propósito o colega de Lutero, Melâncton,
declarou: “A finalidade última que confrontamos não é apenas a virtude particular mas o
interesse do bem público”, e exortava os professores a “tomar a vocação escolar no
mesmo espírito com que tomariam o serviço de Deus na igreja”. x Imagine a liberdade
que isso deu ao professor comum de escola pública! Calvino argumentou em suas
Ordenanças de 1541: “Como é necessário preparar para as gerações futuras a fim de não
deixar a igreja num deserto para os nossos filhos, é imperativo que se estabeleça um
colégio para se instruir os filhos e prepará-los tanto para o ministério quanto para o
governo civil”. Esta Academia, que mais tarde tornou-se na Universidade de Genebra,
tornou-se modelo para as grandes universidades da Europa e do Novo Mundo. Muitos
dos nomes associados à reconstrução ou fundamentação das grandes universidades foram
anteriormente alunos desta Academia. Em 1536, os cidadãos de Genebra assinaram um
pacto comprometendo-se a enviar seus filhos às recém formadas escolas públicas.
João Comenius foi reformador polonês que procurou integrar sua visão reformada
do mundo com a visão da educação pública universal. Ele é visto por muitos como sendo
27
o pai da educação moderna. Avançada para o seu tempo, sua filosofia de educação
revolucionou grandes partes da Europa.
Semelhantemente, o First Book of Discipline (primeiro livro de disciplina)
elaborado por John Knox em 1560, conclamou por um sistema nacional de educação
pública para a Escócia. Antigos mosteiros foram transformados em bibliotecas e escolas.
Como diz Lewis Spitz, “Não foi por acidente que a alfabetização universal foi atingida na
Escócia e em diversos estados protestantes da Alemanha”.xiLonge de serem anti
intelectuais ou temerosos do estudo secular, os reformadores acreditavam que o
cristianismo só poderia florescer em meio a um povo que lesse e fosse culto. Seu
treinamento humanista os preparou amplamente para a tarefa; da tradição reformada
surgiram as universidades de Zurique, Estrasburgo e Genebra, Edimburgo, Leiden,
Utrecht, Amsterdã, Harvard, Yale, Princeton, Brown, Dartmouth e Rutgers. Os Puritanos
restauraram Oxford e Cambridge, e as igrejas alemãs luteranas e reformadas
reconstruíram a decadente Universidade de Heidelberg. Como reação a esse movimento
gigantesco de educação, os Jesuítas foram fundados a fim de construir universidades e
colégios para combater o avanço do Protestantismo.
“Mas isso foi há tanto tempo, e as pessoas de então estavam interessadas no
aprendizado”, dirão alguns. Contudo, o mentor de Calvino e principal reformador em
Estrasburgo, Martinho Bucer, lamentou:
Hoje em dia ninguém quer aprender a não ser o que dá dinheiro. Todo mundo
corre atrás das profissões e ocupações que dão menos trabalho e trazem maior lucro, sem
se preocupar com o próximo ou por uma reputação de honestidade e bem. O estudo das
artes e ciências está sendo deixado de lado para os tipos mais baixos de trabalhos
manuais... todas as boas cabeças a quem foram dotados por Deus a capacidade para
estudos mais nobres estão ocupadas pelo comércio.xii
28
Os reformadores não apenas amaldiçoaram as trevas; estavam decididos a
trabalhar de maneira positiva para o bem do próximo e para a glória de Deus. Tomaram o
estandarte e ergueram os padrões para toda uma época, em vez de simplesmente lamentar
as condições e propor legislação. Estava longe de ser perfeito, mas foi uma experiência
notável naquilo que pode ser feito quando o povo de Deus é libertado pelo Evangelho
para o bem de seu próximo e para a glória do seu Redentor.
Mas esse testemunho evangélico, naturalmente, não terminou com os séculos
dezesseis e dezessete, assim como não começou com eles.
Hoje
Um exemplo moderno é o de Abraão Kuyper (1837-1920), cuja carreira começou
como um pastor liberal na Holanda. Após formar-se em teologia pela Universidade de
Leiden, Kuyper foi chamado por uma pequena paróquia do interior onde vários dos seus
paroquianos o levaram a converter-se à fé ortodoxa em Cristo. Daí em diante, tornou-se
pregador popular em Amsterdã, desafiando o liberalismo com uma argumentação sólida,
tornando-se editor do jornal De Standaard, e depois, acrescentando à sua vida já
ocupada, membro do Parlamento holandês. Kuyper se consagrou ao chamado de estadista
e fundou o Partido Anti-revolucionário, um sistema nacional de escolas cristãs e a
Universidade Livre de Amsterdã, onde em seu discurso inaugural ele declarou: “Não
existe uma só polegada, em todo o domínio de nossa vida humana, da qual Cristo, que é
soberano de tudo, não proclame ‘Meu!’”.
A dedicação de Kuyper aos princípios democráticos não caiu bem com muitos de
seus colegas, e seu compromisso para com os direitos civis dos trabalhadores o alienou
de muitos dos seus correligionários de partido. Apesar dessas diferenças, Kuyper recebeu
29
doutorados honorários da universidade de Princeton em 1898 e tornou-se Primeiro
Ministro da Holanda três anos depois. Após sua carreira oficial, Kuyper assumiu o papel
de estadista-senior e escreveu muitos livros sobre uma variedade de assuntos sobre os
quais parecia ter um conhecimento enciclopédico, escrevendo sobre arte, estrada de ferro,
viagens, e a crise de autoridade cultural que estava por vir no Ocidente.
Uma das contribuições importantes de Kuyper foi sua insistência de que os
cristãos na política servissem à nação toda e que não apenas promulgassem o próprio
bem. O “povo pequeno”, uma das frases favoritas de Kuyper, era na verdade o grande
povo sobre o qual o magistrado deve servir com diligência singular. Portanto, Kuyper foi
capaz de entrar no que tinha se tornado um ambiente pluralista, apoiando as liberdades de
todos os cidadãos holandeses e imigrantes, enquanto encorajava o avanço de cada grupo,
libertando-os a seguir após suas próprias esperanças, línguas, tradições culturais. e fé
religiosa. Foi neste ambiente que o cristianismo floresceu novamente naquela nação,
embora não sem um bom número de problemas dentro das próprias igrejas.
Contudo, Kuyper fez versões “cristãs” de muitas coisas no mundo: escolas cristãs,
jornais, e partidos políticos tendiam a obscurecer a confiança protestante anterior no
âmbito da natureza como possuindo luz suficiente e justificativa para sua existência sem
ter de ser organizado especificamente como sendo cristã. Esse espírito kuyperiano
tornou-se especialmente atraente em alguns círculos da América do Norte, porque abarca
o mundo e rejeita a retirada pietista da sociedade, contudo não se pode concluir
rapidamente demais que seja possível encontrar uma filosofia, teoria política ou estética
distintamente “cristã”. Se estes estão realmente dentro do âmbito da graça comum e
revelação natural, não exigem uma explicação especificamente cristã. Procurando por
30
uma tende apenas a polarizar os cristãos em contraposição aos não cristãos até que os
crentes sejam novamente exilados da praça pública, forçados a seguir sua filosofia
“cristã” dentro de seus próprios guetos espirituais.
Existe também um perigo em algumas formas do pensamento kuyperiano em
termos de confundir o senhorio de Cristo na redenção (ou seja, sobre sua igreja) com o
senhorio de Cristo sobre a criação. Se, por exemplo, um líder evangélico se levantasse
esta semana e declarasse, nas palavras de Kuyper, que “Não existe uma só polegada, em
todo o domínio de nossa vida humana, da qual Cristo, que é soberano de tudo, não
proclame ‘Meu!’”, a mídia secular provavelmente tomaria essas palavras como uma
tentativa de impor a fé cristã sobre toda a sociedade. No entanto, o próprio Kuyper não se
referia a um golpe religioso, mas estava destacando o senhorio de cristo sobre “todo o
domínio de nossa vida humana”. Em outras palavras, as vidas dos crentes devem ser
regulamentadas e regidas pela vontade revelada de Deus, não apenas nos domingos, mas
às segundas-feiras também. Todo pensamento tem que ser levado cativo a Cristo,
declarou Paulo, Homens e mulheres todos devem se curvar ante o reino de Cristo sobre
toda a vida, mas somente os crentes farão, de fato, isso -- até o ;ultimo dia, quando “todo
joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de
Deus pai”(Filipenses 2.10-11). O pluralismo religioso contemporâneo torna anacrônicas
todas as tentativas da “cristandade”; contudo, ainda há muito que permanece útil.
Ao final de sua vida, Kuyper tinha aberto caminho para uma Igreja Reformada
Nacional que recobrara sua ortodoxia e fé viva, havia iniciado um sistema nacional de
escolas cristãs, e servira àqueles além do escopo do cristianismo como seu primeiro
ministro.
31
Muitos outros deixaram sua marca sobre o mundo. David Livingstone, grande
missionário e explorador, trabalhou infatigavelmente para acabar com o comércio de
escravos na África, enquanto o primeiro ministro britânico William Wilberforce e seu
círculo de amigos cristãos no governo finalmente levaram ao fim daquela instituição
terrível. Vemos o mesmo impulso na tímida e modesta Corrie ten Boom e nas vidas de
incontáveis outros cristãos da Resistência holandesa que esconderam judeus em suas
residências e lojas com perigo de suas próprias vidas. Quando o oficial japonês que
lançou o ataque sobre Pearl Harbor se converteu a Cristo, e abraçou o oficial
americano⎯cristão também⎯que estivera no comando durante o ataque, este espírito de
abraçar o mundo estava vivo e bem.
Heróis incontáveis simplesmente cumprem seus deveres com vistas à glória de
Deus e ao serviço da família e do próximo. Muitos daqueles a quem eu me referi são
europeus, com referência especial à Reforma protestante, e isto somente porque foi um
movimento que recuperou muito da percepção que traz uma nova compreensão de nosso
papel neste mundo. Esta mensagem tem feito com que incontáveis homens e mulheres de
todas as nações, que em si mesmos são pequenos aos olhos do mundo, grandes no reino
de Deus. Mas produziu também muitos dos benefícios culturais que fazem de nosso
mundo um lugar melhor no qual ouvir a melhor notícia de todas, as novas que deixam
pálidos, por comparação, todos os nosso maiores ganhos na cultura. No próximo capítulo
veremos o equilíbrio das diversas esferas em que os crentes estão envolvidos.
32
Capítulo Dois
SOBERANIA DE ESFERA:
CUIDAR DE NOSSOS
PRÓPRIOS AFAZERES
Mais um auxílio para ser um cristão mundano é a idéia de Abraão Kuyper de
“soberania da esfera”, que ele adaptou da insistência dos reformadores da pessoa
permanecer dentro da esfera de seu chamado e deixar claros os limites.
Mudamos as escolas através da política? A arte tem que servir uma finalidade
moral, política, religiosa ou terapêutica além de oferecer prazer e deleite estético? Os
esportes tomaram um lugar importante demais na sociedade? Essas são apenas algumas
perguntas práticas que encontram utilidade neste princípio.
Veio significar muito mais do que isto, ou seja, a existência distinta de toda
atividade humana, não apenas a independência da esfera do estado, mas também das
outras esferas. Como argumentam Kuyper, Meeter, e outros defensores da soberania da
esfera, essa idéia não se deriva de não gostar do estado ou da igreja, ou de quaisquer
outras instituições ou tarefas culturais. Nas Escrituras, encontramos as tarefas culturais
como sendo dadas antes mesmo da criação do governo, sendo este último necessário em
razão da Queda. Como eram anteriores na criação, são dadas, através das Escrituras,
existência distinta, como quando se contrasta a construção de cidade por Caim com a
construção do reino por Sete.
33
Henry Meeter define a seguir esta idéia:
Por isto queremos dizer que as organizações culturais, filantrópicas e quaisquer
outros grupos que se desenvolvem naturalmente da vida orgânica da sociedade humana,
como também as igrejas, não devem sua origem, existência ou princípio de vida ao
Estado. Eles têm um princípio interior e uma tarefa cultural própria, que lhes foi confiada
por Deus... sobre essa soberania que lhes foi dada pelo Criador o Estado não pode
infringir.1
Diferente de muitas das caricaturas sobre ele, o protestantismo historicamente tem
se oposto ao individualismo que vê a igreja ou a sociedade meramente como uma coleção
de indivíduos. Muitos cristãos de hoje aprovariam a citação acima porque desprezam o
governo, e muitos secularistas aprovariam-na porque não gostam da igreja, mas a base
para essa idéia é uma consideração bíblica. Uma discussão significativa na filosofia desde
os tempos de Heráclito e Parmênides, o debate entre o individualismo (os muitos) versus
coletivismo (a unidade) tem relevância especial no século vinte, em que vimos tanto a
anarquia quanto o comunismo totalitário desarraigar raças inteiras levando ao genocídio
na Europa e mais recentemente, África e Ásia. Será a sociedade apenas uma coleção de
seres isolados, cada qual atrás de seus próprios interesses que por acaso, de vez em
quando, coincidem com os interesses de outros seres isolados? Isso não pode ser
superficialmente descartado como teoria filosófica, pois a resposta à pergunta tem
movido os exércitos e talvez tenha mais a ver com o desmoronamento da família no
Ocidente moderno do que a política ou os índices de divórcio.
Discutiremos essa idéia mais detalhadamente no capítulo sobre a política, mas é
importante aqui apresentar o assunto, pois ele se relaciona com tudo mais que estaremos
discutindo. Por exemplo, na política, ativistas cristãos e liberais seculares muitas vezes
34
são mais parecidos do que desejamos admitir. Parecem compartilhar uma dependência do
estado e da esfera política ou judicial para resolver os problemas morais e espirituais da
sociedade. De acordo com pesquisas recentes, cristãos evangélicos são tão capazes de se
divorciar ou abusar seus filhos nos lares; têm sua parcela de abortos na catástrofe
nacional, e jovens cristãos são capazes de assistir mais horas de MTV do que seus
colegas não cristãos. Pais evangélicos talvez pressionem com resoluções iradas pedindo
oração e a colocação dos dez mandamentos nas escolas públicas, mas a maioria dos
crentes não sabe citar os dez mandamentos e demonstra uma ignorância tremenda quanto
aos temas e fatos mais básicos da Bíblia.
Surge a pergunta: Não seria melhor focalizar nos deveres dos pais nos lares em
vez de colocar a responsabilidade sobre os políticos? Seja por estimular a dependência
financeira e um sentimento de ter direitos por ser minoria, ou por encorajar soluções
políticas e judiciais para nossas enormes crises espirituais e morais, cristãos e secularistas
igualmente parecem ser filhos de sua era.
Na arte esperamos que haja utilidade social para o empreendimento. Deve nos
ajudar no culto ou no evangelismo, ou deve encorajar a moralidade e o patriotismo
cívico, ou desenvolver o caráter. Mas a arte tem seu valor intrínseco, que lhe foi dado
pelo Criador de todas as coisas boas. Como disse o cristão, historiador de arte,
H.R.Rookmaker: “A arte não precisa de justificativas”.
Se o estado está destituído de vida familiar, ou se a igreja
é superficial e corrupta no seu ministério, toda a sociedade
geme com a doença e a autodestruição.
1
.
35
A família também não é um apêndice de alguma outra instituição. Por vezes
pensamos no estado ou na igreja como sendo de maior importância, como quando um
crente gasta tanto tempo no ativismo político ou atividades eclesiásticas que seus próprios
filhos são negligenciados, perdidos na própria guerra em que a pessoa está tão
zelosamente enfronhada. Nos tempos de grande perseguição ou de secularismo profundo
e dominante, o povo de Deus sempre dobrou os seus esforços nos deveres para com a
família: filhos são instados a decorar o catecismo sob a tutela de pais piedosos que
modelam a visão cristã da vida tanto por seus ensinos quanto por seu exemplo pessoal.
Isso não quer dizer que eles se tornam mais rígidos e sérios em suas personalidades, mas
que se tornam mais apaixonados pela Palavra de Deus e por seu impacto sobre o círculo
de crentes mais próximos deles. Portanto, o lar torna-se em refúgio, uma “pequena
igreja”, como Lutero disse -- até mesmo um “pequeno seminário” onde os filhos sabem
pelo menos bastante sobre o que crêem e por que crêem para distingui-los do mundo
descrente. De início, isso pode parecer uma forma de escapismo: já que não conseguimos
ganhar o mundo, pelo menos nos retiramos para dentro das quatro paredes de nossa casa.
Não é isso mesmo que os secularistas queriam que nós fizéssemos⎯manter nossa fé fora
da arena pública? Mas não importa o que querem os secularistas; o que importa é o que
Deus quer que façamos, e ele declarou que é sua vontade que os pais assumam plena
responsabilidade por suas famílias. Não devem culpar outras instituições ( o estado, as
escolas, o “mundo” em geral) e nem depender delas para as condições do lar.
O lar é tão básico e central de todas as instituições sociais, não apenas porque foi
a primeira instituição da sociedade fundada por Deus, mas porque é o berçário da igreja.
A família, portanto, é a única instituição social que é ao mesmo tempo secular e sagrada.
36
Uma família ateísta não é menos fundada por Deus do que um lar cristão; é uma
ordenança da criação. Assim como incrédulos e crentes participam, ambos da imagem de
Deus, ao possuir um chamado divino ou uma vocação no mundo, e ao compartilhar a
graça comum, eles criam famílias não apenas por instinto biológico mas, devido àquela
imagem de Deus, continuam sendo criaturas que requerem comunhão. Os
relacionamentos familiares são os mais básicos para a natureza humana. Contudo, o lar
cristão é, nas palavras da Escritura, nitidamente distinto do lar de não crentes: “A
maldição do Senhor habita a casa do ímpio, mas a morada dos justos ele abençoa”
(Provérbios 3:33). O lar cristão é a expressão mais básica do corpo de Cristo e portanto, é
uma instituição civil, arraigada na criação, e uma instituição sacra, arraigada na redenção.
Santificado pela água e pela Palavra, essa assembléia santa deve ser zelosamente
guardada e defendida pelo pai, que exerce seu sacerdócio no lar, e pela mãe, que também
compartilha do sacerdócio de todos os crentes. Nenhuma instituição, nem mesmo a
igreja, deve ter prioridade sobre o lar. Kuyper levava tão a sério este ponto que as escolas
cristãs na Holanda eram organizadas e supervisionadas pelos pais, não pelo governo e
nem pela igreja.
Mas isso só funcionava porque os próprios pais eram bem ensinados nas igrejas.
Vemos imediatamente, portanto, a ligação entre as esferas, enquanto cada uma mantém
sua identidade distinta. Se o estado estiver destituído de vida familiar, ou se a igreja for
superficial e corrupta no seu ministério, toda a sociedade geme com a doença e a
autodestruição. A resposta final não está na política, na igreja ou no lar, mas em Deus,
que reforma e reconstrói todas as três instituições distintas, liberando cada uma para
cumprir seu papel divino sem confundi-lo com as demais esferas. A igreja é, portanto,
37
colocada de volta em seu rumo, restaurando sua confiança no poder da Palavra; a família,
restaurando sua confiança na importância de tempo de qualidade no lazer juntos como
também de comunhão nas Escrituras, e a nação, restaurando a sua missão secular de
proteger seus cidadãos contra a agressão doméstica ou estrangeira. Somente através de
distinções claras entre essas esferas é que somos capazes de ter expectativas sadias e
razoáveis sobre as diversas instituições nas quais estamos envolvidos no cotidiano.
Por “cultura” queremos dizer os gostos
que regem um povo específico.
Conforme já vimos, a preocupação de Calvino de que muita confusão social dos
seus dias era porque os homens e mulheres estavam transgredindo os limites de seus
chamados é especialmente relevante para os nossos dias. Quando pastores tornam-se
políticos, ou políticos invocam o nome de Deus na religião civil; quando artistas tornamse evangelistas ou professores-pregadores (ou políticos) ou o ensino público, a arte e as
ciências se tornam altamente politizados, há um profundo empobrecimento da sociedade.
Os educadores devem preocupar-se com o ensino de alunos, não em fazer “lobby” em
Brasília2; artistas devem dedicar-se à sua arte, não a fazer propaganda política ou
religiosa; os políticos devem se dedicar aos deveres civis, não à salvação espiritual,
material ou moral da nação; devemos esperar daqueles que pregam, que proclamem a
Palavra, administrem os sacramentos e mantenham a boa ordem e disciplina entre os
crentes professos, e não confundam sua missão com qualquer outra dessas importantes
mas distintas esferas da criação.
2
Nota da Tradutora: Devo mudar “Washington para Brasília quando falando sobre capital política, ou o
que?
38
Sendo necessário que façamos distinção entre as “coisas celestes” e as “coisas
terrestres”, e entre “graça comum” e “graça salvadora”, como também entre as diversas
esferas da atividade humana, para onde vamos daqui? Antes de entrar nos detalhes
práticos, devemos expor quais as nossas opções.
CRISTO E CULTURA
Publicado em 1951, Christ and Culture, por H. Richard Niebuhr, de Yale, por
décadas reinou como um resumo das distintas abordagens para com a cultura feitas pelos
diversos grupos católicos romanos e protestantes. Como veremos mais tarde, há alguns
problemas com a visão de Niebuhr, mas é útil para organizar nossas idéias sobre este
importante assunto.
Nunca na história de uma nação foi mais importante uma análise dessas,
especialmente dada a confusão que temos estado a discutir. Niebuhr, que era teólogo neoortodoxo alemão reformado, classificou cinco abordagens diferentes. Tomemos cada uma
por sua vez. Mas antes disso, vamos tentar definir de modo geral o que se quer dizer por
“cultura”. Derivado da palavra ligada à jardinagem (horticultura, cultura da terra, etc.),
os alemães tomaram a palavra para referir-se ao cultivo dos hábitos, interesses, língua e
vida artística de uma nação. Por “cultura” queremos dizer os gostos que regem um povo
específico, seja das elites (alta cultura) ou as massas (cultura popular). Embora em cada
cultura existam muitas sub-culturas, existem tendências gerais que marcam um povo, e é
isso que pretendemos dizer como “cultura” a seguir.
Cristo contra a cultura
O primeiro grupo de cristãos a expressar essa abordagem foram os primeiros
cristãs, e sua reação era de se entender. Embora Paulo tivesse aconselhando os cristãos
39
primitivos: “Procurai viver quietos, e tratar dois vossos próprios negócios, e trabalhar
com as vossas próprias mãos, como já vo-los tenho mandado, para que andeis
honestamente para com os que estão de fora, e não necessitais de coisa alguma”(1
Tessalonicenses 4.11,12), houve, por vezes, perseguição intensa que aumentava o
sentimento de que eram estrangeiros e peregrinos neste mundo. Enquanto alguns faziam
parte da elite cultural, Paulo notou que os crentes de Corinto “não tinham entre eles
muitos sábios e nem muitos de nascimento nobre,”. A igreja atraiu ricos e pobres,
escravos e livres, homens e mulheres, judeus e gentios, e aqueles provenientes de todas as
camadas da sociedade. Estavam unidos uns aos outros pelo Evangelho. Embora por vezes
suas posições na terra geraram conflitos, a esperança cristã transcendia as categorias
temporais.
É difícil ter uma visão otimista do impacto sobre a cultura quando se está sendo
jogado aos leões, e as perseguições intensificaram a experiência de deserto desses
cristãos primitivos que almejavam uma cidade melhor.
O Pai Latino da Igreja Tertuliano expressou esse sentimento de “Cristo contra a
cultura” como também sua própria oposição à filosofia secular com os dizeres: “O que
tem Atenas a ver com Jerusalém?” Mas os anabatistas do século dezesseis tomaram
novamente este tema no crisol da perseguição. Derivando seu nome da prática de
rebatizar os adultos, os anabatistas reagiram contra Roma com mais veemência do que os
reformadores, renunciando o batismo infantil. Além do mais, nunca chegaram a abarcar a
doutrina central da reforma de justificação somente pela graça e somente mediante a fé.
O anabatismo representava uma linha legalista na sua doutrina de salvação e vida cristã,
juntamente com uma visão sectária da igreja e sua relação com a sociedade. Nos nossos
40
próprios dias, existem grupos anabatistas, desde os menonitas mais abertos até as
comunidades reclusas dos “amish” do oeste da Pennsylvania. Radicalmente opostos ao
envolvimento com afazeres seculares, os anabatistas adotaram a posição exposta na sua
Confissão de Fé de Schleichtheim:
“Concordamos na separação, Uma separação será feita do mal e da maldade que o
diabo plantou no mundo; desta forma, simplesmente não teremos comunhão com os
ímpios nem correremos com eles na multidão de suas abominações. É assim que vemos:
já que todos que não andam na obediência da fé e não se uniram com Deus a fim de fazer
a sua vontade, são uma grande abominação perante Deus, não é possível crescer ou
prover deles nada a não ser abominações. Pois na verdade existem apenas duas classes:
bem e mal, crentes e incrédulos, luz e trevas, os que saíram do mundo e os que são do
mundo, templo de Deus e ídolos, Cristo e Belial; nenhum tem parte com o outro... Deus
ainda nos admoesta a sair da Babilônia e do Egito terreno para que não sejamos
participantes da dor e do sofrimento que o Senhor trará sobre eles.
Este desprezo do mundo incluía não apenas os cultos católicos romanos e
protestantes (ou seja, luteranos e reformados) mas as “casas de bebidas e os afazeres
cívicos” e outras instituições seculares.
De todas estas coisas nós nos separaremos e não teremos parte com eles, pois
nada mais são do que abominação, e são a causa de sermos odiados perante Jesus Cristo,
que nos libertou da escravidão da carne e nos preparou para o serviço de Deus pelo
Espírito que ele nos outorgou..xiii
Recusando servir o exército ou em cargo público, a maioria dos anabatistas até
mesmo se separava fisicamente da Cidade dos Homens, estabelecendo utopias espirituais
fora dos limites das cidades, assim como os monges medievais deixaram as pressões dos
lugares seculares para se devotarem inteiramente aos afazeres do outro mundo. Os
Quakers também seguiram a rejeição da cultura como os anabatistas.
Essencialmente, os anabatistas viam Cristo e a cultura como antagônicos.
Achavam que existia pouca esperança de influenciar a cultura maior; viviam vidas
41
simples e desprezavam as artes seculares, música, filosofia, educação e passatempos.
Conseqüentemente, enquanto a igreja medieval e os protestantes da reforma produziram
numerosos líderes nas artes, letras e ciências, os anabatistas historicamente
permaneceram suspeitosos quanto à cultura.
Mas essa rejeição da cultura é evidente não só nos místicos, monges e mártires,
como também naqueles que secularizaram a mensagem de Cristo numa libertação do
estabelecido. É interessante que Niebuhr inclua o famoso romancista russo Leo Tolstoi
nessa tradição. Poderíamos nos lembrar também de Nietsche, cuja filosofia niilista
pronunciou a vida como sendo sem sentido, e Marx, que admirou de tal forma os
anabatistas que as moedas da antiga Alemanha Oriental são em sua homenagem. Os anos
de 1960 representam uma rebeldia semelhante contra a cultura e a “grande arte”.
Ironicamente, quando os cristãos atacam as “elites culturais" e a arte e literatura clássicas,
estão agindo mais como os radicais dos anos sessenta do que poderiam imaginar.
Aqueles que assumem a posição de “Cristo contra a cultura tendem a gloriar-se na
natureza irracional da fé, segundo o dizer famoso de Tertuliano “Creio porque é
absurdo”. Embora esse pai da igreja foi injustamente mal representado por seu ponto de
vista, há sem dúvida uma certa oposição entre natureza e graça, secular e sagrado, razão e
fé, nesse modo de pensar. Niebuhr argumenta que essa abordagem é marcada pelo
legalismo e “concentração na vontade própria em vez de concentrar na obra graciosa de
Deus”. Há suspeita do mundo natural, e o Espírito que está trabalhando diretamente nos
seus corações muitas vezes tem destaque maior do que a obra do Pai e do Filho na
redenção. conseqüentemente, muitas vezes a Escritura é secundária aos sentimentos
espirituais intuitivos, e há um certo nervosismo quanto a dizer que Deus só fala através de
42
tinta e papel, água e pão e vinho. Esses são terrenos demais, materiais demais, O
elemento gnóstico nessa abordagem torna-se evidente. O mundo é mau, mas o âmbito do
Espírito é bom; coisas da terra são inerentemente pecaminosas, enquanto coisas celestes
são inerentemente virtuosas.
O Cristo da cultura
Na outra extremidade do espectro há os que identificam de tal modo a cristo com
determinada cultura que ele existe simplesmente como a encarnação da própria cultura.
Como destacou Niebuhr, essa é a herança do liberalismo protestante, com seu
“protestantismo cultural”.
No nobre interessa da apologética e do evangelismo, o liberalismo alemão tentou
tornar o cristianismo razoável para homens e mulheres do iluminismo que não criam mais
nos milagres. Assim, Cristo era menos o Deus-homem que veio salvar o mundo do
pecado do quer o poeta, moralista ou filósofo ideal do alemão. Ele dava sua bênção sobre
o orgulho alemão, e a religião era principalmente questão da alma. Assim, Jesus salvava a
alma mas deixava o corpo fazer o que bem entendesse. Estamos dolorosamente cônscios
de onde essa ideologia levou. A igreja evangélica na Alemanha trocou o nome para Igreja
do Reich e o clero jurou obediência a Hítler. Muitos teólogos protestantes liberais
alemães estavam entre o arquitetos de “Deutschland über Alles” (A Alemanha acima de
todos).
Semelhantemente, nos Estados Unidos corremos o risco de confundir a nação com
Cristo. Alguns evangelistas politizados lêem o Novo Testamento como se Jesus tivesse
vindo do céu com a missão expressa de abençoar os Estados Unidos e lançar o
capitalismo de mercado livre. Assim como os liberais dos anos sessenta fizeram de Jesus
43
um mascote para sua ideologia de esquerda, evangélicos conservadores se arriscam a
fazer a mesma confusão no outro lado do espectro político. Niebuhr oferece o seguinte
juízo sobre o fundamentalismo:
Quantas vezes o ataque fundamentalista sobre o chamado liberalismo⎯pelo qual
está se referindo ao protestantismo cultural⎯é em si expressão de lealdade cultural,
numerosos interesses fundamentalistas assim indicam....Os costumes que eles associam
com Cristo têm pelo menos tão pouca relação com o Novo Testamento e mais ligação
com costumes sociais que os de seus oponentes. O movimento que identifica a obediência
a Jesus Cristo como sendo a prática da proibição e com a manutenção da organização
social americana primitiva, é uma espécie de cristianismo cultural; embora a cultura que
ela busca conservar difira daquela que seus rivais estimam... quando o ataque
contemporâneo ao protestantismo cultural é feito dessa forma, é uma briga de família
entre gente que na essência está concordando no ponto central de que Cristo é o Cristo da
cultura e que a maior tarefa do homem é manter sua melhor cultura. Nada no movimento
cristão é tão parecido com o protestantismo cultural quanto o catolicismo cultural; nada
mais parecido com o cristianismo alemão do que o cristianismo americano... Cristo é
identificado com aquilo que os homens concebem como seus mais altos ideais, suas
instituições mais nobres, sua melhor filosofia.xiv
No evangelicalismo norte-americano, o cristianismo cultural produziu uma
confiança inusitada na capacidade do espirito americano de conseguir fazer o que
quisesse. “Cristo” é uma idéia, mais que uma pessoa, é quem garante os valores e as
pressuposições básicas americanas. Assim, diz Niebuhr, “o cristianismo cultural, pelo
menos nos tempos modernos, sempre deu lugar a movimentos com a tendência ao
extremo do humanismo auto-dependente, que achava a doutrina da graça⎯e ainda mais a
dependência nesta⎯diminuidora do homem e de sua vontade”. É por isso que o
arminianismo dá tão certo nos Estados Unidos e o Calvinismo é tão desprezado. O
calvinismo jamais servirá ao individualista idealista ou otimista que acredita haver algo
de especial no caráter nacional que predisponha um pecador a tornar-se um santo através
do trabalho duro. Na teologia reformada, é Deus que julga e justifica; no arminianismo, o
homem é quem decide e se ergue puxando os cordões do próprio sapato.
44
Cristo acima da cultura
Esta categoria tem mais nuanças do que as duas anteriores, pois sugere que não
deve haver nem antagonismo e nem assimilação Nesta abordagem, diz Niebuhr, “a
questão fundamental não é entre Cristo e o mundo, por mais importante que seja, mas
entre Deus e o homem”. Noutras palavras, vê toda a questão com direção mais vertical
(de Deus para o homem) do que horizontal (Cristo e cultura).
Conforme os seus proponentes, este ponto de vista sugere que o mundo não deva
ser nem amaldiçoado e em abençoado. Sustentado por um Deus gracioso, contudo o
mundo se encontra em oposição a Deus. Existe aqui uma tentativa de sintetizar Cristo e a
cultuara, mas não de simplesmente “batizar” a própria cultura de cristianismo. É esta a
posição que Niebuhr atribui a Tomás de Aquino.
Cristo e a Cultura em Paradoxo
Niebuhr se refere a nossa quarta opção como “dualismo” porque ela rejeita as
tentativas dos tipos “Cristo acima da cultura" de sintetizar essas duas esferas. Em lugar
disso, esta posição afirma a “cidadania dupla” do cristão, que é simultaneamente membro
da Cidade de Deus e da Cidade dos Homens. Nenhuma esfera deverá reger a outra, e nem
atacar a outra. São simplesmente esferas diferentes de atuação, com propósitos diferentes.
Os que promulgam esse ponto de vista são mais propensos a enfatizar a graça de
Deus. A graça está em Deus; o pecado está no homem. Aderentes dessa posição não
procurarão localizar a graça de Deus na cultura ou em si mesmos, mas distinguem
claramente entre criação e redenção. Os luteranos são os maiores defensores de “Cristo e
cultura em paradoxo”, conforme o esquema de Niebuhr. A cultura jamais será um meio
45
para se encontrar a Deus, e nisso fica evidente a oposição ao ponto de vista de “o Cristo
da cultura”. Mas também a cultura não pode ser objeto de desprezo, porque ela nunca
promete salvar ou redimir. Ela existe com um propósito distinto, e quando uma pessoa
encontra prazer no trabalho, na vida familiar, na educação, nas artes ou no lazer, é um
dom de Deus, mas não um dom redentivo.
Calvino instava com os crentes que vivessem de tal maneira
pela luz da revelação específica (a Bíblia) que sua influência
pudesse ser notada na cultura mais ampla.
Lutero enfatizou este tema com sua doutrina dos “dois reinos”, A mão esquerda
mundana segura a espada do poder no mundo, enquanto a mão direita celeste segura a
espada do Espírito, a Palavra de Deus. Não se pode tentar coagir a fé, e nem se pode
tentar acomodar a fé aos modos seculares de pensamento. Lutero recuperou a ênfase
agostiniana nas “duas cidades”, e Calvino apoiou-a com sua própria defesa dos dois
reinos, especificamente nas Institutas.
Portanto, para que ninguém tropece sobre a pedra [de confundir Cristo e a
cultura], consideremos primeiramente que há um governo duplo no homem:... um
poderemos chamar de reino espiritual, e o outro, o reino político. Ora, esses dois, como
os dividimos, devem ser sempre examinados separadamente, e enquanto se considera um,
deve-se tirar da mente e não pensar no outro, Há no homem, como se diz, dois mundos,
sobre os quais reis diferentes e leis diferentes têm autoridade. (3.19.15)
É por essa razão, dizia Calvino, que a lei moral de Deus escrita nas consciências
humanas é suficiente para se estruturar uma sociedade justa. Noutras palavras, a
sociedade não precisa ser explicitamente cristã para ser justa e cheia de virtudes civis:
De fato a lei de Deus à qual chamamos de lei moral nada mais é do que um
testemunho da lei natural e da consciência que Deus gravou sobre as mentes dos
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homens... daí, esta equidade por si só deve ser o alvo e a regra e o limite de toda a lei.
Não há razão pela qual nós devamos desaprovar quaisquer leis estruturadas sobre essa
regra, dirigidas para esse alvo, limitadas por essa fronteira, mas, por mais que difiram das
leis judaicas (leis civis do Antigo Testamento), ou entre si mesmas.
Calvino insistia que, conforme o próprio texto bíblico, Deus teve com Israel um
relacionamento teocrático especial e portanto tinha “preocupação especial por ele no
fazer as suas leis”. As nações, sendo “comuns” em vez de “santas”, são regidas pela
revelação geral (a lei escrita sobre as consciências) e não pela revelação especial (as
Escrituras). Ele achava que os grupos anabatistas que queriam impor as leis civis do
Antigo Testamento eram “maldosas e odientas para com o bem-estar público”. “Pois o
Senhor pela mão de Moisés não deu a lei para ser proclamada entre todas as nações e
nem cumpridas em todo lugar”(Institutas, 4.20.14-16).
Contudo, Calvino instava com os crentes que vivessem de tal maneira pela luz da
revelação específica (a Bíblia) que sua influência pudesse ser notada na cultura mais
ampla. Isso nos leva ao próximo modelo.
Cristo o transformador da cultura
A classificação final de Niebuhr é também a que ele escolhe particularmente.
“Embora eles se atenham à distinção radical entre a obra de Deus em Cristo e a obra do
homem na cultura, não tomam a estrada do cristianismo exclusivo como um isolamento
da civilização, e nem rejeitam as suas instituições com a amargura de Tolstoi”. Os
proponentes deste ponto de vista não têm ilusões de que este mundo seja um dia
transformado num paraíso pelo progresso humano, mas estão também ansiosos por ver a
mão de Deus nos avanços científicos, da medicina, das artes, e do conhecimento em
geral. Não desejam ficar de lado apenas, olhando a obra do braço da providência divina;
querem ser os seus agentes de reforma no mundo que os cerca.
47
A soberania de Deus tem um grande papel nesta abordagem. Embora seja crítica
por demais severa dizer que os anabatistas na verdade não confiavam na intervenção
soberana de Deus nos afazeres mundanos, fica claro que eles não intencionavam ser
vasos nessa empreitada. Mas “cristãos transformacionais” não querem simplesmente
“batizar” os estabelecimentos mundanos; fica claro que eles querem transformar o
mundo, fazendo-o melhor. Desejando mudá-lo, afirmam que a cultura não é o que deveria
ser, enquanto afirmam também que crêem que a cultura, com toda sua característica de
caída, ainda permanece um âmbito de interesse e atividade de Deus. “Sua posição mais
afirmativa, escreve Niebuhr, “parece intimamente ligada a três convicções teológicas: (1)
a importância da doutrina da criação. Outros cristãos poderão focalizar tanto na redenção
que deixam de apreciar o fato de que até mesmo na sua condição caída, o mundo é, nas
palavras de Calvino, “teatro da glória de Deus”. O não cristão ainda leva em si a imagem
de Deus e, pela graça comum, é capaz de grandes feitos de bem cultural. (2) A convicção
de que a humanidade é caída. Como o dualista, o transformador afirma a total
depravação, mas está pronto a distingui-la do mal ontológico ou essencial. Em outras
palavras, ele quer corrigir o mal-entendido de que somos pecadores porque somos
humanos ou porque temos corpos materiais. O transformador enfatiza que o pecado é
conseqüência da rebeldia moral. É culpa do homem, e não de Deus, e é, novamente nas
palavras de Calvino, “a corrupção da natureza, não a própria natureza”. Portanto, o
problema não é o mundo, mas a oposição voluntária do mundo a Deus e ao seu Cristo.
Isso liberta o crente para participar no mundo como cidadão de plenos direitos, vendo-o
não como inerentemente mau, mas como o teatro em que tanto a glória de Deus quanto o
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pecado humano são expostos. (3) O transformador crê também que o mundo aguarda
completa redenção (Rm 8.19-23).
o transformador reconhece, com o dualista e o anabatista, que o mal jamais será
completamente conquistado neste lado da volta de Cristo, mas tem maior expectativa de
vitórias parciais ocasionais. Para o transformador, não é que o tempo esteja em
contraposição à eternidade, ou este mundo em oposição ao porvir, mas também não é
que esses dois mundos simplesmente entram em colapso um sobre o outro. Há duas
esferas distintas, mas Deus age em ambas. Assim, para o transformador, não basta
simplesmente cuidar da alma; ele vê toda a vida humana. Deus é criador e redentor, e
redime não só a alma do indivíduo como também “faz com que todas as coisas sejam
novas”. O transformador não adora a cultura e nem a odeia; não espera vitória final nesta
vida e nem ruína final. Este era o ponto de vista de Santo Agostinho, João Calvino e a
tradição reformada.
ESCRITURAS E CULTURA
Já mencionei que a obra de Niebuhr, embora um marco em 1951, tem alguns
pontos fracos. Primeiro, tem a tendência de ser reducionista. É por demais simplista
colocar vários movimentos ou indivíduos em categorias “arrumadinhas”. Por exemplo, a
igreja romana representou diversos movimentos. Os monges seguiam motivações, ora
“Cristo contra a cultura" ou “Cristo acima da cultura”, enquanto os papas seguiam uma
abordagem mais de “Cristo da cultura”, vendo o cristianismo e a cristandade, ou seja, a
cultura européia, como uma e a mesma coisa. Semelhantemente, nem Agostinho e nem
Calvino podem ser visto como tipos meramente “transformadores”, pois eles se
encontravam respectivamente no começo e no final da interpretação “dualista” de Lutero.
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Ninguém anteviu mais claramente os “dois reinos” de Lutero do que Agostinho, e
ninguém elucida e constrói mais rigorosamente sobre aquele fundamento que João
Calvino.
Contudo, as duas categorias nos permitem um parâmetro amplo pelo qual
observarmos as diversas opções possíveis. Mas a pergunta verdadeira ao decidir qual
abordagem adotaremos é: “O que ensinam as Escrituras?”.
Em todo o Antigo Testamento, aprendemos que há dois reinos: a Cidade de Deus
e a Cidade dos Homens. Na teocracia primitiva, Israel é uma nação espiritual. Noutras
palavras, o reino e a cultura de Deus estão unidos enquanto a nação espelha o reino de
Deus (e na verdade é o reino de Deus). Mas quando Israel quebrou a aliança, foi exilado
da terra prometida, e os dois reinos mais uma vez foram divididos. O povo de Deus ainda
existia, mas exilado da terra de Deus.
Na Nova Aliança, o povo de Deus não está mais ligado a um pedaço físico de
terra, mas somos herdeiros do reino celestial (ver especialmente Hebreus 4 e 11). Em
todo o Novo Testamento, desde o anúncio do nosso Senhor a Pilatos de que “agora o meu
reino não é daqui” (João 18.36), os crentes colocam suas esperanças sobre uma pátria
melhor, uma pátria celeste. ”Pelo que também Deus não se envergonha deles, de ser
chamado o seu Deus, pois já lhes preparou uma cidade”(Hebreus 11.16). É isso que o
Senhor quis dizer quando declarou “Vou preparar-vos lugar”(João 14.2).
A Palavra de Deus nos admoesta a evitar tanto a tentação de confundir o reino de
Deus com uma nação terrena (Israel, Estados Unidos, Brasil, etc.) quanto ver a cidadania
num reino como antítese completa da cidadania e participação no outro.
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Permita que eu conclua, então, com algumas breves aplicações. Em nossos dias,
enfrentamos, como o próprio Niebuhr observou, um evangelicalismo que exibe
temperamentos tanto do tipo “Cristo contra cultura” como também “Cristo da cultura”.
Por que duas teorias conflitantes dirigiriam nosso envolvimento? Por muitos motivos.
Primeiro, estamos doutrinariamente à deriva. Freqüentemente agimos antes de ligar
nossos atos a convicções teológicas bem concebidas. E porque estamos teologicamente
confusos, incertos, por exemplo, se este mundo é de Deus ou do diabo, e por que, e não
certos do que esperar de um mundo caído, nossas ações são muitas vezes esquizofrênicas.
Por um lado, compartilhamos com os anabatistas um ódio da alta cultura, contudo, com
os liberais protestantes, estamos viciados na cultura popular. Pelo menos uma parte das
“guerras culturais” travadas em nome de Cristo é mais um resultado da suspeita da classe
média de gostos literários e artísticos da elite culta, do que uma luta por valores
espirituais. Dizer que desdenhamos a “alta cultura” não é o mesmo que desdenhar a
cultura em todos os sentidos. Macaqueamos a cultura secular com nossa fascinação pelo
sucesso, pela moda, popularidade, o barulhento, o espetacular e a vaidade de uma
sociedade regida pela televisão. Somos formados (ou deformados) pelo menos
igualmente pela tecnologia moderna quanto pelas Escrituras, e raramente notamos o
mundanismo da cultura popular, mesmo quando atacamos a “elite cultural”. Sentimos o
cheiro do mundanismo na universidade de Harvard e outros grandes centros acadêmicos,
mas o engolimos por inteiro em alguns livros cristãos e na maior parte da música cristã
contemporânea.
Há um grande perigo em misturar o paradigma “Cristo contra a cultura” com o de
“Cristo da cultura”. Quando desprezamos a cultura, mas no entanto permanecemos muito
51
ativos, pelo menos no nível político, dentro dessa cultura, nossos atos são estridentes,
severos e irados. Não parecemos com os que têm interesse em transformar a cultura, mas
como alguns dos anabatistas alemães revolucionários que derrubaram a cidade de
Munster, como quem quer destruir a cultura para estabelecer um paraíso sobre a terra.
Quando junto com uma abordagem “Cristo da cultura”, essa mistura nos leva a
simplesmente sobrepor uma cultura à outra e confundir a segunda com a vontade e o
reino de Deus.
A proposta que creio que nossos antepassados nos ofereceriam é adotar uma
posição equivalente à combinação dos paradigmas “Cristo e a cultura em paradoxo” e
“Cristo o transformador da cultura”. Os que aderem às duas posições precisam uns dos
outros, porque este mundo é do meu Pai Celeste, e no entanto, aqui não é meu lar.
Quais as implicações práticas deste modo de pensar? No próximo capítulo
exploraremos a questão da leitura de literatura secular e o estudo da sabedoria secular,
especialmente à luz da admoestação de Paulo contra as “vãs filosofias”.
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Capítulo 3
“Vã filosofia”: Uma fuga para o anti intelectualismo
“Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas”
Colossenses 2.8.
Elizabeth era uma jovem brilhante com um profundo interesse por estudar. Recém
convertida, estava ansiosa por servir ao Senhor. Levada à Palavra de Deus por seus novos
amigos cristãos, ela tinha prazer em aprender tudo que pudesse. Mas esses amigos
zelosos ficaram cada vez mais preocupados com o estudo atento e persistente da
“filosofia secular”, a sabedoria do mundo, que Elizabeth fazia. Finalmente Elizabeth teve
que enfrentar uma forquilha na estrada: continuar com Cristo ou investigar as idéias de
meros mortais. Após meses de distanciar-se aos poucos, finalmente ela enchera seus dias
tanto de estudos bíblicos, oração, evangelismo e comunhão com os irmãos na faculdade
que se esqueceu da dor de deixar as discussões sutis de Aristóteles à sombra do seu
passado mundano.
Muitas vezes, deixar de lado a “sabedoria do mundo” acontece com o queimar de
álbuns de discos seculares, e a história de Elizabeth sem dúvida encontrará leitores deste
volume com casos semelhantes.
Mas essa tensão não é nova, de maneira alguma, “É a filosofia que oferece
equipamento para as heresias” declarou o pai da igreja africano do segundo século
Tertuliano. Enfrentando as ameaças do gnosticismo, que tentava unir elementos do
cristianismo, judaísmo, e filosofia grega, Tertuliano reclamou: “Uma praga sobre
Aristóteles, que ensinou-lhes a dialética, a arte que destrói tanto quanto constrói!”. Um
53
método de coloca um argumento, a “dialética” é a forma mais comum do debate
clássico, começando com uma premissa maior (os cachorros correm atrás dos gatos),
seguida de uma premissa menor (mas meu bichinho é um gato), levando a uma conclusão
(portanto meu bichinho será perseguido por cachorros). Conforme ressaltou o próprio
Aristóteles, um argumento poderá ser válido, ou seja, de conclusão muito lógica e sem
controvérsia partindo de suas premissas, mas a pergunta verdadeira tem que ser: Minhas
premissas estão certas? Desde quando este método de diálogo cativou a Academia de
Atenas, tem sido usado e mal-usado igualmente por bons e maus, e muitos da segunda
categoria encontraram grande conforto em tornar-se prêmios intelectuais através desse
método dialético, podendo justificar quase qualquer conclusão tendo um argumento
coerente, não obstante a veracidade ou não da premissa.
Tertuliano reagia contra a exploração desse método pela seita gnóstica. O mal uso
que eles faziam fez o pai da igreja desprezar totalmente o método da reflexão cristã. Ele
apelou para um texto que desde então foi muito usado (e talvez abusado) onde Paulo
admoesta os crentes colossenses “Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua
filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do
mundo, e não segundo Cristo” Colossenses 2.8; ver também 1 Timóteo 1. 4; 2 Timóteo
2.17). Afinal de contas, trovejou Tertuliano, “o que tem Jerusalém a ver com Atenas, a
Igreja com a Academia, o cristão com o herege?”. Por que ele perguntou assim? “Após
Jesus Cristo não temos necessidade de especulação, após o evangelho não precisamos
mais pesquisar. Quando cremos, não temos desejo de crer em qualquer coisa mais, pois
começamos crendo que nada mais existe que tenhamos que crer”.xv
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Por outro lado, o contemporâneo de Tertuliano, Justino o Mártir, procurou provar
a superioridade intelectual e filosófica do cristianismo. Vestido com a roupa de filósofo,
ele abriu a primeira escola cristã em Roma. Dirigiu-se ao imperador romano Adriano com
“o Filósofo, ... amante da cultura”, e procedeu a “implorar por uma audiência justa”,
dizendo que “A razão requer que todos os que são verdadeiramente piedosos e filósofos
devem honrar e amar somente a verdade, desprezando apenas seguir as opiniões até
mesmo dos antigos, se estas forem sem valor”. Após argumentar e dar evidências da
verdade do cristianismo, Justino deixou o caso finalmente sobre a confiabilidade das
testemunhas da ressurreição de Cristo e das profecias cumpridas. Apesar de sua
abordagem apologética louvável, assim como o amor de Tertuliano pelas Escrituras o
cegava para a graça comum de Deus entre os pagãos, assim também a apreciação de
Justino pela razão o levou a tolamente aceitar idéias seculares que minavam os
ensinamentos bíblicos sobre pecado e graça, a natureza da alma, e a criação.
A famosa paráfrase do ditado de Agostinho “Toda verdade é verdade de Deus”,
contudo, manteve Agostinho livre de cair na armadilha de confundir o Evangelho com a
sabedoria secular. No entanto, o bispo africano de Hippo nunca se livrou, ele mesmo,
inteiramente das influências de sua imersão anterior na filosofia neoplatônica e na heresia
do maniqueísmo. É uma corda bamba muito difícil sobre a qual andar.
No final da Reforma, Lutero e outros reformadores acusavam a Igreja católica
romana de distorcer o evangelho com a filosofia pagã, fosse pelo racionalismo clássico de
Platão, o empiricismo de Aristóteles, ou a tendência relativista de “reconciliar" os
opostos como no medieval Nicolau de Cusa (décimo quinto século). Em vez de esturra
trechos bíblicos claros a fim de descobrir a natureza de Deus, dos humanos, da redenção,
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da igreja ou dos sacramentos, os teólogos empregavam as especulações filosóficas. Os
reformadores, portanto, criticaram a confusão da sabedoria terrena com a sabedoria
espiritual do mesmo modo que Paulo, não porque acreditassem que a razão fosse
impiedosa, mas porque criam que ela não podia determinar a forma das “coisas celestes”.
Somente uma teologia revelada por Deus e ancorada nas Escrituras, não em especulações
filosóficas, poderia sondar as profundezas dos atributos divinos, da natureza humana, da
pessoa e obra de Cristo, da aplicação da redenção pelo Espírito Santo, a natureza da
Igreja e dos sacramentos, e o significado da história. De fato, os reformadores se referiam
aos contemporâneos que queriam se livrar das passagens bíblicas claras por meio de um
exercício tortuoso de especulações filosóficas como “sofistas”, como a antiga escola
filosófica grega que defendia uma abordagem relativista da verdade. Não era a própria
verdade, mas o brilhantismo retórico da pessoa que apresentava uma dada proposição
(que ele mesmo podia crer ou não) que os sofistas buscavam, muito semelhantemente a
grande número de filósofos dos dias atuais.
Em cada período de confusão e infidelidade por parte da igreja, a sabedoria do
mundo recebeu vantagens na formação da visão da igreja quanto a Deus, a humanidade, o
mundo, a história e todos os demais aspectos da fé e da vida. Ninguém jamais se levanta,
hasteia uma bandeira e grita: “Estamos permitindo que o mundo ao invés da Palavra
determine o que cremos e como viveremos”, no entanto, é exatamente isso que acontece
em todo período de declínio. Karl Barth, em nosso próprio século, reagiu de tal forma
contra o liberalismo protestante que reduziu o cristianismo a uma forma de
comportamento humano comparável a outras religiões, insistindo que não havia
revelação natural. Criaturas humanas caídas e finitas não encontram a Deus por suas
56
especulações sabidas; Deus só se revela na Palavra viva e escrita, declarou ele. Para a
defesa da teologia natural de Emil Brunner (ou seja, o estudo daquilo que se pode
conhecer sobre Deus sem as Escrituras, que nos parece sancionado por Romanos 1 e 3),
Barth trovejou seu famoso “Nein!”. Se Barth e Tertuliano estiverem certos, e uma
abertura para com a filosofia na religião sempre leva a perverter a ambos, por que não
simplesmente tampar nossos ouvidos, ignorar o mundo, e ler apenas a Bíblia? Na
verdade, muitos de nós recentemente temos argumentado que as ideologias seculares
psicológicas, econômicas, políticas e sociológicas regem a nossa igreja anti teológica. Por
que gastar tempo com sabedoria do mundo, se o risco é tão grande? Há muitas razões
para se correr o risco. Mencionarei aqui apenas algumas.
O VALOR DA CRIAÇÃO
A Bíblia adverte contra confundir as “coisas celestes” com as “coisas terrestres”,
e não contra as “coisas terrestres” em geral.
Quando ele disse “Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e
vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo, e não
segundo Cristo” (Colossenses 2.8) ele não argumentava em estilo Tertuliano que os
cristãos devessem considerar toda a sabedoria e filosofia humanas como hostis à fé.
Lembre-se de que Paulo é o homem que argumentou tão eloqüentemente em favor do
cristianismo da filosofia humana em Atos 17. Mas Paulo advertiu os colossenses que não
fossem tão ligados à terra que seus interesses não fossem dirigidos pelo celeste, eterno e
transcendente. Em outras palavras, as pressuposições seculares continuavam a dirigir sua
visão do mundo quando deviam ser dirigidos por convicções teológicas, bíblicas. Como
Tertuliano, Paulo estava lutando com os defensores do gnosticismo, os que misturavam o
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cristianismo com a filosofia grega. O resultado era um misticismo especulativo. Em vez
de ver o cristianismo como anúncio de algo que aconteceu (ou seja, a morte e
ressurreição de Cristo), com implicações para o mundo todo, era uma “filosofia de vida”
que buscava principalmente levar a pessoa a uma vida mais feliz e completa aqui e agora.
O gnosticismo, conforme já vimos, tinha uma visão do mundo e um sistema de crença
diametralmente oposto à verdade revelada da Escritura: o Mal era atribuído à matéria, a
salvação era libertação do material, do mundo, do tempo e do corpo. Essa redenção o
vinha através de seguir os ensinamentos secretos de Jesus e dos outros mestres que
aprenderam a negar sua existência física a fim de elevar os seus espíritos e atingir
unidade com o divino.
O perigo está em confundir
aquilo que deveria ser sempre distinto.
Se o misticismo e dualismo grego que fundamentavam a reflexão filosófica no
mundo antigo tivessem sido incorporados no cristianismo, a visão bíblica da natureza
humana, o problema do mal, a criação, queda e redenção teriam sido distorcidos além de
qualquer possibilidade de reconhecê-los.
Não era o caso de Paulo crer que Platão e Aristóteles nada tinham a dizer de
qualquer verdade, relevância ou valor, mas que, sempre que falavam de assunto que a
Bíblia falava, o que regeria sempre o coração e a mente do cristão teria que ser
forçosamente, o claro ensino da Escritura, e não as especulações filosóficas. Em outras
palavras, os filósofos não têm como “especular” um caminho para a presença de Deus,
encontrando-o por sua sagacidade ou perícia. Sua lógica e dialética brilhante, essenciais
58
no mundo acadêmico (até mesmo teológico) nunca podem substituir a Escritura ao nos
falar de Deus, de nós mesmos, e do plano de redenção. A Escritura tem que ser sempre a
norma, embora os métodos lógicos e racionais mais rigorosos sejam utilizados para a
compreensão e explicação do texto.
O que é interessante nos nossos dias é o seguinte: Onde Tertuliano e os pais da
igreja mais moderados, tais como Irineu, como também os reformadores do século
dezesseis, lutavam contra a tendência de permitir que a filosofia tivesse mais força do que
a teologia na igreja, hoje em dia lutamos contra os resultados dessa filosofia nascidos na
era moderna. Onde muitos evangélicos insistiriam que estão imunes às filosofias
mundanas e seculares dos homens, simplesmente porque nunca leram um livro de um
filósofo secular, o próprio movimento demonstra uma imensa dívida ao pragmatismo
filosófico de William James, ao utilitarismo de John Stuart Mill, e ao consumismo do
final do século vinte. Talvez os nossos pastores não leiam esses autores, mas lêem os
especialistas em crescimento de igreja que foram treinados em sociologia, psicologia e
marketing e demonstram muitas vezes maior conhecimento dessas disciplinas seculares
do que da teologia das Escrituras.
Recentemente, um pastor de uma igreja evangélica conservadora disse que teve
que mudar o nome de sua série de sermões de “Doutrinas da Igreja” para “Ensino da
Igreja” [porque poucas pessoas se disporiam a assistir uma série denominada “doutrina”.
Talvez os pastores não leiam Freud, Jung, Rogers ou psicólogos mais recentes, mas seus
sermões pertencem cada vez menos à categoria de teológicos (“A ira de Deus e a
provisão de Deus”) e cada vez mais terapêuticos (“Como ser feliz e sentir-se completo”).
O pecado passa a ser uma “disfunção” e “doença”, não a condição de morte espiritual,
59
hostilidade para com Deus e completa incapacidade de responder a Deus (Efésios 2.1-8;
1 Coríntios 2.12-14; João 1.12-13; 6.44 etc.). A redenção passa a ser “recuperação” ou
uma das muitas versões de “auto ajuda” no mercado popular hodierno. Ironicamente,
portanto, os que são mais seguros de si quanto à sua imunidade para com o
“mundanismo” são freqüentemente os mais mundanos em termos reais, apesar do seu
orgulho em evitar o “conhecimento secular”.
Assim como Paulo apelou aos escritores pagãos no Areópago, muitos dos Pais da
Igreja encontraram utilidade na sabedoria de filósofos seculares, e os reformadores e
puritanos apreciavam o conhecimento da literatura pagã como também a bíblica, mas
temos que reconhecer o perigo está em confundir aquilo que deveria ser sempre distinto.
O problema não e a literatura secular, mas dar prioridade à sabedoria secular na
definição de crenças teológicas e no regime espiritual da reflexão cristã. De fato, a
sabedoria secular é mais insidiosa, não quando vem num pacote claramente marcado
(como as obras de Platão, os escritos de Nietsche, Introdução ao existencialismo
moderno), mas quando tolamente batizamos a sabedoria secular que recebemos de
segunda e terceira mão com versículos bíblicos num esforço por “relevância”.
Problemas terrenos
Confundir as coisas celestes com as terrestres trivializa aquilo que é daqui da,
terra.
Essa confusão das coisas do céu e da terra é uma coisa perigosa. Primeiro, torna
triviais os problemas deste mundo. Quando, por exemplo, as pessoas dizem, sem
compaixão, que Jesus é a resposta para o racismo, drogas, aborto, depressão e lares
desfeitos, enquanto essas crises continuam, muitas vezes nos círculos cristãos
60
conservadores tanto quanto entre incrédulos, a primeira coisa que ocorre é que trivializa,
trata com displicência e desprezo, os problemas. Afinal de contas, o pecado é coisa
complicada e até mesmo os crentes são pecadores. Desde a Queda, temos nos
emaranhado nas teias do engano, exploração, manipulação e negligência voluntária.
Como raça e como indivíduos, criamos uma situação em
que é impossível de traçar o
caminho do pecado em todos os seus meandros. Alguns problemas criados por essa
condição pecaminosa podem ser tratados pela nova vida de crentes individuais e sua
influência, já que os crentes também são pecadores, nem sempre se vê em termos de
branco e preto. Os problemas complicados não sucumbem às respostas simplistas. Além
do mais, a Bíblia por si só não é resposta para toda espécie de problema. Não é um
diretório para todo problema de nossas vidas, pois essa não é a intenção do Autor.
Falando-nos em tom de proclamação, a Bíblia se dirige especificamente à mente, ao
coração e à consciência⎯trazendo à tona a seriedade do juízo de Deus e o surpreendente
anúncio do perdão de Deus e da justificação do ímpio em Cristo Jesus. Uma geração que
procura respostas simplistas aos problemas cotidianos que costumavam ser encontrados
nas páginas amarelas da lista telefônica, ou num telefonema para um tio mais sabido, a
Bíblia perde sua seriedade e a imensidão do seu escopo, afogado num mar daquilo que é
“prático”. Se queremos distinguir as coisas celestes das terrestres, temos que reconhecer a
Bíblia como de escopo e interesse primordial nas questões últimas. Se alguém quer
responder a cada problema com um versículo bíblico (geralmente de Provérbios), muitas
vezes oferecemos conforto incerto a almas encharcadas de desespero. Muitas dessas
pessoas, se não conhecerem a profundeza e riqueza desses trechos, dentro do seu
61
contexto, concluirão que a Bíblia não é suficiente para confortá-las, até mesmo nos
maiores dilemas da eternidade.
Em vez de encontrar a Deus onde ele permite
que o conheçamos (pela revelação)
pela fé, tentamos trazê-lo para
o nosso nível (na experiência)
pela especulação.
Aqueles que confundem as coisas celestes e as terrestres também trivializam as
terrestres quando acham que, em razão da Queda, não existe nada (ou quase nada)
verdadeiro, bom ou belo no mundo que não seja especificamente cristão. Assim, temos a
sub-culturas de livros “cristãos”, música cristã, arte cristã e penduricalhos cristãos.
Temos até mesmo “divertimentos cristãos”, políticos cristãos, turismo cristão em navios
cristãos, e assim por diante. Mas essa confusão se sentia durante a Idade Média, antes que
a Reforma distinguisse e devolvesse a dignidade às duas esferas. Note o comentário de
Calvino a esse respeito, contra os “fanáticos” que consideravam os afazeres seculares
como “não espirituais” e portanto, desnecessários:
Negaremos nós a verdade que brilhou sobre os artigos juristas que estabeleceram
a ordem cívica com grande eqüidade? Diremos que os filósofos eram cegos em sua fina
observação e artística descrição da natureza? Diremos que os homens eram faltos de
entendimento que conceberam a arte do discurso e nos ensinaram a falar razoavelmente.
Diremos que são insanos os que desenvolveram a medicina, devotando o seu labor em
nosso benefício?... Não, não podemos ler os escritos dos antigos sem grande admiração.
Maravilhamo-nos com eles porque somos compelidos a reconhecer o quanto eram
eminentes.
Mas contaremos qualquer coisa como digna de louvor ou nobre sem ao mesmo
tempo reconhecermos que vem de Deus? Que nos envergonhemos de nossa ingratidão, na
qual nem os poetas pagãos caíram, pois eles confessavam que os deuses tinham inventado
a filosofia, as leis e todas as artes úteis. Esses homens a quem as Escrituras denominam
“homem natural” eram verdadeiramente argutos e sagazes na sua investigação das coisas
62
inferiores. Que nós, de acordo, aprendamos de seu exemplo quantos dons o Senhor
deixou à natureza humana, até mesmo após ela ter perdido seu verdadeiro bem.xvi
Esperanças celestes
Essa confusão de coisas terrestres e celestes trivializa também as coisas celestes.
Isso ocorre quando crentes piedosos tentam tornar Deus relevante. O céu é alto demais, e
em vez de encontrar a Deus onde ele permite que o conheçamos (na revelação) pela fé,
tentamos trazê-lo para o nosso nível (na experiência) pela especulação. Noutras palavras,
sermões sobre os atributos de Deus, a obra salvífica de Cristo, a expiação e justificação,
santificação e os sacramentos⎯esses todos estão “lá em cima”, removidos do âmbito
“prático” da vida cotidiana. Assim, as coisas celestes são puxadas para baixo, para as
terrestres. O resultado é uma mensagem que não é suficientemente terrena para ser atual e
estar no mais prático, e nem é suficientemente celeste para dizer algo de verdadeiramente
profundo e do outro mundo num lugar confuso e extraviado.
Se não achamos que pagãos tenham algo significativo para dizer ou contribuir
para nossas vidas, ignoraremos alguns presentes maravilhosos de Deus e acabaremos
diminuindo os dois reinos, exigindo que as coisas terrenas sejam mais do que elas são, e
que as coisas celestes sejam menos do que são.
Creio que a seguinte analogia poderá ajudar a esclarecer este ponto. Tanto o
cristão quanto o não cristão concordam com a doutrina empiricamente demonstrável da
morte. Diferem em sua interpretação da origem, do significado e da solução para a
morte, mas ambos concordam que a morte acontece. É uma realidade da experiência
humana. Um não cristão poderá até mesmo ajudar um cristão a enfrentar a morte, até
certo ponto. Por exemplo, um psicólogo não cristão ou um médico poderá escrever um
63
livro que explica como tornar menos sofridos os últimos dias de um ente querido. Isso
quer dizer que a Bíblia não basta em todas as circunstâncias, especialmente no evento de
mais profundo significado teológico? De maneira nenhuma, porque a Bíblia responde a
questão de outro ângulo. Dizer que a Bíblia não basta para curar a diabete (lembramos
aqui dos pais que se recusaram a tratar o filho com insulina porque a Bíblia diz que a
“oração do justo curará o enfermo”) não é dizer que ela seja deficiente. A Bíblia é
suficiente para tudo que é necessário à salvação e à piedade. Noutras palavras, ela é
suficiente para tudo que está dentro do escopo de seu propósito, Mas a Bíblia não é um
catálogo mágico de conselhos de “como fazer quando...” ou fórmulas secretas para a
vida.
Se eu estivesse morrendo de câncer, eu desejaria que meu pastor me consolasse
com a obediência ativa e passiva de Cristo, assegurando-me que apesar do meu pecado e
de minhas falhas na santificação, Deus me aceitou completamente em Cristo. Não
procuraria essa espécie de conforto na sabedoria mundana, como os tais apelos para autoestima ou ditados sentimentais (se totalmente infundados) sobre “ir para um mundo
melhor”, porque reconheço que um autor incrédulo que não entenda o pecado e a graça
não está qualificado para confortar a alma do crente que morre. No entanto, eu me
alegraria em saber idéias práticas para tornar mais confortáveis os últimos dias de formas
não mencionadas nas Escrituras. Os procedimentos médicos calculados para prolongar a
vida ou diminuir a dor, lidando com alguns aspectos psicológicos da morte, e lembrar
algumas das considerações relacionais práticas poderiam ser de grande ajuda. Esse livro
poderia ser útil, conquanto eu soubesse o que estava procurando nele. mas é por demais
comum as versões “cristãs” de tais livros simplesmente confundir as questões últimas
64
com as questões próximas, tentando realizar as duas tarefas enfiando versículos bíblicos,
fora do contexto, em todos os problemas práticos. Muitas vezes o leitor reflete em como
teve sorte em encontrar um livro “seguro” sobre o assunto, evitando a sabedoria do
mundo.
A pessoa que enfrenta uma situação dessas, portanto, poderia procurar uma peça
firme, boa de teologia que alguns que nunca leram poderão achar sem praticidade. O
pequeno clássico de Horatius Bonar, Como irei a Deus? ou o Pobre cristão que duvida,
de Thomas Hooker, seriam de conforto muito maior para a alma do que muitos livros
cristãos contemporâneos que tentam integrar a Bíblia e a psicologia ou outras idéias ainda
mais ostensivamente práticas. Mas talvez fosse bom ler também aquele livro de autor
secular, a fim de explorar algumas idéias que se encontram além do âmbito teológico.
Não precisamos justificar a leitura de livros seculares, assim como não precisamos
justificar a leitura de tomos teológicos. É quando confundimos os dois que temos
problemas. Se conhecêssemos o suficiente da Palavra de Deus, por exemplo, para que a
resposta terapêutica de “auto estima” está muito longe e é muito inferior à riqueza de
“Agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”, seríamos capazes de
discernir o trigo da verdade do joio dos sentimentos populares.
Uma nota final nesta ilustração deve ser suficiente, cristã ou não, a doença
terminal é exatamente isso: uma doença terminal, e termina em morte para ambos os
indivíduos. OS livros de Bonar e Hooker, por exemplo, seriam confortadores porque
lidam com as questões finais, últimas, que exigem uma perspectiva divina (ou seja,
proveniente da revelação específica). Uma vez que entendamos as limitações de ambos
(das Escrituras, limitadas ao que Deus designou para elas, e razão, limitada tanto pela
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nossa finitude quanto pela nossa pecaminosidade), somos capazes de ter conforto e
benefício sem nos desiludirmos pela esperança de mais do que um e outro podem dar.
LEVAR CATIVO TODO PENSAMENTO
Quando Paulo admoesta contra enganar-se pela vã filosofia, ele tem em mente um
problema específico: essa confusão do cristianismo com a filosofia grega, a última tendo
se inserido desleixadamente sobre a primeira ao ponto das definições de Deus, criação,
natureza humana, história e redenção terem sido totalmente refeitas. Paulo não estava
atacando a filosofia em si, mas o gnosticismo em particular e o domínio da teologia pela
sabedoria secular em geral. É este precisamente o problema que vemos nos dias atuais,
quando, por exemplo, as idéias seculares do ego são importadas da psicologia popular
(que, ironicamente, tem muita afinidade com o gnosticismo).
Mas o mesmo apóstolo que avisa contra as incursões da filosofia também
conclama os crentes de Corinto a enfrentá-la: “anulando sofismas e toda altivez que se
levanta contra o conhecimento de Deus, levando cativo todo pensamento à obediência de
Cristo”( 2 Coríntios 10.4-5). Como demolir argumentos se estivermos (a) sem
conhecimento dos argumentos para começar e (b) desinteressados no mérito desses
argumentos e (c) incapazes de refutá-los?
O retrato paulino é bem nítido: é a imagem de um soldado que, não se
contentando em estar na defensiva, persegue ativamente aqueles que o desafiam. Não
espera ser pego de surpresa e tomado como prisioneiro, e nem fica estacionado atrás das
linhas em segurança total. O cristão está ansioso por tomar cativo o inimigo. Temos
sempre que ter cuidado com essas imagens, especialmente me nossos dias de “guerras
culturais”. O inimigo não é o incrédulo ou as instituições do mundo, mas toda e qualquer
66
idéia ou argumento que tem a audácia e temeridade de se levantar contra o trono de
Cristo e ditar o que devemos crer o não sobre Deus, nós mesmos, redenção, e o
significado da vida. Os Reformadores seguiram a Paulo no seu amor pelo saber, pela
cultura, arte, filosofia e literatura. De fato, eles e seus herdeiros fundaram alguns dos
maiores centros de aprendizado no mundo ocidental e encorajaram um reavivamento das
humanidades (história, filosofia, línguas, as artes). Contudo, quando chegavam à questão
de definir o cerne que a Bíblia ensina claramente, a sabedoria humana era vista como
insuficiente para penetrar os aposentos celestiais.
De Gênesis a Apocalipse, a Bíblia apela ao intelecto e ao coração como sendo um
só. Diferente da visão grega, na qual a mente e o coração estavam separados, a
perspectiva bíblica é que o coração é o cerne do intelecto. Não quer dizer que as emoções
tenham prioridade sobre o intelecto, mas sugere que há uma integração de ambos no
retrato bíblico da existência humana. Afinal de contas, o temor do Senhor (uma resposta
emocional) pode ser o princípio do saber, mas é a comunicação de certos fatos sobre
Deus e Sua atividade que nos induz a temer e amá-lo, como dizem os Salmos com tanta
força: “De boas palavras transborda o meu coração: ao Rei consagro o que
compus”(Salmo 45.1). Para o ouvido israelita, de fato, “o temor do Senhor” não se referia
especificamente às emoções mais do que ao intelecto, pois “temor” e “conhecimento”
eram conceitos ligados um ao outro. Precisamos conhecer algo antes que ele seja
experimentado e vivido no mundo da prática cotidiano.
O testemunho cristão não pode ser ingênuo.
Não pode simplesmente ridicularizar a incredulidade.
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Depois de falar sobre a obra salvífica de Deus em Cristo ( predestinação, vocação,
justificação, glorificação) Paulo salta de alegria no louvor: “Que diremos pois à vista
dessas coisas?!” A fim de responder, emocionalmente ou em obediência ativa e feliz,
temos que ter algo significativo que requer uma resposta.
APOLOGÉTICA
É por demais freqüente que irmão bem-intencionados entrem no meio da briga,
ansiosos por enfrentar o inimigo, só para serem eles mesmos tomados ou massacrados
perante espectadores animados. É por isso que nos é dito: “... estando sempre preparados
para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o,
todavia, com mansidão e temor” ( 1 Pedro 3.15) com relação ao inquiridor. O destaque aí
está sobre o preparo.
Quando Paulo caminhou pelo Areópago para apresentar as reivindicações do
cristianismo, em Atos 17, ele não o fez com um conjunto de argumentos reducionistas ou
referências ao seu testemunho pessoal do que Deus fez por ele. Nem ignorou o contexto.
Citando de memória a poesia e prosa de filósofos gregos seculares, Paulo edificou pontes
de compreensão. Ele o fez, não por confundir coisas terrenas ( a própria filosofia grega)
com as celestes (a verdade última sobre Deus e a salvação), mas construindo uma escada
da terra para o céu, utilizando a revelação natural que seus ouvintes possuíam, e então
retirando a escada uma vez que chegou à discussão das questões reservadas para a
revelação específica (as Escrituras). A revelação natural (neste caso, a verdade existente
dentro da filosofia grega) foi útil até onde chegava, mas para continuar a discussão e
proclamar a verdade sobre Deus e a condição humana, o juízo, e salvação, o apóstolo
teve que depender da revelação especial: o relato da obra e morte e ressurreição de Cristo,
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bem como seu direito de julgar. Paulo entendeu e explorou a verdade da visão secular do
mundo, mas julgou os erros a partir das Escrituras.
Os que desconhecem a força daquilo que faz parte da escravidão do incrédulo
nunca saberão como libertá-lo. Isso não quer dizer que todo cristão tenha que tornar-se
imediatamente um perito em todas as ramificações da sabedoria e do conhecimento da
história humana, mas significa, sim, que o testemunho cristão não pode ser ingênuo. Não
pode simplesmente ridicularizar a incredulidade.
Conforme já vimos, existem perigos graves em ignorar a mente secular⎯não só
porque, como disse Calvino, perdemos os dons de Deus distribuídos até mesmo aos
incrédulos por sua graça comum, mas porque não nos resta maneira de saber a extensão à
qual fomos nós mesmos formados, ainda que indiretamente, por essas tendências do
pensamento secular. A leitura do Pragmatismo de James ou o tratado de Mills sobre
Utilitarianismo, começamos a reconhecer algumas das forças que forjaram nossa cultura
e, portanto, nosso próprio pensamento como cristãos. Não podemos nos divorciar de
nosso tempo e lugar, assim como um Asiático ou Africano não pode se distanciar de seu
contexto, e é ingenuidade pensar que simplesmente lemos a Bíblia sem nenhum tapa-olho
cultural. A fim de julgar as nossas idéias, temos que conhecer duas coisas no máximo de
nossas possibilidades: as forças do mundo que formam nossos pensamentos, e as
verdades da Escritura, que corrigem nossos pensamentos e revelam a Deus e suas
promessas de salvação para nós. Aqueles que não querem ler livros seculares serão
empobrecidos e suscetíveis à sedução sutil e indireta, enquanto aqueles que não estudam
com cuidado as Escrituras perderão seu único fio de prumo para julgar a verdade em
contraposição ao erro, a crença em contraposição à incredulidade, o certo em
69
contraposição ao errado. Os que conhecem as Escrituras e a sua cultura têm a capacidade
de reconhecer a verdade e rejeitar a falsidade quando a escutam ou lêem⎯seja na
literatura secular ou do púlpito.
EVITAR OS DOIS PERIGOS
Os reformadores atacaram os “sofistas” que transformaram o ensino claro da
Escritura em enigmas enquanto ao mesmo tempo se dirigiam à sabedoria secular para
responder as questões pelas quais a Bíblia parecia insuficiente. Seria um erro considerar
os reformadores como sendo anti-filosóficos ou anti-intelectuais, pois eram campeões no
renascimento do conhecimento. Até mesmo as referências exorbitantes de Lutero à razão
como sendo “a prostituta do diabo” têm que ser entendidas à luz da batalha do século
dezesseis: A razão humana, que jamais pode conhecer que Deus é um Deus de perdão
que enviou a Cristo como substituto do pecador, nunca deverá ter a posição de formular a
teologia. Quando essa posição lhe é dada, sempre vira o evangelho numa forma de justiça
pelas obras, porque é isso que faz sentido para o coração caído. “A mensagem da cruz é
loucura para os que se perdem”, disse Paulo em 1 Coríntios 1, não porque seja ilógica ou
racionalmente indefensável, não porque requer um salto de estupidez, muitas vezes
chamado de “fé”. É loucura até mesmo para aqueles que estão convencidos de seus
argumentos. Pinchas Lapide, eminente estudioso judaico moderno que argumentou pela
ressurreição como evento histórico, contudo não expressou interesse algum nela como
solução para o problema entre ele e Deus. É loucura porque não acreditamos realmente
que somos pecadores e que Deus realmente é santo. A cruz não nos atinge.
Mas o que dizer do argumento de Tertuliano: “Depois de Jesus Cristo, não temos
necessidade de especulações, após o Evangelho, nenhuma necessidade de pesquisa.
70
Quando chegamos a crer, não desejamos crer em nada mais; pois começamos crendo que
não há nada mais em que crer”? É nessa posição que muitos cristãos contemporâneos se
encontram. Mas confunde as coisas celestes com as terrestre. Só porque a sabedoria e o
conhecimento secular não navegam em direção a Deus por Cristo não significa que ela
não possa navegar o Oceano Atlântico! Só porque não se encontra salvação através dos
grandes filósofos, não significa que “não temos desejo de conhecer mais nada” que não
dependa da revelação especial. Isso tornaria a leitura, a escrita, a matemática totalmente
frívolos. Simplesmente porque não podemos aprender sobre a cruz no plano de redenção
de Deus através das artes e ciências não quer dizer que “depois do Evangelho não existe
necessidade de pesquisa”. Pense nas muitas vítimas de doenças que tiraram proveito da
pesquisa de cientistas diligentes, qualquer que fosse o compromisso religioso desses
pesquisadores. Existe muito que vale a pena conhecer sobre coisas terrenas, que a Bíblia
não toma o tempo para ensinar. Contudo, não existe nada a respeito de Deus, a nosso
respeito, a respeito de nosso relacionamento com Deus, que o mundo possa nos dizer com
mais verdade ou maravilha do que o próprio Deus já revelou na sua Palavra infalível.
Nesse negócio de “vã filosofia” devemos tomar cuidado com os dois perigos: O
primeiro perigo é ignorar as promessas e os perigos da sabedoria humana. Deus nos deu,
e dá até mesmo aos incrédulos, sabedoria, justiça, e retidão civil. Embora esses dons
sejam apenas símbolos da graça comum, e não da graça salvadora, eles não devem ser
encarados levianamente. Não há necessidade de trivializar as coisas terrenas sentindo que
é necessário “batizar” a tudo pela religião.
Mas precisamos nos acautelar também dos efeitos do pensamento secular sobre o
nosso próprio pensamento e estilo de vida no lugar onde essas forças colidem com a
71
Escritura. Nada existe mais chato do que a pessoa que orgulhosamente despreza a
“sabedoria mundana” e evita o estudo de disciplinas seculares, literatura, e filme
enquanto ao mesmo tempo demonstra sua dívida para com a psicologia secular, o
marketing secular, a política secular e a sociologia secular no seu próprio jeito não
sofisticado. Lembro-me do pastor que me avisou contra a leitura de autores seculares
enquanto ele mesmo fazia especulações sobre a volta de Cristo, apelando para os eventos
atuais dos jornais, compartilhando “dicas bíblicas” de auto-estima (aparentemente um dos
principais tópicos na Bíblia, se estiver procurando por isso!), e descobria a posição
“bíblica” sobre toda questão política possível. Esse pastor era formado pela sabedoria
secular do mesmo modo que qualquer pessoa, mas porque recusava ver esse efeito “pelo
método de gotejamento” no seu próprio pensamento (já que não o recebeu diretamente de
autores seculares), ele era, ironicamente, mas suscetível a enganar-se, pensando que fosse
a Palavra de Deus.
Da mesma forma que o réu que não tem com que pagar um advogado terá um
advogado oferecido pelo judiciário, assim também toda pessoa possui uma perspectiva
filosófica que influencia até mesmo sua maneira de ler a Bíblia, não importa se vem da
sua leitura de Sartre ou por assistir Oprah [N.Tradutora: Vamos colocar aqui um
apresentador de televisão brasileiro, Hebe Camargo ou Jô Soares, por exemplo?], seja ele
sofisticado e urbano ou superficial e de relevância passageira. é uma visão que pode ser
procurada ativamente ou recebida passivamente por osmose. Se ingenuamente achamos
que não somos afetados pelo contexto em que vivemos, perderemos a percepção das
formas em que não somos fiéis ao texto bíblico em razão de nossos preconceitos ocultos.
Temos que trazer esses preconceitos de tempo e lugar à tona, julgá-los pela Palavra, e
72
reter aquilo que é bom. Temos que apreciar a sabedoria, cultura, arte e pensamento
secular, para que possamos resistir sua força com argumentos melhores, tanto para o
nosso próprio bem como também par o bem dos outros, mas também devemos apreciálos porque, como disse Calvino, desprezar a cultura lançaria um desprezo sobre o próprio
Espírito Santo que derrama até mesmo sobre os seus inimigos os dons da graça comum.
Voltamos à história com que iniciamos o capítulo. O que fazer com a Elizabeth?
Ou melhor, o que Elizabeth deverá fazer conosco? Ela terá que fazer uma escolha entre
ser discípula de Cristo e uma aluna de filosofia?
Conforme vimos, uma escolha dessas não é exigida do cristão, desde que a
sabedoria secular, seja ela na filosofia, psicologia, sociologia, marketing, administração
de empresas, etc., não tenha a prioridade na explicação de “coisas celestes”. Quando
Nabucodonozor, rei da Babilônia, arrasou Jerusalém, levou consigo mais do que o ouro
do templo. Lemos:
“Disse o rei a Aspenaz, chefe dos seus eunucos, que trouxesse alguns dos filhos
de Israel, assim da linhagem real como dos nobres, jovens sem nenhum defeito, de boa
aparência, instruídos em toda a sabedoria, doutos em ciência, e versados no
conhecimento, e que fossem competentes para assistirem no palácio do rei; e lhes
ensinasse a cultura e a língua dos caldeus. Determinou-lhes o rei a ração diária, das finas
iguarias da mesa real, e do vinho que ele bebia, e que assim fossem mantidos por três
anos, ao cabo dos quais assistiram diante do rei” ( Daniel 1.3-5).
A fim de provar sua dependência de deus em vez de depender do rei pagão,
Daniel e seus companheiros da corte israelita recusaram as iguarias da mesa do rei.
Contudo, aprenderam a língua e literatura da Babilônia. Esse conhecimento secular era
não só aceitável para Deus, como lemos o seguinte: “Ora, a esses quatro jovens Deus deu
o conhecimento e a inteligência em toda cultura e sabedoria... em toda matéria de
sabedoria e de inteligência, sobre que o rei lhes fez perguntas, os achou dez vezes mais
73
doutos do que todos os magos e encantadores que havia em todo o seu reino” (Daniel
1.17,20; acrescentamos os itálicos).
Imagine só: até mesmo como escravos na Babilônia, o povo de Deus não só tinha
permissão, como também foi preparado por Deus, para ser mais excelente no
conhecimento secular. Séculos antes, José foi erguido para um lugar de destaque
semelhante no Egito, ganhando a admiração do Faraó por seu conhecimento brilhante.
Como primeiro ministro do Egito, segundo no comando depois do próprio Faraó, José
empregou toda sua energia na tarefa secular que estava diante dele.
Porque Deus criou este mundo e o sustém por sua graciosa providência, não existe
atividade secular proibida aos cristãos, a não ser que essa atividade seja especificamente
proibida por Deus nas Escrituras. Não precisa ser “cristianizado” ou “espiritualizado”.
Por exemplo, não precisamos escrever filosofia cristã ou música cristã, poesia cristã ou
ficção cristã, embora precisemos, sim, de teologia cristã, culto cristão, evangelismo
cristão e ética cristã. Daniel e José sabiam exceler no conhecimento secular enquanto
mantinham suas convicções ais profundas tiradas do posto inexaurível da revelação
bíblica.
Isso não quer dizer que aqueles que tentam construir pontes entre cristianismo e
filosofia, as artes, e a ciência estejam errados, mas é dizer que o âmbito da graça comum,
é exatamente isso: comum. Não é especificamente cristã (ou seja, redimida), ainda que
Deus reine sobre ela e garante que a cultura prospere. Os cristãos devem estar envolvidos
nesses campos, mas não para “levá-los de volta” ou redimi-los. Devem estar nesse meio a
fim de cumprir sua vocação divina à qual foram chamados dentro deste mundo.
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Portanto, Elizabeth não precisa temer a natureza secular de estudos, mas deve
depender da bondade paternal de Deus em dar-lhe talento e oportunidade de exercer sua
vocação para a glória de Deus.
75
Capítulo 4
Cristianismo e as artes
Quantas vezes você já ouviu um crente dizer, se desculpando, que acabou de ler
um romance secular? Você já se cansou de ver os mesmos quadros de pinturas cristãs,
vez após vez> Você tem um sentimento de culpa quando gosta de um filme por sua arte
ou por seus atores ainda que sua mensagem seja reconhecivelmente errada? Embora
exista uma porcentagem respeitável de arte criada por cristãos através dos séculos, nos
dias atuais a interação de crentes com as artes é inquieta. Geralmente se limita a produzir
ou ter prazer em pinturas, ficção ou enfeites de parede com uma óbvia mensagem cristã.
Para evangélicos modernos, talvez não seja a ética de trabalho ou o medo de gastar mal o
tempo que impele um utilitarismo que destrua o impulso artístico; para muitos, ‘
e o pragmatismo do evangelismo e das atividades ligadas à igreja.
Denise conheceu a Cristo quando estava no meio da casa dos trinta anos. Não
demorou para sua igreja descobrir que Denise tinha muito para oferecer ao seu ministério
de música. Ela fora treinada em ópera na Itália e tinha um soprano belo e claro. Foi
recrutada para cantar no coral e ajudar a dirigir o louvor. Com a animação e o fervor
comum a novos crentes adultos, ela aproveitou a oportunidade de usar seus talentos para
o Senhor com o maior entusiasmo. Contudo, não se pode deixar de imaginar quanto
tempo uma pessoa de talento e treinamento musical continue contente cantando músicas
medíocres, e quanto as dúvidas inevitáveis provocariam sentimentos de culpa. Será que
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um crente talentoso tem que escolher entre Cristo (dirigir os cânticos do “louvor”) e o
mundo ( cantar ópera)?
Nos tempos antigos, a música da igreja era considerada “alta arte”, não porque
fosse “empertigada”, pois afinal de contas, Bach criava música para a igreja inteira
cantar. Mas era boa música, reconhecida então e ainda hoje como tal, até mesmo fora da
igreja. Outros músicos cristãos tinham patronos seculares (especialmente a corte real).
Havia um tempo quando artistas cristãos podiam produzir trabalho de qualidade porque
eram responsáveis para com a corte ou a igreja, ao invés da indústria de múltiplos
milhões de dólares que é a Música Cristã Contemporânea.
Em muitos círculos evangélicos, um jovem gênio artístico seria desprezado, não
porque sua busca do belo tirasse o tempo do seu trabalho, tanto quanto porque tiraria o
tempo do seu “ministério”. Se um jovem artista quisesse mesmo servir a Deus com seus
talentos, certamente poderia encontrar um ministério cristão que oferecesse uma
excelente avenida para os seus dons. Se ele quisesse simplesmente produzir arte pela arte
e explorar a natureza da beleza, muitas vezes isso seria visto como, no máximo, uma
perda de tempo e no seu pior, um flerte com o mundanismo. O evangelicalismo é
predominantemente da classe média; não há nada de errado nisso por si, mas significa
que onde as elites artísticas (desde o período romântico) são tratados como brâmanes
pelos mais ricos e mais estudados da sociedade, os cristão tendem a vê-los com uma certa
apatia e suspeita. Consideramos a questão da beleza com um certo grau de falta de jeito.
Não ficamos por aí sentados discutindo a natureza do belo.
Alguém pode replicar que os cristãos não pensam muito em tais assuntos por eles
não serem especificamente “questões cristãs”. Conquanto eu concorde que essas questões
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não sejam limitadas aos cristãos ( o assunto se encontra sob o cabeçalho de criação e
graça comum), não existe grupo no mundo que deveria estar mais interessado em
perguntar e buscar respostas a essas perguntas que os cristãos.
Parte do problema está em que muitos crentes contemporâneos, especialmente os
mais ligados à cultura popular, não têm uma apreciação da beleza do mundo bíblico.
Lembrei-me disso há pouco tempo quando um pastor de uma mega igreja recusou cantar
um hino do século dezoito por causa da linguagem antiga que fazia, na sua opinião, com
que o hino fosse obsoleto. Todo mundo entende que “tu" e “ti” significam “você”,
portanto ele não poderia dizer que o hino não era compreensível. Obsoleto queria dizer
alguma outra coisa. Ele acrescentou “além do mais: ‘que anjos prostrados o adorem’ é
complicado demais”. Mas não entender o que quer dizer “prostrados”, uma palavra não
tão difícil e nem insignificante? Ele não entendia que aprender a definição poderia ajudálo a assumir uma postura de adoração reverente. Talvez “quero louvar-te sempre mais e
mais” repetido diversas vezes fosse uma tradução aceitável para muitas pessoas. Mas
nem se aproxima da profundidade da frase mais antiga. Associamos as atitudes, os
ambientes e até mesmo idéias, não apenas com as palavras, mas com estilos. Anjos
prostrados em adoração ante o Rei dos reis, dentro do contexto de gozo do antemão,
simplesmente deixa claro aquilo que versos individualistas e superficiais não chegam aos
pés de fazer.
A arrogância que esse irmão atribuiu aos “elitistas” desejosos de impor suas
palavras e músicas altivas era na verdade mais característica dele. A música que foi
veículo para gerações de crentes comuns expressarem sua maravilha e gratidão pela graça
de Deus em Cristo hoje é “obsoleta” porque não de acordo com o gosto da cultura
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popular da juventude. Isso é um elitismo completo. Eu não sou pessoa de me firmar
somente em linguagem antiga e hinos exclusivamente clássicos, mas descubro um
iconoclasmo negativo em muito do cristianismo contemporâneo. Poucos dos hinos
românticos do século dezenove, e ainda menos dos cânticos de “louvor e adoração” do
século vinte, se igualam em altos padrões de conteúdo e composição das eras mais
antigas. Na igreja católica romana as massas de Mozart, Palestina, Mundy e Fauré foram
trocadas por “missas crioulas” com violões mal tocados, e no protestantismo os grandes
hinos que refletiam um período centrado em Deus foram substituídos por aquilo que só se
pode descrever como imitações de propagandas de televisão. Há nisso uma arrogância,
como se os que criticam o estilo “mais relevante” por sua falta de conteúdo ou
composição sofrem de falta de espiritualidade.
Será difícil para nós que fomos criados para louvar as coisas banais e feias em
nossa própria espiritualidade apreciarmos a beleza na esfera secular. Se não conseguimos
apreciar a beleza da prosa e poesia clássica na tradução de João Ferreira de Almeida,
teremos as mesmas suspeitas da “alta”(entenda-se: “difícil”) cultura ao ler os clássicos da
literatura brasileira ou portuguesa. Estou convencido de que não é o período musical que
torna esses hinos difíceis; na maioria dos casos, são até mais fáceis de cantar. Mas é (a) a
arrogância para com as coisas do passado e (b) o desconhecimento da teologia contida
nesses hinos. Muitos de nós que fomos criados no mundo evangélico atual, afogados no
mar da modernidade (marketing, psicologia, sentimentalismo de tocar e “achar” ,
individualismo, etc.) nos encontramos numa terra estranha quando o foco está nos
atributos de Deus e nas verdades da história redentiva. Numa cultura de programas de
entrevistas de televisão, é muito mais fácil falar de nós mesmos, e assim os “cânticos de
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louvor” refletem esse foco autobiográfico (centrado no homem) sobre mim e as minhas
experiências, minha decisão, minha obediência, minha felicidade, e assim por diante.
Como ressaltou Christopher Lasch, a característica narcisista (que adora a si
mesma) da América moderna [e isso inclui todo evangelicalismo da América Latina
também] se exibe através de uma personalidade altamente expressiva. Queremos “nos
expressar” através de cânticos de louvor, enquanto nos hinos clássicos antes do século
dezenove os crentes queriam compreender a Deus e a redenção, respondendo com
pensamento e com emoção. Ironicamente essa visão de adoração como “auto
expressão”(ainda que o chamemos por outro nome) é idêntica à idéia secular do
romantismo da arte como auto-expressão. Foi-se a visão de arte como o aquilo que
expressa o bom, o belo e verdadeiro. Mas se detestamos o fato de que a auto-expressão
como o que dirige a arte leva a artistas blasfemos e pornográficos como Maplethorpe, por
que seguimos a mesma filosofia na igreja, ainda que com uma conclusão muito menos
profana?
É verdade que a Bíblia também não fala muito dessa questão. Mas mais uma vez
somos lembrados de que somos criaturas que levam em si a imagem do próprio Deus, e
que podemos, portanto, busca e discernir a beleza pela revelação natural assim como o
cientista pode observar e, até certo grau, explicar os fenômenos naturais sem usar
capítulo e versículo bíblico. Na arte, nós estamos novamente no âmbito da criação, não
da redenção; graça comum, e não salvadora; o secular, e não o sagrado. Contudo, a
criação, o comum, e o secular todos têm a bênção de Deus mesmo sem que tenham
utilidade na igreja ou em missões evangelísticas.
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Apesar do fato de que a Bíblia não é livro de texto de teoria estética, existe algo
chamado visão bíblica da arte e de seu papel na sociedade. Trabalhando para se obter
uma visão bíblica, usaremos as seguintes perguntas como ponto de partida. No capítulo
seguinte examinaremos mais desazadamente como os cristãos, como indivíduos, podem
entender e apreciar melhor a arte.
CRITÉRIOS ARTÍSTICOS
Quais são os critérios bíblicos para se julgar a boa arte em contraposição à má
arte?
A resposta simples é “nenhum”. Em vão se vasculhariam as Escrituras à procura
de uma lista de regras para distinguir a boa arte da arte, literatura ou música mais pobre,
tornando qualquer absolutismo sobre o assunto completamente sem fundamento.
Os conservadores precisam tomar cuidado
para não comprimir essa rica variedade de modo reducionista
numa visão de “livro de texto” das Escrituras.
Aqui somos novamente lembrados que a esfera artística não é analisada da mesma
forma que a política, ciência e a literatura não-ficcional. Diferente dessas disciplinas, a
arte é muito mais que descritiva e didática; seu propósito é divertir, trazer prazer e
expressar uma idéia ou perspectiva sobre uma era mais ligada às impressões da
imaginação do que aos argumentos e caráter descritivo de outras formas de comunicação.
Diferente do cientista, o artista não precisa prestar contas de sua visão do universo, nem a
descrição exige evidência e observações da experiência. Naturalmente, a visão que o
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artista tem do mundo aparecerá em sua obra; Stephen Crane e Jean-Paul Sartre têm visões
muito diferentes do mundo de George MacDonald, e suas obras de ficção refletem isso.
Como ilustração, suponhamos que há dois artistas no mesmo estúdio em Nova
Iorque. A ambos foram encomendadas obras para dois propósitos muito diferentes, mas
não sem relação um com o outro, Um artista foi contratado pela cidade para criar um
novo mapa das ruas e estradas da cidade de Nova Iorque e seus arredores, enquanto o
outro foi selecionado por um patrono para produzir uma obra visionária que retrate a
essência da cidade. É melhor o criador do mapa de estradas gastar bastante tempo
pesquisando os detalhes de sua tarefa, enquanto o que vai fazer um quadro terá muito
mais amplidão e liberdade artística para sua obra. Uma obra será objetiva, baseada em
fatos, calculada nos mínimos detalhes, a outra será subjetiva, impressionista (aqui
empregamos a palavra como adjetivo, não referência a determinada escola ou estilo de
arte) e talvez nem reflita ma descrição realista do ponto de vista do cliente que a
encomendou. Contudo ela trará uma vista da cidade que foge aos analistas meramente
descritivos.
O filósofo da ciência Michael Polanyi observou “sabemos mais do que podemos
contar”. Noutras palavras, pela experiência, observação, e interação com a natureza e
com outros seres humanos, temos fonte de conhecimento tal que não é possível converter
todos os dados em linguagem. Até mesmo numa idéia simples (por exemplo, casa, pai)
existe mais do que pode ser expressado. É aqui que o artista é especialmente equipado
para expressar aquilo que tantas vezes transcende a linguagem puramente descritiva. É
por isso que as Escrituras incluem as parábolas do Senhor Jesus. Uma parábola não foi
feita para ser entendida literalmente. Das duas obras encomendadas acima (o mapa das
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estradas e a pintura), a segunda se corresponderia à parábola. Não foi feita para expor a
verdade em proposições, mas isso não significa que ela seja menos verdadeira, pois a
verdade e o erro não são para ser considerados como aparecendo numa escala
descendente de proposição e figura de linguagem (a anterior como de maior
confiabilidade do que a posterior). As parábolas de Jesus são tão verdadeiras quanto as
suas declarações proposicionais tais como “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. Há
em alguns círculos cristãos conservadores o perigo de identificar o grau da verdade com o
grau da forma literal, proposicional, mas mesmo quando Jesus usava figuras de
linguagem, ele estava sem dúvida alguma falando a verdade.
Enquanto liberais modernos e pós modernos comprimem de maneira reducionista
a grande variedade das Escrituras-- não só as parábolas, as figuras de linguagem
apocalíptica, e a poesia, mas as narrativas históricas e declarações proposicionais⎯em
mitos e símbolos, os conservadores precisam tomar cuidado para não comprimir essa rica
variedade de modo reducionista numa visão de “livro de texto” das Escrituras. Na
verdade ambos, liberais e conservadores, têm que chegar a termos com a noção da
Reforma (descoberta na própria Escritura) da hermenêutica (ou seja, método de
interpretação de um texto) histórica-gramatical.
Em breves palavras, a hermenêutica histórica-gramatical argumenta que um dado
texto bíblico deve ser lido e interpretado de acordo com as regras clássicas de
interpretação de qualquer outro texto literário. Por exemplo, a própria história do Êxodo
(capítulos 1-13) foi escrita principalmente no gênero de narrativa histórica, assim como
um livro-texto de história. Não há, portanto, nenhuma razão interna (ou seja, dentro do
próprio texto) para ler esses trechos como simbólicos ou alegorias mitológicas. Mas
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quando Deus declara: “Tendes visto o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de
águias, e vos cheguei a mim”(Êxodo 19:4)o leitor deverá exercer um julgamento
gramatico-histórico e reconhecer que temos aqui uma figura de linguagem, neste caso,
uma metáfora. No final do desconstrucionismo e advento da crítica literária pósmodernista, “metáfora” passou a descrever toda a linguagem humana. Tudo é um
símbolo, até mesmo as narrativas relativamente simples e declarações proposicionais, já
que as palavras querem dizer aquilo que os leitores querem que elas digam. Mas em
alguns círculos conservadores, o reducionismo oposto ocorre, onde até mesmo as
metáforas e símiles, alegorias e parábolas, apocalípticas e poéticas, são forçadas a se
encaixar nas grades do literalismo. Nessas duas formas de ver, ignora-se o sentido óbvio
do texto, em favor de uma hermenêutica preguiçosa na qual tudo é ou metáfora ou literal.
Em contraste, a própria Bíblia é rica com uma variedade que requer distinções
cuidadosas, se queremos interpretar corretamente a Palavra de deus. Deus certamente não
tem asas, portanto, ele não carregou literalmente a Israel sobre asas de águias. Mas foi
isso que disse o versículo, palavra por palavra, alguém poderá objetar. Sim, mas até
mesmo nos gêneros de narrativa clara, temos essa espécie de figura de linguagem, do
mesmo modo que dizemos, em conversas do cotidiano “Está chovendo gatos e
cachorros” . O meteorologista talvez utilize uma expressão mais sofisticada na televisão,
mas poucos no auditório temeriam uma invasão de bichanos e cães como resultado dessa
expressão ” [ nota da tradutora: prefere o mais brasileiro “chovendo canivetes”?].
Da mesma forma, quando o salmista declara “Senhor, tu tens sido a nossa
habitação”(significado da palavra “refúgio” no Salmo 90:1) ele estaria sugerindo que
Deus existe na forma de uma casa? E quando, no salmo seguinte, ele diz “Cobrir-te-á
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com as suas penas, sob suas asas estarás seguro” estaria ele sugerindo que Deus é uma
ave gigante? Poucos conservadores tomariam tão literalmente tais passagens. Mas isso
não seria desistir da idéia de que a Bíblia é Palavra inerrante de Deus, que deve ser
entendida literalmente, palavra por palavra? De maneira alguma. A questão aqui é se o
trecho em si requer que o interpretemos com literal ou, percebendo seu estilo literário
óbvio, de outra forma. Tanto os conservadores quanto os liberais precisam permitir que
o texto nos informe sobre se o uma dada frase ou trecho teve a intenção de ser tomada
literalmente ou não. Mas até mesmo quando chegamos a uma figura de linguagem ou
poesia, alegoria, parábola ou escrito apocalíptico, aquilo que está sendo transmitido é
literalmente verdadeiro, mesmo que as palavras comuniquem essa verdade de modo não
literal.
Outra ilustração das Escrituras talvez baste para este ponto. Em Mateus 13, temos
um cacho de parábolas dos lábios de Jesus. Uma das parábolas conta a história do joio.
Como as outras, esta parábola é uma história fictícia. É um mito, pode-se dizer. Na
história, um inimigo planta joio entre o trigo do campo de seu vizinho. Os empregados do
fazendeiro perguntam se quer que eles arranquem o joio, mas o dono da lavoura responde
que o trigo e o joio devem ser deixados juntos até a época da colheita, quando serão
separados.
Jesus não contou essa história como se tivesse acontecido. Não a narrou da
mesma forma como declarou: “Porque assim como Jonas esteve três dias e três noites no
ventre do grande peixe, assim o Filho do homem estará três dias e três noites no coração
da terra”(Mt 12.40). É uma parábola, contada como tal, assim como poderíamos estar em
volta duma fogueira num acampamento, contando histórias. O muno judaico era rico com
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figuras de linguagem e expressões artísticas, e assim, Jesus explicou sua missão não
apenas com proposições diretas, mas com outros estilos, porque “sabemos mais do que
podemos contar”. A expressão artística⎯um pouco de poesia, alguma alegoria, uma
metáfora⎯muitas vezes traduzem uma impressão ou destacam um ponto que explica
mais claramente as coisas, de forma que uma proposta clara por vezes não consegue. E
sim, essas figuras de linguagem não podem ser a base para nossa teologia. Um executivo
de uma companhia poderá descobrir, por exemplo, que seus pontos de vista políticos
estão mudando através da leitura dos editoriais e dos “charges” de um jornal, mas quando
essa pessoa vai para a página financeira, ela espera um relato direto. “Ler nas entrelinhas”
é esperado nas expressões mais artísticas, mas a espera-se da reportagem jornalística
direta que seja exata no que relata. Assim como não procuraríamos por nossa teologia nas
parábolas, não procuraríamos os desenhos ou cartuns por ajuda na hora de decidir quanto
aos investimentos do dia, mas a verdade pode ser transmitida igualmente pelos dois. Toda
a Escritura é inerrante, pois tudo nela é igualmente inspirada por Deus. Mas a verdade é
inculcada em nós através de uma variedade de estilos e gêneros.
Mais tarde no capítulo em que Jesus contou a parábola do trigo e do joio, ele
explicou o significado. Disse: "O que semeia a boa semente é o Filho do homem; o
campo é o mundo; a boa semente são os filhos do reino; o joio são os filhos do maligno;
o inimigo que semeou é o diabo; a ceifa é a consumação do século, e os ceifeiros são
anjos” (Mateus 13:37-38) e passou a explicar essa parábola que nos faz indagar. Estamos
acostumados com quem conta histórias, portanto, quando Jesus passa a dizer “Havia um
homem...” lemos nas entrelinhas e percebemos, enquanto a história vai sendo contada,
que é provavelmente uma parábola e não uma narrativa histórica. Mas quando os
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discípulos disseram “Explica-nos a parábola do joio do campo” é um sinal para
procurarmos linguagem de proposição em vez de linguagem figurada. Encontramos aqui
o âmbito de declarações claras que podem ser incorporadas em nossa teologia
sistemática.
É muito importante essa discussão, especialmente numa época em que (a)
tendemos a associar “literal” com “verdadeiro” e “simbólico” com falso e (b) parece que
não temos muito interesse em boas histórias, pinturas ou músicas, ou outras formas de
expressão artística que não se conformam de alguma maneira com as racionalizações que
ordenam (e devem ordenar) outras formas de comunicação. Os artistas não receberam um
édito divino de serem lógicos, dedutivos ou indutivos, realistas ou abstratos. Não estão
envolvidos em descrição, como os cientistas , matemáticos, historiadores e outros que
têm de ser lógicos, indutivos e realistas. Eles estão portanto livres para expressar suas
próprias impressões subjetivas, suas visões de pessoas, lugares, idéias, períodos e assim
por diante. Se propósito não é principalmente educar, evangelizar o exortar, mas entreter
e provocar. Digo “principalmente” porque alguma da melhor arte e literatura serve, na
verdade, um propósito didático. Geralmente a propaganda não cria boa arte ou literatura,
mas por vezes a paixão e o compromisso rigoroso para com uma determinada visão ou
idéia cria exceções surpreendentes.
“ARTE CRISTÔ
E o que dizer da arte cristã? Existe tal coisa?
Eram os grandes escritores e artistas de séculos passados, como Milton, Bunyan
Händel e Rembrandt pioneiros da “literatura e arte cristã”, ou simplesmente cristãos que
criaram boa arte? Em qualquer curso secular de literatura que ainda aprecie os clássicos
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do Ocidente, pessoas que professavam ser cristãs dominam os nomes, mas suas obras são
classificadas como “clássicos da literatura”. Não havia necessidade de criar uma classe
especial de literatura para eles, porque foram reconhecidos por seus próprios méritos
inerentes. É somente quando nossa arte torna-se de segunda categoria que temos de criar
um lugar especial para ela e justificá-la pelo uso moral e evangelístico com que serve a
comunidade cristã.
`
Um escritor moderno que tem muito a nos ensinar nesta área, por instrução e por
exemplo, é, naturalmente, C.S.Lewis. Numa de suas cartas ele escreveu: “Concordo
plenamente com você no que diz sobre Arte e Literatura. No meu entende, só podem ser
saudáveis quando são (a) admissivelmente dirigidas a nada mais que recreação inocente
ou (b) definidamente as servas da verdade religiosa ou pelo menos moral.” Os que saem
com o propósito de fazer propaganda através da arte, sejam eles marxistas ou
evangélicos, acabam trivializando tanto a religião quanto a arte. Isso não quer dizer que o
artista tenha que viver para si mesmo, pois os artistas são responsáveis para com seu
público. O público não existe para servir o artista, lembra-nos Lewis, mas o inverso é
verdade. Como com qualquer outro profissional, o artista serve a seu próximo, mas de
forma totalmente diferente das outras profissões.
Lewis observou que “uma poesia diretamente e conscientemente subordinada aos
fins de educar geralmente torna-se má poesia”. Há, naturalmente, diversos fatores que
entram na produção de uma obra, por exemplo, numa obra de ficção. Esses fatores
incluem enredo, caracterização (desenvolvimento das pessoas dentro da peça), ambiente e
estilo. São apenas esses fatores que devem dirigir o artista, mas quando uma abordagem
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especificamente cristã é tomada, esses fatores muitas vezes são sobrepujados pela
motivação evangelística e moral.
Muito da música cristã nos dá a impressão de que a letra
e a composição musical não têm grande importância em
comparação com o entusiasmo religioso ou a exortação moral.
Contudo, isso não quer dizer que não há lugar para uma forma distintamente
cristã ou de igreja. Não só não deveremos dispensar a arte sacra, como também devíamos
reavivá-la! Diferente desses exemplos citados, muita arte, música e literatura
contemporânea imita o mundo e a versão mais comercializada dos produtos do mundo. A
igreja quer ser relevante a todo o mundo, mas não pode perder sua distinção durante o
processo. Por milhares de anos, desde o início do culto no Templo de Jerusalém, o povo
de Deus tem lutado por criar sua própria linguagem, dentro do referencial dado por Deus.
Não é apenas a integridade teológica dessa linguagem, mas a integridade artística
também, que historicamente os cristãos consideram vitais no serviço e culto de Deus
Todo-Poderoso. Os cristãos devem sentir-se em liberdade para apreciar e criar música
popular, se esta for sua preferência, mas será que isso é aceitável no culto? Será que não
vale à pena perguntar sobre isso quando se fala sobre o culto a Deus? Afinal de contas,
adorar o Deus certo cai sob o juízo do segundo mandamento. E por que nossa linguagem
durante o culto deve descer para o nível de um apresentador de televisão? A decisão do
pastor caminhar pelo palco para dar uma palestra animadora de vinte minutos é apenas
questão de estilo, ou está violando o modelo de Deus para a pregação da Palavra? Não
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podemos permitir ao mundo que dite como cantaremos ou falaremos na presença de
Deus. É Deus, e não os de fora da igreja, que nos dá o modelo de culto.
Mas nesse modelo que estou sugerindo, seria perfeitamente aceitável um cantor
cristão talentoso encontrar um rótulo secular e gravar todo um álbum, até mesmo um
álbum que não mencionasse temas religiosos. Ironicamente, ao sugerir isso, cristãos
reformados se arriscam a ser chamados de “mundanos” pelos mesmos indivíduos que
permitiram que o mundo definisse suas vidas espirituais e a arte que produzem.
Precisamos melhores escritores, pintores e artistas para a liturgia, teologia,
arquitetura e música. Também precisamos de apologetas melhores que interajam com
inteligência com críticos culturais e religiosos do cristianismo ortodoxo. Mas também
precisamos de melhores artistas no outro lado da linha, trabalhando diariamente, lado a
lado, com artistas não cristãos, experimentando fracassos e sucessos juntamente com eles.
Não teremos esses artistas, porém, se simplesmente jogarmos todas as categorias num só
panelão de mediocridade que recebe as dicas do mundo em forma da cultura popular das
massas.
Muito da música cristã nos dá a impressão de que a letra e a composição musical
não têm grande importância em comparação com o entusiasmo religioso ou a exortação
moral. Assim, o nível de expressão cristã é na verdade superficial e tão mal-concebido
quanto à própria música. Contraste cânticos de louvor modernos com hinos clássicos de
antes do século dezenove para entender claramente o que estou dizendo. Melhor ainda,
contraste “Me ama e ama a ti” ou “Brilha em mim “ com o hino do salmista :
“Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; e, segundo a multidão das
tuas misericórdias, apaga as minhas transgressões... pois eu conheço as minhas
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transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim”(Salmo 51:1,3). É quando
confundimos a arte⎯poesia, música, ficção, não ficção⎯com um meio de graça que,
ironicamente, prejudicamos tanto a arte quanto a graça. Somente a Palavra e os
sacramentos são os meios ordenados por Deus para comunicar as riquezas de seu favor,
portanto, nossas expressões especificamente cristãs devem ser formuladas somente por
essa regra. É por isso que deve-se manter a distinção entre “secular” e “sagrado”. A
reforma não rejeitou tal distinção, mas rejeitou a hierarquia ligada a ela, como se uma
fosse mais importante ou espiritualmente aceitável a Deus.
Aqui será útil observarmos a justificativa bíblica para tal posição. Quando Deus
escolheu seu povo e instituiu uma forma de culto, foi feita uma distinção clara entre o que
era “santo” e o que era comum. Israel era “nação santa” e as demais nações eram “os
povos comuns”. Deus marcou uma linha divisória em tudo, até as louças e panelas. Os
vasos do tempo eram sagrados, os usados em casa eram comuns. Muitos crentes hoje,
com as melhores da intenções, falam sobre a “santidade de toda a vida”. Mas as leis
cerimoniais, civis e morais do antigo povo de Deus distinguiam claramente o que era
sagrado daquilo que não era. Talvez o que eles estivessem tentando dizer⎯e o que os
Reformadores insistiam⎯é que Deus está envolvido em toda a vida e não se limita ao
“religioso”. Ou seja, Deus está tão envolvido com a criação quanto com a redenção,
interessado tanto no comum quanto no sagrado. Isso é verdade, é claro. Um dia, quando
céu e terra novamente forem reunidos, o mundo todo será redimido e habitação, templo
de Deus, e sua glória encherá a terra. Por enquanto, vivemos num tempo intermediário,
em que o santo, a igreja, está separado do comum, o mundo.
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Contudo, o povo de Deus ainda está no mundo, e vive tanto na esfera comum
quanto na esfera santa da existência humana. A igreja medieval não apenas distinguia
entre o sagrado e o comum, fazia com que um fosse bom e o outro mau, fazendo com que
os cristãos mais espirituais fossem os que seguiam o “serviço cristão de tempo integral”,
em vez de vocações “seculares” (ou seja, comuns). Os reformadores, enquanto
mantinham a distinção bíblica entre santo e comum, insistiam que, como Deus havia
criado o mundo e o sustém por seu poder, o mundo não pode ser uma âmbito
inerentemente mau. Certamente é um campo de batalha no qual o bem e o mal, verdade e
erro, fé e incredulidade lutam. Mas a igreja também é! Deus é que mantém a ambos, mas
eles servem dois propósitos distintos. O propósito da igreja é adorar a Deus conforme ele
ordenou e levar o evangelho às nações. Embora o mundo possa ser visto pelo crente
como o “teatro da glória de Deus”, como disse Calvino, o mundo jamais poderá ser meio
de redenção. A cultura não pode redimir. A arte não pode redimir. Ciências, educação,
literatura e política não podem redimir.
É esse o conhecimento que libertou os grandes artistas da Reforma a criar obras
que servissem tanto o reino e Deus quanto o avanço da cultura de modos apropriados
para cada tarefa, sem confundir as das. A igreja é mais rica pelos hinos de Charles
Wesley, Isaac Watts, Augustus Toplady e John Newton. Criaram hinos⎯estilo musical
distinto que não era nem “elitista” (as melodias eram e são simples de cantar) e nem
triviais. Longe de sugerir que tenhamos menos artistas e músicos na igreja, estou
desejoso de recuperar essa grande tradição para os nossos dias. Mas isso não é o mesmo
que “alcançar os que não têm igreja”. Não adoramos a fim de alcançar os perdidos, mas
para receber a bênção de Deus e responder em louvor e gratidão. (Tirando muito do
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conteúdo redentivo do “louvor e adoração” de hoje, na verdade temos menos que seja
especificamente cristão com o qual evangelizar os que não conhecem a Cristo). Isso não
significa que se quisermos escrever livros ou música para não crentes, seremos menos
espirituais. Significa simplesmente que não é o propósito para a música especificamente
criada para o culto divino.
Se perguntássemos a Rembrandt: “Você é artista cristão?” ele provavelmente
estaria confuso. Talvez dissesse: “Sou cristão, sim, mas o que você quer dizer por ‘artista
cristão’? Está sugerindo que existe uma maneira cristã de fazer arte?” O inquiridor
moderno provavelmente responderia sim. A razão que essa pergunta seria
incompreensível ao artista cristão daquela época é que, pelo menos do lado protestante,
havia um sentido de libertação da arte direcionada ao religioso. Enquanto a Contrareforma empregava milhares de artistas na tentativa de recuperar o território que tinha
sido perdido para a Reforma, a obra produzida tinha um propósito religioso. Não foi,
como a chamada Era Dourada da literatura na Inglaterra protestante e a Era Dourada da
pintura na Holanda Protestante, a libertação dos artistas paras simplesmente produzirem a
boa arte. Era visto como um ministério cristão, e os artistas católicos deviam ser gratos
por serem colocados em serviço tão nobre. Muito da sua arte é linda e inspiradora, mas é
óbvia a sua decisão de provocar sentimentos de devoção e piedade de outro mundo. As
glórias da igreja romana são representadas de modo triunfalista e idealizado. O mesmo
pode-se dizer de muito da arte produzida hoje no mundo cristão.
Rembrandt e seus contemporâneos podiam se mover de uma pintura de natureza
morta do sindicato de tecidos da cidade [ara uma cena bíblica, mas conforme já vimos em
capítulos anteriores, até mesmo os assuntos religiosos eram tratados como gente
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verdadeira, comum neste mundo. Nota-se, em contraste com os quadros da contra
reforma do mesmo período, uma ausência notável de moralismo, sentimentalismo ou a
paixão de glorificar personagens bíblicos a fim de inspirar devoção e imitação.
A arte e a religião requerem existência
independente⎯não existência sem relação ou isolada,
mas existência distinta.
Em suma, portanto, a engenho da abordagem da Reforma para com as artes é que
ela torna a religião bíblica relevante para o esforço artístico quando ele for verdadeiro
para consigo e libera a arte para ser verdadeira para com seu chamado também. Kuyper
observou que conquanto s fé bíblica inspira a grande arte, o casamento da religião com a
arte (como o casamento da religião com a política) acaba destruindo a ambos. O que
queremos dizer por “arte cristã” ? Existe um “estilo cristão” de pintura? Qual o critério
que determina se uma música é “cristã” e não secular? Kuyper argumentou que sua falta
de uma arquitetura especial, por exemplo, fez do cristianismo da Reforma o guardião da
boa teologia e da boa arte, pois (diferentemente das abordagens ortodoxa, católica
romana ou islâmica) ela se recusa a procurar forçar, através de propaganda ou política,
uma forma artística de suas convicções religiosas sobre a cultura maior Enquanto a contra
reforma católica estava repleta de monumentos à grandeza de Roma, a Reforma em si
produziu tributos à vida cotidiana nos vilarejos e na importância de toda atividade
humana para a glória de Deus.
Tal orientação, tão óbvia no barroco holandês, é marcante também na literatura
puritana, não menos que nos seus sermões. Não se pode ler essas obras primas de
94
exposição simples sem se maravilhar com as figuras e alusões ao mundo natural.
Enquanto imagens visíveis foram colocadas ante o adorado medieval, imagens verbais
fizeram o santo puritano adentrar o texto da Escritura. O prazer de William Cooper nos
jardins, na presença da mesmice urbana demonstram isso:
Não são elas todas provas
De que o homem preso pelos muros nas cidades, ainda tem
Sua sede nata e inextinguível
de paisagens rurais, compensando essa perda
pela suplementação de levas, o melhor que pode?
Keith Thomas, de Oxford, explorou largamente esse interesse puritano na
natureza. Enquanto o paraíso enclausurado do monastério fora tema da poesia monástica,
a poesia puritana, de acordo com Thomas, falava do mundo natural que não exigia
justificação religiosa. “Na literatura da pós-reforma, o jardim fechado era símbolo de
repouso e harmonia”, uma espécie de “claustro ao ar livre”. Era no estágio mais alto do
desenvolvimento religioso, argumentou Kuyper, que não necessitava do apadrinhamento
das artes e vice versa. Isso não quer dizer que os cristãos não tenham prazer nas artes,
nem que as próprias igrejas tenham que ser feias, mas significa, sim, que a religião não
pode ser reduzida a sentimentos estéticos, nem a arte à propagação de uma determinada
fé. Kuyper diz que a religião se perde em sua forma estética. “Naquele período,”
referindo-se à “forma inferior” da Idade Média, “todas as artes estavam envolvidas no
serviço do culto, não apenas a música, pintura, escultura e arquitetura, como também a
dança, mímica e drama”. E não é precisamente aí que estão os evangélicos de hoje com o
95
“louvor e adoração” contemporâneos? A Palavra e os sacramentos foram empurrados
para o fundo, enquanto música, dramatização e um dos artistas e produções de diversões
toam o palco central.
É por isso que a arte e a religião requerem existência independente⎯não
existência sem relação ou isolada, mas existência distinta. Quando cristãos perdem sua fé
no poder da Palavra, eles se voltam às imagens, mas a expressão artística não é um
caminho confiável a Deus, assim como os sentimentos de uma religião não-cristão não o
são. A fé bíblica é baseada na proclamação daquilo que aconteceu na história, quando o
Deus-homem foi crucificado por nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação, o
cristianismo corre grande perigo quando criaturas pecadoras (mesmo crentes) tentam
descobrir verdades religiosas de dentro de si. No entanto, a arte é um empreendimento
profundamente psicológico e emocional, com propósito de satisfazer critérios totalmente
diferentes do que da religião revelada. Por definição emanando do íntimo do artista, a arte
não deve ser intelectualizada (como sugeriu Hegel) nem espiritualizada (como os
românticos argumentavam e muitos evangélicos hoje insistem), mas aceita pelo que ela é,
nada mais, nada menos: uma atividade humana dada por Deus com o propósito de refletir
a verdade, beleza e bondade do Criador, refletindo em sua criação. Ainda que os não
crentes não reconheçam este propósito, eles não podem evitar de refleti-lo. pois carregam
em si a imagem de Deus.
“FICÇÃO CRISTÔ
Como observarmos as tentativas de alguns escritores de produzir “ficção
cristã”?
96
O exemplo mais óbvio dessa tentativa está na ficção popularíssima de guerra
espiritual. A ficção, como muita ficção “cristã”, é unidimensional, com falta de
originalidade ou desenvolvimento das personagens. É óbvio que a trama espiritual é mais
importante do que a própria história. A não ser por uma visão muito particular do cosmos
(luz versus trevas, anjos bons versus anjos maus, com os crentes determinando os
resultados) os livros não poderiam permanecer em pé como histórias.
O público cristão tem exigido ficção “cristã”, evidentemente a ficção isenta de
linguagem forte e cenas mais ousadas, enchendo-a de exemplos saudáveis e exortações
sábias. O que os crentes na verdade têm recebido, pelo menos pelo que tenho visto
superficialmente da ficção “cristã” que existe por aí, não é nem boa teologia e nem boa
literatura. É o que acontece, contudo, quando confundimos criação com redenção: a
expressão artística não pode ficar em pé sozinha.; tem que ser justificada por uma “moral
da história” cristã, como as fábulas de Esopo. Tem que comunicar uma verdade religiosa
e oferecer exortação moral e espiritual⎯o que a torna singularmente “cristã”, mas
também é isso que faz dela má teologia e má literatura. Torna o cristianismo em
moralismo e não no anúncio da redenção; vira a literatura num sermão ao invés de uma
história.
No caso de muita ficção de guerra espiritual, a teologia é claramente sub-bíblica,
pois sua cosmologia (visão do universo) tem mais a ver com o dualismo neoplatônico
(gnóstico) que mencionamos anteriormente do que com o Deus soberano da história que,
em vez de deixar o resultado da história para criaturas pecadoras (inclusive os cristãos),
“segundo a sua vontade ele opera no exército do céu e nos moradores da terra. Não há
quem possa lhe deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Daniel 4:35).
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Pode-se observar como alguns cristãos têm tratado C.S.Lewis e suas histórias das
aventuras de Narnia. Em diversas ocasiões já li ou ouvi críticas de que a obra de Lewis é
de “nova era” e beira ao ocultismo, A versão de filme de "O leão, a feiticeira e o guardaroupa”, me disseram certa vez, leva as crianças à práticas ocultistas. De modo
semelhante, relatam que quando o filme “a bela e a fera” foi mostrado num campus de
faculdade cristã, algumas pessoas ficaram furiosas porque o filme, disseram elas,
promovia o bestialismo.
Concordo que esses exemplos sejam extremistas, mas maioria de nós já
encontrou (ou talvez participou) dessa espécie de confusão de gêneros literários. Talvez
tenhamos que se cristãos escreverem mitos, especialmente para crianças, as crianças
confundirão os mitos com as histórias bíblicas. Mas grandes escritores de ficção, como
Lewis, sabem que há grande força nos arquétipos. Um arquétipo representa algo ou
alguém⎯na maioria dos casos é um protótipo. Por exemplo, Adão, ainda que pessoa real
na história da humanidade, era um arquétipo de Cristo. Nas aventuras de Nárnia, Aslan é
um arquétipo de Cristo. Os leitores podem ter uma impressão mais forte do caráter de
Deus e seus caminhos com os humanos pela leitura dessa ficção, que nunca menciona a
Deus, a igreja ou qualquer outra coisa explicitamente cristã por nome. Como nas
parábolas de Jesus, a ficção não precisa ser explicitamente cristã. Note como cada uma
das parábolas de nosso Senhor pode ficar de pé por si mesma como história, e só são
vistas como explicitamente cristãs quando ele as explica em termos de não-ficção.
Estou, portanto, dizendo que é aceitável um cristão escrever ficção que não seja
explicitamente cristã, desde que suas figuras transmitam verdades cristãs ? Na verdade,
embora a boa ficção cristã se conforme com o exemplo de C.S.Lewis, os crentes podem ir
98
além disso sem medo de violarem suas consciências. Podem escrever contos de fadas que
nem deixam subentendido coisa alguma especificamente religiosa ou cristã. Podem criar
poesia sem puxar por referências a Deus ou às realidades cristãs, porque toda a realidade
foi criada por Deus e é sustentada por Deus, quer nós o mencionemos ou não, e quer os
leitores creiam ou não nele.
Alguém pode concluir que eu esteja sugerindo que não deve existir nada como
arte ou literatura explicitamente cristã, mas isso seria um grande mal-entendido. Escritos
teológicos, direção religiosa e oral, todos têm seu lugar como gêneros distintos, mas é
sempre perigoso, tanto para a seriedade quanto para o divertimento, quando eles se
confundem. Há um lugar óbvio para temas explicitamente cristãos nas artes, sejam elas
direcionadas a auditórios gerais ou especificamente cristãs. A Crucificação de Rembrandt
pode ser exposta no museu de arte de Chicago ou numa sala da igreja: a arte é excelente,
mesmo se alguém não aceita a mensagem que ela transmite, com o próprio artista
colocando-se como um dos que crucificou a Jesus Cristo. O Peregrino de Bunyan é em si
mesmo excelente peça de ficção, razão pela qual é estuado como um clássico da literatura
ocidental (não dentro de uma categoria especial de “ficção cristã”) nas aulas seculares. A
música de igreja de Vivaldi, Bach, e Händel é mais famosa em muitos teatros de
concertos do que na maioria das igrejas de hoje⎯não por seus temas religiosos, mas pela
riqueza da música. Não é errado um escritor tentar convencer seus leitores de seu ponto
de vista, como na Cabana de Pai Tomás de Harriet Beecher Stowe. O escritor judeu
Chaim Potok escreve o que poderia ser chamado de “ficção religiosa”, mas apresenta o
mundo do judaísmo “com as verrugas e tudo o mais”, dando ao leitor a impressão de sua
riqueza e variedade, do bem e do mal.
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Se vamos escrever literatura “cristã” e criar obras de arte e música distintamente
“cristãs”, deverá ser feito de modo tão plenamente persuasivo intelectualmente e
artisticamente que os que não são cristãos serão impressionados por sua
integridade⎯mesmo que eles discordem. Não muito tempo atrás, pedi a um músico não
cristão de alto gabarito, que escutasse e julgasse uma peça de “música de louvor”. Sem
saber a minha própria posição, ele tentou com o maior tato possível expressar que não
gostou. Isso devia atrair os não crentes, mas até mesmo seu estilo (que consideramos
contemporâneo e relevante) é superficial e vazio na sua imitação da música popular.
Outro amigo não crente compara esse estilo às bandas estrangeiras que tentam fazer
sucesso imitando o estilo americano de música popular. Quase sempre soa sem graça.
SECULAR E SAGRADO
Ao distinguir entre secular e sagrado, não estaríamos voltando ao isolacionismo
e separatismo que diz haver um lugar certo para os cristão neste canto, mas não
naquele?
Aqui é necessário que tomemos bastante cuidado, pois existe muita confusão.
Freqüentemente se diz que a reforma libertou os cristãos de ver o mundo em termos de
uma dicotomia entre o secular e o sagrado. Isso é verdade em um sentido, e falso noutro.
Primeiro, é verdade que os reformadores negaram o dualismo neoplatônico entre espírito
e matéria e insistiram que, estivéssemos envolvidos em cavar trincheiras ou trabalho
missionário, criar filhos ou pregar, toda a vida eram como disse Calvino, “teatro
maravilhoso da glória de Deus”. Nenhuma parte da atividade humana deveria ser vista
como fora do interesse e desígnio providencial de Deus. Contudo, os reformadores
distinguiam, sim, entre “coisas celestes” e “coisas terrestres”, como já vimos, Na
100
Escritura, há distinção óbvia entre o santo e o comum. Israel era nação santa, o Egito era
comum. Mas isso não significava que com isso o Egito estivesse fora do interesse de
Deus. Mesmo quando José regeu o Egito sob Faraó, e Daniel regeu a Pérsia sob
Nabucodonosor, essas nações eram “comuns”. Essas nações gozavam de chuvas sobre
suas plantações e Deus os guiou providencialmente a grandes descobertas e realizações
culturais através da revelação natural. Mas elas não foram separadas por Deus como seu
povo especial, seu povo redimido.
O que é verdade quanto às pessoas é verdadeiro também com respeito às coisas e
às esferas. Como não vivemos em uma teocracia nacional, a atividade cultural não é
sagrada. A reforma não negou a distinção entre o santo e o comum, mas afirmou a bênção
temporal de Deus sobre esse último. Não é que varrer o chão seja uma atividade de
alguma forma religiosa ou cristã, mas glorifica a Deus assim mesmo, porque é o serviço e
a vocação para com o próximo, de alguém que leva em si a imagem de Deus.
Na sua obra Júlio César, Händel nos conduz a maravilhar-nos com o Criador e
Preservador de um mundo em rebeldia; no seu Messias o mestre nos conduz a Deus o
Redentor. Não são dois deuses diferentes, mas podemos honrar a Deus em ambas as suas
funções.
É quando se pensa não haver distinção entre usos seculares e sagrados que quase
acabamos com a grande tradição de música de igreja ao mesmo tempo que criamos um
estilo de música popular que não é realmente secular e nem verdadeiramente sagrado.
Como na ficção, é má teologia e pobre arte.
Isso não quer dizer que quem escreve cânticos cristãos está livre de suas
convicções cristãs quando se senta ao piano, da mesma forma que o político cristão não
101
pode deixar de lado suas convicções ou crenças bíblicas a fim de servir ao público. Mas
em ambos os casos, significa que o cristão tenha que participar da cultura de modo a
reconhecer a criação, e não a redenção, como a base teológica apropriada para tais
atividades. Enquanto os reformadores insistiam que, já que fomos criados dentro deste
mundo, chamados para este mundo e redimidos neste mundo, não deveríamos pendurar
nossa fé no armário quando fôssemos para o trabalho, eles contudo distinguiam a igreja
do mundo.
Talvez uma ilustração sirva para ressaltar a importância desta questão. Não muito
tempo atrás, eu estava falando com alguns artistas cristãos, e um deles comentou que na
música contemporânea cristã havia emocionalismo e falta de conteúdo bíblico em muitos
exemplos. Outro artista se contrapôs: “Sim, mas a música por sua natureza é emotiva”.
Os dois fatos pareciam levar a discussão a um impasse, mas naquele ponto ficou fácil
demonstrar a distinção que eu estivera fazendo. Os dois artistas estavam certos. Os hinos
clássicos focalizam em Deus e sua obra salvífica em Cristo, já que era esse o foco da
teologia, pregação, do ensino e do culto. Os hinos do século dezenove, influenciados pelo
Romantismo, focalizaram sobre meus sentimentos para com Deus e sua obra salvadora
em Cristo. “Cânticos de louvor” contemporâneos dão um passo além no subjetivo,
focalizando apenas o “meu sentimento”, muitas vezes com pouco conteúdo que relacione
esses sentimentos às verdades sobre Deus e sua obra salvífica em Cristo. A música, e a
arte em geral, não deve ser forcada a sempre servir um objetivo cerebral, intelectual
associado com a pregação ou leitura da Bíblia ou um tomo de teologia. Não há nada de
errado com arte que apele aos sentimentos e à imaginação, mas há muito de errado com
um culto motivado por sentimentos e imaginação. Portanto, a música da igreja deve ser
102
julgada por critérios diferentes daqueles pelos quais julgamos a arte comum. Não há nada
não-espiritual sobre apreciar um concerto secular por simples prazer. Embora não
devamos ser ingênuos quanto às visões do mundo que formam a música secular, nem
ignorar a letra porque gostamos da música, não precisamos ser rigorosamente analíticos
quanto à música. Mas temos que ser rigorosamente analíticos quanto à música sacra. Por
que? Porque ela não foi feita simplesmente para o nosso entretenimento: é feita para
adorar a Deus! Infelizmente, a maior parte de nós se preocupa mais com palavras chãs
nas letras dos Rolling Stones do que com a falta de reverência no culto a Deus, mas esse
último é o segundo mandamento de Deus. Não podemos adorar a Deus com as nossas
próprias opiniões ou emoções; nosso culto (que inclui nossa música) deve ser
rigorosamente verificado por sua integridade teológica. Não é uma apresentação para
divertir. É por isso que me preocupo mais com a influência de Carman do que com a
influência de Clapton.
A música cristã contemporânea faz parte de uma terceira categoria. Os que
escreveram os hinos eram músicos das igrejas. Alguns, como Bach e Händel, escreveram
peças seculares e sagradas, mas somente agora vemos todo um estilo musical que não é
nem sagrado e nem secular, mas uma fusão de ambos (e, mas uma vez, fusão das piores
formas de ambos). Podemos acabar tendo uma música religiosa demais e fora do mundo,
que não consegue ser tocada com seriedade nas estações seculares, mas em que falta
transcendência e profundidade teológica para ser usado no culto. Por exemplo “Fico cada
vez mais apaixonado por ele” é, mais uma vez, péssima teologia e péssima arte. Se
cristãos se sentissem em liberdade de escrever canções de amor seculares ( focalizando o
horizontal) para estações seculares, e escrevessem também música sacra para a igreja
103
com profundidade lírica e grandeza musical (focalizando na relação vertical, com Deus),
talvez veríamos a alvorada de um novo tempo de grande música , produzida por cristãos,
em ambas as esferas.
104
Capítulo 5
Arte na vida do cristão
O gênio artístico de Owen Warland era incompreendido por seus vizinhos e seu
patrão, o “velho Peter Hovenden”. No seu conto “O artista do belo”, Nathaniel
Hawthorne (1804-64) descreveu o dilema de um jovem cuja procura do belo era
constantemente interrompida e colocada para trás pelos cépticos mortais que não
enxergavam a importância de sua busca espiritual. Hovenden, o relojoeiro do vilarejo,
tinha tomado ao Owen sob sua proteção com esperança de temperar a credulidade do
jovem com interesses mais práticos, mas sempre encontrava seu aprendiz trabalhando em
alguma peça delicada de arte.
Depois de ser perturbado muitas vezes em seu progresso artístico, Owen cedeu às
expectativas do relojoeiro, ganhando até mesmo a apreciação da cidade por arrumar o
relógio da torre da igreja. “A cidade em geral agradeceu a Owen pela pontualidade da
hora de jantar”. Seu empregador se alegrou com a transformação desse jovem de
progresso: “Apenas livra-te totalmente dessa besteira insensata sobre o belo, que nem eu,
nem mais ninguém, nem mesmo tu poderias entender; livra-te apenas disso e teu sucesso
na vida será certeiro como o dia de sol”, admoestou Hovenden. “E é assim,” observou
Hawthorne, “que as idéias que crescem com a imaginação, parecendo tão belas e de valor
além do que o homem possa imaginar, são expostas e esmiuçadas e aniquiladas pelo
contato com o prático”.
O espírito dormente de Owen foi acordado com o ruflar das asas de borboletas
primaveris à beira do rio. Ele renovou sua busca do belo, voltando ao projeto delicado de
105
formar uma borboleta de ouro na oficina. Esperava que pelo menos Annie, a linda filha
do velho Peter Hovenden, entendesse a sua missão na vida, “pois se havia algum espírito
humano que valorizasse certeiramente os processos tão sagrados aos seus olhos, tinha que
ser o de uma mulher”.
Contrastando com a ossatura e o caráter delicado de Owen, estava o ferreiro,
Robert Denforth. Homem de figura rude e grande estatura, Denforth não entendia mais
que o velho Hovenden sobre o espiritual e o belo. O povo da cidade reclamava que esse
jovem tão prometedor “gastava o dia... caminhando pela floresta e pelos campos e nas
margens dos riachos”.
Eis que Denforth acaba casando-se com Annie. Quando Owen foi visitar a casa
dos Hovenden para o jantar, trouxe um presente. Abrindo a caixa, Annie se assustou com
uma borboleta que adejava suas asas. Não sabendo se a borboleta era mecânica ou estava
viva, ela implorou que Owen lhe dissesse, mas ele se recusou. “Tem importância?” ele
perguntou.
O máximo que o ferreiro pôde dizer era “Seja lá o que for, é um brinquedo
bonito”, enquanto o velho Hovenden apenas sorriu descrente de tudo.
Finalmente a borboleta pairou sobre o dedo do bebê produzido pela união com
Danforth, e a criança esmagou o lindo inseto no seu pequeno punho. Annie gritou,
enquanto seu pai riu de desdém. Robert Danforth abriu o punho cerrado do seu filho “e
encontrou na palma da mãozinha um pequeno punhado de fragmentos brilhantes, de onde
a beleza esvoaçara para sempre”. Contudo, para Owen, isso não foi um sofrimento. “Ele
conseguira pegar outra borboleta ainda mais bela que esta. Quando o artista se ergueu o
106
suficiente para conseguir o belo, o símbolo pelo qual ele o tornou perceptível aos sentidos
mortais tornou-se de pouco valor ao deleitar seu espírito na realidade”.
Embora devamos tomar cuidado para não super-intelectualizar uma grande peça
de ficção, através de toda a estória, há uma antipatia romântica entre espírito e matéria. O
autor relacionou a obra do artista com o espiritual. Owen despreza o “prático e utilitário
rude” mas luta para “colocar em forma o espírito do belo”. “A força é um monstro
terreno. Não tenho nenhuma pretensão de ser forte. Minha força, qualquer que seja, é
totalmente espiritual”. Toda a questão de moto perpétuo, relacionada aos relógios, é
“apenas para homens cujos cérebros são atordoados pela matéria, mas não para mim”. A
enorme presença física de Danforth, totalmente material, “obscurece e confunde o
elemento espiritual em mim”. Ela fala do “duro mundo material” e o único modo que
Annie ou outra pessoa qualquer possa entrar no seu mundo secreto será por meio do
talismã. A borboleta, “tão parecida como um espírito”, representa tanto a beleza quanto o
artista, e é, ela só, vista com “vida pura e ideal” cujo “rastro airoso mostrará o caminho
para o céu”. A existência material da borboleta não era importante para Owen agora que
ele experimentou o belo e “bebeu de sua essência espiritual”. Mais no começo da história,
Hawthorne observou o que finalmente exemplificou na conclusão: “Eis que o artista, seja
pela poesia ou qualquer outro material, não se contenta com o prazer interior do belo,
mas tem que correr atrás do mistério esvoaçante além do reino etéreo de seu domínio, e
esmagar seu frágil ser, ao tomá-lo em seu punho material”.
Por que estou relatando esse conto de Nathaniel Hawthorne? Primeiro, porque
junta uma série de perguntas que precisam ser feitas quando se fala sobre arte: seu
propósito, sua natureza, seu distinto relacionamento com a atividade e cultura humana.
107
Nós evangélicos consideramos a questão do belo com certa falta de jeito. Não ficamos
simplesmente sentados conversando sobre a natureza do belo. Teríamos dificuldade para
entender a busca do Owen. Como os outros personagens do conto, estaríamos confusos
pela estranheza de sua solidão, pela intensidade de sua dedicação a uma peça de arte sem
propósito útil ou prático, e pela libertação experimentada por ele no final, com a
borboleta esmagada, enquanto todos olhavam, horrorizados ou com desprezo.
Hawthorne fazia parte do período de Romantismo na literatura, correspondente à
era Impressionista na pintura. Reagindo contra a esterilidade do racionalismo iluminista e
o que eles percebiam como dogmatismo seco dos protestantes e dos católicos romanos, os
artistas dessa época buscavam por uma existência mais “espiritual”, Ralph Waldo
Emerson, Walt Whitman e Henry David Thoreau representam o movimento no seu mais
extremo, conhecido como Transcendentalismo, e esses autores promulgavam a idéia de
que o artista, (em especial o poeta) seria o novo sacerdote. (Não é coincidência que
Emerson, que era ministro unitariano, deixou o ministério porque considerava que a Ceia
do Senhor fosse “por demais material” e achou necessário um mediador entre Deus e o
espírito humano).
Esse conto de Hawthorne representa o sentimento romântico no seu reavivamento
do gnosticismo. A matéria é má, o espírito é bom e puro. A força física (representada por
Danforth), o tempo (representado por Hovenden e os relógios que afastavam Owen do
seu verdadeiro amor), matéria e o prático são vistos como antítese do delicado físico
(representado tanto por Owen quanto por Annie), o eterno e o ideal (representado pela
borboleta) e o belo como fim em si mesmo. A alma, não o corpo, entende a beleza, e uma
108
mulher (sendo mais emocional e espiritualmente sensível) será mais capaz de aprender a
lição.
Desde o triunfo dessa visão romântica, a arte tem sido vista como província da
elite: homens e mulheres que tocaram o rosto de Deus e gozaram uma visão beata da
trindade fugidia de “o verdadeiro, o bom e o belo”. Só o artista entende de verdade o
significado além da realidade, enquanto o resto do mundo se contenta em viver vidas
práticas, comuns, materiais e cotidianas. O artista subiu a escada até as câmaras secretas
do Paraíso e através de suas últimas imagens sacramentais, aprendeu os mistérios que
fogem aos de mente mais terrena.
Como o marxismo para um professor ou filósofo inglês, a arte tornou-se uma
religião para muitos desde o triunfo do Romantismo. Assim, enquanto Owen vai do
desespero para o prazer de se o único “sabedor” quanto à beleza, assim também há uma
tendência na arte moderna de permitir que os artistas usem essa arrogância gnóstica.
C.S.Lewis escreveu sobre essa tendência: “Um autor jamais deverá ver a si mesmo como
o criador de beleza ou sabedoria antes inexistente, mas simplesmente como alguém que
procura demonstrar pela sua própria arte algum reflexo de Beleza e Sabedoria eternas”. A
literatura não é produto de engenho espiritual e certamente não é apenas auto-expressão,
insistia Lewis, porque o artista, não obstante seu estilo ou meio, depende da realidade da
mesma forma que o carpinteiro. Enquanto o artista poderá expressar sua compreensão das
coisas, é afinal de contas uma compreensão de coisas⎯ou seja, de pessoas, lugares e
coisas que realmente existem e têm alguma relação reconhecível com o mundo observado
por gente simples e comum.xvii
A esfera da arte é distinta da esfera do prático,
109
portanto não deverá ser confundida com o mesmo.
Conforme já notamos quanto à diferença entre a pintura medieval e a da reforma,
aqui também parece que temos uma visão de arte do período romântico que combina com
a da idade Média. Primeiro, ambos os períodos têm afinidade com um dualismo
neoplatônico (gnóstico) entre o âmbito espiritual (no topo da escada) e o âmbito material
(no degrau mais baixo) e tendem a ver o mundo como mera projeção (e assim mesmo,
defeituosa) das idéias celestes. Portanto, até mesmo os assuntos terrenos numa pintura
medieval ou romântica não são mostradas como verdade final, mas sempre com uma
característica etérea, de outro mundo. A Anunciação da Virgem Maria pode ocorrer no
que se representa como a casa de Maria, mas a casa não tem perspectiva, profundidade e
objetos e ambiente comuns do dia a dia. Seu propósito específico é comunicar que este é,
de alguma forma, um encontro celeste. O artista da Reforma, porém, representaria Maria
como uma moça comum envolvida nas tarefas diárias, com ambiente que pouco
distinguiria este quadro de um estudo comum da vida no vilarejo do século dezesseis ou
dezessete.
A pintura impressionista, apesar de todas as suas diferenças, é também cativada
por essa persistente visão grega, neoplatônica que cativou a Idade Média. Hawthorne (e
em maior grau os transcendentalistas) evidencia tal perspectiva na literatura.
Contudo, o conto inteligente de Hawthorne levanta uma questão importante sobre
a tendência, especialmente para a nossa cultura moderna, de julgar tudo pela sua utilidade
prática. Essa é a destruição da teologia nas igrejas: “Mas a teologia não é relevante!” é o
que se ouve já há tempo. Semelhantemente, Owen reclamou que as idéias que surgem da
imaginação “são expostas, para serem esmiuçadas no contato com o prático” e isso
110
depois se ilustra pela borboleta perdendo sua cor e seu vigor cada vez que pairava no
dedo do velho Peter Hovenden.
Aqui mais uma vez são úteis as percepções de Abraham Kuyper. Conquanto ele
deplorasse a idolatria da esfera artística ou estética, Kuyper admoestou também contra o
intelectualismo estéril que levou à reação do romantismo:
Sim, embora eu admita que a homenagem da arte pelo profanum vulgus
necessariamente conduza à corrupção da arte, contudo, por minha estimativa, até mesmo
o fanatismo estético mais desajuizado se encontra mais alto do que a corrida comum atrás
de riquezas, ou uma prostração nada santa perante os altares de Baco e Vênus. Nesta era
fria, irreligiosa e prática, o calor dessa devoção à arte tem mantido vivo muitas das
aspirações mais altas da alma, que de outra feita poderiam ter morrido, como morreram
no meio do último (décimo oitavo) século.xviii
A estória de Owen Warland ilustra também que a esfera de arte é distinta da
esfera do prático, contudo não deverá ser confundida com o último. A arte não é nem
mundana e nem redentiva, nem de baixa estirpe e nem divina. É um empreendimento
singular que se faz no mundo, justificada por considerações que não pertencem a
nenhuma outra disciplina. As duas tendências opostas são para o materialismo e para o
gnosticismo. Nos críticos de Owen Warland descobrimos a tendência de julgar a tudo,
inclusive a arte, por sua utilidade, e no próprio Owen encontramos a tendência de
associar a arte com o “espiritual”, como se trabalhar com ferro fosse menos espiritual
simplesmente por sua relação com a matéria.
Muitos cristãos interessados nas artes enfrentam o mesmo dilema que os cristãos
que gostam de filosofia ou ciências: o mundo cristão moderno tende a suspeitar do seu
discernimento espiritual. Como Owen Warland, o artista ou patrono das artes cristão se
arrisca a ser mal-entendido ou ficar sozinho. Mas se a beleza é parte importante do fato
de sermos humanos, se apreciar a criação de Deus é uma atividade legítima para o crente,
111
e se a integridade artística é mas capaz de atrair o pagão honesto do que a mediocridade,
então vale a pena examinarmos essas questões. Como um cristão poderá entender melhor
a arte e ajudar outros a apreciá-la mais? Examinemos algumas perguntas sobre o assunto.
ENTENDER A ARTE
Não acredito que a alta arte (pintura, escultura, música clássica, poesia, etc.)
seja apenas uma distração pecaminosa, mas como posso apreciá-la se não tive educação
ou berço e nem treino nas artes?
Essa pergunta se faz especialmente com relação ao comentário: “Não entendo
muito de arte moderna”. Muitas vezes o inquiridor conclui que é o seu problema e não do
artista. O elitismo esotérico de alguma arte moderna e pós moderna é sintomático do
desvio da arte como prazer e lazer para as massas para arte como um distintivo de quem
atinge certo nível especial que admita o artista ao lugar muito acima do sentimento e
gosto do publico, para acenar com graça e paternalismo à multidão de “não lavados” lá
embaixo. Como Owen Warland, eles reconheceram que são especiais, singulares.
Mas nem sempre foi assim. na verdade, os museus de arte são fenômeno da era
moderna. Tanto a arte católica romana quanto a arte protestante tinha a finalidade de
enfeitar o espaço de gente comum. Não obstante os pontos de vista diferentes quanto à
missão e o serviço da arte, ambas as tradições e os artistas que as representavam criam
que sua obra tinha que ter contato com o público, de alguma forma. Não acreditavam no
caráter auto-existente de seu trabalho, como se os gostos do público pudessem ser
totalmente desrespeitados como rudimentares demais para sua auto- expressão. A arte
tinha que ser desfrutada com prazer, e tinha como propósito causar deleite, maravilha,
crítica e até mesmo desconforto ao observador. Assim como a Reforma insistia que o
112
homem comum deveria ser retirado do analfabetismo e alimentado por um corpo comum
de literatura, assim também o artista conspirava com o escritor e músico para criar obras
a ser apreciadas pelas massas. Em vez de confundi-las, era para elevá-las. Isso foi
geralmente verdade, até o período do Romantismo. As óperas de Mozart foram
originalmente apresentadas a auditórios comparáveis aos que vão ao cinema hoje em dia.
Não precisa se preocupar por não entender muito da arte abstrata moderna ao
ponto de deixá-lo mal-preparado para a tarefa de a[apreciar arte e literatura. Além do
mais, nem toda a arte contemporânea é abstrata. Assegure-se que se estiver lendo um
autor ou vendo uma pintura ou ouvindo uma peça musical produzida antes do meio do
século dezenove, o autor o fez para o prazer de seu público, não apenas para sua própria
auto-apreciação esotérica e gnóstica. Não determine sua lista de leitura por aquilo que
alguém disse que você tem de gostar. Se você não gosta de fantasia, ler o comprido
Senhor dos Anéis de Tolkien o deixará doido. Você gosta de história, contos sobre a
natureza, mistérios? Comece sua leitura aí. Só porque existem filmes que não parecem
ligar-se ao que assiste, não nos leva a concluir que devamos abandonar todo cinema, e o
mesmo pode-se dizer da arte em geral. Note o comentário de Lewis sobre o assunto:
“Estou farto de nossos poetas do abracadabra. O que revela o segredo do show é que seus
confessos admiradores fazem interpretações bastante contraditórias da mesma
poesia⎯estou preparado a crer que um retrato ininteligível é na verdade um bom cavalo
se todos os seus admiradores me disserem assim, mas quando um diz que é um cavalo,
outro que é um navio e um terceiro que é uma laranja, e o quarto, que é o Monte
Evereste, eu o rejeito”.xix
LEITURA DE FICÇÃO
113
Por que perder tempo lendo ficção?
Num grupo, sempre se pode saber quem despreza a ficção. Freqüentemente, os
que não tiram tempo para ler ficção olham para o mundo através de suas perspectivas
limitadas, conhecendo apenas os seus próprios sentimentos e pensamentos dentro de seu
próprio tempo e lugar. Observe um programa de entrevista na televisão por uma hora e
você notará que ninguém escuta, todo mundo fala. Todo mundo está preparando sua
próxima sentença enquanto a outra pessoa (ou essas, pois muitas vezes estão todos
falando ao mesmo tempo) se dirige à nação. Falam sobre eles mesmos⎯suas
experiências, seus hábitos, suas opiniões, e preferências. Na nossa época de
“psicoblablablá”, nos sintonizamos a nós mesmos e aos nosso mundos interiores.
Ler ficção é viajar à terra de Merlin ou às florestas encantadas da Alemanha ou a
lugares mais modernos como o Havaí, Texas, Alasca ou a África do Sul de Michener. É
adentrar o mundo bagunceiro da Terra Média de Tolkien e ler nas entrelinhas da baleia de
Melville e da vila de Salem de Hawthorne. Cristãos que vivem no final do século vinte
fazem parte de uma cultura com pouco conhecimento ou imaginação histórica.
Conquanto conheçamos nossos próprios pensamentos, imaginações, sonhos e histórias,
geralmente ligamos a televisão para “fugir” para outros mundos, ao invés de irmos para a
ficção vestir a armadura do matador de dragões.
A leitura de ficção não apenas diverte (que já seria razão suficiente para sua
existência), como também nos ajuda a entrar em outro período de tempo e lugar e
entender um mundo diferente, e não simplesmente levar nossas próprias opiniões e
experiências como uma verdade determinada.
DESLIGAR A MTV
114
Como conseguir que nossos filhos se interessem novamente pela leitura, numa
época de MTV?
Até mesmo antes do advento da televisão de música e vídeo-clipes, C.S.Lewis
lamentou: “Os grandes autores do passado escreviam para o lazer de seus
contemporâneos adultos, e alguém que se importasse pela literatura não precisava de
estímulo e não esperava notas de bom comportamento por sentar-se ante a comida que
lhe era dada. Nas escolas os meninos aprendiam a ler, pela varinha de marmelo, poesia
em latim e grego, e descobriram o poeta inglês acidentalmente e naturalmente como hoje
eles descobrem o cinema local. A maioria da minha geração, e muitos, espero eu, da sua,
caíram para dento da literatura dessa forma”.xxMas esse último comentário não é verdade
com respeito à minha geração, nascida após a segunda guerra mundial, e certamente não
é dos que vieram na geração dos anos setenta e oitenta.
É um tanto surpreendente que, conforme pesquisas de George Barna, adolescentes
cristãos assistam mais MTV do que os não crentes. Isso não é apenas perigoso por causa
do conteúdo imoral explícito, mas também porque ela diminui a capacidade de uma
pessoa manter um pensamento único contínuo. Com imagens pulsantes, faiscando
violentamente e de forma desconexa, ela treina as pessoas a se desligarem e apenas
receber. Enquanto um livro de ficção obriga o leitor a diversos estágios de envolvimento,
a televisão em geral e o videoclipe especificamente reduzem quem assiste a espectador
passivo.
As crianças criadas com seus pais lendo histórias na hora de dormir, que podem
associar, à medida que crescem, a leitura com boas experiências (o calor de família e de
uma lareira acesa) elas manterão o hábito quando adultas. Por outro lado, se a televisão
115
foi sua babá eletrônica, fossem elas entretidas por “Beevis e Butthead” ou “Alf”, não
terão desenvolvido o hábito de leitura ou de contar histórias. Isso não significa que
adultos que não cresceram com leitura nunca possam começar, mas quer dizer que uma
geração de “surfistas dos canais” não será geração de leitores. Automaticamente
apertarão o botão ao invés de abrir o livro, porque foi assim que aprenderam a gastar suas
horas de lazer.
A boa notícia é que não é necessário que seja assim e, felizmente, muitos pais
estão começando a tratar a questão com a merecida seriedade. Ao planejar
deliberadamente tempo de “relaxar” com suas famílias, estão criando períodos em que se
tem prazer na leitura Bíblica e mesmo em decorar o catecismo, jogos, livros e até um
filme de cinema de vez em quando, no qual todos podem se divertir juntos. É essas
espécie de rotina familiar que preservará ilhas de leitores, pensadores e líderes ativos num
período ao qual os homens se referem como “a nova era das trevas” e esses, por sua vez,
ofereceram um recurso possível para as gerações futuras voltarem a acender a luz.
O BOM, O VERDADEIRO E O BELO
Pode ser bom se não for verdade? Pode ser verdade se não for belo? Pode ser
belo se não for bom?
Muitos crentes reagem ao permeante relativismo cultural de nossa época
insistindo que tudo⎯inclusive a arte⎯responda a um conjunto objetivo de critérios.
Sugerir que não existam critérios tão simplistas para a arte poder parece igual a dizer que
eles não existam para a moralidade ou a religião, mas mais uma vez, isso confundiria as
esferas da atividade humana.
Aristóteles disse que o maior bem era a felicidade,
116
enquanto a Escritura declara que é a glória de Deus.
O cristianismo é verdade revelada. Enquanto algumas verdades sobre Deus e a
pessoa possam ser conhecidas através da natureza, a mensagem salvífica de Cristo, o
Evangelho, nunca é descoberta pela atividade de seres humanos. É sempre dada por
Deus. Deus não somente mandou seu Filho ao mundo para a salvação, como também
prometeu o Messias aos patriarcas e profetas antes da encarnação e explicou o significado
desses eventos através dos apóstolos após os fatos ocorridos. Não existe “Evangelho” na
natureza. Isso significa que, não importa a grandeza do conhecimento de um incrédulo ou
sua experiência em coisas “espirituais”, ele (ou ela) está morto nas suas transgressões e
pecados”(Efésios 2.1) e é incapaz de entender o caminho de salvação a não ser através
das Escrituras e do Espírito Santo (1 Coríntios 2.14).
Conquanto o Evangelho não reside em nós através da natureza (dormente em
algum dos recessos de nosso coração, nossa mente ou nossas emoções) e nem nos está
disponível pela natureza (por exemplo, através do estudo das religiões do mundo), há
muito mais que está. Se queremos a verdade sobre a natureza de Deus, não descobriremos
a Trindade na física; se buscamos respostas sobre o caminho de salvação, não as
ouviremos numa palestra sobre filosofia e nem seremos de repente e intuitivamente
“esclarecidos” sobre essas respostas vendo uma grande obra de arte. Mas a moralidade
civil não está tão longe do coração e da mente da humanidade caída, e é por isso que o
apóstolo, nos capítulos 1 e 2 de Romanos, enfatiza esta esfera como “terreno comum:
entre o crente e o incrédulo.
Tendo isso como fundo, então, reflitamos na “trindade” clássica grega de virtudes
estéticas: “o bom, o verdadeiro e o belo”. Alguns reconheceram um eco na exortação de
117
Paulo: “Finalmente irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que
é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma
virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupa o vosso
pensamento”(Filipenses 4.8). Mais uma vez chegamos num ponto de terreno em comum.
Sem dúvida, Paulo conhecia esse critério clássico de filosofia e colocou sobre sua
verdade para o povo de Deus o selo apostólico. Isso não significa que os filósofos tenham
entendido corretamente o alvo final do bem ( Aristóteles disse que o maior bem era a
felicidade, enquanto a Escritura declara que é a glória de Deus), nem que eles estivessem
sempre certos em sua identificação daquilo que era bom, mas havia muita concordância.
Em sua Ética, Aristóteles considerava como maiores virtudes intelectuais a
ciência (conhecimento demonstrável do necessário e eterno), arte ( conhecimento de
como se faz as coisas) e sabedoria: sabedoria prática (conhecimento de como buscar as
finalidades da vida humana), sabedoria intuitiva (conhecimento dos princípios dos quais
procede a ciência), e sabedoria filosófica (união da razão intuitiva com a ciência). Mas
até mesmo entre os filósofos seculares buscamos em vão quando procuramos um critério
para se julgar a arte.
Até mesmo se tomarmos a lista paulina de “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é
respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de
boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe” ainda não temos muito em que
nos firmar quanto a um método universalmente aceito para discernir entre a boa arte e a
má, a não ser nosso próprio senso intuitivo. Um grupo de artistas, talvez todos cristãos,
pode estar completamente convencido de que sua arte se conforma com aquilo que é
verdadeiro, nobre, direito, puro, amável, admirável, excelente e louvável, sem concordar
118
nas definições das características específicas de cada um. Se isso é verdade quanto aos
próprios artistas, quanto mais dos seus patronos e seu auditório.
Por esta razão, é melhor tomar muito cuidado quanto a fazer julgamentos
absolutistas sobre a “boa" e a “má” arte. Em matéria de arte, o “bom” de uma pessoa
poderá ser o “mau” de outra. Esse relativismo muitas vezes levas as pessoas modernas a
concluir que o mesmo pode-se dizer da religião e da moral em geral. Se não
distinguirmos as esferas, criaremos o dogmatismo que leva à relativização da religião e
moral, ou nós mesmos cairemos no relativismo por não saber distinguir entre o silêncio
de Deus quanto a dar um critério para o “bom” na arte e em oferecer tais critérios para
outras esferas da atividade humana. Como é mais subjetiva, a arte é mais relativa do que
história, direito, filosofia, religião e ética.
Nossa própria intuição, portanto, forjada pela consciência alimentada pelas
Escrituras e iluminada pelo Espírito, deve nos guiar pelo emaranhado do “bom” na arte,
lembrando sempre que estamos no âmbito da criação, não da redenção; da experiência,
não da revelação.
O mesmo se diz quanto ao verdadeiro? Não há maneira de distinguir arte
“verdadeira” da “falsa”? Verdadeiro e falso podem ser empregados em dois sentidos.
Primeiro, pode-se dizer “verdade” em relação aos fatos. Ou pode-se dizer “verdade” em
termos de julgar se uma determinada obra é digna de ser chamada de arte. Vamos
examinar os dois sentidos.
Pode-se ler a Náusea de Sartre ou O Rebelde de Camus, ver uma peça de
Expressionismo alemão,e ouvir uma seleção de Der Ring des Nibelungen de Wagner, e
sair com um senso da expressão artística de uma era e uma visão do mundo. Conquanto
119
todas essas obras sejam distintas, empregando meios diferentes, são todas janelas sobre o
mundo moderno existencialista e niilista. Contudo, todas essas obras, na minha opinião,
são obras-primas. Não precisamos achar que o suicídio é a melhor saída do dilema
humano para apreciar o desespero de Sartre após duas guerras mundiais; nem precisamos
ser rebeldes para notar a honestidade brutal de Camus e ver em sua obra ecos de
Eclesiastes. O Expressionismo alemão, em toda sua feiúra, seu cinismo e violência, está
contando a verdade sobre a condição humana do Ocidente neste século, com todos seus
defeitos. E Wagner, compositor favorito de Hitler e devoto no niilismo ateísta que
produziu o Holocausto, hoje é ouvido em auditórios em Tel Aviv.
Muitas vezes cristãos boicotarão autores, filmes ou outras formas de expressão
artística por causa do caráter ou do compromisso religioso do artista, mas é possível ter
prazer na arte sem aprovar o artista. É também possível uma determinada obra ser boa
num sentido estético (ou seja, artístico), mas moralmente má, e vice versa. Até mesmo
em tais circunstâncias, não é necessariamente proibido para o cristão ( embora obras que
divertem glorificando a depravação possam ser subtilmente perigosas). Se fosse assim, a
descrição do adultério de Davi com Batseba e o assassinato de Urias seria indigno dos
ouvidos cristãos, mas Deus não é pudico como nós freqüentemente o julgamos. Na
Escritura encontramos coisas que são verdadeiras mas não necessariamente boas ou
belas.
Onde na música contemporânea encontramos
o sentimento expresso por Paulo em Romanos 7,
a experiência de um cristão que fracassou?
120
De modo semelhante, encontramos na Escritura expressões ou descrições que não
são verdadeiras. Por exemplo, há a teologia estóica dos amigos de Jó, que argumentam
longamente que se Jó está sofrendo, certamente é porque Deus o está julgando por algum
pecado secreto. Seus longos sermões são registrados, e se o livro de Jó terminasse com
esses sermões, não teríamos razão de dúvida de que essa fosse a verdade a respeito do
problema do mal e do sofrimento. Felizmente, o próprio Deus fecha o livro com sua
própria série de sermões. Contudo, as palestras dos amigos fazem parte da Escritura,
como também os lamentos do Salmista quando, no começo, ele não consegue ver a
verdade sobre os atos de Deus para com seres humanos. Como ele invejava os ímpios,
confessa o salmista: “Para eles não há preocupações, o seu corpo é sadio e nédio. Com
efeito inutilmente conservei puro o coração e lavei as mãos na inocência” (Salmo
73:4,13). Mas sua confusão foi esclarecida quando ele entrou no templo, quando refletiu
sobre a perspectiva eterna, vertical, teológica. Percebeu que os ímpios estão em terreno
escorregadio e que a destruição repentina lhes sobrevirá; em vez de invejá-los, o salmista
agora foge para o Deus a quem questionava, reconhecendo que “Quem mais tenho eu no
céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra” (v.25).
É essa diversidade rica que encontramos na Escritura que tantas vezes falta na
expressão cristã contemporânea. Parece que temos medo de contar a história toda.
Refletindo o otimismo das Américas, nos esquivamos do desespero, contudo essa é uma
expressão importante nas Escrituras. James Ward, músico evangélico, colocou música em
alguns desses Salmos⎯não só os pedaços alegres, mas também as partes deprimentes, e
utilizou o estilo de “blues” para transmitir o sentimento. O estilo é apropriado ao
conteúdo.
121
Mas em muita da música cristã contemporânea, o estilo é igual ao dos “jingles” de
propaganda de televisão. Na música clássica de igreja, encontramos os corais saindo de
uma emoção para outra, dependendo do fluxo do texto. Mas, como os personagens em
muita “ficção cristã”, a música de hoje é achatada e unidimensional. Quase sempre é
alegre, repetitiva, e fácil de lembrar, não diferente do regime que recebemos na sub
cultura evangélica. Onde está o terror de Deus encontrado nos profetas? A ira e o juízo,
contrastado com a ternura e misericórdia justificadora de Deus encontrada em Cristo
Jesus? Ou onde, na música cristã contemporânea, encontramos o sentimento expresso por
Paulo em Romanos 7, a experiência de um cristão que fracassou? É impossível, dada a
ênfase de “vitória” , expressar o que o antigo escritor de hinos dizia: “Tendente a vagar,
Senhor, eu sei, tendente a abandonar a Quem amei”? Ao eliminar essas características, a
experiência cristã refletida no gênero moderno está fora de sintonia com a realidade, e o
amor e a ternura de Deus em Cristo foi trivializado num mero sentimentalismo.
Ironicamente, essa espécie de música começa dizendo cumprir especificamente os
parâmetros paulinos, pensando que isso exige eliminar pensamentos e expressões
negativas que pintem um quadro realista da condição humana, no entanto, acabe sendo
carente nos três aspectos: não é boa, verdadeira ou bela.
Pode-se ler a poesia de John Donne, pregador e poeta inglês do século dezessete,
e encontrar peças seculares e sacras, mas as anteriores glorificam a Deus abrindo os olhos
do leitor às maravilhas da criação, enquanto os últimos glorificam a Deus pelo louvor e
gratidão diretos por sua obra salvadora em Cristo, Há sonetos nos quais não encontramos
referência a Deus ou tópicos religiosos, mas Donne não acreditava que por isso fosse
secular em sua visão do mundo. Donne não precisava justificar que suas poesias fossem
122
boas usando referências a Deus assim como Deus não precisa justificar que suas árvores,
pedras, montanhas, vales e criaturas fossem boas carimbando seu nome sobre todas as
coisas. Herbert e Milton são outros exemplos disso. John Bunyan escreveu O Peregrino
numa época em que muitos cristãos se inspiravam em teologia reformada e alegorias da
Renascença. O Fairy Queene de Spenser foi outro exemplo disso, e sem dúvida Bunyan
foi influenciado por essa maravilhosa alegoria. Mas até mesmo esses escritores que
escreveram alegorias especificamente cristãs reconheciam que não era apenas para
oferecer uma visão cristã da ficção popular. Não se promoveu como ficção geral, mas,
como as parábolas do Senhor, tinha o propósito de iluminar através da alegoria o que
outros tinham tentado explicar através de tratados e sermões doutrinários. Era boa
teologia e boa alegoria porque não tentou fazer mais do que era capaz, e as histórias
podiam permanecer por si mesmas como boas histórias. Séculos de crítica literária
insistem em classificá-los como clássicos da literatura ocidental.
Por que hoje tantos insistem que os cristãos escrevam, apresentem ou apreciem
somente arte e música “cristã”? E por que tanto do que é especificamente cristão é tão
medíocre? Reconheço que esses julgamentos são gerais e que há artistas cristãos tentando
mudar essa tendência, mas a generalização parece justificável, dado às tendências
principais na música contemporânea.
Voltando agora ao mundo do cinema, essa questão ficou nítida com uma história
que me foi relatada com relação ao filme Dead Poets Society (Sociedade dos Poetas
Mortos) com Robin Williams. Uma mulher assistia o filme com sua irmã e seu irmão
mais novos e todos ficaram profundamente emocionados, em parte porque a família do
rapaz que se suicida era semelhante à sua própria família, mas também porque era uma
123
excelente história e apresentada com honestidade. mas essa pessoa me contou: “Se uma
companhia cristã tivesse produzido o filme, não teria terminado no desespero
existencialista⎯um clímax próprio e verdadeiro para com filme⎯teria sido algo como o
rapaz descobrindo um folheto na gaveta junto ao revólver ou de alguma outra forma
encontrando a salvação”. Ela mencionou o filme a seu irmão que a repreendeu por causa
da mensagem anti-cristã.
A má teologia leva à má arte, e uma teologia que só tem espaço para “Tudo posso
naquele que me fortalece” e não admite “desventurado homem que eu sou! Quem me
livrará do corpo dessa morte?” só produzirá arte “vitoriosa” a que faltam honestidade e
verdade, duas qualidades que se espera ver especialmente no cristão, e demonstradas
ainda menos nas páginas agradáveis das Escrituras. Ironicamente, pode-se encontrar mais
que seja pelo menos verdadeiro num conto de ficção que destaque o desespero de um
existencialista em face à vida sem Deus do que numa ficção cristã de tipo “guerra nas
estrelas” que relata batalhas cósmicas decididas pelas criaturas ao invés de pelo Criador.
Deve-se fazer mais uma ressalva. Temos argumentado que é permissível o cristão
ler, assistir ou escutar alguma coisa com a qual discorde. Ademais, até mesmo a Bíblia
contém o bem e o mal, verdade e erro (embora não apresente o mal como bem e o erro
como verdade): a Bíblia não tenta encobrir a escuridão da condição humana, até mesmo
da condição dos crentes. Mas há uma diferença entre um filme como Atração Fatal, que
nos deixa aterrorizados com o mal do adultério, e um filme como Superman ou Batman,
no qual o herói é seduzido e a pressuposição é que “até mesmo os super-heróis são
infiéis”. Contudo, muitos cristãos que não permitiriam a seus filhos assistirem o primeiro
não tiveram dificuldades em mandá-los ver os outros dois. Tombstone talvez tivesse sua
124
parcela de violência do velho oeste, mas era excelente história sobre um caráter, amizade
e lealdade. O romance de Steinbeck, A leste do Éden, está repleto de mal moral, mas o
mal é repulsivo. Mas no livro de Hemingway, Por quem os sinos dobram, o personagem
principal encontra significado no sexo ilícito.
Destes exemplos, e muitos outros, vemos que discernir “ o verdadeiro, o bom e o
belo” pode ser uma coisa complicada. Mas vale à pena, e mais importante, é ordenado
pelas Escrituras (Filipenses 4:8).
No próximo capítulo analisaremos a relação entre cristianismo e ciência. Existe
esperança de reconciliação para este casal em pé de guerra? Procuraremos discernir o
ponto comum e as promessas e os perigos da interação cristã com essa importante esfera.
125
Capítulo 6
Cristianismo e a ciência moderna:
Não podemos ser amigos?
Abraham Kuyper, primeiro ministro holandês nos primeiros cinco anos deste
século, era também um líder nas artes e ciências. “Há escondido no Calvinismo”,
declarou na sua famosa palestra da Universidade de Princeton, “um impulso, uma
inclinação, um incentivo à investigação científica. É fato que a ciência foi gerada por ele
e seu princípio exige o espírito científico. “. Kuyper oferece muitas ilustrações desse fato
na história de sua própria nação.xxi A pergunta “Por que a ciência floresceu em terras
protestantes e não católicas romanas?” há muito chama a atenção de historiadores. Sejam
quais for os outros fatores de natureza econômica, social, filosófica e mecânica que sem
dúvida influíram no florescimento da ciência moderna, não há dúvida de que a teologia
da reforma, ou seja, evangélica e protestante, teve um papel decisivo.
Mas primeiro, vamos retroceder um pouco e examinar como que a ciência
moderna nasceu em terras cristãs e não outras. Numa tese que explorou profundamente
em palestras em Oxford, Columbia e outros lugares, o filósofo da ciência, Stanley L. Jaki
argumenta que há uma explicação razoável pelo fato de que a ciência, como nós a
conhecemos, sempre natimorta nas grandes sociedades do mundo antigo e do império
muçulmano, nasceu e cresceu à maturidade na “cristandade”. A crença de que Jesus
Cristo seja o único filho gerado de Deus, Jaki argumenta, tornou-se não apenas a
126
afirmativa central da convicção cristã, mas criou um ninho cultural propício ao “chocar”
desse ovo frágil que costuma ser abortivo. O monoteísmo cristão ( fé em um só Deus em
três pessoas) não apenas explicava os fatos científicos (ordem, unidade, diversidade, etc.)
como também ofereceu a única base racional para seguir atrás desses fatos.xxii
Argumento semelhante foi proposto por um dos mais eminentes cientistas da GrãBretanha, John Polkinghorne, presidente da Queen’s College, Cambridge, e ex-professor
de física matemática na Universidade de Cambridge.xxiii Polkinghorne insiste que a
teologia e a ciência são fundadas sobre as mesmas pressuposições quanto ao mundo: em
ambos, fé e ciência, diz ele, precisamos buscar oferecer explicações da realidade⎯as
coisas como elas realmente são. Em vez de fé cega, devemos reconhecer a harmonia entre
a revelação natural e a especial, rejeitando qualquer teoria que diga que tenhamos que
desprezar os fatos. Foi precisamente por esta razão que a ciência surgiu no ocidente
cristão em geral, florescendo de modo especial nas terras protestantes: havia
compromisso de buscar os particulares (fosse pela observação dos efeitos das leis físicas
ou por examinar uma doutrina bíblica) não obstante o resultado (isto é, mesmo se ele
contradissesse a perspectiva “universal” ou “maior” pressuposta pela igreja). Cientistas
protestantes criam que havia dois “livros de Deus”--o livro da natureza e o livro da
Escritura--e que cada um oferecia informação que não se encontrava no outro. Contudo,
não eram contraditórios em seus relatos. Embora a Escritura não falasse das mesmas
questões que a ciência, a Escritura era vista como coerente com a ciência e, no nível mais
geral, explicitaria dos fatos que passavam por baixo dos olhos da investigação científica.
Outro filósofo da ciência recente que tem causado uma reavaliação séria dos
fundamentos intelectuais do empreendimento científico é Tomas Kuhn. Em sua obra
127
prima, The Structure of Scientific Revolutions ( A estrutura das revoluções científicas),
Kuhn argumenta que todo grande avanço científico é devido a uma mudança de
paradigma. No início de seu surgimento, a ciência procedeu sob convicção que fatos
particulares levariam aos universais. Em vez de começar com a conclusão e tentar obter
seu suporte por dedução, deveria-se iniciar com os efeitos--as peças menores do querbracabeças--e trabalhar com cuidado para encaixá-las onde elas já se encaixam, em vez de
forçá-las para dentro do lugar preconcebido por nós. Mas a maioria daqueles primeiros
cientistas era cristã, e insistiam explicitamente na humildade na interpretação dos
caminhos de Deus na natureza. Mesmo quando utilizavam o método indutivo (saindo dos
particulares para os universais e dos efeitos para as causas, ao invés de vice-versa),
sabiam que eram homens e mulheres finitos e caídos, carentes da revelação especial
(Escrituras) a fim de obter “o grande quadro” que desse sentido a todo o
empreendimento.
Intoxicado com as possibilidades empíricas e racionais, o Iluminismo tendia a
eliminar a necessidade dessa revelação especial, e em seu lugar decidiu que a ciência era
em si mesma competente para chegar às respostas de toda pergunta importante. Enquanto
os cientistas anteriores sabiam distinguir entre as esferas de ciência e de religião,
revelação geral e revelação especial, graça comum e graça salvadora, o Iluminismo
produziu uma visão do mundo fundamentalmente diferente.
Agora, os cientistas eram os novos sumo sacerdotes do conhecimento humano,
possuidores não só da chave à verdade sobre “coisas da terra” como também a chave das
“coisas de cima”. Portanto, a ciência outorgou a si mesma também a esfera religiosa. Em
nossa época, o naturalismo, embora seja pressuposição não provaram é o compromisso
128
religioso que a pesquisa científica adota--muito semelhantemente aos cientistas mais
antigos que pressupunham ordem e racionalidade com base no universo ter sido criado
por Deus. Ironicamente, a ciência hoje muitas vezes opera sobre a pressuposição
filosófica de que o universo seja produto do acaso, contudo todo o empreendimento
científico tem que funcionar com base na pressuposição prática de que existe ordem e
desígnio até mesmo para se justificar um dia de oito horas no laboratório.
O naturalismo e a teoria do acaso não oferecem uma base racional para a
investigação científica; não pode existir teorias estáveis, nem “leis” físicas ou naturais,
nem previsibilidade, a não ser com a pressuposição de ordem e plano. E não se pode
pressupor ordem e plano sem levar a alguma espécie de crença em como essa ordem e
plano vieram (e vem) a ser num universo contingente. Contudo, muitos cientistas (e
especialmente filósofos, que não se envolvem na investigação científica em si e portanto
se dão ao luxo de criar teorias no ar rarefeito) vêem sua missão como não sendo em
termos de investigação dos particulares como expressões de divina ordem, beleza e plano
no universo, mas em termos de explicar o significado da vida. Em essência, a ciência não
só retirou a Escritura como a explicação do quadro maior das peças do quebra-cabeças,
mas agora procura ser ela mesmo revelatória. Stephen Hawking, o renomado cientista de
Cambridge, é um dos muitos cientistas e filósofos contemporâneos convictos de que a
ciência finalmente abrirá o segredo das Câmaras Celestes e penetrará a mente divina.
Finalmente, “conheceremos a mente de Deus”, promete Hawking.
Sem humildade, a ciência nunca teria nascido. É por esta razão que somente os
cientistas que crêem, em vez dos muitos religionistas científicos contemporâneos,
poderiam ter iniciado com sucesso o empreendimento científico. É necessário
129
constantemente revisar as teorias e hipóteses à luz dos fatos. A humildade cristã conduziu
muitos desses cientistas mais antigos a crer que não sabiam tudo, mas que seria bem
possível, devido tanto à sua finitude quanto à natureza caída da mente e dos poderes
humanos, errar naquilo que já acreditavam ser verdadeiro. Mas os secularistas provaram
ser tão rígidos e dogmáticos nas suas pressuposições religiosas quanto a igreja que
recusou ouvir Galileu porque suas investigações iam contra as amadas pressuposições
filosóficas da igreja oficial.
Não só a ciência nunca descobrirá o sentido último da vida e das coisas celestes
como também pode estar errada sobre os detalhes de seus descobrimentos particulares e
coisas terrenas. Sem humildade, não pode haver verdadeiro avanço científico.
A RELIGIÃO DA CIÊNCIA
Como arte, a ciência é um dos deuses da modernidade que nossa civilização
tentou entronizar no lugar reservado para o único Deus trino. Mas os fatos não explicam a
si mesmos, e nós não os interpretamos num vácuo, A explicação do grande quadro que
fazemos dos fatos pode estar errada, e a descoberta de qualquer fato específico pode
derrubar o quadro regente, universal, mas não se pode simplesmente enfileirar fatos não
relacionados sem buscar alguma harmonia, alguma explicação maior do modo como são
as coisas.
Como na arte, a ciência é vista cada vez mais pelo leigo com ceticismo e cinismo.
Em vez de um empreendimento de descoberta das maravilhas do mundo natural, a ciência
tornou-se, para muitos, uma religião. Seu fundamento naturalista dogmático é
pressuposto pelos guardiães e filósofos reinantes. Não ligue para os fatos, eventualmente
nós acabaremos demonstrando que mesmo que eles apontem para a ordem, o plano e um
130
criador racional, tudo que nós investigamos é na verdade produto do acaso e de forças
impessoais. Freqüentemente este é o dogmatismo não falado (e por vezes falado) dos
filósofos da ciência contemporânea, embora haja filósofos de ciência mais ‘sérios e
cientistas praticantes que não aceitam isso.
Além da tese de que o cristianismo geralmente oferecia a visão necessária para o
surgimento da ciência moderna, o que havia no protestantismo especificamente que o
tornava singularmente fértil nessa esfera?
Christopher Kaiser é um teólogo norte-americano que procura responder essa
questão. Há essencialmente quatro fundamentos teológicos sobre os quais floresceu a
ciência, diz Kaiser: a compreensibilidade do mundo, a unidade de céu e terra, a relativa
autonomia da natureza, e o ministério de cura e restauração. Kaiser atribui o fundamento
da ciência aos efeitos da tradição luterana e calvinista. Na verdade, há cinqüenta anos, o
livro de Robert Merton, Science, Technology and Society in Seventeenth Century
England (Ciência, tecnologia sociedade na Inglaterra do século dezessete) argumentava
que o puritanismo foi o fator mais fignificativo no surgimento da ciência moderna. Desde
então, os principais historiadores da ciência têm concordado.
Primeiro, da mesma forma como vimos no âmbito das artes, a Reforma criou uma
visão do mundo na qual este mundo teve nova importância. Mesmo que influenciada em
parte pela Renascença, a Reforma tomava suas dicas especialmente da doutrina bíblica da
criação, queda, redenção e restauração. Assim como pinturas e literatura da Reforma
tendiam a focalizar na maravilha, beleza e simplicidade do cotidiano, assim também
esses cientistas formados por seu pensamento buscavam investigar a magnificência
tecnológica da criação pela busca de conhecimento, como também pelos benefícios
131
práticos que tais descobertas trariam ao seu próximo. Mas primeiro, precisava haver uma
convicção, ela própria derivada dos fatos óbvios da observação geral, de que o mundo
podia ser compreendido. Como Polkinghorne, Jaki e outros argumentam, a ciência
moderna não poderia ter nascido em país hindu ou budista, porque a essas religiões falta a
crença na compreensibilidade do mundo. Um mundo de puro encantamento e pluralidade
politeísta não pode oferecer um berço para conceitos tais como leis da natureza. lógica e
razão.
À medida que a Reforma libertou os leigos
para chamados seculares... ofereceu também
um espírito crítico e aberto para o florescimento das ciências.
Este ponto, de que o mundo pode ser compreendido, era relacionado também com
a doutrina de vocações seculares. Kaiser nota que “Em oposição aos apoiadores da
autoridade papal, os reformadores enfatizavam a ordenação divina dos leigos cristãos nas
questões seculares como o governo civil e as artes mecânicas--esta era uma das
motivações por trás da ênfase nas implicações seculares sobre a doutrina da criação”. xxiv
Enquanto Roma cria que toda verdade, fosse ela artística, científica, política, filosófica
como também teológica, tinha sido confiada à Igreja, os protestantes insistiam que toda
autoridade estava nas Escritura, e onde a Bíblia calava, a igreja calava. Se as Escrituras
não ofereciam uma teoria para o movimento dos planetas, os cristãos podiam ter
opiniões, mas não tinham autoridade de dizer “Assim diz o Senhor”.
Nas formas mas extremadas de misticismo e piedade medieval, a tentação ao
gnosticismo estava sempre logo abaixo da superfície da cristandade, atribuindo o mal ao
132
material e proclamando uma redenção da existência material em vez de redenção da
matéria existente. Tais idéias, mesmo quando não adotadas em toda sua extensão,
perfaziam a mente medieval., mas à medida que a Reforma libertou os leigos para
chamados seculares e buscas artísticas e filosóficas não especificamente relacionadas
com a igreja e nem medidas por suas aplicações espirituais e morais, ofereceu também
um espírito crítico e aberto para o florescimento das ciências.
Em vez de tentar deduzir os particulares dos universais (por exemplo, no caso de
Galileu e Copérnico, deduzindo a revolução dos plantas a partir de um compromisso
filosófico não exigido pela Bíblia), os cientistas protestantes estavam livres para estudar
os particulares e chegar em convicções gerais somente após exame cuidadoso dos fatos
que levaram a essas conclusões. Por esta razão, Lewis Spitz, da Universidade de
Stanford, historiador da Renascença e Reforma, argumentou que o protestantismo em
geral (e o calvinismo em especial) era singularmente propício para produzir a
epistemologia empírica (visão de como sabemos o que sabemos) que deu surgimento à
ciência.xxv
Bacon, influenciado por Calvino e pelos Puritanos, argumentou que a filosofia
aristoteliana havia inibido o progresso da ciência porque falava ao observador o que tinha
que ser, não obstante o que estivesse sendo observado. Experiências científicas não
podiam ser levadas muito a sério se já se conhecia a resposta, portanto, a abordagem
indutiva (começando com os pequenos pedaços que podiam ser observados e juntando-os
até formar um quadro todo) era visto como a única forma correta de se chegar ao fundo
das coisas.
133
Deve-se lembrar que os membros fundadores da Sociedade Real, a principal
sociedade de pesquisa da Grã- Bretanha, eram puritanos, e seus interesses literários do
mundo natural eram paralelos às suas pesquisas científicas. Não estamos com isso
sugerindo que somente protestantes criam que o mundo é compreensível, e nem que
somente as opiniões formadas pela Reforma fossem o único fundamento intelectual para
o surgimento da ciência. Contudo, essa visão do mundo sem dúvida contribuiu fatores
necessários ao empreendimento. Por exemplo, Giordano Bruno, padre dominicano que se
converteu ao Protestantismo e estudou teologia em Genebra, argumentou em 1584 em
favor da imensidão d universo que somente agora está sendo demonstrado pela ciência.
Bruno foi julgado e executado por heresia pela igreja católica romana, mais por sua visão
científica do que por suas opiniões teológicas. Kepler tornou-se defensor de Copérnico,
como foram os principais cientistas protestantes nessa época. Como ressaltou Kaiser, as
três leis de órbita planetária de Kepler deram fundamentação para a astronomia moderna,
e o cientista foi tão grato a Deus por essas descobertas quanto teria sido grato pela
descoberta de uma verdade da Bíblia.
Eu te agradeço, Criador e Deus, por ter me dado esta alegria na tua criação, e
regozijo nas obras de tuas mãos. Eis que agora completei a obra à qual fui chamado. Nela
eu empreguei todos os talentos que emprestaste ao meu espírito. Revelei a majestade de
tuas obras a todos quantos lêem meus escritos, naquilo que meu estreito entendimento
possa compreender de suas infinitas riquezas.xxvi
A ênfase de João Calvino sobre a providência divina acrescentou outro elemento a
essa mistura. Como Deus não só criou o mundo como também reina sobre ele, há uma
certa ordem no universo. Não é errado, portanto, procurar padrões e leis. Certamente
Deus não é obrigado a agir de determinada forma e poderá interromper essas leis
conforme sua vontade (é aqui que se encaixam os milagres), mas Calvino observou que
134
nas Escrituras os milagres são sempre a exceção e não a regra. A ciência poderia,
portanto, esperar com razão registrar grande parte das leis naturais e de causa e efeito sem
ter que enfrentar o elemento do acaso ou da imprevisibilidade a cada esquina. Não só
Deus é responsável pela salvação e pelo avanço do reino de Cristo, como também é
responsável pela rotação dos planetas.
OS DOIS LIVROS DE DEUS
Mesmo as preocupações centrais da Reforma sobre a doutrina da salvação
afetaram o progresso da ciência, com a atenção às Escrituras como o único depositário de
revelação infalível e somente a fé como instrumento da justificação. Enquanto Roma
enfatizava a perpetuidade das revelações e milagres, a Reforma argumentava que isso
levava à superstição e minava a autoridade bíblica. Começou a ser feita uma distinção,
especialmente por parte dos protestantes, entre as esferas natural e sobrenatural, a fim de
distinguir a superstição do sobrenatural. O controle dos planetas e as marés dos oceanos
eram tanto efeito da obra de Deus quanto ressuscitar alguém dos mortos. Contudo Deus
realiza um como providência divina (que é tão normal que pode ser conformável a
determinado padrão observável) e o outro como milagre (que é não extraordinário que
não pode ser previsível conforme leis comuns e observáveis).
Por esta doutrina da providência, portanto, os protestantes tinham nova maneira
de harmonizar esses dois livros de Deus, revelação natural e revelação especial. Deus não
estava trabalhando menos dentro das leis comuns que denominamos de “naturais” do que
quando ele exerce atividades milagrosas.
Os perigos de enfatizar demais as leis naturais podem ser vistos no surgimento do
Deísmo no final do século dezessete e início do dezoito, florescendo com o Iluminismo, a
135
visão da ciência reinou até recentemente. Eventualmente , a doutrina da providência foi
secularizada. Em vez de ser vista como a atividade de Deus na execução comum de sua
soberana vontade, foi vista simplesmente como comum--esqueça essa parte de Deus!
Noutras palavras, era como se as “leis” que para cientistas de antes eram apenas
interpretações humanas da ordem criada e sustentada diariamente por Deus, tornaram-se
em deuses, elas mesmas, e, como um relojoeiro precisa apenas criar o relógio e dar corda
nele, assim Deus foi necessário apenas para criar as leis e colocá-las em movimento. Os
servos tornaram-se em mestre; as leis que explicavam os fatores observáveis da
providência de Deus tornaram-se causa ao invés do efeito. Temos aí as raízes do
naturalismo moderno.
A DIVISÃO
Talvez você pergunte: Como a Reforma resolveu o antagonismo entre fé e
ciência?
Infelizmente, a Reforma não teve sucesso nessa tarefa, mas é importante
reconhecermos que o debate entre ciência e fé não é apenas um fenômeno
contemporâneo. Copérnico e Galileu são apenas exemplos mais conhecidos de como
pode ser perigoso confundir o compromisso filosófico com a Escritura, como se duvidar
de um duvida do outro. Através da história, vemos como é fácil aos conservadores
confundir sua visão do status quo com a fé bíblica, podendo até mesmo juntar textos de
prova específicos que a primeira vista justifique suas idéias. Depois há um descobrimento
importante e o paradigma muda. Na época da Reforma, isso aconteceu na mudança de
paradigma de uma cosmologia (visão do universo) ptolomaica (geocêntrica) para a de
Copérnico (heliocêntrica). A visão geocêntrica (a terra no centro) insistia que o solve gira
136
em torno da terra, enquanto a helioêntrica (o sol no centro) pelo contrário, dizia que a
terra gira em torno do sol. A igreja romana considerava essa mudança como heresia, mas
os reformadores questionaram-na apenas no terreno científico e filosófico, sendo que seus
sucessores abraçaram a nova visão do mundo.
Como vimos em capítulos anteriores, a Reforma defendeu a distinção bíblica
entre os dois reinos. ( Isso será enfatizado especialmente no âmbito da política). Lutero,
Calvino e outros reformadores criam que, embora as esferas de igreja e ciência não
fossem totalmente autônomas (ambas dependiam de Deus), a ciência era autônoma da
autoridade humana, inclusive da autoridade eclesiástica. Como a ciência foi libertada do
domínio da igreja, foi cada vez mais libertada das restrições filosóficas também, e pôde
desenvolver sua própria abordagem filosófica: indutivismo baseado na experimentação e
na observação empírica.
Vimos como é subversivo exigir que a arte sirva a religião, política, filosofia ou o
prático. Não é da natureza do empreendimento explicar a realidade ou oferecer relatos
proposicionais acertados, nem seu propósito ordenar a sociedade ou ter jurisdição
artística sobre determinada ideologia. Semelhantemente, a ciência tem seu próprio
“reino” e não requer justificativas políticas, filosóficas, religiosas ou artísticas. Tem seus
próprios critérios para o seu avanço.
Aqui surge um ponto importante sobre o que acontece quando a ciência e a
Escritura parecem contradizer-se. Lembrando que Deus é o autor de ambos, e que
humanos imperfeitos podem “ler errado” qualquer dos dois, precisamos de humildade
para determinar se um modelo científico atual é defeituoso u se estamos lendo nas
Escrituras algo que nunca foi sua intenção dizer. Bacon importou a abordagem de “dois
137
reinos” que foi tão influente na visão reformada de igreja e estado e aplicou-a ao
empreendimento científico. Cristo reina em seu reino pelo milagre da graça, mas reina no
mundo pela
providência das leis naturais. Como Kaiser expressou o ideal baconinano:
“Natureza e graça eram dois reinos ou departamentos separados da potentia Dei ordinata
(o real reino de Deus sobre o mundo): o reino da natureza era acessível como o das artes
e ciências baseado na razão e observação humana; o reino de Deus era acessível através
do perdão dos pecados baseado no ensino das Escrituras. No final, os dois se uniam em
Deus: um baseado em todas as suas obras, o outro baseado em sua palavra.”. xxviiIsso não
significou que a ciência não dependia da graça comum de Deus--ele enfatizou que era-significo sim, que a graça comum não era graça salvadora, e a revelação geral não exigia
e nem contradizia os fatos da revelação especial.
Como alguns artistas viram sua obra como de alguma forma sacramental ou
abrindo os portais do céu, muitos cientistas na Renascença também viam as “ciências
ocultas” (alquimia, astrologia, etc.) como um caminho secreto para a utopia espiritual.
Ideologias políticas começaram a surgir com as mesmas características messiânicas.
Protestantes tais como Bacon separaram cuidadosamente a disciplina da superstição. Isso
é especialmente relevante em nossos dias, quando um grande numero de cientistas da
Nova Era tenta misturar a superstição com a ciência.
O método mais básico de raciocínio
é o bom senso, até mesmo na ciência.
Finalmente, o protestantismo contribuiu para o surgimento da ciência uma visão
da cultura e atividade humana como sendo de serviço ao próximo. Contrastado com o
artista esotérico ou político idealista ou filósofo especulativo, a Reforma propunha ma
138
visão do bem comum. O artista está em comunhão com o seu público, e assim a obra tem
que estar de alguma forma ligada a eles e não demonstra apenas uma busca espiritual
particular. O mesmo era verdade em todas as vocações, A idealização do bem comum,
sem dúvida, encorajou o crescimento firme da medicina e outras atividades científicas
que não somente davam conhecimento, mas conhecimento útil para o bem do próximo de
da comunidade. O cientista inglês do século 16, William Turner, não só traduziu o
catecismo de Heidelberg para o inglês, mas escreveu também muito sobre a importância
dos cientistas buscarem o conhecimento para o bem comum em vez de para sua própria
avareza ou glória. Os reformadores protestantes ingleses não só criticaram a superstição
religiosa, mas também se opunham às tendências ocultistas há mito associadas à ciência
medieval e da renascença. Desta forma eles abriram caminho para uma abordagem mais
realista.
REALISMO DE BOM SENSO
Vai além do âmbito deste capítulo a análise dos muitos desenvolvimentos que
acabaram minando a ligação harmoniosa entre a ciência e a fé, mas basta dizer que
quando a ciência--em grande parte pela influência de Emanuel Kant (1724-1804)--insistia
que a fé estava sobre um fundamento irracional e não-empírico, não havia mais uma
unidade intelectualmente justificável entre as duas esferas. Por mais distintas que fossem,
e diferentes as suas fontes, outrora era crido que a fé e a razão fossem igualmente
acessíveis à busca humana. Quando o pietismo começou a enfatizar a interiorização da
experiência cristã sobre a razão e os fatos externos e objetivos, aqueles, tais como Kant,
que foram influenciados por aquele ambiente, defendiam um divórcio entre as duas
esferas. Conseqüentemente, Kant insistiu que a fé pertencia ao âmbito noumenal (o
139
espiritual), enquanto a investigação científica se ocupava do âmbito fenomenal (ou seja,
onde as coisas acontecem na verdade de modo que pode ser observado ou provado
racionalmente). Kant continuava crendo na existência de Deus, mas só porque tinha que
pressupor sua existência a fim de ter moralidade, ordem e significado. Crendo que a fé
estava agora seguramente removida para um âmbito não racional, livre dos ataques da
crítica intelectual e científica, Kant na verdade abriu caminho para o desprezo da religião
como sendo insignificante e impossível de conhecer. Somente aquilo que pudesse ser
observado e examinado através de métodos científicos poderia de fato ser “conhecido”.
Contra esse ponto de vista, o Iluminismo Escocês produziu algumas figuras que
desafiaram essas influências de Iluminismo do continente. Thomas Reid (1710-96), por
exemplo, argumentou em favor do “realismo de bom senso” como maneira mais básica
de se chegar à verdade em qualquer disciplina. Através do Sir William Hamilton e os
teólogos presbiterianos que adotaram sua posição, tornou-se a filosofia dominante no
ensino norte-americano até o meio do século dezoito.xxviiiAssim como criticamos as
teorias “elitistas” da arte, filosofia e ciência, também Reid criticou sem piedade aqueles
que desejariam criar um método de se descobrir a verdade sobre as coisas com base em
qualquer coisa que não fosse a compreendida pela pessoa comum, Não era por Reid ser
populista que quisesse reduzir tudo ao mínimo denominador comum, mas porque ele
acreditava que, no final do dia, o método de raciocínio que um filósofo ou uma leiteira
usassem para resolver questões do cotidiano (por exemplo, se é seguro atravessar uma rua
quando passam os carros) é o mesmo método de raciocínio que qualquer pessoa deva
empregar para se chegar à verdade. Por que se utilizaria o bom senso nas decisões diárias
140
sobre a realidade e depois se empregaria outro método ostensivamente mais “alto” de
chegar à certeza para outras decisões?
O pressuposto essencial de Reid era que as faculdades humanas de senso e
memória são basicamente confiáveis. Certamente, não produzem a certeza absoluta, mas
quando se está atravessando a rua, a questão da certeza absoluta não é assim tão
importante. Percebe-se o perigo e utilizando o bom senso, a pessoa evita passar quando
passam veículos. Não se para, para inventar um argumento silogístico (os carros
freqüentemente passam nas ruas; esta é uma rua; portanto, os carros freqüentemente usam
essa rua) como fazem os racionalistas. E nem conduz à experimentação. Esses podem ser
métodos úteis para se chegar a algumas conclusões, mas o método mais básico de
raciocinar é pelo bom senso--até mesmo na ciência.
Isso pressupõe que haja algo como um mundo de verdade (que vimos como
pressuposto básico do protestantismo, que levou ao surgimento da ciência para começar)
e que o mundo verdadeiro é capaz de ser entendido até certo ponto. O que
experimentamos com os sentidos e a memória não são apenas nossas próprias idéias, as
quais forçamos sobre a realidade, mas são a apreensão da própria realidade. A princípio,
isso poderá parecer um assunto pedante, mas é fundamental para as perguntas mais
básicas de como sabemos o que sabemos. Conquanto Descartes e Kant insistiam que
nossas idéias (as pressuposições dentro de nossas mentes) formem nossa compreensão da
realidade, de modo semelhante ao cortador de biscoitos formando os biscoitos ou a
bandeja de gelo forma os cubos de gelo, Reid seguia a abordagem realista. O que
observamos forma o que sabemos e cremos e não é simplesmente forçado dentro de
moldes pela mente. Até que ponto nossas idéias e interpretações, nossos preconceitos e
141
pressupostos, determinam o que cremos e por que cremos? Até que ponto deveriam
determinar? É ingenuidade acreditar que nossa percepção da realidade é determinada pela
realidade e não pela mente? Ou de fato isso é o alvo do conhecedor: tentar, dentro do
possível, entender a realidade diretamente, sem preconceitos ou compromissos a priori?
O realismo de bom senso opta pela segunda interpretação. A evidência fora de nossas
próprias idéias e pressuposições da razão pode, na verdade, alterar e derrubá-las.
Se o racionalismo de Kant e o idealismo de Hegel não bastassem para despir o
conhecedor de sua confiança num mundo objetivo e no conhecimento da realidade, a
crise é muito mais aguda em nossos dias. O racionalismo e o idealismo insistem que não
existe realidade independente da mente. A condição pós moderna na qual nos
encontramos atualmente apenas acentua essa idéia. Com o colapso da experiência
moderna da razão sem Deus, veio a desilusão com a própria razão. As pessoas chegaram
agora a crer que não existe verdade absoluta. Jacques Derrida liderou a acusação dos
deconstrucionistas literários. O deconstrucionismo crê que os textos, seculares ou
religiosos, não possuem significado objetivo, mas têm o significado que lhes é dado pelo
leitor e não pelo autor.
Interessante notar que essa mesma proposta, que começou na literatura, conseguiu
crédito apenas entre os filósofos da ciência e não entre cientistas que a pratiquem. Como
disse Polkinghorne: “Contudo é dos observadores que essas vozes cépticas se levantam.
Poucos entre os que realmente estão envolvidos no trabalho científico duvidam que
estejam aprendendo sobre o modelo e processo real do mundo físico”. xxixCom certas
modificações, Michael Polanyi, outro famoso filósofo da ciência, argumenta que a
indução e o realismo de bom senso não são apenas fundamentais para a ciência, como
142
também para a existência e atividade do ser humano comum. Não se infere o que deve ser
verdadeiro para depois encontrar fatos que suportem isso, mas começa-se com alguns
fatos e uma hipótese viável, sempre prontos para revisar a hipótese quando os fatos assim
requerem.
EVIDENCIALISMO
J.R.Carnes, matemático, declara que a teologia “permanece em exatamente a
mesma relação para com a experiência religiosa que a teoria científica para nossa
experiência ordinária do mundo”. xxx Isso, naturalmente, levanta uma questão importante:
Será que significa que a doutrina é formada com base na teologia natural ou experiência
humana em vez de ser formada sobre a Palavra de Deus? Essa pergunta relaciona-se com
uma posição na apologética contemporânea conhecida como “evidencialismo”.
Mediado elos realistas de bom senso na Escócia e nos Estados Unidos, e integrado
na apologética do Seminário Teológico de Princeton durante seu apogeu (final do século
dezoito) sob B.B.Warfield e os Hodges, o “evidencialismo” tornou-se o método
apologético de muitos evangélicos deste século, notadamente John Warwick
Montgomery. Como seu precursor, o evidencialismo diz que a realidade é conhecível e
que deve-se fazer decisões sobre a verdade da mesma forma como se tomam decisões
sobre os mínimos detalhes da vida cotidiana. Em resposta à pergunta se a teologia é para
a experiência religiosa aquilo que a ciência é para a experiência do mundo natural, o
evidencialismo diria sim e não: no sentido que a doutrina da Trindade, por exemplo, não
pode ser descoberta através da experiência religiosa. Se a experiência religiosa
determinasse a verdade revelada, não haveria fim na loucura! Contudo, conforme j’
143
a vimos, há bastante que pode ser conhecido na natureza (e na experiência humana) que
podemos ver e conhecer antes mesmo de conhecer a verdade das Escrituras.
Aqui, o evidencialismo iniciaria com o fato histórico da ressurreição, convidando
o céptico a tratar da questão da mesma forma como se trata qualquer assunto histórico. O
historiador começa com documentos primários para determinar a confiabilidade de um
relato histórico, escolhendo os mais confiáveis entre esses documentos. Os documentos
mais confiáveis são os mais antigos, porque estão mais próximos do tempo do evento em
si para um relato acurado; as histórias tendem a inchar com o tempo. Como os milagres
são extraordinários, tem que haver uma duvida crítica. Ou seja, os relatos não podem ser
aceitos displicentemente. Os documentos têm que ser analisados por sua autenticidade,
como qualquer relato histórico, e ainda mais escrupulosamente, por causa da natureza de
suas reivindicações. Os documentos terão que ser escritos por pessoas suficientemente
próximas às pessoas e aos eventos que se apresentam, tendo um relato de primeira mão.
Se esses relatos eram abertos ao público, até mesmo aos inimigos, há grande interesse por
parte do historiador em descobrir como eram recebidos esses relatos. Quais eram as
atitudes das testemunhas hostis--as que tinham mais a perder se fossem verdade os
eventos relatados? Quais as melhores explicações alternativas? São plausíveis como os
relatos de testemunhas oculares? Ademais, soam como verdadeiros? Ou seja, quando se
lê, as testemunhas nos parecem confiáveis? Se fossem colocadas em julgamento, seu
testemunho permaneceriam num tribunal de justiça?
Na verdade, John W. Montgomery argumentou que o melhor modelo para a
apologética cristã é no tribunal de justiça. Simon Greenleaf, fundador da Faculdade de
Direito de Harvard, saiu para desaprovar o que dizia o cristianismo, sujeitando-o aos
144
testes normais do direito civil, mas acabou sendo convencido de que eram reais, com base
na força e confiabilidade das testemunhas. Encorajado pela abordagem de Greenleaf,
Montgomery, ele próprio advogado e professor de direito, como também teólogo,
desenvolveu uma abordagem de “bom senso” para provar as reivindicações cristãs.
Quando se emprega essa espécie de apologética, muitos descobrem que a evidência, tanto
interna (dentro das Escrituras) como externa (descobertas arqueológicas, relatos e
referências histórico-seculares, etc.) conduzem a um veredicto em favor dessas
reivindicações. Isso nem por um instante diminui a obra do Espírito Santo, embora alguns
que acreditam ser fatos históricos, mas, como o estudioso judeu Pinchas Lapide,
concluem que esses fatos históricos nada tem a ver com a necessidade pessoal de tornarse ou não cristão. Assim como os demônios aceitam o fato histórico da ressurreição no
entanto não confiam no Cristo ressurreto como justificação e redenção. A apologética não
é evangelismo, mas é indispensável a ele.
PREPARADOS PARA DAR RESPOSTA
O que hoje precisamos desesperadamente me nossos dias é recuperar esse
“realismo de bom senso” que exige de cépticos e cristãos argumentar seus casos na
mesma base de busca intelectual, em vez da caricatura comum (feita por demais comum
pelos próprios crentes) de que a verdade “secular”(por exemplo, a história da batalha de
Waterloo) pode ser conhecida através de atenção e bom senso para com os relatos e
detalhes, enquanto a verdade “espiritual” (por exemplo, a Ressurreição) só pode ser
conhecida através de um salto de presunção a que chamamos de “fé”.
Como disse Polanyi: “A possibilidade de erro é um elemento necessário de
qualquer crença baseada na realidade... Deixar de crer baseado nesse risco é quebrar todo
145
contato com a realidade”. xxxiPode até ser mais seguro dessa maneira, como sugeriu Kant,
mas se o que o cristianismo diz não pode ser, falando hipoteticamente, provado errado,
também não pode ser provado como certo, pelo menos em conformidade com as provas
normais que distingam eventos verdadeiros dos fantasiosos.
Vemos que as objeções do que o cristianismo apregoa não vêm na verdade do
âmbito da ciência tanto quanto do âmbito da própria teologia. Ironicamente, como
observou Basil Mitchell: “Negar a existência de Deus com base única em que se ele
existisse seria uma exceção ao modo como normalmente se oferecem referências
identificadoras e requerer a pergunta contra o teísta exigindo que o teísmo se acomode a
uma metafísica essencialmente ateísta”.xxxii Em outras palavras, sempre que um cientista,
filósofo ou historiador argumenta que a Ressurreição não podia ter acontecido porque nas
ressurreições não acontecem, estará usando um argumento circular. David Hume, um
filósofo fulcral do Iluminismo que negava o miraculoso, pelo menos reconhecia que
estava fazendo um compromisso a priori, pressuposicional para com a impossibilidade
do milagroso, mas muitos cientistas e pensadores hoje acreditam ingenuamente que sua
rejeição da visão sobrenatural e teísta do mundo é baseada em fatos, embora seja apenas
baseada na fé cega e dogmática no naturalismo. Isso é tanto fideísmo (crença cega sem
razão suficiente a sustentá-la) quanto o do crente que diz “Sabe como eu sei que ele vive?
ele vive no meu coração”.
Tudo que requer o cristão, argumentando com base no realismo de bom senso, é
que ambos os lados estejam dispostos a trabalhar indutivamente, dos fatos particulares
para as conclusões gerais. No esquema evidencialista, os fatos particulares estão em volta
do evento da ressurreição. Se pode ser demonstrado que Jesus ressuscitou dos mortos,
146
então tanto os relatos que foram julgados confiáveis para se chegar àquela conclusão (o
Novo Testamento) quanto os relatos os quais Jesus, o Homem ressurreto, deu sua
aprovação e autoridade (o Antigo Testamento) são confiáveis de acordo com padrões
normais de bom senso de crítica textual e histórica.
Contestando a Escritura, alguns dos seus maiores
críticos ficaram convencidos de sua veracidade.
Portanto, o cristão ortodoxo deveria ser a última pessoa sobre a face da terra que
louvasse o colapso da razão ou a confiança no método científico. É o filósofo, sentado em
sua torre d especulação, que tem o tempo e lazer para criar no ar mundos e idéias
imaginários, enquanto o cientista, o advogado e o historiador têm que transitar no mundo
real dos fatos. Se a ressurreição realmente aconteceu, é sujeita aos testes da verdade que
aplicamos aos demais eventos que realmente aconteceram; se for imune ou protegido
desses testes, será sempre duvidado se foi um acontecimento real ou imaginário
permaneceremos em nossos pecados (1 Coríntios 15).
Muito espaço foi tomado aqui para discutir em favor desta perspectiva
apologética em especial. Reconheço que não me envolvi nas questões politicamente
carregadas da ciência criacionista e o ensino da evolução, nem defendi o suficiente o
apologista evidencialista porque deixei de interagir com as críticas feitas por outras
escolas de apologética (pressuposicionalismo, tanto do estilo Van Til Gordon Clark ou
apologistas clássicos) . Contudo, o propósito deste capítulo era convidar o leigo médio,
que não é nem teólogo nem cientista, a considerar o piso comum entre ciência e fé. Se
tanto secularistas quanto cristãos reconhecessem os seus preconceitos e suas
pressuposições (nós todos os temos) e, reconhecendo-os, aceitariam o desafio de se
147
envolver numa discussão franca dos fatos de acordo com essa abordagem realista,
poderia haver mais diálogos frutíferos o futuro. Se não chegarmos a isso, continuaremos
uma estratégia que deu às pessoas a impressão resumida por Polkinghorne:
Existe uma caricatura popular que vê o cientista como sempre aberto ao poder
corretivo da nova descoberta e, conseqüentemente, atingir a recompensa do verdadeiro
conhecimento, enquanto o crente religioso se condena a um aprisionamento intelectual
dentro dos limites de uma opinião mantida em base a priori, à qual ele se aterá não
obstante os fatos contrários. Um é o homem da razão; o outro bloqueia as estradas da
pesquisa honesta com uma barreira rotulada de “revelação incontestável”.xxxiii
Polkinghorne escreve que isso está errado por duas razões: primeiro, não
reconhece que a própria ciência não é tão clara como alguns querem apresentá-la. Os
cientistas também precisam filtrar suas observações pela observação de outros
fenômenos, tanto suas próprias observações como as de outros em muitos lugares e
épocas, formando hipóteses que por vezes inibam sua aceitação dos fatos observáveis.
Diferente o empiricismo radical de John Locke, o realista de bom senso ou
“evidencialista” não diz que a mente é uma “tabula rasa” vazia de pressuposições. Insiste,
sim, no potencial de fatos externos de mudar aqueles compromissos anteriores. Mas em
segundo lugar, Polkinghorne diz que essa caricatura assume que, para a religião, a
Escritura é “revelação incontestável”. Mas o crente ortodoxo não precisa crer que a Bíblia
seja “revelação incontestável”, pois através de contestar a Escritura, alguns dos seus
maiores críticos ficaram convencidos de sua veracidade. Se uma verdade pode ser
provada, ela é também capaz de ser encontrada falsa. Portanto, o cristão não está sendo
impiedoso ao dizer, junto com o grande defensor da fé ortodoxa deste século, J.Gresham
Machen: “Se Jesus estiver morto, deve ser tratado como morto. Esta questão tem que ser
enfrentada: não é fácil crer. A ressurreição não pode mais ser aceita como natural.
Contra ela estão alinhados grandes recursos da cultura moderna. A fé tradicional de
148
segunda mão está sendo rapidamente varrida do mapa. A fé, na época atual, tem que ser
de estirpe mais severa. Se ela existe pela ignorância dos fatos, poderá ser útil ao
indivíduo, mas jamais conquistará o mundo”. xxxiv
Homens e mulheres de fé... têm que estar dispostos
a ser desafiados até mesmo pela própria ciência.
Contudo, quando se conclui, com base nos particulares, que as reivindicações
cristãs são verdadeiras, submete-se à autoridade divina das Escrituras sem se tornar seu
crítico. Uma vez que tenhamos razão para concluir que esta é revelação divina e não o
produto da imaginação, especulação ou experiência humana, não temos razão para não
nos submetermos a ela como equivalente ao que Deus falou diretamente. Neste ponto, a
teologia não recebe sua direção pela teologia natural. É aqui que divergimos de
Polkinghorne e outros cientistas não evangélicos. Há um lugar para a teologia natural e a
revelação natural, mas uma vez que fomos levados a abraçar a Palavra de Deus como
Palavra de Deus, temos que tomar cuidado para não tentar encontrar pela razão e pela
experiência aquilo que só se encontra nas Escrituras. Podemos concluir a confiabilidade
da Bíblia por bom senso, inquerimento racional e baseado em evidências, mas não
aprendemos a verdade sobre a Trindade, as duas naturezas de Cristo, a natureza da
redenção ou das coisas do futuro simplesmente pela observação da natureza, por reflexão
racional ou por experiência humana.
RECUPERAÇÃO ESPIRITUAL
Em cima de nossa lista, especialmente tendo em vista hostilidade entre fé e
ciência nos dias atuais, se encontra a recuperação dos fundamentos doutrinários que
ajudaram a gerar o próprio ambiente em que a ciência pode florescer. Não é somente a
149
ciência que tem que abandonar seu dogmatismo. nós também precisamos recuperar nossa
confiança na providência divina. Por vezes temos uma visão deísta, pensando que quando
pernas são encompridadas ou mortos são ressurrectos, Deus está operando, mas quando
são as obras normais da vida cotidiana, Deus não está no quadro. Tornamo-nos assim, ou
secularistas em nosso trabalho de segunda a sexta-feira, mesmo que sejamos religiosos
aos domingos, ou então exigimos um fluxo constante do milagroso a fim de restaurar
nossa confiança no envolvimento pessoal de Deus em nossas vidas e neste mundo. A
doutrina bíblica da providência divina é nossa resposta a esse problema.
É necessário também recuperarmos a confiança protestante na compreensibilidade
do mundo. Em vez de seguir visões supersticiosas do mundo, focalizadas em batalhas
cósmicas entre demônios e anjos, devemos recuperar nossa paixão pelo mundo material
da criação de Deus--não no sentido de substituir nossa esperança no céu por satisfação na
terra, mas no reconhecimento de que todo o foco do cristianismo e seu texto bíblico está
sobre o desfraldar dos propósitos de Deus aqui mesmo neste mundo, dentro da história
humana.
Relacionado com isso, devemos recobrar uma apreciação pela relativa autonomia
da natureza, não no sentido da natureza ser autônoma de Deus, mas no sentido de que não
confundimos revelação natural com revelação especial. A Escritura não deve ser usada
como texto científico da mesma maneira como não é usada como livro texto para arte ou
política. Enquanto homens e mulheres de fé devem desafiar as pressuposições dogmáticas
do naturalismo, eles também têm que estar dispostos a ser desafiados pela própria
ciência. A história está repleta de exemplos de como é fácil casar determinada
interpretação científica com o texto bíblico, para então a ciência provar errada aquela
150
interpretação. Só mais tarde percebemos que a Bíblia mesmo nunca exigia aquela
posição, mas é tarde demais: toda uma geração foi deixada acreditando que a Bíblia
tivesse sido mais uma vez sobrepujada pela razão. Falar onde Deus falou e permanecer
calado--ou permitir que a revelação natural fale--onde Deus não falou nas Escrituras é
uma grande arte que precisamos aprender de novo.
151
Capítulo Sete
Trabalhar pelo final de semana
“Todo mundo trabalha para o final da semana” conforme a letra da canção
popular da banda “Loverboy” dos anos oitenta. Embora seja difícil encontrar críticos
culturais que não lamentem a perda da ética de trabalho da sociedade ocidental, colocar a
culpa em alguém e profetizar o futuro tornam-se cada vez mais complicados.
Por muito tempo, as idéias do economista social Max Weber, que morreu em
1920, explicavam a prosperidade da Europa e América do Norte em termos do Norte
Protestante e Sul Católico. A Europa do norte, predominantemente protestante, foi
vigorosa no despertar da reforma, enquanto os países católicos romanos foram muitas
vezes atrasados e resistentes ao progresso. A tese de Weber foi promulgada sob o título
de seu clássico: A ética protestante e o espírito do capitalismo. Conquanto o catolicismo
medieval sagrou o monge que rejeitava a atividade mundana, o protestantismo (em
especial o calvinismo chamava o crente para dentro do mundo. O rigor que talvez
acompanhasse a devoção do monge agora foi canalizado febrilmente para atividades
ligadas ao mundo. Weber ofereceu numerosas conjeturas para as razões disso ser assim,
mas eram freqüentemente mal-informadas teologicamente, Por exemplo, ele sugeriu que
o calvinista era especialmente ativo no mundo a fim de provar sua eleição pela
prosperidade material. Uma olhada rápida nos textos mais óbvios reformados e puritanos
teria forçado Weber a pensar essa declaração duvidosa, mas ela “pegou”. Ainda hoje não
é raro estudantes no colegial encontrar isso nos seus livros de texto, mesmo que tenha
sido desmentido por historiadores de todas as espécies.
152
Conquanto a leitura de Weber tenha perdido muito apoio, o consenso histórico
continua afirmando que a reforma protestante indubitavelmente formou o que foi
denominado de “ética de trabalho protestante” ou por vezes, “puritano”.
Sejam quais forem seus fundamentos, que examinaremos adiante, não há dúvida
de que as doutrinas bíblicas que outrora sustentaram a visão cristã de trabalho e do lazer
(e portanto, formaram a cultura mais ampla) hoje estão em eclipse mesmo dentre os
círculos conservadores. Como disse Leland Ryken: “O trabalho e o lazer são uma grande
preocupação tanto para os cristãos quanto para a sociedade em geral. Sentimo-nos
culpados quanto ao nosso trabalho, e sentimo-nos culpados quanto ao lazer, Não
entendemos bem nem um nem o outro”.xxxv
Nos anos setenta, o best-seller de Charles A. Reich, The Greening of America (o
enverdecer da América) predisse uma revolução devido à desintegração da visão puritana
do mundo. Embora nunca indique ser ele mesmo um cristão, Reich chamou atenção da
nação sobre a transição marcante duma visão do mundo em que o indivíduo médio
considerava não apenas que seu trabalho fosse importante como também contribuía ao
senso de comunidade e integridade de toda a vid. Nossa sociedade atual é marcada pela
corrupção, crime e desordem. os indivíduos sentem-se distanciados dos centros de poder
numa sociedade cada vez mais burocratizada e centralizada, enquanto a revolução
tecnológica e as cidades modernas têm feito com que o indivíduo se sentisse ainda menos
importante, menos humano e menos relacionado com o mundo ao seu redor. Além do
mais, o trabalho e a cultura parecem cada vez mais artificiais, de acordo com Reich.
Existe algum trabalho significativo a ser realizado? Devemos todos nos envolver n
fabricação de coisas que ninguém precisa, na venda de coisas não apenas inúteis mais até
153
mesmo nocivas? “Para a maioria dos ocidentais, o trabalho é sem sentido, exaustivo,
entediante, servil, odiento, algo a ser “agüentado” enquanto a “vida” consiste no “tempo
de folga”. xxxvi Além do mais, “Os Estados Unidos são uma vasta, aterradora anticomunidade,” já que “a vida moderna apagou o lugar, o local, a vizinhança, e nos deu a
separação anônima de nossa existência. A família, sistema social mais básico, tem sido
implacavelmente despida até seus essenciais funcionais. A amizade foi acobertada com
uma camada d artificialismo impenetrável enquanto os homens lutam por desempenhar
os papéis que lhes foram impostos” xxxvii Como se não bastasse, há uma perda de um
senso da pessoa individual. Foi-se o senso de imaginação, criatividade, herança, sonhos,
unicidade pessoal, a fim de ser substituído por uma unidade produtiva para uma
sociedade massificada e tecnológica”. xxxviii
É verdade que Reich escrevia com base no desespero existencialista durante a
guerra do Vietnam, mas sua triste descrição da vida moderna está sendo reconhecida
também por número crescente de escritores e pensadores cristãos. xxxix
Isso é observável até na livraria evangélica mediana, onde a maioria dos livros
populares estão na categoria dos de “auto ajuda”. em vez de resistir essas tendências da
modernidade, os cristãos têm por demais apenas emprestado respeitabilidade espiritual a
essas idéias hedonistas. Numa visão assim do mundo, o trabalho perde o se significado
por que o homem perdeu seu significado ante a face de Deus, e com essa perda ele perdeu
também sua característica relacional, divinamente ordenada, para com o próximo.
Como uma pessoa moderna pode fazer sentido do salmista perdido na
grandiosidade de seu lugar no universo? “Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos,
e a luz e as estrelas que preparaste, que é o homem mortal para que te lembres dele; o
154
filho do homem, para que o visites?” De início, a percepção do salmista da imensidão do
universo cria um senso de sua própria pequenez, mas há uma mudança irônica nessa
contemplação quando ele responde sua própria pergunta: “Contudo, pouco menor do que
Deus o fizeste, e de glória e honra o coroaste. Fazes com que ele tenha domínio sobre as
obras de tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés... Ó Senhor, Senhor nosso, quão
admirável é o teu nome em toda a terra!”(Salmo 8:5-6,9). Não é de se admirar que João
Calvino tenha iniciado suas Institutas dizendo que, fosse iniciar pela contemplação da
própria existência de uma pessoa, ou pela existência de Deus, levava eventualmente ao
mesmo lugar. Não temos existência independente, mas se tirarmos Deus de nossa visão
do mundo (e é possível que cristãos também façam isso, não sabe?) ou se empurramo-lo
para dentro da arena “espiritual” enquanto nosso trabalho diário continua sendo
basicamente “secular”, ao ponto da maioria de nosso tempo ser gasto naquilo que
consideramos atividade desprovida de significado. É a teologia que dá significado a toda
atividade da existência humana.
Como raramente relacionamos a teologia com a vida nos dias atuais (que seria
relacionar o vertical com o horizontal), raramente somos confrontados com as reflexões
do salmista. Somos raramente cativados pelo senso de pequenez que se torna em senso de
significado baseado na vocação que Deus nos deu como suas criaturas especiais. O
salmista não diz, após reconhecer sua relativa insignificância em face da escala cósmica
“Mas afinal de contas, sou diretor executivo e consegui muito na minha carreira”. E nem
diz ele “Pode ser que eu não tenha galgado os patamares mais altos da companha, mas
tenho dedicado minhas energias ao trabalho da igreja”. Seu significado veio do
155
reconhecimento, não apenas do que realizou, mas de perceber que Deus lhe deu uma
vocação.
O brilhante sociólogo judeu, por muitos anos, de Harvard, Daniel Bell, anunciou
recentemente: Ëstamos chegando a um ponto divisório na história ocidental”, à medida
que o tecido social torna-se cada vez mais frágil e se desintegra em mil pedaços.
Inundados com informações, somos cada vez mais ignorantes; abarrotados de dados,
perdemos a compreensão da sabedoria que podíamos ter tido e estamos descendo para
tolices e superstições. E o que segurava tudo junto, outrora? Bell insistia que era a visão
protestante do mundo, um sistema teológico coerente e amplo o suficiente para oferecer
um senso de significado e propósito tanto para o operário diarista como para o ministro
ou missionário. Sem um senso do sagrado (ou seja, transcendência, o sentimento que o
estudo da grandiosidade de Deus inspira, como experimentado pelo salmista), Bell disse
que não podia haver uma maneira de fazer sentido da vida, inclusive do trabalho.
Outrora, escreve Bell, o capitalismo estava arraigado na santificação protestante do
trabalho, mas o secularismo substituiu a honestidade, indústria e preocupação solidária
com hedonismo e auto-estima. “O que então segura junto a sociedade?” ele pergunta.
Agora, não somos cidadãos responsáveis, mas pessoas portadoras de direitos. O trabalho
não é mais uma vocação, mas um emprego, e não é o meu dever servir ao próximo, mas
dever dos outros (geralmente do estado).
É claro que estas são generalizações, mas fazem sentido à maioria de nós na
situação atual, porque, generalização ou não, há verdade suficiente nisso para deixar claro
o ponto. Enquanto as igrejas fingem que sua acomodação ao hedonismo mundano seja
um “reavivamento”, porque parece que os americanos estão devorando isso, Bell insiste
156
que é apenas um reavivamento do espírito da modernidade, “Se a religião está
decrescendo, é porque o âmbito mundano do sagrado tem encolhido... dizer que ‘Deus
está morto’ é, com efeito, dizer que os laços sociais foram quebrados e que a sociedade
está morta... para entender o transcendente, o homem requer um senso do sagrado”. xl
Mas as igrejas, obcecadas pela influência mundana e “relevância”, têm afastado s
única verdadeira esperança de relevância genuína numa era de mediocridade e idolatria
espiritual. Quando o protestantismo era dirigido pela teologia (o conhecimento, estudo,
contemplação, amor e a adoração de Deus em Cristo), oferecia um senso autenticamente
relevante de propósito e direção para as atividades mundanas. Em outras palavras, uma
vez que a dimensão vertical estava claramente corrigida e enfatizada, a dimensão
horizontal tomou sua devida forma.
O PROBLEMA DO PIETISMO
Como já notamos, o pietismo tende a criar um “gueto cristão” que a reforma
tentou desfazer. Chamado para fora da igreja e para dentro do mundo, os evangélicos
eram estimulados, especialmente pelos reavivamentos do último século e meio, a
construir um império cristão dentro dos Estados Unidos, Eventualmente, chegamos ao
ponto de possuirmos nossas próprias estações de rádio e televisão, cinemas, “shows de
entrevistas”, cruzeiros, estrelas de rock, divertimentos e outros apetrechos do hedonismo
moderno, sem ter que se preocupar com deixar o gueto. Chamamos isso de evangelismo,
e talvez até intencionássemos que fosse evangelismo, mas acabou criando apenas uma
igreja que é do mundo mas não está no mundo, ao invés de estar no mundo mas não ser
do mundo.
O cristão como indivíduo está numa posição melhor
157
para testemunhar de sua fé quando
este não é seu motivo por trás do seu trabalho.
Freqüentemente, julgamos nossa saúde espiritual em termos de quantas pessoas
estão envolvidas em grupos de células, estudos bíblicos, círculos de oração e grupos de
responsabilidade mútua; pelas estatísticas somos levados a concluir que na verdade
somos bastante vigorosos. Mas o cristianismo reformado (ou seja, cristianismo bíblico)
deve nos levar a padrões diferentes de julgar a saúde: a igreja está realmente sendo
igreja? Ou melhor, a Palavra de Deus está realmente sendo pregada? Os sacramentos
estão sendo corretamente administrados? Há uma preocupação saudável pela prática de
disciplina e boa ordem na igreja? Se essas perguntas não podem ser respondidas com
algum grau de confiança, não há saúde, não importa o ativismo desenfreado dentro do
gueto. Enquanto a tendência medieval e até certo ponto, pietista é de chamar o crente
para fora do mundo e para dentro de atividades relacionadas com a igreja, a abordagem
reformada é ver todas as atividades relacionadas com a igreja como sendo estações de
“reabastecimento” para o serviço verdadeiro que se faz dentro do mundo. Não devemos
colocar pessoas que trabalham diligentemente na sua vocação em uma viagem de culpa
porque não conseguem assistir todas as atividades relacionadas com a igreja ou por não
se oferecerem para as tarefas ligadas à igreja. É a igreja que serve ao cristão para que o
cristão possa servir a Deus dentro do mundo. Com isso não estamos dizendo que ir à
igreja e participar de um estudo bíblico sejam apenas meios para um fim de uma vocação
mundana, pois a Palavra é uma finalidade em si mesma, e recebemos as promessas de
Deus bem como seus mandamentos não importando quão úteis ou práticos eles são
considerados para a vida cotidiano, Mas mesmo se uma igreja estiver alimentando suas
158
ovelhas com as promessas de Deus, deve-se fazer mais uma pergunta: Se a igreja em si é
internamente saudável, os cristãos individualmente estão cumprindo com excelência sua
vocação no mundo? Não é a mesma pergunta que “Estão ganhando almas?” Pelo
contrário, os crentes como indivíduos estão sentindo que é seu dever cristão sobrepujar a
mediocridade na rotina diária e ligar seu serviço no mundo ao seu serviço ao Deus
onisciente da glória? Um cristão não vai ao trabalho na segunda-feira de manhã apenas
para converter pessoas a Cristo; ele vai para seguir sua vocação, à qual foi designado pelo
Criador divino.
Isso tem que ser dito, não porque o evangelismo não tenha importância, mas
porque muitas vezes cristãos hoje pensam que o trabalho não é importante, como se a
insignificância entediante fosse de alguma forma justificável pela oportunidade de
testemunhar. Alguns até mesmo concluem dessa lógica que seria melhor abandonar de
tudo o mundo pela segurança do gueto evangélico, onde se pode estar seguro de que seu
trabalho terá objetivo evangelístico ou eclesiástico direto.
Assim como a igreja, ironicamente, é mais relevante quando menos voltada para
si quanto à sua relevância, consagrando-se ao ensino, oração, comunhão e fraternidade
(Atos 2:42), assim também o cristão como indivíduo está numa posição melhor para
testemunhar de sua fé quando este não é seu motivo por trás do trabalho. Quando esses
dois fatores ( a fidelidade da igreja para com sua tarefa e a fidelidade do crente individual
para com sua vocação) convergirem, teremos mais cristãos que conheçam bem a sua fé, o
bastante para comunicá-la na conversa casual (sem despejar sobre nossos colegas de
trabalho “falas” decoradas ou pre-empacotadas) e sua excelência nas suas vocações darão
credibilidade àquela profissão.
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Foi exatamente essa a abordagem que Paulo sugeriu aos sofridos santos de
Tessalônica: “Procurai viver quietos, e tratar dos vossos próprios negócios, e trabalhar
com as vossas próprias mãos, como já vo-lo temos mandado, para que andeis
honestamente para com os que estão de fora e não necessiteis de coisa alguma” (1
Tessalonicenses 4:11-12). Há alguns anos, como a Christian Yellow Pages (páginas
amarelas cristãs) um diretório regional de negócios e serviços que exibiam um ichthus
(peixe) no seu logotipo, chegou no salão de entrada da igreja, ouvi um empresário dizer
para outro: “É melhor eu pegar um desses logo para ver com quem não devo fazer
negócios “. Claro, ele estava zombando e com falta de amor cristão, mas existe uma
impressão geral nas mentes de cristãos e não cristãos que empregam as pessoas ou usam
os seus serviços, de que por vezes demais os cristãos mais zelosos acabam sendo os mais
relaxados no trabalho. Não faz muito tempo, um membro de igreja me disse: “Estou
liberto do sentimento de culpa que tinha por ‘não ser testemunha’ no meu trabalho. Eu
costumava ler minha Bíblia, ou pelo menos fingia ler, orar, e colocar versículos e
pôsteres no meu local de trabalho. Quanto mais eu recebia “bronca” por ser um fanático
religioso, mais eu me sentia espiritual. Agora eu tirei o oratório e concentro no meu
trabalho como meu serviço racional de adoração a Deus e dedicação à minha vocação, e,
adivinhe o que? Os colegas de trabalho realmente me perguntam sobre a minha fé na hora
do almoço!”
Pelo menos em teoria, se alguém tem essa perspectiva vertical e vê o seu trabalho
como um serviço a Deus e ao próximo. Mesmo as tarefas mais simples tomam
significado. John Milton colocou essa idéia nos seguintes termos:
Tudo é eterno, se eu tiver a graça de empregá-lo assim,
Como sempre aos olhos do meu grande mestre de obras.
160
Noutras palavras, se Deus nos dá a graça de ver toda a vida da sua perspectiva,
tudo que fizermos, por mais simples, mais comum, é feito sob os auspícios de nosso
mestre divino. George Herbert escreveu numa veia semelhante que varrer o chão para a
glória de Deus fazia “excelentes esse e aquele ato... fazendo o enfado tornar-se divino”.
Não é o “enfado” exatamente o que os críticos contemporâneos estão chamando a
experiência moderna ligada ao trabalho? E não é por demais a experiência até dos
próprios crentes?
Não estou com isso dizendo que o trabalho nunca seja enfadonho, pois isso faz
parte da maldição do homem (Gênesis 3). Não é sugerir que um crente jamais sofrerá
insatisfação no seu emprego, ou que, se assim sentir, é sinal de que a vontade de Deus
que se mude de ocupação. Assim como o pecado pode abafar a alegria da salvação,
também pode abafar a alegria de nosso chamado. E nem precisa ser o nosso próprio
pecado que causa essa desilusão. Talvez seja um chefe severo ou funcionários
displicentes, ou talvez a ameaça básica” nos deixe acordados a noite toda. Mas ela
oferece um senso de alívio e propósito afinal, de que não são os meus próprios sonhos
volúveis, mas uma vocação divina, que me mantêm no posto nos piores como também
nos melhores momentos.
Calvino usou essa espécie de raciocínio ao defender a vocação nas seguintes
palavras:
Cada um carregará e engolirá os desconfortos, as vexações, o cansaço e as
ansiedades do seu caminho na vida quando estiver persuadido de que seu fardo lhe foi
colocado pelo Senhor, Daí surgirá também o consolo impressionante: de que nenhuma
tarefa é por demais sórdida e baixa, desde que se obedeça o chamado para e dentro dela,
para que ela brilhe e seja reconhecida como preciosa à vista de Deus.
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Por esta razão “O Senhor nos conclama a cada um, em todos os atos da vida, a
olhar para sua vocação”.xli
A BASE BÍBLICA PARA A VOCAÇÃO
Vimos tanto o problema quanto o caminho em que a teologia evangélica tem se
dirigido sobre o assunto de vocação. Mas qual o fundamento bíblico para essa visão?
A história começa onde começam todas as histórias, no livro de Gênesis. Após a
criação do mundo natural, faltava algo. Com isso não estamos dizendo que o Criador
tivesse se esquecido de alguma coisa, pois essa peça de resistência foi colocada no final
do processo com boa razão. Vegetação luxuriante, abundantes criaturas do mar, da terra e
do ar; mares inquietos, céus incertos deram lugar à tranqüilidade e ordem, enquanto Deus
formou a criatura que seria seu governador no mundo visível. “Então disse Deus:
Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; domine ele sobre os
peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra, e
sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra. Assim Deus criou o homem à sua
imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou”(Gênesis 1:26-27).
A delegação da autoridade por parte de Deus não foi simples resultado do seu
decreto, como se qualquer outro animal pudesse ter realizado a tarefa eficientemente se
para isso tivesse sido selecionado. Ele deu sua autoridade ao homem porque somente essa
criatura foi feita à sua imagem. Incluído nessa imagem havia um sensus divinitatus--um
senso do divino ou da transcendência. Por esta razão o homem é homo religionis-intrinsecamente religioso. Mesmo após a Queda, a vontade constante de estabelecer
ídolos era evidência da dimensão intrinsecamente religiosa. O homem não vive sem
deuses, sem um senso do transcendente. Toda atividade humana foi feita para ser
162
inerentemente religiosa, desde o plantio da semente (agricultura) até o nomear dos
animais (zoologia).
O homem foi criado ambos: macho e fêmea, a fim de refletir a imagem de Deus
pelo menos em parte pelo exercício da vocação para a qual fomos chamados ao mundo. O
mundo seria governado, mas não explorado pelo homem, e o homem prestaria contas ao
próprio Deus do governo que exercitasse sobre as demais criaturas.
A certeza da restauração (por causa da ressurreição de Cristo)
nos dá esperança para nossas tarefas diárias neste mundo.
Mas, como sabemos, o homem recusou refletir a glória divina; queria ser, ele
mesmo, divino--não uma criatura, mas m criador autônomo.
Devemos tomar cuidado para não ver a Queda em termos exclusivamente
individualistas. Por vezes, somos tomados de tal forma pelas conseqüências da Queda na
alienação pessoal de Deus que ignoramos os diversos efeitos cósmicos relatados em
Gênesis. A maldição pela transgressão de Adão veio não apenas sobre o relacionamento
humano-divino, mas sobre a terra, sobre o nascimento de filhos, sobre a vida diária no
mundo. Este mundo não era mais uma grande catedral da bênção divina; tornou-se campo
de batalha para a guerra civil entre os construtores da cidade de Deus e aqueles que
desejam construir cidades para si neste mundo.
Apesar desse campo de batalha, temos encorajamento pela graça de Deus. Deus
não somente prometeu um Messias a Adão e Eva e a todos quantos confiem em sua
promessa, como também prometeu a restauração de toda a ordem criada, que, sem culpa
própria, foi lançada, juntamente com seu governador carregador-da-imagem, para a
desordem e rebeldia. Embora ainda estejamos aguardando essa restauração, é tanto a
163
esperança do crente quanto o é a esperança da ressurreição (Romanos 8.22-25). Isso evita
que sejamos apáticos ou triunfalistas, pois a certeza da restauração (pela ressurreição de
Cristo) nos dá esperança para as tarefas do cotidiano no mundo, mas o seu cumprimento
no futuro nos força a aguardar com paciência a sua consumação.
Não somos apenas encorajados pela graça salvadora de Deus, que inclui a criação
como também os indivíduos. Seria de pouco conforto a nós se tivéssemos que pensar no
tempo presente apenas como campo de batalha entre os santos e os condenados ao
inferno. Deus acrescenta ao conforto da graça salvadora a bênção da graça comum. A
graça comum é a restrição temporal de Deus tanto da maldade humana quanto da sua
própria ira que eventualmente colocará as coisas nos devidos lugares. Até no presente
século mau, “Ele faz que seu sol se levante sobre maus e bons, e envia chuva sobre
justos e injustos”, e exige que tenhamos a mesma atitude (Mateus 5:45).
Isso quer dizer que, se Deus, sendo justo, pode ser longânime para com o mal de
nossos próprios corações, como seus filhos, quanto menos a rebeldia dos incrédulos,
então certamente nós, sendo injustos, deveremos suportar a incredulidade e maldade de
nossos vizinhos e colegas de trabalho. Isso não significa que nunca levantemos as vozes
contra a incredulidade e o vício, mas significa que a graça comum de Deus é o suficiente
para se edificar uma civilização comum e trabalhar lado a lado com aqueles que não
compartilham nossa crença, convicção, atitude ou visão do mundo.
Em outras palavras, o trabalho não é mais uma atividade sagrada, mas ainda é
uma ordenança da criação. Ou seja, este chamado secular é um dom divino dado
igualmente a crente e incrédulo. Os cristãos não são os únicos dotados para determinada
vocação, mas são responsáveis, de uma maneira única, por exercer o chamado com
164
diligência e fidelidade. Os empregados são ordenados a obedecer seus empregadores “na
sinceridade de vosso coração, como a Cristo” (Efésios 6.5). Paulo declara: “não
obedeçais... apenas quando estão olhando, só para agradar a homens, mas como servos de
Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus. Servi de boa vontade como ao Senhor, e
não como a homens, Sabendo que cada um receberá do Senhor todo o bem que fizer, seja
escravo, seja livre” (vv.6-8). Mas os empregadores são igualmente responsáveis por sua
vocação a tratar os empregados "igualmente”, uma visão radical para os dias de Paulo.
“...Deixando as ameaças, sabendo também que o Senhor deles e vosso está no céu, e que
para com ele não há acepção de pessoas” (v.9). O mundo pode dizer que o chefe tem
autoridade e poder limitados, mas o próprio Deus é o “chefe” de todos os chefes da terra,
e ele não julga segundo a posição terrena.
Em suma, o conceito bíblico do trabalho é diferente da percepção que se encontra
por demais nos círculos cristãos. Muitas vezes percebemos uma atitude para com o
trabalho que sugere considerar o trabalho como um mal necessário, uma conseqüência da
Queda, como o governo. Embora seja verdade quanto ao governo humano, não é verdade
quanto ao trabalho como também não o é quanto à família ou a igreja. O trabalho é uma
instituição divina da Criação, dada ao homem como sinal de sua dignidade, não uma
maldição da Queda. Foi dado ao crente a fim de recobrar a dimensão transcendente e
ligar sua vida diária neste mundo à vida no céu, onde estamos sentados com Cristo nos
lugares celestiais, e à vida do porvir, onde reinaremos com Cristo no Paraíso Restaurado.
O QUE DIZER DOS FINS DE SEMANA?
Alguns cristãos (como os não cristãos) sofrem de apatia, enquanto outros sofrem
de “trabalholatria”-- viciados em estresse e em atividade mundana. Tão certo como a
165
visão bíblica requer que tenhamos diligência na nossa atividade mundana, ela também
nos conclama a levar a sério o descanso. Não é apenas uma preocupação de saúde,
embora essa seja uma parte, pois Deus está interessado em nossos corpos tanto quanto em
nossas almas. Mas, da mesma forma como Deus criou o homem para imitar sua
“mundanidade” (ou seja, sua obra na criação), sua imagem é um chamado para imitar o
seu descanso. Encontramos isso na própria ordem da criação de Deus: há seis dias de
trabalho e um sétimo de descanso.
Em todo o Antigo Testamento, esse modelo de trabalho e descanso se repete.
Deus o codificou na própria lei de sua teocracia (Êxodo 20.8-10; 31.14; Levítico 25.2;
Deuteronômio 5.12-15; Isaías 56.2-7) para que o povo entendesse que estavam entrando
no descanso prometido de deus.
Embora esse princípio de descanso estivesse escrito no corpo e na alma humana
na criação, tomou um propósito principal muito diferente após a Queda. O verdadeiro
descanso era descanso espiritual, pois até mesmo um corpo cansado pode ser refrescado
com a confiança de que Deus é misericordioso, mas a estrutura física mais vigorosa se
abate se a alma estiver desesperada e inquieta. Após a Queda, deus convidou seu povo
para entrar no seu descanso eterno, o “sétimo dia” que foi e continuará sendo o “lugar” e
o “tempo” de Deus, uma infinidade de descanso e deleite em Deus.
Quando Deus estruturou os sábados de modo tão rígido, a intenção era apontar
para o “caminho estreito” da salvação em Cristo. Muitos procuram trabalhar, não só pelo
pão de cada dia, mas para seu perdão eterno também, e era exatamente isso a que Jesus se
referiu quando falou sobre o descanso de sábado em Mateus 12. Muitas vezes o
evangelho de Mateus relata um anúncio de Jesus quanto a sua missão e em seguida faz
166
uma narrativa do ministério de Jesus que de alguma forma ilustra e esclarece o anúncio. É
este o caso quando Jesus convida amorosamente: “Vinde a mim todos os que estais
cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei”(Mateus 11:28). É um convite para o
“sétimo dia”, compartilhando o descanso de Deus. Logo após esse anuncio, Mateus relata
o confronto entre os fariseus e Jesus e seus discípulos, esses últimos tendo colhido
algumas espigas de trigo porque estavam com fome, ainda que fosse o sábado. Os
fariseus tomaram o sinaleiro que foi dado para apontar o caminho para Cristo e o
descanso eterno da libertação da justificação pelas obras, tornando-o em caminho de
salvação. Ironicamente, em outras palavras, uma sombra que apontava à realidade da
salvação livrem tinha sido transformada na própria realidade que apontava para uma
salvação pelas obras. Aquilo que os fariseus estavam decididos a proibir no sábado,
qualquer espécie de atividade humana, foi transformado numa espécie de atividade
humana que conduzisse para a salvação.
Mas Jesus declarou neste trecho que ele era o Senhor do sábado, e demonstrou
isso curando um homem de mão mirrada perante os olhos dos fariseus, nesse dia santo.
Com a ressurreição de Cristo, o sábado chegou. Todos que olham para Cristo
buscando salvação entram nela e acham descanso.
O escritor aos Hebreus usa esse argumento, escrevendo a crentes judeus que eram
tentados pelas perseguições a voltar ao judaísmo. “Temamos, portanto, que, tendo-nos
sido deixada a promessa de entrar no seu descanso, suceda parecer que algum de vós
tenha falhado”(Hebreus 4.1). Note primeiramente que, se a terra de Israel, um pedaço
geográfico de chão, tivesse sido a “terra prometida” no sentido mais exato, e portanto o
local do futuro reino de Deus, como muitos hoje supõem, este escritor bíblico não teria
167
dito que “resta ainda um repouso para o povo de Deus”(v.9), porque os judeus estão na
terra de Israel há milênios. Esse mesmo escritor destaca o ponto mais tarde em sua
epístolas: os patriarcas morreram na fé (morreram enquanto viviam pela fé); não
alcançaram as promessas. Viram-nas de longe, e as saudaram”(Hebreus 11:13);
buscavam uma pátria (v.14). Mas será que essa pátria era o estado de Israel? “Mas agora,
desejam uma pátria melhor, isto é, a celestial. Pelo que também Deus não se envergonha
de ser chamado I seu Deus, pois já lhes preparou ma cidade”(v.16). Assim como ele
preparou um tempo santo (o sábado eterno), ele também preparou um lugar santo
(Jerusalém, a pátria do descanso celeste do sábado).
Voltando a Hebreus 4, o convite ao descanso do sábado: “Pois também a nós
foram anunciadas as boas-novas, como aqueles, mas a palavra que ouviram nada lhes
aproveitou, visto não ser acompanhada pela fé, naqueles que a ouviram. Ora, nós, os que
temos crido, entramos no descanso...” (vv 2-3). O escritor levantou a questão da geração
que não entrou na terra prometida por causa da incredulidade, relatado em Números
14:21-35. Na sua ira, Deus jurou que a geração incrédula “não entraria no meu descanso”
, e isso nos é relatado para mostrar o perigo da incredulidade. Ninguém possui um título
para a promessa a não ser pela fé em Cristo. Mas o que significa entrar no descanso de
Deus? Claramente é mais do que guardar os sábados na terra que marcavam os tempos
santos no calendário judaico. E certamente é mais do que o descanso físico de quem
entrava na terra de Canaã, quando Israel possuiu a terra sob a liderança de Josué: “Pois
em certo lugar disse ele assim do sétimo dia: E descansou Deus, no sétimo dia, de todas
as suas obras.... Ora, se Josué lhes houvesse dado descanso, não teria falado depois disso
de outro dia. Portanto, resta ainda um repouso para o povo de Deus; pois aquele que
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entrou no descanso de Deus, ele próprio descansou de suas obras, como Deus das suas
(Hebreus 4:4;8-10). Foi por isso que o autor de Hebreus seguiu com uma descrição da
obra de Jesus como sumo sacerdote, pois é somente por sua obra que nós podemos
descansar, e não apenas por sua obra sobre a terra, na vida de obediência, morte, e
gloriosa ressurreição, mas na sua ascensão e presente intercessão em nosso favor noite e
dia perante o trono d Majestade Divina. Ele trabalha para que nós possamos descansar!
E o que isso significa para nossa doutrina do lazer? Parece um pouco fora de
propósito, mas na verdade é a forma mais relevante de entender toda a questão de lazer.
Deus não apenas nos deu uma razão para descansar na Criação, oferecendo descanso
temporal e prazer igualmente a cristão e não cristão (porque ligado à graça comum, e não
à graça redentora ou salvadora); ele deu também à igreja um descanso eterno que torna-se
fonte de deleite para todo crente. Todo que olhar para Cristo por salvação já entrou nesse
descanso. Não apenas o aguardamos marcando um dia da semana; é uma realidade que
traz vitalidade, refrigério e esperança a todo dia da semana.
Uma forma de colocar isso em linguagem teológica é que o nosso lazer, assim
como o nosso trabalho, deve ser visto de modo escatológico, ou pela sua relação para
com as últimas coisas. É uma forma sofisticada de dizer o que Paulo disse em
Colossenses: “Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra. Pois
morrestes, e a vossa vida está oculta com Cristo em deus. Quando Cristo, que é a nossa
vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória. Fazei, pois,
morrer a vossa natureza terrena: a prostituição, a impureza, a paixão, a vil
concupiscência, e a avareza, que é idolatria”(Colossenses 3.2-5). O mesmo apóstolo que
tinha tanto a dizer sobre a importância deste mundo, sua criação e redenção futura e a
169
importância de nosso envolvimento com ele, contudo insistiu que só podemos ser úteis a
Deus e ao próximo se trancarmos nossas mentes e corações na identidade que temos em
Cristo, porque Deus “nos ressuscitou juntamente com ele, e nos fez assentar nas regiões
celestiais, em Cristo Jesus” (Efésios 2:6). Já estamos assentados ali, teologicamente,
descansando na paz eterna.
Não se pode deixar de notar a inquietude do homem e da mulher ocidental
contemporâneos, uma inquietude observada até mesmo (muitas vezes mais óbvia até)
durante períodos de lazer. Por uma variedade de razões, muitos encherão esses momentos
com tantas diversões, troféus, brinquedos e recreações que freqüentemente escutamos
“Agora preciso de um descanso após as minhas férias”.
Quando eu morava na Inglaterra percebi o quanto eu mesmo era infantil nesse
respeito. Oxford é uma cidade universitária, mas como as cidades universitárias, não é
exatamente uma Meca de diversões e entretenimentos. Como alguém nascido na
Califórnia, eu demorei para me acostumar à idéia de que meus fins-de-semana seriam
gastos nos prazeres naturais de caminhadas e talvez uma ida de carro até um pub da
vizinhança para me encontrar com amigos. Minha recreação sempre for definida por um
acúmulo de brinquedos. J.Gresham Machen, mais no início deste século, notou uma
mudança entre a sua geração e a mais nova, pois as crianças estavam crescendo para
serem entretidas, enquanto antigamente as crianças sabiam se entreter. Antigamente,
dava-se um chocalho ao bebê, mas hoje, ele é bajulado e empanturrado com brinquedos
que exigem muito pouca imaginação ou esforço da própria criança.
Se Machen pudesse ver os jogos de computador e vídeo que competem pelo
mercado hoje! Com a televisão, o lazer autêntico se encontra ainda mais em risco. As
170
crianças e os adultos descobrem que, após perder tantas horas como grãos de areia caindo
pelos dedos, há um sentimento perturbador de que seu tempo livre não foi gasto de
maneira muito significativa. Contudo, sentimos sua falta quando não a temos, como eu
senti falta dos meus jogos e divertimentos quando estive na Inglaterra.
Há algo de muito sadio numa cultura que gasta seu tempo de lazer em diversões
naturais e comuns. Talvez leve tempo para se acostumar, mas não se pode reclamar na
segunda-feira que o final de semana não foi longo o suficiente s o estragamos com a
exigência de ter outras pessoas a nos divertir em vez de nos entreter por nós mesmos.
Isso faz parte de sermos humanos. No céu, Deus se ocupa com a comunhão da
Divindade Trina, e parte da imagem de Deus que compartilhamos é o desejo de
relacionamento com outras pessoas. A maioria de nós não está feliz quando sozinha, e
isso porque fomos criados para outras pessoas; não somos plenamente nós mesmos a não
ser quando estamos em comunhão com uma gama ampla de pessoas e ligados por uma
variedade de laços relacionais. Contudo, assim como exigimos muitas vezes brinquedos
que nos divirtam, em vez de nos deleitarmos com o mundo que Deus nos deu, estamos
nos tornando cada vez mais antisociais e isolados. À medida que o comércio se torna
central nas atividades humanas, fazendo com que o dinheiro seja o objetivo, os
relacionamentos humanos se reduzem à utilidade econômica. O resultado disso é que no
final do dia nós muitas vezes nos sentimos como se a última coisa que queremos é ver
outra pessoa.
Deve-se dizer uma palavra aqui sobre a vida em família. De acordo com muitos
relatos, há uma preocupação crescente com abrir um espaço nos horários abarrotados
para ter tempo significativo com a família. Alguns dos meus melhores amigos, quando eu
171
era menino, eram mórmons, e um dos rituais mais interessantes
que eles tinham na
semana era a “Noite em Casa com a Família”, quando (geralmente às quartas-feiras) e
família toda deveria estar em casa para jogos, leituras, e outras atividades recreativas.
Deve-se notar, porém, que isso não é uma panacéia para os problemas familiares. Muitas
vezes, encontramos uma técnica e glorificamos a “vida em família” de tal modo que as
realidades do pecado não são reconhecidas e ou ficam negadas como impossível num lar
tão bom e piedoso” como o nosso, ou tratadas como defeitos sobre o orgulho espiritual
dos pais que pouco lugar deixam para o Evangelho. Contudo, algo precisa ser feito para
melhorar as nossas vidas em família.
Desde o início de tudo, a família tem sido a instituição divina
mais próxima ao coração de Deus.
Mais perto de casa, antigamente se levava a sério o Dia do Senhor. Embora
possamos concluir pela discussão do sábado como instituição terrena como não mais
existente, porque a realidade já nos veio em Cristo, há contudo razão para guardar o dia
de culto público como também um dia de culto da família. Embora o Novo Testamento
não reitere o mandamento do sábado, bem cedo na era apostólica o domingo passou a ser
celebrado como “Dia do Senhor”(Apocalipse 1:10), porque era o aniversário semanal da
ressurreição de Cristo, o evento que inaugurou o descanso de sábado para o povo de
Deus.
Assim, há quase dois mil anos os cristãos têm considerado o Dia do Senhor como
separado, o dia de festa da igreja, ou, como diziam os puritanos, “o dia de feira da alma”.
Neste dia, pode-se dizer que o corpo descansa enquanto a alma festeja e compra
172
alimentos para a semana toda, Não mais a Criação, mas a ressurreição se firma como
central para este dia. É especial, não pela sua localização no calendário, mas porque é o
dia, pela autoridade apostólica, a Palavra deveria ser pregada e os sacramentos eram
administrados. Em outras palavras, a santidade das atividades, não a santidade do dia em
especial, faziam o “Dia do Senhor” e marcavam-no nas mentes, corações e imaginações
de gerações de cristãos.
Mas o dia do Senhor caiu em tempos difíceis entre os círculos cristãos hodiernos.
Conquanto possamos condenar, com justiça, um legalismo contra o qual Paulo advertiu
em Colossenses 2:16-17, hoje fomos ao polo oposto. Pode-se argumentar que um dos
fatores da condição atual da igreja está em que desprezou o dia do Senhor. Através da
história de Israel, a idolatria e dessacrarnento do culto caminhavam de mãos dadas.
Quando o povo perdia seu interesse em Deus, achavam mais divertidos os deuses das
nações. Não estou falando de fetichismo supersticioso e que, se guardarmos o domingo,
Deus nos abençoará. Estou dizendo que há uma relação muito prática, de bom senso,
entre a ignorância e apatia das igrejas e a falta de seriedade com que elas encaram a sua
missão ordenada. Muitas vezes, especialmente nas mega-igrejas de hoje, a verdadeira
atividade da igreja ocorre durante a semana, com pequenos grupos e reuniões de pouco
conteúdo bíblico. Em vez de levar Haroldo ou Maria, que não freqüentam igreja alguma,
à igreja através de grupos de terapia e festas, muitas vezes eles apenas acaba tornando o
resto da igreja em grupos de terapia e festas.
As famílias, portanto, terão que liderar nessa questão de restaurar o dia do Senhor
ao seu esplendor. Desde o princípio de tudo, a família tem sido a instituição divina mais
próxima ao coração de Deus; não é apenas o tijolo de construção mais básico da
173
sociedade, mas também da igreja. Sugiro, e é apenas uma sugestão, que se faça o
seguinte, Talvez você encontre outro horário totalmente diferente, conforme suas
necessidades distintas, mas pelo menos ofereço aqui um ponto de partida para se discutir.
O dia do Senhor
Separe-se de todas as distrações mundanas no domingo, inclusive dos esportes.
Reconheço que essa sugestão pode ofender alguns modernos que fizeram dos esportes
uma espécie de ídolo, mas é bem possível que a gravação em vídeo tenha sido inventada
para permitir que torcedores crentes possam assistir os jogos mais tarde. Antes do culto,
peça aos filhos que tomem nota do sermão, para que, ao voltar para casa, talvez durante o
almoço de domingo, cada um possa compartilhou o que aprendeu e discutir o conteúdo e
a aplicação com a família. [ Nota da tradutora: esta sugestão parte de uma cultura em que
o culto dominical principal é n domingo pela manhã; para aqueles que só têm escola
dominical de manhã e o culto de adoração e proclamação é no domingo à noite, podem
ser feitas adaptações segundo a sua criatividade e suas necessidades]. Talvez depois do
almoço seja uma boa hora de descansar um pouco, tirar uma soneca, depois da qual se
pode realizar alguma atividade em família, como uma caminhada, um passeio ciclístico
ou passeio de carro., Voltem à tempo do culto d noite. É verdade que a comunhão com os
outros crentes na igreja é parte importante do dia do Senhor, mas deve ser secundário à
comunhão da “pequena igreja” que se reúne em sua própria casa, que consiste nos
membros da própria família.
A refeição da noite
Faça a refeição noturna um tempo especial para a família se reagrupar e discutir
os eventos do dia. Em muitos casos, os amigos de nossos filhos terão um estilo de vida
174
totalmente diferente e perguntarão por que nossos filhos têm que estar em casa numa
determinada hora toda noite, mas com o tempo eles mesmos talvez desejarão que seus
pais façam o mesmo. [Nota da tradutora: Mais uma vez, aqui entra a criatividade em
termos coerentes com a cultura. Em cidades do interior do Brasil, onde as pessoas têm
um horário de trabalho que permita um almoço mais demorado, talvez o almoço seja a
hora preferida para a família comer juntos, se à tarde ou noite apenas lancharão para
depois correr para afazeres noturnos. Já nas cidades grandes, talvez o único horário
possível para toda a família estar junta é à noite. O que importa é que tenham pelo menos
uma refeição juntos em que possam conversar sobre as atividades e as idéias do dia]. No
passado, as famílias protestantes faziam a refeição da noite como o tempo para breve
oração e memorização do catecismo (guia de perguntas e respostas aos principais temas
doutrinários da Bíblia, especialmente para as crianças). Olhando em volta da mesa, o
líder da casa pedia a cada pessoa que lembrasse a pergunta e a resposta, lendo a seguir os
versículos referentes àquele ponto do catecismo. Em seguida conversavam a respeito do
que leram. Isso deu a gerações de protestantes um método simples de ensinar às crianças
os pontos essenciais da fé cristã; isso era visto como principalmente o dever dos pais, e só
secundariamente dever da igreja.
Noite da família
Escolha um dia da semana que possa tornar-se tão rotineiro como o jornal da
manhã, e use essa noite como “noite da família”. Selecionem um bom livro, talvez um
romance clássico ou uma coletânea de poesia, contos ou contos de fadas. Gaste algum
tempo com um jogo ou tempo ao lado do piano ou com o violão. Talvez queiram realizar
175
um pequeno estudo bíblico, mas é essencial que as crianças cresçam apreciando e
gostando também da literatura secular.
Leitura em Voz Alta
Esteja certo de ler aos filhos desde a mais tenra idade. Os estudos mostram que
crianças cujos pais lêem para elas até mesmo antes que elas entendam as palavras
crescerão lendo e aprenderão com mais facilidade.
Através de anos de pesquisa, o psicólogo de família John Rosemond juntou
inúmeras razões pelas quais deve-se desligar a televisão. Ele argumenta que até mesmo
“vila Sésamo” é anti-educativo, pois é um divertimento passivo. Na verdade, ele atribui
muito da desordem de deficiência de atenção ao encurtamento da capacidade de atenção
que vem de divertimento excessivo. xlii Os pais, ressalta Rosemond, preferem uma
desculpa genética da qual possam dizer “Não tive culpa” sobre uma explicação de
problema de desenvolvimento, mas as pesquisas têm confirmado as conclusões de
Rosemond. O psicólogo Jack Healy, autor de Endangered Minds: Why our Children
Don’t Think (Simon and Schuster)--Mentes em perigo: por que nossos filhos não pensam
e Jerome Singer da Universidade de Yale hoje concordam, argumentando que as crianças
não devem poder assistir a televisão até que estejam completamente alfabetizadas, por
volta dos oito anos de idade.
A Reforma legitimou o casamento como um fim em si,
assim como libertou as artes, filosofia e política.
Quando os pais lêem para os filhos, especialmente na hora de dormir, as crianças
freqüentemente aprendem a fazer associações entre o calor e a segurança do amor dos
176
pais e um livro, e é então natural que procurem ler em vez de ligar a TV quando
desejarem um sentimento agradável que as pessoas procuram na recreação.
Naturalmente essas são sugestões, e um tanto superficiais. Mas mostram uma
direção geral para a qual caminharmos. Muitas vezes não é por falta de interesse, mas
falta de direção, que as famílias não adotam tais programas, As soluções podem ser
surpreendentemente simples, mas exigem fundamentalmente de nós que alteremos nossos
afetos e nosso estilo de vida.
Não importa o que se escolhe fazer, em todo caso, precisamos colocar nossas
famílias em primeiro lugar. Se após a refeição da noite, rotina de domingo, e a “noite em
família” houver ainda tempo para “grupos de crescimento”, estudos bíblicos, e serviço
voluntário da igreja, melhor. As tantas vezes as famílias se envolvem demais em
atividades da igreja, os filhos em uniões juvenis e de adolescentes, e os pais em seus
grupos separados, que sobra pouco tempo para a família estar junta. O caso da criança
que aos poucos foi tornando-se agnóstica porque seu pai estava sempre envolvido no
“ministério” e sua mãe no trabalho feminino se multiplica por demais nos nossos dias. É
hora de recuperarmos a convicção de que nosso maior ministério é para com nossa
própria família.
DEUS REINA SOBRE TUDO
Vimos a enormidade do problema e a resposta do cristianismo reformado à crise
sobre trabalho e lazer naquela época. Revimos o fundamento bíblico para a vocação, o
trabalho e o lazer. Uma das pinturas mais impressionantes de Lutero não é um retrato do
grande homem sozinho, mas junto com sua família, cantando enquanto ele os
acompanhava no violão. “Sua vida doméstica” escreveu um historiador, “era parte
177
integrante de sua confissão e do seu testemunho público”. xliii Enquanto a igreja medieval
tinha colocado a família como menos espiritual do que dedicar-se a Deus como monge,
os reformadores concordaram todos que o lar cristão era tão sagrado quanto a própria
igreja. Isso não quer dizer que eles tivessem ilusões quanto a não haver pecado no lar, da
mesma forma como não se iludiam quanto ao seu próprio pecado ou o pecado dentro da
igreja: as famílias eram pecadoras, e a correção severa e conformidade estrita não podiam
livrar a família de pecado, assim como não livravam o coração do indivíduo.
Primeiro, a Reforma legitimou o casamento como um fim em si, como libertou as
artes, filosofia e política em suas atividades distintas. O casamento não requeria
justificativa religiosa maior do que essas outras esferas, sendo que estava arraigado na
Criação. Na verdade, a relação sexual dentro do casamento era vista entre esses
protestantes como aceitável por si mesma, simplesmente pelo prazer, sem exigir que
fosse apenas pela procriação. Lutero e Calvino lamentaram que todo pai e mãe temiam a
possibilidade de seus filhos sofrerem abuso, lembrando-nos que a corrupção de nossos
dias não é novidade na história do mundo. O lar, portanto, tornou-se lugar santo--não
porque as pessoas dentro do lar fossem “certinhas”, mas porque dentro daquelas paredes
um pai pastoreava seu pequeno rebanho à luz das escrituras. Aqui, os filhos cresciam com
a Palavra e com pais ativamente interessados nas atividades mais simples, comuns e
seculares do cotidiano. O casamento, outrora considerado pelo jovem Lutero físico e
sensual demais, em vez de espiritual e de mente celeste, agora era visto--como todas as
demais esferas que já descrevemos--piedoso e nobre dentro de sua própria característica
de ligada à terra.
178
Longe de ser escrupuloso quanto à imagem pública da “família perfeita”, a
teologia de Lutero fazia tais charadas repulsivas, e ele era muito aberto sobre a
normalidade da sua vida familiar, até mesmo chamando sua esposa de “Meu Senhor
Kate” em público. “Tenho que ter paciência com o Papa, reclamões, nobres insolentes, os
de minha casa e Katie von Bora, sendo que minha vida toda nada mais é que uma grande
paciência”, declarou ele certa vez. Escrevendo ao seu amigo Spalatim, antigo superior
dele no mosteiro, que, tendo se filiado à Reforma, agora recentemente se casara, Lutero
comentou: “Quando tens tua Catarina na cama, abraçando-a e beijando-a ternamente,
pensa: Eis que este ser, essa criação de Deus, me foi dada por Cristo, a quem devo toda
honra e glória... Minha costela e eu mandamos lembranças a ti e à tua costela. A graça
esteja contigo. Amém.” É notável a mistura de terrenidade e piedade. Não é sem razão
que os historiadores considerem Lutero como a influência mais poderosa na formação
distinta da família protestante.
Em nossos dias, os relacionamentos entre empregadores e empregados, gerência e
mão de obra não especializada, marido e esposa, pais e filhos, e trabalho e lazer estão
todos se desintegrando. Observamos algumas das razões para isso, e sem dúvida há
muitas outras, tais como o egalitarismo vigente que considera qualquer hierarquia ou
ordem de autoridade como inerentemente maléfica. Mas a Escritura não nos ensina a
nivelar todos os relacionamentos e democratizar todos os ofícios e posições no mundo.
pelo contrário, ela nos conclama a considerar nossos superiores e inferiores com
dignidade e respeito, levando toda a vida sob o reino soberano de nosso Redentor-Rei.
Um dia, um senhor caminhava e passou por um lugar de construção. Perguntou
aos trabalhadores “O que estão fazendo?” Um disse: “Estou quebrando pedras da
179
pedreira”. Outro respondeu “Sou responsável por fazer a argamassa que juntará as
pedras”. Um terceiro homem, coberto de lama, empurrava um carrinho de mão, e parou
apenas o tempo para dizer com prazer e orgulho: “Estou construindo uma catedral”. O
que estamos fazendo com nossas vidas? Trabalhando pelo final de semana ou construindo
uma catedral? Os três homens estavam envolvidos na mesma obra, mas somente um tinha
em vista o grande quadro. Longe da perspectiva transcendente (divina, vertical,
teológica), vemos apenas os detalhes da rotina diária: eu registro informações de
contabilidade, eu limpo a casa, eu julgo os casos no tribunal, eu digito a correspondência
e faço telefonemas para outras pessoas e assim por diante. Mas quando começamos a
assinar as composições de nossas músicas do dia a dia com “Soli Dei Gloria”-- Só a Deus
a glória--como fez Bach, até mesmo o trabalho mais enfadonho ou corriqueiro torna-se
divino.
180
Capítulo Oito
Um Mundo Enlouquecido
A tendência humana é de cada geração considerar-se centro da história; tanto a
fama quanto a infâmia servirão esse desejo de significado histórico. Nenhuma era foi tão
má, tão vil, tão impiedosa e sem esperança quanto a nossa, muitas vezes nos dizem, como
se a invenção de um meio mais sofisticado de desempenhar o mal de nossos corações
fosse iludir-nos para pensar que a natureza humana muda de modo significativo de era
em era.
Apesar dos perigos de lamúrias exageradas, não há dúvida de que o século vinte
tenha visto alguma da brutalidade mais selvagem e o mal mais baixo de toda a história da
humanidade. Duas guerras mundiais, terrorismo internacional na forma de totalitarismo e
fascismo, individualismo egoísta, nacionalismo e “a vontade de poder”--Não é preciso
enumerar todos os acontecimentos deste século para se ter um consenso entre liberais e
conservadores de que não foi um século vencedor. Não podemos descartar a coincidência
dessas tendências na história mundial e uma rejeição nua e crua de Deus.
O teólogo evangélico David Wells escolheu falar da era em que vivemos como
simplesmente ö nosso tempo”. É um boa frase, especialmente porque a poeira ainda não
assentou na comunidade intelectual quanto à natureza exata do período em que agora
vivemos. Nos anos sessenta, os jovens não se rebelaram contra o cristianismo em si
(lembre-se de que foi um dos períodos mais frutíferos de reavivamento entre os hippies),
mas contra a modernidade. Em qualquer extensão em que as igrejas refletiam e
defendiam as estruturas da modernidade, eles reagiram contra as igrejas também.
181
Um dos problemas que nós cristão criamos nesse negócio de análise e críticas de
nossa cultura é sempre olhar na superfície das coisas. Porque talvez consigamos lembrarnos dos confrontos nos campi universitários e reportagens dos noticiários, nosso acervo
de imagens nos leva a concluir que a rebeldia daquele tempo era o problema, em vez de
um sintoma. Hoje cometemos o mesmo engano, vendo as eleições como eventos
gigantescos que transformam nossa época. Se nosso candidato for eleito, sua vitória é
cantada com expressões exageradas de hipérbole que fariam até mesmo o Napoleão
Bonaparte enrubescer. Pelo contrário, se aquele malandro conseguiu ser eleito, as cartas
saem da imprensa de organizações cristãs e na semana seguinte serão os lamentos dos
púlpitos evangélicos em toda a terra: as forças do mal triunfaram, o pecado se
entrincheirou e as pessoas de bem (como nós) serão exiladas. Podia-se pensar que
passamos a uma época totalmente outra devido às eleições recentes. Isso não ocorre
apenas nas últimas eleições, tem sido verdade há tempo, porque nos envolvemos com o
trivial w somos entediados por aquilo que é verdadeiramente significativo e
transformador da história.
Se os Estados Unidos fossem invadidos por um exercito estrangeiro e deixassem
de existir como nação soberana, é bem provável que houvesse enormes transformações
econômicas, sociais, internacionais, políticas e militares, mas, diferente dos impérios
greco-romanos, os Estados Unidos (por maior que fosse sua influência internacional)
tende a espalhar sua cultura popular e não sua alta cultura. Embora se encontrem
refrigerantes norte-americanos nos vilarejos mais remotos dos Andes e crianças usando
camisetas dos super-heróis correndo atrás de uma bola nas ruas de Damasco, será que os
182
historiadores daqui a cinco séculos poderão desenterrar as influências culturais mais
profundas da ascendência norte americana e de seu destaque no mundo?
Não estou dizendo que o noticiário diário não tenha importância, ou que as coisas
que ocorrem na cultura popular sejam irrelevantes. Estou dizendo que, a não ser que
entendamos as tendências mais profundas na cultura intelectual, seremos pegos de
surpresa cada vez que aparecermos no cenário do crime. Em épocas passadas, os cristãos
desempenharam papel significativo para entender onde nos encontrávamos no mapa
filosófico e histórico, como também contribuíram às idéias e eventos que redesenharam o
mapa. Fizeram assim porque para isso foram chamados, como criaturas humanas, a fazer,
mas também porque queriam cumprir o mandado de Cristo e ser “pescadores de
homens”. Alguns pescadores ficam na beira do lago calmo, esperando uma fisgada de
peixe. Outros lançam redes em campanhas evangelísticas expansivas. Ainda outros serão
encontrados, através da história, andando com água até o peito pelo ribeirão poderoso do
pensamento humano, recusando ser levados pela corrente, decididos a trazer uma pescada
significativa. Uma espécie de pescaria não deve ser proclamada para a exclusão das
outras, mas como pensadores cristãos e não cristãos têm ressaltado, o cristianismo
evangélico tem evitado por algum tempo esses ribeirões turbulentos das montanhas.
É segredo de Deus, e não nos foi revelado, se nossas atividades, por mais
vigorosas que forem, terão ou não condições de mudar a maré da comunidade intelectual
e restringir o secularismo. Mas não há dúvida de que, apesar dos resultados, o dever
cristão exige que nós recobramos o interesse nas questões mais profundas que outrora
regeram os corações e as mentes de nossos antepassados.
183
Com essa finalidade, resumiremos “Nosso Tempo” em termos de suas correntes
principais e sugeriremos algumas possíveis avenidas de realizar contribuições
significativas para o mundo neste tempo e lugar.
MODERNIDADE: QUANDO FOI?
É provável que se encontrem uma grande variedade de opiniões. Por exemplo,
Thomas Oden argumenta que a Era da Modernidade iniciou com a tomada da Bastilha em
1789 e terminou com o colapso do Muro de Berlim em 1989. Os historiadores
normalmente têm considerado a divisão da “história moderna” como tendo iniciado com
a Renascença e Reforma, mas só recentemente têm começado a tecer teorias sobre
quando (ou se) ela já teve seu fim. Por razões que defenderei a seguir, eu argumento que
a “modernidade, arraigada na Renascença e no Iluminismo, não chegou ao fim e que
mesmo seus críticos mais acirrados freqüentemente demonstram uma visão radicalmente
“moderna” até mesmo quando estão atacando a modernidade.
MODERNIDADE: O QUE É?
Agostinho disse certa vez que sabia que era o tempo até que alguém o pediu para
defini-lo. O mesmo se diz sobre o termo “modernidade”. Tornou-se termo ubíquo no
discurso acadêmico e acaba sendo filtrado para as massas conforme aparece nos jornais
diários.
Em suma, a maioria dos estudiosos concorre que a modernidade possui as seguintes
características:
Crença no Progresso
Na Renascença (séculos 14 a 16) os novos intelectuais estavam ansiosos por
voltar a uma suposta “Era Dourada” da civilização, localizada na antiga Grécia e Roma.
184
Convencidos de que viviam num período estéril de dogmatismo eclesiástico e obsessão
com o status quo, muitas figuras renascentistas foram inspiradas pelas histórias, poesia,
arte, línguas e filosofias do mundo antigo. Foram esses jovens intelectuais que
inventaram a expressão “era das trevas" ao referir-se ao período entre a queda de Roma e
suas próprias carreiras! (Nenhuma época esteve isenta de chauvinismo). Na Idade Média,
um monge imaginativo de nome Joaquim di Fiore escreveu um comentário sobre o livro
do Apocalipse no qual asseverou que a humanidade estava às vésperas de algo
surpreendente. Assim como a Era do Pai (Antigo Testamento) passara para a maior Era
do Filho (Novo Testamento), o mundo agora estava prestes a entrar no ápice da
civilização, a Era do Espírito. Nessa nova era, todas as religiões se uniriam, pois os
dogmas dariam lugar à presença da fraternidade e unidade espiritual. (Pode-se ouvir no
fundo a música de John Lennon: "Imagine"). Era compreensível que a igreja católica
romana proibisse a interpretação herética que Joaquim fez da história, nas ela
impressionou muitos líderes renascentistas, especialmente aqueles que tentavam unir uma
teologia levemente cristã com um misticismo neoplatônico fundamentalmente pagão.
Uma estrela brilhante nessa constelação foi Petrarca, e ele, mais que qualquer outro,
secularizou o pensamento do monge banido para uma era que estava convencida de estar
entrando numa nova era de esclarecimento.
Ele próprio um neoplatônico, Petrarca cria que o espírito era superior à matéria.
Em vez de ir até o fim desse misticismo grego, argumentando que a salvação significava
o escape do espírito da sua prisão física, ele seguiu a visão de Joaquim, insistindo que a
própria história estivesse andando para além da existência material (igreja, sacramentos,
Bíblia, credo, doutrina) e entrava numa era espiritual. A Utopia de Sir Thomas More
185
resalta essa expectativa que encantava as melhores mentes da época. Os Anabatistas na
época da Reforma adotaram essa abordagem esperando a descida iminente do Espírito
Santo para trazer o mundo a um estado de paz perfeita e santidade. Na verdade, ma seita
anabatista radical tentou fazer acontecer essa Era do Espírito pela força, tomando posse
da cidade alemã de Munster e transformando-a em estado comunista e polígamo, de onde
as revoluções perfeccionistas emanariam por toda a terra. Embora a maioria dos
anabatistas fosse menos revolucionária, seu dualismo radical entre a matéria e o espírito
levaram-nos a desprezar este mundo e proibir envolvimento nos negócios do mundo.
Essa idéia do progresso eventualmente conduziu bom número
de cientistas e filósofos influentes a divorciar
suas disciplinas das “superstições” e “dogmas” da fé.
O enredo vai ficando mais polêmico com a chegada em cena do filósofo do
Iluminismo alemão, G.W.F.Hegel (1770-1831). Hegel promulgou a idéia da história
numa filosofia de panteísmo (tudo é “Deus”). A própria história era o progresso em
direção a esse estado perfeito de puro espírito, e como toda a história, como toda a
existência espiritual, é uma só, mesmo esse progresso era sinônimo de “Deus”. Desse
misticismo panteísta, junto com um racionalismo rigoroso, Hegel desenvolveu sua
famosa dialética: agora via-se a história como uma espiral em direção à perfeição
espiritual através da tese, antítese e síntese. Pode-se ver como isso parece na vida real
com a chegada da próxima personagem dessa saga: Karl Marx (1818-83).
Considerando Hegel como seu pai filosófico e os revolucionários anabatistas
como seus precursores, Marx estava convencido de que seu “secularismo espiritual” ou
186
“espiritualismo secular”, como nós poderíamos chamá-lo, levaria à utopia esperada. Por
esta razão, Marx podia até mesmo aprovar o feudalismo na Idade Média como a “tese”
que requer a “antítese da revolução dos camponeses no século dezesseis, levando
finalmente a uma “síntese” que estivesse um passo mais próximo da realização da utopia.
Marx até mesmo considerou a democracia como um estágio importante e positivo em
direção dessa “nova era”, assim como achava que o totalitarismo teria que ser um breve
mas necessário mal para se atingir sua sociedade perfeita. A filosofia de Hegel estava em
evidência em tudo: o totalitarismo não é o alvo, mas o meio de se atingir sua própria
antítese, a eliminação do estado e paz e harmonia perfeitas. O estado perfeito não era
alcançado numa linha direta, mas através de ziguezagues das sucessivas reações e contrareações. É por isso que podemos encontrar marxistas “de carteirinha” (quase sempre nas
universidades e mesmo faculdades de teologia do Ocidente) que vêem o colapso do
marxismo soviético como nada mais que uma “antítese” necessária no progresso
inevitável da história. Há um compromisso de fé cega na idéia determinista de que a
história tem como seu alvo a visão marxista, ainda que não exista um Criador inteligente
que determine e comande a história!
Mas Marx não estava só em sua dívida para com Hegel e essa visão moderna do
progresso. Na verdade, Hegel foi tanto o pai do capitalismo quanto do comunismo,
porque Adam Smith (autor de A Riqueza das Nações, tão instrumental no surgimento do
capitalismo industrial) dependia também de sua visão do progresso histórico. Foi a visão
que inspirou John Dewey, pai da educação moderna; Sigmund Freud, pai da psicologia; e
Friederich Schleiermacher, pai da teologia liberalista moderna. Essa idéia do progresso
eventualmente conduziu bom número de cientistas e filósofos influentes a divorciar suas
187
disciplinas das “superstições” e “dogmas” da fé, promulgando a noção de que ser
homem ou mulher de fé era ser “retrógrado”, enquanto a visão científica (ou seja,
naturalista) caminhava ombro a ombro com o progresso. Charles Darwin estava sendo
apenas filho de sua era hegeliana quando promulgou uma teoria que explicasse a história
natural em termos de progresso evolutivo. Sua teoria foi realmente justificada pelos fatos
da pesquisa científica, ou eram especulação filosófica que “por acaso” coincidiu com as
tentativas marxistas e outras que explicavam toda faceta da vida humana de acordo com
as opiniões especulativas de Hegel.
Como em todos os resumos de cursos, este é reducionista. por exemplo, Hegel
certamente não foi sozinho quem arquitetou a modernidade e sua visão do progresso. Foi
um dogma universal do Iluminismo, que à medida que homens e mulheres “iluminados”
tirassem os olhos do assado e de seus dogmas religiosos, no final raiaria a alvorada e o
mundo alcançaria a paz.
Acrescido a essas tendências intelectuais havia a notável explosão da tecnologia.
A Revolução Industrial deu a máquina a esses modelos de progresso, e parecia que “nada
lhes seria impossível”. A tecnologia deu forma material ao espírito do progresso, e a
tendência geral do filósofo e do balconista era igualmente em direção ao futuro, pois as
pessoas convenceram-se de que os progressos na ciência, medicina, educação, política,
ciências comportamentais, e assim por diante alcançariam a utopia. Não era de se admirar
que movimentos políticos utópicos convulsionaram os últimos dois séculos, tanto da
direita como da esquerda. O advento da utopia justificava até a morte de milhões que
impediam o caminho dos “iluminados”. Apesar de todas as atrocidades cometidas em
188
nome da cristandade, nada jamais tentado em nome de Cristo se aproximava do
dogmatismo, opressão e superstição do mundo moderno.
Razão universal
David Hume (1711-76) foi empiricista britânico que insistia que aquilo que não
pudesse ser observado não poderia ser considerado “conhecimento”. Diferente dos
racionalistas, que diziam saber que algo era verdade porque se conformava com
princípios universais da razão, os empiricistas diziam saber que algo era verdade porque
se conformava com a experiência e observação universal. Como Hume acreditava que os
milagres não fazem parte dessa experiência ou observação universal, elas tinham
obrigatoriamente de ser eliminadas como possibilidade num universo que funciona
estritamente conforme as leis naturais. A ressurreição de Cristo, portanto, não podia ter
acontecido--não porque os fatos do caso fossem pujantemente opostos, mas porque as
ressurreições são, por definição, milagrosas, e os milagres não ocorrem no universo
conhecido.
Aquilo que começa hoje como uma
especulação filosófica acaba movendo
exércitos e construindo impérios amanhã.
Emanuel Kant (1724-1804) reduziu o campo daquilo que pode ser legitimamente
conhecido ao racionalismo. Os princípios universais de razão existem dentro da mente de
cada pessoa, e são esses princípios que devem nos levar às nossas conclusões sobre o
mundo. Contudo, Kant despertou dos seus “sonos dogmáticos” no racionalismo através
do empiricismo radical de Hume, e tentou misturar essas duas escolas filosóficas.
189
Portanto, a fé se encontrava no âmbito “noumenal” (espiritual) daquilo que não podia ser
demonstrado à razão ou à observação (ou seja, o âmbito fenomenal). Os únicos “fatos” da
religião que podiam ser demonstrados eram os da razão natural. Dessa forma Kant, criado
no pietismo, reduziu o âmbito da religião racional à moralidade. Afinal, os “princípios
universais” da moral são evidentes até mesmo nas culturas menos civilizadas. Mas no
final do dia, Kant insistia que todo o conhecimento humano é ubjetivo. Ou seja, que
nunca se vê as coisas “como elas são”, mas necessariamente construímos a “realidade”
conforme esses princípios da razão universal. Assim, se alguém já tivesse concluído por
argumentação e razão que alguma coisa não podia ser verdade, ela não poderá ser
demonstrada como verdade, mesmo pela evidência ou o testemunho óbvio. Toda
observação humana é interpretada” pela razão, sendo que o sujeito (o conhecedor) e não
o objeto ( aquilo que é conhecido) é a fonte do verdadeiro conhecimento.
Assim, todo o projeto do Iluminismo se dedicou a construir uma torre de
progresso que alcançasse os céus. Era um espiritualismo secular, uma religião naturalista
de realizações humanas com pouco ou nenhum lugar para Deus, quanto menos para sua
revelação ou redenção. Jungido ao dogma de progresso inevitável, a modernidade
defendia a onipotência da razão humana em compreender tudo o necessário e resolver
todo problema teórico e prático que impedisse o progresso.
QUAIS OS RESULTADOS PRÁTICOS?
O que começou hoje como especulação filosófica acaba movendo exércitos e
construindo impérios amanhã. Temos visto os efeitos práticos da modernidade nas
revoluções dos últimos dois séculos e meio. Havia a tendência de centralizar o poder nas
cidades e em poderosos centros governamentais. No passado, uma cultura saudável
190
exigia famílias, vizinhanças, escolas e igrejas fortes, e somente após essas instituições
primárias é que havia bons governos nacionais. Mas nos nossos dias, assim como o
shopping center suburbano substitui as lojas, o governo federal e o estatismo que produz
muitas vezes tornam irrelevantes para as nossas vidas esses centros mais imediatos,
pessoais e significativos. Vemos também os efeitos em nossas vidas cotidianas, de formas
que muitas vezes não entendemos simplesmente porque tornaram-se tão parte do nosso
mundo que consideramo-los naturais.
Permita-me alguns exemplos. Muitas vezes a existência humana e a natureza são
descritos em termos mecânicos, como se o homem fosse simplesmente uma máquina
avançada, determinado por processos naturais, em muito parecido com a programação de
um computador. A unicidade da existência humana e a liberdade de ação humana são
muitas vezes questionados até na nossa vida de cada dia, quando, por exemplo, os
criminosos são vistos como “produtos” de sua sociedade. Conjuntos de apartamentos,
condomínios ou casas germinadas são erguidos em volta dos templos de empresas e
indústrias modernas. Até nossa vizinhança--se ainda podemos chamá-la assim--torna-se
cada vez mais um memorial à modernidade. Especialmente no período após a guerra, a
modernidade e seus efeitos (tecnologia, especialmente em viagens velozes) nos
desarraigaram dos lugares de nossos ancestrais e nos deram um senso de superficialidade
e falta de permanência. Em vez de uma comunidade, com o orgulho de gerações
construindo tributos materiais e espirituais, temos os condomínios modernos,
comunidades planejadas nas quais edifícios de materiais artificiais surgem como barracas
quase da noite para o dia. Apesar de diversidade de planos, por fora todas as casas se
parecem e ocupam mais ou menos o mesmo tamanho de terreno. Nossa mobilidade
191
produz cada vez mais uma cultura sem raízes que, por definição, não pode se orgulhar
pelo lugar e tempo como nas gerações passadas. Franchises de alimentos rápidos se
juntam ao redor dessas “vizinhanças”, aproveitando-se do fato de que, em nossas vidas
corridas, não esperamos que o jantar seja oportunidade para a família e os amigos se
juntarem em comunhão. As amizades e as famílias se quebram mais facilmente nesse
ambiente, mas muitas vezes não enxergamos a situação além das atitudes políticas e
morais mais óbvias de “valores da família”.
A revolução nas telecomunicações também alterou radicalmente o ambiente
relacional. Até recentemente, alguns países europeus recusavam realizar negócios oficiais
do governo por telefone, pois o método mais lento, formal e menos direto de cartas tem a
tendência de limitar os desentendimentos e o imediatismo de ânimos esquentados. Noto
até uma diferença na comunicação entre amigos na Inglaterra e nos Estados Unidos.
Como grande parte dos americanos, tenho a tendência de correr pela minha comunicação
com amigos, membros da família e colegas, selecionando a forma mais rápida e gastando
o mínimo de tempo para cobrir o assunto necessário. Em contrate, quase todos os meus
amigos ingleses correspondem comigo escrevendo longas cartas manuscritas. A letra é
admirável, especialmente quando comparada com a minha. Brinquei com um amigo a
esse respeito, e aprendi que ele levava a caligrafia à sério, muito mais que eu. Não era
piada. Além da aparência, o conteúdo é mais significativo, tanto em termos de
profundidade quanto em estilo de escrever. Não é simplesmente o preço de um
telefonema que faz isso, pois essa é uma forma de comunicação comum até entre pessoas
que moram na mesma comunidade. Não será possível que esses dois modelos diferentes
192
de comunicação tendem a formar duas abordagens distintas para com os
relacionamentos?
No final dos anos vinte, quando o rádio começava a gozar de sucesso, o líder
protestante ortodoxo J.Gresham Machen lamentou os efeitos que teria sobre a cultura.
Primeiro, ele observou que seus estudantes estavam encontrando dificuldade na leitura e
no prazer de passatempos naturais, mas exigiam barulho para acalmá-los. Segundo, ele
preveniu que a rádio ajudaria a produzir uma cultura popular banal, na qual as culturas
locais cederiam para um estilo homogêneo de música que abafaria o gosto e destruiria a
individualidade. Como as casas em série, a televisão (muito mais do que o rádio) ajudou
a criar essa cultura popular na qual a mentalidade de “turma” mina nossa capacidade de
entreter-nos e pensar e criar por nós mesmos. Um “mundo” produzido em massa (e
portanto superficial) é-nos servido num dilúvio de imagens e sons. Nossos irmãos
estrangeiros muitas vezes são ofendidos ao entrar em nosso lares e nos encontrar em
conversa numa sala em que os móveis são organizados em torno do aparelho de televisão.
Não é a existência desses aparelhos que os ofende, mas a proeminência que nós damos a
eles. Não é incomum que crentes organizem não apenas os móveis, mas suas próprias
vidas, em torno da televisão, que está ligada até mesmo nas refeições e conversas.
Muitas pessoas que protestam o sexo e a violência nos meios de comunicação não
parecem se preocupar em nada com o impacto a longo prazo mais profundo da televisão.
Não é somente a mensagem (um rio constante das convicções mais profundas da
modernidade, “empacotado” para o consumo em massa) , mas o próprio meio, que nos
faz questionar seu valor em nossas vidas e nossa cultura.
193
Não estou aqui dizendo que devemos desprezar prédios de apartamentos,
condomínios (eu moro num dos mais feios!), fazer um pacto de viver para o resto de
nossas vidas num só lugar, boicotear lugares de comer hambúrguer e só comunicar com
os amigos através de cartas, sem usar telefone ou faz. Não acho pecado ter um televisor
ou ir ao cinema (afinal de contas, inclui algumas ilustrações de filmes neste livro!). Como
tudo mais, simplesmente temos que discernir e pensar no que fazemos. Não podemos
voltar atrás, e nem devemos desejar ser dinossauros culturais. Mas temos que reconhecer
as enormes ramificações da modernidade (tanto boas quanto as más) em nossas próprias
vidas, se quisermos procurar compensar pelos efeitos negativos.xliv
ONDE ESTAVAM OS EVANGÉLICOS EM TUDO ISSO?
O rótulo “evangélico” passou a ser usado durante a Reforma. Lutero, Calvino e
outros reformadores lideravam o cristianismo evangélico numa época em que o mundo
moderno estava nascendo. Amplo consenso de estudiosos historiadores atestam ao fato de
que muitos dos avanços na ciência, artes e letras, política e na sociedade em geral eram
produtos da Reforma. Isso não é totalmente claro e havia muitas vezes uma mistura de
idéias seculares e religiosas dominando o período. Contudo, conforme vimos em outros
capítulos, a Reforma lançou grandes projetos de cultura humana. Os idólatras da era
moderna muitas vezes deixam de levar em conta a extensão em que seus sonhos não
poderiam ter existido, não fosse o sonho do cristianismo bíblico. Mesmo sua visão
secular do progresso foi baseada na escatologia cristã de redenção e esperança. Até
mesmo o projeto de declarar independência de Deus⎯ou seja, de repetir a
Queda⎯requer que o cristianismo seja verdade.
Nós mesmos precisamos certificar-nos de que somos
194
a igreja⎯o corpo de Cristo⎯em nossa época.
Os consagrados revisionistas da modernidade convenceram gerações de homens e
mulheres de que o cristianismo foi responsável por tudo que está errado no mundo
moderno, A negligência ambiental foi resultado duma visão cristã do mundo no qual os
seres humanos dominavam o resto da criação, assim como o sexismo era resultado do
paradigma patriarcal da cultura judaico-cristã. Racismo, violência e uma infinitude de
outras pragas modernas foram tão insistentemente atribuídas ao cristianismo que a
sociedade veio a aceitar a culpa como lhe foi imputada.
Nossa resposta no meio de tudo isso não deve ser apenas reacionário.xlv É verdade
que o cristianismo foi explorado até mesmo por teólogos e pastores a serviço de
ideologias de esquerda e de direita; eles cederam aos diversos Baalins da modernidade,
usando o cristianismo como capa para o racismo, depredação do meio-ambiente,
escravatura, sexismo, tecnologia e a adoração do poder. Temos que reconhecer isso,
arrependermo-nos e voltar a Iavé, o único Deus verdadeiro da história que se fez
conhecido na pessoa e obra de Cristo. Antes de que os incrédulos façam isso, nós
mesmos temos que certificar-nos de que somos novamente a igreja⎯o corpo de
Cristo⎯em nossa época.
Apesar dos fatores complexos que continuam a perturbar nosso mundo e
desintegrar nossos relacionamentos, sabemos que a história irá de encontro com seu fim
determinado, que Deus “estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça,
por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os
mortos” (Atos 17:31). Deus ainda é soberano, regendo os afazeres de todas as pessoas, os
195
de alta e de baixa posição, os poderosos e os fracos. Não importa quem ocupa a Casa
Branca (podemos levar para nossa situação e dizer, “o palácio da Alvorada”), o
Congresso ou o Supremo Tribunal, “eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e glorifiquei ao
que vive para sempre, cujo domínio é sempiterno, e cujo reino é de geração em geração.
Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele
opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão,
nem lhe dizer: Que fazes?”(Daniel 4:34-35). Depois que todos os grandes impérios
vieram e passaram, Deus ainda estará cumprindo os seus intentos, feitos antes da criação
do mundo, para glorificá-lo na salvação dos eleitos e no juízo dos perdidos.
Esse reconhecimento produz esperança. Mas não é uma esperança sentimental,
baseada numa visão romântica de Deus e em crença em chavões de que “vai dar tudo
certo”; é esperança que reconhece a salvação e a “utopia” como sendo finalmente
realizados, não por esforços humanos, mas pela intervenção da justiça no final da era.
Então o novo céu e a nova terra serão unidos num esplêndido Éden, sem uma serpente a
estragar com tudo. Num momento, seremos glorificados, e nosso prazer será servir a
Deus e ao próximo. Dessa cidade celestial, lemos: “As suas portas nunca jamais se
fecharão de dia, porque, nela, não haverá noite. E lhe trarão a glória e a honra das
nações,. Nela, nunca jamais penetrará cousa alguma contaminada, nem o que pratica
abominação e mentira, mas somente os inscritos no livro da vida do Cordeiro”
(Apocalipse 21:25-27). Enquanto trabalhamos para produzir mudanças verdadeiras e
seguimos ativamente nossa vocação neste mundo, clamamos em nossa profunda
necessidade “Ora vem, Senhor Jesus!”.
196
Conclusão
NO MUNDO MAS NÃO DO MUNDO
“As alegrias do mundo impedem a alegria espiritual em seu mais alto grau e
tornam as mentes incapazes de experimentá-la. O prazer mundano é grosseiro, o prazer
espiritual é sutil. O prazer mundano faz o homem descer à carne, o prazer espiritual o
enleva. A alegria mundana deixa o homem mal à vontade, a alegria espiritual lhe dá
paz”.xlvi
O autor desses dizeres foi Phillip Jakob Spener, considerado o “pai do pietismo”,
movimento dentro das igrejas protestantes da Alemanha do século dezessete que
procurava recuperar o que seus adeptos criam ser um equilíbrio entre a boa doutrina e a
vida sadia. Criados em igrejas ortodoxas luteranas e reformadas, os pietistas
preocupavam-se porque tantos podiam responder acertadamente as perguntas do
catecismo mas demonstravam pouquíssimo efeito dessas verdades sobre suas vidas. O
coração estava frio, as mãos estavam sem trabalhar em atos de piedade cristã, diziam eles
com grande habilidade e paixão.
Hoje, o “pietismo” tornou se palavra de toque para uma piedade interior que
ignora o mundo, a não ser como alvo de evangelismo e missões. Conquanto tais
caricaturas deixam de conhecer a riqueza de percepção desses seguidores enérgicos e
zelosos de Cristo, existe uma clara diferença entre a teologia que afirma o mundo dos
reformadores e a visão geralmente negadora do mundo por parte dos pietistas. Na época
da própria Reforma, os reformadores protestantes enfrentavam não só os abusos da igreja
197
católica romana, como também os excessos dos anabatistas, que queriam separar-se
totalmente do mundo.
A Escritura nos ensina que há dois perigos que devemos evitar: separatismo e
mundanismo, e a história da igreja nos mostra como é fácil cair tanto num quanto noutro
erro. Na igreja antiga, Justino o Mártir estava tão envolvido com a filosofia que até
mesmo após sua conversão ele via o cristianismo principalmente como um sistema
filosófico e incorporou idéias gregas incompatíveis para dentro do cristianismo.
Tertuliano, por outro lado, insistia que o cristianismo e a filosofia eram de tal maneira
opostos que não existiria uma base comum. Na Idade Média, pelo contrário, a igreja
havia sintetizado tanto a filosofia grega com a Escritura que não se podia questionar uma
sem colocar em dúvida a outra. A reação dos anabatistas foi repudiar totalmente o
envolvimento com o mundo, e os pietistas que seguiram o período da Reforma
demonstraram muitos dos mesmos sinais. Embora os reformadores não fossem infalíveis,
na verdade eles liberaram a teologia da filosofia, enquanto afirmavam a ambos, davam
espaço para cada um respirar.
Vamos portanto analisar cada uma dessas visões à luz das Escrituras.
A DOUTRINA BÍBLICA
DA CRIAÇÃO: NO MUNDO
Como já vimos, a Bíblia é diametralmente oposta a qualquer ponto de vista, grego
ou outro, que despreza a realidade ou importância do mundo criado. Não é apenas que
Deus declarou que o mundo era bom no princípio, mas é dentro de um mundo que Deus
anunciou seu plano de redenção após a Queda e o executou na história verídica e
verdadeira. Foi através do Mar Vermelho, não um rio mítico, “espiritual" da vida eterna,
198
que Deus salvou Israel do exército de Faraó. Foi uma montanha de verdade no antigo
Oriente Próximo que Deus deu a Lei a seu povo e conduziu-os pelo deserto. O deserto
não foi triste e sombrio por ser da terra, mas porque não era a Terra Prometida--”de
onde manam leite e mel”. Deus foi adorado num templo de verdade, com sacrifícios
verdadeiros de animais vivos.
Os escritores do Evangelho destacaram a humanidade de Cristo dando sua
genealogia humana. Seus antepassados foram gente de verdade⎯alguns de caráter
destacado, outros com seríssimos erros, e a maioria refletia ambas as tendências humanas
em suas próprias vidas⎯conforme o relato bíblico. Noutras palavras, redenção, conforme
a Bíblia, ocorre “na terra” no tempo e espaço históricos, diferente de outras religiões que
compartilham um dualismo entre aquilo que é “espiritual” (ou seja, celeste) e aquilo que
é “mau” (noutras palavras, terreno). Até mesmo não cristãos, conforme as Escrituras,
possuem em si a imagem de Deus (Tiago 3:9) e são portanto capazes, como os cristãos,
de excelência, sabedoria e conhecimento nas coisas do mundo, criatividade, prazer e
virtude civil.
Contra aqueles que dizem que o mundo pertence a Satanás ou às forças mal’
eficaz, o próprio Deus anuncia: “O mundo é meu, e quanto nele se contém”(Salmo
50:12). Ele o criou e o sustém pelo seu poder. Mesmo no estado atual de rebeldia em que
o mundo se encontra, a sua graça comum traz o bem do mal e restringe a maldade
humana. “Ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos”
(Mateus 5:45).
A DOUTRINA BÍBLICA DA
REDENÇÃO: MAS NÃO DO MUNDO
199
Se tudo isso é verdade, por que João nos diz que não devemos amar o mundo nem
o que há no mundo (1 João 2:15)? Certamente João não quer dizer “o mundo” num
sentido geral, pois era o mesmo apóstolo que declarou “Porque Deus amou o mundo de
tal maneira que deu seu Filho unigênito”(João 3:16). O que João está falando aqui é sobre
a característica de “caído” do mundo, da sua hostilidade contra Deus e oposição à sua
Palavra.
É porque a terra e tudo que nela existe pertencem ao Senhor que ele pode, na
verdade tem que, julgar o mundo por sua rebeldia. “Castigarei o mundo por casa de sua
maldade” (Isaías 13:11) declarou ele. Mas a redenção é tão certa como o julgamento.
Acho interessante que muitos crentes não tenham dificuldades em reconhecer que o
julgamento final dos pecadores inclui o julgamento do mundo. Fogo, devastação,
destruição virão sobre a criação. Ouvimos muito a esse respeito, especialmente da parte
daqueles que se dedicam a procurar predizer o final. No entanto, essa não é a história
completa do que acontece com a humanidade. Deus não aguarda apenas um povo
redimido como também uma criação redimida. “A ardente expectativa da criação
aguarda a revelação dos filhos de Deus. Pois a criação está sujeita à vaidade, não
voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria
criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de
Deus. Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até
agora” (Romanos 8:19-22. Paulo segue esse grande anúncio com a declaração de que
seus próprios corpos um dia serão redimidos como parte dessa redenção da criação (v.
23).
No cristianismo, a religião é questão histórica,
200
não apenas de coração.
É verdade, quer creiamos ou não.
A visão gnóstica da redenção era em termos de salvação do corpo, da existência
material, tempo, história e deste mundo; os escritores bíblicos tanto do Antigo quanto do
Novo Testamento descrevem a salvação em termos de salvação do corpo e da alma juntos
dentro do tempo, da história e deste mundo. A cruz era um patíbulo de verdade, feito de
madeira de verdade. A crucificação aconteceu, assim como a ressurreição, numa semana
de verdade dentro da história. Não foi apenas experiência interior do coração dos
discípulos relatado na Escritura para nossa fé salvadora, mas “o que temos ouvido, o que
temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos
apalparam com respeito ao Verbo da Vida... anunciamos a vós outros!” (1 João 1:1).
No cristianismo, a religião é questão histórica, não apenas de coração. É verdade, quer
creiamos ou não.
Este mundo como mundo não é, portanto, o inimigo do crente. Em outras
palavras, não é nossa humanidade ou o mundo em sua essência o problema. Distorcido
pela influência gnóstica, muitos cristãos falam de sua pecaminosidade como se estivesse
ligada diretamente à sua humanidade: “Enquanto tivermos esse corpo de carne, vamos ser
impedidos de existência espiritual perfeita”, dizem. Mas, como disse Calvino,
argumentando contra os gnósticos do seu tempo: “Não é a natureza, mas a corrupção da
natureza” a questão. É isso que precisamos entender se vamos ser afirmadores do mundo
em nossa espiritualidade.
Contudo não se pode fugir do outro lado da moeda que encontramos na Escritura.
Se a Bíblia se opõe ao dualismo pagão entre espírito e matéria e afirma este mundo como
201
pertencente a Deus, também ela se opõe ao mundanismo. A atividade relativa ao mundo é
sancionada e ordenada por Deus, mas o mundanismo é a doença da alma que nos infecta
quando começamos a moldar nossas idéias, crenças, nossos métodos e estilos de vida
conforme o mundo. Muitos de nós fomos criados em igrejas onde esse “mundanismo” era
associado com vocações seculares, sucesso financeiro e dançar, beber, fumar ou
freqüentar lugares onde essas atividade ocorriam. Isso não é⎯repito enfaticamente: não
é⎯o mundanismo descrito nas Escrituras. Tornamo-nos mundanos quando os “papos” de
apresentadores de televisão substituem os sermões, o culto é transformado em
consumismo dirigido pelo mercado, e categorias terapêuticas ou políticas começam a
substituir a ênfase bíblica nas nossas igrejas. Tornamo-nos mundanos quando obcecados
pelas questões “práticas” em lugar de sólido discipulado bem-informado e quando
achamos que a popularidade visível e o sucesso numérico são a medida do ministério.
É bem possível ser totalmente corrompido pelo mundanismo até mesmo quando
estamos enfurnados no gueto cristão. Nossa música, literatura, escolas, rádio e televisão e
igrejas cristãs podem tornar-se portadores do vírus do mundanismo sem que tenhamos
que nos incomodar com o mundo.
Como os vasos do templo no Antigo Testamento que foram separados do uso
comum para serem usados no sagrado, os crentes são “vasos de misericórdia, que para
glória preparou de antemão” (Romanos 9:23). Isso não é algo que devamos atingiram
como se a santidade dependesse da extensão em que nos separamos do mundo. Pelo
contrário, Deus tomou sobre si mesmo a responsabilidade: enviou o Santo de Israel para
ser nosso substituto, viver uma vida sem pecado de perfeita conformidade com a vontade
revelada do Pai, ir até a cruz carregando os nossos pecados e depois ressuscitar dos
202
mortos para nossa justificação. A santidade e justiça de Deus foram completamente
satisfeitos. Como filho pródigo, vestimos a túnica da justiça que nosso Pai colocou sobre
a nossa nudez com grande preço pessoal. Em Adão somos culpados e corruptos, mas em
Cristo somos santos e inculpáveis, sem mancha ou ruga. ”Mas vós sois dele, em Cristo
Jesus, o qual senos tornou da parte de Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e
redenção, para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” (1
Coríntios 1:30-31).
Isso se chama “santificação definitiva”, porque é uma declaração de uma vez para
todas no tribunal de Deus que define quem somos agora. Não é o grau de santificação que
tenhamos atingido ou atingiremos por proximidade a Deus, mas a santidade perfeita em
Cristo que nos dá nosso lugar e nos qualifica a entrar no Santo dos Santos.
A Bíblia não pára aí. Não só Ele nos revestiu da justiça e santidade de Cristo
como também nos imputou os trinta e três anos de plena obediência de Cristo. Ele
também derrubou a trindade não-santa: o mundo, a carne e o diabo da tirania de seu
trono. O indicativo triunfante (a declaração de que já somos santos em Cristo) é seguido
do imperativo (a ordem de viver de modo coerente com esse fato). Nossa posição perante
deus (o indicativo) nunca depende de nosso progresso na santidade pessoal ( o
imperativo), mas ambos pertencem a todo verdadeiro crente. Por menor que seja o
progresso na piedade no curso desta vida, há progresso, e por mais que o pecador
justificado ainda tenha pecado, ele ainda veste as vestiduras da perfeita santidade de
Cristo.
Uma vez esclarecida essa distinção, somos libertos para seguir após a
santificação, em reverência e gratidão em vez de por medo de castigo e desejo egoísta de
203
uma recompensa pessoal. Isso também nos faz evitar os perigos opostos de
perfeccionismo e quietismo. Trabalhamos ativamente com energia no mundo, sem ilusões
de perfeição até que nos encontremos perante Deus na glória. É a boa nova daquilo que
Deus fez em Cristo que nos faz agir mesmo apesar de nossas falhas, e nos faz subir ante
os desafios imperativos.
Pedro segue também essa ordem em sua primeira epístola. Primeiro, temos o
indicativo: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita
misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus
Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível,
reservada nos céus para vós outros que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé,
para a salvação preparada para revelar-se no último tempo”(1 Pedro 1.3-5). Noutras
palavras, a santidade que nos torna aceitáveis diante de Deus já é nossa em cristo,
objetivamente, somente pela graça mediante a fé somente. Pedro segue isso com o
imperativo: “Por isso, cingindo o vosso entendimento, sede sóbrios e esperai inteiramente
na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo. Como filhos da
obediência, não vos amoldeis às paixões que tínheis anteriormente na vossa ignorância;
pelo contrário, segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós
mesmos em todo vosso procedimento, porque está escrito: Sede santos porque eu sou
santo” (vv.13-16) . Devemos portar-nos neste mundo com temor durante o tempo de
nossa peregrinação, porque “não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro,
que fostes resgatados de vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo
precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo”(vv.17-
204
19). Fomos purificados pela fé em Cristo e “regenerados, não de semente corruptível,
mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente”(vv.22-23).
Pedro volta a esse padrão do indicativo e imperativo no capítulo seguinte.
Começando com Cristo como o Templo de Deus no qual todos nos encaixamos como
“pedras vivas”, Pedro não apresenta isso como possibilidade para “cristãos vitoriosos e
plenamente consagrados” no final de suas vidas terrenas, mas declara ser esta uma
realidade presente para todo crente. “Vós porém sois raça eleita, sacerdócio real, nação
santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele
que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”(2:9). Em outras palavras, esse
gracioso ato de Deus tem um propósito: não somos salvos pela graça apenas para viver
para nós mesmos, mas a fim de glorificar a Deus. Portanto, “Amados, escrevo-vos, como
peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais, que fazem guerra
contra a alma, mantendo exemplar o vosso procedimento no meio dos gentios, para que,
naquilo que falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas
boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação” (vv.11-12).
Com o preço do próprio sangue de Jesus Cristo, fomos comprados por Deus. A
imagem aqui em 1 Pedro 1.3-4 pertence ao mundo do comércio e especificamente da
escravatura. No mundo greco-romano, a escravatura era geralmente econômica: um
devedor cumpria suas obrigações servindo o seu credor. Outros escravos eram
estrangeiros levados como presos de guerra. Semelhantemente, nós éramos escravos da
injustiça. O mundo, a carne e o diabo controlavam nossa visão do mundo, nossas atitudes,
nossas motivações. Embora eles talvez prometessem vantagens a curto prazo, a
escravidão do pecado levava à morte. Pedro descreve a Jesus como um homem num
205
leilão, dando preço sobre os escravos na praça da cidade. O pecado, a morte, o inferno e o
mundo, todos cobravam um alto preço de nós, mas ninguém e nada, podia oferecer preço
maior que o de Cristo: seu próprio sangue.
Nós fomos libertos, não para nós mesmos: estamos agora sob novo senhorio.
Era este o ponto que nosso Senhor destacou em sua oração sacerdotal: “Eu lhes
tenho dado a tua palavra e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como
também eu não sou. Não peço que os tires do mundo, e sim, que os guardes do mal. Eles
não são do mundo, como também eu não sou. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a
verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E a
favor deles eu me santifico a mim mesmo, para que eles também sejam santificados na
verdade” (João 17:14-19).
Note o ponto importante que Jesus destaca aqui. Primeiro, o indicativo: Somos
santificados (separados, santos) não porque temos nos separado progressivamente do
mundo, mas porque o próprio Cristo se separou do mundo e nós estamos em Cristo.
Como isso é verdade de todos nós, temos que reconhecer e responder a este fato nos
separando progressivamente da perspectiva mundana e do caráter que ela produz. Nunca
realizamos isso totalmente nas nossas vidas sobre terra, mas é o alvo para o qual
prosseguimos com zelo.
O QUE ISSO SIGNIFICA PARA
UMA VISÃO CRISTÃ DO MUNDO?
Dado este retrato da criação e redenção, quais as aplicações que podemos fazer
para nossas próprias vidas no trabalho e no lazer?
Criação e redenção:
distintos, mas não separados
206
No princípio, tudo era bom. Afinal, o Criador era Deus, e ele mesmo assim
pronunciou. Toda a vida era sagrada, desde as orações noturnas do primeiro casal até sua
labuta diária, e não havia distinção entre o secular e o sagrado. O trabalho era uma
vocação divina para a construção do Reino de Deus pelo avanço da cultura e da
civilização piedosa. “Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do
Éden para o cultivar e guardar” (Gênesis 2:15). Isso não exigia evangelismo porque não
havia nada do qual precisávamos ser redimidos, e assim o trabalho era justificado com
culto por seu próprio valor. A Adão foi dada a dignidade de nomear os animais,
demonstrando seu senhorio sobre tudo que Deus criara, e ressaltando seu papel de viceregente abaixo de Deus. Também ordenado por Deus para este projeto foi a instituição da
família. Como sua bênção tinha sido anteriormente pronunciada sobre as aves do ar,
agora o Criador virou-se para a criatura que fizera em sua própria imagem: “E Deus os
abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai
sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja sobre a
terra”(Gênesis 1:28). Em vez de ser um fardo para a terra, os filhos seriam uma bênção
divina e meio de apoio do senhorio de Deus sobre todo o universo criado. esse domínio
exigia mordomia e responsabilidade; certamente a exploração que é por demais associada
ao domínio humano estava longe da tarefa original. As famílias deveriam estar no centro
desse reino universal de Deus. Não havia necessidade de governo, pois havia harmonia
perfeita entre a vontade de Deus e a regência de suas criaturas.
Tudo mudou com a Queda. Com a rebeldia, o tecido da vida humana foi rasgado.
Onde outrora o trabalho era ligado ao prazer e alegria adoradora em cumprir o propósito
de Deus, agora ele envolveria “fadiga e dor”, e a bênção sobre a família foi ofuscada pela
207
maldição do parto doloroso. Inimizade foi colocada entre marido e mulher, e a guerra
entre Satanás e o Filho de Eva foi declarada. (Gênesis 3:14-20). A instituição do
casamento e da família não mais seria considerada santa ou sagrada, porque a “casa dos
ímpios” e a “casa dos justos” agora se distinguiam. O trabalho também não mais se
caracterizava como a construção do Reino de Deus. Uma civilização piedosa estava fora
de questão, pois Deus removeu seu Paraíso da terra de volta para o céu, expulsando os
homens do glorioso templo do Éden.. “E, expulso o homem, colocou querubins ao oriente
do jardim do Éden e o refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da
árvore da vida”(Gênesis 3:24). Noutras palavras, “Nenhuma Utopia sobre a terra” foi
escrito acima da história humana, esmagando todas as esperanças humanas de se
construir uma sociedade perfeita.
Deus não deixou Adão e Eva sem esperança.
Mesmo em face de seu juízo, ele anunciou o Evangelho.
Isso naturalmente não significa que os seres humanos pararam de crer nessa visão,
como veremos mais tarde nesta história.
Apesar de todas aquelas maldições sobre a existência humana normal, inclusive a
divisão do secular e sagrado, Deus não deixou Adão e Eva sem esperança. Mesmo em
face de seu juízo, ele anunciou o Evangelho: após declarar o triunfo final do Filho do
Homem sobre Satanás (Gênesis 3:15), lemos “Fez o Senhor Deus vestimenta de pele para
Adão e sua mulher e os vestiu” (v.21). Ainda que estivesse no seu pleno direito como
Juiz santo de cumprir a sentença de morte eterna, Deus escolheu ter misericórdia sobre
Adão e Eva e prometeu-lhes que enviaria o Redentor.
208
As boas novas não mudaram, porém as más novas para o mundo. Noutras
palavras, ao confiar no Redentor que viria, o Filho de Eva, o casal real podia reconciliarse com Deus como Pai celeste e gozar a bênção eterna que lhes fora prometida sob
condição de obediência, mas agora, não estava condicionado sobre a sua obediência, mas
sobre a obediência e vitória da semente que viria. Eles não restauraram o Paraíso, e isso
não removeu a maldição anunciada por Deus sobre as instituições e os indivíduos do
mundo caído. Conquanto eles foram abraçados pela proteção eterna de Deus, foram
banidos do Jardim e forçados a viver neste mundo, não mais como príncipes que
reinavam no mundo como o reino de Deus, mas como estrangeiros e peregrinos.
A história continua com a geração seguinte: “Coabitou o homem com Eva, sua
mulher. Esta concebeu e deu a luz a Caim; então disse: Adquiri um varão com o auxílio
do Senhor, Depois deu à luz a Abel, seu irmão”(Gênesis 4:1-2). Estudiosos do hebraico
dizem que a resposta de Eva pode ser também traduzida “Com o auxílio do Senhor
adquiri o homem”. De qualquer maneira, é provável que Eva tivesse pensado que tinha
acabado de dar à luz o Messias prometido, porque a promessa de Deus tinha sido sobre
“tua semente”
sem indicar uma geração específica. dada essa interpretação, Eva deve ter ficado surpresa
ao saber que este sobre quem ela colocara suas esperanças, em vez de ser seu salvador,
assassinou seu irmão. O motivo do assassinato é instrutivo: “Abel, por sua vez, trouxe
das primícias do seu rebanho e da gordura deste. Agradou-se o Senhor de Abel e de sua
oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou”(Gênesis 4:4-5). Foi a
primeira briga religiosa, e era sobre o culto divino. Devemos inventar qualquer espécie de
adoração que preferirmos, ou aquela que o Senhor ordenou? Sacrifícios animais, como o
209
que Deus fez para vestir o primeiro casal, foram escolhidos por Deu para prefigurar o
Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Além disso, Abel selecionou “das
primícias de seu rebanho”(v.4), que refletiria antecipadamente a Cristo, “o primogênito
de muitos irmãos” (Romanos 8.29; Colossenses 1.15,18; Hebreus 1.6); Apocalipse 1:5).
Mas Caim escolheu um sacrifício vegetal. Escolheu seu próprio caminho de salvação à
parte de Cristo, à parte da promessa, e Deus o rejeitou.
Longe de arrepender-se, a resposta de Caim foi irar-se, que o levou a perseguir a
Abel, o verdadeiro adorador. Em vez de ver seu Messias, Eva viu o início da maldição
que fora profetizada quanto à inimizade entre Satanás e a sua semente. Durante o resto da
história humana, até a matança dos bebês em Israel por Herodes, Satanás tentaria destruir
a semente messiânica e, com essa semente, a esperança da redenção para o povo de Deus.
Há aqui um ponto interessante: Em vez de destruir a Caim imediatamente, Deus
preservou sua vida, mas declarou a maldição: “Serás fugitivo e errante pela terra”.
Temendo ser matado em retribuição, Caim clamou horrorizado pela expectativa de ser
sempre expulso da presença protetora de Deus. Mas Deus prometeu que colocaria sua
marca sobre Caim “para que não o ferisse de morte quem quer que o encontrasse”. Por
que tanto carinho por um homem culpado de matar seu irmão? Aprendemos que
“Coabitou Caim com sua mulher; ela concebeu e deu à luz a Enoque. Caim edificou uma
cidade, e lhe chamou Enoque, o nome de seu filho”(v.17). Os versos que se seguem
caminham pela genealogia desses arquitetos urbanos, informando-nos que Jabal foi pai da
pecuária, Jubal “pai de todos os que tocam harpa e flauta” e Tubal-caim “artífice de todo
instrumento cortante de bronze e de ferro”(vv.20-22). Em outras palavras, Deus
preservou a Caim com o propósito de edificar uma cidade,
210
Mas a história volta imediatamente a outro filho e outra genealogia: “Tornou
Adão a coabitar com sua mulher, e ela lhe deu à luz um filho, à quem pôs o nome de
Sete; porque, disse ela, Deus me concedeu outro descendente em lugar de Abel, que
Caim matou. A Sete nasceu-lhe também um filho, ao qual pôs o nome de Enos; daí se
começou a invocar o nome do Senhor”(vv.25-26). Note o contraste: a linha de Caim
começa com seu filho Enoque, enquanto Caim edificava uma cidade; a linha de Sete
começa com Enos, quando os homens começaram a invocar o nome do Senhor. Caim
procurou um fim para sua peregrinação inquieta através da construção de uma cidade,
enquanto Sete colocou sua esperança sobre a cidade eterna.
Tudo isso é importante se queremos ver como os primeiros capítulos do relato
bíblico distinguem a criação da redenção. Antes da Queda, não havia redenção porque
não havia pecado. Não havia distinção entre o secular e o sagrado. Mas depois da Queda,
a cidade de Deus é devolvida ao céu, o paraíso terreno é “interditado” sua entrada
guardada por querubins. Deus ainda sustenta, preserva e avança a civilização,
restringindo a maldade do coração humano, mas nenhuma cidade terrena pode ser
confundida com uma civilização piedosa ou com o reino de Deus.
Esse modelo se repete através do Antigo Testamento. Mesmo quando Deus traz o
céu de volta à terra para prefigurar o reino do Messias que viria, eventualmente o fracasso
de Israel em espelhar a vontade de Deus para a humanidade leva à sua derrubada. Mais
uma vez, lemos, um anjo foi postado à porta oriental do Templo, proibindo a entrada,
assim como a porta oriental do Éden tinha sido bloqueada.
Não é necessário que se “abençoe” o trabalho ou as instituições seculares com o
adjetivo “cristão” ou “redentivo” ou “do reino” para que ele se torne digno para com
211
Deus. Era esse o ponto da Reforma: não que não haja distinção entre secular e sagrado,
porque haverá divisão entre o reino de Cristo e os reinos do mundo até a volta de Cristo,
mas que o reino secular é honrado porque tem o mesmo Criador e Sustentador que a
própria igreja. Mas Caim é sempre Caim, e a cidade do homem jamais se torna a cidade
de Deus até o final da história.
Estar no mundo, portanto, significa que os cristãos e não cristãos trabalham lado a
lado, ambos possuindo a imagem divina e igualmente capazes de virtudes civis,
criatividade, prazer, dor, sucesso, fracasso, sabedoria e bondade. Um artista não recebe a
promessa de que sua arte melhorará e receberá sucesso quando ele se converter.
Mas isso é tremendamente libertador para muitos de nós que achávamos que tudo
que fizéssemos no trabalho, no prazer, nos nossos interesses artísticos e criativos ou
acadêmicos tinha que ter um cunho evangelístico ou eclesiástico para justificar nosso
tempo e investimento nesses afazeres.
Estar no mundo mas não ser do mundo requer que conheçamos a fé cristã o
bastante para reconhecer quando estamos permitindo que definições, atitudes, percepções
e modelos mundanos formam nossa crença e expressão.
Os incrédulos, a não ser pela revelação especial de Deus, conhecem a diferença
entre certo e errado e são capazes de sabedoria e bondade na vida diária. Quem não
conhece gente maravilhosa que se importa com as pessoas e tenta fazer o certo, mesmo
não sendo cristãos? Mas isso é “justiça dos homens” e não “justiça perante Deus”. É uma
bondade pecadora porque não está conforme a Lei do Senhor, e realizada por alguém que
não está vestido com a justiça de Cristo somente. Mesmo as boas obras de crentes são
manchadas com pecado, de forma que Isaías lamentou: “todas as nossas justiças como
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trapo da imundícia” (Isaías 64:6, nosso itálico), quanto mais os nossos pecados! A única
razão pela qual Deus aceita as nossas obras como boas é porque foram cobertas pela
justiça de Cristo e adoçadas pelo seu sacrifício.
A não ser que entendamos a diferença entre
a graça comum e a graça salvadora, os incrédulos
serão levados à presunção e os crentes serão levados à dúvida.
Temo que, como às vezes não apreciamos suficientemente nossa característica
constante de pecaminosidade mesmo como cristãos, não levamos suficientemente a sério
a imagem de Deus nos não cristãos. Diferente de Paulo, que reconhecia existir luz
suficiente na natureza para responsabilizar os pagãos perante o juízo de Deus, achamos
que há um estilo “cristão” de pintura, trabalho, escrever, pesquisar e criar filhos que faz
com que os crentes automaticamente sejam superiores nesses campos. Cristãos e não
cristãos se envolvem nessas atividades mundanas na mesma base: ambos são portadores
da imagem que receberam um chamado divino para um determinado posto na criação.
Isso seria verdade se não houvesse a Queda, senão houvesse a cruz e não houvesse a
redenção. Mas mesmo após a Queda, o âmbito da criação é suficiente para justificar
nossa atividade dentro dele.
Graça comum e graça salvadora
Outra distinção útil, “graça comum” explica como Deus manda chuva igualmente
sobre justos e injustos e espera que sigamos seu exemplo, enquanto a “graça salvadora”
refere-se à benção especial que Deus deu a seu povo através da fé em Cristo.
213
Quando confundimos essas categorias, é fácil ver o sucesso nos negócios como
sinal de favor divino e inundações numa determinada região como sinal de reprovação
divina. Jesus dizia a seus discípulos em Mateus capítulo cinco que não havia correlação
direta entre o juízo de Deus no final da história e sua providência aqui e agora. Os ímpios
acham que a graça comum de Deus e a sua graça salvadora seja a mesma, pois presumem
que porque as coisas não estejam tão más no momento, não estão sob a ira de Deus;
enquanto isso os crentes perguntam “por que prosperam os ímpios?”(Salmo 73). A não
ser que entendamos a diferença entre a graça comum e a graça salvadora, os incrédulos
serão levados à presunção e os crentes serão levados à dúvida.
Portanto, incrédulos são capazes de grandes coisas porque (a) ainda possuem a
imagem de Deus, assim como qualquer cristão e (b) são dotados e limitados pela
providência geral e supervisora de Deus e pela sua graça comum.
Assim, se houver dois homens numa linha de montagem, um cristão e o outro
ateu, ambos trazem glória a Deus ao cumprir sua vocação terrena. Se zelador ou juiz,
artista ou dona de casa, gerente ou músico, todo ser humano deve cumprir o alvo de sua
criação: glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. A Queda não apagou a marca indelével
sobre a alma humana, quanto mais tentamos destrui-la ou apagar sua impressão.
Enquanto o ateu não tem o propósito de glorificar a Deus, o Criador “faz todas as cousas
conforme o conselho de sua vontade”(Efésios 1:11). Até mesmo quando suas criaturas
estão violentamente e decididamente contra ele, até mesmo então a glória de Deus será
servida: “Pois até a ira humana há de louvar-te, e do resíduo das iras te cinges”(Salmo
76:10).
214
Como Deus preservou a Caim e, em sua graça comum, governou a construção da
civilização secular, assim também ele continua a superintender a edificação de nossas
cidades terrenas. É quando homens e mulheres, ansiosos por recobrar o Éden, tentam
forçar um casamento entre a cidade de Deus e as cidades deste mundo que antevemos o
juízo final. Com o Dilúvio ainda na memória coletiva como o ponto mais cataclismático
da história, a civilização que surgiu dos descendentes de Noé tinham apenas uma
linguagem e uma só maneira de falar, e resolveram construir uma grande cidade nas
planícies de Sinear. “Disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo
topo chegue aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados
por toda a terra” (Gênesis 11:4).
O propósito dessa metrópole era criar uma torre tão alta que se houvesse novo
dilúvio eles não seriam atingidos. Em vez de confiar na promessa de Deus de não mais
julgar o mundo através de um dilúvio universal, com o arco-íris a sacramentar a promessa
divina, esses arquitetos da civilização tomaram em suas próprias mãos a salvação e
construíram uma cidade com o propósito expresso de redimir seus habitantes. Enquanto é
verdade que “o que Deus ajuntou não separe o homem”, o inverso também e verdade: o
que Deus dividiu, que homem nenhum tente juntar. Os seres humanos não podiam
reentrar no Éden, mas também não podiam estabelecer um céu na terra onde quer que
fossem. Mas a Torre de Babel era um prédio religioso. Como Caim recusou adorar a
Deus pelo meio determinado de sacrifício de Sangue, os construtores desta cidade secular
altamente religiosa recusaram receber de Deus a salvação. em vez de confiar na
promessa, procuraram salvar a si mesmos pela tecnologia de suas próprias mãos.
215
A resposta de Deus foi rápida e certeira. Como construíam uma torre para os céus,
Deus desceu dos céus no juízo. Eles construíam para cima e Deus desceu. “Destarte, o
Senhor os dispersou dali pela superfície da terra; e cessaram de edificar a cidade.
Chamou-se-lhe, por isso, o nome de Babel, porque ali confundiu o Senhor a linguagem
de toda a terra e dali o Senhor os dispersou por toda a superfície dela” Gênesis 11:8-9).
Semelhantemente, hoje em dia vimos o colapso de talvez a maior tentativa de se
salvar o mundo através da civilização desde aquele episódio da antigüidade.
Animadamente jogando fora as “superstições” da religião revelada, o Iluminismo
substituiu a razão humana, força de vontade e habilidade, prometendo uma nova Canaã
para todos que unissem corações e mãos no empreendimento. Nossa era também se
esqueceu (ou suprimiu o fato) de que “a salvação vem do Senhor”(Jonas 2:9) e mais uma
vez confundiu a construção de civilizações terrenas com a reconstrução do paraíso sobre
a terra. Vemos nos impérios “cristãos” de Roma, Alemanha, Grã-Bretanha, e Estados
Unidos os perigos inerentes a confundir o poder, glória e honra da cidade terrena com a
Jerusalém celeste.
No Novo Testamento, Jesus anunciou: “O meu reino não é deste mundo. Se o
meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não
fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (João 18:36). O reino
de Deus não é mais identificado com um pedaço de chão, seja este o Éden ou Israel. A
igreja é composta de judeus e gentios que, como Abel, adoram o Cordeiro de Deus que
tira o pecado do mundo, e como os descendentes de Sete, invocaram o nome do Senhor.
Talvez não sejam os grandes arquitetos da civilização, pois estão contentes em vagar
como estrangeiros neste mundo. Mesmo Israel não foi a “terra prometida” para Abraão e
216
seus descendentes: “Pela fé [Abraão] peregrinou na terra da promessa como em terra
alheia, habitando em tendas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa;
porque aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e construtor”
(Hebreus 11:9, 10).Embora os que viviam na terra prometida terrena nunca viram o
descanso final e as coisas prometidas que nós ainda aguardamos, eles “vendo-as, porém,
de longe, e saudando-as”(v.. 13). Não estavam dispostos a colocar suas esperanças
últimas sobre a Terra Prometida. “Mas agora, aspiram a uma pátria superior, isto é,
celestial. Por isso, Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porquanto
lhes preparou uma cidade” (v.16).
Os filhos espirituais de Caim têm a luz da natureza para guiá-los na construção da
civilização; os descendentes espirituais de Sete têm a luz da Escritura e a mente de Cristo.
Os incrédulos poderão construir grandes cidades e ser dirigidos em seus esforços pela
graciosa providência de Deus, mas os crentes devem contentar-se em caminhar como
peregrinos e forasteiros. Devem contentar-se com sua existência nômade neste mundo.
É essa a tensão que encontramos na Escritura. Por criação, estamos envolvidos
numa tarefa comum, unidos por experiências comuns, e ligados por laços comuns com
incrédulos. Isso quer dizer que não devemos ver o mundo como alienado, por ser ele o
mundo em vez de o céu, mas porque atualmente ele está em rebelião contra Deus. Nós,
ainda em guerra com rebeldia em nossos próprios corações, ansiamos pelo dia da
redenção quando finalmente “os reinos deste mundo se tornaram o reino do Senhor e de
seu Cristo, e ele reinará para sempre” (Apocalipse 11:15).
Já temos visto sombras deste grande evento. Assim como Deus desceu em juízo
sobre a salvação secular da torre de Babel, confundindo as línguas e dividindo as nações,
217
no Pentecostes ele desceu em salvação sobre a igreja, permitindo a cada homem e mulher
que veio das nações longínquas da terra para a festa em Jerusalém, que ouvisse o
Evangelho em sua própria língua nativa. Isso não era para anunciar o início de uma nova
teocracia, o reino direto de Deus através de determinada nação terrena, mas era um sinal
do reino espiritual que já chegara em Cristo e aguarda sua consumação quando a cidade
do homem mais uma vez tornar-se sarada, a cidade de Deus.
Até então, temos de esperar. Mas esperar não significa que sejamos apáticos ou
inoperantes. Embora José e Daniel fossem parte da semente espiritual de peregrinos e não
de edificadores de civilizações, cada um pôde usar sua posição para honrar a Deus na
liderança secular. José e Daniel são bons exemplos de cristãos n governo secular, mas
eles não procuraram transformar seus cargos em catalisadores de transformar os reinos do
mundo em teocracias bíblicas como Israel fora. Simplesmente seguiram sua vocação no
mundo com excelência e diligência, ganhando o respeito dos regentes estrangeiros e
melhorando as vidas daqueles sobre os quais exerciam autoridade. É exatamente isso que
Paulo disse aos tessalonicenses que fizessem dentro do seu “cativeiro babilônico”,
exilados por um tempo da cidade celeste ( 1 Tessalonicenses 4:11).
Seja qual for a nossa vocação, espera-se de cada um de nós que busquemos a
excelência no âmbito da criação, junto aos incrédulos, e este chamado secular é tão nobre
como o chamado sagrado ao ministério da Palavra e sacramentos. Os crentes são santos
porque pertencem a Cristo, mas o ambiente ao qual foram chamados é comum. Espera-se
deles que sejam diferentes em sua crença, atitude e estilo de vida, mas não se espera dos
crentes que convertam o ambiente secular em um espaço sagrado. Quando tomavam
decisões no tribunal, José e Daniel tinham que basear seus julgamentos sobre as leis
218
egípcias e babilônicas, não sobre a lei hebraica, e conquanto não podiam endossar nem
participar em nada que violasse a Palavra de Deus, eram livres para aceitar a idéia de que
foram chamados para servir nações pagãs por um Deus que lhes havia dotado de maneira
singular para este propósito.
Esses fatos são essenciais se queremos evitar o perigo de confundir o secular com
o sagrado. Existe uma tendência em muitos círculos hoje de falar nos seguintes termos:
“Toda a vida é sagrada”, “Toda atividade é atividade do Reino” e assim por diante. Era
verdade no Éden e era verdade n teocracia israelita, mas agora, Jesus disse: “meu reino é
de outro lugar. Não é mais deste mundo”. Tudo na vida não é sagrado, mas aquilo que é
simplesmente comum (ou seja, “secular”) tem o seu valor e honra por ser parte da criação
de Deus. Ele é Senhor do secular como também do sagrado. A atividade política não é
“trabalho do reino”, mas o avanço das cidades terrenas foi tarefa original dada a Adão e
sua posteridade num mandato cultural. É trabalho secular, que é porém, ordenado e
mandado por Deus. Assim, crentes e não crentes igualmente, portadores da imagem de
Deus, seguem este mandato cultural⎯uns reconhecendo-o como mandato de Deus,
outros procurando alguma outra justificativa, mas de qualquer forma, o mandato cultural
permanece com efeito. O povo de Deus tem uma responsabilidade particular de participar
na construção da cultura, pois ela foi inicialmente entregue pelo Criador e Redentor às
humanidade. No entanto, o reino não é os Estados Unidos, o Brasil ou diversas atividades
culturais, acadêmicas ou políticas. Estes são chamados seculares que têm a bênção de
Deus em virtudes da criação, não em “atividades do reino" que têm a bênção de Deus em
virtudes da redenção.
219
O que isso significa para nossa vida no mundo? O artista cristão não precisa
justificar sua vocação por aquilo que a torna espiritual, religiosa, moral, evangelística ou
relacionada com a igreja. Sua arte não precisa redimir: simplesmente deve entreter e
expressar excelência artística. O músico cristão não precisa escrever “música evangélica”
ou cantar “melodias Gospel”, mas está livre para criar ou apresentar música secular pelo
simples prazer humano. É claro, essa pessoa ainda é cristã em tudo isso, e não é desejável
nem possível separaras convicções espirituais mais profundas do nosso trabalho: contudo,
não precisa revelar explicitamente essas convicções para tornar-se forma de expressão
aceitável por um cristão. A Bíblia nos dá diretrizes para a conduta cristã nos negócios e
nos relacionamentos humanos. Por exemplo, ela não é um guia para o namoro, mas nos
dá ordens para tratar os outros com dignidade e respeito e pureza sexual; não é um
manual para sucesso nos negócios, mas fala os cristãos como devem conduzir-se nesses
relacionamentos, evitando a dívida, tratando com honestidade, e construindo um futuro
para seus filhos.
Mas um encanador cristão não precisa instalar “encanamentos cristãos” e nem um
juiz tem que abrir uma sessão do tribunal com uma palavra de oração e “cristianizá-lo”
com leituras bíblicas. As formas especificamente cristãs de culto, educação e piedade
devem ser inculcados no lar e na igreja cristã. Isso não nos livra de ser cristãos na arena
secular, nem nos exonera de exercer nossas responsabilidades como crentes, mas quer
dizer que podemos parar de nos sentir culpados por simplesmente fazer nossa tarefa da
melhor forma que pudermos sem poder medir o sucesso em termos de conversões a
Cristo ou vitórias morais na repartição.
220
Quer dizer também que não precisamos justificar tudo que cremos ou fazemos
com base na escritura. À primeira vista, isso pode surpreender; deixe que eu explique. A
Bíblia não diz como devemos trocar o óleo do carro e nem oferece um guia para navegar
os oceanos ou os céus; não explica a circulação sangüínea nem a circulação das rodovias
de Los Angeles (na verdade, nada explica a circulação nas rodovias de Los Angeles!). Há
aspectos de criação de filhos que não são mencionados na Escritura e grande número de
questões práticas de “coisas terrenas” que a Bíblia deixou para o descobrimento humano.
A Bíblia concerne aquilo que não se pode descobrir na natureza: o Evangelho de
Jesus Cristo que se desfralda do Gênesis ao Apocalipse/ Não nos diz o que podemos
descobrir por nós mesmos em maior detalhe ou maior sabedoria; conta-nos algo que
jamais aprenderíamos pelas nossas próprias investigações, sabedoria ou percepção.
Hoje na seção de religião de um dos jornais do sul da Califórnia, li um artigo com
o seguinte título: “Alimentação Infantil Baseada na Bíblia Gera Debates”. O artigo
discute um guia “baseado na Bíblia” de horários rígidos para se alimentar os bebês. Mas
o livro não cita passagens específicas. Na verdade, os autores admitem que não existem.
Mas dão princípios básicos da Escritura que não podem ser ignorados: “Ordem, bom
juízo, amor, paciência, cuidado, casamentos fortes e avaliação sóbria”. Há alguma razão
pela qual devíamos considerar esses princípios como sendo especificamente bíblicos?
Não seria possível qualquer pessoa, cristã ou não, aparecer com a mesma lista? E essa
tendência de ver a Bíblia principalmente como m livro de respostas, regras e manual de
instrução para a vida não acaba trivializando a mensagem verdadeira das Escrituras?
Além do mais, o que acontece quando psicólogos infantis ou pediatras
determinam que os “princípios” deduzidos desses (supostamente) inspirados princípios
221
gerais são na verdade nocivos para os bebês? Claro que não. Embora isso possa na
verdade ser o modo como é visto pelos que não conhecem bem a Bíblia a ponto de saber
que ela não propõe princípios de alimentação infantil, é o caso do autor cristão versus a
ciência, e a Bíblia acaba perdendo por “fogo amigo”.
Esse é um exemplo extremo de uma tendência comum no evangelicalismo
contemporâneo de exigir que a Bíblia seja “relevante”, fazendo-a dizer coisas que ela não
tem o mínimo interesse em dizer. Trivializamos as Escrituras quando ignoramos sua
verdadeira mensagem, que é doutrinária, e em vez disso esprememos aplicações à vida
diária de versículos que nunca foram escritos para produzir dados assim tão “relevantes”.
Se conhecermos bem a Palavra de Deus, poderemos detectar os problemas num
livro escrito por um psicólogo infantil secular, mas isso não quer dizer que a Bíblia
devesse substituir o livro prático de psicologia, que de muitas formas ajuda os pais a
entender melhor os seus filhos. As Escrituras são suficientes para tudo que se relaciona
com a verdade salvadora e revelação da vontade moral de Deus, mas não tinham intenção
de ser suficientes para tudo o mais. Não precisamos de uma visão cristã da mecânica de
automóveis ou princípios bíblicos para a cirurgia cardíaca. Por que precisaríamos de
musica cristã, livros cristãos, arte cristã ou empresas cristãs? Música sacra (por exemplo,
hinos) e arte feita especificamente para o uso no culto (por exemplo, arquitetura) servem
uma função especial, e há estilos especiais⎯música de igreja e arquitetura de igreja. Mas
precisamos mesmo de música pop cristã para nos divertirmos ou livros cristãos de
receitas? Há, na verdade um método cristão de se fazer uma fritada? Isso nos leva a outro
ponto importante e intimamente relacionado.
Revelação Natural e
Revelação Especial
222
Não somente os incrédulos são cônscios dos atributos de Deus, mas também
conhecem a lei de Deus: “Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis
de morte os que tais cousas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os
que assim procedem” (Romanos 1:32). Assim sendo, “Quando, pois, aos gentios, que não
têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de
lei para si mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração,
testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente
acusando-se ou defendendo-se”(Romanos 2:14-15).
Como há base suficiente para a “teologia natural”, ou seja, uma discussão dos
atributos divinos do mundo criado, há base suficiente para a “lei natural”, uma discussão
de certo e errado, verdade e erro, justiça e corrupção, beleza e horror, crime e
castigo⎯até mesmo com nada mais do que a consciência humana. Os gentios, argumenta
Paulo, são até mesmo capazes de conformar-se externamente com essa lei escrita em suas
consciências. É o que os reformadores chamavam de “justiça, virtude, justificação civil”.
Era como entendiam a sabedoria da jurisprudência de Sêneca, a beleza da poesia épica de
Homero, e a maravilha dos avanços da astronomia. Sua virtude, pré, era meramente
“civil”, ou seja, servia a cidade do homem, como os descendentes de Caim produziram
grandes avanços na civilização de seus dias embora tivessem sido banidos da cidade de
Deus. A única virtude que Deus aceita como justa é a conformidade perfeita de vontade,
coração, mente, afetos e atos com a sua perfeita santidade. Assim sendo, a justiça civil é
apenas “trapo de imundícia” perante o juízo divino (Isaías 64:6). No entanto, é aquela
virtude externa, puramente civil que explica como os incrédulos podem edificar
223
civilizações razoavelmente justas, com grandes tradições artísticas, literárias, científicas e
legais. Paulo usou de seu conhecimento de poesia e filosofia grega secular para construir
pontes para os incrédulos de Atenas (Atos 17:16 em diante).
Aqui a Reforma libertou os homens e mulheres que tinham sido levados a crer
que, a não ser que estivessem envolvidos em “ministério de tempo integral” ou pudessem
usar sua arte a serviço da igreja, eram cristãos de segunda categoria. Não era por insistir
que seu trabalho fosse especificamente “cristão” de maneira explícita, mas por lembrarlhes da bênção de Deus sobre a criação em si, que muitos crentes foram liberados dos
constrangimentos igrejeiros para glorificar a Deus e gozá-lo nas suas vocações.
Os governos também estavam livres de ter que adotar a lei civil do Antigo
Testamento como a sua própria lei. Afinal, a lei escrita foi ma cerimônia divina entre
Deus e seu povo após sua redenção da escravatura. As nações têm a lei de Deus gravada
em suas consciências, mas o povo de Deus tem a lei de Deus escrita nas Escrituras,
argumenta Calvino: “Pois o Senhor pela mão de Moisés não de a lei para ser proclamada
entre todas as nações e forçadas sobre todos os lugares; quando ele tomou a nação
israelita para guardá-la, defendê-la e protegê-la, ele desejou ser doador da lei
especialmente para ela”.xlvii
Como essas idéias de “lei natural” tinham sido controvertidas quando Tomás de
Aquino as articulou no século treze, também não foram bem vindas nos dias de Calvino.
Contudo, o Reformador estava simplesmente tirando do baú a descrição que Paulo fizera
da natureza humana: se a lei de Deus estiver escrita na consciência do pagão que nunca
conheceu as Escrituras, então os não crentes são capazes de estabelecer sociedades
razoavelmente justas.
224
Resistimos quando nos dizem o que crer
e como viver⎯até mesmo quando é Deus quem fala.
Através da Idade Média, por exemplo, a prática de se cobrar juros sobre
empréstimos era considerada uma violação da lei vétero-testamentária sobre usúra
(Levítico 25:36), mas Calvino, distinguindo entre leis civis, cerimoniais e morais de
Israel, argumentou que as primeiras duas categorias eram limitadas a Israel como
instituição teocrática única que era sombra do reino que viria. Assim como as leis
cerimoniais foram cumpridas e portanto não precisam ser cumpridas na igreja ou na
sociedade, as leis civis têm uma referência especial e temporária como sinal à nação de
Israel sob a antiga aliança. Assim, o reformador convence as autoridades civis que não
estavam mais presas a essa lei contra a cobrança de juros, desde que a eqüidade (justiça)
prevalecesse na administração dos mesmos. Assim, os pobres não deveriam pagar juros,
mas aos que tinham meios modestos ou abundantes foram cobrados juros moderados.
Isso encorajou os empréstimos, que, por sua vez, encorajaram crescimento econômico
para todos. Quando a igreja forçava a legislação civil do antigo testamento sobre o que
ela considerava o “santo império romano”, Calvino acusou a igreja de “misturar céu e
terra”.
Mas a recuperação de tais distinções importantes também levou Lutero,
Calvino e outros reformadores a encorajar a liberação das artes, ciências e demais
disciplinas da negligência da igreja. Como a confusão tinha levado muitos a negar a
validez da legislação secular, agora muitos negavam a validez da sabedoria, filosofia,
ciência e arte secular.
225
Mas, assim como Deus deu sabedoria a Daniel para entender a literatura e
filosofia secular, assim também ele dá graciosamente sua graça comum para todos que
levam a sua imagem. Não é conhecimento salvífica ou sabedoria salvadora, mas é um
dom do Espírito. Não houvesse esse dom do Espírito na criação e providência, o mundo
seria feio, tirano, injusto e infeliz, absolutamente desprovido de entendimento, educação,
riso, prazer, deleite ou cântico.
Ao buscar os interesses de nossos clientes ou eleitores e não usando nosso
trabalho ou cargo como púlpito de coerção por nossa fé, ganharemos o respeito dos de
fora, e isso, de acordo como o apóstolo Paulo, é m alvo nobre. Buscando excelência na
arte e na música, se esta for a nossa vocação, e não usando nossas habilidades
simplesmente como meio de pregação, ensino, evangelismo, ou repreensão, traremos um
sorriso à face do Deus que criou a beleza e o prazer como aceitáveis por direito.
RECONSTRUIR OS FUNDAMENTOS
Muitas pessoas nos dias atuais, crentes ou não, vêem os “sistemas” de crença com
grande suspeita. O sociólogo Wade Clark Roof disse recentemente que os norteamericanos gostam de “espiritualidade mas não de religião”, e com isso querem dizer que
gostam de formar deuses de sua própria experiência; enxergam a religião como exigindo
um determinado credo e conjunto de dogmas, juntamente com um código moral de
expectativas divinas. Democráticos até o âmago, resistimos quando nos dizem o que crer
e como viver⎯até mesmo quando é Deus quem fala.
É um sentimento compreensível de alguma maneira. Muitas pessoas que hoje não
freqüentam igrejas foram criados em ambientes restritos, legalistas e dogmáticos onde
não podiam fazer perguntas, duvidar, objetar ou decidir quanto a seu comportamento
226
pessoal. Mas esse sentimento vai além da mera reação: é parte da natureza humana, desde
a Queda, cantar com Frank Sinatra “Fiz do meu jeito” (I did it my way) .
Espero ter demonstrado, de forma modesta, a importância de reconstruir os
fundamentos de nossa fé. Sem que se tenha uma estrutura teológica transcendente,
qualquer coisa que construamos será ao acaso, e, como a casa na parábola do Senhor,
erguida sobre as areias de capricho pessoal e modismo social, que serão levados pelo
mar. No momento, muitos cristãos, até mesmo líderes, debocham dos críticos que
demonstram os fundamentos arenosos em que estão. Encorajados por altos muros,
insistem que nenhum inimigo os resistirá, não poderá penetrar a cidadela de piedade;
orgulhosos da grandeza da escala do castelo, perguntam: “Como você pode discutir como
nosso sucesso?” Contudo, as chuvas virão, e todas as cruzadas e os movimentos dos
últimos quarenta anos serão esquecidos. O que permanecerá não são nossos castelos de
areia, por mais impressionantes em padrões do mundo esses sejam, mas a casa construída
sobre a Rocha. É hora de crentes que levem a Bíblia a sério considerar o que a Bíblia diz
ser sério com igual seriedade, e a Bíblia leva a teologia muito a sério.
Os oficiais de igreja são dados, não para construir igrejas maiores com uma série
de programas impressionantes e “celebrações” empolgantes, mas “com vistas ao
aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do
corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do
Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para
que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor
por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao
erro” (Efésios 4:12-14). Note que somos preparados para serviço e o corpo é edificado,
227
não por chamados superficiais à ação ou implorações à unidade, mas por exatamente
aquilo que muitos pastores e leigos hoje acham que é obstáculo para esses alvos:
doutrina. Paulo nos conclama à unidade da fé, não a uma experiência de fé, mas à fé “no
conhecimento do Filho de Deus". Sem isso, a igreja não sobrevive, muito menos
transformará a cultura. No presente, estamos sendo lançados de um e outro lado com cada
novo ensinamento, do movimento de sinais e maravilhas, e modismos de psicologia
popular e cruzadas políticas; desde visões estranhas e predições da Segunda Vinda de
Cristo até pontos de vista extraordinariamente não ortodoxos quanto à salvação.
A Escritura não apenas coloca grande valor sobre ter nossa crença clara e
desenvolver uma teologia sistemática sadia, a história tem provado, vez após vez, que a
prática da igreja, em qualquer época, não é melhor do que a sua teoria (geralmente sua
prática está aquém de sua teoria). Nossa teologia, ou seja, nossa compreensão dos ensinos
básicos da Escritura, forma o óculos pelo qual vemos o mundo: sem eles a visão é
embaçada, distorcida, fragmentada. Sabemos como é ter a visão física impedida: não
apenas torna frustrante a vida, como também nos deixa mal preparados para explicar o
que vemos. Tornamo-nos dependentes da visão de outras pessoas. Se queremos ser fiéis,
tanto como pessoas da igreja e também como cidadãos e trabalhadores deste mundo,
temos que recuperar nossos óculos bíblicos.
Através deste estudo, temos visto como a teologia da reforma⎯não originária
com a reforma do século dezesseis⎯deu lugar a tantas das bênçãos do mundo moderno,
que, pelo repúdio da modernidade dessa base, tornaram-se em maldição e ídolos da
sociedade contemporânea. Política, artes, educação, ciência, trabalho e lazer não só
perderam seu significado, como se envolveram ativamente na desestruturação do prazer
228
do homem em ser humano. Como disse André Malraux, existencialista francês, à
Assembléia Geral das Nações Unidas, há quase dez décadas: “Os teólogos anunciaram
que Deus está morto, e agora nós que restamos temos que anunciar a morte do homem”.
Se queremos recobrar um senso do sagrado, não será voltando para buscar o favor
daqueles ídolos, mas por voltar inteiramente nossas costas aos ídolos. Não estou dizendo
que temos que ficar de fora dessas arenas⎯longe disso⎯mas estou dizendo que temo
que parar de procurar amostras grátis e proteção deles. Direito político e legislação moral,
propaganda artística, doutrinação educativa, beligerância na comunidade científica e
antagonismo no trabalho nada mudam; essas táticas só darão crédito às caricaturas.
Quando se perdem as chaves, o conselho mais comum é retraçar os passos: "Onde
você as viu por ‘último?” O mesmo é verdade quando a igreja perdeu sua direção, como
nos dias de hoje. A cultura formada em grande parte por uma visão reformada do mundo
tem estado desmoronando desde o triunfo do Iluminismo e as crenças e estruturas da
modernidade que produziu. Embora a Reforma não fosse perfeita, Deus graciosamente
devolve a igreja ao se curso certo. os resultados, embora não fossem buscados como
propósito da reforma, foram incalculáveis em se bem para a cultura. E os efeitos
continuam a ser sentidos em toda disciplina e todo empreendimento até os dias atuais.
O historiador da Universidade de Paris, Pierre Chaunum comenta: “Sim, somos
formados pelo mundo da reforma.”xlviiiO historiador da universidade de Harvard, Steven
Ozment credita a reforma com a recuperação da alfabetização e centralidade da família
nas organizações sociais. Na verdade, observa ele que a reforma: “Era uma luta com
muitos dos problemas que enfrentamos hoje...Se vemos a reforma em termos de sua
literatura, suas leis ou as vidas de seu laicato que a abraçaram a reforma se apresenta
229
como a mão que interrompe os sonhos irreais e expõe os falsos profetas. A fé protestante
prometia salvar as pessoas acima de tudo da credulidade que incapacita”.xlix
Lewis Spitz, da Universidade de Stanford, comentou que “poucos períodos na
longa história da Europa tiveram impacto tão gigantesco sobre o mundo ocidental”l e
Roland Bainton de Yale notou que “Lutero, como ninguém antes dele por mais de mil
anos, sentia a importância do milagre do perdão divino... a Reforma era um reavivamento
religioso. Buscava dar ao homem nova segurança da presença de Deus e nova motivação
para sua vida moral”. liO historiador de Oxford Owen Chadwick acrescentou :”A era da
reforma, em meio a grande destruição, varreu os escombros, buscou simplicidade de
visão, e direcionou o olhar do adorador para aquilo que realmente importava. Depois de
Lutero, não foi possível para protestante ou católico imitar algumas das velhas formas de
se negligenciar a graça e soberania de Deus”.lii
Foi através dessa recuperação das “primeiras coisas” que o cristianismo não só
ganhou novo impacto sobre milhões de pessoas numa “cristandade” decaída e
secularizada, mas foi-lhe permitido criar imensas melhorias também na cultura. Cristãos
reformados restauraram Oxford e Cambridge e fundaram Harvard, Yale, Princeton,
Dartmouth, Brown, Rutgers, e uma multidão de outras universidades até em lugares
longínquos da África e Ásia. Eram estas as mesmas pessoas que também lançaram o
movimento missionário moderno, como também a ciência moderna. O coração
missionários desses herdeiros da reforma batia fervorosamente pelos perdidos em todo o
mundo, e enquanto isso, as culturas estavam também sendo transformadas. Para eles,
havia harmonia perfeita entre o mundo e a Bíblia, a razão é a fé, doutrina e vida. Olhe
para toda arena de confusão e estrago nos nossos dias: educação, saúde, ciência, artes e
230
diversões, filosofia e teologia e a família. A reforma revolucionou essas esferas uma vez,
e se seus ricos recursos forem novamente utilizados e aplicados às circunstâncias
especiais de nossa vida e nossas lutas contemporâneas, poderá ter efeitos semelhantes em
nosso tempo.
Mas hoje, encontramos as reivindicações cristãs (ou até mesmo de quaisquer
religiões) pela verdade caindo sobre ouvidos surdos na cultura; encontramos decadência
na própria igreja e maior interesse no sucesso do que na fidelidade.
Se queremos ver uma transformação da cultura, temos que primeiramente olhar
para o corpo de Cristo, a começar em nossas próprias famílias. Reconheço que isso pode
parecer uma forma de escapismo, mas não é. Não estou sugerindo que deixemos nossas
ocupações seculares e tornemo-nos trabalhadores dentro da igreja; tenho argumentado
contra tal idéia nesse livro todo. Mas antes de recuperar a cultura, temos que recobrar a
pureza de doutrina e vida que sempre teve influência transformadora no mundo. Temos
que parar de nos acomodar à cultura que opomos e começar a transformá-la. Para isso
precisamos conhecer nossa própria teologia, como também os ídolos e as maneiras como
nós somos formados mais pelo espírito da época do que pelo Espírito de Cristo. À medida
que famílias e igrejas começam a aprender “todo o conselho de Deus” e recuperar a Lei e
o Evangelho na dieta da pregação, do ensino e do culto cristão, haverá nova integridade
no testemunho da igreja perante um mundo céptico que esquece qual foi a última vez que
levou a igreja a sério.
Não devemos esperar apenas ressurgir os reformadores protestantes o
ingenuamente imitar aquele movimento. Há desafios únicos nos nossos dias, e nossa era
pós moderna apresenta um contexto diferente da Europa pré moderna. Mas as idéias
231
básicas são as mesmas e elas estão aí para serem aproveitadas. A Reforma não começou
para mudar a cultura, mas é atribuída a ela o surgimento da democracia e dos direitos
humanos, ciência moderna, reavivamento das artes e letras, fundamento de algumas das
principais universidades do mundo, a semeadura do movimento missionário moderno, e
visões libertadoras de trabalho, lazer e família. Muitos movimentos cristãos hoje se
formam com o intuito de transformar a cultura, mas acabam sendo transformados pela
cultura porque as raízes não eram profundas.
Sempre que houver cristãos no mundo que ainda se importam com a verdade e
seu impacto sobre uma cultua em decadência, haverá um interesse na teologia. Não é de
surpreender que o historiador da Universidade de Columbia, Eugene F. Rice, Jr.,
comentasse que a teologia reformada “de modo surpreendente mede o abismo entre a
imaginação secular do século vinte e a intoxicação do século dezesseis com a majestade
de Deus. Só podemos exercer simpatia histórica para tentar entender como foi que muitas
das inteligências mais sensíveis de toda uma época encontrara liberdade suprema e total
no abandono da fraqueza humana à onipotência de Deus”.liii
Que Deus conceda a mesma consciência ao seu povo em nosso tempo, por amor
de Deus e por amor do mundo.
232
i
C. Peter Wagner, Spiritual Power and Church Growth (Altamonte Springs, Fla.: Strang Communications,
1986), 41-42.
ii
Ewald M.Plass, What Luther Says (St. Louis: Concordia, 1986), no. 3815.
iii
Ibid, no. 474.
iv
Citado em Plass, What Luther Says, 612 e seguintes.
v
João Calvino, Commentary on Genesis, trad. James King (Grand Rapids: Eerdmans, 1948), 85-87.
vi
Ibid.
vii
John Dillenberger, Protestant Thought and Natural Science (Westport, Conn: Greenwood, 1977).
viii
Ibid, 589.
ix
Lewis Spitz, The Renaissance and Reformation Movements (Chicago: Rand McNally, 1971), 581.
x
Ibid., 558.
xi
Ibid.
xii
Ibid. 560.
xiii
Mark Knoll, ed. Confessions and Catechisms of the Reformation ( Grand Rapids: Baker, 19991), 53.
xiv
Todas as citações de Niebuhr são de Christ and Culture (New York: Harper, 1951).
xv
Hugh T. Kerr, editor, Readings in Christian Thought (Nashville: Abington, 1966) , 38-39.
xvi
João Calvino, Institutas, 2.2.15.
xvii
C.S.Lewis, Christian Reflections (Grand Rapids: Eerdmans, 1967), capítulos 1 e 7.
xviii
Abraham Kuyper, Lectures on Calvinism (Grand Rapids: Eerdmans, 1973, 143.
xix
C.S.Lewis, Selected Literary Essays, (Cambridge Univ.: 1939), 276-77.
xx
C.S.Lewis, Letters to an American Lady (Grand Rapids: Eerdmans, 1967), 31 março, 1954, 30.
xxi
Abraham Kuyper, Lectures on Calvinism (Grand Rapids: Eerdmans, 1973, 110.
xxii
Stanley L. Jaki, The Savior of Science (Washington, D.C.: Regency Gateway, 1988): The Road of
Science and the Ways of God (1975 e 1976 Gifford Lectures, University of Edinburgh); The Origin of
Science and the Science of its Origin (Freemantle Lectures, Oxford, 1977); Cosmos and Creator (Oxford).
xxiii
John Polkinghorne, Reason and Reality: The Relationship Between Science and Theology (London:
SPCK, 1991). Ver também dele: One World (1986), Science and Creation (1988) e Science and Providence
(1989).
xxiv
Christopher Kaiser, Creation and the History of Science (Grand Rapids: Eerdmans, 1991). 121.
xxv
Lewis Spitz, The Renaissance and Reformation Movements (Chicago: Rand MacNally, 1971), 580-90.
Cf. Alistair McGrath, A Life of John Calvin (Oxford: Basil Blackwell, 1992).
xxvi
Kaiser, History of Science, 127.
xxvii
Ibid, 138. Ver João Calvino, Commentary on the first five books of Moses, Genesis, trad. John King
(Grand Rapids:Eerdmans, 1948), 1, 86.
xxviii
Cf.Thomas Reid, Essays on the Intellectual Power of Man, existente em numersas edições e
compilações como a de Lewis White Beck, Ed. Eighteenth Century Philosophy (New York: The Free
Press, 1966).
xxix
Polkinghorne, Reason and Reality, 4.
xxx
Citado por Polkinghorne, Reason and Reality, 5.
xxxi
Ibid., 7.
xxxii
Ibid., 16.
xxxiii
Ibid., 49.
xxxiv
J.Gresham Machen, God Transcendent (Edinburgh: Banner of Truth. 1982), 79.
xxxv
Leland Ryken, Work and Leisure in Christian Perspective (Downers Grove, Il.: Inter-Varsity, 1987),
11.
xxxvi
Charles A. Reich, The Greening of America (New York: Bantam, 1971), 4-7.
xxxvii
Ibid.,7.
xxxviii
Ibid., 8.
xxxix
Desde os escritos prolíficos de Jacques Ellul até God in the Wasteland: The Reality of God in a World
of Fading Dreams, de David Wells (Grand Rapids: Eermands, 1994).
xl
Citado por David Gress, “The Disorder of American Society: Daniel Bell’s Cultural Analysis,” em The
World and I: A Chronicle of Our Changing Era, Maio 1990.
233
xli
João Calvino, Institutas, 3.11.6.
“ Does Constant TV Watching Inhibit Brain Development?”(assistir constantemente a TV inibe o
desenvolvimento cerebral?), reportagem de John Rosemond para os jornais Knight-Ridder, setembro 1994.
“
xliii
Ver Steven Ozment, When Fathers Ruled: Family Life in Reformation Europe (Cambridge: Harvard
Univ., 1983).
xliv
Para excelente tratamento da influência da tecnologia veja Neil Postman, Technopoly (New
York:Knopf, 1993); Jacques Ellul, The Humiliation of the Word (Grand Rapids: Eerdmans, 1985).
xlv
Estudos adicionais sobre a condição do pos-modernismo incluem The condition of Postmodernity, de
David Harvey ( Oxford: Blackwell, 1989) e, de uma perspectiva cristã, especialmente os seguintes: Roger
Lundin, The Culture of Interpretation (Grand Rapids: Eerdmans, 1992); Gene E.Veith Jr., Postmodern
Times (Wheaton, Ill.: Crossway, 1994).
xlvi
Phillip Jakob Spener, “Christian Joy” em Pietists: Selected Writings (London: Paulist/SPCK, 1983), 96.
xlvii
João Calvino, Institutas, 4.20-8-14.
xlviii
Pierre Chanu, The Reformation (New York: St. Martin’s, 1986), 14.
xlix
Steven Ozment, When Fathers Ruled: Family Life in Reformation Europe (Cambridge: Harvard Univ.,
1983) e Protestants: The Birth of a Revolution (New York: Doubleday, 2992).
l
Lewis Spits, The Protestant Reformation: The Rise of Modern Europe (New York: Harper, 1985),1.
li
Citado por Hans Hillerbrand, Men and Ideas in the Sixteenth Century (Chicago: RandMcNally, 1985),2.
lii
Ibid.
liii
Eugene F.Rice, Jr. The Foundations of Modern Europe (New York: Norton, 1970), 136.
xlii
Download

O Cristão e a Cultura Michael S. Horton